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REsPOSTAS ÀS

PERGUNTAS

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QUE os CATÓLICOS

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4ª Impressão

·Traduzido

por

Degmar Ribas

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Rio de Janeiro

2013

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Todos os direitos reservados. Copyright © 2007 para a língua portuguesa da Casa Publicadora das Assembléias de Deus. Aprovado pelo Conselho de Doutrina.

Título do original em inglês: Answers to Questions Catholics Are Asking Harvest House Publishers, Eugene, oregon, EUA Primeira edição em inglês: 2006 Tradução: Degmar Ribas

Preparação dos originais: César Moisés Revisão: Daniele Pereira Capa e projeto gráfico: Josias Finamore Editoração: Natan Tomé

CDD: 230 - Cristianismo

As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, edição de 1995, da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário.

Para maiores informações sobre livros, revistas, periódicos e os últimos lançamentos da CPAD, visite nosso site: http:// www.cpad.com.br.

SAC- Serviço de Atendimento ao Cliente: 0800-21-7373

Casa Publicadora das Assembléias de Deus Caixa Postal 33 I 20001-970, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

4" Impressão Fevereiro 2013

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Tiragem:I.OOO

Para Leslie

A SANTIDADE MARCA A SUA VIDA.

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SuMÁRIO

Uma VIagem a partir de Roma

Falando a Vtirdade em Amor

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I. A Igreja Católica Hoje

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2. A Formação da Bíblia

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3. A Palavra Viva

4I

4. Sobre esta Pedra

6 I

5. A Única Igreja Verdadeira

87

6. Unidade: Para que todos Sejam Um

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7. A Reconciliação com Deus

I I 7

8. O Sacrifício da Missa

I 3 I

9. As Almas no Purgatório

I 53

I O. O Sacerdócio Real

 

I 65

I I.

Confesse os seus

Pecados

I 7 5

I2. Maria, a Mãe de Jesus

I87

I3. Aparições, Sinais e Prodígios

205

I

4. A Confecção de Imagens Sagradas

2 I 5

I5. O que Deus Diz sobre o Divórcio

227

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6. Pensando que Jesus Estava com Eles

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Notas

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UMA VIAGEM A PARTIR DE RoMA

É surpreendente como um acontecimento pode alterar para sempre o curso da vida. Aquilo que começou, para mim, como mais um dia co- mum, acabou sendo o dia mais extraordinário de minha vida. Um anún- cio da polícia, pelo rádio, depois das notícias da manhã e da hora do almoço, pedia que duas jovens mulheres que dirigiam um carro de matrí- cula estrangeira entrassem em contato com a polícia imediatamente, para receber uma mensagem urgente. O carro foi localizado pela primeira vez no oeste da Irlanda, e a mensagem foi dada. O pai de uma das jovens tinha falecido subitamente nos Estados Unidos. Uma das jovens partiu do Ae- roporto Shannon, enquanto a outra se dirigiu a Dublin, onde foi parada por dois homens que também tinham ouvido o boletim policial pelo rá- dio. E foi assim que conheci Leslie, que me conduziu ao Senhor, e mais tarde tornou-se minha esposa. Minha criação na Irlanda ocorreu durante um período em que a Igre- ja Católica Romana exercia poder em todas as áreas da vida de uma pes- soa: família, sociedade, educação e política. O poder da igreja nunca foi questionado, e todos se submetiam à sua autoridade. Durante esse perí- odo, a igreja teve um crescimento sem precedentes - os seminários e conventos estavam lotados, e as missões estrangeiras se destacavam. A igreja aproveitou isso, colocando uma grande ênfase na sua obra

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

missionária, em particular na África. Olhando para o passado, me as- sombro com a ingenuidade da igreja. Ela organizou a situação para que cada escola na Irlanda estivesse envolvida em missões: toda semana, cada criança trazia "um centavo para os bebês negros". Cada aluno tinha um cartão em que estava impresso uma dezena do rosário, e cada vez que dávamos um centavo, fazíamos uma marca no cartão. Quando comple- tássemos o cartão, escrevíamos o nosso nome e ele era enviado à missão no exterior. Como resultado, segundo nos era dito, as crianças africanas estavam sendo batizadas com nossos nomes. Isso podia não ser politica- mente correto na cultura de hoje, mas naquele tempo ninguém se ofen- dia, e esse sistema era um método engenhoso, tanto de arrecadar dinhei- ro quanto de tornar todas as crianças cristãs conscientes da obra missionária da igreja. Hoje, há muitos africanos que vivem em Dublin, e quando sou convidado para dar uma palestra em suas igrejas, conto-lhes sobre o "centavo para os bebês negros". Pelo que sei, um deles bem po- deria ter o meu nome!

Ao crescer, nunca questionei o poder exercido pela Igreja Católica Romana

e me contentava em obedecer às regras e aos regulamentos que me eram impos-

tos. A igreja era importante para mim, e eu praticava meus deveres religiosos fiehnente. Durante um bom tempo, atuei como coroinha, e aos o=e anos de idade fui para um internato, onde rui instruído pelos sacerdotes dominicanos durante cinco anos. A missa, as devoções da noite e o rosário faziam parte da vida diária. Durante esses anos de formação, foi-me introduzida a idéia de que

a Igreja Católica Romana tinha as chaves do Reino do céu e a custódia dos sacramentos que eram essenciais para a minha salvação. Eu me considerava um felizardo por ter nascido um católico romano.

O que, então, fez com que deixasse a Igreja Católica Romana, e abraçasse uma

fé baseada exclusivamente no ensino da Bíblia? Entre as razões, houve mudanças

importantes originadas no Concílio Vaticano II (que se reuniu entre I 962- I 965)

e a influência do papa João XXIII. Algumas das crenças e dos procedimentos que me tinham sido ensinados estavam mudando. Por exemplo, comer carne às sex- tas-feiras já não era mais considerado um pecado, e alguns "santos", aos quais tinha dirigido minhas orações, foram removidos da lista da igreja, por provavel- mente nunca terem existido. De modo que, quando fui apresentado à Bíblia como a única autoridade para a vida de uma pessoa, fiquei muito impressionado com a idéia de depositar a minha confiança em algo que é imutável.

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Uma Viagem a partir de Roma

Comecei a freqüentar um curso de estudo bíblico, e me senti atraído pelo que a Bíblia dizia. Embora estivesse ocorrendo um despertar espiritu- al, não me sentia completamente à vontade. Havia a falta dos "sinos e incensos", as estátuas e a pompa da Igreja Católica Romana. Como amai- oria dos católicos romanos, tinha um vocabulário religioso, mas a realida- de dos conceitos que as palavras expressavam nunca ficou registrada em mim. Minha fé era principahnente na igreja, e não em um Deus pessoal. Eu pensava que estava bem com Deus, porque acreditava estar na "igreja correta". A lealdade à igreja era equivalente a ser leal a Deus. E eu certa- mente não estava sozinho nessa linha de pensamento. Nunca houve uma época em minha vida em que não cresse em Deus, ou que Jesus morreu e ressuscitou. Mas eu ainda sentia que estava faltando alguma coisa. Possuía informação religiosa, mas isso não se traduzi~ em nada pessoal para mim. Então "a luz prosseguiu". A partir da Bíblia, comecei a ver que Deus de fato me amava, e que Jesus morreu especialmente por mim, assegurando o perdão completo de todos os meus pecados. Em vez de simplesmente conside- rar a Sexta-feira Santa um mero fato histórico, agora começava a ver que aquilo que tirLha acontecido no Calvário me envolvia diretamente. Jesus tinha morrido por mim. Aquilo em que eu sempre tinha crido agora começava a se tornar real. Enquanto me alegrava com o meu progresso espiritual, também estava ciente de que a decisão inevitável com que me deparava seria arrasadora para a minha família. E assim foi. Durante aproximadamente dois meses antes de entregar a minha vida ao Senhor, soube o que precisava saber. Eu adiei, porque estava avaliando o custo de seguir a Jesus. Não haveria retorno. Tinha que entregar a minha vida a Jesus, independentemente do custo. Até hoje, não tenho certeza se alguém me disse isso, ou se foi o Senhor que colocou este pensamento em meu coração, mas veio à minha mente a idéia de que se eu seguisse a Jesus, nunca estaria errado. Nunca estaria perdido, se colocasse toda a minha confi- ança nEle. Assim, em junho de 1967 entreguei a minha vida ao Senhor Jesus Cristo, e fui batizado, crendo e confiando que o Cordeiro de Deus iria tirar o

meu pecado ao 1.29).

Pouco tempo depois da minha conversão, senti que Deus me chamava para iniciar o ministério integral. Isso era algo em que eu tinha pensado seriamente enquanto era católico romano. Comecei a freqüentar a escola bíblica e logo descobri que era biblicamente analfabeto. Não se aprendia a Bíblia em um internato católico. Os poucos anos seguintes de estudo me

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levaram a um novo território, que era ao mesmo tempo esclarecedor e desa- fiador, e comecei a encontrar respostas às minhas perguntas. Uma passagem em particular me abriu uma visão panorâmica da vontade de Deus: "E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos" (At 4.12). Nessas palavras, vique Jesus é a resposta a todas as minhas indagações. Ele, e somente Ele, é aquEle a quem sempre devo seguir. Não há outro. O meu caminhar com o Senhor não tem sido isento de problemas; um relacionamento com Deus não nos imuniza contra as dificuldades que a vida às vezes nos traz. Mas nunca, nem uma vez sequer, duvidei da fidelidade de Deus ou da garantia abençoada de sua obra redentora em minha vida. Nunca hesitei em minha fé no Senhor Jesus Cristo. Vi Deus vindo em meu socorro muitas vezes, sustentando-me e fortalecendo-me pela sua graça. Mesmo em meio aos tempos difíceis, Deus sempre esteve ao meu lado. Na verdade, foi durante os momentos de dificuldade que me senti mais próximo dEle. As provações têm uma maneira maravilhosa de refmar o nosso caráter e nos tornar mais depen- dentes do Senhor. Recordo a minha vida sem arrependimentos pela decisão que tomei, apesar dos problemas pessoais que vieram ao meu encontro. Since- ramente, não há um dia em que não ame o trabalho que Deus me chamou a realizar. Estou. constantemente cheio de gratidão por aquilo que o Senhor fez, por mim e por meu intermédio. E mais, continuo a me maravilhar com a verdade do evangelho: Jesus morreu para pagar a pena pelo meu pecado, e Ele fez isso pcrque me ama com um amor incondicional. A leitura diária da Pala- vra de Deus está entrelaçada em minha vida, e nu~came canso de ouvir o que Deus tem a dizer. Sua palavra é inspirada pelo Espírito S~to,e por seu inter- médio a sua voz é ouvida (2 Tm 3.16,17; Hb 4.12). As promessas do Senhor, sua fidelidade, seu amor infalível e sua santa soberania continuam influencian- do minha vida. Quanto mais ando com o Senhor, mais amo aquEle que foi tremendamente gracioso comigo, um pecador. O que de bom há em minha vida veio integralmente de Deus, que, por meio do Espírito Santo, trabalha para transformar-me cada vez mais à semelhança de Jesus. E quando o desa- ponto - e eu o faço - Ele sempre é gracioso comigo. Sempre indico às pessoas o que tocou meu coração há anos: "Creia em Jesus Cristo, confie nEle e siga-o; e assim você nunca estará perdido". Nunca tive nenhuma razão para duvidar da veracidade dessa declaração, e investi a minha vida nela.

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FALANDO A VERDADE EM AMOR·

Eu me afastei da discussão, percebendo que tinha recebido meu primeiro "ataque bíblico". Jovem e inexperiente, não era páreo para alguém que era muito versado nas Escrituras e acostumado a uma atitude pouco amistosa. Meus esforços para defender minha crença se depararam com uma torrente de passagens das Escrituras que não pude explicar adequadamente. Eu era o oponente, e não recebi misericórdia. Nenhuma mão de ajuda foi estendida para ajudar a esclarecer minha crença, e nenhuma consideração foi dada ao fato de que eu era uma pessoa sincera, tentando agradar a Deus. Nenhum esforço foi feito para se colocar ao meu lado e tratar-me com gentileza. Uma convicção assimétrica de que ele estava certo e eu errado impedia que ele demonstrasse o amor de Deus. Nem por um momento me senti amado ou apreciado. Lembro-me desse evento como se fosse ontem, embora tenha ocorrido há mais de trinta anos. Durante os três dias seguintes eu ainda estava abalado e angustiado. Relato esse incidente para que o leitor saiba que sei o que é receber tratamento inarnistoso e desrespeitoso. Por isso, vou comentar as principais diferenças que existem entre a Igreja Católica Ro- mana e a Bíblia, de uma maneira que não humilha, degrada nem ofende

desnecessariamente a nenhum católico romano. Nunca entendi por que uma pessoa pensaria que, ao defender a verda- de (ou a sua versão da verdade), seria de alguma maneira justificada por

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ser indelicada com aqueles que discordassem. De onde vem esse pensa- mento terrível? O fato de que a verdade deva ser defendida não está em discussão, e sim uma má atitude que em hipótese alguma é aceitável. Na verdade, a Bíblia diz claramente que devemos falar a verdade com espírito de amor (Ef 4.15, NTLH). O único que ensinou teologia perfeita foi Jesus, o Filho do Deus vivo. Não há um texto das Escrituras que Ele não compreendesse perfeitamen- te. Não há um assunto, um julgamento moral ou um ponto da doutrina para o qual Jesus não tenha a resposta correta. Ele é preciso em tudo. Mas, apesar disso, veja como tratava o povo - Ele era sempre gentil, amoroso, respeitoso e paciente; nunca erguia a voz, nem era rude ou indelicado. Ele sempre era gentil. Trabalhava para levar as pessoas das descrenças à fé de maneira muito misericordiosa, mas nunca comprometendo a verdade. Je- sus não atenuou sua declaração de que sem Ele ninguém irá ao céu, ou que sem sua morte expiatória todos morreríamos em nossos pecados e iría- mos para o inferno, ou de que Ele era Deus em carne humana. Alguns nunca creram em suas declarações, mas ainda assim Ele os tratava com gentileza. As únicas pessoas às quais Jesus reservava fortes críticas eram aquelas que Ele sabia que eram hipócritas. Por outro lado, a Tomé, um cético honesto, Ele fez uma aparição especial, depois da sua ressurreição, para dar-lhe a oportunidade de substituir a dúvida pela fé. Existe um ditado de que a verdade é como a luz para os olhos sensíveis -e penso que essa é uma boa maneira de explicar o assunto. Todos nós sabemos o quanto é desagradável que alguém acenda a luz quando estamos dormindo. Muitos vivem em um descanso espiritual (que é, na verdade, uma negligência), alguns sem nunca ter tido um pensamento espiritual sequer durante anos. Para essas pessoas, a luz do evangelho glorioso deve ser revelada lentamente, permitindo que despertem e se ajustem à mudan- ça de luz que penetrou em suas trevas. Este livro foi escrito tendo em mente um público católico romano; por isso, tenho consciência de como seria fácil ofender a alguém desnecessari- amente. Quando era católico romano, minhas crenças eram mantidas ho- nestas e sinceramente, e suponho que a mesma coisa aconteça com todos aqueles que lerem este livro. Procurei colocar-me no lugar do leitor e perguntar: "De que este livro precisa, para que continue a lê-lo?" Não foi difícil encontrar a resposta correta. Para prender minha atenção, um livro

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Falando a Verdade em Amor

precisa est-ar fundamentado nas Escrituras, e não em opiniões. E o autor precisa demonstrar um espírito gentil e respeitoso ao lidar com doutrinas nas quais muitos crêem sinceramente, enquanto, ao mesmo tempo, não deve deixar de dizer o que precisa ser dito. Eu desejaria que o autor mos- trasse uma lealdade ao Senhor Jesus Cristo e um zelo santo na defesa da vontade de Deus. Finalmente, desejaria me sentir levado mais próximo a Deus por aquilo que estou lendo. Concentrei meus esforços para cumprir

todos esses requisitos ao escrever este livro. Entendo que nem todos os que lerem esta obra acharão que fui fiel a essas intenções. Alguns poderão sentir-se ofendidos pelo que digo. Ou- tros lerão o trabalho tendo suas opiniões já formadas, de modo que nada que diga poderá modificá-los. Mas haverá outros, cujas vidas serão aben- çoadas. Seus olhos se abrirão às maravilhosas verdades das Escrituras e descobrirão que tudo o que necessitam pode ser encontrado em Jesus Cristo, e somente nEle. Isso me gratifica muito. E outros, ainda, verão este livro como desconectado do espírito ecumênico da época, uma relí-

quia do passado distante. Quando se trata de um livro como este, há questões importantes que devem ser confrontadas. É a Bíblia a nossa única autoridade, para tudo aquilo em que cremos e tudo o que praticamos? É o evangelho o único caminho para a salvação? Com a inevitabilidade da morte à frente de cada um de nós, existem perguntas para as quais precisamos de respostas -

urgentemente. Sempre houve uma necessidade de defender a verdade. Jesus a defendia repetidas vezes contra o erro que existia em seu tempo. Os olhos vigilan- tes dos apóstolos impediam que erros fatais ganhassem terreno na igreja. Quando o evangelho estava sendo minado pelos ensinamentos legalistas, o apóstolo Paulo (que escreveu tão eloqüentemente que o amor é pacien- te, é benigno, não se irrita com facilidade, etc.) não poupou palavras em sua condenação a tais falsos ensinamentos. Aqui está um exemplo do que ele disse: "Mas, se alguém, mesmo que sejamos nós ou um anjo do céu, anunciar a vocês um evangelho diferente daquele que temos anunciado, que seja amaldiçoado! Pois já dissemos antes e repetimos: se alguém anun- ciar um evangelho diferente daquele que vocês aceitaram, que essa pessoa seja amaldiçoada!" (Gl 1.8,9, NTLH) Paulo acreditava que o evangelho não deve somente ser proclamado, mas deve também ser defendido contra

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

os erros. E, hoje, defender a verdade simplesmente não é uma atitude popular. A chamada "tolerância" está se tornando rapidamente a norma aceitável. As declarações dogmáticas estão fora de moda. É um caminho perigoso para os cristãos. A verdade não é determinada por quantos crê- em nela, ou por quão popular ela seja; mas alguma coisa é verdadeira se Deus diz que é. Todos nós, sem exceção, devemos ajustar- ou abrir mão de nossas crenças - caso não estejam em conformidade com o que Deus disse. Preocupo-me com um tipo prejudicial de tolerância que está crescendo em popularidade, e sendo aceito por muitas pessoas. Esse tipo de tolerân- cia leva alguns a pensar que não há verdades absolutas a defender, e que se pode crer naquilo que for o correto - para você. Podemos ver a conclusão

lógica dessa perspectiva em questões tais como o aborto, a homossexuali- dade e os casamentos entre homossexuais. Deveremos ficar calados sobre o que a Bíblia ensina, para não ofendermos ninguém ou para não sermos considerados intolerantes? Penso que não. Há momentos em que não devemos ficar calados. E isso se aplica ao propósito para o qual este livro foi escrito. Entre o ensinamento católico romano e o ensino da Bíblia, há diversas diferenças fundamentais que devem ser discutidas. Em uma pe-

quena carta, Judas exortava alguns crentes com essas palavras: "[

por necessidade escrever-vos e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos" (Jd 3b). A fé de que falava Judas é a verdade que Jesus morreu pelos nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou. Ele é o único caminho para a salvação. Essa é a fé pela qual devemos batalhar. A palavra

batalhar (contend, em inglês), segundo o O:xjord English Díctíonary, quer dizer:

"envolver-se em uma luta ou combate para vencer, ou para afirmar uma posição em uma discussão". Essa definição não deixa espaço para uma resistência passiva quando o assunto é a fé. Hoje há teólogos, além dos leigos, que são católicos à la carte- ao seu gosto. A minha intenção é apresentar aos católicos exatamente o que a sua igreja ensina. Existem áreas de teologia em constante revisão, e a igreja católica está dialogando com cristãos de outras tendências, resultando na publicação de inúmeras afirmações com as quais várias doutrinas se colo- cam de acordo. No entanto, as doutrinas oficiais da Igreja Católica Ro- mana continuam inalteradas. Os ensinamentos do Concílio de Trento• são tão obrigatórios para os católicos de hoje quanto o eram quando

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Falando a Verdade em Amor

publicados. Alguns leitores os consideram ultrapassados, mas ainda são os ensinamentos oficiais da Igreja Católica Romana e nunca foram rescin-

didos. Sinto-me satisfeito por saber que por todo este livro oriento as pessoas a Jesus, e as incentivo a edificar sua fé sobre o fundamento sólido dos ensinamentos dEle, pois os ensinos do Senhor são corretos! Na verdade, é exatamente isso que o Senhor deseja que façamos:

Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, por- que estava edificada sobre a rocha. E aquele que o'uve estas minhas palavras e as não cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia. E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda (Mt 7.24-27).

A palavra escrita nem sempre revela o tom pretendido, como o após- tolo Paulo sabia muito bem. Ele disse algumas palavras duras, mas ne- cessárias, aos cristãos da Galácia e apressou-se a perguntar-lhes: "Tor- nei-me, porventura, vosso inimigo, por vos dizer a verdade?" (Gl4.16, ARA). Ele não parou por aí, pois queria que os gálatas soubessem que a verdade que transmitia vinha de alguém que se preocupava profunda- mente com eles, e assim continuou: "pudera eu estar presente, agora, convosco e falar-vos em outro tom de voz" (v. 20). O tom é muito importante, pois revela o que realmente há no coração. Eu também tive esse sentimento apostólico enquanto escrevia este livro. E desejo que o tom daquilo que digo seja correto. Desejo exaltar o sacrifício expiatório do Senhor Jesus Cristo acima de qualquer erro que possa depreciá-lo. Quero que as minhas palavras venham de um coração cheio da convic- ção de que se nós seguirmos a Jesus Cristo, nunca estaremos perdidos. As tendências que desvalorizaram a verdade devem ser descartadas. Se o seu coração bate um pouco mais rápido diante da singela perspectiva de ser simplesmente um cristão- um membro do Corpo de Cristo, a Igreja

l - então este livro foi escrito para você.

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

Oro para que a busca dos crentes de Beréia se torne a busca de todos nós: Os de Beréia, de acordo com o que lemos, "foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim"

(At 17.1 I).

Finalmente, este livro não foi escrito para fornecer munição para os fanáticos que se alegram em obter vantagens fáceis à custa das crenças dos católicos romanos. Não me associo àqueles que se envolvem em batalhas tão pouco santas.

* N.

do E.:

O Concílio de Trento foi realizado de !545 a !563 e constitui-se na resposta

católico-romana à Reforma Protestante.

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A IGREJA CATÓLICA HOJE

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Desde que o papa João XXIII convocou a Igreja Católica Romana para abrir as janelas e deixar entrar ar fresco, um vento poderoso varreu a igreja e trouxe mudanças àquela que era considerada unia instituição estática. O momento para a igreja imutável mudar tinha chegado. Os documentos do Concílio Vaticano li se originaram nesse ambiente e refletiram a nova face do catolicismo. Os documentos foram recebidos com entusiasmo pelo mundo católico romano, e acenos de aprovação vieram de outras tendên- cias cristãs, além da católica romana. Um novo dia estava amanhecendo.

A Renovação Carismática Católica também deu a sua contribuição para

a nova face do catolicismo. Independentemente de quaisquer dúvidas que alguém possa ter sobre alguns aspectos do movimento, ele deve ser consi- derado como algo que produziu alguns resultados positivos. Pela primei- ra vez, as Escrituras se tornaram uma parte vital da vida de muitos católi- cos.

O papado também adotou uma nova imagem. Em sua longa história, ele

nunca esteve tão em destaque, como hoje. O papa não mais é visto somente nos limites do Vaticano; percorrer o mundo tornou-se um dever papal. E os

meios de comunicação deram ao papa um status de celebridade.

