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ARANHA

da Academia

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H. GARNIER
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Milkau cavalgava mollemente o cançado cavallo
que alugara para ir do Queimado á cidade do
P o r t o do Cachoeiro, no Espirito-Santo.
Os seus olhos de immigrante pasciam na doce
redondeza do panorama. N'essa região a terra
exprime uma harmonia perfeita no conjunção
das coisas : nem o rio é largo e monstruoso precipitando-se como espantosa torrente, nem a serra ^
se compõe de grandes montanhas, d'essas que enterram a cabeça nas nuvens e fascinam e attráem
como inspiradoras de cultos tenebrosos, convidando á morte como a u m tentador abrigo... O
Santa Maria é um pequeno íilho das alturas,
""TTgeiro~êm seus teasipio^ depois é m b a r ^ á ^ ^ H <
longo trecho por pedras que o encacho
das quaes se livra n ' u m terrível esforçof^tígind'
de dòr, para alcançar afinal a sua vt\o[i\fà(àc s^vy
e alegre. Escapa-se então por entre '(unia flor

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insectos Í\jMf tornavam mais sedativa u Jrjll& a 2j%L. Milkau deixava o . J ' a rédea cahia frouxa sobre o pescoçòjdo animal. Elias por sua vez se alteiam gracipsas.-v J ptuosa sensação df silencio. as vozesinhas dos pequeninos /* ÍJll-f. A solidão formada p rio e pelos morros era n'aquelle glorioso momento fc£. o d/***** **CTãiC CHANAAN sem grandeza. vestidas quente e infinma. '^-Jltm+ *'á***-l . Milkau cahia em longa s c í s m a / ^ f y l ^ con.. cavallo tomar o passo indolente e desencontrado ./ ».. Os humildes ruídos da natureza contribuíam parfr-trma volu. f sol nascente vinha erguendo-se / í j ^ ^ a d o na c a l . o /wwv^ji sussurro do rio.t "t VtXfAj i&^A longas sobre os olhos viscosos. ^ Z que balançava moroso a cabeça.//#/*" SLti^^/Asoladora.'H r ^ ^ ^ m e n t o perturbador que cr^a e destróe. inquebrantavel immobilidade das coisas. luminosa e calma.<lr. o próprio /v.. Tudo era um *i abandono preguiçoso. Sobre ella não pairava a menor angustia de terror.^qjiellft-qWnão esteve em repouso absp- é ~ >ew?~ lj*f~ r #~* 'y*U*S4 **/***•. Absorto na contemplação. ''%. / .£#»«. ^fei*ando de '' II*' quando em quando as palpebras pesadas/desce^. . que parece entregarem-se \f* complacentes áquella risonha e humida loucura.v»-maria da noite f c/l seus raios não tinham amda a 'llj \ *£££* potência de alvoroçar as entranhas da terra soce. um arrastar languido por entre a tranquillidade da paizagem. \xntr-'/yJL rompia-se alli o ruído incessante da vida. A aragem mansa. J gada. insinua-se vivaz no seio de colunas) torneadas e brandas. o movi.

. fíão viyeu em si mesmo . Umas vezes. ff compungia/deante da trefega e ossuda creança -/^P /^* que era essa. para se o / expandir. a uma plena expansão da individuali. rebento fanado de uma raça que se ia extinguindo na dôr surda e inconsciente das espécies que nunca chegam a uma florescência superior. fluido perturbador que emanaxa^déj seus nervos ~ ff **~ doloridos e máos. vens sempre ao Cachoeira? — Ah!. disse o menino como que espantado de ouvir uma voz humana. 5fedag as eternas. surgia I /oi JÍál do fundo dos seus pensamentos. soltava uma . as santas creações do espiritoV do coração' são/geradas nas forças mysteriosas e fecundas do sile%CTOrrj-. E oviajantel sahia da contemplação. as boas.. y hojejqtMT sereno^... O pequeno. 4.^ / . mas / desde muito não chegava ninguém da Victoria.y\i CHA^ÍAN luto.Tt-^/j^ Na frente do immigrante vinha como guia um ' menino. deixava-se conduzir pelo seu velho cavallo. resmungava com o animal. esporeava-o e o fazia galopar descompassado e arquejantè. muito enfastiado d'aquella viagem e do companheiro.f * dade. palavra que ficava morta no a r / outras. filho de um alugador de animaes no Queimado.. ainda ante-hontem vim. elle mesmo se ^espanta do yr *.Venho sempre rf quando ha freguez. Também choveu tanto estes dias !.. Milkau n'esses momentos attentava no menino e . — Então. e chamando a * ' si o pequeno : -. no turbilhão £MI^Í/^ f>$0jl proferiu accèntos que Sk não percebia. .

croanea^ Frgtil r r í p n n d f l l . a gente bebe mingáo.i CHAXAAX — De que gostas mais : da tua casa ou da cidade ? — Da cidade... mas o subdelegado não consente le a gente / tem que se cançar por nada. — Ahi no Queimado vocês não têm carne? — Ah! nhor sim. A paizagem não variava no desenho.. Cambem foi só cocoróca e um pinguinho. nhor sim. Hoje. como . Seu Zé Francisco diz que é porque a água está fria. este sorria agradecido. mas tia Rita diz que agora é tempo de lua e a mãe d'agua não deixa o peixe sahir. l l h f 21 ?$n'r* prr>«»pl-nry. estávamos já de volta.. mostrando os dentes verdes e ponteagudos.»~^ — Ah ! nhor não ! — Que fazes então ? — A gente ajuda o pae. quando falta.. carne secca na venda do pae... de madrugadinha vamos para a pescaria levantar a rede. Só quatro. mas é para a freguezia. antes do patrão chegar.. O melhor é pescar com bombas. continuavam a marchar pela estrada a tro.. Nós comemos peixe. As vezes. apenas o sol começava a incendiar o espaço. abrindo os lábios descorados.r>nt.4fttertt^toi4eT-qtte.. d rio está escasso.dejj»»i'tuvi" e alegrava a.-seu-. — Teu serviço em casa de teu pae é só acompanhar os passageiros para o Cachoeira ? cwrtintrou M4Ík*t*-fK>. Milkau fitava com bondade o pequeno guia.

