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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA – UFSC CENTRO TECNOLÓGICO – CTC Brunela Francine da Cunha

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA UFSC

CENTRO TECNOLÓGICO CTC

Brunela Francine da Cunha

Igor de Lima Teixeira

Mateus Pereira Volpato

Recalque Diferencial em Alvenaria Estrutural:

Estudo de Caso

Florianópolis, Novembro de 2014

Brunela Francine da Cunha

Igor de Lima Teixeira

Mateus Pereira Volpato

Recalque Diferencial em Alvenaria Estrutural: Estudo de Caso

Estudo de caso de recalque em uma edificação de alvenaria estrutural apresentado como requisito para a disciplina de Patologia das Construções, no curso de Engenharia Civil, na Universidade Federal de Santa Catarina.

Prof. Ivo José Padaratz

Prof. Wellington Longuini Repette

Florianópolis, Novembro de 2014

Sumário

1. INTRODUÇÃO

4

2. RECALQUES

5

2.1. Tipos de Recalque

5

2.2. Causas de Patologias em Fundações

6

2.3. Efeito de Movimentos das Fundações

8

2.4. Medidas Preventivas e Mitigadores

9

3. ESTUDO DE CASO

12

3.1.

Descrição da Edificação

12

3.2.

Histórico

13

3.3.

Metodologia

15

3.4.

Apresentação dos Procedimentos

15

3.4.1.

Inspeção

15

3.4.2.

Equipamentos

17

3.4.3.

Definição de pontos críticos para o nivelamento

20

3.4.4.

Nivelamento

20

3.4.5.

Monitoramento de Recalques

22

3.5.

Apresentação e Análise dos Resultados

22

3.5.1.

Causa e Origem do Problema

24

3.5.1.

Influência do problema na estrutura

25

3.5.2.

Medidas Preventivas e Corretivas

26

4. CONCLUSÕES

28

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

29

ANEXO A - Croqui de Localização dos Pontos de Controle

30

ANEXO B - Planilha de Controle dos Recalques

31

1. INTRODUÇÃO

Na medicina, de acordo com o dicionário Aurélio, Patologia é a ciência que se ocupa da natureza e das modificações produzidas no organismo por doença. Na construção civil, a Patologia estuda as origens, causas, mecanismos de ocorrência, manifestações e consequências das situações em que os edifícios ou suas partes deixam de apresentar um desempenho mínimo pré-estabelecido.

O estudo da Patologia na construção civil é importante para a identificação e diagnóstico das manifestações patológicas, encontrando soluções e maneiras de prevenção, aumentando a vida útil das edificações, preparando os profissionais de Engenharia e Arquitetura para perícia, recuperação de construções e atualização das normas técnicas.

Quando se trata a respeito da prevenção de defeitos em elementos específicos de uma estrutura, parece razoável começar com fundações, que é onde a construção começa e, também, problemas com fundações são os mais difíceis e custosos de se remediar.

Desta forma, o presente trabalho tem por objetivos o aprofundamento no tema de recalques em fundações e a realização de um estudo de caso para uma edificação em alvenaria estrutural com recalques diferenciais.

2. RECALQUES

Recalque é o deslocamento vertical, para baixo, da base do elemento de fundação em relação ao indeformável, sendo resultante basicamente das deformações que ocorrem no maciço de solo sob a ação da carga atuante (Cintra, 2003). Pode-se afirmar que todas as fundações sob carga apresentam recalques, pois os solos são materiais deformáveis que apresentam variação de volume ao serem carregados, provocando deslocamentos das fundações.

Considerando que a fundação é um elemento de transição entre a estrutura e o solo, seu comportamento está intrinsecamente ligado ao que acontece com o solo quando submetido a carregamentos através dos elementos de fundação. Assim, uma fundação adequada é aquela que apresenta um conveniente fator de segurança à ruptura (da estrutura que a compõe e do solo afetado pela transmissão de cargas) e recalques compatíveis com o funcionamento do elemento suportado. [2]

É importante ressaltar, porém que há situações nas quais o solo apresenta deformações ou variações volumétricas não provocadas pelo carregamento externo, podendo resultar em patologias. É o caso dos chamados solos problemáticos (expansivos e colapsíveis).

