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Igor de Braga Campos

Wikipédia e Jornalismo: Ler o noticiário
em uma enciclopédia?
Orientador: Carlos D’Andréa
Banca Examinadora:Geane Alzamora
Nísio Teixeira

Universidade Federal de Minas Gerais
Departamento de Comunicação Social
Belo Horizonte
2013

Agradecimentos
Para Carlos e Geane, que me guiaram na realização desse trabalho.
Para Nísio, Anderson e Hélia, que me aturaram\mantiveram no curso enquanto eu não
acabava.
Para todos que me indicaram obras usadas como fonte nesse trabalho.
Para meus pais, as pessoas mais importantes na minha vida.
E para Marcela e Nazza, com quem compartilhei muitos altos e baixos desse curso e também
estão apresentando nesse semestre.

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Sumário
1 - Introdução ................................................................................. 4
2 - Produção textual colaborativa na Wikipédia
2.1- Lógica colaborativa ....................................................... 6
2.2 - Sobre a Wikipédia ....................................................... 10
2.3. Eventos recentes na Wikipédia .................................... 15
3 - Sobre a noção de notícia na Wikipédia
3.1. Critérios de noticiabilidade no jornalismo ................... 19
3.2. A noticiabilidade na lógica colaborativa ...................... 22
3.3 A temporalidade da notícia na Wikipedia ..................... 26
4 - A noticiabilidade colaborativa sobre os fatos marcantes de 2011
4.1. Perspectiva metodológica ............................................ 32
4.2. Os terremotos no Japão e Haiti .................................... 34
4.3. Primavera Árabe........................................................... 37
4.4. Mortes........................................................................... 44
5 - Conclusão................................................................................ 49
Referências bibliográficas ............................................................ 52

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Capítulo 1 - Introdução
“A essência do jornalismo está em uma combinação simples: o interesse de uma
coletividade em saber do mundo em que vive e a disposição de satisfazê-la, em certa medida,
por quem possa fazê-lo.”
Jânio de Freitas
Desde que o jornalismo se estabeleceu no século 19, foi ganhando espaço a ponto de
se tornar a principal fonte para que a população fosse informada dos eventos do mundo. Para
cumprir essa tarefa os meios de comunicação massivos passaram por muitas adaptações ao
longo dos anos, revisando técnicas e recursos para incorporar novidades que surgiam. Mas
em suma o jornalismo sempre manteve a mesma missão e trabalho, que seria buscar e apurar
informações para construir recortes dos acontecimentos contemporâneos chamados “notícias”.
O jornalismo se tornou a referência para o que acontecia na atualidade, enquanto os
dados históricos ficavam com as publicações de cunho mais científico, como as enciclopédias.
Porém os avanços tecnológicos, mais especificamente da informática, acabaram por diminuir
essa “delimitação”: uma época em que basta um computador e acesso à internet para
conseguir coletar e repassar informações de qualquer parte do mundo tornou possível um
projeto como a Wikipédia, uma enciclopédia online colaborativa em que amadores
conseguem redigir artigos sobre qualquer assunto (literalmente, visto os mais de 19 milhões
de artigos em mais de 260 línguas), seja o registro do conhecimento humano visto em
enciclopédias tradicionais (tópicos científicos como física e química, relato de eventos
históricos) à descrição de fatos recentes – a morte de uma pessoa leva a página da mesma a
ser editada para noticiar o fato, uma página sobre um terremoto ou atentado terrorista será
criada pouco após o incidente ter ocorrido. O enciclopédico conseguia adentrar o território do
jornalismo ao poder também descrever o que está ocorrendo na atualidade.
Os meios de comunicação em massa e a Wikipédia já fazem uso um da outra
normalmente – as notícias e reportagens se tornam referências nos artigos enciclopédicos, que
por sua vez providenciam material para mais textos jornalísticos. E quando ambos cobrem o
mesmo território, criam-se duas alternativas para se informar: notícia e reportagens sobre um
evento, ou um artigo enciclopédico, que apesar da constante mudança para agregar fatos
novos tenta ser um relato histórico.
Artigos da Wikipédia e notícias jornalísticas podem parecer dois tipos de textos que
exigem processos de redação muito diferentes, mas guardam algumas semelhanças

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conceituais (pesquisa extensa, atribuição de dados, preferência por um texto compacto,
imparcial e compreensível para leigos, e constante revisão e refinamento) para atender o
mesmo propósito informativo. Inclusive o formato colaborativo das wikis e o jornalismo
convergem em um “projeto-irmão” da Wikipédia, o repositório de notícias WikiNotícias.
Tendo em vista esses fatos, o trabalho tem como intenção fazer uma comparação entre
a atividade jornalística e o projeto enciclopédico da Wikipédia, observando como a
enciclopédia faz a cobertura de eventos de grande impacto ao longo do ano de 2011: a
Primavera Árabe e as revoltas relacionadas, o terremoto no Japão, e as mortes de Steve Jobs e
Amy Winehouse. De artigos curtos feitos para garantir o registro do evento a longos e
detalhados textos que praticamente equivalem a uma reportagem, com direito a disputas sobre
o conteúdo e luta para conter a adição de informações falsas, as páginas da Wikipédia sobre a
atualidade acabam servindo como uma variante do webjornalismo, explorando as
potencialidades da web com a atualização contínua, organização dos fatos, e utilização de
recursos multimídia como imagens, vídeos e hiperligações. Além de observar a contínua
construção e o tratamento dos fatos, haverá uma análise das metodologias e ideologias vistas
no projeto enciclopédico e no jornalístico em busca de semelhanças e diferenças.

(Lima Jr. com o analista Tim O’Reilly cunhando o termo “Web 2. Ao se proporcionar tal aumento de poder e influência dos usuários. em alguns casos ocorre uma mobilização para a criação em conjunto por uma inteligência coletiva. 2011) se tornaram comuns websites em que o visitante não só lia as informações como as submetiam. A consequência básica foi uma multiplicação de conteúdo publicado na internet em velocidade vertiginosa. motivados por algo de interesse comum ao invés de interesses corporativistas ou de mercado.1. que foge das ideias e conceitos tradicionais sobre produção de conteúdo. ocorreu uma migração da indústria da informática para a plataforma da internet. com grandes comunidades podendo criar algo inédito ou fazer mudanças em uma base de conhecimentos pré-existente. volume imenso de conteúdo na internet era criado por pessoas que não tem expectativa de remuneração: qualquer um poderia criar um blog para discutir seu assunto favorito. distribuidores e consumidores.Produção textual colaborativa na Wikipédia “O primeiro dever da pessoa culta é estar sempre pronta para reescrever a enciclopédia. p.” Umberto Eco 2. e o contato online direto de um usuário com o outro permite o compartilhamento sem limitações geográficas ou a necessidade de uma empresa intermediária. O modelo seguindo a lógica colaborativa é evolutivo.0 facilite a produção individual. se tornava um meio mais participativo. com a queda no preço de aquisição dos equipamentos computacionais e dos serviços de acesso às redes de computadores.. Com maior público na web. que se assemelha mais a uma comunidade social do que uma estrutura . Ocorria uma quebra do paradigma que estabelece distinções claras entre produtores. e interagir com internautas do mundo inteiro nas redes sociais. 2010. investindo em interfaces amigáveis para que o usuário tivesse uma navegação e comunicação mais fácil.Lógica colaborativa Na década de 2000.” para descrever tais páginas mais baseadas pelo conteúdo gerado pelo usuário.0. Os grupos de usuários não possuem uma hierarquia rígida como na produção industrial.78-80) Embora o modelo da Web 2. A internet que antes era tratada como um “novo canal de TV”. carregar vídeos caseiros no YouTube.6 Capítulo 2 . ocorria uma popularização do acesso à internet. (VAN VEELEN. apenas transmitindo informação. com o usuário podendo assumir qualquer um dos papéis simultaneamente: as ferramentas para gerar e distribuir informações estão disponíveis para todos. 2008) Do conteúdo mais simplório ao mais sofisticado. (GABRIEL. mas uma organização mais fluida e flexível.

Eventualmente chegou a novos patamares que ultrapassam o mero desenvolvimento de tecnologia de internet. (BRUNS. Outro é o fato dos benefícios de publicar os resultados do trabalho coletivo serem maiores que os poderiam ser conquistados mantendo o conteúdo em segredo – a vantagem competitiva advém não de manter suas inovações apenas consigo. 19-20) A disparidade de uma comunidade ser constituída de voluntários mundo afora que nunca se conheceram pessoalmente acaba sendo ignorada em prol da intenção de se encontrar na internet para trocar ideias e compartilhar suas invenções. que possua pessoas com maior conhecimento que comentem e critiquem os desenvolvimentos do grupo. 2008. pp. 37-9) A produtividade na lógica colaborativa depende do acúmulo de contribuições. (BRUNS. termo derivado do “código-fonte” dos softwares). (JOHNSON.41-6) Esse modelo de inovações amplamente compartilhadas chegou a ser comum nos primórdios da internet. 2008. com projetos de larga escala envolvendo inúmeros programadores desafiando diretamente o trabalho das grandes corporações. e há uma ausência de propriedade (que pode levar a manter conteúdo em segredo) permitindo a qualquer participante observar e acessar de forma igualitária as etapas e o conteúdo do projeto. inclusive na concorrência. as comunidades acabam por ser auto-organizáveis. com proeminência e respeito no projeto dependendo de demonstrações de experiência ou conhecimento. então a preocupação básica nesse sistema é um direcionamento para que todas as colaborações . Ainda hoje. pp. como o servidor Apache e o programa de envio de mensagens Sendmail. 2008. Com uma comunicação em todos níveis e decisões tomadas de baixo para cima. a exemplo dos autores e leitores de textos acadêmicos. novos protocolos são adotados com mais facilidade quando sua revelação é gratuita (vide o sucesso do formato MP3) e o formato se mantém “open source” (literalmente “fonte aberta”. Uma é a presença de uma comunidade forte. 11-20) A hierarquia de tais redes é baseada na conquista de reputação e prestígio em vez de poder. dinheiro e autoridade.42) Tais redes colaborativas dependem de certos fatores para garantir a sua existência. 1-7. (JOHNSON. pp. mas em garantir sua adoção por toda parte. pp. direcionando todas as motivações para um objetivo compartilhado. 2009. ainda que alguns voluntários usem a experiência colaborativa na expectativa de que o aprendizado e ganho de reputação se traduza em possibilidades de empregos. quando o desenvolvimento de aplicações online era apenas um nicho sem muitas ambições comerciais da ciência da computação – criando softwares que até hoje sustentam a maior parte das páginas da web. 2009.7 governamental: todos tem o mesmo poder. p. (BRUNS.

a construção colaborativa acaba exigindo o contato frequente. Além disso. uma base de dados criada em 1995 que através de um editor de texto embutido nas . adquirir os recursos necessários). O modelo de construção colaborativa não é exatamente o mais harmônico e produtivo por mais que hajam exemplos bem sucedidos. A união e engajamento são cruciais. 2008. p. (GRUDIN.8 causem um impacto positivo. pp. e a eficiência pode ser reduzida ao desviar do trabalho para a resolução de conflitos. e também ultrapassar em velocidade o desenvolvimento no modelo tradicional. p. (D’ANDRÉA. Adicionando o fato de que um grupo maior é ao mesmo tempo mais eficaz (visto que adesão de uma “massa crítica” de usuários é necessária para o sucesso) e mais problemático (mais vozes discordantes para satisfazer). a produção colaborativa permite um avanço gradual em qualidade. O conceito de “inteligência coletiva” esbarra no fato que diferenças entre os participantes costumam emergir. 1994) Apesar disso. e haver comunicação entre os editores não implica uma transmissão inquestionável e um intercâmbio consensual. Um dos métodos é a subdivisão das tarefas beirando a pulverização. já que as discordâncias e negociações relacionadas resultam no aperfeiçoamento das práticas e bens comuns para garantir a progressão do projeto e a prevenção de mais disputas. as tensões são agregadoras no processo colaborativo. Em condições adequadas. e muitos potenciais problemas surgem no caminho de um projeto colaborativo. 68-9) Não bastasse o fato de que muitas vezes o envolvimento exige adaptações e ajustes (encontrar horários disponíveis para colaborar. 1523) O’Reilly inclusive considerou que as empresas que melhor compreenderam as regras para ter sucesso na nova plataforma online foram as abriram dados e serviços para uso alheio (e também aproveitavam para usar o que era criado pelos usuários). enquanto na organização tradicional a divisão de tarefas e responsabilidades leva à minimização da necessidade de comunicação com os outros participantes. permitindo que mesmo colaborações menores ou fora da produção em si – como a manutenção da parte técnica do site – contribuam para o progresso. A cooperação e o conflito não se opõem. como os participantes tem motivações variadas nem todos podem ter o mesmo benefício ou sentimento de realização – e quando todos decidem agir em prol de seus interesses individuais. acabam não beneficiando ninguém. levando a tensões relacionais. disputas conceituais e eventuais negociações para resolver o impasse. 68-9) Um dos formatos de página que mais se beneficiaram da lógica colaborativa foi o wiki. e uma ou duas desistências já acarretam em problemas como atrasos. e geravam aplicativos e conteúdos construídos online ao invés de residir em computadores pessoais ou servidores. (BRUNS. 63-5. (D’ANDRÉA.

na segunda metade da década de 2000 o software wiki se espalhou pela internet em páginas sobre os mais variados tópicos. 41-2) . já que para criar um hyperlink para outra página da wiki não é necessário escrever uma tag complexa. descartando a necessidade de conhecimento técnico ou permissão especial para editar conteúdo. O grande responsável pela popularização foi um website que revolucionaria o conceito de enciclopédia. Tal formato é inerentemente aberto. YATES. MATTHEWS. Antes conhecido apenas por estudantes de informática e considerado um sinônimo de anarquia criativa.9 páginas permite a qualquer internauta criar e editar os documentos contidos. 2008. e por ter um código-básico mais fácil que linguagens como o HTML é perfeitamente acessível a leigos – o que estimula principalmente a interconexão de páginas. (AYERS. basta apenas circundar o título da página-destino com chaves (ex. [[Wiki]]). expressando os interesses de um grupo com um interesse em comum. . p. e colaborativo. a Wikipédia.

