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USP – Universidade de São Paulo

FFLCH – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas


Departamento de Geografia.

Por uma geografia política da imagem e do discurso:


poder simbólico e espaço urbano nas comemorações
dos 450 anos de São Paulo.

Trabalho de Graduação Individual.


Aluno: Eduardo Donizeti Girotto.
São Paulo, outubro de 2005.
USP – Universidade de São Paulo
FFLCH – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Departamento de Geografia.

Por uma geografia política da imagem e do discurso:


poder simbólico e espaço urbano nas comemorações
dos 450 anos de São Paulo.
Relatório Final

Trabalho de Graduação Individual.


Aluno: Eduardo Donizeti Girotto.
Orientadora: Profa. Dra. Glória da Anunciação Alves.
São Paulo, outubro de 2005.

2
Ao meu pai...

3
“Poucos se dão conta de que, por vezes, é preciso
perder as esperanças a fim de voltar a viver. Perder
a esperança é ter a coragem para reconhecer que o
que está morto realmente morreu. E, com os
mortos, só existe uma coisa a ser feita: que sejam
enterrados. Enquanto os mortos não são
enterrados, a vida fica paralisada, à espera. Uma
vez enterrados, perdidas as ilusões, voltamos dos
cemitérios para a vida. É preciso que os mortos
sejam enterrados para que os vivos tenham
permissão de viver”

(Rubem Alves, Conversas sobre Política)

4
Índice

Apresentação......................................................................................................6
Agradecimentos................................................................................................10
Introdução.........................................................................................................13
1º. Parte: Questões Teóricas e Metodológicas................................................18
1. O Espaço Urbano: da cidade à metrópole...................................................18
1.2. A criação do mundo: o processo de mundialização.................................41
1.3. Mídia: Desenvolvimento, funcionamento e sua função na sociedade atual.
..........................................................................................................................50
2º Parte: A cidade de São Paulo......................................................................64
2.1. a construção do discurso e da imagem da cidade....................................64
2.2 O discurso .................................................................................................69
2.2.1 O Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e o mito bandeirante.
..........................................................................................................................86
2.2.2 A revolução constitucionalista de 1932 e a reafirmação mito................99
2.3 A imagem.................................................................................................112
“Estranhem o que não for estranho................................................................112
2.3.1 A categoria paisagem como caminho de método.................................113
3º. Parte..........................................................................................................134
A festa dos 450 anos: a recriação do discurso e da imagem da cidade.......134
3.1 Dos 400 aos 450 anos: Continuidades e descontinuidades....................136
3.2 A organização da festa ou a produção do espetáculo............................138
3.3 Quem conta um conto, aumenta um ponto (e lucra um tanto)................142
3.4 O Vale do Anhangabaú: reconstrução da imagem e do discurso...........145
3.6 O efeito de zapping: a cobertura mídia e a produção de uma nova prática
sócio-espacial.................................................................................................156
3.7 Da Festa Popular ao Espetáculo de Massa.............................................160
Conclusões.....................................................................................................172
A “cidade mãe” do poeta................................................................................173
m esboço de conclusão para uma cidade inacabada: das possibilidades....182
Bibliografia......................................................................................................186
Anexos............................................................................................................192
Entrevista com Ana Maria Ciccaio, assessora de imprensa da Associação
Viva o Centro..................................................................................................192
Entrevista com o Sr. José Bernardo de Araújo, autor da música “Cidade Mãe”
........................................................................................................................220
Oração-poema por Guilherme de Almeida ao ser inaugurado, no Parque
Ibirapuera, o monumento elevado à epopéia Paulista...................................241
Hino dos Bandeirantes...................................................................................244
Cidade Mãe....................................................................................................246
Hino da Parada dos 450 anos........................................................................247

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Apresentação

O trabalho apresentado a seguir corresponde às análises e discussões


desenvolvidas durante um ano de pesquisas realizadas sobre o tema proposto,
que seja, o poder simbólico e o espaço urbano nas comemorações dos 450 anos
da cidade de São Paulo. Esta pesquisa desenvolvida, porém, é continuidade de
pesquisa anterior sobre a mesma temática, mas que focava uma outra escala da
problemática e uma outra localidade 1, sendo, portanto, esta pesquisa a
continuidade de uma linha de análise que pretendemos desenvolver dentro da
geografia e que aborda a relação desta ciência com o conceito de poder simbólico
desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bordieu, na tentativa de compreender
questões fundamentais a esta ciência, partindo do pressuposto da relação entre
sociedade e espaço.
Durante este período de pesquisa desenvolvemos uma série de
perspectivas e metodologias que, unidas ao trabalho de campo e as discussões a
partir de diferentes correntes teóricas, nos possibilitaram uma maior apreensão e
compreensão do tema proposto, bem como a apresentação de algumas
abordagens e análises teóricas sobre o mesmo. Dessa maneira, o trabalho a
seguir tem como objetivo apresentar, de forma sucinta, a travessia de nossa

1
GIROTTO, Eduardo D. O processo de modernização-conservação do discurso regionalista, a
transformação espacial e a destruição do patrimônio histórico espacial na cidade de Barra, BA,
Trabalho de Iniciação Científica, USP: 2004.

6
pesquisa, a travessia no sentido proposto por Guimarães Rosa em toda a sua
obra, da abertura para o novo, para o desconhecido, para as quebras de valores e
preconceitos, partindo dos primeiros contatos com o nosso objeto de estudo até
nossas conclusões.
Neste período foram desenvolvidas discussões teórico-metodológicas
acerca de conceitos e temas fundamentais para a compreensão de nosso objetivo
de estudo. Como caminho de método utilizado, pensamos ser esta a melhor
maneira de se iniciar qualquer pesquisa, ou seja, partindo-se sempre do
levantamento das discussões já produzidas e existentes sobre o tema com o
intuito claro de debatê-las e verificando até que ponto alguns conceitos podem
ainda explicar as tendências atuais.
Da mesma maneira, a definição de conceitos e categorias de análises, a
partir de uma perspectiva histórica, de gênese e desenvolvimento, nos possibilitou
uma interpretação da realidade mais firmemente calcada numa base teórica que
nos permitiu compreender a mesma a partir de seu caráter de dinamicidade e
totalidade. A discussão acerca de conceitos como urbano, metrópole, mídia,
mundialização, massa, espetáculo, paisagem nos possibilitou uma base teórico-
metodológica, ou se preferirmos um termo mais banal para designarmos tal fato,
tal discussão nos forneceu um “óculos teórico” determinado que nos permitiu
observar a realidade a partir de certos elementos que acreditávamos serem
fundamentais para a compreensão de nosso objeto de estudo.
Este trabalho está dividido em 3 partes. Na primeira parte, desenvolvemos
um capítulo introdutório, em que apresentamos ao leitor o nosso objeto de estudo,
justificando sua escolha e apresentando algumas hipóteses básicas que
nortearam o desenvolvimento de nossa pesquisa. Num segundo capítulo,
realizamos uma discussão acerca do conceito de espaço urbano, sua gênese e
desenvolvimento, com o intuito de compreender as diferentes formas-conteúdo
que tal conceito, tornado materialidade, adquire em seu desenvolvimento histórico
e de que maneira tais transformações contribuem na definição de tal conceito na
atualidade. Num terceiro capítulo, fazemos uma discussão sobre o chamado
processo de mundialização (que alguns outros autores preferem chamar de

7
globalização) que em nossa perspectiva apresenta-se como essencial para se
compreender as transformações pelas quais passa a compreensão do homem
sobre o mundo e sobre si mesmo.
Num quarto capítulo, debruçamos-nos sobre a questão da mídia e sua
influência na redefinição das relações humanas. Para tanto, realizamos um
caminho de compreensão histórica do processo de desenvolvimento da mídia e de
sua revolução técnica atual. Na segunda parte de nosso trabalho, procuramos
compreender de que maneira se deu a construção do discurso e da imagem da
cidade a partir de um duplo processo que denominamos de Mitificação da História
e Simulação da Geografia, ou seja, a partir de um processo de criação de um
certo discurso histórico-geográfico, o qual acompanha, uma certa ordenação
espaço-temporal da cidade-metrópole.
Na segunda e terceira partes de nossa pesquisa, debruçamo-nos sobre a
questão da construção do discurso e da imagem da cidade, partindo do
pressuposto de que tal discurso e tal imagem possuem uma raiz histórica e
geográfica que precisa ser desvendada para que assim possamos compreender
quais os interesses e as estratégias que estão ocultos sobre a forma idílica do
discurso e da imagem. Nosso objetivo, portanto, com o desenvolvimento desta
pesquisa, era compreender de que maneira este discurso e esta imagem da
cidade, como construções históricas surgiam atualizados nas comemorações dos
450 anos da cidade de São Paulo e de que maneira esta atualização estava
diretamente relacionada com as transformações sócio-espaciais de um momento
no qual a cidade aparece implodida em metrópole, buscando desvendar os novos
e antigos agentes responsáveis por tal discurso e imagem, bem como seus
interesses e suas estratégias de auto-reprodução, ligada a lógica da acumulação
do capital em sua fase mundializada, especulativa e imobiliária.
A partir daí, nosso intuito foi o de compreender de que maneiras as
comemorações dos 450 anos da cidade de São Paulo, contribuem para reproduzir
este discurso e esta imagem da cidade, responsável, em nossa perspectiva, por
um processo de distanciamento do habitante da cidade em relação à busca de sua
cidadania. Para tanto, procuramos analisar o papel de alguns agentes, atuais e

8
antigos, responsáveis por tais discursos e imagens, a partir de alguns materiais
(reportagens, vídeos, entrevistas, etc.) produzidos por tais agentes.
Esta pesquisa aqui apresentada encerra uma primeira etapa de nossa
trajetória pela geografia e pelo Departamento de Geografia da Universidade de
São Paulo. Portanto, é também resultado de debates com alunos e professores,
de discussões, de aulas, de travessias realizadas durante estes cinco anos em
que pudemos conviver com tantas perspectivas dentro da Universidade. Ao
propormos compreender a geografia dos estudos que realizava, descobríamos
aos poucos que era a nossa própria geografia, a nossa espaço-temporalidade que
íamos aos poucos desvendando e, em muitos casos, construindo. As travessias
presentes nestes anos de estudo e pesquisa, contribuíram para que
compreendêssemos um pouco mais daquilo que somos, daquilo que nos forma e
nos faz ser enquanto homem, enquanto realidade dinâmica, em movimento, em
contradição.
Dessa maneira, as geografias que descrevemos nesta pesquisa e em todas
as outras que desenvolvemos, seja no departamento de Geografia ou fora dele,
descrevem também um pouco de nossa geografia, de nossa trajetória que se
constrói juntamente com as temáticas que procuramos compreender. Portanto,
apesar de haver erros conceituais nesta pesquisa e em outras, não há, porém,
mentiras e nem estratégias escusas, daqueles que encaram a ciência como uma
forma de ocupar posições de destaque. Não há mentiras, porque é a nós mesmos
que procuramos compreender. A geografia é a nossa alteridade, e neste caso, não
há como substituir compromisso por falsidade. Os que o fazem, que guardem o
risco de suas escolhas.
Que esta pesquisa possa ser uma possibilidade de diálogo, de partilha de
uma de tantas outras geografias que ainda iremos desvendar e construir. E que,
sem falsas pretensões, esta geografia a ser construída possa propor uma nova
geografia dos homens, na qual a identidade, como negação do outro, dê lugar a
alteridade, a compreensão de que aquilo que somos se constrói a partir da relação
que estabelecemos com o outro, que não é apenas minha negação, mas a

9
possibilidade do desvendamento e da construção. Quem sabe surja daí, então,
uma nova geografia, uma Geografia da Alteridade...

Agradecimentos

Agradecer é sempre um ato de reflexão, introspectivo, de descoberta. De


descoberta das perdas e ganhos. Quando chegamos ao fim de uma determinada
etapa de nossa vida é necessário que voltemos nossos olhos para trás e
procuremos na estrada que percorremos aqueles que encontramos durante a
travessia. E são muitos. E todos, extremamente necessários na construção dessa
pesquisa que no final se revelou como uma experiência de vida, de alguém que
como habitante desta cidade tenta compreendê-la para que um dia possa vivê-la
de forma mais intensa e menos burocrática. Lembremos então de todos aqueles
que de alguma forma contribuíram para o que aqui hoje apresentamos.
Gostaríamos de reiterar o nosso agradecimento ao Conselho Nacional de
Pesquisa Científica, pelo apoio dado neste ano de pesquisa, através da bolsa de
auxílio à pesquisa. Do mesmo modo, agradecemos a Profa. Dra. Glória da
Anunciação Alves pela orientação e apoio que tem dado a nossa pesquisa, bem
como as questões e problemáticas que tem levantado e que contribuem de forma
decisiva para o aprofundamento e, portanto, para uma melhor compreensão de
nosso objeto de estudo. Agradeço principalmente a autonomia recebida e que me
possibilitou percorrer o caminho desta pesquisa cometendo erros e acertos e com
eles compreendendo, que no fundo, é assim que se configura uma pesquisa. Ao
contrário de uma orientação paternalista e voltada para seus próprios interesses, o

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que nos forneceu a Professora Glória foi a possibilidade do erro e com ele, do
aprofundamento, do mergulho cada vez mais profundo sobre os temas estudados,
mergulho este propiciado pelo diálogo e pelo debate, nunca pelo autoritarismo ou
pelo sectarismo. Agradeço principalmente pela atenção e pelo otimismo em meus
momentos de pessimismo.
Gostaria de agradecer aos professores do Departamento de Geografia da
Universidade de São Paulo, pelos anos de discussão, de debate e de
enfrentamento. Pelos diálogos estabelecidos e pelos desafios propostos, reitero o
meu agradecimento. A professora Amélia Luisa Damiani e ao Professor Elvio
Rodrigues Martins agradeço de maneira especial e particular pela importância que
tiveram em toda a minha trajetória até aqui na geografia, ao propor
aprofundamentos e desafios, ao quebrarem paradigmas e ao atuarem nesta
ciência de forma sincera e compromissada com a realidade. E por estes motivos,
é um prazer tê-los na banca examinadora do meu Trabalho de Graduação
Individual, por mais um desafio que me propiciarão nesta minha trajetória
geográfica.
Agradeço aos amigos do Grupo de Estudo do Velho Chico, do Laboratório
de Geografia Urbana da Universidade de São Paulo (Erick, Zé e Luciana) pelos
debates e discussões que resultaram em inúmeros capítulos desta pesquisa e que
contribuíram para que as teorizações aqui realizadas não se transformassem
apenas em discursos vazios, deslocadas de uma prática que além de cientifica
configura-se política.
Aos alunos do Projeto Vana que contribuíram com questões, trabalhos de
campos e intervenções durante todo o período de pesquisa e que possibilitaram
um olhar de fora da Universidade, um olhar capaz de corrigir a miopia causada
pelo excesso de luz do projeto Iluminista da Universidade de São Paulo. Graças
aos alunos, o sentido pode ser resgatado sem prejuízo da compreensão.
Aos grandes provocadores que fizeram e farão parte de minha vida: Keila,
Zeca, Luís, Jaime, Rafael, Renato que contribuíram com suas críticas ácidas que
se expandiram para além do trabalho, alcançando a própria validade da ciência e
a maneira como a realizamos. Estas críticas me possibilitaram ser mais,

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aprofundando cada vez mais as questões propostas, ao mesmo tempo em que me
impediram de continuar sem saber ao certo para onde ia. Graças a estas críticas,
a estas intervenções, pude, muitas vezes, começar de novo, compreendendo, que
na pesquisa, o único erro é ignorar que se erra.
Aos meus pais (Gildo e Maria) e irmãos (Éderson e Junior) pela carinho e
afeto dispensados que sempre foram essenciais para a construção desta
pesquisa. Agradeço profundamente pela compreensão e pela entrega que me
possibilitaram dedicação exclusiva a pesquisa e a construção deste relatório.
A Priscila, pelo carinho, pela atenção, pelo cuidado, pela compreensão,
durante todo o tempo, contribuindo inclusive nas transcrições das entrevistas
realizadas. Apesar da ausência e da falta de atenção que marcou nosso
relacionamento durante este ano de pesquisa, pude compreender nela uma
grande companheira, geradora de potência e de criação.
A todos, dedico esta pesquisa, este trabalho coletivo, que tem um pouco de
cada um nestas linhas.

12
Introdução

“Eu vejo o capitalismo contemporâneo como modo de produção da


imagem. A tal ponto que não é mercadoria corpórea que se
beneficia da imagem para circular, mas sim a própria imagem que
tem na mercadoria corpórea um suporte possível para sua
circulação, e não o único. O capitalismo pós-sociedade do
espetáculo se transformou num modo de produção de imagens.
Nós vivemos numa sociedade superindustrial (não pós-industrial).
Numa sociedade que se organiza como uma superindústria do
imaginário”. Eugênio Bucci

“São Paulo é a cidade das oportunidades”, “Todo o mundo cabe em São


Paulo”, “São Paulo é a capital do trabalho”, “São Paulo é cidade da diversidade”.
Ao caminharmos pelas ruas da cidade de São Paulo, nos deparamos em muitas
esquinas, expostas em outdoors gigantescos, algumas destas frases, que vêm
sempre acompanhadas de imagens e que compõem o arcabouço do discurso
sobre a cidade. São Paulo, em sua fase atual, na qual a cidade implodiu em
metrópole é antes de tudo um discurso criador de imagens. Este é o pressuposto
do qual parte a nossa pesquisa. A cidade, esvaziada de seu conteúdo histórico-

13
social e, dessa maneira, implodida em metrópole, se transforma num grande
simulacro no qual se realizam pseudo-eventos. Impossibilitada de ser vivida, São
Paulo só poder ser consumida. Sua condição atual pressupõe, pelo menos como
tendência a redução da vida e da experiência.
Vende-se a cidade: talvez seja este o discurso subliminar que esteja por
detrás das imagens que se espalham por todo o vazio de sentidos do espaço
urbano de São Paulo. E não é apenas uma a cidade que se vende: vende-se a
cidade moderna, a cidade colonial, a cidade pós-moderna, a anticidade. Vendem-
se, na verdade, os sonhos e os desejos que cada uma destas imagens da cidade
estimulam.
A cidade shopping-center não necessita de cidadãos. Ao mesmo tempo em
que afirma sua cidadania global, o “usuário da cidade” não pode ser cidadão em
lugar nenhum. A implosão da cidade transmutada agora em metrópole é causa e
conseqüência da destruição do cidadão e em sua transformação no consumidor-
mais-que-perfeito (SANTOS, 1970:).
O Espaço-Tempo da cidade-metrópole, do cidadão-consumidor, é o espaço
tempo da repetição cíclica de pseudo-eventos. “A cidade difusa”, “a cidade pós-
moderna”, “a cidade sem centralidade”, “a cidade mundial”, todos estes discursos
que se querem científicos e se propõem compreender a metrópole em sua
atualidade, reproduzem o discurso próprio dos interesses ligados a produção do
espaço e, portanto, a reprodução ampliada do capital. Diferentemente do que
propõe alguns discurso atuais sobre São Paulo se apresentar como uma cidade
pós-moderna2, descentralizada, o que vemos é uma metrópole-mercadoria,
invadida em todas as suas formas-conteúdo por esta relação social fantasiosa. No
momento atual, a centralidade da cidade-metrópole se dá principalmente a partir
da centralidade da forma mercadoria, não reduzindo, porém, mesmo que este seja
um de seus objetivos, a possibilidade de outras centralidades, de outras maneiras
de perceber e viver a cidade-metrópole 3. Esta centralidade da forma mercadoria
2
A idéia da cidade pós-moderna parte do princípio do fim da organização centralizada e dos grandes projetos
que definiram a constituição das cidades no chamado período modernista. Para os autores defensores desta
idéia, o período atual do urbanismo estaria sendo marcado por projetos pontuais e por alterações específicas
na organização da cidade, perdendo desta maneira a preocupação com a organização total da cidade.
3
Sobre a questão da centralidade na cidade moderna Lefebvre aponta a existência de uma contradição,
decorrente do processo de explosão-implosão da cidade. Segundo o autor “En noutre, notre ville moderne est

14
que se apresenta falsamente como única centralidade possível, transpassa agora
todas as esferas da existência da cidade-metrópole. Dessa maneira, não é de pós-
modernidade que estamos tratando e nem, portanto, de cidade pós-moderna, mas
de um momento histórico no qual há um aprofundamento das contradições já
presente na constituição do modo de produção capitalista, que em sua gênese
tem o modo de vida urbano, como necessário à sua atuação.
Para a implosão da cidade em Metrópole, dois elementos são essenciais,
em nossa análise. A implosão da cidade em Metrópole pressupõe uma mitificação
da história e uma simulação da geografia, ou seja, a transformação do espaço-
tempo da experiência e da realização que transcende a sobrevivência, no espaço-
tempo do mito-simulacro, da representação e da fragmentação. No decorrer de
nosso trabalho, procuraremos analisar de que maneira tal processo de constitui e
de que forma se aprofunda na atualidade, tendo como pano de fundo as
comemorações dos 450 anos da cidade de São Paulo, que, como mostraremos
posteriormente, se apresenta como um pseudo-evento na qual novamente a
experiência da cidade é substituída por sua imagem e por sua representação.
Buscaremos também compreender com o desenvolvimento deste trabalho,
quais são os interesses ligados aos discursos e imagens que produzem e são
produzidos pela cidade-metrópole, bem como a ligação com as transformações
estruturais as quais o modo de produção capitalista vem sofrendo na atualidade,
principalmente relacionadas com a produção do espaço. Como o título de nosso
trabalho já demonstra, nosso intuito é compreender também as estratégias e os
atores sociais, bem como os meios utilizados para a realização deste discurso da
cidade, que configuram uma certa geografia política do discurso e da imagem da
cidade-metrópole. Nosso pressuposto teórico acerca da política e da questão do
poder, que na atualidade se apresentam como sinôminos, mas que não o são em
sua construção histórica aponta a idéia de que o poder está para além do Estado,
porém ainda tem neste uma de usas principais formas de se realizar. O que

une ville éclatée. La ville médiévale, la ville historique a encore em Europe une réalité incontestable (Paris).
Mais en même temps elle est éclatée par ce fhénomène d’explosion/implosion . D’un côté elle éclate en
périphéries, en banlieues plus ou moins lointaines, en couronnes, où l’on relègue les travailleurs, les exclus.
Et d’un autre côté, sa centralité s’accentue. Elle devient un centre de décisions, d’autorité, d’informations, de
connaissance”. H. Lefebvre. Hors du centre, point de salut ? in Espaces Temps, n º33.

15
pressupomos, porém para tal análise é que, no momento atual, há uma
transformação acerca daquilo que venha a ser o Estado-Nacional. Em nosso
ponto de vista, ao invés da destruição e conseqüente desaparecimento dos
Estados-Nacionais, como o discurso político-científico atual nos quer fazer pensar,
o que há é uma fusão dos interesses corporativos das grandes transnacionais com
a figura institucional do Estado. O que há é a formação de um bloco histórico,
utilizando-se do conceito desenvolvido por Gramsci: de um lado, temos uma
instituição histórica que para manter sua autoridade, abalada por diversas crises
estruturais, deve agora atuar não mais em suas atribuições clássicas, ou seja, na
defesa do território e da população nacional, mas em articulação com uma nova
forma de poder mundial, que seja, as transnacionais, que se utilizam, por sua vez,
de todo o simbolismo histórico-autoritário que ainda possui o Estado Nacional,
para obter seus interesses. Neste processo, o território nacional, como
preocupação primeira do Estado Nacional é substituído pelo termo mercado e a
população deixa de ser a nação e passa a se constituir como “mercado
consumidor”. Como podemos perceber, é a partir da articulação entre uma antiga
e uma nova forma de poder que se necessitam mutuamente para suas auto-
reproduções, que os conteúdos históricos ligado aos Estados Nacionais são
substituídos por novos conteúdos que dizem respeito, portanto, a uma nova ordem
política-econômica, baseada na articulação entre Estado e Transnacionais.
Estará também no foco de nossa pesquisa a questão do desenvolvimento
da mídia de massa e da estruturação de um sistema que tem como centro difusor
de imagens, discursos e informação a televisão. Nosso objetivo é compreender de
que maneira a televisão contribuiu para a implosão da cidade em metrópole, do
cidadão em consumidor, ao mesmo tempo em que cria a representação da cidade
e de suas diversas formas esvaziadas de conteúdo. Nossa pesquisa buscará
também compreender de que maneira o discurso e a imagem da cidade
construídas a partir da cooptação do imaginário social e de sua reestruturação
pela mídia de massa atinge a população da cidade e como esta incorpora e
reproduz tais discursos e imagens. Tal compreensão buscará não apenas
demonstrar as conseqüências negativas de tal processo (fenômeno este que,

16
como sabemos, já foi extremamente abordado e interpretado), mas também
apresentar as possibilidades de superação deste quadro, negativo num primeiro
momento, a partir de uma crítica radical e da percepção de que, a realidade como
movimento, não permite apenas um caminho de método e, conseqüentemente,
práticas sócio-espaciais unilaterais. Se assim fosse, toda pesquisa científica seria
antes de tudo um manual de conformismo e de inação, o que não pretendemos,
de maneira alguma, que este trabalho seja. A análise da realidade, em nossa
percepção, feito de forma radical, deve ser o primeiro passo para a transformação
das práticas sócio-espaciais.
Como dissemos anteriormente, partimos do pressuposto de que a mídia de
massa organiza-se e se estrutura em um sistema que tem como grande centro
difusor a televisão. A partir disso, buscaremos também analisar a força de
persuasão que a mídia em suas diferentes formas tem sobre a percepção da
população, bem como a sua capacidade de estabelecer significados novos para
determinadas formas e sua capacidade de destruir antigos conteúdos.
Vende-se a cidade! Mas o que mais se vende junto com ela? É a cidade
apenas a sua forma física ou se configura a partir principalmente das relações
sociais que ao se realizarem vão estabelecendo significados a cidade? A
totalização da forma-mercadoria sobre todas as esferas da vida esvazia a cidade
de homens e a enche de fantoches-consumidores. Consumam, sintam-se felizes
porque são os escolhidos da metrópole avassaladora, nos apontam as imagens
repletas de rostos felizes e sonhos desfeitos. Mas há algo de incomodo nesta
metrópole. A vida parece distanciar-se tanto das imagens, que uma certa angústia
parece dominar o consumidor quase perfeito. Talvez, seja por este motivo, que
existam tantas drogarias na cidade-metrópole, ou isso, talvez, possa explicar a
venda excessiva de livros de auto-ajuda. Possivelmente, este fato tenha alguma
relação com os condomínios fechados, com a frieza dos supermercados, com o
andar cíclico do shoping-center, com os suicídios, com as “primeiras rugas dos
teenagers”. Fechado em seu desespero, fruto da não compreensão, o
consumidor-mais-do-que-perfeito acompanha a cidade-metrópole a partir das
imagens que incessantemente invadem sua cabeça. Na sala de estar, um

17
ambiente agradável constituído de formas-mercadoria repletas de imagens dá ao
consumidor mais-do-que-perfeito a sensação de bem estar. Também pudera, a
miséria da sua condição de consumidor o impede de viver e experienciar a cidade.
A construção da sala fuga talvez tenha alguma relação com a impossibilidade de
viver a cidade-metrópole.
Estas são algumas dúvidas das quais parte nossa pesquisa e que nos
auxiliará para que no final deste trajeto compreendamos a nós mesmo,
pesquisadores transformados em objetos de estudo, porque cidadãos
transformados em consumidores mais-do-que-perfeitos.

1º. Parte: Questões Teóricas e Metodológicas

1. O Espaço Urbano: da cidade à metrópole.

Em seu desenvolvimento, o modo de produção capitalista tem como


condição e resultado a produção e reprodução social de determinadas espaços-
temporalidades que entram no processo de reprodução ampliada do capital. Esta,
por sua vez, dá-se a partir de determinadas formas de acumulação e reprodução
do capital, nas quais os objetos espaços-temporais, organizados territorialmente
pelo modo de produção, são construídos, destruídos e refuncionalizados. Neste
processo, cada uma destas novas organizações espaços-temporais 4 está
4
A utilização do conceito de espacialidade-temporalidade neste trabalho segue uma corrente metodológica,
ainda pouco desenvolvida dentro da geografia e das ciências em geral, que parte do pressuposto da
desvinculação entre espaço e materialidade. Tal linha epistemológica parte da concepção de espaço
apresentado pelo filósofo alemão Gottfried Willehlm Leibniz, que durante os séculos XVII e XVIII travou
intenso debate com Newton em relação as concepção de espaço e tempo. Segundo Leibniz, contrapondo-se ao
conceito de espaço e tempo absolutos de Newton, base de toda a sua física, o espaço seria a ordem de
coexistências e o tempo à ordem de sucessão. HELLMAN, ao analisar a obra de Leibniz cita o seguinte para
tentar exemplificar tal concepção de espaço: “Se todos os corpos do universo dobrassem de tamanho de um
dia para outro, perguntava Leibniz, notaríamos alguma diferença na manhã seguinte? Ele afirmou que não
notaríamos nada: como o tamanho de nosso corpo dobrou, argumentava, não haveria nenhuma maneira de
descobrirmos uma mudança – e isto foi dito no início dos anos 1700”. (HELLMAN, 1998:88) A idéia do
espaço como ordem das coexistências ganha força e passa a ser mais estudada e melhor interpretada a partir
da obra de Einstein e neste contexto surge na Geografia a partir da idéia de espaço relacional, desenvolvida
principalmente por Pierre George. A idéia de espacialidade vem deste contexto e do pressuposto do espaço

18
diretamente ligada ao processo de reprodução ampliada do modo de produção
capitalista.
Neste sentido, um fator importante a se considerar no início desta pesquisa
diz respeito à questão acerca daquilo que definimos como espaço urbano, bem
como sua evolução e suas transformações a partir da incorporação do mesmo
pelo modo de produção capitalista em suas diferentes fases. Quando tratamos
desta questão é fundamental que percebamos que o conceito de espaço urbano
não é uma realidade com fim em si mesmo, não se configurando, portanto, como
uma categoria a-histórica que pode ser definida a partir de princípios universais.
Agir desta maneira, a partir desta concepção acima ressaltada é criar uma
confusão entre o conceito de espaço urbano e suas formas e conteúdos que este
conceito assume em determinados períodos históricos. Não se pode, com o perigo
de se tornar superficial a análise, associar espaço urbano com uma determinada
forma material ou com um certo conteúdo, com uma determinada ordenação
espaço-temporal dos objetos que coexistem e, portanto, se relacionam, mas, ao
contrário, deve-se levar em conta o movimento que está presente nas
transformações que esta forma-conteúdo vem sofrendo. Pensada apenas como
categoria a-histórica, universal e imutável, o espaço urbano apresenta-se como
uma série de formas, totalmente desprovidas de conteúdo, independente das
relações sociais que possa ocultar. Para a construção deste conceito, portanto, é
necessário que se compreenda o movimento da forma e do conteúdo que o
espaço urbano apresenta internamente como possibilidade de análise.
Como vimos, pensado apenas em relação as suas formas materiais, o
conceito de espaço urbano acaba por ocultar as estratégias e os interesses que
são inerentes a sua constituição. A cada configuração de uma determinada
organização do espaço urbano, no sentido da forma e do conteúdo, da
organização espaço -temporal e da definição das normas e das práticas, se oculta
no espaço urbano uma certa organização de toda a sociedade e é neste sentido

como relação e ordem de coexistência. Segundo ESCOLAR, “a espacialidade é constitutiva da matéria e não
o espaço; portanto, se o objeto da produção intelectual é o conhecimento, nunca poderia uma condição geral
de sua determinação objetiva (a espacialidade) ser um meio de produção ou seu resultado. ‘Produzir espaço’,
conseqüentemente, é impossível. Produzir configurações materiais espacializadas subjetiva ou objetivamente
é possível”. (ESCOLAR, 1996: 17). Sobre esta discussão ver ainda Élvio Rodrigues Martins.

19
que este conceito se quer sempre como totalizador. Totalizador no sentido que a
partir dele, se é capaz de compreender a totalidade da sociedade, suas relações e
interesses, que o produz e lhe dá sentido.
Como vimos, não se poder associar espaço urbano apenas com suas
formas materiais de organização. O espaço urbano é antes de tudo um processo
que tem por base de constituição o movimento da forma e do conteúdo. Esta
afirmação pode ser pensada a partir da relação existente entre o termo cidade e o
termo espaço urbano. O termo cidade não pode ser utilizado como mero sinônimo
de espaço urbano sem se correr o risco de se cair num extremo formalismo,
mesmo que a cidade seja uma das muitas formas-conteúdo que assume o espaço
urbano em seu desenvolvimento histórico. A cidade, como fenômeno histórico-
geográfico, diz respeito a uma das formas-conteúdo assumida pelo espaço
urbano, mas que não resume, portanto, todas as suas possibilidades. Agir dessa
maneira, ou seja, utilizar espaço urbano e cidade como termos de mesmo
significado pode acarretar numa incompreensão do desenvolvimento histórico e
geográfico dos conteúdos do espaço urbano. Num dos mais textos mais
interessantes sobre o desenvolvimento da sociedade humana, Hannah Arendt
aponta o que eram as cidades gregas em seu conteúdo originário. Segundo a
autora,

“A rigor, a polis não é a cidade-estado em sua localização física; é a


organização da comunidade que resulta do agir e falar em conjunto, e o
seu verdadeiro espaço situa-se entre as pessoas que vivem juntas com
tal propósito, não importa onde estejam. Onde quer que vás, serás um
polis: estas famosas palavras não só vieram a ser a senha da
colonização grega, mas exprimiam a convicção de que a ação e o
discurso criam entre as partes um espaço capaz de situar-se
adequadamente em qualquer tempo e lugar”. (ARENDT, 2004: 211).

Como podemos perceber, neste texto, a autora apresenta um determinado


conteúdo que o espaço urbano, na forma-conteúdo da polis grega, assumiu em
seu desenvolvimento histórico-geográfico. A polis, em sua essência, era o local da
relação entre os cidadãos, da vida ativa, da realização da política que só podia se
dar através da fala e do discurso. Era por meio da relação entre os homens, dos
cidadãos das cidades-estados gregas, em especial Atenas, que se configurava e

20
se construía o espaço público, condição sine qua non para a realização da
política, como atividade essencialmente humana. A forma-conteúdo do espaço
urbano na Antiguidade Clássica tinha o seu maior expoente na polis, numa
determinada forma de organização que abarcava, em certo sentido, a totalidade
da vida e da sociedade. A polis grega em seu desenvolvimento resulta em largo
sentido na república romana, numa nova forma de organização do espaço urbano
que já surgia como gérmen na Grécia antiga, principalmente nas obras de alguns
filósofos gregos como Platão, que preferia a vida contemplativa e portanto, o
surgimento de uma forma de organização política que pressupunha o rei-filósofo,
base esta da república romana.
Neste sentido, se pensarmos no desenvolvimento histórico, político,
econômico e social da humanidade poderemos perceber que a cada período
histórico o conteúdo do espaço urbano é alterado, bem como suas formas de
existência, sendo que em alguns casos novas formas ganham existência ou
antigas são reapropriadas e refuncionalizadas, sendo que todo este processo se
dá a partir de condições diretamente relacionadas com a estrutura de
desenvolvimento do modo de produção dominante.
Segundo LEFEBVRE (2004) ao se tratar de sociedade urbana é necessário
fazer sua contextualização para que a análise desta problemática não perca de
vista a especificidade do fenômeno. Para o autor,

“Aqui reservamos o termo sociedade urbana a sociedade que nasce da


industrialização. Essas palavras designam, portanto, a sociedade
constituída por esse processo que domina e absorve a produção
agrícola... Essa sociedade urbana só pode ser concebida ao final de um
processo no curso do qual explodem as antigas formas urbanas,
herdadas de transformações descontínuas”. (LEFEBVRE, 2004: 15)

Como aponta o autor, cada momento histórico, portador de uma certa


dinâmica espaço-temporal, realiza-se por meio da transformação do próprio
conceito daquilo que se denomina como urbano. Nestas transformações, a forma-
conteúdo do urbano ganha novos significados e novas concepções que devem ser
compreendidas em sua totalidade.

21
A partir disso, quando pensamos na atualidade do modo de produção
capitalista, em sua fase financeira, científica, informacional e midiática e em sua
relação com a nova forma-conteúdo do espaço urbano, surge em nossa análise a
necessidade de compreender o fenômeno do desenvolvimento da metrópole. O
conceito de metrópole, empregado aqui neste texto, é de fundamental importância
para a compreensão do desenvolvimento do modo de produção capitalista e de
sua relação intrínseca com o espaço urbano e tem sido alvo de constantes
discussões teórico-metodológicas. Para entendermos melhor tal conceito, se faz
necessário resgatarmos algumas dessas discussões desenvolvidas acerca do que
é a metrópole5 e seu processo de formação.
Um dos primeiros textos mais abrangentes a discutir a questão do
desenvolvimento do modo de produção capitalista e sua relação com o fenômeno
da metrópole é o “Espaço Dividido” do Professor Milton Santos, no qual o autor
apresenta uma análise da situação dos países subdesenvolvidos a partir da
compreensão da lógica daquilo que o autor denomina como “os dois circuitos da
economia urbana”. Segundo o autor, este tipo de abordagem metodológica
5
Sobre a questão metodológica acerca da análise urbana, Milton Santos faz a seguinte observação.“Mas, é
necessário, antes de tudo, entrar num acordo sobre o termo metrópole. Cremos que, em termos de análise
urbana em país subdesenvolvido, uma das maiores fontes de ambigüidade vem de um problema de
taxionomia. As classificações mais correntes são de dois tipos: 1) as que se contentam com o dado
demográfico bruto e que distinguem as cidades em função do volume da população (cidades pequenas,
médias, grandes e muito grandes); 2) as que se referem a uma classificação funcional em que a aglomeração
urbana freqüentemente aparece desligada da noção de organização do espaço (assim fala-se de cidades
industriais, cidades comerciais, cidades administrativas, cidades religiosas, cidades de repouso ou de férias,
cidades universitárias etc.). Propomos uma classificação diferente, considerando que a capacidade de
organização do espaço pela cidade depende de seu nível funcional. Ter-se-iam as cidade locais, as cidade
regionais, as metrópoles incompletas e as metrópoles completas”. (SANTOS, 2004: 283-284). A análise de
Milton Santos, feita na década de 70, levava em consideração uma certa hierarquia entre as cidades, e era
através desta hierarquia que se dava as relações intercidades. Nossa hipótese para a realização desta primeira
parte do trabalho que visa discutir e propor uma teoria acerca do fenômeno da metrópole, parte da concepção
de que o desenvolvimento técnico-científico dos meios de comunicação e a conseqüente dispersão geográfica
do capital e da informação rompem com esta tradicional hierarquia entre as cidades que passam a se
relacionar a partir da constituição de um modo de vida que tem como princípio centralizador a forma-
mercadoria. A partir deste elemento, surge o fenômeno das redes. As hierarquias urbanas agora teriam sua
base organizativa na constituição de redes de fluxos de pessoas, informações, capital, tecnologia e imagens.
As redes não rompem as hierarquias mas criam novas hierarquias menos fixas, mais volúveis as
transformações e as necessidades de reprodução do modo de produção capitalista. Não é porém todo o
território abarcado por essas redes. Há pontos nos quais a rede se interconecta formando o seu território de
atuação, ou seja, o território das redes. Neste contexto, pode-se dizer que há pontos dentro e fora da rede e
esta condição de presença ou ausência dentro da rede define a função do ponto-cidade na lógica de
reprodução do modo de produção capitalista. Neste sentido, o fenômeno da metrópole, em nossa análise, teria
sua explicação para além do dado demográfico, encontrando-a na análise dos modos de vida metropolitano
que se expande e totaliza todas as formas de espaço-urbano.

22
permitira uma maior possibilidade de entendimento das diferentes configurações
urbanas dos países subdesenvolvidos ao mesmo tempo em que permitiria
estabelecer relações entre a estrutura inter-relacional dos dois circuitos e sua
contribuição na estruturação urbana. A partir disso, o autor analisa o fenômeno
da metrópole e o processo de metropolização como resultado da articulação
destes dois circuitos da economia urbana. Para o autor,

“O fenômeno metrópole é inseparável da grande cidade ou da capital de


um Estado Moderno. A grande cidade tornou-se metrópole quando da
revolução do consumo. Novas atividades, tanto na escala das relações
internacionais como na escala do simples indivíduo, não só aumentaram
a dimensão das cidades mas também provocaram um inchamento e uma
diversificação das atividades.” (SANTOS, 2004: 283).

Um fator fundamental que está presente na interpretação de Milton Santos


diz respeito à relação existente entre o fenômeno da metrópole e aquilo que o
autor denomina de revolução do consumo. Nesta interpretação é por meio de uma
mudança na própria lógica da reprodução do capital que o fenômeno da metrópole
tem sua gênese. A Revolução do consumo, apontada por Milton Santos 6, tem sua
explicação diretamente relacionado com o processo de reestruturação do modo
de produção capitalista, que segundo Harvey, tem seu início no período de 1965-
1973, e que vai marcar, neste sentido, a transformação da acumulação fordista e
o surgimento da acumulação flexível. Segundo Harvey,

“De modo mais geral, o período de 1965 a 1973 tornou cada vez mais
evidente a incapacidade do fordismo e do keynesianismo de conter as
contradições inerentes ao capitalismo: na superfície, essas dificuldades
podem ser melhor apreendidas por uma palavra: rigidez”.(HARVEY,
2004: 135).

Como vimos, a organização do modo de produção capitalista até a década


de 70 teve como principal regime de acumulação a organização fordista da
produção e do consumo. Tal organização possibilitou o desenvolvimento de uma
produção em série e em massa, o que contribui para a expansão da acumulação
e a reprodução do modo de produção capitalista. Tal regime de acumulação, a
6
H. Lefebvre desenvolve esta idéia da transformação e revolução do consumo, perpassando todas as esferas
da vida social, em seu texto “A Sociedade Burocrática de Consumo Dirigido”.

23
partir de 1970 entra em crise como um resultado direto das próprias contradições
do modo de produção capitalista. No texto acima, Harvey aponta o problema da
rigidez do fordismo como o principal empecilho no desenvolvimento do modo de
produção capitalista. A rigidez fordista se dava tanto no campo da produção (a
rigidez da mão-de-obra, dos estoques, etc.) quanto no campo do consumo (a
rigidez da homogeneização da produção). A crise desencadeada a partir de 1970,
que é a própria crise do Estado de Bem-estar Social que vigorou na Europa
principalmente após a Segunda Guerra Mundial e nos Estados Unidos após a
crise de 1929, trouxe a tona a discussão acerca da necessidade do
desenvolvimento de um novo regime de acumulação que pudesse superar a crise
de acumulação do modo de produção capitalista. É a partir deste período que se
desenvolve o regime da chamada acumulação flexível.

“A acumulação flexível, como vou chamá-la, é marcada pro um confronto


direto com a rigidez do fordismo. Ela se apóia ma flexibilidade dos
processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e
padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de
produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de
serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente
intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional. A
acumulação flexível envolve rápidas mudanças dos padrões do
desenvolvimento desigual, tanto entre setores como entre regiões
geográficas, criando, por exemplo, um vasto movimento no emprego no
chamado setor de serviços, bem como conjuntos industriais
completamente novos em regiões até então subdesenvolvidas...
(HARVEY, 2004: 140)

O regime da chamada acumulação flexível inaugura uma nova maneira de


organização da produção, diminuindo drasticamente o tempo da mesma ao
mesmo tempo em que, e é neste sentido que se pode falar em revolução do
consumo, propicia uma nova forma de organização do mesmo, no qual há uma
diminuição brusca do tempo de giro da mercadoria. Neste sentido, cria-se também
uma massa de trabalhadores que passam a não fazer mais parte dessa produção,
conseqüência da reestruturação e flexibilização, decorrentes do processo de
automação e robotização da produção, da força de trabalho utilizada. A antiga
rigidez do regime de acumulação flexível é substituída por uma produção em
massa, cada vez mais rápida e por um consumo incessante que tem por base a

24
necessidade constante de inovação. Os padrões de consumo fordista são
modificados e substituídos por novos, que tem como princípio de funcionamento a
novidade e a efemeridade. A necessidade da diminuição do tempo de giro da
mercadoria gera novas atividades dentro do modo de produção capitalistas, tais
quais como a publicidade e o marketing, que tem como objetivo atuar para que a
mercadoria se realize como tal. A publicidade e o marketing, dentro do regime de
acumulação flexível, passam a ser as atividades essenciais e de primeira ordem
para a realização da reprodução ampliada do capital.
Retornando a discussão acerca do conceito de metrópole, em outro
importante texto sobre o assunto, LENCIONI (2003) aponta e discute aquilo que
denomina de processo de metropolização do espaço. Segundo a autora,

“Esse processo de metropolização do espaço imprime ao território


características que até então eram exclusivas da região metropolitana.
Essas características fazem com que não só as práticas sociais, mas,
inclusive as identidades dos lugares fiquem sujeitos aos códigos
metropolitanos. São esses códigos os avatares dos novos valores e
signos da sociedade contemporânea”. (LENCIONI, 2003: 35).

Nesta interpretação, a autora propõe uma nova abordagem para a


compreensão do fenômeno metrópole e do processo de metropolização que vai
além de seu caráter essencialmente demográfico. Nesta abordagem, entra em
foco a análise e a compreensão dos códigos da metrópole que se organizam
descontinuamente num território, mas que se ordenam a partir de uma rede
estruturada em fluxos de informação e comunicação. O processo de
metropolização do espaço, neste sentido, não se dá de forma contínua em todo o
território, como se faz supor uma análise mais demográfica do fenômeno que
parte do princípio do fenômeno da conurbação e, portanto, da continuidade
territorial de uma dada região metropolitana, mas aponta e analisa o fenômeno a
partir da sua descontinuidade territorial, pressupondo assim a concepção de uma
nova hierarquia urbana que deva ser lida a partir do conceito de redes
estruturadas em fluxos dos mais diferentes tipos.

25
Neste sentido, três conceitos surgem como essenciais para a compreensão
do processo de metropolização: os conceitos de homogeneização, fragmentação
e hierarquização7. Para a autora,

“Homogeneização, fragmentação e hierarquização, bem como o processo


de metropolização do espaço, constituem aspectos teóricos com grande
capacidade de instrumentalizar a compreensão da dinâmica urbana”.
(LENCIONI, 2003: 43).

Somente a partir deste três conceitos, postos em relação e em dinâmica


conjunta é que se pode compreender o fenômeno da metropolização do espaço.
Um fenômeno que ao mesmo tempo em que se pretender homogeneizador,
resulta numa intensa fragmentação do território, o que resulta no caráter
descontínuo do processo analisado, sendo que é por meio da hierarquização que
se “cria o nexo que permite compreender a dinâmica relacionada aos processos
atuais da globalização”. (LENCIONI, 2003: 43).
Em seu texto sobre a produção social do espaço urbano Mark Gottdiener
apresenta uma interpretação do fenômeno da expansão do modo de vida urbana
e da metropolização. Convergindo para as análises já demonstradas acima, o
autor aponta o papel que exerce a expansão das cidades na alteração do modo
de vida de populações territorialmente descontínuas. O modo de vida urbano,
como realidade que pretende, pelo menos, como tendência, ocupar todos os
espaço da vida humana se organiza territorialmente em pontos que se relacionam
a partir de redes de fluxos de informações, mercadorias e pessoas. A
descontinuidade territorial é, portanto, um elemento constituinte que diz respeito a
este processo de expansão do modo de vida urbano. Neste sentido, para
Gottdiener,

“A vida urbana tornou-se portátil e, desse modo, ocorreu o mesmo com a


‘cidade’. Em lugar da forma compacta de cidade que outrora
representava um processo histórico em formação há anos, existe agora
uma população metropolitana distribuída e organizada em áreas
regionais em permanente expansão, que são amorfas na forma, maciças

7
Os três conceitos mencionados, homogeneização, fragmentação e hierarquização são conceitos
desenvolvidos e trabalhados por Henry Lefebvre em seu livro “ A Produção do Espaço”.

26
no escopo e hierárquica em sua escala de organização social.”
(GOTTDIENER, 1993: 14).

O surgimento dos condomínios fechados, a translocação das centralidades


urbanas e a própria cidade virtual aparecem como resultados diretos deste
processo de expansão do modo de vida urbano que tem por base a constituição
de uma rede técnica-informacional capaz de permitir um deslocamento mais veloz
e eficaz do ponto de vista da racionalidade econômica e, portanto, um processo
de aceleração do espaço-tempo. A expansão do modo de vida urbano é
conseqüência, mas também causa deste processo de aceleração espaço-
temporal que tem resultados profundos na forma de apreensão e compreensão da
realidade por parte da população que se insere e é inserida neste processo.
A partir destas duas análises acerca do fenômeno metrópole, podemos
perceber que a transformação da cidade em metrópole deve ser entendida como
um processo diretamente relacionado com a reestruturação do modo de produção
capitalista, que tem no surgimento do regime de acumulação flexível seu principal
expoente. É a partir disto que compreendemos o processo de implosão da cidade
em metrópole não apenas como um processo de alteração das formas e objetos
que coexistem espaço-temporalmente nas cidades, mas como a própria implosão
do conteúdo da cidade que, dessa maneira desaparece, ou subiste como resíduo
na formação da metrópole. A cidade e todas as possibilidades de organização da
vida que dela emanam são totalizadas e implodidas pela lógica do novo conteúdo
histórico que a metrópole pretende inaugurar. Para compreendermos este
processo de implosão da cidade e do surgimento do fenômeno metrópole,
essencial para a compreensão de nosso objeto de estudo, faz-se necessário que
entendamos dois conceitos fundamentais que podem nos fornecer as bases para
o entendimento de tal fenômeno: totalidade e totalização.
Em “A Natureza do Espaço”, obra singular do Professor Milton Santos
sobre o método geográfico, seus objetos e preocupações, há um capítulo
dedicado inteiramente à discussão do espaço e da totalidade 8. Para Milton Santos,
8
“A noção de totalidade é uma das mais fecundas que a filosofia clássica nos legou, constituindo em
elemento fundamental para o conhecimento e análise da realidade. Segundo essa idéia, todas as coisas
presentes no Universo formam uma unidade. Cada coisa nada mais é que a parte da unidade, do todo, mas a
totalidade não é uma simples soma das partes. As partes que formam a totalidade não bastam para explicá-las.

27
o espaço se configura como totalidade e, portanto, compreender tal conceito é
compreender o próprio espaço, naquilo que ele possui de mais essencial. Como
totalidade, o espaço apresenta-se como a possibilidade da realização integral da
vida humana, em todas as suas esferas. Como possibilidade, o espaço fornece ao
homem, de diferentes maneiras, aquilo que é essencial para a sua realização
plena na relação com os outros homens e com o mundo. A totalidade, porém,
como essência do espaço é apenas uma possibilidade ideal que só pode se
realizar a partir da relação com o modo de produção dominante, produtor de um
processo de totalização desta totalidade. Há possibilidades ligadas a prática
espacial e as possibilidades de transgressão que a totalidade encerra que tendem
a serem ocultadas no processo de totalização. Como lógica formal, a totalidade é
a identidade, um fim em si mesmo. Como lógica dialética, a totalidade só existe
em relação9, como movimento.
E é neste contexto que surge o processo de totalização. Neste processo,
uma das esferas da sociedade se autonomiza ganhando fim em si mesmo e a
partir desta autonomização implode as outras esferas da vida social, impedindo
que estas se realizem. O processo de totalização não pode ser entendido como o
domínio de uma dada esfera da vida social sobre as outras (como por exemplo, se
diz que o plano econômico é dominante dentro de um determinado modo de
produção), mas, ao contrário, é a total aniquilação das possibilidades que as
outras esferas da vida social continham como latências.
Neste sentido, para o autor, diferentes de totalidades, o nosso período
histórico é marcado por totalizações, por visões de mundo parciais que se querem
universais e legítimas. A autonomização de uma esfera da vida social, que ao se
afirmar como única possibilidade de interpretação da realidade, não apenas
subordina as outras esferas, mas as destrói. Tais totalizações não são apenas
ideologias, porque são incorporadas e vividas como realidade. É a representação

Ao contrário é a totalidade que explica as partes”. (SANTOS, 2002: 77)


9
“O pensamento do nada não é assim mais que a representação todavia abstrata da infinita fecundidade do
universo. Hipostasiar (tornar o momento absoluto) o ser ou o nada, a qualidade ou a quantidade, a causa ou o
fim, é negar o movimento. A razão dialética supera todas as categorias congeladas do entendimento
(“análise”): suprime-as enquanto isoladas e pro isso mesmo lhes outorga sua verdade no movimento total da
realidade e do pensamento, do conteúdo e da forma.” LEFEBVRE, H. O materialismo dialético.

28
da realidade, a ilusão que se autonomiza e destrói a própria realidade. Dessa
maneira, para o autor, nossa época é marcada pela impossibilidade de haver
totalidade, mas apenas totalizações. Cada nova totalização destrói a totalidade,
pois cria uma realidade que se pretende inerte, acabada, cristalizada. A realidade
passa assim a ser compreendida como uma soma de totalizações, e não
totalidade em movimento.
Como vimos, diferentemente da totalização que se quer inerte, cristalizada,
estruturadamente fechada, sendo esta uma condição necessária para a própria
reprodução de novas totalizações, já que somente ao impedir que a totalidade e
suas características internas se realizem é que pode se realizar as novas visões
parcial-universais do mundo, as novas totalizações, a totalidade pressupõe
movimento, pressupõe a existência de um processo histórico que defina e redefina
suas características, sendo que a totalidade é uma realidade sempre se fazendo e
por se fazer, complicada de se compreender no momento de sua realização, pois
este, definitivamente não existe. A totalidade não é um fim, mas um processo
sempre a se realizar.

“A totalidade estruturada é, ao mesmo tempo, uma totalidade perfeita,


acabada e uma totalidade in-fieri, em movimento, um processo. Em
outras palavras, devemos distinguir a totalidade produzida e a totalidade
em produção, mas as duas convivem, no mesmo movimento e nos
mesmos lugares. Para a análise geográfica, essa convergência e essa
distinção são fundamentais ao encontro de um método”. (SANTOS: 1996:
119).

A partir disso, o processo de implosão da cidade pode ser compreendido


como resultado de um processo de totalização que a metrópole ao se constituir
realiza. A metrópole é a negação da cidade e das possibilidades de realização da
vida humana que ela, a cidade, continha. A reprodução ampliada do modo de
produção capitalista expande o mundo da forma, mercadoria até chegar ao
momento exato da total penetração em todas as esferas da vida humana. A
totalização que a metrópole inaugura é, portanto, a totalização do mundo da
mercadoria, do fetiche e da fantasia.

29
Para entendermos este conceito, retomemos um pouco o surgimento da
idéia de metrópole, que data dos processos de colonização, de expansão marítima
comercial dos séculos XV e XVI, principalmente. Quem era a metrópole neste
contexto de inauguração da modernidade? Como se estabelecia a relação entre a
metrópole e seu outro, a colônia?
A metrópole era a detentora do monopólio do comércio. A ela cabia as
decisões acerca daquilo que podia ou não realizar a colônia, entendida como
complemento econômico da metrópole. Mas, para além de detentora do
monopólio comercial, a metrópole detinha também um outro monopólio, que seja,
o da difusão de um determinado modo de vida, de uma determinada estrutura
social e política. Dessa maneira, a metrópole surge também como um fenômeno
cultural, como um agente totalizador do modo de vida, criador de regras,
normatizações e comportamentos. Não é por acaso que ao processo de
colonização da América Latina acompanhou de perto o tribunal do Santo Ofício,
responsável por condenar o modo de vida pré-existente e dessa maneira, difundir
e impor uma nova maneira de organização da vida, que reproduzisse os
interesses dos agentes econômicos, políticos, culturais e sociais da metrópole.
O fenômeno metropolitano na atualidade é, em grande medida, semelhante
a este processo de aculturação, que se realiza a partir do desenvolvimento de
uma rede técnica organizada espaço-temporalmente e que surge como base
necessária para que a totalização metropolitana se realize. A totalização,
enquanto processo também realizado pela metrópole, é a totalização da forma
mercadoria, a difusão desta que se constitui como um dos fundamentos do modo
de produção capitalista. A totalização da forma mercadoria rompe com o modo de
vida pré-existente, implodindo-o, transformando em resíduo, em fragmento, e
propõe em seu lugar, a unilateralidade de seu discurso e de sua imagem. Neste
discurso e nesta imagem está representada a imagem do mundo que afirma não
haver mais possibilidades para além daquelas que se encerram na forma
mercadoria e, portanto, a vida humana deve, enfim, se resumir a isso, a esta
unilateralidade. Nesta perspectiva, que vem ganhando força nos últimos anos nos
meios acadêmicos pouco comprometidos com a análise da realidade e mais

30
interessados com cargos e status político, o capitalismo, como modo de produção
hegemônico ocupou, com o fim da URSS o seu lugar de direito e enfim conduzirá
a humanidade ao progresso, promessa ontológica da modernidade. Neste
contexto, as relações sociais passam, definitivamente a se realizar enquanto
relação entre coisas, entre objetos que se autonomizam e perdem ligação com
contextos histórico-geográfico de suas produções. Nesta leitura equivocada da
realidade, oculta-se uma lógica da aceitação, da naturalização daquilo que é
social, histórico e geográfico e, portanto, um leitura que se quer compromissada
com a realidade, porque compromissada com a transformação da mesma, precisa
desvendar os interesses e as estratégias que são reproduzidos a partir desta
leitura parcial e enviesada da realidade.
Portanto, um dos pressupostos teóricos que conduzirá o início de nossa
pesquisa diz respeito ao entendimento do fenômeno metropolitano enquanto um
processo que é também de aculturação, num processo de difusão e expansão de
uma maneira de organização da vida que tem por fundamento a forma
mercadoria.
A metrópole é neste sentido o grande simulacro 10 no qual se realizam os
sonhos de consumo e a miséria cotidiana. Como negação da vida humana em
toda a sua potencialidade, a metrópole é a realização da experiência da
fragmentação, da separação dos homens que se dá a partir da unificação do
mundo da mercadoria ou como, veremos adiante, do mundo da imagem da
mercadoria. Ao unificar o mundo sobre tal signo, a metrópole produz a experiência
do isolamento e, portanto, do espaço-tempo fragmentário. A ação na metrópole
tende a ser manipulação e se encontra centralizada nos interesses e nas
estratégias dos produtores da metrópole, surgindo para os outros habitantes como
apenas falsos eventos mediados por diferentes esferas de poder que tem por
unidade a mesma estrutura básica de reprodução, que seja, a forma mercadoria.
A ação surge na metrópole como integrante de um par dialético com a
10
“Por simulacro designa-se um estado de réplica tão próxima da perfeição que a diferença entre o original e a
cópia é quase impossível de ser percebido” (...) “O simulacro, por sua vez, pode tornar-se a realidade”. “O
entrelaçamento de simulacros da vida diária reúne no mesmo espaço e no mesmo tempo diferentes mundos
(de mercadorias). Mas ele o faz de tal modo que oculta de maneira quase perfeita quaisquer vestígios de
origem, dos processos de trabalhos que os produziram ou das relações sociais implicadas em sua produção”.
(HARVEY, 2004: 271).

