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RICARDO ANTUNES A Rebeldia do Trabalho (OCONFRONTO OPERARIO NO ABC PAULISTA: AS GREVES DE 1978/80) Pad Bs) 0) fey o aa o & fo} 5} log Se =r] SNM aoc vo):) Ricardo Antunes A Rebeldia do Trabalho (OConfronto Operario no ABC Paulista: As Greves de 1978/80) LUNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS ONION eirenasr Ged Diver Cros gs Con Eon Pes INDICE APRESENTAGAO 7 PARTE I — 0 SENTIDO IMANENTE DAS GREVES n CAPITULO T ‘As Greves nas Fabricas em Maio de 197%: Irrompe a Espontaneidade Operdria A Resisténcia Operiria na’ Década de Setenta Da Greve da Scania ds Greves por Fabricas na indistria Automobi tica: A Busca do Significado das Greves 9 CAPITULO 11 © Confronto Operario: das Greves por Fabricas & Greve Geral Metax hirgica de Margo de 1979. » Antecedentes: A Preparacio da Campanha’ Satarial 3 Os 18 Dias de Confronto: O Significado da Greve Geral Metalirgica de 199 7 = to: a Resisténcia e os Limites da Greve Geral Meta- 1980 8 € 0 Trabaiho Preparam:se para Novo Embate 8 ino da Greve © os 41 Dias de Resistencia: Controvérsia, Limites © Significado da Greve Geral Metalirgica ° PARTE II — ASPECTOS DO COMPLEXO BRASILEIRO ~» lizagdo Recente € © Estado A Epoca das Greves: Crise © Autoreforma Dindmica e Crise da Acumutaeao Cay 0 Estado no pés6t: Feigdo Crise CAPETULO IT Para uma Caract ta Industrial: Uma Sintexe io do Operariado Metalirgico da Indistria “Automobil wm Os Elementos da Controvérsia 80 Os Contornos da Superesploragio do Trabalho ur ‘CONCLUSOES 165 I — Elementos para uma Polémica 167 II — Trabatho, Greve © Consciéneia: Algumas Consideragées Ted ricas ” 10, Estranhamento e a Greve m das Formas da Greve 190 Bibliografia . 23 A REBELDIA DO TRABALHO © Ampeto, a disposigio © a explosividade dos trabalhadores com uma conduc&o que, dotada de uma orientacéo politica cientificamente elaborada, oferecesse, para apreciagio © de- isto do operariado metalirgico, as alternativas postas pela realidade © os desdobramentos possiveis de cada uma delas, de modo que se pudesse optar por um caminho que tivesse Possibilidades concretas de se converter em significativa vi- téria do operariado. © desfecho da Greve Geral metalirgica de 1980, sem que nenhuma das suas reivindicagSes essenciais tivessem sido atendidas — e que teve ainda como resultantes negativos a Quebra da dinamica organizacional obtida durante a parali- sagio, o esgotamento da resisténcia operiria, bem como as i ingindo praticamente todas as li- ricas — acabou por se configarar em inegdvel derrota politica do movimento operdrio, A prisho das liderangas e seu enquadramento na Lei de Seguranca Na. cional, bem como a perda do organismo sindical, a que se seguiu um processo de desorganizagio desse micleo modern da classe operéria brasileira e do novo sindicalismo, com re- ercussées marcantes e negativas no conjunto do movimento grevista daquele ano que entio se iniciava — e que a partir af ingressou num perfodo de acentuado refluxo” —, tudo isso refletiu e manifestou, ao contrério das vitérias i naveis de 1978 e 1979, uma forte derrota pol operariado metalirgico. @, Lembre-se que © Sindicato dos Metalirgicos de S4o Bernardo per- maneceu um longo periodo fora do controle dos trabalhadores (se con. forme DIESE, Balango Anual.-.. op. cit, p. 18). O estado de’ Mars Herminia T. de Almeida confirma esta tendéncia: menciona um total ic $8 freevs em 196), contra 224 greves ocorridas no ano anterior. Ver Almeida, M. H. T. de, “O Sindicalismo...", Op. cits p20, 96 © Novo CONFRONTO Desta andlise depreende-se que os nexos existentes entre a Greve metaliirgica de 1980 e © desenvolvimento da cons- cigneia operaria contrastam significativamente com aqueles verificados ao longo das greves anteriores. Se no plano da consciéneia espontdnea, contingente, do proletariado néo se pode dizer que houve, durante a processualidade da greve, 978 e 1979 — houve, entretanto, desdobramentos extrema: mente significativos e com fortes repercussées no plano da 6 \cia operdria, ‘Numa greve marcada pela inexisténcia de uma tel com fortes componentes espontaneis- jo das liderangas do movimento, tem-se que 0 entendimento e avaliagao exarados posteriormente pelo comando de greve — de que se tratou de um movimento vitorioso — em flagrante contraste com a realidade concreta, 0 da conseien- rocesso. AO invés de um avango qualitativo no plano da subjetividade operéria, foram introjetados elementos que, ao incentivarem a recusa do elemento consciente — aqui entendido como aquele do- tado nio s6 de autonomia sindical e politica, mas também de independéncia ideotdgica — e a0 propugnarem pela vi géncia de priticas espontaneistas, tiveram resultados inver- sos. Em sintese, sendo a Greve geral metalirgica de Séo Bernardo, em 1980, entendida como expressio de um movi ‘hento vitoriso, tem-se, neste caso, uma avaliago que introduz elementos que favorecem nao 0 processo de conscientizagao Ho trabalho, mas o seu contrério, Isto também porque essa ‘Avaliagaio mascara o real significado da ago operdria que, resultou em forte derrota po- ico vinculado & inddstria auto- loca para o préprio proletariado proletariado met: a. Esta derrota PARTE II ASPECTOS DO COMPLEXO BRASILEIRO CAPITULO I izagao Recente e o Estado a Epoca das Greves: Crise e Auto-reforma Se na primeira parte procuramos aprender sentido imanente das greves, nesta segunda parte do nosso trabalho pretendemos desenvolver elementos do complexo brasileiro, B época do ressurgimento das greves, apontando as interco- nnexdes existentes entre a crise no proceso de reprodugao do ‘capital, que eclodiu no inicio dos anos 70, e o proceso de autoreforma verificado no seio da sociedade politica do capital. ; Esta configuragdio da crise, nas dimensdes econdmica € politica, nos permitira apreender mais efetiva e globalmente F contextualizagao que possibilitou o afloramento do movi- mento grevista a partir de maio de 1978, tendo como niicleo desencadeador 0 operariado metalirgico do ABC paulista No capitulo seguinte oferecemos uma caracterizacio desse proletariado metalirgico, buscando apontar seus con- tornos mais significativos, a sua especificidade, aprofundando analiticamente os nexos explicativos da ago coletiva grevista desencadeada no triénio 7880. 101 A REBELDIA DO TRABALHO Dinamica e Crise da Acumulacdo Capitalista Industrial: Uma Sintese pi industrial: Inserida num quadro de subordinagio estrutural cuja gé- nese remonta organizagdo do complexo produtivo da eco- de bens de produgio. Isto porque a objetivagio do cay D via colonial, deu-se segundo uma traj paises que percorreram a via cléssica, seguiram a via prussiana ou tardia. Se esta contexto europeu, a expresso das formas nd caracteristicas basicas, que as diferenciam di is : iam daquelas existen- tes nas outras vias de consolidacdo burguesa' dao NO ue diz respeito ao processo de industrializagao segui io nas vias prussiana e colonial, os elementos distinguidores séo evidentes“enguanto industralzagio stems tia ae das te mas décadas do século XIX, e Se de certo momento, grande v 4 num momento avangado da epoca: das as, e sem munca, com isto, romper” sua ee subordinado aos pélos hegeménicos xc nomia internacional. De sorte que o ‘verdadeiro capitalismo’ alemao é tardi eer rrsal das formas o eldssieas, das formas que, no seu caminbo lento e irre- gular para o proceso social, pagam alto tributo ao atraso, ficado da via colonial veinse Chasin, ido: Forma de Regressividade no. Ca Humana, Sap Foto 0 a8) Revolugdo de 30 até @ Alinpa Nacional Libertadora, Es, Ensaol Corte Revlugto de ate¢ Manca i Libertadora, Ea, Ensaio/Cortee lasse Operd 102 ‘A INDUSTRIALIZAGAO RECENTE E 0 ESTADO dois particulares que, conciliando ambos com o historicamen- fe velho, coneiam, no entanto, com um velho que no é, nem Tespeito ainda & nossa industralizaglo, esta, dda, retardatéria e subordinada a0 capita- monopolica, tem outras especificidades que a distinguem dos casos de transigdo e que so fur- damentais para o entendimento da constituicao e da inser- do da classe operéria no capitalismo brasileiro. Enquanto fas formagies centrais 0 processo de constituigdo do capita- Tismo. passa pelas formas classicas de produséo — como o artesanato, a mantfatura-€ a grande indiistria —, no Brasil 3 proceso de industrializago nasce dentro de um contexto Onde predomina a grande indistria, entendida aqui como © ‘organtimo de producao inteiramente objetivo que © traba- Ihador encontra pronto e acabado como condi¢ao ‘material de produc&o’ e onde a mecanizacio ¢ a coletivizacéo do tra- balho substituem o trabalho manual, individualizado ou par- celar das formas anteriores. Em outros termos, da acumula- Gao mercantil fundada na economia agroexportadora cafecira transita-se lentamente para um processo de acumulagSo cen- trado na grande industria, com relativo grau de mecanizaglo, onde 2 maquina foi introduzida antes mesmo que o trabatho Srtesanal individual, aqui praticamente inexistente, e 0 tra batho manufatureiro, efetivando a subordinagéo real do trax batho a0 capital” ‘Em sintese, no capitalismo objetivado pela via colonial, a empresa agricola foj, desde sua génese, parte integrante do toes de actimulagéo primitiva de capital, ndo tendo vr Fenclado relagBes de produsio marcadas por lacos de feuda- fade, Sua industrializagdo realizou-se hiper retardstariamen- te jd num contexto de subordinagso 20 capitalismo da fase tmonopliea. Desse modo, enquanto nas vias eldssica e prussia- se 0 caréter autonomo do desenvolvimento, na tim trago eonstante, acarretando desdobramentos. deci 1A burguesia de origem colonial, por exemplo, dada sua fra idade estrutural, mostrou-se incapaz de realizar suas ta: fefas econdmicas e polticas, recorrendo ¢ transferindo para O aparato de Estado 2s atividades basicas propulsoras do pro- 2. Chasin, J, O Integratismo..., op. cit. p. 628. 3. Antunes, R., Classe Operdria’.., op. cit, pp. 49/30. 103 A REBELDIA DO TRABALHO cesso de indust, abre no pés-30. Foi particularmente depois da recuperagéo européia do Pés-45, que emergiu um cenario com novos componentes pre- sentes nas relagdes de subordinacao entre paises periféricos € hegeménicos. Houve uma redefinigéo da prépria diviséo in. ternacional do trabalho: “(...) a industrializagao das econo- mias dependentes entrava na diviséo internacional do trabalho do mundo capitalista como uma nova forma de expansio desse sistema, elevando-se do antigo patamar de produtores de matérias-primas versus produtores de manufaturas para prodiitores de manufaturas de consumo versus prodiitores de manufaturas de bens de produgéo.”" ——— No caso brasileiro, o padréo de acumulagio realizado no periodo Kubitschek ¢ um exemplo expressivo desta situacéo: houve uma expansio intensa do Departamento produtor de bens de consumo duraveis (automéveis, eletrodomésticos, etc), seguide pelo desenvolvimento do Departamento pro- dutor de bens de producaos Porém, a inviabilidade deste padrio de acumulagéo ja era visivel tendo em vista a desproporcionalidade entre o DI ¢ DIL. “Historicamente, 0 Departamento I da economia na- cional — como, de resto, de qualquer outra economia depen- dente — situa-se fora do circuito interno da acumulacdo: situa-se no interior das economias centrais ¢, nas economias dependentes, so as exportagdes sobretudo primarias que cumprem o papel de financiar as compras de bens de produ: sao [...] Ora, 0 padrao de acumulac&o do novo perfodo, resu- mido muito bem no slogan ‘Cingiienta anos em cinco’, preten- dia fundar de golpe o Departamento III. Nessas condicdes, Para salvar as dificuldades antepostas pelas relagdes de des. proporcionalidade entre um Departamento I apenas parcial- tativamente insuficiente ¢ um Depar- tamento IIT cujas dimensGes sobrepujavam a capacidade de Producdo interna daquele Departamento I, somente havia 1s0 © modernizacdo, no perfodo que se 5. Usaremos aqui a mesma terminologia adotada por Fri veira: DI, referese ao departamento.produtor de. bet DIL, produtor de bens de consumo nio. 35. Essa formulacdo da incapacidad nea da pare. 35. Ea for cidade moment Durguesia a $5 am Marx, K. La Guerra Civil en Francia; e também em El Dieciocho io de Luis Bonaparte, in Marx, Engels, Obras Escogidas, Tomo A INDUSTRIALIZACAO RECENTE E 0 ESTADO Em similitude com 0 Estado bonapartista francés, também 0 Estado bonapartista no Brasil do pés-64 intensificou o pro- cesso de modernizacio ¢ industrializacdo cay Para operar com sucesso tal empreitada, o Estado tomou, como vimos anteriormente, um conjunto de medidas ‘econdmicas dinamizadoras do padrdo de acumulagao. ainda que contrapor-se ¢ coibir a atuagio do Parlamento, através da promulgacéo dos Atos Institucionais (particular- mente os Als n# 2 ¢ n 5), a0 mesmo tempo em que se auito- capacitava para desmontar quaisquer manifestacdes de rebel- dia. Conforme Décio Saes: “O Ato Institucional n# 2, de outu- bro