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Audiodescrição de filmes

:
experiência, objetividade e acessibilidade cultural
Jéssica DavidH Felipe HautequesttHH Virginia KastrupHHH
Resumo
O objetivo do artigo é propor diretrizes para a audiodescrição, levando em
conta peculiaridades cognitivas, bem como fatores sociais e políticos da vida
de pessoas com deficiência visual. O artigo discute a experiência de assistir a
um filme e analisa o problema da familiaridade com o cinema, com a narrativa
de cada filme e com a própria técnica da audiodescrição. O desafio é criar
condições favoráveis para a atualização de experiências cognitivas, afetivas e
emocionais que o filme oferece. Visa ainda examinar o problema da objetividade
e de outros parâmetros da audiodescrição, sugerindo algumas diretrizes para
seu desenvolvimento no Brasil.
Palavras-chave: audiodescrição; deficiência visual; acessibilidade.

Audio description of films:
experience, objectivity and cultural accessibility
Abstract
The aim of this paper is to propose guidelines for audio description, taking into
account cognitive peculiarities, as well as social and political factors of people
with visual impairment. The paper discusses the experience of watching a movie
and analyses the problem of familiarity with the cinema, with the narrative of
each film and with the technique of audio description itself. The challenge is to
create favorable conditions for the promotion of cognitive, affective and emotional
experience that the film offers. It also aims to examine the problem of objectivity
and other parameters of audio description, suggesting some guidelines for its
development in Brazil.
Keywords: audio description; visual disability; accessibility.
 Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
E-mail: jessicasdavid@gmail.com
HH
 Graduando em Psicologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
E-mail: fhautequestt@gmail.com
HHH
 Doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1997),
Professor Associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Centro de Filosofia e Ciências
Humanas, Departamento de Psicologia Geral e Experimental. Endereço: Av. pasteur, 250 - Pav.
Nilton Campos 2º andar, Urca, Rio de Janeiro, RJ – Brasil.
E-mail: virginia.kastrup@gmail.com.
H

Atualmente. Virginia Kastrup Nos últimos anos. reabilitandos e acompanhantes. programas de TV etc. Até que passaram a integrar o corpo de alunos e usuários do IBC. Entre tais iniciativas de acessibilidade. textos e demais informações que não poderiam ser percebidos ou compreendidos por pessoas com deficiência visual” (BRASIL. já se verifica que o grupo de deficientes visuais com quem trabalhamos nessa pesquisa apresenta uma grande diversidade no que se refere à sua familiaridade com o cinema. peças de teatro. professora de Braille na mesma instituição. ela cega congênita. Jan./Abr. 1. No Brasil. 2006). Para outros deficientes visuais. uma tecnologia social cujo objetivo é viabilizar a acessibilidade dos deficientes visuais a filmes. Eles são casados. Quando aplicada a filmes.1 no Rio de Janeiro. Nenhum dos dois tinha o costume de ir ao cinema ou mesmo de assistir a filmes em casa. eles não pararam mais. como é o caso do cinema. Seu relato contrasta com o que nos disseram outros dois participantes. um dos participantes relatou que nunca havia ido ao cinema. a primeira definição legal foi estabelecida na Portaria Nº 310. São muitos os esforços voltados para o desenvolvimento de estratégias inclusivas que lhes permitam uma apropriação efetiva do espaço cultural. reunimos um grupo de deficientes visuais do Instituto Benjamin Constant (IBC). A resposta surge quando ouvimos os principais interessados na causa da audiodescrição: a saber. elas são de caráter muito geral e inicial.Jéssica David. a relação com o cinema se desenrolou de forma diferente. Desde que começaram a assistir a filmes. 24 – n. Ele é reabilitando do IBC e ela. de junho de 2006. inspirada em publicações anteriores de pesquisadores brasileiros tais como Eliana Franco. Vera Santiago Araújo e Francisco Lima. v. possuem cegueira precoce e cultivaram a prática de ir ao cinema desde a infância. não abrem mão disso. ele completamente cego aos 20 anos. reunindo professores. como estão sempre assistindo a filmes2 em casa. Todavia. a audiodescrição consiste basicamente na descrição verbal das imagens visuais e ocorre nos intervalos entre as falas do narrador ou dos personagens em cena. O leitor poderia perguntar qual haveria de ser o interesse em desenvolver estratégias inclusivas para produtos culturais que parecem fortemente ancorados na visão. Com o intuito de realizar uma pesquisa sobre o tema. p. Antes do agravamento de sua condição visual. espetáculos de dança. os próprios deficientes 126          Fractal: Revista de Psicologia. É desse tipo de audiodescrição que este artigo se ocupa. Já no primeiro encontro. que não só frequentam salas de exibição com regularidade. trabalhava como cozinheiro num restaurante e. Por esses relatos. 125-142. Ele possui baixa visão adquirida. segundo a qual a audiodescrição “corresponde a uma locução. O debate no âmbito da psicologia tem como finalidade levantar questões cognitivas e políticas implicadas no uso da audiodescrição e fortalecer seu desenvolvimento no país. O setor de reabilitação volta e meia promove passeios e idas ao cinema. nunca pôde ir ao cinema. em língua portuguesa. destinada a descrever imagens. Felipe Hautequestt. em virtude de sua rotina diária. sons. tem-se observado uma preocupação crescente nos diversos setores da sociedade com a inclusão cultural dos deficientes visuais. É este o caso de um segundo casal com quem trabalhamos. sobreposta ao som original do programa. encontra-se a audiodescrição. As recomendações da Portaria Nº 310 constituíram um primeiro e importante passo para a causa da acessibilidade. 2012 .