A popularidade do papa João Paulo II, durante seu longo pontifi-

cado, foi expressa pela efusão de tristeza por sua morte, em 2005. A

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

Igreja Católica Romana tinha perdido um grande líder. Durante todo o seu reinado, ele se manteve fiel aos ensinamentos da Igreja Católica Romana, e fez muitas coisas para recuperar o terreno que tinha sido perdido para a ala liberal da igreja. Seu papado não será esquecido nos anais ernpoeirados da história. Sua posição inflexível em questões morais tais corno o aborto, o comportamento homossexual, o casa- mento entre homossexuais, o materialismo e a importância da família foram revigoradoras para um mundo moralmente decaído. No entanto, alguns dos ensinamentos de João Paulo II Ce de seus pre- decessores) nunca poderão ser aceitos por aqueles, entre nós, que sabem que a Bíblia é a Palavra de Deus, e, corno tal, nossa única autoridade naquilo em que cremos e praticamos. Por exemplo, João Paulo II promo- veu incansavelmente a devoção à Virgem Maria e canonizou mais de qua- trocentos santos; leia-se mais do que tinham sido canonizados por todos os papas que o antecederam. Em 2 de junho de I998, ele emitiu um toque de alerta a todos os católicos para que orassem pelas almas no purgatório, assegurando-lhes que suas orações e o sacrificio da missa ga- rantiria a libertação daquelas almas que sofriam no purgatório. 1 Estes ensinamentos não estão em conformidade com o evangelho e rebaixam o sacrifício perfeito de Jesus. Vozes conflitantes são ouvidas na ampla arena religiosa, cada urna delas exigindo a nossa atenção. Damos ouvidos à Igreja Católica Ro- mana, que se diz porta-voz de Deus, ou ouvimos à Escritura, que é "a

palavra de Deus [eJ é viva, e eficaz, e mais penetrante do que qualquer

espada de dois gumes, e penetra até à divisão da alma, e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e inten- ções do coração" CHb 4.I2)? A Palavra de Deus, diz o apóstolo Paulo, é capaz de nos conduzir à salvação "pela fé que há em Cristo Jesus" C2 T rn 3. I 5). Além disso, ele ainda diz: "Toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e perfei- tamente instruído para toda boa obra" Cvv. I 6, I 7). A qual voz damos ouvidos? Deus revelou a sua vontade nas Escrituras; por isso, não po-

demos nos afastar dela. É neste ponto que devemos nos separar da Igreja Católica Romana, que afirma que nem toda verdade está conti- da nas Escrituras; a tradição da igreja também deve ser ouvida. Em

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A Igreja Católica Hoje

outras palavras, está se afirmando que toda verdade é derivada da com- binação das Escrituras com a tradição da Igreja Católica Romana.

O MoDELo ERRADO

O modelo da Igreja Católica Romana jamais seria endossado por Jesus.

Por exemplo, o Mestre foi procurado por urna mãe excessiv~enteambi- ciosa, que desejava que seus dois filhos tivessem lugares de proeminência no Reino - um à direita do trono de Jesus, e o outro, à esquerda. Tal destaque teria bons reflexos sobre ela, por ter criado filhos tão bem-suce- didos. Em resposta, Jesus olhou para o mundo gentio e mencionou um modelo daquilo que faltava a essa mãe Ce aos outros discípulos). "Bem sabeis", disse Ele, "que pelos prín'Cipes dos gentios são estes dominados e que os grandes exercem autoridade sobre eles". Isso todos eles reconheci- am. Então o Senhor completou: "Não será assim entre vós" CMt 20.25,26). Ele estava dizendo que esse modelo piramidal com governantes terrenos, cujo poder é inquestionável, não era o que tinha vindo edificar. "O meu reino", disse Ele, "não é deste mundo". Jesus não se assemelha a nada que vocês estão acostumados a ver. É completamente diferente. Posições de poder e prestígio, tais como as que existiam entre os fariseus, nunca im-

]trazem largos

filactérios, e alargam as franjas das suas vestes, e amam os primeiros luga- res nas ceias, e as primeiras cadeiras nas sinagogas,· e as saudações nas

praças, e o serem chamados pelos homens: - Rabi, Rabi" (Mt 23 .5-7): O que Jesus edificou- a Igreja- não tem nenhuma similaridade com o que

pressionaram a Jesus. O Senhor disse sobre os fariseus: "[

Ele achava tão repugnante. Ainda assim, quando examinamos a Europa em particular, o que ve- mos? A Igreja Católica Romana corno uma força política poderosa a enfrentar. As questões do Estado e da igreja estavam interligadas. Reis, rainhas e chefes de governo se submetiam à Igreja Católica Romana. Alguns governantes poderosos também eram bispos. As catedrais mag- níficas também afirmavam o poder da Igreja Católica Romana. Por cau- sa da sua aliança com o estado secular, a Igreja Católica Romana se tornou poderosa e rica, possuindo vastas terras por toda a Europa. E tudo isso era feito em nome daquEle que disse: "As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde recli-

nar a cabeça" CMt 8.20).

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

Já se disse que o poder corrompe. Houve épocas, por toda a história,

em que a Igreja Católica Romana usou o seu poder para fins negativos. A Inquisição é um desses casos. O abuso sexual de crianças por sacerdotes católicos romanos - um problema que veio à luz em anos recentes - foi possível somente por causa do poder e do sigilo da instituição. Por causa

da magnitude do problema e da intensidade com que os católicos expres- saram a sua preocupação com esse assunto, vamos examinar a questão um pouco mais de perto.

SEGREDOS E EscÂNDALos

O sórdido escândalo envolvendo crianças que sofrem abusos sexuais

por sacerdotes católicos romanos tem sido uma vergonha para a igreja. As revelações de um comportamento tão corrupto chocaram os fiéis. Quando essas revelações vieram à tona, muitos negaram. A maneira como

a sua igreja lidou com as queixas, que retrocediam a pelo menos meio

século, desiludiu muitas pessoas. Estou consciente do que Jesus disse:

"Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra" (veja Jo 8.7). E devo deixar claro que meu objetivo aqui não é criticar desnecessariamente o catolicismo romano. Mas, ao comentar essa ques- tão, desejo fornecer uma percepção sobre como isso pôde acontecer na estrutura tradicional da Igreja Católica Romana. Não pretendo ignorar

o fato de que há muitos sacerdotes e muitas freiras que são pessoas boas

e decentes, que serviram fielmente a suas comunidades; o seu caráter deve ser sempre protegido. Pode haver uma tendência a calar-se sobre as coisas más que aconte- ceram na vida, dizendo: "Já é passado; esqueça". Mas essa é uma posi- ção muito perigosa. Simon Wiesenthal morreu recentemente, aos 96 anos de idade. Como muitos outros judeus na Europa, Wiesenthal pas- sou algum tempo em um campo de concentração nazista. Os nazistas mataram 89 membros da sua família, e ele dedicou a sua vida a procurar os responsáveis por esses crimes. Com isso, levou mais de I.IOO crimi- nosos à justiça. Com seus esforços, não permitiu que o mundo se esque- cesse do mal do passado. Ele estava certo em fazer isso? Acredito que sim. Nós precisamos entender e recordar como uma nação rica em cul- tura pôde tornar-se responsável pelo assassinato de seis milhões de pes- soas, para que 1sso não se repita.

A Igreja Católica Hoje

Da mesma maneira, o abuso sexual de crianças por membros de uma igreja respeitada precisa ser investigado, para que não se repita. A maneira como a Igreja Católica Romana lidou com as acusações feitas pelas víti- mas nos diz muita coisa sobre a Igreja, e como ela se vê. Todos nós cometemos erros; e podemos, posteriormente, refletir sobre uma crise, e perceber que poderíamos tê-la administrado melhor. Pode- mos aprender com nossos erros e reagir de maneira mais sábia na próxima vez. O mesmo não acontece com a Igreja Católica Romana: O tratamento que ela dá às acusações de abuso sexual feitas contra os sacerdotes tem sido um fracasso patético, não somente uma vez, mas repetidas vezes. Na verdade, um padrão defmido emergiu. Por exemplo, considere o padre Brendan Smyth. O seu nome não' será esquecido na Irlanda por muito

tempo. Smyth tem o destaque de ser um dos piores -se não o pior- molestador sexual em série descobertos até hoje; o seu caminho iníquo se entendeu por 35 anos e abrangeu dois continentes. Em I 968, foi enviado dos Esta- dos Unidos de volta à Irlanda, quando o seu bispo tomou conhecimento de que ele molestava sexualmente rapazes e garotas. De volta à Irlanda, Smyth continuou molestando jovens, até sua condenação em um tribunal irlandês, em junho de I 997. A conduta perversa de Smyth foi levada ao conhecimento da Ordem N orbertina, da qual era membro, e também do Cardeal Daly, primaz da Irlanda. Mas nada foi feito para detê-lo. Esse predador teve acesso irrestrito a crianças. Tão grande foi o nível de des- gosto causado por Smyth, que quando ele morreu, em I997, foi enterra- do às 4hi5 da manhã, no cemitério da sua ordem, em County Cavan. Quatro policiais permaneceram à distância. As luzes do carro fúnebre foram usadas para iluminar a área do túmulo. Concreto foi jogado sobre

o seu túmulo. Por que um homem tão perverso teve permissão de permanecer em um ministério no qual tinha acesso a crianças? A Igreja Católica Romana não sabia que abuso sexual de crianças é errado? Claro que sabia. Mas a ima- gem da instituição tinha de ser protegida. Não podia haver escândalos, por isso, as alegações eram enterradas ou ignoradas. Seja como for, nada foi feito a respeito das queixas. Isso é desculpável? Vejamos o exemplo de outra organização. Um técnico de futebol é acusado de molestar sexualmente a rapazes. Ele é dispensado, mas começa

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

a treinar outro time, que não fica sabendo dos seus antecedentes. Ele abusa de garotos neste clube e novamente é demitido. Ele treina um novo time e reincide. É revoltante pensar que isso possa acontecer - que um pedófilo conhecido possa passar de um clube a outro. No entanto, foi exatamente assim que a Igreja Católica Romana lidou com os padres acu- sados de molestar crianças sexualmente. Quando as acusações eram feitas contra um padre, ele simplesmente era transferido, pelo seu bispo, para outra paróquia, onde ficava livre para continuar com a sua maldade. As pessoas boas da paróquia não sabiam que um molestador sexual tinha sido enviado para o seu meio e que, portanto, tinham de. proteger seus filhos. Nenhum aviso era dado pelo bispo aos fiéis. E assim, o "padre" cativava os pais confiantes, que se sentiam lisonjeados com o fato de que o "padre" os visitasse tão freqüentemente e mostrasse um interesse tão especial por seus fiL~os.Quando o horror era revelado, o "padre", amigo e confidente da farnüia, se apresentava diante do bispo e era transferido --

para uma nova paróquia, onde se repetiria o ciclo maligno:

Infelizmente, isso não é ficção, mas um fato comprovado. Aconteceu diversas vezes, não com um ou dois padres, mas com centenas deles. Quem, então, é responsável por proteger da lei esses pedófrlos e dar-lhes um abrigo seguro? Os bispos católicos romanos, aqueles que se dizem suces- sores dos apóstolos. Você consegue acreditar nisso? A mente fica comple- tamente chocada com um comportamento tão ultrajante. O que ofende profundamente os católicos é o sentimento de terem sido traídos por aqueles que têm posições privilegiadas. Um padre tem uma posição de poder na comunidade. Ele é uma figura de auto- ridade. Durante os anos I950 e 1960, ria Irlanda, o clero tinha um poder extraordinário. O que um padre dissesse era definitivo. Nin- guém ousava contradizê-lo. Acusá-lo de abuso sexual era algo inimaginável. E os pedófilos sabiam disso. Isso lhes dava um espaço ilimitado para molestar crianças, e eles o faziam, com entusiasmo, sabendo que as acusações não teriam crédito. Eles também sabiam que os seus bispos não os denunciariam. Infelizmente, acusações contra sacerdotes surgem de todas as partes do mundo. E o mesmo padrão emergiu em cada caso: Ignorar e acusa- ção e transferir o padre. Isso é confirmado por uma investigação orde- nada pelo governo irlandês sobre acusações de abuso sexual na Diocese

A Igreja Católica Hoje

de Feros, em County Wexford, Irlanda. O relatório Feros (2005) revela que a diocese não somente sabia das acusações, como nada fez a respei- to. O inquérito revela que um padre atacou dez meninas no altar da igreja onde ministrava. As meninas foram examinadas pelo Comitê de Saúde, que então notificou o bispo Brendan Comiskey. Nenhuma pro- vidência foi tomada. O relatório também revela a falta de cooperação da igreja durante a investigação. Também existem evidências de que o Vaticano estava ciente de algumas acusações contra sacerdotes, mas dei- xou de punir os acusados. O conhecido pedófilo, padre Sean Fortune, que era de Feros, foi um violento estuprador e um criminoso contumaz. Apesar das reclamações feitas ao bispo Comiskey, Fortune nunca foi transferido. Em março de I 999: Fortune foi encontrado morto, por overdose de drogas e álcool. Colm O'Gorman foi molestado por um padre em Feros. Agora ele é diretor de One in Four, uma entidade que oferece apoio e recursos às pessoas vítimas de abuso sexual. A respeito do relatório Feros, ele diz o seguinte:

O relatório Feros, sem nenhuma dúvida, demonstra que as alegações de que a igreja desconhecia a natureza do abuso sexual contra crianças, até que foi alertada pelos meios de comunicação, nos anos I 990, são completamente falsas. Ele detalha como, em I 962, o Vaticano distribuiu um do- cumento intitulado Crimen Solícitanís a todos os bispos do mun- ,; do. As instruções do Vaticano de que esse documento fosse mantido em arquivos secretos e. não fosse publicado, nem co- .:

mentado publicamente, lembram um romance escrito por Dan Brown. Crímen Solícitanis instrui que os funcionários da igreja, e até mesmo testemunhas e queixosos devem fazer um juramento de segredo com relação a qualquer abuso sexual descoberto. A punição pelo rompimento de tal segredo era a excomunhão automática. Embora muitos comentaristas tenham sugerido que este do- cumento trata somente do crime eclesiástico de assédio - sacer- dotes procurando o sexo no confessionário - o relatório Feros e

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

o juiz Murphy deixam claro que ele também está explicitamente

relacionado aos casos de abuso sexual. Esse documento pode-'explicar o abjeto fracasso de cardeais, bispos e sacerdotes em romper o silêncio e denunciar esses crimes

às autoridades civis e do Estado. A ameaça de excomunhão era, na verdade, uma sentença de morte aos homens que viam suas

vidas somente no contexto de suas vocações sacerdotais. Tratava- se de uma ferramenta incrivelmente eficiente para impedir a des- coberta do abuso sexual amplamente espalhado pelas dioceses católicas romanas em todo o mundo.

O relatório Ferns afirma que "não encontrou evidências deste

documento nos arquivos examinados na Diocese de Ferns". Uma vez que os bispos têm a obrigação, talvez ainda sob ameaça de excomunhão, de não divulgar ou publicar nada sobre o documen- to, não é de admirar que a diocese tenha sido incapaz de confir- mar a sua existência. Parece improvável que a Diocese de Ferns, entre todas as

dioceses católicas romanas no mundo, tenha sido excluída da lis-

ta de

correio para um documento tão delicado e confidencial

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o arcebispo Alibrandi, e seus

sucessores no cargo de Núncio Papal, sabiam da dimensão dos abusos, mas impuseram que líderes da igreja irlandesa, como o bispo Comiskey, os enfrentassem sob o código de lei canônica- a lei da igreja - em vez de entregar os clérigos errantes à polícia irlandesa. Além disso, Alibrandi e seus sucessores invocaram imu- nidade diplomática como representantes da Santa Sé, para evitar

testemunhar em processos judiciais movidos por vítimas. 3

O

que é ainda mais chocante

Ainda hoje existem aqueles que negam que o Holocausto tenha existi- do, mesmo que uma montanha de evidências os confronte. Eles simples- mente não desejam acreditar. A mesma coisa acontece com alguns católi- cos; eles simplesmente não desejam acreditar que a sua igreja tenha sido tão corrupta. Vi essa relutância em acreditar nas evidências quando chega- ram notícias de que o bispo Eamon Casey era o pai de um rapaz de I 7 anos. Casey era um bispo muito popular na Irlanda, que tinha um caráter

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A Igreja Católica Hoje

extraordinário. De modo que quando se soube que era o pai de um rapaz, todos ficaram chocados. Casey imediatamente deixou a Irlanda, foi para Roma e deixou o seu cargo. Algum tempo depois, Annie Murphy, a mãe do jovem, foi convidada para falar no programa The Late, Late Show. Uma senhora da platéia, que tinha trabalhado para Casey, negava repetidas ve- zes que Casey fosse o pai do jovem. Penso que a sua reação foi surpreen- dente, porque nessa época: I) o bispo Casey tinha dito que acreditava ser 0 pai; 2) Casey disse ao papa João Paulo II que era o pai, e o papa acredi- tou e permitiu que ele deixasse o seu cargo; 3) Annie Murphy disse que Casey era o pai; 4) e o rapaz era parecido com Casey. Por que, então, essa mulher não acredita, quando a evidência é tão convincente? Simplesmente porque não deseja acreditar que urh sacerdote tenha quebrado seus votos, e nada irá convencê-la disso. Há alguns católicos que, por mais convin- cente que sejam as evidências, nunca acreditarão no nível de corrupção que existe em sua igreja. Annie Murphy declarou que Casey tinha tentado persuadi-la a entre- gar a criança para adoção, mas ela se recusou a fazê-lo. Era óbvio que Casey estava tentando proteger a si mesmo e à imagem da igreja. A única

razão por que a história veio à luz foi Casey ter deixado de sustentar seu filho, e a imprensa foi avisada. O mesmo padrão é evidente em casos de abuso sexual: a imagem da igreja protegida por meio de uma rede de segredos e mentiras. Foi isso que Jesus veio edificar? A sugestão é absurda. A minha simpatia se estende às vítimas e suas famílias, que tiveram que passar por esse pesadelo, e tentar entender como uma igreja pôde permitir que pedófilos declarados tivessem acesso livre e aberto a suas adoráveis crianças. Como a sua igreja tinha possibilitado proteção para molestadores sexuais? Por que o povo não era avisado de que o novo padre que tinha vindo à sua paróquia havia molestado crianças em uma paróquia anterior? Muitas vidas foram arruinadas, e cicatrizes emocio- nais serão carregadas pelo resto da vida dessas vítimas. Alguns nunca se recuperarão, e outros tirarão sua própria vida. E a única razão de algu- mas vítimas finalmente terem seu dia na justiça é porque tiveram a cora- gem denunciar e assim deter a igreja. Não foi a igreja que ocasionou essa purificação do mal: foram as vítimas. E se as vítimas não o tivessem feito, os bispos teriam continuado abrigando-se em Crímen Solícítanís e isentando-se de qualquer responsabilidade pessoal. As vítimas devem se

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Respostas às Perguntas que os Católicos Cosrumam Fazer

sentir amedrontadas e confusas à medida que tentam entender como é que os seus bispos se comprometeram a manter silêncio quando os mais preciosos e vulneráveis membros da igreja - as crianças - ficavam desprotegidos para serem vítimas de conhecidos pedófilos que estão vestidos como ovelhas.

A IGREJA QUE JEsus VEio EDIFICAR

Jesus olhou para a religião institucional da sua época e disse que não se deve pôr vinho novo em odres velhos (Lc 5.37,38). O vinho novo, à medida que o tempo passa, fermenta e rompe os odres. velhos que se tornaram ressequidos com a idade. A Igreja Católica Romana é como um odre que não pode conter o vinho novo da graça e da verdade. É um odre velho que mostrou ser corrupto, por esconder o mal dos sacerdotes pedófilos enquanto, ao mesmo tempo, lhes fornecia oportunidades repe- tidas para molestar os inocentes, e justificava a sua inércia pelo seu jura- mento de silêncio. Ela ficou rica, poderosa e, no processo, corrupta. Essa não é a igreja que Jesus veio edificar, e como diz o salmista, "Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que edificam" (SI 127.I). A igreja de Jesus é o seu povo, a quem Ele redimiu. Esse povo é transforma- do à imagem do Senhor pelo Espírito que nele habita. A santidade é a sua marca. A Igreja do Senhor é um corpo universal de crentes em congrega- ções locais, comunidades de fé, orientadas por pastores devotos que apas- centam o rebanho com a Palavra viva de Deus. Essa é a nova criação que Jesus veio trazer à existência. O desafio aos católicos que estão lendo este livro é estudar o livro de Atos e ver como a Igreja Primitiva "era igreja". Observar a simplicidade, e, apesar disso, a eficiência de sua organização. Ver o seu zelo evangelístico, seus cuidados com os pobres e seu comprometimento com a oração. Ver o seu ministério envolvendo cada membro. Tão grande foi o impacto da igreja no mundo pagão que quando Paulo e seus colaboradores chegaram àTessalônica o povo disse: "Estes que têm alvoroçado o mundo chegaram também aqui" (At I 7.6). Hoje, o nosso mundo pecador precisa ser "alvo- roçado" por um retorno à mensagem salvadora da Palavra viva de Deus.

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A FORMAÇÃO DA BíBLIA

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Como surgiu a Bíblia? A Igreja Católica Romana sustenta que foi ela quem nos deu a Bíblia e determinou a quantidade de livros que deveriam compor o cânone das Escrituras- em particular, o Novo Testamento. O argumento é o seguinte: A igreja existia antes que tivesse sido escrita uma só palavra do Novo Testamento. Depois que ele foi escrito, a igreja deter- minou o cânone. Portanto, a igreja é a voz de autoridade, que deve ser obedecida, pois sem a igreja não teríamos a Bíblia.

A REIVINDICAÇÃO CATÓLICA

P. I 7 - Quem pode determinar quais livros constituem a Bíblia? Da I?esma maneira como a Igreja infalível de Cristo pode nos garantir que a Bíblia tem inspiração divina, tam- bém somente a Igreja possui a autoridade para indicar quais livros estão incluídos nela. 1

A Igreja surgiu antes do Novo Testamento e, como re- sultado disso, afirma ser o árbitro final em questões de interpretação. Foi a Igreja que agrupou os livros e as car- tas que constituem o Novo Testamento. Ela decidiu o que deveria ser incluído e o que seria deixado de fora. Assim,

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

como autora dessa coletânea, a Igreja está em melhor po- sição que o leitor para dizer o que uma passagem particu- lar significa. 2

Esse argumento parece bom e razoável, mas será correto? É a Bíblia um produto da Igreja Católica Romana? Ou veio a existir de alguma outra maneira? Poderíamos ser perdoados se considerássemos a pergunta como sendo irrelevante; o importante é que temos a Bíblia. Mas não é tão sim- ples assim. A reivindicação católica romana é que, pela sua autoridade, temos a Bíblia, e, portanto, somente ela é a intérprete oficial das Escritu- ras. Ela diz que se quisermos conhecer o verdadeiro significado das Escri- turas, devemos ouvir à igreja que nos deu a Bíblia.

A evidência apóia a reivindicação católica, ou nos aponta uma direção diferente? Daremos o nosso primeiro passo para responder a essa pergun- ta olhando como o Antigo Testamento surgiu e os critérios que determi- naram o seu cânone.