de 1965, exprime 0 avanco do processo de centralizacio horizontal do Estado: a dissolugdo do sistema pluripartidério € a diminuigio dos poderes do Parlamento, em proveito do executivo, aumentam a capacidade do grupo dirigente de im- por sua politica de desenvolvimento e de neutralizar seus adversérios no seio da classe dominante.” E acrescenta: “A partir de 1969 — apés 0 Ato Institucional ne 5, de dezembro de 1968 — o regime tende gradativamente a esclarecer-se. & verdade que o sistema bipartidério e 0 parlament. que apenas com funcio ideolégica, continuam a ex Teme neste episédio outra singularidade do nosso bona- partismo: diferentemente do que ocorreu na Franca, onde houve a supressio do Parlamento, aqui ele foi tolhido e limi- tado ao extremo em suas atribuigées, ocorrendo uma verda deira "“degradagdo” do seu poder (conforme expresso de Marx referindo-se a crise do Parlamento francés nos antece- A REBELDIA DO TRABALHO ia-se que se trata de um Estado bonapartista de 7, corporificado na figura coletiva das forcas Armadas, onde inexiste a persona do Bonaparte.” A alternativa bonapartista mostrouse, uma vez mais, como a solugdo possivel para que as diferentes fragdes da burguesia — incluindo também a frago monopolista estran- geira — pudessem preservar a dominacdo do capital. A crise de hegemonia presente no bloco no poder, bem como a neces- sidade de reordenamento econémico e politico configuraram, para as classes dominantes, a imperiosa necessidade do golpe de Estado, através das Forgas Armadas. E 0 papel de massa de manobra para dar sustentacdo aos interesses do capital — outra caracteristica do bonapartismo — foi devidamente desempenhando por amplos setores das camadas médias: © seu pélo tradicional (composto pela alta burocracia campanha anticomunista, na contramot ago militar, ora galvanizado pelo idedrio moralista e religio- caso do movimento das mulheres cristas, ora sralismo oligérquico, como no caso dos profis- seu pélo moderno, resultante da industria- ‘a do p6s-55 € constituido pelos detentores 37. Como disse Gramsci “é possivel haver uma solusSo cesarista mesmo sem um César, sem uma person: : 0 Estado Moderno, Op. cit., p. 4. O impasse ue culminou com 0 golpe militar de 64 fez com que Francisco iveira fizesse a Segui Sonica itn eat ate a a Sopa eee Tut ote fee evacancnes guitar ett eye Slane amen Sa rome ee Gr cae Serr on EEE Sims Senet a 120 A INDUSTRIALIZACAO RECENTE E 0 ESTADO da competéncia técnica ou administrativa na empresa capita- lista (gerentes, economistas, administradores, engenheiros in- dustriais, etc.) desejoso de ver restaurado um Estado pre- servador da ordem ¢ da hierarquia social, também converteu- se em base social da contra-revolugao.¥ Dentro desta contextualizagéo social ¢ politica, 0 Esta do bonapartista estruturou sua dominacao distanciando-se da sociedade civil, tendendo a autonomizar-se frente as classes dominantes (outra caracteristica do bonapartismo): fomen- tou e cultuou a ideologia do Estado “acima das classes”, “re- presentante da Nacéo”, etc. Manifestagdo que, de um lado, era resultado da disputa travada pelas distintas fragGes mo- nopolistas dominantes que pretendiam excrcer a hegemonia no aparelho de Estado e, de outro, que procurava ocultar 4 asdo estatal pro-burguesa.” Se para Marx e Engels ¢ tipico do Estado distanciarse da sociedade civil, tender a uma au- tonomizagéo, no bonapartismo esse distanciamento € acen- tuado, e, mostrasse, inclusive, como condig&o para que os in- teresses gerais do capital possam ser efetivamente atendidos. A estabilidade do Estado dependia, de um lado, do equa cionamento da questdo econémica, capaz de propiciar uma retomada do padrio de acumulagao e, de outro, do enrijeci mento das medidas repressivas garantidoras da ordem que se queria efetivar:® Os anos 68-73 foram expressdes exacerba- das_do bindmio expansiéo econdmica e autocracia. Quando, entreta lagre econdmico” deu sinais de esgotamento, 38. Conforme Saes, ira, P., "Poulantzas © -a, Col. Grandes Cien- lizagdo Brasileira, RJ., 198, especialmente pp. 3348. 121 A REBELDIA DO TRABALHO comegaram, muito lentamente, a ser solapadas as bases ma- teriais do poder ditatorial. As fissuras atingiram 0 bloco no poder, instalando-se no seio das prdprias forcas burguesas. © governo Geisel, ao tomar posse, j& o fez dentro de uma si- tuacdo marcadamente critica, Para o muicleo dirigente do Es- tado bonapartista colocava-se a necessidade de reequacionar © bloco no poder, de jodar as diferentes fracdes domi- nantes, inquietas pel da fase recessiva. O tripé susten- tador da acumulacdo de capital passou a requerer do Estado alternativas efetivas capazes de superar a crise acondmica. to a0 cerco imposto (ao ae precos, crediticia, tributéria, cambial, etc) pelo capital ‘monopolista, nacional ou imperialista,” acarretando”dissen- o6es também em setores expressivos do médio capital’ Foi extamente neste contexto de crise que a ditadura bo- napartista, primeiramente através da do governo Geisel e posteriormente da “abertura” de Figueiredo, iniciou tum proceso de autoxreforma do poder, sem alterar a essén- cia autocratica da dominagao”burguesa e sua politica econd- mica: era o desencadear da transigo para a institucionaliza- gio da autocracia. Gestavasse na verdade, uma mudanca na forma da dominacéo burguesa: “Desfeitas, pela crise do “mi- lagre’, as condicées de sustentagao da ditadura militar bona. artista, tratava‘se de encaminhar 0 desenho de outra forma de sustentar a mesma dominagdo. Perecidos estavam os fun- damentos do bonapartismo, até mesmo porque, para certas angulagées dos setores dominantes, em dada medida e para aquela fase, estavam cumpridas suas finalidades. Economica. mente, garantira a superexploragio do trabalho, patrocinando curta, mas intensa acumulagéo [...]; politicamente, desorga- nizara e aterrorizara o movimento de massas, especialmente © movimento operdrio, e desbaratara as oposigdes, especial 41, Ses, D., Classe Média e Sistema Politico no Brasil, posficio, op. cit, p18, 122 A INDUSTRIALIZAGAO RECENTE E 0 ESTADO mente do ponto de vista ieoligio, mas também emasculara sua programatica e influira poderosamente em sua orgini- Enfatizese que em ambos os casos preservava'se o carter autocritice da dominagdo do capital. sto porque "do mes: tno modo que aqui, a auocracia burguesa instituconalizada Ca torma da dominagao burguesa em “tempos da paz’ © bonapartismo & sua forma em ‘tempos de guerra. E, na roporgao em que, na guerra de clases, paz © SUErTa ste Exdemrse continuamente, no aso brasileiro, no caso da obje fivagdo do capitaliomo pela via colonial, as formas burguesas de dominesao poli oscilam e se alternam entre diversos graus do bonapartismo e da autocracia burguesa instituct walizade, como toda nossa historia republicana evidenca No plano da soviedade politica, operavace uma mudsnce na forma do Estado, transitando-se do Estado. bona mnitarzado para 0 Estado autocratico-bargués instiaci tado. Geisel seriou, logo apes a sua pose, para a estratgia Ge autoreforma que se intentava in envidaremoe Sinoeros esforgos pera © gradual, mas seguro aperfeigoamento democratic ampliando o didlogo honesto e mutuamente res- coe esimulando maior partcipagdo das elites responsé- eis eo povo em geral para a criaglo de um clima salutar de consenso bisico © insttucionalizacao acabada dos prin tipios da Revolugto de 64. Os instrumentos excepcionais de gue 0 governe se wcha armado para a manutenpio da atmos fore ‘de sequronga e de ordem, fundamental para 0 proprio desenvolvimento. econdmico-social do. pals sem pausas de tstagnagto nem muito menos retrocestos sempre peigosos slmejo vélos nao tanto em exerccio duradouro ou frequent, antes como. potencial de ago repressiva ou de contencgo mais encrgca e, assim mesmo, ate que se vejam superados pela imaginagao politica criadora capaz de institur, quando eficazes dentro do contexto constitu- Paulo, 1983, pp. 4547. A REBELDIA DO TRABALHO Gestavase, dentro do aparelho de Estado bonapartista tum processo de limitada descompressio politica, através da retragdo da manu militari ea montagem de um areabougo juridico;politico capaz de erigir e consolidar a Repiiblica ins. titucionalizada e tutelada. Para que a finalidade bisica desse Procedimento fosse obtida — um novo ciclo de expansio do capital — era necessério recompor o bloco no poder, reorde. nando as diferentes fragées dominantes, evitando sua erosio, além de cooptar amplos setores liberais da oposigdo, que res. Ponderiam ao aceno do poder, que Ihes oferecia concessGes ‘cismo. Instrumental politico € ideolégico intrinseco & do- inago burguesa e a acdo do Estado capit , onde efetivamente se “subtrai o questionamento e a con- testacdo & sua formula econémica, e aparenti Politico a debate ¢ ao ‘aperfeigoamento’”, con: isso em element tica da burguesia, Dessa maneira, a consolidacdo do Estado autocratico- ‘ionalizado visava abarcar os setores moderados das es, Gue “seria absorvidos pela “democracia forte", vertewa em recurso posse de Castelo, até o momento atual da sutorel i alcunhada de ‘abertura’, engolfando, por nants eaatapennn @ conjunto das of ine a, 124 A INDUSTRIALIZAGAO RECENTE E 0 ESTADO repondo néo s6 0 apoio do conjunto das fragdes burguesas 1m o de amplos setores das camadas médias liberais tradicionais que estavam na “oposi- do” desde que se consolidou a tendéncia ao prolongamento ¢ fechamento do regime militar em fins dos anos 60. As clas- ses trabalhadoras, a auto-reforma preservava sistemética ex- clusio Florestan Fernandes, referindo-se a esse processo de ins- titucionalizagdo da ditadura, definiu 0 seu procedimento co- wreada, que se manifestou de distenco’ e, em de abertura’, [que] a um tempo, as dificuldades, a fraqueza ¢ a fora |. Se ela nfo mudava nada, pois era fruto ocasional da democracia restrita artificial imposta, mostrava que as contradigdes da sociedade civil no podiam ser absor- vidas no plano sociedade politica ¢ que a ditadura pagava, por ai, um alto preco pela ambigiiidade da situagao histori- ca." E acrescentou: “Em resumo, a burguesia deveria perder 0 despotismo do seu ‘braco militar’, embora este se mantivesse atento, em posig6es-chave, para moldar a transi- cdo e converter a ditadura por outros meios em uma demo- cracia tutelada.”* Claro que a “democracia tutelada”, sendo a nova forma politica assumida pela estrutura autocratica de dominacdo burguesa, preservava 0 seu contetido econdmico, social, politico e ideolégico vigente desde 64, cujo idedrio en- contrava-se estampado na ideologia da Seguranca Nacional.” Teleologicamente formulado, este procedimento auto-re- formador, desencadeado pelo Estado bonapartista, buscava coneretizar uma “democracia estével ¢ forte”, controlada pelo conjunto das classes dominantes; “O melhor dos mundos 4%, Este procedimento 180 presente ao longo da 49. Ibid, po. 5 A REBELDIA DO TRABALHO Possiveis passa, portanto, para tais setores, pela ditadura, Porém segundo uma légica burguesa de capitalismo depen. dente internacionalizado: ao destruirse, a ditadura daria a luz no © seu avesso ou o seu contrério, mas uma forma ica em que @ autocracia burguesa fosse compatibilizada ‘ucionalmente com a representagdo politica, o regime de significou um passo decisive xeforma da estrutura politica da auto. ‘democratiza¢éo por dentro da ditadura”, isto € uma transic&o lenta e gradual, capaz de soldar as ne. cessidades de rearranjo politico com os interesses diferencia: dos das fracées burguesas, preservando-se a estabilidade da ordems! Este movimento de mudanga das formas do poder pol tico da dominacdo do capital, este processo de autoreforma do Estado burgués no contava, entretanto, com o aflora: meio de tum novo elemento, Ele visava recompor 0 bloco “no poder, alargando suas bases sociais até os setores liberais © moderados da oposi¢&o, visando, com isso, a obtengdo dos condicionantes sociais politicos que permitissem a supers, so da crise econémica e a retomada de um novo ciclo de ex- Pansio monopélica, mas no contava com o irromper agudo € intenso da ago operdria reivindicatéria, "—~"Aproveltandose das metamorfoses do poder politico bo- napartista e das dissengSes que afloravam no bloco no poder, deu-se, como vimos, o ressurgimento CAPITULO II , . Para uma Caracterizagio do Operariado Metaltirgico da Indtistria Automobilistica ado brasileiro, nfo vivenciou, em seu processo ‘as formas produtivas dadas pela presenca do ar- tesanato e da manufatura do mesmo modo que o proletaria. do cléssico. Ao contrério, teve sua génese forjada dentro dos marcos da grande industria, apesar de esta encontrar-se su- bordinada a uma economia agromercantil-exportadora.’ Porém, a grande industria predominante no inicio deste era a tradicional, na maior parte das vezes com baixa do trabalho, baixa composicéo organica de & @ capacidade de competigao frente aos produtos ‘similares estrangeiros e dependente de maquinarios e equipa mentos produzidos externamente? Com 0 padréo de cUMuTagS0 que se desenvolveu a partir da segunda metade da década de 50, temse, como procuramos caracterizar anteriormente, a emergéncia de um setor dindmico no parque industrial brasileiro, responsével pelo florescimento de um 1. Ver Antunes, R., Classe Operdria, Sindicatos e Partido no Brasil, op. 57/61 Bernardo del Campo)", in Revista Mexicana de Sociologia n. 35, vol, IL, 1978, p. 472. on A REBELDIA DO TRABALHO de qualificagéo do trabalho ia tradicional, com maior compo- com um contingente significative ¢e trabalhadores concentrados nas unidades industriais. Esse proletariado novo, vinculado a industria automobi- ‘como pretendemos demonstrar, a intensidade tes a0 desenvolvimento do capitalis- nas trés tiltimas décadas. Para que se tenha um perfil inicial deste segmento do operariado brasileiro, veja-se 0 Quadro I, onde transparece jum dos aspectos singulares do operariado emergente no cin- turdo industrial do ABC paulista: sua existéncia expressiva e concentrada em um niimero relativamente pequeno de indiis- trias automobilisticas: bron? ‘rence Santo Andes ‘So Bernardo Conforme constatou Humphrey: “Em So Bernardo, so- bretudo, 0 dominio de cinco grandes firmas automobilisti- cas, empregando 66.000 operdrios, junto com outras dez 3 Extafdo de Humphre ia Operdria na In Saneiro, 1982, p. St 128 PARA UMA CARACTERIZACAO que empregam 18,000 nos setores mecdnico-metalirgicos, le- you a uma concentragio de trabalhadores nas grandes em- presas. Dois tergos de todos os operdrios metaliirgicos da rea trabalham em empresas com mais de 1.000 operérios, #85 quartos trabalham em firmas com mais de 500 ope- Farios. Em Osasco e Santo André o grau de concentragao & mais baixo, mas ainda bem acima do indice da cidade de Sao Paulo. Em geral nfo so encontradas informacées sobre outras indiistrias, mas na cidade de Séo Paulo apenas 13% dos trabalhadores na indistria de plasticos ¢ 15% na industria quimica estavam empregados em firmas de mais de 1.000 operdrios. A indistria automobilistica, portanto, mais do que qualquer oitra no grupo mec&nicometalirgico, é 0 ‘exemplo da tendéncia do desenvolvimento industrial no Bra- sil. Caracterizase por ter grandes empresas nas cidades in- dustriais, e pela concentragio de produsao entre uma peque- lidade do operariado metaluirgico da cidade de Séo Paulo: sis de 400.000 operdrios vincu- jas que excede a casa de 10.000, ‘em Sao Bernardo hé uma forte concentracio, que faz com que mais de 125.000 trabalhadores estejam vinculados a mais de 500 empresas, sendo que trés delas — Volkswagen, Ford Mercedes-Benz — abarcam cerca de 60% do contingente operario. Até 1980 0s setores automobilitico ¢ de autopecas de Sao Bernardo absorviam cerca de 70% da forca de traba- Iho ligada ao ramo metaltirgico. #, entretanto, no plano qualitativo que existe uma acen- tuada controvérsia quanto & natureza deste operariado meta- lurgico da industria automot . Sua pauta de reivindica- gées, sua atuacdo sindical, sua configuracdo p+ ideols gica tem sido objeto de avaliagées bastante di mesmo antagonicas. Pretendemos neste cay pontos nodais dessa controvérsia e, a partir dai, avancar na busca dos elementos que permitam aprender a particulari- dade do operariado metaltirgico da industria automot bem como aprofundar a andlise da causalidade fundante das greves do ABC paulista. 4 Humphrey, 1, Fazendo..., op. cit, pp. 55 ¢ 58 129 A REBELDIA DO TRABALHO Os Elementos da Controvérsia do nascimento ¢ desenvolvimento da indtstria ¢, especialmente, apés os primeiros sinais de atuagdo sindical metalirgica, em meados da década de 70, comegaram a despontar estudos que procuravam, partinds dos mais distintos arcaboucos metodoldgicos, apontar seus contornos mais significativos, a sua especificidade, os nexos explicativos da sua agéo coletiva, enfim, procuravam apreen der a esséncia do proletariado paulista,nucleado no. com plexo industrial do ABC pat Um trabalho pioneiro, cuja pesquisa foi realizada no ini cio da década de 60, foi o estudo de Ledncio Martins Rod: sues, responsével por uma formulagdo que concluia pela ade. quagio do operariado daquele ramo produtivo, tendo em vis. ta que percebiam melhores salarios gozavamn de melhores condigées de trabalho (dados pelo sistema promoc Pecializacdo, etc) Estas condigdes materiais propicias ¢ fa: vordveis obscureceriam e tolheriam a emergenela de uma consciéncia socialista: s conclusées alcancadas no estudo da Empresa Automobilistica fornecem algumas pistas pare tuma apreciagio mais ampla sobre as atitudes da camada operdria ante a sociedade industrial em formagio e sobre a empresa estrangeira no Brasil. Elas chamam a atengao para 6s obstéculos que se antepdem & emergéncia de uma cons. ciéncia anticapitalista entre o proletariado que se forma num contexto econémico, social e politico como o brasileiro. [...] Nas condigdes brasileira, de transformaao do trabaihador agricola em operério industrial, o emprego fabrit implica jus tamente 0 contrério, ou seja, a aquisigdo de uma profi ainda que esta seja a de um simples operdrio semiqual C...7 - As consideragées anteriores no implicam a afirmagio da inexisténcia de conflitos ou na negagio de uma oposieao. de interesse entre os operdrios e a empresa. Mas — no que diz espeito aos trabalhadores — 0 fato significative é que a Percep¢do de interesses opostos e dos conflitos surgidos em termos de seus equacionamentos teéricos no pode se inserir ‘num arcabouco ideotégico mais amplo que localize os funds ‘mentos do antagonismo na propriedade privada dos meios de 5. Rodrigues, L. M., Industrilizapdo e Atitudes Operdrias, Brasiliense, ‘Sto Paulo, 1970, pp. 102/108, 130 PARA UMA CARACTERIZACAO produgéo. Esta nfo & sentida como “moralmente reprovavel’, como fonte da ‘miséria operdria’. A luta contra a propriedade privada, ponto nuclear dos movimentos operrios europeus do século passado, dos socialistas ut6picos e de Proudhon a Marx, para o trabalhador brasileiro ndo pode cumprir as mes- mas fungées na motivagao da ago sindical ou politica.”* ‘Ao que 0 autor acrescenta que 0 operirio metalirgico, na medida em que se beneficia pelos “meios de satifacéo de necessidades e preenchimento de expectativas de aproveita- mento da ordem industrial”, optou por uma “aceitagdo do industrialismo e da grande empresa [...] Nestas condigées, as ‘ideologias proletarias’ no acham terreno propicio para florescimento, uma vez que no passam pela fabrica, isto é, ndo partem de uma repulsa & organizagéo privada do traba- Iho industrial.”? ‘Apés enfatizar que, neste contexto, uma perspectiva socia- lista dificilmente germinaria como repulsa a0 capitalismo a partir da rejeicio do trabalho fabril, o autor vislumbra sua eventual possibilidade a partir da “pressio de amplos seto- res populares que visam ampliar sua participaglo no const “ime do que sob a acio de uma classe (0 proletariado indus- ‘que, partindo da organizacao do trabalho capi orienta-se para a reorganizacao da sociedade & sua image: 4 ssenciais, foi rea Essa concep¢do, em seus significados es: 7 firmada em um ensaio posterior, quando Leéncio M. Rodri- gues afirmou que: “A luta pela negociaco coletiva de traba Iho, com menor interferéncia governamental camadas mais qualificadas de operdrios que se encontram numa situagéo de mercado de trabalho mais favordvel para uum confronto direto com 0 patronato.”* it, pp. 84/85. fargas, Rio de Janeiro, pp. 50 A REBELDIA DO TRABALHO Em outras palavras: “Uma orientagdo revolucionéria por parte dos trabalhadores, nas areas mais desenvolvidas do Pais, dificilmente podera consolidar-se, apesar do esforgo de alguns grupos minoritérios para influenciar a classe operé- ria nesta diregdo. Ocorre que os setores sindicalmente mais ativos ndo so os parias do sistema, mas sim trabalhadores qualificados, mais estveis no emprego, com salérios elevados ‘que, em muitos casos, so superiores aos salérios de catego- rias profissionais habitualmente inclufdas nas classes médias [...] Estamos Ionge das condigées de industrializagio do século XIX, que propiciaram 0 aparecimento de ideologias revolucionarias entre o proletariado ¢ um sindicalismo anti- capitalista. Desta maneira, considerando que so pouco pro- vaveis tanto a predominancia de um sindicalismo puro, como de um ‘sindi 10 revolucionario’ no conjunto do movimento operario brasileiro, pensamos que a hipétese mais Provavel favorece o fortalecimento de tendéncias de tipo reformista (trabalhista, catélico ou socialista).” ® Consideran- dose “unicamente 0 meio técnico-industrial e a situacio imediata de trabalho, muitas condicdes existem para um tipo de orientacao sindical a americana. E possivel notar, especial- mente entre o sindicato dos metalirgicos de S40 Bernardo, a existéncia de um voluntarismo operdrio, que desconfia dos ‘os € do costumeiro paternalismo das classes médias e Leet Maria Herminia T. de Almeida, responsavel por um con- junto expressivo de ensaios sobre o proletariade metalirgico © 0 sindicalismo moderno, tem nitidos pontos de convergén- cia com o formulagio anterior. Em seu primeiro estudo, te- cendo consideragées sobre a pauta reivindicatéria dos meta- luirgicos na década de 70, afirmou que: “A moderna grande empresa parece ter suscitado — onde quer que se tenha instalado — uma nova temética reivindicatéria que diz res- peito a prémios de produtividade para um trabalhador ou grupo de trabalhadores, salérios por peca, job-evaluation, sistemas de classificagao e promocio, recrutamento, cadén- cias, redugéo de jornada de trabalho e outras tantas questées, que fazem emergir, implicita ou explicitamente, 0 problema al 10, Rodrigues, L. M., “Tendéncias...", op. cit, pp. 5253. AL Id, ibid, p. 52. 132 PARA UMA CARACTERIZACAO da participagdo dos trabalhadores na gestéo da empresa." Esta coneretude tenderia a fomentar 0 aparecimento de uma nova corrente do sindicalismo bras mais préxima do i yn) norte-americano: 0, ‘apolitico’ solidamente plantado na empresa, tec- nicamente prepara do para enfrentar e resolver os problemas Nesta formula. ‘Num ensaio posterior, dedicado & experiéncia dos meta- Tirgicos de Sao Bernardo, Maria Herminia T. de Almeida retomou esta problematica, oferecendo, entretanto, algumas reformulagdes & sua concepsio inicial: “Na verdade, a tinica coisa que se pode afirmar com seguranca & que serd entre 08 imilitantes do movimento sis duza a uma acéo rapidamente absorvida e institucionali no interior da empresa ou leve & exacerbagio do conflito de classe, € uma questo que nfo pode ser respondida a partir de uma reflexio limitada & condi¢&o operéria em si mesma: os contetidos da agéo sindical somente se definem a partir das caracteristicas de que se revestem a relago € 0 confronto de classes em cada conjuntura. Acrescenta, entretanto, que: 0s trabalhadores da grande empresa moderna correm sempre um risco: 0 do corporativismo, o isolamento em relaco ao resto do movimen- to operario. Nao é esse risco fortuito, sendo intrinseco & propria conformagao da classe trabalhadora, naqueles paises onde o desenvolvimento do capitalism significon uma crescente heterogeneizagdo da estrutura produtiva e, por conseguinte, da camada assalariada de base.” * 12, Almeida, M. H. T. dé, “O Sindicato no Brasil: Novos Problemas, de 1975, Hucitec, Sio 133 A REBELDIA DO TRABALHO Disso resulta a descrenga em se vislumbrar a possibilida- de de uma unificacdo duradoura a partir das Iutas_econd- micas concretas, a0 mesmo tempo em que se questiona a possibilidade de o segmento metalirgico comportar-se como setor de vanguarda do movimento sindical. Na argumenta ‘s80 de Maria Herminia T. de Almeida, a heterogeneidade da estrutura produi quistas de aumentos salariais compativeis com 0 nivel do custo de vida, além da obtengdo e preservagéo de alguns ser- vvigos sociais basicos — o que implica a presenca estatal para sua _efetivagio —, no ca30 da industria moderna, buscar-se- juistar aumentos salariais que acompanhassem _a_pro- as, bem como a garantia de melhores ‘condigdes de trabalho e mesmo participacao em algum nivel da administragéo das empresas. Por isso a énfase, segundo Maria Herminis, desié segmento operdrio em Witeat abe gociacao di yodendo presci ._presenca_estatal: empresas néo enfreniam os mesmos proble- J mas que atormentavam as empresas ‘tradicionais’ — grandes, médias ou pequenas — caracterfsticas da primeira fase da industrializagdo. Sua capacidade de recorrer a fontes alterna- tivas de financiamentos € maior. Seu acesso ao mercado tec- nolégico Ihes permite conceder aumentos salariais que acom- panhem, trangiiilamente, os incrementos de produtividade, sem que vejam afetadas suas taxas de lucro. Por iltimo, 0 controle oligopdlico que exercem sobre o mercado Ihes pos- sibilitaria defender suas margens de lucro através da cleva- ‘cdo dos precos dos produtos fina A