Você está na página 1de 69

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA

CLAUDIA REGINA LAWISCH

O JORNALISMO SISTEMA NA EDIÇÃO ONLINE DA REVISTA BRAVO!

Santa Maria

2009

CLAUDIA REGINA LAWISCH

O JORNALISMO SISTEMA NA EDIÇÃO ONLINE DA REVISTA BRAVO!

Trabalho de Conclusão de Curso Para a obtenção do grau de Bacharel em Jornalismo Universidade Federal de Santa Maria Centro de Ciências Sociais e Humanas Curso de Comunicação Social, habilitação Jornalismo

Orientadora: Luciana Mielniczuk

Santa Maria

2009

Claudia Regina Lawisch

O JORNALISMO SISTEMA NA EDIÇÃO ONLINE DA REVISTA BRAVO!

Trabalho de Conclusão de Curso como requisito para obtenção de grau de bacharel em Jornalismo Universidade Federal de Santa Maria Centro de Ciências Sociais e Humanas Curso de Comunicação Social habilitação Jornalismo

A Comissão Examinadora, abaixo assinada, aprova o

Trabalho de Conclusão de Curso

Profª. Drª Luciana Mielniczuk

(Presidente/Orientador)

Profª. Drª Márcia Franz Amaral

(UFSM)

Leonardo Foletto

Mestre em Jornalismo - UFSC

Santa Maria, 18 de dezembro de 2009

AGRADECIMENTOS

Se cheguei aqui hoje, foi porque minha família deu o primeiro impulso. Aos meus pais e aos meus dois irmãos, agradeço pela força, pelo carinho, pela confiança e pelo amor incondicional.

Na FACOS, me senti acolhida. Os corredores cheios de gente e as portas laranjas vão deixar saudade. Conheci mais que colegas, fiz amigos. A cada um deles, agradeço pelos abraços, sorrisos, conversas sérias e bobagens. Contribuíram demais.

Para além da amizade comum, esteve o companheirismo daquelas que dividiram comigo incertezas e ansiedades. Ouviram, aconselharam e me trouxeram as gargalhadas mais verdadeiras e a segurança mais aconchegante. Mai, Camila, Bruna, Betina, Naná, Simone, Natália, Vanessa, Luísa, Nanda. Cada uma em sua particularidade fez com que esses anos fossem plenos e mais felizes. Os mais felizes.

Agradeço à minha orientadora Luciana pela compreensão, pelos ensinamentos e pelo apoio. E a todos aqueles que, mesmo longe, sei que torceram por mim.

Agradeço aos amores idos, aos mantidos e aos vindos. Amores de todas as formas. E, para finalizar, agradeço à UFSM e à Santa Maria, por terem formado o cenário mais intenso, belo e bem composto para toda essa história.

"Subi correndo no primeiro bonde, sem esperar que parasse, sem saber para onde ia. Meu caminho, pensei confuso, meu caminho não cabe nos trilhos de um bonde".

Caio F. Abreu

RESUMO

Este trabalho tem como tema o jornalismo sistema aplicado em meio digital, analisado sob o viés do jornalismo cultural. O objetivo é identificar se a edição online da revista Bravo! apresenta elementos do jornalismo sistema. Para isso, é feito um estudo de uma matéria da revista, baseado nas características do jornalismo digital e do jornalismo sistema. Para chegar à resposta, em um primeiro momento se faz a descrição do objeto e identifica-se sua posição no atual contexto do jornalismo cultural brasileiro. Em seguida, se apresenta as seis características do jornalismo digital segundo Mielniczuk (2003). A partir do conceito de jornalismo sistema de Fontcuberta (2006) e da pontuação se suas características, é feita uma relação dele com o digital, mostrando a maneira como podem ser desenvolvidos de forma conjunta com o intuito de apresentar um conteúdo contextualizado. Verifica-se, após o estudo da matéria, que as duas esferas são complementares, e que a revista Bravo! online apresenta elementos do jornalismo sistema.

Palavras-chave: jornalismo sistema; jornalismo digital; revista Bravo! online.

ABSTRACT

This paper talks about the system journalism used in digital media, analyzed by a cultural journalism point of view. The purpose is to identify if the online edition of Bravo! magazine presents elements of system journalism. For this the research studied the magazine text, based on digital journalism and system journalism features. First it makes a description of the object and identifies its position in the current context of Brazilian cultural journalism. Then, it presents the six features of digital journalism based on Mielniczuk (2003). From the concept of system journalism of Fontcuberta (2006) and the presents of your features, the research makes a link with digital, showing how system journalism and digital journalism can be developed jointly with the intention of presenting a content contextualized. After this study, check that these two spheres are complementary, and that the Bravo! online magazine presents elements of system journalism.

Key-words: system journalism, digital journalism, Bravo! online magazine.

INTRODUÇÃO

SUMÁRIO

1 A REVISTA BRAVO! NO CONTEXTO DO JORNALISMO CULTURAL BRASILEIRO

1.1 A REVISTA

1.2 MUDANÇAS NA REVISTA

1.3 BRAVO! HOJE E ASPECTOS DA VERSÃO ONLINE

1.4 O ATUAL CENÁRIO DO JORNALISMO CULTURAL BRASILEIRO

2 O AMBIENTE DIGIAL ALIADO AO JORNALISMO SISTEMA

2.1 JORNALISMO CULTURAL NA INTERNET

2.2 CARACTERÍSTICAS DO JORNALISMO DIGITAL

2.3 CARACTERÍSTICAS DO JORNALISMO SISTEMA

3 PERCURSO METODOLÓGICO E ANÁLISE

3.1 METODOLOGIA

3.1.1 Corpus de estudo

3.1.2 Material de análise

3.2 MATRIZES DE ESTUDO

3.3 ZONAS DE APROXIMAÇÃO

CONCLUSÃO

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANEXOS

9

12

12

17

29

24

28

28

29

34

40

40

41

44

48

49

59

61

64

LISTA DE FIGURAS

Figura 1: Capa da revista República – junho de 1997

13

Figura 2: Capa da primeira edição da revista Bravo! – nº 1, outubro de 1997

15

Figura 3: Carta do editor publicada na primeira edição da revista, em outubro de

1997

16

Figura 4: Capa da edição nº 78, de março de 2004

18

Figura 5: Capa de uma edição atual – número 144, de agosto de 2009

21

Figura 6: Reprodução do atual site da revista

23

Figura 7: Demonstrativo de como chegar à seção “Assunto do dia”

42

Figura 8: Sinalização da seção “Assunto do dia” e da matéria de análise

43

Figura 9: Figura 9: Sinalização da tela 4 da seção

44

Figura 10: Imagem da matéria de análise

45

Figura 11: Destaque das referências do texto

47

Figura 12: Exemplo de memória em matéria de outubro de 2008

51

Figura 13: Recursos da animação em Flash

53

Figura 14: Imagem do site Diginois

53-54

Figura 15: Trajetória de Mallu em julho de 2008

55

9

INTRODUÇÃO

O jornalismo cultural brasileiro passa por um momento em que o puro entretenimento muitas vezes vem à frente da informação de qualidade. Daniel Piza diz em seu livro Jornalismo Cultural, em 2004, que a forma de abordagem da cultura de anos atrás precisa ser retomada. Anos em que se fazia jornalismo crítico, e não um diário de celebridades. Atualmente, a evolução dos meios de comunicação, sobretudo a internet, trouxe consigo a oportunidade de grande armazenamento de dados. Com isso é possível dispor de grande quantidade de informações concisas em um intervalo mínimo de tempo, o que acaba sendo a opção de muitos veículos. No entanto, esta disponibilidade de espaço também pode ser utilizada para se ter maior aprofundamento no desenvolvimento das notícias. Em 2006, a pesquisadora da Universidade Católica do Chile, Mar de Fontcuberta discorre em seu livro Periódicos: sistemas complejos, narradores en interacción, sobre um processo que chama de “jornalismo sistema”. O conceito trata justamente da possibilidade de melhor exploração das informações, para que elas sejam compreendidas pelos leitores de maneira completa. Defende que devido a complexidade da atual sociedade, as informações devem ser mais bem explicadas, expostas de modo mais compreensível e relacionadas com o contexto. Este processo encontra no ambiente digital um espaço produtivo para se desenvolver, já que a internet nos oferece a opção de aprofundamento das informações por sua capacidade de armazenamento e a possibilidade de conexão com complementos de conteúdo através de sua escrita hipertextual e multimídia. Pensar o jornalismo cultural sob o viés do jornalismo sistema se deu pela busca de um jornalismo de qualidade, então optamos por estudar a edição online da revista Bravo!, já que ela possivelmente une os dois pontos na prática do jornalismo cultural. A opção pelo objeto se deu devido ao interesse pessoal pelo assunto, aliado à prática da revista de trazer grandes reportagens já na edição impressa. A edição online continuou com tal prática, trazendo como complemento para as matérias os recursos multimídia. Lendo sobre o jornalismo sistema, foi possível perceber que havia a possibilidade da revista, sobretudo em seu modo online, se encaixar nas suas classificações.

10

A revista é uma publicação mensal da Editora Abril sobre jornalismo cultural. É dividida em seções de artes plásticas, teatro e dança, cinema, literatura, música. Destinada para o público jovem, com idade entre 20 e 29 anos e de classe B, predominantemente, foi criada em 1997, e traz artigos, reportagens e críticas. Todo o conteúdo das edições impressas é disponibilizado na web, no site http://bravonline.abril.com.br/. Além disso, a versão online recebe atualizações variadas ao longo do mês. E serão estas atualizações o enfoque da nossa pesquisa. A publicação conta com elementos para dispor do tipo de informação que caracteriza o jornalismo sistema, já que se define como uma revista que apresenta análises críticas das manifestações artísticas e culturais no Brasil e no mundo. Além disso, integra a área da cultura, um ramo que possui informação atual para ser disponibilizada a cada momento, mas que também abarca assuntos plausíveis de mais amplo desenvolvimento. Partindo das possibilidades proporcionadas pela web, que permitem a abordagem mais completa do assunto tratado pela revista, chegamos novamente ao conceito de jornalismo sistema, segundo o qual os fatos merecem um tratamento aprofundado pelo jornalismo, além de sua simples justaposição. E mostra que podem ser aplicados com sucesso aliado ao jornalismo digital. Nosso objetivo é, então, verificar se a Bravo! online faz aplicação dos elementos que caracterizam o jornalismo sistema. Para tanto, no primeiro capítulo fazemos uma descrição do objeto, mostrando um pouco da história da revista Bravo!, há quanto tempo atua no mercado editorial brasileiro, apontando as mudanças que sofreu ao longo dos anos. Além disso, contextualizamos a publicação com o atual cenário do jornalismo cultural brasileiro. Em um segundo momento, trazemos as principais características do jornalismo digital e seu possível alinhamento com o jornalismo cultural, bem como as principais transformações que ocasionou à narrativa jornalística a partir do momento que passou a ser parte constante da sociedade. O jornalismo sistema vem em seguida, quando expomos o seu conceito, as suas características, o seu objetivo perante a sociedade e as possibilidades de aplicação no meio digital e cultural. No terceiro capítulo realizamos a análise, juntamente com o percurso metodológico. As matrizes de análise empregadas são definidas de acordo com as características do jornalismo digital aliadas às do jornalismo sistema. O corpus é composto de uma matéria publicada no dia 16 de fevereiro de 2009, na seção

11

‘Assunto do dia’ da edição online da revista e tem como título “Os artistas ainda precisam de gravadoras para fazer sucesso?”, que trata das mudanças pelas quais os artistas, principalmente do meio musical, estão passando com os avanços da internet. Ao final da análise é possível dizer se a revista, por meio da aproximação das matrizes definidas na metodologia, apresenta aspectos do que configuramos como o jornalismo sistema.

12

1 A REVISTA BRAVO! NO CONTEXTO DO JORNALISMO CULTURAL BRASILEIRO

O jornalismo cultural brasileiro traz hoje várias opções de conteúdo. Aborda desde questões relacionadas ao entretenimento àquelas que tratam de assuntos mais específicos, como um tipo determinado de música, por exemplo. É do público a função de optar pelo assunto que mais lhe interessa. Há publicações que têm como base da sua produção de conteúdo a agenda cultural, outras que tratam da vida pessoal dos artistas, e outras ainda que tratam de apenas uma determinado segmento de cultura, a exemplo das revistas sobre cinema. Para o presente estudo, o objeto escolhido foi a revista Bravo! em sua edição online. A publicação é da Editora Abril e existe desde 1997. A escolha ocorreu devido ao caráter bastante textual da revista e devido aos recursos multimídia apresentados em sua versão digital. Estas características se aproximam do conceito de jornalismo sistema que abordaremos adiante. Então, para que se tenha o conhecimento do objeto, é que fazemos, neste primeiro momento, a descrição da publicação.