31
manipulação e é difícil discernir uma da outra. Como simulacro de reprodução do
mundo da mercadoria, na metrópole as relações humanas mudam de conteúdos,
implodidas que são pela forma mercadoria, pela totalização realizada pela esfera
econômica que surge como única possibilidade da vida na metrópole. Destruídas
pelo mundo e pela lógica da mercadoria, tais relações passam a ser agora
relações imagéticas, dominadas pela lógica econômica do fetiche e do imaginário,
sendo que os homens passam a se relacionar não a partir de suas reais
necessidades, mas de desejos e simulações que dizem respeito ao mundo da
fantasia e das imagens. Segundo Harvey, na atualidade do modo de produção
capitalista e em seu desenvolvimento na constituição da metrópole,

“A publicidade e as imagens da mídia passaram a ter um papel muito


mais integrador nas práticas culturais, tendo assumido agora uma
importância muito maior na dinâmica de crescimento do capitalismo”.
(HARVEY, 2004:).

Na atualidade, é, principalmente através de imagens que os homens


constituem suas relações. Estas imagens são organizadas espaço-temporalmente
em toda metrópole. Convertendo-se num verdadeiro bombardeio sensorial, atuam
diretamente na manipulação dos gostos e dos desejos (figura 1). Não é mais só a
partir de suas reais necessidades e desejos que os homens se relacionam,
criando vínculos e possibilidades de transformações, mas principalmente a partir
da linguagem e da manipulação que a publicidade, unilateralmente, realiza. E é,
neste contexto, que a cidade real, portadora das possibilidades e contradições
inerentes à própria, tende a ser substituída pela imagem da cidade, que se
apresenta ao seu habitante como simulacro e é neste sentido, que como imagem
criada pela lógica da metrópole, pelo processo de ocultamento das reais
condições humanas que o modo de vida metropolitano realiza, que a cidade
surge. A partir disso, a cidade representada como imagem nada mais é, totalizada
pela metrópole, que um signo da mesma, e, portanto, não pode ser vivida ou
experimentada, mas, como imagem, apenas observada. A cidade imagem oculta
então a cidade real que, latente em suas possibilidades irrealizadas, espera o
momento de ser redescoberta. Enquanto isso não ocorre, o processo que

32
acompanha a construção do modo de vida metropolitano cria e recria o fenômeno
do isolamento: do isolamento dos homens entre si, dos homens e do espaço-
tempo da vida e das possibilidades de realização.
A metrópole, porém, apesar de se querer total, de se pretender como um
movimento unilateral de dilatação de um determinado modo de vida, abre também
possibilidades para que o seu contrário, ou seja, a cidade que como resíduo ali
permanece possa ser redescoberta e recriada a partir de novas vivências e
experiência capazes de dar sentido a práticas sócio-espaciais existentes, como
latências, na cidade. Um outro modo de vida, marcado por possibilidades e
contradições, que faz parte da realidade própria da cidade e de seu modo de vida,
ainda está presente no próprio processo de totalização que a metrópole quer
realizar; tal processo, porém, apresenta falhas e lacunas, hiatos nos quais a
cidade, pensada em seu modo de vida, surge, primeiramente, de forma
espetacular, até ganhar sentido para que aqueles que a reconhecem. Dessa
forma, para além de um total pessimismo, nossa análise sobre a questão
metropolitana atual, compreende também as possibilidades que tal processo
apresenta para a superação da atual situação que até agora descrevemos.
Voltaremos a esta problemática posteriormente. Por enquanto, analisemos os
aspectos do modo de vida metropolitano e sua pretensa totalização.

33
Figura 1: A metrópole transforma-se então, numa organização espaço-temporal de signos e
significados que dão a falsa sensação de fragmentação e difusão. Esta falsa sensação, porém
oculta a unidade que tais possuem, unidade esta realizada pela forma mercadoria e pela forma
imagem da mercadoria. Exemplo do bombardeamento sensorial da metrópole: cruzamento das
Avenidas Brasil e Rebouças, São Paulo. (Foto do autor, dezembro de 2004).

34
Figura 2: Os signos da metrópole. A ordem institucional e ordem da forma imagem da mercadoria.
Sobrepostas tais formas representam o processo de redução das possibilidades da humana no
sentido em totalizam uma única maneira de habitar a cidade. (Foto do autor, dezembro de 2004).

Como tendência, não podem existir mais cidadãos na metrópole, apenas


consumidores.

“No reino do consumo, o cidadão é rei. Uma monarquia democrática:


igualdade diante do consumo, fraternidade no consumo e liberdade por
meio do consumo. A ditadura do consumo finalmente apagou as barreiras
de sangue, de linhagem ou de raça. Seria o caso de nos alegrarmos por
isso, sem reservas, não fosse essa ditadura ter proibido, pela lógica das
coisas, qualquer diferenciação qualitativa, tolerando apenas diferenças
quantitativas entre os valores e os homens”. (VANEIGEM, 2002: 77).

Como tendência de única possibilidade da metrópole o consumo resume a


vida humana. As novas centralidades da metrópole são criadas a partir desta
lógica: agora são os shoppings centers e os supermercados que se apresentam

35
como os “espaços públicos”11, num contexto no qual o conceito de espaço público
é apresentado como sinônimo de espaço coletivos. A coletividade do consumo
tende, na metrópole, a substituir o cidadão e o espaço público, num processo do
qual resulta o surgimento da massa. Vale lembrar, porém, que de maneira
algumas tais espaços podem ser compreendidos como sinônimos de espaços
públicos, mas pelo contrário, o que tais espaços demonstram é o próprio
esvaziamento do conteúdo público da metrópole. E é neste sentido que tal
discurso tem por objetivo ocultar a transformação fundamental que a metrópole
produz: que seja, a destruição do caráter público, no sentido apresentado por
Hannah Arendt, da metrópole. O público agora é substituído pela publicidade do
mundo da mercadoria, a qual só têm direitos aqueles que podem consumir. É a
consolidação daquilo que Hannah Arendt chamou de esfera social, a apropriação
do espaço público pela esfera privada como resultado da necessidade de
sobrevivência, que a modernidade inaugura.
Esta transformação do conteúdo do espaço público deve ser compreendida
também a partir da lógica de reprodução do espaço urbano inerente às próprias
estratégias de reprodução ampliada do modo de produção capitalista. Os grandes
agentes das metrópoles, os “pools” imobiliários, associados ao capital financeiro e
especulativo passam a definir diariamente aquilo que a metrópole deve ser, a
partir de seus interesses e da lógica do lucro.
A cidade, suas possibilidades, seu espaço-tempo, nesta implosão,
permanece como resíduo na paisagem simulada da metrópole-fragmento. Por
baixo dos outdoors, das imagens, dos simulacros, dos falsos eventos, a cidade
está soterrada; porém, ainda pouco se sabe de sua latência. O que está soterrado

11
Em seu livro “A Condição Humana”, Hannah Arendt apresenta algumas definições sobre o que seria para o
Ateniense o espaço público. Para a autora, tal esfera da vida seria a esfera essencial da realização da vida
ativa, da esfera da ação e do discurso. Seria o âmbito do mundo comum, que, interposto entre os homens,
como uma mesa, possibilitaria a compreensão da condição de que, nós homens, não existimos isoladamente.
O espaço público neste sentido seria a condição sine qua nom para a realização da política e seria no espaço
público que os homens, a partir da ação e do discurso revelariam a si mesmos e aos outros. Para a autora, o
espaço público é o espaço da aparência “no mais amplo sentido da palavra, ou seja, o espaço no qual eu
apreço aos outros e os outros a mim; onde os homens assumem uma aparência explícita, ao invés de se
contentar em existir meramente como coisas vivas ou inanimadas... Para os homens, a realidade do mundo é
garantida pela presença dos outros, pela fato de aparecerem a todos: e tudo o que deixa de ter essa aparência
surge e se esvai como um sonho – íntima e exclusivamente nosso mais desprovido de realidade”.(ARENDT,
2004: 211).

36
na metrópole e que diz respeito a cidade são as possibilidades de realização da
vida humana em toda a sua potencialidade, possibilidades estas que parecem se
perder no processo de totalização imposto pela esfera econômica na metrópole,
mas que como vimos permanecem ainda como latência, prontas a serem
despertadas, a serem chamadas a se realizar. Os resíduos soterrados da cidade,
da realização das potencialidades da vida que ela pressupõe, para virem à tona,
para deixarem de ser latência e passarem para o âmbito da prática urbana,
precisam ser reconhecidos e para isso é necessário se compreender a cidade e
suas possibilidades. Para a realização desta tarefa, o próprio conceito de cidade e
seu desenvolvimento histórico necessitam ser resgatados; de outra maneira, a
cidade, sede do discurso, em sua construção histórica, será substituída pelo
discurso da cidade e, como veremos na análise deste processo na atualidade,
pela imagem do discurso da cidade. Acordar a cidade de sua latência é
compreendê-la em suas promessas ainda não realizadas para que tal
compreensão possa resultar numa prática sócio-espacial capaz de realizar a
cidade para além da metrópole.
A latência da cidade não pode ser confundida com uma falsa nostalgia do
tipo “Associação Viva o Centro”12, que oculta em seu interior as estratégias de
valorização e reprodução de determinadas espaço-temporalidades, mas deve ser
compreendida como a realização de todas as possibilidades ainda irrealizadas
que continha a cidade. A falsa nostalgia da cidade produz a espetacularização da
vida e da cidade. A cidade surge como sujeito, como imagem a ser vendida e
comprada, uma mercadoria com tantas outras. Esse processo de transformação
da cidade em sujeito está incluído no processo de transformação da urbanização

12
“Primeiro, a Viva o Centro pode ser caracterizada como uma ONG, é um organismo não-governamental.
Foi a primeira tomada de consciência de nível-não público, não-estatal, de preservação de uma área tão
grande. Todos os fundadores da Viva o centro, como você vai verificar, são empresas praticamente ou do
sistema financeiro ou do sistema institucional, embora a Viva o Centro tenha tentado alargar isso para uma
OAB e outras instituições da sociedade civil. Então, não é uma primeira tomada de consciência conjunta da
sociedade civil, principalmente da sociedade econômica, na preservação de um sítio. (..) A segunda
característica é que ela não era uma instituição executora de serviços, mas uma instituição para fazer
diagnósticos e, além disso, sugerir políticas para o poder público, para a sociedade etc. (...) Depois, tinha um
terceiro aspecto, que era fazer o entrosamento entre a sociedade civil e a sociedade política, que pouco
conversavam, e um exemplo extraordinário disso, a meu ver, foi o projeto Travessia, que juntou o Sindicato
dos Bancários com os Bancos, para uma ação social que devia ser em grande parte do governo (entrevista
concedida a Heitor Frugoli Jr. Por Jorge da Cunha Lima, em 15.07.1997) in FRUGOLLI JR., 2000:72-73).

37
em negócio, como na chamada “revitalização do centro histórico”, que, como
vimos, está diretamente relacionado à criação da imagem da cidade pela
metrópole, com o intuito de desencadear um processo de valorização e
especulação urbana. Vale lembrar, que entre os principais membros fundadores e
participantes da Associação Viva o Centro estão grandes grupos empresariais
ligados ao capital financeiro e imobiliário, o que demonstra a relação intrínseca
existente entre estas duas formas de capital na reprodução e valorização do
espaço urbano, na transformação da urbanização em negócio.
A metrópole é a cidade mundial, mas a cidade mundial não é mais cidade,
ou pelo menos é a sua negação explícita, sobre a aquilo que ainda pouco
podemos ver. A cidade mundial, como discurso e imagem, é um evento da
metrópole. Neste sentido, o próprio termo cidade mundial 13, aplicado neste
contexto transforma-se num pleonasmo. A implosão da cidade em metrópole e
sua ocultação residual é um fenômeno que diz respeito a constituição do
capitalismo mundial e só tem sentido nestes termos. Toda metrópole é um
fenômeno mundial, toda a cidade é um fenômeno universal 14. Como mundial, a
13
Segundo Luis Riffo, analisando a obra de Saskia Sassen o termo cidade-mundial ou cidade-global estaria
relacionado com “o novo papel estratégico das cidades na globalização” sendo que neste momento histórico
caberia as cidades-globais o papel de coordenação e integração da dispersão espacial e da integração global da
economia. Como podemos perceber, o termo cidade-global está, desta maneira, relacionado a uma função
específica que as cidades assumem na atualidade do modo de produção capitalista. Tal análise,
essencialmente funcionalista, perde de vista a inauguração de um novo modo de vida que o surgimento das
cidades-globais, (em nosso caso, preferimos o termo metrópole como já explicado) realiza, que tende a se
expandir por todas as formas do espaço-urbano. Com as transformações técnicas-cientificas dos meios de
comunicação e a dispersão cada vez mais intensa de um fluxo constante de informações, as pequenas cidades
começam a se assemelhar, em relação ao modo de vida, cada vez mais com as metrópoles. Se partimos da
concepção de que o fenômeno da metropolização tem sua explicação para além do dado demográfico,
perceberemos que o processo de metropolização, como inauguração de um novo modo de vida se dá de forma
acelerada na atualidade do modo de produção capitalista, como condição e resultado de sua reprodução
ampliada.
14
Segundo o dicionário de filosofia Oxford, “um universal é uma propriedade ou uma relação que pode ser
exemplificada por um número de coisas particulares diferentes: cada coisa branca é um exemplar ou uma
espécie da propriedade brancura, e cada coisa quadrada é um exemplar da propriedade de ser quadrado. As
coisas abrangidas por um universal são assim semelhantes em alguns aspectos.” Neste sentido, quando
afirmamos que a forma-conteúdo cidade, que historicamente assume o espaço urbano, é uma forma-conteúdo
universal no sentido em que se desenvolve de maneiras particulares em determinadas partes do globo. Mesmo
sem existir uma relação material intensa entre estas regiões do globo, a forma-conteúdo cidade desenvolve-se
de maneira particular na Mesopotâmia, no Egito, na Grécia, na Itália, na América Colombiana, guardando
traços comuns que dizem respeito a universalidade do fenômeno. Quando afirmamos que a forma-conteúdo
Metrópole é um fenômeno mundial, partimos do pressuposto que ela se dá a partir do desenvolvimento de um
determinado modo de produção que em sua atualidade se torna mundial, unificando o mundo neste sentido a
partir de sua lógica de reprodução. Neste sentido, o fenômeno metrópole surge como um fenômeno mundial
que diz respeito a realização da mesma lógica de reprodução em todos as partes do mundo. Não é um

38
metrópole se quer total e para tanto busca destruir todas as possibilidades de
realização do universal, ou seja, da cidade. Como fenômeno específico deste
momento histórico do capitalismo, a metrópole reúne o mundial a partir daquilo
que ele tem de mais particular. Não pode haver universal, que é também a
possibilidade da alteridade, do outro, do diferente, numa época na qual não há
mais nada com que se identificar, a não ser o consumo de massa, que é por
excelência uma atividade individual produtora de coletividades.
É neste sentido que construímos a nossa compreensão daquilo que
denominamos espaço urbano, (incluso aqui também o próprio fenômeno da
metrópole como uma das formas-conteúdo que assume o espaço urbano em seu
desenvolvimento histórico) e é a partir desta concepção do processo de implosão
da cidade e de constituição da metrópole que buscaremos a compreensão de
nosso objeto de estudo. Nossa pesquisa parte da hipótese de que as
comemorações dos 450 anos da “cidade” de São Paulo podem ser
compreendidas como um pseudo-evento, realizado a partir da lógica inerente à
metrópole. Não é a cidade, entendida aqui a partir da relação entre seus cidadãos
e de um diferente espaço-tempo, diferente do da metrópole, que comemora
aniversário, mas a metrópole que procura por meio da falsa nostalgia maquiar o
processo em rumo de totalização que realiza. Como ainda não pode existir como
possibilidade, pois se encontra oculta como resíduo, a cidade surge neste evento
como mercadoria, como simulacro e simulação, sendo os seus habitantes,
consumidores destes sonhos à lá Disney World. É a cidade surgida como imagem
e como discurso, como publicidade e vitrine a ser consumida aos olhos do mundo
todo.15 Mas ela é mais do que isso. É a miséria da condição real da cidade e,
portanto, de seus cidadãos, que o processo de totalização da metrópole pretende
ocultar, criando um mundo de fantasia e de espetáculo, que não pode se realizar
como realidade. No entanto, no final das comemorações, quando as luzes e os
holofotes se apagam e dão lugar ao vazio e ao frio da metrópole, há uma certa
fenômeno universal, pois tem por pressuposto, a partir do processo de totalização do qual é condição e
resultado, destruir ou mimetizar o que há de particular em cada lugar. Na lógica dialética, o universal só pode
existir a partir de sua alteridade, ou seja, do particular.
15
“E neste discurso, o prefeito da cidade vem mudando de função; de administrador ele se transforma num
empresário, assim a cidade precisa dar lucro e atrair investimentos. Sob essa nova direção a “função
econômica da cidade” ganha força”. (CARLOS, 2003: 15).

39
angústia, como se todos percebessem, naquele exato momento, que não havia
nada para se comemorar. Tenta-se afogar esta angústia numa onda de novos
pseudo-eventos criados para se comemorar a miséria da condição do cidadão-
consumidor, resultado da terrível experiência que é habitar a metrópole. Mas a
angústia é também latente é a partir dela que a consciência da cidade começa a
aparecer.
O falso cidadão angustiado, no sentido que é incapaz de compreender a si
mesmo por que incapaz de saber o que vive, é também o homem sedento em ser
cidadão porque sedento em conhecer e viver a cidade. E como num parto a dor
trazida pela espera do que ainda é latência é a dor necessária para, como num
trabalho de arqueologia, se escavar a cidade. Não para admirá-la, mas para enfim
vivê-la.

40
1.2. A criação do mundo: o processo de mundialização.

“A ideologia não está fora de nós como um poder perverso que


falseia nossas boas intenções: ela está dentro de nós, talvez
porque tenhamos boas intenções”. Marilena Chauí

Comecemos este capítulo com a citação de um trecho da obra de José


Saramago “O Conto da Ilha desconhecida”.

“E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto
perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível
comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da Ilha
desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o
rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido,
dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar
logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não
há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas
desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas
conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura,
Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu
falar dela, perguntou o rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por
que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível
que não exista uma ilha desconhecida”.

“O conto da Ilha desconhecida”, de José Saramago, narra a história de um


aventureiro que vai até o palácio real com o intuito de conseguir um barco para
descobrir a ilha desconhecida. Nesta sua aventura, a de tentar obter um barco
para tão mal vista expedição, passa por louco e é ridicularizado por todos os
homens, que descrentes na existência de ilhas desconhecidas, acusam o homem
de insanidade e demência. Mas, desde quando, não há mais nada a se descobrir?
Em qual momento a humanidade disse a si mesma que as coisas são assim e
ponto final? Talvez a aventura do louco viajante tente por em xeque a certeza de
uma civilização, que extremamente veloz, não sai do lugar. A construção do
mundo talvez tenha resultado numa total descrença sobre o que ainda pode
acontecer.
Neste capítulo de nossa pesquisa, procuraremos desenvolver e
compreender de que maneira o conceito de mundo foi se criando, a partir do
processo que denominamos aqui de mundialização, acompanhando a definição
proposta por ORTIZ (1994), e a partir disso, compreender o papel que o

41
desenvolvimento técnico e a inauguração de uma sociedade estruturada em redes
de fluxos de mercadorias, finanças e informações (mesmo que seja difícil na
atualidade estabelecer uma clara fronteira entres estes três conceitos)
desempenha na redefinição do que seja o mundo, o homem e suas relações. Este
nosso caminho de método se justifica a partir da concepção de que o conceito de
mundo e todos aqueles outros a ele relacionados são conceitos dinâmicos, que só
podem ser compreendidos a partir da análise de seus processos formativos e de
suas transformações espaços-temporais. Tal percepção, porém, não se dá sem
esforço e sem o olhar atento e compromissado, pois, nas palavras de Saramago,

“O homem nem sonha que, não tendo ainda sequer começado a recrutar
os tripulantes, já leva atrás de si a futura encarregada das baldeações e
outros asseios, também é deste modo que o destino costuma comportar-
se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-
nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais
que ver, é tudo igual.”

O surgimento e desenvolvimento de uma forma de organização social que


podemos verificar na atualidade, marcada pela existência de um sistema midíatico
responsável pela intermediação das relações entre os homens, só pode se
desenvolver a partir do adensamento e do desenvolvimento de uma unidade
técnica capaz de criar a idéia, mas também a materialidade de um mundo
extremamente unificado. O desenvolvimento desta unicidade técnica, que se
iniciou de forma prematura com as grandes navegações do século XV e XVI,
ganhou força a partir da segunda metade do século XIX com o advento da
ferrovia, da máquina a vapor e do telégrafo, três inovações técnicas, que segundo
Hobsbawn, permitiriam a unificação técnica do globo e, portanto, o
desenvolvimento da própria idéia de mundo. Com o desenvolvimento desta base
técnica, aquilo que estava presente como germe no início da modernidade, ou
seja, o surgimento de um mundo marcado pela mobilidade, pelos fluxos e pelas
trocas, se intensifica. Agora, a área geográfica de atuação do modo de produção
capitalista, superada sua fase liberal que marcou o surgimento das primeiras
indústrias européias, assumindo então o seu caráter estritamente monopolista,
movimento este já presente internamente no próprio desenvolvimento modo de

42
produção, passa a ser o mundo. Ao se inaugurar o mundo, como realidade
material, inaugura-se também o seu conteúdo. Passa agora a ser o mundo o
elemento identitário entre os homens. Discutamos uma pouco este processo de
criação de um mundo comum.
HOBSBAWN em seu célebre livro sobre a aquilo que denomina de “Era do
capital”, faz a seguinte observação:

“Quando escrevemos a história mundial dos períodos precedentes,


estamos na realidade, fazendo uma soma das histórias das diversas
partes do globo, que, de fato, haviam tomado conhecimento uma das
outras, porém superficial e marginalmente, exceto quando os habitantes
de uma região conquistaram ou colonizaram outra, como os europeus
ocidentais fizeram com as Américas”. (HOBSBAWN, 2002: 79,81).

A idéia de mundo, anterior ao processo de mundialização inaugurado pelo


modo de produção capitalista, como nos mostra Hobsbawn era a soma de micro-
histórias dispersas por diferentes territórios, que eram organizadas a partir dos
contatos existentes entre estes diferentes micro-mundos. Não havia ainda um
príncípio organizativo que pudesse dar uma determinada coerência e organização
a todas estas diferentes realidades. Neste sentido, a idéia de mundo, anterior ao
processo de mundialização, abarca a existência de uma série de perspectivas de
compreensão que se propõem, em alguns casos, únicas, mas que aceitam a
existência de outras perspectivas. É a partir da organização do modo de produção
capitalista por meio do fenômeno dual da industrialização-urbanização que o
processo de mundialização se inaugura.
São inúmeras as teorias que foram propostas para se explicar o surgimento
de uma unidade capaz de centralizar todas as perspectivas humanas, a qual se
denominou de mundo. Na atualidade, quando já se aponta a possibilidade da
descoberta da ocupação, pelo menos de parte, do espaço sideral, discute-se
intensamente este processo que unifica a lógica de funcionamento e reprodução
de toda a sociedade. Um primeiro aspecto que deve ser levado em conta na
análise deste fenômeno diz respeito a própria lógica de reprodução do modo de
produção capitalista. Como possibilidade e que logo se afirma necessidade, o
modo de produção capitalista nasce mundial. Mundial no sentido em que para

43
sobreviver, ou melhor, para se reproduzir, já que não se trata de um ser vivo, não
é um organismo, apesar de algumas leituras proporem isso, é preciso que o modo
de produção capitalista rompa com todas as barreiras que fragmentam os
territórios do globo, sejam barreiras físicas, que as transformações técnicas
inaugurados pelo capitalismo foram capazes de destruir, sejam as barreiras
identitárias e psicológicas, como as centenas de localismos e regionalismo que
marcavam e em certo caso ainda marcam e ganham força na configuração
geográfica da Terra.
Se pensarmos nas diferentes concepções de mundo anteriores ao modo de
produção capitalista, verificaremos que todas pressupunham uma ordenação
centralizada de uma lógica de reprodução Universal. Focalizaremos nossa
preocupação em três concepções de mundo, anteriores ao modo de produção
capitalista, que rivalizam neste processo de mundialização: a concepção de
mundo europeu-cristã, a concepção árabe-islâmica e a concepção sino-asiático.
O que era, portanto, o mundo para estas três grandes civilizações?
Segundo ORTIZ,

“As civilizações operavam com um número reduzido de símbolos-chaves


(muitas vezes incorporados aos livros sagrados) abarcando a diversidade
de domínios de realidade. Suas universalidades integravam, dentro de
um mesmo sistema interpretativo, sociedade, individuo e natureza. Elas
se definiam a partir de suas centralidades. O que se encontrava fora de
suas fronteiras não fazia ontologicamente parte do mundo”. (ORTIZ,
1994: 52).

Como podemos perceber, cada uma destas grandes civilizações tinham por
princípio a definição de um determinado conceito de mundo, ao mesmo tempo em
que pressupunham sua limitação e sua zona de contato com o outro. Havia
aqueles que estavam dentro de tal concepção e os infiéis, os bárbaros. Era a partir
da fronteira, da zona de contato, e, portanto do fenômeno da alteridade que se
podia definir claramente o que se pensava ser determinada concepção de mundo,
a partir então de sua negação. O que ocorre com o advento do modo de produção
capitalista é o desaparecimento do fenômeno da alteridade. Não há o outro, ou
pelo menos, se procura esvaziá-lo de conteúdo, a partir de um processo de

44
transformação da qualidade em quantidade que perpassa todos os lugares. O que
define agora as coisas são seus valores enquanto mercadorias. A fronteira, a zona
de contato e também de conflito que antes podia definir o que cada uma destas
civilizações era, transforma-se numa falsidade, visto que mascara a lógica central
de reprodução do modo de produção capitalista que agora perpassa todas as
antigas concepções de mundo. A falsificação do outro, nesse processo de
mundialização inaugurado pelo modo de produção capitalista, tem por intuito criar
as condições ideológicas necessárias para a justificação da expansão geográfica
do modo de produção capitalista. O outro, neste sentido, é apenas o não-integrado
(e daí a crítica consciente, com a qual partilhamos, contra toda a ideologia da
inclusão); não possui nenhuma singularidade; é apenas aquele que ainda não
conheceu “os prazeres e as belezas” do modo de produção capitalista. O outro
passa a ser o bárbaro, o sul, o leste, o árabe, o latino-americano 16.
Esse processo de mundialização, porém, não é um fenômeno instantâneo e
nem se faz sem violência. A expansão-opressão colonialista dos séculos XV e
XVI, o neocolonialismo do século XIX, o êxodo rural da Europa e do mundo todo
em diferentes períodos, as duas guerras mundiais, as ditaduras militares e as
Guerras Civis fazem parte de um mesmo contexto da criação e expansão da
concepção de mundo proposta pelo modo de produção capitalista. Neste instante,
no qual a violência se faz mais presente é que se pode perceber os resquícios
trazidos pelas fronteiras e que demonstram outras concepções de mundo que o
modo de produção capitalista tende a apagar. Talvez, seja neste sentido, que, na
atualidade, as manifestações anticapitalistas (Fórum Mundial Social,
Manifestações de Seatle e Roma) proponham a possibilidade uma nova
concepção de mundo. Provavelmente, tal perspectiva parte da compreensão do

16
Jean-Christophe Rufin em seu livro “O império e os novos bárbaros” analisa este processo de falsificação
do outro, de construção de uma pseudo-alteridade que não mais contribui para a definição da singularidade de
cada um dos povos. Ao analisar o papel que tinha Cartago no Império Romano, RUFIN aponta a sua
contribuição na definição do que os próprios romanos eram. “Quando Cipião, encarregado pelo Senado de
destruir Cartago, ordena a seus soldados começarem o incêndio, faz-se de repente um estranho silêncio na
cidade deserta. Os romanos que observam a cena sentem desconforto profundo. O próprio Cipião se afasta e
chora. Chama para perto de si Políbio, o historiador grego, seu amigo: ‘É um belo dia, Políbio’, diz-lhe, ‘mas
sinto, sem que saiba por que uma inquietude, e antecipo com temor o momento em que se possa infligir
semelhante castigo a nossa própria pátria’. Uma civilização não pode contemplar por muito tempo o vazio em
torno de si sem ser afetada pela idéia de sua própria morte”. (RUFIN, 1996: 20).

45
processo de mundialização que o modo de produção capitalista inaugurou e que
em sua lógica interna, pretende-se universal e único.
Neste processo de criação do mundo único, a geografia e os geógrafos
desempenharam importante função. Nomes como o Richard Burton e J. H. Speke
contribuíram para o conhecimento e a exploração de várias regiões do mundo,
principalmente para o conhecimento e saque da África e da Ásia. Segundo alguns
autores, tais exploradores pouco sabiam que estavam contribuindo para a
expansão mundial do modo de produção capitalista. Para eles, tratava-se antes de
tudo, de trabalho científico e, portanto, descompromissado e imparcial (será?) 17. O
que eles não sabiam, porém, é que, naquele momento histórico,

“Explorar significava não apenas conhecer, mas desenvolver, trazer o


desconhecido e, por definição, os bárbaros e atrasados para a luz da
civilização e do progresso; vestir a imoralidade da nudez selvagem com
camisas e calças, com uma providencial e beneficente manufatura de
Bolton e Roubaix, levar as mercadorias de Birmingham que
inevitavelmente arrastavam a civilização para onde quer que fossem”.
(HOBSBAWN, 2002: 83).

Neste contexto, algumas importantes teorias surgiram a partir da


compreensão do processo de mundialização inaugurado pelo modo de produção
capitalista que buscam analisar e propor um caminho de método capaz de
compreender o funcionamento e a lógica do modo de produção capitalista em sua
atuação mundial. Entre estas teorias, destacamos a idéia de Economia-Mundo 18
de Fernand Braudel e a concepção de Sistema Mundo 19, de Immanuel Wallerstein.
17
Ver SAID, E. Orientalismo. Cia das Letras.
18
Segundo BRAUDEL, citado em IANNI (2003), “por economia mundo entende-se a economia do mundo
globalmente considerado, “o mercado de todo o universo”, como já dizia Sismondi. Por economia-mundo,
termo que forjei a partir do alemão Welwirtschaft, entendo a economia de uma porção do nosso planeta
somente, desde que forme um todo econômico. Escrevi, já há muito tempo, que o Mediterrâneo no século
XVI era, por si só, uma economia-mundo, ou como também se poderia dizer, em alemão ‘um mundo em si e
para s’”. (IANNI, 2003: 31) Para o autor, a economia mundo se definiria a partir dum tripla realidade: a de
ocupar um determinado espaço geográfico, tendo limites que a explicam e variam; a de se submeter a um
pólo, a um centro, representado por uma cidade dominante, outrora, um Estado-cidade, hoje uma grande
capital econômica; dividir-se em zonas sucessivas hierarquizadas.
19
Segundo WALLERSTEIN, citado em IANNI (2003), “um sistema mundial é um sistema social, um sistema
que possui limites, estruturas, grupos, membros, regras de legitimação e coerência. Sua vida resulta das forças
conflitantes que o mantém unido por tensão e o desagregam, na medida em que cada um dos grupos busca
sempre reorganizá-lo em seu benefício. Tem as características de um organismo, na medida em que tem um
tempo de vida durante o qual suas características mudam em alguns dos seus aspectos, e permanecem estáveis
em outros. Suas estruturas podem definir-se como fortes ou débeis em momentos diferentes, em termos da

46
Como dissemos, estas duas teorias procuram compreender de que maneira se
organiza o modo de produção capitalista e o resultado desta organização na
própria configuração daquilo que venha a ser o mundo.
Segundo IANNI (2003), estas duas concepções analisam o mundo através
da junção do olhar do historiador como o do geógrafo 20. Para o autor,

“Ambos (Braudel e Wallerstein) mapeiam a geografia e a história com


base na primazia do econômico, na idéia de que a história se constitui em
um conjunto, ou sucessão de sistemas econômicos mundiais. Mundiais
no sentido de que transcendem a localidade e a província, o feudo e a
cidade, a nação e a nacionalidade, criando e recriando fronteiras, assim
como fragmentando-as ou dissolvendo-as. Eles lêem as configurações da
história e da geografia como uma sucessão, ou coleção, de economias-
mundo”. (IANNI, 2003: 31).

Se o navio a vapor, o telégrafo e a ferrovia em seu desenvolvimento e


aperfeiçoamento possibilitaram o início da constituição de uma unicidade técnica
mundial, resultando assim numa nova forma de mundo, o desenvolvimento dos
meios de comunicação em massa criou a idéia de um mundo comum,
desenvolvendo assim o seu próprio conteúdo. A idéia da unificação do mundo se
deu a partir da unificação das informações e das formas de percepção que o
sistema midiático de massa inaugura. As informações pessoais, provenientes das
relações de proximidade como o lugar, são agora substituídas por informações
mundiais, impessoais e que criam um imaginário comum a todos os habitantes do
mundo. Neste processo, é o próprio conteúdo do mundo que se altera, criando
neste sentido, uma rede cada vez mais densa de comunicação pela qual são
transmitidas informações, entretenimento, mas também modos de vida, modos de
percepção do mundo e da realidade que redefine as relações de proximidade
entre os homens e suas relações com o lugar. O próximo tornado distante
aproxima o mundo, mesmo que este seja apresentado como discurso e como
imagem, como representação, e afasta o lugar, que seria essencialmente a esfera
da vida e do vivido.

lógica interna de seu funcionamento”. (IANNI, 2003: 33).


20
Já não estaria presente nesta leitura feita por IANNI o processo de totalização da vida pela esfera
econômica?

47
Em trabalho sobre o desenvolvimento histórico-social da Mídia, Peter Burke
e Asa Briggs apontam as transformações nas relações pessoais acarretadas pelo
surgimento do rádio. Segundo os autores,

“Como o sistema postal, o rádio alcançou toda população, mesmo nos


lugares mais remotos e de modo diferentes de outras mídias como a
impressa e o cinema. Em qualquer lugar, era um bom companheiro,
consolando e entretendo, informando e educando, além de oferecer, em
qualquer lugar, conforto para cegos doentes, solitários e os que estavam
confinados em suas casas. Nas memórias, pelo menos, as imagens que
evocava, subsistia tanto quanto as palavras que oferecia”. (BURKE,
2004: 235).

Cidadãos do mundo, porém, estes novos homens não podem mais ser
cidadãos em lugar nenhum, porque o mundo que se inaugura não se realiza como
o mundo das reais necessidades, dos desejos sinceros e das vontades, mas
apresenta-se e se faz compreender como um mundo repleto de virtualidades,
virtualidades estas que são vividas como realidades. O início do século XX, com o
advento da radio-difusão e do cinema e posteriormente da televisão, inaugura a
base técnico-material essencial para que a sociedade do espetáculo, se realize. É
a partir destas transformações de base que um novo modo de vida, centralizado
nas cidades e marcados pela incessante descarga de imagens e informações, se
inaugura, inaugurando com ele a sociedade do espetáculo. Segundo Renato Ortiz,
esta sociedade é resultado daquilo que autor denomina de advento da
“modernidade-mundo”. Diferente do que muitos autores (Lyotard, Harvey)
apontam como uma nova condição da sociedade atual e que, portanto, estaríamos
desta maneira vivendo um período que poderia ser denominado de pós-
modernidade, Ortiz demonstra que o que há na atualidade é um aprofundamento
daquilo que se apresenta como essência do próprio conceito de modernidade, ou
seja, a questão de uma sociedade da circulação, das trocas e dos fluxos, sejam
estes de pessoas, de mercadorias, de valores, de informação, de cultura ou de
imagens. Segundo ORTIZ, os autores que defendem a idéia de uma pós-
modernidade.

“Procuram vincular sua proposta estética à emergência desta nova


articulação social, desta “aldeia global”, na qual o consumo, o poder, a

48
produção e as relações sociais se encontrariam cada vez mais
descentralizados. O modernismo seria portanto uma visão ultrapassada,
obsoleta, pretende-se superá-lo por algo mais integrado aos novos
tempos”. (ORTIZ: 2001: 67)

Da mesma maneira, segundo estes autores, o advento de “sociedade pós-


moderna” marcaria o fim das grandes narrativas capazes de explicar o
desenvolvimento total da sociedade. A pós-modernidade seria marcada pela
diversidade de manifestações e de interpretações de um mundo que seria cada
vez mais descentralizado. Talvez tal afirmação seja correta, porém, me angustia
observar que a pseudodescentralização apontada pelos pós-modernos não se
adeque a uma realidade que cada vez mais é marcada pelo discurso unilateral, e
até o momento, único, das mercadorias. As metas-narrativas científicas, políticas,
religiosas são totalizadas, desta maneira, pela meta-narrativa da ilusão
mercadologia, sendo a descentralização e a liberdade apenas reflexos de uma
falsa perspectiva de um mundo transformado em discurso.
Segundo Jamenson, ao analisar algumas teorias do chamado “Pós-
modernismo”, o que se pode verificar é uma série de continuidades que tal
fenômeno aponta e não uma ruptura brusca com o período anterior. Segundo o
autor,

“o pós-modernismo não é a dominante cultural de uma ordem social


totalmente nova (sob o nome de sociedade pós-industrial, esse boato
alimentou a mídia por algum tempo), mas é apenas reflexo e aspecto
concomitante de mais uma modificação sistêmica do próprio capitalismo”.
(Jamenson, 1996:16).

Segundo o autor, o pós-modernismo seria então não uma nova teoria capaz
de explicar a realidade em sua totalidade (se esta tarefa, for ainda possível) mais
uma série de transformações que o próprio modo de produção capitalista em seu
desenvolvimento vem sofrendo nas últimas décadas. Para o autor, entre estas
transformações estariam a perda da historicidade vivida pelo período atual e a
fusão entre a esfera econômica e a esfera cultural 21. Estes fatos explicariam
21
“Assim, na cultura pós-moderna, a própria cultura se tornou um produto, o mercado tornou-se seu próprio
substituto, um produto exatamente igual a qualquer um dos itens que o constituem: o modernismo era, ainda
que minimamente e de forma tendencial, uma crítica à mercadoria e uma esforço de forçá-la a se
autotranscender. O pós-modernismo é o consumo da própria produção de mercadorias como processo”.

49
alguns fenômenos presentes na atualidade como a estetização da vida e sua
presentificação, mas não seriam capazes de apontar rupturas claras em relação
ao período anterior. E é neste sentido que o autor afirma que o

“Pós-modernismo não é algo que se possa estabelecer de uma vez por


todas e, então, usá-lo com a consciência tranqüila. O conceito, se existe
um, tem que surgir no fim e não no começo de nossas discussões do
tema. Essas são as condições – as únicas, penso que evitam os danos
de uma classificação prematura – em que o termo pode continuar a ser
usado de forma produtiva”. (Jameson, 1996: 25).

Portanto, a partir desta análise, a sociedade atual, de forma mais próxima


da realidade, deveria ser designada, para um melhor entendimento, de sociedade
da hipermodernidade, ou seja, na qual há um aprofundamento das contradições
internas que fazem existir a própria modernidade, contradições estas, que em seu
cerne não mudaram, fato este, portanto que não legitimaria a apresentação deste
período histórico como pós.
As mesmas contradições que deram início a esta condição histórica que
vivemos e incorporamos, seja materialmente, seja intelectualmente, apenas se
aprofundaram, tendo surgido novas condições; nada, porém, que justifique a
negação e superação da modernidade. A transformação da cultura em mercadoria
já estava implícita no surgimento da modernidade, da mesma maneira, que
transformação de toda a sociedade em mercadoria é o objetivo supremo e
necessário para a reprodução de um modo de produção que tem sua essência
marcada na relação produção-consumo, ou seja, na relação entre a produção e a
realização da mais-valia.

1.3. Mídia: Desenvolvimento, funcionamento e sua função na


sociedade atual.

“Muitas pessoas compram um jornal porque suas próprias vidas


são tão desinteressantes que elas desejam uma emoção vicária, a

(Jamenson, 1996: 14). Este processo identificado por Jameson possui semelhanças e diferenças com o
processo de totalização da esfera econômica apontado por nós anteriormente. A diferença está na
compreensão de que a importância dada à esfera cultural na atualidade seja resultado de sua incorporação e
transformação pela esfera econômica, fenômeno este que Jameson também aponta ao afirmar a transformação
da cultura em mercadoria.

50
leitura sobre um conjunto de pessoas imaginárias cheias de vícios
magníficos com os quais, em suas fantasias, possam se
identificar”.
W. Lippimann

Avenida Rebouças, dia 11 de novembro de 2004. 16:30. No calor intenso


do trânsito paulista, um outdoor chama a atenção. Disposto em dois gigantescos
prédios, seu objetivo é anunciar o conforto de uma sandália. Singelamente afirma:
“Democracia é isso: a esquerda é tão confortável quanto a direita”.(figuras 3 e 4)
(e lembrar que mal havia passado a eleição municipal). Um pouco mais a frente,
um outro outdoor se utiliza de um grito guerra muito utilizada durante o período da
ditadura militar brasileira. Seria um manifesto político? Não, trata-se apenas da
propaganda da rede Burguer King de fast food, que agora, possibilita ao cidadão-
consumidor a escolha de seu hambúrguer. Muita gente passa despercebida por
estes outdoors, mas isso pouco importa. Suas forças não estão naquilo que
mostram, mas naquilo que ocultam. Em frases singelas, se ocultam o processo de
espetacularização da política, resultado da espetacularização da vida, que o
sistema midiático de comunicação de massa inaugura.

51
Figura 3: Exposto num dos gigantescos prédios da avenida Rebouças, este outdoor, singelamente,
tem por objetivo explícito mostrar o conforto e a qualidade da sandália ali exposta. Porém, para
além da venda da sandália, o outdoor incorpora termos políticos em sua propaganda, e ao fazê-lo,
esvazia os mesmos de conteúdo. Agora, entre a sandália e a política não há mais diferença. Talvez
apenas que a sandália tenha o conforto mais garantido. Mas isso é questão de tempo... (Foto do
autor, 2004).

52
Figura 4: Num outro exemplo sobre o esvaziamento de conteúdos de conceitos políticos realizados
pela propaganda, carros passam na Avenida Rebouças, em frente ao novo outdoor da Rede
Burger King. Talvez, ao passar por este outdoor, o “cidadão paulistano”, esta figura mítica e
idealizada, se sinta mais livre. Os milhares de mortos nas ditaduras latino-americanas já podem
descansar em paz: agora, seus concidadãos são realmente livres. Já podem escolher o que devem
consumir. (Foto do autor, 2004)

O desenvolvimento técnico, como vimos no capítulo anterior, possibilitou a


construção de uma unicidade material do mundo, ao mesmo tempo em que
definiu, a partir do desenvolvimento da mídia de massa um novo conteúdo para
este mundo do instantâneo. O espaço-tempo da atualidade, do modo de produção
capitalista em sua fase na qual o capital, a informação e a imagem se fundem e
formam a tríade responsável pela reprodução do modo de produção, é o espaço-
tempo da instantaneidade, da repetição incessante da lógica, às vezes circular, as
vezes elíptica, da relação produção-consumo. Neste sentido, um dos principais
fenômenos as ser analisado neste contexto é o papel representado pelos medias,
pelas formas de mediação representadas pela imagem e pela informação que a
sociedade do espetáculo faz realizar.

53
A ilusão e o fetiche estão presentes como fundamentos do modo de
produção capitalista desde o início de sua fase industrial. O produto do trabalho
não é apenas a mercadoria como produção material, mas o processo de alienação
do trabalhador, alienação em relação ao produto de seu trabalho que antes
também a alienação do seu corpo, transformando também em mercadoria. A
produção da mercadoria só pode realizar a partir da falsificação das relações
sociais, da transformação da alienação em mentira social. A realidade que a
mercadoria oculta, em sua forma fetichizada, e neste sentido, ela pode ser
compreendida também como um poder simbólico, é de a que a partir dela, não
existem mais relações sociais, mas sãos as coisas que se relacionam a partir dos
homens. A mercadoria oculta a contradição intrínseca entre capital-trabalho,
fundamental para a reprodução do modo de produção capitalista. A ilusão criada
pela forma mercadoria, porém, é uma ilusão que tem sua referência numa base
material que é própria produção, resultado da uma relação real existente entre o
possuidor da força de trabalho e os donos dos meios de produção. O carro é uma
ilusão, mas é também uma forma material palpável e perceptível. Para se
entender a atualidade do modo de produção capitalista, é necessária compreender
a transformação pela qual passa a forma mercadoria, transformação que está
diretamente associada ao processo de reestruturação da produção e do consumo
pelo qual passou e vem passando o modo de produção capitalista nas últimas
décadas. No momento atual, a ilusão que a forma mercadoria guarda como
verdade a se ocultar aprofundou-se intensamente que a sua forma-imagem
perdeu a sua própria referência material. A forma mercadoria passa então a ser
substituída pela forma imagem da mercadoria e neste contexto, atingi-se um grau
superlativo de fetichização. A materialidade da mercadoria cede lugar então a
virtualidade de sua imagem. É neste sentido então que DEBORD afirma que a
sociedade do espetáculo “é uma relação social mediada pelas imagens”.
(DEBORD, 2001: 14).
Ao analisar este processo de construção do capitalismo da produção da
imagem, BUCCI aponta alguns significados possíveis capazes de dar sentido e
compreensão a este processo. Para o autor,

54
“A fabricação da imagem da mercadoria merece cuidado porque ela nos
deixa ver que o consumidor está comprando um acesso a um significado.
Um acesso a uma imagem. Está comprando para si uma narrativa. Ele
compra na verdade, a imagem e não a coisa. O que inverte um pouco o
modo como se pensava classicamente seu valor. Aquilo que parecia o
acessório é na verdade o principal no capitalismo contemporâneo”.
(BUCCI, 2004: 22).

O que aponta BUCCI neste texto? Que o modo de produção capitalista em


seu momento atual não é mais um modo produtor apenas de mercadorias, e estas
pensadas aqui em seu significado material, mas principalmente um modo de
produção de imagens E cada uma dessas imagens contém um narrativa, uma
série de signos e significados que dão ao consumidor a sensação de estarem
ganhando a permissão para adentrar um novo mundo. A narrativa, neste sentido,
cria no consumidor a falsa sensação de fazer parte de um mundo que não é mais
o seu mundo, mas o mundo fetichizado da imagem da mercadoria. São milhares
os slogans que prometem tal aventura por este novo mundo (“Credicard: o mundo
quer você”, Rádio USP: uma janela para o mundo”), mas são mundos que se
encerram com a última imagem consumida, pois tais mundos só têm sentido
naquilo que prometem não naquilo que realizam.
É neste contexto que Eugênio BUCCI aponta também a necessidade da
construção / cooptação de uma olhar social, necessário para que o mundo da
imagem da mercadoria possa se realizar como tal. Não há subjetividade fora deste
mundo. O olhar social é a cooptação de todo e qualquer tipo de subjetivação que
vá além do mundo da imagem da mercadoria é neste sentido que podemos falar
de uma sociedade sem imaginação, marcada e comandada pela criação
instantânea de imagens e, portanto, de narrativa. A imaginação e todo o processo
de subjetivação que ela requer tem por objetivo redefinir o ser a partir daquilo que
ele possui de mais singular, de mais essencial. No modo de produção da imagem
da mercadoria só pode haver singularidade a partir da homogeneização,
esvaziada de conteúdo, que o mundo da mercadoria quer se fazer realizar.
O momento atual do modo de produção capitalista, ao aprofundar sua
virtualidade, seja a que está presente no âmbito do capital financeiro-especulativo,

55
seja ela a que está presente na falsificação das relações sociais, não mais
mediadas por coisas, mas por imagens, redefine suas formas de funcionamento e
é neste sentido que a publicidade e a propaganda, veiculadas a partir dos meios
de comunicação de massa passam a ser os principais elementos responsáveis
pelo processo de reprodução do modo de produção capitalista. Mas que de
maneira atuam a publicidade e a propaganda? Observemos a seguinte
propaganda de um aparelho celular:

“Siemens SL55 Black. O design é surpreendente, o desejo é imediato”.

Todo o funcionamento da publicidade e da propaganda tem sua atuação no


nível do desejo do imediato e é neste sentido que BUCCI afirma que a mídia de
massa no modo produção de imagens atua no nível do inconsciente. A publicidade
e a propaganda têm por objetivo instigar o consumo imediato, criando assim o
consumidor incapaz de refletir sobre suas ações porque incapaz de perceber que
age. Não é mais a racionalidade e a sensatez que comanda as ações do
consumidor, mas o desejo não reprimido da realização imediata do prazer. É neste
contexto que o modo de produção capitalista produz o fenômeno da aceleração
contemporânea: não é apenas um fenômeno ligado a aceleração da
movimentação, do trânsito, mas um fenômeno diretamente ligado a aceleração do
tempo de giro da mercadoria, da realização dos desejos no nível do inconsciente
e, portanto, falar do modo de produção capitalista em sua fase atual, que seja, a
da produção da imagem da mercadoria, é falar conseqüentemente da tirania do
desejo. Porém, como este é um desejo irrefletido, ele sempre gera uma angústia
quando da sua realização, ou melhor, da sua falsa realização, visto que este
mesmo desejo oculta uma intensa privação na qual este consumidor está
enterrado, no sentido em que se encontra alienado da compreensão da mesma.
Analisando este processo da atuação da publicidade no inconsciente e,
portanto, na promessa de realização imediata dos desejos, Pignatari afirma:

“Vincular a mais marcante, senão a mais profunda satisfação física, tal


como a propiciada pelo relacionamento erótico-sexual, ao prazer
proporcionado pela compra de bens materiais é uma opção sempre

56
vitoriosa, pois suas raízes se abeberam no lençol freático que irriga os
mitos arquétipos do amor, do prazer, da riqueza, do sucesso, da
felicidade e da realização do ego ou da tribo”. (PIGNATARI, 1991: 141).

A sociedade do consumo de imagens é, portanto a sociedade do imediato.


Não é uma sociedade do presente; pelo contrário, nela não pode haver presente,
porque não há passado e nem futuro. O que resta apenas é um incessante
repetição que tem por base a lógica da produção-consumo de imagens-
mercadoria. Se não há história e nem memória, não pode haver passado, nem
presente, nem futuro. O ontem foi igual ao hoje, e o que os diferencia do agora? E
do depois? A tirania do momento que se encerra em si mesmo e que tem por
lógica a repetição ad infinitum, define a temporalidade atual do modo de produção
capitalista. É neste sentido que a sociedade do espetáculo é também a sociedade
do vazio. Do vazio, no sentido em que as formas não têm mais necessidade de
conteúdos e os conteúdos possuem prazo de validade. Duram o tempo de um
instante; precisam se reproduzir apenas como formas e é neste processo que se
tornam imagens. A forma carro carrega consigo, na atualidade, a imagem do que
é a liberdade. Não é liberdade senão no consumo; talvez seja esta a frase que a
imagem do automóvel quer ocultar. Todos os conteúdos então são resumidos a
suas formas, ou melhor, a suas imagens, e passam a definir o imaginário coletivo,
a partir de sua função de mediação. Se a mercadoria destruiu as relações
humanas, transformando-as em relações entre coisas, a imagem redefiniu esta
relação a partir de si mesma. Cada homem não se relaciona mais entre si, mas
entre imagens, a partir da construção de seu imaginário, construção esta que se
realiza como determinação externa. Neste processo, é o próprio fim da livre
subjetividade que se coloca. O que sou agora é substituído pelo o que vejo e
neste contexto até os cegos se tornam capazes de enxergar.
Alguns conteúdos escapam, porém a ocultação completa da realidade que
a sociedade do espetáculo pretende realizar. Um destes conteúdos é uma intensa
melancolia que marca esta sociedade. Segundo MATTOS, citando Mario Galzina,

“Melancolia é ainda a distância impreenchível entre o sujeito que deseja e


os objetos de seu desejar; nome que condensa, como singular potência

57
agregativa, experiência distintas, mas freqüentemente entrelaçada, de
uma privação, de uma laceração”. (MATTOS, 1991: 19).

A melancolia está presente na sociedade do espetáculo como reflexo da


realização do falso desejo e, portanto, do ocultamento do desejo real que diz
respeito a uma privação real. É neste sentido também que DEBORD afirma que a
maior alienação do trabalhador que a sociedade do espetáculo inaugura sua
transformação em consumidor. Neste processo, o trabalhador deixa de lado sua
real condição para compartilhar o mundo do desejo imediato e, portanto, de sua
própria reprodução como explorado. Segundo Debord,

“A alienação do espectador em favor do objeto contemplado (o que


resulta de sua própria atividade inconsciente) se expressa assim: quanto
mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas
imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria
existência e seu próprio desejo”. (DEBORD, 2002: 24).

Entre os principais veículos responsáveis pela transmissão e construção do


mundo da imagem da mercadoria está a televisão. Gostaríamos de ressaltar aqui
que a televisão não é o único meio responsável por tal construção, mas, na
atualidade, principalmente no Brasil 22, se configura como o principal. Em nossa
concepção, o sistema midiático se apresenta como um sistema de estruturas
relacionadas que tem a televisão como centro principal de propagação e difusão e
é neste sentido que se justifica a busca de compreensão do funcionamento deste
veículo midiático.
22
Silvano Santiago em seu texto “Alfabetização, Leitura e Sociedade de Massa”, aponta as diferenças da
formação da sociedade de massas no Brasil, fator este que está diretamente relacionado com o processo
desigual e tardio de alfabetização da população Brasileira. Para esta análise, Santiago faz referência às
palavras de Antônio Cândido que cita em seu texto. Segundo Cândido, “quando alfabetizados e absorvidos
pelo processo de urbanização, as grandes massas passam para o domínio do rádio, da televisão, da história em
quadrinhos, constituindo a base de uma cultura de massa. Daí a alfabetização não aumentar
proporcionalmente o número de leitores da literatura, como a concebemos aqui, mas atirar o alfabetizados,
juntos com os analfabetos, diretamente da fase folclórica para essa espécie de folclore urbano que a cultura
massificada”. (SANTIAGO, 1991: 148). O processo de constituição da sociedade de massa ligada a criação
de um sistema midiático de massa tem seus dois pontos nelvrágicos na ditadura Vargas, com a difusão do
rádio e na ditadura militar,principalmente na década de 70, com a difusão da televisão. No Brasil,
diferentemente de outros países do mundo como a França e os Estados Unidos, nunca houve uma cultura
letrada que abrangesse grande parte da população, visto que a taxa de analfabetismo era ainda extremamente
alta no início da década de 90 e mesmo porque, como percebemos na atualidade, criar uma sociedade de
leitores não é apenas alfabetizar. Por estes fatores que o caso brasileiro, em relação ao papel que a mídia
desempenha na sociedade, é diferente do mundo: em nosso caso a televisão domina todas os outros veículos
de comunicação, centralizando seus interesses.

58
Comecemos então com a indagação de Pignatari:

“O que ensina a televisão? Ensina mundo, em sua ágil linguagem icônica


e metonímica: na telinha, o Mapa-múndi humano, natural e artificial, é
composto e recomposto continuamente, através da chuva de elétrons
coloridos projetados na face interna do seu olho cinescópico, vindos de
algum portentoso cérebro, visível e invisível a um só tempo, a que
chamamos Terra. Trata-se, contudo, de uma educação compromissada e
comprometida com a sociedade de mercado e de consumo; à televisão
comercial só interessa o homem enquanto consumidor e não enquanto
agente social”. (PIGNATARI, 1991: 142).

A televisão não ensina apenas o mundo do consumo, mas tende a reduzir


todas as possibilidades de realização da vida que o mundo possui como latência
na falsa realização que o mundo do consumo quer reproduzir. Ensinar o mundo do
consumo é ensinar um novo conteúdo para todas as formas do mundo que, a
partir desta construção imagética que a televisão realiza, são perpassadas pelo
conteúdo único da forma imagem-mercadoria. Vejamos o seguinte exemplo. No
filme 1,99: um supermercado que vende palavras, do diretor Marcelo Masagão,
encontramos uma das principais imagens que marcam o cotidiano inaugurado
pelo mundo da imagem da mercadoria. Num lugar branco, vazio e aparentemente
calmo, pessoas caminham. Em suas mãos apenas carrinhos de compras. Por todo
lado, caixas brancas, completamente vazias. O único elemento que rompe com a
tirania do branco e vazio nesta cena cotidiana é uma série de slogans postos em
cada uma destas caixas. Circularmente, as pessoas escolhem as caixas não a
partir de seus conteúdos (visto que estes não existem), mas a partir dos slogans.
Compram palavras ou, como diria Bucci, compram narrativas, significados. Neste
processo o ato de consumir se torna um fim em si mesmo, sendo que em muitos
casos, tal ato substitui o momento da festa, presente nas sociedades agrárias.
Talvez este fato explique a realização de shows, espetáculos, e, portanto, eventos,
em supermercados e shopping centers. A festa é substituída neste processo, pela
sua imagem que oculta, neste sentido, o processo de espetacularização do
consumo. (ver figuras 5 e 6).

59
Figura 5: Imagem do Filme 1,99: Um supermercado que vende palavras. Neste contexto, percebe-
se claramente a substituição da forma mercadoria pela forma imagem da mercadoria. Fonte:
www.adorocinema.com.br/1,99.

Figura 6: Imagem do Filme 1,99: Um supermercado que vende palavras. Fazer parte do mundo do
consumo tem por objetivo adquirir significados e narrativas. Consumir é adquirir a chave da porta
da entrada de um mundo prometido que só pode se realizar como falseamento. Fonte:
www.adorocinema.com.br/1,99.