resultante desta realidade seria a negaciagdo direta de uma plataforma especifica entre o patronato ¢ os trabalha- dores do setor moderno. Nessa concepcéo Maria Herminia T. de Almeida vislum- idades na agdo sindical: de um lado aquela ‘que contém elementos integrados a légi 3 de ou ia por 'e que busca ", op. cit, p. 490, PARA UMA CARACTERIZACAO unificagio do movimento sindical teria que ser tecida pela “eonstrucéo de uma estratégia global, que néo pode ser a pura extrapolac&o dos objetivos reivindicatérios particulares de um outro setor da classe trabalhadora.”" Uma vez que neste plano, a unificacdo é obstaculizada pela heterogeneida- e, conseqiientemente, pela diversi- dade na pauta reivindicatéria. Os estudos de Maria Herminia T. de Almeida, elaborados apés 0 ressurgimento do movimento operdrio, grevis nheciam em boa medida esta nova realidade. Referindo-se & atuago do novo centrais da ago — a luta contra o arrocho salarial, contra a lei de greve, pela liberdade e autonomia dos sindicatos. Entretanto, a seu lado compunham os memoriais de reivindicagées apresentados anualmente ao patronato, durante as campanhas de renova- ‘go dos acordos salariais’ _Reconhecia-se entio, ao contririo daquela formulagéo ‘néo uma tendéncia exclusivista © corporativista mas ta de 1977-1978, em torno da postura critica € renovadora do Sindicato de Séo Bernardo comegou a se agru- par um punhado de liderancas novas, de So Paulo e outros estados, que, sintomaticamente, representavam outras fatias da moderna classe operdria brasileira: trabalhadores na si- derurgia, na grande indistria metalirgica, nas refinarias de petréleo, na industria petroquimica. Assim constituise o nniicleo central do que logo ganhou o epiteto de corrente -auténtica do sindicalismo, que se foi ampliando com a incor- poracdo de dirigentes de outras categorias as mais diversas: bancarias, jornalistas eletricitérios, ete.” Esse niicleo teria, entre outros atributos, que exercer 0 papel de direcao dos movimentos reivindicatérios que come- ‘savam a despontar com larga intensidade e larga dose de es- pontaneidade® 1p. 491. 40. 12; Tendeheias Recentes da Negociagdo Coletiva no Brasil, 1980 (we. ‘io provisoria, xerox), p. 2. 21 Almeida, M. H. T. de, Tendéncias sileiro’ entre a Conservacdo © a Mudansa” in Sociedade e Politica no 135 A REBELDIA DO TRABALHO Procuramos mostrar, nos capitulos anteriores, que a agio do operariado metaltirgico da industria automobilistica de- sempenhou um papel de impulsionador e mesmo de vanguar- da no conjunto do sindicalismo combative e do préprio mo- Vimento reivindicatorio grevista. De certo modo, o estudo de Celso Frederico jé antecipa va a concepgéo do operariado metalirgico — especialmente através dos setores com maior qualificagéo no trabalho — co- mo miicleo mais avangado do movimento operério,® Suas ‘agies, tais como, as sabotagens, as operagdes boicote, as gre- ves, enfim, a luta de resisténcia travada pelo trabalho frente a0 Iongo da década de 70, encontrou suas condi- fas de germinagao no “pélo mais desenvolvido do ismo industrial brasileiro”, onde “‘a situac&o operdria aparece exasperada, como se estivesse sendo olhada através de uma lente de aumento que dilatasse ao extremo os seus ificativos.”* Este trabalho procura mostrar que apesar da diferenciacdo e heterogeneidade existente no seio do operariado metalirgico, entre o trabalho qualificado e © nao-qualificado, ha por parte dos primeiros uma tendéncia a estabelecer aces comuns: “A Iuta por salério e melhores idigdes de trabalho, que se desenvolve espontaneamente guiada pelas leis luta de classes, divide sm diversos trabathos coneretos. O que pode permitir a unidade é somente o que ha de comum, de essencial entre todos os operdrios: 0 trabalho abstrato que todos realizam para o capital, independente do grau de qualificacio. Para que se possam unir os diversos segmentos da classe é necessdrio uma mediagdo que trabalhe sobre o que esta tem de comum. Tirar a luta da espontanei- dade ¢ forjar a unidade da classe através da organizacdo em cada fibrica, eis, em poucas palavras o programa dos ope. rérios avancado"* entendidos pelo autor como aqueles dota- dos de maiores potencialidades de aco, dadas pela qualifica. ‘so do seu trabalho, —~ © estudo de/Celso Frederico stigere claramente que os operirios avancattos-naopéiSeguem uma pauta exclusivista, Post; Almeida, M. H. T. de e Sorj, B. (orgs), Brasiliense, Sio 1983, p. 203, dem como suas consideragées em “Por Um Novo licalismo”, Antunes, R. (org), op. cit. pp. 48 ¢ ss. 3B. Frederico, C,, A Vanguarda Operdria, op. elt. 24, Frederico, C., A Vanguarda ... op- che pc 1S 2.td, 9. 136 PARA UMA CARACTERIZAGAO mas que, pelo papel que executam no processo produtivo na unidade fabri, estes operircs assumem dimensio propulso ra e impulsionadora das ages coletivas. O que se poderia acrescentar ao estudo — conclui da greve geral me taldirgica de 1979 — € que a0 longo do ciclo grevista de 1978- 1980 essa diferenciagio entre a atuagéo do operariado qu cado e nio-qualificado foi se atenuando consideravelmente. Taio, entretanto, nfo nega a ago propulsora que 9 operariado qualificado teve durante a fase de resisténcia do movimento Sperérhe. ax AUABILA, wT estudo de Amnéris Maroni, embora néo oferesa uma 22 i artieblaridade-ddo-operariado metalirgico — a / — referesse criticamente as concepgées que denominou “‘mi- tos da historiografia”: “A bibliografia recente sobre 0 movi mento operério encarregou-se de elaborar alguns mitos a res- peito dos trabalhadores empregados nas ‘indiistrias moder- nos’, Dentre eles sobreleva a afirmagio de sua especificidade, 2rpartir da constataces tals como: altos saldrios, maior es- tabilidade no emprego, melhores condicdes de trabalho, maior jdade técnica (obtida através de treinamento na propria facao dos operarios empregados no ‘setor moderno’, impedin- do a emergéncia de uma ‘consciéneia explorada’ e, no limite, a formagio de uma ‘aristocracia operdria’ com reivindicagdes, formas de mobilizacao e de organizacdo sindical diferentes do ireto da organizacao do processo de trab: Segundo este estudo, como central da luta grevista: + © estudo deWania Alves tematiza diretamente um dos Pontos mais importantes da controvérsia sobre 0 operariado da indistria moderna: a questéo da aristocratizagio do tra. 26. Maroni, A., A Estratégia da Recusa ..., op. cit, p. 4 ZT. Maroni, A, A Estratégia da Recusa, op. cit, p. 104 137 A REBELDIA DO TRABALHO Iho Partindo da concepgao exposta por Lenin — que, na ha de Engels, constatou a existéncia de um segmento pri iado do movimento operério inglés, beneficidrio do impe- Tialismo britanico © que, no plano politicoideolégico nao transcedia o universo do reformismo burgués, o tradeunionis. mo — a autora incorpora as formulagées centrais de Hobs- bawm quando este afirma, referindo-se a parcelas do proleta- riado inglés do século XIX, que “Pelo menos seis diferentes fatores devem ser, teoricamente, considerados. Primeiro, 0 nivel e regularidade dos ganhos dos operérios, segundo (suas perspectivas) de seguranca social; ter de stes fatores Hobsbawm acrescentou que a nogio de aristocracia operéria ¢ utilizada “para descrever certos estra- 40s. distintivos da-classe operéria, com melhores salérios, me- lhor tratamento e geralmente tidos como mais ‘respeitdveis’ amente mais moderados do que a massa do proleta- E, ainda, na busca da espe: inglés do século passado afirmou: “Ha uma boa razfo para iguma coisa como uma alianga’ entre os operdrios de uma determinada nagéo e seus cay tros paises implica alguns beneficios para todos os traba- Thadores, embora, obviamente, beneficios muito maiores para os _mais organizados e estrategicamente mais fortes: os aristocratas operdrios. .." Partindo destas concepgoes, Vania Alves recupera trés fundamentos explicativos da elitizagio da classe operdria: a teoria do “aburguesamento”, nascida como componente expl is detalhada. 28. Hobsbawm, E. J, The Labouring Man, citado por Alves, V. op. cit, D. 19. Ver também Hobsbawm, E. 1., Os Trabathadores (Estudos sobre 4@ Historia do Operariado), Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1981, p- 227 BM. Hobsbawm, E. J., The Labouring Man, VW, op. eit, p. 20 p. 24/25. A citago de Hobsbawm ¢ extraida de “Lenin istocracy of Labour’, in Revolutionaries, Quarter Books, PARA UMA CARACTERIZACAO cativo da agéo do operariado inglés; a teoria da “nova classe operaria’, elaborada por Serge M: proletariado francés e a teoria da cialmente elaborada tendo como realidade o operariado ing mas recentemente transposta para parcelas do proletariado do Terceiro Mundo.® A tese do “aburguesamento” da classe operéria é atri- buida a“. elevando 0 seu padréo de vida e Ihes permitindo mesclarse ideologicamente com a classe média ¢ até mesmo com a bur- guesa. O argumento basico ¢ 0 de que a alienagao do trabalho na producio pode ser superad: Pela vida social dos operarios. Pi pela afluéncia da sociedade capi operério a identificar-se com a empresa no mesmo estilo da “HIaSSe média, 0 operdrio ‘white collar’: num emprego buro- “critica.” 8 Os pressupostos desta teoria podem ser assim resumidos: 1, “Que um ntimero significante destas familias (assalariados manuais) tem adqurido um padrao de tida e um grau de seguranca comparaveis aos de'membros ‘Ha classe média, elo menos da baixa classe média — bancarios, pequenos comerciantes, professores nao graduados, etc. (0 aspecto econémico).” 2. “Que estes présperos também novas perspe portamento em vez de proletarias (0 aspecto normat 3. “Que as mesmas familias estéo sendo aceitas em termos de igualdade por aqueles membros da classe média com quem entraram em contato no curso de suas vidas didrias fora do trabalho (0 aspecto relacional).” * A tese do “aburguesamento”, baseada numa concepc&o funcionalista, apregoa a desideologizagio do movimento ope- da a dindmica ¢ a funcionalidade das sociedades capitalistas 139 A REBELDIA DO TRABALHO avangadas: Os niveis de saldrio so questionados, visando a maior participacio do operariado na distribuigfo dos lucros. "Na medida em que a prosperidade tende a crescer com 0 desenvolvimento tecnol6gico, 0 conflito industrial tende a de- Saparecer, pelo menos no que diz respeito aos efeitos sociais deste conflito,”* Os altos salérios recebidos pelo operariado contemporéneo introduzem-no na sociedade de consumo, ge tandolhe um padrdo similar a0 das camadas médias.” "A teoria da “nova classe operdria”, baseada na experiéncia do proletariado francés e tendo em Serge Mallet seu prin- inspirador, constatou a heterogeneidade desta classe (polo tradicional e avangado) e concluiu pelo caréter potencialmente mais pujante e mesmo revolucionsio do.seg- jetario presente nos setores de alta tecnologia © alta sofisticago da maquinaria. Portanto, diz Vania Alves, é 6 tipo de industria (moderna ou tradicional) “que distingue G operdrio atual, ou o que os distingue uns dos outros, ¢ no Suas habilidades ou qualificagdes pessoais. Estas, como se pode observar nas palavras do autor, passaram a ser secun- Barias no atual processo de diferenciagao interna da classe Gperdria: "... na verdade, depois de algumas semanas, a nova mdquina’ tera perdido seu mistério para aqueles que deverso Nao é a auséncia do conhecimento_ que impede o do de intervir no processo tecnolégico. Ea falta de pode Em outras palavras, 0 capitalismo avangado, ao forjar um nieleo industrialmente avancado e de tecnologia sofisti © advento de uma parcela do proletariado Com maior poder de barganha junto a0 patronato. Nas pala: vras de S. Mall Mimtro do mais complexo mecanismo de capitalismo organi Gacional, a nova classe operéria € levada @ perceber mais rapidamente do que nos outros setores a contradig&o inerente a0 sistema.”® "Ao mesmo tempo, Mallet contrapde-se & tese que atribui to proletariado avangado um desvio consumista: “Precise frente porque suas demandas elementares sio largamente s2- pp. 43/44 5s, citado por Alves, V, op. cit. p. 4. PARA UMA CARACTERIZAGAO (devido ao féeil acesso ao consumo), “a classe ope- Faria é levada a se colocar outras quest6es cujas_ solugdes “no podem ser encontradas na esfera do consumo.” Contra- ‘lamente, a ago do proletariado tradicional, ainda na formu- lagdo de Mallet, termina por coisificé-lo, por converté-lo em alguém que nio mais se concebe como um produtor, “ seja de que espécie for. Hé a tendéncia de abandonar as demandas com base na natureza ¢ esséncia da produsio, © se sentir contente com as demandas na esfera do consumo, a ‘minada e orientada pelo modo de producio ca- ‘A terceira concepeao discutida por Vania Alves é aquela que atribui ao proletariado do Terceiro Mundo a feigdo de que seria “representada, por vezes, pela dria, Outras vezes ela Se constitui dos grupos operdrios Engajados no setor moderno da industria contra aqueles do setor tradicional. Outras vezes ainda, a ‘aristocracia operéria' inclui o setor da indistria moderna ¢ setores da classe média ‘como os funcionarios ‘white-collar’, contra os operérios urba- nos desqualificados e os trabalhadores rurais (0 campesinato). Alguns analistas, finalmente, consideram uma combinacio de todos estes setores para definir a ‘aristocracia operdtia.’”