. WCj \ animado pela conversa. e de lá á cidade é o mesmo que para o Queimado. r t . n u m a curva da estrada. — Quanto falta para chegarmos. <«/r'"**^.nbai^ujwtinrnVampntP^sga-acteüiiadj&^gos dois asy!lr*^s\m.. deitar a rede.. si a água estiver quente. após tratar dos animaes. o *^^v£. avançavam pelo caminho afora. — Mais da metade do caminho. mas o rosto macillento sepsclarecia com a grande doçura de uma longa resignação de raça.. — O h ! patrão. O pequeno. empunhava as rédeas com firZ. meu filho ? perguntou ainda o viajante. hoje é dia de ir com a mãe fazer lenha.menino apontou para adeante e voltando-se disse ao companheiro : (UAJ^- f"T* **£? ^4. fincava as pernas de esqueleto e punha f^y^~ o animal n'um trote esperto. — T u voltas logo para casa. *** . ainda não se avista a fazenda da Samambaia.. O pae disse. O pae diz que eu volte já. ou queres descançar um pouco? Fica até á tarde.T?"~ meza. é noite de peixe. O immigrante compadecido testemunhava n'aquelles nove annos do desgraçado a assombrosa precocidade dos filhos dos miseráveis. V» . concertar a rede que a canoa de seu Zé Francisco arrebentou esta madrugada.tempo depois. alinhava-se garboso no i j ^ v velho cavallo. Pgttee. fugitiva ligação da piedade e da miséria.CHANAAN Üj^ 5 afiada serra . porque hoje... Milkau acompaq~f. antes da lua apparecer. e nós vamos á noite. ^^ -J2 <=<•£-&...

A terra era cany~ cada e a plantação medíocre. ora a ./infecunda para o amor. oscillavam. / Lá no alto da collina um casarão pardacento ***" * misturava-se k bruma azul acinzentada do longeJ_ / • £ i á medida que Milkau proseguia. delgados. Milkau passou/Jd atraz d'elle uma pancada //* Í5 b . com o sorriso gentil no rosto violaceo. o morro na frente tapava a estrada.JftfJíUft (4tf Wtíj0&Wfr grito agudo. exhausta **" e risonha. ia morrer sobre elle. ao contemplar aquella terra sem forças. traducção da força da seiva. if~A / fítt/ÜBL coloria-^de um verde claro.e WjMwn TTi tarados vent 7 ^~ >>^3Terra 3tecemenie--&~grandp eétFe^çrar-era cheio «f0**~*> i j j n minliii dii~i"TiTT^d M * /c/ 7" . uma turva mistura de desfallecimento e de prazer mofino. Milkau e o seu guia chegaram a uma porteira que fechava a estrada no trecho" em que &Ê* cortava as terras da Samambaia.c Cl IA NA AN — Estamos na Samambaia. abrindo*. io cafesal jyfyffii o matiz verde-chumbo. /frffl extenuada para a «-»• vida. o horizonte se ia estreitando. roça de mandioca na baixada. estirando-se n'um esforço. O menino empurrou a cancella ^ com uma das mãos foi /. como si lhes faltassem raízes — * * « * * * . Os viajantes margeavam ora o cafesal plantado na encosta das collinas. e parecia que esta. A terra morria alli como uma bella mulher ainda moça.j ilnb {«iiiiLiims^ne /*•*' entia-se^C^'. os pés de mandioca finos. brilhando aos tons dourados da luz .

cf $<$$$£ &fflfjfy bojs agi. Faziam-lhes *-*>r*'-"y\ companhia aves de máu agouro. da varanda descia uma escada de madeira já com falta de degráos e com os corrimãos arrancados. cheio de sulcos de carro de boi.í4y€f/t desbotadas do interior. havia muitos annos fechada. Ao lado. jÇ^j^ogo ao penetrar' nas terras da fazenda. f i vam xidlAfmJJ costas de esqueletos. mas esta. pássaros da morte. á vista agora. O caminho barrento. / frente á tysfrflç/fáfáffl iyiWtty casa. esquecidas^^redeas do cavallo e poz-se a mirar */#r^j em volta.** \ insoífridos a herva. Fora branco.CHANAAN 7 surda cerrou a estrada. na frente./ ' va ennegrecido. sob a pelle/i^*'***'dos pobres animaes a rija ossadura. guardando . crescia livre a herva com touceiras de matto rasteiro. com uma côr parda edesegual. O casarão. abraçava o valle e se approximava da barranca do rio.m da estrada e de /M*v>r outras direcções á casa de vivenda. pegajoso e humido. ^i^tíjfpÁ^çf^A. descrevia/uma curva que /<* ****'. apenas cortado pelas picadas que 0jf&va. piando como /^'T^^f .^rgou 0 a * . anuns que trepa. aqui e alli o bolor sobre as paredes traçava extranhas e disformes visagens. Da esteada pelo morro acima o terreno era inculto. fyffifajfy{//etaCd*^ um cheiro de lama e estrume.///***** tando com o movimento inquieto das cabeças a /k****""1*! sineta que traziam ao pescoço. uma capella. era grande e / t ^ i ^ M aca/Kapaá^etomffiEK immensa varanda em fi^ãll //bffljZjjr sem j a n e í p j ^ r f p a r a $f$fi se abriam as portasA^-^ . . bufando e catando . coberto de matapasto crescido.