60
O papel da televisão neste contexto de transformação da forma mercadoria
na forma imagem da mercadoria é o de criar um mundo capaz de transformar a
imagem numa forma que tenha fim em si mesmo. Poderíamos denominar este
processo de autonomização do mundo da imagem. Da mesma maneira que a
forma mercadoria sofreu este mesmo processo a partir de sua produção em
massa e da transformação do trabalhador em consumidor, a imagem passa por
um processo de autonomização ao perder sua ligação com o referente ao qual
estava ligado em seu processo constitutivo. É neste sentido que a televisão
reafirma e contribui para a constituição do mundo da imagem, à maneira em que a
imagem se autonomiza e, portanto, as relações sociais passam a ser definidas
como relações entre imagens, entre formas que dizem respeito à imagem da
mercadoria tornada autônoma. Do outro lado, porém, de certa maneira, a
televisão, como meio de comunicação de massa que é, poderia contribuir de
maneira fundamental para a divulgação do conhecimento e da crítica. Para isso,
há que se realizar uma nova maneira de organização da construção dos
conteúdos e da maneira de divulgação dos mesmos que reafirmem o caráter
público da tv, rompendo assim com o monopólio hoje existente da informação e da
sua respectiva veiculação. De outra maneira, a televisão continuará a ser, como
quase todos os outros veículos de comunicação de massa, também
monopolizados, e na maioria dos casos, pelos mesmos grupos atuantes na
televisão, meio de manipulação e de reprodução do status quo 23.
A forma de atuação da televisão e sua influência em toda a sociedade se
dão não apenas com a reprodução do mundo da imagem-mercadoria, mas
também com a criação de realidades que ao mesmo tempo em que dão a falsa
sensação de próxima ao telespectador criam uma ambiente de estranhamento,
fruto este do total descompasso entre a imagem e a realidade. A televisão passa a
ser então o campo da criação do imaginário que só se pode realizar a partir da
cooptação de qualquer tipo de livre subjetivação e conseqüentemente com o
23
Uma interessante discussão vem sendo realizada em nível do Governo Federal e que diz respeito à
assinatura da chamada Lei do Audiovisual. Tal lei teria por objetivo mudar a estrutura monopolística dos
meios de comunicação e pela primeira vez, apresentava uma legislação específica para o caso da televisão
brasileira. Tal lei, porém, por pressão dos grupos dirigentes das principais televisões brasileiras, foi alterada e
se tornando mais branda em relação à televisão. Mais uma vez, o poder do monopólio dos meios de
comunicação, principalmente a televisão, usou sua força em prol da reprodução da situação vigente.

61
processo de destruição e cooptação do imaginário individual. Ao criar realidades,
ou pelos menos, imagens que se querem reais, a televisão cria também conteúdos
para todas as realidades sociais, conteúdos estes que são totalizantes no sentido
em que não permitem nenhum tipo de interpretação que vá para além daquele
proposto pelas imagens vinculadas pela televisão. Neste sentido, escreve
BORDIEU:

“E, insensivelmente, a televisão que se pretende um instrumento de


registro torna-se um instrumento de criação da realidade. Caminha-se
cada vez mais rumo a universos em que o mundo social é descrito-
prescrito pela televisão. A televisão se torna o arbitro do acesso à
existência social”. (BORDIEU, 1992:29).

O texto de Bordieu, citado acima, traz outro aspecto essencial para se


compreender o papel desempenhado pela televisão na atualidade. A televisão
torna-se neste momento histórico a detentora do monopólio da existência social no
sentido em que só a ela é permitido definir quem está apto ou não a aparecer
publicamente. Interessante notar que fenômeno oculta um outro que precisa ser
aqui desvendado para uma melhor compreensão da realidade. Ao criar esta nova
condição do aparecer, ação esta que pressupõe a existência de um mundo
público, a televisão define um novo conteúdo acerca daquilo que venha ser o
mundo público. Neste processo, o público se transforma em publicidade e só
possui sentido dentro do mundo da mercadoria. O antigo espaço da aparência, o
qual era um dos elementos definidores do espaço público na Grécia Clássica, é
monopolizado agora pela televisão que passa a definir as condições para a
realização de tal ato.
Como vimos, as condições de participação deste espaço da aparência na
Grécia Clássica estava relacionada diretamente com a capacidade de discurso e
de ação de cada cidadão. Estas duas capacidades, por sua vez, estavam
relacionadas com o grau de liberdade que cada um dos homens possuía. A
condição de escravo na Grécia Clássica levava-a privação da ação e do discurso,
e conseqüentemente, da privação de sua existência pública. Com a difusão e o
domínio da mediação realizada pela televisão, a condição para a existência

62
pública torna-se uma decisão da própria televisão. Para ter este privilégio (pois
neste sentido, a existência pública deixa de ser um direito, que na Grécia clássica,
definia o próprio sentido do cidadão) o homem deve negar a sua condição de
homem e se transformar em imagem. A aparência pública, monopolizada pela
televisão, cria, nestas condições, o esvaziamento do conteúdo deste
aparecimento. Os homens não buscam mais o aparecimento público para o
diálogo e a discussão do bem comum; o que está em jogo agora é o aparecimento
pelo simples aparecimento24, fenômeno este que oculta o processo de
transformação de cada um destes novos aparecimentos em um novo evento, em
uma nova imagem e, portanto, em uma nova mercadoria 25.
Neste processo de transformação das condições da aparência pública, a
televisão cria uma nova organização espaço-temporal da vida. Como já vimos, o
mundo da imagem pressupõe a destruição de todos os conteúdos antigamente
relacionados com determinadas formas e neste sentido, a espacialidade da vida
se torna a espacialidade da ilusão. Nestes termos é que utilizamos a idéias da
Geograficidade atual do mundo ser a geografia do simulacro. Simulacro no sentido
em que as formas que definem esta nova espacialidade estão desprovidas de
conteúdos e só tem sentido como formas dentro da lógica da reprodução da
imagem da mercadoria. A cidade, como vimos, implodida em metrópole, faz parte
24
Segundo Harvey, este fenômeno do aparecimento público com em fim em si mesmo é verificado no
processo de espetacularização da política. Segundo o autor, no momento atual do modo de produção
capitalista, a experiência política deixou de ser algo pertencente ao campo da ética e, portanto, deixou de ser
uma prática vinculada a certos valores morais, ideológicos e éticos, entrando assim no campo da estética, no
sentido em que, o aparecimento público não pressupõe nenhum tipo de necessidade de expressão a não ser o
próprio aparecimento público. “A eleição de um ex-ator de cinema, Ronald Reagan, para um dos cargos mais
poderosos do mundo dá uma nova dimensão às possibilidades de uma política imediatizada moldada apenas
por imagens. Sua imagem, cultivada ao longo de muitos anos de prática política, e depois cuidadosamente
montada, burilada e orquestrada com todos os artifícios que a produção contemporânea de imagens pode
empregar, de pessoa dura mas calorosa, avuncular e bem-intencionada, com uma fé inabalável na grandeza e
perfeição da América, construiu uma aura de política carismática”. (HARVEY, 2004: 296).
25
Ao analisar este processo de transformação dos homens em imagem através do aparecimento público
mediado pela publicidade e pela televisão, Maria Rita Kehl aponta o chamado “fenômeno Ronaldinho” como
um dos principais exemplos deste processo. “Era uma vez um jogador de futebol que foi transformado em
imagem. Essa imagem emitiu para o mundo todo fulgurações de fetiche, mas o jogador desapareceu atrás
dela. No jogo decisivo da Copa de 1998, sobrecarregado com o peso do logotipo milionário em sua camiseta,
de namorada loira para-inglês-ver, das esperanças de restaurar a auto-estima de um país inteiro, Ronaldinho
não conseguia evitar que sua humanidade se manifestasse. Convulsão ou síndrome do pânico, overdose de
remédios para recuperar uma contusão muscular ou overdose de angústia, depressão ou dor-de-cotovelo, o
fato é que o jogador não sustentou o peso da imagem e fracassou escandalosamente no gramado. Uma outra
imagem então, não de herói e sim de clown, atrapalhado com as próprias pernas, foi transmitida para o mundo
todo, entrando via satélite em milhões de salas de milhões de fãs confusos”.(KEHL, 2004:63-64).

63
deste geograficidade do simulacro à medida que deixa de ser uma realidade vivida
e passa a ser percebida a partir de suas imagens. As imagens da cidade
reproduzem a lógica de produção da espacialidade da metrópole e, portanto,
como imagens apenas, ocultam o processo de desintegração social da cidade, na
medida em que esta perde significado como realidade vivida.
Porém, este processo de criação de uma espacialidade de simulacros só
tem sentido a partir de uma leitura própria da história que acompanha este
processo. Como nos aponta Bordieu,

“De fato, paradoxalmente, o mundo da imagem é dominado pelas


palavras. A foto não é nada sem a legenda – legendum -, isto é, com
muita freqüência, lendas, que fazem ver qualquer coisas. Nomear, como
se sabe, é fazer ver, é criar, levar a existência”. (BORDIEU, 1992: 26).

A imagem da cidade, para existir como tal, precisa ser acompanhada por
uma determinada leitura, de uma determinada narrativa. Esta leitura é realizada
por sua vez, a partir de um processo de mitificação da história que tem por
objetivo justificar o extremo quadro de desigualdade, no qual, a cidade como
resíduo está inserida. É neste sentido que, dentro da lógica da reprodução e
difusão do mundo da imagem da mercadoria, a cidade se transforma num evento
dentro desta mesma lógica, num discurso que remete a uma imagem e a uma
imagem que só tem sentido a partir de um determinado discurso. No processo de
metropolização, o que resta da cidade é sua geografia de simulacros e sua
história mitificada que dizem respeito à transformação da cidade em imagem e em
discurso.
Nos próximos capítulos, buscaremos analisar e desenvolver de que
maneira tal processo se realiza na cidade-metrópole de São Paulo, buscando
compreender o papel desempenhado pelas comemorações dos 450 anos da
cidade de São Paulo na criação / reprodução do discurso e da imagem da cidade.

2º Parte: A cidade de São Paulo

2.1. a construção do discurso e da imagem da cidade.

64
“Em 1890, muitas águas já haviam em São Paulo, mas o monumento
planejado para marcar o local da independência não passava de uma pilha
de toras de madeiras jogadas ao tempo. Em 1893 enfim se iniciou a
construção do prédio suntuoso que abrigaria o Museu do Ipiranga,
inaugurado em 7 de setembro de 1895, e muito reveladoramente rebatizado
de Museu Paulista. A instituição tomou fôlego quando, à medida que São
Paulo crescia, sua elite econômica e cultural concluiu que uma cidade de
tanto futuro precisava de um passado à altura. E, caso não houvesse um,
talvez fosse conveniente inventá-lo. Foi justo o que ocorreu”. Eduardo
Bueno

Figura 7: Monumento em homenagem a José de Anchieta. Como um dos elementos do discurso


da cidade, a relação de amizade entre índios e brancos serve hoje de base para a criação do
imaginário em relação “a cidade que a todos acolhe”. (Foto do autor, janeiro de 2005).

Rodovia dos Bandeirantes, uma das principais do Estado de São Paulo,


eixo de desenvolvimento econômico desde as primeiras investidas dos
colonizadores até o processo de expansão industrial. Teatro Municipal, um dos

65
marcos da arquitetura paulista moderna, criado pelo arquiteto Ramos de Azevedo,
pioneiro da arquitetura moderna no Brasil. O que há, porém de comum entre estes
dois marcos que percorrem não apenas o imaginário da população, mas fazem
parte do cotidiano da mesma? Estes dois marcos, como procuraremos
desenvolver nesta parte de nosso trabalho fazem parte e ao mesmo tempo são
resultados do processo de construção de um discurso histórico sobre o
desenvolvimento da cidade que tem por objetivo criar uma determinada história
para a cidade de São Paulo que seja digna de seu futuro promissor.
São Paulo, atual centro econômico, político e social do País, nem sempre
esteve nessa posição. Durante séculos, permaneceu como simples vila sem
nenhuma ou com pouca importância no desenvolvimento econômico do país. É
neste sentido então, que ao assumir a posição de destaque a partir dos fins do
século XIX e início do século XX no contexto brasileiro e depois, como veremos,
no contexto mundial, que a cidade, ou melhor, seus representantes e sua elite
criam uma determinada história capaz de justificar a posição alcançada em
detrimento dos séculos de esquecimento e periferia.
A construção do discurso histórico paulista se faz a partir de uma releitura
de fragmentos do passado por meio de elementos próprios do presente e do
futuro. É neste sentido que a história dos “bandeirantes”, “dos homens bons”, “dos
primeiros cafeicultores” são histórias de desenvolvimento e progresso, de avanço
e de civilização, termos estes que só tem sentido a partir da segunda metade do
século XIX. O discurso histórico de São Paulo é, portanto, transpassado por uma
série de conceitos e idéias chaves que têm por objetivo criar a imagem da “cidade-
motor”, “da cidade-trabalho”, da cidade que, por seu trabalho e por sua
capacidade de enfrentar desafios pode superar uma situação de total
esquecimento para conseguir ocupar a posição de destaque no cenário nacional e
internacional. A compreensão do atual processo de construção-reprodução do
discurso e da imagem da cidade só pode se realizar a partir da compreensão de
sua gênese que, como veremos, tem sua origem num passado não tão remoto
assim.

66
Nosso intuito nesse capítulo é perceber de que maneira tal discurso e tal
imagem da cidade foram construídos a partir da constituição de uma certa espaço-
temporalidade da cidade. A permanência do discurso histórico é também uma
permanência dos objetos espaços-temporais que criam uma certa ordem para a
cidade-metrópole. A constituição do chamado “centro histórico” 26 da cidade, seus
processos de degradação e de revitalização dizem respeito a uma lógica de
manutenção de uma determinada história da cidade que tem por objetivo a
reprodução dos interesses e privilégios, sejam eles econômicos, políticos ou
sociais, das elites e, atualmente, das corporações, que se apropriam privadamente
da esfera pública da cidade. A constituição de uma história parcial da cidade
apresenta claramente este processo de privatização daquilo que é público na
cidade. Ou, se levarmos tal preocupação as suas máximas conseqüências,
podemos afirmar que a narrativa histórica construída para a cidade de São Paulo,
ao transformar a história de uma cidade na narrativa e soma das ações dos “vultos
e dos grandes homens que fizeram esta cidade”, acarreta um sentimento de não
pertencimento na participação da vida pública da cidade. É neste sentido, que a
relação entre público e privado, no caso da cidade de São Paulo, e também no
Brasil, aparece na própria constituição do discurso e da imagem da cidade, sendo
necessário compreender tal relação para a realização de uma análise mais
profunda das conseqüências desta situação na prática sócio-espacial da
população local27.
Nosso pressuposto para análise desta problemática acima apresentada diz
respeito à relação existente entre um determinado discurso e uma determinada
imagem da cidade com as formas e objetos que se organizam espaço-
temporalmente na cidade-metrópole. Em nossa perspectiva, tal espacialidade

26
Utilizaremos em nossa pesquisa o termo “centro histórico”, sempre com aspas, para identificar que se trata
de mais um discurso ligados as interesses dos agentes hegemônicos da modernidade. O chamado “centro
histórico” de São Paulo refere-se, em nossa pesquisa, a área da cidade que vai da várzea do Carmo até o Vale
do Anhangabaú, expandindo-se até a estação da Luz e a estação Julio Prestes, a qual concentra os principais
investimentos e interesses ligados ao processo de valorização e especulação imobiliária da metrópole paulista.
27
Esta discussão sobre a relação entre público e privado na constituição de uma determinada história, de um
determinado discurso histórico já foi por nós estudado em trabalho anterior sobre a questão do discurso
regionalista na cidade de Barra Bahia. Para mais, ver. GIROTTO, E. D. O processo de modernização /
conservação do discurso regionalista, a transformação espacial e a destruição do patrimônio histórico espacial
na cidade de Barra, BA.

67
pressupõe uma organização de novos objetos simbólico-arquitetônicos, que se
relacionam com antigas formas de organização da cidade, criando um mosaico de
novidades e permanências que tem por base a manutenção de determinados
interesses ligados à reprodução econômica e política de grupos de poder da
cidade-metrópole A grande maioria dos projetos de revitalização do espaço
urbano que se realiza na cidade-metrópole pressupõe a escolha de pontos
específicos da cidade que devem ser revitalizados ou não. A questão que se
coloca, portanto, e que é esclarecedora a nossa pesquisa é a que diz respeito
sobre quem define tais pontos a serem revitalizados? Quais os interesses
econômicos e políticos que ditam tais revitalizações? Qual a relação deste
processo de escolha com a manutenção de um determinado discurso e de uma
determinada imagem da cidade? A afirmação de que tais pontos são escolhidos
por se tratarem de áreas “históricas” do desenvolvimento da cidade, como vimos,
oculta o processo de construção de um certo discurso histórico que justifica tal
reprodução.
Por outro lado, é importante analisar também que se há áreas que devem
ser preservadas e revitalizadas existem outras que são destruídas do dia para a
noite. Quais seriam então, a relevância histórico-geográfica de tais áreas? E quem
assim o diz?
Os processos de revitalização e de destruição de objetos e formas que
fazem parte da produção/reprodução de uma determinada organização espaço-
temporal da cidade metrópole, dizem respeito a um processo de manutenção de
determinadas espaços-temporalidades, ligados a certos discurso e imagens e,
portanto, modos de vida, que querem fazer reproduzir, e não a manutenção
daquilo que poderíamos chamar de uma “reconstituição da real” ocupação e
desenvolvimento ocorrido na antiga vila de São Paulo de Piratininga 28. É neste

28
Este fato pode ser bem demonstrado com o exemplo da construção da igreja que hoje se encontra no Pátio
do colégio. Segundo BUENO, “o atual pátio do Colégio não passa de um simulacro. Embora a maioria dos
paulistas e dos brasileiros o ignore, o fato é que a igreja em estilo colonial que hoje se ergue no centro de São
Paulo começou a ser construída em 1975 e só foi concluída nos anos de 1990, no desfecho de um processo
contraditório.” BUENO, 2004: 14. Se o desenvolvimento da metrópole paulista se faz através da destruição de
seu passado, o mesmo processo é responsável pela recriação de um novo passado. Porém, como falso
passado, criação da metrópole, ele é um sintoma da lógica de reprodução da espacialidade urbana que se
realiza na metrópole.

68
sentido, que podemos afirmar o caráter de simulacro que apresenta hoje a
metrópole. Simulacro no sentido em que aquilo que representa diz respeito a uma
leitura parcial e calcada em interesses diversos da história da cidade, que passa a
ser então a história de alguns poucos nomes que merecem ser lembrados. Nas
palavras de Walter Benjamin,

“A tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção em que


vivemos é na verdade a regra geral.” (BENJAMIN, 1993: 226).

Nos próximos capítulos, então, buscaremos compreender de que maneira


tal discurso e tal imagem da cidade-metrópole de São Paulo foi utilizada nas
comemorações dos 450 anos da cidade, procurando entender não apenas o
discurso e a imagem explícitos veiculados, mas também aquele discurso e aquela
imagem que, apesar de ocultos, aparecem no imaginário e na percepção da
população local. Nosso intuito é compreender as limitações que tais discursos e
imagens criam na compreensão da população local sobre sua própria realidade,
bem como as possibilidades que os mesmos criam para a superação de uma
situação (já descrita nos capítulos anteriores) de estranhamento e incompreensão
que acaba por resultar numa prática sócio-espacial dirigida por interesses privados
em detrimento da esfera pública da cidade-metrópole.

2.2 O discurso

69
“Entre os brasileiros são os paulistas os que mais se afastam dos Europeus e os
que mais se aproximam do norte-americano. E ainda os norte-americanos
buscam transportar castelos da Europa para os Estados Unidos, querendo criar
um cenário histórico fictício. O paulista constrói o cenário à imagem de seu
século, para o demolir quando o gosto mundial começa a se transformar.
Compreende-se a admiração que Blaise Cendrars, que com a guerra aprendeu
a detestar a história, voltou a São Paulo. Aqui encontrou o triunfo permanente da
revolta contra o passado”.(Roger Bastide)

No capítulo anterior, vimos que a construção do discurso histórico da


cidade de São Paulo começa a se dá no início do século XX e ganha força
principalmente com o processo de industrialização pelo qual a cidade passa nas
décadas de 20 e 30 do referido século. Neste contexto, um dos principais efeitos
do processo de industrialização da cidade de São Paulo é o de introduzir
radicalmente a cidade no mundo, ou seja, apresentar São Paulo, que há poucos
anos não passava de uma vila com pouca importância no cenário nacional, ao
mundo e o mundo a São Paulo. O que ocorre então é o que podemos chamar de
expansão dos horizontes paulistas, da escala de representatividade e de
identificação da cidade com o país e com o mundo e, a partir disso, surge a
necessidade de se criar um discurso histórico e geográfico capaz de justificar a
entrada de São Paulo no contexto mundial, bem como apresentar, no contexto
nacional, a liderança econômica e política a qual São Paulo reivindicava.
Antes, porém, de analisarmos o caso paulista se faz necessário uma
discussão teórica acerca daquilo que denominamos neste trabalho de discurso.
Para tanto, recorreremos a considerações teóricas desenvolvidas sobre o tema.
Segundo BRANDÂO, o conceito de discurso, como um dos elementos de
análise do campo da lingüística é tributário de uma corrente dentro desta própria
disciplina que entende a linguagem como “interação social, em que o outro
desempenha papel fundamental na constituição do significado (...) revelando as
relações intrínsecas entre o lingüístico e o social” (2004: 8). O discurso, como
resultado de uma determinada condição social, comporta em seu desenvolvimento
as relações conflituosas e diversas que lhe deram origem. Como elemento de
análise, portanto, o discurso possibilita o desvendamento das relações sociais nas

70
quais tal discurso está inserido, ao mesmo tempo, como resultado e como
processo.
Analisando a relação entre a linguagem e o discurso, Brandão faz a
seguinte afirmação:

“A linguagem enquanto discurso não constitui um universo de signos


que serve apenas como instrumento de comunicação ou suporte de
pensamentos; a linguagem enquanto discurso é interação, e um modo
de produção social; ela não é neutra, inocente e nem natural, por isso é
o lugar privilegiado de manifestação da ideologia (...) Como elemento de
mediação necessária entre o homem e sua realidade e como forma de
engajá-la na própria realidade, a linguagem é lugar de conflito, de
confronto ideológico, não podendo ser estudada fora da sociedade, uma
vez que os seus processos são histórico-sociais. Seu estudo não pode
ser desvinculado de suas condições de produção”. (BRANDÂO, 2004:
11).

Para além de um caráter neutro e dissociado da realidade, o discurso surge


como forma de expressão de uma determinada ideologia que está diretamente
relacionada as condições sociais nas quais tal discurso foi produzido. Para além
da comunicação, o discurso é produtor de visões de mundo, de relações sociais e,
portanto, reprodutor também de ideologias. Neste sentido, segundo Brandão, o
discurso é “o ponto de articulação dos processos ideológicos e dos fenômenos
lingüísticos”. (2004, 11).
Em seu desenvolvimento histórico e em sua incorporação a partir da
análise marxista (M.Bakhtin29), o conceito de discurso passou a ser vinculado ao
conceito de ideologia, sendo aquele instrumento de reprodução deste. Dessa
maneira, o conceito de discurso adquiriu um caráter pejorativo a partir de sua
associação com uma análise que o compreendia como instrumento de dominação
de classe e, portanto, de reprodução de uma determinada condição social, de um
determinado status quo, que o discurso, em sua realização, contribuía para a
manutenção. Para que possamos melhor compreender este conceito, é
necessário que o dissociemos desta visão extremamente negativa e pejorativa,
para que, dentro de uma análise mais ampla, possamos compreendê-lo como
elemento formativo do homem como sujeito histórico e político.

29
Ver do autor Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1979.

71
O discurso, como prática coletiva humana, surge, segundo Hannah Arendt,
como elemento e prática essencial para constituição daquilo que vem a ser o
homem-sujeito. Como realização essencialmente humana, o discurso está
presente nas relações entre os homens, em seu cotidiano, e é por meio do
discurso que o homem passa a compreender e a saber o que é, e a identificar
aquilo que se constitui como o outro dele mesmo, ou seja, sua alteridade. É por
meio do discurso que o homem se faz conhecer e conhecer ao outro. Para
Arendt,

“É com palavras e atos que nos inserimos no mundo humano, e esta


inserção é como um segundo nascimento, no qual confirmamos e
assumimos o fato original e singular do nosso aparecimento físico
original”.(ARENDT, 2004: 189).

É neste sentido que o discurso nos permite construir uma idéia acerca
daquilo que nos constitui e que constitui o mundo, ao mesmo tempo em que,
cientes desta realidade, podemos agir sobre ela iniciando transformações que
muitas vezes não podemos controlar. E este é um elemento essencial que define
o caráter constituinte no discurso na realidade humana. Para que o discurso
assuma sua característica fundamental na constituição do homem sujeito é
necessário que palavra e ação não se dissociem e ocorram em mútuo acordo. É
necessário que o homem-palavra, que o homem-discurso seja também o homem
ação; não agindo, porém, como uma máquina que recebe determinados
comandos, e sem refletir executa determinadas operações. Diferente das
máquinas, o homem-discurso deve fazer da ação uma maneira de reafirmar ou
rejeitar o discurso que lhe constitui. Só assim, a palavra posta em movimento por
meio do discurso pode contribuir para a constituição do homem sujeito, consciente
de seus atos e de suas palavras.
Dessa maneira, ação e discurso são constituintes essenciais do homem
como ser político. Segundo Arendt,

“Na ação e no discurso, os homens mostram quem são, revelam


ativamente suas identidades pessoais e singulares, e assim apresentam-
se ao mundo humano, enquanto suas identidades físicas são reveladas,

72
sem qualquer atividade própria, na conformação singular do corpo e no
som singular da voz. (...) Só no completo silêncio e na total passividade
pode alguém ao ocultar quem é (...)”.(ARENDT, 2004, 192).

A partir disso, podemos apontar algumas modificações que, principalmente


a partir da modernidade, transformaram a relação existente entre discurso e ação,
modificações estas que dizem respeito a própria forma na qual se constituiu a
política moderna.
Um dos principais elementos definidores da política moderna e que rompe
com o caráter participativo da chamada democracia ateniense, diz respeito a
dissociação entre o cidadão e sua prática política. A partir da Revolução Francesa
e da vitória dos ideais girondinos, por meio da consolidação realizada por
Napoleão, passa-se a associar democracia com representação. Cria-se então, ou
pelo menos, ganha mais importância e vulto, a figura do político, daquele que
passa a ser o responsável, e o único com autoridade para tal, pelo cuidado com a
chamada esfera pública da vida. É a ele que cabe os assuntos referentes a
organização do Estado Nacional, Estado este que passa a ser, por meio da figura
do político30, o agente principal da política que é agora internacional, ou melhor,
interestatal. Neste contexto, resta ao cidadão a organização dos assuntos
privados, de sua vida particular, o que para muitos representa um ganho em
tempo livre, já que agora aparece isento de preocupações políticas. Porém, ao
abrir mão de sua participação na esfera pública da vida, o cidadão renega o seu
próprio direito de se constituir enquanto sujeito e agente de um certo discurso e de
uma determinada ação. Renega, portanto, o seu próprio direito de existir enquanto
cidadão. A modernidade inaugura o cidadão incapaz de criar discursos e,
portanto, cria o personagem que representa uma determinada idéia sobre o
mundo a qual não lhe pertence.
30
A associação existente entre o Estado e a figura do político ganha diferentes contornos na história e na
geopolítica mundial. Tal associação pode ser verificada no autoritarismo alemão e italiano no entre-guerras,
mas também na figura carismática de Franklin Roosevelt, ou na insensatez de George W. Bush. O que há por
detrás desta associação é o fenômeno que acima analisamos da moderna dissociação entre o cidadão e a
política, que resulta na construção de uma falsa autoridade da qual faz uso o chamado político. No Brasil, o
populismo latente de nossa política é o elemento que nos liga a esta forma moderna de se fazer política. Em
nosso caso, a associação entre a figura do político e do Estado extravasa a perspectiva laica da política, para
ganhar traços messiânicos e proféticos. Para ver mais sobre o assunto, recomendamos a obra de Francisco
Weffort sobre o populismo Brasileiro. Em relação ao mundo, a própria obra de Hannah Arendt, utilizada nesta
análise apresenta uma interessante interpretação do tema.

73
Da mesma maneira, segundo Arendt, a modernidade realiza uma inversão
da relação entre público e privado em comparação com a democracia ateniense.
A partir de agora, não é mais a participação na esfera dos negócios públicos que
define o cidadão, mas sua vida particular, ou seja, a esfera da vida privada. Para o
cidadão, para o personagem-cidadão, o discurso e ação são substituídos pela
representação de um determinado “papel social” ou o seu total aniquilamento a
partir do surgimento do chamado homem invisível, que não se dá a conhecer e,
portanto, também não se reconhece 31. Incapaz então de agir porque incapaz de
compreender o discurso que lhe forma, o personagem-cidadão passa a ser alvo
de uma série de micro-discursos, de metas-narrativas, que ao invés de lhe
apresentar o mundo criam uma imagem complexa e difusa do que venha ser a
realidade. Como personagens destas narrativas, o personagem cidadão
representa funções e papéis que, porém, não lhe são permitidos escolher. Vive,
então, a dissociação entre discurso e ação; de um lado concebem o mundo a
partir de uma representação que não constroem; de outro, vivem o mundo a partir
de ações, de práticas sócio-espaciais que lhe são impostas, às vezes pela força
do discurso, às vezes pelo discurso da força. E como personagens não são mais
cidadãos e já caminham para a perda da essencialidade política do homem. Com
base nestes elementos, podemos então analisar o caso de São Paulo e da
constituição de seu discurso histórico e geográfico.
A entrada de São Paulo no cenário mundial, principalmente a partir de seu
processo de industrialização, inaugura também o próprio início daquilo que
denominamos nos primeiros capítulos de modernidade. A antiga vila que
misturava elementos culturais indígenas com aspectos da Europa medieval, em

31
Este fato se dá, pois só poder haver discurso e ação reveladoras do homem sujeito a partir da existência do
uma esfera pública da vida. É necessário que os homens se façam presentes com os outros homens para que
façam conhecer pelo discurso e pela ação. Segundo Arendt, “esta qualidade reveladora do discurso e da ação
vêm à tona quando as pessoas estão com outras, isto é, no simples gozo da convivência humana, e não pró ou
contra as outras. Embora ninguém saiba que tipo de quem revela ao se expor na ação e na palavra, é
necessário que cada um esteja disposto a correr o risco da revelação (...)” (ARENDT, 2004: 192). Na
modernidade o risco de estar com os outros, de se revelar é substituído pelo conforto e pela segurança da vida
particular, da vida privada, Porém, o discurso não realizado pelo cidadão recluso em seu lar, chega à ele
através de uma série de meios de comunicação e é a partir deste discurso, do qual não é sujeito, que o cidadão
moderno, alijado da esfera pública da vida, irá se relacionar com o mundo e com os outros. Sua definição, sua
compreensão acerca daquilo que é, se dará a partir de um discurso do qual não é agente e, portanto, não pode
transformar ou modificar, sem um processo de conscientização e crítica.

74
poucos anos, começa a sofrer uma série de mudanças que podem ser verificadas
tantos do ponto de vista do modo de vida da cidade, quanto do ponto de vistas da
própria organização espaço-temporal da mesma. A modernidade se reflete em
São Paulo a partir da incorporação de elementos que vêm direto da Europa e se
projetam em todo o solo paulista, às vezes com modificações e transformações
realizados por leituras e interpretações feitas por aqueles que a eles tem acesso,
por outras, são introduzidos sem nenhum tipo de “filtro cultural”, o que faz a cidade
se transformar radicalmente tanto em sua organização material quanto em seu
modo de vida.
Entre estes elementos portadores do discurso da modernidade, a ferrovia
desempenha um papel central. Ao analisar o papel da ferrovia no processo de
modernização espaço-temporal de São Paulo, José de Souza Martins aponta as
principais transformações que este meio de locomoção inaugurou no território e no
imaginário paulista, modificando radicalmente a forma de se conceber o tempo e o
espaço32. Para o autor, foi através da ferrovia e das transformações acarretadas
pela sua implantação que,

“O moderno que se arrastava ocultamente se tornou visível, máquina a


vapor, equipamentos, alterações no espaço, outra linguagem, outro modo
de ver e ver-se. Tornou-se de fato o que já era sem poder ser: o tempo
regulado pelo custo e pelo lucro. O homem deixava de ser o condutor da
tropa para ser conduzido como tropa.” (MARTINS, 2004: 8).

Com a implantação da ferrovia no Brasil e principalmente em São Paulo, o


processo de mundialização que, ainda, naquele contexto histórico, aparecia
reticente e pouco significativo na alteração do modo de vida da população, ganha
presença real e material, passando do plano da teoria econômica para o plano do
cotidiano. Com a introdução da ferrovia, dessa maneira, era o próprio mundo que
estava sendo introduzido no dia-a-dia da população paulista e esta transformação
resultará, como nos aponta Martins, não apenas numa nova forma de ver o
mundo, mas também numa nova maneira de enxergar a si mesmo como

32
“A ferrovia diluiu a dimensão local e de localidade dos antagonismos sociais na dimensão geopolítica dos
embates sociais e políticos da modernidade antes que os embates fossem efetivos. Já não era possível viver
sem temer os desdobramentos do mundo criado pelo capital e pela máquina”. (MARTINS, 2004:9)

75
participante deste mundo, de todas as suas possibilidades e limitações. A este
processo de expansão espaço-temporal do cotidiano, ou seja, das relações
cotidianas que passam, cada vez mais, a serem mediadas pelo mundo, por
elementos resultantes do processo de mundialização, acompanha um processo
intenso de estranhamento e melancolia, resultado claro da dificuldade do
habitante paulista de se compreender como parte integrante deste processo, ao
qual não foi convidado a participar, mas brutalmente inserido. É como se um dia,
voltando para casa, cansado do trabalho, um homem percebesse que todos seus
móveis haviam sido mudados de lugar e, portanto, aquela ordenação espaço-
temporal não lhe significava mais nada. O seu sentimento de distanciamento e
estranhamento em relação ao lugar, ou seja, a sua casa, é tanto resultado da
nova ordenação espaço-temporal, como conseqüência do fato dele, o homem, o
habitante paulista, não saber ao certo quem é o responsável por tal mudança. Por
mais visível que possa parecer, o processo de mundialização oculta, em sua força
avassaladora, os agentes sociais por ele responsável. O visível então, surge,
neste contexto, como mais uma maneira de ocultar, de esconder e de fantasiar um
processo que se dá de maneira fragmentada e inconclusa.
O processo de modernização inaugurado em São Paulo principalmente a
partir da implantação da ferrovia não se apresenta como um processo unilateral e
homogêneo. Surge antes, como ondas de modernização e conservação que
coexistem e se relacionam, contraditoriamente, em determinados momentos,
cooperativamente em outros. Segundo Martins,

“O mundo moderno chegou fragmentária e marginalmente a São Paulo já


no século XVIII, justapô-se aos costumes, criou ilhas de racionalidades
econômicas e política, conviveu com as estruturas fundamentais de uma
economia à margem das grandes contas do mundo colonial. Por isso,
não chegou inevitavelmente nem fez sentido para a maioria da
população. Pouquíssimos perceberam as mudanças que chegavam, as
novas idéias, a nova maneira de produzir e negociar com base no
cálculo, no inconformismo da curiosidade econômica e política, nas busca
de formas que dessem contorno aos novos conteúdos que se
propunham”. (MARTINS, 2004: 8).

O processo e o projeto de modernização que se quer implantar em São


Paulo apresenta-se como incompleto e fragmentário, capaz de guardar em seu

76
interior contradições de forças e de perspectivas que dão a tal projeto uma
característica dual. Tal processo, como nos aponta Martins, realiza-se a partir do
visível e do oculto, daquilo que se quer fazer ver e daquilo que pretender guardar
em segredo, daquilo que se oculta por trás visível. É neste sentido, que o
processo de modernização inaugurado em São Paulo parece tão claro há alguns e
invisíveis a tantos outros. O homem que chegou em casa e encontrou seus
móveis revirados, sentou-se no sofá e logo se esqueceu da mudança. Aquele
sofá, indiscutivelmente, estava muito mais confortável do que o anterior, numa
posição em que o sol e o vento chegavam de forma regular, colocado de maneira
a facilitar o descanso e o sono. Em pouco tempo, o homem que havia estranhado
sua casa, foi se esquecendo de suas primeiras perguntas, de suas primeiras
indagações, e cochilou, num sono tranqüilo e suave. Quando acordou, algum
tempo depois, como num passe de mágica, a casa lhe parecia normal. Era como
se os móveis tivessem sido recolocados no lugar. Nada mais lhe parecia
incomum, fora de ordem, novo. Tudo estava da maneira como deveria estar. O
que ele não sabia, porém, era que não eram os móveis que haviam voltado aos
seus lugares, a sua antiga ordenação espaço-temporal, mas ele que havia
mudado de lugar. O que acordou já não era o mesmo que dormiu. Era de uma
nova humanidade que se tratava.
Introduzida no cotidiano dos habitantes da cidade de São Paulo, a
modernidade se transforma em discurso e ganha força ideológica para sua
realização. É a partir disso, então, que podemos afirmar que o discurso histórico e
geográfico de São Paulo confunde-se em grande medida com o próprio discurso
da modernidade. O discurso da modernidade se constituirá como fundamento
para a construção do discurso histórico e geográfico da cidade de São Paulo.
Nicolau Sevcenko, em seu excelente livro sobre a explosão cultural de São Paulo
na década de 20 aponta o caráter que assume a própria palavra modernidade
neste contexto histórico. Para o autor,

“O vocábulo moderno vai condensando assim conotações que se


sobrepõem em camadas sucessivas e cumulativas, as quais lhe dão uma
força expressiva ímpar, muito intensificada por esses três amplos
contextos: a revolução tecnológica, a passagem do século e o pós-

77
guerra. “Moderno” se torna a palavra-origem, o novo absoluto, a palavra-
futuro, a palavra-ação, a palavra-potência, a palavra-libertação, a palavra-
alumbramento, a palavra-reencantamento, a palavra-epifania. Ela
introduz um novo sentido à história, alterando o vetor dinâmico do tempo
que revela sua índole não a partir de algum ponto remoto no passado,
mas em algum lugar no futuro. O passado é, aliás, revisto para autorizar
a originalidade absoluta do futuro.” (SEVCENKO, 2003: 228).

A modernidade inaugurada em São Paulo na virado do século XIX para o


XX, modifica radicalmente a própria história da cidade que precisa, a partir deste
contexto, ser recriada. Como nos mostra Sevcenko em seu texto, o passado
paulista, ainda pouco explorado e pouco sistematizado, precisa ser revisto, e
como veremos, em muitos casos, ser reinventado, para que os fatos e os
acontecimentos do futuro e do presente possam seguir numa linha de grandeza e
de progresso que tenha seu ponto de origem num passado de glórias e de
grandes vultos. O discurso da modernidade, do avanço unidirecional da civilização
em direção ao progresso e ao desenvolvimento cientifico, proposto por Augusto
Comte em seus trabalhos, servirão de bases para a criação do próprio discurso
histórico e geográfico da cidade de São Paulo, que tem por principal objetivo,
fazer com a história de São Paulo se assemelha a própria história do mundo
europeu, o que buscar legitimar, portanto, a presença da capital paulista no
cenário das grandes cidades mundiais. A São Paulo da virada do século XIX quer
nascer mundial, moderna, quer apagar todos os traços que relembrem o seu
passado de esquecimento e de pobreza que marcam sua origem e seus primeiros
séculos.
Ao demonstrar a importância que assume o termo moderno no início do
século XX, Sevcenko aponta também as transformações que segundo ele teriam
contribuído para a inserção de São Paulo no cenário mundial. Para o autor, a
transformação tecnológica pela qual o mundo passa naquele momento histórico
reflete profundamente na cidade de São Paulo que começa, mesmo que de forma
tardia, a incorporar tais transformações a partir de seu processo de
industrialização. À esta transformação espaço-temporal da cidade acompanha
também um determinado discurso histórico e geográfico que busca entrelaçar e
justificar a realidade vivida pelos habitantes da cidade e as transformações

78
ocorridas com a introdução de novas tecnologias. Como vimos nos primeiros
capítulos, a experiência da modernidade, é a experiência do progresso, da
expansão espaço-temporal, do desenraizamento, e todos estes elementos podem
ser verificados na constituição do discurso histórico-geográfico da cidade de São
Paulo. A elite paulista, no início do século XIX, quer devorar o mundo ao mesmo
tempo em que devora a si mesma, num ritual antropofágico de destruição e
renascimento.
O papel da semana modernista de 22 é fundamental para se compreender
o processo de modernização, material e intelectual, pela qual a cidade de São
Paulo passa. O movimento de 22, em sua base, tem por princípio revolucionar a
arte a partir das principais vanguardas que encontram na Europa. Jovens da
classe média alta paulista, vão e voltam da Europa trazendo novas perspectivas e
idéias que são logo incorporadas ao imaginário paulista. São maneiras novas de
pensar o mundo, o homem e a própria cidade, que deixa para trás, neste discurso,
cada vez mais a sua condição de vila inexpressiva e assume a sua posição de
destaque no cenário nacional e mundial. É neste sentido, que São Paulo passa de
vila esquecida à grande centro de efervescência cultural e de encontro
cosmopolita. E tais aspectos são ressaltados e ovacionados pelos poetas,
pintores, escultores que participam da semana de 22 e que fazem de São Paulo a
pátria do mundo e do Brasil.
A ida para a Europa, faz os artistas brasileiros, filhos da elite paulista,
sentirem o um certo vazio artístico que rondava o Brasil. Nas grandes feiras de
artes de Paris, todos os lugares do mundo contribuíam com uma determinada
expressão artística para enriquecer a tão repetitiva arte européia, que naquele
momento, está sedenta de novidades. Os artistas brasileiros se vêem, neste
momento, sem nenhuma grande contribuição artística que pudessem ofertar nesta
miscelânea de expressões do mundo. E é a partir disto, deste contato com este
sentimento de vazio criativo que ocorrerá a tentativa de se construir uma
expressão artística que fosse a própria expressão na nacionalidade, das
características próprias do Brasil. Era como se, ao produzirem a arte brasileira, os
artistas brasileiros produzissem o próprio Brasil.

79
É neste sentido, que ao se tentar criar uma arte “puramente brasileira” que
a cidade de São Paulo, através de sua elite, requisitará o direito de conduzir este
processo de criação. E com isso, a cidade de São Paulo encarnará o mito
fundador do Brasil. O poeta francês Blaise Cendrars, que morou em São Paulo
nas primeiras décadas do século XX descreve muito bem este fenômeno que une
ao mesmo tempo tradição e modernidade, num processo de destruição /
construção de uma cidade, feita discurso e imagem. São Paulo surge como a terra
prometida, como paraíso perdido, realizadora de todos os sonhos e
possibilidades. Porém, é a terra dos conflitos, das contradições, causadas
exatamente pela relação e pelos desejos dos homens que sonham sozinhos em
São Paulo. São Paulo busca na tradição a construção do moderno, e é neste
sentido, que a idéia da cidade progresso é a própria encarnação do discurso da
modernidade o qual é apropriado pela elite paulista e transformado no próprio
discurso da cidade. “Conduzo, não sou conduzido” é o lema da cidade
transformada em discurso e imagem, que evoca para si o direito de levar todo o
país na direção que bem desejar sua elite.
Interessante notar neste contexto, a relação existente entre a modernidade
e a sua alteridade representada pela tradição. Em seu livro “A sociabilidade do
homem simples” José de Souza Martins discute a problemática da relação
existente entre o tradicional e o moderno, problemática esta que vai para além de
uma lógica formal, mas está relacionada diretamente a uma necessidade dialética
de auto-afirmação na qual a modernidade e a tradição estão inseridas.

“A que parâmetros recorre a modernidade para ver-se, situar-se,


compreender-se (recusar-se) nessas situações? Recorre ao (in)
moderno, ao não moderno, ao mundo rústico, ao sertão, onde estariam
nossas raízes e nossa autenticidade. Que raízes? Aquilo que ficou
radicalmente à margem da racionalidade limitada do lucro do mundo
colonial e no processo de constituição do mercado interno. Aquilo que
parece exterior à nova ordem do mercado interno. Aquilo que parece
exterior à nova ordem, que parece não fazer parte dela” (MARTINS,
2000: 28).

O par dialético modernidade/tradição surge em São Paulo no exato


momento da Semana de Arte Moderna, que, como vimos, representou em si

80
mesmo um processo de modernização, baseando-se na busca pela tradição, pelo
arcaico. Em específico, no caso de São Paulo, é interessante notar que os
principais expoentes daquilo que se convencionou chamar de modernismo foram
os principais responsáveis pela criação de um discurso da cidade que ressalta /
cria os traços tradicionais, fundadores da cidade.
A invenção das tradições pressupõe um processo de desligamento, de
desenraizamento, de descontextualização, no sentido da perda da ligação do
homem com a terra, do fim do culto, no sentido apresentado por Bosi, daquilo que
dá sentido a existência individual e comunitária, e resulta numa transformação de
um determinado modo de vida numa impossibilidade, num momento ultrapassado
e, portanto, incapaz de se realizar. A tradição, baseando-se num determinado
modo de vida, que em aparência, surge como antítese do modo de vida atual, mas
que é uma invenção deste, transforma-se no alter-discurso da modernidade, no
sentido em que, esvaziada de conteúdo, o modo de vida o qual a tradição faz
referência já não pode mais existir enquanto possibilidade da realização da vida,
mas apenas como forma a ser vista, admirada e consumida como turismo.
Mas voltemos a cidade de São Paulo. Como dissemos, no início do século
XX, São Paulo é ao mesmo tempo o lugar da modernidade e da tradição. E isto
pode ser percebido em algumas crônicas deste período. É o caso de uma crônica
feita por Mário de Andrade que ressalta o aspecto cosmopolita e de efervescência
cultural da cidade.

“A cidade palpita num esto incessante de progresso e civilização. Nela


formiga um povo multifário, internacional. Tudo são contrastes,
neologismo. Os habitantes movem-se ágeis, a língua é mole, saboreada.
Audácias e pasmaceiras... Paulicéia é como brasileirinha nascida nessa
idade-média em que uma parte de Minas adormeceu: alonga os babados
da saia escura para fechar no segredo a volta sensual do tornozelo, mas
traz nos lábios a rosa provocante das espanholas”.(ANDRADE, 1920).

Podemos perceber neste texto de Mário Andrade, que os elementos


ressaltados pelo autor dizem respeito à característica mundial que a cidade de
São Paulo quer assumir, e assume em parte no início do século XX,
principalmente a partir da introdução do imigrante europeu. A cidade passa a ser a

81
cidade das múltiplas faces, das diversas línguas, uma babilônia de sentidos e
cores, a qual o autor admira e ressalta. É este ambiente de diversidade e de
possibilidades que a São Paulo do início do século XX apresenta, que o
movimento modernista quer fazer vir aos olhos, quer dar vida através das artes.
Como apresenta Mário de Andrade, a São Paulo modernista é também o seu
contrário, a São Paulo conservadora, tradicional, regionalista, que busca um
passado comum, um mito fundador capaz de justificar sua introdução no mundo. A
percepção que tem Mário de Andrade, e muitos outros modernistas, deste
processo dual que apresenta a cidade de São Paulo, é fundamental para se
compreender a construção do discurso histórico e geográfico da cidade que se
realiza a partir desta aparente contradição. Como veremos posteriormente, tal
contradição permanece apenas no nível da aparência e precisa ser descoberta
para que possamos compreender os objetivos e os princípios que se ocultam por
detrás dela. Como veremos, a construção do discurso da cidade de São Paulo
está alicerçado, resulta e é resultado de uma determinada prática sócio-espacial
intimamente ligada às transformações materiais da cidade, frutos do processo de
industrialização, iniciado naquele contexto. O discurso, portanto, da cidade, não se
faz no vazio, ou seja, na ausência, mas surge para justificar um processo intenso
de transformações radicais da espaço-temporalidade da cidade, que resultam em
novas maneiras de percebê-la e de vivê-la em suas possibilidades e
impossibilidades.
Como vimos, o discurso paulista tem como objetivo, neste contexto,
apresentar São Paulo ao mundo e o mundo a São Paulo. Mas o que São Paulo
tem a dizer ao mundo? Quais os elementos de sua história e de sua geografia
podem ter alguma relevância em sua inserção mundial? É a partir, então, destas
questões que o discurso histórico-geográfico de São Paulo se constituirá. É
importante notar aqui que esta necessidade de apresentar São Paulo ao mundo
aparece também no atual discurso da cidade, verificado nas comemorações de
seus 450 anos. Como metrópole, que almeja ser desde seu nascimento moderno,
São Paulo precisa reciclar constantemente seu discurso, mantendo mitos,
recriando outros, para que possa acompanhar o discurso mundial e para que

82
possa reafirmar sua posição no cenário mundial e nacional. Voltaremos
posteriormente a esta questão.
Em seu célebre livro sobre o Brasil, Roger Bastide dedica um capítulo
especial no qual faz uma comparação entre as duas principais cidades do país no
início do século XX, São Paulo e Rio de Janeiro 33. Ao discutir sobre a questão do
discurso histórico-geográfico paulista, Bastide faz a seguinte consideração:

“São Paulo não tem monumentos antigos, com exceção de duas


modestas capelas rurais em seus subúrbios, a de Embu, com um
retábulo orientação e a de São Miguel, com um alpendre encantado.
Porque São Paulo foi durante muito tempo um burgo pobre, de pequenos
proprietários ou de simples artesãos, de caçadores de índios ou de
aventureiros. A riqueza veio tardiamente com o café. Riqueza pouco
segura, sujeita a flutuações do mercado internacional – riqueza que era
preciso agarrar, pela qual era preciso lutar... (BASTIDE, 1975: 146).

Vemos nesta consideração de Bastide, aquilo que pensamos ser essencial


na constituição do discurso histórico-geográfico de São Paulo, que seja, a
ausência de uma história de grande relevância que possa justificar a entrada da
cidade no cenário mundial e sua predominância no cenário nacional. Como mostra
Bastide, São Paulo, durante pelo menos trezentos anos, foi um “burgo pobre”
repleto de índios e caçadores de índios, sem grande importância nacional. Um
lugar esquecido na história do Brasil e de nenhuma importância para o mundo.
Não havia em São Paulo, então, nenhum elemento digno de memória que fosse
capaz de dar a cidade às glórias que tanto necessitava. Não havia história da qual
se pudesse orgulhar. É neste contexto, então, que se inicia o processo de releitura
e de criação do passado paulista, de reafirmação de certos elementos e de
negação de outros. É a história da criação do mito e de sua antítese; é a história

33
No decorrer de nossa pesquisa, a partir da análise de alguns artigos publicados principalmente na revista do
Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, percebemos que a criação do discurso histórico e geográfico da
cidade de São Paulo surge num contexto de disputa entre a São Paulo e o Rio de Janeiro. São Paulo, naquele
momento, começava já a superar o Rio de Janeiro do ponto de vista econômico, mas ainda não possui papel
de destaque na política nacional, que em grande, concentrava-se no Rio de Janeiro. O discurso histórico e
geográfico paulista vem, neste sentido, criar base de legitimação para a predominância paulista no cenário
nacional e mundial, em detrimento do Rio de Janeiro. Para tanto, São Paulo busca através do discurso
republicano liberal diferenciar-se do Rio de Janeiro, com o intuito de afastá-lo do cenário político nacional. O
texto de Roger Bastide é essencial para a compreensão desta disputa entre São Paulo e Rio de Janeiro e
servirá de base para a realização de uma pesquisa mais profunda sobre o tema, que buscaremos desenvolver
em trabalhos posteriores. I

83
dos vencedores que triunfa mais uma vez sobre os vencidos; é a criação do
discurso histórico e geográfico da cidade de São Paulo.
Como vimos, se não há então uma grande história, é necessário inventá-la
e para tal feito a ação dos intelectuais da cidade, representantes e participantes
da elite paulista, se destaca.

“O paulista, por demais mergulhado no presente ou no futuro imediato


para poder amar a história, deixa-a para os eruditos e professores, não a
introduz em sua existência. Ela não participa de sua vida. O passado não
é para ele uma presença, é antes um grande orgulho, o de pertencer a
raça de gigantes. Daí a vontade de criar sempre coisas novas, de não se
satisfazer com ambientes antigos, nem com o mundo das relíquias, mas
de se modernizar, de buscar tudo o que é novidade. Quando uma casa
tem mais de vinte anos, é já considerada vestuta; entregam-na à picareta
do demolidor para consolidar outra mais moderna, dotada de maior
conforto”. (BASTIDE, 1975: 146).

É interessante notar neste texto de Roger Bastide alguns elementos que


fazem parte do próprio discurso da modernidade que surgem também na própria
realidade paulista. O chamado “páthos” pelo novo, que Hannah Arendt muito bem
define em excelente trabalho sobre a modernidade 34, começa a dominar o
imaginário paulista e a definir as práticas sócio-espaciais dos habitantes da
cidade. O progresso paulista, o avanço da modernidade se dá e se faz realizar a
partir de uma dupla característica, de uma dupla função, que de maneira alguma
são excludentes, mas complementares: apaga-se um passado e se constrói outro
a partir de um presente que se quer justificar. Do esquecimento surge a imposição

34
Ao analisar o papel desenvolvido pelo pathos do novo na educação norte-americana a autora escreve o
seguinte: “O entusiasmo extraordinário pelo que é novo, exibido em quase todos os aspectos da vida diária
americana, e a concomitante confiança em uma perfectibilidade ilimitada (...), presumivelmente resultariam
de qualquer maneira em uma atenção maior e em maior importância dadas aos recém chegados pr nascimento,
isto é, as crianças, as quais, ao terem ultrapassado a infância e estarem prontas para ingressar na comunidade
dos adultos como pessoas jovens, os gregos chamavam simplesmente oi neói, os novos.” Segundo Hannah
Arendt, o pathos do novo, resultou na educação norte-americana numa extrema atenção e num extremo
cuidado com as crianças, o que acabou por criar uma autonomização do chamado mundo das crianças. O
excesso de atenção criou crianças cada vez mais dependentes e não preparadas para assumir a
responsabilidade pelo mundo por meio da política. No caso da cidade de São Paulo, o pathos do novo resultou
numa cidade em eterna infância, que não tem tempo de envelhecer, na qual, utilizando-se das palavras de
Marx, “tudo o que é sólido desmancha no ar”. A cidade quis apagar sua memória para colocar em seu lugar
um determinado discurso histórico e geográfico que interessasse há alguns grupos sociais em detrimento da
maioria. Mas a memória, mesmo que reticente, mantém-se como resíduo nas formas espaços-temporais que
resistiram e resistem ao processo avassalado iniciado a partir do discurso da modernidade e do pathos do
novo.

84
do lembrar, a imposição de uma determinada história e de uma determinada
geografia que passam a ser a história e a geografia de São Paulo e que passam a
habitar o imaginário da população paulista, a partir de um processo de divulgação
que utiliza os meios e instituições dotados de autoridade política e científica para
dizer e nomear o passado. À autoridade de construção de um certo passado
acompanha a autoridade de dizer algo sobre o mesmo e dessa maneira se
fundamenta o processo que define a construção do discurso histórico-geográfico
da cidade de São Paulo.
O discurso paulista, da maneira como foi constituído, criou a idéia de um
passado comum, o que resultou na constituição de uma certa identidade paulista.
A busca do mito fundador da cidade, busca esta que vai se realizar a partir da
releitura e da recriação de traços da história e da geografia da cidade, criou um
sentimento de pertencimento a uma determinada “raça de homens de grande
vulto”, capazes de dar a cidade o respeito e o merecimento os quais, a partir de tal
construção histórica, a cidade tem direito. É neste sentido que o discurso histórico-
geográfico paulista vem justificar o presente a partir de uma releitura determinada
do passado. Um passado, que como nos mostra Roger Bastide, não é presença,
no sentido de realidade, mas antes discurso. Neste sentido, o passado é então
substituído pelo discurso sobre o passado.
Porém, é importante saber quem são os agentes de tal discurso, ou seja,
quem tem autoridade para realizá-lo e, portanto, para fazê-lo ganhar sentido e
presença no imaginário dos habitantes da cidade. Como aponta Bastide, cabe aos
intelectuais da cidade a construção do mesmo e é a partir da constituição de
determinados centros de pesquisa histórica e geográfica que tais discursos serão
constituídos. A figura do intelectual, longamente estudada por Antônio Gramsci,
ganha força a partir da institucionalização dos centros de pesquisa paulistas que
se dá no final do século XIX. Este acontecimento acompanha um processo de
reestruturação da ciência no mundo que se dá a partir das teorias de Augusto
Comte. Tais teorias afirmam o papel central da ciência no desenvolvimento da
civilização e do progresso humano, fato este que outorga a ciência a autoridade
de resolver quaisquer conflitos que surjam, seja no campo da política, da

85
economia, da matemática, etc. O discurso científico do século XIX expande então,
os campos de atuação da ciência a partir de sua institucionalização o que dá ao
campo científico, utilizando uma definição de Bordieu, a autoridade de criar e
divulgar discurso. Daí se compreenda toda a atuação de cientistas e
pesquisadores na criação de discursos e teorias capazes de justificar todo tipo de
atrocidades ocorridas no processo de expansão territorial européia sobre a África
e a Ásia. Portanto, novamente São Paulo quer acompanhar o mundo em seu
desenvolvimento e em seu progresso e para tanto, institucionaliza também a
cidade sua ciência e dá autoridade aos pesquisadores para falar sobre a
realidade, ou melhor, para construir uma determinada realidade, que interesse aos
agentes econômicos e políticos da cidade de São Paulo.
Podemos definir dois grandes marcos históricos, ligados a
institucionalização da ciência paulista no final do século XIX, que terão
importância fundamental na construção do discurso histórico da cidade de São
Paulo: a fundação do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, responsável
pela criação do mito fundador paulista e do Museu Paulista, criador da antítese do
mito, ou seja, do antimito. Estes dois institutos, cada um a sua maneira, foram
responsáveis pela organização de um passado comum, que perpasse toda a
cidade e o imaginário paulista e pela posterior divulgação deste passado. Eles,
como procuraremos demonstrar, desenvolveram suas atividades sobre uma linha
demarcatória que dividia ciência e ideologia; porém, em suas práticas, torna-se
extremamente difícil saber quando se trata de uma coisa ou de outra.

2.2.1 O Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e o mito


bandeirante.
A criação do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, datada do ano
de 189435, ocorre num contexto de disputas políticas e de transformações
35
Sobre o papel do IHGSP, Scwarz escreve o seguinte: “Para além das questões regionais coube a esse
instituto – em consonância com os demais – a montagem de uma nomenclatura própria, bem como a
elaboração de uma agenda com personagens e fatos, da qual muitos historiadores atuais pouco se libertaram.
Presas a um projeto enciclopédico que encontrava ordem e encadeamento onde existiam apenas eventos
singulares em sua experiência regional (quando não menores), esses profissionais se comprometeram com a
construção de uma história nacional, que tendo o presente em mira, forjava o passado em tradição”. (Scwarz,
2004: 173)

86
econômicas pelas quais o Brasil e São Paulo passavam. Em poucos anos, em
decorrência do aumento dos lucros produzidos pela exportação do café, que,
como conseqüência deste fato, mas não apenas dele, se espalha rumo à oeste do
Estado, São Paulo passa a ser o principal centro econômico do país. Porém, sofre
de uma doença crônica, resultado de anos de esquecimento, e que resulta em
perdas para o Estado e principalmente para a cidade, que seja, sua pouca
participação nas decisões políticas nacionais. O Rio de Janeiro, sede durante
décadas do Império, e agora, da recém proclamada república aparece como o
centro principal das decisões políticas do país, por mais que suas condições
econômicas a desabilite para tal “status”. Nas cabeças dos barões do café
paulista, uma dúvida é latente: o que falta à São Paulo para que esta alcance sua
predominância política? O IHGSP surge então para responder esta questão.
Compreendamos melhor o contexto de sua criação.
A predominância econômica a qual São Paulo havia atingido no final do
século XIX, veio acompanhado de uma mudança significativa em seu quadro
demográfico e social. Esta mudança se deu a partir da chegada do imigrante
branco europeu, principalmente italianos e alemães, que trouxeram novas formas
de organização do trabalho e da vida social. Os imigrantes vindos da Europa não
eram pertencentes apenas há uma mesma classe social; constituíam-se, em sua
maioria, de camponeses, mas havia entre eles comerciantes, intelectuais, alguns
industriais, artistas36. E foi esta diversidade de classes sociais que resultou no
contexto histórico da criação do discurso histórico e geográfico da cidade de São
Paulo.
E não era pequeno o número destes novos habitantes.