2.1. Tipos de Recalque

Se o maciço de solo fosse homogêneo e todas as sapatas de mesmas dimensões e submetidas às mesmas cargas, os recalques seriam praticamente uniformes. Na prática, contudo, a variabilidade do solo somada às diferenças de tamanho das bases das sapatas, faz com que os recalques sejam diferentes. De acordo com Cintra et al. (2003), os recalques apresentados pelas fundações superficiais podem ser classificados em três categorias:

Recalque total ou absoluto (ρ): deslocamento total e individual do elemento de fundação superficial;

Recalque diferencial ou relativo, com rotação (δ): diferença entre os recalques totais de dois elementos de fundações circunvizinhos;

Distorção angular ou recalque diferencial específico (δ/l): é a razão entre o recalque diferencial entre dois elementos de fundação e a distância (l) entre eles;

Figura 01: Tipos de Recalque Quando todos os elementos de fundação da edificação tem recalques

Figura 01: Tipos de Recalque

Quando todos os elementos de fundação da edificação tem recalques absolutos de mesma grandeza mesmo que elevados -, geralmente esses recalques podem ser tolerados. Ou seja, a estrutura desce como um corpo rígido, mantendo a estabilidade horizontal e vertical, não produzindo distorções (ver figura 1a). Deve-se atentar, contudo, a danos de origem estética e nas ligações com a via pública (entrada de água, esgoto, acesso de veículos). Ainda, recalques diferenciais normalmente serão maiores quanto maiores os recalques absolutos.

Os recalques diferenciais podem ser separados em dois tipos: com rotação ou com distorção. O primeiro é característico de estruturas muito rígidas, nas quais ocorre uma rotação de toda a obra como se fosse um bloco único (ver figura 1b). Dependendo da magnitude do recalque, a estrutura pode não sofrer danos, mas seu aspecto estético pode ficar comprometido, bem como as tubulações, prumo das paredes. Um exemplo clássico de recalque diferencial com rotação é a Torre de Pizza. Já no segundo caso, o que influencia a intensidade dos danos é a distorção angular, podendo provocar danos nos elementos estruturais como redução do cobrimento de armadura, deformação nas lajes e vigas, trincas nas alvenarias, além comprometer a abertura de esquadrias.

2.2. Causas de Patologias em Fundações

Na busca de soluções, após a ocorrência do problema, a etapa mais complexa refere-se à identificação das origens e mecanismos responsáveis pelo mau desempenho da estrutura. Deve-se caracterizar suas origens e possíveis mecanismos deflagradores, que incluem a monitoração do aparecimento e evolução de fissuras, trincas, desaprumo e/ou desalinhamentos.

Figura 02: Fluxograma das etapas de projeto e possíveis causas de patologias [ 2 ]

Figura 02: Fluxograma das etapas de projeto e possíveis causas de patologias [2]

Apresentam-se, abaixo, algumas das causas mais correntes de recalques pós-conclusão da fundação:

Carregamento atuante na superestrutura: com a alteração do carregamento atuante na estrutura, haverá uma mudança nas tensões atuantes nos elementos de fundação e, por conseguinte, uma variação na tensão a ser transmitida para o solo, resultando em uma acomodação do solo, podendo gerar recalques. Essa variação do carregamento pode ser devido à modificação do uso da edificação, com o aumento de cargas não inerentes à estrutura, como a colocação de equipamentos pesados não previstos em projeto, ou ao aumento do peso próprio da estrutura devido a ampliações e modificações no projeto original;

Movimento da massa de solo: vários são os fatores externos que levam a ocorrência de movimentação de terra, causando deslocamentos até que o maciço de solo volte ao equilíbrio. Dentre eles, os mais comuns são:

i. Sobrecarga do bulbo de tensões decorrente da superposição com o bulbo da edificação vizinha devido a uma alteração de uso ou ampliação desta;

ii. Grandes escavações que resultam em movimentação da massa de solo junto a elas ou à estrutura de contenção, em razão da perda de material, variação no estado inicial de tensões ou rebaixamento do lençol freático em solo compressível, levando a um aumento das pressões geostáticas, independente da aplicação de carregamentos externos. É importante frisar que esses efeitos dependem das fundações existentes nas proximidades e da sensibilidade aos recalques das estruturas próximas;

iii. Escavações não protegidas que ocorrem junto a divisas ou internas à obra, geralmente de pequeno porte, onde não se faz previamente uma estrutura de contenção, podendo atingir elementos de fundação;

iv. Instabilidade de taludes em solos colapsíveis, tendo sua resistência ao

cisalhamento enfraquecida com a ocorrência de chuvas, destruindo a cimentação intergranular, resultando em colapso súbito do solo;