permeada de emoção. a audiodescrição pode produzir o desejo de assistir a filmes e fazer com que pessoas com deficiência visual participem do movimento cultural da cidade e encontrem. os deficientes visuais geralmente contam com uma audiodescrição informal. decretos e portarias têm sido formulados pelo Ministério das Comunicações em prol da chamada eliminação de barreiras na comunicação. closed caption3 e audiodescrição. até 30 de janeiro de 2009. em 26 de novembro desse mesmo ano. Se tomarmos como exemplo uma pessoa que tenha perdido a visão já na idade adulta e que. ao final desse prazo. De fato. objetividade e acessibilidade cultural visuais. Entre tais documentos. de modo autônomo. O Ministério das Comunicações lançou. DVD ou computador. para a realização de uma nova consulta pública. Além da ida ao cinema. argumentando que a quantidade de profissionais especializados em audiodescrição era insuficiente para suprir tal demanda. previa que as emissoras de TV passassem a veicular. inclusive. tenha cultivado o hábito de ir ao cinema. 24 – n.Audiodescrição de filmes: experiência. Além disso. que concedia mais 90 dias para a qualificação desses profissionais e a implementação dos recursos de acessibilidade. muitos expressam o desejo de ir ao cinema. É preciso ainda reconhecer que alguns cegos gostariam de assistir a filmes estando sozinhos. existe ainda a prática muito comum de assistir a filmes em casa. No Brasil. então. A Nº 310. Assim. o desafio atual é produzir uma audiodescrição em larga escala e de qualidade. ela Fractal: Revista de Psicologia. visando a garantir o direito de acesso à informação. Antes do término desse novo prazo. com Libras. o Ministério das Comunicações suspendeu novamente a obrigatoriedade. Diversas leis. destacamos três portarias. a Portaria Nº 466./Abr. à comunicação. v. que atenda às expectativas e necessidades do público deficiente visual para assistir a filmes. novas maneiras de habitar o espaço público. é feita por pessoas acostumadas ao convívio com deficientes visuais. o Diário Oficial da União publicou a minuta de uma futura portaria alterando a Norma Complementar nº 1/2006. já citada anteriormente. Mas. Em 2008. Jan. Por outro lado. duas horas diárias de programação acessível em sua grade. p. as emissoras recorreram. já que o descritor também está diretamente interessado no filme. Decerto. o desejo pode não se colocar imediatamente. mesmo quando enxergava. feita por familiares e amigos. 125-142. a pergunta do leitor quanto à pertinência de estratégias inclusivas como a audiodescrição recebe uma resposta simples e direta: “ela é uma reivindicação das pessoas com deficiência visual”. Para uma pessoa que nunca tenha ido ao cinema antes. Mas talvez as oportunidades tenham sido escassas. que ocorre no improviso e no calor do acontecimento. Nesse sentido. tanto no cinema como em casa. pela TV. 2012          127 . compreendemos rapidamente a importância dela poder conservar o antigo prazer. Trata-se de assegurar também a eles essa possibilidade. saindo do isolamento que lhes é por vezes imposto. e que se veja lançada na condição da cegueira. à cultura e ao lazer. até então. 1. que reduziu de duas horas diárias para duas horas semanais a exigência de transmissão de programas audiodescritos. tal descrição carece de um cuidado técnico e formal. o que as torna sensíveis ao que pode ser mais necessário e interessante para a descrição. dentro de até dois anos. Trata-se de uma descrição mais viva. Neste caso. Além disso. é possível que a ausência de filmes audiodescritos nos circuitos de cinema seja uma das fortes causas do desinteresse de muitos cegos por esta arte.

5 A pesquisa bibliográfica envolveu textos sobre psicologia (JAMES. Tomando como ponto de partida esta ideia. com a narrativa de cada filme e com a própria técnica da audiodescrição. montamos um grupo de trabalho formado por pesquisadores em psicologia cognitiva. 24 – n. 2006). p. Felipe Hautequestt. sempre acompanhadas de discussão e análise. a audiodescrição não deve aparecer como um estímulo externo. Para a realização da pesquisa. MARTINS. afetivas e emocionais que o filme traz consigo. Essa estratégia metodológica de trabalho coletivo.4 Assistimos também a filmes não audiodescritos. O artigo discute a experiência de assistir a um filme e analisa o problema da familiaridade com o cinema. e Ensaio Sobre a Cegueira (2008). as únicas duas produções audiodescritas disponíveis em locadoras à época. de Moacyr Góes. 2010). 2007). CARRIÈRE. Os filmes assistidos incluíram Irmãos de Fé (2004). Do ponto de vista cognitivo. METZ. O objetivo do artigo é propor algumas diretrizes para a audiodescrição. DREYFUS. MERLEAU-PONTY. com a exibição de filmes. de modo a transformá-los em coautores do conhecimento e das tecnologias desenvolvidas. 2003. v. Naturalmente./Abr. COSTA. MANHÃES. não se trata de uma pesquisa feita “sobre” ou “para” cegos. 1978[1890]. 1997. 1990. profissionais de cinema e seis deficientes visuais. 2003. 128          Fractal: Revista de Psicologia. ROSCH. 1995. O desafio é criar condições favoráveis para a atualização de experiências cognitivas. alunos de iniciação científica. Ela envolve um mergulho da atenção nas imagens visuais e auditivas que o filme oferece. HATWELL. mas “com” cegos. a nova proposta enfrenta muitas críticas por parte dos deficientes visuais e outros interessados. 1972. VARELA. de Fernando Meirelles. Assim. 1992. denominada PesquisarCOM (MORAES. 1. de investimento financeiro na área e também do desenvolvimento de tecnologias sociais construídas de modo coletivo. Virginia Kastrup também alterou o cronograma para o cumprimento da determinação oficial. pois ela reduz em muito o alcance político da proposta original. Jan. assistir a um filme é uma experiência que requer uma suspensão da atenção aos estímulos externos e internos referentes à vida prática. levando em conta peculiaridades cognitivas. com a participação ativa dos deficientes visuais (KASTRUP. que desvia a atenção do filme. 2005. sugerindo algumas diretrizes para seu desenvolvimento no Brasil. Foram promovidas sessões semanais. como demandas diversas e preocupações cotidianas. De acordo com essa perspectiva. 1996. estabelecendo um prazo de dez anos para que 24 horas semanais da programação – e não mais a programação completa – sejam audiodescritas. Consideramos que a difusão da audiodescrição no Brasil necessita da implementação de políticas públicas específicas. CHION.Jéssica David. pelos personagens e pelas emoções. VYGOTSKI. está em consonância com as políticas de pesquisa presentes no campo dos disability studies (OLIVER. com o objetivo de experimentar formas variadas de audiodescrever. cinema (AUMONT. KASTRUP. bem como fatores sociais e políticos que cercam a vida de pessoas com deficiência visual. o conhecimento é entendido como um processo de construção coletiva. e um deixar-se conduzir pela história. 1995. 2012 . 2010). Visa ainda a examinar o problema da objetividade e de outros parâmetros da audiodescrição. Ela deve estar bem integrada às demais imagens auditivas que constituirão a experiência da pessoa que não dispõe da visão. REGOMONTEIRO. 125-142. THOMPSON. KASTRUP.

