Revista do CONAPRA - Conselho Nacional de Praticagem - Ano XV - N0 40 - fev a mai/2014 Brazilian Maritime Pilots’ Association Magazine - Year

XV - N0 40 - Fev to May/2014

Brazilian Maritime Pilots ’Association

www.conapra.org.br

Praticagem

Pilotage

o serviço de todas as horas the 24/7/365 service

24
7
365
horas por dia hours a day

dias por semana days a week

dias por ano days a year

CONAPRA – Conselho Nacional de Praticagem
CONAPRA – Brazilian Maritime Pilots’ Association
Av. Rio Branco, 89/1502 – Centro
Rio de Janeiro – RJ – CEP 20040-004
Tel.: 55 (­21) 2516-4479
conapra@conapra.org.br
www.conapra.org.br

diretor-presidente director president
Ricardo Augusto Leite Falcão

4
22º Congresso da IMPA
acontece no Panamá
Panama hosts the 22nd
IMPA Congress

11

diretores directors
Alexandre Koji Takimoto
Carlos Alberto de Souza Filho
Lauri Rui Ramos
Linésio Gomes Barbosa Junior
planejamento planning
Otavio Fragoso / Flávia Pires / Claudio Davanzo
edição e redação writer and editor
Maria Amélia Parente (jornalista responsável)
(journalist responsible) MTb/RJ 26.601

índice
index

A trajetória de Otavio Fragoso
The career of Otavio Fragoso

18

revisão revision
­Maria Helena Torres
Aglen McLauchlan

Shiphandling for the Mariner, de Daniel H.
MacElrevey, continua sendo referência na
formação de práticos brasileiros

Daniel H. MacElrevey’s Shiphandling for the Mariner
continues to be a benchmark for training Brazilian pilots

versão translation
Elvyn Marshall

Um dragão na luta pela liberdade

projeto gráfico e design
layout and design
Katia Piranda

A dragon fighting for freedom

28

pré-impressão / impressão
pre-print / printing
DVZ/Davanzzo Soluções Gráficas

20

Praticagem brasileira assina acordo
com armadores internacionais

Brazilian pilotage signs agreement with international ship-owners

29
Atualização de Práticos no Ciaba
The Pilot Refresher Course in Ciaba
Paper produced from responsible sources

32

As informações e opiniões veiculadas
nesta publicação são de exclusiva
responsabilidade de seus autores.
Não exprimem, necessariamente,
pontos de vista do CONAPRA.
The information and opinions expressed
in this publication are the sole responsibility
of the writers and do not necessarily express
CONAPRA’s viewpoint.

Lancha de praticagem resgatou náufraga no Rio
Pilot’s motorboat rescued woman in the waters
of Rio’s Guanabara Bay

34

Lord Nelson: navio promove ambiente no
qual
se aprende a conviver com a diferença

Lord Nelson: a ship that creates an environment
for learning to live with the handicapped

impa
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Nova gestão à vista
22º Congresso da IMPA aconteceu no Panamá. Eleição de
executivos e ampliação do canal tiveram destaque no evento

Práticos brasileiros na Cidade do Panamá

Desde abril a IMPA conta com novos dirigentes. O prático
canadense Simon Pelletier e seu colega francês Frédéric Moncany
foram eleitos presidente e vice-presidente sênior durante o 22º
Congresso da IMPA, realizado na Cidade do Panamá. Durante os
próximos quatro anos eles serão os responsáveis pela gestão da
International Maritime Pilots’ Association. A dupla substituiu o
norte-americano Michael Watson e o brasileiro Otavio Fragoso,
que dirigiram a entidade de 2006 a 2014.

Brazilian pilots in Panama City

New management in sight
Panama hosts the 22nd IMPA
Congress. Emphasis at the event on
the election of executives and
expansion of the Canal

Frédéric Moncany E/ and SIMON PELLETIER

IMPA has new directors since April. Canadian
pilot Simon Pelletier and his French colleague
Frédéric Moncany were elected president and
senior vice-president during the 22nd IMPA
Congress in Panama City. They will be responsible over the next
four years for the administration of the International Maritime
Pilots’ Association. The duo has substituted North American
Michael Watson and Brazilian Otavio Fragoso, who ran the
association from 2006 to 2014.

Os três cargos de vice-presidente que se encontravam vagos também foram preenchidos com a eleição do inglês John Pearn, do
sul-coreano Na, Jong Pal e do brasileiro Ricardo Falcão. Otavio
ressaltou que o ingresso de Falcão na IMPA revela o respeito que

The three vice-president vacancies have also been filled by the
newly elected Englishman John Pearn, South Korean Na, Jong Pal
and Brazilian Ricardo Falcão. Otavio Fragoso pointed out that the
inclusion of Falcão in IMPA shows how the association now

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impa
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respects Brazilian pilotage. “By providing a proven quality service,
the Brazilian pilotage plays a leading role in Brazil. The more
structured the service in its country of origin, the more force it will
have in IMPA or any other international organization”, commented
the pilot. The election of Pelletier and Moncany reinforces this
theory, since Canada and France also have organized and
successful pilotage models.

Rainiero Salas, Alvaro Moreno, Otavio Fragoso e/and Michael Watson

a praticagem brasileira conquistou na associação. “Por prestar um
serviço de qualidade comprovada, a praticagem nacional tem
posição de destaque no Brasil. Quanto mais estruturado o serviço
se apresentar em seu país de origem, mais força ele terá na IMPA
ou em qualquer outra entidade internacional”, refletiu o prático. A
eleição de Simon e Moncany reforça essa teoria, posto que Canadá
e França apresentam modelos de praticagem igualmente organizados e bem-sucedidos.
Tendo começado na profissão em 1996 como prático do Rio São
Lourenço, Simon Pelletier preside a Associação Canadense de
Práticos desde 2009. Dedica-se há anos a estudos e debates na
IMO relacionados à tecnologia, especialmente à e-navigation,
assunto no qual é expert. Entrou na IMPA em 2008 como vicepresidente; Moncany é prático do Porto de Rouen, na França. Em
1999, elegeu-se presidente da Organização de Práticos de Rouen e,
em 2009, presidente da Associação Francesa de Práticos. Desde
2010 ocupa um dos postos de vice-presidente da IMPA.

Simon Pelletier joined the profession in 1996 as a pilot on St.
Lawrence River and is president of the Canadian Marine Pilots’
Association since 2009. He has dedicated years to study and
debates in the IMO related to technology, especially e-navigation,
a subject on which he is an expert. He joined IMPA in 2008 as vicepresident. Frédéric Moncany is a pilot in Rouen port, France. In
1999, he was elected president of the Rouen Pilots’ Organization
and in 2009 president of the French Pilots’ Association. Since 2010
he has occupied one of the vice-president positions in IMPA.
The Congress

Many of the panels were devoted to the special nature of canal
pilotage and to the impacts of the Panama Canal expansion. Pilot
Rainiero Salas spoke about his experience on the Panama Canal,
and Manuel Benitez, its administrator, talked about the effects of
the project. Mike Burgess, from the Canadian Marine Pilots’
Association, analyzed the service in Welland Canal in Ontario.
Pilots Michael Hartmann and Stefan Borowski presented special
details of the major German waterway, Kiel Canal. And finally,
Mike Morris, from the UK Maritime Pilots’ Association, spoke
about Manchester Canal.
The choice of Panama City to host the 22nd IMPA Congress was
perfect, according to IMO secretary-general Koji Sekimizu, who
spoke to the meeting’s audience by videoconference. He stressed
that Panama today is one of the great maritime nations. He also
made reference to its “iconic” canal, whose inauguration is
commemorated in 2014. Its expansion works are advancing and
the delegates were impressed by its grandeur and ingenuity.
The subsequent sessions addressed technical topics: innovation in
pilot motorboats, Hadrian Rail; pilot training, AIS Replay; collision

A. Moreno E/ and Ricardo falcão

O congresso
Boa parte dos painéis foi dedicada às peculiaridades da praticagem em canais e aos impactos que a ampliação do canal panamenho trará. O prático Rainiero Salas ofereceu depoimento sobre
sua experiência no Canal do Panamá, e Manuel Benitez, seu
administrador, discorreu acerca dos efeitos da obra. Mike Burgess,
da Associação de Práticos do Canadá, analisou o serviço no Canal

Comportas de Miraflores

Miraflores Locks

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de Welland, em Ontário. As particularidades do estreito alemão
mais importante, o Canal de Kiel, foram apresentadas pelos
práticos Michael Hartmann e Stefan Borowski. Por fim, Mike
Morris, da Associação de Práticos do Reino Unido, falou sobre o
Canal de Manchester.
A escolha da Cidade do Panamá para sediar o 22º Congresso da
IMPA mostrou-se acertada, segundo o secretário-geral da IMO,
Koji Sekimizu, que se dirigiu à plateia do encontro por videoconferência. Ele salientou que o Panamá hoje está entre as grandes
nações marítimas. Fez referência, ainda, a seu “icônico” canal, cujo
centenário de inauguração comemora-se em 2014. As obras para
sua ampliação encontram-se em etapa avançada e impressionaram
os participantes por sua grandiosidade e engenhosidade.
As sessões subsequentes trataram de temas técnicos; inovação
em lanchas de práticos, Hadrian Rail, treinamento de práticos, AIS
Replay, prevenção de colisões, manobrabilidade e e-navigation
estiveram entre os assuntos abordados. No final do encontro,
houve o tradicional convite para o próximo congresso, que acontecerá em 2016, na Coreia.
Evento marca 20 anos de participação brasileira
na Associação Internacional de Práticos
Carlos Jesus Schein é o primeiro brasileiro de que se tem notícia a
participar de um congresso da IMPA. Em 1990, o prático esteve
presente na décima edição do encontro da associação, em Tel Aviv.
Dois anos depois, em 1992, a praticagem nacional enfrentaria séria
crise institucional. A fim de obter subsídios para se articular e fazer
frente aos ataques que a profissão vinha sofrendo, um grupo de
práticos brasileiros resolveu participar do 11º Congresso da IMPA,
em Madri, naquele ano. Antonio Robles, Carlos Eloy Cardoso Filho,
Carlos Hermann, Herbert Frederico Mello Hasselmann (falecido),
Marco Antonio Barroca, Mauro Canto, Otavio Fragoso, Ronaldo
Jansson e Vicente Fraga Mares Guia fizeram parte dessa
emblemática comitiva, reforçando o relacionamento dos práticos
brasileiros com a IMPA.

prevention, maneuverability and e-navigation were some of the
issues discussed. At the end of the meeting the traditional invitation was offered for the next Congress to be held in 2016 in Korea.
Event marks 20 years of Brazilian participation in the
International Maritime Pilots’ Association
As far as we know, Carlos Jesus Schein is the first Brazilian to
participate in an IMPA congress. In 1990, the pilot attended the
tenth Association’s meeting in Tel Aviv. Two years later, in 1992,
Brazilian pilotage was to face a serious institutional crisis. In order
to obtain subsidies to coordinate and stand up to the attacks
against the profession, a group of Brazilian pilots decided to attend
the 11th IMPA Congress in Madrid that year. Antonio Robles,
Carlos Eloy Cardoso Filho, Carlos Hermann, the late Herbert
Frederico Mello Hasselmann, Marco Antonio Barroca, Mauro
Canto, Otavio Fragoso, Ronaldo Jansson and Vicente Fraga Mares
Guia were part of this emblematic delegation, reinforcing the
relationship of Brazilian pilots with IMPA.
The Brazilians, full of vigor, with questions, ideas and experiences
to share, were pure enthusiasm and quickly gained the foreign
pilots’ sympathy. A strong bond was formed at that moment, which
in the future would provide support for the representativeness,
which Brazilian pilotage enjoys today at an international level.

Before the start of the Congress, the group was divided in two. One
part went to the UK. A must for the delegation was to learn more
about English pilotage, which had suffered the rebound effect
imposed by former Prime Minister Margaret Thatcher around a
decade earlier. One of the measures adopted by the Iron Lady was
to decentralize the service, which was now controlled by private
port authorities.

Eloy, Otavio, Mauro e Mello na histórica comitiva de 92
Eloy, Otavio, Mauro and Mello at the historic 1992 meeting
Jansson, Mares Guia, Mauro, Otavio e Robles
no 11º Congresso da IMPA, Madri, 1992
Jansson, Mares Guia, Mauro, Otavio and Robles
at the 11th IMPA Congress, madrid, 1992

Cheios de garra, perguntas, ideias e experiências para compartilhar, os brasileiros eram puro entusiasmo e conquistaram rapidamente a simpatia dos estrangeiros. Nascia nesse momento forte
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The neoliberal onslaught overwhelmed what had once been the
world’s greatest maritime power, and there was a real threat of its
impacts spreading to other countries. The other delegation visited
pilotage in Germany, always a benchmark for organization and
economic strength. Later, they all met up in Rotterdam, the main
European port.