® Nao seria dificil antecipar que tal “combinagao” € ex pressio de uma sintese eclética, de mera feigéo empirista, que antes de apreender, distanciase do real entendimento da particularidade do proletariado do terceiro mundo — in- luindo-se o brasileiro — perdendo-se em singularismos que 'sfo componentes decisivos daquela classe existente nos aises subordinados. E vése que esta formulagio tem ides com algumas concepgdes que se referem & realidade rasileira. Neste caso, 0 nascimento de uma aristocracia ope- raria teria lugar d “ sicdo de induistrias sofi Faaas em relagdo a0 pedro iRedio de produgSo, em um con- scondmico e cultural Contrastadamente atrasado. “Esse"processo gera uma dicotomia da economia produtiva, particularmente da produgdo industrial, responsdvel pela di visdo da classe operdria em um grupo elitizado e as bases.” | 46 ®. 4 I. 42, Alves, V., Vanguarda Operdria.... op. cit, p. SI. Veia-se também as rreferéncias que Vania Alves faz aos criticos destas trés teorias. 48.14, ibid, p. 53. 14 —"" ferenciagdo na A REBELDIA DO TRABALHO ‘Ao buscar as vertentes que tematizam diretamente 0 operariado brasileiro, o estudo de Vania Alves distingue-as desse modo: de um lado, aqueles que reconhecem que a di- rutura.produtiva industrial acarreta_uma diferenciagao politica no seio da classe; de outro, aquelas que, apesar de reconhecerem a heterogencidade estrutural, negam 1ra 0 plano da politica e ideologia. No pr itamente, des4guam na con- "4A existéncia niicleo sediado no pélo avancado da industrializacéo ra, com maior dinamismo em gua acio, tenderia a buscar melhorias para esta categoria em contraposi¢ao a0 conjunto da classe trabalhadora, aumentando 0 fosso entre segmento tradicional e moderno, criando com isso as con- tocracia operdiria.”® ios, relagbes de trabalho do de wi para o enfraquecimento da consciéncia de classe pela atenua- 40 da polarizagio entre as classes através da suplantagio da relagio direta entre elas dentro da firma. O resultado inevi- lite operdria, a qual, devido & sua ideologia ‘aristocratica’, desenvolveria_um movimento estruturalmente avangado, forte mas ideologicamente_anti Fevolciondrig versus um operariado com maiores potenciais, revolucioné mas estruturalmente atrasado, o que impede 9 desenvolvimento daquele potencial.* 0 mérito maior do estudo de Vania Alves esté, em nosso centendimento, na incursio ¢ investigagio que faz no terreno dos estudos que tematizaram, a partir de perspectivas tedrico- metodol6gicas distintas, a questéo da aristocracia operaria. Essa recuperagio conceitual jé manifesta intimeras dificulda- des e impropriedades ao se operar acriticamente uma identi ficagéo ou mesmo aproximagdo entre esse conceito e a reali dade do proletariado brasileiro. 1d. pt. » Vanguarda Operdria..., op. cit, pp. 121/122 a formulagso ‘cima ‘como explicativa da agéo do operariado 8 autora re corre fundamentalmente aos estudos de John Humphrey, autor cujas formulagées trataremos a seguir. 142 PARA UMA CARACTERIZACAO Um passo significative na apreensio da concretude do nosso operariado moderno foi dado por John Humphrey. Este pesquisador ¢ responsavel pela radiografia que mais se aproxima da coneretude do operariado metalirgico do ramo automobilistico. Sua pesquisa foi realizada em duas unidades fabris (So Bernardo e Sao Paulo) e abangeu 200 entrevis- tados, oferecendo um panorama das condigoes de salério, es- tabilidade/rotatividade, qualificaco © demais condigSes de trabalho neste ramo industrial A tese basica desenvolvida por Humphrey tem como mé- vel central apontar os erros ¢ equivocos daqueles que carac- terizavam 0 operariado deste ramo como sendo expresso de luma aristocracia do trabalho. Para tanto, mostra a auséncia daS“Bases_materiais mi condi¢io para que se possa falar de um segmento privilegiado ¢ clitizado. Desde logo, Humphrey procura rechagar a tese da prevalecéncia de um mercado de trabalho primario junto aos operarios da indus- tria automobilistica — que em vista disso seriam beneficiados pela existéncia de um mercado onde os salarios seriam mais favoraveis ¢ vantajosos, além de encontrarem melhores con- digdes de trabalho, decorréncia do grau de qualificacao deste segmento — em contrapartida & existéncia de um mercado de tipo secundério para os trabalhadores nio-qualificados. ‘Apés mencionar q) ‘se pode declarar sem, equivoco que 0 ficado ndo predomina na indtistria automobi- Istico. Este existe basicamente nos setores de ferramentaria ¢ manutengao, enquanto nas demais Areas de produco pre- Cebrap in Revista de Cultura e Politica, n.™ 5/6, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1981 48. Humphrey, J., Fazendo o “Milagre”, op. cit, p. 70. 143 ‘A REBELDIA DO TRABALHO dominam os trabalhadores semiqualificados e nio-quali- ficados.” Outro aspecto pesquisado por Humphrey diz respeito & estabilidade no trabalho, condigéo para que se possa falar em aristocracia operaria. (Quadro 11) Nee Admisabes operon “ne [cir 77 period AS RAI Como se depreende destes dados, so altas as taxas_de turn over na indistria automobilistica, senido que essa rota vidade 6 um instrumento importante para o rebaixamento dos valores da forca de trabalho. No primeiro semestre de 1977, cerea de 14% dos operdrios perderam seus empregos, apesar de o numero de operariés empregados ter sofrido um decrés- timo real de apenas 32%, O que evidencia um alto indice jidade. claro que estas taxas so diferenciadas em ‘ualificacio do trabalho, diminuindo quanto mais abalho, ainda que persistam os riscos de de- miqualificada e ndo-qualificada 0 risco de de Tante™ PARA UMA CARACTERIZACAO Com relagdo a temética salarial o autor afirma que durante 0 periodo do ‘milagre’, 1968-1974, os salérios reais baixaram ligeiramente, enquanto que aumentou cerca de 71% 0 mimero de vefculos produzido por empregado (...) Em segundo renciais de sala Setores das inditstrias mecinico-metaldrgicas, nos anos 70.”* Acrescenta 0 autor que “A andlise dos movimentos sala- riais no periodo mostra que, de modo geral, 0s saldrios reais nao diminufram, mas isso nao dissipou 0 descontentamento a respeito dos saldrios. Os trabalhadores da indiistria automo- ica ndo estavam livres das vicissitudes do mercado geral abalho, ¢ havia uma forte mas frustrada expectativa de que 0s salatios deveriam ser mais altos.” Hé um outro ponto crucial quando se busca apreender a concretude deste segmento operario; a contrapartida salério nominal ¢ ritmo e intensidade do trabalho. Humphrey, ap6s mencionar que no periodo 1966/74 praticamente dobrou a produgio por operdrio, acrescenta que isto deveu-se nao so ko "aperfeicoamento do maquindrio e dos métodos de tra- | batho, mudancas na complexidade dos veiculos, mudanas na proporgdo entre trabalho direto ¢ indireto etc. a um aumento no esforgo fisico do trabalhad Se acrescentarmos nal de cinco dias atingiu, & época do “milagre”, 0 quantum de 56 horas, tem-se 0 outro lado da superexploracio do trax baiho: a intensidade extenuante do trabalho acrescia-se 0 prolongamento da jornada de trabalho. Considerando-se a for- Inulagdo marxiana de que "o grau de exploragdo do trabalho, ‘a apropriagdo de mais-trabalho, mais-valia, é clevado a saber jor meio de prolongamento da jornada de trabalho e inten- icagao do trabalho”, utilizamos aqui a nogio superexplora- (odo para enfatizar e precisar a maneira pela qual a indiistria A REBELDIA DO TRABALHO Nestas condigées obj bilidade no emprego, p: formismo e vedada & germinagGo de uma consciéncia antica- pitalista e mesmo revoluciondria.* Quando se adota esta postura interpretativa, ao mesmo tempo ¢m que no se reconhece no proletariado do pélo moderno uma potencialidade revolucionaria, vislumbra-se, a partir da existéncia da indiistria avancada, mecanizada e com trabalhadores qualificados, isto é, a partir da sua situacio concreta, objetiva, a possibilidade de consolidagéo de um segmento que teria lacos de proximidade com aquilo que se chamou de aristocracia operdria, uma vez que tender-se-ia a 5S, A referéncia de Marx encontra-se em O Capital, Vol. IIL, Livro Ter. fem mera letra morta, pois qualquer operirio sabe que a recusa em ‘rabalhélas provocara represilias que podem chegar até a suméria dispensa.” I Congresso dos Trabalhadores nas Industrias Metalirgicas, Mecanicas e de Material Elétrico de Sio Bernardo do Campo ¢ Dia: dema, Resolucdes, Declaracéo de Sio Bernardo, realizado de 6a 8 de setembro de 1984p. 4 56. Ao contrério, como procuramos demonstrar nos capitulos referen- tes a0 estudo das greves, foi exatamente no plano da materialidade concreta que este segmento encontrou as condigées que impulsionaram ‘sua agio, especialmente na segunda metade da década de 70 46 PARA UMA CARACTERIZACAO constituir um niicleo, dadas as condigdes de materialidade, © aqui uma identificagdo equivoca entre natu- ia de classe. Enquanto parcelas do proleta- riado do capitalismo avancado, europeu ¢ norte-americano, suscetiveis a aristocratizagao do trabalho, tem uma génese € subjetivamente, a vie cujo cotidiano € marcado pela superexploracao do tém-se que sua ago, quando pautada por uma contingéncia reformista, 0 faz muito mais por aquisigio circunstancial do que por génese histdrica, Em outras palavras, ¢ imperioso ingéncia reformista que ¢ resultado de uma circunstancialidade, daquela que advém de uma formacao histérico-concreta que é objetivamente favordvel & conscién- i a classe operdria néo € revo- luciondria no seu emssi imediato, na sua manifestacdo contin- gencial, mas no seu vir a ser. A sua natureza de classe, dada a contradicdo estrutural entre capital e traablho, ¢ potencial- ‘mente revolucionaria. Dai que, quando se identifica a con- tingéncia de uma classe com a sua natureza — como pro- cedem aqueles que aproximam 0 proletariado do ABC paulista com a aristocracia operdria do capitalismo avangado — disso resultaré que a este proletariado nao restara outra al- ternativa sendo lutar pelo seu em si imediato, contingencial.” Os Contornos da Superexploragao do Trabalho Enquanto comecava a do operdrio metalé tornar usual a caracterizagéo incapaz de compreender a sua con- cretude, esta categoria jé denunciava as condigdes desfavo- raveis que marcavain 0 seu cotidiano. No I Congresso dos dos” tem, como um dos funds- do equivoca entre contingéncia 147 ‘A REBELDIA DO TRABALHO ‘Trabalhadores nas Industrias Metaliirgicas, realizado em 1974 —‘periodo de intensa repressio ao movimento operério — foi aflorada a realidade metalirgica quando afirmowse, na Declaragio de Sao Bernardo, “... que 0 operdrio das indus: trias automobilisticas e afins consegue obter nominalmente uma remuneragéo mensal superior & percebida pelos traba- thadores de outros setores. Contudo, néo ignoramos que @ alta produtividade do nosso trabalho tem garantido a essas empresas os mais altos indices de crescimento do Pais, com ‘levadissimas taxas de lucro (...)- O nosso propalado salario mais alto, segundo estamos cientes, ¢ apenas aparente, se con- frontado com os saldrios percebidos pelos trabalhadores das mesmas empresas localizadas em outros paises, e quando vis- to em funedo da nossa produtividade, do aumento do ritmo de trabalho e da extensdo da jornada didria, que € uma cons- tante dentro do sistema, B bem verdade que esas mesmas empresas dispensam algumas regalias a pequeno mimero de téenicos ultraespecializados, porém, aos demais trabathado- res, que se constituem na esmagadora maioria, oferecem um tratamento equivalente aquele usado pelas empresas tradicio- ais, com © beheplicito de uma legislagdo que ¢, no nosso modo de ver, totalmente inadequada as condicdes atuais. A dita rotatividade da méo-de-obra, fraudando a aplicagao de reajustamentos salari fade no emprego, trazen- do inseguranca a cada fami tagdo da jornada de tra- batho, com a exploragdo médxima da capacidade do operdri a deliberada compreensao dos saldrios, como prética concet tada entre os departamentos de pessoal das indtistr ta oposigao as atividades sindicais ¢ & sindicalizacdo, apenas alguns dos problemas enfrentados pela classe.” 