//^)<./attestaj/d^/ na alvura da tez /*â a pureza da geração.^8 CMANAAN I no seu silencio a voz da devoção).. tirando cortezmente o chapéu . o eífgot/amento das s u a s / * / • faculdades. Milkau cumprimentou./jt^ lezas ingênuas de uma arte primitivaMjwtâfy/fê l/^" J) jffjfmia. elle representava a figura hu. com a barba . talvez bel.\ mana. O dono da fazenda./transformada em ignorado e mysterioso relicario de antigas imagens de santos. / ^ alçava-a sobre a sella n u m gesto de resignaçãoi / . branca.. camisa de chita sem gomma. f ^hysionomia /jji triste.j) gava á soleira da/ varanda. muito velho.^ como si elle tivesse consciência de que sobre s i " M recahia o peso do descalabro da raça e da família. das emoções e sensações^//completo f i//9\ J reduzi//í a uma attitude miserandade autômato. erguendo uma perna. turvo. erguendo indolente o sombreiro de palha. apagado para os aspectos da vida *f como o de um idiota. velados pelas ' ( divindades enclausuradas. o homem lá no alto correspondeu. . parecia./vfyí um vulto que che.. egualados '<£j pela morte e pelo esquecimento. que por ali* l(y passara. á^. ^ Toltando-se para a casa.^ Ias. calça de zuarte. ZjJs* O cavalio de Milkau continuava a passo/^/guia j£** bocejava indifferente e. o olhar. reconheceu-o e disse' vagarosamente ao companheiro : — Lá está seu coronel Affonso. a mesma vida superior envolta na queda í . Ê Centro 'da egrejinha. de pés nús. jaziam no chão sagrado os túmulos de senhores e de escravos. ainda assim.

para se servir Me**' dos apparelhos primitivos que/se harmonisavam f/y**4* com afeição embrutecida do seu espirito. no grande desleixo da casa abandonada. Havia também dois % tachos em que se mexia a farinha pelo processo ^ \ rudimentar das pás/ Eram de cobre e destoa|' vam do resto da engenhoca. caldeiras. dh£$espessa^ mi-//&**'facroscopica floresta. | $Áfl aflV uma/installação melhor. rodas dentadas. Milkau notou além T — d'isso. abrangendo ainda com os olhos o quadro d'essa triste fazenda. Quasi á beira do caminho e^ava a casa do for. so. Dentro-da-casaj estava armada a bolandeira./ donára agora em sua decadência. // restos de machinismos espalhados pelo chão. e ao lado a roda onde no tempo do ser. bre a qual um limo verde crescia. onde se preparava a farinha J/Era um velho M • i barracão coberto de telha carcomida e negra. aban. que o homem.J/^^ur no. como uma sobrevivência das antigas ^ > moendas. attestando tfft/$ft ///%. .J7j/\y . ' Milkau proseguia pela estrada. arrastada na ruina geral. fi paralysaJ a*fulmina^fazendo fti—^ d'ellas o eixo central da morte e augmentando a Âgk^a* sensação desoladora de uma melancolia infinita.«=> viço se ralava a mandioca. mas envolve no descalabro as pessoas. E não ha quadro mais doloroso do que a^JÍJé' em que a acção do et***^" ^ m p i x a força da destruição não se limita somente ás tradições e aos inanimados./ ' / bos. / -feJ cahindo de prostração em prostração/perdendo ' / todo o polido de uma civilisação artificial. tu. A O vulto do coronel ficava immovel na soleira dd.CHANAAN / das coisas.

• d aquella paizagem onde as forças da vida parecia estarem paralysadas e onde tudo tinha a íixidez e a perfeiçâo da immobilidade. de um nunca terminado pasmo deante do esplendor e da gloria do mundo. v. encostado ao moirão : apenas trajava uma usada calça. Toda ella era a própria indolência. rira um pardieiro armado em cruz. coberto de palha cujas línguas se projectavam desordenadas da cumieira. instinctivamente./£ " . que subia até ao queixo 7formavy uma rasteira barba.10 CIIANAAN escada. circumscrevendo.s coma chifres. como em moribundo ' cepo de arvore.. A-ffy postura era de adoradão rudimentar. o pjíl tronco estava nú.. elles enfrentaram quasi súbitafnente com um rancho de moradores. que n u m a desforra triumphante vinha vindo. e sob|fe/a pelle resequida de* senhava-se i <fn/<fr^fyjfó de um esqueleto de "9/ ^athleta: sobre o dorso. quando. O pequeno guia adeantou-se para a casa. crescia uma pennugem branca encaracolada. apertando o 0^/*$£homem e jtí'fyfè/d human/s. (%£** 2* Ju ^***-y ^ *pf*&„ mJ^ y*». /Õ/iOÍs viajantes Continuavam a aç movensjentro . a. No batente da porta sentava-se uma mulata moça. como movido por longo habito porta do rancho um velho cafuso com os olhos nevoados fitava vagamente o espaço.S* / u / /A. quebrando o caminho á direita. J" / esperando na lugubre attiiude do inconsciente a I lenta invasão do matto. presidindo com o olhar pasmado ao desmoronar silencioso d'aquelles restos de cultura. Os cabellos não penteados faziam ponta.

A c a W a não se mexeu. abandonando o seu cavalloisegurqu_pelo freio o do viajante. O guia não esperou mais.. vencendo duas curvas do rio. está-se na cidade. — Não. apenasj mudando ^ vagarosamente o olhar..l guiça e desalento. cheio de pre. mostrando as gengivas roxas e desalentadas.. • f/H* fl*"* QLxxtrangcirn npTt"" a mão callosa e áspera do /<£ velho. que sem o menor alvoroço o deixava approximar-se. Milkau cumprimentou o grupo. Apenas o / velho <$k&. como si reflectisse um momento e sentisse despertar em si uma anciã de communicabilidade. pulou da sella.. com a baba a escor \ j-er dos beiços tumidos.. ao seu lado. — E h ! meu sinhô. moço. e j U ^ este ptffiji o~pé em terra l ^ f boceja^ n'uma satisfação de repouso. em pé. donde se dependuravam uma figa de páo e um signo de Salomão. e os peitos de muxiba /pendiam molles sobre o ventre. e. que abriu os lábios n'uma rude expressão de riso. Depois o velho. A creança se acolheiríTella boquiaberta. •*'CHANAAN / rv*H / y 11 camisa suja cahia <p toa sfiiw^^collo descarnado. Ld'áqui ao Cachoeira é um instantinho. descançou-o. insistiu «com Milkau para que se apeasse. Olhe só... Quero chegar cedo. no rosto do viajante. um negrinho vestido apenas de um cordão ao pescoço. mirava embasbacado os cavalleiros que se achegavam ao tijupá. ~~~7 . obrigado. respondendo á saudação J fi **^ — Se apeie.

