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S&S SEM TOMAR © PODER Jon Horrowss ; VIRAMUNDO | Foci. Nw Dublin, na trlanda, John Holloway tor owae doutor em cléncias Polticas pela Univer, dade de Eaimburgo, Esoécie - onde lecionou de 1972 {119918 -, tondo-e diplomado ainda em ANOS Estudos polo College d Europe. Sua prencuparso SerP*™ este: viveentrada no estabelecimento dos vinoulos OHSI°h os ontre 0 Estado ea opressso.do capital culminando tpaporcepgao de que todo Estado constitu Un forma. ‘do poder que ndo pode negara st mesmo, incluindo-se vrassa categoria os Estados revolucionatios. Transferide em 31993 para a universidade de Puebla, wha Miéxleo, Holloway entra em contato com 2 EXP bnela zapatista e vislumbra nela urn rao ide possibill ‘dade de ver rompida a gaicla global do poder imperial do capital Neate tur, eujo proprio etulo estimula 2 POETICS: quando ni a descontianca, 0 autor f27 & critica do. hemnado *maritemo clentiio” (elvezomesmo ¥ Kurz denominou de marxismo do movinnonto opera tho) Nesta sua obra revisionista, omelnor sentido do: soln Holloway chegaa fembrar autores come itado no tivo), que, diante da “erlse Go \entabulou uma erica odoxla, a qual enfatizava a cisao rascal com & mi do capital e do poder. Vrtnoway aeeitaeraclcaliza a formutagao do FetcSt dns rotagées humans sob o dominio do Estado do teaptal proposto por Mars, mas busca amp'o respaldo aor adomo e om sua nevrsuica negative. COM? procura mostrar que toda e qualauer instituigdo repre vresta uma forma alieneda do relagao social © UTE wy do poder, Anica saida possivel comune Si vymente fetichizado e submetido. varias or7nas amos, é ir para aém do tatado te todo poder, inctuide, 6 certo, aquele ode ns relagbes de produgio ty J <* MUDAR © MUNDO SCM O poder O SIGNIFICADO DA REVOLUCAO HOJE Joun Hottoway Tradugio de EMIR SApeR VIRAMUNDO. Copyright » John Holloway, 2002 copyright desta edigio Baltora Viamundo, 2003 ‘ule oviginal : 1 without Taking Power: the Meaning of Revolution Today Senge the Wor pees ‘Londies, Pluto Press Troduedo fr Sader Preparacdo surtey Gomes Revisdo ‘sine Cristina det Nero sis tral sti ra sobre fotos de Raul Ortega (tent) Omar Menezes (vers) Diagramagdo Set-up Time Artes Graficas Coordenagdo editorial van. inkings ‘ana Fala Castellani Ceordenagdo de producto file Aves de Olvera Fotaltos ‘OES Impressoeacabamento mores Nadde SOM 85-87767-11-9 cu com 0 aot a Universidade Asthnoma de Poa, Meio faa dite canton om Son 3 Eta Wramunde (oo a Bltmpo Pitoci Todos os Chuma paste deste Lio pode ser ulzada ou reproduaida a expen eto da eft. 1+ edigdo: novembro de 2003 DITORA VIRAMURDO inkngs EdtotesAssoiads Led, shun Eudes de Andiade, 27 Pedzes '05030.030, Sie Paulo. SP effi (11) 3875-7285 / 3872-0869 ‘eimai: vramundo@boltempo.om sites meboitempo.com SUMARIO. Proftcio i digo brasileira 1. Ogrito Mais além do Estado? Mais além do poder? Fetichismo: 0 dilema trigico Fetichismo e fetichizagio Antifetichismo e erftica Atradigao do marxismo cientifico © sujeito eritico-revolucionsrio 9. Arealidade material do antipoder 10. A realidade material do antipoder e a crise do capital 11. Revolugio? Bibliograpia Indice onoméstico Agradecimentos 23 35 7 lan 161 17 207 229 259 299 317 325 329 PREPACIO AEDICAO BRASILEIRA Desde que terminei de escrever este livro, ocorreram trés acon- {ecimentos que tornaram o seu tema mais urgente que nunca. Primeito, os ataques ao World Trade Center ¢ 20 Pentégono, ldos pela terivel e aterrorizante brutalidade militar do Estado »reamericeno, apoiado virtualmente por todos os outros Esta- ‘los. Houve por toda parte uma profunda ressurreigao da politica ‘epressiva eracista justficada em nome da “guerra contra oterroris- Ino", O grito com que este livro comega tornou-se mais alto e mais, ‘ngustiado conforme fomos observando a estupidea arrogante dos ‘que matam, bombardeiam, daqueles que destruiriam a raca huma- tna, Este apelo para pensar sobre como podemos mudar 0 mundo sem nos jogar na busca do poder é mais urgente do que nunca. Segundo, 9 “argentinazo”, a onda de insubordinagio na Ar- ‘tina que demonstrou a gramitica da revolugio. NAO é0 tema tla revolucio, 1 explosio, a forca dirigente da transformagio social. NAO A opressio, NAO & estipida e perigosa destruigao imposta pelo capital. NAO as miseréveis amputagdes da vida que o capita liamo representa. Este NAO € em si mesmo uma celebracio, uma pplosio da nova vida, uma experimentagio de novas formas de ‘organizagio social. A beleza da sublevacio argentina é a simplici- slade da sua reivindicagao: “Que se vayan todos!”. Vio embora, todos voces! Nao apenas os politicos, mas seus amigos capitalistas. Vai embora, capital! J4 chega! Este €0 grito no apenas na Argen- fina, mas no México, no Brasil, em Portugal, em todo o mundo. Histe € o grito que une o mundo: Vai embora, capital! Chega! 8 Mudaromundo “Terceiro, o Férum Social Mundial, em Porto Alegre, a reunio de cerca de 80 mil pessoas para proclamar que um outro mundo € pose, Um festival de dscuseo, de onhos, de planos, uma celebragéo de esperanga. Nao ¢ inevitével que o capital triunfe. possivel criar um mundo humano, é ae mudar o mundo sem cair na légica brutal do poder capitalista. ; Mudar Scie en a poder, destruir 0 capitalismo sem recair na sua légica. Esta agora é a lura urgente no mundo todo. E este livro é uma pequena parte dessa luta. 28 de agosto de 2002 OGRITO No principio era o grito, Ns gritamos. Quando eserevemos ou lemos, ¢ficil esquecer que no prinet- plo mio € 0 verbo, mas o grito. Diante da mutilagio de vidas Numanas provocada pelo capitalismo, um grito de tristeza, um yito de horror, um grico de raiva, um grito de rejeigio: NAO. © ponto ce partida da reflexto tedrica é a oposigio, a epatividade, alura. O pensamento nasce da ira, nao da quietude Ali tazio; no nasce do fato de se sentar ~ raciocinar — e refletit fore os mistérios da existéncia, fato que constitui a imagem con- senicional do que é “o pensador”. Comesamo: da negagio, da dissonancia. A dissonincia pode sumir muicas formas: a de um murmiirio desarticulado de des- Fontentamento, a de ligrimas de frustragio, a de um grito de Win, a de um rugido confiante. A de um desassossego, de uma Sonfusio, de um desejo ou de uma vibragio critica, Nossa dissonancia surge da nossa experiéncia, mas essa expe- fiencia varia. As vezes, & a expe ia direta da exploragio na fi- [rica da opressio em casa, do estresse no escritorio, da fome e da pobreza ou da experigncia da violéncia ou da discriminagio, As eves, 0 que nosincita& raiva éa experiencia menos direta do que Pereebemos através da televisio, dos jornais ou dos livros. Mi- {hoes de criangas vive nas ruas. Em algumas cidades, as criangas 10 Mudaro mundo de rua sio sistematicamente assassinadas como tinica forma de reforcar o respeito & propriedade privada, Em 1998, os bens das 200 pessoas mais ricas do mundo somavam mais do que a renda toral de 41% da populagio mundial (constituida por 2 bilhoes e 500 milhdes de pessoas), A distincia entre ricos ¢ pobres aumen- ta, no apenas entte patses, mas dentro dos paises. Em 1960, os ps ‘com uma renda per capita 30 vezes maior que a do quinto m pobre; em 1990 a proporgaio havia dobrado, chegando a 60 a 1 ¢ fem 1995 se mantinha em 74a 1. A bolsa de valores sobe cada vez aque aumenta 0 desemprego. Vo para a cadeia estucantes que Tutam pela educacao gratuita, enquanto os responsiveis diretos pela miséria de milhdes de pessoas sio cobertos de honras ¢ reee- bem titulos como os de general, secretério da defesa ou presiden- te. Ea lista continua, Nossa fiiria muda a cada dia conforme a com 0 quinto de pessoas mais ricas do mundo contavam. Ultima atrocidade. E impossivel ler os jornais sem sentir ira, sem sentir dor. De forma confusa, sentimos que esses nao sio fendmenos iso- Jados, que entre eles existe uma relagao, questo parte de um mundo defeituoso, de um mundo equivocado em algum aspecto funda imental, Vemos cada vez mais pessoas pedindo nas ruas enquanco as bolsas de valores batem novos recordes ¢ os sabirios dos geren- tes das empresas se elevam a alruras cada vea mais vertiginosas € sentimos que 0s horrores do mundo nao sio injusticas casuals, mas parte de um sistema que esté profundamente equivocado. Até 08 filmes de Hollywood (talvex de maneira surpreendente) {quase sempre comegam com a apresentagio de um mundo funds- almente injusto antes de continuar reafirmando-nos (o que é menos surpreendente) que a justica para o individuo pode ser conquistada por meio do esforco individal. Nossa ira nfo se dii- apenas a acontecimentos particulares, mas contra uma incorte- 10 mais geral, contra o sentimento de que o mundo est tra formado, de que o mundo é de certa forma falso. Quando vivemos algo particularmente espantoso,levantamos as miios horrorizados Ogrito 1 e dizemos: “Nao pode ser!. Sabemos que é verdade, masse mos que éa verdade de um mundo falso'. ‘Como seria um mundo verdadeiro? Podemos ter uma idéia ‘aga: seria um mundo em que as pessoas pudessem se relacionar entre si como pessoas ¢ no como coisas, um mundo em que as pessoas pudessem decidir sua prépria vida. Mas nao necessicamos ter uma imagem de como seria um mundo verdadeiro para sentir aque existe algo radicalmente equivacado no mundo tal como & Szntir queo mundo st equivocado no significa, necessariamente que temos a imagem de uma utopia que ocupe o seu lugar. Tam. pouco implica uma idéia romantica como “algum dia chegaré 0 meu principe”, uma idéia de que ainda que as coisas agora este. jam mal, algum dia chegaremos a um mundo verdadeit, a algae ma terra prometida, a um final feliz. Nao necessitamos da pro- mmessa de um final fle para justficat a nossa rejeigo a um mundo que sentimos estar equivocado. Este € 0 nosso ponto de partida: a rejeigio de um mundo que sentimos que esté equivocado, a negacao de um mundo que sen- timos que é negativo, Devemos apegar-nos asso n “Apegar-nos”, de fato, porque tudo tende a sufocar nossa negacso, a emudecer nosso grito. Nossa fira se alimenta constantemente ds nosea experiéncia, mas enfientamos qualquer tencativa de expressi-la com uma parede dealgodio absorvente. Encontramos muitos argumentos que parecem bastante razodveis. Existem mnuitas maneiras de fazer voltar-se 0 nosso grito contra nés, de olnar-nos ¢ perguntar-nos porque gritamos. Serd por nossa idade Ou pornos orgens soci ou pena por algum desjuse psi coldgico que somos tio negativos?Serd que é porque temos fome, 1. Tacomo ama Debord (195, p “Em um mand 5p. “Em um mundo que elment foi posto de cabo pts bio, a edad € um mame a fiddle”, Veja também Homer (1978) Bloch (1964 I. 1853) 12 Mudaro mundo dormimos mal ou temos tensio pré-menstrual? Trata-se por acaso de que néo entendemos a complexidade do mundo ou as dificul- dades priticas para implementar uma mudanga radical? Nao sa- bemos que gritar nio ¢ cientifico? nto, precisamos estudar teoria politica e social (esentimos a necessidade de faré-Lo). Mas eis que acontece algo estranho. Quan- to mais estudamosa sociedade, mais se dissipa nossa negatividade ‘ou mais a deixamos de lado como irrlevante. No discurso académico ‘nao hé lugar para grito, Mais do que isso: 0 estudo académico nos proporciona uma linguagem ¢ uma maneira de pensar que difi- culta ainda mais a expressio do nosso grito. O grito, se € que aparece, o faz sob a forma de algo que deve ser explicado, nto como algo a set articulado, De sujeito da nossa pergunta pela sociedade se converte no objeto da anilise. Por que gritamos? Ou melhor, dado que agora nés somos ciemtistas sociais, por que eles gritam? Como explicamos a revolta ou o descontentamento social? Desquali contexto. Gritam por causa de suas exp sua concepgio moderna do sujcito, devido & debilitacio das es- truturas familiares: todas essas explicages estio legitimadas pela pesquisa estatistica, Nao é que se negue completamente 0 grito, tas se tira dele toda validade. Ao tir-lo do “nés” € projeti-lo num “eles”, o gro fica excluido do método cientifico. Quando nos convertemos em cientistas sociais aprendemos que para com- preender devemos buscar a objetividade, devemos deixar de lado 1nossos préprios sentimentos. Nao é 0 que aprendemos, mas como aprencemos, que parece emudecer nosso grito. O que nos desar- rma é toda uma estrutura de pensamento. No entanto, nenhuma das coisas que nos enfureciam no co- ego desapareceu. Talvez tenhamos aprendido a encaixar todas as juneas como partes de um sistema de dominagio, mas nossa aegatividade de alguma forma desapareceu da cena. Os horrores do mundo continuam. Por isso ¢ necessirio fazer 0 que se consi- sistematicamente o grito dissolvendo-o em set cias infantis, devido& Osgrito 13 ders um tabu cientfica: gritar como uma erianca, elevaro grico de todas as suas explicagdes estruturais, dizer “Nao nos importa o ue digam os psiquiatras, nio os importa se nossa subjexvidade gis cies social: este € 0 nosso grito, esta é a nossa dor, estas sZo nossas ligrimas, Nao deixaremas que nossa ira sea dis. solvica na realidade: é a realidade que tice i ee friac hemos charmer de cients guadsceencis cet rem, mas este é 0 nosso ponto de partida: nés eee WL Afinal, quem somos “nds”, esse “ y ” que afirmamos com tanta veemércia no comego do que pretende ser um livro sério? Em geral, os livros sérios sobre teoria social comegam na ter ales com a afirmagio de um “nés" indefinido. “Nés” € uma palavea petigoss,aberta ao ataque de todos os ingulos é p jue de todos os Angul } tores jd estarao dizendo: sai rite se voce gosta, compa. ro me inclua como uma parte do seu ‘nés’. Nao ‘nos’ quando realmente quer dizer ‘eu’, porque entio voce escfucitzande o "nd! pera impor eu ponto devises aos leicore’ Outros, sem clivida, objetardo que éilegitimo comegar com um inocente “nés" como se o mundo tivese acabado de nascer. O sujeito, nos dizem, no & um ponto de partida legitimo ji que o proprio sujeito é um resultado e no um comeso. E comegar do “nds gritamos” porque primeiro devemos compreen- der o pracesso que eva construgao social desse “ns” 3 const tuigto de nosso grio, diga vo cetceneante de que outro gar podemos comegar? Enquan- 0 escrever/ler & um ato criativo, 6, inevitavelmente, ode um ee J io € um ponto de partida dadlo que jé pressupde a supressio do “nds”, do sujeito da nds”, Comegar na terceira pessoa VG Homer (1972p. 2274 toralidide um tinico juizo de existéncia desenvolvido”. - 1 Mudaro mundo smo ponto de partida escritura e da leitura, “Nés” estamos aqui argue no podemos comegar com honestidade de nenum ou tro lugar. Nao podemos comegar de nenhum outro lugar que nao sto de nosasprpios pensamentos ede ossas propria ra ¢6es, O fata de que “ns” e nossa concepyo de “née ja produ to de toda uma histéria da subjetivizagio do “sujeito” nao muda nada. $6 podemos comegar de onde estamos, de onde estamos ¢ nfo queremos estar, de onde gritamos. ‘ éum “nés” confuso. S mos uma pri- Por enquanto, este “nds meira pe Sot plural indstnta, uma mesclaamorfa e p ; mente discordante entre o “eu” do ce ig ae F as comecamos do “nds” € no do “eu” porque “eu” jé Proce to oe apa ec arto iol pea Msde di pote eteeae anna en ce enquanto 0 ato dees: crever on de le se baseia na suposgao de algum ipo de comuni- dlade, nfo importa que seja contraditéria 04 confusa. © “nds’ de nosso ponto de partida & mais uma pergunta do que uma fespos- ta: afirma o cardter social do grito, mas coloca a nacureza dessa sociabilidade como uma pergunta. © mérito de comegar com um, “nds” em lugar de com um “isto” esti em que assim nos enema mos abertamente com a pergunta que deve estar por tris de qual- quer afiemagio tedtica, mas que poucas vezes se discute: quem somos-“nds’ que faizemos aafiemagio? is Claro que esse “nés" nfo & um sujeito puro ¢ transcendente: info somos o Homem, nem a Mulher, nem a Classe Opera, pelo menos nao por enquanto. Somos demasiado confusos para sso, Somos um “nds” antagonico que surge de uma sociedade antagbnica. O que sentimos nao é necessariamente correto, masé tum porto de partida que deve ser respeitado e criticado e nito 6 wor da objetivdade, Inegavelmente, somos sivel- colocado de Indo a 5 Fal 9p sem cng Fie pi gos pr pa Face ds ho Ogrito 15 aurocontraditérios: Wo 56 no sentido de que o leitor pode nao sentir 0 mesmo que o escritor (e tampouco cada leitor 0 mesmo que os demais leitores), mas também no sentido de que nossos sentimentos sio contraditérios. O desacordo que sentimos no tra- batho ou quando lemos os jornais pode dar lugar a um sentimen- to de satisfaco quando relaxamos depois de uma refeicao. O de- sacordo nao se dé entre um “nés” externo contra “o mundo” inevitavelmente, éum desacorclo que também alcanga nosso inte. rior, que nds divide contra nés mesmos. “Nés” somos uma per gunta que continuaré ressoando ao longo deste livro, Somos moscas presas numa tia de aranha. Comecamos a par- tirde um emaranhado desordenado porque nio hi outro lugar do ‘qual comecar. Nao podemos comegar simulando que estamos fora ch dissonincia de nossa propria experiéncia, pois fazé-lo seria Imentis. Como moscas presas em uma rede de relagbes sociais que esto mais além do nosso controle, s6 podemos tratar de nos li- bertarmos cortando os fios que nos aprisionam, Sé negativamen- te, criticamente, podemos tentar nos emancipar, nos distanciar clo lugar em que estamos. Nao é porque estamos mal adaptados que criticamos, porque queremos ser dificeis. Acontece que a situa- ‘530 negativa ¢m que existimos nio nos deixa alternativa: vives, Pensar, é negar de qualquer maneira que podemos a negatividade da nossa existéncia. “Por que vocé é to negativa?”, pergunta a aranha & mosca, “Seja objetiva, esquesa seus preconceitos.” Mas ‘nao hé como a mosea ser objeriva, por mais que ela queita: “Olhar «tea de aranha objetivamente, de fora — que sono”, sussurra a ‘mosca, “que sonho vazio e decepcionante”. Por enquanto, no en- tanto, qualquer estudo da teia de aranha que nao comece pelo faro de que amosca est presa nela simplesmente uma mentira‘, 4. Todas 25 metiforas so perigosas,sio jogos que posteriormente devem ser deta de lado. A mosca nio desempenha nenhum papel na constusio da teia de aranha, enquanto nds somos 0s nicos criadores do sistema que os mantém prisioneiros. 