Vibrações e choques: a transferência de grandes quantidades de energia para o solo oriunda das mais diversas operações, como equipamentos industriais, cravação de estacas, compactação vibratória, explosões;

2.3. Efeito de Movimentos das Fundações

A manifestação reconhecível de ocorrência de movimento das fundações é o

aparecimento de fissuras nos elementos estruturais e de vedação. Toda vez que a resistência

dos componentes da edificação ou conexão entre elementos for superada pelas tensões geradas por movimentação, ocorrem fissuras.

As consequências dos recalques podem ser separadas em três grupos:

Danos estruturais: são os danos causados à estrutura propriamente dita;

Danos arquitetônicos: são os danos causados à estética da construção, tais como fissuras em paredes e acabamentos, rupturas de painéis de vidro, cerâmica ou mármore;

Danos funcionais: são os causados à utilização da estrutura como ruptura de dutos, emperramento de portas e janelas, desgaste excessivo de elevadores pelo desaprumo da estrutura, etc;

Segundo Skempton (1956), os danos estruturais e arquitetônicos estão ligados principalmente a recalques diferenciais, enquanto que os danos funcionais são influenciados tanto pela magnitude dos recalques totais, quanto pela parcela dos recalques diferenciais.

totais, quanto pela parcela dos recalques diferenciais. Figura 03: Fissuras típicas causadas por recalque de

Figura 03: Fissuras típicas causadas por recalque de fundações de pilares internos (apud Ortiz, 1984)

de fundações de pilares internos (apud Ortiz, 1984) Figura 04: Esquematização das fissuras por recalque de

Figura 04: Esquematização das fissuras por recalque de extremidade (apud Ortiz, 1983)

2.4. Medidas Preventivas e Mitigadores

Patologias em fundações é um assunto muito amplo e é difícil se dar uma solução genérica exata que funcione para todos os casos. Desta forma, serão citadas algumas das medidas mais comuns e eficazes para se prevenir e se contornar problemas oriundos de recalques.

O motivo mais frequente de problemas de fundações está relacionado à investigação do solo. Uma vez que é ele quem vai suportar as cargas, sua identificação e a caracterização de seu comportamento são essenciais à solução de qualquer problema. Alguns desses problemas

estão relacionados a uma sondagem ineficiente, resultando em áreas não investigadas, que podem levar a uma interpretação incorreta dos resultados, além da adoção de um comportamento otimista do solo. De acordo com Logeais (1982), em mais de 80% dos casos de mau desempenho de fundações de obras pequenas e médias, a ausência completa de investigação é o motivo da adoção da solução inadequada.

Outra forma de se prevenir problemas relacionados a fundações é a correta adequação de projeto, considerando todas as cargas e esforços que a estrutura pode vir a sofrer. Além disso, deve se escolher um tipo de fundação coerente com o tipo de solo e se garantir que haja uma execução de qualidade, evitando possíveis problemas futuros.

Após a conclusão da estrutura de fundação, uma vez que ocorra o aparecimento de manifestações patológicas, deve se proceder com seu monitoramento e, se necessário, tomar medidas mitigativas, que podem ser divididas em dois grupos: reforço da infraestrutura ou reforço da capacidade de carga do solo.

Os reforços de infraestrutura consistem em uma intervenção no sistema solo-fundação existente, visando aumentar seu desempenho. Tal intervenção se faz necessária em casos em que a estrutura de fundação se mostre inadequada para continuar suportando as cargas atuantes ou, ainda, quando se deseja aumentar a capacidade resistente de uma estrutura para suportar carregamentos maiores.

Esse reforço pode ser feito com a introdução de novos elementos de fundação à estrutura ou com a modificação de elementos pré-existentes. Podemos destacar duas das principais formas de reforço. A primeira, chamada Estaca Mega, consiste na introdução, através de uma prensa, de um perfil, geralmente metálico ou de concreto, sob um elemento de fundação, sem causar vibrações e podendo ser executado em locais pequenos e de difícil acesso. A segunda, chamada Estaca Raíz, trata-se de uma estaca escavada, armada ao longo de todo seu comprimento, com injeção de argamassa sob pressão, onde os detritos de solo são retirados através de circulação de água. É importante frisar que todos esses tipos de reforços exigem que seja realizado um processo de incorporação ao bloco, que consiste em prensar a estaca, fazendo com que após a incorporação ela se eleve, igualando as cargas nos elementos de fundação novos e antigos, para que se haja uma distribuição adequadas das tensões da estrutura às novas estacas.

