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Viveiros Educadores

Plantando Vida

Organização:
Gustavo Nogueira Lemos
Renata Rozendo Maranhão
ministério do meio ambiente
secretaria de articulação institucional e cidadania ambiental
departamento de educação ambiental

Viveiros Educadores
Plantando Vida

Organização:
Gustavo Nogueira Lemos
Renata Rozendo Maranhão

brasília, janeiro de 2008
© 2008 Ministério do Meio Ambiente
Qualquer parte desta publicacão pode ser reproduzida, desde que citada a fonte.
Tiragem: 5.000 exemplares

Presidente
Luís Inácio Lula da Silva

Ministério do Meio Ambiente
Marina Silva

Secretaria de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental
Hamilton Pereira da Silva

Departamento de Educação Ambiental
Marcos Sorrentino

Ministério do Meio Ambiente, Departamento de Educação Ambiental
Esplanada dos Ministérios – Bloco B, sala 553
Cep: 70068-900 – Brasília / DF
Tel: 55 61 - 3317 1207
Fax: 55 61 - 3317 1757
e-mail: educambiental@mma.gov.br

Organização:
Gustavo Nogueira Lemos
Renata Rozendo Maranhão

Revisão:
Dario Noleto
Ana Luisa Castelo Branco
Eduardo Lyra Rocha
José Vicente de Freitas
Marcos Sorrentino
Philippe Pomier Layrargues

Projeto gráfico, capa e ilustrações:
Masanori Ohashy
Idade da Pedra Produções Gráficas LTDA
Diagramação:
Alexandre Lemos (estagiário)
Idade da Pedra Produções Gráficas LTDA

Fotos:
Gustavo Nogueira Lemos
Eduardo Lira Rocha
Instituto de Permacultura, Organização, Ecovilas e Meio Ambiente - IPOEMA
Grupo de Trabalho de Apoio a Reforma Agrária - GTRA/UnB.

Catalogação na fonte: Centro de Informação e Documentação-CID Ambiental /MMA

B823v
Brasil. Ministério do Meio Ambiente. Secretaria de Articulação Institucional e Cidadania
Ambiental. Departamento de Educação Ambiental.
Viveiros educadores: plantando vida. - Brasília: MMA, 2008.
84 p.; 23 cm.

ISBN 978-85-7738-092-3

I. Título. II. Educação ambiental.

CDU 37:504
Agradecemos especialmente à Ondalva Serrano que
com seu profundo conhecimento e larga experiência de
vida contribuiu de forma inspiradora e complementar
na idealização da proposta dos “Viveiros Educadores”.
A leitura atenta e crítica de um documento por ela
produzido, repleto de aspectos humanitários, princípios
e conceitos do pensamento sistêmico, foi fundamental
para a elaboração dessa publicação.
Maiores informações sobre este documento po-
dem ser acessadas na íntegra pelo endereço eletrônico
www.mma.gov.br

Carinhosamente,
Equipe DEA
SUMÁRIO

Apresentação......................................................... 8
O que são viveiros educadores........................... 10
Os viveiros e sua contextualização
na realidade brasileira........................................ 15
A estrutura organizacional e operacional
de um viveiro educador........................................ 18
Equipe pedagógica.................................................20
O Projeto Político-Pedagógico...........................22
O Viveiro e a Escola 26, Segurança Alimentar 28, Inclusão Social 31,
Profissionalização e Geração de Trabalho e Renda 33, Arborização Urbana 36,
O Viveiro como Instrumento de Organização Social de Comunidades
e Assentamentos Rurais 38,Pesquisa e Desenvolvimento 40,Comércio Solidário
41, A Realização de Parcerias e a Sustentabilidade do Viveiro Educador 44.

Procedimentos técnicos necessários
para a implementação de um viveiro................... 46
Escolha do Local 48, Estruturas Necessárias para a Condução das Atividades 52,
Como Realizar a Coleta de Sementes 56, A Escolha das Sementes 59, Secagem
das Sementes 59, Como Armazenar suas Sementes 60, A Gincana como
Estratégia de Coleta 60, Quais são as Atividades Envolvidas no dia-a-dia
do Viveiro? 62, Plantio das mudas em campo 74.

Anexos.................................................................... 81
ReferÊncias Bibliográficas................................. 86 
Viveiros Educadores Plantando Vida

Apresentação
O Departamento de Educação A problemática ambiental é ex-
Ambiental do Ministério do Meio tremamente complexa, envolve em
Ambiente procura desenvolver pro- sua raiz questões de caráter social,
gramas, projetos e ações pautadas econômico, político e cultural, e
pela perspectiva de cultivar a vida e deve ser encarada de forma ampla,
a felicidade de viver, estimulando a conjugando esforços nas mais dife-
participação popular individual e co- rentes frentes de atuação, para que
letiva nessa direção. as transformações almejadas tor-
Esses programas, projetos e nem-se realidade.
ações têm por finalidade contribuir Nesta jornada é importante
para a formação de cidadãs e cida- utilizarmos de forma intencional e
dãos que busquem cotidianamente consciente os espaços e estruturas
a construção de sociedades susten- existentes em nossa sociedade com
táveis, aprendendo e educando em potencial para a formação de edu-
sua prática. cadoras e educadores ambientais
É cada vez mais evidente a neces- capazes de irradiar pró atividade e
sidade da participação popular em comprometimento, e com isso, con-
processos que busquem inverter a tagiar cada vez mais pessoas dispos-
lógica do desenvolvimento acompa- tas a contribuir.
nhado da degradação ambiental. Espaços e estruturas educado-
O envolvimento em ações dessa ras são aquelas que demonstram,
natureza oportuniza a reflexão sobre ou podem demonstrar, alternati-
os fatos, razões e interesses pelos vas viáveis para a sustentabilidade
quais nossa sociedade seguiu nessa frente ao modelo hegemônico de
direção. Refletir sobre tais aspectos é desenvolvimento, possibilitando o
essencial para questionarmos as es- aprendizado vivenciado, dialógico e
colhas feitas e compreendermos que questionador acerca das temáticas
é possível trilhar outros caminhos, nelas abordadas.
calcados pela solidariedade, pela Viveiros florestais, ciclovias, hor-
universalização da qualidade de vida, tas orgânicas, faixas de pedestre,
pela valorização do ambiente, e do jardins de ervas medicinais, salas ver-
ser humano, como sujeito atuante na des, museus, centros de educação
construção de um mundo melhor. ambiental entre outras, são exem-
Apresentação 

plos de estruturas e espaços que Educação Ambiental crítica e eman-
podem assumir esse papel. cipatória, atendendo a crescente de-
O processo de aprendizagem manda por subsídios que orientem,
desencadeado pela utilização in- técnica e pedagogicamente a produ-
tencional destas estruturas busca ção de mudas e o plantio de árvores
proporcionar a reflexão crítica sobre como um processo continuado de
os diferentes aspectos que a cercam, aprendizagem, extrapolando a pers-
estimulando as pessoas a realizarem pectiva pontual que tem caracteriza-
ações em prol do bem estar coletivo, do historicamente essa atividade.
assim como, a rever valores, méto- Reflorestar as áreas nativas de-
dos e objetivos. gradadas e requalificar os espaços
O que transforma uma estrutura urbanos é um desafio enorme e
simples, utilizada cotidianamente de necessário, que deve ser abraçado
forma desapercebida, em uma estru- por todos. Trata-se de uma demanda
tura cheia de significados e aprendi- prioritária em todo o planeta, seja
zados, é a qualidade das relações que pela importante função que a ve-
se mantém com ela e dentro dela. getação exerce na manutenção dos
Nesse sentido, um bom exemplo de recursos hídricos e regulação do ci-
estrutura que poderia ter apenas um clo hidrológico, pela proteção e fer-
caráter produtivo, ou mesmo comer- tilização dos solos, pela perpetuação
cial, mas apresenta um enorme poten- da fauna silvestre, ou ainda, por esti-
cial educador, é o viveiro florestal. mular a reflexão sobre que medidas
O projeto “VIVEIROS podemos tomar frente ao eminente
EDUCADORES” busca estimular, avanço do aquecimento global.
orientar e apoiar a implementação Nosso desejo é que os Viveiros
de viveiros florestais como espaço de Educadores sejam mais do que uma
aprendizagem, estimulando os vivei- política pública, indo além, como
ros já existentes a perceberem, valo- instrumentos populares de transfor-
rizarem e a incorporarem a dimen- mação, enraizados em toda a socie-
são educadora em suas atividades. dade brasileira, contribuindo para o
Destina-se a educadoras e edu- resgate e a construção da “cultura
cadores ambientais, viveiros florestais do plantar”, presentes tanto nas
em atividade, grupos e instituições comunidades rurais, quanto no meio
organizados que possam deflagrar esse urbano, em suas instituições, esco-
processo em suas comunidades, e ain- las, bairros e lares, fortalecendo as
da, a todos que tenham interesse em relações pessoais, os laços afetivos, e
se aprofundar na temática e contribuir cativando cada vez mais pessoas dis-
para a transformação de sua realidade. postas a refletir e agir na direção de
Pretende-se assim dar mais um um mundo mais justo e equilibrado
passo para efetivar o alcance da para todos.
10 Viveiros Educadores Plantando Vida

O que são viveiros Educadores?

Viveiros Educadores são espaços vividos, assim como, as diferentes
de produção de mudas de espécies possibilidades de atuação, o proces-
vegetais onde, além de produzi-las, so de produção de mudas passa a
desenvolve-se de forma Intencional, ter outro significado, mais amplo e
processos que buscam ampliar as profundo.
possibilidades de construção de co- A produção de mudas e o plan-
nhecimento, exercitando em seus tio de árvores são temas geradores
procedimentos e práticas, reflexões bastante eficientes. Por meio deles é
que tragam em seu bojo, o olhar possível estimular o alcance da com-
crítico sobre questões relevantes preensão sistêmica que a questão
para a Educação Ambiental como: ambiental exige.
ética, solidariedade, responsabilida- Desde que conduzido de forma
de socioambiental, segurança ali- pedagógica e questionadora, o vivei-
mentar, inclusão social, recuperação ro pode estimular o surgimento de
de áreas degradadas entre outras novas iniciativas que complementem
possibilidades. e fortaleçam a atuação de grupos e
São espaços onde a produção de instituições que desenvolvem proces-
mudas é tratada como porta de en- sos de Educação Ambiental em todo
trada para reflexões mais profundas o país.
sobre as causas e possibilidades de
enfrentamento para a problemática
socioambiental.
Um viveiro florestal pode ser uma O que diferencia o viveiro
simples fábrica de mudas, conduzido florestal convencional de
metodicamente, sem estabelecer um viveiro educador é a in-
nenhum tipo de reflexão acerca da tenção de utilizá-lo como
complexidade envolvida. espaço de aprendizagem,
No entanto, ao refletir-se inten- orientado por elementos
cionalmente sobre a forma como e procedimentos pedagógi-
o ser humano tem se relacionado cos destinados a formação
com o ambiente, as causas e efei- das pessoas que com ele
tos dos problemas socioambientais interagem.
11
12 Viveiros Educadores Plantando Vida

Para tanto, é necessário estru- As ações propostas pelos grupos
turar-se, e caminhar na direção da envolvidos com o viveiro devem de-
construção de um projeto político sencadear o surgimento de projetos
pedagógico que oriente a condução que tenham poder de influência e
de todo o processo. transformação da comunidade em
É nesse movimento de constru- que está inserido, exercitando a pos-
ção coletiva, em que as diversas pos- tura ativa e cidadã dos envolvidos.
sibilidades de abordagem e aprendi- Nesse sentido, o viveiro educador
zagem são exploradas e organizadas pode desempenhar um importante
com o intuito de despertar o espírito papel em processos de educação
crítico, que o viveiro passa a ter sua ambiental, tendo como objetivo
dimensão educadora exercitada. contribuir para a viabilização das
Há no território brasileiro uma transformações socioambientais ne-
grande diversidade de tipos de vivei- cessárias ao resgate da qualidade de
ros destinados à produção de mudas vida e do bem estar humano.
de inúmeras espécies vegetais. Eles Nesta publicação pretende-se
podem ter caráter e destinação vari- apresentar alguns elementos neces-
ável, apresentando diferentes modos sários para a utilização de viveiros
de produção e objetivos. florestais como espaços educadores,
Existem viveiros destinados à abordar ainda, de forma clara e
produção comercial, para o autocon- abrangente, os aspectos relaciona-
sumo, com finalidade de inclusão dos a sua função produtiva.
social, com caráter técnico-científico,
além da finalidade educativa, seja
em uma perspectiva de formação de
educadores ambientais ou mesmo
profissionalizante.
Alguns são altamente tecnifi- “Podemos caracterizar um
cados e automatizados, enquanto viveiro florestal como um
outros são simples, com baixo in- espaço estruturado, com
vestimento em capital, e totalmente características próprias,
operacionalizados manualmente. No destinado à produção, pro-
entanto, todos os tipos de viveiros teção e manejo de mudas até
são capazes de assumir um caráter que tenham idade e tamanho
educador, desde que adequadamen- suficientes para resistirem
te conduzidos. às condições adversas do
meio e terem um crescimento
satisfatório quando plan-
tadas em definitivo“
(PAIVA, 2000).
13
14 Viveiros Educadores Plantando Vida
15