sabe-se simplesmente. na segunda./Abr. embora existam palavras diferentes para designá-los em várias línguas: noscere e scire. Na primeira modalidade. Alemanha e Brasil. kennen e wissen.7 Enquanto o conhecimento “sobre”. nada podemos dizer. na condição de seres falantes. Quando dele falamos. a rigor. O objetivo é distinguir dois tipos de conhecimento que ficam embaralhados no uso cotidiano. objetividade e acessibilidade cultural 1969) e audiodescrição (Turner. Esse “estar acostumado”. os humanos já revestem o mundo Fractal: Revista de Psicologia. que dificilmente poderia ser prevista na elaboração da descrição. 2007. Foi William James (1978[1890]) o primeiro a formular a ideia de um “conhecimento por familiaridade” (knowledge by acquaintance). ligado ao verbo “saber”. Canadá. com a cor vermelha e com o cheirinho de comida caseira. Sou capaz de reconhecê-los de imediato. Em português. por uma sensação de intimidade que experimento. aí vai ser mais fácil falar sobre o filme e dar uma opinião”. que parte do corpo ela perfura”. 125-142. Na medida em que tentar transmitir essas experiências para outras pessoas. assim. já terei me destacado da experiência mesma e cedido lugar ao exercício do pensamento lógico. 2007. 2004). p. uma distância já se intrometeu entre a consciência e a matéria subjetiva em que ela opera. James acrescenta que. 2012          129 . connaître e savoir. o conhecimento por familiaridade. ela acenava. nas próximas vezes. de um saber que não partilha da distinção fornecida pela linguagem. o grau de detalhamento da descrição e as preferências individuais. por uma apreensão intuitiva. no alemão. Nesse aspecto. outro participante afirmou: “Talvez. caracteriza-se por uma proveniência mais direta da dimensão sensível da experiência. para o fato de que nenhuma audiodescrição é capaz de contemplar as preferências de todos os espectadores. embora eu mal as tenha discernido. assistimos em grupo a um trecho do filme Ensaio Sobre a Cegueira e algumas questões começaram a se colocar. a que o participante se referiu. mantendo com a consciência uma relação de imanência. 24 – n. possui um caráter mais conceitual e é mediado pela reflexão e pela elaboração discursiva. v. eu possa ajudar mais. Sua fala evidenciava uma expectativa muito singular. Questões sobre a linguagem cinematográfica.Audiodescrição de filmes: experiência. O conceito de familiaridade Já no primeiro encontro. James afirma que o conhecimento por familiaridade é aquele de cujo conteúdo. Quando eu estiver mais acostumado com a audiodescrição. depois de assistir aos filmes algumas vezes. atrelado ao verbo “conhecer”. podemos mencionar a vez em que um dos participantes comentou que gostava de filmes de luta oriental: “Eu queria saber onde a espada atravessa o inimigo. essa diferença semântica é parcialmente expressa pelos verbos “conhecer” e “saber”. Depois de contar que nunca tinha ido ao cinema. Trata-se. no francês. e saltamos forçosamente para o conhecimento “sobre”. no latim. Jan. França. em oposição a um “conhecimento sobre” (knowledge about). GERBER. Também consultamos sites sobre audiodescrição dos Estados Unidos. 2003. o conhecimento visa a um objeto exterior constituído pela percepção. 1. A familiaridade nos oferece um acontecimento simples e indiviso.6 A definição do conceito se encontra no capítulo VIII da obra The Principles of Psychology. nos conduziu ao exame do conceito de familiaridade. Mathieu. PIETY. portanto. Estou familiarizado com o sabor do tomate.