36
“Enquanto a sociedade paulista tradicional dividia-se em fazendeiros, classe média de funcionários civis e
militares e população escrava decrescente, os imigrantes inseriram-se como: 1) trabalhadores das fazendas
pertencentes à aristocracia rural, com capacidade de trabalho e hábitos de consumo muito mais altos que dos
escravos; 2) pequenos negociantes artesanais e comerciais, como J. Palermo (sapataria), M. Dedini (Oficina
Mecânica), V. Filizola (oficina Mecânica), etc. e 3) grandes comerciantes, exportadores de café e/ ou
importadores de numerosos produtos: Zerrener, Bülow & Cia (café e importação), F. Matarazzo (importação
de farinha de trigo), Klabin (importação de papel), N. Jafet (importação de tecido), etc.” (MAMIGONIAN,
1976: 91).

87
“O gráfico de entrada de imigrantes em São Paulo reproduz em suas
linhas gerais as tendências da corrente imigratória no Brasil. A grande
afluência começou antes mesmo da abolição da escravidão, em 1886.
Deste ano até 1906 entraram em São Paulo mais de 1.200.000
imigrantes (exatamente 1.225.526), dos quais 800.000 eram italianos
(794.298). Isto, numa época em que esse Estado não possuía ainda
3.000.000 de habitantes (segundo o censo de 1900, a população paulista
era de 2.280.000). (VALVERDE, 1985: 92).

Os dados apresentados por Valverde são de extrema importância para se


compreender a transformação demográfica e social pela qual o Estado de São
Paulo, no final do século XIX, passou. A chegada de mais de um milhão de
imigrantes europeus num Estado de pouco mais de 2.000.000 de habitantes
acarretou, de um lado, em novos conceitos e idéias que vinham trazidas da
Europa e que davam a São Paulo o aspecto de cidade “cosmopolita”, e de outro,
num regionalismo paulista, numa tentativa de buscar uma identidade territorial que
pudesse se contrapor a desterritorizalição representada pelo imigrante, ao mesmo
tempo em que pudesse acolher o imigrante numa história e numa geografia
comum paulista.
Segundo MAMIGONIAN, a vinda dos imigrantes europeus para São Paulo
tem suas principais causas e explicações relacionadas com a expansão do modo
de produção capitalista na Europa a partir da segunda metade do século XIX. A
mudança da estrutura fundiária e das relações de produção no campo europeu
foram fundamentais para a criação de uma grande quantidade de mão de obra
livre, disponível e barata. Juntamente com os camponeses que partiam para
América após perderem suas terras em conseqüência do avanço do modo de
produção capitalista sobre o campo, vinham também pequenos comerciantes e
empresários, com o intuito de buscar novos negócios e oportunidades. Segundo
Mamigionian, foram inúmeros os pequenos comerciantes e empresários que
vieram para o Brasil.

“(...) F. Matarazzo, comerciante em Castellabate, na Campânia; A.


Pereira Ignácio, filho de sapateiro de Baltar; Viana do Castelo; J.
Palermo, sapateiro em Trechina, Calábria, etc. (...) Da cidade de Milão
saíram entre outros R. Crespi, representante comercial de tecidos; A. E.
Romi, operário em fábrica de elevadores; G. Rabioglio, técnico na Brow-
Boveri, etc. As perseguições étnicas na Europa Oriental provocaram as
saídas dos Klabin, comerciantes de papel da Lituânia; P. R. Robell,

88
diretor de fábrica de artigos de borracha em Budapeste; D. Kopenhagen;
M. Schwartzmann, etc.” (MAMIGONIAN, 1976: 91).

As transformações ocorridas com a chegada dos imigrantes europeus


resultaram numa nova maneira de organização da vida social e produtiva da
cidade. De um lado, o processo de industrialização se intensificou e se diversificou
com a abertura de novos ramos de produção e comércio; por outro, o número de
trabalhadores nas fábricas aumentou extraordinariamente, sendo estes novos
trabalhadores, em sua grande maioria, imigrantes europeus que introduziram na
cadeia produtiva não só uma nova forma de produzir, mas novas maneiras de se
organizarem como trabalhadores e reivindicarem seus direitos. Idéias de cunho
socialistas e anarquistas passaram a dominar os novos sindicatos de
trabalhadores paulistas e resultaram em protestos e greves, como a grande greve
de 1917, contra a exploração e as péssimas condições de trabalho as quais
estavam submetidos os trabalhadores. Dessa maneira, se o imigrante representou
um intensificação das relações de produção capitalista na cidade de São Paulo,
agudizou também suas contradições, que a partir daquele momento, tornaram-se
mais explícitas e resultaram em críticas e protestos que colocavam em xeque não
apenas o modo de produção capitalista mas a própria elite da cidade de São
Paulo. Neste sentido, o imigrante era ao mesmo tempo a salvação e a ameaça da
elite paulista.
Dessa maneira, como vimos no parágrafo anterior, o contexto histórico e
geográfico de São Paulo do início do século XX apresentava uma contradição que
acabou por ser incorporada no discurso sobre a cidade, em vias de construção.
São Paulo passa a ser então a cidade na qual o mundo está presente, não em sua
totalidade, mas a partir de uma pré-determinação daquilo que poderia ser o
mundo na cidade. Para tanto, para a realização desta tarefa de unir posturas e
contextos extremamente contraditórios era necessário encontrar o mito fundador
paulista, a gênese histórica e geográfica “do povo paulista” que neste momento
começava a se formar, ou melhor, era forjado pelo discurso em construção.

“Era como se fosse necessário datar o passado e encontrar


singularidades para essa ‘nação paulista tão bravia’ e destemida. Daí até

89
a criação da imagem do Bandeirante e da condenação dos primeiros
habitantes nativos era apenas um passo. Basta afirmar originalidades,
marcando e definindo uma só fundação”. (Schwarz, 2004:164).

Foram dois os principais processos que fizeram parte da construção do


discurso histórico e geográfico da cidade de São Paulo e que estão presentes no
texto acima citado. De um lado, temos o processo de criação de um mito fundador
capaz de legitimar a posição de destaque de uma certa elite paulista que queria se
reafirmar no poder, tanto econômico quanto político; de outro, inerente ao primeiro
processo descrito, temos a negação das origens indígenas de São Paulo. A partir
deste ponto da história paulista, o índio passa a ser visto como sinônimo de
barbárie e atraso e de maneira alguma poderia estar associado a gênese do povo
paulista. Suas crenças e costumes, lendas e tradições, passam a ser
gradativamente condenadas e, dessa maneira, o habitante indígena é
arremessado a pré-história de São Paulo e do Brasil. Sai assim da história para
entrar no folclore.
Para a realização destas duas tarefas acima descritas, a escolha da figura
do bandeirante será essencial. E para tanto, para a construção de uma certa
história e de uma certa geografia bandeirante, o Instituto Histórico e Geográfico de
São Paulo contribuirá de maneira decisiva. Sua consolidação e confirmação como
um dos principais institutos de pesquisa do Brasil se dará a partir do
desenvolvimento de pesquisas e da coleta e organização de documentos
históricos, que tem por objetivo, neste processo, organizar a história e a geografia
de São Paulo a partir da história e da geografia dos bandeirantes. Esta afirmação
pode ser comprovada quando analisamos os artigos publicados na revista do
Instituto durante os seus primeiros cinqüenta anos: são mais de 100 artigos
escritos com o objetivo de contar (ou melhor, criar) a história do bandeirantismo.
Textos dos mais diferentes autores, escritos e homenagens compõe este conjunto
das obras dedicadas aos bandeirantes na Revista do IHGSP e mostram, portanto,
a dedicação do Instituto para com o tema. A partir da leitura da história e da
geografia paulista feita pelo IHGSP, a figura do Bandeirante, suas trajetórias e
aventuras, passam a nortear o discurso histórico e geográfico da cidade e a fazer
parte do imaginário do cotidiano dos habitantes da cidade, tanto que, o Governo

90
do Estado de São Paulo adotou como seu hino oficial o hino dos Bandeirantes,
escrito pelo poeta Guilherme de Almeida (ver anexo) que analisaremos mais
adiante.
Nicolau Sevcenko, em artigo publicado no livro “Os nascimentos de São
Paulo” associa a criação do mito bandeirante paulista com o conflito existente
entre a elite paulista, endividada e decadente, de um lado e de outro, os
imigrantes, representados tanto pelo empresariado industrial quanto pelo
proletariado disposto a reivindicar seus direitos por meio de greves e protestos. A
necessidade de criação de um mito que pudesse demonstrar a originalidade do
povo paulista fazia-se necessária para a reprodução no poder de uma elite
decadente e pressionada pela “ameaça imigrante” 37. Segundo o autor,

“A idealização fantasiosa do Bandeirante tem data, autoria e, é claro,


está diretamente relacionada a esse novo contexto em que a burguesia
paulista tenta compensar de modo simbólico o que ela está perdendo
concretamente em termos de controle econômico, social e político.
Trata-se, portanto, de um processo de negação e substituição da história
presente – a história do conflito social em curso e do declínio da
plutocracia paulista – por uma versão mítica, atemporal, celebrada como
uma narrativa épica fundadora, socializada por uma aura de pureza
cultural e enraizada como uma autêntica germinação local”
(SEVCENKO, 2004: 2002).

Para iniciar nosso “desbravamento”, utilizando-se de um termo próprio do


discurso histórico e geográfico da cidade de São Paulo, acerca da questão do
bandeirantismo paulista, é necessário que façamos a seguinte pergunta: o que há
por detrás da figura do Bandeirante? Em primeiro lugar, o Bandeirante, no
discurso histórico e geográfico da cidade surge como elemento propiciador e
iniciador do progresso e do avanço civilizatório. Ele é entendido como aquele que,

37
Sobre o conflito entre a elite paulista e o empresariado imigrante foi apontada por Mamigonian em seu
artigo “O processo de industrialização de São Paulo”. “Os fazendeiros de café, entretanto, na maioria dos
casos, acabaram perdendo seus negócios industriais. Antônio da Silva Prado, que W. Dean considerou o
modelo do fazendeiro-empresário, foi um caso típico: em 1919 vendeu o frigorífico de Barretos à Cia.
Mecânica e Importadora de São Paulo (A. Siciliano), que o passou ao Anglo em 1923; seus descendentes
venderam a Vidraria Santa Marina à firma francesa Saint Gobain. A Cia. Antártica Paulista, dois anos após
sua fundação passou às mão de Zerrener, Büllow & Cia, firma comercial de imigrantes alemães (...) A
mudança de controle de indústria foi tão visível naquele momento que um porta-voz dos fazendeiros queixou-
se dos imigrantes, que tinham chegado de terceira classe para “empobrecer antigas famílias da aristocracia
rural, genuinamente brasileiras” (O Estado de São Paulo, 2/9/1919, conforme W. Dean, 1971,p.76).”
(MAMIGONIAN, 1976: 88).

91
bravamente, expandiu o território, não só paulista, mas também nacional, levando
progresso e civilização a todos os cantos do território brasileiro, numa luta
incessante contra o atraso e a barbárie. Neste discurso, o bandeirante é entendido
como um fenômeno essencialmente paulista, representando assim a
determinação, o progresso, a valentia e civilização que nasce de São Paulo. Para
isso, porém, para que esta visão sobre os bandeirantes fosse criada, é necessário
que todos os atos brutais e todas ações cruéis realizadas pelos mesmos em sua
caça aos índios e ao ouro seja ocultada, ou pelo menos, justificada como meio
necessário para o alcance de um determinado fim, que seja, o avanço da
civilização e do progresso.
Em um poema escrito em 1953 e publicado na Revista do IHGSP do
mesmo ano, Guilherme de Almeida, importante autor modernista, homenageia os
Bandeirantes. O poema foi lido na inauguração do monumento dos Bandeirantes,
uma das principais obras que marcaram as comemorações do IV centenário da
cidade de São Paulo e que reafirmou o papel central do bandeirante no discurso
histórico e geográfico da cidade. Neste poema, escreve Guilherme de Almeida:

“Esta praça pública – que a benção lustral de um nome ilustra: o de um


bandeirante que distendeu até as fronteiras da cultura e do civismo a
vertical de um meridiano de arbítrio que lhe estreitava a pátria, e foi por
isso desterrado, e só voltou para dar seu corpo à terra a que dera sua
alma – esta praça pública é neste instante a pátena ritual de um simbólico
ofertório. Ora se alça este litúrgico fragmento de chão paulista para o
sacrifício da total entrega a São Paulo de seu próprio corpo místico: esse
ímpeto de granito, rompente na rija convulsão de seus músculos e no
indômito impulso de seu pensamento.
‘Suscipe’! Recebe, povo Bandeirante, os Bandeirantes!”

Neste poema, podemos perceber o caráter mítico e mágico que cria uma
certa áurea sobre a figura do bandeirante. Ele aparece, então, como o guardião
mor da civilização e do progresso que marcam o desenvolvimento da cidade de
São Paulo e, portanto, toda a história da cidade deve, obrigatoriamente, passar
pela figura do Bandeirante. O discurso histórico e geográfico da cidade de São
Paulo cria, portanto, uma leitura da história e da geografia da cidade que só tem
sentido a partir da figura do bandeirante que passa, dessa maneira, a ser o elo de
ligação entre passado e futuro. Em termos melhores, o que o discurso justifica

92
mesmo que procurando ocultar é a predominância política e econômica que São
Paulo assume no final do século XIX e que, a partir da construção do discurso
histórico e geográfico da cidade, aparece como possibilidade já posta em sua
gênese. O bandeirante é, dessa maneira, a certeza do progresso paulista que vêm
desde sua fundação.
Outra importante representação criada acerca da figura do bandeirante diz
respeito a sua atuação no progresso e no desenvolvimento de todo o país. Ao
analisar o poema escrito por Guilherme de Almeida em sua totalidade (o poema
encontra-se nos anexos da pesquisa) percebemos que o autor constrói o texto
dando ênfase no caráter desbravador do bandeirante. Para o autor, o bandeirante
aparece como aquele que parte em sua jornada rumo ao descobrimento do Brasil;
é aquele que “semeou fazendas no Nordeste”, que “desceu o Amazonas”, que
“abateu o quilombo de Palmares”, que “expulsou o Hispânico, trazendo todo o
mapa do Sul em sua sola”, que “achou o ouro das gerais”, e que “foi com seus
canoões, Tietê abaixo para a fundação da trágica traição de Iguatemi”. Uma frase
presente no poema de Guilherme de Almeida resume este caráter de progresso e
desbravamento representado pelo bandeirante: o bandeirante é “aquele que,
depois, galgando os Andes e descendo o Amazonas, quis lavar no Pacífico as
mãos e os pés no Atlântico”.
Cansado de seu desbravamento, de seu longo caminhar, após dar ao
território nacional suas características atuais, e sua vida a causa do país, o
bandeirante retorna a sua terra de origem para a receber as glórias de sua
epopéia. Volta a São Paulo repleto de glórias e consciente de sua atuação, nos
dizeres de Guilherme de Almeida. O poeta, por sua vez, por meio de seus versos,
quer saudar aqueles que voltam e anunciar seus feitos e atos gloriosos. Em cada
uma de suas palavras escritas, em cada um dos seus versos compostos, é a
narrativa da “epopéia bandeirante” que, neste poema, confunde-se com a própria
“epopéia paulista”, que o autor quer fazer vir aos olhos e aos ouvidos da
população. O poema tem como objetivo demonstrar a gratidão e o reconhecimento
de toda a população paulista, que se faz representar na voz e nas palavras do

93
poeta modernista, para com aqueles que, segundo o discurso, representam a
própria história da cidade de São Paulo.
Mas apenas palavras não bastam. As palavras, muitas vez após serem
pronunciadas dissolvem-se no ar, perdem-se entre tantas outras questões da vida
cotidiana. Como vimos, o poema de Guilherme de Almeida foi preparado para a
inauguração de um dos principais monumentos paulistas em homenagem aos
bandeirantes. O monumento das Bandeiras (figura 8), pensado e criado pelo
Artista Plástico Victor Brecheret, outro grande expoente do movimento modernista
de 1922, marca a realização do discurso histórico e geográfico a partir de sua
permanência e, portanto, de sua visibilidade. O monumento às Bandeiras
possibilita ao discurso histórico e geográfico da cidade de São Paulo a
permanência necessária para sua própria reprodução, e, portanto, para a
reprodução política de seus agentes criadores. O discurso materializa-se em
monumento e como monumento se oculta enquanto discurso. É o poder simbólico
que se exerce sem a consciência do opressor e do oprimido.

Figura 8: O monumento dos bandeirantes, um dos marcos do movimento modernista de São Paulo
e alicerce do discurso histórico e geográfico da cidade criado por sua elite. Neste monumento, “os

94
bravos guerreiros bandeirantes” retornam de sua longa expedição pelo Brasil e pela América do
Sul para encontrar pousada em sua “terra mãe”. Neste monumento, o discurso se materializa e se
afirma enquanto poder simbólico. (Fonte:www.google.com/bandeiras)

Em texto publicado na década de 20 na Revista Ilustração Brasileira, Mário


de Andrade escreve sobre a importância do monumento às bandeiras para a
história e o desenvolvimento da cidade de São Paulo. Para o autor,

“Se por acaso os paulistanos conseguirem reunir o dinheiro necessário


para a construção da obra, a cidade comemorará, num hino triunfal de
pedra e bronze, o passado bravo e heróico em que viveu toda uma
epopéia de arremessos galhardos e ousadia.” (ANDRADE, 2003: 76).

Ao analisar a importância deste monumento para a cidade de São Paulo,


Mário de Andrade faz uma descrição interessantíssima do monumento. Em muitos
instantes do texto, que reproduzimos em nota de rodapé 38, é difícil saber se o
autor se refere a cidade ou ao monumento, o que nos permite reafirmar a
associação existente entre a história dos bandeirantes e a própria história da
cidade. O bandeirante é visto como aquele que tudo enfrenta, que por todos os
obstáculos passa, assim como a cidade, que se abre ao progresso e enfrenta os
desafios que a modernidade e o mundo lhe traz. Cidade-Bandeirante, São Paulo é
a encarnação do progresso e avanço, que na atualidade se traduzem em
velocidade e reprodução, na falta de sentido em que o próprio modo de produção
capitalista, em sua fase atual, se transformou. São Paulo avança, mas para onde?
Talvez seja esta a pergunta que falta no poema de Guilherme de Almeida.
Apresentado como gênese da história e da geografia paulista, o
bandeirante, a partir do poema de Guilherme de Almeida, ganha mais um

38
“Brecheret, para melhor caracterizar o espírito dessas bandeiras e o sonho destes homens magníficos, usa do
símbolo. Uma longa teoria de seres gigantescos, desnudos, avança lentamente para a conquista do ideal que
os enleva. Os últimos deles, figuras dum movimento extraordinário, arrastam a barcaça que as corredeiras
impediram de passar. Nada os detém. O mistério das landes sem batismo, as febres das barrocas onde dormita
a água verde, a hostilidade selvagem, a agressão das feras, todas as insídias da Esfinge sertaneja, simbolizadas
por mulheres serpentinas, de ancas másculas e seios miúdos, não perturbam a investida lenta, mas tenaz, dos
bandeirantes. E estes, tendo à frente dois homens montando cavalos de lenda – os chefes, símbolos da idéia
que fazia endireitar para o desconhecido – vão acordar uma fecunda mulher adormecida: a Terra. E sobre o
todo pairam as asas possantes da glória, que não conhece moda sem transitoriedade, mas é eterna; porque,
enquanto houver brasileiro no sertão do país, não poderá esquecer-se dessa gente ousada que no verde-negro
das florestas foi um dia marcar com um rastro clamoroso de sangue nossos vastos limites interiores.”
(ANDRADE, 2003: 76-77)

95
significado, que seja, o de ser o principal fundador do processo de difusão da
civilização e do progresso territorial de toda a nação. Como vimos anteriormente, o
bandeirante não é apenas um discurso que se resume a São Paulo, mas ganha
contorno capazes de justificar a posição política e econômica assumida por São
Paulo no contexto nacional e mundial. Novamente, o discurso sobre o passado
surge para justificar uma realidade presente, que seja, a predominância da cidade
de São Paulo como principal pólo político e econômico do Brasil. Vale lembrar que
a construção deste discurso está dentro de um contexto da disputa política e
econômica entre a capital Federal, o Rio de Janeiro, e a cidade de São Paulo.
Nada melhor do que o passado para justificar o presente, pois, como vimos, se
não há um passado, inventa-se.
Esta idéia da centralidade de São Paulo em relação ao Brasil aparece
também em outra disputa acerca do surgimento e desenvolvimento da rede
rodoviária Brasileira. Observemos a seguinte ilustração, retirada de um Artigo de
Américo R. Netto denominado “A origem da Rodovia no Brasil”, da Revista do
IHGSP.

96
Figura 9: Desenho feito por Américo R. Netto que representa, alegoricamente, o esquema proposto
pelo autor para o sistema rodoviário do Brasil. (Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São
Paulo, vol. 51, 1953).

Em seu texto, Américo R. Netto procura apresentar uma data referente ao


início do processo de desenvolvimento da rede rodoviária no Brasil. A rodovia,
elemento do discurso da modernidade, sinônimo de avanço e progresso e,
posteriormente, de velocidade, inaugurava no Brasil, naquele momento, uma nova
maneira de organização do território e da própria vida humana. A introdução do
automóvel e sua difusão a partir da expansão da rede rodoviária mudaram
significativamente o modo de vida da população brasileira, trazendo, do ponto de
vista do autor, significativas melhorias. Portanto, era necessário conhecer o sujeito

97
histórico de tão relevante obra para que este recebesse os méritos a que tinha
direito.
E é neste sentido que Américo R. Netto desenvolve seu texto. Nele, o autor
aponta o “pioneirismo” de São Paulo no desenvolvimento da rede rodoviária
Brasileira. Para o autor, diferentemente do que vinha sendo divulgado pelos
principais meios de comunicação da época, a rodovia não teria surgido no Rio de
Janeiro em 1926, mas seria uma invenção Paulista. A data precisa seria o ano de
1921, ano de inauguração da rodovia que ligava São Paulo a Campinas. Dessa
maneira, a partir dos dados apresentados por Américo R. Netto, São Paulo teria
precedido o Rio em cincos anos no desenvolvimento de sua rede rodoviária e,
portanto, seria São Paulo o merecedor dos méritos de ter dado ao país mais um
símbolo de modernidade e de progresso. Novamente, o progresso brasileiro surgia
como resultado do progresso paulista.
Mas o texto de Américo R. Netto avança mais um pouco. Além de construir
uma série de argumentos, a partir de fatos históricos, para justificar o pioneirismo
na construção da rede rodoviária brasileira, o autor propõe a organização da rede
nacional a partir do desenho reproduzido na figura 9. Em sua ilustração, o autor
propõe uma rede rodoviária nacional que seja organizada a partir de São Paulo,
ou seja, que tenha São Paulo como seu centro difusor e, portanto, como seu nó
central. Para demonstrar isso, o autor faz uso da metáfora. A partir do desenho de
uma mão, na qual São Paulo aparece no centro, o autor propõe a criação de tal
rede que interligaria a centralidade representada por São Paulo às principais
cidades brasileiras representadas pelos cincos dedos da mão e pelo pulso (no
caso, a cidade de Santos). Nesta leitura interessante da rede rodoviária brasileira,
está presente novamente o elemento do discurso histórico e geográfico da cidade
de São Paulo que diz respeito a sua centralidade em relação ao território nacional,
centralidade esta que estava apenas em seu início e que, portanto, era necessário
justificar. Mais uma vez, o mito do bandeirante, que procura interligar uma
determinada história e uma certa geografia paulista com a história e a geografia
brasileira, buscando mostrar a importância da atuação dos paulistas na construção

98
da nação e do Estado brasileiro, se reproduz no discurso científico do IHGSP da
primeira metade do século XX. Mas voltemos aos bandeirantes.

2.2.2 A revolução constitucionalista de 1932 e a reafirmação


mito.
Em 1932, depois de serem expurgados do poder a partir da chegada de
Getúlio Vargas a presidência da república por meio da força, a elite paulista sente-
se extremamente humilhada e fracassada em seu projeto de predominância
política. Para esta elite, era inconcebível que o principal Estado da Federação,
tanto do ponto de vista econômico quanto político, não participasse diretamente
das decisões nacionais. Para isso, para refazer tal erro cometido por Vargas, tal
elite decidiu pegar em armas, ou pelo menos, obrigar os mais pobres a lutar, e
declarar guerra ao governo federal, gritando a quem quisesse ouvir que tal ato era
motivado pelo espírito liberal e republicano dos “paulistas”. Por trás de tal
discurso, porém, estava o descontentamento da elite paulista que durante as três
primeiras décadas do século XX havia dividido o poder com os mineiros, na
chamada política do café-com-leite. Portanto, a “insatisfação paulista” não possuía
nada de espírito republicano e liberal, mas dizia respeito a manutenção dos
privilégios que a elite paulista tinha obtido até a chegada de Vargas ao poder.
Neste sentido, o discurso paulista para ganhar força e validade e, portanto,
aceitação das classes populares que iriam também lutar nas trincheiras
necessitava se apoiar em outro discurso capaz de legitimar todos os atos e ações
que seriam realizadas. Retoma-se então o discurso histórico e geográfico da
cidade de São Paulo, reafirmando a figura do Bandeirante, que aparece
novamente como sinal da civilização e do progresso que São Paulo representava.
A revolução constitucionalista de 1932 vai reafirmar enfaticamente a figura do
bandeirante, como a única capaz de justificar as ações dos soldados paulistas.
Novamente, o bandeirante traz a tona a questão da posição de destaque da
cidade de São Paulo, de sua herança histórica de participação central nas
decisões políticas e no desenvolvimento econômico e social de todo o país que
aparece, a partir desta figura, já posta desde o seu início, de sua fundação e que é

99
rompida com a ascensão de Vargas ao poder. Presente em discurso e em imagem
(figuras 10 e 11) o bandeirante é a certeza da vitória futura paulista porque certeza
do progresso passado. Como pai fundador, o bandeirante é aquele que vem
mostrar o passado, seus feitos e ações, para que estes possam conduzir “os
paulistas” rumo a um futuro de glórias e realizações, que esteja a altura de seu
passado.

Figura 10: A imagem do Bandeirante que aparece discursando na tribuna em favor da campanha
de doação de ouro para a compra de armamentos para os soldados paulista na Revolução
Constitucionalista de 1932. Fonte: DONATO, 82: 112.

100
Figura 11: Imagem de Bandeirante inflamando os soldados paulistas em panfleto distribuído em
1932. Fonte: DONATO, 1982: 114.

O papel de destaque de São Paulo em relação ao Brasil surge novamente


na retomada do discurso histórico e geográfico da cidade realizado pelos
participantes da Revolução de 32. Em 11 de julho de 1932, “A GAZETA”, principal
jornal de apoio às causas da Revolução Constitucionalista de 32, destaca a
seguinte frase em sua manchete:

“De São Paulo partiu o brado da independência: de São


Paulo também parte agora, o brado pela Constituição”.

101
Nesta frase, “os paulistas” aparecem como os principais agentes sociais do
processo de independência brasileira e seguindo, portanto, sua “vocação liberal e
democrática”. São os mesmos paulistas que agora lutam contra a “ditadura”
implantada com a Revolução de 30, para libertar o país. Segundo Pedro de
Toledo, então governador de São Paulo, “São Paulo jamais cogitou quebrar a
integridade nacional. Está de pé pelo Brasil unido e com o Brasil”. O que “os
paulistas”, ou melhor, sua elite, reclama, neste contexto histórico, é o direito de
dizer qual é a idéia de Brasil que têm em mente. Reclamam para si o direito de
atuação política central nas decisões do país, e com isso justificam o movimento
por eles iniciados, não a partir de seu caráter elitista e de seus privilégios, mas
pelo seu contrário, pelo seu falso caráter liberal e democrático.
A grande contribuição da Revolução de 32 para a reafirmação do discurso
histórico e geográfico da cidade de São Paulo foi a criação do “povo paulista”. Se
o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, como vimos, criou o mito-fundador
da cidade, a Revolução de 32 trouxe este mito para a vida cotidiana, para as
relações sociais que se realizam diariamente, fez então o mito ganhar a vida e o
imaginário dos habitantes da cidade, que passaram a se sentir pertencentes a
uma estirpe de homens nobres e há um passado comum. Surge então o “povo
paulista”, como uma máscara capaz de ocultar as reais condições política, sociais
e econômicas, extremamente diversas nas quais vivia grande parte da população
da cidade de São Paulo. Assim criado, o “povo paulista”, “povo bandeirante”,
passou a viver o discurso da cidade e nele ocultou suas reais condições, as
diferenças existentes, deixando-as em segundo plano. Suas práticas sócio-
espaciais passaram a ser ditadas pelo discurso da cidade e viver a cidade passou
a ser viver o seu discurso. O discurso paulista da revolução de 32 é então o
discurso do povo paulista, do povo que nasce da guerra e da diversidade rumo ao
progresso e ao desenvolvimento.
Em poema escrito na época, Martins Fontes define então este povo que
acabava de ser criado.

“Ser paulista é ser grande no passado!

102
É ser maior nas glórias do presente!
É ser imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente!

Ser Paulista! É morrer sacrificado!


Por nossa terra e pela nossa gente!
É ter dó da fraqueza do soldado,
Tendo horror à filáucia do tenente!

Ser paulista! É rezar pelo Evangelho


De Rui Barbosa, o Sacrossanto Velho
Civilista Imortal da nossa fé!

Ser paulista! Em brasão e em pergaminho


É ser traído e pelejar sozinho,
É ser vencido mas cair de pé!

A definição do que é então ser paulista permeará grande parte dos textos
produzidos e dos discursos políticos realizados durante a revolução de 32. Às
derrotas constantes no campo de batalha acompanhava um processo mais
intenso de criação ideológica e de defesa da unidade do “povo paulista”. Para
cada nova derrota, uma justificativa era encontrada nas dificuldades passadas
pelos fundadores da cidade e, portanto, enfrentar tais fatos era uma obrigação e
um dever moral daqueles que se consideravam realmente paulistas. Todos
aqueles que se recusavam a fazer parte deste discurso, a aceitá-lo como
realidade, eram julgados traidores não apenas de São Paulo, mas de todo o país
e, dessa maneira, não deveriam fazer parte da “tão digna gente paulista”. São os
chamados “boateiros”, “os derrotistas”, que apresentavam os fatos da forma como
estavam acontecendo e que eram acusados por isso. Afirmar quem era o povo
paulista só podia acontecer a partir da sua negação, ou seja, da afirmação de
quem não se constituía como parte desta micro-nação. Àqueles que não

103
encontravam lugar nesta “pátria” restava o ostracismo e a miséria. No discurso
surgiam como inimigos de São Paulo; na realidade, eram apenas mais alguns que
não cabiam no discurso da cidade.
O discurso do mito-fundador bandeirante, retomado na revolução
constitucionalista de 1932, exalta e leva as últimas conseqüências a chamada “fé
paulista”. Observemos o poema de Guilherme de Almeida, feito em 1932, em
ocasião da Revolução Constitucionalista:

“Creio em São Paulo todo-poderoso,


Criador, para mim, de um céu na terra;
E num ideal Paulista, um só, glorioso,
Nosso senhor da paz como na guerra,
O qual foi concebido nas “bandeiras”,
Nasceu da virgem alma das trincheiras,
Padeceu sob o jugo dos invasores;
Crucificado, morto e sepultado
Desceu ao vil inferno dos traidores,
Mas, para um dia ressurgir dos mortos,
Subir ao nosso céu e estar sentado
À direita do Apóstolo-Soldado,
Julgando a todos nós, vivos ou mortos,
Creio no Pavilhão das Trezes Listras,
Na santa união de todos os Paulistas,
Na comunhão da Terra adolescente,
Na remissão da nossa pobre gente,
Numa ressurreição do nosso bem,
Na vida eterna de São Paulo -
Amém”

Neste poema, o autor substitui a oração do Credo, uma das principais


orações da Igreja Católica, por um novo Credo. Sua crença passa a ser então a

104
crença em São Paulo, “todo poderoso”, “concebido nas bandeiras” e possuidor “de
vida eterna”. São Paulo torna-se, então, a personificação do mito bandeirante.
Neste discurso, já não há mais clara diferença entre o homem, o bandeirante e a
cidade. A cidade transformou-se, por meio do poema, no homem e ganhou vida
própria. Ela é o Cristo, o bom pastor, aquele que merece respeito e fé, aquele por
quem vale a pena lutar e até morrer. E é por esta cidade, transformada em homem
pelo discurso, que muitos soldados morreram sem saber ao certo porque lutavam.
Em tempos da Guerra, a história é apenas mais uma arma como qualquer outra.
Crentes na cidade-bandeirante, grande parte dos soldados paulistas de 32, não
sabiam que lutavam para reproduzir privilégios e não para construir direitos e
garantias. Morreram, talvez, por uma cidade que só existirá no discurso. Lutaram e
morreram sem saber porque o faziam.

2.2.3 O Museu Paulista e a criação do Antimito.


Como vimos, ao mesmo tempo em que representava o progresso, neste
discurso construído, o bandeirante se ligava ao imigrante europeu, tanto por sua
origem branca e européia, quanto por seu caráter de expansão e
desenvolvimento. O imigrante europeu surgia no discurso histórico e geográfico
paulista do final do século XIX como a reencarnação do mito do bandeirante. Era o
imigrante europeu, então, a representação do início de uma nova etapa de
progresso, desenvolvimento e civilização, e dessa maneira, surgia como herdeiro
de um processo histórico e geográfico iniciado pelos bandeirantes. Porém, este
processo de reafirmação do mito bandeirante a partir da figura do imigrante branco
europeu, só pode se realizar a partir da construção de um discurso científico que
condenou de forma enfática o habitante nativo da cidade. Este processo de
condenação do habitante nativo da cidade de São Paulo ganha força a partir da
institucionalização do Museu Paulista, principalmente pela atuação do seu diretor
H. Von Ihering, zoólogo de formação.
A criação do Museu Paulista está ligada a necessidade de fazer lembrar, de
trazer aos olhos do “povo paulista”, o papel fundamental que desempenhou a
cidade de São Paulo no processo de emancipação política do Brasil. Era

105
necessário a construção de um Museu histórico e científico que tivesse por
objetivo contar a história do Brasil a partir da ótica das elites paulista, ou seja, a
partir da visão construída por meio do discurso histórico e geográfico da cidade de
São Paulo. Em texto publicado na Revista do Museu Paulista sobre a história do
Museu, o Dr. H. Von Ihering destaca a importância do lugar no qual está situado o
Museu Paulista. Segundo o autor,

“Não há ponto mais importante na História do Estado de São Paulo do


que a colina do Ipiranga. Aqui pulsou a vida paulista desde mais de três
séculos. Foi desta colina que o primeiro donatário da capitania de São
Vicente, que o legendário e heróico Martin Afonso de Souza, no ano de
1531 lançou a primeira vista de olho sobre a nascente capital deste
Estado, representado naqueles dias pela povoação de Piratininga, na
qual o célebre chefe dos Goyanás (Goyanazes) Tibiriçá reinou como
aliado e amigo dos portugueses e foi esta colina sobre a qual passa a
antiga rua de Santos a São Paulo, sempre no meio dos acontecimentos
importantes que decidirão o destino da capitania, da província, do Estado
de São Paulo, até que viu o dia glorioso, o dia sete de setembro de 1822
em que nasceu a Independência do Brasil, que criou para sempre a
nacionalidade brasileira”. (VON IHERING, 1895:12)

Se a civilização brasileira nasceu dos bandeirantes, como afirma o discurso


histórico e geográfico paulista, seu ponto de partida deve ter sido a colina do
Ipiranga. No texto acima, fica clara a construção histórica da imagem da colina do
Ipiranga como centro difusor da vida social, política e econômica do Brasil e de
São Paulo. Portanto, era necessário marcar este lugar com uma obra que
revelasse em suas formas o mais alto grau de civilidade e progresso. Para tanto,
cria-se o conjunto arquitetônico do Museu do Ipiranga (figura 12). No próximo
capítulo, analisaremos melhor o discurso presente nas formas deste conjunto.

106
Figura 12: Conjunto Arquitetônico do Museu do Ipiranga, ao fundo. Em primeiro plano, jovens
skatistas constroem novas espacialidades para além do discurso e das práticas sócio-espaciais
impostas. (Foto do autor, Janeiro de 2005).

A criação do Museu do Ipiranga está inserida num processo mundial de


institucionalização da ciência. Segundo Schwarcz, os museus brasileiros,

“Cópia dos modelos europeus, estabelecerão uma prática bastante


isolada em relação aos demais estabelecimentos científicos nacionais,
dialogando basicamente com o exterior, com os museus europeus e
americanos. Por outro lado, ao adotar modelos evolucionistas e
darwinistas sociais, tomarão parte, de forma específica, de um debate
que se travava acerca das perspectivas dessa jovem nação. Dessa
maneira, diferente do perfil quase romântico dos institutos históricos,
nesse caso um saber determinista se afirmará na análise do perfil
brasileiro e mais especificamente dos primeiros paulista. Nesse caso o
passado condenava”. (SCHWARCZ, 2004: 175).

É a partir, portanto, da condenação de um determinado passado, de uma


determinada perspectiva sobre os primeiros habitantes da cidade de São Paulo,
que se constituirá a forma de atuação do Museu Paulista. Sua função principal,

107
por meio de seus pesquisadores e colaboradores, será a de transformar um
discurso preconceituoso e ideológico em ciência. Para tanto, era necessário
basear-se na ciência européia e americana para que, utilizando-se da autoridade
das mesmas, o discurso ganhasse força e aceitação. Para que uma determinada
visão sobre o passado fosse aceita era necessário que também uma outra fosse
criada e condenada. Ao mito do bandeirante, como sinônimo de progresso e
desenvolvimento acompanhará então o mito do selvagem, mito este que passará
a ser associado a um estado de barbárie e de irracionalidade que existiria antes
da chegada dos bandeirantes. Somente dessa maneira, com a criação de seu
oposto, do mito do selvagem, o discurso histórico e geográfico de São Paulo
consolida-se como única opção frente ao “medo da barbárie”, passando assim do
discurso e do preconceito para a falsa idéia de um destino manifesto do povo
paulista, para a condição de situação natural, de única possibilidade a ser
almejada e alcançada. Era necessário, portanto, que a idéia de sociedade criada
pelo mito bandeirante fosse vista como única possibilidade de desenvolvimento da
cidade para que esta se realizasse na prática sem nenhum empecilho.
O principal veículo de divulgação do discurso produzido no Museu Paulista
será a sua Revista. Já nos seus primeiros números, a Revista traz uma série de
artigos que tratam da temática indígena no Brasil e em São Paulo,
especificamente. Na maioria dos textos, o que há é uma condenação da maneira
branda como os indígenas são tratados no Brasil. Em um dos principais textos
sobre esta questão, assinado por Von Ihering, denominado “A questão dos índios
no Brasil”39, o autor deixa bem clara a sua postura acerca do indígena brasileiro.
Segundo Von Ihering,

39
O contexto histórico no qual foi escrito este texto é interessantíssimo e demonstra claramente a contradição
no processo de modernização Paulista. Alguns trabalhadores que construíam uma estrada de ferro em direção
ao oeste paulista tinham sido assaltados e mortos por índios, o que gerou uma série de discussões sobre os
indígenas brasileira. O Dr. Von Ihering havia sugerido em artigo anterior o extermínio desses índios, o que
gerou uma série de manifestações contra o mesmo. O artigo em questão, escrito pelo Dr. Von Ihering tem o
objetivo de lhe defender das críticas e explicar melhor os seus argumentos sobre o que havia proposto. O que
podemos perceber em todo o artigo, é sua visão acerca do indígena como um ser inculto e bárbaro. Esta visão
porém, não se constitui como exceção no contexto histórico em que foi escrita, mas como regra geral e,
portanto, não partimos nesta análise de nenhuma premissa que desconsidere este fato. O que nos interessa
nesta análise é compreender de que maneira este discurso científico mundial sobre a inferioridade de alguns
povos contribuiu para a construção do discurso histórico e geográfico da cidade de São Paulo.

108
“Só o Brasil desconheceu uma solução sistemática para o importante
problema, e até hoje se prolonga a anarquia resultante da ausência de
providência. A predileção sentimental do Brasileiro em favor dos índios é
um escolho imenso a transpor. A índole generosa do povo apaixona-se
pela sorte dos donos primitivos da terra da Santa Cruz. Do mesmo modo
por que jurados falsamente humanitários absolvem ao assassino, visto
como a punição do criminoso não conseguiria reanimar a vitima, o
coração do brasileiro inclina-se a perdoar aos míseros silvícolas,
inconsciente da gravidade dos delitos. A misericórdia mal entendida
impede assim a punição dos culpados, e os assaltos continuam nas
estradas de ferro e nas picadas, e a mataria sem peias dos pioneiros da
civilização, dos colonos e dos sertanejos. A marcha ascendente da nossa
cultura está em perigo; é preciso por cabo a esta anormalidade que a
ameaça ”. (VON IHERING, 1911: 113).

Neste texto de Von Ihering, podemos perceber claramente a postura que o


autor assume frente a presença dos índios no território brasileiro. Visto como
“povos incultos, inferiores ao estado intelectual, moral e religioso da maior parte
do povo brasileiro” (118), o indígena surge como um empecilho ao progresso e ao
desenvolvimento paulista e brasileiro. Neste discurso, o indígena é o anti-mito, a
contraposição certa da figura do bandeirante e, portanto, elemento a ser dominado
e trazido a civilização. Ele é sinônimo de barbárie e de crueldade, ‘o assassino
feroz dos pioneiros da civilização” e dessa maneira, precisa ser tratado como tal.
Cabe ao herdeiro bandeirante, ao “povo paulista”, cumprir a sua função nobre e
digna de respeito e merecimento, que seja, a de trazer civilização e progresso a
um povo tão atrasado e bárbaro como as nações indígenas que vivem no território
paulista e brasileiro.
A visão de piedade do homem branco para com os indígenas, visão esta
que estava de acordo com o discurso científico vigente no mundo, da sua missão
social de levar civilização e progresso ao mesmo surge no seguinte parágrafo do
texto de Von Ihering. Segundo o autor,

“Ainda que o indígena possa muitas vezes fundir-se economicamente


com o homem civilizado, ainda que em parte se assimilem à população
rural, nem por isso as medidas postas em prática em favor dos indígenas
se devem considerar como conquista de novos elementos de trabalho,
mas simplesmente como um ato de nobreza e de amor da raça
vencedora para com a vencida”. (VON IHERING, 1911:132).

109
Dessa maneira, como o texto nos apresenta, a criação de um discurso
científico que pretende justificar a superioridade do elemento branco, herdeiro,
portanto, do mito bandeirante fundador do discurso histórico e geográfico
paulista, acompanha o processo do discurso científico mundial, que naquele
momento histórico procura justificar os processo de expansão territorial dos
impérios europeus sobre a África e a Ásia. No mesmo sentido, o discurso
científico sobre a inferioridade do indígena brasileiro em relação ao homem
branco, que tem como principal agente criador e divulgador o Museu Paulista
tem como objetivo justificar um processo de expansão territorial que se dá a
partir da introdução do imigrante europeu, ou seja, a partir da escolha de um
determinado povo que irá se constituir como o povo paulista, e de todas as
mudanças tecnológicas importadas da Europa. Esta expansão territorial, como
vimos, porém, não se dá a partir apenas da esfera infra-estrutural; mas
necessita, para se realizar, de um determinado discurso, de uma certa ideologia,
que são criados a partir de uma determinada leitura da história, da geografia e
da ciência, discurso este que incorporado pelo imaginário popular, reproduz-se,
reproduzindo assim o próprio “status quo” que o criou. .
Neste sentido, como vimos, o discurso histórico e geográfico paulista
construído sobre o mito fundador do bandeirante, ao mesmo tempo em que dava
a São Paulo um passado digno de respeito e admiração, justificava o processo de
embraquecimento da sociedade paulista que se colocava em prática no presente
com a introdução do imigrante europeu. Dessa maneira, a resolução de um
problema do passado se transforma na legitimação do presente, o que nos traz de
novo a questão posta nas discussões de Benjamim acerca da história, que seja,
se “os fatos foram assim, quem assim os diz”. Este tipo de postura acerca da
história tira o foco dos fatos como fins em si mesmos e o coloca sobre o processo
de narração e criação de uma determinada história e de uma certa geografia.
Neste sentido, o estudo da história passa a ser também o estudo das ideologias
de uma determinada época e para se compreender a história do passado,
portanto, é primeiro necessário se compreender o contexto presente no qual foi
construído, em todas as suas possibilidades de análise.

110
No próximo capítulo, buscaremos analisar e compreender de que maneira
uma certa organização espaço-temporal da cidade, ou seja, a criação de uma
determinada imagem espaço-temporal da mesma acompanhou este processo de
criação do discurso histórico e geográfico da cidade de São Paulo.

111
2.3 A imagem

“Estranhem o que não for estranho

Tomem por inexplicável o habitual


Sintam-se perplexos ante o cotidiano
Tratem de achar um remédio para o abuso
Mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra”
(Bertold Brecht, A exceção e a regra)

Como resultado de transformações políticas, econômicas e sociais, datadas


do início do século XX, o discurso histórico e geográfico da cidade de São Paulo
surge com o intuito de justificar tais transformações. Para tanto, o discurso
ressalta determinados aspectos de tal processo em detrimento de outros, e ao
fazê-lo cria uma certa idéia de cidade que passa a ser vivenciada, ou melhor,
reproduzida tanto pela elite como pelas classe médias e baixas da cidade de São
Paulo. Neste processo de alienação sócio-espacial, o discurso da cidade passa a
ser a própria cidade, ou seja, passa a dominar e a determinar as práticas sócio-
espaciais de seus habitantes. Inconscientes da existência de tal discurso, os
habitantes da cidade tornam-se então, reprodutores de sua própria alienação, ao
reproduzirem um discurso que em sua prática cotidiana faz pouco sentido.
Ao discurso da cidade acompanha uma determinada organização espaço-
temporal de novo objetos materiais portadores, eles mesmos, deste discurso da
cidade, que tem por objetivo justificar. Esta nova organização espaço-temporal da
cidade cria uma determinada imagem da cidade que só pode ser compreendida a
partir do desvendamento do discurso, ou seja, do poder simbólico que está na
base de sua constituição. A construção de novas materialidades que se
relacionam espaço temporalmente na cidade resultam numa determinada idéia de
cidade, que como vimos, está de acordo com a proposta pelo discurso. Para a
realização deste processo também, é necessário que determinados pontos da
cidade, que certas materialidades, sejam ressaltadas em detrimento de outros,
para que, esquecendo-se da cidade real, viva-se a cidade imaginária.
Neste processo de desvendamento da imagem da cidade, procuramos
compreender a relação existente entre alguns pontos da cidade que se articulam

112
na construção de tal discurso e de tal imagem. São referências e monumentos que
buscam reafirmar o discurso histórico e geográfico da cidade, ao mesmo tempo
em que contribuem para a recriação deste, a partir das transformações
econômicas e sociais da cidade de São Paulo. Vale ressaltar aqui que o discurso
e a imagem da cidade não são de maneira alguma elementos fixos e cristalizados,
que apenas se reproduzem. Mas, pelo contrário, estão em constante mutação e
recriação que se dão a partir das novas necessidades que as transformações
econômicas, sociais e políticas da cidade, implodida em metrópole, trazem. Como
veremos, o discurso e a imagem da cidade-metrópole transforma-se a partir da
própria atuação dos agentes hegemônicos da construção de sua espaço-
temporalidade. Estes agentes, porém, não são estáticos, e nem sempre atuam de
maneira organizada e unilateral. Em muitos casos, o discurso e a imagem da
cidade transforma-se em discursos e imagens da cidade, cada um resultado de
um interesse e de um privilégio sobre a cidade que se quer reproduzir.

2.3.1 A categoria paisagem como caminho de método.


Continuando com nossa preocupação em buscar em nossas pesquisas a
relação existente entre teoria e prática, procuraremos desenvolver nesta parte da
pesquisa uma categoria muito utilizada no pensamento geográfico, que seja, a
categoria de paisagem, que em nosso ponto de vista, é fundamental para se
compreender e desvendar a imagem da cidade, já que tal categoria, como
procuraremos demonstrar, atua no ponto de encontro entre aquilo que é
superficial, aparente, e aquilo que está oculto e que precisa ser descoberto. A
paisagem é o ponto de partida, portanto, para o espaço, o caminho de método da
geografia que permite ir do visível ao invisível, do real dado ao real em suas
possibilidades e impossibilidades.
A categoria paisagem, apesar de se apresentar como categoria antiga em
sua utilização, tem seu maior desenvolvimento a partir do século XIX com a
institucionalização da geografia e, portanto, com o aumento dos estudos de cunho
geográfico. Num primeiro momento, a categoria paisagem esteve associada a
uma outra categoria muito utilizada na geografia, a categoria região. Os processos

113
de regionalização, tanto os que partiam de critérios naturais, quanto aqueles que
partiam de critérios sociais, buscavam através do desenvolvimento da categoria
paisagem, encontrar homogeneidades na realidade, traços comuns entre os
lugares que pudessem determinar e definir a existência de uma região. Nesse
primeiro momento, portanto, do desenvolvimento da categoria de paisagem, ela é
entendida como caminho de método capaz de definir e cartografar determinadas
homogeneidades existentes na realidade 40. Tais homogeneidades apareciam,
neste contexto histórico, tanto como homogeneidades naturais quanto como
homogeneidades produzidas a partir de relações harmônicas existentes entre o
homem e o meio, entre a sociedade e a natureza.
Neste momento histórico do desenvolvimento da categoria paisagem,
destaca-se as análises e as percepções da realidade desenvolvidas por Paul Vidal
de La Blache, em seu conceito de gênero de vida, no qual o autor concebe que a
realidade é resultado de uma relação harmônica entre o homem e o meio, entre a
sociedade natureza. O gênero de vida aparece como uma determinada relação
que o homem estabelece com o meio e que resulta numa certa paisagem. Como
tal relação é harmônica, segundo La Blache, a paisagem resultante dela assim
também o é. No conceito de gênero de vida de La Blache está presente um modo
de organização de vida que, se um dia veio a existir, já não pode mais ser
encontrado sobre a superfície do planeta 41.
A partir do desenvolvimento, dentro das ciências sociais e, portanto, da
geografia, de uma concepção mais histórica da realidade, proveniente da
introdução do materialismo dialético no campo de discussão e de investigação
filosófica da geografia, o conceito de paisagem foi ganhando novos conteúdos e
40
“Muitos também davam como sinônimos paisagem e região. É fato que, em tempos bastante remotos, a
geografia correspondente a cada grupo seria explicada pela própria ação do grupo e a paisagem e a região
diretamente associadas. Esta idéia perdurou no espírito dos geógrafos europeus até o fim do século passado.”
(SANTOS, 1996: 63).
41
Para alguns autores, o conceito de gênero de vida de Paul Vidal de La Blache está carregado de uma
ideologia nacionalista, defendida por La Blache durante sua vida. Vivendo numa época na qual a França
passava por uma série de transformações econômicas, políticas e sociais, tendo como principais mudanças o
aumento da industrialização e da urbanização do país, Vidal de La Blache procura, ao desenvolver uma teoria
regionalista que parte da relação harmônica entre homem e meio uma harmonia que já não existia mais.
Segundo Gregory, La Blache via no desenvolvimento de seu conceito de gênero de vida uma possibilidade de
manutenção da coesão social e nacional da França, que naquele momento histórica já estava perturbada pelo
desenvolvimento das contradições de classes próprios do desenvolvimento do modo de produção capitalista
em sua fase urbano-industrial.

114
passou a ser definido como uma construção histórica resultado da relação entre o
homem e o meio. Esta relação, porém, estabelecida entre o homem e meio não é,
de maneira alguma harmoniosa, neutra, desprovida de interesses e de conflitos,
mas surge como uma relação, que mediada pelo trabalho, reproduz contradições
sociais das quais são causa e resultado. A partir daí, desta atualização do
conceito de paisagem, o trabalho do geógrafo se desenvolveu em torno da
questão de que desvendar a paisagem não era apenas descobrir traços comuns
entre os lugares, mas também compreender as relações estabelecidas entre o
homem e o meio e entre os próprios homens, bem como as formas resultantes
destas relações, as quais haviam resultado em tal conformação da paisagem.
Nesta nova concepção, a paisagem passa a ser um objeto mutável, resultado do
próprio movimento da sociedade e, portanto, o geógrafo passa a procurar na
realidade não apenas o que está visível, perceptível a um olhar mais displicente,
mas também aquilo que, em um primeiro momento, não se permite desvendar,
não se permite descobrir, mas que já está contido na paisagem como força motriz,
como relação geradora. Os conceitos de movimento e relação passam a caminhar
paralelamente ao conceito de paisagem e contribuem na sua redefinição.

“A paisagem não é dada para todo o sempre, é objeto de mudança. É


um resultado de adições e subtrações sucessivas. É uma espécie de
marca da história do trabalho, das técnicas. (SANTOS, 1996: 68).

Como produto de uma determinada relação sócio-espacial estabelecida


num determinado momento histórico e geográfico, a paisagem não se apresenta
como um simples conteúdo linear, progressivo; pelo contrário, a análise da
paisagem permite ao geógrafo compreender as continuidades e descontinuidades
dos processos e relações que lhe deram origem, bem como a compreensão de
sua apropriação e reutilização, por relações sócio-espaciais posteriores a uma
determinada paisagem, resultado de um outro momento histórico e geográfico,
portador de outras intencionalidades, de outras racionalidades. Neste sentido,
podemos dizer que a paisagem é portadora de relações sócio-espaciais diversas,
frutos de diferentes momentos históricos e geográficos que coexistem e se
relacionam espaço-temporalmente, ora gerando conflitos, ora gerando

115
cooperações. Como um grande “sítio arqueológico” a ser escavado pelo olhar
atento do geógrafo, a paisagem guarda em suas formas e em seus conteúdos
uma série de relações sócio-espaciais que dizem respeito a uma determinada
organização da vida econômica, social e política, a uma determinada ideologia, e
no caso da cidade, a uma determinada idéia de cidade que se quer hegemônica.
Quando pensamos na paisagem como reveladora das intencionalidades e dos
discursos da cidade, pensamos em sua capacidade de guardar, em suas formas,
conteúdos que se referem a tais interesses e que se relacionam diretamente com
os agentes hegemônicos da construção da cidade. A paisagem, reveladora então
destas camadas de discursos sobre a cidade, permite-nos também compreender
quais destes discursos permanecem como dominantes e quais aparecem como
resíduo, como resistência. Ao mesmo tempo, tal revelação nos permite saber se
tais agentes hegemônicos responsáveis pela construção de tais discursos
continuam a dominar o processo de construção da cidade, ou se tais discursos,
resultados de relações sócio-espaciais anteriores, são apropriados por novos
atores, por novos agentes, que se aproveitando de um determinado discurso,
tradicionalmente aceito, o utilizam para criar as bases de legitimação das atuais
relações sócio-espaciais, das quais os novos agentes da construção da cidade se
beneficiam.
Em nossa pesquisa anterior sobre o discurso regionalista na cidade de
Barra, Ba, desenvolvemos a idéia de que as formas materiais que coexistem e se
relacionam espaço-temporalmente na cidade são portadoras, elas mesmas, de um
determinado discurso que, num primeiro momento, não aparece como discurso e
sim como história. O discurso, como poder simbólico, transformado em história
esvazia falsamente a opressão ideológica que subsiste as formas que coexistem
espaço-temporalmente. Para se transformar em história, é necessário que o
discurso presente nas formas materiais da cidade resulte ao mesmo tempo num
processo de esquecimento e de lembrança, ou seja, é preciso que determinadas
histórias sejam esquecidas para que outras passem a vigorar como única
possibilidade existente de realização da vida na cidade. É neste sentido, que as
formas materiais que coexistem e se relacionam espaço-temporalmente são

116
portadores de uma certa monumentalidade, no sentido em que, fazem, ao mesmo
tempo, esquecer e lembrar. O monumento, como símbolo de um determinado
discurso transformado em história e, portanto, numa história transformada em
mito, é a construção de uma única possibilidade de realização da vida na cidade.
Esvaziados de seus reais conteúdos, os monumentos transformam a cidade em
um grande simulacro, no sentido em que esta não aparece mais como o lugar da
realização de todas as possibilidades da vida humana, mas como falseamento da
própria realidade, como lugar das possibilidades unilaterais. Na construção deste
capítulo, então, retomamos a idéia desenvolvida em nosso primeiro trabalho de
que para a sua realização como poder simbólico, o discurso e a imagem da cidade
precisam que a história se transforme em mito e a geografia em simulacro, no
sentido em que, esvaziadas de conteúdo, perdem sua própria conexão com a
realidade da qual fazem parte.
Uma das primeiras questões que é necessário discutir para se compreender
melhor o processo da construção da imagem da cidade de São Paulo, é a que se
refere à maneira como tal imagem está relacionada e articulada com as
transformações econômicas, políticas e sociais pelas qual a própria cidade passa,
no início do século XX. Como dissemos no capítulo anterior, a cidade de São
Paulo se transformou radicalmente, em suas diferentes esferas (econômica,
cultural, política e social) a partir de dois processos indutores de mudanças. De
um lado, temos o gigantesco fluxo de imigrantes vindos principalmente da Europa
que alteram o quadro cultural e social da cidade de São Paulo, dando assim a
cidade, um caráter diverso e cosmopolita acompanhado, porém, de um discurso
regionalista e tradicional. De outro lado temos todas as transformações espaços-
temporais causados pelo processo de industrialização paulista que se inicia na
virada do século XIX para o XX. Estes dois fatores associados resultaram numa
transformação radical da organização da vida na cidade, que tem como principal
ponto de transformação o incremento da vida urbana. São Paulo começa então a
deixar para trás a sua condição de vila agrária para se transformar numa das
maiores cidades do país e é neste contexto de transformação sócio-espacial que

117
surgem o discurso e a imagem da cidade de São Paulo, como causas e como
conseqüências de tais transformações.
Como participante de uma determinada ordem mundial, a cidade de São
Paulo herda, neste momento histórico, todas as contradições do chamado
capitalismo marginal, ou, como preferem alguns autores, do capitalismo periférico.
Ao seu crescimento econômico e demográfico não acompanha um crescimento
das condições necessárias para que a cidade pudesse acolher tamanhas
transformações. A falta de infra-estrutura urbana e social será um dos principais
problemas enfrentados pelos moradores da cidade de São Paulo, principalmente
os mais pobres, neste momento histórico. Crescendo de forma brutal em poucos
anos, a cidade de São Paulo é resultado de uma ordem, que contraditória em seu
cerne, produz e reproduz contradições que se materializam espaço-
temporalmente. Ao invés de afirmamos aqui que o crescimento da cidade de São
Paulo neste momento histórico se faz de forma desordenada e que, portanto, os
problemas urbanos e sociais enfrentados atualmente pela cidade de São Paulo
são frutos desta falta de planejamento urbano (o que justificaria uma falsa eficácia
dos diversos planos urbanos que os planejadores apresentam como “salvadores
da cidade”), buscamos desenvolver a idéia de que já em sua formação histórica e
urbana no início do século XX, a cidade de São Paulo e sua constituição urbana é
resultado de uma ordem que é a própria ordem de reprodução do capital em sua
escala mundial. Portanto, ao invés de uma cidade desordenada, resultado da falta
de planejamento urbano, o que temos é uma cidade que, hoje, implodida em
metrópole, guarda em sua base de constituição a lógica de reprodução que lhe
deu origem.