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CÃNONE DO ANTIGO TESTAMENTO

Jesus confirmou as Escrituras do Antigo Testamento como sendo a autên- tica Palavra de Deus. Depois de sua ressurreição, encontrou-se com dois dis- cípulos e disse-lhes tudo o que havia escrito acerca dEle nas Escrituras: "Co- meçando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras" (Lc 24.27). Que conclusão tiramos das pala- vras de Jesus? Uma vez que o Senhor tinha vindo cumprir tudo o que havia escrito acerca dEle nas Escrituras, devia haver existido um cânone reconhecido das Escrituras. Podemos ver que esse é o caso, pelas referências freqüentes do Senhor às Escrituras. Por exemplo, no discurso sobre a sua divindade - que Ele é o Filho de Deus, igual ao Pai- o Senhor disse: "A Escritura não pode ser anulada" Qo I 0.35). A que Ele se referia? Ao corpo das Escrituras que conhe- cemos como o Antigo Testamento. Ao censurar os judeus pela sua recusa em aceitá-lo, Jesus afirmou: "Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam" Qo 5.39). Observe que Jesus não disse que eles estavam procurando no lugar errado - em textos que não constituíam as Escrituras -, pois, de fato estavam procurando no lugar certo, no livro de trabalho reconhecido, que era considerado a Palavra de Deus.

Em outra ocasião, os saduceus, um grupo de líderes religiosos judeus, veio propor ao Senhor Jesus uma pergunta sobre a ressurreição. Em

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A FormaJâO da Bíblia

resposta, Cristo lhes disse: "Errais, não conhecendo as Escrituras, nem 0 poder de Deus" (Mt 22.29). Os saduceus poderiam ter solucionado o seu erro examinando as Escrituras, que eram uma fonte de autoridade

reconhecida. Além disso, Jesus conseguiu fazer uma distinção clara entre o que as Escrituras ensinam e o que a tradição religiosa ensina:

Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tra- dição dos homens, como o lavar dos jarros e dos copos, e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas. E dizia-lhes:

Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição. Porque Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe e:

Quem maldisser ou o pai ou a mãe deve ser punido· com a morte. Porém vós dizeis: Se um homem disser ao pai ou à mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta ao Senhor, nada mais lhe deixais fazer por seu pai ou por sua mãe, invalidando, assim, a palavra de Deus pela vossa tradição, que vós ordenastes. E muitas coisas fazeis seme- lhantes a estas (Me 7.8-13).

O Mestre olhava o comportamento hipócrita dos fariseus e via que estava enraizado nas tradições dos homens. Como podia Jesus dizer que eles tinham abandonado os mandamentos de Deus, revelados na Bíblia, a menos que já existisse um corpo reconhecido de Escrituras? Por fim, depois de urna recepção muito rude na cidade deTessalônica, Paulo chegou a Beréia, onde foi agradavelmente surpreendido pela atitude das pessoas. "Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim" (At I7.II, ARA). Paulo não teve que corrigi-los, dizendo que estavam procurando na fonte errada a confirmação da sua mensa- gem. Não. Eles estavam procurando no lugar certo- os 39livros que compõem o Antigo Testamento. Há muito tempo esses livros tinham sido reconhecidos como a Palavra de Deus e, conseqüentemente, canonizados. O povo de Deus, no Antigo Testamento, conseguiu, sob a orientação divina, compilar os livros que conhecemos como o Antigo Testamento, que Jesus confirmou. Isso aconteceu

muito tempo antes do surgimento da Igreja Católica Romana.

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Respostas às Perguntas que os Católicos Coswmam Fazer

É interessante notar como surgiram os livros que compõem o Antigo Testamento. O critério principal para determinar se um livro deveria ser incluído no cânone dizia respeito ao seu autor. A autoria profética era essencial. Se o autor fosse conhecido como sendo um profeta do Senhor, suas obras eram preservadas. Isso, obviamente, foi feito sob a orientação do próprio Deus. Moisés era um desses profetas, usado pelo Senhor de uma maneira poderosa. Para garantir que tivéssemos um registro perma- nente da revelação de Deus, Moisés escreveu tudo o que o Senhor lhe disse. Além disso, ele guardou seus escritos em um lugar de honra - ao lado da arca do concerto, onde Deus estava especialmente presente entre

o seu povo (Dt 3 1.24-26). Josué sucedeu a Moisés como líder de Israel e foi um homem "cheio do espírito de sabedoria, porquanto Moisés tinha posto sobre ele as

suas mãos" (Dt 34.9). No fim de sua vida, Josué acrescentou outro elo

escreveu estas palavras no livro

da Lei de Deus" (Js 24.26). O Antigo Testamento começava a tomar forma. Samuel está entre os profetas notáveis da história de Israel, e também contribuiu para o corpo do trabalho que se tornaria o Antigo Testamento: "E declarou Samuel ao povo o direito do reino, e escreveu-

o num livro, e pô-lo perante o Senhor" (I Sm I0.25). Observe o lugar de honra especial dado às Escrituras: "perante o Senhor". Além disso, "os atos, pois, do rei Davi, assim os primeiros como os últimos, eis que estão escritos nas crônicas de Samuel" (I Cr 29.29). O profeta Natã

também fez a sua contribuição à formação do Antigo Testamento: "Os demais atos, pois, de Salomão, tanto os primeiros como os últimos,

porventura, não estão escritos no livro da história de Natã, o profeta

]?" (2 Cr 9.29) Quando Israel se deparou com setenta anos de servi- dão na Babilônia, Daniel foi capaz de consultar os textos do profeta Jeremias e ver que Deus tinha predito esse cativeiro. Daniel entendeu "pelos livros que o número de anos , de que falou o Senhor ao profeta Jeremias, em que haviam de acabar as assolações de Jerusalém, era de setenta anos" (Dn 9.2; veja Jr 29.10). Os profetas escreveram sobre uma ampla variedade de eventos na história do povo escolhido de Deus, mas havia um tema central em seus textos: a vinda do Messias. Jesus freqüentemente afirmava ser a figura central das Escrituras: "Começando por Moisés e por todos os

à corrente- Deus o orientou, e ele "[

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A Forma;ão da Bíblia

profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras" (Lc 24.27). Pedro disse que as profecias do Antigo Testamento cum- pridas em Jesus fornecem amplas evidências de que Ele é o Filho de Deus, e que as Escrituras fornecem toda a certeza e orientação de que precisamos (2 Pe I.I2-2I). Pedro estava dizendo que não precisamos nos afastar daquilo que as Escrituras dizem. O que foi que dissemos até àgora? O Antigo Testamento era aceito pelo povo de Deus porque era escrito pelos profetas de Deus. Os escritos dos profetas eram preservados graças à sua origem divma. Embora o povo de Deus juntasse esses escritos sagrados, isso nunca lhes deu uma posição de autoridade acima (nem mesmo igual) à das Escrituras. Na época em que Jesus viveu, o cânone (a coletânea reconhecida de livros) do Antigo Testamento tinha sido defmido e recebido o aval do próptio Cristo. Estas eram as Escrituras às quais recorria Jesus durante o seu ministério, afir- mando que a mensagem central do Antigo Testamento falava de sua vinda para nos salvar dos nossos pecados e nos levar de volta ao Pai.

Jesus ensinava, definitivamente, que Deus originou o An- tigo Testamento em hebraico. Ele citou, como autênticos, ou com autoridade, a maioria dos vinte e dois livros do cânone hebreu. O Mestre considerou cada seção, "Lei e Profetas" e "Lei, Profetas e Salmos" (Lc 24.27,44) como sendo profética sobre Ele. O Senhor Jesus mostrava que a inspiração se entendia desde o Gênesis e passava pelas Crô- nicas (Mt 23.35; o que equivale a dizer "de Gênesis a Malaquias"). Ele afirmou que o Antigo Testamento como um todo era Escritura que não pode ser· anulada Qo I 0.35); que nunca pereceria (Mt 5.18); e que se cumpriria (Lc 24.44). Ele confirmou pessoalmente pessoas e eventos, desde o Éden (Mt 19.5) até Jonas na "baleia" (Mt 12.40), inclu- indo Daniel, o profeta (Mt 24.15), Noé e o Dilúvio (Lc 17.27) e a destruição de Sodoma (Lc 17.29). Jesus não somente defmiu os limites do cânone, isto é, os vinte e dois livros do Antigo Testamento hebreu, como também estabe- leceu o princípio de canonicidade, especificamente, o cânone consiste daquilo que é a "palavra de Deus". Isso é

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

exemplificado pelas referências de Jesus ao Antigo Testa- mento como a "palavra de Deus" (Mr 7.I3), como aquilo que "Deus disse" (Mt I 9.5), ou como aquilo que era pro- ferido "em espírito" (Mt 22.43; Mr I2.36). Quanto ao Novo Testamento, Jesus prometeu que o Espírito Santo iria guiar os apóstolos "em toda a verdade" (Jo I 6.13) e os faria lembrar de todas as coisas que Ele lhes tinha dito (Jo I4.26). Assim, o princípio de que "a canonicidade é deter- minada por inspiração" foi proferido por Jesus a respeito do Antigo Testamento e prometido no Novo Testamento. 3

O autor Edward J. Young também nos fornece noções úteis sobre a relação entre a inspiração das Escrituras e o seu lugar no cânone:

Quando a Palavra de Deus foi escrita, tornou-se a Escritura, e, na medida em que foi proferida por Deus, possuiu autoridade absoluta. Como era a Palavra de Deus, foi canônica. Aquilo que determina a canonicidade de um livro, portanto, é o fato de que o livro tenha sido inspirado por Deus. Conseqüentemente, faz- se uma distinção adequada entre a autoridade que possui o An- tigo Testamento, como inspirado divinamente, e o reconheci- mento daquela autoridade, por parte de IsraeU

O CÃNONE no Novo TESTAMENTO

No final do século I, os vinte e sete livros que compõem o Novo Testa- mento tinham sido aceitos pela Igreja Primitiva, como sendo canônicos.

A evidência disso é verificada pela história da Igreja Primitiva.

A Igreja Católica Romana afirma que a coletânea de livros que compõem o cânone do Novo Testamento foi determinada por ela. Isso é incorreto. O obje- tivo desse concílio não era folhear antigos pergaminhos empoeirados e armaze-

nados em algum sótão de mosteiro, e então anunciar ao mundo cristão quais

livros eram canônicos e quais não eram. O concílio simplesmente afirmou aqui-

lo que a Igreja Primitiva tinha afirmado há muito tempo - que os vinte e sete

livros que conhecemos como o Novo Testamento eram canônicos. Não deve- mos cometer o engano de pensar que as Escrituras receberam a sua autoridade porque algum concílio fez uma declaração pública da sua aceitação. A verdade

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A Formafão da Bíblia

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do assunto é que a Igreja Primitiva aceitou as Escrituras praticamente da mesma maneira como Israel aceitou as Escrituras do Antigo Testamento - crendo que eram inspiradas por Deus. A igreja, acertadamente, viu-se como sujeita à autori- dade das Escrituras, e não o contrário. Embora a igreja existisse antes que o Novo Testamento fosse escrito, isso não à igreja autoridade sobre as Escritu- ras, nem igual à das Escrituras. A igreja deve sempre estar sujeita à autoridade da Palavra escrita de Deus.

O que permitiu que a Igreja Primitiva aceitasse o cânone do Novo Testa-

mento tão prontamente foi a posição exclusiva dos apóstolos. Eles tinham sido os companheiros do Senhor na maior parte de seu ministério, e Ele os tinha treinado para uma missão especial: a evangelização do mundo. Eles não eram somente testemunhas oculares da ressurreição de Jesus, mas também dotados das credenciais necessárias para se estabelecerem como porta-vozes de Deus. Os milagres que realizavam davam testemunho dessa função. Nós lemos que "muitos sinais e prodígios eram feitos entre o povo pelas mãos dos apóstolos" (At 5.12). Isso incluía a ressurreição de mortos e a restituição da perfeita saúde a enfermos. Uma confirmação adicional foi dada ao ministério apostólico, pelo fato de que "Deus, pelas mãos de Paulo, fazia maravilhas extraordinárias" (At 19.II). Paulo não hesitava em apontar os milagres reali-

zados pelos apóstolos como provas da sua vocação divina (2 Co 12.12). Por muitos anos, os apóstolos ensinaram à igreja tudo o que Deus lhes estava revelando, e ela aceitou esses ensinamentos. A igreja tinha total con- fiança de que aquilo que os apóstolos lhe ensinavam era, realmente, a vonta- de de Deus. Como os profetas do Antigo Testamento, eles também morre- riam, mas Deus tinha tomado providências para garantir que sua mensagem estivesse sempre disponível. O Espírito Santo guiou os apóstolos para regis- trar a vontade de Deus nas Escrituras, e a igreja aceitou os seus escritos. Jesus deu aos apóstolos as mesmas palavras que o Pai lhe tinha dado (Jo I 7.8), e prometeu enviar o Espírito Santo para ensiná-los, orientá- los e recordar a suas mentes tudo o que Ele lhes tinha dito durante seu ministério terreno (Jo 14.26; 16.13). Parte da orientação do Espírito relacionava-se à escrita dos vinte e sete livros que compõem o Novo Testamento. Isso não deve ser, de maneira nenhuma, surpreendente, uma vez que a igreja primitiva nasceu de uma herança judaica, que tinha reunido os escritos dos porta-vozes anteriores de Deus. Sob a orienta- ção do Espírito, a Igreja Primitiva seguiu os mesmos procedimentos.

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

A evidência mostra que o ·cânone das Escrituras, os 66 livros que compõem a Bíblia, foram definidos pelo fato de que são inspirados por Deus. A reivindicação feita pela Igreja Católica Romana de que ela nos deu a Bíblia, não pode ser apoiada. Deus nos deu a Bíblia. Louis Gaussen nos dá um resumo magnífico sobre esse assunto quan- do diz:

Neste assunto, então, a Igreja é uma s~rva,e não uma se-

nhora; uma depà.iitária, e não um juiz. Ela exerce o papel de o

Ela dá um testemu-

nho, e não uma sentença judicial. Ela discerne o cânone das Escrituras, mas não o cria; ela reconheceu a autoridade das

A autoridade das Escritu-

ras não está, então, na autoridade da Igreja: é a Igreja que se baseia na autoridade das Escrituras. 5

Escrituras, mas não a concedeu

um ministro, e não de um magistrado

Era inevitável que os textos dos apóstolos fossem preservados, uma vez que continham o cumprimento de tudo o que os profetas tinham predito a respeito de Jesus. Em suas epístolas, Pedro deu uma indicação generosa de que este processo estava acontecendo, ainda quando ele era vivo e viu seus textos ficarem permanentemente disponíveis: "Eu pro- curarei, em toda a ocasião, que depois da minha morte tenhais lembran- ça destas coisas" (2 Pe I. I 5). A leitura pública dos textos dos apóstolos juntamente com os do Antigo Testamento indica, além disto, que Deus estava reunindo (e a igreja aceitando) as Escrituras do Novo Testamen- to como a Palavra de Deus. No final do século I, toda a vontade de Deus tinha sido revelada e registrada nas Escrituras. Podemos descartar a noção de que a Igreja Primitiva não conheceu toda a extensão do cânone do Novo Testamento até o fim do século IY, e que durante esse tempo o povo esperava que a igreja fizesse um pronunciamento oficial. Essa linha de raciocínio dá àigreja católica urna autoridade que é reser- vada exclusivamente às Escrituras.

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As EscRITURAS SÃo SuFICIENTES

Para justificar sua posição, a Igreja Católica Romana freqüente- mente apresenta o argumento de que as Escrituras nunca afirmaram

36

A FormafãO da Bíblia

ser adequadas para satisfazer a todas as nossas necessidades. Dizem isso baseando-se nas palavras do apóstolo João: "Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e, se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem" (Jo 21.25). Leia essas palavras novamente, e veja se você acha que a intenção de João era afirmar que a Palavra escrita de Deus, as Escrituras inspiradas, nunca pretenderam ser a única fonte de autoridade das nossas crenças e práticas. O apóstolo do amor realmente disse isso? João nunca sequer. teve tal pensamento. Na verdade, ele diz exatamente o oposto. No capítulo anterior do

seu Evangelho, João confirma que aquilo que ele nos diz sobre Jesus é suficiente para nos garantir a vida eterna. Quando você temq vida eterna, não lhe falta nada. E João nos diz como ter ·a vida eterna, a . partir das Escrituras: "Jesus, pois, operou também, em presença de seus discípulos, muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome" (Jo 20.30,3 I). João, de modo confiante, afirma que a Palavra escrita de Deus é suficiente para satisfazer nossas necessidades. Tudo

o que necessitamos saber sobre como viver e como morrer no Se-

nhor está contido nas Escrituras. Deixe-me dizer isso mais uma vez: As Escrituras do Antigo Testamen-

to que Jesus veio cumprir foram canonizadas séculos antes que a Igreja Católica Romana surgisse. E o procedimento que Deus usou para reunir esses livros foi o mesmo procedimento usado para formar o cânone do Novo Testamento. Eu realmente gosto da maneira como F. F. Bruce expli-

ca o assunto:

É particularmente importante observar que o cânone do Novo Testamento não foi demarcado pelo decreto ar- bitrário de nenhum concílio da igreja. Quando um Con- cílio da Igreja, o Sínodo de Cartago, em 397 d.C., final- mente relacionou os vinte e sete livros do Novo Testa- mento, não lhes conferiu nenhuma autoridade que eles já não possuíssem, mas simplesmente registrou a sua canonicidade previamente estabelecida. 6

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

Deus nos deu as Escrituras como nossa autoridade final e única em todas as questões de fé e moral. A igreja está sujeita à autoridade das Escrituras. Um excelente resumo daquilo que foi dito é fornecido por Geisler e Nix:

A distinção mais importante que deve ser feita, a essa alrura, é entre a determinação e a descoberta da canonicidade. Deus é o único responsável pela primeira, e o homem é meramente respon- sável pela segunda. O fato de que um livro seja canônico se deve à

inspiração divina. Como se sabe que isso é verdade - este é o pro- cesso do reconhecimento humano. Como os homens descobriram

o que Deus tinha determinado - foi procurando os "sinais de ins-

piração", que são a natureza (I) autorizada, (2) profética, (3) au-

têntica, ( 4) dinâmica e ( 5) aceita dos livros. Isto é, investigava-se se

o livro, (I) trazia em si a autoridade de Deus, (2) tinha sido escrito

por um homem de Deus, (3) dizia a verdade a respeito de Deus, do homem, etc., ( 4) trazia em si o poder de Deus e ( 5) era aceito pelo

povo de Deus. Se um livro claramente tivesse o primeiro sinal, pres- supunha-se que tivesse os demais. Os três primeiros eram usados de modo explícito na maioria dos livros, ao passo que os dois últi- mos normalmente só eram aplicados de forma implícita. Foi com este procedimento que os primeiros Pais (ou Patriarcas) ordena- ram a profusão da literatura religiosa, selecionaram e deram um reconhecimento oficial aos livros que, em virtude da sua inspiração divina, tinham sido determinados, por Deus, como canônicos. 7

38

A Forma;ão da Bíblia

11 Não foi a Igreja Católica Romana que decidiu quais livros for- mam o cânone das Escrituras? Não, isso não é verdade. A Igreja Católica Romana afirma que determinou quais livros deviam ser incluídos no cânone das Es- . crituras pelo Magisterium. Há um fato histórico: o cânone foi de- terminado muito tempo antes de qualquer pronunciamento ofi- cial pela igreja ou por qualquer Concílio;

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Como foi formado o cânone do Antigo Testamento? Muito tempo antes que surgisse a Igreja Católica Romana, o cânone do Antigo Testamento tinha sido determinado. O próprio Jesus endossou esse cânone, afirmando que Ele tinha vindo cumprir tudo o que a lei e os profetas haviam dito (Lc 24.25-27). Ele ensinava freqüentemente com base nesse corpo reconhecido de Escrituras, e referia-se a elas como a Palavra de Deus. Por toda a história de Israel, os escritos de Moisés, Samuel e outros tiveram um lugar de honra "perante o Senhor" (Dt 31.24-26; I Sm I0.25). Aqueles que eram conhecidos como sendo profetas de Deus, cuja vida e cujo ministério testificavam a sua vocação, tiveram seus escritos incluídos nesse cânone.

11 Como foi formado o cânone do Novo Testamento? A Igreja Católica Romana afirma que foi pela sua autoridade que foram canonizados os livros que compõem o Novo Tes- tamento. Na verdade, o cânone do Novo Testamento come- çou a emergir enquanto os apóstolos estavam vivos. A auto- ria profética e apostólica era uma consideração básica na de- terminação do cânone. Dentro da igreja, esses escritos ti- nham o mesmo status que as Escrituras do Antigo Testamen- to. A igreja prontamente aceitou como canônicos os escritos de Paulo, Pedro, Tiago, João, etc. A formação do cânone foi uma tarefa relativamente fácil por causa do curto período de tempo decorrido entre a escrita do primeiro e do último tex- to do Novo Testamento. Todos os livros do Novo Testamen-

39

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

to já tinham sido escritos por volta de 90 d.C. O último foi escrito pelo apóstolo João, urna testemunha ocular do minis- tério, da morte e da ressurreição de Jesus.

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Qual a participação dos concílios da igreja na formação do

cânone? A resposta simples é: nenhuma. Os concílios de Hipo e Cartago, no século IY, não nos deram o cânone das Escrituras. Na verdade, eles simplesmente confirmaram o que já era aceito corno canônico.