começa a se corporificar. Esse estado no qual me deixo levar pela música de meu antigo e querido cd pode ser 130          Fractal: Revista de Psicologia. mas não consigo ler ou conversar nesse idioma sem um constante esforço de tradução. Mas certamente também não se confunde com a atitude de prontidão e alerta que sustento ao longo do dia para responder às exigências cotidianas e solucionar com eficiência os problemas que o mundo exterior me coloca. de maneira que a percepção já é por si só plena de linguagem. p. conforme ganho domínio do idioma. de sentirse em casa. tenho um conhecimento das regras gramaticais e do significado de algumas palavras. seria preciso que nos ativéssemos idealmente ao puro “isso” (it) característico da familiaridade. Numa direção inversa. uma conquista. mas em gradação. que conhecimento por familiaridade e conhecimento “sobre” são termos relativos. 2003). o estado em que me encontro difere do mero relaxamento. 2003) formula o conceito de corporificação do conhecimento. cuja perícia não se baseia em regras. É este conhecimento mais fino que cria condições para a inventividade. representações nem tampouco na elaboração intelectual. no entanto. 24 – n. Sendo assim. Para abordar esse mesmo processo. Consideremos o exemplo do aprendizado de uma língua estrangeira. O esforço refletido e consciente se vê gradualmente reduzido. tornando-se conhecimento por familiaridade. Conhecemos as coisas por intermédio do pensamento lógico ou por essa via mais sensorial e menos elaborada intelectualmente e. Porém. os jogos de linguagem etc. Virginia Kastrup ao seu redor de conhecimento “sobre”. Outros exemplos são o da cozinheira e o do jogador de futebol. Quando me acho estirado no sofá de casa. após um dia agitado e cansativo. Hubert Dreyfus (1992) argumenta que o processo de aprendizagem transforma regras e representações. e ouço a música de um velho cd de jazz. para apreender a experiência mais imediata do mundo. Felipe Hautequestt. Jan. ou seja. no conhecimento intuitivo do perito. THOMPSON. às vezes. Para James. o conhecimento por familiaridade evolui na direção do conhecimento “sobre”.Jéssica David. A familiaridade parece remeter a uma sensação de aconchego. A experiência direta não é fácil e é. 1. assim. 125-142. Um dos exemplos de Dreyfus é o do motorista. criando frases novas e sendo capaz de experimentar um outro modo de pensar. Experimentamos tal sensação nas mais diversas situações do dia a dia. ROSCH. Converteu-se. por fim. Deve-se dizer. A evolução se faz do conhecimento “sobre” para um conhecimento muito mais fino. até que me flagro conversando com fluência. que chegam ao iniciante como instruções verbais. que é pura presença informe. De início./Abr. e não uma etapa a ser superada. o que se passa? Se volto minha atenção para a música. Todo iniciante sente-se compelido a traduzir os vocábulos e expressões que ouve ou lê. Francisco Varela (VARELA. corporificado e intuitivo (VARELA. O conhecimento mais evoluído é aquele em que as representações mentais são eliminadas e o acoplamento com o mundo se faz de modo direto. diferindo não tanto em essência. direto e intuitivo. aquele conhecimento “sobre”. ROSCH. que eu antes manuseava sem muita segurança. THOMPSON. para a criação de experiências e ações cognitivas novas (KASTRUP. sentir-se à vontade. para que compreenda conscientemente as estruturas frasais. v. mais direta: a via da familiaridade. 2012 . 2001). o conhecimento “sobre” em conhecimento por familiaridade.

medo. minhas inquietações pessoais se esvaem e estou pronto para imergir no filme. objetividade e acessibilidade cultural descrito como uma sensação de calor e intimidade. Em nosso caso. um personagem ou um momento do filme. tristeza. assim acontece quando seguimos a narrativa de cada filme que assistimos. Por isso. o tapete macio etc. e vice-versa. Todavia. mas que não se resume a um simples ambiente escuro. É esse conjunto que será apreendido pela experiência direta do espectador. embora existam gradações. Sabemos que grande parte da magia do cinema provém daquilo que os videntes – como são denominados os que enxergam. têm a potência de colocar problemas e forçar a pensar. as poltronas acolchoadas. Elas suscitam a reflexão. de caráter enigmático. alegria. Neste caso. que concorre para suspender a atenção das demandas externas e preocupações internas. a audiodescrição. Examinemos um exemplo mais próximo. surpresa e estranhamento. de propagar sensações. Esse processo de reflexão está além dos limites da audiodescrição propriamente dita. transformações e passagens do conhecimento “sobre” para o conhecimento por familiaridade. consideramos que o desafio é fazer com que ela componha com as falas dos personagens e com os demais elementos sonoros do filme. ela pode ser meramente informativa e funcionar bem. Assistir a um filme. embora ela possa ajudar a propiciá-lo. Combino de ir ao cinema com os amigos e. preparando para o mergulho na experiência do filme. e produza um conjunto articulado e dotado de sintonia afetiva. pode dar lugar a experiências de encantamento. com medo de serem atropelados pela locomotiva que seguia em diFractal: Revista de Psicologia. L’Arrivée du Train en Gare (A Chegada do Trem à Estação) assustou muitos espectadores. ao mesmo tempo. de cumplicidade e entrega à experiência.Audiodescrição de filmes: experiência. recolhimento. o conhecimento “sobre” é desencadeado por uma estranha familiaridade com o enigma. Por certo. 24 – n. no momento em que me acomodo no assento da sala de exibição. ela não é capaz nem deve ser concebida para substituir a experiência direta do espectador. que saltaram de seus assentos e correram. O simples fato de me ver envolvido por um ambiente e uma música que conheço bem é capaz de lançar minha atenção em outra sintonia. no ano de 1885. em Paris. Ela não possui apenas uma dimensão lógica e intelectual. 1. no campo da deficiência visual – chamam de “escurinho do cinema”. a acústica da sala. Tais elementos respondem em conjunto por uma sensação de familiaridade. 2012          131 . por sua natureza verbal. a linguagem utilizada na audiodescrição é um conhecimento capaz./Abr. pela sensação direta do caráter problemático de uma cena. entrando em ressonância com eles. seja ele audiodescrito ou não. Mas o problema da familiaridade não acaba aí. porta a marca de um conhecimento “sobre”. Neste caso. Familiaridade com o cinema Uma das primeiras exibições públicas na história do cinema se deu com a projeção de uma coleção de imagens fotográficas animadas promovida pelos irmãos Lumière. o cheirinho de pipoca. Jan. v. ou seja. Cabe sublinhar que. p. 125-142. Algumas delas. mas também afetiva. eles não se substituem. Veremos que a familiaridade com a linguagem do cinema teve de ser historicamente construída. incluindo vários registros sensoriais: o geladinho do ar-condicionado.