Os viveiros e sua contextuali-
zação na realidade brasileira
O Brasil é conhecido mundial- necessidade de recuperação de suas
mente por sua rica diversidade de áreas degradadas, para a produção
ecossistemas e biomas naturais: con- de madeira, frutos e outros bens de
seqüência de sua grande diversidade consumo florestais, ou ainda, para a
climática e geofísica. Nessa hetero- comercialização de mudas.
geneidade ambiental e também cul- A sociedade civil organizada
tural, a complexidade e diversidade também atua no enfrentamento
são bastante ampliadas, exigindo dos problemas socioambientais que
para uma adequada contextualiza- contribuem para a perda da qualida-
ção dos viveiros educadores em todo de de vida, sendo uma das grandes
o território, a construção de uma incentivadoras da implementação de
proposta aberta e flexível, adaptável viveiros.
a toda essa diversidade de cenários e A produção de mudas nativas,
de contextos locais. frutíferas e ornamentais é uma ren-
Existem hoje no país inúmeros tável atividade empresarial. Cada
viveiros conduzidos por órgãos vez mais surgem viveiros com perfil
governamentais como Secretarias comercial buscando conquistar esses
Estaduais ou Municipais de Meio mercados.
Ambiente, órgãos ligados ao É crescente o número de médios
uso e gestão da água, além de e grandes produtores rurais que, em
Universidades e Institutos de virtude da excessiva e irresponsável
Pesquisa e Ensino. Outros são con- maximização da produção, ou mes-
duzidos por empresas privadas que mo pelo desconhecimento de suas
desejam assumir sua responsabili- danosas conseqüências, degradaram
dade socioambiental, ou ainda, em- as áreas de preservação permanente e
presas que possuem algum passivo reserva legal de suas propriedades. E
ambiental e desejam associar a sua hoje, para conseguir licenças ambien-
imagem os aspectos positivos que a tais junto aos órgãos competentes,
atividade traz. são obrigados a adequar suas proprie-
Diversos assentamentos rurais dades à legislação vigente e executar a
provenientes do processo desenca- recomposição das áreas degradas.
deado pela Reforma agrária apre- Outra categoria de consumidores
sentam viveiros florestais, seja pela de mudas nativas que tem cada vez
16 Viveiros Educadores Plantando Vida

mais absorvido parte da produção No entanto, todos esses viveiros
comercial, é a das grandes empresas têm um enorme potencial para tor-
do setor primário, como as siderúrgi- narem-se educadores, desde que se
cas. Estas esmpresas causam grande reestruturem com o intuito de in-
impacto e degradação, e para obter corporar a dimensão pedagógica ao
o licenciamento dos órgãos compe- processo, despertando nos grupos
tentes, necessitam realizar a chama- envolvidos o olhar crítico, o aprendi-
da “compensação ambiental”. zado dialógico e o espírito coletivo
Todavia, apesar de toda essa di- diante da realidade socioambiental.
versidade de viveiros existentes, em Nesse sentido, é imprescindível
geral, não há uma conectividade en- desenvolver políticas públicas que
tre eles, uma ação coordenada que incorporem a dimensão educadora à
os una e potencialize a ação de cada produção de mudas, potencializando
um. Informações como o número de os processos de restauração da ve-
viveiros existentes, o tipo de mudas getação nativa, de requalificação do
que produzem, a capacidade instala- ambiente urbano e melhoria da qua-
da de produção e quais já atuam em lidade de vida da população.
uma perspectiva educadora são difí-
ceis de ser obtidas, o que representa
um grande desafio na condução
desse processo de forma articulada.
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18 Viveiros Educadores Plantando Vida

A estrutura
organizacional e
operacional de um
viveiro educador
Na estruturação, implementação e organização de
viveiros educadores, alguns aspectos são essenciais
para assegurar o alcance dos objetivos esperados.
Nessa perspectiva, podemos destacar três pilares
básicos:

1. Equipe pedagógica;
2. Projeto Político
Pedagógico;
3. Procedimentos
técnicos;
Estes componentes, uma vez definidos e dimen-
sionados, serão fundamentais para elaboração, imple-
mentação e avaliação das ações desenvolvidas pelo
viveiro.
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20 Viveiros Educadores Plantando Vida

Equipe pedagógica

O tamanho e a composição da qualificação nas diferentes áreas de
equipe necessária para gerir um atuação.
viveiro educador variam de acordo Buscando tornar o ambiente
com sua dimensão, objetivos e o do viveiro harmônico e produtivo,
contexto em que está inserido. Não e estreitar e fortalecer as relações
existe uma regra única ou arranjo pessoais, devem ser previamente
ideal para a composição de uma acordados os princípios e as normas
equipe, que contemple toda a diver- de convivência do grupo, além de
sidade de possibilidades e situações. definir instâncias colegiadas como
O importante é que a equipe tenha espaços qualificados para a solução
caráter diverso, que valorize as de conflitos e tomadas de decisão.
parcerias em um sistema de gestão Na gestão de todo o processo,
integrada e complementar, em que será muito importante a prática da
funções, competências e respon- ética, da solidariedade, e a abertura
sabilidades sejam partilhadas, para para o diálogo. A coerência entre os
que todos tenham clareza de sua princípios e os valores difundidos e
atuação. os realmente praticados, interna e
O processo de formação da equi- externamente, é essencial para que
pe deve estar previsto e especificado o viveiro educador contribua para
no projeto político-pedagógico do mudanças efetivas, dando sentido e
viveiro, que por sua vez, deve ser para sua existência.
elaborado de forma participativa, A seguir, apresentam-se algumas
com a colaboração de todos os en- funções importantes no processo de
volvidos e interessados. gestão de um viveiro. Cabe destacar
Ao longo do processo, é desejá- que este é apenas um dos possíveis
vel que as pessoas envolvidas com arranjos, que pode, de acordo com
o viveiro se apropriem dos conhe- cada contexto, ser revisto e adapta-
cimentos e habilidades necessários do a realidade local.
à execução de outras funções,
além das que já desenvolvem, o
que proporciona o aprendizado e a
Equipe Pedagógica 21

Coordenador do viveiro
É responsável por orientar o planejamento,
conectando o processo de produção de mudas e
a ação pedagógica às inúmeras outras atividades
e processos demandados. O coordenador deve
ainda ser uma referência nas relações interpessoais
da equipe.

Técnico viveirista
É o responsável por gerir e acompanhar de per-
to o processo de produção das mudas, coordenan-
do as atividades diárias envolvidas, como: prepara-
ção do substrato, irrigação, o manejo das mudas
e o tratamento das plantas doentes, considerando
sempre a proposta pedagógica do viveiro.

Educador ambiental
É o responsável por coordenar, junto aos en-
volvidos, a elaboração, implementação e avaliação
do Projeto Político-Pedagógico, buscando atender
as demandas e especificidades da região em que
o viveiro está inserido. Outra responsabilidade do
educador ambiental é mobilizar e articular a co-
munidade local, para assumir o protagonismo em
todo o processo.

Voluntários
São responsáveis por dar o apoio necessário às
atividades desenvolvidas pelas diferentes frentes
de atuação do viveiro, sendo este um estágio ini-
cial de envolvimento, no qual espera-se cativar o
interesse dos voluntários em aprofundar-se cada
vez mais nas atividades, assim como, estimular o
seu círculo de convivência a participar do processo.
22 Viveiros Educadores Plantando Vida

Projeto Político-Pedagógico

O conceito de projeto político “É portanto um documento
pedagógico há tempos é associado e identitário, no qual os su-
debatido em processos de educação jeitos se vêem e atuam sobre
formal. Todavia, o seu significado as suas demandas e planos,
ainda é desconhecido ou muito pou- que serão periodicamente
co utilizado por grande parte das revistos e sistematicamen-
pessoas e dos grupos que atuam no te re-construídos”
campo “não formal” da educação. (BRASIL, 2005).
Um Projeto Político-Pedagógico
(PPP) consiste na elaboração de uma
proposta educacional para determi-
nado espaço, grupo ou processo,
apresentando desde seus referenciais
conceituais, filosóficos e políticos até
a forma como será operacionalizado.
Deve ser aqui entendido não
somente como um documento que
reúne os elementos relativos ao
processo educacional deflagrado em
um viveiro, mas também como um
processo de gestão contínua e de-
mocrática, que deve envolver todos
os indivíduos, grupos e instituições
com os quais o viveiro dialoga e se
relaciona.
Projeto Político Pedagógico 23

Na construção do PPP direcionado ao Viveiro
Educador, alguns questionamentos devem ser feitos
com o intuito de estimular e orientar o planejamento
da proposta pedagógica. Entre eles destacam-se:

Onde se pretende chegar com a implantação do
Viveiro Educador no contexto em que está inserido?
Quais são os objetivos a serem atingidos?
Quais são os princípios e diretrizes que irão guiar
a condução do viveiro?
A quem se destina este viveiro?
Quais são os referenciais teóricos e práticos que
orientam este processo?
Quais outros temas devem ser abordados nas
reflexões do grupo?
Como estabelecer as conexões necessárias en-
tre os temas?
Existem experiências exitosas?
Quais são os recursos financeiros e materiais dis-
poníveis para a execução da proposta?
Com quais pessoas pretende-se conduzir as ativida-
des demandadas?
Quais são as estratégias para monitorar e avaliar o
processo?
Que indicadores podem ser utilizados?

As respostas a estas questões devem fornecer os
subsídios necessários para que o grupo avalie a perti-
nência da proposta, e reflita sobre as razões pelas quais
se envolveram no processo, assim como, se esta é a via
mais eficaz para atingirem os objetivos almejados.
24 Viveiros Educadores Plantando Vida

O plantio de árvores é apenas uma das
muitas frentes de atuação para o processo
de enfrentamento da ampla e sistêmica pro-
blemática socioambiental, não sendo, por si
só, suficiente para reverter o atual quadro de
degradação em que vivemos.
As reflexões e ações desencadeadas a
partir das atividades desenvolvidas no viveiro
devem buscar estabelecer as conexões neces-
sárias à compreensão da radicalidade e com-
plexidade envolvida nesse processo.
Uma abordagem parcial e reducionista
pode desencadear o efeito contrário ao es-
perado e proporcionar uma educação am-
biental superficial, sem o espírito crítico e
transformador.
Implantar viveiros educadores sem reali-
zar uma análise conjuntural e política, assim
como, um diagnóstico prévio, feito de forma
participativa junto à comunidade envolvida,
pode ocasionar a criação de estruturas sub-
utilizadas, e, numa perspectiva mais ampla,
transformar o viveiro em um “mito” de estru-
tura não funcional.
É imprescindível que a pertinência do vi-
veiro no contexto local seja uma demanda
legitimada pela comunidade, uma proposta
embasada nas demandas locais, e não, uma
ação isolada e impositiva.
Cabe destacar que o Projeto Político
Pedagógico deve ser aberto e flexível para
permitir que as experiências vivenciadas sejam
objeto de reflexão e sejam incorporadas, de
forma dialógica, à proposta em construção.
Nesse sentido, o monitoramento e a ava-
liação das ações desenvolvidas devem ser rea-
lizados de forma regular, para que o processo
seja aprimorado permanentemente.
Projeto Político Pedagógico 25

Buscando orientar a construção do PPP e facilitar a sua
compreensão, é importante organizá-lo em três marcos
estruturantes:

O Marco Conceitual
Nele devem estar expressos os princípios, os valores, a ética, o sonho
de futuro e a concepção de sociedade partilhados pelo grupo. É importante
enunciar os referenciais teóricos e conceituais que irão orientar as ações do
viveiro, a compreensão de educação ambiental do grupo, as bases metodoló-
gicas que serão desenvolvidas, assim como, os objetivos, papéis e missão do
viveiro educador.

O Marco Situacional
Refere-se ao conhecimento e sistematização das informações sobre a rea-
lidade em que o viveiro está inserido. Nesse sentido, observa-se a necessidade
da realização de um diagnóstico amplo, atento aos aspectos ambientais, so-
ciais, econômicos, políticos e culturais relacionados ao território de abrangên-
cia e sua população.
Informações como o histórico de ocupação, aspectos físicos da região e as
características da população devem estar expressos, destacando seus anseios,
demandas e prioridades e desvelando os conflitos, contradições e entraves ao
processo. É necessário ainda, mapear as ações de educação ambiental desen-
volvidas, assim como, os potenciais parceiros, grupos e instituições que atuam
na região. É com base nessas informações que as ações serão planejadas.

O Marco Operacional
É onde apresenta-se o planejamento das estratégias e ações que serão
desenvolvidas no âmbito do viveiro, enunciando de forma clara e objetiva as
metas propostas e as metodologias que serão utilizadas para o seu alcance. É
necessário definir um cronograma de atividades alinhado com as metas defi-
nidas, destacando a composição e as funções das equipes envolvidas, assim
como, as bases e normas de organização e funcionamento do viveiro.
É essencial explicitar as estratégias de monitoramento e avaliação que se-
rão utilizadas, e ainda, definir o planejamento orçamentário, identificando os
recursos demandados e os disponíveis, assim como, meios para captar o que
for necessário inicialmente e um planejamento estratégico que promova a sus-
tentabilidade do viveiro.
26 Viveiros Educadores Plantando Vida

Possibilidades de abordagem e atuação na
implementação de viveiros educadores
A complexidade e o caráter sistêmico das questões envol-
vidas com o viveiro torna essencial o uso de abordagens
inter e transdisciplinares no processo pedagógico de-
senvolvido. Desse modo, recomenda-se a adoção de linhas
de atuação mais diversas quanto for possível, abordando
questões sociais, ambientais, econômicas, políticas, cultu-
rais e humanas. Nesse sentido, apresentamos a seguir algu-
mas possibilidades.

O viveiro e a escola
A escola é certamente a principal
estrutura educadora construída na
nossa sociedade. Porém, segundo
Matarezi (2005), em muitos casos,
as escolas constituem espaços pa-
dronizados, cujas formas e estru-
turas foram pensadas para atender
determinadas funções e objetivos
pedagógicos que levam a reclusão,
controle e vigilância, ou seja, de re-
gulação e não necessariamente de
emancipação.
Buscando trazer um caráter
emancipatório para o ambiente es-
colar, podemos utilizar como espaço
educacional não somente a sala de
aula, mas também outras estrutu-
ras como um viveiro, uma horta,
um jardim de ervas medicinais, um

Maiores informações sobre como elaborar um PPP podem ser obtidas na publicação
“Projeto político pedagógico aplicado a centros de educação ambiental e a salas
verdes”, disponível no portal eletrônico do Ministério do Meio Ambiente, cujo
acesso pode ser feito pelo endereço: www.mma.gov.br
Projeto Político Pedagógico 27

Esse processo deve ser continu-
ado, e desencadear na comunidade
estudantil, uma relação de iden-
tidade com o espaço com o qual
convive, interage e aprende cotidia-
namente, estimulando em suas ativi-
dades o respeito e o cuidado com o
ambiente e as pessoas que a cercam.
Nesse sentido, o viveiro educador
deve possibilitar o desenvolvimento
de atividades relacionadas a todas
as disciplinas oferecidas no currículo
escolar, de forma que as questões
socioambientais sejam trabalhadas
transversalmente.
Ao trabalhar a educação am-
biental com crianças, adolescentes
bosque de espécies nativas ou uma e adultos nos espaços escolares, os
biblioteca, onde os alunos possam conhecimentos ali gerados precisam
refletir sobre novas possibilidades ser internalizados no diálogo e in-
de atuação coletiva, bem como, em teração entre a escola, a família e a
formas positivas de expressar suas comunidade.
potencialidades individuais. O corpo docente das escolas
A presença de viveiros e hortas tem, de um modo geral, uma forma-
em espaços escolares não é nenhu- ção fragmentada, limitada por disci-
ma novidade, existem inúmeros plinas específicas, que utilizam como
viveiros escolares no país. No en- base o conhecimento acadêmico,
tanto a abordagem utilizada tem, restrito na maioria dos casos, ao
em geral, se demonstrado pontual, campo teórico e cartesiano, o que
caracterizada pela superficialidade, dificulta a compreensão sistêmica
insuficientes para atingir as transfor- que a questão ambiental necessita,
mações esperadas. limitando conseqüentemente sua
A utilização do viveiro como es- atuação.
paço de aprendizagem deve propor- Estimular e instrumentalizar os
cionar a convivência em um ambien- professores para utilizar o viveiro
te fértil para o desenvolvimento de como espaço educador integrado ao
atividades que trabalhem de forma Projeto Político Pedagógico escolar
ampla e transversal aspectos sociais, é um dos grandes desafios desse
ambientais, culturais e políticos. processo.
28 Viveiros Educadores Plantando Vida

