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O RESSUSCITADO: VIDA DA COMUNIDADE CRISTÃ BORTOLINE, José - Roteiros Homiléticos Anos A, B, C
O RESSUSCITADO: VIDA DA COMUNIDADE CRISTÃ
BORTOLINE, José - Roteiros Homiléticos Anos A, B, C Festas e Solenidades - Paulus, 2007
* LIÇÃO DA SÉRIE: LECIONÁRIO DOMINICAL *
ANO: B – TEMPO LITÚRGICO: 2º DOMINGO DA PASCOA– COR: ROXO

I. INTRODUÇÃO GERAL

1. Jesus ressuscitado está presente na comunidade, dando início à nova criação. Os cristãos sentem sua presença na ação do Espí- rito que os move à implantação do projeto de Deus na história. A comunidade é chamada a ter fé madura que não exige sinais ex- traordinários para perceber Jesus presente nela (Evangelho Jo

20,19-31).

2. Só o amor é extraordinário. Ele nasce de Deus, cuja paterni- dade é universal e se encarna nas relações fraternas entre as pes- soas. Nesse clima a comunidade vence “o mundo”, o anti-projeto, para criar o mundo novo (2ª leitura 1Jo 5,1-6).

3. O mundo novo já esteve presente na primeira comunidade cristã. O retrato mais bonito dessa comunidade ficou gravado nestas palavras: “eram um só coração e uma só alma… tinham tudo em comum… entre eles não havia necessitados” (1ª leitura At 4,32-35).

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

Evangelho (Jo 20,19-31): A nova criação

4. O texto de Jo 20,19-31 pode ser dividido em duas cenas

distintas: vv. 19-23 e vv. 24-29. Segue-se um epílogo (vv. 30-31) que, originariamente, era a conclusão do 4º Evangelho. Na pri- meira cena enfatiza-se a criação da comunidade messiânica que, a mandato de Cristo ressuscitado, dá seqüência ao projeto de Deus.

A segunda cena reflete, por contraste com a atitude de Tomé, o

amadurecimento na fé dos que, apesar de não terem visto Jesus, aderiram a ele plenamente. O epílogo sintetiza a finalidade pela qual o 4º Evangelho foi escrito.

a. A criação da comunidade messiânica (vv. 19-23)

5. O texto inicia situando a cena no tempo. É a tarde do domin-

go da Páscoa. Para os judeus, já havia iniciado um novo dia. Para

João, contudo, é ainda o dia da ressurreição, a nova era inaugura- da pela vitória de Jesus sobre a morte. A referência à tarde do domingo reflete a práxis cristã de celebrar a Eucaristia no Dia do Senhor, à tardinha. Estamos, portanto, num contexto eucarístico. As portas fechadas denotam um aspecto negativo (o medo dos discípulos) e um aspecto positivo (o novo estado de Jesus ressus- citado, para o qual não há barreiras).

6. Jesus apresenta-se no meio da comunidade (mais uma refe- rência ao contexto eucarístico) e saúda os discípulos com a sauda- ção da plenitude dos bens messiânicos: “A paz (shalom) esteja com vocês”. É a mesma saudação da despedida (cf. 14,27). Por sua morte e ressurreição ele se tornou aquele que venceu o “mun- do” e a morte. É a saudação do Cordeiro vencedor que ainda traz em si os sinais de vitória, as marcas nas mãos e no lado (v. 20a). Dele a comunidade se alimentará.

7. A reação da comunidade é a alegria (cf. 16,20) que ninguém,

de agora em diante, poderá suprimir (cf. 16,22).