58. Conforme 1 Congresso Gumento traz em suas péginas IAT. m0. Brasi Guides, revelousse que o custo de uma hora de um operério 1. Unidos, repraciicira cra, em 1987, de 1 dolar e 49 centavos, enquanto indMe\rffabslhador norieamericano custava 13 délares © 46 centavos 148 PARA UMA CARACTERIZAGAO E evidéncia clementar que, estando nucleado no centro mais dindmico da acumulagéo monopélica do pais, o proleta- riado do ABC paulista percebesse niveis salariais superi aqueles segmentos vinculados & chamada industri nal. Entretanto — conforme se constata, de maneira trans- parente em pesquisa realizada pelo DIEESE, particularmente no que concerne as induistrias do ramo metalirgico — houve uma concentracio sigi fa de amplas parcelas deste ope: is mais baixas (conforme mostra 0 es plor que os brasileiros, a pesquisa menciona somente o tral mexicano, cujo custohora era de 1 délar ¢ 39 centavos. Essa pesquisa, laborada por Patricia Viele, evou em conta no-s0 os saldrios pagos digetamente as, operérios, mas também os ,beneficios como abonos e outras obrigarées decorrentes das leis de cada pais. Em 1 fano em que se iniciou o estudo comparativo, um operario brasil Ccustava 86 centavos de délar por hora, enquanto o de Cingapura custa- Enquanto os "Volkswagen ¢ 8 Ford, vat indisinas como. Vil ft te rkdades ne ABC palit, 0 gue permite wh perf aproximade do ABC. Para que se tenha pital e do interior (incluindo 0 ABO), ica Salarial, op. A REBELDIA DO TRABALHO QUADRO III Distribuico dos salérios por setores (%) Indust _ ~ Metaldrgicos Faixas de salérios (*) 1956 196 1966 19711978 SM. “ sae 66 Menos de 1 S.M. 65 6,0 1 b 1a2SM. 25,6 21,7 46,3 Ae 32,1 27,7 54,0 346° 415 20,3 26,7 23.0 163 613 64,5 36,9 5.9 67 66 De 10 ou + S.M. O7 10 25 De30 ou + S.M. _ 02 A De 50u + S.M. Total Fonte: Adapt DIESE, op. cit, p. (1) Em Cr de 1971, Este quadro mostra 0 processo de concentracao do con: tingente metalirgico nas faixas salariais mais baixas. Em clara conexio com a politica da compressio salarial imple- mentada pelo Estado no pés-64, constata-se que, enquanto em 1961 cerca de 27,7% dos lirgicos encontravam-se na faixa de até 02 saldrios minimos, em 1966 esse percentual atinge a casa dos 54,4% e no ano de 1971, 54%, sofrendo Ti- geira regressio em 1976, para 48,9%, Em contrapartida, na faixa de 2 a 5 saldrios minimos verifica-se a tendéncia inver- sa, ou seja, uma diminuic&o significativa dos trabalhadores, 6 que expressa 0 seu empobrecimento: enquanto em 1961, 64,5% recebiam entre 2 e 5 saldrios minimos, em 1966 esse contingente cai para 39,3% e em 1971 para 36,9%, mantendo- ‘se em 37,3% em 1976. Em outras palavras, em_1976, 67,8% do operariado metalirgico encontravase na faixa de até 02 salarios minimos.° No ano de 1966 praticamente duy tdlurgico na faixa de até 2 saldrios 11 0 contingente me- imos quando compa- jaw também Casseb, Norma CB, “As, Condes de Repro- Lees de Trabalho em io Paulon A Questo Aimentar Sesto ede Mestad, FUC, S80 Paso, 13, p73. 150 PARA UMA CARACTERIZACAO reverso e um significativo descenso na dist dos trabalhadores* Nos anos 1971 1976, embora os niveis de reajuste oficiais tenham sido ainda mais baixos, os indices sofreram influéncia das condigdes de mercado e das préprias necessidades de expansdo das empresas. Percebe-se, também, nas faixas superiores a 5 saldrios minimos, uma tendéncia a0 crescimento, pois esto incluidos nessa faixa os trabalhadores ligados & administracao e servigos das empresas metalirgi- Os Quadros IV ¢ V permitem perceber como se verificou esse proceso nos diferentes ramos das indiistrias metalir- cas. Estes Quadros permitem constatar q houve uma melhoria na distribuigdo sal: talirgicos € mecanicos (diminuigao na fi minimos e aumento na faixa de 2 a 5 salérios minimos). A mesma tendéncia se verificou no setor de material de trans- , ainda que tenha havido um aumento na quantidade relativa de operdrios na faixa de até 1 salério minimo. No setor de material elétrico, ainda referindo-se ao perfodo 1956- 61, houve um aumento na faixa de até 2 salérios minimos uma diminuigao significativa na faixa de 2 a 5 salarios mi nimos. Visto globalmente pode-se dizer que essa tendéncia se explica, de um lado, pela relativa liberalidade sindical e, de outro, pelo aparecimento e concorréncia de novos ramos, como o de material de transporte. Este setor é 0 que apre- sentou um percentual maior de concentracio na faixa de até 2 salérios m{nimos, chegando a 69%. Em 1976 foi ainda este setor que proporcionalmente englobou maior quantidade de trabalhadores na Destaque-se também que, na faixa de 5 ou mais este setor nao apresentou crescimento capaz de suplantar o nivel de 9% em 1961. Como conclui a pesquisa: “Esse fato pode ser interpretado como estando a estrutura produtiva do setor definida j4 em 1961. Nesse caso, a relagdo periodo 1956/61 0p. eit, p38. 1st zt quapro IV Distribuicéo dos salérios por setores (%) — metalurgicos is Metalirgica Mecanica Faixas ee Cote) 1961 1966 1971 1976 1956 1961 1966 1971 Menos de 1 SM. 60 47 84 58 75 45 47 72 Det a2S.M. 198 552 529 464 264 193 456 39,4 Até 2.S.M. 258 599 613 522 339 238 50,3 466 De2a3SM. 427 224 «198 22.1 323 448 24.1225 De3a5SM. 254 12 10,7 259 236 189 20.3 De2a5S.M 68,1 33,6 30,5 582 68,4 43,0 42,8 De5at0S.M 43°57 6.0 70 69 57 84 De 10 0u + SM. 17 22 09 09 09 25 300u + SM — of — 08 — 02 — of 02 5ou + SM. 55 60 «65 66 Total 100,0 100,010 Fonte: Distibuio Saari! ..., op. lt. p. 33, a CV Em Cr8 de 1971. QUADRO V Material elétrico 1976 55 37,7 43,2 20,9 20.5 44 14,7 36 Faixas Material transporte de salérios (*) st 4 ps a 1956 1961 1965 1971 1976 1956 1961 1966 1971 1976 Menos de 1S.M, $8 109 73 105 81 41 a4 69 4a 45 . 9 05 81 at ato agtga Deta2S.M. 30.8 47.6 58,1 48,3 96,7 17.1 621 598 488 Re 2S.M. at 549 68,6 56,4 408 = 25.2 69,0 «63.9 62,2 e 2a3S.M. 32,1 24,3 13,3 12,9 388 42,3 15,8 19,3 14,7 DeaassM 171 143 fT 168 19 234 fos 37 ta e 2a5S.M. 49,2 392 240 29,7 5514 65.7 26,1 33,0 29,4 Besa tos 35 48 44 109 “20 “an “3a an“ uu 3 1,3 § _ ‘ S0ou + SM ee ee 5ou+S.M. 51 98 59 73 13,9 40 9.0 49 31 83 pont _ 1000 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 10,0 10,0 Fonte: Distribuigao Ss ‘op. cit., p. 34, - a (7 Em Cr8 de 1971, 5 : § 2 8 2 é E g orsvzriaiovava va vave ‘A REBELDIA DO TRABALHO PARA UMA CARACTERIZAGAO produgio, ou trabalhador produti- tivo se manteve no decorrer do pe- Modo, sem que se ampliasse 0 mimero de trabalhadores de Salérios mais altos. Por outro lado, fatores de mercado, e institucionais que Tevaram ao barateamento da miode-obra foram grandemeate utilizados por esse setor industrial que, ho final do periodo aparece como o de maior concentracao de salatios baixos."4 Os ramos da metalirgi similares, embora no primeiro ocorra um nivel mai tuado de concentragéo na faixa de até 2 saldrios m técnico/trabalhador vo/trabalhador admini 1976 os 77 oa 08 4 1965 1971 187 152 m8 13 61 122 044 10 40 ais 140 os e mecénica tém procedimentos is acen- 10s. Na o7 80 209 120 13 488 50,1 13 41976 1956 1961 ro de trabalhadores nas faixas mais altas, tanto na de nue trios minimos, como na de 10 ou mais salérios 5 ou mais sala minimos¢ ‘A pesquisa oferece dados que, em 1976, o salari tanto nos ramos metalirgicos como de materi tes Mostra, também, referindose a indus! que a distribuicdo salari que a das estrangeiras. No entanto, ha uma da empresa estrangeira assimilar a distribuicao salarial das empresas nacionais. Entre 1961 e 1966, a quantidade de operarios na faixa baixa, de até 2 salérios minimos passou, nas empresas de capital nacional, de 29,19 para 535,6%, enquanto nas empresas de capital estrangeiro passou- Se de 15,1% para 48,5%. Isto expressa a desenvoltura ¢ as benesses que a empresa de capital externo obteve como re- sultado da politica econémica (particularmente a politica sa- erigida pelo Estado, bem como das novas condigbes | do mercado de trabalho. ‘Ainda na trilha destes dados, visando a um perfil aproxi- mative do operariado metahirgico, 0 Quadro VI mostra a distribuiggo de salarios segundo a qualificagio ¢ capacitacdo ido trabalho, oferecendo as seguintes conclusdes: 0 operariado 36 3 82,7 49 23 ars que permitem também afirmar foi menor em relagdo a 1961, ial de transpor- 47 1000 100, 1000 100, 100.0 1000 1000 1000 1906 1971 ‘Semiqualificados 08 na 855 QuapRO vi 1976 1956 mm 135 70 846 88 990 90.0 93.0 10.1 o7 100 ar = OP. eit p88. Nao-qualificados 1956 1961 1966 1971 47 4a 907 589 692 100,0 1000 1000 Fonte: Distribuicdo Salarial (1) Em Cr8 de 1971. Obs.: Esta tabs engloba somente saldrios do motalirgicos. 65. Id ibid, P. 36. 66. Id p. 3h 61. Id, pp. 45 © 4. Gh Id, brag. Ver também nessa pesquisa as tabelas nas péginas 46 € S GomPrelagao & distribuigao salarial segundo a planta industrial, ver pp. 45/51. ‘Monos de 1 S.M. At62S.M, De2assm. De5a10SM. De 10. ou + SM. Yaxas do salario (*) Total 154 155 A REBELDIA DO TRABALHO ndo-quatificado concentra-se na faixa de até dois salérios minimos. Essa compresséo salarial resultou basicamente do grande contingente de forca de trabalho excedente, acrescido 2 desorganizagao do movimento sindical durante 0 periodo posterior ao golpe de 1964, bem como a0 conjunto de me- {das institucionais que beneficiou fortemente as empresas. Em relagio ao operariado semiqualificado notowse um_au: mento ‘do m trab a cinco salari no ano de 197 1966 c 1971, sem que se volte a situacao de 1961.” 1966 e 1971'ao mesmo tempo em que se reduz si ‘mente 0 contingente operdrio na faixa de 2 a 5 salérios mini- ‘mos, aumenta espetacularmente o contingente na faixa de até 2 saldrios m{nimos. Com relagio ao trabalhador qualificado & preciso fazer ‘a seguinte especificago: em relagdo aquele vinculado a admi- nistragao e servigos “hé um rebaixamento generalizado em 1966, mas ja em 1971 a situagio melhora principalmente pelo crescimento da faixa de 5 a 10 salérios minimos. Em 1976, fa situagio aitera-se novamente para pior com aumento da con- -0 nas faixas inferiores e di Com relagao aos metalirgicos qual “no ano de 1966, a qualificagio néo foi suficiente para manter © nivel relativo de remunerago dos trabalhadores da pro- @ucio, a exemplo do que acontecera com os metaliirgicos da administragdo © servigos (...). JA nos anos de 1971 © 1976, Yemos que a situagdo mehora em relagéo a 1966, princi- palmente com o incremento da proporcéo de trabalhadores na faixa de cinco ou mais salarios minimos. 7 to globalmente, 0 trabalho qualificado (incluindo os concentrase na faixa de 2 a 5 salérios m{nimos, ainda que em 1971 ¢ 1976 tenha ocorrido uma reducdo, em comparagio a0 ano de 1966. Na faixa de até 2 salérios mi imos houve um aumento substancial nos anos 1966 ¢ 1971, reduzindo-se bastante em 1976, sem atingir, entretanto, os niveis de 1961? ©, Distribuigdo Salarial..., op. cit. p. 52. 72, Distribuigdo Salarial.....op. cit.,p. 6. Estas conclusées diferenciadas Sao extraidas de outros dados que constam do mesmo estudo, Ver p. 67. 73. Esta pesquisa do DIEESE abrangeu ainda os téxteis, enfermeiros © jomalistas, Se tomarmos o exemplo tipico da indistria tradicional — ‘0 ramo téxtil —, veremos que suas conclusdes sfo tendencialmente simi- 156 relative dé trabalhadores na faixa de dois_ PARA UMA CARACTERIZACAO Todos estes dados evidenciam que, no seu conjunto, a categoria metaltirgica de Séo Paulo sofreu intensa erosdo sa- larial nao ficando imune as vicissitudes da politica de com- presso Salarial que atingiu 0 conjunto da classe_trabalha- “Gora. Porém, como pudemos indicar, no que concerne ao ope- Tariado metalirgico da industria automobilistica, apesar de seu saléric inal superar os valores presentes em outras categorias vinculadas as indistrias tradicionais, a dimensio da superexp! z ragdo do trabalho, com intensidade maior que outras ligadas a Departamentos nio tdo dinfimicos da economia brasileira. Por isso torna-se absolutamente necessério superar a apa- réncia, dada pela manifestagdo fenoménica dos “altos salé- seriam résponsdveis consciéncia corpo: mensio grupal. Em talirgicos da industi te sua preocupacao desde pel sencadear do primeiro surto grevista. Diziam entio: “Nap ha davida que a unidade do movimento ‘si e transformaré em realidade a partir da ago conjunta da classe trabalhadora na luta pela conquista de seus objetivos comuns, bem como través da ligacdo que se estabelecer entre as diferentes orga- Jares Aquelas ocorridas com a metalurgia. Também os trabalhadores capitulo IV. A REBELDIA DO TRABALHO nizagées sindicais.”