118
Figura 13: As Camadas da cidade. O sagrado (Vista da Catedral da Sé) e o profano (Hotel
Governador) se misturam na região central da cidade. A confusão de formas e de imagens
presentes nesta paisagem oculta os discursos e os interesses relacionados aos diferentes
processos sócio-espaciais que deram origem a esta determinada imagem da cidade. Foto
gentilmente cedida por Ricardo Lopes Coréia, maio de 2005.

119
Figura 14: As camadas da cidade também estão demarcadas nas diferentes formas de apropriação
de sua espacialidade que se dá em diferentes níveis de profundidade. Tais níveis, porém, não se
medem quantitativamente mas qualitativamente, a partir da compreensão da apropriação que cada
habitante da cidade faz da mesma. Nesta foto, um homem estátua aparece em primeiro plano
frente aos homens massas que habitam a metrópole. Foto gentilmente cedida por Ricardo Lopes
Correia, maio de 2005.

Resultado do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo


mundializado em suas esferas técnica e econômica, a cidade de São Paulo passa
a crescer, então, em surtos intensivos que vêm acompanhados de crises cíclicas,
e é a partir desta dinâmica que sua materialidade vai sendo constituída. É assim
então, que a cidade de São Paulo passa por grandes transformações urbanas que

120
tem por objetivo criar as condições necessárias para que o modo de produção
capitalista, em sua fase industrial e mundial, pudesse se realizar. Para tanto, era
necessária que as formas espaços-temporais da antiga vila fossem radicalmente
modificadas para que, de uma vez por todas, São Paulo fizesse parte da lógica de
reprodução do capitalismo mundial.
E dessa maneira, a partir da lógica de construção e destruição de uma
determinada ordem espaço-temporal é que a imagem da cidade vai se
constituindo. É importante ressaltar aqui que, cada um destes processos de
construção-destruição das formas materiais da cidade são responsáveis e têm por
base de sua constituição um certo discurso sobre a cidade que se quer
hegemônico. A cada destruição, uma palavra se apaga e outra se escreve, numa
lógica que se aprofunda conforme aumenta a velocidade e a intensidade das
relações sócio-espaciais que lhe deram origem. Dessa maneira, portanto, o que é
necessário que compreendamos no desvendamento da imagem da cidade, são as
diversas camadas, resultado de diferentes relações sócio-espaciais, participantes
de um determinado contexto histórico, que deram origem a está determinada
imagem42. A imagem da cidade aparece para os olhos do pesquisador como uma
série de camadas que, apesar de sobrepostas, não se encontram estáticas, mas
em relação dinâmica, em inter-relação, às vezes conflitivas, em outras
colaborativas, sendo que cada uma destas camadas de imagem da cidade é
portadora de um discurso, sendo este por sua vez, resultado de um determinado
interesse sobre a cidade. Compreender as camadas de discurso e de imagem que
se sobrepõe na cidade e se inter-relacionam é compreender as relações de força

42
A melhor imagem que encontramos para exemplificar esta idéia vem da geomorfologia. Ao analisar o
relevo paulista, Aziz Ab’Saber, definiu um compartimento do mesmo como planalto arenítico basáltico (o
planaltos e chapadas da borda leste da bacia do Paraná, segundo a classificação de Ross), um planalto sobre
bacia sedimentar, e que apresenta em sua base uma série de camadas de sedimentos de diferentes épocas que
o caracterizam. Os sedimentos não são estáticos mas se interelacionam. Cada um deles diz respeito a um
determinado episódio do desenvolvimento geológico, geomorfológico e climático da Terra. Como na
construção da cidade de São Paulo, cada uma destas camadas é resultado de uma série de forças em relação e,
portanto, cada uma delas é testemunha da relação de forças que lhe deram origem. O que difere, porém, estas
duas imagens (as camadas sedimentares e as camadas de imagens da cidade), é que as camadas da imagem da
cidade, não são desprovidas de interesses e de discurso; pelo contrário, são resultados destes. Vale lembrar
aqui que, não pretendemos de maneira alguma com esta comparação, naturalizar o desenvolvimento da cidade
de São Paulo. Buscamos apenas um exemplo didático que pudesse esclarecer a idéia proposta neste trabalho.

121
e de poder que lhe deram origem. É, portanto, compreender os agentes
hegemônicos da construção da cidade, de sua imagem e do seu discurso.
Segundo Benedito Lima de Toledo, a cidade de São Paulo aparece aos
olhos daqueles que procuram desvendar suas formas materiais e imateriais, como
um grande palimpsesto. Utilizando desta imagem para se referir a cidade de São
Paulo e aos processos que deram origem a sua organização espaço-temporal, o
autor procura o caráter dinâmico das transformações pelas quais passou e passa
a cidade. “Como uma cidade na qual as ruas não têm tempo para envelhecer” São
Paulo é, para o autor,

“Um grande pergaminho cuja escrita é raspada de tempos em tempos,


para receber outra nova, de qualidade literária inferior, no geral. Uma
cidade reconstruída duas vezes sobre si mesma no último século. Uma
cidade capaz de gerar um parque como o Anhangabaú, um dos mais
belos centros da cidade das Américas, para destruí-lo em poucas
décadas, e sem necessidade, apenas por imediatismo e imprevidência.
Capaz de criar uma Avenida Paulista, única por sua posição na cidade e
insubstituível em sua elegância, para aos poucos destruí-la minuciosa e
repassadamente. E, sem remorso”. (TOLEDO, 1983:67).

Em seu falso caráter nostálgico (o novo é sempre inferior ao antigo), o autor


aponta, então, esta dinamicidade do processo de destruição-construção que
define a constituição da ordem espaço-temporal da cidade de São Paulo. Mas é
claro, porém, que “não é sem necessidade” ou por “imediatismo e imprevidência”,
como afirma o autor, que tais processos ocorrem: ao contrário, eles são frutos da
mesma lógica de reprodução do capital, que ao se reproduzir, constrói e destrói
formas e conteúdos em favor de seus interesses.
A cada nova imagem da cidade acompanha uma determinada prática sócio-
espacial. A construção de uma nova materialidade espaço-temporal da cidade cria
uma nova maneira de vivê-la, ou pelo menos, de representá-la, de assumir um
determinado papel, de ser um novo personagem, no circo inaugurado pela
imagem da cidade. Benedito Lima de Toledo aponta isto em seu texto. Nele o
autor mostra que todas as transformações materiais da cidade vem sempre
acompanhadas de uma determinada legislação que tem por objetivo regular a

122
apropriação do espaço público pela população local 43. A construção da imagem
da cidade é também a construção da normatização da vida pública, que se define
agora pelos interesses dos agentes responsáveis pela construção do discurso e
da imagem da cidade.
A questão das transformações urbanas e da imposição de determinadas de
novas práticas sócio-espaciais aparece de forma clara em um trecho do livro de
Jean-Paul Sartre, “A náusea”. Para esclarecer melhor nossa discussão,
transcrevemos abaixo o trecho do livro de Sartre.

“Há apenas sessenta anos ninguém se atreveria a prever o miraculoso


destino da rua Tornebride, que os habitantes de Bouville chamam hoje
de Pequeno Prado. Vi um mapa datado de 1847 onde ela sequer
figurava. Devia ser nessa época uma passagem estreita, escura e
malcheirosa, com uma vala por onde corriam, entre as pedras do
calcamento, cabeças e entranhas de peixes. Mas, no final de 1873, a
Assembléia Nacional declarou de utilidade pública a construção de uma
igreja sobre a colina de Montmartre. Poucos meses depois a mulher do
prefeito de Bouville teve uma visão: Santa Cecília, sua santa protetora,
de quem lhe vinha o nome de batismo, vinha recriminá-la. Era
admissível que a elite tivesse que se enlamear todos os domingos para
ir a Saint-Ré ou a Saint-Claudent ouvir a missa com os lojistas? A
Assembléia Nacional não dera o exemplo? Bouville tinha agora, graças à
proteção dó Céu, uma situação econômica de primeira ordem; não
convinha construir uma igreja para dar graças ao Senhor?
Tais argumentos foram acolhidos: o Conselho Municipal reuniu-se numa
sessão histórica e o bispo concordou em receber subscrições. Faltava
escolher o local. As velhas famílias de comerciantes e armadores eram
de opinião que se erguesse o edifício no cume do Coteau Vert, onde
moravam, “para que Santa Cecília velasse por Bouville como o Sagrado
Coração de Jesus por Paris”. Os novos ricos de bulevar Maritime, ainda
pouco numerosos, mas bastante opulentos, resistiram: dariam o que
fosse preciso, mas a igreja seria construída na praça Marignan; se
pagavam por uma igreja, achavam que podiam utilizá-la; agradava-lhes
mostrar sua força a essa burguesia altaneira que os tratava como
parvenus. O bispo arquitetou uma solução de compromisso: a igreja foi
construída a meio caminho do Coteau Vert e do bulevar Maritime, na
praça de Halle-aux-Morues, que foi batizada de praça Santa Cecília do
Mar. Esse edifício monstruoso, que ficou pronto em 1887, custou
quatorze milhões.
43
O autor aponta a criação do “Código de Posturas da Câmara Municipal de Paulo”, de 1876, que tinha por
objetivo regular as práticas espaço-sociais da população. Neste código são definidos o tamanho das ruas, a
multa para destruição de árvores, há proibição de banho nos chafarizes públicos, e até mesmo uma multa em
caso de ressurreição. Segundo esta última “quando acontecer que na sala de observações volte à vida alguma
indivíduo levado ao cemitério como morto para ser enterrado, não sendo indigente, será obrigado a pagar ao
administrador e coveiros a gratificação de 100$000, dos quais terá o primeiro a metade, e outra metade se
repartirá igualmente pelos coveiros que fizerem vigia; sendo indigente, a gratificação será paga pela Câmara
Municipal” (TOLEDO, 1983: 69). Definida a prática social dos vivos, o código se preocupa então com os
mortos. Tudo aquilo que for contrário a ordem pré-estabelecida, ou seja, aos interesses de quem estabeleceu a
ordem, deverá ser punido. Os mortos que descansem então em paz.

123
A rua Tornebride, larga, mas suja e mal-afamada, teve que ser
inteiramente reconstruída, e seus moradores foram energicamente
rechaçados para trás da praça Santa Cecília; o Pequeno Prado tornou-
se – sobretudo nas manhãs de domingo – o ponto de encontro das
pessoas importantes e elegantes. Uma a uma, bonitas lojas foram
inauguradas com a chegada da elite. Permanecem abertas na Páscoa,
na noite de Natal, todos os domingos até meio-dia. Ao lado de Julien, o
charcuteiro, cujos patês são famosos, o doceiro Foulon exibe suas
especialidades renomadas, admiráveis pettis-fours cônicos, de manteiga
cor de malva, recobertos por uma violeta de açúcar. Na vitrine da
Livraria Duapaty, estão expostas as novidades da Editora Plon, alguns
livros técnicos, tais como uma teoria do navio ou tratado do velame, uma
grande história ilustrada de Bouville e edições de luxo elegantemente
dispostas: Koenigsmark, encardenado em couro azul; Le livre de mês
fils, de Paul Doumer, encadernado em couro bege com flores púrpuras.
Ghislaine, “Alta costura, modelos parisienses”, separa Piégeois, o
florista, do antiquário Paquin. O cabeleireiro Gustave que tem quatro
manicures, ocupa o primeiro andar de um prédio novo pintado de
amarelo.
Há dois anos, na esquina do beco Muline-Gémeaux com a rua
Tournebride, uma lojinha impudente ainda exibia um anúncio do Tu-pu-
nez, um produto inseticida. Ela florescera no tempo em que se ouviam
os pregões de bacalhau na praça Santa Cecília, e era centenária. Os
vidros da fachada raramente eram lavados: era preciso fazer um esforço
para distinguir, através da poeira e do embaçado, uma quantidade de
pequenas figuras de cera vestindo gibões cor de fogo, que
representavam ratos e camundongos. Esses animais desembarcavam
de um navio alto bordo apoiados em bengalas; mal pisavam em terra e
uma camponesa, graciosamente vestida, mas lívida e negra de sujeira,
punha-os em fuga, aspergindo-lhes Tu-pu-nez. Eu gostava muito dessa
loja, tinha um ar cínico e obstinado, lembrava com insolência os direitos
da vermina e da sujeira, a dois passos da Igreja mais cara da França”.
(SATRE, 1938: 70-72).

De uma beleza extraordinária, o texto de Sartre desvenda os processos de


constituição da cidade, os seus interesses e os seus conflitos que surgem na
paisagem como formas-conteúdo repletas de significações. Ao construir o seu
texto, o autor aponta as contradições e os interesses existentes na construção de
uma determinada espaço-temporalidade e a maneira pela qual esta construção
transforma as práticas sócio-espaciais dos habitantes da cidade. A transformação
da rua Tornebride não é apenas uma transformação de suas formas materiais,
mas também uma transformação de seus usos, de suas práticas e, portanto, de
sua apropriação. Ao definir seus novos traçados, suas novas formas, seu sistema
de iluminação, os grupos responsáveis pela transformação da Rua Tornebride
definem também a nova relação que aquela rua estabelecerá com toda a cidade e
com seus habitantes. De lugar da realização da vida em todas as suas

124
possibilidades, seja pelo comércio do bacalhau, pelas festas populares, pelos
carnavais, a rua se resumirá a apenas um uso, apenas um interesse, que
corresponderá então aos interesses dos agentes hegemônicos de sua produção.
Porém, o processo apresentado por Sartre em seu texto não é, de maneira
alguma, um processo unilateral, sem solução, um processo capaz de resultar num
pessimismo e numa aceitação total da situação posta; pelo contrário, neste
processo de totalização da espaço-temporalidade da cidade, de tentativa de
unilateralizar as formas e os conteúdos da cidade, surgem pontos de resistências,
resíduos espaços-temporais, ligados há uma outra lógica de reprodução, ligada a
lógica de reprodução da vida e da cidade, que vêm a superfície exigir o seu direito
de existência como alternativa à cidade que se quer unilateral. Os resíduos
espaços-temporais da cidade surgem como possibilidades de realização da vida e
da cidade que ainda não se realizaram em todas as suas potencialidades. “A
vermina e a sujeira” se contrapõem assim a luz e a racionalidade, que é não a
racionalidade em todas as suas possibilidades, mas apenas uma racionalidade, a
racionalidade dos agentes hegemônicos da construção da cidade, a racionalidade
da totalização econômica, que propõem uma cidade fragmentária, uma cidade
partida, e, portanto, uma não-cidade, porque incapaz de colocar os homens em
relação, incapaz de possibilitar o diálogo e a ação.

125
Figura 15: Os outros usos das cidades. Ao lado do repentista, contando também com um microfone
improvisado, a lá Silvio Santos, um homem tenta atrair atenção dos pedestres oferecendo uma
série de essências naturais, que promete tudo curar. Enquanto, dois homens um pouco atentos
prestam atenção a apresentação do vendedor que, em sua fala, reproduz muito do que vê nos
comerciais. Foto gentilmente cedida por Ricardo Lopes Correia, maio de 2005.

126
Figura 16 : Os outros usos da cidade. Na praça da Sé, repentista improvisa microfone para cantar
causos e histórias de todo o Brasil. A velocidade de sua fala parece acompanhar os passos dos
pedestres, que apressados, pouco escutam o que canta o repentista. Para eles, ele é apenas mais
um ruído dentre tantos outros. Foto gentilmente cedida por Ricardo Lopes Correia, maio de 2005.

Como vimos nas figuras anteriores, para além da imagem da cidade há


uma outra cidade que é apropriada por uma série de homens e mulheres,
habitantes também que são da cidade imaginária e que, nessa apropriação,
definem novas formas e conteúdos a própria cidade. Se pudéssemos cartografar a
imagem da cidade, perceberíamos a existência de um limite claro que define a
cidade do discurso e a outra cidade, que se pretende ocultar. Este processo de
criação da alteridade da cidade está claramente presente na própria fala dos
habitantes da cidade que dizem, ao se locomoverem para alguns destes pontos
que compõem a imagem da cidade, dizem estar indo para a própria “cidade”. A
periferia passa a ser então o outro da cidade, a sua negação, a sua alteridade e,
portanto, a sua justificação. Os conflitos causados pelo rompimento das fronteiras
podem ser claramente percebidos na observação atenta das práticas sócio-

127
espaciais que se realizam na cidade. De nenhuma maneira, a imagem da cidade
“pode ser manchada” pelo seu outro, pela sua negação, e se assim o for, é
necessário que se aja com total rigor e violência para que o outro da imagem da
cidade volte ao seu lugar. Neste sentido, é necessário que se compreenda que a
imagem da cidade não pode ser vivida, mas antes representada, sendo que, para
grande parte da população deve permanecer apenas como imagem, como algo a
ser observado e admirado a distância. Os projetos urbanos e políticos de
construção da imagem da cidade, que resultam de processos de valorização
urbana e especulação imobiliária, definem também de quem devem ser os usos
da cidade, o uso dos lugares públicos, definindo assim as práticas sócio-espaciais
permitidas e rejeitadas (Vide fotos). A imagem da cidade, longe de ser apenas
uma construção virtual, é também resultado e processo da segregação sócio-
espacial verificada na metrópole paulista.
Em trabalhos de campo pela região central da cidade de São Paulo, pude
acompanhar este processo de “delimitação da cidade, de demarcação e de
normatização dos usos da cidade”. Numa manhã ensolarada, pude observar
atento o processo de retirada dos ambulantes da área do entorno do pátio do
colégio e da ladeira General Carneiro e nesse dia pude conversar com um dos
ambulantes que havia perdidos sua barraca nesta retirada. Seu Antônio, como era
chamado, me disse estar extremamente desconfiado do modo como as coisas
estavam caminhando. Era estanho para ele que não houvesse nem um tipo de
resistência por parte dos ambulantes para impedir a retirada de barracas que já se
encontravam naquela área há mais de 20 anos. Segundo ele, o que explicava
aquele fato talvez fosse a promessa da prefeitura de reurbanizar a praça e
fornecer quiosques para os ambulantes retirados continuarem suas atividades.
Porém, seu Antônio e a maioria dos ambulantes com que pude falar,
desacreditavam nessa promessa, que para eles significava apenas uma maneira
de distrair as atenções enquanto as barracas eram destruídas pelos funcionários
da prefeitura.
O interessante é que,naquele dia, passava por aquela área com intuito de
obter uma entrevista com o diretor da Associação Viva o Centro e sabia, por

128
pesquisas realizadas anteriormente que aquilo que ali ocorria fazia parte dos
planos da Associação para a reurbanização daquela área. Pude então, nessa
conversa que tive com os ambulantes, contar-lhes que grande parte daquele
processo de retirada que ali acontecia era resultado direto dos interesses
defendidos pela associação Viva o Centro, que entendia os ambulantes como
fatores de desvalorização daquela região. Para a Associação Viva o Centro, toda
a região central de São Paulo deveria ser preservada para a realização de um
projeto que transformasse aquela área numa área de atração de turistas de alto
poder aquisitivo, como ocorria com os centros históricos de grandes cidades
européias, como Barcelona, Madri, Paris, etc. Havia uma certo interesse ligado ao
processo de valorização imobiliária que levava as empresas com prédios no
centro a se associarem a Viva o Centro e a defenderem tais propostas, que no fim
das contas, eram criações próprias de comum acordos destas empresas
associadas, principalmente ligadas ao mercado financeiro. É interessante notar
que a maioria dos ambulantes nem sequer sabia da existência desta associação,
sendo que a maioria acreditava realmente que o único culpado pelo que estava
acontecendo com eles era o poder público, representado na figura da prefeitura de
São Paulo. Este fato traz a tona uma série de questões que alimentam o debate a
cerca da relação que se dá entre as esferas pública e privada do poder. Na
atualidade, acentou-se o papel do Estado como um grande escudo protetor dos
interesses privados sobre questões públicas, interesses estes que querem
continuar ocultos sobre a figura do Estado, para dessa maneira poderem agir sem
nenhum tipo de ameaça ou cobrança. Ao impor ao Estado, e este se encontra, em
muitos casos, totalmente dependentes economicamente destas grandes
empresas, determinadas maneiras de agir, tais grupos de interesses conseguem
alcançar seus objetivos, que seja uma determinada licitação, uma operação
urbana, ou outra coisa qualquer, sem se expor e sem ter nenhuma preocupação
em relação a cobranças da opinião pública. Estas pequenas questões ficam então
a cargo do Estado que passa a arcar com todas as conseqüências relacionadas a
suas ações que são muitas vezes dirigidas por interesses privados.

129
Portanto, escondendo-se atrás da figura do poder público, a Associação
Viva o Centro, pode realizar os diversos interesses de seus associados,
principalmente os que dizem respeito ao processo de valorização territorial e
imobiliária da região central da cidade de São Paulo. A imposição de uma
determinada imagem da cidade é também a reprodução do discurso que a
sustenta e que a mantém, discurso este que entende a cidade como alvo de
interesses privados, principalmente relacionados a lógica da especulação
financeira e imobiliária que tem dominado as relações sociais nesta fase da cidade
implodida em metrópole.
No próximo capítulo, procuraremos compreender de que maneira o discurso
e a imagem da cidade, bem como os seus conflitos inerentes aparecem nas
comemorações dos 450 anos da cidade de São Paulo. Uma festa, que ao
reproduzir a alienação, se transformou num espetáculo de massas, no qual a
comemoração da fartura é substituída pela alienação da escassez.

Figura 17: Retirada de Ambulantes da área central da cidade de São Paulo: a outra cidade que se
quer ocultar. (Foto do Autor, fevereiro de 2005).

130
Figura 18: Ambulantes desmontam barraca e contribuem para a “limpeza da área central da
cidade”. (Foto do autor, fevereiro de 2005).

131
Figura 19: Barraca vazia na área central da cidade de São Paulo. Como prática sócio-espacial
rejeitada, o comércio ambulante configura-se o outro da imagem da cidade. (Foto do autor,
fevereiro de 2005).

132
Figura 20: Destroços de barracas destruídas. Para alguns ambulantes, a retirada é uma medida
acertada, pois as barracas “enfeiam” a cidade. Como poder simbólico, o ambulante reproduz sua
própria opressão. (Foto do autor, fevereiro de 2005).

133
3º. Parte

A festa dos 450 anos: a recriação do discurso e da imagem da


cidade

Era uma grande parada. Um dia de carnaval, no qual milhares de pessoas


saíram as ruas para comemorar os 450 anos da cidade de São Paulo, ou pelo
menos, para “fazer parte da festa”, para se divertir nos quiosques montados ao
longo da Avenida 23 de Maio pela prefeitura e por empresas transnacionais,
patrocinadores do evento. Ao longo de toda Avenida, pessoas pareciam se divertir
e viver um momento único de união e civismo que somente os grandes
espetáculos podem fornecer. Caminhando sobre a “Avenida Bandeirante”, a
população pouco sabia do discurso sobre o qual caminhavam, mas caminhavam;
sem direção certa acompanhavam a grande multidão que era guiada pelos
outdoors luminosos que vendiam festa, alegria, que vendiam espetáculo.
Enquanto isso, uma população de espectadores admirados, encantada,
acompanhava pela tela de seus aparelhos de televisão a imagem de uma festa da
qual participava a distância, mesmo sem entender muito bem o que se
comemorava, ou por que se comemorava. Afinal de contas, havia alguma coisa
para se comemorar? “Viviam” pela televisão o espetáculo da cidade espetáculo,
da cidade discurso, que na realidade, surgia para seus habitantes como a cidade-
segregação, a cidade-fragmentação, a cidade-melancolia, local do caminhar
sozinho, da angústia diária, do sentir-se nada no meio de tanta violência simbólica
e material.
Ao analisarmos de que maneira se deram as comemorações dos 450 anos
da cidade de São Paulo, é importante que consideremos todos os processos
anteriormente analisados em nosso pesquisa para que compreendamos de que
forma tais processos surgem nestas comemorações, as vezes reafirmados, por
outras negados, e como tais processos definem o caráter segregacionista e
fragmentário sobre o qual se constituiu as comemorações dos 450 anos da cidade
de São Paulo. Como demonstramos no primeiro capítulo, as comemorações dos
450 anos da cidade de São Paulo surgem como resultado, como um evento

134
produzido pelos agentes hegemônicos da construção da metrópole, que, como
vimos aparece como um fenômeno ligado a atual fase do processo de
mundialização, no qual o espetáculo é construído, é realizado como momento de
afirmação de um determinado discurso e de uma determinada imagem da cidade
de São Paulo que se quer afirmar frente ao mundo.
Entendamos este processo. Para atrair investimentos, atrair os interesses
dos agentes responsáveis pela reprodução mundial do capital, é necessário que
se crie um determinado discurso e uma determinada imagem da cidade, que são
utilizados como carta de referência, como o “currículo” da cidade, algo que a
habilita a fazer parte da rede de “cidades mundiais”, a fazer parte da lógica de
reprodução ampliada do capital (como se a cidade de São Paulo, não fosse ele
mesmo, resultado desse processo de mundialização do capital). É necessário
reapresentar a cidade ao mundo para que o mundo seja reapresentado a São
Paulo, ou pelo menos, a sua elite, aos agentes hegemônicos pela construção da
metrópole.
Dessa maneira, a festa dos 450 anos da cidade de São Paulo, como um
grande evento da metrópole procurou reafirmar a cidade inexistente, a cidade
imaginética, a cidade fantasia, a cidade espetáculo em detrimento da cidade
existente, da cidade segregação, da cidade fragmentação, reafirmando assim o
cidadão esvaziado de conteúdo, o cidadão transformado em consumidor, legando
ao esquecimento o não-cidadão, o homem impossibilitado do diálogo, do discurso
e da ação no espaço público; o homem incapaz de entender a cidade porque
incapaz de entender a si mesmo. O espetáculo dos 450 anos reafirmou mitos em
detrimentos dos homens reais; transformou a exceção em regra, beatificou e
santificou homens, esvaziou-os de conteúdo, transformou-os em mercadoria,
dando-lhes apenas uma carcaça nova, bem pintada e revestida de uma áurea que
não lhes pertencia e com isso transformou a violência simbólica em habitus, nas
palavras de Pierre Bordieu. Interiorizou a violência, transformou-a em cotidiano.

135
3.1 Dos 400 aos 450 anos: Continuidades e descontinuidades.

Nos capítulos anteriores de nossa pesquisa, procuramos desvendar as


raízes históricas e geográficas do discurso e da imagem da cidade de São Paulo,
desvendando os agentes responsáveis por tal discurso e por tal imagem, bem
como seus interesses. Como pudemos perceber, alguns eventos marcaram
significativamente a construção desta imagem e deste discurso e as
comemorações dos 400 anos da cidade de São Paulo serviram como ponto de
convergência para a ratificação desta ideologia sobre a cidade, tanto pela elite,
construtora desta ideologia, como por parte da população, que pouco participou
desta festa.
As comemorações dos 400 anos da cidade de São Paulo não foi um evento
de grandes proporções em termos de participantes; foi antes um evento que se
resumiu a elite paulista. Este fato pode ser verificado na própria escolha do local
que iria abrigar a festa: o local escolhido foi o Parque do Ibirapuera, distante dos
“populares”, tranqüilo para que a elite dirigente da cidade de São Paulo
comemorasse os 400 anos da cidade como se estivessem numa festa particular
(mas será que não estavam?). Os 400 anos foi então uma festa da elite para a
elite, utilizada pelos responsáveis pela construção do discurso e da imagem da
cidade para dar glórias a cidade ideologia que haviam construído. Neste momento,
o povo paulista se resumia a sua elite e isto estava explícito. Não havia porque
esconder tal fato.
Para tanto, para realizar uma festa que representava somente os interesses
da elite paulista, era necessário que um mito fundador fosse reafirmado: louva-se
então a figura do Bandeirante, do “paulista da Terra”, do “homem valente e
desbravador” que com sua coragem atravessou matas e rios para expandir as
fronteiras do Estado e do país. O Bandeirante é o mito do progresso paulista, o
mito que dá a São Paulo posição de destaque no cenário nacional, que há tanto
sua elite requeria. A partir disso São Paulo passa a ser “o carro chefe”, o “Estado
impulsionador da nação”, o “Estado Civilizador” que tem por objetivo conduzir o
país ao progresso e ao crescimento econômico e político.

136
Com a festa dos 400 anos, a elite paulista consegue atingir o seu grande
objetivo, que seja, demonstrar ao país a importância econômica e política da
cidade de São Paulo, ou melhor, de sua elite, no cenário nacional, eliminando em
parte os preconceitos que existiam contra São Paulo e vencendo pelo menos uma
primeira etapa da disputa política com o Rio de Janeiro, disputa esta que será
retomada mais adiante, quando as duas cidades passarão a disputar o cenário
mundial, a disputar o “privilégio” de pertencer a rede de cidades mundiais.
Diferentemente, as comemorações dos 450 anos da cidade de São Paulo
se quer, pelo menos em discurso, como uma grande festa popular na qual “todos
os habitantes da cidade têm voz, têm vez e têm lugar”. E, portanto, para a
realização deste discurso, a festa se transformou numa grande parada, sendo que
o seu trajeto partia do isolamento do parque do Ibirapuera e ia em direção ao
Parque do Anhangabaú, voltando assim ao chamado “centro histórico” da cidade
de São Paulo. Porém, a escolha do tipo de festa (uma grande parada) e do trajeto,
para além causalidade, ocultam interesses, estratégicas e discursos que precisam
ser desvendados para que não percamos de vista os interesses ligados as
comemorações dos 450 anos da cidade de São Paulo.
Quando se optou por uma grande parada para se comemorar os 450 anos
da cidade de São Paulo, na qual “toda” a população foi convidada a participar
(porém muitos não puderam ir, ou por falta de tempo, ou por falta de dinheiro, ou
porque tiveram que trabalhar no dia da festa) estava se afirmando um determinado
caráter fictício da cidade de São Paulo, que seja, São Paulo como a “cidade que a
todos acolhe”, “a cidade que não recusa ninguém”, a “cidade que onde
trabalhando se consegue”. Todo o discurso da “cidade acolhedora”, da “cidade
sem preconceito” surgia neste momento na Avenida 23 de Maio e era
televisionada para o mundo todo. Nada melhor para uma metrópole que quer ser
aceita mundialmente demonstrar ao mundo todo que seu povo, diverso e
diferente, vive feliz e em harmonia, como numa grande parada. O caráter popular
da festa dos 450 anos da cidade de São Paulo tem por objetivo então afirmar um
determinado discurso da cidade de São Paulo, que é retomado de um outro

137
discurso histórico, estudado em nossa pesquisa que diz respeito ao caráter
cosmopolita da cidade São Paulo.
Para a realização deste discurso, um outro mito é criado. Se nas
comemorações dos 400 anos criou-se o mito bandeirante, como o pai fundador do
povo paulista, a imagem do progresso e da civilização, cria-se agora nos 450
anos, o “mito do migrante nordestino”, daquele que abandona sua terra e é
acolhido pela cidade de São Paulo, que a ninguém fecha suas portas. A cidade,
nesse sentido aparece como um sujeito. Surge então a figura do “nordestino
vencedor”, do nordestino que deu certo, daquele que atravessou todas as
barreiras e pode transformar sua vida na grande cidade. Surge o mito “Maria do
Carmo”, protagonista da novela da rede globo “Senhora do destino” que
abandona sua terra e se transforma numa empresária bem sucedia na cidade do
Rio de Janeiro. Os telejornais, em sua reportagem especiais sobre os 450 anos da
cidade de São Paulo, encontraram novas “Marias do Carmo”, novos vencedores, e
transformaram então a exceção na regra geral. Criando o mito do Nordestino, o
discurso da cidade reafirma o falso caráter acolhedor da metrópole paulista, e
oculta a metrópole da segregação, da divisão, dos sonhos destruídos. Enquanto
discurso, a imagem do migrante bem sucedido, difundido nacional e
mundialmente, chega aos lares de tantos outros futuros migrantes, que passam a
sonhar com a “cidade grande” e partem para a metrópole em busca de um mito,
que talvez eles não saibam inexistir.

3.2 A organização da festa ou a produção do espetáculo


Como já dissemos, as comemorações dos 450 anos da cidade da cidade de
São Paulo tiveram como evento central uma grande parada ocorrida no dia 25 de
janeiro de 2004, e que teve como lugar de realização a avenida 23 de maio, em
quase toda sua extensão. O ponto culminante do evento ocorreu no Vale do
Anhangabaú, com um show que reuniu cerca de 200 mil pessoas, segundo dados
oficiais. Para a realização desta parada foi criado um comitê organizado pela
prefeitura de São Paulo e encabeçado pela principal empresa patrocinadora do

138
evento. A Vivo44, uma empresa transnacional de telefonia foi a empresa que tomou
a frente da organização dos eventos que compuseram as comemorações dos 450
anos da cidade de São Paulo. É importante, portanto, que conheçamos um pouco
melhor a organização deste evento principal para que possamos entender os
interesses e as estratégias presentes na forma de discurso e de imagem nas
comemorações dos 450 anos da cidade.
A Parada dos 450 anos teve como principais atividades desenvolvidas a
presença de carros alegóricos, a montagem de quiosques por todo o percurso da
Avenida 23 de Maio e o Show de encerramento no Vale do Anhangabaú, que
contou com um série de artistas e cantores de grande destaque na mídia
televisiva, principalmente. Em relação aos quiosques montados em toda a
avenida, num total de 12, o interessante é notar o nome que receberam:
ESTAÇÕES VIVAS45, uma clara alusão a empresa patrocinadora do evento.
Nestes quiosques, a população presente, desfrutava de uma série de atividades
que iam desde cortes de cabelos até ligações interurbanas gratuitas fornecidas
pela Vivo. Ao longo de toda a Avenida, cartazes e outdoors, com cores marcantes,
da empresa patrocinadora contrastavam com o cinza dos prédios e com o tempo
nublado daquele dia.
Os carros alegóricos tocavam músicas de diferentes tipos e principalmente
não se cansavam de repetir o hino da parada dos 450 anos. Escrito por Zé Rodrix
e interpretado por Daniela Mercury, o hino explicitava o discurso da cidade, que os
agentes responsáveis pela organização das comemorações dos 450 anos da
cidade de São Paulo pretendiam tornar verdade. O hino alude a todos aqueles que

44
No site da vivo há uma pequena descrição da empresa. “A Vivo, controlada pelos Grupos Telecom e
Telefônica Móviles, é a maior prestadora de serviços de telecomunicações móveis do Hemisfério Sul e
décima maior no ranking mundial, com mais de 27 milhões de clientes em todo o Brasil. A empresa é líder no
mercado individual e também no segmento corporativo, para a qual fornece soluções através da unidade de
negócios Vivo Empresas”. www.vivo.com.br Do ponto de vista da relação do Brasil com o atual do processo
de mundialização, a Vivo é uma das empresas transnacionais que se beneficiaram com o enxugamento do
Estado Brasileiro, a partir dos processos de privatização que afetaram principalmente o setor de infra-estrutura
e de informação (energia, telecomunicações, siderúrgicas, etc.).
45
Os temas das Estações vivas eram os seguintes: Sabor de São Paulo I (Culinária), Bela Gente Paulistana
(Cortes de Cabelo gratuitos), São Paulo ao Vivo (Teatro), Território Zen (YOGA), São Paulo Mostra as Caras
(Exposição fotográfica), Boca Livre (ligações interurbanas gratuitas), Espaço Criança (recreação infantil),
Chuva de Conhecimento (chuva de papel picado com frases sobre a cidade), Correios (envio de cartões
postais com temas da cidade), Traço Radical (grafite e esportes radicais), Sabor de São Paulo II (culinária), É
sempre lindo andar na Cidade (infláveis de diverso tamanhos reproduzem a cidade).

139
vieram de diferentes regiões do Brasil e do mundo e que, ao chegarem em São
Paulo, foram acolhidos pela “Cidade Mãe” , conseguindo transformar suas vidas e
acompanhar o desenvolvimento e o progresso presentes na cidade. Este discurso
pode ser percebido pelas escolhas do compositor e da intérprete do hino. Os dois,
não paulistas, que acreditam no discurso da cidade mãe, e vêem em São Paulo
todas as possibilidades de uma vida melhor, mais rica e próspera. Escrito com
intuito de se tornar verdade, o hino da parada alcança seu objetivo quando retira
de sua preocupação toda crítica sobre as reais condições de vida na cidade de
São Paulo e faz do discurso da harmonia, da beleza, fatos reais.
Interessante notar que, no mesmo momento em que São Paulo
comemorava 450 anos, era publicada na Revista Carta Capital uma pesquisa
sobre a desigualdade social na cidade. Era o embate do discurso e da realidade.
Porém, naquele momento havia pouco lugar para o diálogo, para a crítica, para a
reflexão; tratava-se apenas de um espetáculo e como tal todos os homens deviam
apenas assumir seus papéis e reproduzirem o discurso que falseava a realidade, o
discurso do poder simbólico, que ao se ocultar como poder, não dissocia mais
oprimido e opressor.
Outro elemento importante presente na organização das comemorações
dos 450 anos da cidade de São Paulo, diz respeito ao símbolo escolhido para o
evento. O símbolo, uma alusão a um coração e a sigla da cidade, pede aos seus
habitantes que declarem o seu amor à mesma. Independentemente de sua
condição real, de suas dificuldades, é importante que todos declarem o seu amor
a cidade, pois como uma mãe, a todos acolheu e pode, eventualmente, ter
cometido algum erro. Novamente, alude-se a idéia da associação entre a cidade e
a imagem da mãe que a todos acolhe e que faz progredir. “Declarem seu amor a
cidade como se declara o amor a mãe”, ordenava o adesivo estampado nos vidros
dos prédios e dos carros (figura 21). Porém, se ainda seguíssemos a lógica do
discurso apresentado acima, como se a cidade fosse um ser, esqueceram de dizer
que esta mãe tem filhos mais prediletos do que outros, que em alguns casos, esta
mãe, em discurso, gentil e carinhosa, não reconhece aqueles que maltrata e que,
pior, esta mãe, há muito vem sendo manipulada por filhos “interesseiros”, filhos

140
ligados ao capital especulativo-imobiliário, filhos que tem como única preocupação
a reprodução da lógica de reprodução ampliada do capital e que, portanto, tais
filhos mimados, acostumados a agir da maneira como bem entendem,
apropriando-se indevidamente daquilo que diz respeito a esfera pública da cidade,
destruindo as possibilidades da mesma que vão além da forma da mercadoria,
que possibilitam ao homem o encontro, o diálogo, a construção, são hoje os
grandes patrocinadores deste espetáculo, que, de novo, como nos 400 anos, é
apenas mais uma festinha particular, realizada com dinheiro público e transmitida
ao vivo para milhões de espectadores que, como personagens de uma grande
comédia, esquecem-se que na verdade, para se representar a história de São
Paulo, seria mais acertado uma tragédia, a altura de Sófocles, do tamanho da
Atenas decadente, que incapaz de compreender sua queda, se fez representar
nas linhas ácidas de seus poetas.

141
Figura 21: Exemplos dos logotipos que marcaram as comemorações dos 450 anos da cidade de
São Paulo, da “cidade mãe” a qual todos devem declarar o seu amor, segundo a propaganda
oficial. (Fonte: www.google.com/sp450)

3.3 Quem conta um conto, aumenta um ponto (e lucra um tanto).

Cartazes espalhados pela cidade; comerciais que confundem histórias;


homens e mulheres felizes que parecem dividir um mesmo destino, uma mesma
alegria e um mesmo sonho. Este ambiente utópico e repleto de promessas
marcou o papel desempenhado por grupos empresariais nas comemorações dos
450 anos da cidade de São Paulo. Como principais responsáveis pelo patrocínio
do evento central das comemorações, a grande parada dos 450 anos, realizada
no dia 25 de janeiro de 2004, tais empresas, como a Vivo e a Rede Globo, ao
patrocinarem o evento, confundiram a história da cidade com a própria história da
empresa, no sentido em que, ao realizarem o patrocínio do evento tais empresas
estavam mostrando também aos habitantes da cidade de São Paulo que havia,
pelo menos em discurso e em imagem, um elo histórico, entre a cidade de São
Paulo e tais empresas que justificaria a atuação das mesmas nas comemorações
dos 450 anos da cidade e no cotidiano de seus habitantes.
Qual o objetivo dessas empresas, que estão por detrás do patrocínio da
festa dos 450 anos da cidade de São Paulo? Como já dissemos, entender as

142
questões que cercam a problemática do discurso e da imagem da cidade é
compreender os agentes responsáveis por tais discursos e imagens, seus
interesses e suas estratégias. Em nossa primeira pesquisa sobre o tema, vimos
que a elite da cidade de Barra, Ba, para se reproduzir no poder como elite
dirigente, utilizava-se de uma estratégia de classe, mesmo que muitas vezes, não
intencional, que consistia em transformar a história em mito e a geografia em
simulacro. Para isso, para a realização desse fato, um dos principais elementos
utilizados foi a transformação da história pessoal da elite barrense na própria
história da cidade de Barra. Ao contar a sua própria história, a elite Barrense
procurava criar uma nova abordagem sobre a história da cidade de Barra que
partia do pressuposto de que a cidade só havia alcançado um determinado grau
de desenvolvimento econômico, político e social graças ao trabalho e a atuação
dessa elite e que, portanto, todo o povo de Barra deveria ser grato ao trabalho
realizado por esta elite, sendo que, como prêmio merecido, tal elite deveria se
manter no poder já que sua atuação contribuiu para o desenvolvimento de Barra.
A história de Barra transformada em mito porque contada a partir de uma única
perspectiva, a da elite barrense, é utilizada para justificar a atual situação da
cidade, na qual as elites se reproduzem no poder há décadas.
Da mesma maneira, as grandes empresas transnacionais que atuam na
cidade de São Paulo procuram contar sua versão da história da cidade. Em cada
nova versão, uma nova empresa procura mostrar a população paulista sua
contribuição para o desenvolvimento da cidade. São histórias que misturam
autobiografia com dados estatísticos e que tentam confundir, pela persuasão
publicitária, a população paulista que, transformada em mera mercadoria, porque
meros consumidores, já está acostumada pelas micronarrativas que vendem
sonhos diariamente nos mais diferenciados meios de comunicação. Dessa
maneira, grande parte da população aceita passivamente as pseudo-histórias,
vendidas por estas empresas, como verdade. E isto se dá, basicamente, pela falta
de sentido que se encontra diariamente pelas ruas desta cidade que incapaz de
fazer a crítica de si mesma é incapaz de compreender sua história.

143
Segundo Luis Avelar, vice-presidente de Marketing da Vivo, que além de
patrocinar a Parada dos 450 anos patrocinou também o desfile em homenagem a
cidade de São Paulo, durante a São Paulo Fashion Week, “qualidade,
modernidade e inovação são valores da marca Vivo que tem total correspondência
com o que a moda significa na sociedade. Como o SPFW concentra público
jovem, de maior poder aquisitivo e receptivo às novidades, podemos realizar com
eficácia demonstrações de produtos e serviços”. Neste sentido, como podemos
perceber nas afirmações de Avelar, há uma tentativa nestes patrocínios dos
eventos comemorativos dos 450 anos da cidade de São Paulo de aumentar o
mercado consumidor da empresa, a partir da associação da marca da mesma com
a cidade de São Paulo. Deste modo, a cidade também se transforma em uma
marca a ser vendida. Por isso a utilização de termos como modernidade, inovação
que dizem respeito ao discurso histórico e geográfico da cidade de São Paulo e
que são associados como elementos positivos pela empresa e, no nível do
discurso, pela população.
Outro elemento, por exemplo, que se tenta afirmar também como realidade,
mas que diz respeito ao discurso da cidade de São Paulo, está relacionado com
uma idéia do “ecletismo paulista”. Segundo os organizadores do desfile da SPFW,
“os 450 anos inclui celebrar seu ecletismo que é a sua essência, a construção e a
desconstrução que formam sua cultura global, sua vocação à inquietude e a
transformação”. Novamente, podemos observar a incorporação do discurso
histórico e geográfico da cidade de São Paulo por novos agentes que buscam
afirmar e reafirmar sua hegemonia sobre as práticas sócio-espaciais da cidade.
No caso da rede Globo, pudemos observar a mesma tentativa de contar a
história a partir da instituição. Este tentativa que se iniciou com uma série de
reportagens e concursos sobre temas acerca de cidade de São Paulo teve como
ponto chave um grande Show no estádio do Ibirapuera que se apresentou em
discurso como opção em relação as comemorações oficiais, mas que na realidade
tinha como intuito o monopólio do direito de festejar e de definir a festa que tal
corporação pretendia para si. Duas narrativas, dois espetáculos; uma mesma
lógica. Contar a história, reproduzir, reafirmar, recriar o discurso histórico e

144
geográfico da cidade de São Paulo, a partir da atualização de sua imagem, uma
imagem de alegria e de festa que oculta, porém a segregação sócio-espacial que
predomina na cidade implodida em metrópole.
A “história oficial” da cidade de São Paulo é tão falsa quanto a que as
grandes empresas pretendem vender. A primeira procura dar as elites paulistas
lugar de destaque no desenvolvimento da cidade. A segunda justifica a atuação de
grandes corporações na cidade que pretendem, a partir dessa falsa associação,
conquistar uma fatia maior de mercado. Por isso, enquanto caminhava pela
avenida 23 de maio, na festa dos 450 anos, a população paulista podia escolher
“livremente” (da liberdade que se resume ao mercado), as centenas de
micronarrativas que eram vendidas e, em certos casos, dadas, nos diferentes
quiosques que preenchiam a avenida do começo ao fim. Em cada um dos
quiosques, a população procurava encontrar sentido, procurava entender o que
enfim se comemorava ali. E encontravam falsos sentidos, falsas histórias, que os
reconfortavam e lhes davam força para caminhar até um próximo quiosque. Ali,
logo ao lado, havia uma nova história para se vender, para preencher um vazio
deixado por uma cidade invadida pela forma imagem da mercadoria.

3.4 O Vale do Anhangabaú: reconstrução da imagem e do discurso.


Caminhar sobre os calçadões do Vale do Anhangabaú, como diz o seu
próprio nome, é caminhar sobre um grande fantasma, ou se preferirmos uma outra
expressão, é caminhar sobre os mortos. E muitas vezes os mortos levantam-se de
suas tumbas para ressuscitar o discurso que serviu de base para a construção do
conjunto Arquitetônico do Anhangabaú. Desde sua construção, o Vale do
Anhangabaú, como é conhecido popularmente, tem apenas uma função clara
dentro da cidade: surgiu para servir e reafirmar o discurso e a imagem da cidade,
proposto por uma determinada elite, preocupada com a inserção do Brasil na Belle
Époque Mundial. Em sua origem, seu traçado, a forma de seus jardins, que mais
lembram alguns parques e passeios de Paris, serviam para a dar a impressão ao
habitante da cidade de estar passeando pela própria França, ou pelo menos, por
uma França presente em discurso, em imagem e em simulação. Nada como um

145
pouco de fantasia para que a realidade logo seja ocultada e o seu falseamento
tornado realidade.
Ao analisarmos a organização do evento principal que marcou as
comemorações dos 450 anos da cidade de São Paulo, podemos perceber que a
escolha do Vale do Anhangabaú não teve nada de ocasional, como queriam
demonstrar alguns meios de comunicação, mas sim, que esta escolha diz respeito
a outro discurso presente nas comemorações. A escolha do trajeto que vai do
Ibirapuera ao Anhangabaú simboliza, pelo menos em discurso, a inversão da
perspectiva proposta na festa dos 400 anos da cidade. Parte do “lugar da
segregação, do lugar de representação autoritária da elite paulista” e caminha em
direção ao “povo, ao popular”, representado, como imagem e discurso pelo Vale
do Anhangabaú. Mas será tão popular assim o Vale do Anhangabaú? Idealizado
pela elite Paulista do final do século XIX, e colocado em prática pelos prefeitos
Antonio Prado e Prestes Maias e pelo arquiteto Ramos de Azevedo, o Conjunto
Arquitetônico do Vale do Anhangabaú inclui o Teatro Municipal, o parque do
Anhangabaú e se apresenta como um discurso em si mesmo. Com o intuito de
reproduzir as formas arquitetônicas da Paris da Bélle Époque, o Vale do
Anhangabaú recria as formas e os traços das grandes capitais européias com o
intuito de tentar recriar também o modo de vida “civilizado e elegante” dos
europeus. Neste sentido, desde sua formação, o Vale do Anhangabaú atendeu
aos interesses das elites paulistas que afastadas fisicamente da Europa, poderiam
vivenciá-la enquanto simulacro, simulação, na qual os espetáculos e as óperas do
teatro municipal tinham papel fundamental. Portanto, desde o seu início, o vale do
Anhangabaú não se apresentou como um lugar popular, na qual a maioria dos
habitantes da cidade eram convidados a participar, mas sim como um ambiente
restrito, aberto apenas aqueles que se achavam nas condições econômicas,
políticas e morais de fazer parte deste ambientes de glamour e de glória. .
Nas últimas décadas, com o aumento de investimentos públicos e privados
em outros pontos da cidade e, conseqüentemente, com a criação de novas
centralidades da cidade, muito bem estudadas por Heitor Frúgoli Jr., muitas
empresas, principalmente ligadas ao capital financeiro e ao capital imobiliário

146
deixaram a região indo em direção a estas novas centralidades, em busca de
comodidade e principalmente fortalecendo o processo de especulação imobiliária.
Com a saída de parte do capital, e antes da reurbanização do vale, a região do
Vale do Anhangabaú passou a ganhar notoriedade por seu caráter subalterno, por
seus edifícios antigos que passaram a ser ocupados por cinemas pornográficos e
por bingos. O vale do Anhangabaú se transformou no lugar de encontro do povo
de rua, das prostitutas, dos camelôs, dos mendigos, de todos aqueles os quais a
elite havia vedado o acesso. Como diria Sartre, “a vermina da cidade”, na visão da
elite paulista, agora ocupava e ocupa a região do Vale do Anhangabaú, e com isso
passa a redefinir suas formas e seus usos, redefinindo as possibilidades das
práticas sócio-espacias existentes no Vale. É interessante notar o número de
jovens e adolescentes, que com seus skates e seu visual que muitas vezes
incomodam aqueles que apenas passam rapidamente pelo Vale, com medo de
algum assalto ou coisa do tipo e, como tais jovens se apropriam daquele espaço
público, que em seu início se apresentou como lócus de reprodução dos
interesses da elite paulista, e como, se apropriando deste lugar, criam sua própria
territorialidade e seu uso. Dessa maneira, é interessante que compreendamos os
usos antigos e novos do Vale do Anhangabaú para compreendermos todos os
interesses atuais em relação ao mesmo, e de que maneira estes interesses
aparecem ocultos na forma de imagem e discurso na comemoração dos 450 anos
da cidade de São Paulo.
Em entrevista concedida, Ana Maria Cicaio, assessora de imprensa da
Associação Viva o Centro, uma das principais associações responsáveis pela
organização das comemorações dos 450 anos da cidade de São Paulo, explica os
motivos pelos quais foi escolhido o Vale do Anhangabaú como o ponto de
convergência das comemorações dos 450 anos da cidade de São Paulo.
Segundo a autora,

Qual foi o conceito que balizou esta festa? É de que, nos 400 anos o
Ibirapuera havia sido o centro da festa, o parque tinha sido inaugurado,
os edifícios projetados pelo Niemayer, então, embora não a obra toda
não tivesse sido concluída naquele momento, vários prédios foram
terminados, a bienal, essa coisa toda, então ele foi entregue a
população. O Parque do Ibirapuera é um espaço extremamente

147
importante para a cidade. Um pulmãozinho verde ali no meio da cidade,
super importante. Dessa vez qual era o conceito? Era trazer o
cinqüentenário do Ibirapuera para o meio do centro, uma vez que essa
grande bandeira levantada pela associação Viva o Centro, da
recuperação, da requalificação do centro de São Paulo.

Neste pequeno trecho da entrevista concedida, podemos perceber que a


proposta de trazer as comemorações dos 450 anos da cidade de São Paulo para
o Vale do Anhangabaú faz parte de um grande projeto, defendido pela Associação
Viva o Centro há alguns anos, que tem como principal objetivo a idéia da
“requalificação do centro” da cidade de São Paulo. Segundo a autora, a idéia de
requalificação significa

“dar uma nova qualidade, qualificar de novo, dar qualidade outra vez, ao
que perdeu. E não significa a mesma qualidade, dar nova qualidade
também. E é em todos os sentidos, no social, no urbanístico, no
paisagístico, no cultural, no do patrimônio histórico. É o caso da catedral
da Sé, ela ganhou qualidade com o restauro. Por que faltavam várias
torres inclusive, que não foram construídas quando ela foi edificada. E
que agora no restauro foram construída, então ela ganhou qualidade.

O discurso que permeia o projeto de “requalificação do centro da cidade de


São Paulo” trás a tona uma discussão bastante complicada quando se discute o
espaço público urbano que diz respeito ao uso do mesmo. Quando a associação
Viva o Centro, que representa uma série de grupos e de empresas que tem fortes
interesses com o processo de valorização e especulação imobiliária na região
central de São Paulo, defende a idéia da necessidade de requalificar o centro de
São Paulo, “de dar nova qualidade” o que ela está afirmando é a necessidade de
normatizar os usos daquela área, de definir quais classes sociais têm acesso
permitido e quais classes não têm. Como dissemos, nos últimos anos o Vale do
Anhangabaú vem sendo ocupado por uma série de grupos sociais (skatistas,
prostitutas, cafetões, camelos) que não atendem aos interesses de valorização
imobiliária que estão por trás das propostas defendidas pelas Associação Viva o
Centro, e, portanto, neste processo de “requalificação” devem ser retirados dali.
Quando vemos a Associação defender a abertura dos calçadões para a
construção de vias para automóveis, podemos perceber a normatização de um

148
uso que passa a ser aquele que corresponde ao de uma classe que seja pelo
menos capaz de adquirir um automóvel ou pagar um táxi.
Outro exemplo deste processo de normatização do “centro da cidade de
São Paulo” pode ser verificado em algumas políticas públicas postas em prática
pela atual gestão da prefeitura de São Paulo. A Galeria Olido reformada na última
gestão da prefeitura e recriada para ser um centro de produção e de divulgação da
cultura em todas as suas linguagens e formas está sendo entregue ao Teatro
Municipal que será o responsável pela sua administração e definição da
programação. De lugar de expressão de variadas formas de cultura popular a
Galaria Olido se transformará no monopólio da cultura clássica. Alguns acharão
isso normal e bom, visto que a cultura clássica precisa ganhar notoriedade no
Brasil. Porém, é impossível desligar este fato do processo de normatização do uso
o “centro da cidade de São Paulo”. Uma das principais características da Galeria
Olido, após a reforma, era que arte ali realizada não era feita para o povo, mas
pelo povo. Havia rodas de samba, apresentação de rap, capoeira, forró, saraus
populares, no qual a população de diversas partes da cidade de São Paulo
participava de forma ativa, ocupando aquele lugar, apropriando-se dele. E talvez
esta presença incomodava e incomode. Com a normatização da Galeria Olido, o
“centro de São Paulo” ficará livre de “toda a vermina”, do “popular” que tanto
incomoda as elites e os grupos de interesse da cidade de São Paulo, que
entendem o espaço público como continuação de suas propriedades privadas.
Outro elemento que demonstra este processo de normatização dos usos do
Vale do Anhangabaú com o intuito de promover um processo de valorização
imobiliária pode ser percebida na organização do show de encerramento das
comemorações dos 450 anos da cidade de São Paulo. Observem a seguinte
afirmação do poeta Araújo, compositor de um hino para a cidade de São Paulo:

“Aí você tem o Anhangabaú, entre o Anhangabaú e Santa Ifigênia


caberia dois milhões de pessoas, aí você, não sei porque cargas dágua,
foi feito do lado do terminal rodoviário que cabia cento e setenta mil
pessoas”

149
Esta afirmação acima é reveladora de um processo e de uma estratégia
que é hoje dominante no Vale do Anhangabaú. Por que não utilizar, para o Show
de encerramento, a área do Vale na qual cabiam mais pessoas? Porque é
exatamente naquela área não utilizada, normatizada, fechada, que estão
concentrados os maiores interesses dos grupos corporativos, representados pela
Associação Viva o Centro da cidade de São Paulo, ligados ao capital especulativo-
imobiliários e, portanto, era necessário que nas comemorações dos 450 anos da
cidade de São Paulo esta normatização do uso do Vale do Anhangabaú ficasse
evidente. Ou seja, o caráter popular da festa estava restrito a definição da área a
ser utilizada pelas 200 mil pessoas que compareceram ao show de encerramento.
Um cordão de isolamento dividia a área destinada a população e a outra destinada
aos processos de valorização imobiliária do Vale do Anhangabaú.
Toda esta normatização que descrevemos acima é parte essencial do
processo de valorização urbana e de especulação imobiliária que tem como
principal agente a associação Viva o Centro. Para a associação, é necessário que
o Vale retome suas condições de uso originais para que o projeto que o embasou
possa ser continuado. Porém, para que tal fato seja realizado, concretizado e
aceito pela opinião pública, é necessário que o Vale seja associado a um
determinado fato histórico marcante na cidade de São Paulo. Para isso, a
mitificação da história tem papel fundamental. Segundo Ana Maria, o Vale do
Anhangabaú representa a verdadeira centralidade da cidade de São Paulo; foi
exatamente daquele ponto que partiram os bandeirantes em sua expedição de
expansão do território paulista e nacional e, portanto, como centro deste primeiro
mito, deve ocupar o destaque e a visibilidade frente a toda a cidade, a todo país e
ao mundo. Esta mesma idéia é reforçada em matéria publicada na revista URBS,
ano IX, nº 36, na qual é apresentada a nova proposta de organização do Vale do
Anhangabaú. Na matéria, o Vale é entendido como o “cartão de visita” da cidade
de São Paulo e, portanto, é necessário “lhe restituir a função de portal do centro”.
Entendido como o “coração da cidade” neste discurso, o Vale do Anhangabaú
surge como a “pedra angular” sobre a qual “o centro poderá se consolidar como
âncora das atividades ligadas ao turismo, lazer, cultura e entretenimento,

150
altamente geradores de emprego e renda”. Porém, este discurso oculta os reais
interesses ligados ao processo de revalorização e de especulação imobiliária da
“região central” da cidade de São Paulo, processo no qual tal Associação é o
principal agente.
A associação Viva o centro se auto-define como uma espécie de órgão de
consultoria pública, de criação de projetos que devem ser colocados em práticas
pelo poder público. Este caráter da Associação pode ser percebido nas últimas
eleições municipais, nas quais a Associação lançou um documento no qual
apresentava suas principais reivindicações aos candidatos. Era uma série de
propostas que indicavam intervenções urbanas na região central da cidade de São
Paulo, que “visavam o interesse público”. Mas, a quem realmente interessa as
propostas da Associação Viva o Centro? E quem ela representa? Na verdade, a
Associação Viva o Centro representa uma série de corporações que têm
interesses imobiliário-especulativos na região central da cidade de São Paulo.
Representa uma série de interesses especulativos, que vêem na organização
espaço-temporal da cidade uma maneira de reproduzir a acumulação do capital,
uma maneira de, reproduzindo uma determinada espaço-temporalidade,
reproduzir os seus interesses, principalmente aqueles ligados ao capital financeiro.