8. Assim fortalecida, a comunidade está pronta para a missão que o próprio Jesus recebeu: “Como o Pai me enviou, assim tam- bém eu envio vocês” (v. 21b). Quem garante a missão da comu- nidade será o Espírito Santo. Para João, o Pentecostes acontece aqui, na tarde do dia da ressurreição. De agora em diante, batiza- dos no Espírito Santo (cf. 1,33), os cristãos têm o encargo de continuar o projeto de Deus. Esse projeto é sintetizado assim: “Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados; os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados” (vv. 22b-23). O que é pecado para João? Consiste essencialmente em aderir à ordem injusta que levou Jesus à morte. Os pecados

são atos concretos decorrentes dessa opção. Fundamentalmente, a tarefa da comunidade é mostrar, em palavras e ações, que quem se fechou ao projeto de Deus permanece em seus pecados (cf. 9,41: “O pecado de vocês permanece”).

9. Jesus sopra sobre os discípulos e lhes comunica sua própria missão. O sopro recorda Gn 2,7, o sopro vital do Deus que comu- nica a vida. Recordando o Gênesis, João quer dizer que aqui, no dia da ressurreição, nasce a comunidade dos seguidores de Jesus, aos quais ele confia sua própria missão.

10. “Os discípulos continuam a ação de Jesus, pois ele lhes con-

fere a sua missão (20,21). Pelo Espírito que recebem dele, são suas testemunhas perante o mundo (15,26s). Sua atividade, como a de Jesus, é a manifestação por atos e obras do amor gratuito e generoso do Pai (9,4). Diante deste testemunho, sucederá o mes- mo que sucedeu a Jesus: haverá os que o aceitarão e darão sua adesão a Jesus e os que se endurecerão em sua atitude hostil ao homem, rejeitarão o amor e se voltarão contra ele, chegando inclusive a dar a morte aos discípulos em nome de Deus (15,18- 21; 16,1-4). Não é missão da comunidade, como também não o era a de Jesus, julgar os homens (3,17; 12,47). O seu julgamento, como o de Jesus, não faz senão constatar e confirmar o julgamen- to que o homem dá sobre si mesmo” diante do projeto de Deus (J. Mateos-J. Barreto, O Evangelho de São João, Paulus, São Paulo, p. 836s).

b. A fé amadurecida (vv. 24-19)

11. Muito provavelmente o episódio de Tomé foi lembrado pelo

autor do 4º Evangelho para eliminar mal-entendidos na comuni- dade, segundo os quais as testemunhas oculares estariam num plano superior em relação aos que não viram pessoalmente o Senhor ressuscitado. Esse era um conflito presente nas comunida- des do fim do 1º século.

12. Tomé era um dos Doze (v. 24) que estivera com Jesus antes

da Paixão. O evangelista quer salientar que o importante não é ter estado com Jesus antes de sua morte, e sim viver a vida que nasce da ressurreição, assumindo o projeto de Deus como opção pesso- al. De fato, não obstante a boa vontade de Tomé (cf. 11,16: “Va- mos também nós, para morrermos com ele”), ele não fizera a experiência do Cristo vivo, nem recebera o Espírito (cf. v. 24). Contrariamente a quanto faziam os convertidos, ele não aceita o testemunho dos discípulos. Sua fé ainda é fraca: não nasce da experiência de amor da comunidade, mas depende de sinais ex- traordinários.

13. A referência ao oitavo dia denota mais uma vez o contexto

eucarístico do texto. É o dia da nova criação, da plenitude, “oitavo

dia por sua plenitude e primeiro por sua novidade”. Para o 4º Evangelho, a ressurreição de Jesus se prolonga por todos os dias da história.

14. Digna de nota é a resposta de Tomé: “Meu Senhor e meu

Deus”. É a maior profissão de fé do 4º Evangelho. Ele reconhece em Jesus o servo glorificado (Senhor), em pé de igualdade com o Pai (Deus). Descobre em Jesus o projeto acabado de Deus e o toma como modelo para si (meu Senhor e meu Deus). É a primei- ra vez, fora o prólogo, em que Jesus é chamado de Deus. Note-se que, para os judeus, a prova cabal de que Jesus devia morrer foi o fato de se ter proclamado igual a Deus (5,18), ou de fazer-se Deus

(10,33).