e uma abordagem levantando a possibilidade da comunidade visitante ter a capacidade de contribuir conteúdo útil para o projeto não importasse como (uma edição menor de correção ortográfica ou transcrever o resultado de uma grande pesquisa tem validade igual) levou a um . pp. A Nupedia não crescia por exigir muito de seus colaboradores com seu processo de aprovação editorial de sete passos. entrava no ar a Wikipédia. com intensa revisão para garantir alto nível de conteúdo. o empresário Jimmy Wales e o filósofo Larry Sanger fundaram a Nupedia. e o foco na criação de artigos completos sobre tópicos específicos (em detrimento ao desenvolvimento paralelo de tópicos variados ou aperfeiçoar o que já estaria no site). (AYERS. e em Janeiro de 2001. (FRAUENFELDER. em contraste aos mais de 100 mil artigos da Wikipédia na versão inglesa. e ao final do ano apenas 12 artigos haviam sido escritos. MATTHEWS. incluindo o português – e ao surgimento de sites derivados. 2006) A ideia acabou indo na direção oposta.2 . o site de citações Wikiquote e o de livros gratuitos Wikibooks – o que levou Wales a criar em 2003 a Fundação Wikimedia para coordenação geral de tais projetos.Sobre a Wikipédia Em 2000.46-7) O sucesso do projeto “alternativo” foi um triunfo da lógica colaborativa. 2000) Mas a equipe dedicada de colaboradores não preveniu a Nupedia de sofrer com um processo criativo lento e improdutivo causado pelos altos padrões de inclusão. com a Wikipédia recebendo os artigos da Nupedia quando esta acabou extinta em setembro de 2003. (POE. com apenas 24 artigos prontos e 74 ainda sendo revisados. que geraria artigos enciclopédicos escritos por qualquer pessoa com vontade de colaborar na redação. permitindo a edição sem a necessidade do crivo direto dos donos. O sucesso da Wikipédia levou à internacionalização – em maio de 2001 já haviam versões em mais treze idiomas. YATES. O projeto já demonstrava adesão aos princípios do código aberto. Eventualmente Sanger sugeriu um site-irmão aberto para a criação popular baseado em um formato apresentado a ele por um programador. com tal conteúdo depois sendo transplantado para a Nupedia.10 2. Wales aprovou a ideia. O grupo de especialistas era pequeno. Por outro lado o formato mais aberto da Wikipédia. como o dicionário Wiktionary. e o contribuinte ainda era afastado do produto final. acreditando que tal projeto poderia atrair contribuintes novos na Nupedia. uma enciclopédia online gratuita que traria artigos escritos por especialistas. contando com o engajamento de acadêmicos que mesmo sem remuneração poderiam conseguir reconhecimento através da exposição de seu trabalho na internet. o wiki. 2008. reduzindo seu sentimento de envolvimento com o projeto.

pp. MATTHEWS. 2008. (VAN VEELEN. 46-7) O aspecto mais controverso da Wikipédia é sua credibilidade como fonte informativa visto que a maior parte dos participantes na missão de angariar “a soma de todo o conhecimento humano” são anônimos. mas a divulgação instantânea da Wikipédia traduz-se no que essencialmente é a publicação de rascunhos. e abrigando mais de 200. YATES. um dos maiores críticos da Web 2. Frequentemente o website é discutido na mídia pela funcionalidade deste modelo coletivo.0. e em quanto os artigos do site são confiáveis visto que a maior parte dos editores são amadores. 46-7) Hoje a Wikipédia é um dos 10 sites mais acessados no mundo. usa a Wikipédia como um dos principais indícios de como a democratização dos sites com conteúdo gerado pelos usuários .000 sites. Esse foi o motivo para a saída de Larry Sanger do projeto. (AYERS. (BRUNS. McHenry ressaltou como na Britannica ocasionalmente verbetes levavam anos para ter a qualidade que os editores achavam adequada para a impressão. (AYERS. que vão de um depositário de letras de música a enciclopédias sobre franquias de cinema. dizendo que a Wikipédia era “no máximo uma compilação da redação aleatória de várias pessoas na forma de artigos enciclopédicos. autoridade ou consistência que sempre associei com a palavra ‘enciclopédia’”. A popularidade garante as contínuas doações que mantém o projeto gratuito e sem anúncios – em 2009. a Fundação Wikimedia registrou receita de mais de US$10 milhões – e a disseminação do formato wiki.11 envolvimento do grande público. quando Wales ajudou a criar a WikiCities (hoje rebatizada Wikia. e a adesão de milhares de colaboradores (os usuários registrados chegam aos 16 milhões em inglês e 900 mil em português). MATTHEWS. com 3. YATES. 2008. 103-5) Em 8 meses a Nupedia só tinha apenas dois artigos completos online. com 19 milhões de artigos em mais de 260 línguas (com a maior versão sendo a inglesa. 2000) A Wikipédia ultrapassou a marca dos mil artigos em apenas um mês e dois dias. já que ele se sentia desconfortável em ver que a “igualdade geral” não dava prioridade às contribuições originadas por especialistas em alguma área científica. . também conhecidos pelo termo “wikipedista”. declarou que “não podia ver o que estavam fazendo [no site] como uma enciclopédia”. Bob McHenry. 2008. p. pp. a Wikipédia em português é a décima com 693 mil). O exeditor-chefe da Encyclopedia Britannica. que logo queria dividir algum conhecimento ou habilidade útil nesse projeto colaborativo. (FRAUENFELDER.7 milhões. mas sem o controle. com um processo que mais se assemelhava a um jogo online. 2008) Andrew Keen. Diversos serviços de hospedagem para sites wiki surgiram a partir de 2004. games e quadrinhos)..

Critérios de notabilidade detalhados designam o que merece um artigo. e uma página lista “o que a Wikipédia não é” (que incluem “repositório desordenado de informações”. (VAN VEELEN.9-10. a verdade depende do “gatekeeper” para ser determinada. assumindo que sempre existem variados pontos de vista. O próprio Jimmy Wales admite que o site nunca será 100% preciso porque “o conhecimento humano não acredita nesse tipo de perfeição”. p. (POE. visto que há milhões de verbetes. 19) . e cada um sobrescreve a versão alheia da verdade com sua própria”. a abordagem é construtivista. que como registro do conhecimento tem uma presunção positivista de que só existe uma verdade. “embora a Wikipédia não tenha nenhum repórter. levando a uma necessidade de filtros e validação dos conteúdos. “nenhum deles editado ou atentamente examinado quanto à sua exatidão”. Em contraste com um blog. No caso da Wikipédia. 2006) Tal neutralidade também diverge de outra característica das enciclopédias. significando o processo da filtragem de informação).12 acaba gerando desinformação.” é a submissão sem o menor controle de qualidade. (KEEN. “solapando a verdade. superficialidade e ignorância. como o . Keen acredita que o fator mais depreciativo da Wikipédia é a falta do “gatekeeping” (termo derivado da palavra inglesa para “porteiro”. “não há uma garantia que ela continuará na página amanhã”. os objetivos informativos do projeto são claros). mas que cada um tem sua verdade. “guia ou manual”. McHenry concorda declarando que por mais que se faça uma correção. e estes mudam com o passar do tempo. No caso da Wikipédia. 2009.0. e “blog ou rede social” para demonstrar que apesar da aparente inconsistência e falta de organização. os artigos da Wikipédia são uma construção contínua e coletiva em prol da neutralidade. a experiência e o talento”. azedando o discurso cívico e depreciando a expertise. e o site tem mais visitantes que bastiões da informação como a Britannica ou a CNN. Novos dados e descobertas alteram o conteúdo enciclopédico não só no nível objetivo de atualizar as informações. e em um formato colaborativo a verdade se torna personalizada e fragmentada . com usuários escrevendo páginas inúteis como autobiografias.“assume-se que não há uma verdade. em que todos dados são submetidos por uma única pessoa e expressam a opinião apenas do autor. Segundo Keen. 2008) Uma das consequências da liberdade gerada pelos sites da “web 2. extensivas páginas listam suas políticas para evitar a inclusão anárquica e não-enciclopédica de dados – motivadas pelos primeiros anos da enciclopédia terem grandes manifestações disso. nenhuma equipe editorial e nenhuma experiência na coleta de notícias”.

com as filosofias sendo batizadas “Inclusionismo” (todo conhecimento é válido) e “delecionismo” (cobertura seletiva. (STIVILIA. com inúmeras contribuições.wikimedia. por mais informais que sejam. é feito um planejamento de reescrita.p. 16-17) Assim. Há inúmeros editores eventuais. despóticos. (BRUNS. ele acaba sendo um híbrido da “produção leve” (muitos colaboradores. um dos recursos mais cruciais para garantir um direcionamento preciso em torno do melhoramento é a existência de uma “página de discussão” atrelada a todos os artigos da Wikipédia. A principal disputa ideológica da comunidade envolve as discussões sobre que conteúdo merece figurar na enciclopédia. democráticos. participação nos debates da comunidade e muitas vezes a eventual ocupação de cargos administrativos do website. republicanos. que ocasionalmente nem se registram no site para acrescentar conteúdo. p. (STIVILIA.org/wiki/Battlefield_of_ideas . 2008.65-68) O grupo de editores não tem uma única abordagem de regulamentação das atividades – a descrição da estrutura de poder na Wikipédia diz que o projeto é sendo guiado por “uma mistura de elementos anárquicos. Os conflitos de interesses levam certos wikipedistas a descrever o site como sendo um “campo de batalha de ideias”. como forma de garantir que as regras sejam consideradas justas e 1 . 257) Todo grupo social precisa de mecanismos que permitam aos participantes reparar ou compensar suas falhas. Nesse espaço. editores podem discutir o artigo e o processo de redação do mesmo. Adicionalmente. (PENTZOLD. 140) Somado ao próprio caráter heterogêneo da comunidade. p. 31) Analisando o modelo colaborativo que constitui a Wikipédia. (D’ANDRÉA.” – e está sempre experimentando métodos para que a comunidade se organize. plutocráticos.13 subjetivo de que a reescrita tem de demonstrar como as novidades endossam teorias e desmentem opiniões.http://meta. tecnocráticos e burocráticos. não surpreende que nem sempre o processo de redação de artigos seja harmônico. p. 2008. 2011. e alguns wikipedistas mais engajados. pp. debatendo as discordâncias para decidir qual conteúdo permanecerá. apoiando a eliminação de artigos considerados desnecessários).2008. seja discutindo o texto já existente ou listando o que ainda é necessário criar. cada um provendo adições mínimas ao produto como um todo) e “produção pesada” (uma comunidade virtual forte que emprega o máximo de tempo possível de seus voluntários). meritocráticos. 2008. 2009.1 o que é reforçado pela descrição de atividades com termos bélicos como “guerra de edições” (dois ou mais usuários fazendo uma contínua reversão das mudanças alheias para garantir a inclusão ou remoção de certos dados).

129-133) A maioria dos “Artigos Destacados” que a comunidade da Wikipédia considera entre as melhores produções do site. Utilizado um formato aberto e colaborativo. Mesmo as diferenças de engajamento dos usuários não atrapalham. sendo ao mesmo tempo especializada e geral em contraste aos impressos servirem como guias apenas para determinadas áreas de conhecimento. com links para as páginas sobre o tópico nas outras versões da Wikipédia. mas a pulverização pode . 19) A atividade intensa e acompanhamento contínuo resultantes da discussão garantem que a comunidade mantenha-se funcional e os artigos em bom estado. 2009.14 eficazes. demonstrando que as melhores redações advém de um grupo bem organizado e bastante interessado em construir um relato de boa qualidade. pp. inclusive de poder fragmentar a informação em vários artigos pequenos ao invés de um grande. visto que a coesão e atividade da comunidade são favorecidos pela construção geral do website ser mais dependente de um número menor de wikipedistas realmente ativos – na Wikipédia em inglês.p.7% dos usuários. possuem páginas de discussão bem desenvolvidas. fortalece-se a cooperação. com a construção através de número indefinido de voluntários podendo garantir que todas as áreas de conhecimento fossem cobertas: uma hora gasta pela equipe da Encyclopedia Britannica pesquisando sobre Britney Spears seria uma hora a menos para redigir sobre Santo Agostinho. p. em detrimento a áreas da cultura popular. e mais de 70% de todos os artigos foram escritos por apenas 1. por conseguinte a qualidade do texto. a Wikipédia contornava as limitações. com uma organização de dados diferente da mídia impressa. O escopo do website acaba indo além das enciclopédias de papel. (STIVILIA. e. Em meio às decisões sobre o que seria incluído. 36-7) Na produção de uma enciclopédia tradicional. (D’ANDRÉA. (JOHNSON. Após a resolução do conflito. As páginas de discussão servem esse propósito já que os usuários tem um espaço livre para resolver conflitos. 2008. 50% das edições vem de 0. o escopo do conteúdo registrado acabava esbarrando em restrições do formato físico e do tempo que os especialistas poderiam gastar na pesquisa e redação. 2008) Enciclopédias impressas já buscavam o hipertexto através de notas de rodapé e índices que indicavam outros artigos a consultar. As conexões também ocorrem entre idiomas. e assim manter a fé da comunidade em continuar seguindo essas normas. MATTHEWS. O formato online da Wikipédia explora o hipertexto em todo seu potencial. (AYERS. YATES. o foco geralmente ficava no que o grupo editorial considerava as áreas básicas do conhecimento humano.8% dos wikipedistas. 2008.

também acelerou o que pode ser considerado conteúdo enciclopédico. do vital ao trivial. teve mais de 1000 edições em apenas 48 horas. p. 2007). Na Wikipédia. A frequente edição pode levar à disputa entre contribuintes sobre o conteúdo merecedor de inclusão no artigo. a Wikipédia logo atraiu internautas com conhecimento técnico que gostavam da perspectiva baseada no software livre. R. 33) Com seu formato juntando as consagradas enciclopédias com as comunidades online colaborativas. O foco diversificado da comunidade. p. em que todos os wikipedistas podem servir como fontes de conhecimento . 2008. a Encyclopedia Britannica estava na gráfica quando começou a reunificação alemã. bem como atrair vândalos que apagam partes do . Tolkien e dos acontecimentos na Inglaterra anglo-saxã. R. mas com a Wikipédia esse passado acabou se esticando para incluir até eventos que não terminaram de acontecer. Eventos recentes na Wikipédia Assim como a internet mudou a interpretação do termo “informação”. YATES. beneficiados pelo ciclo editorial instantâneo do site. o “histórico”. por exemplo. que pode levar meses a anos em uma enciclopédia impressa. Cada um faz desenvolver artigos na área de seu interesse. mas na Wikipédia leva minutos visto que os mesmos usuários que leem podem criar revisões para corrigir e complementar o conteúdo. e graças à lógica colaborativa o artigo pode crescer de uma simples discussão de uma linha para um detalhado relato de 50. 2008. (GLOSSERMAN. que antes era sinônimo de pesquisas feitas sobre o passado. As políticas de inclusão mais amplas da enciclopédia digital garantem artigos sobre eventos recentes.3. MATTHEWS. 36-7) 2. basta enviar sua edição para atualizar a página e a versão nova do artigo fica online na hora. visto que eventos conseguem artigos tão logo os fatos são relatados nos meios de comunicação massivos. em especial a rápida atualização de páginas relatando eventos atuais. (Stivilia. HILL. (BRUNS.15 dividir os esforços e eliminar tal escassez de tempo. (DEE. Consequências inesperadas demonstrando o poder responsivo das ferramentas colaborativas acabaram ocorrendo. O artigo sobre o terremoto e tsunami na Indonésia em 2004. gerando um local que compila todos os interesses da humanidade. 120-123) Outro ponto que o formato online colaborativo tem maior eficácia é no controle de qualidade. bem como um público em geral atraído pela missão enciclopédica. 2010) O site já foi aclamado como uma fonte de notícias em si. Em 1989. p. 2008.mesmo para tópicos que seriam considerados frívolos nas enciclopédias de papel – faz o website poder aspirar em providenciar uma cobertura igualmente ampla da mitologia ficcional do autor J. forçando uma interrupção da impressão e convocar redatores para rapidamente acrescentar os dados resultantes das mudanças na ordem mundial. (AYERS.

