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Público • Sexta-feira 29 Janeiro 2010 • 39

É tempo de acabar com a feira de enganos: o nosso principal problema é mesmo uma economia anémica em “morte lenta”

As contas do nosso descontentamento num país de faz-de-conta

P
ADRIANO MIRANDA
ode-se enganar todos durante algum tem-
po. Pode-se enganar alguns durante todo
o tempo. Não é possível enganar todos o
tempo todo. Nem mentindo de forma sis-
temática e despudorada.
O Orçamento do Estado para 2010 é bem a medi-
da da situação económica e do grau a que chegou a
José farsa política. Só o nosso hábito de encaixar e calar
Manuel explica a relativa suavidade nas reacções. Porque
Fernandes este Orçamento não resolve nenhum problema do
Extremo país, não dá nenhum sinal de que possamos acertar
as contas públicas e mostra que tanto o Governo
Ocidental como a oposição já só esperam a benevolência da-
queles de quem dependemos para o dia-a-dia: os
que nos emprestam dinheiro.
Foram muitas as mentiras neste processo. A pri-
meira de todas foi a de que em 2008 se tinha alcan-
çado um défice de 2,7 por cento, quando isso só
foi possível omitindo o carácter extraordinário de
receitas extraordinárias no valor de 0,7 por cento
do PIB. Não se tratou de uma mentira nova, mas
de uma reincidência antiga, e só se estranha como
passou tão despercebida.
A segunda grande mentira foi a proclamação de
que Portugal já não tinha um problema orçamental
e a aprovação, no final de 2008, de um Orçamento
para 2009 que, apesar de já estarmos em plena crise,
só tinha pressupostos optimistas. O resultado foi o
óbvio: o défice de 2009, que começou por ser estima- ridículo (0,3 por cento); a escalada 2011 o que não se começou a fazer em 2010, pois não
do em 2,2 por cento, saltou para 5,9 por cento depois
Anos a fio venderam-nos do endividamento prossegue, pois se está a ver como é que um governo minoritário vai
do Verão e, agora, para 9,3 por cento. Os números de a mentira da consolidação terminaremos 2010 a dever mais 16 propor, por exemplo, congelar de novo os salários
Setembro eram mentirosos, ninguém acreditava ne- mil milhões de euros; a promessa na administração pública a dois ou três meses das
les, mas foram apresentados, porque havia eleições orçamental. Agora, face do investimento público cumpre-se eleições presidenciais.
à porta. Os números de terça-feira também podem ao défice e à dívida, vamos (outra mentira eleitoral); e vai haver Terceiro, que a famosa “consolidação orçamen-
ser mentirosos por demasiado elevados. mais receitas extraordinárias, as tais tal” tinha mesmo sido feita apenas pelo lado da re-
Esta suspeita não é minha: é de muitos antigos mi- aprovar um Orçamento a que nunca mais se recorreria. ceita, como se repetiu mil vezes, e que, quando esta
nistros das Finanças e está escrita, preto no branco, A este ritmo chegaremos, se che- falhou, o buraco abriu-se como uma cratera. Como
no boletim trimestral de conjuntura da Universidade
que adia, e por isso agrava, garmos, a 2013 com 5,3 por cento já é difícil maior eficiência fiscal, a generalidade dos
Católica. Diz ele: “O agravamento inesperado do défi- os nossos problemas de défice, muito longe da meta dos analistas convergem num ponto: iremos pagar mais
ce poderá corresponder a um esforço do Governo no três por cento. Mesmo assim conti- impostos, só falta saber quando.
sentido de imputar às contas de 2009 o máximo de nua a tentar-se “empurrar o problema com a barriga” Quarto e mais importante de tudo: o nosso mal é
défice possível.” Porquê? Porque com um défice de e agora fica-se à espera do Plano de Estabilidade e não sermos capazes de crescer, de ter um desenvol-
2009 inflacionado é possível propor um Orçamento Crescimento que será entregue em Bruxelas. Mas não vimento sustentável. Estagnámos a partir de 1999,
para 2010 com um défice mais baixo. se esperam milagres, e é fácil perceber porquê. 2000, e não são as infra-estruturas que por aí se pro-
A terceira mentira é a ideia de que o défice dispa- Primeiro, este exercício de negociações com o metem que nos devolverão a competitividade que
rou por causa do “heróico” combate à crise. Não foi CDS e o PSD mostrou que vale nada ou quase nada. temos vindo a perder ano após ano. Algo que fará de
isso que aconteceu, nem é isso que o OE 2010 indica Não se percebe o que queriam, não se entende o cada exercício orçamental um nó cego que ninguém
que vá acontecer. Em Portugal não foi preciso andar que trouxeram, sobretudo percebeu-se que nenhum conseguirá enfrentar, se fugir das rupturas.
a salvar bancos, pois até o grosso do esforço com o desses partidos, tal como o Governo, estavam prepa- O resto são ilusões, mentiras pouco piedosas,
BPN ficou por conta da Caixa Geral de Depósitos. Em rados para um acordo a médio prazo, daqueles que como, por exemplo, as que Sócrates foi dizer aos
Portugal os “planos de investimentos” ficaram no têm reais custos políticos. Desta forma os encontros correspondentes estrangeiros acreditados em Lis-
papel, só escapando as obras promovidas nas escolas só serviram para justificar as abstenções e nem se- boa, garantindo-lhes que as cotações das agências
secundárias: as taxas de execução dos apoios às ener- quer garantem qualquer tranquilidade ao executivo. de rating em nada tinham influenciado as escolhas
gias renováveis e à eficiência energética foram de 20 Era melhor não ter havido este teatro. do Orçamento. Felizmente influenciaram, senão este
por cento e, no conjunto de medidas para promover Segundo, que dificilmente será possível fazer em arriscava-se a ser ainda pior. Jornalista
a contratação de desempregados de longa duração,
de 24,3 por cento. O défice de 2009 foi o que foi por-
que houve menos receitas fiscais e a necessidade de Uma semana em http://twitter.com/jmf1957
apoiar um número muito maior de desempregados.
O ponto em que hoje estamos mostra que tivemos a 28Jan10 os salários congelados. Era inevitável the Internet, http://bit.ly/6862vU - é
tudo menos um “programa exemplar” contra a crise, – Olha eu de acordo com o Ricardo a 26Jan10 o contraponto deste sobre o nosso
antes uma sucessão de erros que fizeram disparar as Salgado: tributação sobre bónus – A A16 inaugurou há uns três, quatro atraso: http://bit.ly/7Ygqjc
despesas públicas e atrofiaram a economia. pode levar “gente muito valiosa” meses, e já vai entrar em obras. Por a 23Jan10

