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CAPÍTULO III - A ESSÊNCIA DA MORAL

Propõe-se a seguinte definição de moral como ponto de partida: a moral é um conjunto de normas, aceitas livre e conscientemente, que regulam o comportamento individual e social dos homens.

1. O Normativo e o Fatual

Encontramos na moram dois planos: (a) o normativo, constituído pelas normas ou regras de ação, o dever-ser; e (b) o fatual, ou plano dos fatos morais, constituído por atos humanos concretos, e portanto independentes do dever-ser. Os fatos morais estão em constante interação com o normativo, posto que

sempre adquirem um significado moral positivo ou negativo; e o normativo não existe independentemente do fatual, pois aponta para um comportamento efetivo. As normas existem e valem independentemente da medida em que sejam cumpridas ou violadas.

2. Moral e Moralidade

A distinção entre moral e moralidade corresponde à indicada entre normativo e

fatual. Entretanto, o melhor é empregar um único termo: moral – mas significando os dois planos, ou seja, o normativo e o prático.

3. Caráter Social da Moral

A moral possui, em sua essência, uma qualidade social, e portanto ela se manifesta somente na sociedade. Essa socialidade se revela em três aspectos fundamentais:

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A) Cada pessoa, comportando-se moralmente, sujeita-se a determinados princípios, valores ou normas morais válidas segundo a época histórica, a sociedade e o tipo relação social dominante.

B) O comportamento moral é tanto de indivíduos como de grupos sociais

humanos, e tem caráter livre e consciente.

C) As idéias, normas e relações sociais surgem em decorrência de uma

necessidade social.

Para cumprir certas normas sociais, o poder coercitivo do Estado não é suficiente; busca-se que os indivíduos aceitem íntima e livremente a ordem social estabelecida, e aqui reside a função social da moral.

A moral possui um caráter social porque (a) os indivíduos se sujeitam a normas

social estabelecidas; (b) regula somente atos que acarretam conseqüências para os outros; e (c) cumpre a função social de induzir os indivíduos a aceitar livre e conscientemente determinados princípios, valores ou interesses.

4. O Individual e o Coletivo na Moral O indivíduo pode agir moralmente apenas em sociedade. No nível da regulamentação moral consuetudinária, o indivíduo sente sobre si a pressão do coletivo. Entretanto, por mais fortes que sejam os elementos objetivos e coletivos, a decisão e o ato respectivo emanam de um indivíduo que age livre e conscientemente, assumindo uma responsabilidade individual. Por outro lado, mesmo quando o indivíduo pensa que age em obediência exclusiva à sua

consciência, a uma suposta “voz interior”, e portanto pensa que decide sozinho conforme sua consciência, ele não deixa de acusar a influência do mundo social do qual faz parte.

A

moral implica sempre uma consciência individual que faz suas ou interioriza

as

regras de ação que se lhe apresentam com um caráter normativo.

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5.

Estrutura do Ato Moral

O

ato moral há de ser analisado pelo seu motivo, e também pelo seu fim visado.

O

motivo, como aspecto importante do ato moral, pode ser de naturezas várias,

inclusive inconscientes, e não pode ser objeto de aprovação ou desaprovação. O fim do ato moral é (i) algo voluntário, ou seja, houve uma decisão de realizar o fim escolhido, e (ii) pressupõe a escolha de um único fim em detrimento de outros fins possíveis, por achar que o escolhido é preferível. A seguir, vem a escolha dos meios para a consecução do fim escolhido, sendo que mesmo um fim muito elevado não justifica meios baixos para a sua consecução. O ato moral, ademais, supõe um sujeito real dotado de consciência moral.

A intenção também é um aspecto importante do ato moral, e elas não se podem

salvar moralmente, porque não podemos isolá-las dos meios nem dos resultados – em outras palavras: meios e resultados maus não se justificam com intenções

boas.

6. Singularidade do Ato Moral

A singularidade, novidade e imprevisibilidade de cada situação real colocam o

ato moral num contexto particular que impede a possibilidade de ditar por antecipação uma regra de realização – pretensão vã do casuísmo ou casuística, que por sua vez empobrece a vida moral.

7. Conclusão

Os traços essenciais da moral são os seguintes:

1) A moral é uma forma de comportamento humano que compreende um aspecto normativo (regras de ação) e outro fatual (atos de natureza prática). 2) A moral é um fato social; verifica-se somente em sociedade. 3) Embora a moral possua caráter social, o indivíduo nela desempenha papel decisivo, dada a exigência de interiorização das normas e da sua adesão íntima a elas.

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4) O ato moral é uma unidade indissolúvel dos seus diversos elementos: motivo, intenção, decisão, meios e resultados. 5) O ato moral concreto é parte de um contexto normativo em vigor em uma determinada comunidade que lhe dá sentido. 6) O ato moral, sendo consciente e voluntário, supõe uma participação livre do sujeito em sua realização.

Definição de moral: a moral é um sistema de normas, princípios e valores, segundo o qual são regulamentadas as relações mútuas entre os indivíduos ou entre estes e a comunidade, de tal maneira que estas normas, dotadas de um caráter histórico e social, sejam acatadas livre e conscientemente, por uma convicção íntima, e não de uma maneira mecânica, externa ou impessoal.

CAPÍTULO IV - A MORAL E OUTRAS FORMAS DE

COMPORTAMENTO HUMANO

1. Diversidade do comportamento Humano

As relações do homem com o mundo exterior, diferentemente do animal, são de ordens muito diversas: trabalho, arte, conhecimento e religião. Além disso, as relações dos homens entre si também são muitas: econômicas, políticas, jurídicas, morais, etc. Cabe aqui examinar, em termos gerais, a distinção entre o comportamento moral e outras formas do comportamento humano, a seguir.

2. Moral e Religião

Há duas teses sobre religião e moral: (i) a religião inclui certa moral; e (ii) Deus

como garantia da moral. Entretanto, a história da humanidade demonstra que a moral não somente não se origina da religião como também é anterior a ela.

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3. Moral e Política

Enquanto a moral regulamenta as relações mútuas entre os indivíduos e entre estes e a comunidade, a política abrange as relações entre grupos humanos (classes, povos ou nações). Na política, o indivíduo encarna uma função coletiva, ao passo que agindo moralmente o elemento íntimo e subjetivo desempenha um papel importante. As relações extremas entre política e moral são: (i) a do moralismo abstrato, que leva a reduzir a política à moral, e (ii) do realismo político, que defende a busca de resultados a qualquer preço, sejam quais forem os meios empregados, desconsiderando a moral.

4. Moral e o Direito

De todas as formas de comportamento humano, o jurídico, ou do direito, é o que mais intimamente se associa com a moral, pois os dois estão sujeitos a normas que regulam as relações do homem. Há algumas diferenças entre as duas formas: (i) as normas morais são cumpridas pela convicção íntima dos indivíduos, ao passo que as normas jurídicas são cumpridas por motivos formais ou externos; (ii) a esfera da moral é mais ampla do que a do direito; (iii) a moral não depende necessariamente do Estado, como o direito.

5. Moral e Trato Social

Também guardam relação com a moral os atos de trato social, como por exemplo o cavalheirismo, a pontualidade, a galanteria, etc., que podem ou não variar de um grupo social para outro, e de uma época para outra. O trato social procura regulamentar formal e exteriormente a convivência dos indivíduos na

sociedade, mas sem o apoio da convicção e adesão íntima do sujeito (moral) e sem a imposição coercitiva do cumprimento das regras (direito).