já que os artigos buscam ser um relato duradouro e devem ser conteúdo escrito de forma equilibrada. e C. no respeito às pessoas que. ou a um escândalo na página de um famoso). Um movimento comunitário acaba implicitamente aplicando os mesmos parâmetros das geradoras de notícias modernas – ater-se aos fatos. Apesar do jornalismo fugir de uma das diretrizes ao reportar as descobertas feitas pelo redator da notícia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:N%C3%A3o_h%C3%A1_data_final . A edição dos artigos é contínua e o consenso pode mudar com o passar do tempo. 2 ou dar peso indevido a fatos recentes (como longas seções dedicadas à eleições correntes na página de um político. 179) diz que jornalistas devem basear-se: A. no descompromisso com teorias e versões de fatos.16 artigo ou acrescentam informações falsas – a ponto de certos tópicos acabarem sendo “protegidos” para bloquear a edição por usuários não registrados ou com poucas edições. 2004. os dados resultantes tem que ter sua fonte devidamente atribuída. e dar no texto um tratamento justo mesmo que seja um tópico controverso (“ponto de vista neutro”). 2011) Enquanto no jornalismo diário geralmente só existe o hoje – o ontem é o passado distante.4) A Wikipédia tem três diretrizes básicas de conteúdo: ter material baseado em dados. na reverência diante dos fatos e das verdades científicas. especialmente em uma perspectiva histórica (um dado que parecia importante pode se tornar irrelevante ou ser desmentido alguns anos depois). e o relato deve não só evitar a distorção dos fatos em prol de interesses pessoais. Lage (2001. com políticas ditando contra criar artigos sobre um tópico apenas porque está no noticiário (a página ditando que “não há data final” especifica que “a Wikipédia não é o WikiNotícias e não precisa levar furos para ninguém. a Wikipédia tenta evitar apenas o agora. (LIH. p. o amanhã um futuro longínquo – buscando a notícia que fica pronta para a próxima edição.”). sendo fonte ou público. 2004.4) 2 -http://pt. conceitos e análises já publicados antes (“sem pesquisa inédita”) em fontes fiáveis que são devidamente citadas (“verificabilidade”). como tentar a neutralidade dando voz a ambos os lados do evento relatado. p. atribuir fontes e manter equilíbrio. as outras políticas são muito presentes. (FORD. (LIH.wikipedia. O formato também consegue algo que nos meios de comunicação tradicional é potencialmente trabalhoso e caro: revisar e editar as informações já postadas. p. B. sustentam tais teorias e versões. Assim está claro como os textos requerem extenso trabalho de apuração e pesquisa.

2001) O Manual da Folha de S. (BRUNS. O grupo editorial da enciclopédia faz um julgamento da realidade para determinar o que é incluído na publicação. com variados graus de profundidade já que o interesse jornalístico elimina dados técnicos que só interessariam a especializados para uma maior abrangência do público ao qual a notícia se destina. reproduzindo “a forma. mas ilustrar representações de conhecimento. visto que decisões subjetivas guiam o jornalista na escolha do assunto. (LAGE. com isso. Ainda que a Wikipédia proíba a inclusão de informações inéditas e a proposta de ser uma enciclopédia pressuponha certo distanciamento dos acontecimentos registrados no artigo para consulta em longo prazo. 18) Uma notícia tem a mesma linha. O . descrevendo um evento de forma que os que não estavam lá para presenciar tenham ideia dos acontecimentos. marcados por um fluxo contínuo de informações e por uma simplificação das rotinas editoriais (D’ANDRÉA. assume um caráter jornalístico e passa a ter algumas das características dos sites noticiosos. não perseguindo o conhecimento essencial que é base dos estudos científicos e bases. as circunstâncias e as repercussões”. (STIVILIA. redação e edição. p. e não na apuração direta de informações novas. Páginas detalhadas existem tanto para as teorias consagradas comprovadas como tópicos especulativos e pseudocientíficos. ao ressaltar a curadoria de diferentes fontes de informação feita por pessoas (e não algoritmos) como um dos grande méritos da Wikipédia. Paulo declara (p. por mais divergentes que sejam. mas apenas um recorte dos acontecimentos da realidade.2008. O que seria relevante para o público garante um espaço no noticiário. coordenadora de comunicação da Fundação Wikimedia. com tanto “Evolução” como “Design Inteligente” sendo Artigos Destacados. 2008) Os artigos da Wikipédia são considerados introduções concisas a um assunto na forma de um sumário informativo. providenciando ao leitor as principais informações sobre o tópico e referências externas que garantiriam aprofundamento. A abordagem de Wikipédia também não busca ser uma apresentação do conhecimento do mundo como as enciclopédias tradicionais. mas ainda assim é necessário que o fato seja encarado com “distanciamento e frieza” para que leve a um relato de fidelidade. o site relata alguns fatos novos no calor dos acontecimentos e. 2008. enquanto a política de neutralidade da Wikipédia abre espaços para todos os pontos de vista que acabam sendo apresentados em paralelo para a avaliação do usuário.17 O universo das notícias é o das aparências do mundo. Trata-se de “agregação em tempo real”.47) que “não existe objetividade em jornalismo”. É fundamental observar que essa agregação baseia-se em informações previamente publicadas. 2009). como afirmou Mola Pantages.

2008. 2008. 4) Se uma enciclopédia tradicional se assemelha ao jornalismo convencional por providenciar uma síntese de variados pontos de vistas conforme um único autor ou grupo de criadores. (LIH. As políticas da Wikipédia determinam que o critério de inclusão é “verificabilidade. não verdade”. ambas evitando caracterizações com juízos de valor. algo impossível de se ver em uma enciclopédia tradicional. ou seja. a Wikipédia parece o jornalismo colaborativo ao resumir em uma voz neutra algo que foi construído através de uma abordagem de múltiplas perspectivas com a liberdade para que todos os participantes acrescentem algo – desde que providencie uma referência provando a veracidade dos dados.2008.18 registro de acontecimentos recentes em “tempo real” na Wikipédia pode ser marcado por tensões entre os diferentes usuários. 2004. p. devem ser escritos em uma forma com a qual ambos (ou todos) os lados envolvidos possam concordar com ele. 19) A página sobre a política de neutralidade diz que é “uma exigência inegociável e absoluta de tudo que fazemos”. ao criar artigos que “devem ser imparciais. 113-4) . 2008) Disputas e argumentações extensas sobre abordagem e inclusões podem garantir páginas de discussão gigantescas sem propriamente levar a um artigo de melhor qualidade. (BRUNS.” Algumas das decisões em prol da neutralidade acabam sendo similares às das organizações jornalísticas: a decisão da comunidade da Wikipédia de evitar o termo “terrorista” é similar a uma das políticas da agência Reuters. p. (D'ANDRÉA. e novamente se assemelhando ao jornalismo colaborativo em sua intenção de criar notícias a partir de variados pontos de vista. (STIVILIA. pp.

como os escândalos políticos) ou a comoção pública (improbabilidade e empatia. geralmente aliada a proeminência dos envolvidos. ineditismo e apelo. a distância do tempo entre algo acontecer e ser propagado chega a minutos. 90) . 2009. p. interesse e comunicabilidade. como relatos de epidemias e novas leis). seja por amadores comentando os eventos em redes sociais ou profissionais escrevendo suas notícias para sites. como catástrofes naturais ou mortes trágicas de famosos). Rádio e televisão costumam divulgar notícias horas depois dos fatos – mesmo em transmissões ao vivo precisa algum tempo para a equipe chegar ao local e começar a operar. é necessário demarcar “valores-notícia” para determinar os eventos “merecedores” de serem conhecidos pelo grande público. 2001. e compilação de fatos e eventos de interesse ou importância para leitores do jornal que a publica.23) Diante da percepção de que não há espaço nos veículos informativos para a publicação ou veiculação da infinidade de acontecimentos que ocorrem no dia-a-dia. p. (LAGE. políticos) encaixem suas realizações nos horários em que os meios de comunicação possam cobrir os fatos.1. (SCHWINGEL. pp. Ambas mostram que uma informação é transcrita em uma notícia quando possui importância e interesse para o leitor. garantindo que o espectador simbolicamente esteja por dentro do acontecimento – mesmo aqueles em que provavelmente não teria permissão de acesso – ao acompanhar o relato jornalístico. 142-145) No modelo do jornal impresso. 2009. No modelo digital. (SOUSA PINTO.19 Capítulo 3 . 2010.Sobre a noção de notícia na Wikipédia “O jornalismo é um rascunho grosseiro da história” Philip Graham 3. A temporalidade da notícia é variável. as notícias do dia anterior são consideradas informações satisfatoriamente “frescas”. As restrições do tempo até contribuem para que instituições “geradoras de acontecimentos” (empresas. conforme o meio e suas limitações de divulgação. e as que seriam mais relevantes são as que preenchem diversos fatores da importância para despertar o interesse geral (trazem conflitos.60-61) O repórter por tabela serve como os olhos e os ouvidos do público. Critérios de noticiabilidade no jornalismo O conceito de notícia costuma variar por duas definições: fato social destacado em função da sua atualidade. bem como servir de utilidade pública (possuem apelo com o público e dependem da oportunidade em que são publicadas para terem mais utilidade.(GABRIEL. p.

p. permitindo que o próprio repórter tivesse maior controle sobre seus textos. (Seixas. Era quebrado o conceito básico de que o produto jornalístico entrega um pacote fechado de informações pela possibilidade de interagir com o público e também de alterar ou adicionar dados com facilidade. 2011) A disseminação da internet e redes internas na década seguinte praticamente fez do repórter o único responsável pelo texto. 2001) A prioridade em meio à adequação da produção jornalística às especificidades tecnológicas e novas condições organizacionais de funcionamento de sites e portais deixava de ser grandes reportagens em prol de notas jornalísticas potencialmente contraditórias pelo fato de que novos dados podem suplantar ou negar o que havia sido divulgado antes. Atualmente. (cf.20 Sempre o exercício do jornalismo esteve ligado aos avanços tecnológicos – o próprio termo “imprensa” vem da máquina que imprime folhas. que passam a ser publicadas à medida que novas informações sobre um acontecimento são apuradas ou recebidas pela equipe editorial. Das pequenas publicações feitas com tipos móveis e utilizadas mais para fins políticos e mercantis. criando a pauta. não importasse o formato. 2001. com direito a “versões atualizadas” de meios tradicionais como o podcast e a webtv) . editando e postando no site do veículo noticioso sozinho – o que era ajudado pelo ritmo frenético exigido pelo formato digital. 2010). escrevendo.como também a produção da notícia. pela possibilidade de integração com o público que participaria da troca e captura de informações. (LAGE. bem como novas plataformas para o jornalismo como rádio e televisão.dando ao público acesso mais fácil à informação por poder acessá-la em diversos mecanismos (computador. . celular) e plataformas (textos. (TRAVANCAS. vídeos. a impressora a vapor e o telégrafo. com um fluxo contínuo de informações que tem de ser acrescentadas praticamente na hora em que ocorrem. Uma consequência desse processo é a fragmentação do conteúdo jornalístico em diversas páginas web. O uso do meio digital pelo jornalismo também colaborou para a descentralização não só da distribuição . o limite da velocidade operacional dos jornais em sincronizar e reduzir o tempo dos eventos ao tempo da publicação dos informes é condicionado pela velocidade das agências no repasse dos serviços. logo viriam os grandes jornais informativos graças ao surgimento de inventos como a máquina de composição. 2009) Os avanços mais recentes nos meios de comunicação em massa são relacionados à informática: já na década de 80 o computador chegava às redações. tornando o jornalismo um processo contínuo onde a informação está em constante movimento e atualização.21-23) Cada dispositivo novo exigia adaptações para que ocorresse a mesma unidade discursiva jornalística. D’ANDRÉA e RIBEIRO. (LAGE. reduzindo a importância de revisores e editores. áudios.

Assim os veículos de comunicação conteriam as informações que ajudariam as pessoas em suas decisões. não o que ele quer – acima de tudo porque raramente ele está lá para cobrir o fato que o público mais precisa saber. é frequente a “construção” de dados para alimentar os meios de comunicação. As notícias também agregam o processamento e seleção dos fatos que o repórter faz durante a pesquisa e apuração. fácil de entender apesar de não conter a precisão do jargão dos especialistas. assessores. empresários. Criar uma notícia não só depende da disponibilidade das informações por parte da fonte usada pelo repórter como do que a companhia que gere o veículo de .21 Na lógica da instantaneidade e do fluxo contínuo de publicações. com acontecimentos que parecem obedecer à “ordem natural dos fatos” sendo artifícios planejados por agentes específicos (políticos. (PUBLIFOLHA. ou até mesmo os próprios jornalistas) para responder ou criar uma demanda da sociedade. marqueteiros. de forma que o produto final permita ao leitor orientar-se diante da realidade. com o jornalista virando um tradutor de variados discursos e perspectivas para uma língua comum e simplificada. É necessário um discernimento da parte do jornalista para distinguir fatos construídos de “notícias plantadas” que podem não passar de rumores (mas ainda assim tem potencial para consequências concretos: um boato da destituição do presidente do Banco Central pode causar a queda da Bolsa de Valores). publicitários. 2009) Não só a informação deixou de ser apenas ou principalmente um fator de acréscimo cultural ou recreação para tornar-se essencial á vida das pessoas como agora as informações ditas necessárias estavam muito além da capacidade de acesso individual do homem comum. 2001) Visto que a informação chega a ser um valor de troca na sociedade moderna. textos mais bem-acabados muitas vezes dão lugar a sequências de notas jornalísticas que não configuram uma “suíte”. não significa que seja menos verídico ou real. mas tendem a ignorar o que se passa em outras especialidades e áreas. (LAGE. 24) O jornalista se vê como um profissional que deve dar ao cliente o que ele precisa. Apesar do caráter “artificial”. inclusive por serem contraditórias entre si e sem uma articulação contextual suficiente para a compreensão dos fatos pelo público. fazendo julgamentos e tomando suas decisões. (D’ANDRÉA. já que tais dados podem causar influência na sociedade e assim se tornar objeto de reportagem e crítica. O progresso tecnológico cria diversos especialistas que aprendem a lidar com novas técnicas e produtos (e o desenvolvimento científico ás vezes é tão veloz que em alguns meses lições se tornam desatualizadas e superadas). p. 2011. principalmente se consideradas potencialidades do caráter hipertextual da internet.