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vínculo que no futuro forneceria sustentação à representatividade
da qual a praticagem brasileira goza hoje em âmbito internacional.
Antes do início do congresso, o grupo dividiu-se em dois. Parte dele
seguiu para o Reino Unido. Conhecer de perto a praticagem inglesa, que sofria o efeito rebote da desregulamentação imposta pela
primeira-ministra Margaret Thatcher, cerca de uma década antes,
configurava tarefa mandatória da missão. Entre as medidas adotadas pela Dama de Ferro estava a descentralização do serviço, que
passou a ser controlado por autoridades portuárias privadas.
O neoliberalismo chegara de forma avassaladora naquela que fora
a maior potência marítima mundial, e a ameaça de seus efeitos
propagarem-se em outros países era real. O outro segmento visitou
a praticagem da Alemanha, sempre uma referência por sua organização e pujança econômica. Depois, todos se encontraram no
Porto de Roterdã, o principal da Europa.
A participação no encontro da IMPA foi tão bem sucedida, que a
delegação brasileira ofereceu com êxito o Rio de Janeiro para
sediar o 13º Congresso da IMPA, que aconteceu em 1996. Os
congressos da IMPA são bienais e, depois do de Madri, seguiu-se
o de Vancouver, em 1994, quando a praticagem brasileira mostrou
que havia chegado para ficar. Durante o evento no Canadá, o
carioca Helcio Kerr elegeu-se vice-presidente da associação. Pela
primeira vez na história um prático brasileiro fazia parte do comitêexecutivo da IMPA.
Mais do que uma vitória do Brasil, o fato representou grande conquista para a praticagem da América Latina, que sofrera duro golpe
na Argentina dois anos antes. A profissão deixou de ser regulamentada pela autoridade marítima argentina graças a decreto
baixado pelo presidente Carlos Menem, em janeiro de 1992. Os
brasileiros estavam sob alerta total. O exemplo do que acontecera
no país vizinho era altamente indesejável. Um executivo brasileiro
na IMPA vinha a calhar.
Atuando ao lado do canadense Michel Pouliot (então presidente
da IMPA), Helcio realizou trabalho memorável visando aumentar
a representatividade latino-americana internacional, até então
incipiente na IMPA. Visitou diversas nações do continente e
conseguiu a adesão de novos países-membros. Sua competência
foi reconhecida em Xangai, em 1998, quando se reelegeu vicepresidente, cargo que ocupou até 2002. Siegberto Schenk, prático
da Espírito Santo Pilots, também se destacou na trajetória do Brasil
na IMPA, tendo sido membro do Conselho Técnico da associação
de 2001 a 2004. Depois viriam Otavio Fragoso e, em seguida,
Ricardo Falcão. O ano de 2014 marca, portanto, 20 anos de atuação
ininterrupta do Brasil na IMPA.
O período Mike/Otavio
A empatia entre os práticos Michael Watson e Otavio Fragoso
aconteceu de forma instantânea. Embora sejam indivíduos bastante diferentes, profissionalmente compartilham dos mesmos

Its participation in the IMPA meeting was so successful that the
Brazilian delegation’s suggestion that Rio de Janeiro host the 13th
IMPA Congress in 1996 was accepted. IMPA congresses are held
every two years and, after Madrid, it went to Vancouver in 1994,
when Brazilian pilotage showed that it had come to stay. During
the event in Canada, Rio-born Helcio Kerr was voted vice-president
of the association. For the first time ever, a Brazilian pilot was a
member of the executive committee of IMPA.
This was not just a victory for Brazil but also a major achievement
for Latin American pilotage, which had suffered a heavy blow in
Argentina two years earlier. The profession was no longer regulated by the Argentine maritime authority thanks to a decree issued
by President Carlos Menem in January 1992. The Brazilians were
on full alert. That event in its neighboring country was extremely
undesirable. A Brazilian executive in IMPA was a lucky stroke.
Working alongside Canadian Michel Pouliot (then IMPA president),
Helcio Kerr did memorable work to increase international Latin
American representativeness, until then in its early days in IMPA.
He visited various nations on the continent and successfully
attracted new member-states. His competence was acknowledged
in Shanghai in 1998, the year he was re-elected vice-president, a
position he occupied until 2002. Siegberto Schenk, a pilot of
Espírito Santo Pilots, was also outstanding in Brazil’s career in
IMPA, as a member of the Association’s Technical Council from
2001 to 2004. Then came Otavio Fragoso and later Ricardo Falcão.
The year 2014, therefore, marks 20 years of Brazil’s continuing role
in IMPA.

Carlos Eduardo Massayoshi, Euclides Alcantara, Helcio Kerr, Siegberto
Schenk e Pedro Paulo ALCANTARA no 15º Congresso da IMPA, Havaí, 2000
Carlos Eduardo Massayoshi, Euclides Alcantara, Helcio Kerr, Siegberto
Schenk and Pedro Paulo ALCANTARA at the 15th IMPA Congress, Hawaii, 2000

The Watson/Fragoso period
The empathy between the pilots Michael Watson and Otavio
Fragoso was instant. Although quite different people professionally, they share the same values, which brought them together as
soon as they met. Both have always been identified as professionals engaged in matters related to strengthening what is the noblest
aspect of the profession: its work in the public interest. It is no
coincidence that they both sacrificed and sacrifice their personal
lives to the collective.
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Os práticos na American Pilots’ Association, Washington D.C., 2010
The pilots in the American Pilots’ Association, Washington-DC, 2010

Otavio e sua filha, Marina, com Michael Watson, Trancoso, 2004
Otavio and his daughter Marina, with Michael Watson, Trancoso, 2004

valores, o que os aproximou desde que se conheceram. Ambos
sempre foram identificados como profissionais engajados em
matérias relativas ao fortalecimento da profissão no que de mais
nobre ela possui: o interesse público. Não por acaso os dois sacrificaram e sacrificam suas vidas pessoais em prol do coletivo.
Em 2004, o norte-americano Michael Watson esteve em Trancoso
(BA), onde participou do 25º Encontro Nacional de Praticagem.
Lançando mão de sua apurada intuição, Mike enxergou em Otavio
um parceiro. Sugeriu que ele se candidatasse a um dos postos de
vice-presidente da IMPA. Pego de surpresa, Otavio teve pouco
tempo para pensar – o prazo para as inscrições terminaria logo. Na
época o brasileiro era presidente do CONAPRA e, durante a assembleia realizada no encontro, colocou o assunto em pauta. Não
houve dúvida de que ele era a pessoa mais indicada para a empreitada: já frequentava fóruns internacionais, tinha inglês fluente,
sólido conhecimento das questões essenciais para a profissão e
muitos relacionamentos no meio.
Três meses depois, em Istambul, Otavio tornou-se vice-presidente
da IMPA. Watson, também vice-presidente na época, fora eleito
antes, em 2002. Em Cuba, no congresso de 2006, a parceria Mike/
Otavio seria formalmente instituída com sua eleição para presidente e vice-presidente sênior. Uma espécie de upgrade, que lhes
permitiu a formação de poderosa parceria, altamente eficiente e
respeitada no meio marítimo mundial. Watson é emotivo e político,
e Otavio, racional e sem papas na língua. Juntos dirigiram por oito
anos a praticagem internacional colocando a serviço da classe toda
a experiência e o conhecimento adquiridos em suas carreiras.
Segundo Otavio, a harmonia e complementaridade entre eles
superou todas as intempéries que a associação enfrentou. Sempre
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In 2004, Michael Watson was visiting Trancoso (Bahia State),
where he participated in the 25th National Pilotage Meeting.
Watson, using his finely tuned intuition, saw a partner in Fragoso.
He suggested he apply for one of the vice-president positions in
IMPA. Otavio Fragoso, caught by surprise, had little time to think
about it – the application deadline was close. At that time the
Brazilian was president of CONAPRA and during the assembly at
the meeting, he raised the matter for discussion. There was no
doubt he was the best person for the job: he was already attending
international forums, spoke fluent English, had solid knowledge of
the profession’s key issues and knew many people in the field.
Three months later, Fragoso was voted vice-president of IMPA in
Istanbul. Watson, also then vice-president, was elected earlier,
in 2002. In Cuba, at the 2006 Congress, the Watson/Fragoso partnership was to be formally instituted with their election to president
and senior vice-president. This was a kind of upgrade that allowed
them to form a powerful, highly efficient and respected team in the
international maritime world. Watson is emotive and political,
while Fragoso is rational and outspoken. For eight years they
directed international pilotage together, providing the whole class
with all their experience and know-how acquired during their careers.
Otavio Fragoso says that harmony and their complementing each
other overcame any storm faced by the association. They were
always in tune, with no power struggles, and they would carry on
solving, or at least showing the ways to solve external or internal
problems. The partnership was so successful that there were more
than a few delegations disappointed when they learned that
Fragoso was not standing for the presidency of IMPA; he was the
natural candidate, someone who everyone expected to see at
the head of IMPA after the end of Watson’s mandate. Fragoso,
however, ended his career as an executive of the association.
“We will greatly miss this double act”, stressed Nick Cutmore,
IMPA secretary-general, when saying farewell to both of them in
Panama.
– Mike and Otavio have spent longer than just their eight years as
President and Senior Vice President. Both were Exec members

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Mike e Geraldine Watson, Lia da Silveira e Otavio, Malta, 2013
Mike and Geraldine Watson, Lia da Silveira and Otavio, Malta, 2013
Otavio e Mike em visual faroeste

em sintonia, sem disputa de poder, foram caminhando e resolvendo, ou pelo menos mostrando os caminhos para resolver, problemas externos ou internos. A parceria deu tão certo, que não
foram poucas as delegações que ficaram frustradas quando souberam que Otavio não se candidataria ao cargo de presidente da
IMPA; ele era o candidato natural, aquele que todos esperavam ver
à frente da IMPA depois do final do mandato de Watson. Otavio,
porém, deu por encerrada sua jornada como executivo da entidade.
“Uma dupla que deixou saudades”, frisou o secretário-geral da
IMPA, Nick Cutmore, na despedida de ambos, no Panamá.
– Mike e Otavio permaneceram mais tempo na IMPA do que o
período em que ocuparam os cargos de presidente e vice-presidente
sênior. Antes já eram membros do quadro executivo da entidade.
Tenho certeza de que mais será dito na sexta-feira, mas quero
agradecer a ambos seu desempenho durante os últimos oito anos,
o que foi tão essencial para a organização quanto para o bom
funcionamento do escritório. Apesar de serem pessoas muito diferentes, seu entrosamento não poderia ter sido melhor para a
associação. Mike, como vocês sabem, é duro e franco (alguns
usam adjetivos mais grosseiros para qualificá-lo). Quando o vemos
falando, melhor seria dizer rosnando, nas Bahamas ou na IACS, ou
quando alguém tenta criticar vocês, compreendemos quão vantajosa foi sua presidência. Mike, no entanto, seria o primeiro a
admitir que não teria sido bem-sucedido sem a presença, a seu
lado, de seu cerebral vice-presidente sênior, o
que me leva a imaginar os dois no velho oeste do
tempo dos pioneiros − disse Nick projetando a
montagem que exibiu para homenageá-los.
Um dos maiores orgulhos da gestão Mike/Otavio
foi alavancar a African Maritime Pilots’ Association
(AMPA). Junto com outros executivos, estiveram
em 2010 no Senegal apoiando a AMPA e o Porto
de Dacar durante o primeiro fórum africano de
praticagem. Em 2012, mais organizada, a praticagem africana promoveu o primeiro congresso
da AMPA, no Marrocos, também com o apoio da
IMPA. Ter contribuído para o fortalecimento

Fragoso and Watson in the Wild West

before they assumed these posts. I am sure more is going to be
said on Friday but I want to personally thank them for their steering
during the past eight years, which has been essential for the
organization and the office to function properly. They are both very
different people, but their pairing could not have been better for
the organization. Mike, as you know, is blunt and forthright (some
say ruder things about him). When you see him at IMO speaking,
or should I say growling, at the Bahamas, IACS or anyone else
trying to criticize you, you will see the benefits you have enjoyed of
his presidency. However Mike would be the first to admit that he
couldn’t have done it without his cerebral Senior Vice President
riding shotgun with him. This led me to imagine the two of them
in the Wild West years ago – said Nick when projecting a slide in
their honor.
One of the greatest sources of pride of the Watson/Fragoso
management was leveraging the African Maritime Pilots’
Association (AMPA). In the company of other executives, they went
to Senegal in 2010 to support AMPA and visited Dakar port during
the first African pilotage forum. In 2012, a better-organized African
pilotage held the first AMPA Congress in Morocco, also with
IMPA’s support. A major achievement for the category was its
contribution to regional reinforcement of the profession and to
adoption of the international regulations governing the service on
the African continent, namely those in the IMO Resolution A.960.

Prático do porto de Dacar e senhora recebem executivos da IMPA, 2010
Dakar port pilot and his wife welcome IMPA executives, 2010

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Executivos, conselheiros e funcionários da IMPA, Londres, 2006
IMPA executives, counselors and employees, London, 2006

19º Congresso da IMPA, Bangoc, 2008
19th IMPA Congress, Bangkok, 2008

regional da profissão e para a adoção das normas internacionais que
regem o serviço no continente africano, sobretudo as da Resolução
A.960 da IMO, configurou grande conquista para a categoria.

Another example of how important IMPA’s support is in local
organizations is the consolidation of the Latin American Maritime
Pilot’s Forum, now in its eighth year. The forum began after some
difficulties faced by the profession in Latin America, and its
organization has proven essential for the group’s survival in rocky
scenarios. After the unrest of the 1990s, and with IMPA support, it
took shape and gained credibility, having today 11 member countries: Argentina, Brazil, Chile, Colombia, Cuba, Ecuador, Mexico,
Panama, Paraguay, Uruguay and Venezuela. A bloc that keeps the
differences between its members but also cohesion by following
the basic principles regulating the service.

Também a consolidação do Fórum Latino-Americano de Práticos,
que já vai para a 8ª edição, exemplifica quão importante é o apoio
da IMPA às organizações locais. O fórum nasceu devido a dificuldades enfrentadas pela profissão na América Latina, e sua
organização mostrou-se fundamental para o grupo sobreviver em
cenários instáveis. Passada a turbulência da década de 1990, e
com o apoio da IMPA, ganhou corpo e credibilidade, e hoje congrega 11 países: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Equador,
México, Panamá, Paraguai, Uruguai e Venezuela. Um bloco que,
apesar de guardar diferenças entre seus membros, mantém a
coesão por seguir os princípios básicos que regem o serviço.
Os líderes da IMPA costumam explicar que a associação não dita
normas para o serviço de praticagem de seus países-membros.
Muito pelo contrário, a entidade acredita que quanto mais fortalecidas em nível regional mais preparadas as praticagens estarão
para os desafios. A IMPA funciona como órgão agregador e unificador. Entre seus objetivos está o estímulo às parcerias regionais de
acordo com os padrões preconizados internacionalmente pela IMO
e dos quais a IMPA é porta-voz. Como reforçou Watson no Panamá,
a Organização Marítima Internacional recusou o projeto de padronização internacional dos serviços de praticagem − eles devem ser
adequados às peculiaridades locais, e os esforços no sentido de
padronizá-los mostraram-se equivocados.