16 Mudaro mundo Estamos desequilbrados, somos instiveis. Nao gritamos por- mos sentados numa polttona, mas porque estamos cain- dade um penhasco. © pensidor que se encontra sentado na pol- nssupte uc mun quo rod extivel ques ups Seat lias que devem ser explicadas, Refe- contra 0 equilibrio sio anon eden RE! srs alguém com ostermos“dsequiibra “nse” se or ta pejorativo, sio termos que desqunlificam o que dizemos a id, os que extamoscaindo pelo penhaseo(€ aqui o “née aver Jua toda a humanidade), ocorre exatamente 0 Soe drio: vel Pew Jo como um movimento confuso. O mundo é um mundo ie desequilibrio e 0 que deve ser explicado éo equilfotio ea supo- sigdo do equilibrio. Vv 5 Nosso gtito no ¢s6 de horror, Nao gritamos porque enfrentamos 1 morte segura na cela de aranha, mas porque sonhamos em nos ca enhasco, nfo porque ibertar. Gritamos 4 medida que caimos do ps Soe agns set atitados contra as rochas, mas porque ain- dda temos.a esperanca de que seja de outra forma. an anleuk ; Jo, E uma recusa a aceitar daha nos comerd, una ecu acct que Motz cha nna reoin a asia oinaceitivel, Urn recusa a acr- tara imevitabilidade da desigualdade, da miséria, da exploracio e & violéncia crescentes. Uma recusa a aceitar a tdade a6 ae seta 0 ttmino, Nosogrito € uma recs a stmos vitimas da tpresio, a submergemo-nos numa "melancolia de esquerda, algo e30 caracterfstico do pensamento de opasigio. & uma ns ¢ ro papel de Cassandca tio prontamente adotado pelos pcertanis de esquerda:predier a queda do mundo enquanto se ao jossamos fazer contra isso. Nosso accita que nfo hii nada que possamos Ee ee é uma recusa a sermos gtito é um grivo que quebra vidraca 5. Acapressio corresponde a Walter Benjamin (1931) Ogrito 17 tidos, é um transbordamento, um ir além da margem, além dos limites da sociedade cortés, Nossa recusa 8 ac fo nos diz. nada acerca do futuro, tampouco sua validez depende de algum resultado em particular, O faro de que gritamos enquanto caimos pelo penhasco nao nos roperciona nenhuma garancia de uma aterrissagem segura, ¢ tam- pouco a legitimidade do grito depende de um final feliz. A cerce- 2a dos velhos revolucionstios de que a histéria (ou Deus) estava do nosso lado jé desaparcceu: essa certeza esti historicamente morta ce enterrada, destrufda pela bomba que cai em Hiroshima, Cer- tamente, nao existe final feliz, mas, mesmo quando despencamos, ‘mesmo nos momentos de maior desespero, rejeitamos aa de que esse feliz seja impossiv |. O grito se aferra & possibili- dade ce uma abertura, se nega a aceitar o fechamento da possibi- lidade de uma alternativa radical, Nexso grito, entio, é bidimensionak: 0 grito da ira que se eleva + pair da nossa experiéncia atual implica uma esperanga, a pro- jegio de uma alternativa possivel. O grito ¢ extético, no sentido literal de sair de si mesmo para um futuro aberto’. Nos, os 4 gritamos, existimos extaticamente. Saimos de nds mesmos, exis mos em duas dimensdes. O grito implica uma tensio entre 0 que existe € © que poderia existir, entre 0 indicativo (0 que é) ¢ 0 Subjuntivo (o que pode ser). Vivemos em uma sociedade injusta, mas desejamos que cla nao fosse: as duas partes da ora¢io sio insepariveis ¢ existem em constante tensio uma com a outta. O grito nio ne ssita ser justificado pelo cumprimenco do que po- dleria ser: & simplesmente, 0 reconhecimento da dimensio dual «ta realidade. A segundla parce da oragao (“desejamos que nao fasse sssim) ndo é menos real que a primeira. O que outorga significa- {o 20 grito € a tensio entre as duas partes. Se a segunda parte da prasao (0 desejo expresso no subjuntive) for vista como menos 6. Em rcagio ao pensimento extitco, veja, por exemplo, Gunn (19874 18 Mudaro mundo ogrito. O que vemos em uma real que.a primeira, entao também se desqualifi como consegiiéncia se percebe como real é que sociedade injusta: 0 que poderiamos desejar ¢ assunto privado nosso, tem uma importincia secundétia. E enquanto 0 adjetivo “injusta” adquire realmente sentido s6 em referéneia a.uma socie~ dade justa, isso também se climina, deixando-nos somente com ds vivemos em uma sociedade x’. E se gritamos porque vivemos em uma sociedade x, envio devemos estat loucos. Desde a época de Maquiavel, a teoria social se preocupa em dividir em duas essa oragio que no pode ser dividida. Maquiavel Tanga as bases de um novo realismo quando afirma que esté preo- cupado apenas com o que é, nfo com as coisas como gostariamos fossem’. A realidade se refere & primeira parte da oragio, 20 que €. A segunda parte da oragio, o que deveria ser, se dist {gue claramente do que ée nao se considera como parte da sealida- de, O “deveria” nao deve ser descartado completamente: conver- te-se em tema da teoria social “normativa’. O que se rompe completamente é2 unidade de ambas as partes da oragio. $6 com esse passo, se desqualifica 0 grito recusa-e-desejo. Nosso grito implica uma bidimensionalidade que insiste conjungio da tensio entre as duas dimensoes. Nés somos, mas ‘existimos em tensio com aquilo que no somos, 0 que nao somos ainda, A sociedade é, mas existe em tensio com a nio-identidade. ‘A bidimensionalidade é a presenga antagénica (isto é, 0 movi- mento) do que ainda nio é com o que é, dla nao identidade com a do da tensio: a explosio do ain- da-nio contido-em-mas-explodindo-a partit do é, a explosio da nnio-identidade contida-em-mas-explodindo-a-partir da identida de, O grito é uma expresso da existéncia presente do quese nega, a existéncia presente do ainda-nfo, da nao-identidade, A forga que identidade. O grito é uma explo 7. Veja The prince (O principe), cap. 15: "Deixando, entio, de ldo 25 coisas imaginivias no que se refete a um principe ¢ no falando mais sendo das coisas verdaderas.” Ogrito 19 cas do grito nao depende da existéncia Futura do ainda-nao {uem sabe se algum dia haveré uma sociedade baseada no eco- nhecimento miituo da dignidade?), mas da sua existéncia presen Cie bata Core do grito € simplesmente insistit 1a ceneralidade da dialética, que é apenas “a a dite da miottiengaiadees 7) oes eset na) ‘ ped grito é de horror-c-csperanga. ee se separam suas duas verte em algo banal. O horror surge da “amargura a”, mas se nio transcende essa amargura, o horr unidimensional leva apenas & depress aoe. a 1 politica e a0 encerro te6- ie De forma similar, sea esperanca nao est firmemente assen- tac na propria amargura da histia converte apenas em uma ‘ols expressio unidimensional do otimismo, Exatamente essa se- Bowe horror ¢ esperanga se expressa no aforismo de amsci, to Freqiientemente citado: “Pessimismo oti- Pessimismo ¢ otimismo, horror e esperanga em uma compreensio ‘e6rica da bidimensionalidade do mundo. O objeto é nao apenas aie do espitito, mas da razio. E precisamenteo horror do do o que nos obriga a aprender a ter esperanga'! Morn (1990, p. 3) Frc (1990p. O aumento de Foe que“ med i co a amar da hii mpedem que a “mains deni edacone "evolugio com a flicidade ou a revolugio com o prazer, Meu argummente é «el, aang hi oa una acne daeopeces 1 uss wm compromisso mais sto com a espeanc ae ix de Romain Rolland Tessmismo daeligenci, timid venta comers or Grama eal oi cam a po imatico ji em 1919, nas nas do Viwawo.” (Gs SST, wm piginas do LOndine Nuve.*(Gramah 1971 1a a i ? Camo afin Eat Blah no rfid Pip oflope rin 2 Era cco qe complemen din i i Aa mista, é exatamente em tio terrivel mundo que devemos “aprender: fer esperanga’ (1986, p. 3) erect 20 Mudaremundo Ns 0 objetivo deste livro ¢ fortalecer a negatividade, tomar partido tornar o grito mais estridente. De forma bas- pela mosca presa, pelo menos, por tante consciente comegamos pelo sujcito ou, ‘uma subjetividade indefinida, sabendo todos os problemas que isso implica. Comegamos daqui porque fazé-lo do outro lado & simplesmente falso. O desafio consiste em desenvolver uma ma- neira de pensar que construa criticamente do ponto de vista inicial negativo, uma maneira de compreender que negue a nso- verdade do mundo. Nao se trata s6 de ver as coisas de baixo ou para cima, porque muito freqtentemente isso implica a adogso de categorias preexistentes, uma simples inversio cos sinais po- sitivo © negative. Nao s6 se deve rejeitar uma perspectiva de cima, mas também toda forma de pensar que provém dela‘e apéia tal perspectiva. Ao tratar de abrirmos um caminho através dda teoria social, que é um dos fios que nes prendem, temos somente uma biissola para nos guiar: 2 forsa do nosso préprio “pio” em toda sua bidimensionalidade: a rejeigio do que € a projesio do que pode ser © pensamento negativo ¢ tio antigo como o grito. A tradigto mais poderosa do pensamento negativo é, sem nenhuma duivida, amanxista, No entanto, o desenvolvimento da tradigao marxista, tanto porsua hist6ria particular como pela transformagio do pen- samento negativo em um “ismo” que define, criou um marco que com freqiiéncia limitou e obstruiu a forca da negatividade. Este nao é marxista no sentido de que considera o livro, poranto, marsismo como um marco de referéncia; a forga de seu argu- mento tampouco pode ser julgada em termos de “marxista” ou “pao-marxista": menos ainda se trata de um livro neomarxista ou pés-marsista Seu objetivo é na realidade, contextualizar as tematicas ue, freqiientemente, io descritas como “marxistas” na proble- mitica do pensamento negativo, com a esperanga de dar consis- Ogrito 21 ‘éneia ao pensamento negativo e de tornar mais aguda a crit marxista do capitalismo™, Se ste no é um livro que tenta descrever 0s hi i , a descrever os horrores do capita- lismo. J4 existem muitos outros que o fazem e, além disso, ae brdpyi experiéncia nosconta esa histrn, Aqui nds damos por tealizad. A perd da esperanga ma possibilidade de uma socieda lc mais humana nfo € resultado do fato de as pessoas estarem mais impaciente, se estiver «dado, se tiver mais duividas acerca do que pode ser consegu do por meios parlamenta evoluciond ; , entre para uma organizacio ona Eee © poder estaral or me ciondrio para mudar a sociedade. tienes eee Mudar 0 mundo através do Estado: esse € o paradigm: preominou i peisenents Maula eee uae eet de ae ha cem anos, Rosa Luxemburgo e Edward Bernt’ matveram sabe “forma ou reolio eabelecu laramerce os termos que do nariam o pensamento sobre a re- |. Veja alguma das muitas edigies da alr dm ilies dt brs de Ros Luxemburg (1973) 24 Mudaro mundo volucio durante a maior parte do século XX. Por um lado, she mma; por outro, revolugio. A reforma era uma transigao gradual eo socialismo, a que se chegaria pelo triunfo nas els introdusao da mudanga por via parlamentar; a revolugao era ae ttansigio muito mais ipida, que se conseguitia com a tomada, ep oder estatal ¢ a ripida introdugio da mudanga radical, levada : 1o Estado. A intensidade dos desacordos encobria cordo: os dois enfoques se concentravam no mudar ese pela adiante pelo nov. fr ‘a sociedade. Apesar de todas as suas diferencas, os dois pontos de vista apontam para a conquista do poder estatal. Isso, claro, nfo cexclui outras formas de luta. Na perspectiva revoluciondria, € clusive nos enfoques patlamentares mais radicais, se considera e fato de conquistar o poder estatal parte de uma ascensio oe reval- No entanto, considera-se que conquistar 0 poder é 0 wonto central do processo revolucionrio, o centro do qual irta- ui ard'a mudanga revoluciondtia. Os enfoques que ficam fora dessa dies ‘omia entre reforma e revolugao foram reine ie? tas (uma distingao aguda que se consolidou aproximada- sea ued anni Be hid pouco tempo, o debate tesrico ¢ politico (pelo menos na tradi- ‘sao marxista) esteve dominado por crés classificagoes: revolucio: ta social rio, reformista eanarquista. ‘ nd paradign do Extad, isto €,a suposio de que conquistar 5 poder estaral é0 centto para a mudanga radical, dominada nao i .bém pela experiencia revoluciondria apenas pela teoria, mas tam| Sa a or pate do sculo XX — no apenas a experiencia durante ; - wiésica ¢ da China, mas também dos numerosos mi ae nacional e de guerrilha da década de 1960 ¢ 1970. exemple o artigo de Stalin de 1905, “Anarquismo on Socilismo”, ne ‘ ohan (1998, p. 33 ¢ seguintes). analisado por Néstor 25 Seo paradigma estatal foi o vefculo de esperanga durante gran- de parte co século, se converteu cada vez mais no assassino da esperanca i medida que esse século avangava. A aparente impossi- bilidade di revolugao no comeso do sécuilo XXI reflete, na reali dade, ofiacasso histérico de um conceito particular de revolucio, © conceito que identificava revolucéo com controle do Estado. Ambosos enfoques,o “reformista” co “revoluicionério”, fracas- saram completamente ao realizar as expectativas de seus defenso- res entusiastas. Os governos “comunistas” da Unio Soviética, da China ¢ de outras partes certamente elevaram os niveis de segu- ranga material e diminufram as desigualdades sociais nos territérios dos Estades que controlavam (pelo menos de maneira tempors- Fia), mas fizeram pouco para criar uma sociedade independence ©u para promover o reino da liberdade, questo sempre central na aspiragio comunista’. No caso do governo socialdemocrata ou reformista, a situagio nao é melhor: ainda que em alguns casos se tenha conseguido melhorias na seguranga material, sua atuagio 1a pratica se diferenciou muito pouco da dos governos que estio abertamente a favor do capitalismo, ¢ a maioria dos partidos socialdemocratas hd tempos abandonaram qualquer pretensio de serem 0s portadores da reforma social radical, Durante mais de cem anos, o entusiasmo revoluciondrio da juventude foi canalizado para a construgio do partido ou para a 4 alves, 0 caso mais atrente de revolusio centrada no Estado. No énranto, mesmo aqui, as conquistas da revolugio esto longe das aspirages revoluciorrias,nio s6 por presses externas (o bloqueio, adependeéncia da Unio Sovisia e seu posterior colapso), mas por eausa da disedincia entre Estado e sociedad, por causa da falta de aurodetermiasio social, Obvia- ‘mente, a eanseqiéncia desse argumento no € que os patss de Estado socia- lista que ainda existem (como Cuba) simplesmente deveriam se inegrar de maneita deta no mercado mundial, mas que a forga da revolusao depende slo grat en: que estdintegrada na sciedade ecm que o Estado deixa de rset Ponto cenwal. Para uma reflexio interesante sobre iso de uma petspectiva ccubana, vea Acanda ("Sociedade civil y Estado”, artigo aprescntado na cone feréncia “O marsismo: um olhar da esquerda", Havana, 2000) 26 Mudaro mundo aprendizagem no manejo das armas. Durante mais de cem anos, fs sonhos daqueles que queriam um mundo adequado para a hu- manidade se burocratizaram e se militarizaram, tudo para que tum governo conquistasse o poder do Estado € que, entao, fosse acusado de “trait” 0 movimento que o levou até ali. Durante tiltimo século, “taigio” foi uma palavra-chave para a esquerda, acusado de “trair” os enquanto um governo depois do outro ideais dos que 0 apoiavam, de tal forma que agora a prépria idéia de traigdo esta tao desgastada que s6 provoca um movimento de “ombros como se quisesse dizer: “claro”. Em lugar de apelar para tantas traigées em busca de uma explicagao, talver necessitemos rever a idéia de que a sociedade pode ser mudada por meio da conquista do poder do Estado. 0 : A primeira vista, parece dbvio que conquistar o controle do Esta- do éa chave para realizar a transformagio social. O Estado reivin- idica ser sobcrano, exercer 0 poder no interior de suas fronteiras. Isso é fundamental na idéia comum de democracia: elege-se um. governo para que cumpraa vontade das pessoas por meio do exer- ticio do poder no cerritério do Estado. Essa idéia € a base da afirmagio socialdemocrata de que a mudanga radical pode ser conseguida por meios constitucionais. (© argumento contra essa afirmagio ¢ que © ponto de vista constitucional isola 0 Estado do seu contexto social: attibuiclhe ‘uma autonomia de agio que de Faro ele nao tem. Na realidade, 0 aque 0 Estado fiz est limitado e condicionado pelo fato de que existe s6 como um né em uma rede de relagées sociais, que se entra, de maneira crucial, na forma em que o trabalho est orga~ nizado. O fato de 0 trabalho estar organizado sobre uma base capitalista significa que o que 0 Estado faz e pode fazer esta limi- 4, Desde que Trowky publicou La revelucién tmcionada, 2 *craigio™ tem sido lama cxtegoria central, pelo menos para o movimento trorskista Mais além do Estado? 