2008. a combinação da profusão de dados e a interatividade dos recursos digitais permitem a inserção de usuários comuns na produção jornalística. e chegando a desafiar seu equivalente corporativo como fornecedor de notícias e inovações. tendo uma representação parcial dos acontecimentos do mundo em prol do lucro. Diversos fatores entram em cena. nem sempre o corporativismo vai aprovar uma notícia puramente pela relevância da informação para a audiência. muitas vezes bem mais extensa do que a realizada pelos meios de comunicação . 142-3) O “jornalismo cidadão” surgiu da mesma forma que os softwares “abertos” – e não por coincidência ambos tem uma relação direta. p. p. uma infinidade de opções são oferecidas em acesso permanente. e com os programas utilizados pelos repórteres amadores tendo sido desenvolvidos pelos programadores open source . Apesar de cada vez mais informação ser produzida no mundo. em novembro de 1999: prevendo que a mídia não cobriria as ações adequadamente ou de alguma forma. A comunidade então avaliará e discutirá a notícia. registraram um website e montaram uma sala de imprensa para transmitir os protestos ao vivo online. e o público potencial. os grandes grupos de comunicação).2. e como oferta e demanda andam juntas. (BRUNS. Por mais que os jornalistas tenham boas intenções. em que não existem limitações físicas para mostrar e/ou armazenar qualquer tipo de informação. o processo seletivo do “gatekeeping” restringe apenas a tópicos que atendem interesses comerciais ou políticos da companhia de mídia e seus parceiros. com usuários encontrando um tópico que os interessa e consideram relevante para a comunidade. A noticiabilidade na lógica colaborativa Pela própria natureza da web.para complementar os meios tradicionais (no caso em vez da indústria de informática. produtos com pouquíssima procura ou disponibilidade são tão acessíveis quanto os mais populares. e eventualmente desenvolvendo uma história para publicar. 71-3) 3.22 comunicação quer publicar. emergindo na década de 2000 junto com a popularização da internet. 2009. O ponto de partida para um jornalismo feito pelo público foram os protestos para a reunião da World Trade Organization (WTO) em Seattle. mesmo sem aprendizado das teorias da área.69-70) Produzir notícias através de um “jornalismo aberto” é igual aos softwares open source. (BRUNS. (SEIXAS. 2008. os ativistas angariaram fundos para criar a Independent Media Center (Indymedia). agregando novos dados para garantir uma cobertura mais ampla dos dados. p. como a quantidade de espaço que pode ser utilizado pela notícia. (SCHWINGEL. 2009) Assim.

2008. que geraria discussão e permitiria uma abordagem mais ampla da história ao ver os debates dos leitores. mas apenas um ponto de partida. mas as comunidades acabam preenchendo o papel de informar e influenciar tanto quanto a imprensa tradicional. 2008. 33) Outro diferencial da produção em jornais colaborativos é como a notícia não é o produto final. e subsequentemente exigindo mecanismos mais formais de coordenação e controle para garantir eficácia. 2008. 22) O foco do produtor independente acaba sendo na produção de textos midiáticos em vez do consumo. Os participantes do jornalismo colaborativo pedem para não serem comparados com repórteres e outros profissionais do ramo. quanto mais pessoas envolvidas na construção do texto. A comunicação muda de ser focada no transmissor – geralmente uma corporação tradicional com maior acesso aos fatos – para se tornar uma rede espontânea oriunda de fontes no próprio público que recebe. com o editor limitando os dados a incluir. todos os erros são triviais". Os “olhos” também se aplicam aos leitores no caso de comunidades abertas à colaboração externa. e a revisão por uma comunidade pode ser tão precisa quanto a feita por especialistas.70-3) Assim como um grupo bem motivado e coordenado cria um produto de boa qualidade. Na contramão da imprensa de massa. conflitos ideológicos entre participantes e a geração indiscriminada de artigos acabam minando a missão e o rendimento do projeto. não há mais a dependência de receber um relato “regurgitado” e retrabalhado por diversas mãos visto que a era da informação permite conseguir o relato de variadas fontes. Em contraste ao noticiário tradicional. (BRUNS.74-6) Um dos preceitos da construção colaborativa é “Dados olhos suficientes. ás vezes até em primeira mão. em vez de “filtrar. visto que se nenhum visitante deseja alterar o conteúdo pode-se concluir que o artigo tem qualidade técnica e informativa.23 tradicionais. O grupo precisa permanecer focado nos seus objetivos primários. Porém a produção em si não é garantia de que haverá uma cobertura consistente e eficaz. p. p. (STIVILIA. E para o público que apenas lê. (BRUNS. e muitas vezes agregam processos e ferramentas para um melhor controle de qualidade. 2008. 2008. depois filtrar”. Assim. p. (STIVILIA. p. a produção de notícias pelo jornalismo cidadão é “publicar. Ocasionalmente isso acaba deixando veículos que seriam um jornalismo cidadão com restrições editoriais não muito diferentes das do jornalismo tradicional. com a notícia sendo postada e então reforçada pelas contribuições dos espectadores.2008. depois publicar”. com o produto jornalístico sendo uma unidade única contendo os fatos relevantes que permitem ao leitor saber o básico sobre o assunto – e isso quando não ocorre uma redução de espaço que pode reduzir a notícia a apenas uma manchete – em detrimento ao contexto e as . menos problemas o produto final terá.

as notícias criadas pela lógica colaborativa são mais um processo em constante evolução que um produto finalizado. A efetividade do sistema é comprovada pelos conglomerados de mídia contratando blogueiros e expoentes do jornalismo cidadão. Mesmo as enciclopédias digitais como a Britannica.24 conexões da história com outras notícias para maximizar o encaixe da notícia nos processos industriais de produção e transmissão. quando não compram seus sites para fazer parte da rede de páginas do veículo de comunicação. Enciclopédias tradicionais serviam para esse fim. pp. visto que muitos acabam difundindo os conceitos do jornalismo cidadão para a sociedade. 2008. porém o aumento da cobertura de um tópico e incluir a participação social na difusão desse conhecimento acabam por sempre justificar para os jornalistas amadores manter seu trabalho em atividade. (BRUNS. (BRUNS. porém não eram exatamente a forma mais acessível e funcional por serem publicadas anualmente a um preço alto. mais proeminentemente pessoas que apenas querem discutir um assunto de seu interesse e usar seu conhecimento no mesmo de forma jornalística. 86-93) O jornalismo participativo acaba sendo uma mudança drástica da mídia de massa tradicional não só por sua abordagem de construção coletiva. A qualidade da escrita pode não ser a mesma da gerada pelos meios de comunicação massivos. o jornalista é apenas uma fração de uma comunidade unida em esforço para revelar a verdade. mas também incluindo visitantes que decidem comentar sobre o tópico. e geralmente os participantes buscam apenas o bem comum e ganhar uma boa reputação em seu envolvimento ao invés de recompensas financeiras. todos em constante diálogo e deliberação para desenvolver algo que a comunidade sabe que nunca estaria completo. O jornalista não é mais “dono da notícia”. e estimulando as companhias a buscar o envolvimento do espectador no processo da criação de notícias. Ao invés de um jornalista solitário tentando desvendar a verdade e podendo ser tolhido pelas restrições impostas pelo sistema que publica suas notícias. Blogs e wikis mudaram esse panorama ao permitirem uma destilação das informações pouco após os eventos ocorrerem. pp. Nem sempre significa que os recém-profissionalizados são “vendidos” que largaram o sistema. mas por lidarem com o “vão temporal de conhecimento” que separa os eventos recentes tratados nos noticiários e os fatos históricos relatados em livros. A participação na criação de notícias sai das mãos de especialistas profissionalizados para uma base de pessoas de variadas qualificações. 81-3) Jornalismo online não necessita de grandes qualificações para ser feito.com trabalhavam em ciclos de seis meses a um ano. e ainda possuírem hyperlinks que . 2008. com a produção jornalística pela lógica colaborativa entrando no conceito open source de propriedade coletiva.

p. 2007) Tal controle de qualidade é importante para gerar um conteúdo capaz de cumprir todos os seus propósitos. Essa conexão próxima entre leitura e edição contribui para uma evolução rápida do conhecimento. 2009) Porém nesse caso é essencial que o editor tenha a palavra final de distribuição. usuários que comentam. Daí o formato wiki em particular pode ser uma adição significativa para a redação de notícias. p. Os leitores e editores tem acesso imediato à história. como confiar? (GLASER. 2004) . (STIVILIA. (LIH.75-6) O modelo tradicional de jornalismo é fechado. O público acredita nas notícias por assumir que o “aparato escondido” responsável pela produção jornalística garante que as informações são corretas. 26) O jornalismo é um trabalho que depende da colaboração para confiança. (D’ANDRÉA. isolado e potencialmente problemático na era da informação: esperar para publicar torna a notícia ultrapassada ou impede o consumidor de conseguir informações que podem ser úteis. (BRUNS. podem consultar um ao outro para conferir se os fatos concordam com o que foi coletado e observado. 2004. 2008. e checando a veracidade dos dados e qualidade da redação. bem como a presença das políticas para determinar os critérios de julgamento que todos os artigos devem cumprir. e a coordenação entre vários escritores é facilitada pelo fato de todos estarem trabalhando no mesmo texto. removendo contribuições disruptivas.25 permitem o leitor explorar mais a fundo o conteúdo e se possível ser um colaborador. das fontes confiáveis usadas pelo repórter aos editores que checam por possíveis erros. reescrever seções incorretas ou desatualizadas. Daí muitos jornalistas considerarem a Wikipédia uma fonte a evitar e o formato wiki totalmente contra a integridade jornalística: se qualquer um muda a página na hora que quiser. e a falta de interação com o leitor deixam falhas de comunicação serem muito mais fáceis de ocorrerem. p. Blogs já tinham revertido o conceito ao conquistar a confiança através apenas dos receptores – leitores. 2008. que acaba se beneficiando diretamente de ter mais leitores quando estes reagem criticando o conteúdo ou contribuindo com material. e links em outras páginas.5) O uso de mais pessoas para revisar é um recurso único do jornalismo participativo. uma função ausente da metodologia tradicional dos meios de comunicação. (BRADSHAW. resolvendo os problemas de imprecisão e vandalismo comuns em wikis.

A discrepância reforçada pelas políticas oficiais acaba não impedindo que artigos sobre eventos recentes sempre figurem entre os mais visitados e editados de cada mês.wikipedia. (como descrito abaixo) 3 .194) A construção colaborativa chega a ultrapassar o jornalismo tradicional: minutos após as primeiras bombas dos atentados de 2005 em Londres explodirem. como precisam encaixar nos critérios de notabilidade do website para ser provado que tem importância histórica suficiente para merecer um artigo enciclopédico a seu respeito. já havia um artigo na Wikipédia sobre o assunto.org/wiki/Wikipedia:NOT#NEWS -http://en. p. 2011) e até hoje a atividade no verbete do atentado em 7 de julho de 2005 detém o recorde do número de edições em apenas um dia. especificando que a escrita dos artigos foge do estilo de redação jornalístico. (FERRON.http://en. especialmente se foram reanalisados em seguida.wikipedia.3 A temporalidade da notícia na Wikipedia Um dos itens da página “O que a Wikipédia Não é” 3 é “A Wikipédia não é um Jornal”.org/wiki/Wikipedia:Notability_(events)#Inclusion_criteria 4 .857 revisões em 24 hours – ocasionalmente beirando 15 edições por minuto. 2009. e ocasionalmente a duração da colaboração pode ser ajudada pelo tempo em que o tópico figura no noticiário e consequentemente no imaginário popular – a gripe suína ficou dois meses seguidos como artigo mais editado em 2009.wikipedia. MASSA. o website não é uma fonte primária.org/wiki/Wikipedia:Wikipedia_records#Edits 5http://en.26 3. ou se tem um efeito duradouro significativo. e não só os eventos recentes não merecem maior importância que outros tópicos. com 2.  Eventos também são provavelmente notáveis se tem impacto muito difundido (nacional or internacional) e foram amplamente divulgados em várias fontes. 4 Uma das subpáginas sobre notabilidade da Wikipédia descreve as possíveis condições em que um evento pode valer sua inclusão. (D’ANDRÉA. e o escopo da cobertura jornalística cabe na maioria desses fatores5:  Eventos são provavelmente notáveis se tem uma continua significância histórica e atendem as políticas de notabilidade gerais.

Ao contrário de um blog. enquanto a versão portuguesa ficou 6 dias) como de um consenso de como gerir o site (a ponto de colaboradores insatisfeitos da versão inglesa se desligarem para criar um website similar. e o jornal San Diego Tribune uma enciclopédia para a cena musical da cidade. e reverter alterações maliciosas pode ser feito ao clique de um botão . acidentes. 2009) Outros veículos comunicativos resolveram explorar o potencial informativo do wiki com sites abastecidos com o conhecimento dos leitores. (BRADSHAW. WikiNotícias.e discutir ações para o progresso em páginas especiais para esse fim. notícias políticas ou de celebridades. a descrição abaixo providencia orientação para avaliar. no qual o texto é de total responsabilidade de um único autor.nenhuma operação é permanentemente destrutiva já que todas as revisões dos artigos são armazenadas. enquanto multidões vem para a . “chocantes”. 2007) O conceito do formato wiki em tese é contra-intuitivo por não exigir credenciais dos colaboradores e ainda não ter alguém que revise o conteúdo antes da publicação. estimulando a interação social entre os editores ao permitir que eles possam “seguir” artigos acompanhando alterações nos mesmos. que submeteram textos à comunidade da Wikipédia com a liberdade de ajustes e correções. o WikiNotícias em inglês passou 2 dias sem nada publicado. demonstrando a importância da mediação exercida no processo.27  Eventos com menor cobertura ou escopo podem ou não ser notáveis. O formato já foi utilizado para pelo menos um site de cunho jornalístico: o site-irmão da Wikipédia. Porém a funcionalidade dos websites é indubitável. e fenômenos virais) – por mais trágico ou amplamente relatado à época – geralmente não são notáveis a menos que algo a mais dê um significado duradouro. histórias sem valor duradouro.4) Mesmo que as políticas da Wikipédia sugiram o WikiNotícias para focar em conteúdo noticioso. reverem mudanças individuais . (D’ANDRÉA.  Eventos rotineiros do noticiário (incluindo a maior parte dos crimes. Jacobs e o repórter brasileiro Pedro Costa. nas wikis o texto é fruto de um trabalho conjunto dos colaboradores e a versão final do material emerge de um consenso negociado pelos envolvidos. mortes. Experimentos terceirizando textos jornalísticos para os wikipedistas já foram efetuados pelo editor da Esquire A. tal projeto sofre tanto de falta de colaboradores (em Abril de 2012. geralmente de tópicos que não teriam espaço no noticiário regular: a revista Wired abriu uma wiki com guias de “faça você mesmo”. o OpenGlobe). p.J. (LIH. 2004.