3

A pALAVRA VIVA

Quando Jesus declarava sua divindade, fazia-o apoiando sua afirmação nas Escrituras. "A Escritura", diz Ele; "não pode ser anulada" (Jo 10.35). Tudo o que dizem as Escrituras deve ser obedecido. Ela é a bússola que indica o caminho do nosso destino celestial. Uma declaração tão clara deve estabelecer, para todos os tempos, que as Escrituras são, realmente, a nossa única autoridade em todos os assuntos de fé e de procedimentos (que alguns chamam de "prática"). A obediência ao que dizem as Escri- turas não é opcional. Muitos católicos romanos aceitam a autoridade da sua igreja, junta- mente com as Escrituras, e muitas vezes acima delas. A plenitude da ver- dade, dizem eles, não está contida somente nas Escrituras, mas na Bíblia e na tradição. Por tradição eles querem dizer os ensinamentos da Igreja Católica Romana. Esses ensinamentos não têm suas raízes nas Escrituras, mas foram desenvolvidos ao longo de muitos séculos e finalmente defini- dos como dogma pela igreja. A mudança em meu modo de pensar teve início quando comecei a ler as Escrituras. Esta era uma experiência nova para mim. Eu estava assusta- do e ao mesmo tempo entusiasmado com o que estava fazendo. Assusta- do porque estava andando em terreno desconhecido, e deixando as fron- teiras de onde, segundo me tinham dito, está toda a verdade: no

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

ensinamento oficial da igreja. Mas me entusiasmava por ver o quão aces- síveis são as Escrituras, e crer naquilo que é imutável fazia muito sentido para mim. À medida que lia os quatro Evangelhos, ficava continuamente impressionado pela freqüência com que Jesus se referia às Escrituras, e nunca à tradição, quando ensinava sobre questões de fé e questões morais. Isso era muito diferente do procedimento da Igreja Católica Romana, que, em minha experiência, freqüentemente apelava aos ensinamentos de papas, às encíclicas e à tradição. Concluí que se Jesus aceitava somente as Escrituras, eu não estaria errado se seguisse o seu exemplo. Diferentemente dos cristãos evangélicos, que aceitam a Bíblia como sua única fonte de autoridade quanto àquilo que cremos e praticamos, a Igre- ja Católica Romana aceita tanto a Bíblia como a tradição como sua fonte de verdade revelada. A aceitação que fazem da tradição, como uma fonte adicional, não prejudica (pensam) a sua crença de que a Bíblia é, de fato, a Palavra inspirada de Deus. No entanto, quando se procura a verdade em duas fontes diferentes, seguramente haverá conflitos e contradições. E realmente há. A posição católica romana quanto à autoridade afirma que a igreja deve ter um líder infalível para guiá-la na interpretação correta das Escri- turas e, dessa maneira, conservá-la no caminho correto. Sem a infalibili- dade, argumentam, a igreja está sem leme em um mar agitado. Existe a percepção de que há perigo em permitir que a Bíblia seja interpretada por aqueles que não pertencem ao Magisterium, pois isso poderia abrir as com- portas a todo erro e heresia possíveis. A posição oficial é declarada da seguinte maneira:

A tarefa de interpretar a Palavra de Deus de maneira au- têntica foi confiada exclusivamente ao Magisterium da Igreja, isto é, o papa e os bispos em comunhão com ele. [100]

Aos sucessores dos apóstolos, a sagrada tradição trans- mite, em sua total pureza, a Palavra de Deus, que foi con- fiada aos apóstolos por Cristo, o Senhor, e o Espírito San-

Conseqüentemente, não é apenas das Sagradas Escri-

to

turas que a Igreja obtém a sua certeza sobre tudo o que foi revelado. Portanto, tanto a sagrada tradição quanto as

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A Palavra liíva

Sagradas Escrituras devem ser aceitas e veneradas com o mesmo sentimento de devoção e reverência. A sagrada tra- dição e as Sagradas Escrituras formam um sagrado depó- sito da Palavra de Deus, que é confiado à Igreja. 1

Devemos dar crédito ao que merece crédito; a Igreja Católica Romana deixa muito clara a sua posiJão - a igreja católica não se baseia exclusiva- mente nas Escrituras quanto àquilo em que crê e quanto àquilo que pra- tica. A tradição, diz ela, tem valor igual ao da Bíblia. Além disso, interpre- tar as Escrituras é direito exclusivo do Magisterium. Essa posição apresenta alguns problemas sérios. Por exemplo, um ca- tólico romano pode começar a estudar a Bíblia, e, com seu estudo, co- meçar a questionar o que lhe foi ensinado: ele vê que a morte de Jesus pagou totalmente a punição pelos seus pecados. Começa a entender que 0 Cordeiro de Deus realmente tirou seus pecados e que pelo sacrifício perfeito oferecido no Calvário a reconciliação com Deus se torna possí- vel. Ele vê o tema de um perdão completo em muitas das epístolas. Vê a garantia do perdão. Tudo o que está lendo entra em conflito com o ensinamento da igreja romana sobre o purgatório, que afirma que ele deve sofrer pelos seus pecados nesse lugar antes de poder entrar no céu. Com base no que leu na Bíblia, fica claro que quando a pessoa é perdo- ada, é realmente perdoada. Agora, o que ele deve fazer? Se for conversar sobre o assunto com o padre da sua paróquia, que está bem informado sobre os ensinamentos da Igreja Católica e que aceita firmemente esses ensinamentos, ele ouvirá que deve aceitar os dogmas oficiais da igreja sobre o assunto. Embora ele tenha organizado evidências impressionan- tes das Escrituras que defendam seu argumento, deve aceitar a interpre- tação oficial da igreja, independentemente de quão convincentes sejam seus argumentos, com base nas Escrituras. Para o catolicismo, é óbvio que ele chegou a uma interpretação incorreta das Escrituras, que deve ser rejeitada a favor da posição da igreja. Você percebe o dilema? Por um lado, nosso amigo compreende que as Escrituras dizem claramente que a morte de Jesus nos purifica de todos os nossos pecados; portanto, não existe condenação à nossa espera quando morrermos. Mas a posição da igreja diz que existe condenação, pela qual passaremos no purgatório. O que deve fazer o nosso amigo católico?

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

Gosto da observação de James McCarthy sobre este tipo de dilema:

Qual é o resultado de entregar a autoridade do ensino a um grupo de homens e receber as suas interpretações como autênticas e até mesmo infalíveis? A resposta pode ser encontrada, observando-se como a Igreja trata as Escrituras que apresentam um desafio às cren- ças ou práticas estabelecidas pela Igreja Católica Romana. Conside- remos, por exemplo, este trecho dos Dez Mandamentos:

Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas

debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás

(Êx 20.4,5).

Esse mandamento proíbe a confecção de imagens para uso religi- oso. E também proíbe a adoração de tais objetos. O significado bási- co da palavra hebraica traduzida como "adorar" (Êx 20.5) é curvar- se. Por causa desse mandamento, tanto os judeus quanto muitos cris- tãos não católicos romanos evitam o uso de objetos sagrados tais como estátuas na prática de sua fé.

A Igreja Católica Romana tem a sua própria interpretação dos mai1damentos de Êxodo 20.4,5 [2129-2132].

Eles não proíbem imagens de Cristo e dos santos. Mas fa- zer e honrar as imagens de Cristo, nosso Senhor, e da sua santa e virgem mãe, e dos santos, todos os quais revestidos de natureza humana e aparecendo sob forma humana, não so- mente não está proibido pelo mandamento, mas sempre foi considerado uma prática santa e uma indicação segura de gra- tidão. Essa posição é confirmada pelos monumentos da era apostólica, os concílios gerais da igreja e os escritos de tantas pessoas, entre os Patriarcas, igualmente eminentes em santi- dade e conhecimento, todos de comum acordo quanto a este

assunto. O Catequismo Romano.

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A Palavra VIva

Observe como nesta e.xplicação a prática da igreja é usada para confir- mar a interpretação das Escrituras. A mesma abordagem foi usada pelo Concílio Vaticano II no seu endosso à continuidade do uso de estátuas:

Desde os primeiros dias da igreja, houve a tradição segundo a qual imagens do nosso Senhor, da sua santa mãe e dos santos são dispostas em igrejas para a veneração dos fiéis. Concílio Vaticano ll.

A interpretação católica romana de Êxodo 20.4,5 é produto da aplicação da regra suprema do catolicismo romano à interpretação da Bíblia: O significado autêntico de qualquer versículo das Escritu- ras é aquilo que o Magiste1;ium" da igreja sempre disse que ele significa. [II9] Ou, em outras palavras: Aquilo que a igreja pratica e aquilo em que ela crê determinam o que as Escrituras ensinam ou signifi-

Essa abordagem do estudo das Escrituras é fútil. Ela somente pode resultar na igreja sancionando a si mesma. A correção é impos- sível, porque a norma da verdade não é o verdadeiro significado das Escrituras, como se verifica em comparação com outras Escrituras. 2

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Creio que McCarthy fez uma colocação muito válida que merece conside- ração. A Igreja Católica Romana basicamente está dizendo: "Isso é o que sempre praticamos; portanto, as Escrituras devem significar o que nós pratica- mos - mesmo que os textos das Escrituras afirmem o oposto. Palavras que

imagem de escultura, nem semelhança alguma

: te encurvarás a elas',

já não mais querem dizer o que dizem". Com a aprovação da igreja os católi- cos podem fazer qualquer semelhança que desejarem, de coisas do céu ou da terra. Deus diz 'não. façam isso'; a Igreja Católica Romana diz que não é isso o

que Ele queria dizer. De modo que o significado claro e óbvio da Palavra de Deus não mais é claro e óbvio. Por quê? Por causa da tradição. Da mesma maneira, o católico romano mencionado anteriormente, que descobriu que a Bíblia ensina que a morte de Jesus pagou plena- mente a punição pelos nossos pecados, agora deve desconsiderar isso e crer na tradição da igreja católica, que ensina que ainda há a necessidade da purificação no purgatório. De modo que a declaração de que o Cor- deiro de Deus "tira o pecado do mundo" já não quer dizer o que diz.

dizem claramente 'não farás

do que há em cima no céu, nem embai-xo na terra, nem

45

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

Por quê? Porque a Igreja Católica Romana tem uma doutrina estabelecida que precisa ser defendida. Dessa maneira, o ensinamento da igreja tem preferência sobre as Escrituras.

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PROBLEMA DA TRADIÇÃO

A Igreja Católica Romana une as Escrituras e a tradição para defender

suas crenças e práticas e, outra vez, fala claramente sobre a sua posição:

Conseqüentemente, existe urna Íntima conexão e comuni-

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sagrada tradição e as Sagradas Escrituras formam um sagra-

do depósito da Palavra de Deus, que é confiado à Igreja

teste de interpretar de maneira autêntica a palavra de Deus, seja escrita seja transmitida, foi confiado exclusivamente à função de ensino da Igreja. Fica claro, portanto, que a sagra- da tradição e as Sagradas Escrituras, e a autoridade de ensino

da Igreja, em conformidade com o mais sábio desígnio de Deus, estão conectadas e unidas de tal formaque uma não pode existir sem as outras, e que todas juntas, e cada urna à sua própria maneira, sob a ação do único Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das alrnas. 3

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cação entre a sagrada tradição e as Sagradas Escrituras

P. 29 -A Igreja Católica Romana deriva todas as suas doutrinas unicamente da Bíblia? Não. Embora a maioria dos ensinamentos da igreja este- jam contidos na Bíblia, alguns não estão. 4

Combinar a tradição com a auto-suficiência das Escrituras é uma prá- tica perigosa e que repetidas vezes foi condenada por Jesus, durante todo o seu ministério. A prática da Igreja Católica Romana é similar àquela dos mestres religiosos judeus da época de Jesus que também davam grande importância à tradição.

O grande prejuízo da tradição é o fato de que ela impede as pes-

soas de ver Deus. A tradição, por estar baseada em falsidades, asse-

gura que as pessoas não tenham um relacionamento com Deus. Jesus deliberadamente violou as tradições religiosas da sua época, para

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A Palavra Jllva

expô-las como falsidades que eram. Um dos métodos que Ele usou para fazer isso foi realizar milagres no sábado. Para entender melhor 0 significado disso, examinemos o que as Escrituras dizem sobre o

sábado. O sábado foi dado aos judeus para comemorar a sua libertação do Egito (Dt 5.I5). Eles f?ram incumbidos de observar esse dia santo, abs- tendo-se do trabalho (Ex 20.8- I I). Durante séculos, as autoridades de ensino tinham elaborado uma longa lista do que era ou não permitido, considerando a observância do sábado. Essas regras eram consideradas como expressão da vontade de Deus e colocadas em vigor pelas autorida- des religiosas. Essas tradições foram elevadas ao mesmo patamar que as Escrituras. De modo que quando Jesus realizou milagres no sábado foi denunciado como um pecador, alguém que violava a lei de Deus, porque os seus milagres eram considerados um trabalho e não era permitido tra- balhar aos sábados. Mas Jesus realmente infringiu a lei de Deus ou v{olou a interpretação da lei elaborada pelos líderes judeus, que constituía a sua tradição? O que Ele infringiu foi uma tradição produzida pelo homem, que resultou em uma religião legalista e infeliz. As tradições, disse Jesus, "[carregamJ os homens com cargas difíceis de transportar" (Lc I 1.46). Quando Jesus, em um sábado, restaurou a perfeita saúde de um ho- mem, foi criticado e acusado de trabalhar em dia sagrado e, portanto, era um transgressor. As tradições judaicas, que os líderes religiosos conside- ravam no mesmo patamar que a lei de Deus, tinham sido infringidas. Mas Jesus não somente defendeu a sua ação através de seus milagres, mas mostrou aos seus acusadores por que eles eram incapazes de enxergar quem Ele era: Deus, o Filho, aquEle de quem falaram todos os profetas. Eles eram os teólogos da época, os professores instruídos que tinham estudado as Escrituras antigas. Eles deveriam ser os primeiros a reconhecê- lo, mas o apego às suas tradições tinha fixado suas mentes em concreto, não deixando espaço para a possibilidade de novo esclarecimento. "Examinais as Escrituras", disse-lhes Jesus, "são elas que de mim testificam"

Qo 5.39). Dois pontos se destacam aqui: Em primeiro lugar, esses líderes religiosos realmente estudavam as Escrituras, não uma vez ou outra, mas diligentemente. Em segundo lugar, as Escrituras que estudavam referiam-se a Jesus. E ainda assim eles não creram nEle! Eles tinham

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

as Escrituras e testemunhavam os seus milagres, mas permaneceram na incredulidade. Então Jesus disse: "Porque, se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim, porque de mim escreveu ele" (Jo 5.46). Esta é uma declaração surpreendente, porque esses líderes declara- vam ser discípulos de Moisés e ávidos leitores dos seus escritos CTora), e ainda assim não conseguiam ver que Jesus era o personagem cen- tral em todos os escritos de Moisés. O obstáculo que causava a sua cegueira era o apego às tradições religiosas. Jesus não era o que eles esperavam do Messias. O seu desapontamento não se baseava em nada que as Escrituras tivessem dito, mas nas expectativas que as suas tradições lhes tinham dado. A tradição tornou-se o padrão se- gundo o qual avaliavam a Jesus. Uma vez que as Escrituras, que é a norma, foram abandonadas, esses líderes estavam no caminho escor- regadio que conduzia a problemas. Outra ação de Cristo, que estava em conflito com a tradição, é visto no dia em que Ele devolveu a visão a um homem cego de nascença. O evento não foi marcado com uma celebração, mas com um clamor público. O milagre aconteceu em um sábado. As autoridades rapidamente proclama- ram: "Este homem não é de Deus, pois não guarda o sábado" (Jo 9.16). Eles conduziram um vasto interrogatório do homem cego e seus pais. este o vosso fJho", perguntaram, "que vós dizeis ter nascido cego? Como, pois, vê agora?" Cv. I 9). Assustados, os pais responderam: "Tem idade; perguntai-lho a ele mesmo, e ele falará por si mesmo" Cv. 21 ). Os pais responderam dessa maneira encabulada "porque temiam os judeus, por- quanto já os judeus tinham resolvido que, se alguém confessasse ser ele o Cristo, fosse expulso da sinagoga" Cv. 22). Ninguém podia negar que um milagre realmente tinha ocorrido, e o que as autoridades fariam sobre isso? Que declaração oficial divulgariam para aquietar as massas? Eles disseram:" sabemos que esse homem [JesusJ é peca- dor" Cv. 24 ). Para acrescentar um toque de respeitabilidade aos seus comen- tários, eles declararam: "Somos discípulos de Moisés. Nós bem sabemos que Deus falou a Moisés, mas este não sabemos de onde é" Cvv. 28,29). Quando o cego ouviu o que diziam, não somente seus olhos se abriram, mas também sua boca: "Nisto, pois, está a maravilha: que vós não saibais de onde ele é e me abrisse os olhos. Se este não fosse de Deus, nada poderia fazer. Tu és nascido todo em pecados e nos

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A Palavra Viva

ensinas a nós?", responderam, enquanto o expulsavam Cvv. 30,33,34). Ele foi excomungado! Por que os líderes religiosos não viram a evidência divina de Deus no milagre? As tradições os cegaram. Eles viam suas tradições como a von- tade de Deus, e não aceitavam a possibilidade de que elas pudessem simplesmente estar erradas. Mas o milagre que eles não podiam negar deveria tê-los feito considerar que, talvez, somente talvez, estivessem errados. Quando foram pressionados a oferecer uma explicação sobre como Jesus realizava seus milagres; prodígios. que não podiam negar, eles se abrigaram na crença perversa de que Cristo era aliado ao Diabo CMt 12.22-32). Outro ponto essencial a observar é o fato de que - diferentemente da tradição - a Bíblia é imutável. Por exemplo, enquanto ·crescia como cató- lico, lembro-me de que, antes de receber a sagrada comunhão em um domingo, era preciso jejuar a partir da meia-noite do sábado. Quebrar o jejum e receber a comunhão era um pecado. O mesmo se aplicava a comer carne às sextas-feiras. Era um pecado quebrar o nosso jejum de carne. Hoje em dia, essas regras não mais estão em vigor. Elas foram feitas pelos homens e foram removidas pelos homens, provando que não tinham vin- do de Deus. Mas nós aprendemos que infringir uma dessas leis era pecar contra Deus. Como alguma coisa poderia ser pecado ontem e deixar de ser hoje? Tenho visto o quanto a discussão a respeito de Jesus é relevante para a nossa época. Ao longo dos anos, freqüentemente comento as Escrituras com padres católicos romanos. Lembro-me de discutir diversas vezes com eles a maravilha da cruz de Cristo, e o que ela significa para nós: Na sua morte, Jesus pagou a penalidade completa .por todos os nossos pecados, e, como resultado, agora somos livres e nunca enfrentaremos a condenação. Até aqui, estávamos de acordo. Então perguntava: "Uma vez que a morte

de Jesus pagou a penalidade completa por todos os nossos pecados, por que existe a necessidade do purgatório?" Sem exceção, a resposta era: "Mas

a Igreja Católica Romana

Não importava o quão persuasivos fossem os meus argumentos extra- ídos da Bíblia; e muito menos que ela claramente revela que Jesus nos

perdoa completamente, que o purgatório contradiz o sacriflcio de Cristo.

A resposta sempre era a mesma: "Mas a Igreja Católica Romana diz

ensina :'

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I

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

Você consegue ver o que está acontecendo aqui? A evidência das Escri- turas, por mais convincente que seja, é rejeitada, a favor da tradição, que é baseada nos ensinamentos dos homens. O que Jesus disse sobre os judeus da sua época é aplicável também a grande parte dos ensinamentos católi- cos romanos: "[ElesJ ensinam doutrinas que são mandamentos de ho- mens. Porque, deixando o mandamento de Deus, retêm a tradição dos homens" (Me 7.7,8).

A TRADIÇÃO APOSTÓLICA

A Igreja Católica Romana tentou justificar o fato de aceitar a tradição, citando as palavras de Paulo à igreja de Tessalônica: "Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa" (2 Ts 2.I5). A Igreja Católica Romana diz que a instrução dada "por palavra" equivale à sua prática da tradição. Mas ela apóia a igreja? Vejamos se isso acontece. As explicações de John Stott, comentarista bíblico, são muito úteis:

"Estai firmes!" e

"Retende!" Ele parece retratar uma ventania, na qual eles cor- rem os riscos, tanto de perder o apoio dos pés quanto de serem puxados daquilo a que se agarram. Diante desse ven- daval, ele os incentiva a manter terreno, plantando os seus pés firmemente em terra firme, e agarrando-se a alguma coi-

sa sólida e segura, agarrando-a com força para conservar a vida. Os dois verbos são imperativos. Uma vez que a tempes- tade pode ser assoladora durante um longo tempo, eles de- vem proteger-se, mantendo-se firmes e agarrando-se firme-

mente.5

A exortação do apóstolo é dupla:

A instrução dada por Paulo, seja por palavra, seja por epístola, é autoritá- ria e obrigatória aos crentes. O que lhes deu a conhecer, "por palavra", não era a sua opinião, nem suas visões bem intencionadas, mas o que Deus lhe tinha revelado. Quando o apóstolo dos gentios chegou aTessalônica e falou, estava externando ao povo aquilo que Deus lhe tinha dado a conhecer. Ele disse: "Havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade) como palavra de

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A Palavra Mva

Deus, a qual também opera em vós, os que crestes" (I Ts 2.!3). Essa tradi- ção oral era a verdade revelada, dada a conhecer aos apóstolos, e não tem nenhuma semelhança com a tradição católica romana.

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O Uso QUE JEsus FAZ DAS EscRITURAS

A tradição, vista como um organismo crescente de fé, não tem apoio na Palavra de Deus. O fato de Deus dar a conhecer sua vontade por meio de duas fontes é desconhecido às Escrituras. Podemos ver como Jesus lidou com algumas das mais importantes questões da vida, apontando sempre exclusivamente para as Escrituras. Por exemplo, quando alguém lhe fez a importante pergunta: "Que farei para herdar a vida eterna?", Jesus deu uma resposta confiável: "Que está escrito na lei? Como lês?" (Lc 10.25,26). Ele apontou as Escrituras a quem lhe fazia a pergunta. Vale a pena considerar como a Igreja Católica Romana responderia a esta pergunta hoje. Ela indicaria as Escrituras ao investigador, ou diria que para conhecer a vontade de Deus é necessário ouvi-la? Sabemos que a indicação não seria somente às Escrituras, uma vez que a Igreja Católica Romana não acredita que toda a vontade de Deus esteja contida na Bíblia, mas que as Escrituras devem ser complementadas pelos ensinamentos da denominação. A imagem, diz ela, só é completa quando as Escrituras e a tradição são apresentadas juntas. Mas se a mesma pergunta fosse feita hoje a Jesus, certamente Ele não diria: "Você deve ouvir à Igreja Católica Romana". Em vez disso, Ele indicaria as Escrituras ao investigador, como o fez durante o seu ministério terreno. Em outra ocasião, Jesus contou uma história sobre dois homens; um rico e um outro que era mendigo. Chegou o dia em que os dois homens morreram e receberam sua recompensa. O pobre foi para o céu, e o rico se perdeu no inferno. Do seu lugar de tormento, implorou que alguém fosse falar com a sua família, e lhes dissesse como podiam evitar sua vinda ao mesmo lugar que ele. No entanto, seu zelo recém-descoberto pelo traba- lho missionário, na verdade, era desnecessário. "Eles têm Moisés e os Profetas", ouviu o rico, "ouçam-nos" (Lc I6.29). Embora a história contenha diversas lições importantes, a que tem maior interesse para nós é que o Senhor declarou que as Escrituras (Moisés e os Profetas) eram completamente suficientes para mos-

trar como viver para Deus. Jesus está nos ensinando que não há a

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

necessidade de que ninguém. da família se perca, basta apenas ouvir - e obedecer - ao que Deus está dizendo nas Escrituras. O proble- ma não é que Deus esteja em silêncio, mas que nós sejamos maus ouvintes. Urna discordância de longa data existia entre os fariseus e os saduceus, que ensinavam que não existe ressurreição. Jesus foi convocado para dar a resposta definitiva. Ele disse aos saduceus: "Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus" (Mt 22.29). O que Ele quis dizer: Se vocês soubessem o que dizem as Escrituras, não estariam fazendo uma pergunta como essa. Veja que uma vez mais Jesus não recorreu a nenhuma outra autoridade, além da Palavra. Um fariseu, que era um especialista na lei, aproximou-se de Jesus e perguntou: "Mestre, qual é o grande mandamento da lei?" Cristo respon- deu que amar a Deus e ao próximo representa o cumprimento da lei, e disse: "Desses dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas [refe- rindo-se às Escrituras]" (Mt 22.36,40). Não existe nada mais importante do que amar a Deus e ao nosso próximo, e as instruções sobre isso não estão na tradição, mas nas Escrituras, Há ainda mais um exemplo do uso que o Senhor faz exclusivamente das Escrituras; algo que ocorreu depois que Ele ressuscitou. Naquele do- mingo de Páscoa, Jesus se encontrou com dois de seus discípulos, no caminho para a cidade de Emaús. A sua morte tinha esvaziado toda a alegria de seus corações; suas esperanças estavam frustradas. Durante aquele tarde, Jesus revelou-se a eles, "E, começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras" (Lc 24.27). Deve ter sido um fabuloso estudo da Bíblia! Jesus teria citado todos os principais textos das Escrituras que se referiam à sua vinda, à sua obra de redenção, à sua ressurreição e à sua ascensão ao céu. Não é de admirar que os dois discípulos dissessem: "Porventura, não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho, nos falava e quando nos abria as Escrituras?" (v. 32). A propósito, antes da sua ascensão, Jesus disse aos seus discípulos "Convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, e nos Profetas, e nos Salmos" (Lc 24.44). Não é exagerada a afirmação de que Jesus não veio para cumprir a tradição, mas, em vez dela, as Escrituras.