151
Fonte: Revista URBS, ano IX, nº 36. pág. 17.

Interessante notar que, nas propostas da Associação Viva o Centro, o


termo revitalização é substituído pelo termo requalificação. Segundo Ana Maria,
este fato se dá porque o problema não é a ausência de vida naquela região, mas a
qualidade desta vida. Ou seja, requalificar o centro da cidade de São Paulo é dar
uma outra qualidade aqueles que lá fazem sua vida. Dessa maneira, as

152
intervenções urbanas realizadas naquela região têm apresentado o claro objetivo
de delimitar as fronteiras daquilo que é permitido e daquilo que não é permitido
como prática sócio-espacial. Umas das principais propostas que atualmente é
defendida pela Associação diz respeito a abertura de ruas nos calçadões do Vale
do Anhangabaú e do seu entorno. A justificativa: os carros já ocupam aquela área
e dessa maneira o que a Associação propõe é uma forma de organização de uma
realidade já existente. O que está por trás, porém, desta discussão é a luta
histórica existente entre a Associação Viva o Centro e os comerciantes de rua
daquela região. Ao tentar explicar a posição da Associação frente esta disputa
com os camelôs, Ana Maria parte da definição de espaço público, que redefine a
partir de seu interesse.

Qual é o conceito de espaço público? O que, que é público? Há uma


tendência de se considerar o público como sendo de ninguém. E o que é
público, não é verdade que não é de ninguém. O que é público é de todos.
Então, para a Associação Vivo o Centro, o espaço público é de todos,
portanto não pode ser apropriado por ninguém.
Quando o camelô instala sua barraca, para vender as bugigangas; as
coisas dele, que ele está vendendo; ele está se apropriando do espaço
público, do espaço de nós todos. É uma questão conceitual.

Se o espaço público é de todos, então quem teria autoridade para


determinar seus usos? Por que a associação Viva o Centro se acha possuidora de
tal autoridade? Segundo a Associação, quem define os usos e, portanto,
normatiza o espaço público é a prefeitura através do plano diretor e da lei de
zoneamento. O que a associação faz é apenas apresentar propostas. Mas por que
será que a maioria das leis definidas para o “centro de São Paulo” seguem as
propostas feitas pela associação? Será que este fato tem alguma relação com
financiamentos de campanha, com a influências dos grandes grupos financeiros
(Bank Boston) que compõe a maioria dos associados da Viva o Centro? Ou
simplesmente por que realmente, são ótimas a propostas da Viva o Centro?
Talvez já saibamos a resposta.
Tendo como um dos seus principais financiadores a Associação Comercial
de São Paulo, a Viva o Centro representa os interesses dos grandes comerciantes
daquela região, que há anos propõe “uma limpeza” da área, com a retirada de

153
todo o comércio ambulante. Dessa maneira, como vimos, o projeto de
requalificação da “área central”, termo utilizado pela Associação para se referir a
região central da cidade, propõe uma outra idéia de região central, ou melhor, a
retomada de uma idéia antiga, já que aquela área, como vimos, desde sua criação
foi destinada a elite da cidade de São Paulo. Por mais que o caráter popular da
festa fosse reafirmado, as práticas sócio-espaciais e os interesses dos agentes
hegemônicos de construção da cidade vêm no caminho contrário do discurso.

Fonte: Revista URBS, ano IX, nº 36. pág. 18.

154
Fonte: Revista URBS, ano IX, nº 36, pág.18.

Na verdade, o trajeto escolhido demonstra o interesse de tal Associação no


direcionamento dos olhares, da atenção e dos investimentos para aquela região
da cidade, principalmente investimentos internacionais que possibilitem uma maior
inserção da cidade na rede de cidades mundiais. Para a Associação Viva o
Centro, a região Central da cidade representa o Cartão de visita da metrópole para
o mundo e, portanto, a questão que se coloca é a seguinte: se o centro deve ser
popular, o que é definido então como popular? O que a Associação Viva o Centro
procura fazer é delimitar claramente o uso do “centro histórico da cidade”, é
normatizar sua prática, é definir o que é e o que não é permitido e dessa maneira
realizar um processo que não nem de requalificação, nem de revitalização, mas de
revalorização imobiliária, de especulação financeira, de reprodução ampliada do
capital.
Outra importante questão sobre a escolha do trajeto da festa dos 450 anos
diz respeito a uma guerra interna entre os agentes produtivos dos lugares da
metrópole. Os interesses ligados aos processos de revalorização imobiliárias na

155
metrópole paulista surgem ocultos na festa, mas são essenciais para compreendê-
la e assim compreender os interesses ligados a construção da metrópole. Para
tanto, é necessário se levantar algumas questões: de que maneira se deu a
relação entre as diferentes “centralidades” da metrópole na escolha do trajeto?
Quais os interesses de cada um dos agentes, ligados a uma dessas centralidades,
na escolha deste trajeto? Houve conflito e ou cooperação? Com a escolha do Vale
do Anhangabaú como ponto de convergência para as comemorações, quem
perdeu e quem ganhou? Todas as questões, surgidas durante a realização de
nossa pesquisa, dizem respeito ao caráter fragmentário da metrópole paulista. Ao
invés de um único discurso o que há na metrópole de São Paulo é uma série de
discursos, diretamente relacionados aos agentes produtores dos lugares da
metrópole, que se utilizando do discurso histórico e geográfico da cidade, dão um
determinada leitura ao mesmo com objetivo de justificar seus interesses e suas
estratégias. Em cada centralidade os agentes requerem o direito de receber
investimentos e atenção do poder público. Em cada uma delas, tais agentes
reclamam o direito de ter a revalorização de sua centralidade, de seu processo
imobiliário-especulativo. E a partir disso, a “cidade acolhedora”, “a cidade unificada
pelos seus tantos mitos” oculta a cidade divisão, a cidade fragmento, resultados
dos processos e dos interesses ligados a lógica de reprodução ampliada do
capital. E aqui não é de Pós-modernidade que estamos falando, como nos fazem
crer tantos arquitetos, urbanistas e cientistas sociais, inclusive geógrafos,
reprodutores que são destes discursos locais e dos seus interesses, mas do
aprofundamento de uma mesma lógica, que seja a da reprodução ampliada do
capital que funde capital financeiro e capital imobiliário num processo de
especulação-fragmentação-especulação.

3.6 O efeito de zapping: a cobertura mídia e a produção de uma


nova prática sócio-espacial

Um dos elementos principais a serem observados nas comemorações dos


450 anos da cidade de São Paulo diz respeito a cobertura das mesmas pelos

156
diferentes meios de comunicação de massa. Pela primeira vez na história da
cidade, seu aniversário se transformou num espetáculo transmitido ao vivo para a
quase totalidade de seus habitantes, ficando de fora apenas aqueles que não
possuíam televisão ou que não tinha pagado a conta de luz. Este fenômeno da
transmissão ao vivo de um determinado espetáculo diz respeito a um processo de
massificação da informação que não resulta, diretamente, numa melhor
compreensão da realidade por parte da população. O que vemos é um processo
de distanciamento da crítica e da reflexão ao se pensar a realidade em suas
múltiplas faces.
Portanto, é importante que compreendamos o papel desempenhado pela
mídia em suas diferentes formas não apenas neste evento, mas em todo o
cotidiano, produzindo-o e sendo produzido por ele, resultando em impactos e
transformações sobre a apreensão e prática da realidade por parte da população
que se transforma em massa de telespectadores. Um desses impactos diz
respeito ao chamado efeito zapping46 que é transportado da tela da tv para a
prática cotidiana. Em seu livro Máquina e Imaginário, Arlindo Machado analisa os
impactos que efeito zapping ocasiona na percepção da realidade dos
telespectadores, que passam de canal em canal, buscando uma nova imagem,
uma nova narrativa, que possa se contrapor a falta de sentido aparente na qual se
configura a televisão. Com o controle, o telespectador atravessa uma série de
micronarrativas que no fundo, apresentam-se como parte integrante de uma
mesma lógica, que seja, a lógica da reprodução do capital a partir da forma
mercadoria. Pensando como elemento próprio do momento atual no qual os meios
de comunicação em massa ganham força e se expandem rapidamente, o efeito
zapping não se restringe apenas a relação do telespectador com a televisão, ou
do ouvinte com o rádio, mas implode a esfera da vida pública e passa a redefinir a
relação dos habitantes com a cidade. A cidade passa a ser percebida também
como um conjunto de micro-narrativas que espacializam, cabendo ao habitante,

46
“De início há o zapping e também há o zipping. Zapping é a mania que tem o telespectador de mudar de cal
a qualquer pretexto, na menor queda de ritmo ou de interesse do programa e, sobretudo, quando entram os
comerciais. Zipping, por sua vez, é o hábito de fazer correr velozmente a fita de vídeo durante os comerciais
em programas gravados em videocassetes.” (MACHADO, 2001: 143).

157
em sua vivência superficial da cidade procurar por aquela narrativa que considerar
mais repleta de sentido. O vagar pela cidade se transforma então, numa busca
incessante de micro-narrativas, de imagens e de discursos que possibilitem, de
alguma maneira, um pouco de sentido para uma vida marcada pela alienação
sócio-espacial, pelo sentimento de deslocamento e de não pertencimento, bases
estas do homem moderno, integrante do mundo da mercadoria, sem saber,
porém, que ele também o é.
No caso das comemorações dos 450 anos da cidade de São Paulo,
podemos perceber que a organização do espetáculo procurou acentuar este
caráter da travessia transformada em marcha, no sentido em que, ao criar a
parada dos 450 anos e distribuir uma série de quiosques por toda a extensão da
avenida 23 de maio, criou a possibilidades, pelo menos em aparência, da escolha
das narrativas. Em cada um dos quiosques, um discurso aguardava o habitante
que caminhava em busca da compreensão de sua realidade, ou pelo menos, em
busca de um bom corte de cabelo ou de uma ligação gratuita. A “cidade mãe”
oferecia prendas àqueles que sabiam esperar, aguardar a sua vez de ganhar
notoriedade na cidade em que todos são iguais, no sentido em que perpassados
pela lógica e pela forma mercadoria. Segundo Arlindo Machado, este processo de
busca incessante por novas narrativas criou, ele mesmo, um novo tipo de
narrativa, que seja, a narrativa impaciente. Segundo o autor,

“Essa forma narrativa limítrofe toma corpo sobretudo nos videoclipes.


Trata-se, antes de tudo, de uma aparência do relato, a sugestão pura e
simples de um universo fictício possível mas nunca efetivado. É como se
o videoclipe contasse uma história, à maneira do cinema: lá estão os
personagens, cenários e fragmentos de uma possível ação; a história
está sempre a ponto de constituir-se, mas nunca chega a tornar-se
apreensível, não se torna jamais articulada numa seqüência de
acontecimentos coerentes. Resta apenas algo assim como um efeito de
narração ou um simulacro de ficção. (MACHADO, 2001: 161)

Na narrativa impaciente não há ação, apenas simulação. Como diz o autor,


os personagens estão lá, a história parece existir, mas um segundo depois tudo
muda: novos cenários, novas personagens, novas histórias, nenhuma ação. É
esta então a forma de apreensão da realidade que passa determinar as relações

158
dos homens com o espaço público na cidade de São Paulo, tendo como principal
mediação a relação estabelecida com a mídia. Como já dissemos e reafirmamos
aqui, o homem incapaz de narrar, de contar sua própria história, a história do seu
lugar, é o homem que vive em marcha, no sentido em que é levado a marchar
simplesmente para se movimentar, sem sentido, sem transformações. Do início ao
fim da marcha este homem continua o mesmo, procurando por narrativas que
dêem sentido a sua vida, porque, ele mesmo, é incapaz de narrar e, portanto,
incapaz de dizer quem é, de onde vem e para onde vai. Sua vida é regida por uma
lógica que mesmo sem compreender, o define e o narra. É esta lógica que conta
sua história, que diz quem ele é, para onde deve ir, para onde deve marchar.
Mesmo sem entendê-la, e talvez, por isso mesmo, este homem acredita que fora
desta lógica ele não tem sentido e daí se cria toda o falso discurso benevolente da
inserção. Este homem deve ser inserido, deve fazer parte de uma lógica que ele
não compreende, não porque esta lógica propicia o desenvolvimento de todas as
possibilidades da vida, ou porque tal lógica permite aos homens sua plena
compreensão, mas, porque, como discurso, esta lógica se quer unilateral e
autoritária. Quer, num processo de totalização, destruir todas as outras
possibilidades da vida, quer ser a única narrativa possível e o faz de uma maneira
tão oculta que alguns pseudo-intelectuais acreditam em suas mentiras e saem
pelo mundo, como profetas do apocalipse anunciando o fim das narrativas. A
lógica da inserção levada aos seus extremos quer anunciar o fim da utopia, das
possibilidades, do outro, pois afirma a predominância do reino da mercadoria, da
forma imagem da mercadoria.
Neste momento histórico do desenvolvimento do modo de produção
capitalista, vivemos não a era das incertezas, nem da irracionalidade, mas a era
dos contrários, dos opostos que não se contradizem. Chamamos de democracia o
que há alguns anos denominávamos de ditadura, chamamos de vida o que
dizíamos mercado; chamamos crítica o que há muito era passividade. E é neste
momento histórico, da era dos contrários sem contradição que chamamos de
história o que há tempos era mito e de geografia o que hoje é simulação.

159
3.7 Da Festa Popular ao Espetáculo de Massa

Em um excelente livro publicado há alguns anos, Elias Canetti apresenta


algumas análises e perspectivas sobre o fenômeno da massa, que naquele
momento histórico surgia como importante elemento que definia uma mudança
fundamental na política, tanto em sua teoria quanto em sua prática. É importante
que desenvolvamos melhor as idéias apresentadas pelo autor para que possamos
compreender o fenômeno que aqui analisamos que diz respeito ao discurso e a
imagem da cidade de São Paulo presentes nas comemorações de seus 450 anos.
Partamos, então, da seguinte afirmação de Canetti:

“Um fenômeno tão enigmático quanto universal é o da massa que


repentinamente se forma onde, antes, nada havia. Umas poucas
pessoas se juntam – cinco, dez ou doze, no máximo. Nada foi
anunciado; nada é aguardado. De repente, o local preteja de gente. As
pessoas afluem, provindas de todos os lados, e é como se as ruas
tivessem uma única direção. Muitos não sabem o que aconteceu e, se
perguntados, nada tem a responder; no entanto, têm pressa de estar
onde a maioria está. Em seu movimento, há uma determinação que
difere inteiramente da expressão da curiosidade habitual. O momento de
uns – pode-se pensar – comunica-se aos outros mas não é só isso: as
pessoas tem uma meta. E ela está lá antes mesmo que encontrem
palavras para descrevê-la: a meta é o ponto mais negro – o local onde a
maioria encontra-se reunida” (CANETTI, 2005: 14-15).

Nesta primeira descrição que o autor faz do fenômeno da massa em seu


livro Massa e Poder, alguns elementos fundadores de tal fenômeno estão
presentes. Um deles é a aparência da falta de direção e sentido que marcam a
massa. Segundo o autor, a massa se forma, aparentemente, sem nenhum objetivo
e se dissolve da mesma maneira. Sua única grande meta é a aglomeração em si
mesma. O movimento se dá a partir da necessidade de se aglomerar, de estar
junto, de se confundir com os outros que formam a massa, a confusão de gentes.
Porém, a questão que é necessário compreender diz respeito ao elemento que
está na base do fenômeno da massa, que o define, que lhe dá forma. Segundo

160
Canetti, é o medo do desconhecido 47, do outro que lhe é indiferente, que faz os
homens se reunirem na massa, pois na massa, o desconhecido, o outro já não
existe.

“Na massa ideal, todos são iguais. Nenhuma diversidade conta, nem
mesmo as dos sexos. Quem quer que nos comprima é igual a nós.
Sentimo-lo como sentimos a nós mesmos. Subitamente, tudo se passa
então como que no interior de um único corpo” (CANETTI, 2005: 14).

A massa pressupõe a idéia da unidade, do fim das fronteiras entre os


homens. Idéia da globalização, da mundialização, imagem do fim das
desigualdades. A massa pode ser concebida como símbolo do discurso atual da
mundialização que pressupõe o fim de todas as fronteiras e que oculta as
desigualdades, numa falsa representação da festa tornada espetáculo e da vida
tornada simulação. Pensemos nas torcidas de futebol, nos shows de rock, nas
igrejas, a massa está presente em todos os lugares e em lugar nenhum. Ela é
manipulação porque dependente de vontades externas que estão para além da
individualidade e que, na verdade, rompem com a individualidade, arremessando
os homens uns contra os outros numa mesma direção, que seja, a da
aglomeração.
É interessante notar que o fenômeno da massa e da aglomeração, como
base atual da política (transplantada do campo da ética para o da estética), surge
acompanhado da acentuação da figura do indivíduo. Na aparência, tal relação
entre indivíduo e massa parece contraditória; em alguns casos, até mesmo,
oposta. Porém, na essência, o que se revela é que só através da transformação
do homem em indivíduo, do ser cooptado em todas as suas esferas e igual porque
mercadoria como quaisquer outras, é que a massa pode se formar. A massa é a
afirmação do indivíduo indiferente, uniforme, em detrimento da individualidade do
ser enquanto sujeito histórico, enquanto ser social, enquanto pessoa, no sentido
psicológico do conceito.
47
“Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido. Ele quer ver aquilo que o está
tocando; quer ser capaz de conhecê-lo ou, ao menos, classificá-lo. Por toda parte, o homem evita o contato
com o que lhe é estranho. À noite ou no escuro, o pavor ante o contato inesperado pode intensificar-se até o
pânico. Nem mesmo as roupas proporcionam segurança suficiente – quão facilmente se pode rasgá-las, quão
fácil é avançar até a carne nua, lisa, indefesa da vítima” (CANETTI, 2005: 13).

161
Outro elemento apontado por Canetti como fundamental para o surgimento
da massa diz respeito a questão da descarga, elemento este que possibilita a
falsa sensação de igualdade que mantém unida a massa.

“Somente a união de todos é capaz de promover-lhes a libertação das


cargas de distância. E é precisamente isso o que acontece na massa.
Na descarga, deitam-se abaixo as separações, e todos se sentem
iguais. Nessa sua concentração, onde quase não há espaço entre as
pessoas, onde os corpos se comprimem uns contra os outros, cada um
encontra-se tão próximo do outro quanto de si mesmo. Enorme é o alívio
que isso provoca. É em razão desse momento feliz, no qual ninguém é
mais ou melhor que os outros, que os homens transformam-se em
massa” (CANETTI, 2005: 17).

Ponto fundamental de análise do fenômeno da massa, a descarga diz


respeito ao rompimento do medo do outro, do desconhecido, porque o outro já não
existe, já não é diferente de mim. Tornou-se, então, meu igual, meu contato. Na
massa, os homens ocultam suas reais condições, dissolvendo-as em favor do
discurso produzido pela própria massa. O discurso da massa é o da igualdade, da
homogeneidade, e deste nasce o espetáculo em detrimento da festa. O
espetáculo é o resultado da transformação dos homens em personagens que têm
como função representar o mesmo papel, o papel que a massa lhe fornece. O
espetáculo é, então, a representação do discurso, da narrativa produzida pela
massa, ou melhor, para a massa, que incorpora uma narrativa externa como se
fosse sua. A narrativa da massa é a não narrativa porque ausente o sujeito capaz
de narrar. Na massa, os sujeitos são aniquilados em favor do indivíduo e a
narrativa externa é internalizada e falsificada como narrativa da massa. O que há
na verdade é a ocultação da grande narrativa que define o momento atual do
modo de produção capitalista. Ao invés do fim das grandes narrativas como
querem afirmar os profetas do pós-modernismo o que há é a afirmação de uma
narrativa que totaliza todas as outras. Narrativa esta que gira em torno de um
mesmo ponto e que ciclicamente retorna ao mesmo lugar. A massa não está em
travessia, no sentido em que não se encontra aberta ao desconhecido, pois este,
no mundo da mercadoria, já não existe, ou pelo menos, encontra-se enquanto
resíduo, mas marcha, caminha na direção da maioria. A questão central, porém, é

162
que também a maioria não sabe aonde vai, porque na massa é impossível saber
quem deu o primeiro passo. Na massa caminha-se simplesmente porque é este
ato que faz dos indivíduos que compõem iguais entre si, iguais porque vazios de
sentido e de direção, iguais porque representantes do mesmo espetáculo, iguais
porque inconscientes do real discurso que os dirige, a grande narrativa da
atualidade, que seja, a da forma imagem da mercadoria, que transforma o homem
em massa, a festa em espetáculo, a vida em consumo.
A partir destes pressupostos teóricos, retomemos a discussão acerca do
discurso norteador das comemorações dos 450 anos da cidade de São Paulo.
Porque se enfatizou tanto o “caráter popular” deste espetáculo? Seria porque
tínhamos no poder um governo de centro-esquerda que pautou em grande medida
suas ações a partir de adoções de políticas populares? Mas não foi este mesmo
governo que andou de braços dados com a Associação Viva o Centro? Então, o
que mais havia de oculto atrás deste discurso? O que ocorreu neste processo foi a
transformação da violência simbólica em habitus, a partir da internalização de tal
violência, de sua transformação em cotidiano e em prática sócio-espacial. Era
necessário que se esvaziasse o conteúdo histórico e geográfico das
comemorações para que, como imagem, estas se transformassem apenas em
forma e fosse reproduzida como tal. Para tanto, se faz necessário que
compreendamos o papel desempenhado pela mídia, principalmente a mídia
televisiva na cobertura dos 450 anos da cidade de São Paulo.
Quando analisamos um determinado discurso e uma certa imagem é
necessário que analisemos também os agentes responsáveis pela divulgação e
afirmação dos mesmos. Como vimos na comemoração dos 400 anos, a elite
paulista, representado em seus centros de pesquisa, assumiu a responsabilidade
pela divulgação de um certo discurso e de uma certa imagem da cidade, não só
porque era a responsável por sua criação, mas porque tinha autoridade para tal.
Autoridade no sentido em que tal elite havia assumido e criado frente a toda a
cidade a idéia de uma certa descendência, senão biológica, mas moral dos
chamados pais fundadores da cidade, os bandeirantes. Como descendentes
diretos destes, tal elite se achava na condição de falar em nome de toda a cidade

163
e assim o fez. Portanto, naquele momento histórico e geográfico tal elite possuía
as condições políticas necessárias para o exercício de tal autoridade e com isso
transformaram um determinado discurso em história.
Na atualidade, quem possuiria tal autoridade para falar em nome da
cidade? Quem teria tamanha aceitação no sentido em que tudo o que dissesse,
tudo que pronunciasse, no mesmo instante se transformaria em verdade, em
história? E é este o papel que desempenhará a mídia nas comemorações dos 450
anos da cidade de São Paulo. Como grande agente de produção de ideologias, na
forma de discurso e de imagem, a mídia, principalmente a televisão desenvolveu
historicamente uma autoridade capaz de lhe dar aceitação e respeitabilidade
diante de todas as classes sociais. Ao incorporar o discurso histórico e geográfico
da cidade de São Paulo, a televisão o recriou e o transformou em seu. Com isso, a
televisão, na figura da rede Globo, se transformou na grande criadora de discurso
e imagens, que se apresentam para o homem comum como verdades.
Ao fazer a cobertura dos 450 anos da cidade de São Paulo, a rede globo
apropriou-se de antigos discursos e os recriou a sua maneira. Deu-lhes novas
formas, novas faces e fez com que este discurso e esta imagem se espalhassem
por todos os cantos da cidade. O mito do povo paulista, de sua unidade, criou uma
falsa unidade em todos os lares da cidade. Trancados em suas casas, de
diferentes tamanhos, em diferentes, os habitantes da cidade de São Paulo se
sentiam parte de uma unidade orgânica criada pelo discurso e pela imagem,
divulgados pela rede Globo. Suas reais condições de vida foram descartadas
frente ao discurso produzidos e veiculados pela televisão e, naquele momento,
não importasse mais onde cada um deles morava, faziam parte do “povo paulista”,
de um mito recriado e reafirmado pela rede Globo. Responsável pela chegada da
festa em todos os lares, a televisão possibilitou a que todos os habitantes da
cidade, compartilhassem através da “tela mágica” da TV a sensação de bem-estar
e de alegria, produzida pela festa. A transmissão ao vivo da festa representou
então, a transmissão momentânea de um mesmo discurso, o que resultou numa
forma única de conceber a festa e a cidade. Resultou na unilateralidade do
discurso e da imagem e, portanto, na unilateralidade da vida.

164
Para aprofundarmos nossa discussão é necessário que desenvolvamos um
pouco melhor o conceito de festa. Segundo ITANI, a festa pode ser entendia ao
mesmo tempo como um fato social, como uma forma de apropriação do tempo e
do espaço e como um fato político. Para a autora,

“Ela constitui o momento e o espaço da celebração, da brincadeira, dos


jogos, da música e da dança. Celebra a vida e a criação do mundo.
Constitui espaço de produção dos discursos e dos significados e, por
isso, também dessa criação na qual as comunidades partilham
experiências coletivas. Ela representa, igualmente, o momento da
experiência prazerosa dessa convivência coletiva. A produção da
festividade é, ainda, a composição de momentos do brincar com a
experiência ritual da memória coletiva, da vivência com o passado e o
presente, com as cerimônias e com as brincadeiras. (ITANI, 2003: 7-8),

O conceito de festa está relacionado com a busca de uma determinada


unidade dos homens com o cosmo, no sentido da religação. Deste pressuposto,
parte a idéia de que através da festa os homens estariam se apropriando de uma
determinada ordem espaço-temporal, de uma unidade, que os liga entre si, daí o
caráter religioso da festa, como rito, como culto, no sentido da religação, do
religar, palavra latina da qual provém o termo religião.
A festa, além de seu caráter religioso, tem a função de estabelecer
significações, de estabelecer reconhecimentos no sentido de possibilitar e afirmar
a idéia de pertencimento a comunidade, do ritual coletivo de apropriação de si
mesmo e de um determinado contexto, de uma determinada ordem espaço-
temporal. As festas, em sua grande maioria, estão ligadas a eventos climáticos,
biogeográficos, ligados a própria relação que uma comunidade estabelece com a
natureza, no sentido de sua alteridade, estabelecendo vínculos conflituosos e
harmônicos, a partir de um determinado modo de produção que além de resultar
na apropriação material, de um determinado contexto, resulta também numa certa
apropriação simbólica significativa daquela realidade.
A festa é então o ponto de convergência entre a apropriação material e a
apropriação simbólica que uma comunidade realiza em relação ao seu contexto
espaço temporal. É pela festa que a comunidade se fortalece, aumentando o
vínculo entre os seus membros e deles com uma determinada realidade.

165
No caso do Brasil, as festas, a partir do processo de colonização, passaram
a ter também um caráter político, um caráter de aculturação e de apropriação e
transformação da cultura local a partir da normatização dos ritos e do culto.
Segundo Tinhorão, em excelente trabalho sobre as festas durante o período do
Brasil Colonial,

“Assim, o que durante mais de duzentos anos se registra como


aproveitamento coletiva do lazer na colônia americana de Portugal não
seriam propriamente festas dedicadas a fruição do impulso individual
para o lúdico, mas momentos de sociabilidade festiva, propiciada ora por
efemérides ligadas ao poder do Estado, ora pelo calendário religioso
estabelecido pelo poder espiritual da Igreja”. (TINHORÂO, 2000: 7).

Segundo o autor, as festas brasileiras, no período colonial, surgiram como


imitação da cultura luso-hispânica, sendo a sua “implantação de forma autoritária,
ordenada de cima para baixo(...) sem qualquer concessão à cultura preexistente
das populações indígenas, ou à que adviria da rica mistura étnico-cultural (branco,
africano, crioulo)”. Neste sentido, a festas no Brasil, pelo menos como tendência,
surgiram como evento controlado de expressão de uma determinada cultura e
como ponto de apoio a todo o processo de colonização implantada na América
portuguesa. A festa perde o seu caráter de celebração, de religação, de
comemoração e realização de um determinado cultus, e passa a ser uma
manifestação descontextualizada da reprodução do poder simbólico,
representado, neste momento histórico, pelos interesses ligados a todo o processo
colonizador da América Portuguesa. E este processo de descontextualização é
essencial para se compreender de que maneira, as festas populares, na
modernidade, se transformam em festas de massas, em celebrações dirigidas e
direcionadas não no sentido de expressar um determinado contexto histórico e
geográfico mas para reproduzir a falta de sentido, que a festa, arrancada de seu
contexto, pode produzir.
Incorporada ao modo de vida urbano, esvaziada de conteúdo porque
esvaziada de contexto, a festa popular passa então de uma legítima expressão
relacionada a um determinado modo de vida, repleta de contradições e conflitos,
para a forma oca da mercadoria. Podemos citar, como exemplo deste processo,

166
as festas juninas que ocorrem nos grandes centros urbanos. São grandes
espetáculos, patrocinados por grandes marcas de alimentos e bebidas e que têm
por único objetivo criar um pseudo-ambiente de alegria e diversão. São festas de
massas no sentido em que,nelas, os homens surgem esvaziados de sentido,
porque deixando de serem homens passam a ser consumidores e mercadorias.
As relações de vizinhança, de cooperação e partilha que estão na base das
festas populares, nas quais se comemora a fartura, são esquecidas ou se
transformam em folclore, em lenda. Com isso, o espetáculo de massa, ao invés da
comemoração da fartura, oculta em sua realização a escassez, material e
imaterial, que acompanha os homens transformados em mercadoria, que sem
saberem comemoram sua própria opressão. A festa de massa, organizada
burocraticamente, desligada do contexto, ao invés de propor a unidade dos
homens, a religação dos mesmos com seus contextos e a possibilidade da
apropriação espaço-temporal, agudiza a fragmentação, a solidão, o vazio e a
simulação, bases estas da sociedade de consumo em massa, do consumismo, na
qual o reino da forma mercadoria se transforma no reino da forma imagem da
mercadoria.
Para se compreender este processo da relação entre fartura e escassez é
necessário que entendamos conceitos de sociedade insatisfeita desenvolvido por
Agnes Heller e Ferenc Fehér. Segundo os autores, este conceito estaria no centro
da compreensão do que é a própria sociedade contemporânea e por isso, ao
pensar o desenvolvimento de tal conceito, os autores

“buscaram captar a especificidade de nossa época mundial da


perspectiva das necessidades ou, mais particularmente, da criação,
percepção, distribuição e satisfação das necessidades”. ( HELLER e
FERENC, 1998: 29).

Em sua análise, os autores apontam uma característica essencial que


define e que é fundamental para a reprodução do atual momento histórico. Para
os autores, a sociedade atual é marcada pelo reforço da insatisfação como força
reprodutora da lógica de reprodução ampliada do capital. A criação de
necessidades, de maneira vertiginosa, ligada diretamente a não satisfação

167
destas , que não se configuram como necessidades reais, mais como imperativos
da lógica da reprodução ampliada do capital, arremessa os homens num
ambiente, ao mesmo tempo marcado pelo excesso e pela escassez, no sentido
em que nada do que consomem é capaz de aliviá-los da falta de sentido da vida.
A insatisfação leva a aceitação da criação de novas necessidades que, num ciclo
vicioso, insatisfação-necessidade-insatisfaçao, contribui de maneira decisiva para
que a reprodução continue a todo o vapor. Os homens esperam sempre um novo
produto capaz de realizar aquilo que o antigo não conseguiu. Esperam sempre
uma nova necessidade para tentar amenizar a angústia e o desespero da
escassez de sentido. Esperam um novo produto capaz de apagar todos os
resquícios deixados pelas reais condições de suas vidas. É neste sentido, que a
principal sensação da sociedade atual é a sensação de falta, de vazio e de
solidão. Para os autores,

“As esperanças estão impregnadas de contingências, mais o que


experimentamos são os difíceis fatos da vida, a limitação factual de
nossas possibilidades. A discrepância decisiva e intransponível entre
esperança e experiência é motivo de constante insatisfação e
descontentamento” (HELLER e FERENC, 1998: 36).

A partir disso, definir a sociedade insatisfeita é também pensar na lógica


subjacente que a cria e que muitas vezes não é colocada em xeque, nem mesmo
questionada. Não basta apenas saber de suas conseqüências: é necessário que
compreendamos seus mecanismos de funcionamento, sua lógica para que além
dos limites impostos pela mesma, pensemos também as possibilidades que estão
a partir dela, para além dela. Portanto, a contradição que marca a nossa época é
que está resumida na frase de HELLER e FERENC: “a sociedade insatisfeita
caracteriza-se pela expansão de carências e de necessidades” (1998: 40). E esta
contradição está presente nos grandes espetáculos de massas da atualidade,
como vimos até aqui.
A partir disso, o que será que realmente se celebra nestes grandes
espetáculos que substituem a fartura pelo desperdício, a realização pelo
consumo?

168
Comemora-se a experiência do deserto, a experiência da solidão e da
fragmentação. José de Souza Martins, ao analisar o conceito de cotidiano e
cotidianidade de H. Lefebvre, aponta o papel que o conceito de representação
desempenha na sociedade moderna. Segundo o autor,

“Na cotidianidade, e não na vida cotidiana, há um alargamento do


imaginário em detrimento da imaginação. A vida se torna um modo de
vida marcado por uma sociabilidade teatral, pela representação (por
fazer presente o ausente), pela fabulação.” (MARTINS, 2000: 104).

Segundo o próprio Lefebvre, o cotidiano

“percebe a si mesmo bem instalado no vazio entre o passado folclórico


e as virtualidades da técnica. Este vazio poderia e deveria ser
preenchido. Continua vazio e falsamente ocupado por uma substância
ambígua. É organizado como ausência e presença ilusória. É instituído e
constituído: a modificação mais simples, a mais indicada, a mais
inelutável apresenta problemas ilusórios e aparentemente insolúveis.”
(LEFEBVRE, 1969: 24).

Neste sentido, quando pensamos os espetáculos de massas, analisamo-


nos como continuidade do cotidiano e não como uma ruptura, uma transformação.
Não é apenas no espetáculo em que ocorre a representação, no sentido do “fazer
presente o ausente”, mas em todos os dias. A pergunta que devemos fazer, para
melhor compreender este processo é a seguinte: se a representação é fazer
presente o ausente, quem é este ausente? Quem está longe de si mesmo. Hoje,
os homens, transformados em mercadorias, representam o seu próprio papel. Na
atualidade, se fala do fim das grandes narrativas como aspecto definidor do “pós-
modernismo” O que há na realidade, é a incapacidade dos homens de narrarem
sua própria história, coletiva e individual. Narrar é reconhecer a si mesmo, é dar
sentido, direção, a uma vida, em sua essência, vazia de qualquer sentido. Quando
pensamos na incapacidade do homem em narrar, em contar sua trajetória, em
descrever a tradição, nos termos da continuidade do passado, pensamos na
nossa época, marcada pela monotonia cotidiana, pela ausência diária, pela
travessia forçada.

169
O homem incapaz de narrar é o homem também incapaz de escrever, de
desenhar sua espaco-temporalidade, de construir suas memórias, de se conceber
parte de uma ordem que vai para além dele mesmo, mas que se inicia nele
também. A representação, neste contexto, tem por base a falta de sentido sobre o
que realmente se representa. O que os homens representam nestas grandes
marchas? Para onde caminham? Quais são os seus reais desejos, quais suas
verdadeiras vontades? Sabem realmente os homens sobre o que sentem? Sabem
exatamente os homens sobre o que amam? Sabem exatamente os homens sobre
esta cidade, sobre suas contradições, sobre seus interesses, sobre suas
estratégias?
São Paulo é hoje também um grande simulacro, no qual os homens,
inconscientes de suas reais condições, representam sua própria opressão. São
Paulo está ausente de homens. O que vemos pelas ruas já não são mais homens,
são homens-mercadoria. O que vemos, com mais ênfase, pelas ruas é a
repetição dirigida, a reprodução de uma lógica que naturaliza o que é social, que
transforma o histórico, o geográfico, o social, em uma naturalização, que se
apresenta como “normal”, no “foi sempre assim”, na lógica da aceitação, do
conformismo, do mais do mesmo. Enquanto isso, a cidade também se representa
a si mesma. Ela é a representação daquilo que nunca foi. Estão aí os museus
para não nos deixar mentir: simulacros de uma realidade que nunca sai da
imaginação. A cidade representação, a falsa imagem do lugar das possibilidades e
dos sonhos, a terra prometida, a utopia, é antes de tudo o lugar da destruição dos
sonhos porque lugar da destruição de homens e da homogeneização da lógica da
mercadoria. Para São Paulo e seus homens transformados em massa e
mercadoria, talvez fossem necessárias as palavras de Raol Vaneigen:

“É preciso que um dia eu seja como quis que pensassem que eu era. É
necessário que a imagem que eu aspiro aceda a autencidade”.
(VANEIGEN, 2003: 255).

Retomemos um pouco a discussão. Pensemos um pouco nos jovens que


são os principais freqüentadores destas festas. Eles estão sempre em grupo,
vestem suas melhores roupas, produzem-se e criam uma imagem de si mesmos,

170
com a qual desfilam por todos os lados. Sua personalidade está na negação
daquilo que são e na incorporação de um determinado papel, de uma determinada
representação. O que são, seus significados, já não se encontram nos laços que
estabelecem com o mundo e com os outros, sua alteridade, mas no personagem
que encarnam, na imagem em que se transformam, no estilo de vida que imitam.
E para incorporar uma imagem não é necessário muita coisa: em todas as bancas
de jornal são vendidas milhares de imagens, milhares de micro-narrativas que
prometem dar sentido a uma vida marcada pela angústia e pelo abandono da falta
de perspectivas de uma época que se auto-consome.
A festa, na atualidade, é então uma grande experiência do deserto e da
escassez, camuflada na experiência da publicidade, da imagem, na experiência do
parecer ser que oculta aquilo que realmente se é. Ao invés da experiência da
afirmação, da realização e da construção de um projeto comum, da comunicação,
a festa, em seu caráter de massa, é a experiência da negação, do esvaziamento,
da destruição, que em detrimento do homem, como sujeito histórico, como ser
social em constante (re) construção, afirma a lógica da forma imagem da
mercadoria, como lógica atual da reprodução ampliada do modo de produção
capitalista.
Nesse sentido, quando analisamos as comemorações dos 450 anos da
cidade de São Paulo, não é de uma festa popular que estamos falando, de uma
festa construída pelo povo para o povo, de uma festa que abrigasse toda a
diversidade e as contradições presentes na cidade de São Paulo, mas de um
espetáculo de massa, de um espetáculo produzido por uma determinada elite, por
determinados agentes hegemônicos da construção da metrópole, veiculada e
transmitida ao vivo pela televisão, na figura da rede Globo, com o intuito de fazer
que um certo discurso e uma certa imagem da cidade se transformasse então na
única cidade possível. Ao invés de uma festa popular, as comemorações dos 450
anos da cidade de São Paulo transformou a população paulista, conflituosa,
diversa e, por que não, desigual, numa massa de telespectadores atentos a todas
imagens radiantes, criadoras de uma certa sensação de bem estar, que observava
um amontoado de pessoas que caminhava por um trajeto normatizado, ele mesmo

171
um grande discurso, sentindo-se parte de um grande mito que encaravam como
verdade. A festa, ao criar uma imagem e um discurso da cidade para o mundo,
ocultou suas reais condições, a condição de seus habitantes, que imersos neste
ambiente de espetáculo, esqueciam que não havia nada para se comemorar.

Conclusões

172
Ao terminarmos esta pesquisa, encontramo-nos divididos, fragmentados.
Concluir nem sempre é um ato exato, uma equação, uma fórmula em que
achando as variáveis, substituindo-as encontramos a solução. Em muitos casos,
se torna quase impossível qualquer tipo de conclusão, principalmente quando
entendemos a realidade enquanto processo, enquanto dinâmica, enquanto
movimento. Portanto, dispensamos aos que lerão esta pesquisa possibilidades e
impossibilidades do momento atual da cidade de São Paulo. Não se trata aqui de
otimismo e de pessimismo, nem apresentar soluções ou coisa que se valha, mas
sim de uma leitura da realidade que parte da premissa da busca pelo
entendimento crítico dos fenômenos analisados. Esta busca, porém, nos faz, por
vários momentos encontrar respostas que nem sempre são aquelas que
procuramos. Pudera pudéssemos manipular os fenômenos para os nossos
próprios interesses e encontrar as respostas que tanto desejamos. Mas para isso
já existem os livros de auto-ajuda e as escolas de economia. Aqui, porém tratamos
de pesquisa crítica e compromissada e neste caso mentir seria reproduzir o
discurso que há tempos oprime, não distinguindo entre oprimido e opressor.
Que o leitor compreenda esta nossa divisão, esta nossa fragmentação. Ela
é resultado da travessia desta pesquisa, que nos fez compreender nossa condição
de homem moderno, morador da cidade de São Paulo e, portadores, de um
discurso e de uma imagem que, alienadamente, reproduzimos. Talvez seja o leitor
também um ser dividido, cindido. E este fato nos conforta. Simplesmente por
saber, que num mundo que quer ausente o diálogo, encontramos enfim, no
homem dividido, no homem moderno, um interlocutor. Pudera nascer deste fato,
então, possibilidades... Viva o otimismo!

A “cidade mãe” do poeta

173
“De vez em quando eu me pego a refletir
e deixo de sorrir pra poder avaliar,
se compensou eu deixar a minha terra,
toda cercada de serras, pra na cidade morar.

Todas as vezes eu cheguei a conclusão


que foi pura ilusão, tempo perdido e mais nada,
com tudo isso eu me sinto dividido,
entre o meu sertão querido e minha nova morada.

Se eu pudesse eu ficaria um pouquinho,


repousando no cantinho que eu tenho em cada lugar,
o sertanejo curte a beleza das serras,
mas não tem valor na terra onde dinheiro não há.

Cada passeio que eu faço a minha terra


mata um pouco da saudade que agride o peito meu,
cada parente diz que estou diferente,
e eu já sinto saudade da cidade que deixei,

campo e cidade deveriam ser juntinhos


e existir um só caminho para a gente percorrer,
é na cidade que se ganha dinheiro,
mas morre o tempo inteiro com vontade de viver”
(Araújo)

Conheci José Bernardo de Araújo numa noite fria na zona Leste de São
Paulo. Participávamos naquela ocasião de uma feira cultural patrocinada pela
Petrobrás e que tinha como objetivo fazer um mapa cultural da arte na zona leste
de São Paulo. Apresentei-me com minha banda, os Sotádicos. Antes de nossa
apresentação, porém, Araújo, como é mais conhecido, subiu ao palco e declamou
dois de seus poemas-canções, o primeiro chamado o Milagre do Pão e o segundo
Cidade-Mãe (letra em anexo). Chamou-me bastante atenção a fala do poeta
Araújo: segundo ele, o poema-canção cidade mãe foi criado para suprir uma
lacuna da cidade de São Paulo, que ao completar 450 anos não possuía um hino
oficial. Sua apresentação me despertou uma série de dúvidas e estas me levaram
então a entrevistá-lo para entender um pouquinho de sua história e da música
criada.

174
Figura 21: O poeta Araújo e a poetisa Carol nos propiciaram uma conversa que foi muito além de
dados científicos, alcançando a amizade e proporcionando boas risadas. (Foto do autor, maio de
2005).

Numa outra noite fria, encontramo-nos, juntamente com a poetisa Carol,


ambos participante da sociedade dos poetas de Vila Prudente, para a realização
da entrevista. O local escolhido ao acaso foi um bar popular na Vila Prudente.
Talvez nada mais propício para o assunto que ali iria se desenrolar.

Não sei se você já se conscientizou que o mundo desabou de vinte anos


para cá. E tudo, há professores que não sabem, alunos que se recusam
a aprender, porque houve a massificação da eletrônica, hoje o mundo
vive em função da simulação. Eu não ligo, viver de simulação, dá pra
viver de simulação, dá, tanto é que as empresas de televisão
sobrevivem só que eles pensam que estão sobrevivendo só que eles
estão tão endividados que se o governo não segurasse as pontas eles
não conseguiriam sobreviver.

Em toda a entrevista fica evidente o descontentamento do poeta com


as condições políticas e culturais da atualidade. Sua crítica principal é direcionada

175
aos meios de comunicação em massa, os quais acusa de criar um mundo de
simulação, baseado em três provérbios:

tu vales quanto tens, o que é teu é meu, e quanto pior melhor. Nada a
mais a ser discutido e a ser estudado no planeta Terra. Neste momento
de conjuntura mental doentia.

Segundo o poeta, esta estrutura individualista, baseada apenas no lucro e


que desconsidera a qualidade daquilo que se produz é a principal responsável
pela crise cultural que atravessa o mundo, “neste momento de conjuntura mental
doentia”.
Araújo é cearense de origem. Está há trinta e seis anos na cidade de São
Paulo. Veio para cá por vontade dos pais que, segundo ele, não o queriam mais
por perto. Seu grande objetivo era estudar em São Paulo. “Obter cultura”,
utilizando-se de suas próprias palavras. E este é um elemento fundamental para
se compreender o discurso presente na obra de Araújo. O poeta apresenta uma
verdadeira devoção pelas características culturais de São Paulo. E isto pode ser
percebido pela série de alusões que faz a esta característica no decorrer da
entrevista. Para Araújo, São Paulo representa o centro cultural do mundo, todas
as possibilidades de acesso a cultura mundial, ao conhecimento produzido em
todo o planeta e que converge para São Paulo. São Paulo surge para Araújo como
o lugar das possibilidades e das realizações que irradia cultura e conhecimento
para o resto do mundo. E para justificar este fato, cita um exemplo de sua própria
vida:

Do ponto de vista educacional o que eu consegui em São Paulo, deus que


me livre. Um cara que estudou dinâmica, fiz curso de matemática na
escola Quintino de Bocaiúva, a escola de matemática mais arrojada na
história da matemática, e nem sei se ainda existe, fiz caminho do cientista,
acho que você nunca viu este livro, aquilo é milhões de vezes superior ao
que se ensina hoje nas escolas, aí eu fui formado em geografia, história,
técnico industrial, desenho, idiomas.

O que, porém, segundo Araújo, faria de São Paulo este centro de cultura
mundial? O que transformaria uma pequena Vila no século XIX numa cidade para

176
qual, segundo o autor, converge a cultura do mundo todo? Para Araújo, apesar da
cidade de São Paulo apresentar uma “deficiência estrutural” 48, o seu
desenvolvimento histórico possibilitou um crescimento econômico, social e
demográfico que possibilitou e definiu o caráter cosmopolita da cidade de São
Paulo.

São Paulo é a maior cultura do mundo até. De todo o planeta. Porque,


qual é o país que não tem uma representatividade aqui? Você conhece
algum? Temos até a cultura indígena, infelizmente não foi aproveitada.
Eles se sentiram tão desestimulados para sobreviver que nada mais
quiseram fazer. Qual é o país do mundo que não quer ter um fábrica em
São Paulo e no Brasil? Porque São Paulo hoje não é mais só o Estado
de São Paulo, São Paulo hoje é Fortaleza, é Paraná, Rio Grande do Sul.
Aí você pergunta: espaço físico? Não. Cultura Sapiencial. Porque o
torneiro mecânico que está trabalhando no Paraná, em Fortaleza, no
raio que o parta, se formaram em São Paulo, até porque eles não tinham
estas escolas lá. No tempo em que vim para São Paulo não havia estes
cursos, a gente nem sabia como surgiu o carro. Então São Paulo, queira
ou não queira, sempre vai ser o ponto de referência para qualquer
pessoa que queira se desenvolver, principalmente culturalmente.

Apesar de fazer algumas críticas a própria maneira como é contada a


história da cidade de São Paulo que, para Araújo, possui uma série de inverdades,
o poeta defende São Paulo de todos os ataques. Para ele, o grande culpado pela
tentativa de destruição da cidade de São Paulo seria o governo Federal, que
utilizaria os recursos de São Paulo para atender outros Estado e regiões, como o
Nordeste. É interessante notar este fato: o poeta enxerga, em sua análise, que os
problemas que envolvem São Paulo estão relacionados a assistência que este
Estado, via Governo Federal, envia, involuntariamente, para as regiões mais
pobres do país, inclusive aquele da qual ele provém. Este discurso, claro, é típico
dos regionalismos cegos que sempre apontam o alvo para o inimigo externo, que
deve ser encontrado ou, em muitos casos, criados. Em toda a sua entrevista, o
que mais chamou atenção, e este foi um dos motivos, que a partir de minha
conversa inicial com Araújo, me levou a entrevistá-lo, foi a contradição aparente
existente entre um discurso crítico radical e a reprodução de um discurso que é
48
Segundo o poeta, a deficiência estrutural da cidade de São Paulo estaria em sua questão populacional, na
qual, “a mistura de raças” contribuiria negativamente para o desenvolvimento da cidade. “O povo paulista,
lamentavelmente surgiu de uma cultura meio que “import”. Mistura de raças. Não foi um povo que surgiu de
uma família que se estruturou, que se moldou, que se evoluiu, que se industrializou, não, o povo paulista, que
nem o povo americano, tem esse problema, esta deficiência estrutural.”

177
próprio discurso histórico e geográfico da cidade de São Paulo. Em toda a
entrevista, o poeta parece acertar o alvo ao fazer crítica ao papel desempenhado
pela mídia na sociedade atual, mas retrocede nesta mesma crítica quando as
discussões se voltam para a cidade de São Paulo. Em toda a entrevista, a cidade
de São Paulo aparece como intocável, isenta de crítica e de reflexão, elementos
estes que se constituem na base de toda reprodução do discurso que se quer
poder simbólico.
Para entendermos melhor esta questão, é necessário que
consideremos um primeiro fato.

Esta música foi composta exatamente quando eles começaram a fazer a


propaganda dos 450 anos que seria este evento mal fadado, eu acho
que foi o pior evento que São Paulo fez, eu estive lá pessoalmente, foi
feio, a Globo desligou as câmeras, o povo foi para a praia, foi um
negócio feio, foi feio até demais.

Quando iniciamos nossa pesquisa acerca das comemorações dos 450 anos
da cidade de São Paulo, um de nossos objetivos era compreender qual a
capacidade de influência que a mídia poderia exercer na população no que diz
respeito a compreensão da realidade. Esta questão se justificava visto a enorme
cobertura da mídia, pré e pós-evento, contribuindo na construção do discurso e da
imagem da cidade. Ao analisarmos a fala do poeta Araújo sobre a criação da
música “Cidade Mãe”, podemos inferir que a idéia proposta pela mídia, da “cidade
que todos acolhe”, da “cidade que sempre cresce”, da “cidade que é sinônimo
próprio do progresso”, está claramente presente na canção e na forma como o
poeta concebe a cidade. Segundo Araújo,

São Paulo detém a maior cultura mundial, São Paulo tem um cultura
importada, tem cultura de todos os conglomerados do planeta, é claro
que estão aí nos livros, nos cadernos, sei lá o que, mas se um dia São
Paulo for incendiada morre a maior cultura do mundo.

Para Araújo, a cidade de São Paulo se destaca em relação as demais do


Brasil e do mundo pela sua característica de ser um pólo cultural, de possuir todas
as formas de cultura concentradas aqui. “Todo o mundo está em São Paulo”. Mas
não seria exatamente isto que a propaganda oficial enfatizou, o cosmopolitismo

178
paulista? Façamos um exercício de comparação entre o hino dos 450 anos da
cidade, escrito por Rodrix e a canção composta por Araújo.

São Paulo é
Minha cidade, é
Minha verdade e minha devoção
São Paulo tem
O mundo inteiro, tem,
E cabe tudo no seu coração.

São Paulo quer


Que a gente viva em paz
Crescendo alto e forte e muito mais
(Hino dos 450 anos)

São Paulo Cidade Mãe dos filhos dos povos de todas as raças.
São Paulo de gente que migra em todas as ruas e em todas as praças,
O mundo te desidera, por tua grandeza, cidade progresso;
Teu povo, que sempre trabalha, é quem te transforma em cidade sucesso.
(Letra de Cidade Mãe)
Quais são os discursos presentes nas duas letras? O que há de
continuidade e o que há de ruptura? Podemos perceber, nas duas letras aqui
analisadas que há uma continuidade dos discursos nos quais se baseiam. São
Paulo aparece como a cidade que acolhe o mundo, a cidade de todos os povos e
de todas as raças. É também a cidade da gente que vive em paz, crescendo alto e
forte e muito mais, e a cidade do povo que sempre trabalha, da cidade progresso.
Diferentemente das classes sociais a que pertencem, os dois poetas cantam São
Paulo da mesma maneira. Não há crítica em suas letras, nem reflexão. Há apenas
o discurso histórico e geográfico da cidade de São Paulo que transformado em
verdade passa a definir as formas de apreensão da realidade de todos aqueles
que habitam esta cidade. O que há, porém por detrás deste fato?