Alli perto do Mangarahy. que Deus haja ! O extrangeiro. estendia a mão para o outro lado do rio : Não vê um casarão lá no fundo? Foi alli que me fiz homem. dois banquinhos rasteiros. — Fui nascido e creado n'essas bandas. uma esteira estendida no chão de soque. como um biombo lixo. onde se viam uma esteira e uma es/ pingarda. formando /-' um quarto. um remo. na qual uma touça de bananeiras se / ( /multiplicava/ //junto a essa porta Medras negras. defunto meu sinhô. indicavam a cozinha. separava um dos cantos da peça. A cobertura era alta no centro e pendia em declive tão rápido para os lados que nas extremidades um homem não podia ficar em pé. o â— mobilia^U/ miserável e simples se compunha de <' uma rede cor de urucú armada n u m canto. j/jy ) que se misturavam a restos de tições apagados.. E a conversa foi continuando por uma serie de . tacteando o espaço. I m a pequena divisão de palha. apenasdivisava ao longe um amontoado de ruínas que interrompia a verdura da matta. sinhô moço. na fazenda do capitão Mattos. a porta abria para uma clareira do matto. — Mora aqui ha muito tempo ? perguntou Milkau..12 Cl I ANA AN Da porta Milkau via claramente o interior da habitação. No fundo. de outra dobrada em rolo e suspensa n u m gancho. molhos de linha de pescar e alguns pobres instrumentos de lavoura. E. acompanhando o gesto.

como todos os humildes e pxi mitivos. e quando era sabbado. quem debulhava milho debulhava. meu sinhô moço. se acabou. a trabalhar como boi para viver.um pobre drama sem movimento. sem lances. n i Cd dê fazenda ? Defunto meu sinhô morreu. a comprar de vestir. e nos poz todos no olho do mundo. onde tem seu emprego. sentindo-se incapaz... os trabalhos e os castigos. filho d élle foi vivendo até que governo tirou os escravos. cafu :as. tudo de parceria. Comida sempre havia. Patrão se mudou com a família para Victoria. Ah! tempo bom de fazenda ! A gente trabalhava junto.. Que importava feitor ?. onde bem quizeram. quem apanhava café apanhava. Governo acabou com as fazendas.. de tomar a iniciativa dos assumptos/I contou por phrases gaguejadas a sua triste vida toda ella. Tudo debandou.. por ter occasião de relembrar os tempos de outr'ora. bandão de gente. Nunca ninguém morreu de pancada.. mulatas... Tempo hoje anda triste. E na tosca linguagem balbuciava com a figura em êxtase a sua turva recordação/ _ — Ah! tudo isto. a caçar de comer. ás quaes o velho respondia gostoso. meus parceiros furaram esse matto grande e cada um levantou casa aqui e acolá. as festas simples. sem variedade. Eu com minha gente vim para cá. mas de quão intensa e profunda agonia! Contou a velha casa cheia de escravos. para essas terras de seu coronel.CHANAAN 13 perguntas de Milkau sobre ávida passada d'aquella região. véspera de .

.. só pune por allemâo . arrendada por dez mil reis por anno. como que sobrecarregada ftítff. De brasileiro governo tirou tudo. Não me tirando a graça de Deus. com o desespero do isolamento de agora. u Q> k r' 0 domingo. que está ahi assentada. Todos seus patrícios eu vi chegar sem nada. . terra é de seu coronel.. — Qual terra. amparada na domesticidade da fazenda. ah! meu sinhô. tambor velho roncava até de madrugada. burrada. tem sua casa. Hoje em dia tudo aqui é de extrangeiro.fffy gestos tardos e incertos. A nevoa que os cobria. é dono de si mesmo.. têm cafesal. fazenda.. qual nada. com a melancolia de um mundo desmoronado. da sua vida congregada. Rancho é do marido de minha filha. com o olhar perdido no vácuo.. E agora? Todos têm uma casa.CHANAAN ÕL^J*^ f' jC^J Jff/Vm*' A * *. ^ ' u m estremecimento. governo não faz nada por brasileiro.. cavallo e negro. meu amigo. jfy/fó Milkau... proseguia no seu monólogo : — Vosmecê vae ficar aqui ? D'aqui a um anno está podre de rico...da pesada visão da conquista da terra 'pátria pelos bandos invasores. a mão estendida fâf. você aqui ao menos está no que é seu... — Mas. com as mãos abanando. o preto velho. tornou-se mais densa. K assim o antigo escravo ia misturando no tempero travoso da saudade a lembrança dos prazeres de hontem. sua terra. E os seus olhos tristes se obscureceram..