28 enciclopédia querendo editar um único tópico que acabaram de ver no noticiário. a prosa funcional e concisa está mais próxima do texto jornalístico do que o produzido por historiadores. 112) Artigos da Wikipédia não querem substituir o trabalho dos especialistas. 2011. 2009) Os prazos de fechamento implicam que os fatos 6 . utilizando apenas a síntese e a agregação de dados já publicados em outras fontes de informação ao invés da apuração direta de informações inéditas. (FORD. 2004) O texto jornalístico é similar. (DEE. 2009) Um jornalista cria sucessivas histórias.com direito a fazer reportagens focando em determinados personagens da notícia. 2007) em especial quando a cobertura do WikiNotícias acaba consistindo na redação de notícias a partir dos dados já relatados pela mídia – algo que já é realizado nos artigos sobre eventos recentes da Wikipédia. Ambos estão motivados a realizar uma coleta. atividades autônomas e integração da contribuição coletiva. com baixo custo de participação. (D’ANDRÉA. “uma familiaridade com essa convenção pode ajudar no planejamento do estilo e layout de um artigo”. a ponto de ser redundante. YATES. possivelmente como relato primário após consultar em primeira mão uma fonte com os dados . . 6 A construção dos relatos nos artigos da Wikipédia acaba diferindo de como um jornalista compila. 2011) O próprio Wales admitiu que o conteúdo do WikiNotícias acaba sendo eclipsado. 2011) A própria guia com conselhos para escrever artigos melhores declara que embora o estilo jornalístico não seja necessário. 2007) Um acontecimento marcante gera na Wikipédia uma atividade de cobertura com certos paralelos à do jornalismo tradicional.org/wiki/Wikipedia:Writing_better_articles#News_style . (KEEGAN. (LAGE. mas providenciar acesso do público às informações em seus verbetes. (AYERS. que chegam a ganhar espaço para relatos em primeira pessoa. (BRADSHAW. GERGLE. com direito às referências e ligações externas que guiam para onde pode se aprofundar no material discutido. que normalmente agregam elementos da prosa literária para tornar seus relatos de eventos passados mais engajantes. p. providenciando tanto os dados quanto um caminho de investigação para o público. MATTHEWS. (ROSENWEIG. onde as contribuições também ajudam a construir uma base de conhecimentos duradoura em vez de algo tão efêmero como uma notícia.wikipedia. (SOUSA PINTO. O diferencial máximo do trabalho da Wikipédia é ser um trabalho social de construção do conhecimento. 2001) Mesmo com a declaração nas políticas da Wikipédia de que a escrita dos artigos não segue o estilo das técnicas de redação jornalísticas. CONTRACTOR. síntese e divulgação de informações neutras e confiáveis em tempo hábil e veloz.http://en. pelo escopo e importância do gigantesco site-irmão.

2011.28online_and_paper. com o jornalista podendo estender sua investigação aos dias seguintes se o fato for significativo suficiente. A diferença é o grau de envolvimento e a prioridade dada ao ato de resumir. 22-25) Em paralelo. bem como apurar e checar os dados antes que acabe desmentidos ou incompletos. postagens em fóruns) são largamente vistos como impróprios em termos de 7 – http://en. pp. selecionando o que seria relevante para a inclusão e a melhor organização para as informações.wikipedia.org/wiki/WP:IRS#Self-published_sources_. não confiar completamente em pronunciamentos oficiais. É preciso evitar a reprodução de rumores. (SOUSA PINTO. (PUBLIFOLHA. (LAGE. Paulo inclusive nota (p.29 relevantes – sejam “espontâneos” ou fruto de um cálculo oportunista de determinados agentes sociais – precisam ser divulgados o mais rápido possível.não muito diferente de como um redator com acesso aos dados de um conflito militar será incapaz de produzir um texto tão engajante quanto um repórter presente no campo de batalha. sem deixar de lado a intenção de um texto claro e compreensível para iniciados e leigos. mas seriam considerados desnecessários na prosa da Wikipédia .” As políticas da Wikipédia7 destacam como “qualquer pessoa pode criar uma página de Internet e assim afirmar-se como um especialista numa determinada área ou temática” e assim sites pessoais. páginas em redes sociais. confirmar os dados informados pela fonte e se possível recolher mais de um relato para comparar. Porém a redação é similar. mas não descartam a importância da verificabilidade: manuais de jornalismo destacam sobre atribuir a informação utilizada na reportagem. 2001) Os meios de comunicação podem usar relatos inéditos. blogs ou conteúdo gerado por usuários (wikis. Mesmo sem tempo de uma apuração completa. com os meios de comunicação e os verbetes da enciclopédia usando certa intuição na construção textual. os wikipedistas fazem várias versões de uma mesma página dependendo de já ter sido publicado um relato pronto sobre os acontecimentos em uma fonte fiável – com o sério risco de defasagem ou contradição com outros veículos – e focando mais em uma abordagem geral em detrimento a destacar narrativas pessoais (que violam o princípio de neutralidade por dar peso indevido a uma determinada opinião). o fato publicado deve ser rigorosamente checado.29 . visto que “o simples fato de estarem difundidas em um meio de alcance global não significa necessariamente que sejam procedentes e verídicas. 26) que o repórter deve ser cauteloso com informações captadas na internet. 2009) O Manual de Redação da Folha de S. já que os jornalistas podem enriquecer sua redação com detalhes que comprovam a presença do autor no ambiente discutido. mas sempre seguindo a objetividade jornalística e o distanciamento crítico.

onde ocorrem discussões e mobilizações para coordenar a edição de páginas em um mesmo tópico. 116-7) Os jornalistas são explicitamente divididos em categorias para a melhor coordenação produtiva (pauteiros. Todos os usuários com determinado tempo de registro e número de edição podem se candidatar ao cargo de “administrador”.30 servirem como fontes quando o autor não é alguém comprovadamente relevante na área discutida ou um profissional do campo jornalístico. (BRUNS. os WikiProjetos. integrar etapas do processo de produção jornalístico (composição. 2001). Tal formato jornalístico tem sete diferenciais: dinamicidade. 2008. com tais bases tendo diversas finalidades: indexar e classificar peças informativas. automatização. (BARBOSA. flexibilidade. redatores. Apesar da redação de notícia requerer o entendimento do que está sendo transmitido. inter- relacionamento/hiperlinkagem. diagramadores. possui um formato intuitivo em que todos podem editar e as alterações ficam online tão logo são submetidas (e diversas tarefas repetitivas são executadas por ferramentas automáticas que vasculham artigos. O uso de meios digitais para todas as etapas da produção jornalística – apuração. pp. 2008) Todos estes estão presentes na Wikipédia. e bloquear . O cânone de conhecimento das enciclopédias tradicionais passa a ser dividido por variados grupos informativos. Wikipedistas com interesses comuns também acabam criando suas próprias subcomunidades na enciclopédia. e circulação – criou o conceito de Jornalismo Digital em Bases de Dados. ordenar e mediar os mecanismos de interação e colaboração informativa. editores). os “robôs”). os jornalistas se dividem em editorias de assunto específico conforme seus interesses de cobertura. Tanto o meio jornalístico quanto a Wikipédia são hierarquizados para coordenar melhor as funções. diversidade temática e visualização. enquanto embora todos os wikipedistas sejam “Usuários” com direito de edição que criam e alteram o conteúdo da mesma forma. edição e disponibilização do produto). que ainda assim não trabalham isoladamente visto que certos assuntos acabam sendo uma “interseção” entre áreas diferentes. um jornalista se especializar em uma área de cobertura é um plano mais prático que um especialista aprender as técnicas jornalísticas visto que mesmo as reportagens mais aprofundadas não necessitam ser espelhos da realidade. que cobre os mais variados assuntos com o máximo de detalhamento possível. Nos veículos de comunicação. composição. textos e sons) e acesso fácil a artigos relacionados por hyperlinks. densidade informativa. e faz uso de recursos que garantem a ilustração do tópico com recursos multimídia (imagens. (LAGE. podendo reverter edições. proteger ou eliminar páginas. edição. o desejo de manter a ordem criou determinadas figuras de autoridade para guiar a manutenção das páginas.

enquanto “burocratas” ditam a respeito de privilégios como administrador e robô. ao mesmo tempo em que evita um propósito messiânico de mudar o mundo com suas notícias. torna uma classe que só contribui porque quer.(JOHNSON. números de IP do computador utilizado. (BRUNS. (TRAVANCAS. 2009) O jornalista também é uma classe que é mais motivada pelo afinidade à área de Comunicação e o engajamento à “missão” de informar do que simplesmente a busca por fama e fortuna (a ponto de serem comum a reclamação do salário ser baixo comparado à quão extensiva é a jornada de trabalho). 2008.31 usuários causando problemas na comunidade. . pp. 2011) Ambos só conseguem o reconhecimento e promoções de seu serviço com trabalho duro. motivados por se sentirem eficazes e úteis em sua colaboração com o projeto. já que não é obrigatório ser registrado para editar) – reforçada pela falta de remuneração ou recompensas físicas.140-2) A igualdade no geral de wikipedistas – reforçada pelo fato de todos acabam se escondendo e mesclando atrás de nomes de usuário (e em casos extremos.

eles já atualizavam seus registros de 7 de Julho. (KEEGAN. e artigos nestes tópicos saturam as listas de artigos com mais usuários. CONTRACTOR.32 Capítulo 4 . 2011. Em termos da Internet. revisões e visitas do website em qualquer mês desde o estabelecimento da Wikipédia. CONTRACTOR. A era digital contribuiu para que também surgissem tais comunidades no meio online. Catástrofes como terremotos exigem a reconstrução do evento bem como a incorporação de informações novas. 106) . Diversos editores com variadas habilidades. p. com os artigos de desastres como o massacre na universidade Virginia Tech em 2007 sendo considerados grandes exemplos de abrangência. junto da absolvição póstuma de Joana D’Arc em 1456 e o OVNI de Roswell em 1947. Lá. Tais eventos incluem desastres naturais. estava um relato em tempo passado dos atentados. Afinal. ela se tornou um ponto de referência para informações ligadas a acontecimentos inesperados e de alta divulgação. a integração de dados para fatos ainda presentes nos noticiários acaba sendo uma grande oportunidade para internautas que apenas estão lendo o artigo se estimularem a agregar dados novos. a crise em Londres já estava passando para a história. 2011.” Jornal Metro 4. a enciclopédia online. GERGLE. 105) A “sociologia dos desastres” estudou as comunidades altruístas que se formam após tragédias de dano incerto e informação escassa. p. confiabilidade e atualidade. (KEEGAN. GERGLE.A noticiabilidade colaborativa sobre os fatos marcantes de 2011 “Talvez a contribuição de histórias mais significativa ocorreu na Wikipédia. O projeto baseado na lógica colaborativa e permitir aos usuários revisar e acrescentar novos dados conforme eles surgem é bem empregado para tratar de emergências. enquanto o número de mortos continuava a crescer.1. conhecimento e motivações se juntam para construir a páginarelato do evento. Perspectiva metodológica Dada a proeminência da Wikipédia. Horas depois da explosão. com a simpatia pelas vítimas cria laços momentâneos entre pessoas que não se conhecem e passam a tentar criar a ordem a partir do caos no local do desastre. que inclui desde veteranos da enciclopédia como editores de momento que não voltam a editar a Wikipédia. e conflitos políticos. seja meramente mandando mensagens de condolências ou se mobilizando para buscar dados e enviar ajuda. acidentes. A resposta da Wikipédia a grandes eventos acaba sendo muito similar a essa mobilização social.

condições favoráveis para o desenvolvimento dos verbetes. principalmente ao realizar reuniões para o planejamento e edição final. 2011. diversos editores vão agregando variados acontecimentos para serem condensados em uma única narrativa. garantindo mais editores envolvidos na construção das páginas e engajamento de editores. 2009) Por mais que o jornalista em tese faça seu trabalho sozinho. que possui um maior escopo de artigos e tráfego. (PUBLIFOLHA. (FERRON. 8 8 -Os websites utilizados para coleta de estatísticas como popularidade de edições estão listados na página de referências bibliográficas. exposição de informações novas para determinar se merece inclusão. 19-21.o sistema guarda todas as revisões mesmo após a alteração de conteúdo. e a aba de discussão contém os debates do processo de redação – conseguem-se todas as informações do desenvolvimento do artigo. Em um exemplo da memória coletiva sendo construída continuamente. e como a evolução da escrita não é apagada . veículos comunicativos sempre tentam manter os membros da equipe em contato uns com os outros. abrindo espaço para o debate do que já está no artigo. MASSA. e o levantamento de tarefas a serem cumpridas para a melhora da página. Para as análises a seguir. 2011) O texto resultante acaba por expor a visão de pessoas que por mais díspares e dissonantes são unidas pelo interesse em contribuir seu conhecimento e comoção pelo assunto. os exemplos vem primariamente dos artigos na Wikipédia em inglês. p. para que a troca de ideias enriqueça o produto. Tudo vem de um processo de negociação. (PENTZOLD. .33 A construção das páginas da Wikipédia acaba por ser um meio-termo entre o noticiário e os depoimentos dos participantes em redes sociais. 34-35) A página de discussão da Wikipédia cumpre essas mesmas funções. do conflito até o consenso.

e até a promoção às 7:58 UTC. espalhando material radioativo e causando faltas de energia e evacuações. Os danos contribuíram para uma epidemia de cólera que se iniciou em outubro.wikipedia. 9 Um ano depois. a Wikipédia em japonês foi a pioneira no relato criando um artigo às 5:57 UTC. Mais de 12 mil pessoas morreram.34 4. Porto Príncipe. pouco após as primeiras notícias – e quarenta minutos após o evento em si. e o governo haitiano estimou um número de 330 mil mortos. um abalo sísmico ainda mais forte. 2010) Já no evento de Tohoku. ocorreu no Oceano Pacífico a 70 km a oeste da região japonesa de Tohoku. Em 24 horas o artigo tinha sido editado 800 vezes. o New York Times não tinha 9 . em 11 de Março de 2011. Nesses 90 minutos. apesar de a imprensa ter sido avisada do terremoto em minutos. um terremoto de magnitude 7 ocorreu no Haiti. chegando a 9 na escala de magnitude de momento. Além disso. e prejuízos causados pelos estragos chegavam a US$309 bilhões.745 palavras e 106 fontes e conseguindo 168 mil visitas à página. e o fato era relatado na página principal à 1:34 do dia seguinte. 12 editores haviam apoiado a promoção (contra apenas 4 na do Haiti). com ondas que chegaram a 40 metros de altura e entraram 40 km para dentro do país. O mesmo usuário que criou o artigo havia dois minutos antes indicado o ocorrido para uma potencial inclusão em “Eventos Recentes”. os maiores danos foram causados pelos tsunamis resultantes. o país foi devastado pelo abalo sísmico: cerca de 30 mil prédios foram destruídos.org/wiki/2010%E2%80%932013_Haiti_cholera_outbreak e http://en. o artigo já tinha 220 revisões por meio de 82 editores. o equivalente ao horário de Greenwich. Os terremotos no Japão e Haiti: acontecimentos de magnitude Em 12 de Janeiro de 2010. Embora o terremoto em si tenha sido forte o suficiente para causar a destruição de rodovias e linhas ferroviárias no Japão. (VARGAS.wikipedia. . já contando com avisos de um potencial tsunami.Conforme http://en. os danos sofridos por duas usinas nucleares em Fukushima levaram a uma explosão. ás 21:59.2. com seu epicentro a 25 quilômetros da capital do país. meros minutos após o terremoto de 6 minutos parar. O artigo do terremoto no Haiti foi criado em inglês às 22:33 UTC10.Tempo Universal Coordenado (Universal Time Coordinates). chegando a 2. O horário de Brasília é UTC -3. Relatos da Wikipédia sobre os dois eventos surgiram rapidamente.org/wiki/2010_Haiti_earthquake 10 . Ajudado pelos problemas de infraestrutura da nação subdesenvolvida. Para fins de comparação. Onze minutos depois o artigo era indicado para Eventos Recentes. A versão inglesa fez sua página às 6:18 UTC.

