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ESTUDAR ALGO SEM TER PERGUNTAS

É O MESMO QUE COMER SEM FOME

Vitor Seravali Pimentai.

Rubem Alvesii, em sua crônica Receita para se comer queijo, cita


Adélia Prado afirmando que a fome é a principal ferramenta na arte
de se comer queijo, pois sem ela, não adianta o queijo, mas com ela,
mesmo sem queijo, dar-se-ia um jeito de arrumar.

Ele também sugere que professores e educadores deveriam


antes de ser professores passar pela cozinha, envolver-se com a
culinária, aprendendo com as cozinheiras a arte de provocar a fome
antes de servir seu banquete. Essa fome é o desejo de saber e de
conhecer. É ela que os professores tem de provocar na vida de seus
alunos.

Quando se há um objeto de desejo, a máquina pensante põe-se a


funcionar, a pensar, para resolver o problema ou conseguir o tal
objeto. Com isso ela criará, inventará, e fará tudo o que puder
imaginar para conseguir o que se quer. Seja uma vara com uma
latinha na ponta para pegar suas frutinhas na casa do vizinho, ou
outro artifício para conseguir o que se deseja.

Um aluno com perguntas é um aluno em busca da resposta, e


um aluno em busca da resposta é um aluno ativo, desejoso de
conhecimento, investigador, questionador, que não se satisfará
enquanto não obtê-la.

Quando se quer saber algo, investigar, estudar e chegar a uma


conclusão. A força motivadora é a fome de conhecer. Esta, por sua
vez, é perguntas e questionamentos que povoam a mente, pois sem
pergunta, não há fome e sem fome não há desejo de comer. É
também uma experiência afetiva, não de carícias, beijos, abraços,
mas de buscar o bem desejado.

Também é importante lembrar de que existe o comer por prazer


e o comer por necessidade. Quem come por prazer é porque foi
despertado para isso. Não importa a quantidade, mas sim a qualidade
que interfere no sabor do alimento. E aquele que come por
necessidade come desesperdamente, porque pensa que está à beira
da morte. Para ele é uma questão de sobrevivência.

Baseado nisso, é mister entender que a motivação de estudar,


aprender tem duas vertentes. Uma a que Rubem Alves se refere em
sua crônica Receita pra se comer queijo e outra que é motivado pela
vida. Aquele aluno que não foi motivado pelo “professor cozinheiro”
capaz de despertar sua fome de aprender, será motivado pela vida,
pelo seu próprio conhecimento de mundo. Isso se dará num dia em
que ele perceberá que o estudo, a aprendizagem, o conhecimento é
importante para que ele sobreviva: às mudanças tecnológicas; às
transformações da sociedade; às exigências do mercado de trabalho;
às constantes atualizações dos ramos do conhecimento...

Mas, infelizmente, nem tudo é geral. Há ainda aqueles que


sofrem de anorexia. Não comem, nem por prazer, nem por
necessidade. Sobre esses eu não quero comentar.

Para nós, estudantes de especialização, o bem desejado é a


resposta para os questionamentos que levantaremos a fim de
elaborar nossa monografia. Se não há questionamentos, não haverá a
fome, ou seja, a busca pela resposta, e não havendo fome, não
existirá o trabalho monográfico.

ALVES, Rubem. In: O desejo de ensinar e a arte de aprender. Editora


Fundação Educar. 2005, p. 18
i
Graduado em Letras Português-Inglês pela Universidade Estadual de Goiás e aluno do curso
de Pós Graduação Lato Sensu em Língua Inglesa pela Universidade de Montes Belos.
ii
Rubem Alves é educador, escritor, psicanalista e professor emérito da UNICAMP.