p. provindo de um conhecimento prévio da história por parte do espectador ou das indicações fornecidas por um comentador durante a exibição (CARRIÈRE. certa dificuldade em entender exatamente o que se passa ali. O início do cinema evidencia que a prática de fazer e assistir a filmes que comportem uma narrativa e uma linguagem próprias não existiu desde sempre. Jan. “Estamos tão condicionados a um modelo de cinema que nem sempre nos é fácil perceber a sua diversidade e a descontinuidade de sua história” (COSTA. uma vez incorporada às imagens. O primeiro cinema (COSTA. 11). Assistir a um filme do primeiro período do cinema.. 24 – n. p. Existem aquelas que só costumam assistir às produções cinematográficas de teor mais comercial. nós e nossos pares nadamos sem esforço. essa impressão de ordem independente da figura empírica de um narrador (METZ. que 132          Fractal: Revista de Psicologia.Jéssica David. Nele. 1995. nos causa por vezes certo desconforto. No entanto. então. 2012 . A narração fílmica. 2005. 2005) se revela destituído de uma narrativa ou nos parece./Abr. em nossos reflexos. Felipe Hautequestt. 2005). (CARRIÈRE. atualmente. 1. Notamos com facilidade as muitas descontinuidades que rompem com seus efeitos ilusórios. 48.. As seqüências cinematográficas que nos envolvem e nos inundam hoje em dia são tão numerosas e interligadas que se poderia dizer que elas constituem o que Milan Kundera chama de “rio semântico”. v. atravessar nossos modos de assistir e experimentar um filme. que escapa e se desfaz a todo o momento. a relação com o cinema é diferente entre pessoas que cresceram tendo o hábito de assistir a filmes e pessoas que não desfrutaram dessa mesma oportunidade. 125-142. encorajados por correntes familiares. p. Bastaram quatro gerações de freqüentadores de cinema para que a linguagem ficasse gravada em nossa memória cultural. talvez até em nossos genes. Assim. a ausência de uma estrutura narrativa autônoma não torna o primeiro cinema um cinema “primitivo”. 1995). A construção de uma familiaridade com a linguagem cinematográfica parece. [. 2005). aquele que se estendeu até 1915. Só para o cinema narrativo clássico é que foi fundamental inventar gradativamente um meio de representar. estudar o que foi o primeiro cinema desnaturaliza nossos hábitos cinemáticos e evidencia a existência de uma aprendizagem cultural que se deu ao longo da história do cinema e que se atualiza na vida de cada espectador.] talvez essa linguagem tenha se tornado familiar demais para nós – muito pouco observada até – para continuar a manter nosso interesse. através de imagens. Virginia Kastrup reção à câmera (COSTA. A instância narradora e a explicação das imagens se originavam fora do filme. 1972). grifo nosso) Nessa medida. dotado de uma narrativa precária. uma ficção com continuidade de tempo e homogeneidade de espaço. passou a funcionar como equivalente interno e invisível das explicações que o comentador inicialmente fornecia (COSTA. Mesmo aquelas que cultivam essa prática raramente gozam de uma familiaridade com todos os tipos de filme de modo indiferente.

/Abr. 2012          133 . demanda um tempo maior para a familiaridade. Não se deve confundi-la com aquilo a que chamamos de estrutura narrativa geral do cinema. Talvez seja necessária a construção de uma familiaridade com a própria técnica da audiodescrição. outras que preferem o chamado cinema autoral. cujo peso é variável. 1. Jan. um drama na maioria das vezes tem um ritmo mais lento e denso do que um filme de ação. Uma nova forma de assistir a filmes que não é tão óbvia. 24 – n. Por exemplo. Tramas entrecruzadas. Em segundo lugar. O processo pode diferir segundo o gênero de determinado filme. Fractal: Revista de Psicologia. A familiaridade com a narrativa de cada filme está atrelada. que não obedece a uma sequência cronológica dos fatos e possui várias idas e vindas. uma trama não linear. ou seja. portanto. para o espectador. favorecer todo esse processo. e a narrativa de uma comédia romântica flui com uma leveza maior em relação a um thriller. Quanto mais o filme em questão é comum. de um bom roteiro. o conteúdo e a forma de contar sua história ainda nos são desconhecidos. a uma série de fatores. compondo uma só experiência. paralelas ou descontínuas favorecem um processo mais vagaroso e tortuoso. o texto da audiodescrição poderá ser mais facilmente integrado às demais imagens sonoras. participar do jogo que lhe é proposto. e outras que apreciam o chamado cinema experimental. a familiaridade com a narrativa de um dado filme tende a aumentar conforme embarcamos em sua história.Audiodescrição de filmes: experiência. menos ele exige do espectador. A pergunta que se coloca diz respeito à familiaridade gradual com a história de cada novo filme assistido e suas consequências para a audiodescrição. por certo. o qual ultrapassa os limites do já feito e cria novas linguagens. objetividade e acessibilidade cultural visam apenas o entretenimento. Com a prática.9 Quando começamos a ver um filme. De fato. A boa qualidade do trabalho de audiodescrição pode. 125-142. essa familiaridade está intimamente relacionada com a linearidade da trama. cada novo filme faz ao espectador um mesmo apelo: embarcar na história contada. mais “familiares”. Por outro lado. Talvez precisemos aprender a assistir a filmes com essa nova tecnologia. assim como o cinema não o foi no começo de sua história ou não o é na vida de algumas pessoas. flashbacks e reviravoltas.8 Familiaridade com a narrativa do filme Devemos levar em conta em nossa análise um segundo grau de familiaridade: aquele que diz respeito ao conteúdo e à linguagem particulares de cada filme. p. O sucesso desse apelo junto ao público dependerá da habilidade do diretor. Isso vale também para um filme audiodescrito. de atuações convincentes e de outras qualidades técnicas. acompanhar a dinâmica que ali se desenvolve. que já introduz um estilo próprio. É só com o desenrolar da trama que eles se tornam. a seqüência dos acontecimentos que compõem a história do filme da maneira como são contados e articulados entre si. v. que designa o modo hegemônico de se conceber a função do filme: a de contador de histórias. A história de cada filme constitui sua narrativa. Ela só se dará pelo contato repetido com filmes audiodescritos. Enquanto a familiaridade com a linguagem cinematográfica cresce na medida em que assistimos a mais e mais filmes. de trama linear e forma narrativa simples.