A Palavra Jiíva

o Uso QUE os APósToLos FIZERAM DAs EscRITURAS

Os apóstolos seguiram os passos de Jesus, apegados unicamente às infalíveis Escrituras na sua obra que consistia em alcançar os perdidos e edi:ficar a Igreja. Com a vinda do Espírito Santo, as instruções do Senhor de ir por todo 0 mundo e pregar o evangelho tiveram seu início. O primeiro domingo de Pentecostes, depois da ressurreição, marca o nascimento da Igreja de Deus. Nesse dia, o Espírito veio/desceu e capacitou os apóstolos a pregar o evangelho, resultando na conversão de aproximadamente três mil pessoas (At 2.I-47). Os apóstolos defendiam a sua fé em Cristo, fazendo referên- cias às Escrituras, e a igreja continuava a instruir as pessoas naquilo que as Escrituras tinham a dizer. Desde o início, a igreja ensinava somente aquilo que era encontrado na Palavra de Deus, sem apelar à tradição. Estêvão, o primeiro mártir cristão, foi apedrejado até à morte pelos judeus, depois de examinar as Escrituras, em uma tentativa de mostrar aos seus perseguidores que Jesus era o Messias prometido, o Salvador da hu- manidade. Corno os apóstolos, o diácono ensinava somente com base nas Escrituras (At 7.1-60). À medida que piorava a perseguição contra os crentes, eles continuavam a transmitir o Evangelho: "Os que andavam dispersos iam por toda parte anunciando a palavra" (At 8.4). O que você acha que essas pessoas pregavam? Não podia ter nada a ver com a tradi- · ção, uma vez que tal organismo de fé não veio a existir, senão muito tem- po depois. O que estes crentes pregavam eram as Boas Novas de que Jesus Cristo era o Messias prometido, conforme as Escrituras prediziam. A evangelização se acelerou através da conversão de Saulo de Tarso, mais conhecido como o apóstolo Paulo. Homem dotado de um grande zelo por Deus e um grande amor pelos perdidos, Paulo foi bem-sucedido ao ampliar as fronteiras do Reino de Deus. Por meio de seus incansáveis esforços, muitas pessoas vieram a Cristo, e a igreja foi estabelecida em cidades por todo o mundo. O ponto de início da evangelização de Paulo era freqüentemente entre os seus colegas judeus, e a fonte da sua mensa- gem sempre eram as Escrituras. Certamente, qualquer igreja que reivindi- que ser a verdadeira igreja fundada por Cristo deve ter a mesma prática que Paulo: uma fidelidade firme e inabalável à autoridade das Escrituras. Ouça as palavras de Lucas, quando registrou a maneira como Paulo evangelizava: "Paulo, corno tinha por costume, foi ter com eles e, por três sábados, disputou com eles sobre as Escrituras, expondo e demonstrando

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

que convinha que o Cristo padecesse e ressuscitasse dos mortos. E este Jesus, que vos anuncio, dizia ele, é o Cristo" (At 17.2,3). Em outra oca- sião, é dito que Paulo "com grande veemência convencia publicamente os judeus, mostrando pelas Escrituras que Jesus era o Cristo" (At I8.28). Todas as evidências de Paulo vinham exclusivamente das Escrituras. Enquanto o apóstolo dos gentios estava em prisão domiciliar em Roma,

muitas pessoas vinham para saber sobre o Cristo que ele pregava. Como Paulo lidava com essas perguntas? Ele "declarava com bom testemunho o Reino de Deus e procurava persuadi-los à fé de Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas" (At 28.23). Em sua própria defesa, Paulo disse: "Permaneço, dando testemunho, tanto a pequenos como a grandes, não dizendo nada mais do que o que os profetas e Moisés disseram" (At 26.22). Em outras palavras, Paulo nunca foi além das Escrituras. Elas eram a sua única referência. Ele, que recebeu seu ministério por meio da revelação do próprio Jesus, não conhecia nenhuma fonte para seus ensinamentos que se parecesse com a tradição católica romana. A igreja está sendo fiel ao Senhor quando aponta as pessoas àquilo que é encon- trado nas Escrituras. Os de Beréia foram elogiados "porque de bom gra- do receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim" (At I7.II). Seria inconcebível pensar que Jesus veio e cumpriu tudo o que as Escri- turas tinham predito, e então subiu ao céu, sem deixar nenhum meio pelo qual o evangelho devesse ser proclamado a todo o mundo. Jesus incumbiu

o seu povo, a sua Igreja, de pregar as Boas Novas que Deus já tinha reve- lado e que formam as Sagradas Escrituras. Se havia algum grupo de pes- soas que sabia exatamente o que o Senhor desejava que fosse a sua Igreja, este grupo era o dos apóstolos, uma vez que estavam com Ele desde o início. Como eles viram a igreja cumprindo o seu papel de ensino no mundo? Os escritos apostólicos mostram que a igreja nunca se manteve como uma autoridade que devia ser obedecida, mas sempre apontou para

a autoridade definitiva -

as infalíveis Escrituras.

QuEM INTERPRETA AS ESCRITURAS?

A Igreja Católica Romana ensina que detém a autoridade- dada por Jesus -de interpretar as Escrituras; portanto, o que ela ensina sempre é correto. "

a interpretação das Escrituras está, afinal de contas, sujeita ao julgamento da

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A Palavra litva

igreja, que exerce a comissão conferida divinamente e o ministério de proteger

e interpretar a Palavra de Deus" (I I9). Um indivíduo não pode interpretar as

Escrituras; esta é a função do Magísteríum. Afinal, Pedro disse: "sabendo pri-

meiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpre- tação" (2 Pe 1.20). Mas esse versículo apóia a posição católica romana que proíbe a interpretação privada? Vamos examinar o contexto. No capítulo I 7 de Mateus, lemos que Jesus levou Pedro, Tiago e João a um alto monte. Ali os três discípulos viram o Senhor com Moisés e Elias:

"E transfigurou-se diante deles; e o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes se tornaram brancas como a luz" (v. 2). Posteriormente, Pedro referiu-se a esse acontecimento, para apoiar a sua crença de que Jesus é o Filho de Deus. Ele estava escrevendo em resposta a alguns que negavam essa verdade: "Não vos fizemos saber a virtude e a vinda de ~ossoSenhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas, mas nós mesmos vimos

a sua majestade, porquanto ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando

da magnífica glória lhe foi dirigida a seguinte voz: Este é o meu Filho ama- do, em quem me tenho comprazido. E ouvimos esta voz dirigida do céu, estando nós com ele no monte santo" (2 Pe I.I6-I8). Pedro estava dando um testemunho ocular para apoiar a sua opinião de que Jesus é o Filho de Deus. Ele também invocou o testemunho dos antigos profetas que tinham predito a vinda de Cristo com precisão minuciosa. Séculos antes do primeiro advento de Jesus, os profetas tinham dito que Ele nasceria de uma virgem, em Belém, seria traído e vendido por trinta moedas de prata, crucificado entre dois salteadores e ressuscitaria dos mortos. Como podiam escrever sobre eventos que ainda não tinham ocorrido? Pedro expli- cou: "Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo" (2 Pe I.2I). A fonte da informação dos profetas não eram eles mesmos; não era "de interpretação particular do profeta", mas do Espírito Santo. A reivindicação dos católicos romanos de que não é responsabilidade de ninguém, exceto de sua igreja, interpretar as Escrituras, não encontra ne- nhum apoio nas palavras de Pedro. O catolicismo declara que se não existir autoridade para interpretar as Escrituras, isso deixa a porta aberta para que as pessoas introduzam todas as heresias possíveis. Essa afirmação não levará

à confUsão das massas e a uma variedade de crenças conflitantes? Sim, se não houvesse uma maneira adequada para interpretar as Escrituras.

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

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COMO INTERPRETAR AS ESCRITURAS

A Igreja Católica Romana ensina que somente ela pode interpretar correta- mente as Escrituras. Isso a coloca como a autoridade à qual as pessoas devem ouvir, e não as Escrituras. Sim, a Bíblia pode ser lida pelo seu valor religioso, mas interpretá-la é fUnção da igreja. Mas é válido que a ela faça tal afirmação? Quero apresentar algumas diretrizes que servem de padrão para o de- senvolvimento das habilidades necessárias de olhar qualquer passagem da Bíblia e extrair o significado correto. Não é necessário dizer que Deus nos deu a sua Palavra com a intenção expressa de que ela fosse compreendida. Existe um procedimento correto para seguir, para se compreender as Escrituras. Se, po·r exemplo, você esti- ver lendo uma das epístolas, poderá se perguntar:

• A quem esse livro foi escrito?

• Com que objetivo essa carta foi escrita?

• Qual é o contexto que envolve um versículo particular das Escritu- ras?

• Como o destinatário da carta teria entendido o texto?

• Qual o significado óbvio do te:<to?

• A minha interpretação está em harmonia com o restante das Escri-

turas?

• Esse te.'<tO foi escrito com uma cultura particular em mente? • O que o autor pretendia que esse te.uo significasse?

Isso é examinar um texto em seu contexto. Parece muito simples, mas se e.'Carninarmos um texto em seu contexto é possível chegar a um entendimento correto. Todos os tipos de ensinamentos estranhos seriam evitados, bastava que jsso fosse praticado. Além do mais, devemos abordar o texto não com nossas opiniões pré-concebidas, mas com um coração aberto à orientação do Espírito Santo.

UMA IGREJA QUE ENSINA

Que provisão fez Jesus para assegurar que aqueles que adotam a fé cristã fossem levados à maturidade espiritual? Da mesma maneira como a Igreja foi encarregada de ensinar o evangelho aos perdidos, também é responsável em ser o veículo pelo qual Jesus atende às necessidades do seu povo. Cristo deu à

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A Palavra VIva

igreja dons que são necessários para o seu sustento. Esses dons têm a finalida- de de ensinar, são praticados por apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores. É por meio do seu ministério que o povo de Deus é levado à matu- ridade em Cristo Jesus (Ef 4.II-I6). Os apóstolos e profetas tiveram um ministério exclusivo na igreja; foi por intermédio deles que toda a vontade de Deus foi revelada. Os primeiros cris- tãos "perseveravam na doutrina dos apóstolos" (At 2.42). Os ensinamentos revelados aos apóstolos pelo Espírito Santo formam o fUndamento sobre o qual a Igreja é edificada em cada geração (Ef 2.20;_ 3.5). Uma vez que os apóstolos não viveriam para sempre, Deus fez provisões para que os seus ensinamentos estivessem permanentemente preservados no Novo Testamento. Quando surgiram os escritos dos apóstolos e profetas, a igreja os considerou sagrados, assim como tinha considerado os escritos de Moisés, Davi, Isaías, Jeremias e outros. O mesmo Espírito Santo que tinha revelado a vontade de Deus aos apóstolos também os guiava no registro das Escrituras: "Toda a Escritura é inspirada por Deus" (2 Tm 3.16, ARA). Por serem confiáveis, os livros do Novo Testamento, tendo sido produzidos pelo Espírito Santo, foram aceitos pela Igreja e receberam o mesmo status que os livros do Antigo Testamento. Também eles eram lidos em público, quando a igreja se reunia (veja Cl4.I6; Ap I.II,I9,20; cf Lc 4.I6,I7; At 13.15). Os evangelistas e pastores são professores talentosos que o Senhor continu- amente fornece à sua Igreja. Por meio deles, o Senhor ajuda o seu povo.Timó- teo foi um evangelista usado por Deus em um ministério muito frutífero à igreja. Por exemplo, quando a igreja de Corinto enfrentava problemas, foi Timóteo que Paulo enviou para instruí-los nas coisas que lhes tinha ensinado anteriormente (I Co 4.I7). A obra realizada por Timóteo foi ordenada por Deus, e Paulo lem?rou à igreja de Corinto: Timóteo "trabalha na obra do Senhor, como eu também" (I Co I6.IO). A obra do Senhor pela sua igreja hoje ainda é realizada por aqueles a quem chamou para que fossem evangelistas. Os pastores também recebem dons para ensinar a igreja e têm a responsa- bilidade de cuidar do povo que Deus colocou sob seus cuidados. Da mesma maneira como um pastor cuida do seu rebanho, também pesa sobre ele a responsabilidade de cuidar das ovelhas de Deus, e hão de dar conta delas ao Senhor pelo seu ministério pastoral (Hb 13.17; I Pe 5.1-4). É fUnção dos evangelistas e pastores exercerem os seus dons de ensino de modo que o povo de Deus não permaneça em urna condição desfavorável como

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Respostas às Perguntas que os Católicos Cosrumam Fazer

"meninos inconstantes, levados em roda por todo vento de doutrina, pelo enga- no dos homens que, com astúcia, enganam fraudulosamente" (Ef 4.14).

CoNFIANÇA E DEPENDÊNCIA ExcLUSIVA DA PALAVRA DE DEUS

O papel da igreja sempre foi, e continua a ser, falar por Deus, a partir da sua Palavra. Isso requer uma vida de estudo diligente das Escrituras e ora- ções fervorosas a Deus por orientação e sabedoria. Somente quando o ensinamento da igreja é obtido dentro dos limites da Palavra escrita de Deus, a igreja está falando com a autoridade de Deus. Os ensinamentos da Igreja Católica Romana nunca poderiam ser reprodu- zidos somente das Escrituras, pois, pela sua própria admissão, grande parte da fé católica romana é obtida tanto da Bíblia quanto dos ensinamentos da igreja. Não tenho a intenção de ser desrespeitoso quando digo isso, mas preciso declarar claramente que ninguém jamais pode se tornar um católico romano seguindo somente o que .a Bíblia ensina. É necessário possuir os ensm"~entos extra-bíblicos- e, às vezes, anti-bíblicos- da Igreja Católica Romana para ser um católico romano. Mas quando a tradição é introduzida no mesmo pata- mar que a Palavra de Deus, é inevitável uma colisão. Somente as Escrituras revelam a vontade de Deus para o seu povo. A Igreja é fiel quando proclama o que dizem as Escrituras. A Igreja sempre deve ter em mente as palavras de Jesus: "A Escritura não pode ser anulada" 0o I 0.35).

PERGUNTAS E-RESP-OSTAS

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A tradição da igreja pode ter preferência sobre as Escrituras?

Nunca. Jesus disse que a Escritura não pode ser anulada; em outras palavras, aquilo que a Palavra de Deus diz deve ser obedecido. Tudo em

que cremos e praticamos deve estar baseado naquilo que somente a

Bíblia diz. 11 Se permitirmos que indivíduos "não autorizados" interpre- tem as Escrituras, isso não deixaria a porta aberta para a exis- tência de todos os tipos de erros?

A Igreja Católica Romana afirma que ela é a intérprete infalível das

Escrituras; dessa maneira, coloca-se acima das Escrituras. Ainda as-

DI

A Palavra liíva

sim, existem métodos aceitos que nos capacitam a interpretar corre-

tamente o Livro Sagrado, e até mesmo a própria Bíblia encoraja seus

que manejam bem a palavra da verda-

leitores a que sejam "obreiros

de" (2 Tm 2.15).

a

I

A interpretação das Escrituras feita pela Igreja Católica Romana

não nos fornece o entendimento correto?

Infelizmente, a resposta é não. A Igreja Católica Romana vem

às Escrituras já com a mentalidade de que nem toda a verdade

está contida na Bíblia, mas uma parte da verdade está também

contida na em sua tradição. É por isso que ela lê sobre os irmãos e as irmãs de Jesus e diz que eram primos dEle, embora

as Escrituras declarem de modo explícito que eram irmãos e

irmãs. Uma vez que a tradição romanista afirma que Maria permaneceu virgem durante toda a sua vida, a igreja católica é forçada a desc.artar ou "justificar habilmente" o fato de que

Jesus tivesse irmãos e irmãs.

Em sua epístola, Pedro não proíbe a interpretação particular das Escrituras? As palavras de Pedro no capítulo I e versículos 20 e 21 foram astuciosamente tiradas do contexto pela Igreja Católica Romana, em seu esforço para se estabelecer como a única autoridade que pode interpretar as Escrituras. Nosso comentário sobre as palavras de Pedro mostra que o apóstolo está ensinando que Jesus é o Filho de Deus e oferecendo o cumprimento das profecias como prova. De que outra maneira os profetas poderiam ter predito, com tal exatidão, eventos que ocorreriam séculos mais tarde se não tivessem sido guiados pelo Espírito Santo? Era isso que Pedro queria dizer. As profecias devem a sua origem não à interpretação do homem, mas ao Espírito Santo.

11 Alguma vez Jesus apoiou o tipo de tradição praticada na Igreja Católica Romana? Não. Até porque a igreja romana sequer existia. Durante todo o seu ministério, Jesus esteve em rota de colisão com as autoridades religi- osas de sua época, por causa das tradições que eram inventadas

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

pelos homens e que estavam impedindo que o povo enxergasse quem Ele era. O seu conjunto de tradições religiosas tornou-se o padrão pelo qual avaliavam tudo, e como Jesus não endossava as suas tradi- ções, eles o rejeitavam. A tradição católica romana em nada difere da que Jesus encontrou e rejeitou.

11 Por que devemos ouvir somente o que as Escrituras têm a dizer?

A Bíblia é a Palavra inspirada de Deus (2 Trn 3.I6,I7). Ela contém a

vontade do Senhor para a humanidade. Jesus veio para cumprir as Escrituras, e não a tradição. Não existe exemplo de tr.adição oral que Jesus tenha vindo cumprir. Além disso, Ele sempre indicou ao seu

povo as Escrituras, quando respondia às suas perguntas. E era prática apostólica fazer a mesma coisa.

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N~oé verdade que a Igreja Católica Romana é uma organização que ensina e, portanto, devemos ouvir o que ela tem a dizer?

A

Igreja Católica Romana se apresenta corno urna igreja que ensina, e

o

que ensina é obrigatório aos seus membros. Mas a Bíblia apresenta

uma imagem muito diferente da verdadeira Igreja: o Corpo de Cristo,

de fato, é urna Igreja que ensiná, é verdade, mas ensina somente o que

dizem as Escrituras, pois não pode contradizer a Palavra inspirada de

Deus. Já as igrejas locais (a qual a Igreja Católica Romana, suposta- mente é uma) não são autoridades que estão no mesmo nível, que dirá acima, da Bíblia.

Quem ensina a Igreja?

Deus forneceu pessoas dotadas à Igreja, sob a forma de evangelistas, pastores e doutores (Ef 4.II-I6). Através de seus ministérios, eles ensinam com o objetivo de educar os crentes e conduzi-los à matu- ridade em Cristo Jesus. A fonte da qual extraem seus ensinamentos

é a Palavra de Deus.

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N. do E.: Na igreja católica, exercício da autoridade de ensinar, ligada ao episcopado ou ao supremo pontificado.

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SoBRE ESTA PEDRA

A Igreja Católica Romana durante muito tempo afirmou que Jesus fez de Pedro e dos seus sucessores os líderes da Igreja na terra, e que pelo Magisterium a voz de Deus é ouvida. Mas essa afirmação está de acordo com as evidências oferecidas pelas Escrituras e pela história da Igreja Pri- mitiva? Um exame dos fatos revela que o papado, como é conhecido hoje, desenvolveu-se ao longo de muitos séculos; sua origem não pode ser en- contrada na Bíblia. Tampouco a história da Igreja Primitiva suporta uma origem tão antiga do cargo de papa. Um estudo desse assunto é impor- tante por causa do que está sendo afirmado. Diferentes dos cristãos evangélicos, que estão muito familiarizados com as Escrituras e as citam constantemente, os católicos romanos, em geral, não têm grande conhecimento das Escrituras. Mas urna passagem da Bíblia que todos os católicos sabem citar: 'Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja" (Mt I 6.18). O entendimento católico dessas palavras é que Jesus indicou Pedro como líder da Igreja, o primeiro bispo de Roma, com urna provisão para que um sucessor fosse indicado. Essa sucessão, supostamente, foi passada a cada bispo de Roma, em urna cadeia ininterrupta, desde a época de Pedro, a quem se diz que foi dada jurisdi~o universal sobre toda a igreja. Em questões de fé e moral, os católicos defendem que Pedro e seus sucessores falam de modo infalí- vel; e são incapazes de errar quando afirmam ex cathedra.

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

Agora, é verdade que Pedro se destacava entre os apóstolos. Seu nome aparece freqüentemente no Novo Testamento. Na verdade, ele aparece em primeiro lugar, em todas as listas dos apóstolos. Pedro pertencia àquele círculo mais fechado de pessoas que trabalhavam mais próximas a Jesus. Juntamente com Tiago e João, ele testemunhou a transfiguração do Se- nhor, e ouviu o Pai confirmando a Jesus como seu Filho. Em diversas ocasiões, Pedro foi o porta-voz apostólico. Foi o primeiro a pregar o evangelho aos judeus, e mais tarde aos gentios, e escreveu duas das epísto- las do Novo Testamento. Desse modo, não é possível negar sua proemi- nência. No entanto, existe uma diferença entre proeminência e primazia. Pri- mazia é o que a Igreja Católica Romana reivindica para Pedro, no seu ensinamento oficial sobre este tema:

O Senhor fez de São Pedro a fundação visível da sua igreja. Ele confiou a ele as chaves da Igreja. O bispo da Igreja de Roma, sucessor de São Pedro, é "chefe do colégio dos bispos, o Vigário de Cristo e Pastor da Igreja universal na terra". [936]

Para que a missão confiada a eles pudesse ter continuidade depois da sua morte, [os apóstolosJ confiaram, por testamento,

de certa forma, a seus colaboradores imediatos, a tarefa de com- pletar e consolidar a obra que tinham começado, incentivando-os

a cuidar de todo o rebanho, do qual o Espírito Santo os tinha nomeado como pastores - a Igreja de Deus. De modo apropria- do, eles nomearam tais homens, e então criaram a regra que, da mesma maneira, na sua morte, outros homens aprovados pudes- sem assumir o seu ministério. [86 I J

Da mesma maneira como o cargo que o Senhor confiou so- mente a Pedro - como o primeiro dos apóstolos - estava destina- do a ser transmitido aos seus sucessores sendo um cargo perma- nente, esse cargo também investe os apóstolos que o receberam

da tarefa de cuidar da Igreja, uma tarefa destinada a ser exercida sem interrupções pela ordem sagrada dos bispos. Dessa maneira,

a igreja ensina que "os bispos, por instituição divina, tomaram o lugar dos apóstolos como pastores da Igreja, de tal modo que

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Sobre esta Pedra

quem quer que os ouça estará ouvindo a Cristo, e quem quer que os despreze estará desprezando a Cristo, bem como aquEle que enviou a Cristo". [862]

A igreja católica interpretou corretamente as palavras de Jesus a Pedro? Tudo o que eles reivindicam para o papado pode ser encontrado em Mateus 16.18? O que nos ensina o contexto da passagem? A regra de ouro, quan- do se interpreta uma passagem das Escrituras, é examinar o texto no seu contexto. Isso assegura que o texto revele o seu verdadeiro significado, e ajuda a nos impedir de anexar ao texto um significado que não está ali. Leiamos toda a seção das Escrituras que a Igreja Católica Romana afirma suportar o cargo do papa:

E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interro- gou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do Homem? E eles disseram: Uns, João Batista; ou- tros, Elias, e outros, Jeremias ou um dos profetas. Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou? E Simão Pedro, respon- dendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai, que está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do Reino dos céus, e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desliga- do nos céus (Mt I6.I3-I9).

QUEM É VOCÊ?