1.1 A REVISTA

A revista Bravo! é uma publicação mensal que traz como conteúdo as discussões acerca de diversas produções artísticas nacionais e internacionais. Começou a circular em outubro de 1997 por iniciativa de Luiz Felipe D’Ávila e alguns parceiros, através de sua própria editora, a Editora D’Ávila. Luiz Felipe D’Ávila nasceu em 1963. Formou-se em Ciências Políticas e foi editor dos jornais Gazeta Mercantil e O Estado de S. Paulo. Publicou os livros “Brasil, uma democracia em perigo” (1990), “As Constituições Brasileiras” (1993) e “O Crepúsculo de uma era” (1995). Em 1996 fundou a editora D’Ávila, responsável pela publicação de revistas como República 1 e Sabor Pão de Açúcar 2 .

1 Publicação que circulou pela primeira vez em 31 de outubro de 1996. Sua intenção, conforme indicava em suas páginas era inserir a política, em sua concepção mais ampla, no cotidiano dos leitores, sem a imagem de assunto aborrecedor que o tema normalmente desperta. Foi o primeiro

13

A ideia da Bravo! foi motivada pela revista República, primeiro produto editorial da D’Ávila, revista que se propunha discutir os temas políticos com qualidade reflexiva e que trazia como subtítulo “o prazer da política e as políticas do prazer”. A capa exibida a seguir mostra um pouco deste caráter não usual da revista. Apresenta pessoas de renome político por meio de depoimentos incomuns.

de renome político por meio de depoimentos incomuns. Figura 1: Capa da revista República – junho

Figura 1: Capa da revista República – junho de 1997

A parte das “políticas do prazer” era o objetivo pretendido para a Bravo!, conforme diz Wagner Carelli – outro dos fundadores – em matéria escrita para o site Digestivo Cultural 3 em março de 2004. Ela trataria de cultura “mas não de uma forma

título da Editora D’Ávila Comunicações, dirigida pelo empresário Luiz Felipe D’Ávila. Mais tarde foi vendida para Mendonça de Barros, ex-ministro das Comunicações e mudou de nome para Primeira Leitura. Tornou-se partidária e sua última edição circulou em junho de 2006. 2 Sabor - Pão de Açúcar: revista do Grupo Pão de Açúcar, que tratava de gastronomia com matérias também sobre saúde, decoração e viagem. Parou de ser circular em 2003. 3 Disponível em <http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=83> Acesso em 26 de novembro de 2009.

14

meramente expositiva, informativa – não era agenda, era ensaio cultural”, conforme diz Carelli. Surgiu com o espírito “ensaístico-crítico” (CARELLI, 2004). Carelli conta que a ideia de Felipe D’Ávila fazer uma revista cultural no Brasil surgiu quando ele retornava de um período de qualificação profissional na Europa. Queria fazer uma revista semelhante às que ele lia no exterior. Com poucos colaboradores e recursos escassos, a revista começou a ser projetada em setembro de 1997. Felipe D’Ávila conseguiu levantar o patrocínio que garantiria um ano de vida da revista sem levar nenhum projeto aos potenciais patrocinadores. Não havia condições para elaborar um projeto, pois a verba era escassa e os participantes eram poucos. Segundo Carelli, ele mostrava a República para os empresários e dizia "agora quero lançar uma revista cultural, e vai sair em outubro". Todo o ramo empresarial o conhecia e o tinha em boa conta, o que acabava por convencê-los de que ele faria mesmo a revista, e que seria boa. O nome da revista era ideia de Luís Carta 4 , que chegou a registrá-lo, porém não sabia para qual publicação serviria. Carelli pediu para Andrea, filho de Luís, autorização para usá-lo no projeto deles. “Eu achava que esse era o único nome possível para a revista que viríamos a fazer”, diz Carelli. E Andrea 5 autorizou que o usassem. A revista toda foi feita, desde o projeto editorial e gráfico às matérias, todo o fechamento e os fotolitos, em 23 dias. Conta ainda que, achando que não haveria assunto suficiente no país para fazer a primeira pauta, pautaram Nova York, Paris, Tóquio. Depois tiveram que abandonar tudo, porque a quantidade de eventos culturais de importância mundial entre São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Porto Alegre era enorme. O formato pensado – e aplicado para a revista nesta época era de 30cm x 23cm.

Eu sempre disse que se eu levasse pra Abril naquela época o projeto de uma revista cultural como o da revista que acabamos fazendo – 64 páginas em couché 90g, capa em couché 270g, quatro cores, abertura com uma seção altamente intelectualizada escrita pelos mais sofisticados pensadores culturais do país, sem falar de música popular, sem falar de televisão – os caras chamariam a segurança pra prender aquele batedor de carteiras (CARELLI, 2004).

4 O italiano Luís Carta (1936-1994) era jornalista e fundou, em 1972, junto com os empresários Fabrizio Fasano e Domingo Alzugaray, a Editota Três. Por influência de Carta, um amante do glamour

e do luxo, em 1975 a editora passou a publicar a Vogue no Brasil. Em outubro de 1976, Carta deixou

a Três para fundar sua própria editora, a Carta Editorial. Luís era pai dos também jornalistas Andrea e Patrícia Carta, e irmão de Mino Carta.

5 Andrea Carta (1959-2003) era o filho mais velho de Luís Carta. Trabalhou por muitos anos como editor-chefe da revista Vogue Brasil e à frente da Carta Editorial.

15

Então, conforme previsto, em outubro de 1997, com apenas alguns dias de produção, é lançada a revista Bravo!. Vem com uma introdução explicativa escrita por Wagner Carelli que mostra como será cada parte da revista. Traz várias reportagens, ensaios e críticas, num total de 162 páginas. Na capa, podemos ver chamadas de várias das seções da revista, com destaque para a matéria sobre o Museu de Arte de São Paulo.

para a matéria sobre o Museu de Arte de São Paulo. Figura 2: Capa da primeira

Figura 2: Capa da primeira edição da revista Bravo! – nº 1, outubro de 1997.

Em novembro, com apenas dois números lançados, a Bravo! já havia recebido dois prêmios, um deles de melhor lançamento do ano. Carelli relata que receberam mais de cem cartas nos dias que se seguiram ao lançamento, com muitos elogios. “De ricas madames a pobres estudantes universitários, todo mundo lia a revista, comentava, pautava-se por ela” (2004). Ainda complementa:

Jamais senti tanta satisfação por ser um jornalista, tanto orgulho por minha profissão, tanta admiração pela capacidade dos meus companheiros, tanto

16

carinho deles para com o trabalho que escolheram fazer em suas vidas, e tanta solidariedade entre eles (CARELLI, 2004).

O fato da revista ter agradado a todo tipo de público corresponde à ideia que Luiz Felipe D’Ávila buscava quando escreveu a carta apresentada abaixo, publicada na primeira edição, quando ressaltou que cultura não era patrimônio de elites intelectuais.

que cultura não era patrimônio de elites intelectuais. Figura 3: Carta do editor publicada na primeira

Figura 3: Carta do editor publicada na primeira edição da revista, em outubro de 1997.

A revista lançou-se como um produto inovador, atingiu todos os principais objetivos dos fundadores e, devido ao sucesso, passou a interessar às outras editoras. Era vista como um veículo completo e agradável em se tratando do tema.

17

1.2 MUDANÇAS NA REVISTA

Em 2001 a revista passou por uma reforma gráfica, mudando o tamanho, que passou para os atuais 27,5cm x 22,5 cm e também o layout. Porém, conforme Carelli,

a Bravo! não podia ser ‘apenas um rostinho bonito’. Foi seu conteúdo

brilhante, seus textos longos e abundantes em total contrapartida à tendência geral da imprensa, toda presa ao dogma falacioso segundo o qual "ninguém

lê nada", que fez da revista um sucesso – editorial e comercial (2004).

Nesta época, surgiram propostas de outras editoras, sobretudo da Abril, que se mostrava interessada na revista. Uma publicação como a Bravo! era um grande negócio. E foi então que, na virada do ano de 2003 para 2004, a revista passou por sua mudança mais significativa: não resistindo em uma editora de pequeno porte como a D’Ávila – que agora já não contava com Luiz Felipe no comando - ela foi vendida para a Editora Abril, passando a ser publicada em regime de parceria entre ambas em janeiro de 2004.

É uma ironia que a revista tenha acabado lá. Que seja um sucesso – mas do

jeito que nasceu para ser, tratando cultura como se deve. Isso significa tratá- la, a cultura, não como ‘entretenimento’, mas como sentido da vida, o que

Aristóteles propunha como única possibilidade de satisfação do espírito humano. Pode parecer grandiloqüente, mas esse foi o projeto da Bravo! e a razão de seu sucesso. A seção mais lida e comentada era justamente a mais ‘difícil’, a seção ‘Ensaio’, que reunia sem concessões, sem panelas, a inteligência mais aguda do país (CARELLI, 2004).

O editor-chefe que assumiu a revista na passagem para a Editora Abril, Almir de Freitas, reafirmou o compromisso de manter a qualidade da revista, independente da transição pela qual havia passado em entrevista ao portal Comunique-se 6 , em fevereiro de 2003. Afirmou que não houve grandes mudanças com a transferência, pois “seu objetivo sempre foi o de aliar a agenda cultural em Artes Plásticas, Livros, Teatro, Dança, Música e Cinema com uma análise crítica, ao mesmo tempo sofisticada e acessível” (FREITAS, 2003). As duas editoras publicaram de maneira conjunta duas edições da revista:

janeiro e fevereiro de 2004, quando ainda foi assinada pela D’Ávila. A Bravo! passou

6 Disponível em < http://www.comunique-se.com.br/> Acesso em 26 de novembro de 2009.

18

a estampar a marca da Editora Abril em março de 2004, como mostra a figura a seguir.

Abril em março de 2004, como mostra a figura a seguir. Figura 4: Capa da edição

Figura 4: Capa da edição nº 78, de março de 2004.

Na mesma oportunidade da entrevista ao Comunique-se, Freitas foi indagado por José Paulo Lanyi sobre a crise no jornalismo cultural. Respondeu que há uma carência efetiva de crítica nas publicações hoje, e que a revista existe, em parte, em função disso. Afirma que há, sim, público sedento pelo jornalismo analítico e desprendido da necessidade do furo, do sair na frente.

Data de algum tempo uma coisa que eu considero perversa com os cadernos culturais. Houve um enxugamento de texto dos jornais, por questões econômicas, e acho que se aplicou uma lógica aos cadernos culturais, que

não existia antes, que é a lógica do furo. Uma lógica que foi transplantada

dos cadernos econômicos e políticos para os cadernos culturais. (

excelente artigo que o Sérgio Augusto escreveu para a gente. (

ensaio de grande repercussão, em que ele apontava esse círculo vicioso em que a imprensa se meteu, querer dar o furo, o furo, o furo, o furo, e, num certo momento, perder de vista até o próprio leitor (FREITAS, 2003).

Foi um

Um

)

)

19

Freitas diz, porém, não acreditar que um ensaio, uma entrevista, ou uma reportagem por si só sejam a receita do jornalismo de qualidade. Todas devem ser realizadas de modo combinado para que se tenha um produto diferenciado. É preciso estimular o debate cultural. E apesar do público consumidor da revista ser das classes A e B, ele diz que não a fazem para este ou aquele público. É para quem se interessa pelo assunto. Afirma que uma linguagem rebuscada, de nicho, não é o objetivo. “No jornalismo a gente quer falar com as pessoas. Quer falar com qualidade, sim, quer explicitar análises técnicas, boas, mas sem ser cifrado” (FREITAS, 2003). Ainda sobre a despreocupação com o furo, Freitas (2003) diz: “Nós queremos ser diferentes porque é preciso ser diferente do que existe por aí. Não estamos satisfeitos, o leitor não está satisfeito”. Afirma que eles apostam na relevância jornalística dos fatos em primeiro lugar. A equipe entende que a análise crítica não dispensa o serviço e a melhor matéria é aquela que conjuga as duas coisas. E garante que não há nenhuma interferência externa na escolha do material que receberá destaque, ela é guiada pelos princípios editorias da revista. Como toda empresa de comunicação, ela busca o maior número de leitores possível, que se enquadre nos seus objetivos editorias, mesmo que não faça maiores concessões para ampliar seu mercado. Em 2006 a revista passou definitivamente para a estrutura da Abril. Época em que Sérgio Augusto, jornalista que trabalhou durante oito anos na revista, desde o seu primeiro número, saiu. E sua saída foi marcada pelo fim de uma fase da publicação. Para ele, a diminuição dos ensaios e dos colaboradores fixos ocasionou sua decisão. Sérgio afirmou em entrevista a Julio Daio Borges para o site Digestivo Cultural 7 em fevereiro de 2007 que mantém uma posição contrária quanto aos objetivos da publicação. Para ele, a editora Abril só comprou a Bravo! com uma finalidade: transformá-la num produto mais comercial, mais vendável. E que, como consequência, transferiu a seção de ensaios, que era uma espécie de abre-alas da revista, para as últimas páginas. Para Sérgio, a Bravo! original só foi possível por ter- se beneficiado, em seu primeiro ano de vida, de facilidades criadas pela Lei Rouanet 8 , e que uma editora como a Abril, acostumada a operar em outra escala,

7 Disponível em <http://www.digestivocultural.com/entrevistas/entrevista.asp?codigo=10> Acesso em 26 de novembro de 2009. 8 Na década de 90 a promulgação da lei nº 8313/91, que caracterizou uma nova fase do desenvolvimento de atividades culturais, permitia que projetos aprovados por uma Comissão Nacional

20

jamais teria se interessado em editar uma revista nos moldes da Bravo!, como a pequena editora D’Ávila bancou, em 1997, amparada nos benefícios da renúncia fiscal.