V Fórum Latino-Americano de Práticos, Cartagena, 2009
5th Latin American Pilots’ Forum, Cartagena, 2009

10

IMPA leaders usually explain that the association does not dictate
rules for the pilotage service of its member states. Quite the contrary, since the organization believes that the stronger they are at
a regional level, the better prepared the pilots will be to
face their challenges. IMPA operates as an aggregating and
unifying body. One of its objectives is to encourage regional
partnerships to adopt the international standards recommended
by IMO and for which IMPA is spokesman. As Watson stressed
in Panama, the International Maritime Organization rejected the idea
of international standardization of pilotage services – they must
adapt to local peculiarities, and the efforts to standardize them was
a mistake.

VII Fórum Latino-Americano de Práticos, Búzios, 2013
7th Latin American Pilots’ Forum, Buzios, 2013

impa/perfil
impa/profile

O case Otavio Fragoso

Maria Amélia Parente

The Otavio Fragoso case
Otavio Augusto Fragoso Alves da Silva representa a antítese da
mentalidade individualista e de curtíssimo prazo, verdadeira praga
do nosso tempo. Para um prático conquistar sua antipatia basta
dizer que ingressou na profissão apenas para ganhar dinheiro.
“Obviamente tomo decisões profissionais e particulares levando
em conta retorno financeiro, mas o acúmulo de recursos nunca foi
prioridade na minha vida”, explicita. Colegas do prático corroboram
a afirmação e, sem titubear, asseguram que na praticagem brasileira
não existe alguém que trabalhe mais pelo coletivo do que Otavio.
Para a lida como prático e executivo, ele conta com preciosas
ferramentas: enorme capacidade de trabalho, inteligência privilegiada (a de acepção clássica e a emocional), cultura e retidão de
caráter. Otavio é uma pessoa multitarefa. Dá conta de fazer várias
coisas simultaneamente. Além de manobrar navios, ocupa o posto
de presidente da Fenapráticos* e do Sindicato de Práticos do Rio de
Janeiro, atua regularmente no Conselho Nacional de Praticagem, em
que é conselheiro institucional e editor da revista Rumos Práticos
(não participou, entretanto, da elaboração desta matéria), e até
poucos meses atrás era vice-presidente sênior da IMPA.

No Porto do Rio, nos anos 90

At Rio Port in the 1990s

Sua virtude, entretanto, acaba voltando-se contra ele. Vez por outra
tem que ouvir da família e dos amigos cobranças por conta de sua
ausência, já que dedica boa parte de sua existência ao trabalho.
“Ele costuma ter compromisso no exterior mês sim, mês sim”,
reclamam.
Mas a responsabilidade não é da praticagem. Otavio se comportaria assim em qualquer profissão. Ele tem o gene da realização,
de colocar em prática suas ideias, que normalmente são boas e
muitas. Isso gera um custo: quase não tem tempo para ele. Esse foi
um dos motivos pelo qual decidiu não se candidatar ao cargo de
presidente da IMPA, cuja eleição ocorreu em abril de 2014. “Já dei
minha cota, se aceitasse seria por pura vaidade”, explica.
A trajetória profissional de Otavio começou bem antes de a praticagem entrar em sua vida. Quando era adolescente queria ser
oceanógrafo. Na universidade estadual do Rio cursou durante
algum tempo geografia e geologia, com objetivo de se especializar
em oceanografia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Mas a graduação que vingou foi economia, cursada na UFRJ, onde
obteve o título de bacharel. Ainda na faculdade, prestou concurso
público e começou a trabalhar, aos 19 anos, na Prefeitura do Rio
de Janeiro.
Parte de seu plano deu certo: conquistou a almejada independência financeira e, ainda jovem, já ganhava bem a vida. Era dono do
próprio nariz, mas, internamente, não se sentia realizado. Havia
virado um burocrata, algo pouco estimulante para um jovem apai-

Em escada de quebra-peito, 2013

On a Jacob’s ladder, 2013

Otavio Augusto Fragoso Alves da Silva is the antithesis of the
immediatist individualist mentality so rife today. For a pilot to rouse
his hostility he just needs to say he joined the profession only for the
money. “Obviously I make my professional and personal decisions
considering financial return, but accumulating money was never a
priority in my life”, he explains. Pilot's colleagues corroborate this
statement and without hesitation assure us that in Brazilian
pilotage no one works harder for the collective than Otavio Fragoso.

*Federação Nacional dos Práticos, entidade sindical criada em Brasília, em agosto de 2013, a fim de representar em nível nacional os profissionais de praticagem.
*National Pilots’ Federation (Federação Nacional dos Práticos), a union created in Brasilia in August 2013, to represent professional pilots nationwide.

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impa/perfil
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xonado pelo conjunto veleiro, praia e mar. Otavio gostava tanto da
vida no mar, que chegou a fazer curso de telegrafia a fim de passar
férias embarcado, ocupando o posto de transmissor de mensagens.
O tragicômico é que, assim que se formou, a Marinha deixou de
usar esse sistema de comunicação.
Nesse ponto de sua história o acaso resolveu dar-lhe uma mãozinha. Em uma tarde banal no Centro da cidade do Rio, Otavio foi
ao Sindicato dos Oficiais de Náutica buscar o amigo Murilo para
almoçar. Enquanto o aguardava, leu no quadro de avisos comunicado que anunciava processo seletivo para praticante de prático. O
assunto do almoço dos três (Salustiano, outro oficial amigo juntara-se
ao grupo) foi o concurso. Otavio conta que a descrição dos dois mostrara-se tão excitante, que ele ficou interessadíssimo. Mas como
achava que a profissão só podia ser exercida por oficiais da Marinha
Mercante, logo se resignou: “Pena que não posso inscrever-me.”
Quando ouviu de Murilo que podia, sim, participar do concurso,
começou a grande virada. Com a maré definitivamente a seu favor,
o acaso interviu mais uma vez. Por questões burocráticas
a Marinha adiou o exame, e Otavio, que jamais havia entrado
em um navio mercante, tirou férias para conhecer embarcações
dessa natureza e estudar noite e dia. Até então só conhecia
veleiros. O que havia comprado não tinha nem motor. “Às vezes
passava a noite na Baía de Guanabara esperando o vento”,
recorda.
Ele lembra que eram mais de 800 candidatos para as cinco vagas
disponíveis para praticante de prático no Rio. Lembra-se, aliás, de
tudo; até da farda que o candidato Marcos Evangelista, futuro
colega, usava no dia da prova no simulador do Ciaga. Tem na
memória cada detalhe do concurso, apesar dos quase trinta anos
que separam aquele período de hoje.

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1990
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1998

For life as a pilot and executive, he has on hand valuable tools:
enormous working capacity, outstanding intelligence (in the
traditional and emotional sense), culture and uprightness of
character. Fragoso is a multitasker. He is able to do several
things at the same time. In addition to maneuvering ships, he
occupies the position of president of Fenapráticos* (see previous
page) and the Rio de Janeiro Pilots’ Union (Sindicato de Práticos do
Rio de Janeiro), regularly attends the Brazilian Maritime Pilots’
Association, in which he is institutional conselor and editor of the
magazine Rumos Práticos (but not involved in writing this article),
and until a few months ago was senior vice- president of IMPA.
His virtue, however, turned against him. Occasionally he has to
hear from his family and friends complaints about his absence,
since he devotes a large part of his life to work. They complain: “He
usually has a commitment abroad every other month”.
But his sense of responsibility has nothing to do with pilotage.
Otavio Fragoso would behave like that in any profession. He has a
gene for inventing and putting in practice his many good ideas. This
is at a cost: he has almost no time for himself. It was one of the
reasons why he decided not to stand as candidate for president of
IMPA in the election held in April 2014. “I had done my bit. I
realized that if I were to accept, it would be pure vanity”, he explains.
Otavio Fragoso’s professional career began long before pilotage
entered his life. When he was still a teenager he wanted to be an
oceanographer. At the Rio State University he studied geography
and geology for some time, in order to specialize in oceanography
at the Federal University of Rio de Janeiro (UFRJ). But that was
where he graduated in economics. While still at college he sat a
public examination and at 19 years old began working in Rio de
Janeiro City Hall.

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“Não tinha a dimensão exata do que estava acontecendo, mas
sentia que era algo crucial para a minha vida. O fato de já ter
um bom emprego ajudou-me a não colocar expectativa nos
resultados. Se passasse, seria lucro. Era como se eu estivesse
sendo levado, não havia planejado aquilo. Se acreditasse em
forças superiores, talvez dissesse que a vaga estava destinada
a mim, pois passei em quinto lugar, tendo na minha frente
quatro candidatos da Marinha (três da Mercante e um da de
Guerra)”, comenta.
O vento, porém, sempre muda e, em seguida, vieram as provações. O fato de ser economista trouxe mal-estar aos práticos que
tinham preconceito com profissionais sem formação marítima.
“Apesar de jovem, tinha experiência de vida e estava acostumado
a enfrentar dificuldades no trabalho”, conta. Terminado o rito de
passagem, recebeu finalmente sua carta de prático, e teve início
um dos melhores momentos de sua vida – um período de encantamento, do qual ele se recorda com nostalgia.
“Ia trabalhar feliz da vida com o que havia conquistado. Manobrar
significava puro prazer. Era tudo muito tranquilo, agradável.
Adorava meu novo ofício. Tinha carro, mas preferia ir de ônibus
para a Avenida Presidente Vargas, onde ficava a sede da
Cooperativa de Práticos do Estado do Rio de Janeiro (Coprarj).
Achava tudo ótimo, não tinha estresse. No primeiro ano ganhava
menos do que na Prefeitura, mas não dava importância para isso.
Foi uma época maravilhosa”, relembra.
As conquistas vieram naturalmente. Ainda como praticante participou do grupo de negociação de contratos. Presidiu a Coprarj (em
92, 96 e 97) e a empresa Rio Pilots (de 97 a 99). No Conselho
Nacional de Praticagem atuou como diretor (em 97/98), conselheiro técnico (de 1999 a 2002) e presidente (em 2003/2004).

2005
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At this point in his life, luck decided to lend him a hand. One ordinary
afternoon in downtown Rio, Otavio Fragoso was visiting the Navy
Officers’ Union to meet up with his friend Murilo for lunch. While he
was waiting for him, he read on the notice board an announcement
to select apprentice pilots. The subject over lunch between the three
of them (Salustiano, another officer friend joined them) was the
selection process. Otavio says that the description both gave was so
exciting that he became immediately interested. But since the
profession would only accept Merchant Navy officers, he soon gave
up the idea: “Pity I can’t register”.
When Murilo told him he could participate in the competition, this
was his turning point. With the tide definitely in his favor, chance had
again intervened. The Navy postponed the examination for bureaucratic
reasons, and Otavio, who had never boarded a merchant ship in his
life, spent his vacation learning about vessels of this kind and studying
night and day. Until then his only contact with the sea had been
sailboats. The one he had bought didn’t even have an engine.“Sometimes
I would spend the night in Guanabara Bay waiting for the wind”, he recalls.
He remembers that there were more than 800 candidates for the five
apprentice pilot vacancies in Rio. In fact, he remembers everything;
even the uniform that the candidate Marcos Evangelista, his future
colleague, was wearing on the day of the exam in the Ciaga simula-

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Part of his plan was successful: he gained his longed for financial
independence and, although young, was already earning well. He
was his own master, but in his heart he felt unfulfilled. He had
become a bureaucrat, not exactly exciting for a young man passionate for sailing, beach and the sea. Fragoso loved life at sea so much
that he took a course in telegraphy so that he could spend vacations
at sea, dispatching messages. The tragicomedy is that as soon as he
graduated the Navy stopped using this communication system.

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tor. His memory holds each detail of the competition, despite the
almost thirty years since that day.

Com parte da diretoria do Conapra durante a gestão 2003/2004
With some Conapra directors during the 2003-04 administration

Otavio sempre foi bom de conteúdo. Colegas do prático são
unânimes em apontar sua incrível capacidade analítica e estratégica. Não por acaso entre suas responsabilidades na IMPA estava
o planejamento estratégico. “Ele tem aguçada percepção dos
acontecimentos e do comportamento das pessoas, o que permite
que se antecipe aos fatos e preveja o que vai acontecer”, analisa
o prático Marcelo Cajaty, com quem Otavio escreveu o livro
Rebocadores Portuários, obra que faz parte da bibliografia do atual
processo seletivo para praticante de prático.

“I had no precise idea of what was happening, but I felt that it was
a key moment in my life. The fact of already having a good job helped
me not to have expectations in the results. If I passed, it would be
profit. It was as if I was being carried along, not having planned it. If
I were to believe in superior forces, perhaps I would say that I was
meant to be there, since I passed in fifth place, behind four Naval
candidates (three from the Merchant Navy and one from the Brazilian
Navy)”, he comments.
The wind, however, always changes and his trials were about to
begin. The fact that he was an economist caused discomfort among
the pilots who were prejudiced against professionals without maritime training. “Although young, I had experience of life and was used
to facing setbacks at work”, he says. After his rite of passage, he
finally received his pilot’s license, and began one of best times in his
life – a period of delight which he recalls with nostalgia.
“I would go to work so happy at what I had achieved. Maneuvering
was pure pleasure. Everything was very pleasant and peaceful. I

Com Helcio, ao ser empossado presidente do Conapra, 2003
With Helcio, when taking office as Conapra president, 2003

Com/with Marcelo Cajaty, Maceió, 2002

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Ele passeia do micro ao macro com igual desenvoltura, e suas
antecipações são obra de eficiente modus operandi : acumular o
máximo de informações sobre o passado para compreender o presente e prever e aprimorar o futuro. Provido de sensores naturais,
Otavio jamais desconecta a racionalidade da sensibilidade, talvez
seu grande diferencial.
A curiosidade é outra aliada do prático. Em seu cardápio de leitura
entram jornais, romances, obras científicas e técnicas e o que mais
lhe aprouver – o que lhe garante robusta cultura geral e, em particular, sobre a profissão. “Ele sempre procurou informar-se e estar
em dia com a evolução tecnológica. Como prático trabalha de
forma extremamente técnica, cercando-se do máximo de informações a fim de realizar a faina de forma segura”, afirma Durvalino
Ferreira, prático do Rio de Janeiro, colega de Otavio desde que
este entrou na profissão.
O relacionamento dos dois nem sempre se mostrou harmônico.
Divergiram bastante nesses anos, mas o tempo encarregou-se de
aparar as arestas. Hoje se admiram mutuamente e riem dos desentendimentos que tiveram, dando belo exemplo de maturidade em
prol do fortalecimento da profissão. Entre as empreitadas lideradas
por Otavio, Durvalino destaca a implementação do Conselho
Técnico na Rio Pilots e do fim da terceirização do serviço de lanchas de praticagem na Coprarj.

loved my new job. I had a car but preferred to go by bus to President
Vargas Avenue, the address of the headquarters of the Rio de
Janeiro State Pilots Cooperative (Coprarj). I thought everything was
excellent, no stress. The first year I earned less than at City Hall but
it didn’t matter. It was a wonderful time”, he recalls.
Achievements came naturally. He was still an apprentice pilot when
he participated in the contract negotiation group. He presided Coprarj
(1992, 1996 and 1997) and the company Rio Pilots (1997-1999). He
was director of the Brazilian Maritime Pilots’ Association (1997/98),
technical councilor (1999-2002) and president (2003/2004).
Otavio Fragoso has always had a lot going for him. The pilot’s colleagues are unanimous in pointing out his incredible analytical and
strategic capacity. It is no coincidence that strategic planning was
one of his responsibilities. “He has sharp perception of events and
people’s behavior, which helps him anticipate the facts and foresee
what’s going to happen”, analyzes pilot Marcelo Cajaty co-author
with Otavio Fragoso of the book Rebocadores Portuários [Harbor
Tugs], which is included in the bibliography of the current selection
process for apprentice pilots.