É primordial, ainda, assumir os Segurança Alimentar
conhecimentos, conexões e princí-
pios da transdisciplinaridade, ine- A Lei Nº 11.346, de 15 de se-
rentes às questões socioambientais tembro de 2006, que cria o Sistema
envolvidas na sua condução. Nacional de Segurança Alimentar e
Cabe destacar, que os viveiros Nutricional – SISAN, em seu art. 2º
educadores inseridos na escola de- diz que: “A alimentação adequada é
vem oportunizar intencionalmente direito fundamental do ser humano,
a realização de atividades em prol inerente à dignidade das pessoas
de uma educação ambiental crítica, e indispensável à realização dos di-
transformadora e emancipatória, reitos consagrados na Constituição
abordando a temática socioambien- Federal”.
tal como estímulo a reflexões mais A qualidade de vida da popula-
profundas. ção está diretamente relacionada
Esse processo deve proporcionar com a qualidade de sua alimen-
aos alunos a possibilidade de cons- tação, uma vez que grande parte
truir coletivamente a sua concepção das doenças da nossa civilização
de desenvolvimento, pautada na ne- está relacionada à forma como nos
cessidade de valorizar cada vez mais alimentamos.
as vertentes ambiental, social e hu- Pensar sobre segurança alimen-
mana na busca por uma sociedade, tar é refletir sobre a qualidade do
mais justa e sustentável. processo de produção de alimentos,
A abordagem e vivência de do campo à mesa. Isto pressupõe a
questões ambientais nas atividades adoção de sistemas produtivos am-
escolares por meio de espaços e es- bientalmente adequados, socialmen-
truturas educadoras é fundamental te justos, que valorizem o trabalho
para uma leitura mais adequada das pessoas envolvidas em todas
da realidade, e conseqüentemente,
para a transformação de atitudes
negativas, em ações mais humanas,
quer repercutam positivamente não
só na escola, mas em todos os as-
pectos da vida.
Projeto Político Pedagógico 29

as etapas da produção do alimento tem como objetivos assegurar o
e sejam economicamente viáveis, acesso à alimentação saudável, a
proporcionando uma distribuição expansão da produção de alimentos,
equânime e saudável para toda a a geração e distribuição de renda, e
população. o estímulo a iniciativas que promo-
O contexto econômico interna- vam o fortalecimento da produção
cional globaliza a pobreza e concen- local de alimentos e a constituição
tra o poder, ampliando as disparida- de rede solidárias de comercializa-
des entre os países desenvolvidos e ção, pautadas na ótica do acesso à
em desenvolvimento, assim como, cidadania.
dentro deles, entre suas camadas Considerando a perspectiva
mais ricas e carentes. emancipatória que o enfrentamen-
As políticas públicas que pro- to a esta questão exige, um viveiro
movem a segurança alimentar e educador pode tornar-se um eficien-
nutricional da população brasileira te instrumento de ação coletiva na
devem questionar os modelos de busca pelo acesso a uma alimenta-
produção de alimento impostos ao ção saudável para a totalidade da
país. São pacotes tecnológicos que população brasileira, objetivo maior
geram pobreza, concentram riqueza, de programas que atuam nessa
diminuem a biodiversidade e degra- direção.
dam o ambiente, buscando transfor- No Brasil, a produção de frutas
má-los em sistemas sustentáveis de é concentrada em grandes pólos e
produção. regiões, havendo a necessidade de
O desenvolvimento da agricultura grandes deslocamentos para a sua
familiar de base agroecológica, a distribuição e comercialização, o que
valorização da flora nativa, o incen- representa custos extras e, em mui-
tivo ao agroextrativismo, o estímulo tos casos, o comprometimento da
a formação de pomares domésticos, qualidade do alimento.
assim como, a produção de alimen- Uma forma de enfrentar essa
tos por meio de sistemas livres de problemática, é estimular e fortale-
organismos geneticamente modifi- cer a produção local de alimentos,
cados, é vital para assegurar a so- valorizando as espécies nativas e a
berania e a segurança alimentar das cultura alimentar de cada região, e a
populações do campo e da cidade. comercialização local e solidária do
Um dos grandes desafios dos que for produzido.
Viveiros Educadores é a articulação Uma alternativa viável nesse sen-
com outros programas do Governo tido, é a formação de pomares de
Federal que tenham sinergia com a qualidade, com uma grande diversi-
proposta como o Fome Zero, que dade de espécies, capazes de forne-
30 Viveiros Educadores Plantando Vida

cer frutas durante todas as estações geléias, sorvetes, doces, compotas
do ano, e garantir a autonomia ali- entre outras possibilidades e, em
mentar das famílias. seguida, comercializados de forma
A grande maioria das moradias solidária.
brasileiras não dispõe de pomar Nesse processo ganha-se na
em seu quintal. Por isso, as pessoas qualidade da alimentação, na di-
acabam comprando alimentos in- minuição dos gastos com produtos
dustrializados, de baixa qualidade e industrializados e principalmente na
alto custo. promoção de saúde.
Viveiros públicos, comerciais, A iniciativa dos viveiros educado-
comunitários ou mesmo privados res não pretende superar a questão
podem, em uma perspectiva educa- da segurança alimentar, que envol-
dora, contribuir para a constituição ve uma complexa problemática, mas
de pomares comunitários ou mesmo ser uma ação intencional que con-
individuais, estimulando a produção tribua complementarmente para a
de mudas frutíferas, e o seu poste- conquista da emancipação alimentar
rior plantio. no país.
Esse processo, fortalecido pela di-
mensão pedagógica, poderá desen-
cadear diversas reflexões e abordar
em suas atividades questões como o
resgate e a aproximação do ato de
plantar, a responsabilidade socioam-
biental, a postura crítica e atuante
diante da realidade apresentada,
entre outros.
Os viveiros e a comunidade en-
volvida podem se organizar, realizar
feiras e gincanas, trocar sementes
e mudas, e aproximar-se uns aos
outros. Nesse processo, com o pas-
sar do tempo, todos terão acesso a
uma grande diversidade de espécies
frutíferas.
Esses frutos, oferta extra de ali-
mentos, podem representar uma
grande fonte de renda, desde que,
adequadamente processados em
Projeto Político Pedagógico 31

Inclusão Social de emprego e renda, acesso a ser-
viços sociais básicos de educação,
O problema da exclusão social saúde e moradia, tendo a oportu-
é geralmente encarado de modo nidade de se expressar e interagir
parcial, privilegiando ações assisten- culturalmente.
cialistas, focando exclusivamente a Esta difícil tarefa exige o enga-
geração de renda e o emprego por jamento contínuo do governo por
meio da profissionalização e frentes meio de políticas públicas continu-
de trabalho. adas e de caráter emancipatório,
Tais ações, apesar de bastante sobretudo na área social, permean-
positivas, sozinhas não atingem seu do as esferas federais, estaduais e
objetivo no sentido mais profundo, municipais.
pois omitem a dimensão central do Diante da complexidade do de-
fenômeno, a perda da auto-estima safio da transformação social e a
e do sentimento de pertencimento a multiplicidade dos fatores envolvi-
um grupo social organizado. dos, não existe uma solução única e
A inclusão torna-se de fato eficaz milagrosa para a questão.
quando, através da participação em A construção de uma sociedade
ações coletivas, busca-se recuperar democrática e sustentável, apesar
a dignidade e consegue-se, além dos avanços já alcançados, é um
32 Viveiros Educadores Plantando Vida

processo lento, que requer mudan- plantio de uma árvore, estimulados
ças estruturantes. por processos educadores coletivos e
Como enfrentar as questões ad- intencionais desenvolvidos no vivei-
versas e unilaterais da economia que ro, podem trazer aos participantes o
levam à exclusão social e vedam à sentimento de pertencimento, reper-
população menos favorecida o aces- cutindo positivamente na recupera-
so ao mercado de trabalho, à mora- ção da auto-estima perdida.
dia, aos serviços coletivos de saúde, É vital que as ações desenvolvidas
educação, lazer e a um ambiente tragam em seu bojo a coletividade e
equilibrado? o pensamento sistêmico, orientando
Interagir na construção do co- a caminhada rumo a construção de
nhecimento para utilizá-lo de forma sociedades sustentáveis, nas quais o
a transformar a realidade, constitue- direito a ter direitos seja reconhecido
se em um desafio prioritário. em toda sua plenitude.
Buscar conhecimentos e práticas As práticas desenvolvidas no
construtivas, calcadas na compaixão, viveiro também devem estimular a
na ética, no compromisso com o atuação do grupo envolvido em con-
bem-estar coletivo e na justiça social, selhos, fóruns, grupos de trabalho,
é a chave para a superação dos fato- associações, cooperativas, enfim,
res que acarretam a exclusão social. em todas as formas de organização
A participação em ações desen- social com potencial de mobilizar e
volvidas no viveiro educador podem motivar a população a assumir suas
oportunizar a profissionalização, a responsabilidades.
geração de renda e o acesso a em- Dessa maneira, as ações e apren-
pregos e postos de trabalho, mas dizados desencadeados pelo conví-
deve, acima de tudo, enfrentar a vio em um viveiro educador podem
dimensão central da exclusão social, contribuir consideravelmente em um
a perda da auto-estima. processo de inclusão social.
A oportunidade de conviver e
interagir em um processo pedagó-
gico de inclusão social, por meio de
um viveiro educador, pode estimular
os participantes a vivenciarem o pro-
tagonismo cotidiano em ações que
busquem reverter o atual quadro de
degradação socioambiental em que
vivemos.
Ações como a coleta de semen-
tes, a produção de uma muda ou o
Projeto Político Pedagógico 33

Profissionalização, geração emancipatórios, o acesso ao crédito
de emprego e renda popular ou microcrédito e a geração
de alternativas de mercado.
Alinhar a condução das ativida- Nesse processo é importante
des do viveiro educador às políticas envolver parceiros com atuação dire-
públicas de desenvolvimento social, cionada à profissionalização, como
em especial, as de geração de tra- o Sebrae, o Senac, entre outros,
balho e renda, pode proporcionar procurando inserir as demandas
resultados extremamente positivos específicas das áreas de atuação do
nos processos de profissionalização viveiro, entre os cursos e processos
desencadeados. de formação desenvolvidos por estas
É um desafio enorme, que de- instituições.
pende do comprometimento e Um viveiro conduzido como es-
mobilização dos diferentes atores paço de convívio solidário e voltado
governamentais e empresariais en- para a prática de valores humanos
volvidos, e de toda a comunidade. deve proporcionar aos envolvidos
Podemos destacar três eixos a oportunidade de construir sua
estratégicos na busca pela profissio- profissionalização sobre sua própria
nalização e a geração de emprego base vocacional de dons e habilida-
e renda: a capacitação profissional des naturais.
pautada em aspectos pedagógicos
34 Viveiros Educadores Plantando Vida

Deve-se buscar a construção de da, seja por meio da venda das mu-
um perfil profissional caracterizado das produzidas, ou pelos inúmeros
pela busca por relações econômicas serviços e benefícios socioambientais
e comerciais mais justas. desencadeados em conseqüência de
O momento requer um esforço sua existência.
de formação de profissionais com- Inúmeras técnicas e habilidades
prometidos com as transformações podem ser desenvolvidas e fortaleci-
socioambientais esperadas, o que das a partir da atuação em um vivei-
implica no desenvolvimento e utiliza- ro educador, desde que conduzidas
ção de metodologias e instrumentos de forma intencional, com a contri-
adequados, no intercâmbio de ex- buição de parcerias qualificadas, e
periências exitosas e na construção direcionadas à formação profissional
compartilhada de novos referenciais. e geração de novas alternativas de
A profissionalização despertada mercado.
a partir dos processos de formação Coleta de sementes, produção de
desencadeados junto aos viveiros mudas nativas, ornamentais e me-
educadores, deve estimular jovens dicinais, recuperação de áreas de-
e adultos a identificar na produção gradadas, técnicas de enxertia e es-
de mudas e suas atividades comple- taquia, fruticultura, implantação de
mentares, a possibilidades de acesso sistemas agroflorestais, arborização
à renda. urbana, paisagismo, jardinagem, ar-
A produção tem um custo e tam- tesanato, entre outras possibilidades
bém resulta na geração de uma ren- devem ser buscadas e desenvolvidas.
O “ecomercado” é uma frente
ainda em formação e desenvol-
vimento na economia atual. Essa
perspectiva de relação econômica
cresce a cada dia, e diante do acele-
rado ritmo das mudanças climáticas
globais, não será mais uma frente
marginal de atuação, e sim, um pa-
drão de comportamento consciente,
estimulado e popularizado em todo
o mundo.
As mudanças exigidas nesse
processo de conversão econômica
são de caráter estrutural e não se
limitam a questões conjunturais,
ainda que estas possam reorientar o
processo.
Projeto Político Pedagógico 35

O trabalho e o emprego no futu- É cada vez mais necessário no
ro certamente terão outra natureza, enfrentamento e superação dos
bem diferente da conhecida e prati- aspectos excludentes da economia,
cada atualmente. trabalhar de forma articulada, rom-
Tais transformações demandam per com a lógica de ações fragmen-
recursos humanos com formação tadas e setorizadas, que provocam
integral e sistêmica, capazes de ler e a sobreposição de ações similares, e
interpretar a realidade de forma críti- consomem desarticuladamente re-
ca, com capacidade de trabalhar em cursos e energia para o mesmo fim.
grupo, partilhar responsabilidades e O PRONAF - Programa Nacional
interferir em seu meio de forma res- de Fortalecimento da Agricultura
ponsável, criativa e sustentável. Familiar é outra promissora possibi-
Os indivíduos que aproveitarem lidade de acesso a créditos para pe-
as oportunidades de aprendizado quenos produtores que pretendam
proporcionadas no viveiro educador conduzir viveiros educadores.
construindo novos conhecimentos, O programa, que tem diversas
baseados na fusão de elementos linhas de financiamento, fomenta
acadêmicos e populares, tendem a em sua vertente florestal, o PRONAF
se sobressair. FLORESTAL, a produção de mudas
Uma forma de organização co- e o plantio de espécies florestais,
letiva que pode contribuir em todo apoiando os agricultores familiares
esse processo é a constituição de na implementação de projetos de
cooperativas. Uma cooperativa de reflorestamento, manejo susten-
trabalho é uma fonte de produção e tável de uso múltiplo, e sistemas
prestação de serviços, administrada agroflorestais.
e gerida unicamente por seus asso- Essa iniciativa pretende preencher
ciados, todos com os mesmos direi- uma lacuna que existe na relação
tos e obrigações. com a agricultura familiar, e contem-
A característica autônoma, de- plar uma categoria de produtores
mocrática e coletiva das cooperativas que historicamente estiveram à
facilita o acesso a créditos, que indi- margem, ou pouco favorecidos, por
vidualmente não poderiam ser aces- financiamentos públicos.
sados, bem como, diminui os custos Como se vê existem inúmeras
gerados em processos de compra e possibilidades de profissionalização
venda. e geração de emprego e renda asso-
Uma cooperativa de viveiros ciadas ao viveiro. Basta despertá-las
pode trazer inúmeros benefícios aos no seu vivenciar, refletindo e prati-
cooperados, desde a diminuição dos cando de forma consciente e solidá-
custos de produção até a comerciali- ria junto à comunidade na qual está
zação coletiva do que foi produzido. inserido.
36 Viveiros Educadores Plantando Vida