27 tado ¢ condicionado pela necessidade de manter o sistema de or- ainizacio capitalista do qual é parte. Isso significa concretamente que qualquer governo que realize uma agao significativa dirigida contra os interesses do capical te Meee de atlas erie ‘Os movimentos revolucionsrios inspirados no marxismo sem- pre txeram consciéncia da natureza capitalista do Estado, Por que entao se concentraram no objetivo de conquistaro poder do Estado como o meio para miudar a sociedade? Uma resposta é que, com fieqiiéncia, esses movimentos tiveram uma visio instrumental da natuteza capitalista do Estado. Hak ‘como um instrumento da classe capitalista. A nocio de inscrumen- Co implica quea relagao entre o Estado ea classe capitalista é exter- na: como um martelo, a classe capitalista manipula agora o Estado segundo seus préprios interesses; depois da revolugio, este ser tmanigulado pela clase trabalhadora segundo seu prdprio interesse. Esse ponto de vista reproduz, talvez inconscientemente, o isola- mente ou a autonomizagio do Estado em relagio a seu préprio contexto social, isolamento cuja eritica € @ ponto de partida da politica revolucionstia. Para retomar um conceito que se desenvol- verd mais adiante, essa visio fetichiza o Estado: o abstrai da rede de relagies de poder em que esté imerso. A dificuldade que os gover- 1n9s revolucionsrios tiveram em deter o poder do Estado a favor dos interesses da classe trabalhadora sugere que a imersio do Estado na rede de relagoes sociais capitalistas é muito mais forte e mais sutil do que a nogio de instrumentalidade sugeria. © erro dos movi- mentos marxistas revolucionsrios nfo foi negar a natureza do Esta- «lo, mes compreender de maneira equivocada o seu grau de integra- fo na rede de relagies sociais capit Um aspecto importante dessa compreensio equivocada éo grau «em que as movimentos revolucionétios (e mais ainda os reformis- tas) tenderam a supor que se pode entender essa sociedade como nacioral (isto 6 dentro dos limites estatais). Se entendemos a sociedide como a sociedade argentina, russa ou mexi -omo resultado uma crise eco- a obvia- 28 Mudaro mundo mente outorgamos peso a posigio de que o Estado pode ser 0 ponto central da transformacio social. Esse suposto, no entanto, pressupde uma abstracio prévia do Estado e da sociedade em re- laco aos seus limites espaciais, um recorte conceitual das relagbes sociais dentro de suas fronteiras. © mundo, nessa concepcio, formado por muitas sociedades nacionais, cada uma com seu pr6- prio Estado, que sc relacionam como uma rede de relagdes inter- nacionais. Cada Estado é, entio, 0 centro de seu préprio mundo «ese torna possfvel conceber uma revolucio nacional ¢ ver 0 Esta- do como 0 motor da mudanga radical de “sua” sociedade. (O problema dessa perspectiva é que as relagbes socials nunca coincicliram com as fronteiras nacionais. As discuss6es atuais sobre a “globalizagio" apenas resslram o que sempre foi certo: as relagdes sociaiscapitalistas, por natureca, sempre foram mais além dos imi tes teritoriais, a caracterstica dstintiva do capitalismo é que libe- rou a exploragio desses limites teritorias, em vireude de que a relagio entre o capitalista ¢ o trabalhador é mediada pelo dinheito. essa mediagao significa uma completa desterritorializagio dessas relagdes: nao existe razdo para que o empregador ¢ o empregado, © produtor e o constmidor, ou os trabalhadores que eooperam no proprio processo de produgao devessem estar no mesmo teritéto. ‘As relagies sociais capialistas nunca foram limitadas pelas Frontei- ras estatais; portanto, é um etto pensar o mundo capitalista como tuma soma de diferentes sociedades nacionais’. A rede de relagies sociais em que os Estados nacionais particulars estdo imersos é—€ foi desde © comego do capitalismo — uma rede global ‘Assim, 0 foco da revolugso no objetivo de conquistar o poder estatal implica a abstracio do Estado das relagGes sociais de que é parte, Conceitualmente, se separa o Estado do complexo de rela- (Ges sociais que 0 rodeiam ¢ se eleva-o como se fosse um ator 5. Sobre este ponto, veja Von Braunmihl (1978) ¢ Holloway (19956). Mais além do Estado? 29 auténomo, Atribui-se-the autonomia, se nao no sentido absoluto da teoria reformista (ou liberal), pelo menos no sentido de que € consideado como potencialmente auténomo quanto as relagées sociais capitalistas que o rodeiam Mas se poderia objetar que esta & uma distorglo grosseira da estratég a revolucionstia. Os movimentos revoluicionios inspi- rados no marxismo, em geral, consideravam que conquistar o po- componente de um processo mais amplo de transformagao social. Mais ainda, Lenin nao fala apenas em conquistar 0 poder do Estado, mas em destruir 0 velho Estado € substitui-lo por um Estado dos trabalhadores e, como Trotsky, estava mais do que convencido de que, para ter sucesso, a revolt fo tinha que ser internacional, Isso certamente & verdade € € importante evitar caricaturas grosseiras, mas continua sendo um fato que, em geral, se considerou a tomada do poder do Estado como um elemento particularmente importante, um ponto cen- tral no processo de mudanca social’, um elemento que exige ram- bém uma cor dlr estaial é apenas tragio das encrgias dedicadas 4 transformagio social. Essa concentracio privilegia, inevitavelmente, o Estado como um lugar de poder. Quer se considere a conquista do poder como o caminho ex clusivo para a mudanga social ou como um centro de agio, existe, inevitavelmente, uma canalizagao da revolta. Retoma-se o fervor dagqueles que lutam por uma sociedade diferente, que se dirige a um pon:o especifico: conquistar o poder do Estado. “Se pudésse- mos apenas conquistar o Estado ~ fosse por meios eleitorais ou militares -, entao serfamos capazes de mudar a sociedade, Pri. meiro, portanto, devemos concentrar-nos no objetivo central: a conquisia do poder do Estado.” O argumento continua nessa di- 6. Veja Luxemburgo (1973, p. 49): “Desde que existem as sociedades de classe as lutas dessa classes foram 0 contetido easencil da histria social, 1 conquista do poder foi sempre o fim principal de codas as classes.” 30 Mudaro mundo re¢40 €0s jovens sio iniciados no que significa conquistar 0 poder do Estado: sio treinados como soldados ou como burocratas, de- pendendo de como se entenda a conquista do poder do Estado. “Primeiro, construir o cxército, primeito construit o partido, esta €amaneira dese liberar do poder que nos oprime.” A construgio do partido (ow a construgio do exército) se converte em algo po- sitivo (a construgao de instituigbes, a construgio do poder). A instrugéo na conquista do poder inevitavelmente se converte em uma instrugo no proprio poder. Os iniciados aprendem a lin- guagem, aldgica es cfleulos do poder; aprendem a manipularas categorias de uma ci ddeu forma inteiramente segundo essa obsessao pelo poder. As diferencas na organizagio se convertem em lutas pelo poder, A manipulagio ¢ a manobra pelo n uma forma de vida. © nacionalismo é um complemento inevicével da l6gica do- poder. A idéia de que o Estado ¢ o lugar do poder envolve a abstragio do Estado particular em rela telagdes de poder. Inevitavelmente, a inspira mundial, 2 énfase em um Estado particular como o lugar do qual surgitia a mudanga social radical implica dar prioridade & parte do mundo que esse Estado abarca sobre suas outras partes. Inclusive as revolugdes mais internacionalistas, orientadas para a conquista do poder do Estado, raramente tiveram sucesso em cvitar privilegiar de mancira nacionalista o “seu” Estado sobre os outros ou inclusive em cvitar a manipulagao aberta do senti- mento nacional para defender a revolugao. A idéia de mudar a sociedade por meio do Estado repousa no conceito de que o Estado ¢, ou deveria ser, soberano. A soberania estatal é um pré- requisito para se mudar a sociedade por meio do Estado, de tal forma que a luta pela mudanga social se transforma na lua pela defesa do Estado, de forma tal que a luta contra o capital, entio, se converte em uma lata antiimperialista contra a dominacio cia social a qui poder se convertem (0 a0 contexto global de em que medida ia de revolugao jo import: ( revoluciondtia esteja guiada pela id dlos estrangeiros, em que se miscura 0 nacionalismo com 0 antica- Mais além do Estado? 31 17. Confunde-se autodererminago com soberania, quando dle fato a propria existéncia do Estado como forma das relacbes sociais € a propria ancitese da autodeterminagio" Nio obstante o quanto se defenda 0 movimento e sua impor- Lincia, 0 objetivo de se conquistar 0 poder implica inevitavelmen- te uma instrumentalizagio da lua. A luca em um objetivo: con- quistar 0 poder politico. A luta é um meio para alcancar esse objetivo. Aqueles elementos de luta que nao contribuem para se alcangar 0 objetivo s4o considerados secundérios ou suprimidos «em conjunto: estabelece-se uma hierarquia das lutas. Essa insteu- mentalizacZo/hierarquizacao é, a0 mesmo tempo, uum empobreci- mento da huta. Quando 0 mundo é concebido através do prisma dda conquista do poder, muitas das lutas, muitas das maneiras de expressio da nossa rejeigto do capitalismo, muitas das maneiras de lutar pelos nossos sonhos de uma sociedade diferente simp! Itram’, simplesmente permanecem ocultas. Aprende- las e, assim, a suprimirmos a nés mesmos. No alto da hicrarquia aprendemos.a colocar aquela parte da nossa atividade que contribui para se “construir a revolusao”; na base, localizamos fiivol dades pessoais, como as relagdes afetivas, a sensualidade, a brincadeita, 0 riso, o amor. A lua de classes se torna puritana: deve set suprimida a frivolidade porque nao contribui para 0 objetivo. \ hietarquia mos. suprim o da luta é uma hierarquizagio das nossas vidas c, ussim_ uma hierarquizagao de nds mesmos. O partido é forma organi jonal que com maior clareza ex- pressa essa hierarquizagao. A forma do partido, seja ce vanguarda, oj parlamentar, pressupde uma orientacio para o Estado e tem ppalscsa combinagio de nacionalismo e revolugio sejustifica em nome doantiimperialismo, Qualquer que sejaajustificativa, sempre epou 1 ro suposto de que as relagSes socias xe consttuem certtorialmente. Para lun diseussto sobre esse tema em relagio 3 sublevasio zapatsta, veja Relation (1997, p. 178-184). Pace angumence se desenvolverd com mais detalhe em um capitulo posterior 32 Mudaro mundo pouco sentido sem ele. O partido é de fato a forma de disciplinat a luca de classes, de subordinar as intimeras formas de luta de classes de acordo com o objetivo dominante de conquistar 0 con- trole do Estado. O estabelecimento de uma hierarquia das lutas se expressa habitualmente na forma do programa do partido Esse empobrecimento da luta néo é apenas caracteristica de partidos ou de correntes particulares (como o estalinismo, 0 trotskismo ou outras): é inerente A idéia de que o objetivo prin- cipal do movimento é a conquista do poder politico. A luta esti perdida desde 0 comeso, muito antes de que 0 exército ou 0 partido vitorioso conquistasse o poder e “traisse” suas promes- sas, Estd perdida uma vez.que o proprio poder se filtra no inte- rior da lua, uma vez que a légica do poder se converte na Idgica do processo revolucionério, uma vez que 0 negativo da rejeigio se converte no positivo da construcio do poder. E, habitual- mente, os envolvidos nfo o véem: os iniciados no poder nem sequer véem como foram levados tio longe na forma de racioci- nar € nos habitos do poder. Nao véem que, se nos rebelamos contra 0 capitalismo, nao é porque queremos um sistema de poder diferente, & porque queremos uma sociedade em que se- jam dissolvidas as relagdes de poder. Nao se pode construir uma sociedade de relagdes de nao-poder por mcio da conquista do poder. Uma ver que se adota a 6gica do poder, a luta contra cle ji esta perdida. Assim, a idéia de mudar a sociedade por meio da conquista do poder culmina ao se conseguir 0 oposto do que se propée alcan- sar. Em lugar de essa conquista ser um passo para a aboligao das relagdes de poder, a tentativa de se conquisté-lo implica a exten sio do campo de suas relagdes no interior da luta contra o poder. © que comega como um grito de protesto contra o poder, conta a desumanizagio das pessoas, contra o tratamento dos homens como meios endo como fins, termina se convertendo em seu opos- to, na suposicdo da ldgica, dos habitos e do discurso do poder no Mais além lo Estado? 33, préprio coragao da luea contra o poder’. © que esta em discussio nn transformasio revoluciondria do mundo nfo é de quem & o poder, mas como criar um mundo baseado no miituo reconheci- mento da dignidade humana, na formagio de relagbes sociais que hnio sejam relagées de poder. Poderia parecer que a forma mais rcalista de mudar a sociedade seria centrara luta na conquista do poder de Estado e subordind esse objetivo. Primeiro, ganhamos o poder e, em seuida, criare- tos uma sociedade valiosa para a humanidade, Esse é 0 argu- mento poderosamente realista de Lenin, especialmente em What 1 10 be done? (Que fazer), mas € uma légica compartlhada por ‘olos os l{deres revolucionétios mais importantes do século XX: Resa Luxemburgo, Trotsky, Gramsci, Mao, Che. No entanto, a cexpetiéncia de suas lutas sugere"® que o aceitado realismo da tradi- sae revoluciondria é profundamente ireal, Esse realismo do poder « concentra num fim € a ele se ditige. O realismo do antipader »u. melhor ainda, o anti-realismo do antipoder, deve set bastante tliferente se vamos mudar o mundo. E devemos mudaro mundo. ), *Criae-sena casa do poder éapreender suas formas, absorvé-las..O hb 1» do poder, seu timbre, sua postura, sua maneira de estat com os oueroe F uma doenga que infeeta tudo 0 que se : ta tudo 0 que se aproxima dele. Se 0 poderoso 0 Poti vor ct infectado pela sola dos seus saparos® (Rudi, 1998, p21). "ia se afitmar que a experigncia dos movimentos que tiveram como jsivo mudar © mundo sem tomar 0 pod e que Poder sugere que essa rentativas tembém carecem de realidade, O argumento para explora a posibilidade Inudar © mundo sem tomar o poder nao se bascia $6 na experiencia ‘ica, mas também na reflexao teérica sobre a natureza do Estado, 3 MAIS ALEM DO PODER? I Nio se pode mudar 0 mundo por meio do Estado. Tanto a refle- xio tedtica como um século de més experiéncias nos dizem: “Eu os adverti he tempos”, afirmam os satisfeitos. “Dissemos-lhes que cra absurdo. Dissemos que nfo podia ir contra a natureza huma- na. Abandoneo sonho. Abandone-o!” E milhdes no mundo abandonaram o sonho de uma sociedade radicalment: diferente. Nao h4 dtvida de que a queda da Uniao Sovietica e fracasso dos movimentos de libertagao nacional em ‘odasas partes do mundo desiludieam milhdes de pessoas. A idéia cle tevolugio era to identificada com o fato de se conquistar 0 contro le do Estado que o fracasso dessas tentativas de mudar 0 mundo conquistando 0 controle do Estado levou muitas pessoas & con- clusio de que a revolucio é impossivel. Existe uma moderagio das expectativas, Para muitos, a espe- Fanga se evaporou dando lugar a uma reconciliagio amarga e cini- \ com a realidade. Nao seri possivel criar a sociedade livre c justa uve desejivamos; mas sempre podemos votar por um partido de entro ou de centro-esquerda sabendo muito bem que isso ndo implicaré nenhuma diferenga, mas dessa maneira pelo menos en- traremos alguma saida para nossa frustragio, “Bom, jé sabe- s que no poderemos mudar 0 mundo”, diz uma das persona- jens de um livro de Marcela Serrano. Este fi o grande golpe para nossa geragio. Desapareceu para 1nds.o ebjetivo no meio do caminho, quando ainda tinhamos a 36 Mudaromundo ‘dade ¢ a energia para fazer as transformagées... Portanto, a Janica coisa que resta a pessoas como ele é se perguntar com hhumildade: onde esta dignidade?! Nio estd certa a personagem desse livro? Se nfo podemos mu- dar o mundo por meio do Estado, entio como podemos fazé-lo? (© Estado é apenas um né de uma rede de relagées de poder. Mas no estaremos sempre presos na rede do poder, nao importa de ‘onde comecemos? A ruptura é realmente concebivel? Nao esta ‘mos presos em um circulo sem fim do poder? O mundo inteiro indo é uma teia de aranha na qual podem ser realizadas, aqui e ali, algumas modificagées para melhorar? Ou serd que o mundo nao é uma multiplicidade de teias de aranha com tal forma que, justo {quando abrimos caminho por uma, nos encontramos enredados ‘em outta? Nao é melhor deixar a idéia de uma alvernativa radical para aqueles que se reconfortam com a religido, para aqueles que ‘vive com o sonho de que existe um paraiso como recompensa por viver em meio a este vale de légrimas? ( grande problema ao se tentar se retirar para uma vida de dignidade privada e dizer “tratemos de obrer 0 melhor do que temos” & que o mundo nao permanece imével. A existéncia do capitalismo implica uma dinamica de desenvolvimento que nos ataca de forma constante, sujeitando nossa vida a0 dinheiro de maneira mais direta, criando cada vez mais pobreza, mais desi- gualdade, mais violéncia. A dignidade néo ¢ um assunto isolado porque nossa vida esté tio entrelagada com a dos outros que a dignidade privada éimpossivel. E precisamente a busca da digni- dade pessoal que, longe de levar-nos na direcio oposta, nos con- fronta totalmente com a urgéncia da revolugao™ ‘Atinica maneira de se manter a idéia de revolucao € apostando ais alto. O problema do conceito tradicional de revolucio talvez 1. Marcela Serrano (1995, p. 316). Para o desenvolvimento de um argumen- to similar, vja Winocour (2001). 12. Este é um dos pontos que airmam a sublevagio zapatista. Os zapatstas insstem em que a dignidade os faz rebelar-se. Veja Holloway (1998). Mais além do poder? 