agora de todo inflammada. A fazenda. dava / maior oppressão a tudo. A <ry figura da filha. d'aquella mal definida resignação dos esmagados. Nada achou. lá no alto. Milkau /aminhava pela grande luz da manhã. Milkau recolhia o echo d'aquelle queixume de eterno escravo. LjJ O rio descia em direcção contraria á marcha.. arrancando-as do torpor para a vida. itíféfti-. até á vista. a limpidez de uma palavra consoladora. Milkau sentia um estrangulamento..ndando a cabeça e resmungando um choro. Os outros da família ficaram quietos. 0 velho continuava me. Havia alguma coisa de aleijão n'esse protesto. > valleiro. sumia-se no &H*de> . meu velho. o immigrante notava o . O preto abandonou-lhe a mão. Os ventos começavam a // fe^Qf soprar mais espertos e como que agitavam as almas [/ dif./ ' mava e docemente ia desfilando aos olhos do ca$ j . e ess^ ^raço dft/moviméntos oppostos f/ v W d a v á a impressão de que toda a paizagem se áni. apatetados. — Adeus. e a incapacidade de uma expressão livre e elevada fazia crescer a angustia. como si o peso de toda a responsabilidade da situação d'aquella gente cahisse também sobre elle.CHANAAN ^ f 15 Seguiu-se um oppressivo silencio.-/"/ do' longínquo horizonte. N'um gesto contrafeito despediu-se. de uma indolência sinistra.dos y viajantes. Lá dentro de si mesmo tfatia-se em vão para encontrar a claridade de um sentimento.

os nervos. rolando devagar'. comoJjarfdespertando. despedaçando-se como um louco nas lages.transformou em vida. // * 'o corpo se lhe agitou e estremeceu nessa anciã de quem penetra na terra desejada. como o de fitas mágicas : casas de moradores. como um / espelho vacillante. . 7 as suas águas revoltas. a vontade transmittiam um fluido activo ao lerdo animal.' recendo. gritou-lhe : — Porto do Cachoeira. homens. espumantes.< CUANAAN manso desenrolar do panorama. ao sopro da viração. recolhiam e reverberavam a luz do sol. Xa frente o guia. ao contacto dos logares próximos á cidade. outra/vinham appa-/-*^. respirou sôfrego. sacidia as crinas. de narinas escancaradas. tudo ia passando. au/*/ gmentava. bui^ / fando. A brisa fresca encanava-se pelas duas ordens fronteiras de collinas parallelas ao rio e trazia ao encontro do / /f viajante um mugido sonoro de cascata. na matta ll^õu^l ainda fumegarite de nevoas. fim das suas jornadas. í5 rolar do f j^jL* Santa Maria batendo sobre pedras amontoadas. e agora. curvava o pescoço e accelerava brioso o passo. mas o sangue em alvoroço saudou a apparição do povoado.16 ~ ' . A estrada iá se alargando. mas arrastado por uma força incessante que nada deixava repousar.. como são os caminhos do homem sobre a terra. \~U '. desconhecidas. l/ ' mordia o freio. uma larga mancha branca. infinita:^ e incertas. que. relinchava asperamente. . Milkau ^Úi ao longe. também se . estendendo o braço.1A Í.J Milkau.

para elles extrangeiras e prohibidas.GHANAAN 17 Então.' ras casas iam chegando : eram pobres habitações. Milkau observou que essas casas eram moradas de gente preta. Os cavallos arfavam. Os viajantes desceram a rampa e foram ter a uma porteira. a cidadesinha tíâ n'aquelle delicioso e rápido ins//r tante/a filha do sol e das águas. com a sua casaria . escancarou para dar passagem á Milkau. Domingo passado levei também um moço para lá. de uma pequena elevação que ia galgando. ^ como soltas na estrada para saudaráíi alviçarei. em plena tíbffà da côr./ toda branca. Roberto Schultz. Cheia de luz. quem não sabe?.// v~ ras os viandantes. e deitando-se á soleira das cidades. e adivinhou-os batidos pela invasão dos brancos. Mirando-as attentamente.. da raça dos antigos escravos. mas ainda assim procurando os derradeiros e longínquos raios do calor humano. — Onde se apeia. dando á marcha fatigada . patrão ? perguntou solicito o guia.. o olhar espraiado na paizagem. Conhece ? — A h ! nhor sim. as primei. Entravam agora mais devagar na cidade.. da claridade //(W^ ~ e da musica feita dos sons da cachoeira. /A/T**' Os viajantes continuavam apressados . que o pequeno. jjLeeerrdo na*frente. Milkau.. represa #&'"' do fervido rio que se liberta em franjas de prata. O maior sobrado da cidade. — Em casa do Sr. dominava a povoação apertada entre a montanha e o Santa Maria.

despediram-se como bons amigos. abandonados de rédeas. Ao espirito do immigrante desceu uma confusa e tênue recordação de outros tempos. que são uma abreviação de todo o commercio e conservam na profusão e multiplicidade tftJJ das coisas um certo traço de ordem e de harmonia. jante penetrava na loja. *y / ' A loja áqüella hora já estava cheia de gente. apenas guardavam na retina inconsciente a vaga sensação de uma cidadesinha allemã no meio da selva tropical. em fazendas. para chegar até ao balcão. em café. como refulgentes chapas de ouro. Chegados a um grande sobrado. não possuíam fixidez nem calma para precisar qualquer observação. Tinha quatro portas de frente. e Milkau. o menino voltava com os ÍJMJ animaes. /mg u a mio o via^ _ v . ao entrever essa população toda branca. e as mercadorias innumeras davam-lhe uma feição de grandeza e opulencia. c. o guia pulou lesto do cavallo e ajudou Milkau a se apear. Alli se negociava em tudo. como si descessem com medo montanhas pedregosas . e. era um d'esses typos de armazém de colônia. em instrumentos de lavoura.1SS CIIANAVN uma sensação de movimentos irregulares. uma espuma abundante os ensopava. foi desviando os h . O armazém de Roberto Schultz era vasto. iam tropeçando nas pedras soltas da rua. e ao sentir a irradiação do sol batendo sobre as cabeças das creanças. em vinhos. Os olhos de Milkau tinham os estre' ^ l ^ k ^ ^ m e c i m e n t o s das passagens \fly!//fé dos pano' ramas contrários .