1.3 BRAVO! HOJE E ASPECTOS DA VERSÃO ONLINE

A Bravo! hoje é formada por seis editorias, distribuídas em 100 páginas. Cada uma apresenta no mínimo dois artigos, uma crítica e a programação cultural do mês, que são também disponibilizados no site da revista. Há um esquema de colaboradores que participam especialmente da publicação com matérias e artigos, além de uma equipe fixa, concentrada, sobretudo, nas funções de edição e outros cargos dirigentes. O critério para a escolha dos colaboradores depende da pauta de cada mês, afirma Freitas. A equipe fixa serve como uma espécie de baliza para a linha editorial. As matérias da revista não apresentam um padrão de linguagem pré- determinado, isso porque cada colaborador tem um estilo diferente, procurando, dessa forma, preservar a sua diversidade. Contudo, isso não significa que a liberdade seja total: as matérias e reportagens são direcionadas para um veículo de custo alto – o preço de banca é 14 reais – e, como tal, tem a obrigação de falar para os leitores que investem este dinheiro nela (embora Freitas tenha dito anteriormente que o público-alvo não é a principal preocupação). Esse fato acaba tornando o texto um pouco mais conservador. Mesmo assim, a revista não se utiliza de recursos de linguagem cifrada, apoiada em jargões de grupos isolados (como o teatral, ou das artes plásticas). Braga (2006) tem a seguinte visão a respeito do conteúdo da revista:

O critério básico perseguido parece ser a qualidade estética, o bom atendimento de conhecedores que sabem escolher. Logo, há uma seletividade baseada no gosto apurado, buscando aquilo que se destaca. A isso corresponde uma inevitável sofisticação intelectual/cultural tanto na busca como no tratamento dos temas (2006, p. 262).

O autor ainda diz que a revista apresenta um padrão habitual de ‘serviço’ de filtragem de produtos, em que se oferece ao leitor uma gama de conteúdo já

21

selecionado. E que “além das informações de base (dia, hora), há itens (como ‘por que ver’ e ‘preste atenção’) que oferecem uma perspectiva competente de valoração” (BRAGA, 2006, p.266). A Bravo! acaba, portanto, por manter um caráter sóbrio, caminhando para um padrão que reúne, ao mesmo tempo, informação, crítica e análise. Abaixo um exemplo atual da revista, que mostra a qualidade estética apontada por Braga ao exibir como capa uma obra do pintor Marc Chagall. Apresenta, além,

disso uma manchete que aborda os filmes “

que não deixa a revista fugir de assuntos conhecidas por todos.

o Vento Levou” e “O Mágico de Oz”,

E

por todos. o Vento Levou” e “O Mágico de Oz”, E Figura 5: Capa de uma

Figura 5: Capa de uma edição atual – número 144, de agosto de 2009.

A versão online da revista traz todas as reportagens publicadas na revista impressa. Além disso, conta com fóruns de debate, grupos de discussão e blogs. Mantém uma seção chamada “Assunto do dia”, exclusiva em meio digital, que é atualizada durante o mês, sem uma periodicidade definida.

22

Em setembro de 2009 foi lançado o novo layout do site da Bravo!. As seções se mantiveram as mesmas, com mais exploração dos recursos multimídia, conforme se pode observar. Todas as seções presentes na revista também são destacadas na página da internet, bem como a agenda dos principais eventos do Rio de Janeiro e São Paulo. Logo abaixo da chamada da capa – a mesma da edição impressa – vem um box com algumas quatro manchetes, distribuídas em quatro páginas. No exemplo a seguir podemos ver a manchete da página 4 que traz uma crítica sobre a cantora Norah Jones. Nas outras páginas encontramos manchetes sobre assuntos relacionados a cinema e fotografia. Assim, no decorrer de toda a página podemos observar as chamadas com links e recursos multimídia.

23

23 Figura 6: reprodução do atual site da revista

Figura 6: reprodução do atual site da revista

24

Percebe-se que a publicação passou por algumas modificações desde o seu lançamento, em 1997, até hoje. Porém, pode-se dizer que seus objetivos e seu posicionamento perante o mercado cultural continuam o mesmo. As ressalvas se dão devido às mudanças que a própria sociedade vem enfrentando. Há a necessidade de adaptação, e é frente a estas exigências que a revista vem se projetando nos últimos anos.

1.4 O ATUAL CENÁRIO DO JORNALISMO CULTURAL BRASILEIRO

A fase pela qual o jornalismo cultural passa, abarca os diferentes estilos de interesse que foram se configurando com o passar dos anos. Essas mudanças de estilo ocorreram em parte, conforme afirma Piza (2004), devido às transformações midiáticas que foram se estabelecendo com a evolução dos meios de comunicação. Mediante tudo que nos é apresentado diariamente sobre cultura, percebe-se que há espaço para os mais variados temas e assuntos e que igualmente há público para eles. As novas mídias foram experimentando determinados formatos quando perceberam que havia espaço para isto. Definiram-se perfis e linhas de trabalho, algumas mais profundas, outras mais superficiais. O jornalismo cultural vem de um cenário histórico bem diferente do qual fazemos parte hoje. Conforme nos traz Piza, seu surgimento pode ser tratado a partir da fundação da revista The Spectator, em 1711, por Richard Steele e Joseph

Addison, dois ensaístas ingleses. Lançaram a revista com a seguinte finalidade: “Tirar

a filosofia dos gabinetes e bibliotecas, escolas e faculdades, e levar para clubes e assembléias, casas de chá e cafés” (PIZA, 2004, p. 11).

Este estilo de jornalismo nasceu na cidade e para a cidade. Nestes seus primeiro anos era feito de bastante articulismo, resenhas, debates sobre livros e artes

e pouca notícia, pois, como concordaria mais tarde Medina (2007), a informação de

serviço é fundamental, mas, por outro lado, sempre houve uma necessidade de se ter uma voz particular, de opinião. No caso das artes, essa voz pode ser melhor apresentada através da crítica, das resenhas e dos ensaios.

25

Com a modernização da sociedade, a partir da virada para o século XX, o jornalismo cultural se aprimorou, dando os primeiros passos como exercício

profissional. Segundo Piza (2004), passou a dar importância para a reportagem, para

o relato de fatos (mesmo que sensacionalista) e a utilizar a entrevista. Surge nesta

fase, o crítico mais informativo, direto, menos abstrato do que anteriormente e ele continua a exercer grande influência e servir de referência para leitores, artistas e intelectuais. A crítica continua a ser o estilo principal do jornalismo cultural, tanto nas

revistas como nos jornais diários. Já no Brasil, a partir de meados da década de 1950, segundo Gadini (2007), os principais jornais brasileiros, que publicavam suplementos literários, conseguem o fortalecimento do campo cultural por meio do agendamento cotidiano de temas, fatos

e uma cobertura mais sistemática da área. Observa-se, então, neste fim dos anos

1950 uma gradativa modificação das editorias de cultura, que passa a incluir as seções de variedades, passatempos, horóscopo, além das colunas sociais. E com o fortalecimento e penetração televisiva no cotidiano brasileiro – que acontecia na mesma época – os cadernos de cultura acentuam a mudança de sua cobertura – marcada por ensaios, textos mais longos e apreciação crítica dos bens/serviços culturais – para notas, imagens e informações que comentam ou apenas atualizam situações da programação televisiva. Com o passar dos anos, as atrações culturais foram aparecendo em maior número e o tema ganhou espaço nos jornais diários e nas revistas, especializadas no tema ou não. Devido à grande demanda de acontecimentos, não é mais possível mostrar tudo o que ocorre. Escolhas e delimitação de assuntos são necessários. Com isso o jornalismo cultural passou a viver uma fase diferente. Nos últimos 20 anos, acontece um desaparecimento do espaço para a crítica. Há na grande imprensa um forte domínio de assuntos sobre as celebridades e um rebaixamento dos critérios de avaliação dos produtos. Houve um processo que reduziu o periódico brasileiro ou a um guia de serviços ou a uma galeria de celebridades, formando um leitor que espera apenas isso do investimento que faz na banca ou na assinatura. Segundo Gadini (2007) tudo gira em torno de um assunto ter ou não ter audiência, ser ou não ser popular o suficiente. As publicações se concentram mais em repercutir esses prováveis sucessos de massa. O que está fora disso é, muitas vezes, ignorado. Deixam de lado as tentativas de resistências, as exibições daquilo que não está no auge. Ou, segundo

26

Piza (2004, p.31) “as convertem também em ‘atrações’ com ibope menor, mas seguro”. Werneck (2007) vê isso como uma traição aos leitores, à profissão e “ao

pobre livro que se não estourar em livraria a ponto de entrar numa lista, provavelmente jamais será resenhado”. (2007, p.67). O autor trata como negativa também a questão da agenda, chamando-a de “camisa-de-força”, da qual o veículo precisa se desvencilhar para que o leitor ganhe em informação: “O jornalista vai fazer uma matéria sobre a exposição só porque a exposição está acontecendo, e se não acontecer jamais se vai escrever sobre aquele artista que, no entanto, é um assunto interessante o tempo todo”. (WERNECK, 2007, p. 70)

É importante ressaltar que não é dito que há problema em o jornalismo cultural

tratar da lógica do entretenimento/ibope, afinal, a cultura traduz-se em expressões integradas por múltiplas maneiras, das quais faz parte também o entretenimento. O problema reside, sim, na centralidade do culto ao entretenimento, apagando outras dimensões de uma determinada manifestação cultural.

Porém, há veículos que tentam resistir a essa realidade e assumem uma postura diferente frente à lógica do entretenimento, tratando de outra maneira as informações. Trazem aquilo que é menos conhecido, mas não menos interessante. E conforme Werneck (2007), esse fato não se trata de dar “uma força para o artista”, mas, sim, de dar uma força para o leitor, pois ele tem o direito de conhecer os fatos que estejam acontecendo por aí, e que a imprensa tantas vezes por opção esconde. Esses veículos estão dentro de um grupo que optou por olhar para os menores nichos do mercado. Assumiram uma abordagem de assuntos bem específicos. Grupos estes que Piza (2004) chama de ‘guetos’ ou tribos.

A questão do entretenimento apontada como atual no jornalismo cultural, pode

ter sido reforçada pelo surgimento da internet como ferramenta, uma vez que há a busca pela atualização contínua, a corrida pelo “furo”, conforme conta Ferrari (2003):

No caso específico das redações online, a produção de reportagens deixou de ser um item do exercício do jornalismo. Adotou-se apenas a produção de notícias, ou, como se diz no jargão jornalístico, de ‘empacotamento’ da notícia. Empacotar significa receber um material produzido, na maioria das vezes, por uma agência de notícias conveniada, e mudar o título, a abertura, transformar alguns parágrafos em outra matéria para ser usada como link correlato, adicionar foto ou vídeo, e por aí afora (2003, p.44).

A autora completa que, com a internet, o tempo entre a reunião de pauta e a

publicação da notícia, passou a ser, muitas vezes, de dez minutos. É o tempo de

27

acessar uma agência de notícia, fazer algumas pequenas alterações na informação e publicá-la. Porém muitas vezes esta atualização instantânea não é válida, pois apesar da agilidade, é comum ela vir com erros, seja de ortografia ou apuração e vir sem um aprofundamento sobre o assunto, sem recursos de hipermídia. E se é assim, nem o leitor pode ir por um caminho simples atrás de um complemento direto, pois este complemente não está disponibilizado. Mas a utilização da internet dessa maneira não pode ser generalizada. Ela pode ser trabalhada seguindo uma perspectiva de melhor utilização dos novos recursos oferecidos. Além da atualização contínua ela oferece, por exemplo, espaço e recursos multimídia, que possibilitam um tratamento diferenciado das informações, com contextualização. É justamente em torno do conteúdo contextualizado que gira a questão que abordaremos no capítulo seguinte, quando, a esse melhor aproveitamento das ferramentas, pudermos aliar o conceito de jornalismo sistema.