37 ‘ja nfo 0 fato de ter aspirado muito, mas o de te aspirado pou 00. A idéia de tomar posigées de poder, seja a do poder governa- mental ou outras posigbes de poder mais dispersas na sociedade, B30 compresnde que o objetivo da revolt &disolver as ne ses de poder, criar uma sociedade baseada no reconhecimento mmituo da dignidade das pessoas. O que falhou é ideia de que a tevolucio significa tomar o poder para abolir © poder’. O'que gora devemos tratar é idéia muito mais exigente de uma supe- sas dra di reads de poder. hic mani des ey agora a revolucio é como a dissolugao do poder, nio como sa conus A queda ta Unio Sova ee nas is 2 csilusio de milhdes de pessoas; também implicou a liberagio do ietsamenorevolcionsre a bean em rag idenicac e tevolugio com conquista do poder. Ese , entio, o desafio revolucionario no comego do sécuk XI: mudar o mundo sem comar o poder, Este &0 desafo que se folou mas clarament com olvaamento zpatita oa Rosi + México. Os zapatistas afirmaram que querem fazer 0 lo de novo, que querem criar um mundo de dignidade, um mundo de humanidade, mas sem tomar o poder’. O chamado zapatista para construir um mundo novo sem to- favo Pode teve uma repercussio extraordindria, repercussio re- wer muda, nega um estado de coisas dado. O fazer vai mais além, transcende. O grito que cons- ‘tui nosso ponto de partida em um mundo que nos nega (0 ti © mundo que conhecemos) nos empurra para o fazer. Nosso ‘materialismo, se essa palavra pertinente, nio é uma preferéncia ee 1nd lugar do espirito, mas o grito, a negagio © aver, em outras palavras, & central em nossa preocupagio iio apenas porque é uma precondigio material para viver?, mas porque nossa preocupagio central é mudar o mundo negando 0 {que exise. Pensar o mundo da perspectiva do grito & pensi-lo da ectiva do fazer. io Jo20 se equivoca duplamente, entio, quando afirma: “No principio, era o verbo”. Equivoca-se duplamente porque, para di- ‘etem termos tradicionais, essa afirmagio é positiva e idealista. O verbo nao nega, 0 grito, sim. E 0 verbo nao implica fazer, enquan- (00 grito sim. O mundo do verbo é estivel, €0 mundo do sentar- umna-cadeira-e-ter-uma-conversa, o mundo do sentar-se-no- rio-e-escrever, um mundo contente, longe clo grico que Engels, 1976, p. 41-42). Prenat 42 Mudaro mundo mudaria tudo, longe do fazer que nega". No mundo do verbo, 0 fazer é 0 pensamento de falar e faze, a pritica se separa da teoria, No mundo do verbo, a teoria é 0 pensamento do pensador, al- _guém que permanece em calma reflexdo, com 0 queixo apoiado na io, 0 cotovelo no joclho. “Os filésofos”, como afirma Marx em sua famosa décima primeira tese sobre Feuerbach, “apenas inter- pretaram o mundo de diferentes maneiras; a questo, no entanto, é mudéto” ‘A tese de Marx no significa que deverfamos abandonar a teoria ‘em favor da pritica. Significa, a0 contririo, que deveriamos enten- ica, como parte da uta para mudar 1 sio parte do movimento der a teoria como parte da pr 0 mundo, Tanto a teoria como o fa pritico da negagio. Isso implica, entio, que se deve entender 0 fazer em um sentido amplo, certamente nao s6 como trabalho € tampouico apenas como uma ago fisica, mas como 0 movimento completo da negatividade pritica. Enfatizara centralidade do fazer indo é negara importincia do pensamento nem da linguagem, mas simplesmente vé-los como parte do movimento total da negatividade pritica, da projegio pritica mais além do mundo que existe para tim mundo radicalmente diferente. Centrar-se no fazer é,simples- mente, ver o mundo come lua. Poderia argumentar-se que se deveria pensar em mudar a soc dade no em termos de fazer, mas em termos de niio-fazer, de pregui ga, de rejeigéo a0 wabalho, de desfrute. “Sejamos preguigosos em tudo, exceto ao amar e beber, exceto em sermos preguigasos”. Lafurgue comega sua obra The right to be lazy (O direito& preguisa) 10. As palavas de so Joto no tém interessesomente para os erutitos da Biblia, tmastambém para os que extio na base da teoria pés-moderna, quando esta privilogia a linguagem. Veja Foucault (1973, p: 306): "..com Nictszche, com Mallarmé, 9 pensamento se voltou de novo, ¢ como na unio da nossa escrita com o fluxo do fazer que a ctiow. A coisidade é uma amnésia cristalizada’”. O fazer que criou a coisa (nao sé esse fazer espectfico, mas o fluxo toral do fazer de que essa coisa é parte) € esquecido. A coisa agora existe por si mesma como uma mercadoria a ser vendida, com set rio valor. O valor da mercadoria a declaracio de sua cia religio ao fazer. O fazer que criou a mercadoria € esquecido, 0 fluxo coletivo do fazer de que é parte ¢ oculto i forga, é convertido em uma corrente subterranea. O valor adquire vida por si mesmo. O rompimento do fluxo do fazer €levado até suas tiimas conse- gjiiéncias. O fazer é empurrado sob a superficie e, com ele, tam- bbém os faredores. Mas hé algo mais: a fragmentacéo em que se baseia o poder-sobre também deixa de lado aquelés que exercem css: poder. Na sociedade capitalista, 0 sujeito nao é capiralista. Nao € 0 capitalista quem tomaas decisées, quem di forma a0 que se faz. O sujeito € 0 valor. O sujeito € 0 capital, o valor acum «lo. Aquilo que o capitalista “possui’, o capital, deixou de lado os apitalistas. Eles sio capitalist s6 na medida em que sao serven- \cs fidis do capital. A verdadeira importancia da propriedade se perde no segundo plano. O capital adquire dindmica por si mes- ino 0s membros dirigentes da sociedade sio, simplesmente, seus 1. Veja Horkheimere Adorno (1972, p.230): "Toda coisificagio é um esque- 58 Mudaro mundo serventes mais leais, seus cortesios mais servis”. A ruptura do fluxo do fazer € levada até suas mais absurdas conseqiiéncias. O poder-sobre se separa do poderoso, O fazer se nega e a negagio cristalizada do fazer, o valor, domina o mundo Em lugar de que seja 0 fazer 0 que entrelaga nossas vidas, agora sua negagio, 0 valor na forma de equivalence universal e visivel, 0 dinheito, 0 que as entrelaga ou, melhor, o que separa nossa vida em partes ¢ torna a uni-la em um todo despedagado. Iv © poder-fazer ¢ inerentemente social e € transformado no seu opasto, 0 poder-sobre, pela forma de sua sociabilidade. Nossa capacidade de fazer € inevitavelmence parte do fluxo social do fazer, ainda que a fratura desse fluxo subordine essa capacidade a forcas que nao controlamos. ( fazer, entio, existe antagonicamente, como um fazer que se volta contra si mesmo, como um fazer dominado pelo feito, como tum fazer alienado em relagio ao fazedor. A existéncia antagénica do fazer pode ser formmulada de diversas maneiras: como um anta- ggonismo entre 0 poder-fazer © 0 poder-sobre, entre o fazer € 0 trabalho alienado, entre o feito ¢ o capital, entre a utilidade (0 valor de uso) € 0 valor, entre o fluxo social do fazer ea fragmenta io, Em cada caso, existe um antagonismo bindrio entre 0 pri- nciro eo tltimo componente de cada formulagio, mas esse anta- gonismo nao é externo. Em cada caso, o primeiro existe como 0 tiltimo: 0 tiltimo é 0 modo de existéncia ou a forma do primero. Em cada caso, 0 tltimo nega 0 primeiro, de tal maneira que 0 primeito existe no modo da negacio". Fm cada caso, 0 contetido 32, Iso se aplica nios6 208 priprios cpitalistas, mas também 20s politicos, 205 fancioasro pias acs prfesoes te j 33. Sobe o assuneo, veja Gunn (1992, p. 14): “A éxtase existe na concepei ‘marxista, mas existe como luta que subsistealienadamente isto é, no made deser regia’ Mais além do poder? 59 (0 primeiro) édominado por sua forma, mas existe em uma ten- so antagénica com ela. Essa dominagéo da forma sobre o contetido (do trabalho alienado sobre o fazer, do capital sobre o feito ¢ as- sim sucessivamente) é a fonte desses horrotes contra os quai gri- amos. Mas que estado tem 0 que existe na forma de ser negado? Exis- te na realidade? Onde esté 0 poder-fazer? Onde se encontra 0 fazer que no estéalienado? Onde esté o fluxo social do fazer? Ser «que ni s4o mera idias ou ecos rominticos de uma Era de Ouro imagindria? Certamente néo pensamos neles como quem prope luma volta a uma outra era: se é que alguma vez houve uma era lourada do fazer livre (um comunismo primitive) realmente ago- ‘no nos importa. Nao apontam para o passado, mas para um fucuro possivel: um futuro cuja possibilidade depende de sua exis- t@ncia real no presente. O que existe na forma de ser negado existe, Portanto, ¢ inevitavelmente, na rebeliso contra sa negacio. Nao existe um fazer nao alienado no passado, tampouico pode exist, A maneira hippie, em um idilio presente: no entanto, existe, de maneira critica, como antagonismo presente com sua negacio, omo uma projesio-mais-além-de sua-negagio-para-um-mundo- uliferente presente, como um ainda-ndo-existente no presente™ © que existe na forma de ser negado € a substincia do extitico, a materialidade do grito, a verdade que nos permite falar do mun- ddo que existe dizendo que ¢ faso. Mas ha mais do que isso. O poder-fazer existe na forma de poder-sobre, na forma, portanto, de ser negado. Nao s6 existe como rebelido contra sua negagio, existe também como substrato inaterial da negaso. A negagao nao pode existir sem 0 negado, O feito depende do fazer”. O proprietétio do feito depende do fivedor. Nao importa quanto o feito negue a existéncia do fazer 4.Sobrea existénca presente do ainda-nio, veja Bloch (1986) 55. Este € 0 micleo da teoria clo valor trabalho de Marx. 6) Mudaromundo Mais além do poder? 61 como no caso do valor ou do capital, nfo existe maneifa em que o coletivo do fazer: de outro, esté a tentativa de impor a fragmenta- feito possa existr sem o fazer. Nao importa quanto o feito domnine ‘io nesse fluxo uma e outra vez, de impor a negacio de nosso 6 fazer, depende daqueles que dominam. O capital depende abso- fazer. Na perspectiva do grito, o aforismo leninista de que o poder Jutamente do trabalho alienado que o cria (e, portanto, da transfor- um assunto de saber quem bate em quem resulta absolutamen- saci prévia do fazer em trabalho alienado). O que existe depende te falso e também é a afirmagio maofsta de que 0 poder provém para sua existéncia do que existe s6 sob a forma de sua negasio. Esta do cano de um tevélver: 0 poder-sobre pode vir do cano de um &a debilidade de qualquer sistema de dominio ¢ a chave para se revélver, o poder-fazer nao. A luta para libertar 0 poder-fazer nao omprender sua dinimica, Esta ¢ a base da esperanga. € a luta para construir um contra-poder, mas na realidade um “Poder”, entZo, & um termo confuso que oculta umm antagonis- antipodes algo completamente diferente do poder-sobre. Os concei- mo (eo far de maneita tal que reflere 0 poder do poderoso). F tos de revolugio que se concentram em tomar 0 poder habitual- ttilizado em dois sentidos muito diferentes: como poder-fazer & mente se centram na nogio de contra-poder. A estratégia consiste ‘como poder-sobre. Em inglés, esse problema as vezes se resolve em construir um contra-poder, um poder que possa se opor a0 tomando termos de outros idiomas ¢ colocando uma distingao poder dominante. Muitas vezes, 0 movimento revolucionstio foi centre potentia (poder-Fuzet) ¢ potestas (poder-sobre)* construldo como uma imagem especular do poder, exército contra ‘No entanto, propor a distingio nesses termos pode ser com- exército, partido contra partido, com o resultado que o poder se preendido como se fosse apenas apontar uma diferenga, quando o reproduz dentro da prépria revolucio. © antipoder, entio, nao é Pista male isa niet uum contra-poder, mas algo muito mais radical: €a dissolugio do poder-sobre, a emancipagio do poder-fazer. Este é0 grande, absur- do e inevitével desafio do sonho comunista: criar uma sociedade livre de relagées de poder. Muito mais radical que qualquer idéia de revolugao baseada na conquista do poder € muito mais realista. © antipoder se op6e fundamentalmente ao poder-sobre nio apenas no sentido de que é um projeto radicalmente diferente, mas também porque existe em constante contlito com 0 poder- que esté em questio é um antagonist torfose antagénica. © poder-fazer existe como um poder-sobre, mas o poder fazer esta sujeito a uma revolta contra poder-sobre, € 0 poder-sobre nio é nada mais que a metamorfose do poder- fazer e, portanto, absolutamente dependente dele ‘A uta do grito é a la para libertar 0 poder-fazer do poder- sobre, a lua paca libertaro fazer do trabalho alienado, para liber- tara subjetividade de sua objetivagio. Nesta luta, & crucial enten- der que nfo se trata de um assunto de poder contra poder, de Semelhante contra semelhante. Nao é uma luta simérrica, A luta para libertar o poder-fazer do poder-sobre éhuta pela reafirmagio | lo fluxo social do fazer, contra sua fragmentacio e negacio. De tum lado se encontra a luta para voltar a entrelagar nossa vida na base do reconhecimento muituo de nossa participagio no fluxo sobre. A tentativa de exercer 0 poder-fazer de uma mancira que no implique o exercicio do poder sobre os outros inevitavelmen- te entra em conflito com o poder-sobre. Potentia nio é uma alter- nativa a potestas, que simplesmente pode coexistir de forma pact- fica com ela. Poderia parecer que simplesmente podemos cultivar nosso préprio jardim, criar nosso préprio mundo de relagées smorosas, cjitarsujarmos a8 méos com a imundlicie do poder, masiisso é uma iluséo, Nao existe a inocéncia e esta verdade adqui- eh re cada vex mais intensidade. O exercicio de um poder-fazer que 36, A mesma coisa pode set afirmada em termos da dimensio que existe entre ie zi od pose pmaniron ene Vrgene Macht Ba ee eae a 62 Mudare mundo «© poder-sobre, como luta, Isto se deve nao A caracteristica do po- dder-faver (que nao inerentemente antag6nico), mas & natureza vora?, 1“fome canina”” do poder-sobre. O poder-fazer, se nao se submerge no poder-sobre, pode existir, aberta ou larentemente, s6 como poder-contra ou como antipoder. E importante enfatizar 0 antagonismo do poder-fazer no capi- talismo porque a maior parte das discussées da corrente principal da teoria social fz vistas grossas A natureza antag6nica do desen- ‘volvimento do proprio potencial. A narureza antagonica do poder é dissimmulada ese supe que a sociedade capitalista proporciona a coportunidade para se desenvolver ao méximo o porencial humano (o poder-fazer). O dinheiro, quando lhe é outorgada alguma rele vancia (e, surpreendentemente, em geral no é mencionado nas Uiscussoes sobre 0 poder, talvez porque o dinheiro seja tema da economia eo poder, da sociologia), em geral é visto em termos de dlesigualdade (acesso desigual aos recursos, por exemplo) em Ii gar de em termos de comando. O poder-fazer, supoe-se, jf estk ‘emancipado. Pode-se dizera mesma coisa em relagio a subjetividade. O faro dle que o poder-fazer possa existir somente como antagonismo a0 poder-sobre (como antipoder) significa, naturalmente, que, no Capitalismo, a subjetividade s6 pode existr de forma antagonica, can oposigao a sua propria objetivizagio. Tratar o sujeito como jé ‘emancipado, como faz a maior parte das principais correntes te6- ricas, 6 confirmar a objetivizacio presente do sujeito como subje- tividade, como liberdade. Muitos dos ataques que os estrucuralis- tas o1 08 pés-modernos realizam contra a subjetividade podem ser entendidos, ralvez, como ataques a uma idéia falsa de uma subjetividade emancipada (e, portanto, autonoma e coerente)- 37, Marx (1965, p. 243). 38. Veja Ache (1099, p- 92-93): “Desde a consrbuigi ce Kant, aidéia de que la subjetividade que pertencem we nas bases de grande parce da existem certascaraceristicas fundamen 4 sua essEncia e que esto prefixadas Mais além do poder? 63 Defender aqui 2 inevitabilidade de tomar a subjetividade como nosso ponto de partida no é advogar por uma subjetividade coe- rente ou auténoma. Ao contritio, 0 fato de que a subjetividade possa existir s6 em antagonismo com sua prépria objerivizagio pei cespedacada por essa objetivizagzo e sua huta con- tra ela Este livro contém uma andlise do absurdo e sombrio mundo do antipoder. E sombrio e absurdo simplesmente porque no mundo da cincia social ortodoxa (a sociologia, aciéncia politica, a'econo- mia e outras), o poder é de tal forma aceito como verdadeiro que ‘nfo permire ver nenhuma outra coisa, Na ciéncia social que busca explicar 0 mundo como é, mostrar como funciona, 0 poder é a pedra fundamental de todas as eategorias de forma tal que, apesar de (e inclusive por causa de) sua proclamada neutralidade, essa citncia social participa ativamente da separagio entre sujito e ob- jeco que é a substincia do poder. Para nds, o poder interessa s6 na ‘medida em que nos ajuda a compreender o desafio do antipoder: cstudar o poderpor si mesmo, abstraindo-o do desafio que implica 6 antipoder ¢ de seu projeto, s6 pode reproduzir 0 poder. v Apresentamos 9 tema do poder em termos de um antagonismo binario entre o fazer € 0 fato no qual 0 fato, na forma do capital {aparentemente controlado por, mas de fato sob controle dos ca- tuadigto filos6 ica de Ocideme... Os contempotineos opositoresaeste pon to de vista reformulam a idéia de sujeico como produto da culeurs, da ideologia e do poder. Em hagar de vera subjetividade como algo aurdnomo ‘cestabelecido,chegam ao sujeivo como algo aberto, instivel e que apenas se ‘onncém unids". © problema, no encanco, nfo € negar a importineia da subjerividade, mas resgatae a subjtividade do influxo do sujeico iealiaa- slo, Ou, como afiema Adorno (usilizando em sentido inverso os termos sujeco” e “subjetividade"): "Desde que o autor seatreveu a confiar em seus ‘pcos impulsas mentas,sentiu como propria a arefa de quebrar com a Foca do sujeito 0 engino de uma subjetividade consciutiva’ (1990, p. xx). 64 Mudaro mundo, pitalistas), subordina todo o fazer de maneira cada vez mais voraz, com 0 tinico propésito de sua prépria expansio. Mas isso nao ¢ demasiado simples? A questo do poder nao é muito mais complexa? © que acontece com a maneira pela qual «os doutores tratam seus pacientes; os professores, seus estudantes; 1 pais, seus filhos? O que acontece com o tratamento que os bbrancos dao aos negros? E 0 que acontece com a subordinacio das mulheres aos homens? Nao é demasiado simplista, demasiado reducionista dizer que 0 poder é capital e que o capital é poder? Nao existem distintos tipos de poder? Foucaule, em particular, afirma que é um erro, ra em termos de um antagonismo bindrio, que devemos pensar nele mais em ter- mos de . “mmultiplicidade de relagbes de forca’”. A multiplicidade dle relagies de poder corresponde ento uma multiplicidade de resis- téncias que ‘estio presentes em todas as partes dentro da rede de poder. Em relacio ao poder aio existe, entio, um lugar da grande Rejeicio ~ alma da revolt, foco de todas as rebelides, lei pura do revolucionsrio, Mas hi virias resisténcias que cons- tituem excegdes, casos especiais: possiveis, necessirias, im- provaveis, espontineas, selvagens, solitirias, ajustadas, ras- teiras, violentas, irreconeilidveis, rpidas para a transagio, interessadas ou sacrificadas; por definigio, nio podem exis. tir senio no campo estratégico das relagdes de poder.” Em relagio a0 nosso grito, isso sugeriria uma multiplicidade sem fim de gritos. E efetivamente é assim: gritamos de diferentes maneitas ¢ por distintas razées. Desde 0 comeco de nosso argue mento, enfatizamos que 0 nés do “nés gritamos” é uma questio central neste livro, nao uma simples afirmagio de identidade. Por que, entio, insistir na natureza bindria de um avassalador antago- 39. Foucaule (1990, p. 92). 40. dem, p- 126, Mais além do poder? 65 nismo entre fazer € 0 feito? Nao pode ser apenas uma defesa abstrata de ur enfoque marxista ~ isso nfo faria sentido. Tam- pouco é, de forma alguma, a intengio de impor uma tinica iden- tidade ou unidade sobre a manifesta multiplicidade da resiseén- ntengo de subordinar toda a variedade de resisténcias 3 tunidade a privri da classe trabalhadora. Tampouco trata-se de cenfatizar o papel empirico da classe trabalhadora e sua importin- cia sobre “outras formas de lura”, Para explicar nossa insisténcia na natureza bindria do antago- nismo de poder (ou, em termos mais tradicionais, nossa insistén- «cia numa andlise em termos de classe), é necessério retroceder um pouco. O ponto de partida de nosso argumento nao é a necessi dade de compreender a sociedade out de explicar como ela funcio- nia. Nosso ponto de partida é muito mais penctrante: 0 grito, 0 impulso de mudar a sociedade de maneira radical. E dessa pers- pectiva que nes perguntamos como funciona a sociedade. Esse ponto de partida nos levou a colocar a pergunta pelo fazer no centro de nossa discussio c isso, por sua ver, nos levou ao antago- hismo entre o ‘azer €0 feito. Obviamente, outras perspectivas sio possiveis. £ mais comum ‘comegar de maneira positiva, com a pergunta acerca de como fun- ciona a sociedade. Essa perspectiva nao necessariamente nos leva a hos centrarmos no farer ¢ na maneira em que ele se organiza. No caso de Foucault, faz com que, na realidade, nos centremos no fila, na linguazem. Esse enfoque certamente permite que cle es- «latega a enorire riqueza e complexidade das relagies de poder na ‘ociedade contemporinea e, 0 que é mais importante na nossa petspectiva, a riqueza ea complexidade da resistencia ao poder. No entanto, é a riqueza e a complexidade préprias de uma foro- jiifia fixa ou de uma pintura*". Nao ha movimento na sociedade ‘que Foucault aralisa: muda de uma fotografia fixa a outra, mas 11, Revordamos sua fiscinante andlise das Menina: de Velinquez. no comeso de he order of things (Ar pales eas cos fascinante, mas sem movimento 66 © Mudaromundo Mais além do poder? 