Genial no tocante ao conteúdo, por analisar brilhantemente os
fatos e propor estratégias que invariavelmente dão certo, as críticas que recebe são quase sempre em relação à forma como coloca
seus pontos de vista.
Em Havana, no 18º Congresso da IMPA, quando foi eleito
vice-presidente sênior da associação
In Havana, at the 18th IMPA Congress, when elected
senior vice-president of the Association

“Otavio gosta de trabalhar de forma correta. Tem muita confiança
nas suas ideias e pode ser implacável em discussões, já que apre-

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senta argumentos imbatíveis. Alguns interpretam seu comportamento como arrogante, mas a veemência com que se coloca
acontece pelo fato de ele ser uma espécie de paladino da honestidade e, por experiência, saber de antemão o que vai dar certo”,
observa o prático Mauro do Canto.

COM Hein Mehrkens, ao ser eleito vice-presidente da IMPA, Istambul, 2004
WITH Hein Mehrkens on his election as vice-president of IMPA, Istanbul 2004

Com Mauro do Canto, no 13º Congresso da IMPA, Rio de Janeiro, 1996
With Mauro do Canto, 13th IMPA Congress, Rio de Janeiro, 1996

De acordo com Mauro, o colega granjeou no exterior respeito igual
ao que conquistou no Brasil: “Geoff Taylor e Michel Pouliot (ambos
ex-presidentes da IMPA) e Joseph Angelo (diretor-geral adjunto da
Intertanko), por exemplo, são grande admiradores de sua ética e
capacidade intelectual”. Mauro ressalta ainda que, desde que
entrou na profissão, Otavio esteve em todas as frentes de
trabalho que visaram colocar a praticagem brasileira nos padrões
preconizados pelo organismo internacional competente. “Trata-de
de profissional ímpar, com características especiais. Líder nato,
formou e inspirou várias lideranças que hoje atuam na praticagem
brasileira e mundial”, complementa.

He surfs from micro to macro with the same ease, and his predictions
are the result of an efficient modus operandi: accumulating maximum
information on the past in order to understand the present and foresee
and enhance the future. Provided with natural sensors, Fragoso never
loses the link between logic and sensitivity, perhaps his leading edge.
The pilot’s curiosity is another ally. His reading menu includes
newspapers, novels, scientific and technical books and whatever he
sees fit – to ensure him a robust general knowledge, particularly
about his profession. “He always strives to be informed and up-todate with technological evolution. As a pilot he works extremely
technically, surrounding himself with as much information as he can
to accomplish the task safely”, says Durvalino Ferreira, pilot from Rio
de Janeiro, Otavio’s colleague since he joined the profession.
The relationship of the two has not always been harmonious. They
diverged considerably over the years, but time has smoothed the
edges. Today they admire each other and laugh at the disagreements
they had, in a beautiful example of maturity in order to strengthen
the profession. Ferreira highlights two of the projects headed by
Fragoso: implementation of the Technical Council in Rio Pilots and
the end of outsourcing the pilots’ motorboat service in Coprarj.
He is extremely gifted with regard to content, by brilliantly
analyzing the facts and proposing strategies that are invariably
successful, but the criticism he receives is almost always about
the way in which he puts forward his points of view.

Com Michel Pouliot, durante encontro da CMPA, 2005
With Michel Pouliot, at a meeting of the CMPA, 2005

Casado há 28 anos com a arquiteta Lia da Silveira, Otavio conta
com uma maravilhosa relações-públicas. Extrovertida e despachada, Lia, sempre que é possível, acompanha o marido em suas
missões, quando aproveita para fazer uma das coisas de que mais
gosta: conhecer pessoas e lugares diferentes. Craque na arte de
fazer amigos, graças a ela o casal tem amizades genuínas em todo
o mundo. Lia sabe receber como ninguém, e a residência do casal
está sempre cheia de amigos. Amigos que poderiam hospedar-se
em hotéis, mas preferem sua hospitalidade.
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“Otavio likes to work correctly. He has a lot of confidence in his own
ideas and can be implacable in discussions, since he presents
unbeatable arguments. Some interpret his behavior as arrogant, but
his vehemence is due to the fact that he is a kind of champion of
honesty and, from experience, knows beforehand what will be a
successful outcome”, comments pilot Mauro do Canto.
He adds that his colleague earned as much respect outside Brazil as
he has at home: “Geoff Taylor and Michel Pouliot (both former
presidents of IMPA) and Joseph Angelo (deputy director-general of
Intertanko), for example, are great admirers of his ethics and intellectual
capacity”. Mauro de Canto also emphasizes that as soon as he joined

impa/perfil
impa/profile

the profession, Fragoso was involved in all work fronts that would
place Brazilian pilotage in the standards recommended by the relevant
international organization. “He is a unique professional, with special
characteristics. He is a born leader, and inspired several leaderships
that today work in pilotage at home and abroad”, he adds.

Com a mulher, Lia da Silveira, Quebec, 2005
With his wife Lia da Silveira, Quebec, 2005

Assim como o marido, adora velejar. Já trouxe, aliás, junto com
colegas de Otavio, um veleiro de 45 pés das Ilhas Canárias a
Salvador, em travessia que durou 20 dias. Por sua simpatia e
espontaneidade é muito querida no ambiente da praticagem.

Otavio Fragoso is married for 28 years to architect Lia da Silveira, his
wonderful public relations promoter. Extroverted and efficient,
whenever possible Lia accompanies her husband on his missions,
when she takes advantage to do one of the things she likes best:
getting to know people and different places. She is an expert in
the art of making friends, and thanks to her the couple have true
friendships the world over. Lia is a remarkable hostess and the
couple’s home is always full of friends. Friends who could stay in
hotels, but prefer their hospitality.
Like her husband, she loves to sail. Together with Otavio’s
colleagues, she has already brought a 45-ft sailboat from the Canary
Islands to Salvador, in a 20-day crossing. She is very well liked in the
pilotage environment because of her charm and spontaneity.

Aos 55 anos, Otavio representa precioso patrimônio da praticagem
brasileira. Fundamental frisar, entretanto, que reconhece ter
encontrado na profissão e na vida pessoas que o ajudaram a colocar em prática suas competências. Acredita, portanto, que, assim
como em todo caso de sucesso, sua vitória não é individual, mas
de um grupo.

Otavio Fragoso, 55 years old, is a valuable asset to Brazilian pilotage.
We must point out, however, that he gives credit to having found
people in his profession and life that have helped him put his skills
in practice. He therefore believes that, as in all success stories, his
achievements are not individual but collective.

Maria Amélia Parente é jornalista

Maria Amélia Parente is a journalist

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1990 - Com Mello e Mauro de Assis, Ilhéus
With Mello and Mauro de Assis, Ilhéus
1998 - Na Muralha da China com os práticos Peter Russel e Martin Retes
On the Great Wall of China with pilots Peter Russell and Martin Retes
1999 - Com o filho, Lucas, e participantes do 13º ENP, Fortaleza
With his son Lucas and delegates of the 13th ENP, Fortaleza
2003 - No passadiço
On the bridge
2003 - Recebendo a medalha Amigo da Marinha
Being awarded the ’Friend of the Brazilian Navy’ medal
2003 - Com práticos e a filha, Marina, Cabedelo
With pilots and his daughter, Marina, Cabedelo
2004 - Com Jandira e Neusa, Conapra
With Jandira and Neusa, Conapra
2004 - Istambul Istanbul
2005 - III Fórum Latino-Americano de Práticos, Montevidéu
3rd Latin American Pilot’s Forum, Montevideo
2005 - 29º ENP, Fortaleza
29th ENP, Fortaleza
2005 - Com Decio e o vice-almirante Aurélio, Rio de Janeiro
With Decio and Vice Admiral Aurélio, Rio de Janeiro
2006 - Com Nick Cutmore e Caron James (do staff da IMPA), Havana

With Nick Cutmore and Caron James (IMPA staff), Havana
2006 - Com R. Striga, Havana

With R. Striga, Havana
2007 - Com Carlos Eloy Cardoso Filho, Rio de Janeiro
With Carlos Eloy Cardoso Filho, Rio de Janeiro
2007 - Com equipe da Rio Pilots
With the Rio Pilots team
2007 - Em Port Revel, França
At Port Revel, France
2008 - Em Bangcoc, no 19º Congresso da IMPA
In Bangkok, at the 19th IMPA Congress
2008 - Com Geoff Taylor e Efthimios Mitropoulos, Londres
With Geoff Taylor and Efthimios Mitropoulos, London
2008 - Representando a IMPA em Bangcoc
Representing IMPA in Bangkok
2009 - Em Cartagena, no V Fórum Latino-Americano de Práticos
In Cartagena, at the 5th Latin American Pilots’ Form
2010 - Com Durvalino e sua mulher durante o 35º ENP, Praia do Forte
With Durvalino Ferreira and his wife during the 35th ENP, Praia do Forte
2010 - Otavio e J. P. Casanova recepcionados por prático de Dacar
Fragoso and Casanova welcomed by Dakar pilot
2011 - Com Paulo Barbosa, 36º ENP, São Paulo
With Paulo Barbosa, 36th ENP, São Paulo
2012 - 38º ENP, Porto de Galinhas 38th ENP, Porto de Galinhas
2012 - Idem
Ditto
2013 - Com práticos latino-americanos, Búzios
With Latin American pilots in Buzios
2014 - Durante o 22º Congresso da IMPA, Panamá
During the 22nd IMPA Congress, Panama
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literatura marítima
maritime literature

Shiphandling for the Mariner, de Daniel
H. MacElrevey, continua sendo referência
na formação de práticos brasileiros
Qualquer prático habilitado nos últimos 20 anos já pensou, em
algum momento de sua carreira, em olhar por baixo das pernas
para avaliar a distância de outro navio. Esse mesmo prático,
quando desce para algum convés inferior, nunca diz que está indo
“downstairs”, mas, sim, “down below”. Ele fica feliz quando suas
manobras são “tão excitantes quanto ver a grama crescer”, “exatamente como deveria ser”.
Essas ideias são familiares aos práticos formados no que se pode
chamar de cultura Shiphandling for the Mariner. O livro, escrito por
Daniel H. MacElrevey, foi publicado pela primeira vez em 1983 e
representa um marco na literatura marítima. Além disso, faz parte
da lista de referências bibliográficas do processo seletivo para
praticante de prático desde 1995. Trata-se da obra preferida por
quem estuda seguindo a bibliografia do concurso, que normalmente apresenta publicações maçantes, repletas de regulamentos,
normas, minúcias ou fórmulas complicadas.
Como o título já sugere, o livro trata de manobras de navios. Escrito
por um marítimo, para marítimos, o trabalho resulta em leitura
bastante leve e dinâmica; cada capítulo começa e/ou termina com
uma história sobre o cotidiano dos marítimos e é recheado de
desenhos bem-humorados, que complementam o assunto enfocado.
MacElrevey era prático no Canal do Panamá quando foi convidado
a voltar a viajar como capitão de longo curso nos novos navios de
LNG da recém-criada El Paso Marine Co. Nessa ocasião, o presidente da El Paso, sabendo de sua experiência como prático, pediu
que escrevesse um pequeno manual de manobras, na verdade um
guia de 50 páginas, para oficiais da companhia.
Enquanto escrevia, percebeu a carência de literatura que abordasse
manobras de forma prática. Reparou ainda que muitos oficiais,
embora observassem os práticos em ação, não tinham experiência
em manobra. Sua observação evoluiu até virar livro, elaborado com
a colaboração de práticos e oficiais que, como todos os homens do
mar, querem compartilhar sua experiência e suas histórias. Apesar
do grande sucesso da publicação, foi o primeiro e único livro escrito
por ele. Posteriormente, apenas artigos para revistas e painéis.
A partir da quarta edição, seu filho, Daniel E. MacElrevey,
passou a trabalhar na atualização da obra. No concernente à
manobra não houve grandes mudanças, ainda que ele tenha
incluído alguns capítulos.
18