28

2 O AMBIENTE DIGITAL ALIADO AO JORNALISMO SISTEMA

Um dos espaços possíveis de se exercer o jornalismo hoje é a internet. O círculo vem se popularizando desde os anos 1990 e se configura como uma opção de extensão ou inovação para os veículos de comunicação já existentes que traz possibilidades auxiliares ao desenvolvimento das matérias noticiosas. O aumento de oportunidades se dá, sobretudo, devido às características do conteúdo desenvolvido em meio digital. Veremos adiante que são seis 9 e que elas vêm, em alguns casos, como fortes potencializadoras para o conteúdo jornalístico. Uma das conseqüências desta potencialização pode vir a ser o exercício do jornalismo sistema. Trabalhado por Fontcuberta (2006), trata-se do conceito de um jornalismo que encontra meios, seja na mídia impressa, televisiva ou online, de se desenvolver de maneira mais densa, de modo a apresentar informações mais completas.

2.1 JORNALISMO CULTURAL NA INTERNET

O surgimento e a popularização da internet têm servido como caminho alternativo 10 para o jornalismo cultural, já que a internet permite que o custo da etapa de circulação diminua bastante, assim como o custo de distribuição. “Incontáveis sites se dedicam a livros, artes e ideias, formando fóruns e prestando serviços de uma forma que a imprensa escrita não pode, por falta de interatividade e espaço” (PIZA, 2004, p.31) As novas opções de aplicação do jornalismo cultural estão disponíveis na internet em diferentes estilos de linguagem, forma e conteúdo. Segundo Piza, as revistas eletrônicas têm procurado fugir dos padrões pré-estabelecidos da grande imprensa e se destacam a cada dia.

9 As características do jornalismo digital, segundo Palacios (1999) são: multimidialidade, interatividade, hipertextualidade, personalização e memória. Mielniczuk (2003) acrescenta a estas e atualização contínua. Abordaremos elas adiante.

10 Ressaltamos que o significado do termo utilizado não se refere à prática jornalística alternativa empregada na época do regime militar brasileiro.

29

Em se tratando de assuntos relativos à cultura, como música e dança, por exemplo, os recursos de áudio e vídeo são muito importantes, e antes de termos a mídia digital, nem tudo relativo a eles era possível de ser exposto. O que muda também é a periodicidade, isso porque as publicações que antes eram mensais, quinzenais ou semanais, agora não necessariamente precisam seguir essa linha. É possível que os fatos escolhidos para serem abordados sejam exibidos assim que acontecem. Também se pode desenvolver de forma completa uma matéria para já em poucos dias disponibilizá-la, não precisando esperar uma próxima edição. Ressalta-se que este último caso não se trata da lógica do ‘furo’, já que a ideia é desenvolver a matéria de forma completa e em poucos dias, não poucas horas.

2.2 CARACTERÍSTICAS DO JORNALISMO DIGITAL

Desde o início dos anos 1990 vivenciamos a popularização do termo ‘multimídia’ como tecnologia que engloba fotografia, som e imagem. Com o desenvolvimento da internet, essa tecnologia tornou-se presença constante, inclusive para as práticas jornalísticas. Segundo Mielniczuk (2003), os diferentes tipos de práticas jornalísticas na web não surgiram assim como as vemos hoje. Seu gradativo desenvolvimento foi dado em fases, que classifica como gerações. São elas:

Primeira Geração – a edição online dos webjornais é a cópia do impresso, tanto na formatação quanto na organização. Segunda Geração – Há maior agregação de recursos possibilitados pelas tecnologias da rede. Potencializam-se os recursos. Terceira Geração – recursos hipertextuais utilizados de forma intensificada. Convergência entre suportes diferentes. Por vezes, apresenta-se um produto exclusivo para a web. Importante deixar claro que as fases não são excludentes entre si. Se a terceira fase é implantada em um determinado veículo, não significa que a primeira não possa ser também. Em um mesmo período de tempo podemos encontrar produtos que se encaixam em diferentes fases, bem como podemos encontrar traços das diferentes gerações em uma mesma publicação.

30

Há uma perspectiva que, segundo Beiguelman (2007), hoje em dia se chama de ecologia midiática, a qual prega que uma mídia nunca supera a outra. A internet não acaba com o livro, ou a televisão com o cinema. O que acontece é que com o aparecimento de uma mídia nova, há uma alteração na maneira como se concebe as mídias que lhes são anteriores. Diante dessa sequência, pode-se dizer que a internet é a mídia que melhor representa esse processo de ecologia, porque ela incorpora todas as mídias que lhe são precedentes; é alterada por elas e as altera também. Ela trata dos assuntos valendo-se de todas as ferramentas antes disponibilizadas por cada um individualmente. Palacios (2003) trabalha com as ideias de potencialização e ruptura causadas pela utilização da internet como veículo jornalístico. Utiliza Dominique Wolton para descrever a distinção entre a lógica da oferta e da demanda. A lógica da oferta caracteriza os meios de comunicação tradicionais (imprensa, Rádio, TV), cujas emissões de mensagem se enquadram no modelo Um Todos 11 . Já a lógica da demanda caracteriza as Novas Tecnologias de Comunicação – onde está incluída a internet – que se enquadram no modelo Todos Todos 12 . Dessa forma, pode-se notar que os recursos disponibilizados agora não vão fazer com que as funções de antes sejam excluídas. Não se trata de uma evolução excludente, que supere as formas anteriores. O que temos é um incremento, algo que chega para complementar, para conviver com o que já existia. Assim, conforme Palacios (2003), as características do jornalismo na web aparecem, sobretudo, como continuidades e potencializações e não obrigatoriamente como rupturas com relação ao jornalismo praticado em suportes anteriores. O autor exemplifica:

A Multimidialidade do Jornalismo na Web é certamente uma Continuidade, se considerarmos que na TV já ocorre uma conjugação de formatos mediáticos (imagem, som e texto). No entanto, é igualmente evidente que a Web, pela facilidade de conjugação dos diferentes formatos, potencializa essa característica. O mesmo pode ser dito com relação à Hipertextualidade, que pode ser encontrada não apenas em suportes digitais anteriores, como o CD-ROM, mas igualmente, e avant-la-léttre, num artefato comunicacional de tipo impresso tão antigo quanto uma enciclopédia. A Personalização é altamente potencializada na Web, mas já está presente

11 Modelo que funciona por emissão de mensagens, no qual há um emissor e um receptor distintos (ex. mídia tradicional). Optamos pelo símbolo da bi-direcionalidade () para ambos os modelos, pois, ainda que com função diferente do emissor, o receptor não será necessariamente passivo.

12 Modelo que funciona por disponibilização e acesso, no qual não há obrigatoriamente emissor e receptor separados (ex. internet). O conteúdo pode ser produzido e disponibilizado tanto por um quanto por outro. O que, esclarecemos aqui, não é uma regra.

31

em suportes anteriores, através da segmentação de audiência (públicos- alvos) (PALACIOS, 2003, p. 7).

A ruptura ocasionada pelo surgimento do jornalismo para web, sob o ponto de

vista de Palacios consiste na diminuição do limite de espaço e/ou tempo que é oferecido. Hoje se trabalha com um banco de dados de crescente capacidade de armazenamento. Sua atualização e acesso podem ser feitas ao mesmo tempo tanto pelo produtor da informação quanto pelo usuário. Assim, segundo o autor, o jornalismo para web “dispõe de espaço virtualmente ilimitado, no que diz respeito à quantidade de informação que pode ser produzida, recuperada, associada e colocada à disposição do seu público” (2003, p. 7). O que vemos, segundo Mielniczuk (2003), é que o jornalismo de terceira geração está buscando construir um produto diferenciado. Como já vimos, ele vem como forma de potencialização, porém, também são necessárias algumas rupturas para que este novo tipo de jornalismo tenha atrativos diferenciados. Hoje, o suporte já não é mais desconhecido, o que permite que mais possibilidades sejam exploradas. Um dos grandes desafios é conseguir aplicar a linguagem própria do novo meio para melhor explorá-lo.

Para uma aplicação desta linguagem própria do novo meio que é buscada, que oportuniza a melhor exploração de suas potencialidades, são apontadas, segundo Mielniczuk (2003), seis características do jornalismo feito para a internet. São elas:

- Multimidialidade/convergência - Refere-se à convergência dos formatos das

mídias tradicionais (imagem, texto e som) na narração do fato jornalístico. É possível

devido às várias plataformas de suporte oferecidas pelos meios digitais. Dá a ideia de complemento.

- Interatividade – A internet possibilita que os seus leitores façam parte do

processo jornalístico. Isto pode acontecer pela troca de e-mails entre leitores e jornalistas, através da disponibilização da opinião dos leitores, como é feito em sites que abrigam fóruns de discussões, através de chats com jornalistas, etc. A interatividade ocorre também dentro da própria notícia. Isso porque a navegação pelo hipertexto também pode ser classificada como uma situação interativa, já que é o leitor quem escolhe o rumo que vai tomar durante a leitura.

- Hipertextualidade - Na narrativa jornalística, oferece a possibilidade de uma

conexão entre textos através de links. Esses links podem levar o leitor a outros

32

textos que complementem o de onde partiu, bem como levá-lo à imagens, fotos, sons, vídeos. É empregada também como barra de navegação.

- Personalização - Também denominada individualização, é a opção oferecida

ao usuário de configurar os produtos jornalísticos de acordo com os seus interesses

individuais, como exemplo, os sites que oferecem uma pré-seleção dos assuntos e da maneira como será apresentado (diagramação). Assim, quando o site é acessado, a página de abertura é carregada de acordo com as preferências do usuário. Além disso, da mesma forma que o percurso hipertextual pode ser uma situação interativa, pois o leitor que escolhe qual o seu caminho de leitura, essa pode ser tida também como uma situação personalizada, já que cada usuário define o percurso de acordo com os seus interesses. - Memória - Trata-se por memória a opção de acúmulo e acesso à informações na internet por tempo indeterminado. Os conteúdos publicados nos sites noticiosos podem ser acessados durante muito tempo. Segundo Palacios (1999) esta acumulação de informações é bem viável técnica e economicamente na web. Assim,

o volume de informação produzida e diretamente disponível ao usuário e ao produtor da notícia cresce exponencialmente no jornalismo online.

- Instantaneidade/atualização contínua – Se configura na rapidez do acesso

às informações. Tudo devido à facilidade de disponibilização proporcionada pela digitalização. Todas as características refletem as possibilidades oferecidas pela internet. Cada uma com suas particularidades, estão aí para facilitar, para aprimorar a exposição das informações junto ao público. Todas elas podem ser empregadas de várias maneiras, algumas de forma mais promissora, outras menos, já que, conforme afirma Palacios:

Não acreditamos existir um formato canônico, nem tampouco “mais avançado” ou “mais apropriado” no jornalismo que hoje se pratica na Web. Diferentes experimentos encontram-se em curso, sugerindo uma multiplicidade de formatos possíveis e complementares, que exploram de modo variado as características das NTC (2003, p. 3).

Complementando a ideia de Palacios, o que se pode perceber é que, hoje, a informação é um misto de vários elementos. Ferrari (2003) diz que já não é mais possível apenas pensar em colocar uma reportagem na internet. É preciso pensar em tudo que a rodeia, como, por exemplo, em uma enquete para se fazer com os

33

leitores, no tema do chat, nos vídeos e nos áudios. É necessário reunir o maior número de assuntos possíveis para se relacionar com a reportagem.

Para o pai do hipertexto, Ted Nelson, o conceito de texto elástico (strech text), aquele que se expande e se contrai conforme as solicitações do leitor, faz com que o internauta assuma o comando da ação, trocando filmes, vídeos, diálogos, textos, imagens como se estivesse em uma grande biblioteca digital (FERRARI, 2003, p.42).

Esta participação do internauta na apresentação da informação e a disponibilização dessa informação por meio de recursos variados nos leva ainda para outra abordagem. A interatividade, o espaço e as características do jornalismo feito na internet vieram para auxiliar tanto os que prezam pelo imediatismo, o furo, a instantaneidade, quanto para os que querem aproveitar o espaço para desenvolver seus assuntos. Segundo Dória (2007), para quem procura o desenvolvimento, a internet torna possível ampliar as pautas, conectá-las a outras ferramentas que permitam ao leitor a maior absorção do seu conteúdo.

Não acreditamos que informações na internet tenham de ter dois parágrafos, e que se a coisa não está sendo clicada o suficiente por segundo tenha de

Não sei se vai durar muito tempo. Mas espero que o

destino da internet não seja abandonar grandes reportagens, até porque, hoje, ela é o único lugar onde se pode, em países como o Brasil, fazer boa reportagem, já que esse tipo de espaço é reduzido hoje nos meios impressos (DÓRIA, 2007, p.100).

ser tirada do ar (

)

Conforme afirma Ferrari (2003), em reportagens maiores, pode-se valer das possibilidades oferecidas pelo meio digital para uma leitura mais dinâmica, mais agradável com a utilização de recursos de áudio, vídeo, galerias de fotos. E são estas reportagens com recursos que possibilitam o exercício do jornalismo que trataremos daqui para adiante, o jornalismo sistema.