N
a abandonar Portugal http://bit.ly/ causa da chuva, diz a Mota-Engil. Pena – “Poem on the Lisbon Disaster”, from
ão devia ser possível um primeiro-mi- deohHs não vivermos no Sara... Voltaire, remembered in the NY Times
nistro e um ministro das Finanças com – Levanta-se mais uma pedra do Euro a 25Jan10 in connection with Haiti tragedy http://
esta “obra feita” dizerem, como disseram 2004 e sai disto: Acordo com a Câmara – Suspeito que os acordos mínimos bit.ly/5ksn8B
quarta-feira, que Portugal merecia to- de Lisboa valeu ao Benfica 65 milhões para viabilizar o OE evitam, para já, – Até tenho medo de começar a ler:
do o crédito das agências de rating. Mas de euros http://bit.ly/aes9R5 crise política, mas adiam verdadeiro We lift the lid on modern marriage,
fizeram-no, porque a aflição é muita. O que também a 27Jan10 combate aos problemas estruturais while 5 husbands confess their lies,
permite perceber a quantidade de fragilidades da – A moving text from a survivor: – É tempo de deixar de rir do big & small http://bit.ly/8ZQo4E
longa, confusa e desconexa proposta orçamental. Liberation From Auschwitz -http://nyti. “palhaço”: Chávez closes critical cable a 22Jan10
Apenas alguns exemplos: o cenário para o desem- ms/dgXi4y And each year we can find TV that refuse to air his frequent & – Notícias preocupantes: Online
prego não é realista (9,8 por cento); o aumento das less and less survivors, long speeches http://bit.ly/4HiiK7 Newspaper Audience Declining; Older
receitas fiscais é algo optimista, designadamente – O dia amanheceu muito frio para os a 24Jan10 Media Consumers Moving to Social
das receitas do IVA; o corte na despesa corrente é funcionários públicos: acordaram com – Este artigo - How Republicans won Media http://bit.ly/8lkrKe