Arborização Urbana Redução dos níveis de po-
luição atmosférica por meio da
O elevado crescimento popu- captura de partículas sólidas e gás
lacional e a falta de planejamento carbônico(Co2) lançado em excesso
urbano tem proporcionado inúmeros no ambiente urbano.
reflexos negativos para a qualidade Melhoria do conforto térmico
de vida da população que vive nas proporcionado pelo sombreamento
cidades. advindo das árvores.
Desencadear um processo de Aumento da umidade relativa do
arborização de centros urbanos é, ar.
no atual contexto, uma necessidade Ampliação da permeabilidade do
ambiental, principalmente nas gran- solo, contribuindo para a diminui-
des cidades, onde há, em geral, uma ção da possibilidade de enchentes e
cobertura vegetal insuficiente. enxurradas.
Além da função paisagística, as Abrigo e alimento para a fau-
árvores plantadas amenizam uma na urbana, e animais silvestres em
série de fatores negativos presentes trânsito.
no meio urbano. Melhoria no quadro de poluição
Entre suas principais contribui- visual, um dos fatores que promo-
ções destacam-se: vem o estresse urbano.
Diminuição da poluição sonora O processo de requalificação ur-
produzida pelos ruídos no trânsito e bana passa pela arborização de seus
fluxo de pessoas. espaços de convívio social.
Projeto Político Pedagógico 37

Esse processo tem um enorme Desse modo, os viveiros educado-
potencial pedagógico e proporciona res podem ter na arborização urbana
às comunidades envolvidas a oportu- uma importante frente de atuação,
nidade de rever a forma como suas proporcionando através das práti-
ruas, bairros, praças e lares estão cas geradas, o estímulo para que a
estruturados. comunidade assuma uma postura
Diversas atividades educativas consciente e atuante, na transforma-
podem ser desencadeadas de forma ção do ambiente em que vive.
intencional a partir da arborização Viveiros conduzidos por associa-
urbana. ções de moradores, centros de edu-
O simples ato de plantar e cui- cação ambiental, escolas, prefeituras
dar do que foi plantado, desde que e outras instituições, podem assumir
devidamente conduzido, pode des- um papel de protagonismo nesse
pertar sentimentos de solidariedade, processo, adotando uma rua, um
ética, coletividade e responsabilidade bairro, ou mesmo, dependendo de
socioambiental. sua dimensão, a cidade toda.
Nesse processo, a comunidade Para isso, é necessário estabe-
pode restabelecer laços a muito tem- lecer parcerias que assegurem e
po perdidos nos grandes centros, e legitimem esse processo, uma vez
aproximar-se da cultura do plantar. que o poder público municipal é o
No entanto, ao desencadear responsável legal pela arborização
ações de educação ambiental asso- das cidades.
ciadas à arborização urbana, deve-se Nesse sentido, deve ser buscada
atribuir a elas um caráter crítico e a articulação necessária para a anu-
emancipatório, gerando reflexões ência e participação de secretarias
sobre os aspectos políticos, econô- municipais de meio ambiente, de-
micos e culturais ligados à questão partamentos de parques e jardins, e
ambiental. outros órgãos envolvidos na concre-
tização dessa iniciativa.
38 Viveiros Educadores Plantando Vida

O viveiro como instrumento atividades e envolver a comunidade
de organização social no processo deve levar sempre em
de Comunidades e consideração o contexto local e suas
Assentamentos Rurais especificidades.
No início do processo, é vital criar
Trabalhar coletivamente em as- coletivamente, regras claras de ad-
sentamentos e comunidades rurais ministração e convivência. Atividades
é um grande desafio. A falta de como coleta de sementes, produção
organização social, a dificuldade em das mudas, manutenção do viveiro
atuar em grupo e as questões de e comercialização, assim como, a
gênero que desestimulam e com- divisão das tarefas e a divisão da
prometem a participação feminina, produção final devem ter regras bem
são os principais entraves para o definidas, de forma que as pessoas
desenvolvimento de ações coletivas se sintam esclarecidas e seguras em
no campo. trabalhar em grupo.
Um viveiro educador pode ser É importante criar e valorizar
um eficaz instrumento de ação, espaços de reunião que propor-
capaz de promover o avanço da cionem a todos a oportunidade de
capacidade de organização coletiva se expressarem e contribuirem no
dentro de um assentamento, seja processo.
em pequenos viveiros implantados Mutirões e outras formas de
individualmente em cada quintal ou cooperação podem surgir a partir
pela organização coletiva em torno da aproximação gerada pelo hábito
de um viveiro comunitário. de se reunir e discutir coletivamente
Um grupo pequeno de famílias estratégias de enfrentamento dos
pode conduzir e administrar coletiva- problemas da comunidade.
mente um viveiro, executando todas O trabalho coletivo no viveiro
as tarefas que a atividade necessita, pode gerar um vínculo de responsa-
sem comprometer com isso, a pro- bilidade e confiança entre os envol-
dução individual de cada família. vidos, de forma que com o tempo,
Com sete famílias administrando a credibilidade esteja presente nas
coletivamente um viveiro, cada uma relações pessoais, e esse comporta-
delas trabalhará apenas um dia por mento se estenda a outros âmbitos
semana, deixando os outros seis da comunidade.
dias livres para outras atividades Um grupo pequeno de pessoas
produtivas. Cabe ressaltar que este é desenvolvendo uma atividade de
apenas um dos possíveis modelos de sucesso, que traga melhorias para a
administração de um viveiro em as- comunidade, é um grande exemplo,
sentamentos e comunidades rurais. e pode influenciar o surgimento de
A reflexão sobre como conduzir as outras iniciativas de organização e
Projeto Político Pedagógico 39

produção coletiva. Começar peque-
no, mas de forma coletiva e organi-
zada pode trazer grandes resultados
para todos.
A perspectiva educadora surge
quando a ação coletiva que desen-
cadeou a produção de mudas é
exemplar e o viveiro torna-se uma
referência na comunidade.

Muitos são os casos de pes-
soas que além de produzir
em suas parcelas, traba-
lham fora, vendendo sua
força de trabalho para
complementar a renda da
família. Um viveiro de mudas,
administrado de forma co-
munitária é uma atividade
que não exige exclusividade,
permitindo que as pessoas
envolvidas possam desen-
volver outras atividades
durante a semana sem com
isso comprometê-las.
40 Viveiros Educadores Plantando Vida

Pesquisa e Desenvolvimento do convívio no viveiro e na relação
com a comunidade na qual ele está
A cultura predominante em inserido.
nossa sociedade tem por hábito va- Procedimentos pedagógicos
lorizar os saberes científicos e acadê- inovadores, metodologias partici-
micos, e reduzir ou mesmo ignorar o pativas de diagnóstico, materiais
saber popular. alternativos para a construção de
O conhecimento tradicional, viveiros, técnicas para a quebra de
construído nos processos cotidianos dormência, germinação, secagem
de aprendizagem, tem sido histori- e armazenamento de sementes,
camente, e de forma equivocada, técnicas inovadoras de enxertia e
relegado a um segundo plano. reprodução vegetativa, estratégias
Para o desenvolvimento de pes- para recuperação de áreas degra-
quisas que tragam contribuições dadas, seqüestro de carbono, assim
realmente estruturantes para a cons- como, estratégias e soluções ecolo-
trução de sociedades sustentáveis gicamente corretas de convivência,
é necessário direcionar as linhas de prevenção e combate à formigas e
pesquisa para temas que busquem patógenos específicos são apenas
atender as demandas prioritárias algumas das inúmeras possibilidades
da nossa sociedade, privilegiando o de pesquisa que podem ser conduzi-
atendimento às camadas menos fa- das utilizando a estrutura do viveiro,
vorecidas da população. a produção de mudas e o plantio de
É essencial romper com a lógica árvores como temas geradores.
e a dinâmica dos financiamentos de Cabe a esta linha de ação esta-
pesquisa realizados com recursos belecer os indicadores e parâmetros
provenientes de grupos e segmen- técnicos, produtivos, educativos, am-
tos empresariais que se utilizam do bientais, sociais, econômicos, institu-
capital para financiar e direcionar as cionais e políticos a serem adotados
linhas de estudo desenvolvidas em e ou pesquisados.
centros de pesquisa e universidades O grande desafio é ser capaz de
públicas para o interesse próprio, religar e integrar, de forma respeito-
sem reverter para a comunidade os sa e complementar, os conhecimen-
avanços alcançados. tos acadêmicos com o saber empí-
Inúmeras pesquisas podem ser rico, construído ao longo do tempo
desenvolvidas a partir do viveiro, por diferentes gerações e culturas
utilizando como objeto de estudo os para, a partir daí, conduzir ensaios,
diferentes aspectos ligados a produ- experimentos, pesquisa-ação e ou-
ção de mudas e o plantio de árvores, tros tantos processos que busquem
assim como, acerca das relações in- a construção coletiva de conheci-
ter-pessoais que são geradas a partir mento a serviço da coletividade.
Projeto Político Pedagógico 41

Comércio Solidário excludente, que provoca a elevação
do setor informal da sociedade. Tais
O Brasil, como país em processo efeitos são vivenciados principalmen-
de desenvolvimento, sofre as conse- te nas classes menos favorecidas,
qüências negativas da globalização que não têm acesso a conhecimen-
do capital. Esse fenômeno reflete tos básicos.
diretamente nos altos índices de de- Muitas experiências coletivas
semprego e subemprego do país. de trabalho e de produção estão
Este quadro proporciona um se disseminando em todo o país.
crescimento econômico de caráter São cooperativas de produção, de
crédito, de serviços e de consumo,
associações de produtores, empresas
em regime de autogestão, bancos
característic
Geração de t as
comunitários e organizações popula-

renda. rabalho e res, no campo e na cidade.
Essas iniciativas fazem parte de
Acesso e va
de mercados lolorização
um processo de transformação dos

solidários. cais e modelos econômicos atuais, em uma
economia solidária (Singer, 2002).
Estabelecim
relações duraento de
O comércio solidário procura criar

de confiança mdouras e
meios e oportunidades para melho-
ú
Pagamento de tua.
rar as condições de vida e de traba-

justo pela pro preço
lho dos produtores, especialmente
d
Resgate e valoução.
os pequenos, buscando construir

dos sistemas d rização
uma relação mais justa entre consu-
e
Relações dem troca.
midores e produtores.

de trabalho. ocráticas
Valorização
do conhecimen
tradicional. to
Gestão compa
na busca pela rtilhada
auto-sustenta
Transparênc bilidade.
prestação de c ia e
Capacitação ontas.
qualificação d e
envolvida. a equipe
Valorização e
preservação a
mbiental.
42 Viveiros Educadores Plantando Vida

Nesse processo, busca-se ultra- É desejável que, na medida do
passar as dificuldades de comerciali- possível, os viveiros educadores pro-
zação do atual modelo econômico, curem se associar a outros viveiros
e garantir aos produtores, o acesso a com o intuito de constituir redes de
mercados justos, pautados em pro- produção e comércio solidário de
cessos sustentáveis. mudas, que proporcionem o inter-
É vital que os caminhos adota- câmbio regional e garantam a per-
dos assegurem a sustentabilidade petuação de espécies nativas, que
da produção, e a transparência na em muitos casos se encontram em
composição do preço, que acarrete vias de extinção.
no pagamento justo pelos produtos A operacionalização desse pro-
ou serviços prestados. Aprender a cesso é um desafio que demanda
identificar e dimensionar os custos dedicação e comprometimento de
sociais e ambientais das atividades todos e, em um primeiro momento,
produtivas se torna ferramenta signi- por questões e valores que estão
ficativa na revisão dos custos de pro- arraigados no comportamento oci-
dução e, portanto, dos preços finais dental, parece pouco provável de ser
no mercado. viabilizado.
Nessa perspectiva, devem ser No entanto, estimular as pessoas
considerados os valores humanos e e grupos envolvidos a buscarem a
a contribuição dos empreendimen- construção desse processo é extre-
tos ao bem-estar social e ambiental. mamente saudável, e pode tornar-se
Tais fatores têm se tornado cada vez uma referência inovadora e positiva
mais importantes na escolha de que nas relações entre viveiros.
mercadorias consumir. Inúmeros produtos podem ser
Empresas, investidores e consu- gerados e comercializados a partir
midores são agentes sociais, cuja da produção de um viveiro.
responsabilidade vai além da gera- O plantio das diferentes mudas
ção de empregos e impostos, se es- produzidas em um viveiro pode
tendendo à promoção do bem-estar gerar, desde que adequadamente
e da qualidade de vida da sociedade. extraídos e devidamente
É vital que os atores sociais en- processados, frutas secas ou in
volvidos passem de agentes passivos natura, doces, conservas, compotas,
a cidadãos atuantes e pró-ativos. óleos, resinas, “garrafadas” e uma
Nessa perspectiva, é importante que infinidade de produtos artesanais
as atividades desenvolvidas pelo vi- desenvolvidos a partir de espécies da
veiro educador estimulem a adoção flora nativa.
de práticas comerciais calcadas nos Sistemas de troca devem ser
princípios e premissas do comércio incentivados, valorizando a cultura
solidário. local e a flora da região, enfatizan-
Projeto Político Pedagógico 43

do ainda, o valor social agregado à Outro aspecto que deve ser en-
produção. fatizado quando se fala em comér-
Estimular e fortalecer ao longo cio solidário é o sistema de compras
do processo, o valor simbólico e li- coletivo. Os produtores devem bus-
bertário da troca, seja em feiras or- car negociar coletivamente a com-
ganizadas, ou mesmo diretamente pra de embalagens, adubos e todo
com outros membros da comunida- material de consumo necessário à
de, é extremamente desejável. produção de mudas.
É importante criar espaços públi- Em uma perspectiva local tal me-
cos e organizados onde o comércio dida pode reduzir o valor do frete
solidário seja priorizado. Feiras livres envolvido no transporte, tanto das
e pontos de venda descentraliza- compras quanto da distribuição da
dos são algumas possibilidades de produção.
comercialização para os viveiros Esse procedimento reduz bastan-
envolvidos. te os custos envolvidos, na medida
Não existe ainda uma regula- em que negociar coletivamente mo-
mentação que promova a certifica- vimenta volumes maiores, facilita a
ção e o controle de qualidade das negociação e possibilita uma econo-
mudas para o mercado interno. mia energética acima de tudo.
Como estratégia de superação Como se vê, atuar coletivamente
a essa questão, as associações ou e em uma perspectiva solidária só
redes de viveiros que trabalham com fortalece as ações desenvolvidas
produção de mudas na perspectiva pelos viveiros educadores, seja nas
do comércio solidário, devem cer- vertentes ligadas a produção e co-
tificar os produtos com sua própria mercialização, ou ainda pela
marca, criando um selo com nome característica humana e
próprio, como forma de atestar pedagógica que o pro-
a origem dos produtos que são cesso tem.
comercializados nos pontos de
venda solidários.
44 Viveiros Educadores Plantando Vida

