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PARECERES

Conselho Distrital de Lisboa


da Ordem dos Advogados

CONSULTA N.º 31/2008

Apoio Judiciário

CONSULTA

Veio a Senhora Advogada, Dra. ..., solicitar ao Senhor Presidente do Conselho Distrital de
Lisboa parecer sobre a questão que a seguir enunciamos:

A Senhora Advogada consulente foi nomeada, em … de … de …, para instaurar uma acção


laboral, ao abrigo da Lei n.º 34/2004, de 29 de Julho, com as alterações introduzidas pela
Lei n.º 47/2007, de 28 de Agosto.

Deu entrada da competente acção para a qual tinha sido nomeada, em … de .. de …, no


Tribunal do Trabalho de ...

Na audiência de partes, foi alcançado um acordo, que ficou lavrado em acta e que foi
homologado por sentença.

Findo o patrocínio de que tinha sido investida, a Senhora Advogada consulente requereu ao
Tribunal a fixação de honorários ao abrigo da Portaria n.º 1386/2004, de 10 de Novembro.

Sobre o requerimento apresentado pela Senhora Advogada consulente recaiu o despacho


que a seguir transcrevemos:

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“Com a publicação do novo regime de apoio judiciário, deixou de haver lugar a


fixação judicial de honorários.
Razão pela qual, indefiro o requerido”.

A Senhora Advogada consulente não concorda com o teor despacho proferido pelo Tribunal,
pois entende que o serviço foi prestado e a compensação pela prestação do serviço é
devida.

A título preliminar, refira-se que não cabe ao Conselho Distrital de Lisboa pronunciar-se
sobre decisões judiciais em concreto, pelo que apenas se acolhe a pretensão da Senhora
Advogada consulente na medida em que se trata de matéria com interesse para a profissão
em que a posição deste Conselho pode contribuir para uma correcta apreensão e
compreensão, por parte dos intervenientes no sistema de acesso ao direito e aos tribunais,
das normas de direito transitório fixadas na Lei n.º 47/2007, de 28 de Agosto e na Portaria
n.º 10/2008 de 3 de Janeiro, na redacção dada pela Portaria n.º 210/2008, de 29 de
Fevereiro.

Vejamos então.

Tal como está previsto na Constituição da República Portuguesa, todos os trabalhadores


têm direito a receber uma retribuição pelo seu trabalho (cfr. alínea a) n.º 1 do artigo 59º),
sendo que similarmente todos os prestadores de serviços devem ver justa e adequadamente
remunerado o seu esforço e labor.

A Lei do Acesso ao Direito e aos Tribunais actualmente em vigor – Lei n.º 34/2004, de 29
de Julho, com as alterações introduzidas pela Lei n.º 47/2007, de 28 de Agosto, prevê no
n.º 2 do seu artigo 3º que “O Estado garante uma adequada compensação aos
profissionais forenses que participem no sistema de acesso ao direito e aos tribunais”.

Estatui ainda o n.º 2 do artigo 45º da Lei n.º 34/2004, de 29 de Julho, na redacção dada
pela Lei n.º 47/2007, de 28 de Agosto que a admissão dos profissionais forenses ao
sistema de acesso ao direito, a nomeação de patrono e de defensor e o pagamento da
respectiva compensação, é regulamentada por portaria do membro do Governo responsável
pela área da justiça.

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A regulamentação da Lei n.º 34/2004, de 29 de Julho, na redacção dada pela Lei n.º
47/2007, de 28 de Agosto, encontra-se prevista na Portaria n.º 10/2008, de 3 de Janeiro,
com as alterações introduzidas pela Portaria n.º 210/2008, de 29 de Fevereiro.

Da regulamentação da Lei do Acesso ao Direito e aos Tribunais, importa destacar os


aspectos que a seguir discriminamos e que entendemos profícuos para a análise do caso
ora sob resposta.

A Portaria n.º 10/2008, de 3 de Janeiro entrou em vigor no dia 1 de Janeiro de 2008 – cf.
n.º 1 do artigo 37º, sendo, portanto, as suas normas de aplicação imediata.

O n.º 2 do artigo 37º exceptua, no entanto, algumas normas, cuja entrada em vigor foi
diferida para o dia 1 de Setembro de 2008.

E quais são essas normas?