67 aio hi movimento, Nao pode haver, a menos que 0 foco esteja no Assit, propor a questio da vulnerabilidade do poder exige faver e na sua existéncia antagénica. Assim, na andlise de Foucault dois pasios: em primeiro lugar, a abertura da categoria de poder existe uma imensa multidao de resisténcias que sio essenciais 0 para revelar seu carater contraditério, que descrevemos aqui em ter- poder, mas nao existe possibilidade de emancipasio. Aiinica possi- mos de antagonismo entre poder-fizer poder-sobre; €, em se- bilidade é uma mutante constelagio de poder-c-resisncia sem fim undo lugar, a compreensio dessa relagio antagénica como uma (© argamento deste capitulo nos levou a dois resultados im- Jchisto interna. O poder-fazer existe como poder-sobre: 0 poder- portantes que valem a pena ser reiterados. Em primeciro lugar, sobre éa forma do poder-fazer, uma forma que nega sua substin- eenerar-se no fazer levou a uma compreensio da vulnerabilidade «ia. O poder-sobre 56 pode existir como poder-fazer transforma- dio pader-sobre. O fato depende do fazedor, o capital depende 110, O capital s6 pode existir como produto do fazer transformado do trabalho alienado. Esse € 0 raio de luz essencial, 0 clario de (trabalho alicnado), Esta é a chave da sua debilidade. O tema da esperanca. A compreensio de que o poderoso depende do “des- forma, tio central na discussio do capitalismo de Marx, é crucial pojado de poder” faz com que o grito de raiva se transforme fiir uma compreensio da vulnerabilidade da dominagio. A dis- hum grito de esperanga, num grito confiante de antipoder™. Hing que faz Negri (e que desenvolve de forma tio brilhante)* sta compreensio nos faz iralém de uma perspectiva meramen= ‘tie poder consticuinte e poder constituido dé o primeiro desses tico-radical de uma luta sem fim contra o poder para lois passos ¢ abre a compreensio da natureza auto-antaghnica do dda qual podemos propor o tema da vulne- poder como uma condigio prévia para falar da transformagio re tedemoc uma posigio a partir tabilidade do capital e da possibilidade real da ttansformagio Wolucioniria, No entanto, a relagéo entre poder constituinte € social, Dessa perspectiva, portanto, devemos perguntar sobre joer constitufdo continua sendo externa. A constiuigao (a tran {qualquer teoria no o quanto cla lumina o presente, mas quanta jugiie do poder constituinte em poder constituido)¢ vst liz joga sobre vulnerabilidade do dominio, Nao queremos uma 10) Yeapto a0 poder constituinte democrético da multi da dominagao, mas uma teoria da vulnerabilidade da do- HH entanto, nada nos diz sobre a vulnerabilidade do processo da cor! Wigio. Diante do poder-sobre (poder constituido), nos fila minagio, da crise da dominagio, como uma expressio de nosso (anti-)poder. A énfase na compreensio do poder em termos de J biqtlidade e da fora da lura absoluta da multidao, mas nio tuma “multiplicidade de relagbes de forga’ no nos proporciona Hs fila nada do nexo crucial de dependéncia do poder sobre (po- uma base para fazermos essa pergunta. Ao concritio, rende & "Hh conwtiruido) cm relagio a poder-fazer (poder constituinte). cexcluira pergunta porque, enquanto a resistencia se fundamen- Hove sentido, apesar de toda forga e brilho de sua explicagao, te no enfoque de Foucault (pelo menos em seus iltimos trabas igi permancce no nivel da teoria democritico-radical**, {hos), a nogio de emancipagio se exclui como absurda porque , tal como Foucault corretamente observa, 0 supost@) = pressupi relagées de poder. arasane de uma unidade smparar a recuperacio que Faz Negri do impulso demoeré ca tcoria politica (0 desenvolvimento do conceita de "poder Jpn) com a scuperaio que fx Bloch do Aid _ Jo, a projesio : fe no flelore, na in politica, Concraste-s, por exemplo, a andlise entusiasta de # Joachim de Fiore (1986, p. $90-8) com Negri, que, unindo a 72. Fata & cervamente uma contribuigio Fundamental do marxismo & te jedade existence, como um tema consta 43.Neja Holloway (19954). 68 Mudaromundo Essa énfase na perspectiva do grito nos leva ento a um empo- brecimento da visio da sociedade? O argumento apresentado aci- ima parece sugerir que a perspectiva do grito leva a uma visio binéria do antagonismo entre fazer feito e que, nessa perspecti- ‘va, ndo hi espago para a “multiplicidade de forcas” que Foucaule considera essencal para dscussio do poder nso parece suger tum estilhagamento entre a perspectiva negativa ou revolucioniria emul da onder complexidade da socieda~ de, Este seria sem vdeo io (¢ consti um ties ortante para nosso argumento) se nfo houvesse um segundo re- Mead de own dno anerio: qua eago ancagonica ete «6 fazer € 0 feito e, especificamente, a fratura radical do fluxo do fave inerente aque o poder-sobre existe como posse do feito, signi- fica uma miiltipla fragmentacio do fazer (¢ das relagbes socias). Em outras palavras, a prépria compreensio das relagbes socials ‘como caracterizadas por um antagonismo bindrio entre 0 fazer € 0 feito significa que esse antagonismo existe na forma de uma multplicidade de antagonisimos, que existe uma grand heterogencidade do conflito, Existe, na verdade, um milhao de formas de resisténcia, um mundo de antagonismos imensamente: complexo. Reduzi-las a uma unidade empirica de conflio entre capital e trabalho, defender uma hegemonia da luta da classe tra- balhadora compreendida empiricamence ou afirmar que essa8 #e sisténcias que aparentemente no sio de classe devem ser subsumidas & luca de classes, seria uma violéncia absurda. O ar gumento aqui é exatamente o contritio: fo dequeasocielade capitalista se caracteriza por um antagonismo bindrio entre o fa= ver e 0 feito significa que esse antagonismo existe como uma : iaceron da vain com Srna fi“) jn com Magu sod Jeach ompfsdetem poe, mo ico oem doin” (23 100 ce na Naps dele mas eens capitulo 9. Mais além do poder? 69 mulciplicidade de antagonismo. A natureza binéria do poder (como antagonismo entre poder-fazer) significa que o poder apa- fece como uma “multiplicidade de forcas’. Em lugar de comesar com a mulkiplicidade, necessicamos fizé-lo com a multiplicagio anterior que dé saida a essa mmultiplicidade, Em lugar de comecar com miltiplas identidades (mulheres, brancos, homossexuais, bnascos, irlandleses etc.), precisamos comesar com 0 processo de identificagéo queas gera. Dessa perspectiva, um aspecto dos enor- nemente estimulantes escritos de Foucault é precisamente que, sein aptesenté-lo nesses rermos, ele enriquece muito a hossa com- ppreensio da fragmentagzo do fluxo do fazer, a nossa compreensio hiswrica do que caracterizaremos no préximo capitulo como o processo de fetichizagio. Necessitamos considerar um iiltimo ponto antes de passar & discussio en torno do fetichismo, Uma parte importante do ar- juumento d: Foucaule é que nao se deveria entender 0 poder em {ermos purmente negatives, que também devemos entender como © poder constitui a realidade e nos constitui, Ou seja, nao somos concebides nem nascemos em um vazio livre de poder, mas em Juma sociedlade permeada pelo poder; somes producos dessa socie- hile. No eatanto, Foucault nao consegue revelar a categoria de poder, nfo consegue apontar para 0 antagonismo fundamental Wie o caracteriza. Assim, podemos dizer, por exemplo, que somos jrodutos do capital, ou que cada coisa que consumimos é uma inereadoria Parece ser assim, mas enganoso. Sé quando revela- ‘nos essas categorias, quando dizemos, por exemplo, que a merc tloria se careetetiza por um antagonismo entre valor e valor de uso (Wilidade), que 0 valor de uso existe na forma de valor e como fevolta @ essa forma, que o desenvolvimento completo de nosso jjoiencial humano pressupde nossa participagao nessa rebelio, e \ssim sucessivamente: é s6 ento que podemos fazer com que te- ‘hy sentido a afirmagao de que tudo © que consumimos é uma Jyeveacoria, A mesma coisa acontece com o poder: 6 quando re- velumos a categoria poder e vemos 0 poder-sobre como a forma 70 Mudaro mundo antagénica do poder-fazer, tem sentido dizer que o poder nos i. © poder que nos constitui é um antagonismo, um an- tagonismo de que somos parte de maneira profunda e inevicivel. 4 FETICHISMO: O DILEMA TRAGICO. 1 No tiltimo capitulo, afirmamos que a transformaco do poder- fazer em poder-sobre se concentra na rupeura do fluxo social do fazer. No capitalismo, o fato é separado do fazer e se volta contra Essa separagao do feito em relacio ao fazer &0 ruicleo de uma frarura milipla de todos os aspectos da vida. Sem dar nomes, jf entramos na discussio do fetichismo. ‘Fetichismo” é 0 termo que Marx utiliza para descrever a ruptura do fazer. E-o micleo da discussio de Marx sobre o poder e ¢ funda- ‘mental para qualquer discussio em relagio a mudaro mundo. Bo conceito central do argumento deste livt. Fetichismo & uma categoria que nfo se adapta facilmente 20 discurso académico normal. Em parte por essa razio, foi relativa- ‘mente negligenciado por aqueles que tentam forgat 0 marxismo nos moldes das diferentes disciplinas académicas. Mesmo sendo tuna categoria fundamental em O capitalde Marx, aqueles que se yéem como cconomistas marxistas 0 ignoram quase que comple- tamente!, Da mesma forma, € negligenciado por socidlogos € cientistas politicos marxistas, que normalmente preferem come- ‘yar pela categoria de classe e adapté-ta is estruuras de suas disci- 1. Veja, por exemple, a escassa mengio do fetichismo nos dois volumes le History of Marcian Economics (1989, 1992), de Howard e King, 72 Mudaro mundo plinas. © fetichismo, quando € discutido, ¢ quase sempre consi- derado como algo préprio do reino da filosofia ou da critica cul- tural, Relegado e classificado desta maneira, 0 conccito perde sua forca explosiva ‘A forca do conceito reside no fato de se referir a um horror insustentivel: a autonegagdo do fazer. u (© jovem Marx nao analisa a autonegagio do fazer em termos de fetichismo, mas em termos de “alienacio” ou de “estranhamento” “Alienacao”, termo agora constantemente utilizado para descrever ‘um mal-estar social geral, se refere na discussio de Marx 4 ruptu- sa do fizer caracterlstica da organizagio capitalista de produsao. Em seu estudo sobre o “trabalho alienado” em Economic and philocophic manuscripts op 1844 (Manuscritos econimice-filostficos de '1844), Marx comeca a partir do processo de producio afirmando que no capitalismo a produgio no é apenas producio de um obje~ to, mas produgio de um objeto que é estranho ao produtor. ‘A alienagao do trabalhador no seu produto significa n3o so- mente que seu trabalho se converte em um objeto, em uma cexisténcia externa, mas que existe fora dele, independentemen- te, como algo estranho a ele, que se converte numa forga diante de seu préprio confronto. Isso significa que a vida que propiciou a0 objero o enfrenta como algo hostil ¢ estranho# ‘A separagio do fazer em relagio 20 feito & inevitavelmente, a separacio do fazer em relacio a si mesmo’. A producéo de um objeto estranho € inevitavelmente um processo ativo de auto- estranhamento. Mare (1975, p. 272) Pocenquanto, seguimos o estilo dos tadurores de Marx quando se referem & gente como homens ¢ como “ele”, Jevando em conta, claro, que no original alemao Marx utiliza 0 temo “Mensch” (pesso). Fotichismo: 0 dilema trigico 73 Como poderia o trabalhador enfrentar 0 produto de sua atividade como algo estranho se no ato mesmo da produ- Gio nfo se alienasse de si mesmo? (...) Se 0 produto do trabalho é a alienagio, a prépria produgio terd que ser a alienagio ativa, a alienagio da atividade; a atividade da alie- nagio.* A alienagio do homem em relagio 4 sua propria atividade € amto-alieracio: €0 préprio trabalhador quem produz ativamente sua prépraalienagio. Aruptura do fazedor em relagio ao feito é a negacio do poder- acio do poder- fazer do fizedor. O fazedor se converte em vitima. A atividade se converte em passividade, o fazer em softer. O fazer se volta contra 0 fzedor, Esti relagio é a relagio do trabalhador com sua propria ati- vvidide, como uma atividade estranha, que nfo The pertence, € a atividade como sofrimento, a forga como imporéncia, a gericio como castragio, a prdpria energia fisica espiritual do srabalhador, sua vida pessoal - pois 0 que é a vida senio. atividade? ~ como uma atividade que Ihe pertence, indepen- dente dele, dirigida contra ele* Aalienagio éa produgio de seres humanos danificados, priva- ddos de sus humanidade: Porisso 0 trabalho alienado, ao arrancar do homem 0 objeto de sua produgio, lhe arranca sua vida genérica, sua real obje- tividade genérica e transforma sua vantagem em relagio ao animal em desvantagem, pois ele se vé privado de seu corpo ino-ginico, da natureza.* Isom, p 274 Idem, p. 275. Isle, p. 277. 74 Mudaro mundo Este “arrancar do homem o objeto de sua produgio” o aliena de sua humanidade coletiva, de sua “vida genérica’. “O trabalho alienado (...) faz do ser genérico do bomen (...) um ser alheio ale, le existencia individual”. Isto implica a fragmentacio coletivo humano, a alienagio do homem em relagio 20 homem.”* © reconhecimento miituo se rompe, nio s6 entre o dominador e 0 dominado, mas entre os préprios trabalhadores. © queé vilido sobre a relacio do homem com seu trabalho, com o produto do seu trabalho e consigo mesmo, vale tam- ‘bém paraa relagio do homem com o outro e com o trabalho ‘eo produto do trabalho do outro. Em geral, aafirmagio de que o homem esta alienado do seu ser genérico quer dizer, que um homem esti alienado do outro, como cada um deles sth alienado da esséncia humana? © termo “vida genérica” ou “ser genérico” refere-se, sem duivi- da, a0 fluxo social do fazer, 20 entrelagamento material de um “nds” mutuamente reconhecedor. Essa alienagio do homem em relagio ao homem nao ¢ apenas ‘uma alienagdo entre trabalhadores, mas é também a piodugao do nnjo-trabalhador, do patio. “Se o produto do trabalho nfo pet- tence ao trabalhador, se é diante dele um poder estranho, isso 86 é possivel porque pertence a outro homem que ndo ¢ 0 trabalha- dor.” © trabalho alienado é a produgio ativa da dominagio, a conversio ativa do poder-fazer em poder-sobre. Da mesma maneira que faz da sua propria produgio sua desrealizagio, seu castigo; seu préprio produto como uma perda, como um produto que nio lhe pertence; assim tam- 7. dem, p. 277. 8. Idem, 9. Idem, 10. Idem, p. 278. Fetichismo: o dlilema tragico 75 bém cra a dominagio de quem nio produz sobre o produto Assim como se aliena de sua prépria atividade, ele concede ao estrinho uma atividade que nao é a sua." Assim, a idéia de alienagio se refere a ruptura do fluxo social do fazer, a0 sevoltar do fazer conta si mesmo. Nio €0 resultado destino ou daintervengio divina: o fazer humano € 0 tinico sujei- 10, 0 tinico que constitui © poder. Somos os tinicos deuses, os nicos criadores. Nosso problema, como criadores, é que estamos criando nossa prépria destruigio. Criamos a negacio de nossa prd- pia criagao. O fazer se nega a si mesmo. A atividade se converte fm passividade, o fazer se torna nio-fazer se corna ser. A alienagio ‘ssinala tanto nossa desumanizagio como o fato de que somos nds ‘osque a produzimos. Mas como é possivel que pessoas mutiladas, \lesumanizadhs, alienadas possam criar uma sociedade liberada, humana? A alienacZo assinala tanto a urgéncia como, aparente- ‘mente, a impossibilidade da mudanga revoluciondria. Anuptuca ent:eo fazer eo feito é aprescntada logo no comeso de O ipl, cpetndo a plavras das Manas de 1844 (A eli ‘le do trabalhador no seu produto significa (...) que (...) 0 produto ‘inte fora dele, independentemente, como algo estranho a ele, que se converte em um poder independente 20 confronté-lo”), Marx somega o segundo parigrafo de O capital dizendo: “A mercadoriaé, 14) primeiro lugar, um objeto externo”®. A mercadoria é um obje {9 produzido 20r nés, mas situado fora de nés. A mercadoria assti- ‘he vida por simesma, vida em que extingue sua origem social pelo Miers p. 275. © vec segue com aafinmagéo de que a propredade privada {4 comegineia nfo.a causa do rabalho slienado “do mesmo modo {ono osdevses ni so originalmenta casa, mas o fet da confusio do fiers humano Esta lao se transforma depois em uma inerag30, Hilger, p. 279-80). DY Marx (1965 p. 35. 76 © Mudlaromundo trabalho humano. E um produto que nega seu préprio cariter de produto, algo feiro que nega sua propria relagao com o fazer. ‘A mereadoria & 0 ponto de fratura do fluxo social do Fazer: ‘Como produto produzido para a troca, estd no centro da desarti- culacio do fazer social. £, claro, © produto do fazer social, mas 0 faro de que seja produizida para troca no mercado quebra fluxo social do fazer, faz. com que a coisa se mantenhia separada do fazer do qual é tanto produto como condigio prévia. Mantém-se por si ‘mesma para ser vendida no mercado, o trabalho que a produziu é esquecido, O trabalho que a produz € social (trabalho para os outros), mas ¢ social indiretamente, & trabalho para os outros que existe na forma de trabalho para si mesmo. © cariter social do fazer se rompe e, com isso, se zompe também o processo de reco- nhecimento miituo ¢ de legitimagio social. O reconhecimento dituo se separa dos produtorese se transfere para seus produtos: que se reconhece socialmente, no processo de troca, 0 produ- to. O reconhecimento do fazer se expressa como 0 valor do pro- duto, Agora é medida quantitativa, monetéria do valor (0 prego) 60 que proporciona legitimagio social ao fazer das pessoas. E 0 dinheito que the diz se o que voot faz ésocialmente ttl. ‘A mercadoria, entio, ndo é uma coisa que pode ser tomada_ por seu valor nominal. A andlise nos permite distinguir 0 traba- Iho que produziu a mercadoria e compreender o trabalho como a subseincia de seu valor, mas isso nos leva a uma pergunta muito mais ampla: por que se nega o fazer que produz a mercadoria? A economia politica analisou, ainda que de maneita incom- pleta, o valor e sua magnitude, e descobriu o contetido ocul- to dessas formas, $6 que nunca chegou sequer « perguntar por que esse contetido assume essa formas por que, entio, 0 trabalho se representa no valor, a que se deve que a medida do trabalho conforme sua duracio se represente na magnitu= de do valor conseguido pelo produto do trabalho.” 