179
Um dos elementos fundadores da modernidade, tão bem analisado por
Marx, diz respeito a alienação do trabalhador em relação ao trabalho. Ao
tentarmos fazer a crítica a este fenômeno, a alienação do trabalho, muitas vezes
assumimos a categoria trabalho como uma mera abstração e de dessa maneira
reproduzimos a alienação do trabalho que entende o trabalho como igual e,
portanto, abstrato, independentemente do homem que o realize ou do lugar no
qual é realizado. Porém, é necessário que analisemos a categoria trabalho em sua
perspectiva ontológica na definição da própria humanidade, na definição do
homem como ser social. Ao pensarmos o trabalho a partir desta perspectiva,
perceberemos que em sua essência ele é formador de sentido. É por meio do
trabalho que o homem se relaciona com seu meio, transformando-o e
transformando a si mesmo. E é nesta relação-transformação que o homem se
apropria do lugar e ao se apropriar cria sua territorialidade e sentido. O trabalho
não produz apenas materialidades, mas se expande também para o campo da
subjetividade. Ao me apropriar pelo trabalho de um determinado meio, é um pouco
de minha história que começo a escrever, é minha espaço-temporalidade que
construo, minha história que é também história do meu lugar, de minha
territorialidade.
Dessa maneira, quando pensamos na alienação do trabalho criada pela
modernidade, com o desenvolvimento da expropriação em massa, causa e
conseqüência do modo de produção capitalista, pensamos também que esta
alienação é base de uma outra, essencial para se compreender a crise atual do
homem moderno. A alienação fundamental da modernidade, a partir desta
perspectiva, é a alienação espacial, a alienação do homem retirado do seu lugar,
daquilo que lhe dá sentido, que lhe permite compreender e narrar sua história,
descrever sua geografia. O processo de surgimento da modernidade cria, então
está alienação fundamental que está na base de todo o processo de
mundialização, visto que, os homens desterritorializados no sentido em que não
mais se identificam com o lugar, são arremessados num mundo recém criado que
promete aventuras e desafios. O homem já não se sente mais em casa. Neste
mundo, não há mais lugar, porque seus lugares foram deixados para trás. Daí o

180
surgimento de um dos principais elementos que compõem a modernidade, que
seja, o romantismo, um sentimento de fragmentação, do sentir-se perder em meio
a um mundo que não lhe pertence mais, um mundo que é antes de tudo discurso
e imagem.
O que isso tem a ver, porém, com as letras do hino e da canção
analisadas? E como estes fenômenos descritos podem contribuir para as
conclusões desta pesquisa? São Paulo é a cidade dos que não têm lugar, é a vila
pequena do século XIX, dominada por alguns senhores de terra, que se infla de
gente nas décadas posteriores. Gente vinda de todo o mundo e todo o país. Que
carregava sonhos, mas que trazia também a lembrança da terra deixada para trás.
Dos sonhos perdidos, dos anos de guerra, de fome e de miséria. São Paulo é a
cidade dos milhares de nordestinos que, fugindo da perversa estrutura social de
sua terra, chegaram nesta cidade para construir o projeto de cidade da elite
paulista. Enfim, São Paulo é uma das tantas terras, das tantas cidades, dos tantos
discurso e imagens, para o qual convergem todos os expropriados de um
processo de mundialização que tem como principal base a perversidade inerente
ao modo de produção capitalista.
Em sua estadia em São Paulo, Araújo esteve durante bastante tempo
doente. Foi vítima de uma depressão, causada pela perda do emprego e pela
separação da mulher, que o abateu profundamente. Segundo o próprio poeta, ele
esteve a beira morte e pode sobreviver graças a um curso de dinâmica que
realizou na Federação Espírita de São Paulo. Neste curso, aprendeu a captar no
ar todas as forças culturais existentes e transformar isso em poesias e canções. E
foi numa destas captações que criou a letra da música cidade-mãe. Neste
processo, porém, Araújo criou um mundo a parte, um mundo perfeito no qual ele
surge no centro de todas as questões.
Em toda a entrevista, Araújo se apresenta como o homem mais inteligente
do mundo e talvez, ele realmente o seja. Incapaz de viver o mundo porque este é
antes discurso e imagem, Araújo criou um mundo no qual o seu pensamento
possa lhe guiar, um mundo em que a expropriação, o desemprego, a ausência dos
filhos possam ser substituídos pela crença na cultura e no desenvolvimento da

181
humanidade. Neste mundo, a cidade de São Paulo aparece como a mãe que a
todos protege, como a mãe que acolhe os filhos expropriados de tantos lugares,
que impossibilitados de viver sua terra a interiorizam como sonho. A canção de
Araújo surge no meio fio entre o sonho interiorizado e o discurso da cidade. Para o
poeta, a cidade mãe, assim o será quando o seu povo realmente o quiser. Mas a
pergunta que resta, depois de tantas análises e questões, é aquela que serviu
mote inicial para esta pesquisa: quem é o povo paulista?
A cidade de São Paulo, como afirmamos em toda a nossa pesquisa, é a
própria encarnação do discurso da modernidade. Porém, hoje, ao concluirmos, em
parte esta travessia, podemos afirmar que para além do discurso São Paulo é o
espírito da modernidade, no sentido em que, é a cidade sem cidadão, a cidade
dos expropriados e da expropriação, a cidade que mitifica a história, que simula
sua geografia e que substitui a vida real pelo discurso e pela narrativa do
mercado. São Paulo é a cidade dos homens que incapazes de narrar, de contar
suas histórias, substituem sua própria vida pela de personagens que encontram
aos montes nas telas de tv, nos outdoors, nos livros de auto-ajuda, nas canções,
nos teatros, no cinema. Enfim, é a cidade na qual os homens não podem mais ser
o que são, porque simplesmente o que são não suportam ser. Mas o que são,
enfim, os homens? O resultado de um processo no qual a mentira se tornou
realidade e lógica anti-vida da mercadoria surgiu, como discurso, como única
possibilidade.

m esboço de conclusão para uma cidade inacabada: das possibilidades

182
“Os Homens, até hoje, tiveram falsas noções sobre si mesmos, sobre o que são
ou deveriam ser. Suas relações foram organizadas a partir de representações
que faziam de Deus, do homem normal, etc. O produto de seu cérebro acabou
por dominá-los inteiramente. Os criadores se prostraram diante de suas próprias
criações. Libertemo-los, portanto, das ficções do cérebro, das idéias, dos
dogmas, das entidades imaginárias, sob o domínio dos quais definham.
Rebelemo-nos contra o domínio das idéias. Eduquemos a humanidade para
substituir suas fantasias por pensamentos condizentes à essência do homem,
diz alguém; para comportar-se criticamente diante delas, diz outro; para expulsá-
las do cérebro, diz um terceiro – e a realidade existente desmoronará” (MARX e
ENGELS, A Ideologia Alemã)

Repetir gestos, parecer ser, estar sempre a luz, a exposição, criação da


necessidade de sempre afirmar aquilo que realmente não se é. O mundo da forma
da imagem da mercadoria transforma o homem naquilo que realmente ele não é,
na afirmação de uma prática sócio-espacial que fragmenta e separa os homens,
que vivendo imagens, esquecem de viver a cidade, em suas contradições e
possibilidades.
A exemplo dos fotógrafos da cidade, que capturam imagens da cidade, que
buscam seus fragmentos, nossa pesquisa procurou reconstruir a cidade,
encontrando seus resíduos, seus fragmentos, que espalhados por todos os
cantos, nos dão uma falsa impressão de não relação, que se mantém apenas na
aparência, já que aquilo que fragmenta os homens e a cidade é resultado de um
mesmo processo. Nas obras dos fotógrafos, a cidade surge como um grande
resíduo, uma grande imagem, uma grande colcha de retalho que revelam, porém,
as duas principais características desta cidade: a fragmentação e a aparência, a
fragmentação-aparente.
O cotidiano na modernidade tende a se transformar na impossibilidade da
realização da vida, na impossibilidade da comunicação, da participação e da
realização, utilizando os termos propostos por Raol Vaneigem. Como repetição
mecânica de gestos, de ações, de normas, o cotidiano aliena o vivido, “ou melhor,
seu sentido se restringe às conexões visíveis dos diferentes momentos do que se
faz”. (MARTINS, 2000: 84). Para criar as bases desta alienação é necessário,

183
porém, que a imaginação, a capacidade de pensar o possível e o proto-possível,
aquilo que ainda está latente, se transforme em imaginário, em reprodução. É
necessário que o desejo e a vontade sejam transformados em pseudo-desejos e
simulo-vontades, para que suas direções sejam alteradas. E assim, incapaz de
sonhar de olhos abertos, de criar a utopia de um outro mundo, de um outro lugar,
o homem desaba frente a tirania do lugar nenhum, da não-identificação, da
alienação, e dessa maneira, vê seu desejo, impedido de se realizar, transforma-se
em angústia, em neurose.
Para alterar esta situação, é necessário resgatar a capacidade do “homem
moderno”, do “homem urbanus” ou simplesmente do homem de sonhar, a
capacidade do projeto e da intervenção, como verdadeiras atividades
pedagógicas, no sentido de apontar e apresentar caminhos e significações que
vão para além da normatização das práticas sócio-espaciais que partem de uma
lógica, que sendo a lógica da reprodução ampliada do capital, é a lógica anti-
humana.
Dessa maneira, o conceito de festa, não como organização externa da vida,
como norma desvinculada do contexto, mas como momento de convergência dos
projetos, dos sonhos, deve ser resgatado. A festa, como nos rituais dionisíacos
gregos ou nas festas caipiras descritas por Antônio Cândido, deve celebrar a
unidade dos homens que constroem um projeto comum de cidade, uma utopia, a
busca do melhor lugar que é construção coletiva, que é resultado do discurso e da
ação porque resultado do diálogo, do conflito, do acordo. A festa deve (re) ligar os
homens aos contextos e não ocultá-los, deve possibilitar aos homens a
consciências de seus limites e de suas possibilidades, deve permitir aos homens a
compreensão da relação que estabelecem entre si na construção de uma
sociedade, de uma cidade que tenham por princípio a vida humana, a lógica da
fraternidade, da realização, da comunicação, do projeto e não a lógica da
mercadoria, a lógica da fantasia, da reprodução pela reprodução, do auto-
consumo.
Resgatar o sonho para resgatarmos os homens, e com isso reconstruir a
cidade: eis a tarefa que cabe a nós, homens, que como resíduos perambulamos

184
por estas cidades. Já passou o tempo do discurso e da imagem. A nós, resta
agora, a ação, o projeto, o diálogo.

185
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Notícias, Revista da FIESP/CIESP.

Filme dir. Nelson Brissac Peixoto - América.

191
Anexos

Entrevista com Ana Maria Ciccaio, assessora de imprensa da


Associação Viva o Centro.

Ana Maria - A Viva o Centro integrou a comissão do festejo nos 450 anos de São
Paulo, representada pelo presidente, Marco Antônio de Almeida, durante a gestão
Marta Suplicy. Para a comemoração desse mérito importante na história da
cidade. Qual foi o conceito que balizou esta festa? É de que, nos 400 anos o
Ibirapuera havia sido o centro da festa, o parque tinha sido inaugurado, os
edifícios projetados pelo Niemayer, então, embora não a obra toda não tivesse
sido concluída naquele momento, vários prédios foram terminados, a bienal, essa
coisa toda, então ele foi entregue a população. O Parque do Ibirapuera é um
espaço extremamente importante para a cidade. Um pulmãozinho verde ali no
meio da cidade, super importante. Dessa vez qual era o conceito? Era trazer o
cinqüentenário do Ibirapuera para o meio do centro, uma vez que essa grande
bandeira levantada pela associação Viva o Centro, da recuperação, da
requalificação do centro de São Paulo, desde final de 1991 quando essa
sociedade surgiu, tinha um grande impulso nesta gestão. O centro foi abraçado
como prioridade, como uma das prioridades da gestão Marta Suplicy. Então esse
conceito balizou os trabalhos da comissão. E ai a gente viu o dia da festa que foi
exatamente isso, a gente viu a festa começar no Ibirapuera e caminhar ao longo
da 23 de maio, com uma série de eventos, até chegar no Anhangabaú. Quer dizer,
no coração da cidade. Onde houve um grande show tudo isso. E numa situação
climática um tanto adversa. No final da tarde, choveu , choveu torrencialmente. No
entanto, o dia todo a gente viu a população de São Paulo participar. E quem não
foi a rua para participar dos diferentes eventos, essa coisa múltipla, cosmopolita,
que tava acontecendo e reflexo da diversidade cultural, étnica, social que é a
cidade; acompanhou pela televisão, acompanhou pelo rádio. Viveu essa festa a
distância, mas viveu. Como um gol desse momento. Que eu pessoalmente, bem
como cidadã, acho que foi bom para nossa auto-estima como povo. Porque a

192
cidade de São Paulo ainda é uma cidade muito sensível, sensível demais, a tudo
que acontece no pais, é impressionante. Talvez por ela ser uma espécie de
termômetro econômico, social, por ter neste espaço a convergência de tudo que é
o pais, de tudo que é o mundo, porque, aqui você tem todas as etnias. Eu imagino
não tem essa pesquisa, não tem dados também, não sei se o IBGE tem, mas eu
imagino que na cidade de São Paulo exista pelo menos um representante de cada
canto deste planeta, pelo menos um. Ela é uma cidade na América do Sul, como
Nova Iorque na América do Norte. Como Londres em Paris, sobretudo, na Europa,
Tóquio no Japão também. Mas por isso mesmo, ela também é extremamente
sensível. Então é uma cidade que se abala com qualquer problema climático, que
se abala com qualquer variação econômica, a bolsa cai, “Ai meu Deus a bolsa
caiu!”. A bolsa subiu, “Olha a bolsa subiu!”.Então é uma coisa impressionante. Por
pertencer a rede mundial, por estar conectada via Internet a todo esse sistema
global de comunicação e de fluxos e capitais e de informações, ela fica frágil,
engraçado isso.
Então as vezes o problema nem é assim, para nós paulistanos nos
abalarmos. No entanto, a gente já se abalou, não é?
Mas o que eu notei nessa festa é que de repente, a auto-estima da gente,
que andava meio abalada, teve uma melhora, e isso é uma coisa boa para a
cidade. Eu acho que por conta disso, por conta de outras iniciativas, que deram
um impulso grande a esse processo de requalificação do centro e tudo isso, e de
acenos com perspectivas de melhorias. A própria iniciativa privada fez muita coisa
interessante. Então começou a arrumar jardim, começou a arrumar fachada. Por
que necessariamente pobreza não tem que ser miséria e você vê isso em
qualquer lugar, nos lugares mais carentes também. Você entra numa favela, você
vê que sempre tem um barraco, que a senhora conserve. Agora as pessoas
acham que isso é cosmético, só que isso não é, isso nunca foi. Se agente viajar
por cidades pequenininhas, de Minas Gerais pelo interiorzão do Brasil, a gente vê
essa necessidade, as pessoas têm necessidades, os seres humanos tem essa
necessidade de beleza. Então se você vê um casebre paupérrimo, tem um
vasinho e tem uma florzinha. O que significa isso? Significa a potencialidade da

193
tua alma para a beleza. Então quando você nega isso, subtrai isso da vida, a
possibilidade de mudar uma situação fica muito remota. Quer dizer, nós
estudamos, nós vamos atrás do conhecimento por que há uma beleza nele
também. A boa formulação de uma pergunta é a busca de resposta para ela, é a
boa busca, aquela busca honesta, tem a ver com a beleza, tem a ver com a
harmonia.
Então eu acho que o que a gente viu foi isso. De repente agente viu aquele
símbolo dos 450 anos colado até em carrocinhas de catador de recicláveis. Fazia
tempo que a gente não tinha isso como povo. Se esta planta está aqui e ela não
for regada, cuidada, ela vai fenecer, a cidade é a mesma coisa. E se essa planta
fenece e a cidade também, os seres humanos feneceram primeiro, eles morreram
antes. Por que essa planta nesse vaso depende de quem cuida dela, que quem
cuide dela esteja bem, então. A minha perspectiva como cidadã, como integrante
da associação Vivo Centro, como participante desse projeto que eu acho o
máximo estar participando, por que eu sempre desejei na minha vida, estar
participando de alguma coisa que mudasse, que alterasse, que tivesse relevância
para a minha cidade. E eu acredito fielmente que se agente, se nós conseguirmos
com o povo, recuperar, requalificar o centro de São Paulo, dar dignidade para as
pessoas que estão aqui, desde as mais humildes até as mais abastadas, porque a
elite não tem dignidade se o pobre em baixo não estiver comendo. Não é possível,
é uma contradição. Quem pensa que é possível isso, está enganado. Então se nó
conseguirmos isso, isso tende a se espalhar. Ai eu estou com Aristóteles: “O que é
ético? É o que produz o bem”. Então se foi bom no centro, tem que se expandir
para todo o centro expandível, ou seja, entre os rios, Tietê e Pinheiros e além. “
ah! Mas nós estendemos a cidade até lá na casa do chapéu no sul, então o nosso
T está assim: lá embaixo, lá na ladeira de Guarapiranga temos os nossos
mananciais”, pois é, nós temos que chegar lá, recuperar o manancial, dar conserto
na situação daquela gente que está lá, uma vida melhor, qualidade de vida, ai...”
ah! O leste pá,pá,pá Acidade Ademar “, tem que alcançar a cidade Ademar. Se
isso foi feito errado no passado, a nossa realidade hoje é esta. E não tem volta.
Não da para fazer como no filme do super-homem, inverter o eixo da Terra, fazer

194
virar ao contrário, voltar ao passado corrigir lá atrás. Não é possível ainda, não sei
se será um dia, no cinema já é. Como na física ainda não resolveu o impasse. É
isso que a gente luta, que agente busca, um apoio dos jornalistas, da opinião
pública, dos pesquisadores. Se você soubesse como os pesquisadores são
importantes, como é importante a adesão de vocês, como é importante a gente
estar sendo citado, com esse sonho. Que aos poucos agente vai ver que vai
sendo ganha a consistência, um pouquinho mas vai começando a formatar. Na
universidade, na mídia eletrônica e imprensa, entre as entidades de classe, entre
as instituições nas próprias instâncias do governo. É muito importante.

Eduardo – Então, a idéia da festa, seria mais ou menos, associar essa idéia da
auto-estima também a imagem. Não dá para você dissocia as duas coisas. A auto-
estima tem que estar ligado a imagem da cidade.

Ana Maria - E é o que pode fazer melhorar situações que não são boas e fazer
com que as pessoas busquem soluções. E você tem hoje uma participação da
sociedade civil organizada na cidade de São Paulo, que nunca teríamos. No
passado você tinha as sociedades amigos de bairros mas foram entidades, que
rapidamente se deixaram contaminar, por vieses políticos, foram dominadas por
esses vieses e acabaram se autodestruindo. Hoje você tem uma série de
associações. Você tem a Viva o Centro, você tem a associação Paulista viva, a
associação defenda São Paulo, mais um plano jurídico, um pessoal cuidando das
leis. Você tem várias entidades de classe que também tem uma atuação pró-
cidade, pró-cidadão, tipo OAB, os conselhos regionais de medicina de engenharia
de arquitetura, enfim o instituto de engenharia. Os sindicatos, vários sindicatos
bancários, têm uma atuação cidadã, é impressionante. Mudou alguma coisa. Nós
não tínhamos essa tradição. Eu acho, e ai é puro achismo, que havia uma
tendência nossa de encarar os governantes como pais, de uma maneira muito
paternalista, então eles vão prover, nós não precisamos fazer nada. Outros povos
chegaram a conclusão de que isso não funcionava muito mais cedo. Tipo, os
norte-americanos, é impressionante, se tem uma coisa que a gente tem que

195
aprender com eles, é isso. E a participação da sociedade civil nos destinos, das
cidades, dos estados e mesmo da nação é muito grande, sobretudo das cidades,
do lugar onde as pessoas ficam. E a cidade é o grande lugar. O estado é uma
abstração a nação é outra. Agora, a cidade não. A cidade é real, é concreta, as
pessoas existem nas cidades. Então eu acho que isso é fundamental, mudou.
Daqui para frente, caso não haja algum acidente de percurso, por que a gente não
sabe, nós não temos bola de cristal. Mas eu acho que daqui para frente será uma
tendência cada vez maior de congestão, a sociedade civil atuar junto do poder
público. Por que quem que olha os problemas mais do que os governantes? A
gente. É a gente que toma ônibus, é a gente que anda de metro, é a gente que vai
ao hospital, é a gente que precisa do abastecimento de alimento, de
medicamento. Então nós estamos em contato com as necessidades. Nós somos
ótimos porta-vozes dos problemas e até de sugestões para as soluções. Vai caber
ao governante que pese isso. E ai ele precisa ser muito sábio, por que ele não vai
poder tomar mais decisão sozinho, que é o que acontecia no passado, ou em
meia luz, uma elitezinha, lá. A possibilidade de participação torna isso tão
complexo, que se vai exigir dos governantes e das suas equipes sabedoria para
ser justo. Por que alternativas ele tem várias.

Eduardo – Em relação aos contatos que a Vivo o Centro faz com as outras
associações, por exemplo, com a associação Paulista Viva, qual foi a participação
dela nos 450 anos? Ela atuou junto com a Vivo o Centro?

Ana Maria – Então, ela também estava lá na comissão. Ai, eles se reuniam, eu
não sei te dizer direito por que eu não participei dessas reuniões. Desculpe-me.
Eu só acompanhava. Marco Antônio ia fazer parte, acho que Neves também, eles
iam todos, lá no Anhembi Morumbi e se reuniam, era um grupo muito grande de
entidades, do governo também, da prefeitura também. Então era um grupo super
grande e cada um entrou com a sua contribuição. A Viva o Centro deu a sua
contribuição, que foi o mapa, ela lançou o mapa, ela inaugurou a sede, por que o
Boston doou a sede aqui, o banco fez a doação do espaço. Então foi feita a

196
inauguração e foi feito o mapa, principalmente o mapa que tem uma base
científica até o pessoal lá da FAU que ajudou, do lume e do labiarc dos
laboratórios de pesquisa, com um... tem até no site como é que funciona.

Eduardo – De aéreo processamento, foto aéreo.

Ana Maria - Isso! Ele é um mapa, eu até abro um exemplar para você ver. Então
foi essa a contribuição. Uma contribuição pequena, por que a gente não tinha
grandes possibilidades de uma participação maior. Mas, a participação foi nesse
sentido de conceito, de apoio, de fusão e esse boletim, que foi um boletim
comemorativo, foi planejado de uma maneira muito simples. A gente pretendeu
com ele o álbum de figurinha, que ele fosse muito simples. Quem pegasse visse o
que aconteceu nessa festa, a prefeitura, a Estação da Luz, a BMF, a iniciativa
privada, o poder público, a bolsa, a Bovespa, enfim, tudo o que aconteceu lá, as
coisas na área de segurança, mais segurança, o museu, as exposições todas, até
um hotel, aliás, um restaurante do centro que todos os garçons vestiram um
avental com o símbolo dos 450 anos. E o objetivo disso era o que? Ah! Aqui tem.
Quando eu tirar o xerox você vai ver sobre o mapa. Eu tirei era uma coisa muito
simples, prática, como se fosse um folder tanto que esgotou. A gente não tem um
exemplar, todo mundo guardou isso aqui. É interessante o que aconteceu. De
todos os números eu tenho alguma coisa ai e desse aqui não. Porque esse
formato, acabou que as pessoas gostaram e ele era prático por que tinham todos
os dados aqui.

Eduardo – Essa questão da festa também, que você disse, a questão de São
Paulo, dessa rede de cidades mundiais fazendo parte disso. Ela também quis
tocar nesse assunto, na verdade a festa quis também mostrar que essa imagem
da cidade, também fosse uma idéia de cidade que também pudesse compartilhar
com essas cidades mundiais.

197
Ana Maria - Ah! Sim. Eu acho, que pela primeira vez na história de São Paulo, a
cidade que embora seja o carro chefe econômico do pais, sempre teve um
comportamento muito provinciano da parte de seus governantes e também do
ponto de vista do governo do Estado. É muito estranho isso, mas é. Os paulistas
se comportam como uns provincianos, embora ajam de uma maneira
extremamente arrojada, tem paulista no Brasil inteiro. E se a linha do Tratado de
Tordesilhas foi para o interior, foi por causa dos paulistas, que levaram essa linha
lá para dentro. Até chegar lá nos confins da Amazônia. Mas por que, que nós
estamos sempre a reboque? Nós nem somos conhecidos no mundo. Você vai
viajar para a Europa, qualquer lugar: “Sou de São Paulo.” De onde? As pessoas
perguntam. O Brasil, lá fora, tem uma imagem muito associada ao Rio de Janeiro.
Natural? Natural, o Rio de Janeiro foi a capital deste pais, além disso o Rio de
Janeiro e é uma das cidades mais lindas do mundo, do ponto de vista, é mesmo.
O Rio de Janeiro é de tirar o chapéu. Inegavelmente. É realmente muito bonito. A
Serra dos Órgãos, se derramando mar adentro, na praia, com toda aquela
sinuosidade que inspirou Oscar Niemayer inclusive, até fazer no sambódromo
uma bela par de nádegas, e eu sou mulher para falar isso, não tenho nenhum
bode com as mulheres sou casadíssima. É por que realmente aquilo é muito
bonito. Só que, com essas e outras São Paulo nunca se promoveu. É como você
falar na Itália e falar Roma, Roma, Roma e não falar em Milão, não falar em
Bolonha, não falar em Veneza, não falar em Florença. E no entanto, essas
cidades, todas tem autonomia, elas são todas poderosas. E nós aqui em São
Paulo ficamos meio a reboque. Mas, eu acho, que nós ficamos meio a reboque
por que os nossos governantes são uns caipiras.— dizendo para você — você não
precisa botar isso. Mas é o que eu acho. Eu acho provinciais, não vou usar o
termo caipira, não, eles são provinciais demais. Pela primeira vez eu acho, na
história dessa cidade a gente teve como governante uma pessoa que percebeu,
que a cidade precisa ser conhecida no mundo. Como é que essa cidade que tem a
Bovespa, ou seja, a maior bolsa de valores da América do Sul ou da América
Latina, maior do que a do México, por que a bolsa do México não é citada no
ranking diário, mas a de São Paulo é. Como é que esta cidade que está ligada

198
com Tóquio 24 horas, por que é o seguinte, o mundo econômico não para, então
24 horas, Tóquio, Londres, Paris, Amsterdã, Zurique, Nova Iorque, Toronto; como
é que essa cidade, não é uma desconhecida, está no mapa; como é que pode?
Outra, como é que você faz essa cidade se conectar com os grandes centros de
tecnologia de ponta, em todos os sentidos, física, medicina, produção de bens de
confins, bens de capital. Como? Como que você faz, se ninguém a conhece? Se
você não a coloca no mundo? Se você não a leva para participar das feiras
internacionais. Se você não trás as feiras internacionais para cá. Ao mesmo
tempo, que essa cidade tem um monte de feiras, que essa cidade é onde rolam os
negócios no Brasil. Todo mundo vem para cá para fazer negócios. Então eu acho
que pela primeira vez essa cidade foi conectada, São Paulo foi conectada. E qual
é o benefício? É só para São Paulo? Não, é para o estado inteiro. Este é um
estado que não é diferente de províncias européias de primeiro mundo. Se você
circula pela França e circula pelo Estado de São Paulo, não é diferente. O nível de
desenvolvimento é muito parecido. E como é que estamos fora? Nosso problema
de miséria, essa coisa todo, é outra coisa, que nós temos que resolver, nós temos
que equacionar. Nós temos que resolver o nossa problema de dívida externa, e a
hora que a gente conseguir resolver isso, agente sana esse problema, essa
miséria endêmica que tem aqui. Mas, São Paulo é um baita estado. Só que nós
estamos aleijados. Então, o que agente nota é que, não foi só um ufanismo bobo
ou gratuito ou marqueteiro. Não. por trás disso tem algo muito importante. A
inserção de uma cidade, de um estado e de um pais no mapa mundi. Nós não
podemos seguir, nos colocando como pobrezinhos do mundo, enquanto as
desgraças vão rolando por ai. É como se nós não estivéssemos no mundo e isso
não tivesse nada a ver com a gente. Só que começou a mudar. Como se chama
aquele lugar da Ásia que se fala português?

Eduardo – Timor Leste.

Ana Maria - Timor Leste. Começou a mudar ai. Começou um movimento de o


Brasil acordar. Não adianta você se ocultar nessa pobreza, nessa miséria, essa

199
coisa jeca-tatu. Não adianta. Você está num mundo. Você tem que resolver esses
problemas? Tem. Eles são presentes? São. Mas, Brasil, você está no mundo.
Então, acorda!
E eu acho que esse processo tem muito a ver com o que aconteceu em
São Paulo. Tem muito a ver com o que aconteceu no centro de São Paulo, nos
450 anos. É um novo tempo, um novo momento. Então começa um pouco mais
atrás do Timor Leste, depois a gente vai ver isso no caso de Haiti, ai a gente vai
ver no caso desse maremoto que atingiu o Índico, depois a gente vai ver nessa
questão da participação da comissão de segurança da ONU, a gente está vendo,
viu antes até... porque tudo começa com um professor não é? Interessante, a
gente tem um professor na presidência, que é o FHC, e tem um metalúrgico
também na presidência. É interessante. Quer dizer esses homens, não são
homens de elite, são homens do povo. Um professor e um metalúrgico. São estes
homens que vão começar a mudar o Brasil. Estão brigando pelo poder, mas para
mim, daqui alguns anos nós vamos vê-los como dois homens que deram
continuidade ao projeto. E que mudaram, mudaram uma guinada.
Hoje tem um problema que está se desenvolvendo intestinamente, mas
que é extremamente importante para este pais. Que é a questão da Amazônia. E
que está brotando lá. E que a integridade do nosso território, nossa integridade
como povo, quanto nação, demanda que nós estejamos inseridos no mapa mundi.
E de repente essa inserção começa assim, pelo centro de São Paulo, pela serra
de São Paulo, pelo Estado de São Paulo, pela resolução dos problemas de
segurança do Rio de Janeiro, pelo cuidado que se tem que ter com a Amazônia,
pelo cuidado que se tem que ter com as fronteiras e pela participação nos
problemas do globo. Até em mandar água potável para as vítimas do tsunami lá
no Índico, até em jogar futebol no Haiti. E dizer para aquele povo: Não, vocês não
estão abandonados. Vocês estão aí, mas a gente está aqui. Agente não está
fechando os olhos para o que vocês estão sofrendo, nós somos solidários, nós
temos o que dizer, o que fazer.

200
Eduardo - Então, o centro de São Paulo, na minha perspectiva, aparece como
um cartão de visita, dessa inserção de São Paulo e do Brasil no mundo. Na
verdade, por ser o centro econômico...

Ana Maria - Você tem que começar por alguma coisa, não é verdade? Eu não
diria um cartão de visita, por que um cartão de visita é uma coisa meio... meio...
até dispensável. Não é nesse sentido. A gente até as vezes usa a imagem, capaz
até de termos nas nossas matérias. Mas isso é mais... talvez como uma metáfora,
sabe? Você tem que começar por um ponto. E por que esse ponto? Por que esse
ponto é emblemático, por que o centro é emblemático. É onde a cidade nasceu, é
onde ela começou, é de onde ela se expandiu, é de onde partiram os tropeiros
para alcançar os confins desse pais e estender a linha do Tratado de Tordesilhas.
Nós estamos aqui, de onde saíram os tropeiros. Metros, metros. Está vendo?
Metros. Está vendo onde tem aquelas árvores ali? Onde está aquela redondinha?
Um pouquinho mais para dentro. Ali é o pico; é a ladeira da memória; os tropeiros
saíram dali, saíram dali! É impressionante! Esses paulistas malucos, saíram dali. E
iam embora, iam para dentro. Enfrentando cobra, onça, iam embora. Alguns
loucos atrás de esmeraldas, matando um monte de gente, umas loucuras.
O fato é que este é um lugar emblemático. Então, ninguém é saudosista aqui no
centro. esse negócio de voltar o centro que era antes isso não existe. A gente está
trabalhando o presente para um futuro melhor. E o que agente tiver feito aqui,
poderá resultar ou não num futuro melhor.

Eduardo - Você costuma dizer muito que o centro de São Paulo vai seguindo
modelos. Alguns pesquisadores dizem por exemplo que em determinado momento
segue modelo de arquitetura francesa, em determinado momento segue modelo
de arquitetura norte-americana. E você fala muito no modelo de arquitetura de
Barcelona. Que é a idéia de cidade, que é a idéia de centralidade que está sendo
colocada agora em prática, é a idéia de Barcelona. O que significa exatamente?

201
Ana Maria - Eu entrevistei o Renato Janine Ribeiro agora, e achei muito
interessante. Porque ele fala sobre o planejamento. O que significam esses
modelos, em síntese? Quando a gente fala em Paris, a gente fala de Haussman,
então a gente fala de um planejamento. De um pontinho, e depois tudo se dá em
torno desse ponto de maneira centrífuga. Depois vem o modelo americano: as
grandes radiais, ai a Prestes Maia. Ai você está falando de Barcelona. Mas o que
é Barcelona? É interessante por que Barcelona é uma cidade muito mais antiga do
que São Paulo, nem se compara. Barcelona tem um núcleo central medieval,
catedral de Barcelona ao contrário da nossa catedral de São Paulo é uma catedral
edificada com pedras sobrepostas. Então, é uma cidade muito antiga. As ruas
desse centro histórico de Barcelona são ruas estreitíssimas, muito mais do que as
nossas. Por que esse núcleo foi edificado numa época que só tinha cavalo, o
homem andava só a cavalo, nem carroça tinha direito. Então as ruas são super
estreitas. E alguns casos me lembram um pouco Toledo, mas Toledo é mais
antiga ainda que Barcelona. Mas eu noto que o que aconteceu em Barcelona,
para preparar a cidade para as Olimpíadas de 1992, foi a conclusão de um
dos maiores experts em arquitetura e urbanismo da cidade, e Barcelona teve
muita sorte, por que reuniu gente muito boa mesmo; de que você tem um
núcleo histórico, que você tem que preservar; Não preservar como um
museu estático. Por que mesmo esse núcleo histórico faz parte da cidade e a
cidade é viva, é um organismo vivo, é um organismo que não para de se
movimentar e de ser alterado. Como a língua, como o idioma. É a mesma
coisa. Como nós, seres humanos. Mas você tem que preservar uma parte
dessa cidade, que é emblemática para você. Por que te da a tua identidade,
por que diz respeito a tua história, onde você nasce como povo, nasce como
cultura. Sem, no entanto, privilegiar o novo, sem no entanto abrir-se para as
novidades, e tudo isso. Eu acho Barcelona uma cidade fantástica nesse sentido.
Por que da mesma maneira que tem o bairro medieval no centro, você tem todas
as loucuras de Gaudi. Então é uma cidade generosa demais, é uma cidade que se
abre para o novo. E não o novo hitech só, por que tem a área hitech. Mas ela
também tem o novo nesse... não é novo no sentido de tecnologia, nem de hitech,

202
é novo de que você nunca viu antes alguém fazer aquilo. E essa cidade permite
isso. Então evidentemente a escala de uma cidade européia é completamente
diferente da escala de uma cidade americana. E nós estamos na América. O
Lewis (Munford) já tinha falado nestes trópicos que ele ficava espantado, surpreso,
boquiaberto com os tamanhos, as dimensões na América, tanto do norte quanto
do sul. Tudo é grande demais, é imenso, nós somos a terceira maior cidade do
mundo em habitantes. Então é lógico que Barcelona é diferente. Eu acho que não
se trata de imitar Barcelona, e nem é possível por que a Espanha está numa
situação econômica bem melhor que a do Brasil, ultimamente. Nós ainda estamos
com uma dívida poderosa enquanto eles já passaram por essa fase mais difícil e
já estão em outra situação, nós estamos ainda tentando superar isso. Mas se trata
de ver o que é bom nisso. De repente a sociedade civil de Barcelona se envolveu.
Mas isso não aconteceu só com Barcelona, não é só Barcelona que é um modelo.
Na verdade isso explode no final dos anos 80, dos anos 90 em várias cidades,
Barcelona é uma delas. Mas você tem Boston, você tem Los Angeles, enfim você
tem várias cidades, até o ponto de coisas de cair o queixo. Eu li há uns seis meses
na gazeta mercantil, a seguinte matéria: Los Angeles está aplicando na
recuperação do down town 20 bilhões de dólares, já tinha aplicado 18 bilhões
faltavam 2 bilhões. Nós estamos esperando 100 milhões de dólares do BID. Muito
bem. Em Los Angeles não tem o down town que tem em Nova Iorque, não tem o
que tem em São Paulo, que tem em Paris, o down town que tem em Los Angeles
é pífio, digamos assim, é um enfeite. E eles abandonaram demais eles, deixaram
que esse down town fosse totalmente tomado pela marginalidade. Então é um
lugar aonde as pessoas não vão. E Los Angeles é uma cidade extremamente
espalhada muito mais do que São Paulo. Mas, enfim eles estão fazendo isso
também, e a gente nota que nós recebemos no final do ano passado uma
delegação da Albânia, este pais da cortina de ferro, extremamente
fundamentalista e que de repente com a derrubada Soviética se viu sem guarda-
chuva, e agora? O que que a gente faz? Ai o pessoal da ONU, que trabalha
também com o banco mundial e que tinha visto uma palestra do Marco Antônio, a
respeito da experiência com a sociedade civil organizada aqui no centro de São

203
Paulo, lembrou-se da Vivo Centro, e a delegação albanesa vem aqui para
conhecer São Paulo, conhecer a prefeitura, visitou a Marta ela conversou com
todo mundo e veio aqui também. Por que? Como é que vocês fazem para a
sociedade civil participar disso, entrar nisso aqui? O que eu quero dizer com isso?
Que as pessoas não podem mais, nós brasileiros não podemos mais, voltar as
costas para os problemas que são nossos. Nós temos que olhar de frente esses
problemas e tentar dar soluções para eles. Isso é uma coisa nova na nossa
história. Então nós não estamos alheios, nós não somos uma ilha, nenhum
homem é uma ilha, nenhum estado é uma ilha, nenhuma cidade é uma ilha e o
John don... tinha toda razão, ele estava coberto de razão. Nós somos seres
gregários, vivemos em sociedade e não podemos nos isolar, e é impossível o
isolamento, mais cedo ou mais tarde... até a China está ai tentando fazer parte do
mundo, com mais de um bi de população, por que não é possível. Então não se
trata de um modelo, se trata de que realmente você tem que ver a sua cidade, ver
o seu povo, procurar soluções, estar junto com os governantes. Eles não podem
daqui para frente fazer o que bem entendem. Mas para isso a gente tem que estar
atento, tem que participar, tem que começar ser um pouco chato, por que os
outros povos são muito exigentes. Na verdade nós estamos aprendendo. E eu
acho que Barcelona ensinou muito. Os americanos tem muito a ensinar nesse
aspecto, eles tem mesmo. A gente tem que ter humildade de aprender, por que
eles tem. Eles levam outras culturas para ensiná-los, esse é um sinal de
humildade, de inteligência. “Eu quero aprender”. Eu posso apostar que apesar de
todas as barbaridades que esse governo do Bush está fazendo politicamente, tem
muita coisa positiva acontecendo em função da destruição das torres gêmeas, em
Nova Iorque. Vamos conhecer essa cultura islâmica mesmo, vamos saber por
dentro. Tem gente fazendo isso pode ter certeza por que tem gente inteligente lá,
tem vida inteligente lá. E muito inteligente. E gente humilde para saber que pode
aprender. Então no caso da gente aqui é a mesma coisa. E nós estamos
construindo também, eu sempre olho isso. Por que a Vivo o Centro é muito
engraçada, por que é um processo.

204
Eduardo – É exatamente isso que eu ia falar. Nasceu em 1991 a Vivo o Centro,
então são 14 anos de um projeto para o centro da cidade de São Paulo. E a festa
dos 450 anos foi só um momento de um projeto que está sendo, que é aquele
projeto que eu consultei. E a pergunta que eu faria seria a seguinte: como esse
projeto caminha agora?
Nós tivemos nos dez primeiros anos, nos seis primeiros anos, o que você teve foi
um governo que não contribuiu para que a associação.
Ana Maria - Contribuiu, mas contribuiu pouco, muito pouco. A gente fez um
balanço. A Vivo o Centro surge no final da gestão da Erundina. Com uma festa no
Teatro Municipal e tudo isso. Ela surge ai, e tem começo as obras no
Anhangabaú, para a remodelação do Anhangabaú, com a extensão do túnel. Com
o Maluf se cria o pró-centro porque precisava ter um órgão que fosse.... por que
como é que você leva um projeto para remodelação do centro se você não tem na
prefeitura, que é a instância governamental que pode tocar esse projeto, com
intervenções estaduais etc, se você não tem dentro da prefeitura um órgão para
fazer isso. Que seja o porta- voz disso, que leve isso, conduza isso. Então a Vivo
o Centro batalhou e deu a formatação para o pró-centro, que seria esse órgão. E
ai ela conseguiu que na gestão do Maluf fosse formatado esse órgão diretamente
ligado ao gabinete do prefeito e a câmara aprovou. Então partiu do executivo um
projeto para criação do pró-centro. Terminou a obra do Anhangabaú e o centro
ainda estava muito ruim.
Eduardo - E ao mesmo tempo em que ele cria o pró-centro, mas ele também cria a
operação urbana Faria Lima, ele desvia recursos que poderiam ser para o Centro.

Ana Maria - Exatamente. Então ele cria a operação urbana centro, mas ele cria
outra e é para lá que os recursos são direcionados. Ai entra a gestão Pitta. Na
gestão Pitta, são criadas duas leis por influência também da Vivo o Centro, a
pedido com muita pressão, pressão em termos por que na verdade a gente
formata e leva e mostra etc, então pressionar, a gente pressiona pouco, a gente
tenta é convencer, e as vezes tanto que os caras se convencem. Então a lei de
operação urbana centro é dessa época, por que a Faria Lima foi a primeira. E a lei

205
de fachadas. A lei de fachadas significando que toda propriedade tombada pelo
patrimônio histórico que restaurasse a sua fachada, teria uma isenção de IPTU,
proporcional ao que aplicasse. Até 100%. A lei da operação urbano centro era, na
verdade, teve poucos resultados, por que não houve um incentivo para que ela
avançasse, ao contrário do que aconteceu na Faria Lima e na Berrini, na Águas
Espraiadas. Não houve um programa de desenvolvimento colocado pela prefeitura
para incentivar os investidores, então resultou muito pouco. No final do governo
Pitta o que aconteceu no pró-centro foi que a recuperação do viaduto do Chá e do
viaduto Santa Efigênia, só, com um aparte pouca, do que foi gerado pela lei de
operação urbana centro. Fora isso, a lei de operação urbana centro, também por
causa da lei das integridades, o Ministério Público brecou tudo o judiciário brecou
tudo, parou completamente. Mas ao mesmo tempo o governo do Estado fez muita
coisa. Então se a prefeitura tinha feito pouco, o governo do estado fez muito e a
iniciativa privada também. Então o governo do Estado investiu na recuperação da
Pinacoteca do Estado, que ficou maravilhosa, na criação da sala São Paulo que
foi um projeto que saiu aqui da vivo centro, investiu na recuperação mais tarde do
prédio do antigo Dops, que ai veio abrigar uma extensão da sala da Pinacoteca do
Estado. Investiu na recuperação do Museu de Arte Sacra. O governo Federal
trouxe o centro cultural Banco de Brasil, para o centro de São Paulo, que era uma
reivindicação também da Vivo Centro. Por que era assim, o Rio de Janeiro tinha o
centro cultural Banco de Brasil e centro cultural dos Correios e São Paulo nada. Ai
foi uma luta até vir. O correio está em obra agora. Este projeto é muito bonito, foi
premiado em meados dos anos 90, por um escritório de arquitetura aqui de São
Paulo, para a recuperação, e está em obras e vai ficar muito legal, ele vai abrigar
a agência central dos Correios e também um espaço cultural. Ai entra a Marta, e é
interessante, que desde a campanha ela já abraça a causa do processo de
requalificação do centro, a ponto de ter como pano de fundo da sua campanha o
Anhangabaú. Isso é legal. E ai ela começa uma porção de coisas, de projetos.
Instala na Praça do Patriarca o porte, cobertura do Paulo Mendes da Rocha, que
foi um projeto nascido aqui dentro da Vivo o Centro. Polêmico, polemizar é
bom.Todo mundo já se acostumou e se tirar o pórtico hoje da praça do Patriarca

206
vai ficar faltando alguma coisa, vai ficar faltando esse toque de marco, de um novo
tempo. Então ele é polêmico etc, mas ele é o marco de uma coisa nova. Ela fez
uma porção de coisas, mexeu no Mercado Municipal, deixou ele bonito.
Desfavelizou a favela do Gato e transformou aquilo num parque, por que aquilo
era um absurdo. Era uma aberração. Nós pedimos de repente...(a entrevista é
interrompida)... muito bem, agora você tem uma nova gestão assumindo. Disposta
a dar continuidade a fazer uma porção de coisas. É obvio que cada gestão
imprime a sua marca política, e essa vai fazer isso também. Mas o que a gente
nota? Eu acho que a gente está vendo um novo tempo, em termos de São Paulo,
de história mesmo, entre um professor e um metalúrgico, uma mulher lá atrás, ai
tem o pessoal antigo que volta, tem outra mulher e ai um economista. Só que do
mesmo partido do professor.Então significa que tem um novo tempo, e que a
sociedade civil organizada está sendo ouvida. E o mais interessante e que a gente
está vivendo num momento em que as pessoas podem se manifestar, democracia
é isso, as pessoas poderem falar, as pessoas poderem se manifestar. As vezes
até para você criticar, e não é por ai, e as pessoas estão exorbitando, o fato é que
as pessoas podem se manifestar como nunca puderam antes. Com isso me
parece que a gente está acenando para o futuro, um novo tempo. Não vai ser fácil,
não é fácil. Por que a gente ainda tem problemas econômicos muito grandes. Nós
temos disparidades econômicas muito grandes, nós temos muita coisa para
resolver ainda, muito problema. Mas eu acho que agente começou, como cidade a
gente começou, é irreversível isso.
Eduardo - Você não acha que ainda oscila muito? Por exemplo: essa questão dos
partidos, que não tem um projeto de cidade, mas o projeto de cidade acaba sendo
vinculado ao projeto do partido, muda o partido ai muda o projeto de cidade.
Ana Maria - Ah! Sim, mas a gente vai aprendendo. Você já tem situações em
outros lugares do mundo em que esta estabilidade foi conseguida. Com entidades
que permeiam as gestões. A Viva o Centro é uma entidade que permeia gestões.
E é uma entidade da sociedade civil, olha quantas gestões. Essa é a quinta:
Erundina, Pitta, Maluf, Marta, Serra, é a quinta. E aquela história, a cidade está ai,
as gestões passam e a cidade está ai. Nós temos que escolher , nós como

207
cidadãos, o que a gente quer que permaneça? O que a gente permite que mude?
Nessa cidade. O que agente precisa que melhore? Que alternativas para
solucionar esses ou aqueles problemas existem? E nós gostaríamos de ver
incrementada. Isso eu acho que a gente vai conseguir a medida em que a gente
pratique. Nós ficamos 29 anos sobre uma ditadura, com um reflexo na cidade
muito forte. O minhocão foi construído sem a sociedade civil se manifestar. Não
podia.
Eduardo - Não é a toa que aquela obra é horrenda do jeito que é!
Ana Maria - Estragou uma avenida, destruiu uma porção de prédios bonitos.
Eduardo - Desvalorizou toda uma área da cidade.

Ana Maria - Claro! Por isso. Hoje isso seria impensável. Hoje qualquer coisa que
você vá fazer, a mídia acende um monte de holofote em cima, a sociedade civil
também acende os seus. Tudo isso significa que daqui para frente a gente pode
errar menos, por que as coisas decididas assim, por meia dúzia, dentro de uma
sala fechada, as chances de equívocos, de tomar partidos errados, aumenta
muito.Eu vi um trabalho; você é da geografia né?. Eu vi um trabalho feito, de
mestrado também, braçal, sobre como se faz a implantação de um projeto de torre
na cidade de Londres. Por que assim, hoje você tem torre de 60,70,80 andares um
negócio violento, World Trade Center como modelo. Mas o que é que Londres
fez? Como é que o governante pode avaliar sozinho se isso vai ser bom ou não
para a cidade? E nós não estamos falando de centro histórico, nós estamos
falando da periferia, onde da para construir ainda essas torres. Um governante e
mesmo a sua equipe técnica sozinho, eles não tem condição de fazer isso, e
outra, é legal ao escutar... (Fim da Fita 1)

Ana Maria - ... dar conta de toda produção, de esgoto, que essa torre vai gerar, a
sombra que essa torre vai produzir durante todo o dia, pode criar que tipo de
problema para um todo? O número de pessoas que essa torre vai abrigar,
trabalhando ou morando, o transporte público existente nessas mediações, será
suficiente para atender essas pessoas? Então, você não constrói uma coisa lá,

208
porque..., você vai buscar essa comissão, digamos assim, ela vai consultar os
especialistas e não só consultar os especialistas, mas também ouvir as entidades
da sociedade civil, e todas as ponderações que eles têm a fazer. E depois ao
julgamento, a coletividade que vai receber esse ..., que está avaliando a
potencialidade ou não da instalação dessa torre. Ela vai poder participar desse
julgamento também. Informada. Não de qualquer jeito, por que alguém
quer.Então, agente tinha uma visão, até anos atrás, de que as leis eram imutáveis,
de que as coisas vinham impostas de cima para baixo, e que o máximo que
agente tinha que fazer era tolerá-las. Não é isso, não é mais..., ou agente precisa
lutar para que não seja, talvez “não é mais”, seja, Proativo demais. A gente
precisa lutar para que não seja mais assim. Então agente precisa se preparar,
estar cada vez mais informado, aberto a essa participação, aberto a essa
discussão, querer o conhecimento. Então, se os catalões já avançaram, vamos
buscar, saber o que os catalões já sacaram, já erraram, já acertaram, já foram, já
voltaram. O conhecimento serve para isso, para a gente não errar de novo. Ou
para inventar roda. Para que inventar roda? Se a gente já pode sair daqui
andando.

Eduardo – Agora, sobre essa questão da sociedade civil, por exemplo, é um


grande avanço essa organização da sociedade civil, que essas associações
representam, tanto a Viva o Centro como a Paulista Viva, mesmo essas
associações da periferia. Só que você não acha que pode também ter um
problema? Porque agente sabe que o tipo de intervenção pública: “vou reurbanizar
uma determinada área”, gera um processo de valorização daquela área, certo?
Isso não pode gerar disputas entre grupos que estão interessados naquela mesma
área?

Ana Maria – Ah! É claro, claro que sim.

Eduardo – porque senão a gente pode cair em um problema. Que a sociedade


civil se torna num meio de se apropriar de alguma coisa pública privadamente;

209
então “eu utilizo o Estado para conseguir uma valorização para o meu terreno”.
Por que é até essa história de Aristóteles: O que é a felicidade? É a felicidade da
pólis, se a cidade toda esta feliz, então isso é a felicidade. Então agente pode
acabar caindo em micro-valorizações, que vão fragmentar mais a cidade. Não sei,
se pode pensar nisso. Por que isso não é um problema à ser pensado pela
associação também.

Ana Maria – É mas eu acho que isso é inevitável. Vai ter valorização sim. E por
que a valorização é ruim? A valorização não é ruim.

Eduardo – Não, a valorização não é ruim. Estou dizendo o processo de


fragmentação que ela pode criar. Por exemplo, o Estado, a gente sabe que é um
Estado que está defasado.

Ana Maria – Então, nós temos uma história em São Paulo nesse sentido que você
citou, que agente lembrou juntos: Águas Espraiadas, a gente lembrou Faria Lima.
Nós temos visto a especulação imobiliária, abandonar áreas, ir para outras e criar
outros nichos. Isso tem sido a história de São Paulo. O centro já foi um desses
pontos de valorização. No momento em que você tenta fazer esse outro tipo de
colocação, que é a requalificação, nesse centro; onde você tem uma infra-
estrutura que você não tem em nenhum outro lugar da cidade. Em nenhum outro
lugar da cidade! Não tem na Berrini, não tem nas Águas Espraiadas. Qual é o
problema hoje da zona sul? É que chega no final da tarde, ou no início do horário
comercial, de manhã, as pessoas não conseguem nem entrar nos edifícios, nem
sair, por que não tem metrô, não tem transporte coletivo suficiente, as pessoas
vão todas de automóveis trabalhar, e voltam para suas casas de automóveis. As
vezes tem congestionamento dentro das garagens dos edifícios. Quando aqui não
tem. Aqui só precisa de garagens..., tem que ter garagens subterrâneas? Tem.
Tem que ter pequenas garagens espalhadas pelo centro? Tem. Para os cativos do
automóvel. Mas não para nós, que trabalhamos aqui, não para nós os

210
funcionários. Por que não é prático. Nada prático. É bom vim de metrô. É mais
barato, mais rápido, sobretudo mais rápido.
Então, por que desprezar essa generosa infra-estrutura instalada aqui? Que
foi instalada com que dinheiro? Com o dinheiro público. Então, não me parece que
revalorizar esta área seja algo que..., ao contrário é extremamente razoável e
racional. Em vez de nós irmos lá, para construir outra centralidade não sei aonde,
vamos restaurar esta. Por que aqui já tem tudo. Não é? E isso acontece em todos
os centros urbanos. Os edifícios inclusive tombados, eles têm fachadas tombadas,
e são retrofitados interiormente, são modernizados. Este prédio foi todo
modernizado. Este prédio é uma edificação dos anos 50 e ele se tornou obsoleto
com o passar do tempo. Então precisou de cabeamento óptico, por causa dos
computadores, precisou trocar elevador, todo sistema de ar condicionado, que são
exigências contemporâneas. Os equipamentos exigem isso, computador exige ar
condicionado, se não deteriora, se não se estraga com muita facilidade. Então,
este prédio foi retrofitado. E ele é tombado, por que ele é um exemplar de
arquitetura moderna, um bom exemplar, ele não é mais aquilo internamente. E
precisa ser? Não precisa, é um conceito moderno de preservação. Como
felizmente ele também não era tombado interiormente, por que as vezes os
tombamentos fazem esses, comentem esses..., né? E ai trava de um modo que
você não pode fazer nada.
Então não é ruim que tenha valorização. As vezes é racional, é inteligente. E você
não só evita que uma região se deteriore como também você dá um melhor
aproveitamento a infra-estrutura que ela tem e dinamiza todo o processo de uso
dessa área. E para que as pessoas irem morar lá longe? Se as pessoas podem
ficar aqui perto; do trabalho. Olha quanto funcionário público que vem trabalhar
agora no centro, com a transferência dos órgãos públicos para cá; Estado,
município. Por que as pessoas tem que morar lá longe? Custa caro; custa tempo e
tempo é tão precioso.

Eduardo – Então... por que a questão de valorização não está nela mesmo,
percebe? Qualquer processo valoriza. Só que eu penso assim: num estado

211
defasado como o nosso; num estado que vive a mercê de investimentos, a mercê
de empréstimos, o que acontece é que ele acaba investindo a partir de pressões
das associações. Então por exemplo, o que o Maluf lá na Faria Lima, vamos
investir na Faria Lima, por que tinha toda pressão de um pólo de empresas:
“vamos investir lá”. E ai esse investimento lá, criou um processo de desvalorização
aqui. Por isso que eu estou falando isso, a idéia da cidade tinha que ser uma idéia
única, orgânica. Não assim: a cidade vai ficar vivendo de valorizações,
desvalorizações, valorizações, desvalorizações. Por que se não fica meio
contrário, um processo de valorização aqui, gera um processo de desvalorização
em outro lugar, E ai vai fragmentando a cidade, e fica uma ida e volta sem
sentido. Esse que eu vejo que é o problema.

Ana Maria – E é um problema. Você tem razão, é um problema sim. E é ai que a


existência de um plano de retorno é extremamente importante. Por que ela tem mil
papéis de conter esse desatino do capitalismo, essa coisa selvagem. É
exatamente. Agora, no caso do centro, quando você fala em valorização, aqui é
positivo isso.

Eduardo – Não, eu também não sou contra essa valorização. Sou contra essa
questão da incerteza.

Ana Maria – E vai ter isso mesmo, essa..., não é só inevitável. É bom que tenha,
não é ruim. A gente tem uma tendência como povo, a demonizar o dinheiro e não
é bom também, as vezes é contra a gente.

Eduardo – Mesmo por que, as empresas que estão aqui hoje,os prédios que estão
aqui hoje, já sofreram um processo de desvalorização, incrivelmente. E talvez
esse processo de valorização, seja um processo de recuperar a perda.

Ana Maria – Exatamente.

212
Eduardo - E a idéia que a gente vê muito em Barcelona também, é a aposta no
turismo. Que o centro de Barcelona, a central de Barcelona tem muito a ver com
turismo. São Paulo pensa nisso também? O centro de São Paulo pensa nesse
papel?

Ana Maria – Sim, opa! Se pensa. Tanto os governantes como as entidades da


sociedade civil também. A Vivo o Centro, por exemplo, em setembro de 2003,
criou uma comissão consultiva de turismo, para a direção da associação. Formada
por representantes de entidades de turismo das mais diferentes instâncias aqui de
São Paulo. Desde hotelaria até restaurantes, bares, agências de turismo. Porque?
São Paulo é uma cidade de negócios é diferente de uma cidade de lazer, uma
cidade a beira mar, ou mesmo na montanha. São Paulo é uma cidade de trabalho,
uma cidade de turismo de negócios. Mas, você fala “turismo de negócios”, o que é
isso? Bom as pessoas vem para cá para fazer negócios. Mas, uma vez que elas
estão aqui, elas vão à restaurantes, elas se hospedam. Começam se hospedando
na verdade, depois elas precisam se alimentar, elas têm vontade de conhecer a
noite na cidade, elas querem ir a um espetáculo de teatro, elas querem ir à um
cinema, à uma boate, enfim. Quer dizer, então existe todo uma produção turística
que pode atender a esse lazer, esse lazer urbano que as pessoas podem ter,
quando ficam hospedadas na cidade à negócios e que precisa ser estimulado, e
que precisa ter gente preparada. Nós somos uma cidade, que já tem um
diferencial fantástico em relação as demais. São Paulo é conhecida como a capital
gastronômica, capital mundial da gastronomia. O que significa isso? Que nós
fazemos boa comida, nós somos bons de culinária. Isso já é o máximo. E é
mesmo! Você sai de São Paulo, você não come bem. Você come bem aqui, até o
pastel da feira é maravilhoso aqui, é bem feito. E é mesmo! É um negócio
impressionante! O cafezinho é bem feito, o pastel da feira, o ... como é? O
churrasquinho grego. A gente faz a comida francesa, a comida francesa ligth, a
comida francesa tradicional, a comida tailandesa, a comida japonesa, a comida
coreana, enfim. Tudo! Aqui tem tudo! Comida indiana, italiana. E daí inventamos
também. Somos antropófagos, então como bons antropófagos, também pegamos

213
a cultura alheia e devolvemos a pizza à nossa moda, a nossa pizza, não a pizza
deles, é a nossa. Isso tudo é um dado legal.
Então o que acontece hoje, que a Vivo Centro está super engajada nesse
processo também. Tudo que é relacionado ao turismo, é legal dar; eu dei essa
semana no site. Inclusive, algo bastante sério, e não só esse lado festivo, esse
lado bonito, mas uma rede de administradora de hotéis, associando-se a uma
instituição WFC do Brasil, que é mantida pela rainha Silvia, da Suécia, que é
brasileira, para um controle do turismo sexual infantil, ou seja, até nisso nós
abrimos espaço, então a gente deu. Por que ai tem todo o lado social dessa
história também. Nós queremos turistas sim, nós precisamos de turismo sim, nós
temos coisas boas para oferecer; nós temos uma gastronomia maravilhosa, de
primeira. Temos bons hotéis, temos até garotas de programa, maiores de idade
interessantes garotos também interessantes. Mas, as nossas crianças e os nossos
adolescentes não. Não. Não pode. Certo? Ninguém tem nada contra a prostituição
como profissão E ninguém vai brigar contra isso. Mas crianças e adolescentes
não. Turismo sexual não! A gente sempre está abrindo espaço, divulgando as
visitas monitoradas ao centro, tudo isso tem a maior força da gente, parte daqui.
Por que a gente não faz coisa, a gente inventa, é uma usina de idéias. E o que a
gente viu, é que hoje, você tem vários programas. Agora mesmo a subprefeitura
da Sé assinou um convênio, que a gente deu também, com as escolas municipais,
da rede de ensino municipal, para visitas monitoradas ao centro, com aulas de
história...Por que? Porque, quando a criança conhece, ainda adolescente, passa a
ser dela. Ela adota. É dela. É ai que você toma posse como cidadão. E que você
amanhã vai passar a preservar. Então ao invés de pichar, em vez de destruir, você
vai passar a cuidar. Por que é teu. Foi te apresentado em tenra idade como teu.
Então, todos estes passeios a gente divulga, damos a maior força. Os gratuitos, os
pagos, os que fazem parte de programas escolares, enfim, porque é muito
importante. Tudo que puder alcançar as pessoas nesse sentido é muito
importante.
A gente tem que se apropriar da cidade, e agente se apropria dessa forma.
Aprendendo a gostar dela, aprendendo sobre ela, se informando.

214
Eduardo – Uma outra questão. O problema é: querendo ou não o centro de São
Paulo também tem um caráter muito popular. Só que há um problema sério que a
gente acompanha. Que são os conflitos que geram esse caráter também popular
do centro. Por exemplo: os conflitos em relação aos camelôs, os conflitos em
relação aos moradores de baixa renda. Como a Associação pensa isso? Como a
Associação pensa a relação do centro com os camelôs, com os moradores de
baixa renda?

Ana Maria – Então. Qual é o conceito de espaço público? O que, que é público?
Há uma tendência de se considerar o público como sendo de ninguém. E o que é
público, não é verdade que não é de ninguém. O que é público é de todos. Então,
para a Associação Vivo o Centro, o espaço público é de todos, portanto não pode
ser apropriado por ninguém.
Quando o camelô instala sua barraca, para vender as bugigangas; as
coisas dele, que ele está vendendo; ele está se apropriando do espaço público, do
espaço de nós todos. É uma questão conceitual. Por outro lado, além dessa
questão conceitual, do que é público e do que é privado, existe um outro problema
sério no comércio informal. Que é a procedência dos objetos que o camelô vende,
uso a palavra bugiganga.
A última edição da revista Urbes, mostra na reportagem, e daí se foi atrás de dar
por que em geral se falava muito num âmbito ensaístico da procedência dos
objetos e dos produtos vendidos pelos camelôs. E ai essa matéria, essa
reportagem, a gente tentou ir mais a fundo e comprovar que a procedência é
duvidosa. São produtos que procedem de carga roubada, de contrabando, de
pirataria e de caixa 2 de indústrias. Na maioria das vezes. Em 95% dos casos, se
não mais, não há nota fiscal desses produtos. Esse é o outro lado, tem aí um lado
criminal. Como diz o Jorge Dupas: “o camelô na rua é apenas a ponta de um
iceberg”, você tem na verdade um (interrompida).