* E, mostrando preocupacao com a hete- rogeneidade e diferenciacao no scio do proletariado in- dagavam: “Mas na busca de unidade de aco, como coadunar interesses de categorias to diferentes quanto & sua organiza. do e forca de pressao? Em outras palavras, como manter a unidade entre sindicatos de trabathadores to diferenciados como os que estado situados, por exemplo, nos setores mais desenvolvidos da economia e aqueles sindicatos de trabatha- dores de pequenas e médias empresas espathados por todo territério nacional?” * ‘Ao que respondiam: “O I Congreso realizado por nossa categoria procurou responder esse problema, sugerindo uma unidade a nivel nacional, através de um cédigo minimo de trabalho, encerrando os direitos principais, fundamentais ¢ comuns a todos os trabathadores que vivam de saldrio, em regime de emprego a partir das condigdes minimas hoje asseguradas.”7 [- Evidenciavasse, ento, o interesse em buscar pontos con- __ Jeretos de unificacéo, visando nfo uma atuagio exclusivista, // mas articulada com outras categorias operéries. © Qual foi, concretamente, o elemento impulsionador da acéo do operariado metaltirgico da indiistria automobilistica? Foi, como procuramos demonstrar na andlise das greves, a luta contra a superexploragao do trabatho, contra 0 “arrocho sala- rial”, conforme denominagao dada pelos trabalhadores & com- pressdo salarial a que estavam submetidos pela politica econd- indiscriminadamente 0 conjunto do proletariado. Nesta contextual mente secundarias — 0 que nfo em \s diferencas entre as suas diversas categorias, uma vez que a politica salarial as atingia intensamente, criando as con- digdes concretas para a unidade da agdo reivindicatéria ope- farla. Disso resultou que, ao longo da década de 70, ao ifario da exacerbacio das diferengas — como alguns vati naram — estas foram subordinadas & problemética fundante que atormentava 0 conjunto-da classe trabalhadora, do ope- 5, Conforme “Resolugées do TH Congresso dos Trabathadores nas In- Uistsias Metaldrgicas, Mectnicas e de Material Elétrico de Sio Ber- fnardo do Campo e Diadema”, Séo Bernardo do Campo, 15 de outubro es...", op. eit. p- 3, grifos meus. . 3, grifos meus, PARA UMA CARACTERIZACAO ririo da indistria moderna Aquele ligado aos ramos tradicio. nais, do operario metalurgico ao téxt uta tinha seu eixo central no combate & superesplorapto daitbelio, ptistade RO-Commbate ao artocho alarial. hs reivindieagses espectficas, Corio vimos, subordisavamrse a esta tematica maior; do theemo modo, Estado e pela plena autonomia e liberdade sindicals, plo sy direito de greve, pela criagdo das comissées de fabrica, pela \\Y negociagao direta, pela contrataco coletiva e pela reducdo, da jornada de trabalho, eram de relevancia inquestionavel | has pautas reivindieatorias operdrias, ¢ tinham um objetivo imediato: dotar o operariado metahirgico de instrumentos e! itos para que pudesse avancar na luta contra a superex- (/ ago do trabalho. A luta pela diminuicgo da opreses Aespotismo fabri, contra a racionalidade capi brionéria, inseria-se também naquela reivindicacdo p: uma vez que procurava obstar, no plano do coti bril, alguns elementos garantidores da superexpl trabalho. elemento unificador central, decisivo, capaz de superar a heterogeneidade objetiva, esi , das. distintas subjetividades que compreendem 0 contingente metahirgico, fazendo detonar 0 movimento grevista em estado de letargia havia cerca de uma década, foi a luta contra a superexplora $40 do trabalho, a compreenséo salarial, o arrocho. Como vi ‘mos nos capitulos destinados ao estudo das greves, foi neste plano que encontramos a causalidade fundante da irrupgao da aco grevista que eclodiu com intensidade, pujanca e po- tencial generalizante no triénio 78/80. E 0 papel do operaria- do metalrgico da industria automobilistica foi decisivo neste processo. Qual, entéo, a particularidade deste segmento? Inserido no niicleo dindmico da industrializagéo brasi- recente, 0 proletariado metaltirgico do ABC é a ex- _pélo avangado da fossa classe operiria, onde as ifestam de maneira acentuada; ¢ 0 “local maximo, a exasperacdo das contradigdes ™ Esta categoria, que se originou através e das Iutas s 78. Conte rmulago de Celso Frederico, in “Por que Séo Bernar. 78 Sent lagdo de Celso Frederico, in “Por que Séo Be I/maio/1980, p. 12, 159 A REBELDIA DO TRABALHO da preseag das empresas monoples maredas por fot cincenragao opera, consituvse enquanto milo mo dermo do prletariado braicro, cua origem remonta& gran Se indistia tradicional mas que, atrave do provesto de in aoio recente, vit germina in novo contingente tative ¢ qualitativamente dstinto do anterior, respon sel pl leva, «um ptamarsuperiog, da propria com figuragao do proletariado.” Com sua obj co constit =p Ua eater que ome vine anfesormente, ess Impala, as ance eave gen ate dete sclores, desde aqucles vinculados ts indistras tradicional, os gus guardam mars eran lee col tos com a angio do prolcariado da indstia metalGrsice 2 se implantou com maior vit industrializagio maciga fortaleceu o proletari amente um setor de ponta com poten ménimas. A migracio rura-urbana e a reintegra¢do do mer: cado fomentam tensées insuperdveis e formas de comunicagéo da cultura de massa que fornam as cidadesinchadas © a po breza produzida pelo subdesenvolvimento regional um fer- mento polftico crescentemente incontrolavel. A aera lizag&o e a aceleracio no desenvolvimento capitalista nao s agravaram desequilibrios regionais crénicos como plantaram nas metrépoles um estado de inconformismo exacerbado, que 86 néo ¢ mais perigoso para a ordem estabelecida porque ainda se manifesta de modo predominantemente espontaneo anomico. 160 PARA UMA CARACTERIZAGAO Tudo isso, agregado a penetracdo capitalista e as trans- formagées sociais no campo, foi"... suficiente para por em evidencia que o regime de classes, indiferenciado ¢ depri- mido nas regides nas quais a descolonizagio no chegou até o fim ¢ até o fundo, excluindo o trabalho da categoria de mercadoria ou inibindo sua valorizagao através do mer- cado [...], apresenta um maximo de saturagio e de dina. mismos diferenciadores em alguns pélos industriais densos ¢ fortes. Esses contrastes ndo traduzem apenas uma ‘con temporaneidade’ de fases histéricas distintas. Eles refle- tem a superficie © as profundezas do desenvolvimento capitalista desigual, em um ponto no qual o ‘atraso relativo’ deixa de servir como um fator de equilibrio estatico do con- junto € as ‘foras de ponta’ carregam atras de si todas as demais, gerando uma situacdo histérica revolucionaria de longa duragio. Os diversos momentos de tenséo e de con. flito, vinculados ao mais velho ¢ atrasado e ao mai © moderno, ganham a luz do encadeados e em ati operem, em escal: so, diferenciacao is de organiza: expansio do regime de classes.” # © florescimento desse novo segmento proletério dé, tam- bém, qualidade nova aquele que o originou: o migrante, exresso das regibes mais atrasadas e que, a0 insériree nos ada, assume sua face autentica- de ser social moldado pelo mundo indus- se imitil — porque insuficiente — querer diegnosticar a ago do operariado da indtstria automobi Bela_sua dimensio individual, de migrante que visu; Wislumbra sua trajet6ria ruralurbana como realizagdo de sua ‘scensio social. Tudo isso € fenoménico e mascara 0 subs. que agora se depara com 0 mundo fabril, cada vez mais propulsor de agdes coletivas. ise Operdria, Mésziros faz uma refe- te grosscira Posigdo social” debilitam @ cons: ‘A REBELDIA DO TRABALHO Por estas razées parece-nos desprovido de qualquer ve- Be ere jetiva necessariamente geradora de uma consciéncia re- fas ee es subordinada ndo conseguiu realizar-se de forma auténoma ¢ ee ae los destinadas & and Sh ine chp a nts open ee iatendaits oo'ehinde Sariapae an a core oh eres postal min i tre ‘fatos brutos’ ¢ ‘valores’ A von et ce aes por definigio (porém 6 por definicSo) implicam orl tactslorse tee ms ilitam a cons- tago, 1974, p. 434. 162 PARA UMA CARACTERIZACAO Nao estamos aludindo aqui, entretanto, ao plano da sub- jetividade operdria, aos 's politicos e principalmente ideolégicos, que marcam e singularizam a incompletude de classe. Neste plano, 0 da consciéncia, que néo é epifenome- nicamente redui idade, 0 proletariado do ABC padecia de varias limitagbes, que atingem o conjunto dos trabalhadores e que advém, fundamentalmente, do corte pre- dominantemente espontaneo da sua aco, ivos para a integralizacdo de classe do proletariado. © que procuramos problematizar, ao longo deste capitulo, € @ formulacdo que vislumbra, no plano da materialidade iado metahirgico vincula- que esta categoria no se nt des que atingiram o proletariado br s#ieiro — cuja causacdo encontra-se no padrao de acumul > "ias, 40 Contratio, vivia essa dura realidade, dada pela expropriagao, em niveis ext antes € absoluta e relativa do sobi ho ~~"“WMarcado por uma realidade que retrata uma tendéncia persistente & depreciago salarial, & constante subtragao do quantum referente & remunerac&o do trabalho em beneficio do mais-valor apropriado pelo capital monopélio, por uma concretude onde vigora a superexploragdo do trabaiho, — isto 6, a articulacgo de uma jornada prolongada de trabalho idade extenuante do proceso produtive — num parque industrial tecnologicamente avangado e com sig. nificativa concentrago operdria — que levava a0 limite 5 grau de exploragdo da forva de trabalho, op Sass trério de uma esta: bilidade efetiva, que caracteriza os segmentos eletizados do proletariado curopeu.e norteamericano, os metalargicos do ramo automobilistico vivenciaram, como vimos, altas taxas de turnover, rotatividade que ¢ decorréncia também de exis. téncia de uma forga de trabalho de reserva, que favorece e fa a tendéncia constanite & depressdo salarial, Ao contrério de um mercado de trabalho segmentado, livre da pressdo generalizante da massa migratéria que acor. 163 A REBELDIA DO TRABALHO re as areas industrializadas, a maioria do operariado meta- lirgico, composta pelo contingente semiqualificado e néo-qua- lificado, padecia também das vicissitudes que atormentavam © conjunto do operariado urbano. Ao contrario de condigdes ¢ relacdes de trabalho favordveis, 0 mundo do trabalho viven- ciava uma realidade despética e opressiva, um ritmo exte nuante de trabalho, controlada pelo crondmetro taylorista pela produgéo em série fordista, além de uma jornada de trabalho prolongada, pelo mecanismo das horas extras e pe- los turnos de trabalho. Todos estes elementos configuram 0 que temos caracterizado como sendo a superexploragéo do trabalho. A depressio salarial, 0 arrocko, isto é, a remunera- fo rebaixada da forca de trabalho e a resultante miseral dade das massas, era a sua manifestagio mais dura e imedia- ta. E foi contra essa situacdo perversa que, apesar da sua he- terogeneidade objetiva e subjetiva, a espontaneidade operéria do ABC paulista revoltou-se, desencadeando, como esperamos ter demonstrado, as greves metalirgicas no triénio 78/80, que tavam as taxas de extracdo da mai ainda que no ynassem propriamente 0 modo de producdo e a expro- priagdo do sobretrabalho. CONCLUSOES 1 — Elementos Para uma Polémica Vimos, ao longo deste trabalho, que as greves metalir- gicas desencadeadas no trignio 1978/80, encontraram sua ca salidade basica na luta contra a superexploracdo do trabatho. Ainda que diversas reivindicagées estivessem presentes, 0 que centralmente motivou a eclosao da ago grevista foi a neces. Sidade de contrapor-se ao arrocho salarial. E, assim, com. Portando uma pauta reivindicatéria de natureza predominan. temente econémica, as greves metahir i seu desencadear, contra a base material e a superestru- itica da autocracia burgues: Vimos também que as paralisagées metalirgicas foram resultado da ago espontinea dos trabalhadores, enfatizando que a presenga do Sindicato operdrio (especialmente no caso de Sao Bernardo) foi marcante e mesmo cot de toda a atuaga industria automo! marcadas por singularidades que, por vezes, a diferenciavam Quanto a aspectos de sua efetividade (preparacdo, desencadea. mento, ago teleolégica, resultados e desdobramentos). En. quanto as Greves de Maio de 1978 assumiram a forma de para. lisagdes parciais, por fabricas, com os trabalhadores de “bra. 167 A REBELDIA DO TRABALHO g0s cruzados, méquinas paradas” dentro das empresas, desen- cadeando uma ago que oscilou entre a heranca de uma fase de resistencia, defensiva, e um ressurgir com sinais de ofen- sividade, a Greve de Massas de 1979 assumiu a greve geral metahirgica do ramo automobilis diano foi marcado pela realizagio de assembléias - itérias, comportando um contetido acentuadamente ofen- ivo. Contando, uma vez mais, com a atuagéo marcante do Sindicato operdrio, a Greve Geral metalirgica de 1979 carac- terizowse também pela espontaneidade e, da mesma forma ‘que as Greves de Maio, foi vitoriosa para os trabathadores: Em contrapartida, foram duas significativas derrotas para 0 capital e 0 seu Estado politico, confrontos que repudiavam diretamente a dimensio salarial da sua politica econémica — 2 arrocho — e desnudavam 0 verdadeiro conteido do pro- cesso de auto-reforma do poder. Em 1980, entretanto, 0 quadro sofreu significativa alte. ago, Assumindo também a forma de greve geral desde seu desencadeamento, sem piquetes e novamente com milhares de operérios realizando cotidianamente assembléias gerais, plebiscitérias, a acao metaliirgica foi perdendo, ao longo dos seus quarenta e um dias, a sua pujanga inicial. Na mesma di- recio das greves anteriores, esta nova paralisago intensi- ficava a luta contra a superexploragio do trabalho, acrescida também da necessidade de se aprofundar a organizagio do sindicato e dos trabalhadores dentro das fabricas, bem como contraporse ao despotismo fabril e as formas de racionali- zacéo capitalista do trabalho. Econdmica na sua causacdo mais imediata, pi ignificagio mais profunda, a Greve Geral metaliirgica de 1980 no conseguiu, entretanto, converter-se em vit6ria para os trabalhadores, O Estado bona- partista ja havia detectado, nesta luta social, seu mais dificil 1, Uma greve espontines, isto ¢, sem disso consiente, pode s, rela fapesar de seu trabalho de deninela feito anteriormente, sua presengs nas greves efetivousse apés a paralisacio dos operdrios nas fabricas, enquanto representante dos trabalhadores nas negociagdes. Em 1979 ¢ 1960 2 entidade sindical esteve mais intimamente presente, desde 0 processo de preparacio © deflagragio das greves. 