Pelo contexto, devemos nos lembrar que o ministério de Jesus causou grande controvérsia entre os líderes religiosos j~deus.Os ensinamentos e as práticas de Jesus colidiram com as tradições dos líderes religiosos, as quais consideravam como uma expressão da vontade de Deus. Jesus tinha !liDa grande aceitação entre as pessoas comuns, que viam a clara possibiliélade de

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

que Ele fosse o Messias prometido. Embora as autoridades se opusessem a Ele e o denunciassem em todas as oportunidades, não podiam descartá-lo inteiramente. Afinal, não podiam negar os seus milagres, e os seus ensinamentos tinham certo sabor de verdade. Tudo isso levou à controvérsia que rodeava a identidade de Jesus; as opiniões sobre quem Ele era estavam em constante modificação. Jesus estava ciente disso, quando perguntou aos seus apóstolos quem as pessoas diziam que Ele era. A resposta dos apóstolos mostrou a extensão da espe- culação a respeito de sua identidade. É Ele João Batista, Elias, Jeremias, ou algum outro profeta? Quem é Ele? Pedro respondeu à pergunta do Se- nhor, proclamando: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo". Essa é uma declaração surpreendente. Pedro tinha declarado que Jesus era o Ungido de Deus, aquEle que é, na verdade, Deus. Jesus, então, disse

a Pedro que as suas palavras não eram o resultado da especulação humana,

mas que vinham a ele por meio d? revelação do Pai. Em resposta, Jesus declarou: 'Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja". Qual é a pedra sobre a qual a igreja é edificada? É Pedro, ou é a revela- ção que o Pai tinha dado a conhecer a Pedro - especificamente, que Jesus

é o Filho de Deus? Vamos entender isso. O propósito para o qual Jesus veio ao mundo foi salvar pecadores. Ele mesmo disse: "O Filho do Ho- mem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida em resgate de muitos" (Mt 20.28). E, "o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido" (Lc 19.10). Para que os perdidos sejam salvos, precisam crer que Jesus é o Filho do Deus vivo. Esta é a fundação,

a rocha sólida sobre a qual a Igreja é edificada. Não podemos separar os comentários do Senhor, sobre a edificação da sua Igreja, daquilo que o Pai revelou a Pedro; fazer isso, é ignorar comple- tamente o contexto, e distorcer o que Jesus estava dizendo. A rocha sobre

a qual a Igreja é edificada não é Pedro, mas o que o Pai dá a conhecer a

Pedro. As referências a Deus como uma rocha são comuns nas Escrituras, e Jesus estava perfeitamente familiarizado com esses textos: "Quem é Deus senão o Senhor? E quem é rochedo senão o nosso Deus? (SI I8.3I). "Há outro Deus além de mim? Não! Não há outra Rocha que eu conheça" (Is 44.8). "Não há santo como é o Senhor; porque não há outro fora de ti; e rocha nenhuma há como o nosso Deus" (I Sm 2.2). Esses textos retratam um Deus soberano que é como uma rocha: forte, estável, confiável e uma

Sobre esta Pedra

fundação sólida para a fé de todos. Uma vez que Jesus é Deus, o Filho, a

segunda Pessoa da Trindade,

da expressão "sobre esta pedra" referindo-se à verdade de que Ele é o Filho do Deus vivo. O apóstolo referiu-se a Cristo como uma rocha, di-

não devemos nos surpreender com o seu uso

zendo "a pedra era Cristo" (I Co 10.4). William Webster observou,

O Concílio Vaticano I afirma que a interpretação católica romana

de Mateus I6.I8,I9 tem sido mantida universalmente por toda a igreja, e que pode apelar ao consentimento unânime dos Pais (ou Patriarcas). No entanto, os primeiros Pais tinham opiniões e inter- pretações muito variadas sobre Mateus I6.I8,I9. Alguns dizem que a "pedra" significa Cristo; outros, que significa Pedro; e outros, que significa a confissão que Pedro faz de Cristo. Nenhum Patriarca dos dois primeiros séculos pode ser citado corno apoiando a interpreta- ção católica romana de Mateus I6.I8. Eles se calam quanto à inter- pretação da "pedra", e a esmagadora maioria dos Patriarcas, em to- das as épocas (Agostinho, Tertuliano, Cipriano, Crisóstorno, Ambrósio, Jerônimo, Basílio o Grande, Hilário de Poitiers, Cirilo de Alexandria, Atanásio, Ambrosiaster, Paciano, Epifânio, Afraates, Efraim, John Cassian,Teodoreto, Eusébio, Gregório o Grande, Isidoro de Sevilha, João de Damasco e muitos outros), discorda da interpre- tação católica romana de Mateus I 6. I 8. A grande maioria dos Patri- arcas não reconhece as prerrogativas pessoais de Pedro, como sendo transferidas de uma maneira pessoal ao bispo de Roma, tornando-o, desta maneira, o líder da igreja. 1

Pedro nunca acr~ditouser a pedra sobre a qual Jesus edificaria a sua Igreja. Na verdade, os seus ensinamentos, juntamente com os dos outros apóstolos, contradizem a noção de que Pedro é a pedra sobre a qual a Igreja é edificada. Por exemplo, quando Pedro proclamou as Boas Novas a respeito de Jesus aos judeus, disse que a rejeição do Mestre como o Mes- sias por parte deles tinha sido predita nas Escrituras. Ele disse que Jesus era a pedra que foi rejeitada pelos edificadores, e que essa pedra rejeitada agora era a pedra angular do edifício, neste caso, a igreja. "Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de

r

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

esquina" (At 4.IO,Il). E na sua primeira epístola, Pedro disse que Jesus

era "a pedr"a :

Chegando-vos para ele, a pedra viva, reprovada, na verda- de, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecerdes sacrifícios espirituais, agra- dáveis a Deus, por Jesus Cristo. Pelo que também na Escritu- ra se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confi.m- dido. E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, a pedra que os edificadores reprovaram, essa foi a principal da esquina; e uma pedra de tropeço e rocha de es- cândalo, para aqueles que tropeçam na palavra (I Pe 2.4-8).

O testemunho das Escrituras confirma que a pedra sobre a qual a Igreja é edificada não é Pedro, mas Jesus. Paulo explicou isso na carta aos efésios, quando falou sobre a Igreja. Ele assegurou aos convertidos gentios: "Já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos Santos e da família de Deus; edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício, bem

ajustado, cresce para templo santo no Senhor, no qual também vós junta-

mente sois edificados para morada de Deus no Espírito" (Ef 2.I9-22). Em outra passagem, Paulo escreveu: "Ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo" (I Co 3.I I). Assim, a afirmação da Igreja Católica Romana de que Pedro é a pedra sobre a qual a Igreja é edificada não é aceita pelos apóstolos, nem por muitos dos Pais da Igreja Primitiva. Nem havia um consenso entre os patriarcas da Igreja Primi- tiva sobre a interpretação de Mateus I6.I8. O arcebispo Kentick de St. Louis,

issouri, M

nunca foi lida, mas foi posteriormente publicada. Nela, ele resume as cinco interpretações dos patriarcas da igreja: I7 patriarcas entenderam que a pedra era Pedro; 8 entenderam que eram os apóstolos; 44 (incluindo Orígenes e Crisóstomo) julgaram que se tratava da confissão de fé de Pedro em Cristo; I 6 (incluindo Agostinho, Jerônimo e aquele que mais tarde foi o papa Gregório, o Grande) o próprio Senhor Jesus Cristo; e alguns entenderam que se tratava dos crentes em geral. Kentick concluiu: "Se seguirmos a maioria dos patriarcas nesse

preparou uma palestra para o Concílio Vaticano I, em I870, que

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Sobre esta Pedra

assunto, seremos levados a aceitar que como 'a pedra' devemos entender a fé professada por Pedro, e não Pedro professando a fé'?

Eu EDIFICAREI A MINHA IGREJA

Tendo estabelecido que a divindade de Jesus é a rocha sobre a qual a Igreja é edificada, precisamos perguntar: "Como Jesus edifica a sua Igre- ja?" Vamos começar do princípio. Ele edifica a sua Igreja salvando as pes- soas dos seus pecados, adotando-as na sua família e tornando-as mem- bros do seu corpo, que é a Igreja. A edificação da Igreja é obra do próprio Senhor; à medida que os apóstolos pregavam o evangelho, "todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar" (At 2.47). Jesus continua edificando a sua Igreja ainda hoje, salvando os perdidos, pelo poder do evangelho.

As Portas do Iriferno

Depois de dizer que edificaria a sua Igreja, Jesus disse: "as portas do inferno não prevalecerão contra ela". A Igreja Católica Romana entende que essa afirmação significa que Jesus estaria com Pedro e seus sucessores para sempre, e que tudo o que a Igreja Católica Romana ensina sobre o oficio papal permaneceria intacto por todos os tempos. "Cristo, a 'pedra viva': isso assegura à sua igreja, edificada sobre Pedro, a vitória sobre os poderes da morte" [552]. Foi isso que Jesus quis dizer? Creio que não. Tal interpretação não faz justiça ao contexto das palavras do nosso Senhor. Jesus não se referia à Igreja, mas à sua morte iminente. Ele estava dizendo que nem mesmo a morte impediria sua missão redentora. Ele triunfaria sobre a morte e realizaria o que tinha se disposto a fazer. "[Eu souJ o que vive", disse Jesus. "Fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém! E tenho as chaves da morte e do inferno" (Ap I.I8). Jesus veio "para que, pela morte, aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo, e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão" (Hb 2. I 4,1 5). Graças à vitória de Jesus sobre a morte, agora é possível que as pessoas sejam salvas, e façam parte do Corpo de Cristo. Como Paulo, a Igreja pode dizer, "graças a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo" (I Co I5.57). As portas do inferno

Respostas às Perguntas que os Católicos Costtmlam Fazer

não prevaleceram contra Jesus, quando Ele morreu. E é sobre isso que o Mestre estava falando em Mateus I6.I8.

I.

I

As Chaves do Reino

A nem um dos outros apóstolos, mas somente a Pedro, Jesus disse: "E eu te darei as chaves do Reino dos céus" (v. I 9). Essa é uma honra singular e excepcional. Assim a Igreja Católica Romana interpreta as palavras de Jesus: "Jesus confiou uma autoridade específica a Pedro: E Eu te darei as

O poder das chaves designa autoridade para

governar a casa de Deus, que é a igreja". [553] Não estou tentando criar uma caricatura de Pedro quando digo isso, mas não consigo crer, nem por um momento, que depois de ouvir as palavras de Jesus Pedro tivesse concluído: "Fui indicado como líder da Igreja na terra e todas as decisões de fé e moral serão tomadas por mim, com a colaboração de bispos e cardeais, e aquilo que eu disser será infalí- vel. Além disso, esta nomeação será transmitida aos meus sucessores até o final dos tempos". Não há nada nas palavras de Jesus, nem no Novo Testamento inteiro, nem nos textos da Igreja Primitiva, que fundamentem

a interpretação católica romana de Mateus I6.I8. A Igreja Católica Ro- mana criou um problema, lendo nas palavras de Jesus alguma coisa que não está ali. As palavras de Jesus são simbólicas. Ele não deu a Pedro um conjunto literal de chaves. Os comentários do Senhor aos líderes religiosos, em Lucas I 1.52, mostram um uso similar de linguagem simbólica: "Ai de vós, doutores da lei, que tirastes a chave da ciência! Vós mesmos não entrastes e impedistes os que entravam" (Lc I 1.52). A "chave da ciência" não era um objeto metálico, mas uma verdade pertinente à entrada do reino. Os líderes religiosos estavam impedindo aqueles que quisessem en- trar. Elés estavam impedindo, ou seja, vetando às pessoas comuns, com a retenção da "chave da ciência"- o indispensável para conhecer a verdade. Assim, o que Jesus quis dizer quando disse que daria a Pedro "as chaves do reino"? Para descobrir a resposta, nós devemos, em primeiro lugar, fazer outras perguntas:

Em primeiro lugar, o que simbolizam as chaves? Autoridade. Po- der. Vemos isso na maneira como Jesus fala das chaves. O apóstolo

chaves do Reino dos céus

:

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Sobre esta Pedra

João teve uma visão maravilhosa do Cristo ressuscitado que o dei- xou "como morto" (Ap l.I7). Jesus, então, disse a João: "Não te- mas; eu sou o Primeiro e o Último e o que vive; fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém! E tenho as chaves da morte e do inferno" (Ap l.I8). Aquele que tem as "chaves" da mor- te e do inferno tem poder e autoridade sobre a morte. O túmulo já não mais retém as suas vítimas, por causa da ressurreição. Jesus des- piu a morte do seu poder. Em segundo lugar, para que são usadas as chaves? Para permitir-nos acesso a lugares que estão fechados. Quando Jesus deu a Pedro as chaves do Reino de Deus, Ele lhe deu a verdade -, isto é, a mensagem que abre o ·

caminho para o Reino do céu.

Em terceiro lugar, como Pedro usou essas chaves? No dia de Pen- tecostes, Pedro recebeu poder do Espírito, e pregou para uma gran- de multidão. "A esse Jesus", disse Pedro, "a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo" (At 2.36). Convencido pelo Espírito Santo do seu terrível crime, o povo perguntou a Pedro e aos demais apóstolos: "Que faremos, varões irmãos?" (v. 37). Pedro lhes disse que se arrependessem e fossem batizados - e milhares foram acres- centados à Igreja naquele dia. Pregando o evangelho, Pedro abriu o caminho ao Reino do céu. Em quarto lugar, Pedro foi o primeiro a pregar o evangelho aos genti- os, abrindo-lhes, dessa maneira, o caminho ao Reino do céu (At I 0- I I). As mesmas "chaves" que deixariam entrar os judeus, também deixariam entrar os gentios. Recordando esse evento, Pedro diz: "Deus me elegeu dentre vós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do evangelho e cressem" (At I5.7). Ele tinha recebido autoridade de Jesus para proclamar o evangelho, abrindo assim o Reino do céu. Diferente- mente do que fizeram os doutores da lei.

Ligar e Desligar

Depois de dar a Pedro as chaves do Reino do céu, Jesus lhe disse: "tudo

o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus" (Mt I 6.19). Sobre isso, o catecismo católico tem

a dizer o seguinte:

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i

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

Ao transmitir aos apóstolos o seu poder de perdoar peca- dos, o Senhor também lhes dá autoridade para reconciliar os pecadores com a igreja. Essa dimensão eclesiástica da sua ta- refa é expressa de maneira notável nas palavras solenes de Cristo a Simão Pedro: "E eu te darei as chaves do Reino dos céus, e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus". A tarefa de ligar e desligar, que foi dada a Pedro, também foi atribuída ao colégio dos apóstolos, unidos sob a sua liderança. [I 444J

As palavras ligar e desligar significam: aquele a quem você excluir da sua comunhão, será excluído da comunhão com Deus; aquele a quem você receber outra vez na sua comu- nhão, Deus receberá de volta na dEle. A reconciliação com a igreja é inseparável da reconciliação com Deus. [I 445]

Não se faz justiça às palavras de Jesus, ao ignorar o contexto e concluir que o Mestre deu a Pedro autoridade suprema sobre toda a Igreja. Tal conclusão é incorreta. A autoridade de ligar e desligar deve ser considera- da à luz de outros textos da Palavra de Deus. Portanto, nós prosseguire- mos com aquela prática há tanto tempo honrada, de comparar as Escritu- ras com as próprias Escrituras. Aquilo que Jesus disse a Pedro, sobre ligar e desligar, também disse aos outros discípulos, em outra ocasião. Ali, Jesus estava dando instruções para lidar com o pecado que rompe a comunhão dos crentes. A pessoa que peca- va e causava o problema devia ser confrontada em particular, e se não se arrependesse, seriam convocadas testemunhas. Se isso não funcionasse, a questão seria levada perante a igreja. Se o transgressor ainda se recusasse a se arrepender, então a igreja devia excluí-lo da comunhão. Então, Jesus con- cluiu: "Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu" (Mt I8.I8). Observe que a igreja está fazendo na terra aquilo que o Senhor já fez no céu. A igreja reconheceu o coração impenitente, e, ao removê-lo da comu- nhão, o cumprimento da sua decisão estará garantido. Vamos examinar como a igreja de Corinto implementou o ensinamento de Jesus, sobre ligar e desligar. Naquela comunidade, uma situação terri-

Sobre esta Pedra

velmente imoral era tolerada - havia um homem que tinha um caso amo- roso com sua madrasta. Ao saber desse fato, Paulo imediatamente ins- truiu a igreja a lidar com o problema. Ele disse: "O que tal ato praticou, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, juntos vós e o meu espírito, pelo poder de nosso Senhor Jesus Cristo, seja entregue a Satanás para destrui-

ção da carne, para que o espírito seja salvo no Dia do Senhor Jesus (

Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo" (I Co 5.3-5,I3). Quando a igreja removeu o homem da comunhão, estava sendo feito, em Corinto, o que Deus já tinha feito no céu. A igreja havia punido o homem impenitente. Se ele se arrependesse, então a igreja o aceitaria de volta à comunhão. A aceitação que demonstrassem a ele seria a maneira como a igreja iria mos- trar a sua crença de que Deus o· tinha perdoado, ou que Deus o tinha

desligado por causa do seu pecado.

O ato de ligar e desligar é interpretado, nesse contexto, como perdoar e

reter pecados; isso se encaixa perfeitamente nas palavras do Senhor aos seus discípulos, antes de ascender ao céu. "Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. E, havendo dito isso, assoprou sobre eles e

disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os peca- dos, lhes são perdoados; e, àqueles a quem os retiverdes, lhes são retidos" (Jo 20.2I-23). Ligar e desligar significa a mesma coisa que reter e perdoar pecados, e isso começa com o próprio Jesus. A mensagem do evangelho declara: "[NeleJ temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofen- "

(Ef 1.7). E João disse que Jesus "nos ama, e em seu sangue nos

sas

lavou [a palavra quer dizer libertar, desligarj dos nossos pecados" (Ap

I .5). O perdão dos pecados não ocorria conforme a ponderação pessoal de nenhum dos discípulos.

)

Apascenta as minhas Ovelhas

O mar parecia não ter peixes naquela noite, e os discípulos nada apa-

nharam (Jo 21.3). Mas as coisas iam mudar. Instruções de um estranho na praia resultaram em uma pesca tão grande que "já não a podiam tirar [a rede], pela multidão dos peixes" (v. 6). Chegando à praia, os discípulos "viram ali brasas, e um peixe posto em cima, e pão" (v. 9). 'Venham tomar o café da manhã", disse Jesus. E quando tinham terminado de comer, Jesus disse a Pedro: "Simão, filho de Jonas, amas-me mais do que estes?"

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

E, sem hesitar nem por um momento, Pedro respondeu: "Sim, Senhor; tu sabes que te amo". Jesus, então, deu-lhe uma comissão: "Apascenta os meus cordeiros". Jesus fez a mesma pergunta outra vez, e obteve a mesma resposta, e então disse: "Apascenta as minhas ovelhas". Isso aconteceu ainda uma terceira vez, depois da qual Jesus disse: "Apascenta as minhas ovelhas" (Jo 21.15-17).

Que objetivo tinha Jesus para essa pergunta tripla, e para a comissão tripla? O incidente nos fornece uma percepção da compaixão de Jesus. Pedro poderia não estar se sentindo bem consigo mesmo. O seu ego estava despedaçado, sua autoconfiança estava baixa, e ele sabia que, ape- sar da sua declaração anterior, de que nunca negaria ao Senhor, na ver- dade ele o tinha negado três vezes. Quaisquer que fossem os defeitos dos outros apóstolos, nenhum deles tinha negado o Senhor, como Pedro tinha feito. A sua negação era do conhecimento de todos. E Jesus usou esse incidente para dar a Pedro a oportunidade de declarar publicamen- te o seu amor por Ele, e Jesus afirmou a nomeação de Pedro ao ministé- rio três vezes. A Igreja Católica Romana afirma que "Jesus confiou uma autoridade

Jesus, o Bom Pastor, confirmou este mandato depois

A única Igreja de Cristo

[é aquelaJ que o nosso Salvador, depois da sua ressurreição, confiou aos

cuidados pastorais de Pedro

acordo com as Escrituras. A Igreja Católica Romana está lendo alguma coisa nesse incidente que não está ali. Pedro nunca recebeu a tarefa de ensinar toda a Igreja. Outra vez, vamos examinar as Escrituras como um todo. Antes da sua crucificação, Jesus disse aos apóstolos que, depois da sua volta ao Pai, enviária o Espírito Santo. O Espírito faria três coisas por eles: Ele, I) "vos ensinará todas as coisas"; 2) "vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito"; e 3) "vos guiará em toda a verdade" (Jo I4.26; I6.I3). Isso não deixa lugar para que Pedro seja a autoridade suprema, responsável por ensinar a Igreja. Jesus não teria feito essas afrrmações a respeito do Espí- rito Santo se tivesse confiado a Pedro tudo o que a Igreja Católica Roma- na reivindica. Além disso, o apóstolo Paulo foi categórico ao afirmar que seus ensinamentos não lhe eram dados por nenhum homem, inclusive Pedro.

:' [55 I, 81 6]. Essa interpretação não está de

específica a Pedro

da sua ressurreição: 1\pascenta os meus cordeiros'

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·r

Sobre esta Pedra

Aquilo que Paulo ensinava lhe era transmitido pela revelação de Jesus Cristo. "Faço-vos saber, irmãos, que o evangelho que por mim foi anun- ciado não é segundo os homens, porque não o recebi, nem aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo" (Gl I.II,I2). Paulo era um dos cordeiros de Jesus. Quem o apascentou? Não foi Pedro. E todas as igrejas que Paulo estabeleceu, por todo o mundo gentio, foram apascentadas espiritualmente por Paulo, e não Pedro. Na sua carta à igreja de Éfeso, Paulo disse que o plano de Deus de salvar tanto os judeus quan- to os gentios em um só corpo, a Igreja, era um mistério que Deus deu a conhecer pelo Espírito Santo - era "revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas" (Ef 3.5).

Falando aos líderes da igreja' em Éfeso, Paulo disse: "Olhai, pois, por

vós e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bis- pos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu pró- prio sangue" (At 20.28). Como esses líderes deveriam apascentar o reba- nho? Ensinando ao rebanho o que o Espírito tinha revelado a todos os apóstolos. Pedro confirmou isso quando disse: "Aos presbíteros que es- tão entre vós, admoesto eu, que sou também presbítero com eles ( apascentai o rebanho de Deus que está entre vós, tendo cuidado dele(

servindo de exemplo ao rebanho" (I Pe 5.I-3). Pedro se considerava como um presbítero como todos os outros que servem nas congregações locais. Pedro deixou muito claro a maneira como compreendia a sua função - e não tem nenhuma semelhança com aquela imposta a ele pela Igreja Cató- lica Romana. Em resumo, Pedro negou ao Senhor três vezes, declarou o seu amor _pelo Senhor três vezes e teve o seu ministério apostólico confirmado três vezes. Dizer mais do que isso é forjar mais do que Deus tinha em mente.

·

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CABEÇA DA IGREJA

A estrutura administrativa de muitas empresas se assemelha a uma pi- râmide: existe o presidente, no topo, o conselho diretor, a seguir vêm os diretores, depois os chefes de departamentos, e assim por diante. Isso é o correto para uma empresa, mas a Igreja que Jesus estabeleceu não está estruturada dessa maneira. Um exame das Escrituras não revela a menor

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

indicação de que Pedro tenha sido nomeado chefe da Igreja e que foi determinado que ele tivesse sucessores. Essa idéia é uma invenção e sim- plesmente não está escrita em lugar algum da Bíblia. Se Pedro tivesse sido nomeado chefe da Igreja, nós esperaríamos encontrar amplas evidências disso. Duas cartas que o próprio Pedro escreveu não fundamentam a afir- mação de que ele tenha sido o primeiro papa. A extensa produção escrita de Paulo, treze cartas no total, e cinco cartas do amado apóstolo João, não oferecem nenhuma evidência para apoiar o ensinamento da Igreja Católi- ca Romana quanto a esse assunto. O que encontramos nas Escrituras é a Igreja retratada: I) como um rebanho de ovelhas, sendo conduzido por Jesus, o Bom Pastor; 2) como um reino leal e Jesus, seu Rei; 3) como uma esposa fiel a seu esposo, Jesus; e, 4) como um corpo composto de muitos membros, ligados a Jesus, a cabeça Qo IO.I6; Ef 1.22,23; Ap I9.I6; 21.2). Paulo afirmou, de manei- ra muito clara, quem foi nomeado como cabeça da Igreja: Deus "sujeitou todas as coisas a seus pés [de Jesus J e, sobre todas as coisas, o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos" (Ef 1.22,23). Certamente isso deve encerrar qualquer discussão sobre o tema.

QUEM ENSINA A IGREJA?