Essas normas são, nomeadamente, as relativas (1) à selecção dos profissionais forenses
(artigo 10º), (2) às regras de participação no sistema de acesso ao direito (artigos 12º a
16º), (3) à nomeação dos profissionais forenses envolvidos no sistema de acesso ao direito
para lotes de processos (artigos 18º a 26º) e (4) ao processamento e meio de pagamento
da compensação devida (artigos 28º a 33º).

De forma muito sintética diremos que, com a introdução destas novas regras, o profissional
forense passa a ser nomeado para lotes de processos e o pagamento dos honorários é
sempre efectuado por via electrónica, graças à implementação de um interface com a
função de integrar o Portal da Ordem dos Advogados com o Sistema de Informação da
Ordem do Advogados (SInOA).

O profissional forense através do Portal da Ordem dos Advogados e clicando num botão
“Pedido de Pagamento” despoleta o envio de um pedido de pagamento via web service
para o Sistema de Informação da Ordem dos Advogados que, por sua vez, o reenviará para
o Instituto de Gestão Financeira e de Infra-Estruturas da Justiça.

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Em suma, os honorários deixam de ser fixados pelo Tribunal e, posteriormente, por este
remetidos para o Instituto de Gestão Financeira e de Infra-Estruturas da Justiça para
processamento do respectivo pagamento.

Mas estas normas só entraram em vigor no dia 1 de Setembro de 2008, sendo que, como
expressamente ressalva o n.º 2 do artigo 35º da Portaria n.º 10/2008, de 3 de Janeiro,
com as alterações introduzidas pela Portaria n.º 210/2008, de 29 de Fevereiro, “até ao dia
31 de Agosto de 2008 mantêm-se em vigor as regras relativas à selecção e participação
dos profissionais forenses envolvidos no sistema de acesso ao direito, bem como as
relativas ao pagamento dos honorários e à compensação das despesas”.

No caso concreto, considerando a data em que a Senhora Advogada consulente foi


nomeada, os honorários que lhe são devidos pelo trabalho desenvolvido no quadro do apoio
judiciário, devem ser fixados em despacho judicial, sendo ulteriormente remetidos pelo
Tribunal do Trabalho de ... ao Instituto de Gestão Financeira e de Infra-Estruturas da Justiça
para processamento do respectivo pagamento.

Certo é que sempre caberá, contudo, à Senhora Advogada consulente, sob a sua exclusiva
responsabilidade, decidir se deverá promover qualquer acção ou procedimento junto do
Tribunal, designadamente, interpor recurso do despacho que indeferiu a fixação dos
honorários, tendo em vista acautelar ou tutelar os direitos que julgue dever assistir-lhe.

Sem prejuízo do exposto, considerando que compete especificamente à Ordem dos


Advogados, no seu todo, zelar (empenhada e rigorosamente) pela função social, dignidade e
prestígio da profissão de advogado, bem como defender (escrupulosa e corajosamente) os
interesses, direitos, prerrogativas e imunidades dos seus membros, desde logo promovendo
o (adequado) acesso ao conhecimento e à (correcta) aplicação do direito e contribuindo
para o (são e leal) desenvolvimento da cultura jurídica e o (muito necessário)
aperfeiçoamento da elaboração do direito – alíneas d), e), i) e j) do artigo 3º do Estatuto da
Ordem dos Advogados

E, conforme despacho proferido pelo Senhor Presidente do Conselho Distrital de Lisboa, Dr.
Carlos Pinto de Abreu, “deve ser dado imediato conhecimento desta situação e deste
parecer ao Conselho Geral para que este, no quadro das suas atribuições e competências

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próprias – designadamente no exercício dos seus poderes próprios previstos nas alíneas a),
c) e d) do artigo 45º nº 1 do Estatuto da Ordem dos Advogados – possa, querendo, definir
uma (firme) posição da Ordem no que se relaciona com esta questão concreta da (boa)
administração da justiça, propondo as (concretas) alterações legislativas que se mostrem
eventualmente necessárias e deliberando (especificamente) sobre este assunto que
respeita ao exercício da profissão e aos legítimos interesses dos advogados”.

Lisboa, 28 de Outubro de 2008

A Assessora Jurídica do C.D.L.


Sandra Barroso

Concordo e homologo o despacho anterior, nos precisos termos e limites aí descritos e

devidamente fundamentados,

Lisboa, 28 de Outubro de 2008.

O Presidente do Conselho Distrital de Lisboa


Carlos Pinto de Abreu

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