168 ELEMENTOS PARA UMA POLEMICA contendor. Urgia, entio, na légi este pélo propulsionador das agées reivindicatérias das mas- sas. E, lamentavelmente, 0 movimento desencadeado pelo operariado metal do capital. A auséncia de uma di- r ente, dotada de independéncia tedrica e ideoldgica, impossit lizagao social e po! rota. Concretamente, para que 0 movimento grevista lograsse obter uma nova vitéria era necessério' envidar e 0s, buscando envolver outras categorias operdri gicas ou nio, visando, dessa forma, @ articulagao de uma Paralisagdo ampl base social & a da greve, tinica maneira de evitar que 0 operariado metaltirgico ficasse isolado na confrontacéo com @ autocracia burguesa ¢ o Estado. Era preciso estendéla, pelo menos, para um conjunto significative de metalirgicos do * de Séo Paulo, que se encontravam em campanha sa- arial junto com os metaliirgicos do ABC, mesmo sabendo ias politicas que controlavam a maioria da- sindicatos, mas também na prépria Federacdo Meta. Isso sem falar na possibilidade remota, mas ndo inexistente, se houvesse sido previamente concebida e artic culada, de estender a Greve para outros pélos operarios nio- metalirgicos? Como esta opeao ndo foi empreendida e nem mesmo visualizada ou ideada antes da deflagracao da Greve movimento pouco a pouco acabou se a Séo Bernardo, perdendo sua era imprescindivel, pelo menos, que a sua lideranca, assumindo tarefas bdsicas de diregtio do movimento, captasse 0 momento preciso de propor um re- cia de Tealizasao de gre joristas de transportes coletivos da capital: Outtos, de Santos, haviam real fewnipaes e5 do movimento, visando a encontrar formas efetivas de apoio politico. ee 169 A REBELDIA DO TRABALHO torno provisdrio ao trabalho. Uma “trégua”, como foi deno- minada pelos trabalhadores em 1979, que pudesse permiti reabertura das negociagdes com o patronato ¢ néo sucumbir a légica imposta pela burguesia monopolista e seu poder po- Iitico, Paralelamente dar-s dade ao trabalho de mobilizagdo das bases operdrias, objetivando a retomada da greve, caso nao fosse obtido um acordo mais razodvel para 0s trabalhadores. Com isso ter-se-ia evitado que a resisténcia operria fosse perdendo 0 seu impeto e, em conseqi que a Greye entrasse num proceso de descenso inevi Esta alternativa tatica, utilizada em 1979, nao foi, entretanto, assimilada como resultando em vitoria para os trabalhadores, em especial pelo descontentamento que gerou em parcela deles. Em vista disso ela foi previamente descartada como uma p lade a ser acionada ao longo da Greve de 1980. Ao contrario, 0 que se presenciou foi a justificativa de que a greve seria necessariamente marcada pela longevidade, tinica forma que a lideranca visualizava como capaz de derrotar ‘bem como a suposicio de que o isolamento politico lade, inerente ao processo de greve, ¢ que ja, mesmo isoladamente, “desbancar a politica salarial do governo.”* Duas limitagées cruciais num contexto grevista e que tinham impregnado 0 comando do movimento, obstaculizando e impedindo que a acéo operéria pudesse efetivamente lograr mais uma vitéria. aco espontanea do prol pouco, sendo minada, resul para os operatios. de 1980. A primeit , desenvol nal, relegando a agio operdria reivindicatéria a um bordinado e dependente da frente liberal-democratica, esta sim, na pratica, erigida & condigéo de pélo central e hege- ménico na transformagio social e politica. Em outras pala- vras, decorre desta concepcdo que a ado operéria, a0 tela como parametro, nao deve transcender os limites dados pela alianga policlassista, que nutre e sustenta esta proposicio 3 Conforme “Lula: Retrato...”, op. cit, p- 30 170 ELEMENTOS PARA UMA POLEMICA ee -njunta para enfrentar a questdo soci oa geral. Ao contrario, resolveu enfrentar a agio eaciel aoe icas, as es do por décadas, mita e desorienta © pela necessidade primordial de fortalecer, camente, 0 movimento, ace de modo « permit iit, com Iso, @ am Pllagdo da Greve para outrascategerias opera nectar as condicées necessdrias se une vitovs ws eandies cess pre gue se obese un tone em alguns sindicatos metalurgicos do interior, - oe coniravam dirtamenteenvlvios no eabate ares como em eutras eteoras gue, conforme canes ments estavam na iminéacia de deflgrr gees va contraiava 0 fundamento dessa cone ‘sta, bem PaO poli 4. Ver Chasin, 1, “AB . squerda © a Nova Rey ¥ pao Ensaio, Séo Paulo, 1984, pp. X/XI. x Fegonforme Corréa, H., O ABC...., op. ci newia concepeio, como ‘se deprecnde, Uma Pm favor de una acdo junto 45 “orgas eeees uals deveria subsumirse o movimente onsen pablica”, Revista Ensaio A REBELDIA DO TRABALHO tica, cuja caracterizacdo & dada pela moderagéo ¢ néo radi- calizagio dos movimentos sociais.’ Houve, entretanto, outra concepgo que, embora efetivasse uma acdo pi ‘a da anterior — visto que incentivava a eclosio dos movimentos sociais — seio do comando de greve, de opcies capazes de oferecer ca- minhos e alternativas para a Greve. Em sua esséncia esta concepedo recusa a validade ¢ necessidade da direcao cons- ciente. O justo rechaco a concep¢ao anterior, acabou por re- sultar numa forma de culto a espontaneidade, numa acdo que se caracterizou pela prética com contetidos espontaneis- tas. Procuramos mostrar que a lideranga da Greve Geral metahirgica de 1980 acabou endossando esse tipo de concep- 40 politica, que encontrava grande repercussAo em setores da nova esquerda ndo-marxista. © paralelo entre as duas formas de condugao das Greves (em 1979 e 1980) permite uma explicitacio mais clara desta problematica: na primeira paralisagdo, quando Lula reassu- miu a lideranca do movimento, logo aps 0 momento de crise aguda aflorada com a sua auséncia momentanea, assumiu também sua condugao politica ao propor, mesmo contra a disposigao espontanea de parcela da massa, a necessidade de um retorno provisério ao trabalho, capaz de permitir a rea- bertura das negociagées, a efetivacio de um acordo mais ra- zoavel, bem como a nao desestruturago da organizagdo ope- raria até ent&o alcangada. Neste momento 0 comando de greve no recusou 0 papel de propor alternativas para o mo- vimento e, ao fazé-lo, logrou obter uma significativa vitéria, que foi, pouco depois, com a efetivagio do acordo e a re. tomada do Sindicato, assimalada também pela parcela da massa operéria que era favordvel & continuidade da parali. sacdo. J4 durante a Greve de 1980, a lideranca recusou aquela 6A partir de entio acirraram-se ainda mais os Snimos © dissencGes entre ¢ Unidade Sindical ¢ 0 nove sindicalismo, originando, posterior ‘mente, as duas principais centrais sindicais existentes no pals, O novo sindicatismo em grande medida agregou-se em tomo da Cent dos Trabalhadores (CUT), a partir do Congresso de Sio Be 7 ‘A Unidade Sindical, no mesmo ano, no Congresso da Praia Gram 0s setores mais combatives do movimento sindical, 2 CGT pauta sua acio num univers. mais ‘moderado © coneiliador. 172 ELEMENTOS PARA UMA POLEMICA ico, mas sim daqueles ando das assembiéias, fa do prosseguimen- 'S dificuldades materiais idade concreta da vitoria, que, inversamente, mostrouse equivocada e res tese: em 1979 houve um de ago com lampejos de direg tento estampou a exaspera ciente (aqui pensada enqu: @ condugo politica imprimida ultou numa derrota, Numa sin scolamento no sentido de uma ‘do politica; em 1980 0 descola- ‘edo de uma formulacdo incons- lanto expresso da falsa consciém A REBELDIA DO TRABALHO cia)? No primeiro evento a lideranga espontanea exprimiu, naquele curto periodo, elementos embriondrios de direc efetiva, do que resultou a espontanea passou a praticar uma concep¢ao pol nada de fortes componentes espontanefstas, que acabou re- sultando em um revez. nexos existentes entre as adquiridos no curso da agao espontanea, 0 que nos permite falar em avangos no plano da subjetividade do trabalho. Esses avancos encontravam, entretanto, conforme ja 0 disse- mos, sua limitacdo objetiva na auséncia de uma teleologia consciente na condusao das greves. J4 a Greve Geral meta- irgica de 1980 teve reper it problematicas: sendo sua espontdnea, mas que durante a proc tamorfoseou-se em uma condugio pontaneistas, di ‘ou a introjecdo © incorporaclo, no seio de parcela significativa da massa, de concepgées que desconsideravam ou mesmo recusavam a necessidade da di- reso consciente* Mais ainda, 0 entendimento feito pela lideranga, de que 1 greve de 1980 foi um movimento vitorioso, tem componen- tes que, pela desconsiderago e perversio da realidade con- creta, bem como pelas repercussdes negativas que essa con- cepgéo gera na consciéncia da massa, nfo favorecem 0 pro- cesso de conscientizacio do trabalho — como pode sugerir tum estudo epidérmico ¢ fenoménico — mas o seu contrério. Temsse, neste caso, uma situaco na qual um entendimento equivoco de um processo de greve acaba tendo repercussdes intensamente prejudiciais 20 desenvolvimento da consciéncia operaria. Tomar como vitorioso um movimento que, numa como @ manifestagio 7. Falsa consciencia entendida, conforme Lub ”, op. city p. 42, Ver também Tribuna Metalirgica, n° 55, dezembro de 1979, p. 5. 174 anise concreia, mostrase como forte derota, acaba por or fim, queremos mencionar ma wm : ionar mals um desdebrameato possivel desta eoncepeo,tambdm ern nose eee due consist, concrelamente, ma eee ie os eft das preter gue se atginam ag es entaneas: estas tendo sempre Gin sige a oe Obie pelo fato de expressarem a aglo “ender oe Hoes? s2s sem a presen da direio consiente Lene a essa concepeao confere um prima tach neem curso da greve, A sun forma, h sus orcas, oe de seus objetivos, contetidos e resultados concretos.? mente nfo hi, nesta varlanteinterprectee sempre present, com ina kinsiea Sopa bre alguna forma de ita co dicagdes que motivaram ec ¥ eaten invés de elevar qualitativam isco de um novo dogmatismo ¢ evidente: no ha denong Para o movimento opersrio; sua ago, quando espontinee a lrretocdvel ¢ inequivoca. Do que resulta que a teore ea aire a Quando presentes, tendem a rar sSo do movimento operario.” een a macula, 10 sentido, encontramos em A. desdobramentos.proxims ue © éxito de uma greve comum ‘confere aos operitios ato institucional do si 2 subs in Teor bp. 68-70, grifos meus, 175 ‘A REBELDIA DO TRABALHO Como contraponto necessério: numa greve, é evidéncia ele- mentar que sua positividade se efetiva quando ocorrem avan- roe qualitativos no plano da consciéncia operdria Isto, porém, 0s aiiza de maneira tanto mais s6lida quanto mais as reivin- ‘ficagoes fundantes, motivadoras, sAo conquistadas como resul cade da agdo e, o que € decisive, quanto mais os objetivos ime vstoe sao inseridos numa Iuta mais global contra os funda: quanto mais se consegue trans- ‘dade, “transcender , de um determinado sncia global de seu ser soc tre a imediatidade e os interesse mais abran; organicidade © os seus conteddos sétio risco de se perder no fragmentario e, Operar um verdadeiro avango qualitative na conse raria, ‘Se essa contraposigdo é necesséria, para que nao s¢ caia no terreno nebuloso da indeterminagao ¢ da auséncia de me- iagdes, gostariamos de formular uma indagagio que de- Some da propria investigagdo concreta que realizamos: no Curso de um processo de greve, em sua efetividade, em que medida pode haver ou ndo um avango real no plano da sub- jetividade do trabalho, da sua consciéncia? ‘Nesta ultima parte desta Conclusio pretendemos ofere- cer alguns elementos visando responder a esta indagacio. ja" Do que se depreende que “o marxismo ndo ¢ hoje a expressio sein Do. vero a expressio em. qualquer sentido, do que essas — do pro soft madas podem conter de revolucionario; proletrimnito & intiferente a elas e, na maioria dos casos, éthes po- inclal ou abertamente host. {encial fimo nfo pode ser efetivamente, doravante, mais do. aus O mime rentido forte da expressio, invocagtio, de entidades fic cipios abstratos que, coneretams rica, caja. verdadeira Conforme Castoriadis, C, sien A Experiéncia.... op. 6it., pp. 7677. Ae apeerine Mészhros, T., "Conciencia...”, op. cit. P. 138. 176 II — Trabalho, Greve e Consciénci¢ , scien Algumas Consideragdes Teéricas. Trabalho, Estranhamento e a Greve ee za-se pelo trabalho. E a partir do traball dade, que 0 homem torna-se ser s« : aaah ‘i a melhor abelha; aquele “obtém um resultado que ja Se matéria natural seu b ce 177