Alternativamente à realização de reforços na fundação, pode-se efetuar melhorias no solo, aumentando sua capacidade portante e, portanto, diminuindo ou estabilizando

recalques. Esse processo pode ser realizado através da injeção sob pressão de calda de cimento no solo, onde são feito furos com equipamentos rotopercussivos pneumáticos, destinados a dirigir a calda para a área a ser tratada. A mistura dos componentes, que podem ser calda de cimento, argamassa, compostos químicos, entre outros, é feita com auxílio de equipamentos de alta turbulência, para garantir a perfeita homogeneização. Outro método é a realização de Jet Grouting, que é um processo no qual um jato de calda de cimento é introduzido no terreno a alta pressão e elevada velocidade, através de bicos injetores, em um raio bem determinado, de tal modo que desagrega o solo, misturando-se a ele, formando colunas de solo-cimento.

3.

ESTUDO DE CASO

A fim de se complementar os estudos sobre recalques e poder ter uma visão mais prática de um problema real, realizou-se um estudo de caso de uma edificação apresentando fissuras devido a recalques.

3.1. Descrição da Edificação

A obra em questão é um edifício residencial de três pavimentos, em alvenaria estrutural, construído com blocos cerâmicos maciços, no ano de 1960, na cidade de Florianópolis. Apesar de não se possuir mais nenhum dos projetos da edificação e também não ter realizado nenhum tipo de escavação, a fundação é certamente do tipo direta, podendo ser com sapatas ou diretamente apoiada no baldrame, como pode ser evidenciado na parte inferior da edificação. A construção encontra-se sobre um solo silto-argiloso branco e não possui nenhum pavimento no subsolo, indicando que não houveram alterações significativas no nível do lençol freático durante o período de construção.

no nível do lençol freático durante o período de construção. Figura 05: Fachada frontal do edifício

Figura 05: Fachada frontal do edifício

3.2.

Histórico

No primeiro semestre de 2013 iniciaram-se, no terreno vizinho à obra em questão, escavações para a futura construção de um edifício de 13 pavimentos tipo com 2 pavimentos de garagem no subsolo, sendo feito um processo para rebaixamento do lençol freático. A fim de possibilitar as escavações, foi construída uma estrutura de contenção, do tipo parede- diafragma mista, com predominância de tirantes e, em menores proporções, estroncas e ficha. Após a construção do muro de contenção, começaram os problemas de fissuras em um dos blocos do condomínio, notados pelos próprios moradores. Não há registros de manifestação patológica relevantes anteriores a esse acontecimento.

Um acompanhamento da evolução das fissuras foi realizado pela própria equipe da obra e, posteriormente, foi contratado um serviço especializado para o acompanhamento dos recalques. Esse monitoramento por parte da equipe de topografia teve início em junho de 2014 e ainda está em prossecução.

Esse acompanhamento, por parte da equipe da obra, consistiu na medição da evolução da abertura das fissuras com a anotação desses valores na parede, junto com a data em que a leitura foi realizada. Além disso, aplicou-se, superficialmente, uma camada de gesso nas fissuras do lado externo, objetivando verificar se as fissuras estavam aumentando com o passar dos dias, uma vez que o gesso tem baixa resistência à tração e, caso houvesse um novo recalque, a fissura expandiria e o gesso apresentaria uma fissura. Tal procedimento se mostra ineficaz na prática, pois a parede está suscetível a uma movimentação devido a efeitos térmicos e também à variação higroscópica em função das intempéries, à qual o gesso não resiste, podendo fazer com que a fissura seja visível novamente, mas não estando relacionado ao recalque. O monitoramento das fissuras é importante, contudo um método mais recomendável seria a fixação, em apenas um dos lados, de uma régua milimetrada transparente junto à fissura, permitindo o seu acompanhamento.

Figura 06: Etapa inicial da construção, datada de julho de 2013 Figura 07: Parede diafragma

Figura 06: Etapa inicial da construção, datada de julho de 2013

Figura 06: Etapa inicial da construção, datada de julho de 2013 Figura 07: Parede diafragma e

Figura 07: Parede diafragma e tirantes

3.3.