A realização de parcerias para convergir esforços. Esta integra-
locais e a sustentabilidade ção deve ser buscada permanente-
do Viveiro Educador mente, e de forma pró-ativa.
Não se trata apenas da busca por
A escassez de recursos tanto recursos financeiros, mas também,
financeiros quanto humanos para da procura por habilidades, conhe-
se enfrentar a problemática so- cimentos, estruturas e outros subsí-
cioambiental é um fator que tem dios que proporcionem aos indivídu-
interferido significativamente na os, grupos e instituições que atuam
efetividade e continuidade das ações à frente dos viveiros educadores as
deflagradas. condições necessárias para que ele
A amplitude e complexidade desempenhe adequadamente o pa-
que a questão envolve demandam pel que dele se espera.
uma elevada capacidade de orga- Nessa perspectiva, é fundamental
nização e articulação para o seu a realização de um mapeamento
enfrentamento. atento aos aspectos relacionados à
A interação entre o poder públi- diversidade socioambiental da re-
co, o setor privado, a sociedade civil gião, na busca por políticas públicas
organizada e a comunidade é um convergentes, programas, projetos
arranjo promissor como alternativa e ações de educação ambiental em
andamento, assim como, institui-
Projeto Político Pedagógico 45

ções, grupos e movimentos que pos- em princípios democráticos, e em
sam produzir sinergia. prol de objetivos comuns.
Em geral, em municípios muito Todo esse processo deve buscar
pequenos as pessoas e instituições ainda, a viabilização de uma ampla
que participam dos diferentes foros rede de viveiros educadores estrate-
e arenas onde são tratadas as ques- gicamente distribuídos e estrutura-
tões ambientais são as mesmas. Há a dos local, regional e nacionalmente.
necessidade de multiplicar esforços e Este é um sonho de futuro, a ser
potencializar a capacidade instalada construído como uma utopia possí-
no local, sob o risco de esvaziar as vel de ser alcançada.
discussões desenvolvidas no âmbito Diante de tamanho desafio, fica
do viveiro e nos diferentes outros claro que a realização de parcerias
processos relacionados. deve ser buscada cotidianamente,
A parceria com as diversas ini- estimulando a realização de encon-
ciativas convergentes como as Salas tros presenciais e à distância, para
Verdes, COM VIDAS, Coletivos intercâmbios, diálogos formação
Educadores, Pontos de Cultura, técnica e pedagógica dentre outros
Fórum Lixo e Cidadania, Comitês de processos que promovam o surgi-
Bacia entre outros, devem ser esti- mento de sinergias e aprendizados a
muladas com o intuito de criar laços partir das relações estabelecidas.
de cooperação mútuos, baseados
46 Viveiros Educadores Plantando Vida

Procedimentos Técnicos
Procedimentos Técnicos 47

Para adequar e compatibilizar os procedimentos
técnicos adotados em um viveiro educador às necessi-
dades demandadas na construção de sociedades sus-
tentáveis, é importante o estudo, seleção e emprego
de tecnologias apropriadas, que utilizem racionalmente
os recursos naturais e energia disponíveis, causando o
mínimo impacto ao meio ambiente e gerando ao longo
do processo benefícios sociais e ambientais.
A ação produtiva não deve visar apenas os aspectos
quantitativos ligados à maximização da produção e
dos lucros, pautados exclusivamente pela racionalidade
econômica. É necessário buscar o equilíbrio e a har-
monização entre aspectos quantitativos e qualitativos,
entre a racionalidade econômica e a sustentabilidade
ambiental.
As escolhas e decisões devem basear-se em novas
formas de produzir, compatibilizando o processo de
aprendizado permanente com a produção comprome-
tida com a biodiversidade e a sustentabilidade humana.

Dentre os componentes técnicos neces-
sários a uma adequada instalação e ma-
nutenção de um viveiro lembramos como
prioritários os ITENS A SEGUIR:
48 Viveiros Educadores Plantando Vida

Escolha do local

Quando pensamos em construir Abastecimento de Água
um viveiro, a primeira pergunta a
surgir é : Qual o local ideal? O fornecimento de água é es-
No momento da escolha, é es- sencial para o desenvolvimento das
sencial observar os inúmeros fatores atividades em um viveiro. É o princi-
que de alguma maneira podem pal fator a ser observado na escolha
influenciar positivamente ou negati- do local mais adequado para sua
vamente a condução dos trabalhos construção. A área escolhida deve
com o viveiro. É muito importante ser próxima a alguma fonte segura,
levar em consideração no momento capaz de fornecer água de boa qua-
da escolha, fatores como: lidade, livre de doenças ou produtos
químicos, e em abundância, durante
o ano todo.
O lugar definido deve O abastecimento de água de um
apresentar algumas viveiro não pode ser interrompido
características básicas, por longos períodos, sob o risco de
com o intuito de tornar o todo o trabalho de produção de mu-
trabalho mais eficiente, das ser perdido caso isso ocorra.
e facilitar as ações
conduzidas no dia a dia.
Procedimentos Técnicos 49

Rios, córregos, lagos, reservató- Os canteiros devem ser sempre
rios artificiais, cisternas, poços arte- dispostos de forma perpendicular
sianos ou água encanada da rede ao sentido da inclinação do terreno,
pública são as fontes mais utilizadas. com o intuito de conter a velocidade
Todavia, uma boa estratégia para da água, e evitar a formação de ero-
quem não dispõe de locais auto-su- são entre os canteiros. Caso a área
ficientes no fornecimento de água, é disponível apresente uma grande
construir estruturas de captação de inclinação, deve-se dividir a área do
água da chuva. viveiro em degraus, de forma que os
Utilizadas milenarmente por inú- canteiros fiquem sempre numa su-
meras civilizações, e difundidas com perfície plana.
grande êxito na região do semi-ári-
do, elas apresentam grande vocação Luminosidade
e potencial para serem utilizadas em
O viveiro tem como característica
todo o país.
principal a diminuição da intensida-
de dos raios solares que incidem so-
Relevo bre as mudas. Todavia, o local onde
O terreno escolhido deve ser o será instalado o viveiro deve receber
mais plano possível, facilitando os luz solar e calor durante todo o dia.
trabalhos e a locomoção dentro do O sol é vital em todo o processo.
viveiro. Porém, é desejável que haja Os canteiros devem estar prefe-
uma leve inclinação, para evitar que rencialmente dispostos no sentido
a água fique empossada, e atraia nascente – poente, para que as mu-
assim, fungos e outros seres que das fiquem expostas de forma ho-
possam vir a comprometer a saúde mogênea aos raios solares, ao longo
das plantas. de todo o dia.
50 Viveiros Educadores Plantando Vida

Proteção contra o vento É importante destacar que as ár-
vores utilizadas como quebra vento
No momento da escolha é vital não devem sombrear o viveiro, mas
observar o comportamento dos ven- permitir a boa circulação de ar. Para
tos predominantes no local. Ventos isso, a distância entre as árvores e
fortes são capazes de derrubar ou o viveiro, deve ser maior ou igual a
mesmo quebrar as mudas, além altura das árvores quando adultas.
de ressecar o ambiente, tornando As espécies escolhidas para
necessário uma irrigação mais cons- formar a cortina de quebra vento
tante, e aumentando com isso o devem ser adaptadas as condições
consumo de água. da região, e apresentar algumas ca-
Caso seja necessário, é interes- racterísticas como: alta flexibilidade,
sante a formação de quebra ventos folhagem perene, crescimento rápi-
naturais, utilizando para isso, árvores do, copa bem formada e raízes bem
robustas, plantadas em duas ou três profundas.
fileiras paralelas em volta do viveiro.
Procedimentos Técnicos 51

Para alcançar melhores
resultados com a proteção
do vento, alguns cuidados
devem ser observados:
A altura da proteção contra o
vento deve ser dimensionada de
acordo com o tamanho do viveiro. Acesso ao viveiro
Quanto maior for o viveiro, mais al-
tas devem ser as árvores plantadas; O viveiro deve estar em um local
A proteção deve ser homogê- de fácil acesso, preferencialmente
nea em toda a extensão do quebra conectado a boas estradas, buscan-
vento; do facilitar a entrada e saída de veí-
É importante que não haja falhas culos, pessoas e materiais de manu-
na barreira formada pelo quebra tenção, e a retirada das mudas para
vento, com o intuito de evitar o afu- o plantio ou comercialização.
nilamento da corrente de ar;
O quebra vento deve estar po-
sicionado perpendicularmente à di-
reção dos ventos predominantes na
região.
52 Viveiros Educadores Plantando Vida

Estruturas necessárias para
a condução das atividades

Além da estrutura do viveiro é segura. A estrutura pode ser feita de
necessário construir algumas instala- alvenaria, barro ou mesmo madeira.
ções que darão suporte no processo O importante é ser bem ventilado e
de produção de mudas. Entre elas seco, evitando a presença de umi-
destacam-se: dade e altas temperaturas em seu
interior.
Galpão É interessante e desejável, cons-
truir uma área coberta, porém aber-
É essencial a construção de um
ta, conectada ao galpão, com o in-
galpão que dê suporte ao processo
tuito de realizar de forma mais con-
de produção de mudas. É vital pro-
fortável e produtiva, as operações
teger as sementes coletadas da ação
de preparo do substrato (mistura de
do vento, sol e chuva, proporcionan-
terra, areia e adubo orgânico), bem
do condições adequadas para o seu
como o enchimento dos recipientes
armazenamento.
(saquinhos ou tubetes).
O galpão pode ter ainda um
cômodo para guardar ferramentas
e materiais de consumo de forma
Procedimentos Técnicos 53

Sementeira durante a operação do transplante,
também chamado de repicagem.
É o local onde é feita a semeadu- Deve-se ainda, evitar a utilização de
ra, um estágio intermediário, ante- terras que carreguem sementes anti-
rior ao plantio da muda no saquinho gas, elas são indesejadas nesse pro-
ou tubete, sendo bastante indicado cesso, uma vez que, a identificação
para espécies com baixo índice de das sementes que foram semeadas é
germinação. dificultada, e sua retirada demanda
A sementeira é um canteiro que trabalho extra.
recebe diretamente as sementes, É importante que haja uma pro-
para que elas possam germinar, e teção lateral para o canteiro, com o
depois, quando estiverem com o intuito de evitar que no processo de
porte necessário, serem transplanta- irrigação a terra escorra lateralmen-
das com facilidade para recipientes te, e se perca um grande número
individuais até que sejam levadas em de sementes. Essa proteção pode
definitivo à campo. ser feita de tijolos, ripas de madeira
A terra utilizada na sementeira ou bambu, bem como, qualquer
deve ser de preferência arenosa, outro material que a criatividade
para facilitar a retirada das mudas possibilitar.
54 Viveiros Educadores Plantando Vida

Assim como no viveiro, é dese- Pátio
jável que a cobertura feita para a
sementeira bloqueie boa parte dos É necessário, no momento de
raios solares que incidem em seu planejamento, destinar boa parte do
interior, proporcionando condições terreno a ser utilizado para a produ-
mais favoráveis à germinação, seme- ção de mudas, para a formação do
lhantes às encontradas embaixo das pátio.
árvores ou no interior das matas. As mudas poderão permanecer
O tamanho da sementeira deve no pátio por um longo período
variar de acordo com a produção de- de tempo, até serem levadas para
sejada e a disponibilidade de espaço. o campo em definitivo. As mudas,
Todavia, a largura não deve passar principalmente as de espécies nati-
de 1 metro, visando facilitar as ope- vas, ou de comportamento favorá-
rações de semeadura e transplante vel à alta luminosidade, devem ser
(retirada de mudas ). transportadas do viveiro para o pátio
mais rapidamente, entre 2 e 4 meses
após a germinação.
Procedimentos Técnicos 55

O tempo em que a muda per- O pátio deve estar a céu aberto,
manecerá no pátio vai depender da e ser cercado com o intuito de evitar
finalidade de sua utilização. Caso a entrada de animais, o que pode
sejam destinadas à arborização ur- causar grandes estragos, principal-
bana, ou recuperação de áreas de- mente se o viveiro estiver situado no
gradadas, é desejável que as mudas meio rural.
permaneçam mais tempo no pátio, O solo do terreno a ser utilizado
para que sejam rustificadas. como pátio deve ser o mais poroso
As mudas devem ficar dispostas possível, e um pequeno desnível é
em canteiros, como no viveiro, sen- desejável, para evitar o acúmulo de
do também necessária a construção água entre as mudas, bem como o
de uma proteção lateral que evite o empoçamento de água da chuva ou
tombamento das mudas. A proteção proveniente da irrigação.
pode ser feita com arame, ou outro
material disponível na região, tendo-
se apenas a preocupação de atingir Uma vez construído o
a metade do tamanho do saquinho.
viveiro quais são os
próximos passos para
iniciar a produção de
mudas?
56 Viveiros Educadores Plantando Vida

Como realizar a coleta de sementes?