2011. (D’ANDRÉA. p. GERGLE. (KEEGAN. o que pode ser interpretado tanto pelo escopo da tragédia – o evento caribenho gerou seções inteiras no artigo do Haiti por causar pioras consideráveis em um país já muito pobre. algo que já estava instaurado na página do Japão desde 2010).107) . em especial páginas contendo tópicos específicos do desastre para reduzir o tamanho do artigo principal – nas listas mensais dos vinte artigos mais editados entraram dois sobre a resposta humanitária no país caribenho. mas apesar do drama no Japão o verbete do país apenas incluiu breves menções ao terremoto e incidente nuclear nas seções sobre história recente.35 uma notícia sobre o terremoto até as 7:35 UTC. e os artigos encabeçaram a lista de páginas mais editadas da Wikipédia nos respectivos meses da tragédia. GERGLE. Verbetes relacionados também geraram muita atividade. 106) Ambos os eventos atraíram muita colaboração enquanto as consequências estavam frescas no noticiário. enquanto os do Haiti ficaram em 4131. (KEEGAN. 2011) No caso do Japão. Em um mês os eventos no Japão renderam 4536 edições. Mesmo artigos já existentes foram muito editados: o verbete sobre o Haiti estava entre os mais alterados de janeiro de 2010 (o mesmo não ocorreu com o Japão. 64 páginas incluídas na categoria dos incidentes – em sua maioria locais atingidos pelo abalo sísmico – receberam em um mês 3792 edições por 1140 usuários. CONTRACTOR. a brasileira Zilda Arns. contra 59 desde a criação da página em 2009). e uma das vítimas notáveis. e três páginas envolvendo o incidente nuclear em Fukushima. teve sua morte inspirando um pico de edições no artigo a seu respeito na Wikipédia lusófona (145 edições nos três dias que seguiram o sismo. geologia e tecnologia – como pelas implicações negativas do formato aberto – constante vandalismo à página do Haiti levou administradores a proteger o verbete para que só usuários registrados e com edições suficientes pudessem modificar o conteúdo. acompanhando e ocasionalmente ultrapassando a cobertura na mídia brasileira. p. CONTRACTOR. um número que beirava quase a metade das mudanças no conjunto durante toda a década precedente (8074 revisões por 2997 editores entre Julho de 2001 e Março de 2011). da Pastoral da Criança. 2011.

com pessoas. reações internacionais. uma cronologia do evento.wikipedia. mas quando o foco da imprensa foi para o risco de um acidente nuclear na usina de Fukushima. ocorrido em 1907 na Jamaica. citou em um congresso de jornalistas que pelo modo como a comunidade relatou os eventos no Haiti “a indústria poderia aprender muito com a Wikipédia.http://en. que incluíram não só artigos diretamente envolvidos no evento . (KEEGAN.e um dia depois uma relacionada ás vítimas) e gerar conteúdos disputados." 11 A atenção dada ao assunto é paralela à presença no imaginário popular. e eventualmente subdividida para separar as ações de governos. A atividade só começou a dissipar após os riscos voltarem a diminuir em 20 de março. vítimas e uma cronologia dos esforços de resgate. evacuações. era criada uma página sobre a reação internacional .subtópicos como resposta internacional. efeitos da radiação. 21 artigos relacionados foram criados entre 11 de março e 4 de abril de 2011 à medida que os incidentes se desenrolavam. ONGs e empresas . causada por editores agregando todos os dados possíveis que surgiam no noticiário. CONTRACTOR. simultaneamente à volta da energia para geradores que controlaram o resfriamento do material em fusão. 107) Gerar artigos sobre o ocorrido Haiti foi uma atividade mais intensa. 2011. resposta humanitária. Um editor reclamou do enfoque em vítimas estrangeiras quando a maioria dos mortos eram haitianos. GERGLE.36 A cobertura da Wikipédia foi muito além de simplesmente redigir o artigo sobre o terremoto. Krishna Bharat. que não tinha artigo em inglês) – como páginas relacionadas que só recebem tal atenção em eventos como este – uma grupo que ajudou o resgate com imagens de satélite. Entre 11 e 15 de março. Além do artigo do terremoto e tsunami em Tohoku. locais e tópicos envolvidos no terremoto ganhando páginas próprias. CONTRACTOR. e uma lista de cidades afetadas. comas mesmas 22 páginas sendo criadas em cinco dias. como relatos dos acidentes nucleares. e logo em seguida reescreveu a seção para remover as listagens de desaparecidos. A ampla divulgação de ações 11 . (KEEGAN. GERGLE. logo a geração de novo conteúdo tomava a dianteira. Uma pesquisadora do Google.logo rebatizada para “resposta humanitária”. locais e pessoas vitimados pelo terremoto (incluindo a própria Zilda Arns. o foco em criar páginas sobre o terremoto e tsunami em Tohoku eram equivalentes. p. p. duas falhas geológicas envolvidas no tremor e o último sismo de grande impacto no Caribe. dois dias depois do terremoto.org/wiki/Wikipedia:Wikipedia_Signpost/2010-01-18/News_and_notes . 2011. e assim ocorre uma expansão desenfreada. 107) O enfoque da mídia na comoção internacional pelo desastre no Haiti e subsequentes ações de caridade incharam as seções sobre reação internacional e vítimas a ponto de rapidamente necessitarem páginas dedicadas (em 14 de janeiro.

o vendedor tunisiano Mohammed Bouazizi. Um editor da página sobre Tohoku criou uma predefinição que transcrevia nas páginas em que era incluída o número de mortos e referências que levavam ao relato da polícia japonesa. p. (KEEGAN. edições em escalada Em 17 de Dezembro de 2010. CONTRACTOR. remover conteúdos considerados irrelevantes. O mundo online permitiu às pessoas descobrirem rápido sobre os problemas do mundo. fazendo os usuários só atualizarem essa predefinição para manter o dado de fatalidades atualizado – não era necessário alterar cada página que continha o número. GERGLE. ateou fogo em si próprio em frente ao prédio do governo de sua cidade. eventos que seriam unidos sob a alcunha de “Primavera Árabe”. dando enfoque ao que surgia sobre os eventos enquanto se organizavam os dados para uma cobertura abrangente. divulgá-los através das redes sociais e criar iniciativas para ajudar as vítimas. O desenvolvimento das páginas da Wikipédia foi similar.3. revoltado com as autoridades locais terem confiscado seu carro de frutas alegando que seu negócio era ilegal. 4. culminando na deposição do presidente egípcio Hosni Mubarak e do iemenita Ali Abdullah Saleh. Primavera Árabe: eventos contínuos. Essa demonstração de revolta é considerada o estopim inicial de uma série de manifestações clamando por democracia e melhores condições de vida no norte africano e Oriente Médio. 109) No artigo do Haiti muitas informações excessivas e datadas foram reduzidas em prol da concisão. uma na Líbia que em . e fazer trabalhos especializados para manter artigos atualizados e organizados. Egito e Iêmen. onde os protestos incitados pelo ocorrido com Bouazizi fortaleceram a ponto do presidente Zine El Abidine Ben Ali fugir do país em 14 de Janeiro de 2011. Como o fluxo informativo não se interrompe enquanto os acontecimentos estão em evidência. levou a uma onda de instabilidade na região que influenciou ações similares em Argélia. Jordânia. os wikipedistas tem de discutir o que incluir.37 de apoio para a reconstrução do país pela internet levava a edições incluindo links para sites de caridade (alguns dos quais eram removidos imediatamente sob acusações de spam) e uma discussão sobre qual ativismo merecia ser incorporado ao corpo do texto. como “links externos” com sites de caridades e blogs dos meios de comunicação. O sucesso da intifada na Tunísia. fácil de ler e fazendo algo que muitos meios de comunicação acabaram deixando para trás em meio à urgência de ter algo para publicar: checando as fontes. Em meio ás rebeliões explodiram duas guerras civis. 2011.

esse epíteto tornou-se o título do artigo na Wikipédia Lusófona) foi criada em 30 de Dezembro de 2010. com protestos sendo organizados pelo Facebook. um executivo do Google que foi um dos líderes na organização das manifestações em seu país. 12 A página da Wikipédia sobre os protestos na Tunísia.0”. A maioria das alterações envolveu a atualização para incluir as novas ações populares e a reação internacional aos eventos. O maior pico de revisões ocorreu quando a Tunísia era novamente parte dos Eventos Recentes em 14 de Janeiro. e os manifestantes usando seus celulares para se comunicarem uns com os outros e também registrarem os eventos com vídeos e fotos. e dizer que “nossa revolução é como a Wikipédia. apesar que os acontecimentos só foram divulgados na página principal em 2 de janeiro. chegou a fazer um paralelo com a “revolução do usuário” ao descrever os eventos como uma “Revolução 2.38 agosto de 2011 derrubou o ditador Muammar al-Gaddafi – mais tarde executado pelas forças rebeldes – e outra na Síria ainda em curso. A atividade continuou intensa ao longo de Janeiro de 2011.wikimedia. todos estão contribuindo conteúdo e não sabemos a identidade dos contribuintes”. dia em que Ben Ali fugiu para a Arábia Saudita.org/wiki/Wikimedia_Foundation/Annual_Report/2010-2011/Revolution . O que era efetivamente um trabalho jornalístico acabou até trazendo os meios de comunicação tradicionais. No mesmo dia já era indicada para os Eventos Recentes. mencionando um conflito entre manifestantes e policiais no dia 28 de dezembro de 2010 na capital da vizinha Argélia (onde ao longo de 2010 já haviam ocorrido muitos protestos contra o desemprego e falta de habitação. qualificando o artigo entre os 10 mais movimentados do mês. inspirando um artigo do The Guardian que até comparava os eventos aos que em 1989 levaram à deposição do ditador romeno Nicolau Ceausescu. com o canal Al-Jazeera providenciando vídeos de sua cobertura em Cairo. A internet teve papel forte na Primavera Árabe. Em apenas 2 dias. o artigo teve 27 edições. com 1050 edições por 216 usuários.http://meta. fechando 2010 com 909 palavras e 13 referências. Mais de 1200 voluntários contribuíram com textos e imagens dos protestos no mundo árabe para compartilhar com o mundo seus dramas e experiências. A própria enciclopédia era abraçada pelos participantes das revoltas. 12 . O egípcio Wael Ghonim. como prova de que o site era parte essencial de registrar e aprender os eventos contemporâneos. dois dias após Ben Ali se pronunciar a respeito das manifestações cada vez mais violentas. Já se incluía uma associação com outros conflitos na região. com milhares de mortos e milhões de desalojados. mas tiveram seu momento mais agressivo após o conflito tunisiano). que eventualmente foram apelidados pela imprensa internacional como “Revolução de Jasmim” (citando a flor-símbolo da Tunísia.

(p.org/wiki/Wikipedia:Article_titles . “Revolução” 13 . O artigo sobre os protestos no primeiro país a seguir o exemplo tunisiano. em poucas palavras e em ordem lógica.36) Exercer esse caráter descritivo ao lidar com uma sucessão de eventos que expandem seu escopo e impacto como as manifestações no mundo árabe provou-se complicado. ao mesmo tempo capazes de tornar claro. No mesmo dia já surgia uma página compilando as manifestações pela democracia e melhores condições de vida que se iniciavam por vários países. a Argélia.wikipedia. visto que o sacrifício do vendedor tornou-o um mártir em seu país e acabou sendo uma referência nas outras nações (o número de autoimolações nos protestos argelinos chegou a valer criação de artigo próprio).39 Atraiu-se também um fluxo de atenção para o artigo do ditador (a ponto de entrar entre as 20 mais ativas do mês e ser protegida por excesso de vandalismo) e a criação de uma página sobre Bouazizi.https://en. e em outros países os conflitos se estenderam para 2012) e o termo descritivo do evento. Os artigos de cada país tinham ajustar datas (os protestos da Tunísia e Argélia começaram ainda em 2010. surgiu em 10 de janeiro. o objeto da notícia”. A onda revolucionária instigava cidadãos insatisfeitos em outros países. conciso e consistente. As convenções da Wikipédia consideram13 um bom nome de artigo como reconhecível. 24 horas depois de cinco dias de motins na maior parte das cidades da nação. que apesar de um editor indicar para possível deleção. e no Manual da Folha todas essas características se veem na declaração de que “os títulos devem ser. preciso. acabou mantida por considerarem que não era uma página criada meramente por recentismo. natural. respectivamente) com grande quantidade de pessoas na rua já eram criados na Wikipédia inglesa páginas para relatar os acontecimentos. Sendo o título a parte que primeiro é vista pelo leitor. na maioria dos casos pouco depois da exposição dos eventos no noticiário. valendo inclusão na seção de “Instabilidade regional” na revolta “original” tunisiana e artigos próprios. Por outro lado no mesmo dia em que os cidadãos de Egito e Iêmen realizavam um “Dia da Revolta” (dias 25 e 27. para demonstrar que de “Protestos” os eventos já se qualificariam como “Revolta” (“processo político-militar em que um grupo de indivíduos decide não mais acatar ordens ou a autoridade de um poder constituído”). Eventualmente um usuário sugeriu que as revoltas que vinham sendo listadas no artigo do movimento “original” da Tunísia poderiam ir para um artigo próprio para constar que eram fenômenos interligados. o nome de uma notícia ou de um artigo da Wikipédia tem de ser um resumo satisfatório do conteúdo. que do título original “Protestos de 2010-11 no Mundo Árabe” precisou passar por várias renomeações até um nome que satisfizesse toda a comunidade.