Marcelo Cajaty

Shiphandling for the Mariner by Daniel H.
MacElrevey continues to be a benchmark
for training Brazilian maritime pilots
Any pilot qualifying in the past 20 years has already thought, at
some time in his career, of “bending over and looking between his
legs“ to estimate the distance of another ship. This same pilot, when
he goes down to a lower deck never says “downstairs”, but rather
“down below”. He rejoices when his maneuvers are “about as exciting
as watching grass grow”, “just the way it was supposed to be”.
These ideas are familiar to the pilots trained in what could be
called Shiphandling for the Mariner culture. The book by Daniel H.
MacElrevey was published for the first time in 1983 and is a benchmark
in maritime literature. Moreover, it is on the list of bibliographic
references for the pilot apprentice selection process since 1995.
This is a student’s favorite among the books on the list of the
public competition, which usually contains boring publications, full
of rules and regulations, details or complicated formulas.
As the title suggests, the book is about shiphandling, written by a
mariner for mariners. The result is light and dynamic reading; each
chapter begins and/or ends with a story about the mariners’
everyday life and is filled with amusing drawings complementing
the subject in focus.
Daniel H. MacElrevey was a pilot on the Panama Canal when he was
invited to sail again as a captain on the new LNG ships of the recently
created El Paso Marine Co. On that occasion, the El Paso CEO,
learning of his experience as pilot, asked him to write a small handbook
on shiphandling, a 50-page guide for the company’s officers.
While he wrote, MacElrevey noticed the absence of practical
literature on shiphandling. He also found that many officers,
although they watched pilots in action, had no experience in
shiphandling. His observation developed into a book, written with
the collaboration of pilots and officers who, like all mariners, love
to share their experience and stories. Even though it was a best
seller, it was the first and only book written by MacElrevey; later,
he just wrote articles for journals and panels.
After the fourth edition, his son Daniel E. MacElrevey joined his
father, updating the book. There were no major changes to

literatura marítima
maritime literature

Recentemente, os editores os
shiphandling, but he has
procuraram perguntando sobre
included some chapters.
a possibilidade de nova edição,
já que o estoque se aproximava
Recently, the publishers
do fim. Os MacElrevey inicialasked them about the possimente pensaram em apenas
bility of a new edition, since
atualizar determinadas figuras.
the stock was almost at an
Depois optaram por aprofundar
end. The MacElreveys first
o trabalho e começaram a perthought about only updating
guntar aos usuários o que goscertain drawings. Then they
tariam de ver incluído no livro.
decided to delve deeper and
Foram a escolas de marinha
began asking users what they
mercante pedindo novas ideias
would like to see included in
Práticos brasileiros com Daniel E. MacElrevey
e consultaram práticos sobre o
the book. They visited merBrazilian pilots with Daniel E. MacElrevey
assunto. Percebendo a demanchant navy schools asking for
da de atualização do conteúdo,
new ideas, and consulted
há um ano e meio começaram a modernizar segmentos do texto com
pilots on the matter. Having discovered there was a demand for
data de entrega prevista para final de 2014.
updating the contents, a year and a half ago they began to refresh
parts of the text with delivery deadline for the late fall of 2014.
As novas figuras foram desenhadas por Earl R. McMillin, grande
amigo e colega de Daniel H. MacElrevey. Daniel E., o filho, e o filho
The new pictures were drawn by Earl R. McMillin, a close friend
de Earl R. McMillin também foram colegas e agora são práticos.
and colleague of Daniel H. MacElrevey. Daniel E., the son, and Earl
São as gerações se sucedendo...
R. McMillin’s son were also colleagues and are now pilots. From
father to son...
E, de nossa parte, podemos falar o mesmo. Muitos práticos estudaram no livro de MacElrevey, pai, e os filhos desses práticos estuAnd we can say the same thing. Many pilots have studied from
daram nas novas edições, escritas pelos MacElrevey, pai e filho.
MacElrevey’s book (father), and the sons of those pilots have
São as gerações se sucedendo...
studied from the new editions written by the MacElreveys – father
and son. From one generation to another...
Daniel H. MacElrevey
Formado pela US Maritime Academy (1959-1963), navegou pela
Mooremack Line, na qual fez as primeiras viagens para o Canal do
Panamá. Como prático trabalhou no canal panamenho entre 1970
e 1978, quando havia grande necessidade de profissionais de
praticagem. Voltou para o mar, navegando em navios LNG da El
Paso entre 1978 e 1981, tendo atuado também como capitão de
manobra em plataformas na Louisiana, EUA. Voltou a exercer o
ofício de prático no Canal do Panamá entre 1983 e 1998. Nos
últimos anos, trabalhou no escritório de operações do Canal e
também dando aulas. Atualmente tem uma empresa e trabalha
administrando vários hotéis em Nova Jersey.

Daniel H. MacElrevey
Graduated from the US Maritime Academy (1959-1963), sailed for
Moore-McCormack Lines, making his first voyages to the Panama
Canal. As a pilot, worked on the Panama Canal from 1970 to 1978,
when there was a great need for pilotage professionals. He
returned to the sea, navigating LNG vessels for El Paso Marine
Company (1978-1981), also serving as docking master on platforms
in Louisiana, USA. He subsequently served as pilot again on the
Panama Canal from 1983 to 1998. In recent years, he has worked
in the Canal operations office and giving classes. Today he has his
own company and manages several New Jersey hotels.

Daniel E. MacElrevey
Formou-se em 1990 na US Maritime Academy. Navegou pela
Mooremack Line Tankers durante quatro anos. Prático desde 1997,
seu treinamento na Delaware River Pilots’ Association durou três
anos. Em 2003 tornou-se full pilot.

Daniel E. MacElrevey
Graduated in 1990 from the US Maritime Academy. Served aboard
tankers for Moore-McCormack Lines for four years. Has been a
pilot since 1997, after qualifying in three years from Delaware
River Pilots’ Association. He became a full pilot in 2003.

Marcelo Cajaty é prático de Rio Grande
e conselheiro institucional do CONAPRA.
Durante o congresso do Panamá, entrevistou Daniel E. MacElrevey.

Marcelo Cajaty is a Rio Grande pilot
and institutional counselor for CONAPRA.
During the Panama Congress he interviewed Daniel E. MacElrevey
19

história
history

Um dragão na luta pela liberdade
A dragon fighting for freedom
Há cem anos morria Chico da Matilde, o prático que
fechou o porto de Fortaleza ao comércio negreiro
Chico da Matilde, the pilot who closed the
port of Fortaleza to the slave trade, died
a hundred years ago

Defender o interesse público é e sempre foi o objetivo da praticagem. O
prático cearense Francisco José do
Nascimento, cujo centenário de morte
se comemora em 2014, entretanto, foi
além. Chico da Matilde, como também
era conhecido, utilizando-se das prerrogativas de sua profissão, lutou para
abolir uma das grandes aberrações da
sociedade brasileira: a escravidão.
O final do século 19 é fortemente marcado por debates relativos ao
abolicionismo. O Brasil sofre mudanças profundas, e a escravidão
passa a ser vista como sinônimo de atraso, um dos entraves para
o esperado desenvolvimento nacional. Em 1880 funda-se em
Fortaleza a Sociedade Cearense Libertadora, da qual Chico da
Matilde torna-se membro.

The purpose of
pilotage is forever to protect public
interest. But pilot Francisco José do Nascimento, born in Ceará
State, the centenary of whose death is commemorated in 2014,
went far beyond. Chico da Matilde, as he was also known, using
the prerogatives of his profession, fought to abolish one of the
major aberrations of Brazilian society: slavery.
The late 19th century is deeply marked by discussions on
abolitionism. Brazil undergoes radical changes and slavery is
regarded as synonymous with backwardness, one of the barriers
against long-awaited national development. In 1880, the Ceará
Society for Liberation (Sociedade Cearense Libertadora) of which
Chico da Matilde was a member was founded in Fortaleza.

Os práticos tiveram papel relevante na luta contra o comércio
negreiro no Ceará. Confrontando-se com um sistema arcaico e
desumano, negaram-se a prestar seu serviço para fins escravocratas, desestabilizando um sistema que privilegiava interesses
particulares em detrimento da coletividade: “No Ceará não se
embarcam escravos”, bradaram então.

Pilots in Ceará played a leading role in the struggle against the
slave trade. They confronted an archaic inhuman system by
refusing to provide their service for purposes of slavery, undermining
a system that favored private interests in detriment to the
collective: “In Ceará, slaves do not embark”, was the cry then.

Em janeiro de 1881, Chico da Matilde liderou o movimento que
ficou conhecido como a greve dos jangadeiros. Recusando-se a
embarcar negros cativos, fechou o porto de Fortaleza ao tráfico de
escravos. Seu gesto tornou-se emblema da causa abolicionista,
e o prático passou a ser símbolo de bravura e liberdade. “Não
há força bruta neste mundo que faça reabrir o porto ao tráfico
negreiro”, declarou na época.

In January 1881, Chico da Matilde led the movement that
became known as the raft-men’s strike. They refused to board
black slaves and closed the port of Fortaleza to the slave trade.
His gesture became an emblem of the abolitionist cause and
the pilot was now a symbol of bravery and freedom. “No brute
force in the world can make the port re-open to the slave trade”,
he stated at the time.

20

história
history

Em agosto do mesmo
ano, houve nova
tentativa de vender
escravos cearenses
para províncias do
sul, sobretudo Rio de
Janeiro e São Paulo,
que careciam de mão de
obra para a cultura do café.
Os práticos, a bordo de suas
jangadas, novamente frustraram a
operação impedindo o embarque dos cativos.
Após a segunda sublevação, o movimento abolicionista considerou
o porto do Ceará definitivamente fechado ao tráfico negreiro. Sem
condições de sustentar seus escravos, os fazendeiros do Ceará
foram pressionados a alforriá-los, o que acelerou o processo de
extinção da escravidão na província, efetivado em 1884. O fato
preconizou a assinatura da Lei Áurea, que só aconteceria quatro
anos depois, na capital do Império. Por conta de seu pioneirismo,
o intelectual e político José do Patrocínio batizou o Ceará de Terra
da Luz, como o estado é conhecido até hoje.
Prático foi fundamental na história abolicionista brasileira
Nascido em Aracati, em 1839, Francisco José era conhecido como
Chico da Matilde, nome de sua mãe. Filho e neto de pescadores,
perdeu o pai ainda criança e começou a trabalhar em tarefas
ligadas ao meio marítimo para ajudar a família. Nos registros a
seu respeito constam entre suas tarefas e funções a de garoto de
recados de navios e chefe de catraieiros. Posteriormente trabalhou
no porto de Fortaleza até virar marinheiro, quando teve a oportunidade de viajar. Com 20 anos, aprendeu a ler e escrever, o que era
privilégio na época.

In August that same year there was a fresh attempt to sell Ceará
slaves to Southern provinces, namely to Rio de Janeiro and São
Paulo, which had a shortage of labor for the coffee plantations. The
pilots aboard their sailing rafts again frustrated the operation by
preventing the captives from boarding.
After the second uprising, the abolitionist movement considered
the Ceará port finally closed to the slave trade. With no conditions
to provide for their slaves, the Ceará plantation owners were
forced to emancipate them, which accelerated the process of
extinguishing slavery in the province, completed in 1884. This
called for the signing of the Lei Áurea [Golden Law] four years later
in the empire’s capital. Because of its groundbreaking role,
politician and intellectual José do Patrocinio named Ceará the Land
of Light [Terra da Luz], as the State is known even today.
A pilot fundamental in Brazil’s abolitionist history
Francisco José, born in Aracati in 1839, was known as Chico da
Matilde, his mother’s name. Son and grandson of fishermen, he
was only a child when he lost his father and began to work in
marine-related tasks to help his family. In the records about him
some of his duties and jobs were as a ship’s messenger boy and
head of the boatmen. Later he went to work in Fortaleza port before
becoming a mariner, when he had the opportunity to travel. When
he was twenty years old he learned to read and write, which was
a privilege at that time.
He was appointed pilot in 1874 and given the position of harbor
pilot. Some time later his license was withdrawn due to his participation in the raft-men’s uprising. The winds of freedom however
did not abate. With the end of slavery decreed in Ceará in 1884, he
sailed on the ship Espírito Santo to Rio de Janeiro, where he was

Nomeado prático em 1874, conquistou o posto de prático-mor e,
mais tarde, teve sua licença cassada devido à participação na
rebelião dos jangadeiros. Os ventos da liberdade, entretanto, não
amainariam. Com o fim da escravidão decretado no Ceará em
1884, ele viajou no mesmo ano a bordo do navio Espírito Santo
para o Rio de Janeiro, onde recebeu inúmeras homenagens pela
bravura com que defendeu a causa abolicionista.
Trazendo consigo uma de suas jangadas, a de nome Liberdade,
participou de desfiles, concertos e quermesses. Aclamado nas
ruas, periódicos publicaram edições especiais sobre a libertação
dos escravos na província cearense, destacando-o como herói. O
escritor Aluízio de Azevedo deu-lhe a alcunha Dragão do Mar,
como passou a ser conhecido.
Em 1889 o imperador dom Pedro II ordena que lhe seja devolvida a
licença para exercer a praticagem, profissão que Chico da Matilde
desempenhou com maestria por fazer vir à tona o que caracteriza
o ofício: o interesse público.
21

história
history

Uma história que merece ser contada
O Conselho Nacional de Praticagem, junto a outras entidades, vem
promovendo desde o início de 2014 homenagens ao Dragão do
Mar, cuja morte completa 100 anos. Nos dias 22 e 23 de março
aconteceu em Fortaleza o seminário De Zumbi dos Palmares a
Dragão do Mar, um grande painel cujo objetivo foi celebrar o marco
histórico do dia 25 de março de 1884, quando o Ceará entrou para
os anais da história brasileira como a primeira província a extinguir
a escravidão. Na ocasião, representantes do CONAPRA falaram
sobre a importância da praticagem, ofício que ainda permanece
desconhecido.
Ivaldo Paixão, Falcão e/and Ivanir dos Santos

awarded numerous tributes for his bravery when he defended the
abolitionist cause.
He brought with him one of his sailing rafts, called Liberty, and took
part in parades, concerts and charity bazaars. Cheered in the
streets, journals published special editions on the emancipation of
the slaves in Ceará province, highlighting him as a hero. Writer
Aluízio de Azevedo nicknamed him the Sea Dragon, as he is still
known today.
In 1889, Emperor Dom Pedro II ordered his pilot’s license to be
reinstated, a profession that Chico da Matilde held skillfully to
bring to the fore what characterizes the trade: public interest.
A tale that deserves to be told

Ricardo Falcão em seminário na capital cearense
Ricardo Falcão at a seminar in the capital of Ceará State