34

2.3 CARACTERÍSTICAS DO JORNALISMO SISTEMA

O crescimento do fluxo da informação trazido pela internet é uma das características da nossa sociedade contemporânea. Esse avanço tecnológico gera um paradoxo no campo da comunicação. De um lado o jornalismo imediatista traz as informações instantaneamente, de outro, muitas vezes presenciamos a carência quanto à explicações aprofundadas sobre determinados assuntos. Segundo Fontcuberta (2006) a nossa sociedade se moderniza a cada momento e alguns dos produtos de várias naturezas que estão surgindo nela não acompanham esta complexidade. Dentre eles, os produtos jornalísticos. Diagnostica que os produtos desse meio atuam numa relação inversa ao progresso da sociedade. Quanto mais informação se transmite, menos ela é complexa. A disputa pela conquista da audiência é hoje o principal objetivo de grande parte dos meios de comunicação. Ainda que o preço a pagar por isso seja a perda do sentido e do significado dos acontecimentos que são noticiados. No geral, não há muita preocupação com a contribuição para o crescimento social do leitor, uma vez que as informações não são ponderadas de modo a complementar o seu nível de conhecimento. O que temos é a concorrência em torno da instantaneidade, do trazer a informação primeiro que o outro, a lógica do ‘furo’. Esta maneira de tratar as informações é definida como cultura mosaico ou, no caso, jornalismo mosaico.

Abraham Moles denomina ‘la cultura mosaico’ para referirse a los contenidos ofrecidos por los medios de comunicación que define como fragmentarios, atomizados, y expuestos sin ninguna jerarquización. Moles denomina a esos contenidos ‘átomos de cultura’ y considera que son un obstáculo para comprender la realidad (FONTCUBERTA, 2006, pág. 39). 13

Podemos falar de um jornalismo mosaico quando um veículo oferece seu conteúdo desarticulado, sem um completo planejamento prévio. As empresas tendem a ter um projeto de abordagem dos conteúdos, porém com a correria, muitas

13 “Abraham Moles denomina ‘a cultura mosaico’ para referir-se a conteúdos oferecidos pelos meios de comunicação que define como fragmentados, atomizados e expostos sem nenhuma hierarquização. Moles denomina esses conteúdos de ‘átomos de cultura’ e considera que são um obstáculo para compreender a realidade.”

35

vezes as informações acabam por ser disponibilizadas sem que haja uma organização, um preparo. Em contrapartida à cultura mosaico vem a cultura “sistema”, que tem por definição o oposto da mosaico

El sistema es una totalidad compleja compuesta por partes diferentes que están interrelacionadas y que interactúan em uma organización. Esa interación hace que el sistema sea mucho más que uma suma, uma

Apostar por un periodismo sistema es

desarrollar um periodismo que no aísle o disgregue los acontecimientos; que

los contemple y los articule em um contexto determinado y que estabelezca uma gama de interacciones con los receptores que pueda contribuir a la construcción del sentido y a la comprensión de la realidad (FONTCUBERTA, 2006, pág. 41). 14

yuxtaposición de las partes. (

)

Fontcuberta (2006) utiliza-se da contribuição de Edgar Morin, que sustenta a ideia de que as relações sociais se parecem com um tecido formado por partes heterogêneas e inseparáveis, que interferem entre si. Ao remeter a teoria para o campo jornalístico, a autora percebe que os acontecimentos deste caráter não se desenrolam de maneira isolada, uma vez que para todo fato existem causas e consequências que refletem de diferentes modos na sociedade. Utilizamos como contribuição o estudo feito em 2008 por Susana Leite, que trabalhou o conceito de jornalismo sistema como uma proposta de contextualização ao conteúdo apresentado na internet. Segundo ela, o jornalismo sistema objetiva abordar os acontecimentos já com a intenção de inscrevê-lo num contexto social e não pelo simples fato de abordar. Leite (2008) desenvolveu em seu estudo a tabela a seguir, que expõe as características do jornalismo mosaico e as do jornalismo sistema para facilitar a sua comparação.

14 “O sistema é uma totalidade complexa composta por partes diferentes que estão inter-relacionadas

e que inter-atuam em uma organização. Essa interação faz com que o sistema seja muito mais que

Apostar em um jornalismo sistema é desenvolver um

jornalismo que não desuna os acontecimentos; que os contemple e os articule em um contexto determinado e que estabeleça uma gama de interações com os receptores que possa contribuir com

a construção do sentido e a compreensão da realidade.”

uma soma, uma justaposição das partes. (

)

36

Tabela 1: Comparação entre jornalismo mosaico e jornalismo sistema

Características do jornalismo mosaico

Características do jornalismo sistema

- Distribui seus conteúdos de forma aleatória;

- Conecta seus conteúdos, os articula e os explica;

- Preocupa-se mais com dados do que com significados;

- Mostra uma coerência na organização interna da pauta que responde a um desenho preestabelecido;

- Isola os fatos, ignora os processos;

- Tem suficiente flexibilidade para estabelecer variações nesse desenho sem que se percam os significados;

- Explica seus conteúdos por meio da simplificação;

- Integra os fatos em um contexto. Mostra e explica o desenvolvimento dos processos que os originaram, suas causas e consequências;

- Responde a um formato preestabelecido;

- Oferece dados com significados;

- Constrói sua abordagem como uma

- É um sistema aberto;

mistura de conteúdos sem os articular

- Confunde o dado relevante com o acidental;

- Concebe o receptor como usuário;

- É um sistema fechado.

 

Fonte: (LEITE, 2008, p. 18).

Como podemos visualizar, segundo Fontcuberta, o jornalismo sistema

atenderia a necessidade de mostrar uma visão íntegra do tema tratado na cobertura

jornalística. Ela entende que determinado fato não possa ser visto apenas sob um

viés – político, por exemplo, pois ele irá refletir em outros campos sociais como o

cultural e o econômico.

Em se tratando do tema do nosso trabalho – jornalismo cultural – os fatos

deveriam ser mostrados sob um aspecto que aborde também o cunho social ou o

econômico. Dessa forma, uma notícia que trata de uma nova banda, por exemplo,

além de mostrar o cenário cultural onde ela agora se encaixaria, precisa alertar para

os desafios e recompensas que irá enfrentar economicamente e o que esses

desafios trarão para a sociedade. A partir desse tipo de ação é que Fontcuberta

acredita que o jornalismo estaria exercendo seu papel de mediador na compreensão

da sociedade complexa.

37

Em seu estudo, Leite (2008) propôs uma contextualização na cobertura do evento Live 8 15 , tendo como base a abordagem feita pelo jornal espanhol El País 16 .

Sua proposta focou na possível aplicação do jornalismo sistema por meio da narrativa hipertextual que, conforme já vimos, operacionaliza o entrelaçamento dos conteúdos – uma das características do sistema. Leite destacou a questão da

flexibilidade da organização interna das informações, ressaltando que, para que haja

a conexão entre os assuntos, uma determinada pauta não pode ser tratada sob aspectos isolados. No caso do Live 8 no El País, demonstra que “as abordagens dos temas

sobre a pauta permanecem isoladas uma das outras. O isolamento a respeito do que

é ‘Cultura’, em relação ao que está contido em ‘Tecnologia’, por exemplo” (LEITE,

2008, p. 43). A autora acrescenta a essa forma de abordagem do jornal, a possibilidade de reunir em uma mesma narrativa hipertextual essas informações publicadas de modo disperso, ordenando-as sob uma perspectiva de inter-relação entre as partes para, então, chegar ao que se entende por jornalismo sistema. Deixa claro que não propõe um padrão de apuração para as informações, já que cada assunto necessita de uma forma distinta de abordagem, mas sim, relacionar os aspectos que os fazem de entrecruzar, unir os pontos em comum. A análise de Leite contribui para a afirmação de Fontcuberta sobre o pressuposto do jornalismo sistema de organizar um leque de informações articuladas que contribuam para a compreensão da realidade, uma vez que temos que considerar que é de acordo com o que se apresenta na mídia que o cidadão toma conhecimento dos fatos que acontecem na sociedade. Assim, podemos dizer que à medida que o jornalismo trata as informações de forma interligada e com pluralidade de fontes e respostas para as possíveis implicações que o assunto exige, teremos uma possibilidade mais significativa de compreender os fatos noticiados em nosso dia-a-dia. Fontcuberta acredita que o jornalismo sistema explica processos em que os fatos noticiosos são as “pontas de muitos icebergs”, cujas partes encobertas não são

15 O Live 8 foi uma série de shows de caráter beneficente ocorridos entre os dias 2 e 6 de julho de 2005 com o objetivo de chamar a atenção para a miséria do continente africano e para o perdão da dívida externa das nações mais pobres do mundo. Aconteceu nos países que faziam parte do G8 e na África do Sul. 16 <www.elpais.com>

38

suficientemente mostradas. Para ela, os acontecimentos precisam ser explicados, analisados e interpretados profundamente desde o seu princípio até o seu fim. A autora, ao discorrer sobre jornalismo sistema, não fala sobre algum suporte que possa ser mais adequado – fala apenas sobre o tratamento da informação. Contudo, diante das características ‘sistema aberto’, ‘preferir inovar a apegar-se a um formato’ e ‘conectar os conteúdos, articulá-los e explicá-los’ e após o conhecimento da proposta de Leite (2008), somos levados a pensar que tais aspectos podem ser efetivados dentro de uma escrita hipertextual, já que a web por meio das lexias 17 informativas dá o auxílio ao leitor na construção e compreensão da informação. Vimos que o tratamento da informação, para que ela se configure em jornalismo sistema, deve ser feito de modo particular. Não há no estudo de Fontcuberta uma pontuação específica do que é necessário para atingi-lo. A autora vai destacando, ao longo de seu texto, as características que julga que devem integrar um texto informativo para que ele transmita informação de qualidade, aprofundada. No entanto, achamos mais hábil transformar os destaques ao longo do texto da autora em características pontuais. É uma maneira de melhor expô-las e de melhor trabalhá-las em seguida, na análise. Então, unimos cada uma delas em tópicos enumerados:

1) O conteúdo apresentado é uma totalidade composta de partes que estão inter-relacionadas e que interatuam; 2) É mais que uma justaposição de partes informativas; 3) Não expõe acontecimentos separadamente, agrega-os em um contexto; 4) Estabelece relações com os leitores, que contribuem para a construção do sentido e compreensão da realidade; 5) Acontecimentos interpretados desde a hora que acontece até o seu desfecho; 6) Sistema aberto; 7) Prefere inovar a apegar-se a um formato.

17 Lexia é o nome dado às informações armazenadas na internet. É tudo aquilo que podemos acessar por meio de um link. Pode ser um texto, uma imagem, um arquivo de áudio, uma infografia, etc.

39

Trazendo as características novamente para uma visualização sob o foco do jornalismo digital, mostramos anteriormente que muitas vezes as informações a que temos acesso são fragmentadas, já que prezam pelo imediatismo. Dessa forma, as edições online de muitos jornais/revistas/portais são uma amostra de jornalismo mosaico. No entanto é um erro confundir o suporte com o conteúdo. É possível que se faça ou já esteja se fazendo este tipo de jornalismo aprofundado dentro do jornalismo digital, uma vez que ele apresenta as seis características citadas anteriormente. Se elas forem bem exploradas, possibilitam que haja tal desenvolvimento. A mídia pode incorporar os novos preceitos de comunicação decorrentes desse avanço da internet. O aproveitamento de todos os recursos oferecidos pela web pode ser potencializador. A questão consiste então em assegurar que o jornalismo utilize-os e exerça o papel de promover a reflexão sobre aquilo que noticia, por meio de um relato mais completo. Passamos agora para o capítulo de análise, onde é feito o teste acerca do real aproveitamento dos recursos da internet pela edição online da revista Bravo!. A partir da observação dos resultados poderemos dizer se o jornalismo sistema se alia à web para que se aplique com mais facilidade e se a revista já está fazendo uso dessa característica.

40

3 PERCURSO METODOLÓGICO E ANÁLISE

Este capítulo apresenta, em um primeiro momento, o percurso metodológico que escolhemos para realizar a pesquisa. Para identificar se a revista Bravo! faz uso dos elementos do jornalismo sistema em sua versão online, utilizamos a aproximação entre as características do jornalismo digital e do jornalismo sistema presentes na matéria estudada. Portanto, a relação que estabelecemos no capítulo 2 entre o jornalismo digital e o jornalismo sistema é fundamental para o desenvolvimento de nossa análise. O estudo terá como embasamento alguns aspectos da metodologia de análise de conteúdo (AC). Para aplicarmos o método, delimitamos um corpus de estudo dentro da revista. Ele é composto de uma matéria integrante da seção “Assunto do dia” que trata de diversos assuntos dentro do tema cultura e é disponibilizado apenas na versão digital da revista.