13. Idem, p. 80. Fetichisino: odilema trigico 7 O capital 60 escudo da antonegagio do faret. A partic da mer- cadoria, Marx se desloca para o valor, o dinheito, o capital, 0 lu- «10, a renda, 0s juros (formas cada vez mais opacas da ocultagio clo fazer, formas cada vez mais sofisticadas da supressio do-poder- fazer). O fazer (a atividade humana) desaparece cada vez mais da vista. As coisas dominam. Neste “mundo encantado, invertido ¢ dle cabega para baixa”™ volvimento capitalista’, Sobre a base da critica dessa loueura se torna possivel criticar as categorias dos economistas politicos, a se torna possivel falar das “leis do desen- racionalidade e as leis da anilise que realizam de um mundo irra- cional e pervertido. niicleo de tudo isso € a separacio do feito em relacio a0 fiver. Essa senaragio é inerente & mercadoria e recebe sua forma completamente desenvolvida no capital, na apropriacio do feito por parte dos proprietirios do feito passado (¢, portanto, dos meios lo fazer), na acumulagao do fazer sobre o feito, na acumulagao do capital. “Acumulem! Acumulem! Fis aqui Moisés e os profetas!” A acumulacao é simplesmente o processo voraz.e implacivel de se- pparar o fato em relagso ao fazer, de voltar o fato (como meios do fiver) contra os fazedores a fim de sujeitar seu fazer presente 20 \inico fim de maior acumulagio. Esse processo sempre renovado jproporciona uma forma especifiea ao fazer (como trabalho abstra- (0, trabalho abstraido de qualquer contetido particular, produgio de valor, produgio de mais-valia) e ao feito (como o valor, a mer- cadoria, o dinheiro, o capital): spectos da ruptura sempre rep. dla do fluxo social do fazer. Marx se refere em O capital a esse processo de ruptura no como slienagao, mas como “fetichismo”. Na sua anilise do fetichismo no final do Captulo 1 do primero volume dessa obra explica: Paea fazer (..) uma analogia pertinence devemos buscar am- paro ms nebulosas regides do mundo religioso. Neste, os 14, Marx (1972a, p. 830). 78 Mudaromundo produtos da mente humana parecem figuras auténomas, do- tadas de vida prépria, em relagio umas As outras e em rela- go aos homens." ‘A mercadoria é “um objeto endemoniado, rico em sutilezas merafisicas e rticéncias tealégicas”'’. O caréter “mistico das mer- cadorias”, diz Marx, no provém de seu valor de uso, mas da pré- pria forma da mercadoria, isto é, do fato de que 0 produto do trabalho alienado adora a forma de uma mercadoria, A igualdade dos trabalhos humanos adota a forma material, da igual objetividade de valor dos produtos do trabalho; a medida do gasto de forga de trabalho humano por sua dura ‘io assume a forma da magnitude do valor que assumem os produtos do trabalho; finalmente, as relagSes entre os pro dutores, em que se tornam efetivas as determinagées sociais de seus trabalhos, revestem a forma de uma relagio social entre os produtos do trabalho. Uma mereadoria é, portanto,, algo misterioso, simplesmente porque nela o cariter social do trabalho dos homens aparece para eles como algo objeti- Yo, fixado sobre o produto do seu trabalho; porque a relagio do valor total de seu trabalho éapresentada 20s homens como, uma relagio social nao entre eles, mas entre os produtos do seu trabalho.” Assim como Marx insistiu em entender a auto-alienagao como © produto do trabalho auto-alienado, também enfatiza que 0 cardter peculiar das mereadorias tem sua origem na “indole pe- culiar social do trabalho que produz mercadorias""”. A produ- 15. Marx (1965, p. 72) 16.dem, p. 71 17.Idem, p. 72. 18. Idem, Fetichismo: o dilema trigico 79 a0 de mercadoria é trabalho indiretamente social: apesar de os produtos serem produzidos para uso social, sua forma de pro- dugio privada. ‘Como os produtores nio entram em contato social até que ‘troquem os produtos do seu trabalho, os atributos especifica- ‘mente sociais desses trabalhos privados nio se manifestam senio no marco dessa troca. Ou, em outras palavras: de fato, os trabalhos privados nio ganham realidade como partes do trabalho social no seu conjunto, seniio por meio de relagies que atroca estabelece entre os produtos do trabalho e, atra- vvés dees, entre 0s produtores. A estes, em conseqiiéncia, as, +elagGes sociais entre seus trabalhos privados aparecem como 0 que realmente sio, isto &, nio como relagdes diretamente sociais travadas entre as pessoas no trabalho, mas, 20 con- trario, como relagdes proprias de coisas entre as pessoas'e relagdes sociais entre as coisas.” As relacdes s« nio aparecem meramente como relagGes entre coisas: na realidade, essa aparéncia reflete a ruptura real en- tre 0 fazer € 0 feito, a ruptura real da sociabilidade do fazer. As relagdes entre os fazedores realmente sio reftatadas por meio das relagées entre as coisas (entre os resultados do fazer que negam sua origem na sociabilidade do fazer). Essas coisas sio formas fetichizadas das relagées entre os produtores e, como tais, negam seu cardter de relagoes sociais. As mercadorias, 0 valor, o dinheiro escondem, “am ver de revelar, o cariter social dos trabalhos priva- dos e, portanro, as relagSes sociais entre os trabalhadores indivi- duais”™, pensamento burgués consolida a rupeura das telagGes sociais, sssumindo esas formas fetichizadas como sua base no lugar de critica-las. 19. Idem, p. 73 20. Idem, p. 76 80 Mudare mundo Formas semelhantes constituem precisamente as categorias da economia burguesa. Trata-se de formas do pensar social- ‘mente vilidas e, portanto, objetivas, para as relagGes de pro- dugio que caracterizam esse modo de produsio social, histo- ricamente determinado: a produgio de mercadorias.” Nio existe, entao, distingio clara entre pensamento ¢ realida- de, entre teoria e pritica. A teoria é um elemento da prética, que contribui ativamente para produgio ¢ reprodugio da separagio do fazer em relagio a0 feito. © ponto de partida para nosso pensamento é o mundo {fetichizado que nos enfrenta, Nascemos em um mundo em que a comunidade do fazer esté fragmentada. A separagio do fazer em relacio ao feito impregna completamente nossa relagio com 0 mundo e com aqueles que nos rodeiam. Nossa visio do mundo ja esti pré-formada antes mesmo de comegarmos a refletir critica: mente. O poder-sobre, a separagio entre o fazer ¢ 0 feito, inerente a produgio de mercadorias, apresenta aqui a si mesmo de modo impessoal. Marx introduz 0 fetichismo no contexto da produgo e da troca de mercadorias. Esta nfo é, no entanto, uma fase pré~ capitalista porque a generalizagio da produgio de mercadorias pressupde a existéncia de uma forca de trabalho como mercado- ria, isto 4, aexisténcia de uma sociedade capitalista”. O fetichismo da mercadoria é, em conseqiéncia, a penetragao do poder-sobre capitalista no micleo de nosso ser, em todos os nossos modos de pensar, em todas as nossas relaGes com as outras pessoas. Confrontados com 0 mundo fetichizado, a tinica coisa que podemos fazer & crticé-lo. O valor, por exemplo, 21. Idem. p. 76, 22."O que earacteriza, a0 operitio como uma mercadoria que the pertence, seu trabalho, fqientemence, se corna trabalho assalariado. Por out ao, a epoca capitalista équea Forga de trabalho parece do trabalho” (idem, p. 170). lado, a partir desse reraiza-se pela primeita veza forma metcantil dos produtos 81 Fetichismo: 0 dilema tragico (.) no tem uma etiqueta com a sua descrigio. Ao contr’ rio, transforma todo produto do trabalho em um hierdglifo social. Mais adiante, os homens procuram decifrar o sentido, do hierdglifo, desentranhar 0 mistério de seu proprio pro- duto social, j4 que a determinagio dos objetos para 0 uso como valores é produto social no mesmo nivel que a Tin- guagem.” A ee que 0 homem faz em torno das formas de vida social ¢, conseqiientemente, sua anilise cientifica, segue na diresio ogosta 3 seguida pelo seu desenvolvimento historico real. Ele comesa, pos fstum, com os resultados do processo. de desenvolvimento ji prontos 3 sua frente. * O pensamento burgués, no melhor dos casos, conseguiu deci- frar alguns dos hierdglifos sociais. “(...) a economia politica anali- sou, ainda que de maneira incompleta, 0 valor ¢ sua magnitude ¢ de poole © conteiido oculto nessas formas.” Existe, no entanto, lum limite para a critica. A separacao entre sujeito ¢ objeto, entre 0 fuer e 0 feito, implica inevitavelmente uma hipostasiagio do pre- sente, uma fixagio do presente. Na medida em que nio se questio- 14 separagio entre sujeito e objeto, na medida em que nao se vé a forma capitalista da organizacio social como transitéria, a crtica inevitavelmente, cega para a historicidade do fendmeno criticado. A rupra da sodeblldde do fie espe natural, tra, Em ‘outras palavras, © pensamento burgues (Fetichizado) ¢ cego para a Moris da foene, A pega pel orca (pa, dnb puleapal como formas das relagoes socias) surge somente se se estd conscien- te da historicidade das relagGes sociais burguesas, isto é, do fato de {ihe 0 capitalismo é uma forma histérica particular de organizar as felagdes entre as pessoas. BY Kem, p. 74 WA Idem, p. 75. BS. ldem, p. 0. 82 Mudaromundo Se (..) tomamos esse modo de produgSo pela forma natural eterna da produgio social nio veremos necessariamente 0 aque hi de especifico na forma de valor e, portanto, na forma da mercadoria, desenvolvida em seguida na forma de dinhei- ro, na de capital ete. Em conseqiiéncia, a critica burguesa nfo vé a génese do fend- meno ctiticado, nfo se pergunta por que as relagbes sociais exis- tem sob essas formas. ‘A categoria da forma ¢ central na discussio que Marx desen- volve em O capital. Refere-se ali a “forma-dinheiro”, & “forma- mercadoria”, a “forma-capital” ete. Essas nfo devem ser entendi- das como se fossem parte de uma distingao entre género e espécie (0 dinheiro como “forma” ou como “espécie” de alguma outra coisa), mas simplesmente como um modo de existéncia. O di- nheiro, a mercadoria, 0 capital sio modos de existéncia das rela- Ges sociais, as formas em que as relacbes sociais de fato existe”. Sio os modos de existéncia cristalizados ou rigidificados das rela- ‘g6es entre as pessoas. “Forma”, entio, é 0 eco do grito, uma men- sagem de esperanca. Gritamos contra as coisas tal como sto: sim, cchega o eco, mas as coisas-como-sio nfo slo eternas, so apenas as formas historicamente cristalizadas de relagGes sociais. ‘As formas que levam claramente sua pertingncia a uma formagio social em que o processo de producio domina 0 homem, em vez de o homem dominar esse processo, a cons- ciéncia burguesa dessa economia as considera uma necessi- dade natural 30 manifestamente evidente como o préprio trabalho produtivo.* ‘Mas para nés que gritamos nao so nem evidentes nem eternas. 26.1dem, p. 81 27 Sobre forma como modo de existencia, veja Gunn (1992) 28. Mare (1965, p. 80-1). Fetichismo:o dilema trégico 83 Deveria ficar claro o papel central que o conceito de fetichismo joga na reoria revolucionéria. E a0 mesmo tempo uma erfica da sociedade burguesa, uma critica da teoria burguesa e uma explicago da estabilidade da sociedade burguesa. Obsetva a0 mesmo tempo a dlesumanizagio das pessoas, nossa prépria cumplicidade na re- oe do poder ea dificuldade (ow apatente impossibilidade) da revolugio. O conceitode fetichismo é fundamental para a critica que reali- 2a Marx da sociedade capitalista”. O tema da desumanizagio est constantemente presente na discussio de Marx tanto em O eapi- tal como em outtos textos, No capitalismo existe uma inversio da relagio entre as pessoas eas coisas, entre 0 sujeito € 0 objeto. Ha uma objetivizasio do sujeito e uma subjetivizacao do objeto: as coisas (o dinheiro, o capital, as maquinas) se convertem em sujei- tos da sociedade, as pessoas (0s trabalhadores) se convertem em \ objetos. As relugBes sociais nao o sio s6 aparentemente, mas so realmente relayGes entre as coisas (entre o dinheiro ¢ 0 Estado, entre o seu dinheito € 0 meu); ao privar os seres humanos de sua sociabilidade, os transforma em “individuos”, o complemento ne- cessirio da troca de mercadorias. (Para que es alien ajaeciprocs os homens necesita apenas seenfrentar implicitamente como proprietirios priva- dos desis coisas alienadas, enfrentandoss, precisamente por isso, como pessoas independentes entre 29, Para Lukes, 0 tema do fetichismo & ceneral em oda a teoria marxisa: estacou-sefrequientemente ~ com cata razdo — que o eélebre capitulo da gica hegeliana acerca do ser, © ndo-ser ¢@ devie contém coda a Filosofia cde Hegel. E tale se poderia dizer com a mesma rao que ocapiculo acerea do ‘ariter de feicke da mereadoria contém todo o matetalismo histbrieo, todo 3 Sea do proletaiado quanto a0 conhecimento da socieda- de capitalists (das sociedades anteriores como estgiosprévios a ela)" ber igios préviosaela)"(1971, 30, Marx (1965, p. 87) 86 Mudaromundo dugio, 0 conceito de fetichismo também destaca a dificuldade ow a aparente impossibilidade da revolugio contra o capitalis- mo, O fetichismo ¢ problema tedrico central que enfrenta qualquer tcoria da revolucio. O pensamento ¢ a pritica revolu- ciondtios sfo necessariamente antifetichistas. Qualquer pensa- mento ou pritica que aponte para a emancipagio da humani em relagéo & desumanizacio do capitalismo se dirige necessaria- mente contra o fetichismo. Iv O dilema trigico da mudanga revolucionaria, o fato de que sua urgéncia esta aparente impossibilidade so duas caras do mesmo processo, se intensifica na medida em que o fetichismo das rela- {Ges sociais se torna mais incisivo e mais penetrante. ‘A separagao entre o fazer ¢ 0 feito, entre sujeito ¢ objeto, clara a partir da discussio de Marx em O capital, vai mais além do imediato “separar o homem do objeto de sua produgi0” que rear liza a classe exploradora. Nao se trata de o capitalista separar da trabalhadora ou do trabalhador o objeto que produziu. O fato de a sociabilidade do fazer estar mediada (fragmentada reunida de novo, estilhagada) pelo mercado (a venda e compra de merca- dlorias) significa que a ruptura entre o fazer € 0 feito nao se limita de forma alguma ao processo imediato de exploragao, mas se es- tende a toda a sociedade, Mesmo que em O capital Marx se con- centre na critica da economia politica, nao existe razao alguma para pensar que o fetichismo se estenda s6 & esfera analisada pela economia politica. A conseqtiéncia da anslise de Marx ¢ na reali- dade que o fetichismo impregna toda a sociedade, que todo 0 talismo é “mundo encantado, invertido e de cabega para bai- x0", e quea subjetivizagio do objeto ¢ a objetivizagio do sujeito 33. Mare (1972a, p. 830). “Invertido” [perverted] & a tradugao do termo alemo “verrickt”, que significa canta "louco” [erary] como “deslocade” [dislocated]. Veja Backhaus (1992, p. 61-2). Fetichismo: o dilema trigico 87 sio caracteristicas de cada aspecto da vida. “A separagio”, diz Marx, “60 verdadeito processo de geragio do capital." _ Ocariter oralmente penetrante do fetichismo ¢ retomado por virios autores que trabalham dentro da tradigdo marxista. Quan- to mais se desenvolve 0 argumento, mais intenso se torna o trigi- 0 dilema da revolugio. Quanto mais urgente se demonstra a mudanga, mais imposstvel cla parece, Em termos de reificagio", racionalidade instrumental, unidimensionalidade”, identida- de e disciplina”, diferentes autores enfatizaram a penetracio do poder em cada esfera de nossa existéncia, 0 crescente fechamento da existéncia sob 0 capitalismo, Seus trabalhos elevam a um agudissimo nivel a intensidade do dilema revoluciondrio. ‘Mais que tentar dar conta das contribuicées realizadas pelos diferentes teéricos, tentaremos, a partir de seus trabalhos, desen- volver alguns dos pontos tratados no capitulo anterior. Para isso, femos de retomar 0 argument. O ponto de partida ¢ a separacio do fazer e do feito, Isso im- plica uma separagio antagénica entre os fazedores eos que se apro- priam do feito, Os que se apropriam do feito (0s donos do capi- tal) utilizam seu controle do feito, que sio os meios do fazer, para conseguir que cs fazedores trabalhem para eles fim de incrementar 0 feico do qual se apropriam. Os capitalistas, em outras palavcas, exploram os trzbalhadores: pagam-lhes 0 que necessitam para so- breviver (o valor de sua forga de trabalho) ese apropriam do valor ‘excedente que produzem (a mais-valia). A separagao entre o fazer VN O97 2 49, Ea ‘Veja 0 comentario de Negri sobre Foucault: “(...) a posigio de “increment tulsa Stow Ser msneeoncteuomonts tea fure” (1999, p. 340). ir 88 Mudaro mundo € 0 feito envolve uma anilise dual de classe, um antagonismo entre 0 capital ea clase trabalhadora, Isso é de importincia fun- damental ¢ deve-se considerar o argumento seguinte que nao se distancia em nada desta posigao. Na tradicao marxista e socialista, esse antagonismo de classe € -muitas vezes entendido como uma relagio externa. Supde-se que ‘6 antagonismo entre a classe trabalhadora e o capital seja um an tagonismo externo que deixa a ambos os lados intactos em seus aspectos essenciais. Os lados do antagonismo so, entZo, um bom. (a classe trabalhadora) e um ruim (a classe capitalista). Dentro dessa perspectiva, poderia se supor que o tema da revolugio seria simples, ques trata principalmente de um tema pritico de orga- nizagio. Por que, enti, nao houve uma revolugio comunista de sucesso? Habitualmente, as respostas