15. A cena se conclui com a única bem-aventurança explícita no

Evangelho de João (cf. 13,17). Ela privilegia os que irão crer sem ter visto. O evangelho é desafio e abertura para o futuro: aceitá-lo ou não, aí se joga a sorte do ser humano e do ser cristão.

c. Epílogo (vv. 30-31)

16. A maioria dos estudiosos admite que aqui se encerrava o

Evangelho de João. O cap. 21, que se segue, foi acrescentado mais tarde. O epílogo sintetiza a atividade de Jesus, marcada por

sinais, cuja função é o próprio objetivo do evangelho: suscitar a fé

e adesão ao projeto de Jesus, o Cristo, levado a cabo em sua mor-

te e ressurreição. Esse projeto é o mesmo do Pai, do qual o Filho é

a expressão fiel. Aderindo a ele, as pessoas têm a vida.

1ª leitura (At 4,32-35): Retrato da comunidade cristã

17. Nos primeiros cinco capítulos de Atos encontram-se três

sumários que são como que retratos da comunidade de Jerusalém

(2,42-47; 4,32-35; 5,12-16). O texto deste domingo – o segundo retrato – faz parte de uma seção maior (4,32-5,11). Essa seção pode ser dividida em três partes: vv. 32-35: retrato da comunida- de; vv. 36-37: exemplo positivo (Barnabé vende seu terreno e põe

o dinheiro à disposição da comunidade); 5,1-11: exemplo negati- vo (mentira de Ananias e Safira).

18. Lucas escreveu os Atos dos apóstolos para despertar comu-

nidades paradas, chamando-lhes a atenção para a ousadia da novidade de vida das primeiras comunidades cristãs. Tem sido comum, ao longo da história, a acomodação das comunidades aos sistemas fundados na desigualdade e exploração de um sobre o outro. Reagindo a essa acomodação – já presente nas comunida-

des do final do primeiro século da era cristã – Lucas pinta a pri- meira comunidade fundada na união e na fé, apesar de serem muitos: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava como próprias as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum” (v. 32). A razão dessa união

é a fé em Cristo ressuscitado (v. 33). É à luz da vitória de Cristo sobre a morte que a comunidade se sente livre para partilhar tudo como expressão da única fé que possuem. Para Lucas, a posse e o acúmulo são sintomas do medo e da morte, ao passo que a comu- nhão dos bens é sinal de vitória sobre a morte.

19. Os primeiros cristãos tinham consciência de ser a comunida-

de messiânica nascida do Espírito do ressuscitado. De fato, jamais no Antigo Testamento se realizara o que previra o Deuteronômio:

“É verdade que em teu meio não haverá nenhum pobre, porque Javé vai te abençoar…” (15,4). Esse ideal messiânico só se con- cretizou na comunidade cristã: “Entre eles ninguém passava ne- cessidade” (At 4,34a), sendo Cristo o motor dessa forma nova de viver (cf. Lc 12,33; 18,22). As relações de gratuidade espontânea em nível do econômico e social (diferentemente do que acontecia, por exemplo, em Qumrã, onde a comunhão de bens era forçada),

é sinal de que os primeiros cristãos venceram a obsessão do acú-

mulo para se abrirem ao modo de ser apresentado por Jesus. O sistema de partilha que Jesus encontrou nas aldeias da Galiléia é agora implantado na cidade grande.

20. O retrato da comunidade tem um ideal: acabar com a miséria,

suprimindo para sempre o acúmulo do latifúndio e a especulação imobiliária, a fim de que todos tenham o necessário para viver

com dignidade. Esse ideal se fundamenta na vitória de Cristo

sobre a morte, e se concretiza na partilha dos bens. A partilha pressupõe o discernimento: detectar as necessidades, destruir os contrastes sociais para que a comunhão se torne realidade (v. 35).

2ª Leitura (1Jo 5,1-6): De onde nasce a comunhão entre os cristãos?