Metodologia

Com o intuito de se realizar o estudo de caso, procedeu-se com a seguinte metodologia:

Vistoria do local para a visualização e o entendimento da manifestação patológica em questão;

Acompanhamento da equipe especializada em topografia, com a utilização de equipamentos de alta precisão para o monitoramento dos recalques;

Anamnese, que consistiu no levantamento da história evolutiva do problema, buscando como fonte pessoas envolvidas com a construção (usuários e vizinhos);

3.4. Apresentação dos Procedimentos

A seguir são detalhados todos os procedimentos tomados para a análise da manifestação patológica, desde a inspeção e entrevistas com moradores e trabalhadores da obra até o monitoramento dos recalques.

3.4.1. Inspeção

A primeira etapa para a análise foi a inspeção do meio em que o edifício se situa. Inicialmente foi realizada uma entrevista com o subsíndico e a moradora do apartamento em que as fissuras se encontravam, objetivando fazer um levantamento da história do edifício, das manifestações patológicas, bem como da realização de algum tipo de manutenção e intervenção. Contudo, não se conseguiu muitas informações à respeito da edificação com os moradores, por se tratar de um prédio muito antigo. Procurou-se realizar, também, um levantamento dos projetos estruturais e arquitetônicos da edificação, os quais não foram encontrados.

Procurou-se identificar a natureza e possíveis causas das manifestações patológicas, incluindo atividades tais como: exame visual de toda a edificação, realizando um levantamento fotográfico detalhado; registro de todos os sintomas visuais (fissuras). Além do problema principal, devido ao recalque, notou-se também a presença de manchas em algumas partes específicas da fachada, devido ao acúmulo de água proveniente dos ares-condicionados.

Figura 08: Vista geral da principal manifestação patológica (fissuras) Figura 09: Vista no interior da

Figura 08: Vista geral da principal manifestação patológica (fissuras)

geral da principal manifestação patológica (fissuras) Figura 09: Vista no interior da casa da fissura principal

Figura 09: Vista no interior da casa da fissura principal

Figura 10: Presença de manchas na fachada frontal 3.4.2. Equipamentos A fim de se fazer

Figura 10: Presença de manchas na fachada frontal

3.4.2. Equipamentos

A fim de se fazer um controle preciso dos recalques presentes na estrutura, utilizou-se uma série de equipamentos específicos, podendo assim monitorar a sua evolução. Dentre eles:

Nível Topográfico Geodésico (Wild N3): é um nível tubular alemão, de alta precisão, da década de 40, com ampliação de até 42 vezes e um erro de 0,2mm de desnível por quilômetro, devido a uma bolha bipartida muito sensível, possibilitando uma excelente horizontalidade do equipamento. Por ser um aparelho com tecnologia de lentes paralelas, permite que se faça um ajuste fino da leitura que resulta em uma precisão, onde se lê no micrômetro o décimo de milímetro e se faz a aproximação do centésimo, ocasionando um erro de

±0,05mm;

Régua de Invar: é uma régua cuja escala é feita de ligas à base de níquel e ferro, nomeada Invar. A liga mais comumente utilizada é 36% Ni e 64% Fe, cujo coeficiente de dilatação térmica é baixíssimo, inferior a 1,5 x 10 -6 º C -1 , entre 0º C e 100º C. Esse material é utilizada para inúmeras aplicações onde seja necessário que a dilatação por variação de temperatura seja quase nula, como

trena topográfica, relógios mecânicos de precisão, etc. A régua possui uma bolha de nível circular acoplada, auxiliando assim o operador a deixar a régua na vertical;

Parafuso: para os elementos que servem como ponto de controle, fixou-se, na estrutura, um conjunto de bucha, parafuso e cola epóxi, a fim de garantir que o conjunto acompanhe caso a estrutura se desloque. Foi utilizado um parafuso com a bitola levemente maior do que a bucha, para garantir o aperto e que ele não cederá. Uma solução ainda melhor seria a utilização de um chumbador Parabolt, uma espécie de haste roscada constituído de porca e/ou rosca e uma “camisa”, muito parecida com uma bucha de parafuso. Esta camisa, ao aplicar torque na porca/parafuso, se expande, fixando-a no furo em que se pretende fixar algo com o chumbador;

no furo em que se pretende fixar algo com o chumbador; Figura 11: Conjunto bucha +