3.1 METODOLOGIA

Estando a nossa matéria em uma seção exclusivamente online da revista e sendo nosso objetivo verificar se são aplicadas as possibilidades do jornalismo digital para que haja o jornalismo sistema, partimos para o estudo definindo quais seriam nossas ferramentas. Não optamos por aplicar a análise de conteúdo propriamente dita porque o que virá a definir, em nosso estudo, se há o jornalismo sistema, não se define somente pelo conteúdo integrante da matéria, mas também pelas ferramentas aplicadas a ela. Sendo assim, a AC não se aplica em totalidade ao nosso trabalho, mas em alguns aspectos contribui de forma significativa. Percebe-se isso no caso de Herscovitz (2007), que formulou uma definição detalhada do que considera ser a análise de conteúdo jornalística e que, por sua vez, traz elementos que são aplicáveis ao nosso estudo. Conforme a autora ela é um

41

método de pesquisa que recolhe e analisa textos, sons, símbolos e imagens impressas, gravadas ou veiculadas em forma eletrônica ou digital encontrados na mídia a partir de uma amostra aleatória ou não dos objetos estudados com o objetivo de fazer inferências sobre seus conteúdos e

A identificação sistemática de tendências e representações

obtém melhores resultados quando emprega ao mesmo tempo a análise quantitativa (contagem de frequências do conteúdo manifesto) e a análise qualitativa (avaliação do conteúdo latente a partir do sentido geral dos textos, do contexto onde aparece, dos meios que o veiculam e/ou dos públicos aos quais se destina) (HERSCOVITZ, 2007, p. 126-127).

formatos (

)

Outro aspecto da AC que podemos utilizar é o abordado por Fonseca Júnior (2005) que, com a finalidade de explicar como se dá a aplicação do método, divide o processo em pré-análise, exploração do material, e tratamento dos resultados obtidos e interpretação. Na pré-análise realiza-se o contato, a aproximação do pesquisador com o objeto da pesquisa. Acontece uma definição do que virá a ser o corpus de estudo, entre outros aspectos. Em seguida, parte-se para a exploração do material, quando é feita a escolha das categorias de análise – que em nosso caso são matrizes de estudo – e o corpus é trabalhado de acordo com os objetivos da pesquisa. O tratamento dos resultados obtidos pode ser feito junto com a interpretação dos mesmos. É o momento em que se verifica se o corpus, depois de feita a análise, respondeu ou não à pergunta-objetivo do trabalho.

3.1.1 Corpus de estudo

Para verificar se aspectos do jornalismo sistema estão presentes na revista Bravo! faremos uma pesquisa com uma matéria da revista como componente da mostra de material. Não trabalhamos com volume maior de dados porque optamos por uma análise apenas qualitativa. O estudo quantitativo tornar-se-ia inviável devido ao grande número de características a serem analisadas. Para a pesquisa, escolhemos uma matéria da seção “Assunto do dia”. Optamos por esta seção por ser composta de assuntos variados – dentro do tema cultura, por desenvolver de forma considerável seus textos, com auxílio de recursos multimídia e por disponibilizar matérias exclusivamente na edição online, ou seja,

42

são matérias que não estão presentes na edição impressa. Tais fatores nos permitem a análise das características levantadas no estudo. As demais seções da revista não foram escolhidas como alvo de análise por estarem também disponíveis na edição impressa da revista, ou seja, se ausentaria a exclusividade do meio digital. Porém, esse fato não significa que as matérias que estão na edição impressa não sejam complementadas por recursos multimídia quando aparecem na edição online, nem que não se façam presentes todas as categorias de análise ou que não haja o jornalismo sistema. Para chegar à seção de análise, é necessário acessar o site da revista (www.bravonline.com.br) e clicar sobre a capa da edição impressa, que encontra-se no canto superior direito da página, conforme demarcado na figura:

superior direito da página, conforme demarcado na figura: Figura 7: Demonstrativo de como chegar à seção

Figura 7: Demonstrativo de como chegar à seção “Assunto do dia”.

Em seguida aparecem todos os assuntos tratados pela revista, na forma de seções. São elas: “A Revista”, “Assunto do dia”, “Bravo! indica”, “Multimídia”, “Blogs”, “Bravo! apresenta”, “Agenda”, “Concursos”, “Música”, “Cinema”, “Literatura”, “Artes Plásticas”, “Teatro e Dança”. Ao clicarmos em “Assunto do dia” estarão disponíveis várias matérias que foram apresentadas desde 23 de julho de 2008 até hoje, em um agrupamento de que corresponde a 11 telas de web, totalizando aproximadamente

43

165 textos publicados 18 . Demarcamos o “Assunto do dia” na figura abaixo, onde podem ser visualizadas também os links para as seções “Música”, “Multimídia”, “Cinema”, etc.

“Música”, “Multimídia”, “Cinema”, etc. Figura 8: Sinalização da seção “Assunto do dia” e da

Figura 8: Sinalização da seção “Assunto do dia” e da matéria de análise.

A seguir temos a continuação de uma das telas de web que trazem as matérias disponíveis em “Assunto do dia”. Para melhor localização, sinalizamos onde se encontra o nosso objeto – tela 4 – publicado em 16 de agosto de 2009. Podemos ver ainda a sequência de telas de 1 a 11 que comportam todos os textos publicados na seção, como citado anteriormente.

18 Isso no dia 10 de novembro de 2009. Mais tarde possivelmente será maior o número de matérias e consequentemente maior o número de páginas que as reúne.

44

44 Figura 9: Sinalização da tela 4 da seção. A reportagem foi escolhida de maneira aleatória,

Figura 9: Sinalização da tela 4 da seção.

A reportagem foi escolhida de maneira aleatória, por ter sido publicada em uma data mediana entre a primeira matéria disponível na seção e a data da realização do estudo. É homogêneo, pois se compara perfeitamente aos outros textos presentes na seção, fugindo assim da singularidade.

3.1.2 Material de análise

A reportagem tem como título: “Os artistas ainda precisam de gravadoras para fazer sucesso?”. Traz logo no cabeçalho uma fotografia do músico Lucas Santtana, que disponibiliza em seu site Diginois (www.diginois.com.br) as suas composições para download gratuito. A matéria trata desta alternativa que os artistas da música encontram hoje para divulgar seus trabalhos na internet. No olho faz um apanhado sobre o que vai tratar, entre a história do músico Lucas Santtana, a necessidade de uma boa estratégia de marketing para que os músicos independentes façam sucesso e o fato de as gravadores estarem usando essa exposição na internet como uma forma de “laboratório virtual” onde buscam

45

novas apostas. Logo abaixo do olho, três links nos guiam para outras matérias. São eles 19 :

• Leia a matéria Revolucionária aos 16 anos, sobre a ascensão de Mallu Magalhães; • Veja o flash que recria a trajetória da cantora; • Acesse o site Diginois, do músico Lucas Santtana. O desenvolvimento da nossa matéria de estudo se dá logo após a listagem dos três links, como podemos visualizar na figura a seguir:

dos três links, como podemos visualizar na figura a seguir: Figura 10: Imagem da matéria de

Figura 10: Imagem da matéria de análise.

O texto da reportagem inicia fazendo referência – em seus dois primeiros parágrafos – à cantora e compositora Mallu Magalhães. Mallu começou a ter grande sucesso no ano de 2008, com 16 anos de idade, quando as músicas que gravava e

19 O conteúdo dos links será retomado no decorrer do estudo.

46

disponibilizava na sua página pessoal no My Space 20 atingiram milhares de ouvintes. Alcançou, consequentemente, grande notoriedade na mídia. A cantora continua

sendo o principal exemplo desse classe que utiliza a internet como “trampolim”. Porém, a matéria deixa claro por meio de uma fala do empresário de Mallu, Rafael Rossato Bifi, que não basta estar na internet para fazer sucesso. É preciso ter uma boa jogada de marketing. "Mas não se alcança público e sucesso apenas por estar na internet. Para um artista que não saiba fazer marketing, ou que não tenha um empresário que cuide disso, as gravadoras são uma boa saída", ressalva.

A questão do marketing é o que se aborda na sequência do texto. É ele o

responsável pela elevação de uma banda ao cenário nacional. E hoje, esse é o principal diferencial que as gravadoras oferecem: um profissional de marketing experiente, já que as gravações e disponibilizações podem ser feitas em estúdios caseiros. Aí então, no primeiro subtítulo da matéria – “No Controle” – é que entra a

história do músico Lucas Santtana, que tem sua foto estampada no início. Lucas já trabalhou em bandas de cantores famosos como Gilberto Gil e Marisa Monte. Hoje tem carreira solo e mantém um site, o Diginois, onde disponibiliza suas músicas e agenda de shows e atualiza um blog. Coordena sua carreira sozinho e afirma que é necessário uma boa noção de logística para isso.

O outro subtítulo, “A internet é uma bússola” trata sobre as vantagens de se

ter uma página pessoal em rede social como o My Space. É uma vitrine e proporciona um importante contato com o público. Além disso, serve como uma

bússola para as gravadoras, que vão atrás dos perfis mais acessados para terem uma noção do que está no gosto do público, tornando-se bem maior a possibilidade de um contrato, para quem está interessado.

A seguir podemos ver as referências que fizemos acerca do texto da matéria,

demarcadas na imagem.

20 O MySpace, segundo a Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/MySpace) é um serviço de rede social, criado em 2003, que utiliza a internet para comunicação online através de fotos, blogs e perfis de usuário. Inclui um sistema interno de e-mail, fóruns e grupos. A crescente popularidade do site e sua habilidade de hospedar MP3s fez com que muitas bandas e músicos se registrassem, algumas vezes fazendo de suas páginas de perfil seu site oficial.

47

47 Figura 11: Destaque das referências do texto O texto é finalizado e podemos perceber que

Figura 11: Destaque das referências do texto

O texto é finalizado e podemos perceber que o assunto não foi tratado de maneira restrita. A revista utilizou-se de um assunto bastante tratado na época, que foi a ascensão de Mallu Magalhães, como link para mostrar a história de um artista

48

não tão conhecido, mas que percorre um caminho artístico pela internet nos mesmos moldes que percorreu a cantora. Além disso, houve contextualização quando tratou da questão do marketing aliado à verdadeira função das gravadoras hoje.

3.2 MATRIZES DE ESTUDO

Definimos como matrizes de estudo do nosso trabalho as seis características do jornalismo digital e as sete características do jornalismo sistema. Conforme citado no capítulo 2, o jornalismo digital pode ser um meio bastante oportuno para o exercício do jornalismo sistema, e são as áreas comuns a estas duas esferas que pretendemos pontuar aqui. Para isso, a análise do material da pesquisa é feita levando em consideração a presença das características de cada uma das esferas. Temos, então, como matriz do jornalismo digital as seguintes características: 1)Multimidialidade; 2)Interatividade; 3)Hipertextualidade; 4)Personalização; 5)Memória; 6)Instantaneidade, e como matriz do jornalismo sistema as seguintes características: 1)O conteúdo apresentado é uma totalidade composta de partes que estão inter-relacionadas e que interatuam; 2)É mais que uma justaposição de partes informativas; 3)Não expões acontecimentos separadamente, agrega-os em um contexto; 4)Estabelece relações com os leitores, que contribuem para a construção do sentido e compreensão da realidade; 5)Acontecimentos interpretados desde a hora que acontecem até o seu desfecho; 6)Sistema aberto; 7)Prefere inovar a apegar-se a um formato. Cada matriz composta de características está posicionada na tabela a seguir. No cruzamento das matrizes encontramos zonas de aproximação. É nesta aproximação que se materializa a prática do jornalismo sistema através da utilização das características do jornalismo digital.

49

Matriz do Jornalismo Sistema

Tabela 2: Zonas de aproximação das características

Matriz do Jornalismo Digital

Hipertextualidade

Multimidialidade

Interatividade

Personalização

Memória

Instanta

neidade

O

de

Conteúdo é uma totalidade partes inter-relacionadas e que interatuam

A

B

É

mais que uma justaposição de partes informativas

C

D

Não expõe acontecimentos separadamente, agrega-os em um contexto

E

F

G

Estabelece relações com os leitores, que contribuem para a construção do sentido e compreensão da realidade

H

Acontecimentos interpretados desde a hora que acontece até o seu desfecho

I

Sistema aberto

J

Prefere inovar a apegar-se a um formato

L

M

Na sequência fizemos a descrição de cada um desses pontos explicativamente, para que se verifique se é possível o agrupamento do jornalismo digital com o jornalismo sistema.