Entre outros aspectos, o resgate da memória do Dragão do Mar
permite mostrar aos brasileiros a importância do trabalho do
prático, cujo serviço é frequentemente alvo de críticas sem
fundamento por conta do desconhecimento acerca da profissão.
“São os práticos que garantem a segurança e o fluxo comercial
marítimos no país”, enfatizou o CONAPRA.
No final do evento, Ricardo Falcão, prático e presidente do
Conselho Nacional de Praticagem, Ivaldo Paixão, titular da
Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para Promoção
da Igualdade Racial (Ceppir), e Ivanir dos Santos, líder religioso,
inauguraram placa em homenagem a Chico da Matilde ao lado da
estátua do herói, localizada no Centro Cultural Dragão do Mar,
em Fortaleza.
Ainda como parte das comemorações, Falcão fez discurso na
Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, quando lembrou aos
presentes que no século 19 o porto de Fortaleza era rudimentar.
22

Since the beginning of 2014, the Brazilian Maritime Pilots’
Association (CONAPRA), together with other agencies, has been
organizing tributes to the Sea Dragon, who died 100 years ago this
year. On March 22nd and 23rd Fortaleza hosted the seminar From
Zumbi dos Palmares to the Sea Dragon, a major panel designed to
celebrate the historic landmark on March 25th, 1884, when Ceará
went down in Brazilian history as the first province to abolish
slavery. On that occasion, CONAPRA representatives spoke about
the importance of pilotage, a profession as yet little known.
Among other aspects, retrieving the heritage of the Sea Dragon
helps Brazilians to be aware of the importance of a pilot’s work,
whose services are often target of unfounded criticism because of
lack of knowledge about the profession. CONAPRA stressed: “it is
the pilots who guarantee maritime safety and trade in the country”.
At the end of the event, Ricardo Falcão, pilot and president of the
Brazilian Pilotage Council, Ivaldo Paixão, Special Coordinator of
Public Policies for Promoting Race Equality (Ceppir), and Ivanir dos
Santos, religious leader, inaugurated a plaque in honor of Chico da
Matilde alongside the hero’s statue in the Sea Dragon Cultural
Center in Fortaleza.

história
history

Devido aos fortes ventos e correntes
marítimas, comandantes encontravam
dificuldade para atracar os navios no
porto. Assim, fundeavam as embarcações e pessoas e cargas eram
transportadas até a praia em
jangadas.
– Além de muito estimado
por seus colegas de trabalho, tratava-se de profissional respeitado pelos
donos de casas comerciais que precisavam do
seu serviço para o
transporte de mercadorias. Em relação à
causa abolicionista,
lutou de forma veemente a ponto de
oferecer sua residência
para abrigar escravos fugitivos – lembrou Falcão.
Destacou ainda que o princípio que
norteava o Dragão do Mar é o mesmo que
guia a praticagem nacional:
– O inimigo da sociedade brasileira à sua
época era representado por uma elite interessada na compra e venda de escravos. Hoje, um
dos grupos que ameaça o interesse de nossa
nação é a armação internacional, que, sem pudor
algum, mantém lobby no Congresso Nacional
pressionando-o por mudanças na legislação em
benefício próprio em detrimento do da sociedade.
Nada mais justo que nós, colegas de profissão de
Chico da Matilde, rendamos sincera homenagem
àquele que foi exemplo de profissional a serviço do bem
público. Àquele que, provido de elevado espírito cívico, usou seus
conhecimentos sobre ventos, marés, práticas de navegação e meio
ambiente na luta para transformar o Brasil em um país mais justo
– concluiu.

Also as part of the commemorations Falcão made a
speech at the Ceará State Legislative Assembly, when
he reminded those present that in the 19th century the
port of Fortaleza was rudimentary. Due to the strong
winds and ocean currents, captains found it difficult
to moor their ships in the port. So the vessels would
anchor offshore and passengers and cargo
would be carried ashore on sailing rafts.
– Not only was he greatly admired by his workmates but was also professionally respected by
the owners of commercial establishments that
needed his services to transport merchandise.
In relation to the abolitionist cause, he fought
so vehemently that he opened his own home to
shelter fugitive slaves – Falcão mentioned.
He also mentioned that the principle guiding the
Sea Dragon is the same upheld by Brazilian pilotage:
– The enemy of Brazilian society in his lifetime was
represented by an elite interested only in buying and
selling slaves. Today, international shipowning groups are
one of the threats to the interest of our nation, shamelessly
lobbying in the Brazilian Congress to pressure it to change the
legislation for their own benefit in detriment to that of society.
Nothing more just that we, professional colleagues of Chico
da Matilde, offer our sincere homage to a man who was a
professional benchmark working for the public good. To a man
who, endowed with strong public spirit, used his knowledge of
winds, tides, navigation practices and environment in the fight
to make Brazil a more just society – he concluded.
Brazilian National Congress salutes Chico da Matilde
Tributes to the Sea Dragon were not restricted to his native State.
In Brasilia, members of parliament and representatives of civil
society formally celebrated the legacy of Chico da Matilde. Ricardo

Congresso Nacional saúda
Chico da Matilde
As homenagens ao Dragão do Mar não se restringiram a seu
estado de origem. Em Brasília, parlamentares e representantes da
sociedade civil celebraram o legado de Chico da Matilde. Presente
à sessão solene de 18 de março, Ricardo Falcão fez discurso na
Câmara dos Deputados. Na ocasião destacou a dívida que o Brasil
tem com o Dragão do Mar por ter lançado mão de sua profissão
para extinguir um dos capítulos mais tristes de nossa história.

Falcão com o deputado estadual Lula Morais e o governador
do Ceará, Cid Gomes (ao centro)
Falcão with state representative Lula Morais and Cid Gomes,
governor of Ceará (center)

23

história
history

Falcão, at the ceremony on May 18th, spoke with emphasis on the
debt Brazil owes to the Sea Dragon for having given up his profession to abolish one of the saddest chapters in Brazilian history.
Falcão stressed that we must reflect on who we are and what our
national heroes have done, and he spoke of the importance of
including in school curricula the history of the Sea Dragon and
other such personalities.
– Just as Brazilian society needs to know about this great man, it
must know about his profession. Pilots have been working in Brazil
for over 200 years. This is work recognized by high safety indices,
excellence in service, high technical capacity and protecting
national interests – he said.
Raquel Marques (deputada estadual), Falcão, Alexandro Reis
(diretor da Fundação Palmares) e Lula Morais
Raquel Marques (state representative), Falcão, Alexandro Reis
(director of Palmares Foundation) and Lula Morais

Enfatizando que é necessário refletir sobre quem são e o que
fizeram os heróis nacionais, Falcão falou da importância de os
currículos escolares incluírem a história de personagens como o
Dragão do Mar.
– Assim como a sociedade brasileira precisa conhecer esse grande
homem, é preciso que se conheça a sua profissão. Os práticos
atuam no Brasil há mais de 200 anos. Trata-se de trabalho

He also explained that pilotage guarantees the safe passage of
ships to Brazilian seaports and river estuaries. According to the
club of ship insurance companies, the accident rate with pilots on
board in Brazil is only two-thousandths of a percent. This figure
places Brazilian pilotage on a par with the USA, despite the
Brazilian inferiority in terms or port infrastructure.
– Paraphrasing the Sea Dragon, we proclaim that no brute force
will make us abandon the public spirit that has always guided our
work – he concluded.
Also in Brasilia, the Culture Committee of the Chamber of Deputies

Parlamentares e representantes da sociedade civil na Assembleia Legislativa do Ceará, Fortaleza
Congressmen and representatives of civil society in the Legislative Assembly of Ceará, Fortaleza

24

história
history

Práticos participam de solenidade no Distrito Federal

reconhecido por elevados índices de segurança, excelência no
serviço, alta capacitação técnica e defesa dos interesses
nacionais – afirmou.
Explicou igualmente que a praticagem garante a condução
segura de navios aos portos marítimos e estuários de rios brasileiros.
Segundo o clube de seguradoras de navios, o índice de acidentes
com práticos a bordo no Brasil é de apenas dois milésimos
por cento. Essa medida põe a praticagem brasileira em situação
similar à dos Estados Unidos, apesar da inferioridade brasileira no
que diz respeito à infraestrutura portuária.

Pilots participate in a ceremony in Brasilia

unanimously approved in March a bill to register Francisco José do
Nascimento in the Book of Homeland Heroes, laid out in the
Pantheon of Freedom and Democracy in the Square of the Three
Powers in the country’s capital.
In Rio de Janeiro, CONAPRA participated in the inter-religious act in
commemoration of the seventh anniversary of the Committee

– Parafraseando o Dragão do Mar, proclamamos que não há força
bruta que nos faça abandonar o espírito público que sempre pautou
nosso trabalho – finalizou.

Ricardo Falcão com a deputada federal Benedita da Silva...
Ricardo Falcão with congresswoman Benedita da Silva...

...e discursando no plenário
... and speaking in the plenary

25

história
history

Práticos homenageiam o colega Chico da Matilde na Câmara dos Deputados, Brasília
Pilots pay tribute to their colleague Chico da Matilde in the House of Representatives, Brasilia

Também em Brasília, a Comissão de Cultura da Câmara Federal
aprovou em março, por unanimidade, projeto de lei que
prevê a inscrição de Francisco José do Nascimento no Livro dos
Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Liberdade e da
Democracia, localizado na Praça dos Três Poderes, na
capital federal.

Against Religious Intolerance (CCIR), when tribute was also paid to
the Sea Dragon. Religious representatives gathered in the Church of
Our Lady of the Rosary to discuss the importance of building a nation
in which all races and creeds effectively live in harmony and under
equal conditions. Pilots from all over Brazil attended the event and
were entertained by a display of young capoeira athletes.

No Rio de Janeiro, o CONAPRA participou do ato inter-religioso em
comemoração ao sétimo aniversário da Comissão para Combate à
Intolerância Religiosa (CCIR), quando também se homenageou o
Dragão do Mar. Representantes religiosos encontraram-se na
Igreja Nossa Senhora do Rosário para falar sobre a importância de
se construir uma nação na qual efetivamente todas as etnias e
religiões convivam harmonicamente e em igualdade de condições.
Práticos de todo o Brasil prestigiaram o evento, que contou com
apresentação de capoeiristas mirins.

On May 12th, Senator Eunício Oliveira called a special session to
commemorate the centenary of the pilot’s death. The ceremony was
held in Brasilia attended by the president of the Brazilian Maritime
Pilots’ Association, who paid tribute to Chico da Matilde in the
following words:

Conapra participa de ato inter-religioso no Rio de Janeiro

26

– Francisco José do Nascimento was a unique human being.
Unique because he chose the tough profession of pilot and, in a
heroic gesture, prevented slave shipments in 1881 in Ceará. His

Conapra participates in an inter-religious event in Rio de Janeiro

história
history

Em 12 de maio, o
senador Eunício Oliveira
convocou sessão especial para celebrar o centenário de morte do prático. A solenidade ocorreu
em Brasília com a presença do presidente do Conselho Nacional de Praticagem, que prestou homenagem a Chico da Matilde:
– Francisco José do Nascimento era um ser humano
raro. Raro porque escolheu a
difícil profissão de prático e, em
gesto heroico, impediu o
embarque de escravos em 1881
no Ceará. O gesto o faria passar à
história como aquele que antecipou em quatro anos a abolição
da escravatura no seu estado.
Amanhã, dia 13 de maio, a abolição da escravatura em nosso país
completará 126 anos. No Ceará, terra do Dragão do Mar, 130 anos.
Quando me refiro à difícil profissão dos práticos, eu e meus
companheiros aqui presentes, que vieram de vários estados do
Brasil, sabemos do que estamos falando. Se hoje dispomos de
modernas lanchas e, eventualmente, aviões para cumprir nossa
tarefa de atracar e desatracar navios, há cem anos, esse trabalho
era feito em jangadas, sem equipamentos modernos, à mercê das
incertezas dos ventos e marés – disse Falcão no Senado Federal.

gesture made him go down in history as someone who
brought forward the abolition of slavery in his State four
years earlier than it occurred in the rest of Brazil. On May
13th, abolition of slavery completed 126 years in Brazil.
But in Ceará, land of the Sea Dragon, it occurred 130
years ago.
– When I say that pilots have a tough profession, my
colleagues and myself coming here from different
Brazilian States know all too well what it is like. If
today we have the use of modern motorboats and, at
times even aircraft to help us do our job of mooring
and unmooring ships, a hundred years ago this
work was done on sailing rafts, with no modern
equipment, at the mercy of the whims of the wind
and tides – said Falcão in the Federal Senate.

Camarinha, Schenk, Falcão, Ralf e/and Jean, RIO DE JANEIRO

No Senado Federal, práticos, parlamentares e líderes de movimentos sociais celebram o legado do Dragão do Mar
In the Brazilian Senate, pilots, congressmen and leaders of social movements celebrate the legacy of the Sea Dragon

27

cooperação
cooperation

Praticagem brasileira assina acordo
com armadores internacionais
Brazilian pilotage signs agreement with international ship-owners

Carlos Juan Madinabeitia
(presidente do painel latinoamericano da International Tank
Owners), Otavio Fragoso, Graham
Westgarth (presidente da
Intertanko) e Ricardo Falcão
Carlos Juan Madinabeitia
(president of the Latin American
panel of International Tank
Owners) Otavio Fragoso, Graham
Westgarth (Intertanko CEO)
and Ricardo Falcão

Um acordo de cooperação internacional para garantir a transparência, segurança e eficiência nos portos no que diz respeito às operações de atracar e desatracar navios foi assinado pelo Conselho
Nacional de Praticagem (CONAPRA) e a Federação Nacional de
Práticos (Fenapráticos) com armadores internacionais. Apesar de o
serviço de praticagem brasileiro ser um dos mais eficientes do
mundo, com um percentual de apenas dois milésimos por cento
em número de acidentes, o acordo internacional legitima a praticagem brasileira e pode contribuir para o fortalecimento do setor,
segundo o prático Ricardo Falcão, presidente do CONAPRA.

An international cooperation agreement to guarantee
transparency, safety and efficiency in ports with regard to
mooring and unmooring ships was signed by the Brazilian
Maritime Pilots' Association (CONAPRA) and National Federation
of Pilots (Fenapráticos) with international ship-owners. Although
the Brazilian pilotage service is one of the most efficient in
the world, with only a two-thousandths of a percent accident
rate, the international agreement legitimates it and can
contribute to reinforcing the sector, according to pilot Ricardo
Falcão, president of CONAPRA.