Figura 11: Conjunto bucha + parafuso para fixação de Ponto de Controle

Figura 12: Equipamentos utilizados para o monitoramento dos recalques 19
Figura 12: Equipamentos utilizados para o monitoramento dos recalques 19

Figura 12: Equipamentos utilizados para o monitoramento dos recalques

3.4.3. Definição de pontos críticos para o nivelamento

O primeiro cuidado a ser tomado é a escolha da posição do benchmark, que serve como Referência de Nível (RN). Esse procedimento, no entanto, é caro e não foi feito, pois pode ser substituído pela adoção de um ponto para RN em um local livre de deslocamentos, ou seja, as medições serão feitas com relação a um ponto indeformável fora da zona de influência da escavação, permitindo o controle do recalque dos demais pontos de controle. Os pontos de medição também devem ser escolhidos de forma a facilitar as leituras e fornecer os dados necessários ao acompanhamento do problema.

No anexo A encontra-se o croqui da localização dos pontos de controle, que foram posicionados no contorno da edificação que apresenta o problema, possibilitando a mensuração do recalque diferencial. Optou-se, também, por colocar os pontos P4 e P5 imediatamente antes e depois da maior das fissuras, para que se tenha um controle mais rigoroso dessa movimentação.

3.4.4. Nivelamento

Uma vez definidos os pontos de controle, já é possível iniciar as leituras para monitoramento do recalque. Primeiramente, coloca-se o nível topográfico no tripé em um local que dê ampla visão de todos os pontos, se possível, evitando trocar o aparelho de posição, para não gerar erros. Com o nível em posição, deve-se proceder com seu nivelamento pelos parafusos calantes, colocando-o em um plano horizontal com o auxílio de uma bolha circular. O próximo passo é fazer a visada na régua que está sobre o RN (leitura de ré), nivelando agora a bolha bipartida, para dar a maior precisão de nível para a visada em questão, e fazendo um ajuste fino da mira para tangenciar a marcação da cota na régua, possibilitando a medição no micrômetro da cota e posterior cálculo da altura do equipamento. É importante que todas as leituras sejam realizadas pelo mesmo operador, já que cada pessoa possui uma acuidade visual.

Com a altura do equipamento já calculada, é feito o mesmo procedimento supradescrito para os demais pontos de controle (leituras de vante), sendo assim possível a mensuração da

movimentação vertical destes pontos em relação a Referência de Nível (RN).

Figura 12: Nível Topográfico localizado em um local de ampla visão dos demais pontos de

Figura 12: Nível Topográfico localizado em um local de ampla visão dos demais pontos de controle

em um local de ampla visão dos demais pontos de controle Figura 13: Posicionamento da régua

Figura 13: Posicionamento da régua de Invar sobre o ponto de controle P5

3.4.5. Monitoramento de Recalques

O monitoramento de recalques teve início em 11 de junho, com as medidas feitas neste dia utilizadas como o padrão de referência para as próximas leituras a serem realizadas, mesmo já tendo ocorrido o deslocamento da estrutura e as fissuras já serem visíveis. Foram feitos levantamentos mais seguidos no começo do monitoramento, pois não se sabia ao certo

a velocidade dos recalques e se a estrutura apresentava risco de colapso.

Como houve um tempo até o surgimento de fissuras e também um tempo de descaso, a estrutura já tinha sofrido recalque, impossibilitando um controle mais rigoroso do deslocamento total. O ideal seria fazer o acompanhamento dos recalques desde o começo das escavações, visto que o muro de contenção aparente ter uma altura consideravelmente grande e o edifício em questão ser de alvenaria estrutural, onde pequenas movimentações podem ter grandes influências no comportamento da estrutura.

3.5. Apresentação e Análise dos Resultados

A planilha com os resultados dos levantamentos encontra-se no anexo B, no qual estão apresentados os recalques parciais e totais, além da velocidade dos recalques. Os valores negativos de recalque e de velocidade indicam deformações verticais para baixo.

Ao analisar a planilha de recalque, pode-se perceber uma diferença significativa entre os recalques dos pontos adjacentes P4 e P5. Isso se deve ao fato do solo ser um material heterogêneo de grande variabilidade, fazendo com que os recalques sejam diferentes em função da resistência de cada segmento de solo. Esse recalque diferencial entre os dois pontos origina tensões de tração na alvenaria que, na maioria dos casos, não conseguem ser resistidas, visto que é um sistema rígido e tem pouca resistência à tração.