A coleta das sementes é o Escolha da árvore matriz
primeiro passo no processo A escolha correta das árvores
produtivo de um viveiro, para a coleta de sementes é essen-
e por ser a produção de cial para o sucesso do plantio. As
mudas um processo delicado árvores escolhidas devem apresen-
e que leva tempo, a escolha tar porte avantajado, crescimento
de sementes de qualidade uniforme, uma boa produção de
é primordial para ter- sementes, ser vigorosa e livre de
se um resultado final doenças.
satisfatório. Para isso, Uma boa árvore matriz não é
alguns cuidados devem ser muito jovem nem muito velha. É im-
tomados: portante escolher para cada espécie
a ser coletada, o maior número pos-
sível de árvores matriz, com o intuito
de aumentar a diversidade genética,
e não sobrecarregar nenhuma delas.
Estas árvores devem ser marcadas
com plaquetas, ou mesmo tintura
natural, e deve ser feito um mapa
com o posicionamento de cada árvo-
re para orientar as coletas dos anos
seguintes.
Procedimentos Técnicos 57

Época da coleta Uma forma de saber se a semen-
te já está no ponto de ser coletada,
A época de coleta de sementes é observar o momento em que as
varia de região para e região, e sementes estão começando a cair.
também para as diferentes espécies. Este é um bom indicador de que já
É importante observar o comporta- estão prontas para ser coletadas.
mento das espécies no local onde Outra forma de sabermos se as
vive, bem como, buscar pesquisas já sementes estão “prontas” é obser-
realizadas sobre o assunto, e obter vando se elas já atingiram a colora-
informações com pessoas mais expe- ção do fruto quando maduro.
rientes, ou que vivam no meio rural Quando puxamos ou tentamos
em sua região. cortar um ramo cheio de semen-
Uma vez conhecida a época de tes em uma árvore, e este, não se
frutificação, devem ser feitas expe- rompe com facilidade, ainda muito
dições de coleta de 15 em 15 dias, ligado a ela, é um indicador de que
ou em intervalos menores de tempo, ainda não é a hora de realizar a co-
procurando observar o estado de leta, uma vez que aquelas sementes
maturação das sementes, uma vez ainda precisam de um contato maior
que as sementes devem ser cole- com a árvore, para tornar-se prontas
tadas somente quando estiverem para germinar.
quase maduras, e preferencialmente Espécies que gerem sementes
no pé. muito pequenas, e que se espalham
Deve-se evitar coletar sementes ao cair, devem ser coletadas prefe-
verdes, que não estejam totalmen- rencialmente ainda no pé, para evi-
te desenvolvidas. Estas sementes tar perdas através da ação do vento.
provavelmente não germinarão, É muito importante não coletar
ou terão o seu desenvolvimento todas as sementes viáveis em uma
comprometido. árvore. Um grande número de ani-
mais silvestres depende daquelas
sementes para sobreviver, portanto,
é essencial saber coletá-las, sem com
isso, diminuir significativamente a
oferta de alimentos para a fauna
local.
58 Viveiros Educadores Plantando Vida

Métodos de Coleta Subindo na árvore
Existem diversos métodos de co- Subir nas árvores é uma outra
leta, desde métodos modernos que forma muito usada e com bons
utilizam equipamentos sofisticados resultados para a coleta, porém ár-
de escalada para alcançar a copa das vores muito altas e de difícil acesso
árvores, até métodos simples e mais podem dificultar a atividade. A pes-
acessíveis à realidade do campo. soa pode pegar as sementes direta-
São nesses métodos que vamos nos mente, ou chacoalhar os galhos para
concentrar. as sementes caírem.
Para tal prática é necessário uti-
Coleta com podões lizar equipamentos de segurança,
bem como, colocar uma lona embai-
Os podões são instrumentos en-
xo da árvore para evitar perdas de
contrados facilmente em casas de
sementes.
ferramentas, e que servem para fa-
zer a coleta dos ramos ainda no pé,
Aproveitando as sementes
podendo atingir a parte alta das ár-
caídas
vores dependendo do seu tamanho.
O podão é um instrumento Outra estratégia é coletar semen-
cortante, que deve ser preso a um tes caídas no chão, tomando sempre
cabo, que pode ser um varão de o cuidado de não coletar aquelas
madeira o mais comprido possível. predadas por animais, ou atacadas
É interessante utilizar madeiras leves por doenças, pois estas, podem con-
como cabo do podão, para facilitar taminar as sementes saudáveis.
o seu manuseio e transporte pela
mata.
Procedimentos Técnicos 59

A escolha das sementes Secagem das sementes
Devem ser armazenadas apenas Antes do armazenamento, as
as sementes saudáveis. Devem ser sementes devem passar por um
evitadas as sementes que estiverem processo de secagem, de preferên-
atacadas por fungos, uma vez que cia à meia sombra, e em peneiras
o seu contato com as sementes sau- suspensas, para facilitar a circulação.
dáveis pode acabar acarretando em Outra possibilidade é a utilização
contaminação. de lonas estendidas ao chão, tendo
sempre o cuidado de isolar a área da
entrada de animais, ou pessoas de-
savisadas, que possam comprometer
o processo.
Tal procedimento permite que as
sementes fiquem armazenadas por
mais tempo e diminui a ocorrência
de doenças causadas por fungos e
outros agentes patógenos.
Deve-se evitar manter as semen-
tes diretamente expostas ao sol
intenso por longos períodos, o que
pode, uma vez que elas sejam ex-
cessivamente ressecadas, influenciar
negativamente o seu potencial de
germinação.
60 Viveiros Educadores Plantando Vida

Como armazenar suas A Gincana como estratégia
sementes? de coleta
As sementes devem ser armaze- A coleta de sementes é uma ati-
nadas em um local livre de umidade vidade vital para o desenvolvimento
e altas temperaturas. O local deve das atividades do viveiro, que sem
ser arejado e as sementes devem ser elas, não tem uma razão de ser.
separadas por espécies, colocadas Coletar sementes exige tempo,
em recipientes abertos, de forma uma vez que as árvores lançam suas
que permita a circulação do ar. É sementes em diferentes épocas do
desejável colocar uma etiqueta no ano, e as distâncias entre as plantas
recipiente utilizado com o nome da matrizes pode ser enorme.
espécie e a data da coleta. Quanto maior for a produção de
mudas desejadas, maior deverá ser o
número de sementes a ser coletado,
o que torna a tarefa ainda mais tra-
balhosa.Uma forma de dinamizar a
atividade de coleta de sementes em
viveiros educadores e aumentar bas-
tante o número de sementes coleta-
das, é realizar uma gincana de coleta
de sementes.
Procedimentos Técnicos 61

A coleta é o primeiro passo a ser que todos se sintam seguros e es-
dado para a produção de mudas. A timulados a iniciar a coleta, distri-
realização de uma gincana coopera- buindo em seguida todo o material
tiva, que conte com a participação necessário para a atividade, como:
efetiva dos grupos envolvidos com o podões , sacos de papel, lonas e o
viveiro educador, pode ser um fator que mais for necessário.
aglutinador para despertar nos par- A coleta deve ser estimulada em
ticipantes um olhar sistêmico sobre duplas ou grupos maiores, o que
todo o processo. além de dar bons resultados, é mais
Em comunidades rurais ou seguro e pode ainda, estreitar os
mesmo no meio urbano, uma gin- laços de amizade entre eles. A parti-
cana de coleta de sementes é, sem cipação individual deve ser evitada,
dúvida, uma estratégia que pode uma vez que se algum acidente
apresentar bons resultados. Nesse ocorrer no momento da coleta, não
processo, os jovens e crianças se haverá como prestar socorro ou pe-
sentem participando ativamente do dir ajuda.
trabalho, e com isso, se estimulam a Como as árvores lançam suas
participar inclusive nas atividades de sementes em diferentes épocas do
manutenção do viveiro. ano, alguém deve ficar responsável
Deve- se criar regras claras co- por centralizar o recebimento das
letivamente, de forma que todos sementes, anotando as espécies e
estejam esclarecidos quanto ao re- quantidades coletadas, armazenan-
gulamento. Os grupos de crianças do-as de forma correta até a sua
e jovens que coletarem sementes utilização.
em maior diversidade, maior quan- É importante durante a pre-
tidade, que tenha realizado o maior miação, ressaltar a importância do
número de trocas de sementes com trabalho coletivo, e como a partici-
outros grupos, ou ainda outras re- pação de todos foi primordial para
gras que sejam pactuadas, devem a coleta de sementes, de forma que
receber ao final do processo, algum a competição pelo prêmio fique em
incentivo ou prêmio de uso coletivo, segundo plano, e o espírito coopera-
que privilegie as necessidades locais tivo seja valorizado neste momento.
e adquirido também coletivamente A gincana é uma estratégia para
pela comunidade. coletar sementes que gera ótimos
É importante que haja um pro- resultados, devendo ser realizada
cesso qualificado de formação dos sempre que possível.
participantes da gincana, de forma
62 Viveiros Educadores Plantando Vida

Quais são as atividades envolvidas
no dia-a-dia do viveiro?

Preparo do substrato te de matéria orgânica, e livre de
agentes patógenos, como fungos e
O substrato é uma mistura for- nematóides.
mada por terra, areia e alguma fonte Para a formação do substrato,
de matéria orgânica. A sua função utiliza-se normalmente duas par-
é dar sustentação e fornecer os nu- tes de terra, uma parte de areia, e
trientes necessários para o desenvol- uma parte de matéria orgânica bem
vimento da planta. Um substrato de decomposta. O esterco curtido é
qualidade deve ter boa drenagem, usado com bons resultados, e pela
apresentar quantidade suficien-

Semeadura
Semeadura é o processo de plantio da semente. É quando a semente entra
em contato com o solo, ou o substrato utilizado para a germinação.
Em geral a semente deve ser enterrada a uma profundidade igual ao
seu diâmetro, podendo ser um pouco menos em casos de sementes muito
grandes.
Devemos ter em mente que uma cobertura leve demais pode deixar as
sementes expostas, diminuindo a quantidade de umidade retida. Por outro
lado, uma cobertura muito profunda dificulta a germinação e atrasa todo o
processo.
Procedimentos Técnicos 63

facilidade de ser encontrado em pe- proporção a ser usada de terra, areia
quenas propriedades rurais, é o mais e matéria orgânica.
indicado para pequenos produtores É importante ressaltar que a terra
e assentados. utilizada não deve conter semen-
É bom lembrar que a terra utiliza- tes de outras espécies indesejáveis
da é diferente de região para região, para evitar que estas germinem, e
sendo assim, é recomendado ao haja nos recipientes, ou mesmo nas
produtor fazer testes com diferentes sementeiras, uma competição por
quantidades de cada elemento no nutrientes.
substrato, para definir qual a melhor

Métodos de Semeadura
Com o intuito de aproveitar as ca- maior do que a apresentada nos plantios
racterísticas específicas das diferentes feitos com mudas, pois as sementes en-
espécies vegetais cultivadas em viveiros, tram em contato com as adversidades do
algumas técnicas distintas de semeadura ambiente muito cedo, enquanto ainda
são indicadas. Entre elas destacam-se: são muito frágeis.
Este tipo de plantio não é indicado
No local definitivo quando o terreno a ser plantado se apre-
É quando se efetua o plantio direta- senta muito degradado, ou a disponibi-
mente no campo. Esse tipo de plantio lidade de sementes for pequena. É im-
apresenta uma taxa de mortalidade portante ressaltar que a semeadura feita
64 Viveiros Educadores Plantando Vida

no local definitivo deve ser feita no ser utilizadas dessa forma, sendo
início da temporada de chuva. mais indicado para estas, a semen-
teira como forma de semeadura.
Em embalagens individuais
Caso duas ou mais sementes
É um método bastante utilizado, germinem em um mesmo recipiente,
com as sementes sendo semeadas a menor delas deve ser transferida
em recipientes individuais. Podem para outro saquinho.
ser utilizados sacos de polietileno,
Em sementeiras
tubetes de plástico ou outros ma-
teriais alternativos, como: saco de A sementeira é um canteiro feito
leite, garrafas PET, caixas do tipo com o intuito de facilitar a germi-
TETRA PACK ou outros recipientes nação de sementes. Este método é
que a criatividade e a disponibilida- ideal para sementes de espécies que
de permitirem. Normalmente são apresentem um baixo índice de ger-
colocadas duas ou mais sementes minação, ou então, um nível de ger-
por recipiente, para garantir que a minação desconhecido. Utilizando a
germinação ocorra e não se perca a sementeira evita-se o possível des-
semeadura. perdício de recipientes caso as se-
Em muitos casos, nenhuma mentes não germinem, além de pos-
semente germina, inutilizando o re- sibilitar ao viveirista a oportunidade
cipiente utilizado. Sendo assim, es- de fazer uma seleção das melhores
pécies que apresentem um nível de plantas, escolhendo quais delas se-
germinação muito baixo, não devem rão passadas para o saquinho.
Procedimentos Técnicos 65

Repicagem
As plantas que foram semeadas na
sementeiras devem passar pela repi-
cagem antes de serem levadas para o
recipiente individual. A repicagem é um
processo de transição para as plantas que
foram semeadas na sementeira.
É o momento da escolha, quando o
viveirista avalia as condições das mudas
para serem transportadas da sementei-
ra para o recipiente individual em que
permanecerão até o plantio em
campo.
É na repicagem onde acontece
a maior porcentagem de perda. É
uma operação delicada que deve
ser executada com todo cuidado.
Sendo assim, é muito importante
seguir alguns passos.