não responde à pergunta. uma pergunta que ressoa insistentemente durante o processo de elaboração da audiodescrição de um filme diz respeito ao que é relevante de ser descrito. 2002). podem entender seu significado social em função da convivência com videntes. os estudos acadêmicos e iniciativas em audiodescrição entendem. indicando quem está na imagem ou com o que ela se parece. O texto deve-se manter estritamente descritivo. AUDIOVISION. A orientação é que a audiodescrição siga aquilo que alguns autores sugerem e que o American Council of the Blind’s Audio Description Project (ACB. v. 2003. No cenário internacional. Nessa escolha. 2009. No Brasil. passa-se ao who. A orientação mais importante é evitar inferências e interpretações subjetivas. Mesmo aquelas com cegueira congênita. aspecto. se é claro ou escuro. ainda não existe um conjunto de diretrizes formuladas exclusivamente para orientar o processo de audiodescrição. o será. LIMA. who e what. namorado ou mantém outro tipo de relacionamento significativo. AUDIO DESCRIPTION INTERNATIONAL (ADI). pois se sabe que muitas pessoas com deficiência visual adquirida conservam a lembrança e o significado de determinadas cores. GERBER. descrever movimentos e gestos expressivos. de um modo geral./Abr. 2007. vestuário. PIETY. 2009. Cabe à audiodescrição descrever o que está acontecendo e quais as ações mais importantes para uma compreensão clara da situação. Isso significa. deve-se ensinar a notar os elementos visuais a que comumente não se daria atenção. Juntos. Em seguida. fazendo referências às características físicas e relacionais do(s) personagem(s): cabelos.Jéssica David. Na formação de audiodescritores. apesar de não terem visto o branco. eles situam o espectador no tempo e no espaço. 2009. a audiodescrição deve seguir do geral para o particular. Jan. regra frequentemente ensinada no treinamento de audiodescritores (ADI. O primeiro e o segundo Ws referem-se a “quando” (when). 2009) formula como os 4W: when. 2003. 2004. Felipe Hautequestt. 2007. A instrução “descreva o que você vê”. 134          Fractal: Revista de Psicologia. a descrição é um processo infinito. 2003. deve-se optar por signos aproximativos. que permitam ao espectador imaginar por si próprio a idade do personagem. criando primeiro um contexto (espaço. Por exemplo. mas nos últimos anos começam a surgir pesquisas sobre o tema (LEÃO. Por exemplo. nublado ou ensolarado. fazer referência a cores. mãe. inclusive. a figura do audiodescritor como a de uma testemunha ocular bem treinada. Dependendo da situação. e a “onde” (where). MATHIEU. mas nem tudo que poderia ser descrito. indicando a hora do dia. AMERICAN COUNCIL OF THE BLIND (ACB). ACB. indicando a localização da cena. Eles não configuram um quadro geral homogêneo. tanto no sentido de ampliar o olhar quanto no de selecionar aquilo que deve ser descrito. p. 125-142. quando for necessário descrever a idade de dado personagem. Em tese. Virginia Kastrup Uma objetividade afetiva Alguns parâmetros para audiodescrição são propostos nos vários países em que há um movimento de elaboração e implementação desse recurso de acessibilidade. VERNES. 2012 . características físicas marcantes. situação) para passar em seguida aos detalhes. embora nunca tenham visto uma cor. se é pai. 1. por exemplo. 24 – n. O último W é de “what”. where. Isso significa que há um espaço limitado de tempo dentro do qual a descrição deve ser feita. a cor remete ao sentido da paz. tempo. cabe. 2009). Desse modo. ARAÚJO. mas uma diretriz consensual é que a descrição nunca deve interferir no diálogo existente (TURNER.

de um filme de terror ou de um documentário. 24 – n. Não se trata de interpretar o que se passa no filme. a audiodescrição distingue-se de uma narração. GUEDES. é preciso atentar para o fato de que a linguagem cinematográfica envolve diferentes iluminações. MACHADO. Ou seja. 2009). e que se pode perfeitamente abrir mão da neutralidade sem cair na interpretação subjetiva. que funciona essencialmente pela projeção e contaminação recíprocas entre o ouvido e o visto – ou o sugerido em ambos os casos. e não aparecer como algo externo. Jan. 2010. 2008. favorecendo o mergulho. Michel Chion (1990) chama a esses jogos visuais e sonoros de audiovisão (audio-vision). L. evitando a descrição subjetiva. um ritmo. certas vezes se produzem descrições com vozes monocórdias. 1. a audiodescrição deve transmitir sucinta e objetivamente aquilo que não pode ser entendido sem a visão. 2012          135 . como quem descreve de uma posição externa e imparcial../Abr. que a união de imagem visual e sonora configura uma totalidade nova e irredutível. nessa direção. No entanto. A Norma Brasileira de Acessibilidade em Comunicação na Televisão (ABNT NBR 15290. o filme e outros objetos audiovisuais convocam uma percepção específica. robóticas e monótonas. Na busca pela neutralidade. pois narrador é aquele que conta a história sob o seu ponto de vista.. As alternâncias entre diálogos e silêncios. Ela deve ser integrada à paisagem do filme. Para entender o que é uma audiodescrição com objetividade afetiva. mas de abrir espaço para o uso de nuances discursivas para além da dimensão formal da linguagem: uma entonação. p. seu tom e seu território afetivo. se utilizado na audiodescrição de uma comédia. Um mesmo tom de voz. a trilha sonora. mas possui grande importância. Indica também a necessidade de haver distinção entre uma descrição objetiva feita em programações adultas e uma descrição poética para programas infantis. angulações e movimentos de câmera que não são arbitrariamente definidos (AUMONT. a audiodescrição precisa ser compatível com o tipo de programação. o som é um recurso importantíssimo e muito explorado. sem ser afetado pelo filme que é descrito. 1995). posto que confere uma certificação de qualidade internacionalmente reconhecida. 2010. 125-142. a audiovisão. VILARONGA. v. Mas o que é uma descrição “objetiva”? Algumas vezes uma descrição objetiva tem sido entendida como aquela que não demonstra envolvimento afetivo ou emocional com o filme. aquela que busca manter-se neutra. ARAÚJO. mas o audiovemos. a questão que se coloca é que a pretensa neutralidade pode produzir efeitos indesejáveis. tudo isso compõe a paleta sonora do filme. mas de entender que uma descrição objetiva é diferente de uma descrição neutra. seus sons ambientais. pode se integrar muito bem à paisagem do filme ou então destoar dela. os sons de fundo. Da mesma forma. a audiodescrição de filmes de época deve portar informações que auxiliem a compreensão. Fractal: Revista de Psicologia. lhe atribuindo juízos de valor. pois não vemos um filme. Merleau-Ponty (1969) afirma. Por exemplo. 2005) não é uma lei. a esse propósito. que estão longe de não afetar o filme. E. De acordo com essa NBR. Além disso. Descrever objetivamente significa descrever da forma que melhor combina com o filme. objetividade e acessibilidade cultural GUEDES. Não se trata de defender uma descrição subjetiva. SALES. M.Audiodescrição de filmes: experiência. um modo de dizer. Ou seja.