As duas entidades representativas dos práticos brasileiros e
a Associação Internacional de Armadores Independentes de
Petroleiros (Intertanko) assinaram o documento em 9 de maio,
em Nova York. De acordo com Falcão, embora um pequeno grupo
de armadores tente reduzir a importância do trabalho da
praticagem no Brasil, a magnitude do acordo firmado revela a
importância do serviço e o respeito de que gozam os práticos
brasileiros em escala internacional.

The two institutions representing Brazilian pilots and the
International Association of Independent Tanker Owners
(Intertanko) signed the document on May 9th in New York.
Falcão says that, although a small group of ship-owners tries to
belittle the importance of pilotage work in Brazil, the extent of
the signed agreement shows how important the service is and the
respect that Brazilian pilots enjoy worldwide.

Os signatários assumiram compromissos mútuos relativos a meio
ambiente no transporte de óleo, gás e produtos químicos, além de
compartilhar e uniformizar informações nas áreas de operação
marítima e técnicas de interesses comuns.
– O ponto-chave do acordo é promover a segurança marítima e de
navegação nas zonas de praticagem, protegendo a vida e a propriedade, prevenindo danos ambientais e de bens vitais para a economia das nações. Já realizamos com êxito esse trabalho, e o acordo
veio reforçá-lo – disse Ricardo Falcão.
28

The signatories made mutual environmental commitments regarding
shipments of oil, gas and chemicals, as well as sharing and
standardizing information in the technical areas and maritime
operations of common interest.
– The key point of the agreement is to further offshore
and navigation safety in the pilotage zones, protecting life and
property, preventing damage to the environment and business
assets for the economy of the nations. We’ve already been
successful in this work and the agreement reinforces it – said
Ricardo Falcão.

treinamento
training

ATPR no Ciaba
ATPR in Ciaba

Pela primeira vez curso foi
ministrado em outro estado
The first time the course
was given in another State
Ciaba

A realização do Curso de Atualização para Práticos – ATPR para
uma turma no Norte do país beneficiaria um percentual significativo dos práticos em atividade nas Zonas de Praticagem 01 a 04 e
constituía anseio antigo daqueles práticos; não fora, porém, implementada em razão de não existirem as condições tecnológicas
requeridas pelo curso e oferecidas no Rio de Janeiro, no Ciaga.

Holding the Pilot Refresher Course (ATPR) for a group in North
Brazil would benefit a significant percentage of the pilots working
in Pilotage Zones 01 to 04 and which is also a longstanding desire
of those pilots. This had not yet, however, been put in place
because of lack of technological conditions required for the course
and offered in Rio de Janeiro in Ciaga.

Com a inauguração em 2013 do Centro de Simuladores do Centro
de Instrução Almirante Braz de Aguiar – Ciaba, o CONAPRA vislumbrou a possibilidade de nele realizar o curso, o que, tendo a DPC o
incluído no Programa de Ensino Profissional Marítimo de 2014 –
Prepom/2014, se tornou realidade no mês de abril passado.

When the Simulator Center was inaugurated in 2013 in the Admiral
Braz de Aguiar Instruction Center (Centro de Instrução Almirante
Braz de Aguiar – Ciaba), CONAPRA saw the possibility of holding
the course there. It became reality last April when DPC included it
in the 2014 Maritime Professional Learning Program (Prepom/2014).

SALA ECDIS

ECDIS ROOM

29

treinamento
training

Em fevereiro, durante visita precursora da coordenação do curso ao Ciaba, que contou com a participação dos professores Edson Mesquita e Marco
Aurélio Faial e do chefe do Departamento de
Simuladores do Ciaga, Evandro Alves Santos, foram
realizados a configuração de exercícios de situações
de emergência e os ajustes de procedimentos técnicos
e administrativos necessários com a participação e
colaboração de analistas, servidores civis e militares, e
pessoal de apoio do Centro de Simuladores do Ciaba.
Por ocasião da efetiva realização do curso, entre 7 e 11
de abril, houve a necessidade de mover a estrutura de
coordenação e de palestrantes para Belém, o que representou custo significativamente mais alto em comparação ao
custo da realização do curso no Rio de Janeiro, como tem
sido feito desde 2005.
O resultado demonstrou que valeu a pena levar adiante essa iniciativa. Entre os palestrantes, o único representante local foi o
instrutor do Ciaba, primeiro oficial de náutica João Paulo
Purificação Alves, que ministrou palestra sobre ECDIS de forma
brilhante, tendo sido bastante elogiado pelos práticos alunos. Da
mesma forma, a atuação do pessoal do Ciaba responsável pelo
controle de exercícios foi fundamental para o desenvolvimento do
aprendizado da turma.
O curso contou ainda com a participação do diretor técnico do
CONAPRA, prático Carlos Alberto de Souza Filho, que ministrou
palestra com o tema “A atual situação da praticagem brasileira e
as ações do CONAPRA”, suscitando intenso e profícuo debate
com os alunos.
A turma, que foi conduzida pelo prático instrutor Armando
Menezes, incluiu dez práticos alunos integrantes das Zonas de
Praticagem 01, 02 e 03, sendo, certamente a que, até hoje, reuniu
práticos com mais tempo de experiência na profissão.

Práticos com oficiais do Ciaba
Pilots with Ciaba officers

In February, during a preliminary visit of the course coordinators to
Ciaba, which was attended by professors Edson Mesquita and
Marco Aurelio Faial, and Evandro Alves Santos head of the Ciaga
Simulator Department, exercises of emergency situations were
drawn up and necessary adjustments made to technical and
administrative procedures with the participation and collaboration
of analysts, civil servants and the military, as well as support
personnel of the Ciaba Simulator Center.
On occasion of the actual course between April 7 and 11, it was
necessary to move the structure of coordination and speakers to
Belem, which was significantly more costly than holding the course
in Rio de Janeiro, as had been done since 2005.

nascimento com pessoal do simulador do ciaba e professores do ciaga
Nascimento with CIABA simulator personnel and CIAGA instructors

30

The outcome showed that it was worth the effort to push forward
this project. The only local representative among the speakers was
the instructor from Ciaba, First Officer João Paulo Purificação
Alves, who gave a brilliant talk on ECDIS, and was warmly praised
by the student pilots. Similarly, the role of the Ciaba personnel

treinamento
training

responsible for controlling exercises was essential for advancing
the group’s learning.
The course also had the participation of pilot Carlos Alberto de
Souza Filho, technical director of CONAPRA, who gave a talk on
“The current status of Brazilian pilotage and the work of CONAPRA”,
raising intense and fruitful discussion with the students.

grupo durante exercício

group during exercise

The class, which was conducted by instructor pilot Armando
Menezes, included ten student pilots from the Pilotage Zones 01,
02 and 03, and there is no doubt that to date it brought together
pilots with longer experience in the profession.

praticagem pilotage
prático pilot tempo de praticagem (anos)
time working as a pilot (years)
NORTE PILOTS NORTH PILOTS RUPPERO URUBATAN OLIVEIRA COSTA 65
NORTE PILOTS NORTH PILOTS ATAUALPA NEVES DIAS 56
NORTE PILOTS NORTH PILOTS

ALVARO ANTONIO MERCES DE CARVALHO

54

NORTE PILOTS NORTH PILOTS JOÃO ERIDIAS DOS SANTOS 53
NORTE PILOTS NORTH PILOTS LEÔNIDAS CRAVEIRO DA SILVA 46
BARRA DO PARÁ BARRA DO PARÁ MIGUEL DE JESUS SALGADO 39
BACIA AMAZÔNICA E BARRA NORTE
AMAZON BASIN & NORTH BARRA

FRANCISCO DE ASSIS COSTA NEGRÃO

21

BARRA DO PARÁ BARRA DO PARÁ JOÃO CARLOS DIAS GRIMOUTH 16
MANAUS PILOTS MANAUS PILOTS

CARLOS JOSÉ DA SILVA TAVARES

15

BARRA DO PARÁ BARRA DO PARÁ

ALEX LUIZ GARCIA SAPUCAIA

4

PRÁTICO INSTRUTOR PILOT INSTRUCTOR

ARMANDO MENEZES DA CONCEIÇÃO FILHO

28

turma no auditório

class in the auditorium

31

salvamento
rescue

Lancha de praticagem resgatou
náufraga no Rio
Em três de março, por volta das 6h15, uma mensagem incomun no
canal 16 chamou a atenção do prático Luiz Antonio Silva. A bordo
do navio-tanque Guaporé, que se encontrava fundeado na Baía de
Guanabara, Rio de Janeiro, ouviu pelo rádio a notícia de que um
veículo caíra no mar na altura do vão central da Ponte Rio-Niterói.
O prático, com a anuência do comandante, liberou um dos
rebocadores do navio para a busca e solicitou que uma lancha de
praticagem, embarcação mais veloz, fosse direcionada para a
missão. Igualmente, via atalaia, foi enviado pedido de apoio
à Capitania dos Portos do Rio de Janeiro.
Com uma preocupação a mais – evitar colisão com o automóvel ou
com as vítimas –, o prático conduzia o Guaporé para fora da baía
quando, pouco antes de atravessar o trecho sob a ponte, recebeu
mensagem da lancha Pilot 03 na qual o mestre informava ter
avistado uma mulher boiando, ao sul da ponte, na altura da Ilha das
Enxadas, local afastado do vão central. Comunicava ainda que a
motorista arremessada estava consciente, apresentava bons
sinais vitais e não tinha lesões graves externas, apenas
escoriações nas costas. A própria vítima disse que estava sozinha
no veículo e que viu o carro afundando. No passadiço, a notícia
aliviou prático e tripulantes.
Segundo Luiz Antonio, a tripulação da lancha agiu de forma safa.
Olharam para cima e avistaram pessoas, na ponte, olhando para
baixo, indicando aproximadamente a posição da queda. Além dos
primeiros socorros terem sido prestados corretamente, os tripulantes saíram-se muito bem no salvamento pelo acesso ao convés.
O mestre do rebocador também foi fundamental no resgate,
oferecendo a tranquilidade necessária na área em que a tripulação
da Pilot 03 efetuou o salvamento.

Pilot’s motorboat
rescued woman in
the waters of Rio’s
Guanabara Bay
On March 3rd, around 6:15 a.m., an unusual message on Channel
16 called the attention of pilot Luiz Antonio Silva. He was on board
the tanker Guaporé, which was anchored in Guanabara Bay, Rio de
Janeiro, when he heard on the radio the news that a vehicle had
fallen into the sea from the central span of the Rio-Niterói Bridge.
The pilot, with the captain’s consent, released one of the ship’s
tugs for the search and asked a pilot motorboat, a faster vessel, to
go straight there. He also, from the lookout point, sent a call for
help to the Rio de Janeiro Harbormaster.
With a further concern – to prevent a collision with the car or
victims -, the pilot was sailing the Guaporé out of the bay when,
shortly before crossing the stretch under the bridge, he received
a message from the Pilot boat 03 master who said he had seen a

As lanchas do Corpo de Bombeiros chegaram rapidamente, e já
havia uma ambulância em terra pronta para conduzir a vítima ao
hospital, onde foi prontamente atendida. A segurança da navegação ficou a cargo da embarcação da Capitania dos Portos, que
chegou logo em seguida.
Segundo relatos e análises de especialistas, o carro vinha de
Niterói, capotou algumas vezes, passou para a pista de sentido
oposto e caiu de cerca de 50 metros de altura, de forma que houve
tempo para a abertura da porta e saída da vítima, antes de seu
afundamento. A motorista ainda tentou nadar em direção à
pilastra da ponte para se apoiar.
32

vítima é atendida pelo Corpo de Bombeiros
Fire Department attends victim

salvamento
rescue

Desse acidente, o prático Luiz Antonio destaca lições aprendidas:
acreditar que coincidências felizes acontecem (os homens do mar
realmente devem dar valor a isso), certificar-se de que o passadiço
guarnece efetivamente o canal 16 e o canal de praticagem durante
as manobras, buscar sempre fluxo de informações rápidas e
precisas, manter treinamento em primeiro socorros e aprimorar
a situation awareness.

woman floating to the south of the bridge near Enxadas Island,
quite far from the central span. He also informed that the driver
thrown from the car was alive and conscious and had no serious
external injury, only some bruising on her back. The victim said she
was alone in the car and saw the car sinking. On the gangway, the
pilot and crew were relieved to hear the news.

Considerando que a causa de incidentes e acidentes é normalmente uma cadeia de falhas e erros que convergem para uma
situação ruim e indesejável, no caso do salvamento, é justamente
uma sequência positiva de acontecimentos e acertos que fará com
que haja êxito na salvaguarda da vida humana.

Luiz Antonio Silva said that the motorboat crewmembers acted
swiftly. They looked up and saw people on the bridge looking
down, indicating the approximate place where the car had fallen.
They not only gave the correct first aid, but also coped very well in
the rescue by access to the deck. The tug master was fundamental
in the rescue, offering the necessary calm in the area where the
Pilot 03 crew undertook the rescue.

Nesse caso, pode-se enumerar: a transmissão da mensagem no
VHF por alguém, o recebimento e processamento dessa
mensagem, o rápido deslocamento de lancha e rebocador para o
local correto, a competência e agilidade das tripulações, as
comunicações eficazes, a atuação do Corpo de Bombeiros, da
CPRJ, da ambulância e do hospital, além da exemplar vontade
da jovem de se manter viva.

The Fire Department motorboats were quick to arrive and
soon there was an ambulance onshore ready to take the
victim to hospital, where she was immediately treated. The
navigation safety was the task of the Harbormaster’s vessel,
arriving soon after.

Luiz Felipe de Oliveira

Em um momento histórico, em que são registradas tantas reivindicações de melhoria nos serviços de atendimento ao cidadão, o
prático ressalta que o salvamento da náufraga exemplifica aquilo
que todos desejam: que, na ocorrência de falhas ou erros, haja
representantes da esfera governamental ou do setor privado
prontos para atuar e evitar mal maior.