A Igreja Católica Romana ensina que Pedro e seus sucessores são os líderes da Igreja na terra, e que através desse ofício a Igreja é ensinada. Muito bem, essa é a afirmação, mas ela é apoiada pelas Escrituras? Aque- les dentre nós que aceitam a Bíblia como a nossa única autoridade rejei- tam essa afirmação. Somente porque Jesus está no céu, não significa que fomos deixamos sem orientação ou direção. É inconcebível pensar que Jesus se tornasse um homem, morresse sobre a cruz, resgatasse a igreja com o seu sangue, e depois retornasse ao céu e deixasse seus filhos como órfãos. O Cristo que ascendeu fez amplas provisões para que a sua Igreja fosse sustentada aqui na terra, e é isso que Paulo explica em Efésios 4.7- I 6. Ele disse que quando Cristo retornou ao céu, à Igreja Ele "deu dons aos homens" (v. 8). Quais são esses dons e qual é o seu objetivo? "Ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para

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Sobre esta Pedra

evangelistas, e outros para pastores e doutores" (v. li). Os apóstolos e os profetas têm uma função exclusiva na vida da Igreja. É impossível repetir

o ministério deles, porque foi por meio deles, e somente deles, que a vontade completa de Deus foi dada a conhecer. O Espírito Santo os guiou

e lhes ensinou tudo o que Jesus tinha dito. A verdade revelada e proclama- da por eles é a fundação sobre a qual é edificada a Igreja. Nós- a Igreja- somos "concidadãos dos Santos e da família de Deus; edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a princi- pal pedra da esquina" (Ef 2.I9,20). E em gerações sucessivas a Igreja continua a ser edificada dessa maneira. Quanto aos evangelistas, cabe-lhes a proclamação do evangelho. São freqüentemente pioneiros, e levam o evangelho a lugares onde Cristo não

é conhecido. Eles se dedicam a fundar igrejas, instruir líderes eclesiásti- cos, e, onde for necessário, resolver problemas em igrejas locais (I Co 4.16,17; I6.IO; Tt 1.5). Timóteo envolveu-se nesse tipo de serviço; essa é

a razão da exortação de Paulo o exortá-lo, para que fizesse "a obra de um evangelista" (2 T m 4.5). O Senhor também deu como dons ministeriais à Igreja os pastores e doutores. Os pastores cuidam dos membros de uma congregação, ensi- nando-os, orientando-os, conduzindo-os nos caminhos de Deus, e prote- gendo-os dos "lobos" que procuram devorá-los. Os pastores são os pas- tores das congregações locais, e Jesus é o seu Sumo Pastor (I Pe 5.I-4). A Igreja aprende que os pastores "velam por vossa alma, como aqueles que hão de dar conta delas" (Hb I3.17). Vemos Paulo dando as mesmas ins- truções aos pastores em Efeso: "Olhai, pois, por vós", diz ele, "e por todo

o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para

apascentardes [isto é, como pastoresJ a igreja de Deus" (At 20.28). Essas responsabilidades, naturalmente, são comissionadas pelo próprio Deus. Uma das tarefas dos pastores é capacitar as pessoas, por meio da instrução bíblica, de modo que a Igreja não seja "mais [constituída deJ meninos incons- tantes, levados em roda por todo vento de doutrina" (Ef 4. I 4). A Igreja sempre deve ser protegida das falsas doutrinas, que podem criar tumulto se conseguirem espaço em seu seio. É responsabilidade dos pastores refutarem tais erros, e man- ter o rebanho a salvo. O erro é refutado pela verdade encontrada na Palavra de Deus. Isso era verdade, nos dias dos apóstolos, e é verdade também hoje. E, para

garantir que a Igreja que Ele estabeleceu seja apascentada, o Senhor continua a

75

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

dar dons, na forma de evangelistas, pastores e doutores, que proclamam a Palavra que foi dada a conhecer pelos apóstolos e profetas.

ENSINOS ERRÓNEOS SOBRE A LIDERANÇA DA IGREJA

O Erro sobre a Infalibilidade do Papa

Em junho de I 989, os acontecimentos na China dominavam as notíci- as no mundo. Estudantes tornavam as ruas, exigindo mudanças no gover- no. Suas esperanças tiveram vida curta, pois exércitos e tanques massacra- ram indiscriminadamente pessoas inocentes. Tribunais militares julgaram e executaram diversas pessoas, que, segundo jornalistas ocidentais, foram usadas corno bodes expiatórios. A comunidade internacional ficou indig- nada e protestou ao governo chinês. A nota oficial divulgada a urna nação que constitui quarta parte da população do mundo foi que somente pou- cas pessoas foram mortas, e principalmente soldados. Os fatos sobre ju- nho de I989 foram distorcidos, e, infelizmente, quando as pessoas não conhecem os fatos, são capazes de crer em praticamente qualquer coisa. A maioria dos católicos não está familiarizada com a história da sua igreja. Eu, decerto, não estava. Sabia que a Igreja tinha algumas manchas na sua história, mas havia muitos "fatos", podemos chamá-los assim, que nunca me dei ao trabalho de investigar. Por exemplo, eu pensava que a infalibilidade papal sempre tinha sido parte da Igreja Católica Romana, e que ela tinha seu lugar assegurado desde o tempo dos apóstolos. Nenhum católico, hoje em dia, consegue se lembrar" de urna época em que não existisse a infalibilidade papal, de modo que sempre se supôs automatica- mente que ela sempre tenha existido. Mas não era esse o caso. A Igreja Católica Romana defme assim a infalibilidade:

é tarefa deste Magisterium [a IgrejaJproteger o povo de Deus ·

de desvios e deserções e assegurar-lhes a possibilidade objeti-

Para realizar este

serviço, Deus capacitou os pastores da Igreja com o carisma,

ou a infalibilidade, em questões de fé e moral

igreja, por meio do seu Magisterium supremo, propõe uma dou- trina "para a fé, como sendo divinamente revelada", e como

Quando a

va de professar a fé verdadeira, sem erros

Sobr, !sta Pedra

o ensinamento de Cristo, a defmição "deve ser seguida com a obediência da fé" [890-89 I].

A Igreja Católica Romana sustenta que a infalibilidade é necessária para impedir que a verdade seja corrompida. Ela afirma que a base para a infali- bilidade está implícita em passagens das Escrituras corno "Tu és Pedro e

) tudo o que desligares na terra

será desligado nos céus" (Mt I6.I8,I9), e, "Apascenta as minhas ovelhas" Oo 21.17). Mas, corno vimos anteriormente, essas passagens não represen- tam :fi.mdamento à posição da Igreja Católica Romana, de que Pedro foi nomeado o líder da Igreja. Não se encontra a infalibilidade papal nesses versículos, de modo que a Igreja Çatólica Romana inseriu neles a infalibili- dade. A doutrina da infalibilidade foi forçada às Escrituras; certamente, ela não surgiu da Bíblia, mas alguns tentaram inseri-la nas Escrituras. Longe de dotar a Igreja Católica. Romana de urna salvaguarda contra o erro, a infalibilidade papal é urna fonte de embaraço àqueles que in- vestigam seriamente o assunto. Por exemplo, em I950, a doutrina da Assunção de Maria foi considerada uma declaração infalível. Isso, de acordo com o papa Pio XII, era "um dogma revelado divinamente". (No capítulo I2, explicarei como esse dOgma contradiz a Palavra de

Deus). O papa Pio IX definiu a Imaculada Concepção de Maria em um pronunciamento e.x cathedra, em 8 de dezembro de I854. Era uma nova doutrina, que contradiz a mensagem das Escrituras, e um admirável grupo de estudiosos e patriarcas da Igreja, incluindo o papa Gregório, o Grande, constam como tendo sido contrários a essa falsa doutrina. A controvérsia sobre esse tema continuou a cercar Pio IX. Então, em I870, ele divulgou outro pronunciamento ex cathedra em que definia a infalibi- lidade papal. Não somente esse novo ensinamento tinha as evidências históricas e as Escrituras amontoadas contra ele, mas, além disso, houve uma época em que a Igreja Católica Romana não aceitava a infalibilida- de papal como é conhecida hoje. Enquanto investigava este· assunto, consegui uma cópia do Controversial Catechism, de Stephen Keenan, um livro católico publicado em I860. Considere o que ele dizia:

sobre esta pedra edificarei a minha igreja(

P. Os católicos não devem acreditar que o papa, por si mesmo, seja infalível?

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

R. Esta é uma invenção protestante; não é assunto da fé católica; nenhuma decisão do papa pode ser obrigatória, sob pena de heresia, a menos que seja recebida e colocada em vigor pelo corpo de ensino; isto é, pelos bispos da Igreja. 3

Em 1837, o bispo Purcell defendeu os ensinamentos da Igreja Católica Romana em um debate público. As suas observações sobre a infalibilida- de são pertinentes, uma vez que foram feitas muitos anos antes que a infalibilidade fosse reivindicada e definida pela Igreja:

Foram feitos apelos diante do bispo de Roma, embora ele não fosse considerado infalível. Tampouco é considerado ago- ra. Nenhum católico esclarecido sustenta que a infalibilidade do papa seja uma questão de fé. Eu não sustento; e nenhum dos meus irmãos, que eu saiba. Os católicos acreditam que o papa, como homem, seja sujeito a erros, como praticamente qualquer outro homem no universo. Um homem é um ho- mem, e nenhum homem é infalível, seja em doutrina, seja em moral. 4

Posteriormente, o bispo Purcell modificou o seu ponto de vista. De- pois de retornar do Concílio Vaticano em 1870, pregou um sermão no qual disse: "Eu estou aqui para proclamar a minha crença na infalibilida- de do papa, nas palavras do Santo Pai, definindo a doutrina". 5 Muitos católicos romanos, infelizmente, sabem muito pouco, ou nada, sobre esses acontecimentos. Eles acreditam que as doutrinas sobre temas como a infalibilidade papal existem desde o tempo dos apóstolos.

O Erro sobre a Sucessão Apostólica

Existe alguma cadeia ininterrupta de sucessão apostólica que possa ser determinada a partir do papa atual, percorrendo todo o caminho de volta e chegando a Pedro? Isso é o que a Igreja Católica Romana ensina- que os seus bispos são sucessores dos apóstolos:

78

Sobre esta Pedra

P. 16- Quem são os bispos da igreja católica?

R. São os

sucessores dos apóstolos. 6

Mas para conservar o evangelho íntegro e vivo para sem- pre na igreja, os apóstolos deixaram os bispos como seus sucessores, "passando a eles o seu próprio papel de ensino". 7

O Senhor fez de São Pedro a fundação visível da sua igre- ja. Ele lhe confiou as chaves da Igreja. O bispo de Igreja de Roma, sucessor de São Pedro, é "chefe do colégio dos bis- pos, o Vigário de Cristo e Pastor da Igreja universal na terra"

[936].

Embora a Igreja Católica Romana afirme que os seus bispos são os sucessores dos apóstolos, nenhum único versículo das Escrituras é apre- sentado para sustentar essa afirmação. Os apóstolos nunca indicaram su- cessores para assumir o seu lugar; nem tomaram providências para que isso ocorresse depois da sua morte. Tanto Pedro como Paulo, à medida que chegavam ao fim de suas vidas na terra, nunca mencionaram a indica- · ção de sucessores. Nem Jesus fez provisões para sucessores para os seus apóstolos; no entanto, a Igreja Católica Romana afirma que Jesus fez tal provisão. Se Ele a fez, onde está a evidência? Existem pelo menos quatro razões por que a idéia de sucessão apostó- lica, como ensinada pela Igreja Católica Romana, não é possível:

I. Os apóstolos foram testemunhas oculares do ministério de Jesus; eles estiveram com Ele, desde o princípio, até à ocasião em que Ele ascendeu ao céu. O seu ministério era exclusivo e impossí- vel de ser repetido. Não era possível que os apóstolos indicassem outros para que fossem sucessores do que eles mesmos tinham pre- senciado (Lc 24.48; Jo I5.27; At 1.8). Por exemplo, em um tribu- nal, não se aceita um testemunho de alguém que recebeu um relato de outra pessoa. Quando Marias foi escolhido para substituir Judas, que tinha se suicidado, os apóstolos disseram: "Dos varões que conviveram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu dentre nós, começando desde o batismo de João até ao dia em

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

que dentre nós foi recebido em cima, um deles se faça conosco testemunha da sua ressurreição" (At 1.21,22). A pessoa que suce- desse a Judas teria que ter sido uma testemunha ocular; ele teria que ter tido experiências de primeira mão do ministério do Senhor. Qualquer pessoa que reivindicasse ser um sucessor dos apóstolos teria que ter sido testemunha ocular do ministério e da ressurreição de Jesus.

2. O ministério apostólico é exclusivo, pelo fato de que a ver-

dade revelada aos apóstolos, pelo Espírito Santo, fornece a fun- dação sobre a qual é a igreja edificada, não somente na primeira geração, mas para todas as gerações futuras (Ef 2.20). Uma vez lançada a fundação da Igreja, por meio da obra apostólica, deixa- va de existir a necessidade de que aquela obra continuasse em gerações posteriores.

3. Deus deu a conhecer a sua vontade por meio dos apóstolos.

Jesus prometeu-lhes que enviaria o Espírito Santo para capacitá- los para o ministério, e disse que o Espírito iria guiá-los, ensiná-

los e fazê-los lembrar tudo o que Ele tinha dito 0o 14.26; 16.13). Por meio dos apóstolos, o mistério de Deus de salvação do povo em um só corpo, a Igreja, foi dado a conhecer (Ef 3.4-6). Jesus deu aos apóstolos as palavras que o Pai lhe tinha dado (Jo I 7.5). E Jesus orou "por aqueles que [em todas as gerações], pela sua palavra, hão de crer em mim" (Jo 17.20). Aquilo que foi dado a conhecer, por intermédio dos apóstolos, e então registrado nas Escrituras, foi o suficiente para que as pessoas de todas as gera- ções sejam salvas. O seu ministério foi exclusivo e completo.

4. Depois de esc;lher os seus discípulos, Jesus os ~apacitoue enviou-os na sua primeira "viagem missionária": "Chamando os seus doze discípulos, deu-lhes poder sobre os espíritos imun- dos, para os expulsarem e para curarem toda enfermidade e todo mal" (Mt 10.1). Os milagres, sinais e prodígios serviam como credenciais para os apóstolos, confirmando que aquilo que eles ensinavam era, realmente, a Palavra de Deus. À medida que o

Sobre esta Pedra

seu ministério prosseguia, "muitos sinais e prodígios eram fei- tos entre o povo pelas mãos dos apóstolos" (At 5.12). E o mi- nistério especial de Paulo junto aos gentios era acompanhado de um derramamento de poder divino: "Deus, pelas mãos de Paulo, fazia maravilhas extraordinárias, de sorte que até os len- ços e aventais se levavam do seu corpo aos enfermos, e as enfer- midades fugiam deles, e os espíritos malignos saíam" ( At I9.II,I2). E quando teve que defender a sua posição apostóli- ca, Paulo apelou para os seus milagres: "Os sinais do meu apostolado foram manifestados entre vós, com toda a paciên- cia, por sinais, prodígios e maravilhas" (2 Co 12.12).

Em resumo, então, os apóstolos: I) foram escolhidos .pessoalmente pelo Senhor; 2) estiveram com Ele durante o seu ministério e foram testemunhas da sua ressurreição; 3) foram os instrumentos por cujo intermédio a vonta- de de Deus foi revelada; 4) tinham a capacidade de afirmar a sua autoridade, por meio de milagres, sinais e maravilhas; 5) transmitiam ensinamentos que são confiáveis e obrigatórios a nós hoje; e 6) eram exclusivos, de modo que nunca poderiam ter sido indicados sucessores que os substituíssem.

A VERDADE A RESPEITO DOS APóSTOLOS

Há diversas passagens, nas Escrituras, que refutam os falsos ensinamentos da Igreja Católica Romana sobre Pedro ser o líder da Igreja e sobre toda a questão da sucessão apostólica.

I. Quando Jesus chamou a Pedro, este deixou tudo e seguiu ao Se- nhor. Os católicos estão errados quando dizem que isso significa que Pedro deixou sua esposa. Pedro continuou sendo um homem casado por toda a sua vida (Lc 4.38; I Co 9.5).

2. Pedro alguma vez esteve em Roma? Não há indicação, nas Escrituras, de que ele tivesse estado ali. Quando Paulo escreveu sua carta à igreja de Roma, enviou saudações pessoais a vinte e sete pessoas, mas não mencionou Pedro (Rm 16.1-23).

,

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

3. Algumas vezes é mencionado o fato de que quando Jesus mudou o nome de Pedro, foi porque lhe estava dando uma posição espe- cial. Nenhum significado importante pode ser dado a esse argu- mento, uma vez que Jesus também alterou os nomes de outros apóstolos (Me 3.16,17; cf. Jo 1.42).

4. Pelo fato de o nome de Pedro aparecer em primeiro lugar quando os apóstolos são relacionados, a igreja católica acredita que uma primazia tenha sido conferida a Pedro. No entanto, as listas, nos vários relatos do evangelho, não são idênticas. Obviamente, os autores dos Evangelhos não davam grande importância à ordem em que os nomes apareciam (Mt 10.2-4; Me 3.16-19; Lc 6.!3-

16; At 1.13).

5. Paulo fala sobre aqueles que eram considerados as "colunas" da igreja. Ele cita - nesta ordem - Tiago, Cefas (ou seja, Pedro) e João (Gl2.9). A declaração de Paulo mostra que ele nunca consi- derou que Pedro estivesse acima de nenhum dos outros apósto- los. Pedro era um, entre muitos líderes da Igreja, e não o Vicário (ou substituto) de Cristo, nem o Vigário (ou sacerdote) de Cris- to.

6. O frutífero ministério do apóstolo Paulo foi conduzido indepen- dentemente de Pedro. Paulo trabalhou principalmente com os gentios, ao passo que Pedro trabalhou com os judeus. Durante um período de dezessete anos, Paulo passou somente quinze dias na companhia de Pedro. Apesar disso, Paulo insiste que o Senhor que operava de modo eficaz no ministério de Pedro operava, da mesma maneira, no seu próprio ministério. Tudo o que o Senhor estava fazendo por intermédio de Pedro, também estava fazendo por intermédio de Paulo (Gl 2.1,7-9). Paulo inclusive escreveu:

"Além das coisas exteriores, me oprime cada dia o cuidado de todas as igrejas" (2 Co I 1.28). Mas Paulo nunca afirmou ser o líder da Igreja, e suas declarações mostram que tampouco ele re-

conhecia a Pedro no papel que a Igreja Católica Romana lhe atri- buía. Nenhum dos apóstolos o fazia.

Sobre esta Pedra

7. O Novo Testamento relaciona as várias funções na Igreja, mas nem uma única vez o ofício papal é mencionado. (Nem existe menção a arcebispos ou cardeais, os príncipes da Igreja - veja I Co I2.28-30; Ef 4. I I- I 6). A ausência de qualquer referência ao ofício papal deve-se ao fato de que ele nunca existiu. Ele não aparece, antes de séculos depois que Jesus tinha estabelecido a

sua Igreja.

8. A Igreja Primitiva tinha que lidar com olegalismo, a adesão rígida à observância da lei para a salvação. O legalismo era um ataque à suficiência do sacrifício de Jesus Cristo, e quando a Igreja Primi- tiva reuniu-se para solucionar esse problema, não foi Pedro quem tomou a decisão final quanto ao que devia ser feito. Na verdade, ele foi um dos últimos a falar, o quarto, do final para o começo, seguido por Paulo e Barnabé. E foi Tiago que levou a reunião à sua conclusão. O grupo apostólico não prestava nenhuma honra

especial a Pedro (At 15.6-23).

9. Em determinada ocasião, o apóstolo Paulo teve que censurar a Pedro, porque ele se condenava pelos seus próprios atos. Pedro tinha se afastado dos cristãos gentios, minando, dessa maneira, o evangelho. Em palavras claras, Paulo chamou o comportamento

de Pedro de "hipocrisia" (Gl2.II-14).

IO. Os líderes apostólicos da igreja de Jerusalém, depois de ouvirem sobre a conversão dos samaritanos," enviaram para lá Pedro e João" (At 8.14). É óbvio que eles não consideravam a Pedro corno o

líder da Igreja.

I I. Depois que Pedro pregou o evangelho aos gentios, em seu retorno a Jerusalém, foi confrontado pelos líderes da Igreja por ter feito isso (Ar 11.1-I8). Uma vez que eles desafiaram dessa maneira a Pedro, podemos ver que eles não o considera- ~am corno o líder infalível da Igreja. E Paulo fala dos apósto- los Tiago, Pedro e João de uma maneira que mostra que ele

83

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

nunca considerou a Pedro corno o líder da Igreja: "Quanto àqueles que pare.ciarn ser alguma coisa (quais tenham sido

), esses, digo, que pareciam ser

alguma coisa, nada me comunicaram" (Gl 2.6).

noutro tempo, não se me dá

CoNFIANDO NA PALAVRA DE DEus

Que conclusões podemos tirar? I) O apóstolo Pedro nunca se conside- rou como o líder da igreja na terra. 2) Nenhum dos demais apóstolos reconhecia a Pedro como o líder da Igreja. 3) Não se encontra menção ao oficio papal nas Escrituras. 4) O surgimento do papado não ocorreu an- tes de diversos séculos depois que a Igreja tinha sido estabelecida. 5) O ministério apostólico era e.-xclusivo, o que tornava impossível (e desneces- sário) que houvesse sucessores. 6) Declarações "infalíveis" do papa têm sido consideradas como contradizendo as Escrituras. Existe um único caminho certo a seguir, e é aquele estabelecido nas Escrituras. Tudo está mudando no nosso mundo; nada é constante. As opiniões mudam, pontos de vista se modificam, tradições são abando- nadas e práticas são atualizadas, mas a Palavra de Deus permanece firme e sempre confiável. Pedro lembra àqueles primeiros cristãos e a nós da constância da Palavra de Deus, que é viva e permanente: "Toda carne é como erva, e toda a glória do homem, como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; mas a palavra do Senhor permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada" (I Pe 1.24,25).

Sobre esta Pedra

PER.GJJNJ5À[cE: RE]Í>Q~Tkf§

m Jesus não disse que edificaria a sua Igreja sobre Pedro, a pedra? Jesus disse que edificaria a sua Igreja "sobre esta pedra", referin- do-se, não ao próprio Pedro, mas ao que Pedro tinha dito, como revelação do Pai: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo". O con- texto das palavras de Jesus, juntamente com o testemunho do res- tante das Escrituras, não sustenta a interpretação da Igreja Cató- lica Romana de que a Igreja é edificada sobre Pedro. Na verdade, ela é edificada sobre a verdade que Pedro proferiu: Jesus Cristo, o Filho de Deus, é a sua fundação.

11 Os outros apóstolos não consideravam Pedro como seu líder, o chefe da Igreja?

O

fato de que Pedro fosse proeminente na vida da Igreja Primiti-

va

é inegável, mas em nenhum trecho dos escritos dos apóstolos

existe a mais vaga indicação de que eles. tratassem a Pedro como o

chefe da Igreja e cabeça espiritual do povo de Deus.

ID

Jesus não deu a Pedro as chaves do reino porque o nomeava

papa?

A segunda parte da pergunta deve ser negada, com base nas Escri-

turas: Jesus nunca fez de Pedro o .papa, o chefe da Igreja na terra. Jesus deu a Pedro as chaves do reino, e quando Pedro proclamou o

evangelho aos judeus, no dia de Pentecostes, e aos primeiros con- vertidos entre os gentios, abriu-lhes pelo evangelho o caminho

para o Reino do céu. O privilégio especial dado a Pedro foi o fato

de ele ter sido escolhido para ser o primeiro a proclamar o evan-

gelho. Porém, esse privilégio não o tornava o chefe da Igreja na

terra.

m Jesus não disse a Pedro que apascentasse as suas ovelhas? Uma conclusão injustificada é tirada pela Igreja Católica Romana

ao isolar as palavras de Jesus a Pedro do que diz o restante das Escrituras. O fato de Jesus dizer a Pedro que apascentasse as suas ovelhas é inegável, mas concluir que Pedro foi encarregado de

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

cuidar de todo o rebanho na terra não tem apoio nas Escrituras. Na verdade, isso contradiz o que a Bíblia diz sobre o assunto. O cuidado com as ovelhas foi confiado a todos os apóstolos, não so- mente a Pedro.

mSe Pedro não é a pedra, o chefe da Igreja na terra, quem o é?