se do em rermos de ideolo- gia, hegemonia ou falsa consciéncia. A classe trabalhadora nao se rebela porque esti imbuida da ideologia do mercado; em uma sociedade de classes, as idéias da classe dominante sao hegem@nicas, a consciéncia da classe trabalhadora é uma falsa consciéncia. Em «nda caso, 0 tema da ideologia, da hegemonia ou da fala conscién- cia se separa do tema da separaso entre o fazer « o feito: vé-se a esfera daideologia como algo separado do “econdmico”.A énfase colocada na falta de compreensio da classe trabalhadora esté hac bitualmente (inevitavelmente?) acompanhada da suposigfo de que a classe trabalhadora é um “eles?. “Eles” tém oS aula anto, nosso papel (0 nosso, os que temos as idéias corretas) Tuning ios levches a conlénca verdad’, Os problenal politicos inerentes a esse enfoque deveriam ser ébvios. Um segundo problema com es efoque simplemente aie ele éincapaz de dar conta da complexidade do mundo. As linhas se ragam muito rudemente, a complexidade das conexdes sociais ‘esti em curto circuito, de maneira tal que o marxismo perde set 40.0 conceito de Gramsci de “intelectual orginico” & s6 uma variante do mesmo tema. Veja Gramsci (1971, p. 3-23). Fetichismo:o dilema trigico 89 poder de conviesio. Isso resultou particularmente dbvio nas dis- ‘cussGes sobre as formas mutantes de conflito social dos dltimos anos (por exemplo, conflito em torno de temas de género ou de meio ambiente). Houve uma tendéncia a fazer com que essas cou- bessem a forca num molde previamente concebido de luta de classes ou de filar delas em termos de “lutas nao-classistas”. Neste tilkimo caso, © conceito de luta nfio-classista vem acompanhado seja pela idéia de que a importincia da lta de classes est dimi- ‘nuindo, seja pela de que, apesar de tudo, o conflito fundamental entre capital e trabalho ainda continua sendo a forma mais im- portante de conflito. A compreensio do confito entre trabalho ¢ capital como um conflito externo que deixa ambos os lados es- sencialmente iaclumes leva & concepgio do antagonismo como algo imediato, algo em que ambos os lados estio imediata empiricamente presentes. E entio vém os problemas: onde estava a classe trabalhadora na luta contra a guerra do Vietni ou contra as azmas nucleares? Onde esté a classe trabalhadora no caso do apoio 3 insusreigdo zapatista? Como podemos falar de revolugao da classe trabalhadora quando ela estd numericamente diminuindo etc.) To- das essas perguntas podem ser respondidas, claro, mas a evidéncia scumulada de uma separagio entre “a classe trabalhadora” como 'm grupo identificavel empiricamente as formas mais impressio- tnantes de rebeliio minow 20s poucos a iia de que se deveria com- preender o capitalismo cm termos de antagonismo de classe, © argumento aqui é que ¢ fundamental que exista uma classe \que compreendh o capitalismo, mas que nao se pode entender o sntagonismo declasse como uma relagéo externa e que tampouco sleve ser entendida a classe desta maneira imediata. A separagio entre o fazer € 0 feito, como jd comecamos a ver no capitulo ante- tior ena primeita secio deste capitulo, nao é s6 um simples anta- fhonismo entre os fazedores eos que se apropriam de ato, O po- sler-sobre capitalist, a separacio entre 0 fazer ¢ 0 feito, & como wna dessas horrorosas balas modernas que nio apenas atravessam ‘earne da vitima, mas explodem dentro dela em milhares de frag- 90 Mudar o mundo mentos. Ou, numa comparacéo menos horrorosa, o poder capita- lista & como um foguete que sobe rapidamente para o cfu e que explode em uma multidio de nuvens coloridas. Centrar-se nas nuvens ot nos fragmentos da bala sem ver a trajet6ria do foguete ‘ou do projétil é 0 que faz. uma boa parte da teoria pos-moderna (ou de fato, a teoria burguesa em geral). Por outto lado, centrat- se s6 no movimento primédtio da bala ou do foguete e tratar as nuyens €05 fragmentos como algo externo (como luta nao-classista) uma concepgio grosseira que nfo ajuda politicamente ¢ que nao convence teoricament O conceito de fetichismo se refere &explosio de poder dentro de nds, nfo como algo distinto da separagao entre o fazer € 0 feito (como sucede com os conceitos de “ideologia’ e de “hegemonia”), mas como algo essencial a essa separagio. Essa separacio no 96 separa os capitalistas das trabalhadoras e dos trabalhadotes, mas explode em nosso interior, dando forma a cada aspecto do que fazemos e pensamos, transformando cada alento de nossas vidas em um momento da lua de classes. Porque a revolugio néo se produziu nfo é um problema “deles”, mas um problema de um. “nés" fragmentado. vemos, entio, em um “mundo encantado, pervertido ¢ de cabega para baixo” em que as relagGes entre pessoas existem sob a forma de relagdes entre coisas. As relagbes sociais estio “coisficadas” ou “teificadas”. Lukics utiliza 0 termo “teificagio” em Historia e conscitncia de classe, publicado em 1923. Da mesma forma que 0 termo “reificagao” sugere, Lukacs insiste na relevancia que tem em cada aspecto da vida social. A reificagio nio se associa sé a0 41, Dado que a toaidade do foguete e das chamas € uma totalidade Feia, sua tunidade s6 pode ser compreendida na perspectiva do fazer, nfo a da Finguagem, 42. Veja Jay (19840, p. 109): “Este termo, que de Fato no se enconcra no propiio Marx, significou crstalzagio do processo vivo cm coisas morass ‘0 que apareceu como uma “segunda natureza’ alienada, A jaula de ferto de Fetichismo: 0 dilema trégico 91 processo de trabalho imediato, nem a algo que afeta sé aos “traba- thadores”. “O destino do trabalhador se converte entao no desti- nno universal de toda a sociedade (..).”" Ez A transformagio da relagio mercantil em uma coisa de “ob- jetividade fantasmagorica” (..) imprime sua estrutura a toda a consciacia do homem (..) E, como é natural, nio ha nenhuma forma de relagdes entre os homens, nenhuma pos- sibilidade humana de dar vigéncia ’s “propriedades” psiqui- cas ¢fisieas, que nio fique crescentemente submetida a essa forma de objetividade.* v A separaglo do fazer em relacio ao feito (e sua subo feito) estabclece o reino do ser e da identidade, A identidade tal- ver seja a expressio mais concentrada (¢ a mais desafiante) do fetichismo ou di re ‘A ruptura do fluxo do fazer priva 0 fazer de seu movimento. O fazer presente se subordina ao feito passado. O trabelho vivo se subordina ao trabalho morto. O fazer se congela na mztade do caminho, se transforma em ser, A bela, imobilizada pelo feitigo da bruxa, ao perder seu movimento per- de sua beleza: “abela adormecida” € uma expressio contraditéria. © congelamento nio € absoluto (no mais do que a ruptura do fazer € absoluta). Nao se trata de que tudo se mantém imdvel, mas de que tudo se encerra em uma continuidade perpétua, tudo se repete, tudo se desloca sobre trilhos. Se olhamos o mundo do ponto de vista do fazer, é claramente imposstvel dizer que “o mundo é”, “as coisas s40” ou “eu sou”. Na perspectiva do fazer, & claro que tudo € movimento: o mundo &e Weber da racionalizagio burocriiea, a “ragédia da cultura” de Simmel ea cspacializagio da duragdo de Bergson foram assim parte de um processo mais geal” (9 Lukes (1971, p. 91), 14. ldem, p. 100, 92. Mudaro mundo no é, as coisas so € nfo sio, eu sou e nfo sou. Se pensamos em termos do fazer, a contradigio inerente a estas afirmagSes nao apre- Senta problema: no fazer, eu vou mais além de mim mesmo, 0 mundo se move mais além de si mesmo etc. A mudanga em mim. {que implica meu fazer significa que sou e nfo sou. Mas uma ver que o fazer estd rompido, uma vez que o fazer € subordinado a0 feito, o movimento é detido e a afirmagio de queeu sou e nao sou pparece incoerente. Uma vez que se rompe o fazer, jd nio prevalece 6 fazer nem a contradigio. A identidade domina, a contradigao se liquida. © mundo é, assim sio as coisas: se dizemos “o mundo ée nao é, assim sio as coisas’, estas afirmagdes envio parecem carecer de sentido, parecem ilégicas. ‘A identidade implica a homogeneizacio do tempo. Quando 0 luxo do fazer € interrompido e se sujeita o fazer ao feito ¢ & sua acumulagio quantiativa, entio forga-se o fazer a entrar em certos: trilhos, contidos por certos parimetros. O fazer se reduz. ao traba- Iho alienado, limitado ao fazer-em-servico-ca-expansio-do-capital. |ss0 nao s6 limita 0 contetido do fazer, mas Ihe impoe um certo ritmo (cada vex mais erescente). O trabalho alienado, como fazer que se transformou, se mede quantitativamente: €o trabalho de certa quan~ tidade de horas, é trabalho que produzalgo que pode ser vendido por Lum prego, é trabalho que produz valor, trabalho que é recompensado {quantitacivamente em dinero por um saliio, O fizer das pesoasse converte em tum trem que se move cada ver mais répido, mas sobre tullos preestabelecidos. “Com sso 0 tempo perde seu carter quale tativo, mutivel, fluent; crstaliza-se em um continuo delimitado & ‘mensurivel cheio de ‘coisas’ mensuréveis(.):em resumo, ele s€ tof tna um espago.”"? © tempo se converte no tempo do reldgio, no tempo tique-taque, em que um tiqueé exatamente igual a outro: um tempo que se move, mas que permanece tempo imével,rotinciro™, 45. Ldem, p. 90 46, Para a andlise do estabelecimento hist6rico da hora do relégio, veja B. Thompson (1967) Fetichismo: 0 dilema tragico 93 ‘A variada intensidade do tempo vivide, do tempo da paixao, da felicidade e da dor se subordina ao tique-taque do relégio. © tempo homogéneo tem como cixo o presente. Nao se trata dle que o passado e o futuro se neguem completamente, mas de que 0 passado ¢ em especial o futuro estao subordinados a0 pre- sent: 0 passado se entende como a pré-histéria do presente ¢ 0 fucuro se concebe como stia extensio previsivel. O tempo é visto como um movimento linear entre o passado ¢ o futuro. As possi- bilidades rad calmente alternativas para o futuro sio deixadas de lado como se fossem uma ficcio. Suprime-se tudo 0 que esté, estaria ou poderia ser feito por fora dos trilhos do tempo marcado pelo reldgio, As lutas passadas que apontavam para algo radical- mente diferente do presente sio esquecidas. “Toda reificagio ¢ tum esquecimento”, como afirmam Horkheimer ¢ Adorno”. O dominio da identidade é 0 dominio da amnésia. A meméria ¢ ‘com cla a esperanca estio subordinadas 20 inflexivel movimento do reldgio que no vai para nenhum lado, “Sé com o abandono do con- ceito estiticoe fechado do ser surge a verdadeira dimensio da es- peranga.”? O dominio da identidade indica cerras hierarquias lingtitsti- cas, por exemplo, no dominio de um verbo, *é", sobre todos os demais®. Em um mundo definido, os outros verbos se desativam: sua forca ¢ limitada por aquilo que ela é. O fazer ¢ um fazer que info 56 estélimitado pelo que é, mas também impregnado por ele: nossa atividace cotidiana est forgada por e impregnada pelo que €” (7. Vga Hokie ¢ Adorno (1972, p. 230). (8, Sobre as consequéncas evoucinrias do concsto de mem, vejaTschler (2000) 49. Bloch (1986, p. 18) 30. Vea Foucault (1973, p. 94: "Tada especie dos verbos remete a um 86, 0 «ie significa re, Ble se refere aqui A espisteme clissica, mas € possivel sfrmara mesma coisa para todo o perodo capitalist. ‘Notamos qe iso verdade incksive naqulas eorias que se coneentram na como uma questio de preferéncia subjetiva quer se prefira a liberdade ou a obediéncia, a democracia ou o fascis- ‘mo, 0 Hluminismo ou a autoridade, a cultura de massas ou a verdade.@ A razio se separa da compreensio; 0 pensamento, do ser. A Jvio se converte em assunto de eficiéncia, “a adaptacio étima dos meios aas fins”. A razio, em outras palavras, se converte fm tazo instrumental, em um meio para alcangar um fim em lugar de esquadrinhar ou de criticar o fim em si mesmo. A feificagio implica a perda de significado ou, melhor, o significar ve converte ro processo puramente formal de adequar os meios a Jum fim. A desteuigo nuclear é0 resultado do pensamento racio- ‘ual, Quando essa racionalidade o julga, nosso grito aparece como \vacional ‘A formalizagio da razio éa0 mesmo tempo a separagio do que 4m relagao 20 que deveria ser. O pensamento racional agora estd preocupado com 0 que é e seu ordenamento racional (eficiente) Jsso no significa a eliminacio do que “deveria’, mas sua separa- ‘lo em relagio ao que “é": uma coisa é0 que é¢ o que deveria ser 5, Hoskheimer (1972, p. 190) (06, Hoskheimer (1978, p. 31). @7. Idem, p. 28 106 Mudaro mundo Eoutra. A maioria das pessoas concordaria que aio deveria haver criangas forgadas a viver nas ruas, mas (e assim continua seu argu mento) a realidade é diferente. O estudo da sociedade, seja 0 que realizaa sociologia, a politica, a economia ou qualquer outra “dis- ciplina” da ciéncia social, é 0 estudo do que é. A pergunta pelo que deveria ser também pode resultar interessante, mas nao deve- ‘mos apagar a distingio entre ambos, nao devemos confundir a realicade com os sonhos. Na medida em que o que os mantenha. separados, nao hi problema. O raciocinio moralista acerca do que deveria set; longe de debilitar 0 que é, na verdade o reforga: (.))0 principio do “deveria” pressupde um ser a0 qual é por, principio inapliaével a categoria do dever-ser. De modo queé precisamemte por adotar a intengio que tem o sujeito (le nnio aceitar puramente sua existéncia empiricamente dada) a forma do dever-ser, precisamente por isso a forma empirica imediatamente dada recebe confirmagio e consagracio filo= séfica, se eterniza flosoficamente:* Na medida em que realmente existe uma abstragio formal das relagies sociais, essas relagdes podem ser entendidas como gover= nadas por leis, ese torna possivel falar das “leis do desenvolvimen= to capitalista”. Os proprietirios do capital no controlam a soci dade capitalista. Na realidade, eles também esto sujcitos as leis do desenvolvimento capitalista leis que nao refletem a separagio do fazedor em relagio 20 feito, a auronomia do fazer. As pessoas ni podem fazer mais do que adaptar-se a essas “leis” que nao con’ trolam: i (..) o homem na sociedade capitalista enfrenta uma realida: de “feita” por ele mesmo (como uma classe) que Ihe pa ser um fenmeno natural que lhe é alheio; ele esta total ‘mente 4 mercé de suas “leis”, sua atividade nio pode cot 68. Lukies (1971, p. 160). Fetichismo: 0 dilema trigica 107 tir senfo em aproveitar o funcionamento necessirio e cego dle algumas leis utilizadas em seu préprio (egoista) interesse. Mas, inclusive nessa “atividade”, continua sendo o homem cessercialmente objeto do acontecer, nio sujeito dele.” A liberdade, nesse contexto, se converte simplesmente em co- hhecimento dase subordinagio as leis, na aceitacio da necessida- slo", Encio a natureza limitada por leis da sociedade capitalista e ‘ possibilidade do estudo cientifico dessas leis € apenas expressio tlo faro de que os fazedores no controlam seu fazer ¢ que “(..) yas as relagdes humanas (...) vio assumindo cada vez mais as fionmas de objetividade dos elementos abstratos da conceitualizagio ‘ientifico-ratural, dos substratos abstratos das leis da naturcza a)" Vill Ipileriamoscontinuar indefinidamente com o argumento. A ques- tho é que na base de uma estrutura social imensamente complexa {ese um principio simples: a identidade. O principio da identi- Ande ¢ tio bésico para a organizacio social capitalista que subli- ‘har sua in:portineia parece ser algo totalmente carente de signi- ficado, simplesmente porque parece ser tio Sbvio, No entanto, Ilo é assim tio ébvio. A idéia de que uma pessoa £x sem a com- fpivensio simuleinea de que mao é x otigina-se de algo que est Jhwito longe de ser dbvio: isto é a separagio cotidianamente repe- {ils do feito em telagio 0 fazer, a confiscagio cotidianamente Jepetida que os fazedores padecern do produto de seu fazer ¢ sua ‘Inlinigio como propriedade de outro alguém. Essa identificagéo ‘ulto real, muito material (esta coisa é minha € nao tua) se ex- BY Mer, p. 135. 71) \ er visio delberdade aderem tanto Kane como Engels, Para una erica, ja Ardomo (1990, p. 248-9). P huskies (4971, p. 130), 108 Mudaro mundo pande como uma greta em cada aspecto de nossa organizagio so- cial e em cada aspecto de nossa consciéncia. ‘Aidentidade é a antivese do reconhecimento mituo, da comu- nidade, da amizade ¢ do amor”, Se eu digo “Eu sou X”, isso signi« fica que o meu set x nfo depende de ninguém mais, que nfo de- pende do reconhecimento de nenhum outro. Eu permancgo sozinho, as relagbes que eu tenho com outras pessoas sio completamente periféricas em relagéo ao meu ser. O reconhecimento social é algo {que permanece externo a mim, algo que vem por meio do mercado quando posso vender meu produto ou minha propria capacidade de fazer coisas a um prego mais alto (por meio de uma promogio, por exemplo). As outras pessoas so exatamente isso, outras. Vistas através do prisma da identidade, as relagSes entre as pessoas 80 superficiais. Assim como observa Bublitz em sua discussio sobre Arist6teles”, & impossivel conceitualizar a amizade € 0 amor na base de uma ligica formal da identidade, Nao pode haver reconhe- ‘cimento miituo, nao pode haver um reconhecimento de nds prb= prios nos outros ou dos outros em nés, Da perspectiva identitéria, ‘0 “nds” com que comegamos nao pode ser mais do que um saco de bacatas arbitrério ou uma falsa sociabilidade (e ameagadora) se bases reais, Nao existe espago para interpenetrago miitua da exis téncia que experimentamos como amizade ou como amor. A inimic zade, por outro lado, €ficil de entender: 0 outro €0 outro. O outro | nio é parte de nés e nés nao somos parte do outro” Fica claro que o processo de identificagio nio é externo a Somos ativos no processo de identificar ou de reificar as relagbes sociais, assim como somos ativos em produ o fato que se volta 72. Veja importante ensaio de Ure Buble sobre "Definition and Friendship” (2998), 73. Buble (1998, p. 34 e seguints) 74, Neste sentido, a teoria politica de Carl Schmitt ao se concentrar na distingio enste amigo ¢ inimigo &, simplesmente, o desenvolvimento cocrente d légiea da ideneidade: vea Schmite (1987). Existe um mundo de difereng centre isso € o conceito antidentittio de Marx de lata de classes. Fetichismo:o dilema trigico 108 contra nosso fazer. Nao existe sujeito inocente. O poder-sobre jhos aleanga enos transforma, forgando-nos a participar de manei- §u ativa de sua reprodugio. A rigidificagio das relagées sociais, 0 ‘sim-sfo-as-coisas que enfrenta nosso grito nao esta apenas fora le nds (na sociedade), mas nos alcanga também interiormente, J maneira em que pensamos, atuamos, somos € no fato de que somos. No processo de ser separados do nosso feito ¢ do nosso fiver, nds mesmos somos as vitimas, Nossa atividade é transfor- ‘yh em passividade, nossa vontade de fazer coisas ¢ transforma- tl na cobica por dinheiro, nossa cooperagio com os companhei- fos fizedoresé cransformada em uma relagio instrumental medida pelo dinheiro ou pela competigao. A inocéncia do nosso fazer, de hosso poder-Fazer, se converte cm uma participagio culpavel no sereicio do poder-sobre. Nosso alheamento do fazer é auto- ilheamento. Aqui nao ha sujeito puro, impaciente, revoluciond- fio, mas humanidade vitimizada. Todos estamos profundamente enyolvidos na construgao da realidade identitéria €esse processo 4 construgio de nds mesmos. A realidade que nos enfrenta chega até nosso interior. Aquilo contra o que gritamos nio estd sé ai fora, esta também dentro de ‘his. Parece invadir-nos completamente, converter-se em nds. Isso 0 que faz que nosso grito seja tio angustiado, tio desesperado, Jno também é 0 que faz.com que nosso grito pareca nfo ter espe- Funga Por momentos, parece que nosso préprio grito € a Ginica ora de esperanca. A realidade, a realidade do capital, parece algo tle que nao se pode escapar. Tal como afirma Marcuse: (..) 