Aqui V. que perturbava o velho negociante.. brancos e tardos allemães. sim. Ahi. Disseram a Roberto que havia um viajante á sua procura. — Então. Vae-se aborrecer. uma calma dominadora. Afinal. todos indecisos. noutro tempo ganhava-se algum dinheiro. quiz interromper Milkau. Paulo. porém agora os negócios não marcham. que elle principiou a ler. o senhor deve voltar hoje mesmo. ora a ler. pesados.. — Isto aqui é triste e enfadonho. dobrou vagaroso a carta e poz-se a tamborilar na secretária. disse por dizer. — Mas.. onde acharia um emprego com facilidade. onde um homem taurino e barbado o recebeu. afianço-lhe. vem com a idéa de ficar aqui ? Milkau affirmou essa resolução. interrompendo-se de vez em quando para fitar o recemchegado..CHANAAN 19 freguezes alli amontoados em pé.. Roberto não o attendia e continuava a arredal-o ^ / com as suas palavras. são os grandes centros de commercio. nós estamos abarrotados de pessoal. Roberto começou a aconselhal-o i que não se decidisse antes de ver bem as coisas por si.. ora a mirar pensativo e aborrecido.'para longe do Cachoeira. . O immigrante entregou-lhe uma carta de apresentação. Dos olhos d'este baixava uma claridade suave. e immediatamente Milkau foi conduzido ao escriptorio. A colônia é um engano . Talvez melhor ftíffft ir para. o Rio ou S. / — Na minha opiríião.

que vou despedir: em nenhuma casa de negocio da colônia o senhor se pôde empregar. (rtdMi^VJlMMéAji decisivo o viajante. a nossa casa está ás suas ordens. continuou o negoI ciante.àgora amável. / vá para o matto.. E o costume aqui. dar y// festas. Chegou em boa hora para arranjar um excellente prazo nas novas terras do rio Doce.áO CHANAAN em minha casa tenho gente demais. nós lhe fornecemos tudo de que precisar. / — Ah ! isto é outra coisa.. que se vão abrir aos immigrantes. e com / as contribuições da política?. E Roberto não oceultou a j n surpresa de ver l ' . Não ha nada como a lavoura. As eleições não tardam. O juiz commissario mandou pregar o . quando puder.. arranjar é$ eleitores . tudo isto nosvae empobrecendo : o que se ganha é uma miséria para esses extraordinários. somos os que sustentamos os partidos do Estado. arranje a sua colônia e d'aqui a pouco tempo está rico. Que vale hoje o commercio com os impostos. temos de hospedal-os. Olhe. ou talvez por isso mesmo... — u m "CõTõfTo~n'aqüeíícTTmmigrante tão bem vestido 'úv / para um simples cultivador. acerescentou baixando ligeiramente o olhar. / :— Mas eu não vim com destino ao commercio.. vá nos mandando café. nós nos pagamos em gêneros. ora. jiorque nós aqui. por ahi já devem vir os chefes da Yictoria.. ^ apezar de extrangeiros. com o cambio. e. — Como ? Vem com o plano de ir para o café ?.. o que é uma vantagem para o colono.

. de viagem para as terras. está no Porto do Cachoeira. fazendo companhia a um moço chegado ante\ hontem ei também de família importante. . Depois. anda triste e sorumbatico.. O rapaz.. temo» muitos commodos para hospedes.. jeaara outro reclamou. Felicíssimo. de rosto de pergaminho franzido. o senhor sabe. êrgueu-se. Este quasi ia arrebatado no meio de agrados e cortezias devidas a um futuro freguez. o sr. É um rapaz alegre. porém. Aqui fica melhor . o agrimensor. o senhor me pôde ser util^tefi. E. A porta da loja uma velha de nariz adunco. — Não vale a pena ir para o hotel.CHANAAN 21 edital para as medições e arrendamentos. Na rua passava uma tropa de burros carregados de canastras de café e repicando campainhas. sorrindo malicioso.... pedindo a Milkau que o acompanhasse. Os olhos de Milkau deslumbraram-se á luz da manhã alegre e viva. Milkau agradeceu os offerecimentos do negociante e j/JÈ dispuntura partir em busca de uma ti*»*** estalagem. é freguez da casa e é do partido. Ambos atravessaram para o outro lado do balcão. como é de uso. Talvez vergonha de ter immigrado. chegava montada em sua mula e entre dois alforges suspensos dos ganchos da cangalha. que sempre nos apparece por cá.. Ah! esses rapazes... dirigindo-se á escada do sobrado. Não sei o que será.. Imar'—gmeTlôTho do general barão von Lentz.. elle.

a conversar sobre coisas vagas.£iA)ClvdlhA' •21 >h) c/ í. Milkau admirava a mobilidade da physionomia do joven von Lentz e não se cançava de observar o fulgor de seus olhos fulvos. Milkau sentia-se constrangido por ter encontrado n'aquellas paragens extranhas e remotas um filho de general allemão..*ul\t f> CII.. como um evadido do seu próprio e grande mundo. que estava a escrever. ergueu-se para saudal-os. Roberto deixou os novos immigrantes. que viera sepultar gi / * . — Trago-lhe um companheiro. E emquanto se entretinham. o que eu estava a fazer não é urgente. a natureza. que se deseja estabelecer no rio Doce Yoltando-se para Milkau. — Não. — Pôde continuar o seu trabalho. dominando o rosto sem barba cujas linhas eram accentuadas e fortes. devendo chegar á noite. roliça como a de um patrício romano. repetiu-lhe que estivesse como em sua casa e perguntou-lhe pela bagagem. disse Milkau delicadamente./projectan»e-6jl de uma cabeça ampla. E os dois se puzeram. o tempo. sobre a viagem. Apenas matava o tempo. annunciou o dono da casa/Este patrício.VNAAN Xo quarto em que entraram Roberto e Milkau. um moço. um ser privilegiado na sua pátria. O outro explicou-lhe que vinha tudo pela canoa. Mas de par com este súbito enthusiasmo pela expressão esculptural d'aquella joven figura.