o artigo sobre os protestos foi o segundo mais editado de janeiro (atrás da página sobre um tiroteio no Arizona). o artigo da Revolução Egípcia recebeu 6. e atraindo mais editores interessados na atualização do artigo do que o incidente na Tunísia. uma média de 135 edições diárias. relatando os planos para os protestos .” “Cronologia da Revolução Egípcia de 2011. (FERRON.190 usuários diferentes. com as multidões do “Dia da Revolta” – mais de 50 mil no centro de Cairo e 20 mil em outras cidades egípcias – também aparecendo nos Eventos Recentes. um termo cunhado em janeiro por um cientista político americano (alusão à Primavera de Praga. MASSA. Em apenas uma semana. em especial pelas consequências trágicas – o ditador Muammar al-Gaddafi tentou reprimir violentamente os protestos. com 36 páginas.40 (“mudança fundamental no poder político ou na organização estrutural de uma sociedade”) ou “Guerra Civil” (“guerra entre grupos organizados dentro do mesmo estado- nação ou república”). Nos 45 dias após o “Dia da Revolta”. e subsequentemente o conflito escalou para uma guerra civil que exigiu intervenção militar da OTAN – e mantendo a segunda página mais ativa em fevereiro e março de 2011 (atrás da revolução no Egito e o terremoto no Japão.059 edições por 1. Em Maio. uma votação aprovou a fixação do artigo sob o título “Primavera Árabe”. O destaque internacional para a Primavera Árabe ocorreu após os eventos no Egito. incluindo “Resposta doméstica à Revolução Egípcia de 2011. Depois de uma primeira tentativa de lançar uma página sobre os eventos na Líbia no final de janeiro para relatar que um “Dia de Revolta” estava sendo planejado para o mês seguinte – tornada um mero redirecionamento para a subseção da Líbia na página da Primavera Árabe que já descrevia esse fato – o artigo “Protestos líbios de 2011” foi criado em 16 de fevereiro. e a separação de tópicos para manter o artigo principal com um tamanho razoável garantiu uma categoria para a revolução com 21 páginas. como o Irã.” artigos sobre os grupos que articularam o Dia da Revolta. e o fato das manifestações se estenderem a locais que apesar de islâmicos não eram árabes. e a subcategoria “Pessoas da Revolução Egípcia de 2011”. e no mês seguinte encabeçava a lista dos mais ativos – incluindo um pico de edições após a renúncia de Mubarak no dia 11 de Fevereiro. respectivamente). um período de liberalização política na Checoslováquia em 1968) que era cada vez mais usado pelos meios de comunicação para descrever todos os eventos no Oriente Médio e norte africano. Já a onda revolucionária era ainda mais problemática de resumir: o nome precisava descrever sem ignorar tecnicalidades como a variação do grau de engajamento e conflito em cada país. 2011) Outro país que atraiu um grande número de editores para redação do artigo sobre sua incursão na onda de manifestações foi a Líbia.

quando as revoltas chegaram à capital Trípoli. Parece que os grandões dos meios de comunicação nem conseguem entender direito. Se não é claro o que acontece (algo bem comum em uma guerra). como os repórteres. A primeira seção sobre os artigos dos protestos em cada país era intitulada “Contexto”. Mantenhamos o que temos certeza. detalhando as condições locais antes do início do conflito e como servia de instigador para as eventuais revoltas populares. 24) sobre como “agentes humanos. conceitos e pessoas envolvidas nos conflitos. Assim. 30) No caso da página da guerra civil na Líbia. Alguns usuários reportavam que isso originava do fato de que os noticiários usados como fonte não ignoravam o histórico negativo do ditador. os rebeldes começavam a tomar o controle de algumas cidades e Gaddafi se pronunciava na televisão enquanto enviava bombardeios e mercenários. muitos usuários surgiram para atualizar os relatos dos protestos e a retaliação policial. é preciso sempre fornecer a ele contextos claros e uma perspectiva histórica do acontecimento. Mesmo que as páginas não tenham a durabilidade limitada das reportagens acabaram seguindo um preceito jornalístico: “É importante partir do princípio que o leitor pode não conhecer. Após o Dia da Revolta. Esse é um problema com os bons e velhos fatos. principalmente. e tentar ficar atualizado com os últimos detalhes vai inevitavelmente introduzir erros. e já começaram a espalhar um monte de propaganda política. as declarações de Gaddafi sobre estar pronto para contra-atacar. tem sua própria tendenciosidade” e sua série de crenças e padrões “nem sempre se adaptam à tarefa que executam e. não devíamos estar reportando ações evento por evento de fontes primárias. A Wikipédia não é um noticiário. A intensificação do conflito se refletiu com o momento de maior atividade: entre 21 e 23 de fevereiro. era necessária uma contextualização e análise para transmitir “um sentimento de organização e coesão dos fatos que ele não tem ao consultar informações em tempo real” (PUBLIFOLHA. e o primeiro ato rebelde: um protesto em Bengasi incitado pela prisão de um ativista. necessariamente. já outro concluiu que o problema era com a própria enciclopédia estar assumindo um caráter jornalístico: Isso não é um problema de neutralidade.” (PUBLIFOLHA. o artigo recebeu 1113 edições e duas páginas extras para listar a reação internacional e os oficiais desertores. 29-30) Mesmo que existissem páginas separadas para os locais.41 no dia seguinte. isso levava a disputas na página de discussão a respeito de uma possível parcialidade do artigo contra Gaddafi. às intenções daqueles que estão . p. Tudo encaixa no que Lage declara (p. p. fatos que precederam que precederam a notícia que se divulga.

consegue-se ver os momentos em que a redação enciclopédica beira o trabalho jornalístico. ouvinte. e cumprindo alguns propósitos – autonomia. The Egyptian Liberal até expressava insatisfação em não estar no Egito e incapaz de retornar durante boa parte da revolta. p.42 representando. p. precisa ser sólido na fundamentação. reativo. (LAGE. . Tal wikipedista demonstrava o engajamento pela causa falando sobre a revolução em si e os rumos a serem tomados pelo artigo. isto é. apuração e análise para que se cumpra a intenção de ser uma representação da realidade – seja uma notícia ou um artigo enciclopédico. Fora ações individuais. é preciso encontrar a melhor forma de associar essas diversas condições. percebendo o meio em que atua e respondendo aos padrões de mudança. 23-27) Este seria o usuário “The Egyptian Liberal” (O Liberal Egípcio). 2011) usando seu conhecimento na condição de nativo do país da revolta para julgar certos dados ou fontes como aceitáveis. Ocorria até um equivalente ao repórter-correspondente. Para se lidar com a alta concentração e seletividade de fatos e ideias em meio à dinâmica veloz dos acontecimentos. criador do artigo e subsequentemente seu editor mais ativo. (PUBLIFOLHA. pois ao sentir o clima dos acontecimentos consegue melhor ordenação das informações e julgamento do que seria relevante. o debate se assemelha à edição de um noticiário impresso. como um usuário iemenita avisando que postava suas fotos dos protestos enquanto perguntava se poderia incluir seus relatos em primeira mão. reclamava de se sentir praticamente escrevendo o artigo sozinho (como um repórter sobrecarregado). Ao ler as páginas de discussão dos artigos ligados à Primavera Árabe. que “está onde o leitor. (PUBLIFOLHA. (FERRON. 35) Na discussão do artigo sobre a Revolução Egípcia. MASSA. 2001. “um processo dinâmico. como que na revisão das notícias a serem incluídas no jornal. ou espectador não pode estar”. p. e a capacidade de tomar a iniciativa para cumprir sua tarefa – é considerado o melhor autor de textos sobre conflitos. subseções intituladas com jargão da imprensa como “Breaking News” (Últimas Notícias) e “News Desk” (Redação) relatavam o que era divulgado nos meios de comunicação sobre a revolta para analisar os dados e incorporar as novidades no artigo. operando sem intervenção direta do contratante. interagindo com outros agentes. 2011. 30) O tratamento dos fatos. os leitores”. por mais limitados que sejam. em vez de utilizá-las umas contra as outras. organizado e coletivo que se enriquece à medida que é discutido e desenvolve na prática os resultados”. e pedia ajuda a outros usuários antes que seu engajamento levasse a edições parciais – novamente vindo ao problema do repórter que deve evitando a militância em prol da objetividade. habilidade social.

YATES. existe uma infocaixa (que até tenta dar uma informação visual. didático e analítico” que ajuda a complementar as informações do texto em um “mundo de especialização e segmentação de interesses”. a pirâmide populacional do Egito – e mapas que. com wikipedistas debatendo os nomes das seções e a hierarquização do artigo. “valorizar a notícia” e “preencher eventuais vazios”. 2004) e traduz bem o que o Manual de Redação da Folha declara (PUBLIFOLHA. Conflitos de importância internacional sempre atraem a atenção do público. . 23) As políticas da Wikipédia endossam essa ideia declarando que os elementos gráficos extras ajudam a melhorar o conteúdo e facilitar a leitura deixando os artigos mais “limpos”. mais a utilização de vários recursos complementares para reforço do conjunto de informações. resultados da ação popular e número de mortes em cada país envolvido. com uma montagem juntando fotos dos protestos em vários países). resultavam em artigos enciclopédicos abrangentes. Textos de apoio são cada vez mais usados no jornalismo pelo seu caráter “explicativo. (PUBLIFOLHA. queda de governo). p. O mais comum desses elementos no site é a “infocaixa”.32) sobre a informação visual ser “uma possibilidade complementar e suplementar à informação textual”. Assim a cobertura da Wikipédia para a Primavera Árabe. e assim merecem uma cobertura contínua dos acontecimentos por mais que existam desafios e problemas inerentes em relatar esse tipo de fato. destacar regiões que estiveram ou estão sob o controle de determinada facção.43 Também se via o equivalente do projeto gráfico dos jornais. no caso dos países que escalaram para a luta armada. um mapa do mundo árabe colorindo os países que embarcaram na onda revolucionária conforme o grau de impacto (protestos. MATTHEWS. atualizados e eficazes que não deixava muito a desejar às grandes reportagens que os meios de comunicação escreveram sobre os protestos e confrontos na África e Ásia. ajudavam a dar ideia das dimensões do conflito – ressaltar locais de batalhas. Nas páginas de cada revolta podem se achar gráficos ressaltando fatores causadores de conflito – a composição étnica da Síria. e os adendos textuais (tabelas) e visuais (mapas) que no jornalismo são referidos como “textos de apoio”. e uma tabela que expandia as informações listadas no mapa ao detalhar datas de começo e fim dos protestos. p. que tem mais funções que “arejar a página”. com um julgamento extra para determinar a validade dos dados e a colaboração de pessoas diretamente envolvidas nas manifestações. uma tabela de formato fixo colocada no canto superior direito do artigo que visa apresentar um resumo com aspectos relevantes e facilitar a consulta de outros artigos relacionados. divulgando eventos pouco após ocorrerem. (AYERS. Apenas no artigo da Primavera Árabe. .

http://en. Um exemplo disso envolve a morte de pessoas conhecidas. A reação à morte da princesa Diana em 1997 é considerada um ponto determinante desse tipo de comoção popular. Mas em tempos mais recentes o interesse dos meios de comunicação em fazer uma cobertura contínua dos eventos ligados a uma morte. embora tenha acontecido com outras pessoas. e em um tom neutro e enciclopédico. alerta-se para evitar material controverso ou questionável que pode ter implicações negativas para família e amigos.O termo em inglês também faz um trocadilho com “morning sickness”. As adições tem encaixar nas políticas oficiais para guiar a redação de artigos biográficos – essencial no site pelo fato da maior categoria da Wikipédia é “Pessoas vivas” – que demonstra o tom a ser seguido como uma frase do próprio Jimmy Wales: 15 “Estão envolvidas pessoas reais. Não somos jornalismo de tabloide. conservadora. p. A imprensa também aumentou o espaço dado a falecimentos de destaque. enjoo matinal. de união no sentimento de dor e perda. as políticas acabam ditando por textos que não difamem ou exaltem demais a pessoa sendo discutida. levando a mídia britânica a cunhar os termos “mourning sickness” (“doença do luto”14) e “grief porn” (“pornografia da tristeza”) para descrever esses comportamentos. e que não façam alegações que não possam ser comprovadas: “As biografias de pessoas vivas deviam ser escritas de forma responsável. relatando de forma quase voyeurística.org/wiki/WP:BDP 15 . A simpatia humana por pessoas que sofrem uma perda sempre existiu. somos uma enciclopédia. O impacto das mortes pode ser visto na Wikipédia quando se tem de atualizar a página de um recém-falecido. que a internet ajudou a espalhar ao abrir espaço para pessoas comuns expressarem luto por falecidos que nunca conheceram.wikipedia. estendendo a cobertura artificialmente e manipulando as emoções do público em prol de mais audiência. bem como a da população em lamentar um falecimento.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:Biografias_de_pessoas_vivas 16 . 16 Já usando o exemplo das publicações sensacionalistas como um modelo a ser evitado. (PUBLIFOLHA.wikipedia. Embora uma estratégia de 14 .4. e especialistas já analisaram o fato disso permitir uma experiência coletiva.44 4. 22) O problema é quando a abordagem do óbito entra em um viés sensacionalista e exploratório. que podem ser ofendidas por vossas palavras. -http://pt.” Mesmo com recém-falecidos. Mortes: alterando um artigo já existente Eventos que geram grande comoção pública tem valor de notícia à medida que os leitores passam a compartilhar de uma situação que lhes seria possível viver de alguma fora. chegou a níveis que beiravam o exagero.

mas já vinte minutos depois rumores se espalhavam no Twitter sobre o falecimento. ás 16:39. restringindo a edição para 17 -http://en. para ser revertido dois minutos depois com a acusação de falta de fontes (inclusive o responsável pela exclusão acrescentou um pedido escondido de não acrescentar nada sobre o falecimento a menos que uma fonte fiável tivesse relatado o caso). com a morte já noticiada nos jornais ingleses e alguns IPs aproveitando a ocasião para relatar o ocorrido vandalizando a página. ocorrida no dia 23 de julho. em vez disso. Biografias de pessoas vivas não devem conter secções de curiosidades. O estilo de escrita deve ser neutro e factual. evitando tanto a deficiência quanto o exagero. A BBC publicou uma notícia sobre o fato depois de 40 minutos. O artigo de Winehouse viu a primeira citação de sua morte ocorrer às 16:20.org/wiki/Wikipedia:Wikipedia_Signpost/2013-02-04/Special_report . sem tomar partido. a cantora inglesa Amy Winehouse (1983-2011) e o empresário americano Steve Jobs (1955-2011). Menos de vinte minutos depois. a população continuará sendo informada das circunstâncias do falecimento e dados sobre a vida e legado da pessoa por meio da cobertura jornalística. relatam que os paramédicos entraram no apartamento da cantora em Londres para descobrir seu corpo inconsciente ás 15:54. O artigo deve documentar.45 eventualismo possa ser aplicada noutras áreas.wikipedia. As notícias sobre a morte de Winehouse. e no caso da Wikipédia. o que fontes fiáveis independentes publicaram sobre o assunto e. afirmações com fontes. o que o próprio sujeito possa ter publicado sobre si. um administrador deixava a página como “semi-protegida”. as edições no artigo de Houston não tiveram o imediatismo característico de uma cobertura jornalística (a primeira alteração para acrescentar a informação da morte foi postada mais de uma hora depois do primeiro tweet de uma agência de notícias) e assim não serão analisados a seguir. as biografias de pessoas vivas mal-escritas deviam ser reduzidas a esboços ou simplesmente eliminadas. Uma suposta morte de uma figura proeminente logo será discutida nas redes sociais antes de uma notícia confirmar o fato – e após ser oficial. influencia fluxos de edições para atualizar o artigo sobre o morto. Tal atividade repentina é um fato tão proeminente que os maiores picos de visitas em artigos da Wikipédia são de celebridades recém-falecidas. e os tópicos mais buscados no Google eram relacionados à suposta morte da cantora. O interesse popular mantém o falecido como tópico de discussão. 17 Apesar de liderar em popularidade.” Porém a utilização apenas de fatos atribuídos nem sempre consegue ser implementado quando a “era da informação” facilita as pessoas a descobrirem e divulgarem dados. mas. com mais de 1 milhão de visitas em apenas uma hora: a cantora americana Whitney Houston (1963-2012). muitas vezes antes dos meios de comunicação fazerem o mesmo. em algumas circunstâncias.