0 individuo sem liberdade introjeta seus dominadores ¢ as suas ordens no seu préprio aparato mental. A luta contra 1 liberfade se reproduz.a si mesma, na psique do homem, como a propria repressio do individuo reprimido e, por sua ve7, sua propria repressio mantém seus dominadores e suas instituigées.* Marcuse (1398, p. 16) 110 Mudaro mundo Fetichismo: odilema tragico 111 nais livre parece a sociedade, Quanto mais profundamente Essa introjegio de nossos dominadores & a introjegiio de uma to, tealidade identitéria, alienada (tcorizada por Freud como realida- somos nao-livres, mais liberados parecemos ser. A liberdade ilus6- de absoluta, biologicamente determinada, em lugar de uma for tin do cidadio éa contrapartida da comunidade iluséria do Estado. ma de realidade historicamente especifica), a que subordinamos Viveros em uma sociedade livre, nao? Nao surpreende que nosso rnossa busca do prazer™ rito seja eo violento A reificagio, portanto, nao apenas se refere ao dominio do Temos, entio, dois conceitos de sujeito. O sujeito da teoria objeto, mas & criacio de um sujeito particularmente deslocado. A burguesa é um individuo livre, enquanto a subjetividade que foi separacdo do fazedor em relagio ao fazer ¢ ao feito cria um fazedor fundamental em nosso desenvolvimento é uma subjetividade co- que fiea A deriva em relagio a0 fazer, que é subordinado 20 feito, Jeriva desgarrada pela separagio do fazer em relacio ao feito, ‘mas que aparece completamente independente dele. A separacio Jum sujeito atomizado ferido até em seus espacos mais profundos. das pessoas da trama social do fazer faz delas individuos livres, O sujeito da ceoria burguesa nao grita, enquanto © nosso sujeito livres nao s6 no duplo sentido indicado por Mars, isto é, livres tite Go forte que seu grito chega ao céu, nao por algo em parti- das ataduras pessoais e livres do acesso aos meios de sobrevivénciay ‘ular, mas por causa de sua subjerividade desgarrada. Para a teoria mas também livres da responsabilidade em relagio 4 comunidade Iuirguesa, a subjetividade é identidade, enquanto no nosso argu- e livres no sentido de uma participagio significativa no fazer cole= mento a subjetividade & a negacao da identidade, tivo. Enquanto nossa discussio mostrou que a fratura do fazer Nao hi divida que o primciro conccito, o do sujeito saudivel, Tagaafe aca onajelts cambdn esd frttaados lnraald sag al inocente, freqiientemente foi transferido por algumas correntes do, danificado), 0 sujeito da teoria burguesa é um individuo ino- An teoria marxista a0 conceito de classe trabalhadora. As imagens cente, sauidavel, que se autodetermina livemente: admitamos que alguns individuos tém problemas psicolégicos, mas sio s6 pro- bblemas pessoais, nao tém nada a ver com a esquizofrenia social que cruza cada aspecto de nossa existéncia. Quanto mais se consi- dere segura a subordinagio ao feito, mais livre aparece 0 sujeito individual. Quanto de maneira mais completa se estabelega a iden- {ifleagZo como algo além do questionamento, além do pensamen= ticas da classe trabalhadora herdica nos vem 4 mente, mas a Imagem do revolucionirio herdico vai mais além da experiéncia sovictica, Nesse contexto, é possivel compreender a preocupagi le alguns te6ricos (estruturalistas, pés-estruturalistas, pés-mo- Alernos) de atacar a nogio de sujeito. Muito do que se vé como ‘aque & subjerividade ¢ simplesmente um ataquie 3 identidade, & cago burguesa da subjetividade com a identidade. Assim, s exemplo, quando Foucault falada (en analisa deralhadamente) ual o Ocidente submeteu geragdes a fim de pro- 76, Marcse (1998) referes forma epeifcamenehistrica do principio de I i) ees ea et aac ease realidade como prinefpio de atuagio. Afirmaa mesima coisa, em cermos pr (Como ‘sujeicos’, nos dois sentidos da palavra’”, essa afirmacio é freudianos, Paul Lafargue nas primeiras linhas de The right robe lazy. “Uma envio seguramente correta em relacio & constituicio do sujeito cstranha pati inva a clases persis don paises de cilizagio capitals ire” dasssciediatercapielueays(ac dire sestlale sijeies earn. pire crebeintrecrstemaniestrecnena bios os sentidos da palavra, Identificar o sujeito burgués com a dla. Essa paixio € 0 amor a0 trabalho, furbundo frenesi do cabal, Jewado até oesgoramento das frca vitais do individu ede sua progenitor (1999, p. 3 ident imensa ob sult (1990, p. 60). 112. Mudaro mundo Fetichismo: odilema tégico 113 subjetividade como um todo, no encanto, € 6 mais violento dos A fetichizagao € fundamental a0 processo material através do qual erros. Confundir subjetividade com identidade e criticar a subje- ‘0 feito €arrancado do fazedor. Se se realiza uma separagio entre 0 tividade como movimento, como negacio do cariter do ser, &a )processo material de exploragio ea fetichizagio do pensamento, a Ainica base possivel para ir mais além da identidade e, portanto, slienagdo ou fetichizagio fica reduzida a uma ferramenca de crti- mais além do sujeito burgués” © culcural, a um gemido sofisticado. Como Adorno, “a teoria ‘itica se torna accitével idealisticamente para a consciéncia do- 1K ante €o inconsciente coletivo”., Isso é reproduzir no concei- to de fetichizagao precisamente essa separagio entre “econdmico” © “cultural” que critica 0 conceito de fetichismo. © fetichismo é uma ilusio real. Com vimos, Marx insiste queem uma sociedade produtora de mercadorias: Avioléncia da identificagio, entio, nfo é meramente conceitual as relages sociais entre seus trabalhos privados lhes apare: O método cientifico de pensamento identitério ¢ 0 exercicio do cem como 0 que sio, isto &, nfo como relagées diretamente poder-sobre. © poder se excrce sobre as pessoas por meio de sua sociais travadas entre as préprias pessoas, em seus trabalhos,, lentificagéo efetiva". Assim, a produgio capicalista se baseia na relagdes proprias de coisas entre as ago: isto é meu. A lei também se baseia na identidade: entre as coisas.” pessoa sujeita a um processo legal ¢ identificada, separada de to- ‘hs as demais que, de alguma forma, podem ser consideradas co- ‘As categoria ftichizadlas de pensamento expressam uma tene Be se A iseteaesete ss cooneatt fulenrnees aeons lidade efetivamente fetichizada. Se vemos a teoria como um mo= tag poten ener arheda da tee crime oe see mento da pritica, © pensamento como um momento do fazer ttn pesso: como um individuo identificado, no aprisionamento, ‘entio existe uma continuidade entre a fetichizacio do pensamen- nente na execuglo, esse supremo ato de identificagao que to ea fetichizagao da pritica. A fetichizagio (¢ portanto a aliena ill “voce &¢ foi e j& no ser”. O cardter do ser, a identidade, a Gio, areificagio, a identificagio etc.) nao se refere apenas a proces Hijagio do devir, é morte. sos de pensamento, mas A separagio material do feito em relagio A identificagio, a definicao, a clasificacio é um processo tanto ao fazer de que esses processos conceituais sio parte. Segue-se que fico quanto mental. Os judeus que foram identificados, classi a fetichizagio nao pode ser superada s6 no pensamento: a supers ‘uilos © nurnerados nos campos de concentracio foram objeto de io da fetichizagio significa a superagio da separacio entre o faaek co feito. — Isso €importante porque o conceito de fetichismo (e 0 concel: HW) Mlorno (1990, p. 190). Aqui a andlise de Adorno ¢ bastante confuss, to de alienagio ¢ os demais) perde sua forga se for abstraido diy pee one sete cae olen) resi aera separagio material do fazer edo feito sobre o qual se fundamentit Re saicee tasee pte ee eee juno Sequeira: sempre ser ti iereduate coisicacio como a qualquer oe ‘0 categoria sold” (p. 190). Isso 56 tem sentido sea eile se abstai 78. Em seus tims anos, Foucaue litou para se libertar do lamagal rei material de separago do fazer do feito politico a que o haviam levado seus priicrostabalhos. Para uma dese Hy No dado “Divides reinards, oe" nfo indica uma separasio entre divide mas, a0 contririo, 0 pessoas relagdes soci tcl. veja Ashe etal, (1999, p. 88 ¢ seguintes); Beste Kellner (1991), slomina, mas uma identifieagio entre os doit: a diviséo & dominio e o 79. Marx (1965, p. 73) HNouninio & visto, 114 Mudaro mundo Fetichismo:o dlilema trigico 115 algo mais do que de um exercicio mental. A identificagio, a defi- nigio, aclasificagio é a base da organizacio fisica, espacial erem- poral dos exércitos, dos hospitais, das escolas ¢ de outras institui- {8es, 0 mticleo daquilo a que Foucault se efere como disciplina, a microfisica do poder, a economia politica do detalhe"?. O poder burocritico se baseia no mesmo processo de identificasio e de classficagio, como de fato se baseia toda a operacio do Estado. O Estado identifica as pessoas, as define, as classifica. Um Estado & inconcebjvel sem a definicao de cidadaos ¢ a simultinea exclusio dos nio-cidadaos: nos tiltimos seis meses, foram detidos 856 mil ‘mexicanos na fronteira com os Estados Unidos. [sso ¢ identifica Gio, definicio, classficacio em grande escala de étomos frios, cada um existindo porsi mesmo. O poder-sobre, © que fiz com que nosso grito retumbe com ressoniincia surda, que faz com que a mudanga radical seja até dificil de conceber, reside nesse despedagamento, na identificagao. O Estado, entio, nao ¢ o lugar de poder que parece ser. E 36 lum elemento no despecagamento das relagées sociais. O Estado, ou melhor dizendo, os Estados nos definem como “cidadios” ¢ como “nio-cidados", proporcionando-nos identidades nacionais 1o que € um dos aspectos mais diretamente violentos do processo de identificasio. Quantos milhdes de pessoas foram assassinados ho século XX sem outra razo que a de ser definidos como seres tacionais de um Estado particular? Quantos milhdes de pessoas i comeveram assassinatos pela mesma razo? Quantas vezes se des- viou o grito contra a opressio em uma afirmagao de identidade ‘nacional, em movimentos de libertacio nacional que fizeram pouca O argumento deste capitulo nos permitiu fazer alguns avangos na nossa compreensio do poder, mas ficamos diante de um dilema coisa mais do que reproduzir a opressio contra a qual se drigia 0 desalentador. jprito? O Estado é exatamente 0 que a palavra sugere: um bastiao Deveria estar claro agora que no se pode tomar o poder pela ontra amudanga, contra o fluxo do fazer, a encarnagio da iden- simples razio de que 0 poder nao é algo que uma pessoa ou insti- tidade" tuigdo em particular possui. © poder reside mais na fragmenta: A corpreensio do poder como o fragmentar das relagbes so- io das relagdes sociais. Esta ¢ uma fragmentagio material que iais nos leva novamente ao ataque que realiza Foucault ao concei- tem seu niicleo na separagao constantemente repetida do feito em. lw bindrio de poder e a sua insisténcia em que deve entender-se 0 relagio a0 fazer, que implica a mediagio real das relagGes socials joer em termos de uma multiplicidade de forcas. Agora deveria por meio das coisas, da transformacio real das relagées entre pes: Jesultar daro quea romia entre uma visio bindria e uma visio soas em relagies entre coisas. Nosso intercimbio pritico se frag {wilipla do poder ¢falsa. A multiplicidade de relagoes de poder menta e, com isso e como parte disto, também nossos esquelil sleviva precisamente do antagonismo bindrio entre o fazer ¢ 0 fe de pensamento, a maneira como pensamos ¢ falamos acerca das ir essa complexidade a um simples antagonismo binstio relagdes sociais. No pensamento e na pritica, 0 célido entrelagat Mitre a classe capitalista ¢ o proletariado, como se fez com fre- se do fazer, 05 amores, os ddios ¢ os desejos que nos constituem iWithela, leva a problemas tanto tedricos como politicos. De ma- despedagam em uma imensidio de identidades, em uma imensi iwira similar, concentrar-se na multiplicidade e esquecer a unida- subjacente das relagdes de poder leva a uma perda da perspectiva E Jlitica: aemancipagio se torna algo impossivel de conceber, como 82. Veja especialmente Foucault (1990). 183, La Jomada, 14 de junho de 2000, Cerea de 300 pessoas morrem & 6 x amo a centarcrzara mesma Frontera 1) Hin telasio a0 Estado, reromaremos a questio com mais detalhe depois, 116 Mudaro mundo Foucault insiste em observar. Mais ainda, concentrar-se na multiplicidade de identidades sem perguntar pelo processo de iddentificagao que di origem a essas identidades ¢ inevitavelmente reproduzi-las, isto é, participar ativamente do proceso de identi- ficagio. E essencial entio insistr na unidade-em-separacao, sepa= ragio-em-unidade do binsrio e do muiltiplo. Resta-nos um dilema. O poder do capiralismo penetra tudo. Dé forma A maneira pela qual percebemos o mundo, a nos: sexuualidade, a nossa propria constituigzo como sujeitos indivie duais, a nossa capacidade para dizer ew. Parece nao haver said: Como diz. Adorno: “A teificagao absoluta [...] se disp5e agora absorver por inteiro a mente”®. E a reificagdo absoluta é mort absoluta. A identidade nega a possibilidade, nega a abertura outra vida, A identidade mata tanto metaférica como liter mente, de forma clara e simples. Por cima de todas nossas refle= xdes sobre a identidade, se eleva a terrivel adverténcia de Adorno “Auschwitz confirma a teoria filoséfica que equipara a identi de pura com a morte”, Quanto mais pensamos no poder na sociedade capitalista, mé angustiado se torna nosso grito. Mas quanto mais angustiado torna, mais desesperado, mais intitil. A penetrasio do poder bre no micleo daqueles que estao sujeitos a esse poder €0 pro! ‘ma central com o qual tem que lidar qualquer teoria revolucion damente urgente como a razio de que € crescentemente dil concebé-la. A mutilagio do sujeito por meio da penetragio poder-sobre nas profundezas de sua existéncia aviva tanto ail nnagio como a resignasio: como podemos viver em uma soci que se baseia na desumanizagio? Mas como pode ser possivel transformemos uma sociedade em que as pessoas esto 85. Adorno (1967, p. 34). Citado por Jay (1984a, p. 49) 86. Adorno (1990, p. 362). Fetichismo: o dilema trigico 117 slesumanizadas? Este é o dilema da urgente impossibilidade da vohusio. Existem trés safdas possiveis para o dilema. A primeira consiste em abandonar a esperanga, Em lugar de Jensir que poderia ser possivel criar uma sociedade livre da explo- Faso, livre da guerra, livre da violéncia, uma sociedade emanci- Ipc baseada no reconhecimento mituo, este enfoque aceita que mundo nio pode ser mudado de maneira radical ese concentra, fm vez disso, em viver da melhor maneira possivel ¢ em fazer {walquer pequena mudanga possivel. Reconhece-se talvez a alie- Hugo, mas ela € vista como algo permanente*?. Os conceitos de fevolucio e de emancipagao sio abandonados e substituidos pela ia de “micropolitica”. A multiplicidade do poder passa a ser Yist como 0 reforgo de uma multiplicidade de lutas concentradas fn tenas particulares ou em identidades particulares:lutas que ipontim para o reordenamento, mas nao para a superacio Ielagdes de poder, suligiey ese Muicas vezes se asocia a desilusdo com a teotiae politica ps- Moderna®, mas se estende muito além delas. Em outros casos se ilbfence a idéia de revolugéo como ponto de referéncia, mas 0 Iino de esquerda se torna mais melancélico, cada ver mais Hcentrado em denunciar 0s horrores do capitalismo e se distan- Hi cada vez mais da consideragio da possibilidade de uma solu. ) Os intelectuais de esquerda adotam a posicao de Cassandra, Polevicando o destino futuro, mas com pouca esperanga que se- Mi escutados, As melancélicas Cassandras ¢ os pés-modernos podem, claro, certos.Talvez nao exista esperanea, talvez nfo exista possibi. ile de criar uma sociedade que nio esteja baseada na explora. Manner (1989), ane sae? Dio conn , cio ct aera psmena eadeslsto na seis dex inenos fan de mode 1968 ea Bae Kelng iso 120 Mudaro mundo do indicativo, a humanidade na forma do inumano. Todas estas expressées diferentes da emancipagio humana, todas essas ima- gens de uma sociedade baseada no reconhecimento miituo da dlignidade humana, todas elas existem sé na forma de sua negae fo. Mas existem, Na forga do que existe na forma de ser negado devemos buscar a esperanca. Esta € a substancia do pensamento, dialético: a dialética ¢ 0 “sentido consistente da nio-identidade”, «© sentido da forca explosiva do negado. Qual éa condigzo, entio, destas categorias que existem apen: nna forma de ser negadas? Certamente a corrente principal da cig cia social nao as reconhece: para ela, nao hé de forma algu espago pata o que existe na forma de ser negado. Sio entio ut simples quimera, simples fancasias de intelectuais descontent um retorno romantico a alguma idade de ouro mitica? io nada disso. Sao esperangas, aspiragbes, pré-concepyées de u sociecade humana. Mas para que essas esperangas tenham for