/ *. e re. velhos de pelle enrugada.CHANAAN \ 23 sem duvida no mysterio das colônias uma parcella de angustia. quem sabe si não foram um dia dois espíritos que se encontraram dispa- . D'ahi a momentos os dois novos se achavam na grande sala de almoço dos empregados do ar. alguns. pensava que talvez somente se pudesse explicar a incogflita d'essa alma pelas imagens e expressões incertas da vaga e symbolica metaphysica. Milkau lia n'aqueile ajuntamento de allemães o caracter camponez e militar que fundou a obediência e a tenacidade na sua raça e reduziu tudo o que ella podia ter de belleza. contemplando o esquadrão de homens lopos. as paredes. outros. moços de perpetua adolescência J^ffi via-/estampado o pensamento único de cumprir o dever pratico. Quem sabe. Em todas as physionomias d'aquelles homens tão differentes. ao regimento de caixeiros que comiam silenciosos. Onde estava a Allemanha sagrada. os creados serviam. á monotonia de um precipitado único. de desespero e de desillusão. de caminhar para a frente no conjuncto harmo^ nico de um só corpo. não tinham o menor enfeite./ mazem e tomavamiá mesa ds^eus togares. continuava quasi em sonho. a pátria do individualismo..-»A sala / era desguarnecida. flectindo sobre a alma allemã. o recanto suave do gênio livre ? perguntava a si mesmo Milkau no sussurro regular do almoço. simplesmente caia..i s .f das. de elevação moral. automáticos como soldados.

continuou Roberto. . vagarosamente. Dizendo isto. ambicioso. e pairava sempre no alto. um servil á matéria. sem conjuncções torpes. como hospedes despreoccupados. acaba de .. Felicíssimo. E quem sabe como foi longo e pertinaz o combate entre as duas forças !. a fim de fazer as medições. Milkau.. uma chata cabeça de bacuráo. baixo e moreno. zombando de tudo. cúpido. em que os olhos negros scintillavam vivos e seccos. sem lucfas. e o corpo ahi está hoje socegado. — O sr. as figuras da poesia e do sonho. No quarto resolveram visitar a cidade. e quando d'ahi a momentos passavam pelo armazém em direcção á rua. Milkau e Lentz iam por ultimo.. gerando puramente. os caixeiros sahiram em ordem..:2i '\. que ^^segue depois de amanhã para o rio Doce. cpm o rosto talhado em triângulo cheio de marcas de bexigas. de homens e deuses. — Está aqui exactamente o sr. procurando absorver o outro que voava docemente. sem ancias. divino alimento d'onde brota essa luz que ainda o illumina na sua lugubre c devastadora marcha sobre a terra. CHANAAN ratados em um mesmo corpo. indicava um moço magro. Roberto os chamou. nas regiões plácidas do ideal. Findo o almoço.Mas houve um momento em que o demônio da terra venceu o espirito de belleza e de liberdade. a devorar os últimos restos do gênio do passado. qual uma massa de escravos.

o senhor requer um prazo. que está ígora para os lados do Guandu. e que o senhor me "faria o favor de arranjar-lhe um prazo bem situado.. von Lentz prefere uma collocação na cidade.. Os senhores quando vão? Lentz ficou embaraçado. Mas o sr. Ainda não sei afinal o que farei na colônia. esperemos. e meio confuso respondeu : — Para o campo ?...CHANAAN 25 chegar com o propósito de arrematar um lote de terras. Roberto... em murmúrio. Eu expliquei-lhe que n'este momento o que ha de melhor é o rio Doce... — É só para combinar tudo e quando chegar 'á não haver demora... acampamos no porto do Ingá. — Como não ? acudiu o agrimensor solicito e com um gesto de quem quer abraçar. e o juiz commissario. Esperemos. Felicíssimo é k que pôde dizer quanto isto é difficil. Dependo/èeqy^l muito do sr.. Sigo amanhã a me encontrar com a turma que está em Santa Thereza. O negociante cocou a cabeça e disse solemne. as casas estão cheias.. depois de amanhã bem cedinho nos pomos em marcha.. despachaj mas / . a occasião é má. no rio Doce. O negocio é fácil.. no commercio.. Felicíssimo perguntou a Milkau o dia da partida. e quando fôr lá pelas onze. como si invocasse o testemunho dos mais : — O sr..

26

CMANAAN

não precisamos d'elle para fazer a medição. Na
sua ausência estou auctorisado a tudo, até mesmo
a entregar os lotes aos colonos que os vão trabalhando... Entre nós as coisas não são feitas com
luxo... Não temos formalidades...Tudo se arranja
e legalisa depois. O que é preciso é pagar logo as
custas...
Milkau o interrompeu para se informar das distancias.
— D'aqui a Santa Thereza quantas léguas ?
— Cinco. E de lá ao rio Doce outras tantas. O
senhor deve ir d'aqui até o alto de Santa Thereza, ahi dormir e no dia seguinte tocar para o rio
Doce.
—_J$ preciso um guia ?
— Não... Estrada sem errada, e batida...
Roberto se offereceu para mandar acompanhar
o immigrante por tropeiros que iam diariamente
para essas bandas. Milkau agradeceu, dispensando o obséquio.
Deixando Roberto, sahiram os três do armazém.
Felicíssimo, que dizia não ter nada a fazer
n"aquellas horas, propoz acompanhar os extrangeiros, dando assim expansão aos instinctos da
sua nativa e tranquilla vadiagem.
Agora, o Porto do Cachoeira abrasado de sol
desvendava-se todo. A cidade era dividida em
duas partes, que uma ponte ligava, mas podia
dizer-se que só á margem esquerda era crescente,