Outra disputa por falta de confirmação envolveu o local de falecimento do inventor – notícias relataram Jobs “cercado por sua família”. a Apple. com as 851 ao longo de julho (apenas sete realizadas antes do óbito) suficientes para figurar o artigo entre os dez mais alterados do mês e o terceiro em número de editores envolvidos (atrás de um atentado na Noruega no dia anterior e seu responsável). Mesmo que a luta de Jobs com um câncer de pâncreas tivesse sido bem documentada na mídia. A inclusão rápida do acontecimento de óbito também ocorreu no artigo sobre Jobs. o artigo teve 919 edições. que ainda assim faziam pedidos para inclusão de material na página de discussões. p. . 2011. a falta de confirmação da conexão direta do tumor com a morte levava a reversões – editores removiam frases atribuindo o falecimento à doença e inclusões do artigo na categoria de “Mortes por câncer pancreático”. mas alguns wikipedistas consideravam vago demais para concluir que faleceu em casa – enquanto não houvesse uma declaração definitiva em uma fonte fiável (eventualmente o local e a causa mortis se resolveram com o boletim de óbito no dia 10). que substituiu sua página principal por uma homenagem a seu fundador). Essa restrição a apenas usuários cadastrados não impediu a página de ser a que atraiu mais editores ao longo de outubro. Como nesse espaço de tempo obituários surgirem em variadas publicações. visto seu histórico de consumo excessivo de drogas. apenas um minuto depois de um tweet da Associated Press sobre o falecimento e três de um release da Business Wire (ambos seguindo um comunicado da empresa de Jobs. com 454 realizando 1431 revisões – nenhuma precedendo o óbito. mas esta “só deve ser publicada se o jornal estiver seguro a seu respeito”. Embora a maior parte das notícias especulasse que Winehouse tivesse morrido de overdose. ambos os artigos não quiseram cair em conclusões apressadas mesmo com indícios de que hábitos e doenças precedentes tiveram parte no óbito dos retratados. nenhuma edição foi registrada por IPs. Como o artigo de Jobs já era protegido desde setembro de 2010 por constante vandalismo.46 usuários registrados. com o acréscimo da morte ás 23:37 do dia 5 de outubro. se contabilizavam 1505 edições em 30 dias.86-7). (PUBLIFOLHA. as próximas inclusões da informação de morte foram aceitas mesmo que uma citação só surgisse após cinco minutos (justamente o release da BW que acabou sendo o primeiro relatório). No dia 5 de novembro. os wikipedistas envolvidos na página removiam inclusões desse boato por não considerarem relatos definitivos. as edições eram revertidas sob a acusação de que faltavam fontes. Espelhando como no jornalismo a publicação de notícia sobre falecimento de personagem não deve omitir a causa da morte. Três minutos depois. Nos 30 dias após a morte da cantora.

47 Tão logo uma celebridade morre. Porém a mesma página inspirou uma discussão sobre se a reverência estava presente em excesso. que foi eventualmente deletada visto que a comunidade considerava não ser uma imagem “historicamente relevante”. (SCHWARTZMAN. e significante e diretamente relacionado ao tópico do artigo”. que escreveu em seu blog sobre a influência negativa de Jobs ao exercer pesado controle corporativo sobre o software e hardware do consumidor. Outra disputa envolveu a inclusão de uma imagem com o obituário de Jobs publicado no site da Apple. Um editor acusou a subseção de condolências de parecer "O Programa do Culto a Steve Jobs". amigos expressam suas condolências à imprensa. A contínua remoção da “seção de luto” na página de Winehouse chegou a beirar a quebra da “regra das três reversões”.C.https://en. Um editor trocou uma foto de Jobs em 2010 por outra dele em 2007. Eventualmente o artigo incorporou visões contrastantes aos obituários positivos. com críticas ao fato do artigo pular os aspectos mais controversos de Jobs . para em seguida eliminar todas as declarações considerando-as desnecessárias. eventualmente causando desconforto na comunidade por dar tanto espaço a esse sentimentalismo que só estava no artigo por causa do recentismo.18 A sociedade geralmente trata os mortos com reverência. que prevê punições a editores que executem mais do que três reversões em uma única página dentro de um período de 24 horas. não se encaixando na política de conteúdo visual “relevante para o artigo em que aparece. 2001) O artigo da Wikipédia sobre Steve Jobs viu um exemplo disso em uma desavença a respeito da imagem que encabeçava a página. Winehouse e Jobs valeram muitas mensagens de luto na mídia.wikipedia. com 18 .a começar pela remoção de uma citação ao programador e ativista do software livre Richard Stallman. e os meios de comunicação também abrem espaço para declarações de outras figuras de destaque que tiveram influência do falecido ou simplesmente se comoveram com os acontecimentos. que data desde o século 6 A. Assim geralmente nos meios de comunicação os obituários e notícias sobre mortes são elogiosos e costumam ignorar os aspectos mais controversos da vida do falecido. e em meio ao desejo de expandir a cobertura da morte e eventos subsequentes tais declarações eram incluídas nos artigos da Wikipédia. declarando que considerava a alternativa “mais respeitosa” com a imagem do inventor. e revisões cortaram inicialmente as frases ditas por pessoas sem relação direta com Jobs.).org/wiki/Wikipedia:IMAGE_RELEVANCE . por ilustrar um Jobs menos desgastado pela doença que eventualmente o matou. expressado pelo ditado que “Não se deve falar mal dos mortos” (derivado de um aforismo em latim.

idade em que vários outros músicos conhecidos também faleceram. e os editores não a considerarem uma artista com impacto comparável aos membros mais célebres (Brian Jones. como um tabloide publicando que Winehouse era “abertamente bissexual”. e uma incursão ao sentimentalismo logo foi removida por irrelevância. Jim Morrison e Kurt Cobain). Além desse dinamismo.48 Stallman e um artigo do Los Angeles Times descrevendo como Jobs e a Apple eram hostis contra jornalistas. e exigindo que a lista só incluísse casos que foram listados em fontes notáveis como sendo parte do “fenômeno”. O que mais gerou discussão foi um dado bastante discutido pelos noticiários: Winehouse morreu aos 27 anos. com os debates sobre mérito dos artistas sendo rebatidos com o fato que o Clube não era um “hall da fama”. mas uma mera associação feita pela cultura popular diante de um número de coincidências. A página descrevia o conceito como “um grupo de artistas de rock influentes que morreram na idade de 27”. mas os wikipedistas provaram que às vezes a cobertura de uma perda não precisa ser muito alongada para demonstrar o que ocorreu e fatos subsequentes de um modo bastante informativo. Eventualmente o debate levou a uma reescrita completa do artigo. removendo a divisão que punha os cinco casos mais infames em destaque. O jornalismo pode ocasionalmente explorar uma morte de maneira excessiva e perturbadora. Já os editores do artigo de Winehouse tiveram de remover fatos de veracidade ou relevância dúbia que emergiram na cobertura da morte da cantora. O próprio caráter simbólico da lista era levantado. Conclusões apressadas sobre a causa mortis foram evitadas. levantando vários pontos de contenção. bem como um link para o artigo do “Clube dos 27”. descrevendo como alguém que só estava em evidência pela morte recente. Os editores da Wikipédia fizeram a atualização dos artigos de Jobs e Winehouse para relatar os falecimentos praticamente ao mesmo tempo em que os meios de comunicação descobriam e relatavam os óbitos. o maior impacto foi na página do Clube dos 27. Jimi Hendrix. dando origem a uma lenda urbana. que chegou a ser protegida em meio a reversões e extensas discussões sobre se Winehouse merecia inclusão no artigo. Esse factoide era incluído na seção sobre a morte de Winehouse. Janis Joplin. em especial Winehouse não ser do gênero musical listado. Embora essas menções tenham sido eliminadas por considerar um dado insignificante. a redação colaborativa também decidiu empregar um alto grau de julgamento e apuração para garantir que apenas os fatos essenciais e confirmáveis ligados às mortes fossem incluídos nos artigos. .

49 Capítulo 5 . mantendo o fluxo contínuo de novos dados. análises e relatos dos cidadãos comuns. Daí não haver muito problema em reconhecer a missão jornalística nas ações de um grupo redigindo artigos enciclopédicos. e os possíveis conflitos de interesse gerados pela heterogeneidade do grupo conseguem ser superados. Alguns sites com conteúdo gerado pelo usuário ainda se destacam nesse âmbito ao estimular a criação coletiva. como escrever o texto de forma totalmente neutra. todos podem ser especialistas em cinco minutos. e apresentação para o público na escolha de título. páginas sobre eventos recentes atraem grande volume de contribuintes. todos eram famosos por 15 minutos. deixando a tarefa coletiva ser a prioridade mesmo quando os interesses individuais eram muito diferentes para cada participante. Apesar da missão da Wikipédia envolver um trabalho informativo mais abrangente que o realizado nos meios de comunicação. imagens e materiais de apoio. Diante de um acontecimento que à medida que se prolonga.” Stephen Colbert Qualquer pessoa com acesso à internet pode exercer a função jornalística na Web 2. Durante a construção de um artigo da Wikipédia ocorrem as mesmas dúvidas e problemas que surgem no trabalho jornalístico: confiabilidade das fontes informativas.0. Nas páginas de .Conclusão “Na era da mídia. os usuários da Wikipédia tentam aproveitar as vantagens do formato aberto para atualizar os artigos ligados do evento com as últimas informações disponíveis. mas mantinham a lógica colaborativa em pleno funcionamento. Uma comunidade produtiva só tem eficácia garantida quando todos estão engajados em suas missões. que providencia várias plataformas para divulgar os relatos informativos gerados a partir das descobertas. os detalhes que merecem inclusão. com as colaborações de várias pessoas se complementando para resultar em páginas de grande precisão e abrangência que não deixam muito a desejar aos noticiários tradicionais. já que editores revisam a notícia e uma equipe de apoio colabora na construção e divulgação. O jornalismo muitas vezes é uma tarefa coletiva mesmo quando emerge do trabalho de um único repórter. Na era da Wikipédia. Na internet isso já resultou em vários softwares e sites criados por usuários que às vezes nunca se viram. E como a presença do assunto no noticiário mantém o interesse do público. se desdobra em novas consequências. quando os artigos da enciclopédia digital adentram os mesmos assuntos que estão sendo relatados no noticiário percebe-se como a metodologia de redação segue os mesmos caminhos.

Mesmo assim. e a atualização das páginas de Amy Winehouse e Steve Jobs para falar das mortes de ambos antecipando a divulgação na mídia.50 discussão dos artigos. Ao mesmo tempo debater o material disputado garante que os participantes resolvam seus conflitos ideológicos em torno dos rumos do artigo antes que os confrontos atrapalhem a produtividade – afinal. como as dos países atingidos pelos sismos e os líderes derrubados pelas revoluções. os wikipedistas fazem suas “reuniões de pauta” levantando os serviços a realizar no artigo e divulgar as últimas notícias sobre o tópico. Conteúdos como as cronologias que surgiam ao tentar manter a atualização diária dos acontecimentos contínuos ligados aos terremotos e revoltas eram migradas para um artigo próprio enquanto um resumo mais conciso permanecia no artigo principal sobre o acontecimento. No caso da Primavera Árabe até haviam “correspondentes” na forma de editores locais que carregavam suas fotos dos protestos e conflitos e incluíam dados divulgados na imprensa local. . a enciclopédia só funciona a partir da soma das realizações de todos. e ao mesmo tempo a “edição final” debatendo a inclusão ou remoção de conteúdo. também realiza a separação de determinados tópicos em páginas próprias apesar do site não ter as restrições de espaço e tempo da imprensa tradicional. além de já ser um projeto nessa linha. Um artigo da Wikipédia tem a mesma missão do relato jornalístico. sintetizar dados em uma nova narrativa mais condensada. mas também induzindo à exigência de escrever e publicar relatos sobre acontecimentos tão logo eles ocorressem para se adequar ao ritmo frenético da Internet. A grande diferença reside nas políticas do site advogarem contra a pesquisa inédita. Uma notícia pronta virava uma sucessão de notas que se complementavam para dar uma ideia geral – e a Wikipédia. sofriam alterações para expressar como os acontecimentos recentes já tinham mudado a história dos envolvidos. com as edições do artigo equivalendo à publicação de “esboços sucessivos” que vão se complementando. com a migração para o meio digital abrindo espaço para a inclusão de recursos multimídia. não importa qual atividade determinado usuário priorize (geração de conteúdo. O exercício do jornalismo sempre teve de se adaptar às novas tecnologias de comunicação. exercer as funções de controle e administração da comunidade). criando o artigo sobre o terremoto no Japão antes do primeiro relato no New York Times. ao invés dos relatos inéditos dos furos jornalísticos. significando que todo o texto depende de material já publicado em outras fontes. já que ao contrário dos noticiários tradicionais a redação da Wikipédia é um processo de publicação instantânea. Mesmo páginas já existentes. revisão ortográfica. é possível ver como a agilidade dos wikipedistas consegue superar os profissionais de comunicação.

Este último se deve ao fato de que a exploração de um evento pelo jornalismo pode ter abordagens dissonantes com a missão enciclopédica da Wikipédia. além de consumir conteúdo. a utilização de imagens e títulos que preenchessem as políticas do site e ainda respeitassem determinadas tecnicalidades ligadas aos eventos. A enciclopédia digital até adentra o campo jornalístico pelo fato dos eventos da atualidade também ganharem espaço no site. mesmo com a maior parte dos envolvidos com a redação dos artigos sendo amadores. a dedicação destes. A devoção da comunidade em desenvolver páginas informativas sobre praticamente todo assunto logo credenciaram o site como uma fonte de conhecimento. resulta em relatos históricos sobre acontecimentos repentinos e inacabados unindo o “primeiro impacto” do noticiário e a densidade informativa da enciclopédia. . a abordagem de determinados tópicos.51 Diversos conflitos emergiram durante a elaboração dos artigos analisados nesse trabalho. mensagens de luto por uma celebridade falecida logo se tornam um detalhe desnecessário em um relato histórico. e se determinados conteúdos eram inclusões válidas. aliada às políticas em prol da qualidade dos artigos. e assim envolvendo um grupo bastante variado. como era de se esperar em uma criação coletiva sem restrições para contribuir. também o gera. forçando a exclusão das condolências menos relevantes. Todos os artigos acabaram esbarrando no problema da reação e comoção de figuras notáveis aos acontecimentos receber muito espaço nos meios de comunicação – e enquanto a resposta internacional a uma tragédia ou conflito até acaba por merecer separação em um artigo próprio. Debates até chegar a um consenso foram necessários para alvos de discussão como o tom do texto. Embora os usuários não possam relatar descobertas como um repórter. A Wikipédia é considerada um destaque na “nova Internet” que o internauta comum.

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