215
Ana Maria – Então. O que acontece com esse problema dos camelôs? Para a
Associação e para o país também, é importante que essa informalidade seja
formalizada. Por várias razões. Por que, essas pessoas também utilizam todas os
benefícios que o Estado produz, transporte público, a rede de saúde..., então não
parece eqüitativo, que uns paguem impostos, sejam obrigados a, aliás, tem uma
série de direitos, ou melhor, tem uma série de deveres, mas não vão romper com
a regra, com a vida em sociedade e instalar-se no meio da rua, apropriar-se do
espaço público, enquanto outros fazem isso. Então, a Vivo o Centro defende que o
comércio informal seja formalizado e fique instalado em espaços fechados,
espaços em centros populares de compras, desobstruindo as ruas. Isso faz
também com que, quando você tem as ruas desobstruídas, a ação de marginais
contra o pedestre se reduz de maneira muito importante, segundo a própria
polícia. Cai o número de furtos, por que você tem os espaços mais abertos, os
olhares que tornam o viver mais seguro.
E por outro lado também não é bom. Daqui há pouco tempo vai cair um temporal,
o que acontece com quem está na rua vendendo um monte de tranqueira? Tem
que sair correndo da chuva. Aí tem o fiscal que também vai passar, o camarada
tem que sair correndo também do fiscal. Aí tem a polícia, o camarada tem que sair
correndo também. Isso é vida? É bom para essas pessoas? Você está vendo? De
todos os lados que você olha, isso não é bom.
Outra coisa, voltando ao Gilberto Dupas, ”ele é a ponta do ice Berg”. Quem ganha
de fato o dinheiro com isso? Não é ele. Ele é na verdade subempregado de uma
rede criminal, que provavelmente tem muita gente de colarinho até branco, por aí.
Então manter isso não é bom, é uma coisa que agente sempre questiona. Não é
legal manter isso.
Com relação aos moradores de rua, você perguntou.

Eduardo – É, moradores de rua e depois eles são levados para longe. Por que?
Tem um projeto de habitação de baixa renda. São dois projetos. Um de baixa
renda, até seis salários mínimos e outro até doze salários mínimos, não é isso?
Então qual a posição da Associação em relação a isso?

216
Ana Maria – Com relação a moradores de rua a Vivo o Centro criou, aqui dentro
surgiu a Fundação Projeto Travessia, para crianças e adolescentes em situação
de rua. Por que esse era um problema sério e a Associação percebeu que
precisava de uma entidade só para isso. Porque essa era uma questão muito
séria. E eles estão trabalhando até então. Trabalhando pesado, algumas crianças
e adolescentes já tiraram das ruas, é um trabalho bastante sério, bastante
complexo e que está em curso.
Com relação aos adultos, você tem adultos que precisam de atendimento
na saúde e na área de desintoxicação, porque, ou estão doentes ou são alcoólicos
ou são drogados, dependentes das mais variadas drogas. Então aí o atendimento
tem que ser diferenciado. Tem que ser um atendimento de saúde pública. Nesse
nicho também estão as pessoas que tem problemas mentais. Você não pode dar o
mesmo tratamento, é tratamento especial.
Então aí, o que a Vivo o Centro sugere? Que se crie, inclusive é uma das
dez propostas, não sei se você viu, lá. Que se faça uma rede de entidades
assistenciais, junto com a secretaria de assistência social. Você tem que ter uma
coordenação que articule tudo isso, para saber para onde é que manda quando
você dá o atendimento. Ex: essa pessoa desmaiou e sofreu um ataque epilético,
na rua. Do que essa pessoa precisa? Imediatamente, ela precisa de um
atendimento de saúde, um hospital. Então essa rede, essa coordenação, ela faria
o encaminhamento. Mas aí, você tem também uma parte dos moradores de rua,
que não são nem doentes, nem alcoólicos, nem drogados e nem tem problemas
mentais e são até pessoas que se chama de empreendedores, são pessoas que
são capazes de viver, de se manter. Embora não tenham casa, embora as vezes,
tenham perdido o emprego, que estejam temporariamente numa situação
difícil.Muitas dessas pessoas, hoje trabalham como catadores de recicláveis e se
mantém, mantém a família inclusive.
Já existem pelo menos dois projetos bem sucedidos com catadores de
papel aqui no centro, com o trabalho das ações locais e todo apoio. Que é o
Recifram, com local na São Francisco, várias outras ações locais e a ordem

217
franciscana. E você tem também o recicla Boa Vista que parte do colégio Boa
Vista. E tem outros núcleos também. O que, agora, a Viva o Centro está tentando
ver com isso? É bom você ver carroceiro, carroceiro não, uma pessoa puxando
um carrinho pesado, uma coisa horrorosa cheio de bugiganga pelo centro? Para
que? Não tem muito sentido. Cerqueira César tem uma experiência interessante e
a Viva o Centro acha interessante isso, e a subprefeitura da Sé também está
analisando isso e a gente aqui também. Que é o seguinte: os prédios juntam esse
lixo com possibilidade de reciclagem no seu subsolo ou nos seus térreos, passa
um veículo motorizado e recolhe e leva para esses postos de separação. As
famílias ,essas pessoas corporativadas, separam e comercializam esse reciclável.
E param de carregar, sabe, na rua, para que? Não há necessidade. E o
atendimento social, continua sendo dado e as pessoas continuam se beneficiando
disso.
O que eu noto é assim, que parece que hoje na cidade de São Paulo, nesse
centro expandido, entre os rios. Essa parte de maior poder aquisitivo da cidade,
melhor colocada socialmente, tem uma consciência de que é legal ajudar as
pessoas já. A gente nota isso. É uma coisa legal.
Então, talvez a gente chegue numa fórmula inteligente para que as pessoas
não fiquem virando o lixo, como cachorros vira-latas por aí, que não é legal. Para
você ter uma idéia nós estamos conversando no lugar onde eu moro, tem um
prédio pequeníssimo são 28 aptos só. Nós temos uma reunião de condomínio
semana que vem, e eu já conversei com o pessoal da Lapa ligado a uma igreja,
que tem uma cooperativa de catadores e eles tem um caminhãozinho fechado e
tudo. E eu fui lá perguntar e se a gente recolhesse de todos os aptos... Porque, de
repente isso tudo é muito novo. Pessoas separarem, é, é, tudo bem, desde que eu
era...; estou com 53 anos, desde que eu era criança a minha mãe guardava
garrafas; passava um senhor, para recolher garrafas de vidro, pra recolher jornal
velho, é, o que mais? Mas de repente hoje, tem muito mais materiais para serem
reciclados: tem lata de alumínio, vidro, plástico, papel; e nós estamos percebendo
como sociedade que se nós dermos uma utilidade para esses materiais, nós

218
vamos derrubar menos árvores. É todo um processo de conhecimento, que leva a
gente a rever coisas e a mudar, a adotar outras estratégias.

Eduardo - É ai que está a idéia que a senhora fala bastante, que é a idéia de
requalificação, a estrutura urbana, mas também as pessoas. Não é isso?

Ana Maria - Claro, lógico. A gente viu experiências aqui muito legais, uma delas
tocadas pela Bovespa em parceria com a Secretaria do Trabalho, na gestão
passada. Tem uma escadaria aqui, que liga o Anhangabaú a Líbero, acho que é a
primeira escadaria, tem um paredão branco de pastilha que é do prédio do Edifício
Conde de Prates, que é o primeiro edifício, de frente do prédio da prefeitura, e aí
tem o paredão todo branquinho e tal; está tudo pichado! Mas assim, você não via
mais as pastilhas brancas, não via de tão pichado que estava. Muito bem, a
Bovespa e a Secretaria do Trabalho fizeram um convênio e trabalharam com dez
ou doze ex-camelôs, que se interessaram em ter informação sobre restauro, sobre
limpeza de espaços públicos ou privados, paredões públicos ou privados, de
pichação, por que não tem gente especializada também, e eles especializaram,
eles formaram esse pessoal, com chance de trabalho.
Então requalificar é isso,é dar uma nova qualidade, qualificar de novo, dar
qualidade outra vez, ao que perdeu. E não significa a mesma qualidade, dar nova
qualidade também.

Eduardo - Essa é a idéia da requalificação.

Ana Maria - É essa a idéia, e é em todos os sentidos, no social, no urbanístico, no


paisagístico, no cultural, no do patrimônio histórico. É o caso da catedral da Sé,
ela ganhou qualidade com o restauro. Por que faltavam várias torres inclusive, que
não foram construídas quando ela foi edificada. E que agora no restauro foram
construída, então ela ganhou qualidade. Certo? Beleza!

Eduardo - Obrigado, viu?

219
(Fim da Entrevista)

Entrevista com o Sr. José Bernardo de Araújo, autor da música


“Cidade Mãe”

Araújo - .... Aí você consegue uma casa própria, você não tem capacidade prá ter
duas ou, ao você faz financiamento e consegue a segunda, aí você quer uma
terceira, uma quinta, uma trigésima, umas trezentas aí você vai partir para a
criminalidade, porque sua cabeça ta pedindo aquilo. Eu já sou ao contrário: eu
fiquei, não tem, vou dormir com fome, então vou dormir com fome mas não vou
prejudicar outra pessoa, se eu estou prejudicado é porque eu fui incompetente ou
eu fui revoltado não aceitei as leis humanas. Aliás eu tenho até uma música que
aborda sobre este assunto, até comentei com ele, aquela música axioma, ela
aborda este assunto a pessoa que não concorda com o que está sucedendo ao
seu redor. A pessoa quando ela é direcionada para aquilo que ela é ela vai até a
morte, mas ela não muda, não muda, não muda. Não tem quem faça a pessoa
mudar a mentalidade da pessoa. Você vacila porque você não é perfeito. Mas
depois que você descobre o preço que você tem que pagar por cada vacilo de sua
vida você não quer vacilar mais.

Eduardo – O Curso de Dinâmica que o senhor já faz quanto tempo?

Araújo – Deve fazer uns vinte e cinco anos já.

Eduardo – O senhor chegou em São Paulo em?

Araújo – 1969.

220
Eduardo – De onde o senhor é?

Araújo – Eu sou de Massapé, no Estado do Ceará. Aliás, cérebros inteligentes


nascem lá. Também tem muitos burrinhos.

Eduardo – O senhor saiu de lá com quantos anos?

Araújo – Com 23 anos. Eu nasci em 1946, é 23 anos.

Eduardo – Venho o senhor sozinho?

Araújo – Eu vim sozinho. Mas eu tinha amigo aqui. Entre aspas né porque depois
a gente percebeu...

Eduardo – E a idéia era chegarem São Paulo e fazer o que?

Araújo – Não, não tinha idéia. Meus pais decidiram: não quero você mais aqui,
vamos te dar um dinheiro. Uma conversa assim meio sem graça. Depois eu senti
uma sede enorme de cultura, de sabedoria e aí já fui. Você sabe que eu fiz uma
loucura, eu poderia ter até ficado louco mesmo. Porque quando eu fiz este curso
de tecnologia industrial, eu estudava ginásio, desenho técnico, desenho e projeto
e tecnologia industrial. Eu estava com 16 matérias, eu tive uns problemas na
cabeça, anemia profunda, a anemia profunda é horrível, você sabe que eu
agüentei, eu me alimentava bem, eu dormia muito pouco porque além de estudar
16 matérias, desenho, desenho de projeto, desenho é normal, é acadêmico, mas
quando eu estudava mecânica industrial, eu tinha que também fazer um curso de
desenho de projeto, para poder projetar para a fabricação de peças. Mais o
ginásio quer eram seis ou oito matérias. Então deu este problema. Mas graças a
Deus eu tive a chance de pegar um bom médico, que me passou um
medicamento apropriado, ele não me passou alimento, ele me passou um remédio

221
bom. Aí eu consegui sair da anemia, sempre passava com as notas um tanto
quanto baixa. Sempre tirava seis, oito, dez, dependendo da situação. Aí eu me
formei em torneiro mecânico, com tecnologia de ponta, ou seja, como eu fazia
controle geral, mecânica geral, eu era obrigado a estudar tudo de maquinário.
Para mim foi muito bom porque eu gostava daquilo, aliás eu ainda gosto, eu estou
fora hoje mais ainda gosto.

Eduardo – O senhor trabalho em quais empresas?

Araújo – Sempre em empresas pequenas, empresas que nem constam. Aliás eu


trabalhei numa empresa grande que se chamava Teixeira, que fica aqui na Henry
Ford e que fabricava muitas máquinas para fora e ... mais eu sofri um acidente e
fiquei afastado. Mas foi a única empresa realmente grande em que eu trabalhei.
Só que ela era menos técnica que a outra. Eu trabalhei muito na área comercial.
Graças a Deus, para mim, foram trabalhos que eu ganhei muito dinheiro mas que
eu terminei adquirindo cultura geral. Hoje eu sou bom..., eu não sendo médico
formado eu posso ser muito bom para indicar remédios para as pessoas, eu sou
formado em inglês e português, o que já é uma grande absurdo... Mas eu nunca
quis, se tem uma coisa que eu nunca quis na vida foi dar aula. É triste né, eu
nunca quis dar aula. Tanta gente me pede, hoje o rapaz mesmo me pediu para dar
aula de violão e eu não quero dar. Sabe porque: porque em cada cabeça há uma
sentença. Você não sabe o que eu sou, o que faço, o que eu gosto e o que eu
detesto. Até você me conhecer você tem que viver comigo uns 50 a 60 anos. Prá
vacilar meu amigo, qualquer um vacila um segundo. Agora prá corrigir, nem uma
eternidade. Por isso eu evito dar aula. E é triste, uma pessoa com tanta sabedoria
como eu tenho deveria dar aula, estou certou ou estou errado?

Eduardo – Está certo.

Araújo – Você já percebeu que eu falei uma tonelada de coisas. Eu não preciso
pensar para falar.

222
Eduardo – Quando foi exatamente que a poesia começou a surgir? Ou sempre
esteve presente? A poesia musicada? Todas as poesias que o senhor escreve?

Araújo – A primeira música que eu compus em minha vida tinha treze anos. Já
afloro a letra e a melodia. E esta música o nome dela é “Que mundo é este meu”.
Uma música muito bonita, nunca mostrei para ninguém. Mas eu nunca esqueci.
Daí pra cá começou, tem muito mais melodia na minha cabeça, milhares a mais
do que letras. Para você moldar uma letra não é muito fácil, como eu deixo a
melodia pronta, ela aflora, não tem problema, de um a três segundos, como eu
acredito que tenho um chip, ele é a maquininha que faz esta coisa aí. Só que eu
não esqueço esta melodia. Eu prefiro deixar o vento levar porque senão eu não
vou agüentar, elas caem de uma a dez por dia.E tem umas muito bonitas.Agora
quando eu gosto eu passo a letra para memorizar. Até porque, até uns dez anos
atrás, eu achava que eu fazia estas canções, mas depois que eu estudei dinâmica
eu descobri que eu não fazia eu captava de tudo o que existe na atmosfera, não
sei se você sabe, apesar de você dizer que está estudando geografia, mas a
inserção do ser humano no planeta Terra aconteceu a quatro bilhões de anos, eu
nunca descobri se são anos luz, anos do calendário lunar ou anos do calendário
atual, mas eu acho que são do calendário atual, mas pode ser anos luz, porque a
formação do planeta ela é muito lenta, vamos supor que seja do calendário
gregoriano, o que muito tempo, só que o ser humano não começou agora, então
para você captar esta cultura você tem que ter algo diferente na sua cabeça, pode
ser que você não capte milhões, milhares, mas um ou outro você capta. Você
recebe um recado do além tanto do bem quanto do mal, porque a nossa
convivência de vida ela é muito turbulenta, eu estou conversando com você aqui,
estou ouvindo um som ali, um barulho aqui, meu subconsciente, meu id, ele está
registrando tudo isso, só que ele não fica mais no meu id, porque como eu estou,
no plano carnal, no 59 indo pro 60, então você há de convir que muita coisa já foi
filtrada nesta massa encefálica, não teria como, por mais que ela fosse do
tamanho do planeta Terra não caberia, então é aquilo que eu te falei: entra, passa

223
pelo “lexus” ativo, lexus passivo e liga com o campo magnético, porque o campo
magnético ele não tem tamanho, ele não tem limite, porque se eu fosse colocar
página por página... só quando eu fiz o curso de tecnologia industrial, você acha
que estudar dezesseis matérias, trabalhar numa empresa, chefiar 27 máquinas,
sessenta funcionários, se não queimou os fusíveis é porque tinha este
embasamento. E você sabia que qualquer pessoa pode desenvolver isto. Tudo
depende de querer. Agora, não é aconselhável. Porque não há estrutura para isso.
Se você não tiver capacidade de liberar, você não agüenta. Tanto que, graças a
Deus desenvolvi isto aí, esta capacidade de dissipar e não me incomodo. É como
se eu fosse hoje um zero. Por isso que, você sabe, não sei se já ouviu falar, de um
cara que disse que a única coisa que sei é que nada sei, nem lembro mais quem
foi que falou isso.

Eduardo – Sócrates

Araújo – Depois que ele estudou tudo o que ele tinha de estudar e de aprender no
mundo ele disse: a única coisa que sei é que nada sei. Porque ele passou por isso
que eu estou passando, ele teve a capacidade de jogar pro ar, só que ele não
perde a capacidade de puxar qualquer coisa, quase sempre não vem no momento
que você quer, mas a partir do momento que você emitir uma mensagem para a
atmosfera ela vai lá onde está aquele coisa, passa por todas as partes, as vezes
em questão de segundo ela chega ou demora dias, semanas, já aconteceu isso
várias vezes. Engraçado, tem coisas que quando a gente era criança, essas
coisas que a gente aprende na infância, ela não consegue passar para o campo
magnético, ela são as primeiras matrizes, se lembra de coisas de quando você
tinha quatro anos de idade, e você esquece coisas que aconteceram ontem, a vida
é assim. Agora, o que eu gosto mesmo é desta coisa de criar, mas eu detesto uma
coisa, eu não gosto de focalizar. Só vocês tiveram conhecimento das coisas que
eu fiz algum dia. Mais ninguém no planeta Terra teve. Tirando algumas músicas
que foram gravadas em cd, cara, se eu me apagar hoje ou amanhã vai perder
tudo.

224
Eduardo – Mas por que isso? O senhor nunca pensou em gravar?

Araújo – Esta pergunta eu não deveria responder agora porque... tem motivos
para isso. Repressão social. Segundo eles se eu viesse a aflorar há 20 anos
passados eu prejudicaria milhares de pessoas no planeta Terra, milhares de
pessoas que já eram estruturadas no sapiencial deles Só que eles caíram. Não
sei se você já se conscientizou que o mundo desabou de vinte anos para cá.
E tudo, há professores que não sabem, alunos que se recusam a aprender,
porque houve a massificação da eletrônica, hoje o mundo vive em função da
simulação. Eu não ligo, viver de simulação, dá pra viver de simulação, dá,
tanto é que as empresas de televisão sobrevivem só que eles pensam que
estão sobrevivendo só que eles estão tão endividados que se o governo não
segurasse as pontas eles não conseguiriam sobreviver. Não sei se você sabe
que a macrotelevisão brasileira está falida desde 1985. Se não fosse o nosso
governo ser tão sujo, por isso que eu não gosto de conversar sobre estas coisas,
eles já estariam fora do ar há muito tempo, porque no tempo do Rockfeller quando
ele faliu financeiramente a empresa dele caiu, quando a Manchete afundou
financeiramente caiu, quando a Cultura afundou financeiramente caiu, e foi a única
que ficou porque o governo assumiu, porque não há como faturar para subsistir ou
você pensa que o sistema globo de televisão tem capacidade de faturar pelo
menos 10% do que ela precisa para manter a grade dela. Aí você imagina: o
governo massacra uma nação de 180 milhões de miseráveis, porque não sei se
você sabe, hoje só 3% da população mundial tem riquezas e estas riquezas
brasileiras não pertencem ao povo brasileiro, Silvio Santos não é brasileiro. Os
Marinhos não são descendentes de brasileiros, então, o povo brasileiro é um povo
ferrado cara, ferrado com ferro quente mesmo, porque o povo brasileiro vive hoje,
num texto que eu criei e é muito triste, é que a cultura mundial atual se resume
a três provérbios: tu vales quanto tens, o que é teu é meu, e quanto pior
melhor. Nada a mais a ser discutido e a ser estudado no planeta Terra. Neste
momento de conjuntura mental doentia. Eu não costumo repetir as coisas que

225
eu falo mas esse adágio é tão forte que eu faço questão de repetir: a cultura
mundial hoje de comunicações é só isso: tu vales quanto tens, o que é teu é meu,
e quanto pior melhor.

Eduardo – Então, por isso que o senhor acha que a sua poesia não cabe neste
meio?

Araújo – Não, pelo contrário, a minha poesia seria mais um alerta.

Eduardo – Então, por que não este alerta? Por que não, por exemplo, divulgar
isto aqui?

Araújo – Eu já estou fazendo isso há mais de um ano, só que eu não posso fazer
muita coisa porque as portas estão fechadas, os ouvidos estão tampados, os
olhos estão vendados, eu vou falar para quem. Estou falando para você porque
você se prontificou a ouvir. Agora, isto não é suficiente. Melhor do que falarmos
isto aqui seria estarmos aproveitando este espaço de tempo já para estar
produzindo alguma coisa.

Eduardo – Por exemplo, você falou da questão do povo brasileiro, que o povo
brasileiro é humilhado, é ofendido, massacrado pelos meios de comunicação, e o
povo paulista, quem é o povo paulista?

Araújo – O povo paulista? O povo paulista, lamentavelmente surgiu de uma


cultura meio que import. Mistura de raças. Não foi um povo que surgiu de
uma família que se estruturou, que se moldou, que se evoluiu, que se
industrializou, não, o povo paulista, que nem o povo americano, tem esse
problema, esta deficiência estrutural. Só pra você ter uma idéia: por que eu fui
compor a música cidade mãe? Por que eu achei um absurdo, eu admito que todas
as cidades fundadas no mundo tenham um hino oficial, e São Paulo não tem hino
oficial. Você nunca percebeu isso? Você conhece algum hino da fundação de São

226
Paulo? Que nem dava pra fazer. São Paulo foi fundada assim: o índio Tibiriçá
tinha uma oca no pátio do colégio, talvez você seja a primeira pessoa para que eu
esteja falando, só que o João Ramalho que era aquele português revolucionário
que estava lá em São Vicente, e em Santo André se engraçou com a filha dele aí
ele tinha uma aproximação com os padres jesuítas porque eles eram lá de
Portugal, resolveram coçar o ouvido do índio Tibiriçá pra fundar São Paulo, só que
eles não tinham madeira, não tinham ferramentas, não tinham nada, então
pediram abrigo na oca do Índio Tibiriçá. Tanto é que eles chegaram no dia 24 de
janeiro de 1554, e no dia 25 eles chamaram o padre lá para celebrar a missa.
Então seria impossível construir alguma coisa como diz no livro lá não sei o que.
Não havia tempo nem de cortar uma árvore, imagine se eles tivessem chegado a
noite, já estaria de manhã celebrando a missa? Você sabe que a história ela
mente? Tanto é que não tinha o que escrever, se você for fazer uma pesquisa,
mostra que eles chegaram dia 24, construíram o barracãozinho no pátio do colégio
no dia 25 e celebraram a missa. Não havia tempo. Então esta é a questão. Então
São Paulo foi fundada assim: uma fusão de portugueses, até de uma qualidade
meio ruim porque os portugueses que vieram para o Brasil foram portugueses que
foram expulsos de cárceres em Portugal... (fim do lado A da fita).

Araújo – Eles invadiram o Brasil. Eu nunca concordei com esta historio de que os
Portugueses descobriram o Brasil. Eles não descobriram o Brasil, ele invadiram o
Brasil. Aquela outra história de que na primeira missa os índios estavam
ajoelhados, sei lá, aquilo também é mentira: eles mataram os índios, invadiram o
território para poder celebrar a primeira missa. Para você vê como é que a história
é. São essas coisas, é até perigoso falar, nenhum espírito vai ressuscitar para e
desmentir, mas na prática você vê que é isso mesmo. E não havia tempo. Não é
possível, para você construir qualquer coisa você tem que ter várias dias,
semanas, meses, ai vai lá e em seis hora faz tudo, a história é prodigiosa né?

Eduardo - O senhor falou desta questão das três raças, por que o senhor acha
que isso influenciou na cidade de São Paulo?

227
Araújo – É a coifa de tudo. Se você tiver que comparar São Paulo com uma
árvore, é a coifa, porque eles estavam empenhados em construir, não dilapidar
como fazem hoje. Eles arregaçaram as mangas e começaram tudo. Só que depois
por causa das grandes conquistas o João Ramalho invadiu, ele tomou até parte de
países que hoje compõem a Amazônia, e gerou o primórdio da riqueza paulista,
que eu acredito que eles já trouxeram alguma coisa de lá, podem ter assassinado
pessoas que já tinham ouro, prata, algumas coisas que São Paulo começou a
riqueza assim meio sem explicação. Tanto é que até hoje não tem explicação
como São Paulo funciona. Aliás eu não sei se você sabe por que é que São Paulo
cresce tanto? Por causa de sonegação fiscal. Se você fosse pagar tudo para o
governo federal tudo desapareceria. Então o paulista prefere fazer sonegação
fiscal. Por que em São Paulo existe caixa 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10? Exatamente
para isso: para reter riquezas aqui. Você tem um funcionário que vale dez mil
reais, você paga 500 reais, você fica com 9.500 dele. Dá quinhentos para o
governo em impostos fica com nove mil. São Paulo funciona assim. Ele consegue
reter a riqueza dele porque ele não aceita. O povo paulista, consciente ou
inconscientemente não aceita ficar jogando riquezas para fora. Tanto é que
tem uma proposição de que São Paulo, dentro de vinte ou trinta anos estará
emendada com o Rio de Janeiro. E você sabe que o governo federal não
costuma trazer riquezas para cá. Pelo contrário, ele costuma levar embora,
para sustentar nordestinos. Essas empresas de comunicação que estão há 50,
100 anos no Brasil, elas estão no vermelho, você acha que alguns milhões ou
trilhões não evadiu?

Eduardo – A cidade de São Paulo, nos seus primeiros 300, 400 anos ficou como
uma vila pequena. Essa vila foi fundada lá por jesuítas, com João Ramalho. Ela
começou a crescer realmente como café, depois com toda a industrialização. A
partir de 1950 nos temos mais 500 mil nordestinos que vem para a cidade de São
Paulo, construírem esta cidade. O senhor é um nordestino que veio para cá. Qual
o papel que o Nordestino cumpriu nesta cidade?

228
Araújo – Eu nunca entendi a palavra, o significado da palavra, nunca pesquisei,
mas a palavra chama-se pujança. Você deve conhecer este termo grotesco, mal
explicado ou não explicado, é porque o nordestino ele é demasiadamente
desvalorizado. Lá eles comem de tudo, a lagartixa de parede que eles chamam de
calango, ou come qualquer coisa, não morrem, sobrevivem de qualquer jeito,
embora não tivessem, porque hoje é diferente, eles são de muita força de muita
garra para trabalhar, são pessoas que aprendem, que pegam muito fácil, mesmo
não tendo estudo assimilam muito fácil o aprendizado de como fazer as coisas. Eu
por exemplo, quando eu comecei a estudar o Senai, eu já virei chefe de empresa
de tecnologia industrial, eu comandava o maquinário melhor do que o próprio
engenheiro, muitos engenheiros passaram a aprender comigo, porque eu não fiz
curso por correspondência, eu fiz curso com os melhores engenheiros de São
Paulo, engenheiro japonês, engenheiro alemão, ele chegava e dizia é isto aqui e
eu tinha uma facilidade muito grande assimilativa, então o cara chegava para mim
e pronto. Na minha primeira aula de torneiro mecânico, era um professore
chamado Rioshi, que chegou e falou este aqui é um torno mecânico, este aqui é o
cabeçote móvel, este aqui é a chave, este aqui é o fuso, este aqui é não sei o que,
foi embora e nunca mais o vi, daí pra lá eu era torneiro mecânico. Você não
consegue entender como isso acontece. Todas as empresas que eu pegava para
uma função específica e em seguida eu era chefe. Mas esta capacidade nem todo
mundo tem.

Eduardo – O nordestino tem?

Araújo – Tem muita besta também lá. Eles tem esta capacidade, não sei se é por
causa da luz solar, da posição do planeta, eles são inteligentes, não aproveitam,
mas são. Imagine você se o Chico Anísio tivesse aproveitado a capacidade dele
para o bem da humanidade? O progresso que ele teria feito. Se você tiver a
felicidade de adquirir a melodia, você tem duas obras, uma letra e uma melodia, aí
você tem uma cultura, a história sucinta de uma megalópole, não é muito pouco

229
isso aqui, isso sobre São Paulo? Pois tudo o que se tem pra falar sobre São Paulo
é isso aqui. Aqui é histórico. Tudo o que você quiser falar sobre São Paulo,
filosoficamente, é só isso aqui que você encontra. Sabe quantos dias eu passei
para fazer isso aqui, pensando dia e noite? Cento e vinte dias. Sabe quanto tempo
eu preciso para criar qualquer texto? 7 minutos. Esta música chamado milagre do
pão eu demorei sete minutos. Só que a melodia desta aqui caiu em três segundos.
Aquela lá não caiu. Eu já tive o caso de uma obra poética minha que eu fiquei
quinze anos com o título na cabeça. Quinze anos e não conseguia sair uma
palavra. Sabe o que é quinze anos? Só o título. E pra sair a letra? Mas quando
veio, chegou prontinha, não precisei mudar nada. Aliás foi o único texto mediúnico
que eu recebi na minha vida. Todos os outros eu tive que dilapidar palavra por
palavra. Quinze anos. Então não era eu que estava compondo esta letra, era
alguém que estava compondo lá do outro lado. Aí ela caiu prontinha, “de vez em
quando eu me pego a refletir e deixo de sorrir pra poder avaliar, se
compensou eu deixar a minha terra toda cercada de serras, pra na cidade
morar. Todas as vezes eu cheguei a conclusão que foi pura ilusão, tempo
perdido e mais nada, com tudo isso eu me sinto dividido, entre o meu sertão
querido e minha nova morada. Se eu pudesse eu ficaria um pouquinho,
repousando no cantinho que eu tenho em cada lugar, o sertanejo curte a
beleza das serras, mas não tem valor na terra onde dinheiro não há. Cada
passeio que eu faço a minha terra mata um pouco da saudade que agride o
peito meu, cada parente diz que estou diferente, e eu já sinto saudade da
cidade que deixei, campo e cidade deveriam ser juntinhos e existir um só
caminho para a gente percorrer, é na cidade que se ganha dinheiro, mas
morre o tempo inteiro com vontade de viver” E eu não costumo declamar
porque eu não tenho memória para declamar. Quem teria capacidade de declamar
um texto depois de conversar tanto? Por isso que eu te falo, o cara que tem
dinâmica tem esta vantagem. Ele manda a mensagem para o campo magnético,
ele libera o texto e sai como se fosse um filme. De cada um bilhão de pessoa, eu
te garanto, poucas conseguiriam recitar agora esta letra. Pelo tempo que eu estou

230
conversando, pelo o que eu estou ouvindo, por você estar me obsidiando com a
suas perguntas.

Eduardo – E o senhor continua dividido, entre o campo e a cidade?

Araújo – Sim. Eu vivo mais o campo. Eu creio que minha alma nunca pousa em
São Paulo. Durante este trinta e seis anos que eu estou em São Paulo se minha
alma tiver pousado aqui cinqüenta vezes foi muito. Ela não fica aqui. Deitou na
cama ela vai. Ela é universal. Só que onde ela está ela manda mensagens, ela
manda imagens.

Eduardo – Eu queria entender um pouquinho porque o título da música “Cidade


Mãe” ? Por que este título?

Araújo – Eu não sei se você sabe que o maior sentimento de uma mãe é
proteger. São Paulo tem esta capacidade, é uma cidade que constrói muitas
residências, umas muito ricas, outras pobres, mas sempre uma cidade que
se você for observar pelo total de gente que tem na rua é muito pequena
para a situação da cidade. As vezes, pequenas cidade tem muito mais gente
sem casa própria do que a própria São Paulo. Outra coisa, São Paulo, ela também
tem um sistema de aluguéis, dificilmente uma pessoa fica sem moradia em São
Paulo porque hoje a oferta de moradia é bem maior que o que se necessita. Tem
até muitas casas vazias em São Paulo. Já houve uma grande evasão de pessoas.
Hoje as pessoas não querem mais morar nas casas velhas, estão mudando para
prédios, então eu vejo isso como uma maternidade por causa da acolhida. São
Paulo é, filosoficamente, uma cidade que não tem o sentimento de rejeição. Ela
tanto recebe o bom quanto o ruim, o rico e o miserável, por isso que ela tem esta
cultura, é uma cultura miscigenada, advinda de várias pátrias e de vários idiomas.
Poder-se-ia até dizer que a cultura de São Paulo seria uma torre de Babel. Até
porque as culturas que vem são até um tanto quanto deixadas de lado para pegar
esta cultura interna.

231
Eduardo – O senhor foi bem acolhido em São Paulo?

Araújo – Não. Porque eu tive a infelicidade de vir morar com pessoas que eram
da mesma terra que eu vim e por eles não terem casa própria, não tinham uma
estrutura social boa, eu terminei ficando com eles porque não havia opção, aliás
eu tive uma grande infelicidade que quando eu vim para cá eu trouxe muito
dinheiro, infelizmente um colega meu tomou emprestado para sabe-se lá o que, e
ele terminou falecendo e não me devolveu este dinheiro, eu devia ter comprado
uma casa própria, então por aí começou, foi este incidente, mas eu não estou aqui
hoje, sessenta com cara de quarenta. Mas isso do ponto de vista residencial,
porque do ponto de vista educacional o que eu consegui em São Paulo, deus
que me livre. Um cara que estudou dinâmica, fiz curso de matemática na
escola Quintino de Bocaiúva, a escola de matemática mais arrojada na
história da matemática, e nem sei se ainda existe, fiz caminho do cientista,
acho que você nunca viu este livro, aquilo é milhões de vezes superior ao
que se ensina hoje nas escolas, aí eu fui formado geografia, história, técnico
industrial, desenho, idiomas. Agora você poderia perguntar: como é que você
agüenta tudo isso? Nem eu sei. Eu tive algumas coisas, alguns cuidados. Eu não
sou alcoólatra, eu não sou tabagista, eu fui bastante cauteloso na promiscuidade,
porque na minha época era muito arriscado, tanto do ponto de vista de contágio
ou de contaminação quanto a repressão política, eu tive que enfrentar o exército
uma vez e eles queriam me ganhar no grito. Você sabe que as palavras tem
poder. “Me dá o documento”. Puxei o RG. Passou cinco minutos, me deu o RG.
Qualquer um faria em três segundos. Devolveu o RG e falou: não pedi RG, pedi o
documento. Aí eu falei na cara dele, escuta, eu quero que você saiba de uma
coisa RG é documento e é de chefatura de polícia. Aí ele falou: “mas eu quero
uma carteira profissional com emprego registrado” Aí eu falei: se você me mostrar
uma lei que me obrigue a fazer o que você está pedindo eu te faço agora. Ele não
tinha lei, eu virei as costas e fui embora. Tem que ter coragem? Enfrentar o
exército, tinha mais de 10 policiais tudo com fuzis na mão. Mas eu tinha uma certa

232
proteção. Inclusive eu também tenho um curso de bioenerge, que é muito mais
importante que dinâmica, se eu não quiser eu falo aqui e você não ouve aí. E se
ouvir não consegue assimiliar. Eu não quis ser chato. Agora ai de você se quiser
isto daí para me prejudicar.

Eduardo – Em relação a sua vivência com a cidade, sua relação com a cidade,
em algum momento, o senhor disse que o nordestino é bastante desvalorizado, o
senhor se sentiu desvalorizado aqui?
Araújo – Eu me senti rejeitado. Porque quando você pega um produtor musical
que chega para você e nada diz, nada faz ou tem acesso ao que você faz e o
omite ai depois você fica sabendo que ele comentou numa reunião de cúpula “este
cara tem que ficar fora do meio artístico porque se ele entrar nada fica em pé” E
eu fui tão obediente que eu fiquei. Eu deixei desabar tudo. Não sei se você já
percebeu, que você também está na luta querendo arrombar uma porta porque
não se abre mais, pra mim foi muito difícil aceitar, depois que um amigo meu me
falou que tinha acontecido isso, tudo bem eu me retiro, deixo o meio artístico
seguir sua inércia, só que o meio artístico ta aí, e eu fiquei fazendo minhas
musiquinhas, que são musiconas, posso dizer, graças a Deus, não foi eu que fiz e
tenho certeza que vem de Deus porque de satanás não seria, ele lá sabe fazer,
ele só sabe extrapolar, aliás o Satanás teve um infelicidade tão grande na vida
que, segundo a bíblia consta ele teve uma ousadia, porque o Satanás, embora ele
seja excessivamente sábio, ele ainda acredita que ele tem poderes maiores, mas
ele não tem. Ele teria dito para Jesus Cristo lá no monte Sinai, que ele daria todas
as riquezas universais, tanto é que ele mandou ele olhar para o Universo, se
Jesus Cristo aceitasse se prostrar de joelho e adorá-lo. Nem se Jesus Cristo
quisesse fazer isso ele poderia porque adorar é reconhecer a pessoa adorada
como sendo supremo senhor de todas as coisas, em todos os tempos e lugares.
Um cara que tem estas informações espirituais, não vai aceitar uma
promiscuidade num sistema musical do Brasil que estava a beira do colapso.
Então, nesta situação eu fiquei fora do meio artístico, mas sempre criando, tanto é
que esta música cidade mãe, isto que eu estou te falando aconteceu há vinte anos

233
passados, esta cidade mãe foi composta agora em 2004, quando São Paulo fez
450 anos e o milagre do pão foi feito agora há duas, três semanas passadas.
Hiper recente. E bem memorizada já. Aliás, eu estou achando que a música
cidade mãe é a música mais bonita que eu fiz. É linda esta música.

Eduardo – Como que ta o processo de oficialização da música?

Araújo – Não está. Esta música já é oficializada.


Eduardo – Então já é o hino da cidade?

Araújo – Você fala na parte jurídica? Não. Este aí é um assunto que ainda vai ser
abordado. O primeiro passo será produzi-la. Dentro do pátio do colégio lá, onde foi
feita esta música, ela já conta lá como registro. Porque se você observar não há
mentira aí. Eu não compus uma música mediúnica, eu compus uma música de
pesquisa e de vivência, porque uma pessoas que já está vivendo em São Paulo
há 36 anos, aliás esta música foi composta exatamente quando eles
começaram a fazer a propaganda dos 450 anos que seria este evento mal
fadado, eu acho que foi o pior evento que São Paulo fez, eu estive lá
pessoalmente, foi feio, a Globo desligou as câmeras, o povo foi para a praia,
foi um negócio feio, foi feio até demais. Como é que você vai comemorar os
quatrocentos e cinqüenta anos, um jubileu excomunal do terceiro conglomerado
mundial, a maior cultura mundial, São Paulo detém a maior cultura mundial,
São Paulo tem um cultura import, tem cultura de todos os conglomerados do
planeta, é claro que estão aí nos livros, nos cadernos, sei lá o que, mas se
um dia São Paulo for incendiada morre a maior cultura do mundo. Não é
utilizada, não é aceita, mas está. Aqui tem arquivos que dá medo. O sapiencial
que tem em São Paulo, tanto é que pessoas que querem ser médicos de ponta,
astronautas, não fazem o curso deles sem puxar alguma coisa aqui de dentro.
Quem quiser desmentir que o faça. 451 anos e o mundo vindo para cá.

Eduardo – E a festa, senhor achou ruim?

234
Araújo – Ruim, até porque não houve festa. A prefeita contratou vários conjuntos
de anonimato, não tinham nenhum nome, não tinham expressões culturais, não
tinham capacidades profissionais, é que nem eu pegar o meu violão seis meses e
começar a dar o meu recadinho na rua, não havia público porque ela pegou desde
o viaduto Maria Paula até o Ibirapuera, lotado de quiosques e de barracas, então,
mas não havia um ponto de platéia, de show.

Eduardo – Mas o Anhangabaú foi este ponto no final. Teve um grande show, no
final, no Anhangabaú.

Araújo – Aí você tem o Anhangabaú, entre o Anhangabaú e Santa Ifigênia caberia


dois milhões de pessoas, aí você, não sei porque cargas dágua, foi feito do lado
do terminal rodoviário que cabia cento e setenta mil pessoas. Outra coisa: a Rita
Lee é paulista? É paulista, sim. Mas a Rita Lee canta o sapiencial paulista? O
povo sabe o que a Rita Lee canta, você acha que algum paulista ou paulistano iria
trocar a praia daquele dia pra ver Rita Lee no Anhangabaú? Mas uma outra
cantorinha que estava sendo focalizada? Mas este Zé povinho foi lá no show.
Teve algum significado. Você ta fazendo um show para uma cidade que tem
quatrocentos e cinqüenta anos, dez milhões de habitantes, por ser uma cidade de
450 anos tem turista do mundo inteiro vindo aqui, poderia ter chegado a trinta
milhões de pessoas, para fazer um mísero show para 200 mil pessoas, que talvez
seja nada mais, nada menos que pessoas que não teriam capacidade superior a
tomar uma pinguinha. Estas coisas não se justificam. Isso é derrubar uma cidade.
É derrubar um povo. E foi isto que a fez perder a belezura. Ela se desqualificou.

Eduardo – A cidade está desqualificada?

Araújo – Não, a prefeita. Quem teria capacidade desqualificar São Paulo?


Ninguém. Nós nem temos idéia da estrutura que é São Paulo. É que o paulista e o
paulistano não se importa. Ele quer trabalhar e ganhar dinheiro. Nada mais

235
interessa. Quando ele está saturado, ele já tem este hábito, fim de semana, tem a
praia, a Serra da Mantiqueira, ele vai queimar um churrasco. Você não é
paulistano? Então por que está engolindo tudo isso e não faz nada?

Eduardo – De vez em quando, esta cidade, ela não me parece uma cidade tão
acolhedora assim.

Araújo – Não, ela não é por si própria, não é algo natural. É a busca de algo
melhor

Eduardo – Ela é a representação desta busca do algo melhor?

Araújo – É o tal do negócio: você se lembra quando Ícaro queria voar. Ele
nunca teve a capacidade de saber que ele não tinha nascido com asas. E
qualquer asa artificial que ele fizesse o mataria. O povo que vem para São
Paulo tem este mesmo problema. Às vezes ele vem de um lugar
infinitamente melhor, eu por exemplo sou filho de um fazendeiro com
quinhentos hectares de terra. E o que eu faço aqui em São Paulo? Por que
que eu não estou lá? Nem eu saberia responder. (fim da fita)

Araújo – Gosto tanto de São Paulo que se tivesse que fazer uma Guerra para
defender São Paulo eu faria. Só que eu quero que seja uma Guerra cultural, não
quero que seja uma guerra..., até porque eu disponho de material para isso.

Eduardo – Esta guerra a favor de São Paulo seria contra quem?

Araújo – Contra a imposição.

Eduardo – De quem? Quem destrói São Paulo?

236
Araújo – Os poderosos. Qual é a função focalizada de cultura no rádio e na
televisão em São Paulo? É aquilo que eu te falei: vales quanto ganhas, o que é
teu é meu, quanto pior melhor. De quem é a culpa? Só pode ser do governo
federal que permite e ainda patrocina. Ou você acha que o cara está fazendo tudo,
eu já não diria errado porque eu não tenho a capacidade para dizer o que é certo
e o que é errado, mas digamos o inverso, está dando pra manter o seu negócio.Eu
não tenho capacidade de ganhar eu vou lá e arranco do governo federal bilhões
que eu preciso, eu negocio o que eu devo, eu passo com o meu trator por cima de
quem quer que seja, você sabe que a cultura brasileira hoje é só a cultura
paulista? Já percebeu isso? Você acha que haveria a possibilidade de alguém
abrir as portas para mim. Ainda que quisesse. Eu não sei se você vai ter esta
felicidade. Eu tenho uma pasta chamada o povo quer saber. Eu tenho que ter
muito cuidado para mostrar esta página. Eu posso ser assassinado
imediatamente. Exatamente sobre esta imposição, desta aculturação. Estou
usando um termo negativo porque o que está acontecendo no Brasil não é uma
culturação. Aliás meus professores já falavam em 1974 que o Brasil já vivia numa
escala menor da cultura. Só que o Brasil tem um problema bom: a medida que ele
decresce culturalmente, ele cresce em criatividade. Você sabe quantos cantores
tem em São Paulo com produção musical? 110 mil. Todos com zíper na boca.
Porque São Paulo é utilizado só para gerar riquezas para atravessadores. Você
teria explicações para como um cara que compõe música a 46 anos está no
anonimato e neguinhos que nunca compuseram um verso tem duas mil e
quinhentas músicas gravadas? Eu também não saberia responder. Só que eu bato
palmas para eles porque eles aceitaram a situação, eles queriam esmagar os
autores, eu não aceito, já o fiz mas não o farei mais. Se tu quiseres participar de
uma obra comigo tu vais tem que sentar comigo e criá-la. Uma coisa é o dom que
tenho de receber uma obra, outra coisa é você querer fazer uma obra. Um
maestro não consegue criar uma música, porque ele estuda como executar uma
música, não existe curso para criar uma música.

Eduardo – O senhor falou que o governo federal é um grande culpado...

237
Araújo – Ele é o macro-culpado. Ele é até conivente.

Eduardo – Porém, nos últimos dez anos são presidentes que vieram de São
Paulo. Ou que nasceram aqui ou que passaram grande parte da vida aqui. Como
se explica isso?

Araújo – Eles não são presidentes do Brasil, eles são presidentes de uma
estrutura errada. Eles tomam posse já com lavagem cerebral porque se eles não
tivessem lavagem cerebral eles nem tomariam posse. Porque quando eles estão
em campanhas políticas, eles estão imbuídos da melhor vontade, eles estão
dentro do parâmetro filosófico que eu vou entrar para corrigir. Só que já existe
uma estrutura de 500 anos que ele não vai poder modificar, nem ele, nem você,
nem quem quer que seja. Por que que se governa hoje por decretos leis? Porque
a vontade não prevalece. Quando um presidente da república toma posse no
Brasil ele vai tomar posse de um fantoche. Nunca vai ter a vontade pública. E sim
a continuidade da imposição de uma cultura de 500 anos. Ele vai ser presidente,
diretor-presidente de algo que já vem de 500 anos e ele não vai poder, mesmo
que queira, impor a vontade dele. Que maravilha que é assim porque em todos os
países onde os empossados fizeram um acordo para tomar posse e não
cumpriram foi um desastre. Há quem diga que no Brasil não há guerra, haverá sim
no dia em que um empossado a presidência da república resolver fazer as coisas
do jeito dele.

Eduardo – São Paulo também, nas últimas décadas, que mais recebeu
investimento do governo federal. São Paulo, no país todo, recebeu maiores
auxílios, maiores investimentos, então, o que acontece com este dinheiro que não
é transformado em melhoria da qualidade de vida, melhoria da saúde, da
educação?

238
Araújo – Eu vou me recusar a responder esta questão, porque ela é muito
comprometedora. Eu saberia a resposta mas ela me compromete. Até porque eu
não te conheço. Mas eu não vou responder, assim eu estaria livre desta estrutura
lasciva.

Eduardo – Então a culpa não está só no governo Federal?

Araújo – Aí não se trata de culpa, já se trata de uma estrutura tecnocrática e


financeira. Eu não mexo nesta área.

Eduardo – Que tem raízes em São Paulo?

Araújo – Esta ramificação da corrupção é abrangente. Não se deve conversar


sobre isso.

Eduardo – Uma última pergunta, só pra terminar, o senhor é feliz em São Paulo?

Araújo – Sou. Não matei, não roubei, devo não nego, pago quando quiser. Durmo
feito um anjo. Não machuco as pessoas. Só que tem uma coisa: o dia em que tiver
um trator talvez eu pense diferente. E eu gostaria de continuar morando em São
Paulo. Mesmo tendo muito que fazer lá fora eu gostaria de continuar. Se eu
pudesse eu faria, não por São Paulo, porque São Paulo é uma cidade muito bem
construída muito bem constituída, mas pelas pessoas carentes de São Paulo, se
eu pudesse eu faria um negócio bom.

Eduardo – E o que falta para a cidade mãe ser uma mãe um pouco mais
generosa?

Araújo – Tudo. Partindo-se da premissa que querer é poder ela só pode ser isso
no dia que alguém quiser. A partir do momento que você quer fazer uma coisa,
ainda que você nada tenha, só o fato de você querer você germina o que vai vir.

239
Até eu mesmo, no dia em que eu quiser começarei a fazer. Porque querer é
poder. Este adágio não é meu e também não sei de quem é. Querer é poder. No
dia em que o povo paulista quiser, aqui não haverá maus políticos, não haverá
maus industriais, não haverá maus músicos, não haverá uma perfídia televisão,
rádio, etc. No dia em que o povo paulista quiser, São Paulo vai ser e será de
qualquer jeito o foco de formação amplo de cultura.

Eduardo – São Paulo é a cultura superior do Brasil?

Araújo – São Paulo é a maior cultura do mundo até. De todo o planeta.


Porque, qual é o país que não tem uma representatividade aqui? Você
conhece algum? Temos até a cultura indígena, infelizmente não foi
aproveitada. Eles se sentiram tão desestimulados para sobreviver que nada
mais quiseram fazer. Qual é o país do mundo que não quer ter um fábrica em
São Paulo e no Brasil? Porque São Paulo hoje não é mais só o Estado de
São Paulo, São Paulo hoje é Fortaleza, é Paraná, Rio Grande do Sul. Aí você
pergunta: espaço físico? Não. Cultura Sapiencial. Porque o torneiro mecânico
que está trabalhando no Paraná, em Fortaleza, no raio que o parta, se formaram
em São Paulo, até porque eles não tinham estas escolas lá. No tempo em que vim
para São Paulo não havia estes cursos, a gente nem sabia como surgiu o carro.
Então São Paulo, queira ou não queira, sempre vai ser o ponto de referência para
qualquer pessoa que queira se desenvolver, principalmente culturalmente. Para
quem não sabe, as criatividades e as desenvolturas não são feitas por industriais,
e sim por pessoas que são missioneiras. Se eu tivesse querido ser um
missioneiro, ser um padre, um pastor, um professor, eu poderia ter sido
assassinado, porque uma coisa é você está conversando aqui, outra coisa é você
querer impor isso, e o missioneiro tem esta coisa. Por que que a irmã Dorothy foi
assassinado? Porque ela não abriu mão da sua maneira de ser. Por que que eu
não quero ser professor? Porque eu não quero enfrentar o edil paulista. Mais
alguma coisa. Satisfeito

240
Eduardo – Satisfeito.

Araújo – Se não gostar joga fora.

Eduardo – Obrigado.

Oração-poema por Guilherme de Almeida ao ser inaugurado, no


Parque Ibirapuera, o monumento elevado à epopéia Paulista.

“Esta praça pública – que a benção lustral de um nome ilustra: o de um


bandeirante que distendeu até as fronteiras da cultura e do civismo a vertical de
um meridiano de arbítrio que lhe estreitava a pátria, e foi por isso desterrado, e só
voltou para dar seu corpo à terra a que dera sua alma – esta praça pública é neste
instante a patena ritual de um simbólico ofertório. Ora se alça este litúrgico
fragmento de chão paulista para o sacrifício da total entrega a São Paulo de seu
próprio corpo místico: esse ímpeto de granito, rompente na rija convulsão de seus
músculos e no indômito impulso de seu pensamento.
‘Suscipe’! Recebe, povo Bandeirante, os Bandeirantes!

Na vigília-de-armas do IV Centenário da Cidade de São Paulo – Ano 399 da


Fundação – aí estão eles, hóspedes primeiros e primaciais, de volta a sua velha
Piratininga e não mais desfigurados pela jornada, mas transfigurados pela arte.

Voltaram os Bandeirantes!
Voltou aquele que arrancou ao flanco
Do Jaraguá o ouro primeiro, e foi
Bater no Araçoiaba o ferro em brasa...
Voltaram os Bandeirantes!
Voltou o que ao morrer, no Parapuava
Na página-de-rosto dos Lusíadas

241
Lavou seu testamento de pobreza,
Amalgamando suas epopéias...
Voltaram os bandeirantes!
Voltou das cinzas e voltou do pó
De Guairá e do Lope destroçado
O que expulsou o hispânico, trazendo
Todo o mapa do sul em suas solas!
Aquele que, depois, galgando os Ande,
E descendo o Amazonas, quis lavar
No Pacífico as mãos e os pés do Atlântico...
Voltaram os Bandeirantes!
Voltou os que as caatingas do Nordeste
Semeou de cidades e fazendas
E a bateu o quilombo de Palmares...
Voltaram os Bandeirantes...
Voltou do enigma do sertão goiano
O ‘diabo velho’ que incendiou águas
Na luta longa do devassamento...
Voltaram os Bandeirantes!
Voltou aquele sonhador do sono
Verde das esmeraldas fabulosas
Sumidas no sumir do sumidouro...
Voltaram os bandeirantes!
Aquele que achou o ouro das Gerais;
E os que o foram buscar, varando rios,
Pelos confins sem fim do Mato-Grosso;
E o que, confiante, foi com seu canoões,
Tiête abaixo para a fundação
Da trágica traição de Iguatemi...
Voltaram os Bandeirantes!
Voltaram os que andaram desfolhando,

242
A ferro e fogo e suor e sangue e lágrimas,
Toda a rosa-dos-ventos, só guardando
Da flor, que orienta o mapa que traçaram,
O caule dos acúleos finos, para
Para a coroa-de-espinhos que cingiram...
Voltaram os Bandeirantes
Num paredão humano de calcário:
Nossa primeira e última trincheira...
Voltaram os Bandeirantes
Talhados na rocha viva
Que a arte paralisou
Num ritmo de Eternidade!
Benvindos os Bandeirantes!
Benvindos pela fé,
Benvindos pela forçam
Benvindos pelo amor,
Benvindos pelo ideal:
Fé, força, amor, ideal
Que são a nossa herança
Inalienável e única!

Deuses lares de pedra,


Penates de granito,
Ó numes tutelares,
Velai, velai por nós.

243
Hino dos Bandeirantes

Paulista, pára um só instante


Dos teus quatro séculos ante
A tua terra sem fronteiras,
O teu São Paulo das "bandeiras"!

Deixa atrás o presente:


Olha o passado à frente!

Vem com Martim Afonso a São Vicente!


Galga a Serra do Mar! Além, lá no alto,
Bartira sonha sossegadamente
Na sua rede virgem do Planalto.
Espreita-a entre a folhagem de esmeralda;
Beija-lhe a Cruz de Estrelas da grinalda!
Agora, escuta! Aí vem, moendo o cascalho,
Botas-de-nove-Iéguas, João Ramalho.
Serra-acima, dos baixos da restinga,
Vem subindo a roupeta
De Nóbrega e de Anchieta.

Contempla os Campos de Piratininga!

244
Este é o Colégio. Adiante está o sertão.
Vai! Segue a entrada! Enfrenta!
Avança! Investe!

Norte - Sul - Este - Oeste,


Em "bandeira" ou "monção",
Doma os índios bravios.

Rompe a selva, abre minas, vara rios;


No leito da jazida
Acorda a pedraria adormecida;
Retorce os braços rijos
E tira o ouro dos seus esconderijos!

Bateia, escorre a ganga,


Lavra, planta, povoa.
Depois volta à garoa!

E adivinha através dessa cortina,


Natardinha enfeitada de miçanga,

A sagrada Colina
Ao Grito do Ipiranga!
Entreabre agora os véus!
Do cafezal, Senhor dos Horizontes,
Verás fluirpor plainos, vales, montes,
Usinas, gares, silos, cais, arranha-céus!

. A lei n° 337, de 10 de julho de 1974, revoga o artigo 3° da Lei n. 9854 (*) de 2 de


outubro de 1967, e institui, como letra do Hino Oficial do Estado de São Paulo, o
poema

245
"Hino dos Bandeirantes". Autor: Guilherme de Almeida

Cidade Mãe
Autor: José Bernardo de Araújo.
(Esta canção foi coletada num festival de cultura popular, em Vila Prudente, Zona
Leste de São Paulo. Neste Festival, o poeta Araújo apresentou seu poema-canção
em homenagem aos 450 anos da cidade de São Paulo).

São Paulo Cidade Mãe dos filhos dos povos de todas as raças.
São Paulo de gente que migra em todas as ruas e em todas as praças,
O mundo te desidera, por tua grandeza, cidade progresso;
Teu povo, que sempre trabalha, é quem te transforma em cidade sucesso.

São Paulo cidade Mãe com um coração de Pai,


Já recebeu tanta gente e a cada dia recebe mais.

Fundada por Jesuítas em 1554, por eles abençoada e projetada pra ser de fato,
A mais Pomposa cidade edificada na América do Sul!
Por incrível que pareça tem um sol que brilha em um céu azul.

São Paulo cidade Mãe com um coração de Pai,


Já recebeu tanta gente e a cada dia recebe mais.

Cultura enriquecida de leste a oeste, de sul a norte;


Com raças e tanta gente que aqui veio tentar a sorte.

246
Cidade laboriosa comprometida com o seu porvir.
Cidade que nunca para porque o seu lema é evoluir.

Hino da Parada dos 450 anos


Autor: Zé Rodrix

São Paulo é
Minha cidade, é
Minha verdade e minha devoção
São Paulo tem
O mundo inteiro, tem,
E cabe tudo no seu coração.

São Paulo quer


Que a gente viva em paz
Crescendo alto e forte e muito mais

SÃO PAULO É MINHA


EU TENHO QUE FALAR
AQUI ESTOU, AQUI QUERO FICAR,
SÃO PAULO É MEU LUGAR

São Paulo faz


Todo o Brasil crescer
Puxando firme sem esmorecer

São Paulo diz

247
Que eu posso ser feliz
E me ensina o jeito de viver

São Paulo faz


A gente pedir bis
E dá o exemplo pra qualquer país

SÃO PAULO É MINHA


EU TENHO QUE FALAR
AQUI ESTOU, AQUI QUERO FICAR,
SÃO PAULO É MEU LUGAR

Ítalo-moura-baiana-hispano-gaúcho-nipo-nordestina
Pra quem vem de fora é o umbigo do mundo
É lar e é luz pra quem nasceu aqui

São Paulo cresce e não pára, é bela e é nossa, conhecida e rara


Riqueza que brota e que cresce do solo
Pra que a gente colha com as próprias mãos.

São Paulo é
O meu conforto, é,
O porto e o abrigo que escolhi
E vinte e cinco
De janeiro dá
Esse presente para quem vive aqui

São Paulo traz


Uma lição de amor
Nesta mistura de sotaque e cor

248
SÃO PAULO É MINHA
EU TENHO QUE FALAR
AQUI ESTOU, AQUI QUERO FICAR,
SÃO PAULO É MEU LUGAR

249