21. A primeira carta de João foi “dirigida às comunidades cristãs

da Ásia Menor, que passavam por séria crise, provocada por um grupo de dissidentes carismáticos. Estes propunham uma doutrina

gnóstica, que afirmava que o homem se salva graças a um conhe- cimento religioso especial e pessoal. Eles negavam que Jesus era

o Messias e se gloriavam de conhecer a Deus, de amá-lo e de

estar em íntima comunhão com ele; afirmavam ser iluminados, livres do pecado e da baixeza do mundo: não davam importância ao amor ao próximo e talvez até odiassem e hostilizassem a co- munidade… A carta mostra que é vazio e sem valor qualquer

espiritualismo que não se traduz em comportamento prático. Não

é possível amar a Deus sem amar ao próximo e sem formar co-

munidade: se Deus é Pai, os homens são filhos e família de Deus,

e conseqüentemente todos devem amar-se como irmãos” (Bíblia Sagrada – Edição Pastoral, Paulus, p. 1578).

22. Os vv. 1-5 foram muito bem elaborados pelo autor. Uma de

suas características é a concatenação de temas, um puxando o outro. Procurando salientar as palavras ou expressões que nesse texto ocorrem com maior freqüência, chegamos à seguinte se- qüência de temas: fé, nascer-ser gerado, amor ao próximo-amor a Deus, nascer de Deus, fé enquanto vitória sobre o mundo. No centro dessa seqüência está o amor ao próximo como expressão do amor a Deus. Isso demonstra que o autor quer conferir-lhe cuidado especial dentro de todo o discurso.

23. Esses versículos salientam alguns temas importantes: 1. A fé

em Jesus Messias é o verdadeiro nascimento para os cristãos (cf. Jo 1,12; 3,1-7). Eles nascem de Deus, a fonte comum (v. 1); 2.

Deus é Pai de todos. Seu amor é o mesmo para todos os seus filhos. Nascer de Deus, portanto, é discernir o alcance da paterni- dade de Deus e o alcance da fraternidade dos filhos dele (v. 1b); 3. Viver nessa perspectiva é praticar os mandamentos, cuja sínte-

se é o amor ao próximo na mesma medida do amor de Jesus para

conosco (vv. 2-3; cf. Jo 13,34); 4. Ter nascido de Deus, discer- nindo o alcance da paternidade divina e o da fraternidade de seus filhos é vencer “o mundo” (aqui entendido em sentido negativo: o anti-projeto, o projeto de morte, oposto ao da vida, v. 4a); 5. A arma que vence “o mundo” é a fé em Jesus, Filho de Deus (vv.

4b-5).

24. O v. 6 explica o que é a fé em Jesus. É adesão total desde o

encontro com ele (Batismo = água), até a entrega da própria vida (martírio = sangue). O testemunho do cristão é sustentado pelo

Espírito, aqui chamado de “a verdade”. É que, na Bíblia, a palavra verdade significa fidelidade: o Pai sempre foi fiel ao seu projeto;

o Filho, a Verdade (cf. Jo 14,6), é a expressão concreta dessa

fidelidade, e o Espírito, enquanto memória do que Jesus ensinou e fez, é o fermento que leva os cristãos à prática de Jesus, a “fazer a

verdade”.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

25. O ressuscitado faz a comunidade cristã ser igreja de portas abertas, responsável pela criação do mundo novo. A vivência da comunidade cristã acusa o mundo de pecado: o pecado de estar contra o projeto de vida querido por Deus (Evangelho Jo 20,19-31).

26. Ver com a comunidade se estamos vivendo a comunhão do amor, ou se estamos vivendo à moda das comunidades da Ásia Menor (2ª leitura 1Jo 5,1-6).

27. O retrato da nossa comunidade já se assemelha ao da primeira comunidade cristã? Já conseguimos criar relações de gratuidade? Ainda há necessitados entre nós? (1ª leitura At 4,32-35).