táteis. quando uma pessoa cega assiste a um filme. É preciso salientar que. Personagens e tramas vão se tornando mais definidos conforme embarcamos no filme e acompanhamos a dinâmica que ali se desdobra. p.10 Cabe sublinhar que a compensação sensorial não é um dom divino nem um rearranjo fisiológico. porque isso não ocorre com o próprio vidente. uma percepção intensificada pelos demais sentidos em função da ausência da visão. retirando parte de seu encanto. o objetivo da audiodescrição não deve ser fazer com que um filme seja totalmente compreendido. que não equivale a um treinamento sobre a técnica em si. Virginia Kastrup O desafio da audiodescrição é concentrar tudo isso no áudio. Existe. Nessa direção. à medida que assistimos a novos filmes. a entonação das vozes. o som ambiente. Uma boa audiodescrição participa do jogo do filme. Esboçando algumas diretrizes A experiência de assistir a filmes audiodescritos é uma composição de vários fatores intimamente articulados entre si. Dada a atenção fortemente investida na audição. Vimos que a linguagem cinematográfica. mas que se repete na vida de cada pessoa. mas ganha em qualidade quando consegue acompanhar a tonalidade. procurando. 136          Fractal: Revista de Psicologia. toda a paleta sonora do filme pode por si só fornecer preciosas pistas à pessoa cega.Jéssica David. mas concerne à prática de assistir a filmes audiodescritos. A trilha sonora original. Isso significa que ela não equivaleria a óculos. a paleta sonora de um filme ganha especial relevância. descrever o máximo possível nem sempre facilita a compreensão do filme. Por outro lado. Ao contrário do que poderia parecer. 125-142. a atmosfera e o afeto da linguagem cinematográfica. ela não se limita a prestar atenção às falas dos personagens e à audiodescrição. olfativos e gustativos. coletiva e cultural. enfim. 2012 . talvez seja necessário construir uma familiaridade com a própria técnica da audiodescrição. Também propusemos que. 24 – n. A descrição em excesso pode significar menos pistas a desvendar ou mesmo um velamento das pistas auditivas existentes. da vida de cada pessoa e a cada novo filme. Além disso. Argumentamos que esse aprendizado não foi somente de ordem histórica. Há. entre muitos deficientes visuais. tal como a conhecemos hoje. A audiodescrição não deve jamais preencher aquilo que é uma lacuna no próprio filme. entrar em consonância ou em sintonia afetiva com ele. Por fim. Jan. há pessoas com deficiência visual que apreciam uma audiodescrição menos preocupada com a tonalidade afetiva pelo risco dela interferir na poética do filme. Ela melhora com o aprendizado./Abr. mas é construída cognitivamente ao longo da vida da pessoa cega. que basta colocar para que o resultado se faça ver. a descrição em excesso muitas vezes acaba por antecipar a narrativa ou por desfazer as ambiguidades propositais do filme. v. assim como foi preciso familiarizar-se com os modos de assistir a filmes ao longo da história do cinema. e talvez nem seja o propósito do cineasta. constrói-se gradualmente uma familiaridade com suas narrativas. que se explica pela chamada teoria da compensação sensorial. não existiu desde sempre e exigiu um aprendizado por parte do espectador. 1. Felipe Hautequestt. mas não é espontânea ou garantida de antemão e está relacionada ao direcionamento da atenção aos estímulos auditivos. Ela não precisa se resumir a uma função informativa. sem fazer interpretações.

