Você está na página 1de 3

Dia Mundial de Filosofia – 20 de novembro de 2014

Lê o texto com atenção:
Notas:
“Tracy Latimer, uma menina de doze anos, vítima de
paralisia cerebral, foi morta pelo pai em 1993. Tracy vivia com a
família numa quinta de uma pradaria de Saskatchewan, no
Canadá. Numa manhã de domingo, enquanto a mulher e os
filhos estavam na missa, Robert Latimer pôs Tracy na cabina da
sua carrinha de caixa aberta e asfixiou-a com o fumo do
escape. Na altura da morte, Tracy pesava menos de dezoito
quilos; diz-se que tinha “um nível mental idêntico ao de um
bebé de três meses”. A senhora Latimer afirmou ter ficado
aliviada por encontrar Tracy morta ao chegar a casa, e
acrescentou que “não tinha coragem” para o fazer.
O senhor Latimer foi julgado por homicídio, mas o juiz e os
jurados não quiseram tratá-lo com demasiada dureza. O júri
considerou-o apenas culpado de homicídio de segundo grau e
recomendou ao juiz para ignorar a sentença obrigatória de
vinte e cinco anos de prisão. O juiz concordou e sentenciou
Latimer a um ano de cadeia, seguido de um ano de prisão
domiciliária na sua quinta. No entanto, o Supremo Tribunal do
Canadá revogou a sentença e ordenou a imposição da sentença
obrigatória. Robert Latimer está ainda detido, cumprindo uma
pena de vinte e cinco anos.
Questões legais à parte, será que o senhor Latimer fez algo
de errado? Um argumento contra o senhor Latimer é que a vida
de Tracy tinha valor moral, não tendo ele por isso o direito de a
matar. Em sua defesa pode-se responder que a situação de
Tracy era catastrófica que ela não tinha quaisquer perspetivas
de uma “vida” em qualquer sentido além do puramente
biológico. A sua existência estava reduzida a nada mais do que
o sofrimento sem sentido, pelo que matá-la foi um ato de
misericórdia. Considerando estes argumentos, parece que
talvez o senhor Latimer tenha agido de forma defensável.
Houve, no entanto, outros argumentos avançados pelos seus
críticos.
O argumento contra a discriminação dos deficientes.
Quando Robert Latimer foi sentenciado com tolerância pelo
tribunal, muitos deficientes encararam o facto como um insulto.
1

e isso é inadmissível. podemos até ser tentados a pensar que Tracy está melhor morta. Isto diz respeito a tortura. “As pessoas andam a dizer que isto é uma questão relacionada com deficiência”. afirmou: “Ninguém tem o direito de decidir se a minha vida tem um valor inferior a outra.” Tracy foi morta por ser deficiente. naturalmente. refere-se frequentemente os nazis. é melhor não darmos os perigosos primeiros passos. “mas estão enganadas. Onde devemos pois traçar a fronteira? Se a vida de Tracy Latimer não merece ser protegida. Podemos compreender Robert Latimer. é perigoso pensar desta forma. a perna cortada e bamba e ainda as chagas causadas pela permanência na cama”. Tracy Walters. afirmou-se “agradavelmente surpreendida” pela decisão.O presidente de Saskatoon Voice of People with Disabilities. doentes e outros membros “inúteis” da sociedade? Neste contexto. varetas nas costas. Essa é a grande questão. Quando o Supremo Tribunal de Canadá confirmou a sentença de Robert latimer. “Tendo em conta a combinação do tubo para alimentação. Se aceitarmos qualquer tipo de morte piedosa. No entanto. Outros defensores dos deficientes fizeram eco desta ideia. afirmou o pai. Isto conduz naturalmente a outro argumento. “Teria sido na verdade uma bola de neve e um abrir de portas a outras pessoas para decidirem quem vive e quem morre”. e no final toda a vida terá perdido o seu valor. afirmou. três dos médicos de Tracy deram o seu testemunho sobre a dificuldade de controlar as suas dores. que ela tenha sido morta por causa da paralisia cerebral. “como podem as pessoas dizer que ela era uma menina feliz”? No julgamento. diretora da Associação Canadense de Centros para uma Vida Independente. O senhor Latimer negou. que sofre de esclerose múltipla. afirmou. As pessoas deficientes deveriam ser tão respeitadas e ter tantos direitos como qualquer outra pessoa. e a implicação é que se não queremos acabar como eles. Que podemos dizer disto? A discriminação contra qualquer grupo de pessoas é. O argumento da derrapagem. (…) Devemos pensar na morte de Tracy Latimer como um caso de discriminação de deficientes? O senhor Latimer argumentou que a paralisia cerebral de Tracy não era a questão. Para Tracy tratava-se de uma questão de mutilação e tortura”. afirmou. que queriam “purificar a raça”. o que dizer então de outros deficientes? Que dizer dos velhos. afirmaram alguns. por isso. quando não há diferenças relevantes entre elas para o justificar.” 2 . ancas e pernas. Tracy fora submetida a uma importante e delicada intervenção cirúrgica às costas. foi morta por causa da dor e por não haver esperança para ela. Antes da sua morte. iremos dar a uma “derrapagem” inevitável. e havia ainda mais cirurgias planeadas. um assunto sério. É inaceitável porque implica tratar outras pessoas de forma diferente das outras.

Identifica a situação apresentada no texto. Elementos de Filosofia Moral. Lisboa: Gradiva. Identifica os valores presentes em cada um dos argumentos. 4. Consideras que as críticas levantadas à ação do senhor Latimer são legítimas? Porquê? 6. a favor e contra a ação do senhor Latimer. Atividades: 1. Toma posicionamento pessoal perante a situação apresentada. 23. Faz o levantamento dos argumentos apresentados pelo texto. pp.26. Identifica a ação. 5. 2. 3 .James Rachels (2004). 3. o motivo e a intenção da mesma.