Outra observação importante que deve ser feita é a respeito do pequeno deslocamento do ponto P8, visto que está situado longe do muro de contenção e, portanto, longe da área de influência dos tirantes. Em contrapartida, notam-se deslocamentos elevados dos pontos P1, P2

e P3, que são os pontos mais próximos da contenção.

Figura 14: Gráfico de movimentações – recalques totais por ponto Observando-se o gráfico acima, não

Figura 14: Gráfico de movimentações recalques totais por ponto

Observando-se o gráfico acima, não se encontram os dados da primeira leitura, realizada no dia 11 de junho, pois ela é utilizada como eixo horizontal e as demais leituras estão referenciadas a partir dela. As leituras dos dias 24 de junho e 11 de julho estão quase sobrepostas porque a movimentação foi muito pequena.

As velocidades dos recalques para cada ponto de controle com o passar dos dias estão apresentadas no gráfico da figura 15, no qual se destaca a diminuição das velocidades, indicando uma estabilização dos recalques.

Velocidade dos Recalques nos Pontos de Controle

5 0 -5 -10 -15 -20 0 20 40 60 80 100 120 140 160
5
0
-5
-10
-15
-20
0
20
40
60
80
100
120
140
160
Velocidade (µm/dia)

Dias

P1de Controle 5 0 -5 -10 -15 -20 0 20 40 60 80 100 120 140

P2de Controle 5 0 -5 -10 -15 -20 0 20 40 60 80 100 120 140

P3de Controle 5 0 -5 -10 -15 -20 0 20 40 60 80 100 120 140

P4de Controle 5 0 -5 -10 -15 -20 0 20 40 60 80 100 120 140

P5de Controle 5 0 -5 -10 -15 -20 0 20 40 60 80 100 120 140

P6de Controle 5 0 -5 -10 -15 -20 0 20 40 60 80 100 120 140

P7de Controle 5 0 -5 -10 -15 -20 0 20 40 60 80 100 120 140

Figura 15: Gráfico de velocidade dos recalques por ponto

3.5.1. Causa e Origem do Problema

A causa do problema é atribuída ao recalque diferencial de um dos elementos de fundação da edificação, ocasionando fissuras a 45º, que são características de recalques relativos. Tal causa tem como origem uma falha do projeto da contenção, feita em parede- diafragma atirantada e pode explicada através de dois mecanismos de ocorrência, que geram uma ligeira acomodação do solo de forma relativamente rápida, e possivelmente da superposição destes.

O primeiro, decorrente de uma descompressão do solo sob parte do edifício, causado pela flexão excessiva do muro de contenção em função de um possível subdimensionamento dos tirantes. Essa descompressão, causada por um empuxo ativo sobre o muro, faz com que uma massa de solo se expanda lateralmente e, por conservação de volume, diminua de altura, ocasionando recalque nos elementos de fundação que estavam dentro da zona de influência dos tirantes (conforme detalhado na figura 14).

influência dos tirantes (conforme detalhado na figura 14). Figura 14: Mecanismo de ocorrência do recalque por

Figura 14: Mecanismo de ocorrência do recalque por descompressão do solo devido ao muro de contenção

O segundo, decorrente de um rebaixamento do lençol freático para a construção dos pavimentos no subsolo, faz com que a poropressão - antes atuante no solo - se dissipe e essas tensões passem a atuar no esqueleto sólido. Esse aumento de tensões atuantes no esqueleto sólido faz com que se diminua o índice de vazios, que previamente estavam preenchidos por água, e ocorra um adensamento do solo, ocasionando os recalques.

e ocorra um adensamento do solo, ocasionando os recalques. Figura 15: Mecanismo de ocorrência do recalque

Figura 15: Mecanismo de ocorrência do recalque por rebaixamento do lençol freático

3.5.1. Influência do problema na estrutura

Independente de quão afetada está a estrutura portante pelos recalques, o primeiro aspecto, e o que mais chama atenção, é o visual. Como as fissuras já possuem abertura significativa, podem ser vistas até de longe, chamando bastante a atenção. Além disso, em função do tamanho das aberturas, pode ocorrer também a entrada de água, com o possível aparecimento de problemas relacionados a pintura, e até mesmo a entrada de insetos, tendo vista que a fissura parece seccionar a alvenaria de dentro a fora.