Todavia. 1. impõe-se também o desafio da formação desse tipo de público.Audiodescrição de filmes: experiência. bem como a diversidade do público deficiente visual. necessidades e possibilidades dos deficientes visuais. qualquer interpretação fornecida a título de audiodescrição recai num indesejável subjetivismo. dependendo da familiaridade e das referências mobilizadas. p. Por essa razão. que diz respeito à consideração da paleta sonora com todas as pistas que ela oferece. Muitas vezes. constituem o complexo cenário da audiodescrição. Um silêncio após uma fala de um casal enamorado que troca juras de amor ao pé do ouvido pode ser a pista de uma cena de beijo. próxima de uma descrição objetivamente sintonizada à linguagem. Vozes idênticas ou muito semelhantes produzem inevitável confusão para o espectador cego./Abr. A economia de orçamento pode comprometer a qualidade de todo um trabalho de audiodescrição. É preciso ter bem claro que muitas pessoas cegas e com baixa visão estão bastante acostumadas a entender um filme por meio de referências auditivas. podemos enumerar algumas diretrizes que levam em conta as particularidades cognitivas. Não parece possível definir regras rígidas para serem diretamente aplicadas. É preciso nunca esquecer que a cegueira é uma deficiência sensorial. O silêncio em si mesmo pode ter seu valor e supostos silêncios para os videntes muitas vezes fornecem pistas importantes. devemos afastar a ideia da audiodescrição como uma técnica que visaria explicar um filme. Isso significa não procurar narrar. para a surpresa de um vidente. segundo. aí compreendidos os diálogos e os demais elementos da paleta sonora. De saída. 125-142. Nada justifica que o número de dubladores seja menor que o de personagens ou que a voz do audiodescritor seja a mesma de um deles. objetividade e acessibilidade cultural A especificidade de cada filme com sua narrativa e seu estilo próprios. Portanto. Audiodescrever um filme é mais do que colocar um texto entre as falas dos personagens. O desafio é produzir uma audiodescrição minimalista. ao ritmo e à atmosfera afetiva do filme. A transformação da audiodescrição numa técnica interpretativa incorre em dois equívocos básicos: primeiro. restam momentos ininteligíveis. Por esse motivo. há uma diferença entre aqueles que têm o hábito de assistir a filmes e os que não tiveram tal oportunidade. a acuidade auditiva da pessoa cega requer cuidado na escolha das vozes dos dubladores e dos audiodescritores. todo filme possui múltiplos planos de sentido. Desse modo. sendo capaz de construí-lo por si mesma. supor a existência de um sentido único para o filme a ser desvelado pelo espectador e. Requer um cuidado maior. a pessoa com deficiência visual não tem necessidade de que lhe forneçam um sentido pronto. muito menos explicar o filme para as pessoas com deficiência visual. e que podem e devem ser esclarecidos por uma boa audiodescrição. No entanto. Jan. v. Entretanto. O caminho da audiodescrição não é tampouco o da interpretação. 2012          137 . 24 – n. a melhor audiodescrição não deve ter o intuito de preencher todas as lacunas ou os espaços entre as vozes dos personagens. Fractal: Revista de Psicologia. elas são mais aproveitadas na construção do sentido pelo deficiente visual do que em geral se imagina. Além disso. comportando diferentes interpretações. nem interpretar. No caso de filmes estrangeiros dublados. porque lastreados em referências exclusivamente visuais. como de resto o faz qualquer vidente. crer que a pessoa com deficiência visual seria incapaz de apreendê-lo. e não um déficit intelectual generalizado.

Hattwell (2003) e Rego-Monteiro. 2012 . também há adequações e experimentações a serem feitas. Notas  O Instituto Benjamin Constant é um centro de referência nacional para as questões relativas à deficiência visual. Virginia Kastrup Enfim. 7  Vale assinalar que. Esboçamos algumas diretrizes que estão longe de constituir um conjunto de regras fixas a serem aplicadas. e pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFF. 3  Closed caption. principalmente aqueles que imprimem um traço mais experimental aos seus trabalhos. podem equivaler a “conhecer”. impressos em Braille e publicações científicas. é um recurso que permite a exibição de legendas na TV aberta. de maneira a ressaltar que outros sentidos. na língua portuguesa. esperamos ter oferecido uma pequena contribuição para acelerar este processo. do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFRJ. por certo. 1 138          Fractal: Revista de Psicologia. vinculado ao Ministério da Educação. o que fará com que. produz material especializado. essa correspondência não é exata. v. a médio e longo prazo. p. ao mesmo tempo. além das falas. Ele capacita profissionais na área. optamos por utilizar o verbo “assistir”. o filme Chico Xavier. “Saber de” e “saber sobre”. Os encontros aconteceram de março a junho de 2009. 4  Em agosto de 2010. As legendas fornecem. oferece consultas gratuitas à população. é preciso que cada vez mais a audiodescrição seja estimulada e seu direito garantido. Existem outros filmes audiodescritos que. retomada pelo filósofo inglês Bertrand Russell e desenvolvida por outros rumos. Existem normas internacionais que já são consolidadas e que podem servir de base para a implementação no Brasil. pois tais categorias não são exaustivas e se misturam em diferentes combinações. A audiodescrição de filmes é urgente e deve ser implantada imediatamente. no entanto. 5  Os encontros foram feitos no contexto do projeto de pesquisa Práticas Artísticas e Construção da Cidadania com Pessoas Deficientes Visuais. em parceria com o Instituto Benjamin Constant. não são encontrados nas locadoras. Com este artigo. para tentar dar conta da singularidade de cada filme. produtores e emissoras de TV que deve ser enfrentada para a inclusão cultural de pessoas com deficiência visual. reabilitandos e usuários em geral do IBC. 24 – n. pois o verbo “saber” parece portar sentidos muito variados conforme o empreguemos no modo transitivo direto ou indireto. Manhães e Kastrup (2007). de modo a possibilitar que deficientes auditivos acompanhem os programas transmitidos. Mas. 2  Neste trabalho. (Cf. A audiodescrição deve sempre comportar uma certa dose de experimentação e invenção. foi lançado em DVD com versão audiodescrita disponível em todas as suas cópias. mais tarde. 1963). 8  Esse arranjo é por certo bastante simplificado. Deve. por exemplo. presta assessoria a escolas e instituições diversas. ou legenda oculta. Jan. conferir os trabalhos de Vygotski (1997). envolver as pessoas deficientes visuais nesse processo. além da visão. a qualidade da audiodescrição seja cada vez melhor. em vez de “ver”. 1. Felipe Hautequestt. A função precisa ser acionada por uma tecla no controle remoto ou por um menu na tela do televisor. segundo a inspiração analítica desse autor. 9  Nem todos os cineastas se enquadram nesse modelo hegemônico./Abr. RUSSELL. compõem a experiência com os filmes.Jéssica David. Há uma grande batalha junto a exibidores. já que abarcam formas de saber indiretas e discursivas. 10  Para um aprofundamento dessa questão. Apoio FAPERJ. 6  A distinção será. de Daniel Filho. 125-142. possui uma escola e oficinas de reabilitação. Integraram o grupo de discussão funcionários. a indicação de sons presentes na cena. realizado pelo Núcleo de Pesquisa Cognição e Coletivos (NUCC).

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