Época da repicagem
A época para se efetuar
a repicagem vai depender
da espécie da planta. Em
geral, as mudas devem ser
retiradas quando atingirem
altura de 3 a 7 cm, apre-
sentando 2 a 4 pares de
folhas.
66 Viveiros Educadores Plantando Vida

Cuidados na repicagem gar as mudas suavemente e em
abundância;
Antes do transplante, deve-se É importante priorizar as manhãs
molhar bem a sementeira para facili- e os fins de tarde para esta opera-
tar a retirada das mudas; ção, e de preferência realizá-la em
As mudas deverão ser retiradas dias nublados;
manualmente, sendo que a opera- No caso de espécies pioneiras
ção deve ser feita delicadamente, (que crescem em pleno sol), entre
segurando pelo coleto (região entre 15 e 30 dias após a repicagem pode
a raiz e o caule) para não danificar o ser iniciada a retirada das mudas do
seu sistema radicular; abrigo, aumentando gradativamente
Em seguida colocá-las em um a incidência de sol.
recipiente com água assim que se-
jam extraídas das sementeiras, para
evitar o seu murchamento;
Caso as raízes estejam enovela-
das (entrelaçadas) é recomendável a
sua poda, utilizando para isso uma
tesoura de poda desinfetada com
cloro (água sanitária), colocando-as
novamente no recipiente com água;
O substrato contido nos recipien-
tes individuais (sacos plásticos ou
tubetes) que serão utilizadas para
o plantio, deverá ser molhado para
facilitar a operação;
Na repicagem, é importante abrir
um orifício no substrato do recipien-
te individual, onde a planta deverá
ser enterrada na mesma altura em
que se encontrava na sementeira;
Tomar cuidado ao acomodar as
plantas no recipiente, para não eno-
velar as raízes;
Após acomodar a muda deve-se
puxá-la levemente para cima, de for-
ma a endireitar a raiz principal;
Após a repicagem deve-se re-
Procedimentos Técnicos 67

Espaço interno e formação proporcionar um maior conforto
de canteiros ao manusear as mudas. O espaço
deixado entre os canteiros para a
O canteiro é o local dentro do movimentação das pessoas, também
viveiro onde são colocadas as mudas chamado de ruas, deve ter pelo me-
em saquinhos ou tubetes, até que nos 70cm, largura suficiente para a
estejam com tamanho suficiente passagem de um carrinho de mão.
para serem levadas para o pátio. Os canteiros devem ter bordas
Os canteiros podem ser feitos que impeçam o tombamento das
no chão, ou então suspensos. Nesse mudas, podendo ser construídas
caso pode-se utilizar diferentes ma- com arame, ripas de madeira ou
teriais disponíveis na região para bambu, que devem ter aproximada-
construir a bancada de sustentação, mente 10 cm de altura.
sendo importante destacar os bene- A distribuição dos canteiros den-
fícios ergonômicos em se manusear tro do viveiro depende do seu cará-
as mudas na altura da cintura. A ter. Um viveiro que visa primordial-
bancada deve ser vazada apresen- mente a produção de mudas para
tando sempre pontos de escoamen- a comercialização deve primar pelo
to para água. aproveitamento do espaço interno,
A largura indicada para os ocupando com as mudas o máximo
canteiros é de 1m, não devendo de área disponível.
ultrapassar 1,20 m, visando assim,
68 Viveiros Educadores Plantando Vida

Nesse caso, a melhor estratégia forma que o espaço interno dispo-
é dispor os canteiros em linha, apre- nível para a circulação das pessoas
sentando canteiros de 1,20m e ruas seja privilegiado, mesmo que para
de 0,70m entre os canteiros. Os can- isso, o numero total de mudas pro-
teiros devem estar dispostos prefe- duzidas no viveiro seja reduzido
rencialmente de forma perpendicular consideravelmente.
à declividade do terreno, com o in- É importante que as pessoas pos-
tuito de impedir que entre as ruas se sam circular entre os canteiros com
iniciem processos erosivos e futuros conforto e segurança. Essa medida,
tombamentos de mudas. que não deve ser tratada como um
Um viveiro com caráter educa- detalhe, facilita e qualifica as ativida-
dor, que tenha como objetivo maior, des educativas realizadas no viveiro,
funcionar como um instrumento pe- e deve fazer parte do planejamento
dagógico em atividades de educação de todos os viveiros que tenham o
ambiental, deve ser construído de objetivo de ser um espaço educador.
Procedimentos Técnicos 69

Capina Manual Prevenção e combate à ação
de formigas
A capina é uma atividade muito
importante dentro da manutenção A presença de grandes popu-
do viveiro, pois como os recipientes lações de formigas é, em primeiro
utilizados para a produção de mu- lugar, um indicador de desequilíbrio
das, e também as sementeiras, têm ecológico na região, e representa
um tamanho limitado, o surgimento um sério problema no meio rural e
de outras plantas causa uma compe- áreas periurbanas, tanto para quem
tição pelos nutrientes disponíveis. trabalha com viveiros, quanto na
É importante monitorar as mu- produção de alimentos.
das freqüentemente, fazendo a A solução definitiva no combate
retirada dessas plantas de forma as formigas ainda não foi encontra-
manual e cuidadosa, tão logo se- da. A sabedoria tem sido conviver
jam identificadas, para evitar que da forma mais harmônica possível
o desenvolvimento das mudas seja com sua presença. No caso dos vi-
comprometido. veiros, a melhor saída é a prevenção,
evitando construí-los em lugares
Isolamento de plantas onde haja grande concentração de
doentes formigueiros.
Caso ocorra o ataque direto de
Uma das atividades de manuten-
formigas, a melhor estratégia é uma
ção diária do viveiro é a observação
ação integrada, com a utilização de
da existência de mudas doentes nos
diferentes métodos de combate ao
canteiros. Caso haja a presença de
mesmo tempo.
mudas atacadas por fungos ou ou-
A construção de canteiros eleva-
tras doenças, elas devem ser isoladas
dos, com barreiras físicas no rodapé
do restante, e colocadas em qua-
das bancadas, com o intuito de
rentena, para se evitar que outras
impedir a subida das formigas até
mudas sejam infectadas.
as mudas é uma boa estratégia. É
Até que se identifique qual a do-
interessante ainda, passar graxa na
ença, e a melhor maneira de tratá-la,
barreira física colocada no rodapé,
deve-se manter as mudas isoladas,
tal medida inibe a passagem das
para não comprometer a produção
formigas.
do viveiro.
Paralelamente à construção dos
canteiros elevados, é recomendável
o plantio de gergelim em volta do vi-
veiro, ele inibe a ação das formigas.
70 Viveiros Educadores Plantando Vida

Manejo dos saquinhos Para o transporte das mudas no
viveiro é indicado a utilização do
As mudas devem ser alojadas nos carrinho de mão, o que dinamiza
canteiros separadas por espécies e bastante as atividades. Atenção e
idade. É interessante identificá-las cuidado são essenciais em todas as
com placas, indicando o nome usa- operações de manuseio das mudas
do na região e a data da semeadura. para evitar que danos sejam causa-
As mudas jovens devem ficar sob dos às plantas.
a parte coberta do viveiro apenas Mudas pequenas devem ser
enquanto não suportam a incidência manuseadas com todo cuidado, pro-
direta dos raios solares. curando segurá-las pelo saquinho e
O sol é essencial para o desenvol- não pela planta. Mudas que estejam
vimento das mudas, sendo desejável mais crescidas podem ser manuse-
transportá-las para o pátio por volta adas, segurando-as pelo coleto (a
de 2 a 5 meses. base da planta).
As espécies chamadas pioneiras
(que tem crescimento inicial acelera-
do, e na natureza tem a função de
proporcionar sombra para que ou-
tras espécies possam se desenvolver)
devem ser retiradas da parte coberta
do viveiro mais cedo, com cerca de
2 meses.
Procedimentos Técnicos 71

culação de ar, provoca a lixiviação de
nutrientes, favorece o surgimentos
de doenças e inibe o desenvolvimen-
to das raízes.
É recomendável irrigar as mudas
duas vezes ao dia, uma de manhã
cedo e outra no fim da tarde. O
tempo de irrigação vai variar, de-
pendendo do sistema adotado. A
rega deve ser feita suavemente, e
distribuída de forma homogênea,
evitando esguichos fortes, ou jatos
de água concentrados, que podem
causar a retirada de terra dos sa-
quinhos, bem como a exposição do
coleto (transição entre a parte aérea
Irrigação e terrestre da planta), o que aumen-
É difícil avaliar em números exa- ta a ocorrência de ataque de fungos
tos, a quantidade de água que as e outros seres que enfraquecem a
mudas devem receber, pois isto de- planta.
pende de vários fatores: porosidade Podem ser utilizados diferentes
do substrato, espécie da planta, ida- modelos de irrigação, desde um
de da muda, temperatura, época do sistema automatizado, que utilize
ano, hora do dia, umidade relativa, uma bomba de sucção hidráulica,
clima da região etc. tubos de PVC e aspersores suspen-
A água infiltra no solo lentamen- sos, até um regador manual, achado
te, o que significa que irrigações facilmente em lojas de produtos
muito leves estarão umedecendo agropecuários a um preço acessível,
apenas a parte superior do saqui- ou mesmo uma mangueira comum,
nho, com isso, as raízes ficarão desde que em sua extremidade seja
sedentas, e conseqüentemente, a colocado um adaptador tipo “chu-
planta seca. É importante que o veirinho” para que a água seja distri-
substrato contido no recipiente seja buída uniformemente.
molhado uniformemente sendo É importante ressaltar que a água
necessário molhar os solos arenosos utilizada para a irrigação deve estar
com mais freqüência. livre de focos de doença, agrotóxi-
O excesso de rega pode ser ainda cos, ou outros elementos químicos
mais prejudicial do que a deficiência que venham comprometer a saúde
hídrica, pois além de dificultar a cir- das plantas.
72 Viveiros Educadores Plantando Vida

Rustificação Transporte das mudas
Antes do plantio definitivo, as Em casos em que seja necessário
mudas devem passar pela rustifica- a utilização de veículos como cami-
ção, um processo de adaptação às nhões, caminhonetes, ou mesmo
condições adversas que as plantas barcos, para o transporte das mu-
vão encontrar no campo. das, deve-se tomar todo o cuidado
Trinta dias antes do plantio, as possível, procurando diminuir ao
mudas devem ser expostas às con- máximo o impacto sobre as plantas,
dições de campo. A quantidade sob o risco de comprometer todo o
de água fornecida à planta deve trabalho de produção. Para isso, al-
ser gradativamente reduzida, e as guns cuidados devem ser tomados.
mudas devem ficar a pleno sol. As mudas devem estar bem pró-
Entretanto, no dia anterior ao plan- ximas umas das outras, evitando dei-
tio, a muda deve ser bem irrigada, xar espaços entre elas, o que poderia
para garantir a aglutinação neces- causar algum tombamento.
sária para o torrão, evitando que Elas devem estar protegidas do
ele se desfaça durante o plantio. É sol, chuva e do vento, que além
importante ressaltar que não se deve de ressecá-las pode quebrar algum
encharcar o saquinho. galho.
Procedimentos Técnicos 73

Caso a distância a ser percorrida O veículo deve trafegar em baixa
seja muito grande e o tempo de via- velocidade, evitando realizar mano-
gem superior a 6 horas, é importan- bras bruscas. O plantio das mudas
te fazer uma parada para rearranjo em campo, é por si só, um processo
das mudas. A irrigação deve ser feita estressante para as plantas, portan-
de 4 em 4 horas. to, evitar qualquer dano a elas du-
rante o transporte, é essencial para
o seu sucesso.
74 Viveiros Educadores Plantando Vida

Plantio das mudas em campo

O terreno destinado ao plantio adaptando ao novo meio, cheio de
das mudas deve ser devidamente adversidades. Sendo assim, deve-se
preparado. Para facilitar a abertura evitar a realização de plantios ao
dos berços, a área a ser plantada final da estação chuvosa, ou em
deve ser roçada. Porém, não é ne- épocas secas, pois todo o trabalho
cessário arar ou gradear a terra, pois de produção das mudas pode ser
alterar a estrutura do solo em volta comprometido.
das mudas pode ocasionar o apare- Caso ocorra a disponibilidade de
cimento de erosões. mudas justamente nessa época, e
O momento ideal para o plantio seja inviável irrigá-las em campo, o
definitivo das mudas em campo é o recomendado é mantê-las em boas
início da estação chuvosa, quando condições, sendo regadas e protegi-
há a disponibilidade de água por um das de animais, até o início da próxi-
longo período, devendo-se optar por ma estação chuvosa.
dias nublados e úmidos.
Plantadas em definitivo, as plan-
tas precisam de água em abundân-
cia, pois ainda estão fragilizadas, se
Procedimentos Técnicos 75
76 Viveiros Educadores Plantando Vida

Qual o tamanho ideal para o Em geral, o berço tem 60cm de
berço? diâmetro e 60 cm de profundida-
de. Porém quanto maior for o seu
Geralmente o local onde as mu- tamanho, mais facilidade as raízes
das são plantadas em definitivo é encontrarão ao entrar em contato
chamado de cova. Porém, julgamos com o solo revolvido, proporcionan-
não ser esse o termo mais adequado do assim, um crescimento radicular
para o local onde se dará o início mais acelerado, e com isso, um bom
de uma vida. Nesse sentido propo- desenvolvimento para a planta.
mos a utilização de “berço” como Em áreas de encosta muito desni-
nome mais apropriada para o local veladas, ou que estejam degradadas
que receberá as plantas jovens em e sem cobertura vegetal, um cuida-
definitivo. do a mais deve ser observado. Deve-
O tamanho dos berços, assim se revolver o mínimo possível o solo,
como quase tudo na natureza, não abrindo berços menores, para alterar
possui um padrão único, pré-deter- o mínimo possível a estrutura do ter-
minado. Seu tamanho depende da reno, e com isso, evitar deslizamen-
finalidade do plantio, da espécie a tos que comprometam o plantio e
ser utilizada, o tamanho da muda, e venham a formar grandes erosões.
das características locais.
Procedimentos Técnicos 77

Espaçamento entre as mudas
O espaçamento entre as mudas
deve possibilitar o bom desenvolvi-
mento das árvores, proporcionando
a penetração de luz em intensidade
suficiente e a boa circulação do ar.
Coroamento
Esta área pode variar de acordo com
a espécie, e com a finalidade do É a retirada da vegetação ao re-
plantio. dor da muda. Esta área é chamada
Geralmente, nos plantios em de coroa, e tem tamanho variável
áreas degradadas, usa-se um espa- em função do desenvolvimento da
çamento mais adensado (2m x 2m planta.
ou 3m x 3m), que promova o rápido O coroamento tem por finalidade
estabelecimento das mudas. eliminar a competição entre as mu-
Se o plantio tiver como intuito das plantadas, e a vegetação rasteira
recuperar uma área de pastagem, que geralmente se estabelece ao seu
proporcionando alimento e sombra redor. Essas plantas tem, em geral,
para o rebanho, é necessário utilizar um crescimento rápido, proporcio-
espaçamentos maiores. Todavia não nando o abafamento indesejável da
existe uma regra única a se seguir, muda e comprometendo assim o seu
uma receita pré-determinada. O desenvolvimento.
importante é caso a caso eleger a
melhor medida de acordo com o re-
sultado esperado.
78 Viveiros Educadores Plantando Vida

Adubação
Uma boa adubação do “berço” é fundamental
para o bom desenvolvimento das mudas, princi-
palmente se a área a ser plantada estiver degra-
dada, em solos fracos e lixiviados, apresentando
deficiência mineral e orgânica em sua composição.
O objetivo da adubação é garantir o fornecimento
dos nutrientes necessários para o bom desenvolvi-
mento das plantas e suas raízes.