Outra questão a ser observada é a redistribuição de tensões nos elementos de fundação devido ao recalque diferencial ocorrido. Por se tratar de um edifício em alvenaria estrutural, um sistema estrutural com pequena ductilidade, a alvenaria sofre de forma notável a influência das estruturas sobre as quais ela se apóia. Assim, pequenas deformações podem gerar grandes influências na distribuição de tensões e danos significativos às paredes. Caso essas deformações sejam excessivas e suficientemente próximas das esquadrias, pode ocorrer um emperramento destas. Isto, contudo, não ocorreu na edificação, pois além das fissuras estarem contornando a janela, o recalque não foi grande o bastante para fazer com que ela emperrasse.

O aparecimento de fissuras apenas em um dos blocos pode ser explicado pelo tamanho

da zona de influência, que é a massa de solo, que resiste por cisalhamento às tensões geradas em função dos tirantes, teoricamente indeformável. Para o bloco em que ocorreram fissuras, essa zona de influência englobou apenas parte dos elementos de fundação, que se encontram no canto direito, ocasionando o recalque diferencial. Todavia, para o outro bloco do condomínio adjacente ao muro de contenção (ver anexo A), não houve o aparecimento de fissuras. Isso se deve ao fato da zona de influência abranger por completo a fundação deste

segundo bloco, originando um recalque total, que é menos nocivo à estrutura.

3.5.2. Medidas Preventivas e Corretivas

A primeira decisão tomada pela equipe da obra logo após a notificação do problema de

fissuras no edifício foi a injeção de caldas de cimento em três regiões, próximas ao muro de contenção, a fim de melhorar as propriedades do solo e cessar o recalque. Tal medida se

mostrou eficaz, visto que não houveram avanços significativos dos recalques após sua aplicação. Contudo, a estabilização dos recalques também pode ser justificada pela própria acomodação do solo.

Quanto às fissuras, nenhuma medida foi tomada para seu fechamento. Uma providência que já poderia ter sido feita com relação a isso seria a impermeabilização em conjunto com a vedação com material elástico, que não é tão rígido e consegue acomodar as deformações da estrutura advindas do aumento dos recalques. Uma vez que os recalques e a espessura das fissuras estejam estabilizados, pode-se fazer um acabamento com argamassa, deixando um aspecto uniforme para a parede.

Conforme citado anteriormente, a origem dos recalques resulta de um subdimensionamento do muro de contenção: da forma como foi calculado, o conjunto formado pela contenção e massa de solo apresentou-se estável apenas com uma deflexão excessiva do muro de contenção. Isso poderia ser contornado com o aumento do comprimento dos tirantes, solicitando mais massa de solo para resistir ao esforço, o que aumentaria a zona de influência.

4. CONCLUSÕES

Apesar de não se ter feito um estudo do solo por parte da equipe de obra após o surgimento da manifestação patológica, a solução tomada apresentou-se eficaz e, conforme evidenciado nos gráficos e tabelas apresentados, estabilizou o problema de recalques. Deve

ser realizado ainda, contudo, um tratamento para a correção da fissura presente na alvenaria.

É importante frisar que não foi realizado um estudo mais detalhado da situação em função da impossibilidade dos alunos de realizar ensaios de caracterização do solo e do desconhecimento de projetos da edificação.

O correto dimensionamento e execução de um projeto de fundações e contenções são de suma importância para a qualidade da obra e isso pode evitar custos adicionais de reforço ou reparo, não previstos em orçamento, tanto na obra em si quanto nas obras vizinhas, além de problemas como embargo. Para o caso em questão, as consequências não foram tão graves, mas isso não exime a responsabilidade da construtora, a qual não se omitiu momento algum de averiguar e sanar o problema.

A escolha do tema recalques deu-se devido ao gosto dos alunos pela área de estruturas

e também por ser um assunto bastante abordado em classe, mas que não se tem exemplos

práticos próximos aos quais se possa acompanhar e que sejam divulgados. Sendo assim, o presente trabalho atendeu os objetivos almejados de aprofundar os conhecimentos

relacionados a patologia das fundações.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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[2] MILITITSKY, Jarbas; CONSOLI, Nilo Cesar; SCHNAID, Fernando. Patologia das Fundações. 1ª ed. São Paulo: Oficina de Textos, 2005. 207 p.

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