3.3 ZONAS DE APROXIMAÇÃO

Aqui estão expostas e contextualizadas as zonas comuns entre o jornalismo digital e o jornalismo sistema. A partir delas é possível perceber se há ou não o exercício de um em função do outro. Entendemos ser necessário fazer as considerações não exclusivamente sobre a matéria Os artistas ainda precisam de gravadoras para fazer sucesso?, mas também sobre os complementos que são apresentados (as matérias linkadas, site Diginois) por meio dos links presentes (listados anteriormente), uma vez que complementos como esses se enquadram

50

perfeitamente no objetivo do estudo. Dessa forma, vamos utilizar a matéria que escolhemos como estudo como ponto principal, porém não único.

Zona A: O Conteúdo é uma totalidade de partes inter-relacionadas e que interatuam X Hipertextualidade:

É possível perceber a característica “o conteúdo apresentado é uma

totalidade composta de partes que estão inter-relacionadas e que interatuam” por meio da hipertextualidade.

O recurso de hipertexto está presente em diversos momentos. São

disponibilizados três links no início da reportagem. Links estes que direcionam não apenas para o conteúdo da própria revista como para outros sites, oferecendo portanto, complementos à matéria. São eles:

· Leia a matéria Revolucionária aos 16 anos, sobre a ascensão de Mallu Magalhães”: reportagem de oito páginas que narra a carreira da cantora, suas influências, seu modo de trabalho, estilo de vida. Disponibiliza mais dois links:

“Assista ao flash que recria a trajetória da cantora” e “Leia a crítica do disco de estréia de Mallu Magalhães”;

· “Veja o flash que recria a trajetória da cantora”: Disponibiliza uma animação

em Flash, produzida pela revista, que descreve a carreira de Mallu.

· “Acesse o site Diginois do músico Lucas Santtana”: leva para um site, fora da revista, mantido por um músico que disponibiliza suas gravações para download gratuito. Dentro do site, Lucas mantém um blog atualizado. Ali, encontramos muitos outros links, sejam para matérias relacionadas aos temas tratados no blog (internos ou externos), seja para músicas, fotos e vídeos. Dentro do texto da nossa matéria de análise também há links. Eles estão configurados nas próprias palavras. São eles: Universal Music Brasil, Diginois My Space. Como percebemos, a leitura não é restrita, pode seguir por outros caminhos além do texto que é apresentado. O leitor pode optar por sua própria leitura hipertextual. E as matérias que aparecem relacionadas são de grande importância para uma visão mais clara a respeito do assunto tratado.

51

Zona B: O Conteúdo é uma totalidade de partes inter-relacionadas e que interatuam X Memória:

Percebemos os conteúdos inter-relacionados também na que se trata da memória, uma vez que o leitor pode acessar outras matérias já publicadas na revista, a partir da nossa matéria de análise. É o caso de Revolucionária aos 16 anos, que leva para a reportagem publicada em outubro de 2008, na mesma seção. Já na matéria Revolucionária aos 16 anos há um link para uma crítica assinada por José Flávio Júnior intitulada A Força do Leãozinho também publicada em outubro de 2008, porém na seção “Música”. Portanto, o conteúdo da memória é apresentado também como complemento, não está solto, sozinho. Está relacionado e facilita a interpretação.

sozinho. Está relacionado e facilita a interpretação. Figura 12: Exemplo de memória em matéria de outubro

Figura 12: Exemplo de memória em matéria de outubro de 2008

52

Zona

Hipertextualidade:

C:

É

mais

que

uma

justaposição

de

partes

informativas

X

A característica “é mais que uma justaposição de partes informativas” também pode ser entendida por meio da hipertextualidade, já que, como já exemplificado na zona A, ela permite que as informações sejam interconectadas através dos links, e não apenas justapostas. Não trata as informações de maneira isolada. Oferece caminhos para que o leitor encontre informações relacionadas ao que começou a ler, permitindo a contextualização.

D:

Multimidialidade:

Zona

É

mais

que

uma

justaposição

de

partes

informativas

X

O fato de informar além de uma justaposição pode ser reconhecido também quando se trata da multimidialidade. Os recursos multimídia estão presentes, já à primeira vista, na fotografia do músico Lucas Santtana, no início da matéria. No decorrer da reportagem, mais características multimidiáticas aparecem: No primeiro dos links listados logo no início da matéria – “Leia a matéria Revolucionária aos 16 anos, sobre a ascensão de Mallu Magalhães”, mais uma foto é disponibilizada, agora da cantora. O próximo link disponível, tanto na nossa matéria de análise quanto na matéria Revolucionária aos 16 anos, é o “Veja o flash que recria a trajetória da cantora”. Nele, muitos recursos multimídia estão presentes. Com o uso do Adobe Flash Player 21 foi criada uma apresentação que, em ordem cronológica sob a forma de um caminho de jogo de tabuleiro, narra todos os passos da carreira de Mallu. São 10 vídeos, 10 fotos e 4 arquivos de áudio, aliados a 10 blocos de texto que descrevem cada ponto do desenvolvimento da vida musical da cantora.

21 Software utilizado para a criação de animações interativas que funcionam anexas a um navegador de web.

53

53 Figura 13: Recursos da animação em Flash No site Diginois, do músico Lucas Santtana, também

Figura 13: Recursos da animação em Flash

No site Diginois, do músico Lucas Santtana, também há vários recursos multimídia. São muitas fotos, tanto em uma seção chamada “Divulgação” quanto aliadas aos textos do blog. Há também vídeos e muitos arquivos de áudio que podem ser ouvidos no próprio site ou pode-se fazer o download, como podemos visualizar a seguir:

arquivos de áudio que podem ser ouvidos no próprio site ou pode-se fazer o download, como

54

54 Figura 14: Imagem do site Diginois Tanto os links para outras matérias da própria revista,

Figura 14: Imagem do site Diginois

Tanto os links para outras matérias da própria revista, quanto os para site externo são uma opção que a revista online utiliza para enriquecer o conteúdo, mostrar os fatos sob diversos aspectos.

Zona E: Não expõe acontecimentos separadamente, agrega-os em um contexto X Hipertextualidade:

A ligação de “não expõe acontecimentos separadamente, agrega-os em um contexto” com o jornalismo digital se faz presente pela hipertextualidade, que conecta o conteúdo da matéria com complementos úteis para sua interpretação. No texto, percebemos esta agregação dos acontecimentos no momento que a matéria – que trata de uma realidade nova que é a divulgação dos trabalhos pela internet, não deixa de apresentar o papel que hoje desempenham as gravadoras. Também contextualiza a matéria, que tem como foco principal o músico Lucas Santtana, com a história de Mallu Magalhães.

55

Zona

F:

Não expõe acontecimentos separadamente, agrega-os em um

contexto X Multimidialidade:

A multimidialidade também serve como recurso de contextualização, já que

consegue – por meio da animação em Flash – expor diversas fases da carreira de Mallu. Além disso, mostra os arredores da evolução de sua carreira, apresenta pessoas que a ajudaram, momentos que marcaram, artistas que a inspiraram e as suas primeiras gravações. Exemplificamos pela tela a seguir, que conta os passos da cantora em julho de 2008:

a seguir, que conta os passos da cantora em julho de 2008: Figura 15: Trajetória de

Figura 15: Trajetória de Mallu em julho de 2008.

Zona G: Não expõe acontecimentos separadamente, agrega-os em um contexto X Memória:

A memória, da forma como a tratamos antes – como recurso disponível

utilizado para o complemento da matéria, é consequentemente utilizada também para contextualização. Isso porque os links das edições passadas apresentados são de grande relevância para a agregação do caso do músico Lucas Santtana com o contexto da situação dos artistas independentes, ilustrados pela história de Mallu

Magalhães.

56

Zona

H:

Estabelece

relações

com os

leitores,

que contribuem para

a

construção do sentido e compreensão da realidade X Interatividade:

Podemos associar “estabelece relações com os leitores, que contribuem para

a construção do sentido e compreensão da realidade” com a característica da

interatividade. Não podemos dizer que a participação do leitor recebe muito destaque nessa matéria. Não há espaço para comentários, por exemplo. A possibilidade de interação existe dentro da animação em Flash que recria a trajetória de Mallu Magalhães, onde

é possível que o usuário escolha o que quer fazer, seja assistir os vídeos, ver as fotos, ouvir os depoimentos nos arquivos de áudio. Já o site Diginois sim, apresenta espaço para comentários em todas as suas postagens de texto. Além disso, as pessoas podem enviar para ele seus próprios remixes 22 de música, que ele disponibiliza na seção Remixagens do seu site.

Zona I: Acontecimentos interpretados desde a hora que acontece até o seu desfecho X Mutimidialidade:

A questão dos “acontecimentos interpretados desde a hora que acontece até

o seu desfecho” poderia se mostrar presente por meio da instantaneidade, caso

fosse feito um acompanhamento de um determinado fato desde o seu acontecimento

e seguido todos os seus desdobramentos. Não acontece na matéria, porém há o

caso da carreira de Mallu Magalhães, que é exposta por meio do recurso multimídia

da animação em Flash desde o seu início até o dia da publicação da matéria. Não é um fato isolado, mas serve de exemplo para a cronologia de interpretação de um acontecimento.

Zona J: Sistema aberto X Hipertextualidade:

O sistema aberto pode ser observado através de todas as características do jornalismo digital que a matéria apresenta. Elas oferecem variedade e dinamismo, o

22 Remix é uma música modificada por seu próprio produtor ou por outra pessoa. É, na maioria das vezes, feita por um DJ que coloca efeitos adicionais tornando a música dançante.

57

que não encontramos em um sistema fechado. Porém optamos por pontuar apenas

a que predomina, que é a hipertextualidade. Ela possibilita a expansão da

interpretação por parte do leitor. O conhecimento não é limitado e há recurso para ir além do que é mostrado no texto.

Zona L: Prefere inovar a apegar-se a um formato X Multimidialidade:

A característica que diz que o jornalismo sistema “Prefere inovar a apegar-se

a um formato” pode ser percebida predominantemente nos recursos multimídia. As

fotos, vídeos e arquivos de áudio disponibilizados na matéria e no site Diginois são

de grande valia para uma inovação acerca do formato. Sobretudo no recurso da animação em Flash, quando apresenta uma alternativa inovadora sob vários aspectos. Transmite a informação de modo interativo, didático e divertido.

Zona M: Prefere inovar a apegar-se a um formato X Personalização:

A inovação também acontece pelo aspecto da personalização. Vimos que na

matéria de análise não é encontrada a opção de personalização na maneira mais

usual (como o leitor escolhendo o layout da página, por exemplo), porém ela aparece

da forma que foi dita anteriormente – onde o leitor opta pelo percurso de sua leitura

hipertextual. Porém em um veículo impresso o leitor também opta pelo que quer ler e

o que não quer. Portanto a inovação fica mais acerca da animação em Flash.

Feitas as relações pudemos perceber que a característica de atualização contínua não esteve presente de modo pontual na matéria de análise, portanto não conteve nenhuma zona de aproximação. Isso porque a seção que estamos estudando por si só configura-se na parte instantânea da revista, pois, sendo uma publicação mensal, é ali que são publicadas as matérias nesse meio tempo, entre uma edição e outra. Não há uma periodicidade para as matérias publicadas na “Assunto do dia”. Há meses em que se publica três matérias entre uma edição impressa e outra, e meses em que se publica dez. Tudo depende do que acontece envolvendo o tema cultura. Não se configura como a atualização contínua que podemos ver em jornais

58

online. Porém, seguindo o assunto cultura - a que se propõe tratar, podemos dizer que há a instantaneidade. Após a análise por meio da relação entre as características que definem o jornalismo digital e as que fazem o mesmo com o jornalismo sistema, pudemos perceber que o jornalismo digital pode realmente ser potencializador para o exercício do jornalismo sistema. Praticamente todas as características de um vão ao encontro das do outro, coexistindo.