According to specialist reports and analyses, the car was coming
from the Niterói direction, overturned several times, crossed over
to the opposite lane and dropped about 50 meters, so there was
time for the victim to open her door and get out before it sank. The
driver even tried to swim toward the pillar of the bridge for support.
From this accident, pilot Luiz Antonio points to the lessons learned:
to believe in lucky coincidences (seafarers must really give value to
this), to ensure that the bridge does actually receive channel 16
and the pilotage channel during maneuvers, to always seek a
flow of fast accurate information, maintain first aid training and
enhance situation awareness.
Considering that the cause of incidents and accidents is normally a
chain of failures and mistakes converging on an undesirable bad
situation, in the case of the rescue it is precisely a positive
sequence of events and right decisions that successfully saved
a human life.

RESGATE POR tripulantes da lancha Pilot 03
rescue by the crew from the Pilot 03 motorboat

lanchas de praticagem próximas à Ponte Rio-Niterói
pilot motorboats close to the Rio-Niterói Bridge

In this case, the order was as follows: someone sends the
message in VHF, the message is received and processed;
the speedy move by motorboat and tug to the right place, the skill
and agility of the crew, efficient communications, the role of the
Fire Department, the Rio de Janeiro Harbormaster, ambulance and
hospital, as well as the young woman’s determination to stay alive.
At a historical moment, when so many complaints are made asking
for improvement of citizen emergency services, the pilot stresses
that saving the woman in the water is an example of everyone’s
wishes: that, in event of failures or errors, representatives of the
government sphere or private sector are ready to act and prevent a
worse tragedy.
33

inclusão social
social inclusion

Navio promove ambiente no qual se
aprende a conviver com a diferença

Atracado entre 7 e 12 de maio, na
Marina da Glória do Rio de Janeiro, o
veleiro Lord Nelson chamou a
atenção dos usuários do local por
sua imponente arquitetura clássica
e, principalmente, pela tripulação
cosmopolita. Homens e mulheres
de idades variadas, provenientes da
Alemanha, Argentina, Dinamarca,
Inglaterra, Irlanda, dos Estados Unidos,
Portugal e Uruguai, trabalhavam e se divertiam
em ambiente de cooperação.
O mais incrível de tudo, porém, consiste na proposta do navio. O
Lord Nelson é um tall ship (tipo caravela) totalmente equipado e
adaptado para abrigar tripulantes com deficiências físicas. Não se
trata de um navio-escola: o objetivo ultrapassa os ensinamentos
náuticos. O mote é promover a convivência diária entre deficientes
e não deficientes, o que gera desenvolvimento pessoal através da
percepção das diferenças e valorização do que se é capaz de fazer.
Este é, aliás, um dos grandes diferenciais do projeto: realçar a
possibilidade de contribuição de cada um, e não a incapacidade
de realizar determinadas tarefas.

A ship that creates an environment for
learning to live with the handicapped

O camarim de navegação

The chartroom
photos: courtesy of Jubilee Sailing Trust

Lord Nelson

Em 12 de outubro de 2012, o navio deixou a Inglaterra sob o
comando de Chris Phillips, ex-militar inglês. Desde então passaram
pelo Brasil (duas vezes), África do Sul, Índia, Sri Lanka, Singapura,
Malásia, Indonésia, Austrália, Nova Zelândia, Argentina, Antártida,
Uruguai e Canadá. A viagem deve terminar em setembro, com o
retorno a Southampton, na Grã-Bretanha.

O veleiro Lord Nelson atracado na Marina da Glória
The Lord Nelson at her berth in the Marina da Gloria

34

Um membro da tripulação subindo no cordame do navio
A voyage crew member climbing the rigging

inclusão social
social inclusion

Jubilee Sailing Trust
O Lord Nelson foi projetado especialmente para permitir que
deficientes físicos participem como tripulantes de viagens em
embarcações a vela. Não é preciso ter experiência náutica prévia
para participar das expedições. O time compõe-se de oito tripulantes profissionais – encarregados da navegação –, quatro ou
cinco voluntários e 38 tripulantes pagantes. Nesse montante há 19
lugares para deficientes, dos quais oito podem ser cadeirantes.
Em 1977, por ocasião do jubileu de prata do reinado de Elizabeth II,
criou-se na Inglaterra um fundo de caridade que permitiu a
fundação da organização não governamental Jubilee Sailing Trust
(JST). Assim, o sonho de seus idealizadores começou a ganhar
força com a injeção de recursos. O Lord Nelson, por exemplo, ficou
pronto em 1986 e, desde então, vem permitindo que deficientes
mostrem que em um ambiente preparado para recebê-los são
seres capazes.
Num mundo ideal, talvez não houvesse necessidade da JST e de
seus navios: o Lord Nelson e seu irmão mais novo, o Tenacious.

Conveses largos e nivelados para facilitar a circulação
Wide and flush decks to allow easy circulation

A placa de identificação do navio
The ship’s name board

The sailing ship Lord Nelson, moored from May 7 to May 12, in
the Marina of Gloria, Rio de Janeiro, attracted the attention
of the locals because of its impressive classic architecture and
especially its cosmopolitan crew. Men and women of all ages from
Argentina, Denmark, England, Germany, Ireland, Portugal, Uruguay
and the USA worked together and enjoyed themselves in an
atmosphere of cooperation.
The most intriguing thing of all, however, is the idea of the ship.
Lord Nelson is a tall ship, fully equipped and adapted for
physically handicapped crewmembers. This is not a naval trainingvessel: the objective goes beyond naval training. The motto is to
encourage the handicapped and non-handicapped living together
each day, which creates personal development through the
perception of differences and appreciation of what can be done.
This is, in fact, one of the cutting edges of the project: to
highlight each person’s ability to contribute and not the inability
to do certain tasks.

cabos de controle das velas alinhados logicamente e com fácil acesso
Sail control lines all logically and accessibly laid-out

On October 12, 2012, the ship left England under the command of
Englishman Chris Phillips, formerly a military officer in the Royal
Navy. The voyage includes visiting Brazil (twice), South Africa,
35

inclusão social
social inclusion

India, Sri Lanka, Singapore, Malaysia, Indonesia, Australia, New
Zealand, Argentina, Antarctica, Uruguay and Canada. It is due
to end in September 2014, when the Lord Nelson returns to
Southampton, UK.
Jubilee Sailing Trust
The Lord Nelson was designed and built for physically disabled
crewmembers on sailing vessel voyages. It is not necessary to have
previous sailing experience to participate. The team consists
of eight professional crewmembers in charge of navigation, four or
five volunteers and 38 paying crewmembers. Of this total, 19
places are allocated to the handicapped, eight of whom can be
wheelchair users.

Conviver harmonicamente com as diferenças é, entretanto, um dos
maiores desafios do ser humano. Cultivamos ideias preconcebidas
sobre pessoas especiais, como os deficientes físicos, sem jamais
ter convivido com eles. E os deficientes, por sua vez, fazem o
mesmo a fim de se proteger. Ação e reação, por assim dizer.
A nobreza da JST está justamente em promover esse tipo de
encontro em viagens em barcos a vela, em que todos têm como
missão contribuir para a navegação, fazendo o que sabem e aprendendo o que podem aprender. Como disse o comandante Phillips,
“uma viagem no Lord Nelson torna o indivíduo uma pessoa melhor,
porque o ajuda a superar preconceitos e ideias distorcidas a respeito do outro”. O lema da JST – changing lives (mudando vidas)
– parece bastante adequado.

Uma das escadas principais com elevador de cadeira-de-roda
One of the main stairways with a wheelchair stairlift

36

In 1977, the year of the Queen Elizabeth II Silver Jubilee, a charity
fund was set up in England to help found the non-governmental
organization Jubilee Sailing Trust (JST). So, with the injection of
funds, the dream of its creators gained impetus. The Lord Nelson,
for example, was completed in 1986 and since then has been
helping the disabled to prove that they are capable in an
environment ready to receive them.
In an ideal world, perhaps there is no need for the JST and its
ships: the Lord Nelson and its younger sister, the Tenacious. To live

O passadiço, com a cadeira ajustável do timoneiro, agulha com conexão
de áudio, e pontos de fixação de cadeiras de rodas
The Bridge, with adjustable helmsman’s chair, audio compass and
wheelchair securing points

inclusão social
social inclusion

harmoniously with the differences is, however, one of the
human being’s greatest challenges. We cultivate preconceived
notions about special people, such as, for example, the
physically handicapped, without ever having lived with them.
And the handicapped, in turn, do the same in self-defense –
action and reaction, so to speak.
The value of JST is precisely to encourage this type of encounter
on sail-ship voyages, when everyone has a mission to contribute to
the navigation, doing what they know and learning what they can
learn. As Captain Phillips said: “a voyage on the Lord Nelson makes
the individual a better person, because it helps him or her to
overcome prejudice and distorted ideas about the other”. The JST
motto – changing lives– seems very apt.

O navio tem capacidade para 50 pessoas,
com tripulação permanente de oito membros
The ship can carry 50 people, with a permanent crew of 8

Comandante Chris Phillips com a marinheira
voluntária Caterina Mesquita
Captain Chris Phillips with volunteer deckhand Caterina Mesquita

Manobra do navio é facilitada por sistema de assistência hidráulica
Steering is made easy with hydraulic assistance

Pontos de fixação de cadeiras de rodas

Wheelchair securing points

Aparentemente um emaranhado de cabos, mas tudo em seu lugar
Seemingly a maze of rigging, but everything has its place

37

Rita Martins

Falecimento
Death
A empresária Clarice da Silva Schein, mulher do prático Carlos Jesus Schein, morreu em acidente de
automóvel, em 21 de março. O casal voltava de Jaguarão, no Rio Grande do Sul, quando seu carro,
desgovernado, caiu em um rio. O prático nada sofreu. Clarice e Schein eram casados há quase 40 anos
e tiveram quatro filhos.
Businesswomen Clarice da Silva Schein, wife of pilot Carlos Jesus Schein, died in a car crash on March
21, 2014. The couple was returning from Jaguarão, Rio Grande do Sul state, when their car went out
of control and fell into a river. Schein was unhurt. Clarice and Schein had been married for almost
40 years and have four children.

Encontro sobre restrições nos canais brasileiros
Meeting on restrictions in Brazilian approach channels
A nova recomendação da Pianc para projetos portuários e seu impacto na realidade brasileira serão debatidos em seminário nos dias 14 e
15 de agosto, no auditório do prédio da administração da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), parceria do CONAPRA com
o TPC-USP. Os painéis mostrarão análises e sugestões das praticagens para otimização operacional em suas regiões, segundo as normas
técnicas existentes. Mais informações sobre o evento e as apresentações em conapra@conapra.org.br.
The new recommendations by Pianc (The World Association for Waterborne Transport Infrastructure) for harbor designs and their impact
on Brazilian reality will be discussed in a seminar on August 14 and 15 in the auditorium of the Polytechnic administration building of
São Paulo University (USP), a partner of CONAPRA with TPC-USP. The panels will address analyses and suggestions of pilotage to
optimize operations in their regions, in line with the existing technical regulations. Further information about the event and presentations in
conapra@conapra.org.br.

Errata
Errata
Diferente do que foi publicado na edição n. 39, página 38, Carla Frisso é o nome correto da prática capixaba que compõe o efetivo da
Bacia Amazônica Práticos.
Contrary to what was published in edition no. 39 on page 38, Carla Frisso is the correct name of the pilot from Espírito Santo, who is
an employee of the Amazon Basin Pilots.

38

Tr i bun al M arí ti m o

80 anos

Criado em 1934, este ano o Tribunal Marítimo completa 80 anos de atividades. Regido pela Lei nº 2.180/54,
é um órgão autônomo, auxiliar do Poder Judiciário, com jurisdição em todo o território nacional, vinculado à
Marinha do Brasil e com sede na cidade do Rio de Janeiro.
Tem como atribuições julgar os acidentes e fatos da navegação marítima, fluvial e lacustre, além de manter o
registro da propriedade marítima. Sua competência deriva, também, de compromissos internacionais do Brasil, na
qualidade de parte contratante de Convenções, Códigos e regulamentos na área marítima no que tange à segurança
da navegação, à salvaguarda da vida humana e prevenção de poluição no meio hídrico por embarcações.
Durante seus 80 anos de existência, a busca incessante do verdadeiro senso de justiça permite que suas decisões
tenham plena validade jurídica, que asseguram ao Tribunal Marítimo o reconhecido respeito das comunidades
marítima e jurídica do país, contribuindo para a segurança da navegação e para a sociedade brasileira.

M A RI TI M E CO U RT

80 years

This year is the 80th anniversary of the
Maritime Court, founded in 1934. It is an
independent body under Law no. 2,180/54,
and auxiliary to the Judiciary, with nationwide
jurisdiction, linked to the Brazilian Navy and
based in the city of Rio de Janeiro.
Its role is to judge accidents and facts of sea,
river and coastal navigation, and also keep
ownership registration. Its jurisdiction also
stems from Brazil’s international commitments
as a contracting party of maritime conventions,
codes and regulations with regard to shipping
safety, safeguarding human life and preventing
water pollution by vessels.
During its 80 years, its ceaseless search for
the true sense of justice permits its
decisions to be legally enforceable, assuring
the Maritime Court the widespread respect of
the seagoing and legal communities in the
country, contributing to shipping safety and
Brazilian society.

Em Pilotos da Barra de Viana do
Castelo. 100 Anos de História
(1858-1958), Manuel de Oliveira
Martins oferece-nos um fresco da
vida desses homens da barra
vianense, resgatando uma memória
sócio-profissional que, no contexto
da produção regional, ainda não
tinha merecido atenção.
Esse é um dos seus méritos: inscrever
estas memórias na memória da cidade, promovendo
a identidade e o reconhecimento social que lhes é devido. (...)
Não sendo um trabalho de cariz científico, embora nele se respeitem muitas das suas regras de escrita,
traz-nos uma interessante e interpelante recolecção de recordações profissionais e sociais, que cruza
com a memória pessoal. Mais do que um discurso historiográfico, recorrendo à racionalidade explicativa
ou compreensiva, o leitor é confrontado com a verosimilhança do evocado e do evocador.
Do prefácio

José Carlos Loureiro
Pilotos da Barra de Viana do Castelo, 100 anos de história (1858/1958) [Pilots of Barra de Viana do
Castelo, 100 years of history] was written by the Portuguese pilot Manuel de Oliveira Martins.
The book offers an interesting set of professional and social recollections intermingled
with the author's own memories.

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