Adubação Orgânica
O uso de matéria orgânica de-
composta é essencial para o plantio.
O mais indicado para este tipo de
adubação é o esterco de gado bem
curtido, misturado com a terra reti-
rada da camada superior do solo, na
abertura da cova. O esterco além de
fornecer os nutrientes necessários,
promove a aeração do solo, o que
favorece o bom desenvolvimento
das raízes.
É recomendado de 3 a 8 litros de
esterco bem curtido, dependendo
do tipo do solo e do tamanho do É importante lembrar que outros
berço. tipos de matéria orgânica podem
Pode-se utilizar também junta- ser utilizados na adubação, sempre
mente com o esterco curtido, 100g aproveitando os recursos disponíveis
de adubo mineral a base de fósforo no local, desde que, devidamente
retirado de rocha, que é bastante decompostas e utilizando a observa-
eficiente em plantios realizado em ção e o bom senso para determinar
áreas altamente degradadas. a quantidade a ser usada.
Procedimentos Técnicos 79

Calagem
A calagem é o processo no qual adiciona-
se calcáreo ao solo, com o intuito de tornar
o seu PH favorável ao desenvolvimento das
plantas. Em regiões de solos muito ácidos, a
calagem proporciona um melhor crescimento
para as mudas.
A maneira correta de se fazer a calagem
é primeiramente realizar a análise química do
solo, para só depois, determinar a quantidade
de calcáreo a ser utilizada. Todavia, na impos-
sibilidade de se realizar a análise, recomenda-
se, para solos com alta acidez, adicionar 100
g de calcário dolomítico ao berço.
A calagem deve ser feita preferencialmen-
te um dia antes, na véspera do plantio das
mudas, com os berços já abertos, misturando
o calcáreo à terra de forma homogênea.

Adubação de
cobertura
É a adubação feita
algum tempo depois do
plantio da muda, e consiste
em remover parte do solo
em volta da planta para in-
troduzir o adubo orgânico.
É bom lembrar que aduba-
ções de cobertura só serão
necessárias se o desenvol-
vimento das plantas estiver
aquém do esperado.
80 Viveiros Educadores Plantando Vida

Cuidados no plantio
Proceder o plantio no início da estação
chuvosa, preferencialmente em dias nublados,
observando sempre a umidade do solo;
O torrão deve ser mantido inteiro e agregado.
Para isso, deve ser irrigado na véspera do plantio
definitivo;
Colocar dentro do berço a terra retirada da cama-
da superior solo, misturada ao adubo, e em seguida,
colocar o torrão, até que o “colo” da muda (divisor
entre a parte aérea e subterrânea da muda) esteja no
mesmo nível do solo;
Posicionar o torrão de forma que o caule da planta
fique ereto;
No caso de embalagens plásticas, devemos retirá-
las completamente, cortando-a no fundo e na lateral,
evitando danificar as raízes que circundam o torrão;
Fazer o tutoramento das mudas amarrando-se
estacas individuais ao lado das mudas para pre-
venir os danos causados pela ação dos ventos,
e assim, manter o caule ereto;
Depositar matéria orgânica morta (fo-
lhas verdes, capim cortado etc...), ao
redor da muda, para evitar a exposição
do solo, bem como, manter por mais
tempo, temperatura e umidade amenas
em sua volta;
Depois do plantio é essencial regar
bem a muda, pois ela está em um am-
biente novo, enfrentando todas as difi-
culdades para se estabelecer, e nesse mo-
mento, a abundância de água é primordial;
As plantas são seres vivos, e como tal,
recebem as energias enviadas pelas pessoas
durante o plantio, sendo assim, emanar vi-
brações positivas durante a atividade, pode
trazer grandes resultados futuros.
Anexos 81

ANEXO

Educação ambiental crítica, transformadora e
emancipatória

“Apesar de a complexidade Para que possamos obter uma
ambiental envolver educação ambiental que repercuta
múltiplas dimensões, e transforme a realidade, temos
verifica-se, atualmente, que ampliar nossa visão para além
que muitos modos de pensar do campo ambiental, uma vez que,
e fazer Educação Ambiental conforme apresentado por Carvalho
enfatizam ou absolutizam (2004), a natureza e os humanos,
a dimensão ecológica da bem como a sociedade e o ambien-
crise ambiental, como se te, estabelecem uma relação de
os problemas ambientais mútua interação e co-pertença, for-
fossem originados mando um único mundo.
independentemente das Diante dessa perspectiva, a
práticas sociais” Educação Ambiental Emancipatória
(LAYRARGUES, 2006). se conjuga a partir de uma matriz
que compreende a educação como
elemento de transformação social
inspirada no diálogo, no exercício
da cidadania, no fortalecimento
dos sujeitos, na criação de espa-
ços coletivosde estabelecimento
das regras de convívio social, na
superação das formas de denomi-
nação capitalistas,na compreensão
do mundo em suacomplexida-
de e da vida em sua totalidade
(LAYRARGUES, 2006).
82 Viveiros Educadores Plantando Vida

A ação emancipatória é o meio como o conjunto das inter-relações
reflexivo, crítico e auto-crítico con- que se estabelecem entre o mundo
tínuo, pela qual podemos romper natural e o mundo social, mediado
com a barbárie do padrão vigente por saberes locais e tradicionais;
de sociedade e de civilização, em um além dos saberes científicos.
processo que parte do contexto so- Contribuir para a transformação
cietário em que nos movimentamos, dos atuais padrões de uso e dis-
do “lugar” ocupado pelo sujeito, es- tribuição dos bens ambientais em
tabelecendo experiências formativas, direção a formas mais sustentáveis,
escolares ou não, em que a reflexão justas e solidárias de vida e de rela-
problematizadora da totalidade, ção com a natureza.
apoiada numa ação consciente e Formar uma atitude ecológica
política, propicia a construção de sua dotada de sensibilidade estética,
dinâmica. Educar é emancipar a hu- ética e políticas sensíveis a identifi-
manidade, criar estados de liberdade cação dos problemas e conflitos que
diante das condições que nos colo- afetam o ambiente em que vivemos;
camos no processo histórico e propi- Implicar os sujeitos da educação
ciar alternativas para irmos além de com a solução ou melhoria destes
tais condições (ADORNO, 2000). problemas e conflitos através de
No âmbito do que chamamos de processos de ensino-aprendizagem;
Educação Ambiental Emancipatória, formais ou não formais que pre-
poderíamos incluir outras denomi- conizam a construção significativa
nações como sinônimo ou concep- de conhecimentos e a formação de
ções similares: Educação Ambiental uma cidadania ambiental;
Crítica; Educação Ambiental Popular; Atuar no cotidiano escolar e não
Educação Ambiental Transformadora escolar, provocando novas questões,
(LOUREIRO, 2004). Nesse sentido, situações de aprendizagem e desa-
tomamos essas denominações como fios para a participação na resolução
sinônimas ao longo dessa cartilha. de problemas, buscando articular
A concepção de Educação escola com os ambientes locais e
Ambiental Crítica destaca (segundo regionais onde estão inseridas;
Izabel Cristina de Moura Carvalho- Construir processos de aprendi-
2004) as seguintes funções da edu- zagem significativa, conectando a
cação ambiental: experiência de vida e os repertórios
já existentes com questões e expe-
Promover a compreensão dos riências que possam gerar novos
problemas sócio-ambientais em suas conceitos e significados para quem
múltiplas dimensões: geográficas, se abre à aventura de compreender
históricas, biológicas, sociais e sub- e se deixar surpreender pelo mundo
jetivas; considerando o ambiente que o cerca;
Anexos 83

Situar o educador como parte gogia da práxis, do pensar e agir co-
do processo educativo, sobre tudo, erentes, do diálogo entre os saberes
um mediador de relações sócio científicos e os saberes populares,
educativas, coordenador de ações, como elemento de transformação
pesquisas e reflexões escolares e/ou social, com movimento integrado
comunitárias, que oportunizem de mudança de valores, com ação
novos processos de aprendizagens política democrática e reestruturação
sociais, individuais e institucionais, é das relações econômicas, inspirada
parte fundamental de uma educação no fortalecimento dos sujeitos, no
emancipatória e transformadora. exercício da cidadania, para a su-
peração das formas de dominação,
A questão ambiental é complexa, compreendendo o mundo em sua
trans e interdisciplinar, posto que complexidade como totalidade.
nada se define em si, mas em rela- Portanto, “a educação ambiental
ções, em contextos espaço / tempo. crítica é uma proposta voltada para
As metodologias a serem aplicadas um processo educativo desvelador
em um processo transformador de- e desconstrutor dos paradigmas da
vem ser abertas, flexíveis, dialéticas e sociedade moderna com suas “ar-
relativas, integrando teoria e prática, madilhas” e engajado no processo
sistematizando e agindo sobre pro- de transformações da realidade
cessos conexos e integrados. socioambiental, construtor de novos
A existência de diferentes níveis paradigmas constituídos por uma
de percepção, de consciência e de nova sociedade ambientalmente sus-
lógicas exige a pratica dialógica para tentável” (GUIMARÃES, 2006).
superar essas diferenças e encon-
trar consensos, superar conflitos e
perceber complementaridades que Pesquisa ação participante
possibilitam acordos, parcerias e
construções coletivas harmônicas, Em função dos contornos e das
em beneficio do todo. características que deve assumir um
Nesse contexto, as práticas viveiro educador, a pequisa-ação-
educativas devem apontar para participante apresenta-se como
propostas pedagógicas centradas aquela que atende, no seu desen-
na mudança de hábitos, atitudes e volvimento, as expectativas de inte-
práticas sociais, desenvolvimento de ração entre o viveiro e os grupos de
competências, capacidade de avalia- atores sociais envolvidos, uma vez
ção e participação dos educandos. que o planejamento de intervenção
Entendemos que falar em Educação de um viveiro educador deve ser
Ambiental crítica e emancipadora é definido pela voz e ação dos sujeitos
afirmar a educação como uma peda- envolvidos, pois são eles que conhe-
84 Viveiros Educadores Plantando Vida

cem e vivenciam o cotidiano do local A partir da década de 70 novas
onde residem. Nesse caso, a pesqui- reflexões surgiram sobre esse con-
sa não é concebida restritamente ceito e ocorreu um aprofundamento
como estudos acadêmicos, mas epistemológico e metodológico
como prática cotidiana, por meio de o que acarretou na definição de
estudos, planejamento, intervenções novos procedimentos. Esse movi-
e avaliação, que podem envolver co- mento redundou no surgimento
tidianamente todas as pessoas. de uma diversidade dos tipos de
Dessa forma, é importante que pesquisa-ação, assim como, foi se
um viveiro educador obtenha a res- entrecruzando com a pesquisa do
ponsabilidade de promover entre tipo participante, chegando, hoje,
os seus distintos públicos a prática a possibilidade de pesquisa do tipo
de pesquisar e agir participativa- ação-participante. Apesar de não
mente em prol do bem comum, da mergulharmos nesse mundo concei-
melhoria da qualidade de vida, da tual de forma extensiva, pois não é
proteção e recuperação do meio am- nosso objetivo principal, cabe dizer
biente. Para tanto, é importante o que as fronteiras que separam essas
envolvimento dos diversos segmen- possibilidades são tênues.
tos sociais presentes na região de De acordo com Thiollent (2000),
abrangência do viveiro, envolvendo a pesquisa-ação é um tipo de pes-
das instituições proponentes, aos quisa social com base empírica que
seus trabalhadores, dos visitantes de é concebida e realizada em estreita
suas instalações, aos receptores de relação com uma ação ou com a
suas mudas/plantas, dos moradores resolução de um problema coletivo.
do seu entorno, à população em Dentro deste contexto, os pesquisa-
geral. dores e os participantes representati-
A literatura costuma atribuir o vos da situação ou do problema es-
nascimento da pesquisa-ação distri- tão envolvidos de modo cooperativo
buindo os créditos entre Kurt Lewin, ou participativo.
psicólogo, John Dewey, educador, Por sua vez, o pesquisador bra-
e o antropólogo John Collier, todos sileiro Demo (1989) define a pes-
com vida intelectual que se situa na quisa-ação como uma modalidade
primeira metade do século passado. alternativa de pesquisa qualitativa
Em termos gerais, a caracterís- que exige, e não pode abrir mão,
tica daquilo que concebiam como da participação. Este mesmo autor,
pesquisa-ação estava vinculada a destaca que a pesquisa prática “está
um envolvimento com a realidade ligada à práxis, ou seja, à prática
concreta, seguida por uma reflexão histórica em termos de usar conhe-
crítica e autocrítica e uma avaliação cimento científico para fins explícitos
dos resultados. de intervenção”.
Anexos 85

Neste sentido, Haguete (1987) Sato (1997) denomina pesqui-
ressalta que em determinados mo- sa-ação-participativa o processo de
mentos da pesquisa, o processo pesquisa, no qual os grupos sociais
educativo atinge todas as partes en- “investigam, conjunta e sistemati-
volvidas, sendo que pesquisadores e camente, um dado ou uma situação
participantes interagem na dialética com o objetivo de resolver um de-
do processo ensino/aprendizagem terminado problema, ou para a to-
constituindo-se uma via de mão du- mada de consciência, ou ainda para
pla na busca da práxis. a produção de conhecimentos, sob
Na pesquisa participante a re- um conjunto de ética aceito mutua-
lação de participação da prática mente”. Dessa forma, a pesquisa é
científica no trabalho desafia o pes- desenvolvida junto ao grupo de pes-
quisador a ver e compreender os su- quisa e, as decisões sobre as ações
jeitos e seus mundos a partir de um são tomadas coletivamente. O diálo-
trabalho social e político que, cons- go entre o pesquisador e o grupo e
tituindo a razão da prática, constitui o trabalho participativo, estabelecem
igualmente a razão da pesquisa” uma relação entre o conhecimento
(Brandão,1987). popular e o científico, uma troca de
Da complexidade de aspectos saberes (Vasconcellos, 1997).
que envolvem a pesquisa partici- Nos quadros da Educação
pativa, o envolvimento da equipe Ambiental, principalmente no âmbi-
constitui-se num dos elementos de to federal, alguns programas estão
seu alicerce. Essa aproximação se alicerçados na pesquisa-ação-par-
dá a partir do momento em que ticipativa, em que estudo, coleta e
se vislumbra uma convergência de análise de dados, reflexão, prática de
atitudes favoráveis à perseguição de aprendizagem e ensino, tornam-se
objetivos comuns (HAGUETE,1987). componentes fundamentais no pro-
Nessa caminhada o pesquisador cesso de formulação, implementa-
coloca-se como sujeito, juntamente ção e avaliação de políticas públicas.
com o grupo interessado, e a serviço
não do grupo mas da prática política
daquele grupo (BRANDÃO, 1987).
Uma vez apresentado, em termos
gerais, os conceitos de pesquisaação
e pesquisa participativa ou partici-
pante, apresentamos um referencial
que trabalha a fusão das duas pers-
pectivas, o que vem a constituir uma
pesquisa do tipo ação-participativa.
86 Viveiros Educadores Plantando Vida

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Ela está no horizonte
Me aproximo dois passos e ela se afasta dois passos
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos
Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei
Para que serve a utopia? Serve para isto, para fazer caminhar

(Eduardo Galeano)