59

CONCLUSÃO

Para desenvolver este estudo, tínhamos em mente três pontos principais: o jornalismo sistema, a possibilidade de sua existência no jornalismo digital e uma aplicação prática que envolvesse o jornalismo cultural. Para isso, escolhemos um objeto que tivesse características que fossem ao encontro dos objetivos que tínhamos em mente. Foi quando optamos pela revista Bravo! em sua edição online. A apresentação do objeto nos deu uma ideia de como funciona o veículo, qual sua posição no mercado cultural e qual sua abordagem acerca dos conteúdos que se dispõe a tratar. A partir dessa imagem, fizemos um paralelo com o contexto brasileiro de jornalismo cultural na atualidade. Percebemos que o tema cultura, hoje, é trabalhado de maneira bastante diversa, diferente do que acontecia em anos passados, porém a Bravo! procura manter um posicionamento crítico e sóbrio perante a essas variações. Quando expomos as características do jornalismo digital já tínhamos em mente a associação com o que Fontcuberta (2006) define como jornalismo sistema:

aquele que preza pelo aprofundamento dos fatos jornalísticos e contextualização de seus conteúdos. Para tanto, apresentamos a hipertextualidade, multimidialidade, interatividade, personalização, memória e instantaneidade como potencializadoras do exercício do jornalismo sistema. Em seguida pontuamos as características que o define como tal – ainda que Fontcuberta não o faça – pois assim é possível que se tenha uma visão mais concisa sobre o que ela defende. Assim também foi possível esquematizarmos o quadro de observação que permitiu visualizar as zonas de intersecção entre o jornalismo digital e o sistema na matéria estudada. A matéria de análise integrava a seção “Assunto do dia” da Bravo!. Tratava das modificações possíveis na carreira dos artistas, particularmente da música, com o advento da internet. Percebemos que, na reportagem analisada, todas as características do jornalismo sistema eram possíveis de serem aplicadas junto ao meio digital, com exceção da personalização em sua forma usual (porém ela ocorria a partir do momento que o usuário optava por sua própria leitura hipertextual) e da instantaneidade/atualização contínua, que não estava presente isoladamente na matéria, porém a seção que comportava a reportagem já se configurava como a parte de atualização contínua da revista.

60

A hipertextualidade é a que esteve mais presente e pode ser tida como a que mais veio a contribuir com o desenvolvimento do jornalismo sistema, pois possibilita um novo formato de narrativa. Ela permite a conexão entre as informações. Permite que uma matéria seja complementada, linkando as informações com as de outras matérias mais antigas – conforme foi feito com os links para as outras matérias – e com outros sites – como no caso do Diginois, MySpace e Universal Musica Brasil. Essas ações permitem a expansão do conhecimento do leitor. Ao final, pudemos perceber que há, sim, a presença de elementos do jornalismo sistema na revista Bravo! e que essa presença é viabilizada pelas características oferecidas pelo jornalismo digital.

61

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSIS, Francisco. Tópicos para (re)ler o jornalismo cultural brasileiro: gêneros e formatos na imprensa especializada. Revista Elementa - Comunicação e Cultura. Sorocaba, v.1, n.1, jan./jun. 2009.

BARBOSA, Suzana. Jornalismo online: dos sites noticiosos aos portais locais. Trabalho apresentado no XXIV Intercom. Campo Grande, 2001. Disponível em:

<http://www.bocc.ubi.pt/pag/barbosa-suzana-jornalismo-online.html> Acesso em 02 dez 2009.

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1988.

BEIGUELMAN, G. Incorporações e Mudanças. In: LINDOSO, Felipe. (Org.). Rumos [do] Jornalismo Cultural. 1ª ed. São Paulo: Summus Editorial, 2007, p. 114-117.

BRAGA, José Luiz. A sociedade enfrenta sua mídia: dispositivos sociais de crítica midiática. São Paulo: Paulus, 2006.

DÓRIA, Pedro. Dilemas on-line. In: LINDOSO, Felipe. (Org.). Rumos [do] Jornalismo Cultural. 1ª ed. São Paulo-SP: Summus: Itaú Cultural, 2007, p. 98-103.

FERRARI, Pollyana. Jornalismo Digital. 3ed. São Paulo: Contexto, 2006.

FIGUEIREDO, Rúbia M. Revista Bravo!: estudo do comportamento do jornalismo

cultural frente às pressões do mercado. Artigo resultante de Dissertação de Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social - Universidade Metodista de

São

http://www.metodista.br/poscom/cientifico/publicacoes/discentes/art/artigo-0039/>

Acesso em 02 dez 2009.

Paulo

(UMESP),

2008.

Disponível

em:

FOLETTO, Leonardo Feltrin. Os weblogs como elementos propulsores do alargamento do campo jornalístico. Monografia (Graduação em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo) – Curso de Comunicação Social - Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), 2007.

FONSECA JÚNIOR, W. C. Análise de conteúdo. In: DUARTE, Jorge; BARROS, Antonio. (Org.). Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. 1 ed. São Paulo: Atlas, 2005, v. , p. 280-315.

62

FONTCUBERTA, Mar de; BORRAT, Héctor. Periódicos: sistemas complejos, narradores en interacción. Buenos Aires: La Crujía, 2006.

GADINI, Sérgio L. A lógica do entretenimento no jornalismo cultural brasileiro. Revista de Economía Política de las Tecnologías de la Información y Comunicación (www.eptic.com.br) vol. IX, n. 1, ene. – abr. /2007

A Cultura como Notícia no Jornalismo Brasileiro. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro: Secretaria Especial de Comunicação Social, 2003.

HERSCOVITZ, Heloiza Golbspan. Análise de conteúdo em jornalismo. In: LAGO, Cláudia; BENETTI, Marcia (orgs). Metodologia de pesquisa em jornalismo. Petrópolis: Vozes, 2007.

LEITE, Susana. Jornalismo sistema e hipertexto: uma proposta de contextualização. Monografia (Graduação em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo) – Curso de Comunicação Social - Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), 2008.

LINDOSO, Felipe (org). Vários Autores. Rumos [do] Jornalismo Cultural. 1ª ed. São Paulo: Summus: Itaú Cultural, 2007.

MANTA, André. Guia do Jornalismo na Internet. FACOM/UFBA, 1997. Disponível em: <http://www.facom.ufba.br/pesq/cyber/manta/Guia/index.html> Acesso em 02 dez 2009.

MATOS, Danúbia Krause. A representação do popular na revista Bravo!. Monografia (Graduação em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo) – Curso de Comunicação Social - Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), 2005.

MEDINA, Cremilda Celeste de Araújo . Leitura Crítica. In: LINDOSO, Felipe. (Org.). Rumos [do] Jornalismo Cultural. 1ª ed. São Paulo-SP: Summus: Itaú Cultural, 2007, p. 32-35

MEIMES, Lívia. Bravo!: luxo e lixo no jornalismo cultural. Porto Alegre: Plus,

<http://editoraplus.org/wp-

content/uploads/bravo_luxo_e_lixo_no_jornalismo_cultural_1a_edicao.pdf> Acesso em 02 dez 2009.

2008.

Disponível

em:

63

MIELNICZUK, Luciana. Jornalismo na web: Uma contribuição para o estudo do

formato da notícia na escrita hipertextual. (Tese Doutorado). Salvador: UFBA,

2003.

MINUANO, Carlos. Os caminhos do jornalismo cultural. 2008. Disponível em:

<http://www.culturaemercado.com.br/post/os-caminhos-do-jornalismo-cultural/> Acesso em 30 jun 2009.

MOTA, Célia. Jornalismo cultural como exercício crítico. 2008. Disponível em:

<http://www.culturaemercado.com.br/post/cultura-e-pensamento-3-jornalismo-

cultural-como-exercicio-critico/> Acesso em: 02 dez 2009.

PALACIOS, Marcos; GONÇALVES, Elias M. Manual do Jornalismo na Internet. Disponível em: <http://www.facom.ufba.br/jol/fontes_manuais.htm> Acesso em 02 dez. 2009.

Ruptura, continuidade e potencialização no jornalismo on-line: o lugar da memória. In: MACHADO, Elias; PALACIOS, Marcos. (Org.). Modelos de jornalismo digital. Salvador: Editora Calhandra/Edições GJol, 2003.

PIZA, Daniel. Jornalismo Cultural. São Paulo: Contexto, 2004.

TEIXEIRA, Nísio. Impacto da Internet sobre a natureza do Jornalismo Cultural. Textos do Grupo de Jornalismo Online da PUC-MG: Belo Horizonte, 2002.

Disponível em <http://www.fca.pucminas.br/jornalismocultural/> Acesso em 02 dez

2009.

WERNECK, Humberto. A ditadura do Best-seller. In: LINDOSO, Felipe. (Org.). Rumos [do] Jornalismo Cultural. 1ª ed. São Paulo-SP: Summus: Itaú Cultural, 2007, p. 64-71.

64

ANEXOS

ANEXO A – Texto da matéria de análise:

Os artistas ainda precisam de gravadoras para fazer sucesso?

Artistas encontram na internet uma ferramenta para, sem a ajuda das gravadoras, conquistar cada vez mais público. É o caso do músico Lucas Santtana. Mas profissionais alertam: é preciso saber fazer marketing. Enquanto isso, as gravadoras observam o sucesso dos músicos nesse laboratório virtual em busca de novas apostas

Por Sheyla Miranda

Leia a matéria Revolucionária aos 16 anos, sobre a ascensão de Mallu Magalhães

Veja o flash que recria a trajetória da cantora

Acesse o site Diginois, do músico Lucas Santtana

Depois do sucesso estrondoso da cantora e compositora Mallu Magalhães na internet - os acessos à sua página no MySpace já ultrapassam os três milhões -, a jovem artista não demorou em alcançar outras mídias. Canais de televisão, emissoras de rádio e os principais jornais e revistas do país interessaram-se pela garota de 16 anos capaz de lotar, mesmo sem o suporte de uma gravadora, festivais de música pelo país. Com o primeiro CD lançado de forma independente em novembro do ano passado, Mallu segue como a principal representante do salto que músicos podem dar utilizando a internet como trampolim. E de que é possível continuar a carreira sem ter vínculos com alguma gravadora.

Rafael Rossato Bifi, empresário da cantora, aponta a internet como a ferramenta mais eficiente para um artista que está começando na música, por conta fácil divulgação do conteúdo produzido e colocado na rede. "Mas não se alcança público e sucesso apenas por estar na internet. Para um artista que não saiba fazer marketing, ou que não tenha um empresário que cuide disso, as gravadoras são uma boa saída", ressalva.

E o marketing é tão importante que é a atual moeda de troca de grandes gravadoras como a Universal Music. "A gravação em estúdio e a distribuição não são tão complicadas de fazer como eram no passado, já que agora é possível fazer um CD em casa, colocá-lo na internet e mesmo distribuí-lo em lojas. É muito difícil, no entanto, que artistas independentes façam sucesso sem a ajuda dos profissionais de marketing experientes que trabalham nas gravadoras. Eles conhecem profundamente o mercado e são capazes de bolar estratégias eficientes para a carreira de um músico ou de uma banda", argumenta Aline Leite, profissional de marketing da Universal Music Brasil.

No Controle

65

Gerenciar uma carreira musical é tarefa árdua. É o que faz o músico Lucas Santtana em sua carreira solo. Ele integrou as bandas de Gilberto Gil e Marisa Monte em trabalhos realizados em grandes gravadoras, e hoje, fora delas, mantém o site Diginois. Na página, Lucas disponibiliza seus álbuns para download gratuito, atualiza diariamente um blog e informa sobre a agenda de shows.

"Fiz o Diginois, que é também um selo digital, por querer mais independência para trabalhar minha música. As experiências que tive com gravadoras não me deixaram satisfeito", diz Lucas. "Só que para ter um trabalho independente, à margem da grande indústria fonográfica, é preciso organizar uma boa logística, pensar em tudo:

na gravação, na distribuição, em como divulgar. É muita coisa. Mas tem valido a pena. Se o disco está divulgado na internet, até mesmo as cópias físicas vendem mais", esclarece.

"A internet é uma bússola"

Vinculados ou não a grandes gravadoras, muitos artistas têm uma página na internet para divulgar músicas e datas de shows, ou simplesmente, para fortalecer o nome na rede - estar habilmente conectado é um requisito fundamental para atingir o público. Daí a importância de redes sociais como o MySpace, que não só facilitam a criação dos perfis músicos, como viabilizam a interação com o público.

Uma página com alta audiência pode ser o passaporte para quem está interessado em um contrato com as grandes gravadoras. "A internet é como uma bússola para as gravadoras. A recepção do público ao artista costuma dar um norte para os investimentos da companhia", afirma o diretor do MySpace Brasil, Emerson Calegaretti.

Um dos maiores conhecedores das plataformas digitais de divulgação de música no país, Calegaretti acredita ser possível que um artista chegue ao sucesso e consiga mantê-lo sem ter uma gravadora. E, como todos os outros entrevistados, destaca a importância de uma publicidade estratégica, de um planejamento de carreira. Sem o marketing, nada feito.

66

ANEXO B – Exemplo de matéria da seção Cinema, sobre o novo filme de Pedro Almodóvar.

da seção Cinema, sobre o novo filme de Pedro Almodóvar. Ao final da matéria, um arquivo

Ao final da matéria, um arquivo de áudio com trechos da entrevista com o cineasta:

o novo filme de Pedro Almodóvar. Ao final da matéria, um arquivo de áudio com trechos

67

ANEXO D – Seção que traz os 5 blogs da revista:

67 ANEXO D – Seção que traz os 5 blogs da revista:

68

ANEXO E – Seção Multimídia, onde estão reunids vários imagens, vídeos e arquivos de áudio de diversas edições da revista.

Seção Multimídia, onde estão reunids vários imagens, vídeos e arquivos de áudio de diversas edições da