A Igreja é edificada sobre uma pedra inabalável - Jesus Cristo, o

Filho do Deus vivo. A Igreja é o Corpo de Cristo, do qual Jesus é a cabeça. A Igreja é o rebanho de Deus, e Jesus é o Pastor. Desde

o céu, o Senhor guia e conduz a sua Igreja na terra, por meio do Espírito Santo, que habita entre o povo de Deus.

~~ Se não existe uma cabeça visível da Igreja na terra, quem, então,

ensina a Igreja?

Paulo nos diz, em Efésios 4.II-I6, que o Cristo que subiu dá dons de ensino à Igreja. Esses dons de ensino - também chamado de ministeriais - destinam-se a ajudar a guiar, conduzir, instruir e amadurecer a Igreja. Hoje, Deus continua a chamar e a capacitar

pessoas para esse trabalho. Os evangelistas e os pastores/douto- res são chamados e capacitados, pelo Senhor, para servir a sua Igreja, edificando-a na fé. Não temos razões para sentir medo; o Senhor cuida da sua amada Noiva.

86

/

5

A UNICA IGREJA VERDADEIRA

o

Católicos, protestantes e evangélicos, todos concordam que Jesus veio à terra para estabelecer a sua Igreja. Mas a definição dessa Igreja tem sido uma questão contenciosa entre eles. Um amigo meu estava conversando com uma senhora conhecida sua, e seus comentários os fizeram questio- nar se eles estariam falando sobre a mesma coisa. Finalmente, em um esforço para esclarecer a conversa, ele pediu que ela definisse o seu conhe- cimento a respeito da bendita Trindade. Confiantemente, ela respondeu:

"Fé, esperança e caridade". As pessoas às vezes usam a palavra ígreja de uma maneira que revela que estão confusas quanto ao seu verdadeiro significado. Aqui estão apenas alguns exemplos:

"Creio em Deus, mas não na igreja." "Vou à igreja para fazer algumas orações." "Ele nunca mais vai à igreja:' "Construímos uma bonita igreja nova."

A Igreja Católica Romana contribuiu para a confusão por causa do que ensinou; a maioria dos católicos pensa na Igreja como uma instituição, algo que fala em nome de Deus, por meio do Magisteríum.

j

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

A missão do Magisterium está ligada à natureza definitiva

do concerto estabelecido por Deus com o seu povo em Cris- to. É tarefa deste Magisterium proteger o povo de Deus dos desvios e das deserções, e assegurar-lhes a possibilidade obje- tiva de professar a fé verdadeira sem erros. Dessa maneira, o dever pastoral do Magisterium visa a assegurar que o povo de Deus permaneça na verdade que liberta. Para realizar esse serviço, Deus capacitou os pastores da Igreja com o carisma, ou a infalibilidade, em questões de fé e moral. [890]

A infalibilidade prometida à igreja também está presente

no corpo dos bispos quando, juntamente com o sucessor de Pedro, exercem o Magisterium supremo, acima de todos, em Concílio Ecumênico. Quando a igreja, por meio do seu Magisterium supremo, propõe uma doutrina "para a fé, como sendo revelada divinamente", e como o ensinamento de Cris- to, a defmição "deve ser seguida com a obediência da fé".

[891]

Embora essas citações sejam um pouco técnicas, elas realmente deixam clara a maneira como a Igreja Católica Romana considera a si mesma: Os bispos são os sucessores dos apóstolos, e, coletivamente, com o papa, os seus ensinamentos em questões de fé e moral são infalíveis. Esses ensinamentos são obrigatórios a todos os fiéis. Uma igreja cujos ensinamentos são infalíveis é considerada necessária, para garantir que não surjam erros nem heresias na Igreja. Depois de Roma ter falado, não há mais discussão. No entanto, se alguém fosse investigar as Escrituras, à procura do modelo da Igreja Católica Romana, seria em vão, pois ele simples- mente não está ali. A Igreja que Jesus veio edificar não traz nenhuma semelhança com a definição de igreja dada pelo Magisterium. Enquanto eles alegam infalibilidade, a Bíblia diz que somente as Escrituras são infalíveis (2 T m 3. I 6, I 7). Além disso, a Igreja revelada na Bíblia rece- be continuamente dons do Senhor, sob a forma de evangelistas, pas- tores e doutores, para instruí-la naquilo que Deus revelou em sua Pa- lavra infalível (Ef 4.I I-I6).

88

A Única Igreja Verdadeira

Um entendimento correto da Igreja que Jesus veio edificar somente pode ser obtido retornando à Bíblia e tomando dali a nossa definição. Assim sendo, vamos começar examinando o ministério de Jesus, para ver 0 que podemos aprender.

Ü

QUE É A IGREJA?

Desde o momento de sua concepção, a missão de Jesus esteve ligada à nossa recuperação espiritual. Um anjo disse a José que a criança que Ma- ria estava esperando havia sido gerada pelo Espírito Santo. O menino deveria ser chamado Jesus "porque ele salvará o seu povo dos seus peca- dos" (Mt I.2I). Esse tema redentor foi repetido durante todo o seu mi- nistério público. Ele disse que tinha vindo "buscar e salvar o que se havia perdido", e "para dar a sua vida em resgate de muitos" (Lc I9.IO; Mt 20.28). A missão de Jesus envolvia garantir o perdão dos pecados, por meio do sacrifício de si mesmo sobre a cruz. "Jesus não veio para edificar a sua Igreja?", você poderia perguntar (Mt I6.18). Sim. É a Igreja, então, alguma coisa acrescentada à missão reden- tora de Cristo? Não. A palavra grega para "igreja" é ekHesia, que significa, literalmente, "chamados para fora". Jesus iria edificar a sua Igreja "cha- mando para fora" um povo para ser seu, perdoando os seus pecados e reconciliando-os com Deus, por meio da sua morte e ressurreição. Quan- do o povo ouviu Jesus dizendo que iria edificar a sua Igreja, não responde- ram: "Você vai fazer o quê?!" Ele não chocou a ninguém quando usou a palavra igreja. Não era uma palavra que Ele tivesse inventado; era um ter- mo usado comumente em seu tempo. E tampouco era uma palavra exclu- sivamente religiosa. A palavra igreja pode se referir a qualquer grupo de pessoas que são "chamadas para fora" para um propósito específico - um sindicato, uma reunião de conselho, etc. Quando falamos sobre o povo de Deus que é "chamado para fora", precisamos entender como a palavra deve ser interpretada. Comparando as Escrituras com as próprias Escrituras, a Igreja surge como uma comunidade de pessoas que foram salvas pelo Senhor Jesus. Não é um lugar, mas pessoas. Por exemplo, Paulo diz que Jesus resgatou

"a igreja de Deus(

)

com seu próprio sangue" (At20.28). Em Apocalipse

89

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

5.9, algumas criaturas cantam a Cristo, dizendo: "Com o teu sangue com- praste para Deus homens de toda tribo, e língua, e povo, e nação". No dia de Pentecostes, três mil pessoas foram salvas e acrescentadas ao grupo dos redimidos. O que, então, é a Igreja? A Igreja é constituída por pessoas cujos pecados foram perdoados; é uma comunidade de redimidos que pertence ao Senhor Jesus Cristo. É isso o que a Igreja é. Observe, além disso, que antes da sua conversão a Jesus, Paulo perse- guia a Igreja. Isso não significa que ele cometia atos de vandalismos con- tra edifícios santos, ou que atacasse uma instituição religiosa. Na verdade,

ele perseguia pessoas santas: "Saulo assolava a igreja, entrando pelas casas;

e, arrastando homens e mulheres, os encerrava na prisão" (At 8.3). Poste-

riormente, ele lembraria "como sobremaneira perseguia a igreja de Deus e

a assolava" (Gl I.I3). Quando Paulo estava perseguindo a Igreja, o seu

ataque era, especificamente, contra as pessoas que eram discípulas do Se- nhor Jesus Cristo. Esta é a Igreja que Jesus veio edificar. Mais especifica- mente, a Igreja não inclui a todas as pessoas, nem mesmo todas as pessoas

religiosas. Ela é constituída por aquelas pessoas cujos pecados foram per- doados, cuja fé está depositada unicamente em Jesus para a salvação. Isso

é o que Jesus veio trazer à existência, um povo redimido, a única Igreja verdadeira.

CoNVERTIDOS A CRISTO

De acordo com o Novo Testamento, por meio da pregação do evangelho, as pessoas se convertiam ao Senhor Jesus Cristo. Em várias cidades, esses cristãos formavam igrejas locais - congregações do povo de Deus. Esse era, certamente, o costume apostólico: Paulo e Barnabé, "por todo um ano, se reuniram naquela igreja e ensinaram numerosa multidão. Em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos" (At I 1.26). Pos- teriormente, Paulo retornou a algumas das congregações que tinha ajudado

a estabelecer, e elegeu-lhes "anciãos em cada igreja" (At I4.23). Quando

terminou a sua viagem missionária, ele e seus companheiros "reuniram a igreja, relataram quão grandes coisas Deus fizera por eles" (At I4.27). Embora exista uma única Igreja universal, sobre a qual Jesus é a cabe-

ça (Ef I.2I,22), a Igreja universal é composta de congregações locais.

90

A Única Igreja Verdadeira

Nós lemos sobre as "igrejas de Deus" (I Co II.I6). Paulo fala das "igrejas de Cristo" (Rm I6.I6). E os convertidos ao Senhor em

Tessalônica são simplesmente mencionados como "a igreja" (I Ts LI).

O tamanho dessas congregações era variado, mas em geral parecem ter

sido suficientemente pequenas para reunir-se nas casas dos seus mem- bros. Dois servos notáveis de Deus foram Priscila e Áqüila, a quem Paulo saudou juntamente com "a igreja que está em sua casa" (I Co I6.I9). Saudações também foram enviadas a "Ninfa e à igreja que está em sua casa" (Cl4.I5). Finalmente, quando Pedro foi preso, "a igreja

fazia contínua oração por ele a Deus (

muitos estavam reunidos e

oravam" (At I2.5,I2). Em todos os casos, fica claro que a Igreja refere-se ao povo de Deus. Quem, exatamente, são essas pessoas, e como se tornaram parte da Igreja?

)

PoRQUE DEus AMou o MuNDO DE TAL MANEIRA

Como católico romano, tinha sido ensinado que Deus me amava, mas

eu compreendia muito pouco o que realmente significava o amor de Deus.

Embora Deus fosse real para mim, era também distante e não muito aces- sível. A menção do seu amor não gerava uma resposta em meu coração. O que contribuía para a minha falta de compreensão do amor de Deus era o fato de que não conseguia ver a relação entre os meus pecados e a morte

de Cristo, que era a expressão definitiva do amor de Deus. Sim, eu acredi-

tava que era um pecador, e que Jesus morreu porque me amava. Mas o que

exatamente tudo isso queria dizer? Esses eram termos religiosos que não

se traduziam bem na compreensão do dia-a-dia. Como muitos outros

católicos, eu tinha uma visão sentimental da morte de Jesus; era levado à

piedade quando pensava nEle tendo que morrer uma morte tão c~uel. Mas ali, sobre a cruz, Deus estava exibindo a profundidade do seu amor por todos nós. Para compreender e apreciar esse amor, precisamos ter uma compreensão clara do pecado. A Bíblia descreve todos nós como perdidos, separados de Deus e incapazes de salvar a nós mesmos. A nossa condição é verdadeiramente desesperadora. E há ainda outro dilema. Como Deus poderia perdoar

os nossos pecados, e ainda garantir que a justiça fosse feita? Deus não

91

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

poderia simplesmente nos perdoar, e ignorar o fato de que tínhamos infringido a sua santa lei, o que resulta em severa penalidade. Quem pagaria pelo nosso crime contra Deus? No seu Filho Unigênito, Jesus Cristo, o Pai encontrou aquEle cuja morte poderia satisfazer plenamen- te as exigências de justiça, dessa maneira possibilitando que Ele perdo- asse os nossos pecados. Assim o apóstolo Paulo expressou a idéia:

Deus [oJ propôs para propiciação pela

no seu sangue,

para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dan- tes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem em Jesus (Rrn 3.25,26).

A cruz de Cristo justifica a Deus: ela mostra que Deus é justo, por ter feito aquilo que a sua própria lei exigia. Ele também é aquEle que justifi- ca/perdoa a todos aqueles que crêem em seu Filho. Jesus tornou-se o nosso substituto quando tomou sobre si mesmo os nossos pecados, "le- vando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro" (I Pe 2.24). A dívida causada pelos nossos pecados somente poderia ser paga por um sacrifício adequado, oferecido em nosso nome. Embora outros dois homens morressem juntamente com Jesus naquela Sexta-feira Santa, somente a morte de Jesus pôde cancelar a nossa dívida. Pedro mostra que compreendeu o conceito de Cristo como nosso substituto e Salvador, através das seguintes palavras: "Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus" (I Pe 3.18).

A CRuz: O PoDER DE DEus

O sacrifício de Jesus é inseparável da Igreja que Ele veio edificar. Os primeiros cristãos falavam exclusivamente de Jesus como o Salva- dor dos pecadores. Eles nunca aceitaram a idéia de que uma pessoa pudesse estar bem com Deus, separada de Cristo. "Em nenhum outro há salvação", disse Pedro, "porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos" (At 4.I2). Paulo foi igualmente categórico quando disse: "Nada me

A Única Igreja Verdadeira

propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado" (I Co 2.2). Por mais estranho que pareça, a cruz de Cristo não exibe nem

fraqueza nem fracasso, mas o grande poder de Deus. E foi esse poder que resgatou a Igreja. Quando penso no poder de Deus, imagino-me presenciando alguns dos milagres do Senhor. Ele trouxe os mortos de volta à vida. Devolveu a visão aos cegos. Removeu a terrível doença da lepra. Acalmou uma terrí- vel tempestade no mar _da Galiléia. E Ele salvou-nos da nossa condição de perdidos, desfazendo o mal causado pelos nossos pecados - isso exigiu

é o poder de

Deus", disse Paulo (I Co l.I8). Em outra passagem ele escreveu: "Não

me envergonho do evangelho d~ Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê" (Rm I.I6).

O evangelho não somente nos diz que Deus perdoa os nossos pecados,

mas também nos informa que não há ninguém a quem Ele não ame. O amor de Deus é visto em atos de sacrifício. O Senhor fez mais do que simplesmente falar de amor. Segundo Paulo, "Deus prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores" (Rm 5.8). Embora Deus fosse a parte ofendida, Ele foi aquele que veio em uma busca amorosa de cada um de nós, amando-nos incondicional- mente. O Senhor nunca pediu que demonstrássemos um interesse nEle, e nos seus caminhos, antes de nos amar. Ele nunca exigiu que prometêsse- mos que viraríamos a página e tentaríamos outra vez, com mais afinco. O seu amor nunca impôs nenhuma condição. A única razão pela qual qual- quer um de nós está na Igreja hoje, é que Jesus nos amou quando estáva- mos fora dela. E o amor que agora temos por Deus nasce do fato de que Ele nos amou primeiro (I Jo 4.19).

nada menos que o poder de Deus. "A palavra da cruz(

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Uma Viva

O perdão é um dom gratuito de Deus, e não pode ser obtido por

quaisquer obras que façamos. Tampouco é o perdão uma recompensa por alcançar um padrão aceitável de santidade. É comum que as pessoas pen- sem que o perdão pode ser ganho ou recebido como uma recompensa, mas as duas opiniões são contrárias aos ensinamentos das Escrituras. Se desejamos ser parte da Igreja que Jesus veio edificar, devemos ter uma

Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer

compreensão correta da fé. Jesus indicou a tolice de tentar conquistar o caminho para o céu, quando contou a parábola do fariseu e do publicano (Lc I 8.9- I 4). A lição estava destinada a "uns que confiavam em si mes- mos". Dois homens, disse Jesus, subiram ao templo para orar. O fariseu começou a sua oração narrando todas as suas boas obras diante de Deus. O orgulho enchia o seu coração à medida que ele agradecia ao Senhor por não ser como aqueles à sua volta: roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano, cuja profissão era conhecida pela desonesti- dade. Ele continuou a sua oração lembrando a Deus que jejuava duas vezes na semana, e dava dez por cento da sua renda ao Senhor. O publicano também orou, mas com um tom diferente. Jesus disse que ele ficou de longe e nem ousava levantar seus olhos ao céu. Em verdadeiro arrependimento, ele dizia: Deus, tem misericórdia de mim, pecador!" Qual dessas duas pessoas foi perdoada? Foi o publicano que encontrou o favor de Deus, disse Jesus, e não o fariseu. O que havia de errado com o fariseu? Afmal, ele cria em Deus, fazia suas orações e levava uma vida boa. Então, por que ele não foi perdoado? Porque estava confiando na realiza- ção das suas obrigações religiosas para salvá-lo. O fariseu sentia que as suas boas obras, que eram muitas, iriam fazer a balança da justiça de Deus pender em seu favor.

Não É pelas nossas Obras

As pessoas hoje em dia ainda estão tentando chegar ao céu pelos seus próprios esforços. Elas confiam que as suas vidas são suficientemente boas, que já cumpriram o bastante de suas obrigações religiosas e que vivem de modo completamente decente, de maneira geral. Elas alimen- tam a noção de que Deus irá inspecionar suas vidas e, com base na maneira como agem na terra, ou as receberá no céu, ou as expulsará por toda a eternidade. Mas o perdão não é obtido com base em nossas obras, não importan- do quão honrosas essas sejam. O perdão vem de Deus, e nós o aceita- mos pela fé. Como católico, acreditava que as minhas boas obras contri- buíam para a minha salvação; elas incluíam vários atos de caridade, par- ticipação em novenas, comparecimento à missa semanal, confissões fre- qüentes e outros deveres religiosos. Eu interpretava a lealdade para com

A Única Igreja ~rdadtira

a igreja como sendo lealdade a Deus, e por isso tentava obedecer a tudo

0 que a igreja ordenava. Eu acreditava que todas as minhas boas obras valeriam alguma coisa, produzindo, até mesmo, certo crédito que seria

levado em consideração no dia do julgamento. Mas uma conclusão inevitável nasce dessa linha de pensamento: Se nós contribuímos para a nossa própria salvação, então devemos afirmar que a morte de Jesus não somente foi inadequada, mas desnecessária. Assim explica o apóstolo Paulo: "Se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu debalde [em vão]" (Gl2.2I). Há muitos católicos maravilhosos que vivem de maneira monótona por causa do que lhes ensinaram sobre a salvação. Durante anos fui espi- ritualmente frustrado, cansado de fazer novas promessas a Deus, somente para fracassar outra vez. Eu não sabia (porque nunca me fora ensinado) que o perdão é um presente gratuito e imerecido dado por Deus, e que não há absolutamente nada que possamos fazer para obtê-lo ou merecê- lo. Além disso, esse presente não é mantido pelas nossas boas obras. Não podemos salvar a nós mesmos, nem impedir a nossa salvação. Jesus é o único Salvador. Jesus veio ao mundo para nos libertar e nos dar uma nova vida, não para nos fornecer um novo conjunto de regras e regulamentos aos quais deveríamos obedecer para conseguir chegar ao céu. A última coisa que qualquer um de nós precisa é uma religião baseada em nossas realizações:

precisamos de alguém que tenha um desempenho perfeito naquilo que fizer por nós. Ouça com que clareza a Palavra de Deus fala sobre esse importante tema: "Pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie" (Ef 2.8,9) A nossa resposta à oferta de perdão de Deus não pode conter nenhu- ma implicação de termos conquistado ou merecido o presente gratuito da vida eterna. Por exemplo, quando você fica doente, toma remédios que o ajudam a melhorar. Se for um xarope, geralmente, você o coloca duas ou três vezes ao dia, em uma colher e o bebe. Quando fica curado,

a quem você dá o crédito por fazê-lo melhorar- ao remédio ou à colher? Ao remédio, é claro! Você nunca pensaria em escrever ao fabricante da colher para agradecer-lhe pela sua rápida recuperação. Deixe-me afir- mar isso mais uma vez: Não há nada que possamos fazer para nos sal-

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Respostas às Perguntas que os Católicos Costtu:I1am Fazer

var; nós simplesmente devemos "testificar c em nosso Senhor Jesus Cristo" CAt 20.2I).

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a conversão a Deus e a fé

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ARREPENDIMENTO COM RESPEITO A DEUS

Corno católico romano, eu entendia que o arrependimento era lamen- tar o pecado e prometer nunca pecar outra vez, mas isso é muito diferente daquilo que a Bíblia chama de arrependimento. Por exemplo, suponha que urna pessoa fosse passar uma noite consumindo uma grande quanti- dade de álcool. Na manhã seguinte, com a cabeça latejando e os nervos abalados, ela tropeça a caminho do armário dos remédios, júrando: "Nunca mais. Eu nunca mais tornarei nenhuma gota, enquanto viver!" Embora ele possa nunca vir a tomar nada outra vez, se não entregar a sua vida a Deus, não terá se arrependido diante dEle. O que essa pessoa e,-ypressou foi um profundo remorso e pesar, mas isso não é arrependimento devoto. É muito fácil transformar o "arrependimento" em outra boa obra, a ser realizada para a obtenção do perdão. O perigo é muito sutil, mas real:

Nós pecamos, nós nos arrependemos, estamos de volta à busca do favor de Deus, e o nosso arrependimento recebe o crédito de ter alcançado esse resultado. Urna vez que o arrependimento demonstra a necessidade de um salvador, ternos a tendência de ter fé no nosso arrependimento, ou na realização do nosso dever religioso. A menos que esse mal entendido seja corrigido, a conseqüência será urna vida de monotonia religiosa. O arrependimento e o voltar-se para Deus estão unidos, e são inseparáveis. Quando nos arrependemos, tornamos urna decisão consci- ente de nos afastarmos do pecado, porque ele ofende a Deus, e nos impe- de de voltar a nossa vida em direção ao Senhor; nós nos determinamos a viver em obediência a Ele. O arrependimento devoto envolve urna modi- ficação em nosso comportamento. As Escrituras dizem: "A tristeza se- gundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte" C2 Co 7.IO). Zaqueu era um rico coletor de impostos, que ouviu sobre os milagres de Jesus e sobre a sua afirmação de que era o Messias prometido. Ansioso por ver o Mestre, mas impedido por causa da sua pequena altura, Zaqueu subiu em uma figueira brava, para ter um vislumbre de Jesus, quando Ele passasse. Quando o Senhor o viu na árvore, chamou-o: "Zaqueu, desce

A Única Igreja verdadeira

depressa, porque, hoje, me convém pousar em tua casa" CLc I 9·.5). Zaqueu desceu e recebeu a Jesus, e esse encontro motivou seu coração ao arrepen- dimento. "Eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se em alguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado" Cv. 8). Isso é arrependimento devoto. Graças ao seu coração penitente, e à sua óbvia fé em Jesus, o Senhor disse a Zaqueu: "Hoje, veio a salvação a esta casa" Cv. 9). A salvação vem àqueles que se arrependem e crêem em Jesus. Sem arre- pendimento, não há salvação. O chamado ao arrependimento é um tema recorrente nas Escrituras. João Batista insistia que seus ouvintes produzis- sem "frutos dignos de arrependimento" CMt 3.8). João queria que as_•. pessoas não somente cressem em,Jesus, o Messias, mas