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Direito Civil V – 01/04/13

Na aula passada, vimos a habilitação para o casamento. O
procedimento de habilitação, que, em regra, tramita perante um
oficial de registro, serve, basicamente, para identificar duas coisas.
Primeiro, se há impedimento (obstáculo intransponível) para o
casamento (art. 1.521, CC). Segundo, se há algum tipo de causa
suspensiva (obstáculo transponível) para o casamento (art. 1.523,
CC).
O art. 1.521 dirá: “não podem casar”, ou seja, há uma
vedação legal ao casamento. O CC, então, nos dá certos parentes,
em linha reta ou colateral (até o terceiro grau, inclusive), que não
podem casar, bem como não podem casar as pessoas já casadas
(este impedimento matrimonial, coincidentemente, é crime), nem
as pessoas condenadas por crime de homicídio contra um dos
consortes.
Em
relação
aos
parentes,
temos
um
obstáculo,
aparentemente, de natureza biológica: há um interesse público em
proibir a endogamia, proibir que certos parentes mantenham, entre
si, relações sexuais. A questão biológica não justificaria, entretanto,
a questão da sogra e dos parentes por afinidade. Ao lado desta
explicação, existe, também, um fundamento de caráter sociológico:
a ideia é manter a saúde social do ambiente doméstico. Em relação
à segunda proibição, a justificativa é o princípio da monogamia, até
porque o
direito não busca a multihereditariedade. Se não
abraçássemos o princípio da monogamia, não haveria este
impedimento matrimonial. Em relação à terceira proibição (pessoas
condenadas por crime de homicídio praticado contra o consorte), o
direito imagina, que, por uma questão de eticidade, haverá uma
presunção jure et de jure (absoluta) de insuportabilidade da vida em
comum entre essas duas pessoas. A lei não fala em pessoas
processadas, denunciadas, nem investigadas, mas condenadas. E se
a pessoa foi investigada, mas não foi condenada? E se foi
condenada depois que casou? Essas situações, na prática, nunca
vão acontecer.
Se a pessoa foi denunciada, mas não foi condenada, ela não
se enquadra na previsão do impedimento, podendo casar (até
porque, sendo uma proibição, interpreta-se restritamente).
Se a pessoa casa, e, depois, é condenada, o impedimento não
existia à época do casamento (o tempo rege a prática do ato). Se
não havia o impedimento, ou se diz que, supervenientemente, não é
possível aplicar o impedimento, não sendo possível trabalhar com o
impedimento matrimonial, ou se diz que o impedimento
superveniente gera um obstáculo, sendo, portanto, causa
superveniente de nulidade do casamento.
Qual a consequência jurídica de um casamento que
desrespeita um impedimento? Nulidade absoluta, prevista no art.
1.548, II, CC. O art. 1.549, CC, afirmará que esta nulidade poderá

Art. o regime será o da separação obrigatória. esta pessoa trará as regras desse outro país. Se a pessoa casar. Qual a justificativa disso? Evitar a confusão do patrimônio. e não tem a certidão. A coisa mais fácil do mundo é comprovar que ela não está grávida do leito anterior. Em relação às causas suspensivas. nos casos dos incisos I. Qual a justificativa disso? A possibilidade de gravidez do leito anterior. Para a decretação desta nulidade.ser promovida por ação direta. Apenas diante de uma impossibilidade de apresentação de uma certidão é que iremos a outros meios de prova. No caso posse do estado de casado (a fama de casado. sem a certidão do casamento. A consequência de quem desrespeita um impedimento é a nulidade do casamento. Primeiro. por qualquer interessado. no caso do inciso II. 1. se o fizer. IV: tutor pode casar com tutelado? Curador pode casar com curatelado? Sim. no que diz respeito às causas suspensivas. os nubentes podem pedir ao juiz que não declare a causa suspensiva (§único do art. Segundo. mas. CC. 7º. ou a inexistência de gravidez. se alguém se casa com pessoa de outro país. a imagem de casado. Provando-se a inexistência de prejuízo. a lei elege uma prova primária.545.523). III: o divorciado. Art. A prova do casamento é a certidão do registro. é necessária provocação. Dirá a LINDB que.523. 1. Art. Estamos diante de uma hipótese de nulidade que não é declarável de ofício. art. Prova do casamento. outra é dizer “não deve”. por exemplo. 1. III e IV. “more .523. O curador não deve causar com a curatelada. militares e agentes diplomáticos somente podem casar com autorização do seu superior. é a obrigatoriedade do regime de bens (separação obrigatória de bens). I: o viúvo ou viúva que tiver filho do cônjuge falecido. que envolvem interesse particular. nem nada que brote do casamento. Temos duas pequenas curiosidades em relação a este assunto. CC: posse do estado de casado. enquanto não estiver homologada a partilha de bens do casal. principal. CC – causas suspensivas (“não devem casar”). A única consequência jurídica decorrente deste problema. antes de realizar o inventário. fugido da Alemanha. estas se submeterão ao direito internacional privado. II: “até 10 meses”. prevista no art. Não há como pedir o divórcio. O direito. Imaginemos. entretanto. quanto aos impedimentos. não ignora a possibilidade incomum de não se ter a certidão de casamento. CC. 1. Art. que um sujeito veio para o Brasil com a sua esposa. Casamento que desrespeita causa suspensiva é casamento válido. então. 1. 1. ou pelo MP. Por que ele não deve? Porque é o administrador dos bens da curatelada. No caso específico do casamento.641. terá o regime da separação obrigatória. LINDB. de forma que. entretanto. Uma coisa é dizer “não pode”.543. as regras serão as nacionais.

Serão três. então. Vem. Sílvio Rodrigues não concorda com Orlando Gomes. na qual não havia situação de imputação legal de nulidade. ou do casamento entre irmãos. Essa é uma ideia muito típica do positivismo. Imaginemos que sou um alemão. vigorava a ideia positivista de que não há nulidade sem lei que previamente a qualifique como nula. afirmando que o único pressuposto de existência do casamento é o registro. validade e eficácia. construíram os pressupostos de existência do casamento.547: na dúvida entre as provas favoráveis e contrárias. uma lei que não trata da consequência jurídica do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Este é o princípio do “favor matrimonii”. diversidade de sexos e vontade livre. Planos da existência. injurídica (para a época). nem Pontes de Miranda. Pontes de Miranda e Orlando Gomes. que talvez esteja ultrapassada. mas do plano da validade. então. O plano da existência é um plano meramente teórico. é criar uma teoria de que este casamento é inexistente. será necessária medida judicial. Art. por exemplo. O que eu faço. Esta é uma construção teórica para retirar do mundo jurídico um casamento não apoiado pelo direito. julgar-se-á pelo casamento. em 1808 (séc. O CC não trata do plano da existência. XIX). . à época. mas não qualificado como nulo.uxoria” – como se marido e mulher fossem). os pressupostos de existência do casamento: celebração. O problema surgia quando tínhamos uma situação inusitada. encontrada em alguns livros. Esta é uma teoria alemã. 1. sendo uma resposta para uma necessidade prática. Qual o problema aqui? No início da dogmática jurídica. diante do casamento de duas pessoas do mesmo sexo. no século XIX. daí porque. que é a teoria do casamento inexistente. A teoria do casamento inexistente é uma teoria argumentativa. para o cancelamento do registro. Existe uma teoria. vige o “in dubio pro matrimônio”. desenvolvida por Zachariae Von Lingenthal).