CHANAAN

27
tava

porque do outro lado as habitações se conttm JIL
salteadas e raras. As casas d'aquella banda flí enfileiravam/monotonas em frente ao rio, e nem um
jardim quebrava a austeridade das moradas, nem
um quintal margeava os caminhos, nem uma
arvore sombreava as ruas. Pela primeira vez, porventura, nos tropicoaros habitantes de uma pequena ^ /
cidade, como essa, não conheciam os prazeres do
convívio dos animaes domésticos, nem tinham a
expansiva preoccupação da cultura das plantas e
das flores. Uma esterilidade rigorosa e systematica estampava-se no perfil das casas, que eram
apenas o abrigo de uma população de negociantes. Na rua, Milkau ia adivinhando a explicação
moral d'aquella localidade, e uma impressão de
angustia emanada da branca aridez da cidade o
turbava, pois parecia-lhe que o bafo dos traficantes tinha matado a poesia, a graça d'aquelle
canto excepcional da natureza, onde elles nfájííam
levantado as tendas da especulação. Felicíssimo
ia pressuroso, contando os milagres da fortuna
commercial d'aquella gente. — Este sobrado aqui,
dizia elle, apontando para uma casa esguia e egual
ás outras da rua, é de Frederico Bacher, chefe do
partido da opposição; é o rival e o inimigo de Roberto. Chegou aqui sem nada; hoje, veja como
está rico! E aqui são todos assim, todos têm muito
dinheiro. Póde-se dizer que o commercio do Cachoeira é mais forte do que o da Victoria... Ainda
não se deu um caso de quebra... Estes allemães

áS

Cl I AN A AN

/

têm olho... Si fossem brasileiros, esta^ a tudo arrebentado.
/
E o agrimensor continuava nesse tom, a fazer
o elogio das virtudes/germânicas para o^negocioi,
* sim», economia, »«# facilidade de assimilação, mtm
L/energia no trabalho, d^rtdo, como contraste a ellas,
o* I as qualidades inferiores dos brasileiros, quejjwíse ^
comprazia em proclamar, no gáudio de se mostrar,
aos companheiros de passeio, justo.e superior, e ao
mesmo tempo com propósito lisonjeiro. Para se
dar ar de importância e intimidade com os mora\i-r
dores, elle", de instante a instante, deixava Milkau e
\J'
Lentz na i^ua e penetrava pelos armazéns a dentro,
para trocar uma palavra com o dono da casa. Algumas vezes, conseguia arrastar do fundo das lojas
até á porta os negociantes, com quem á vista dos
novos tomava liberdades, dando-lhes palmadinhas
nas costas, beliscões na barriga e dizendo-lhes injurias por gracejo, ao que os allemães complacentes
sorriam muito rubicundos, murmurando em tom
de desculpa aos outros:— Esse sr. Felicíssimo...
Isto é um diabo...
Os três iam seguindo.assim, despertando pelos
gestos e pelas vozes altas do agrimensor a attenção
da rua, mirados pelos tropeiros que descarregavam
os animaes e pelos freguezes que procuravam as
lojas. Lentz não tinha o menor interesse em correr
de casa em casa, á maneira fastidiosa e vulgar de
Felicíssimo; e então, para se ver livre d'essa $y(']/- li,*
rjfalA. J tMwf enfadonha defa&d passos de porta em porta, '" ,

CM ANA AN

29

propoz que subissem a um dos morros que cercavam e abafavam ao mesmo tempo a cidade, e
de lá desfructassem a vista da região. Os outros,
concordaram e assim foram, guiados por Felicíssimo. Para galgar a montanha mais accessivel, //Ága/éT
tiveram de yfi.4idx além da ponte, por sobre a cachoeira cujos cavos borbotões os ensurdeciam; e os ,y./i / /
passos dos homens iabce—aTponte~dè madeira,
ff
em cima das águas que se Quebravam em baixo, MJo^f
míflam vibrações sonoras,ipoderasas/como si sobre , ^ ;
ellaCasasse o pesado tropel da cavallaria. Do otitro i» ^ ^ c
lado estava a montanha que se puzeram a subir por
uma vereda pedregosa e de cascalho solto, dando
á marcha um movimento irregular e fatigante.
Felicíssimo ia mais lépido na frente, emquanto
y
os outros, não acostumados ao calor/caminhavam
J>
difficilmente, alagados em suor. A proporção
que subiam, morriam as vozes da cachoeira, vinham ao seu encontro o hálito perfumado das plantas montanhezas e o ar leve para acalmar-lhes os
ardores. A principio, dentro do circuito dos morros,
a perspectiva era estreita. Em cima, porém, elles
dominavam a vasta região accidentada, e os olhos
dos extrangeiros tiveram um delicioso instante de
êxtase. O contorno arredondado das montanhas
cobertas de uma relva basta, rente, fulgurante,
nas suas cores matizadas, o rio por entre os valles,
o ar limpido e secco mantendo estável a atmosphera,
a força da claridade desdobrando pelas colunas
o panorama, a abobada celeste de um immenso azu

pt &7 6£.*t«*-»« Cj-fZ

30

CI1ANAAN

cobrindo docemente a terra, todo esse conjuncto
de luz, de côr, de traços dava á paizagem um aspecto total de grandeza e confiança.
Felicissimo era o interprete da região. Como
perfeito sabedor, dava o nome ás coisas e designava os logares. Milkau estava sereno no alto
da montanha. Descobrira a cabeça de um louro
de nympha, e sobre ella, e na barba revolta,
a 1 luz do sol batia, n'uma fulguração de resplendor. Era um varão forte, com uma pelle rosca
y.
/%'ve branda de mulher, e cujos poderosos olhos,
fát**<y? da côr do infinito, absorviam, recolhiam doce£y; v ~a # mente a visão segura do que ia passando. A mo- .
"*r KJ „ cidade ainda persTstuférn não/abandonalflff"íruis' *-*
^y^
na harmonia das linhas tranquillas do seu rosto
tZy&r.
já repousava a calma da madureza que ia chegando.
Felicissimo apontava em torno e ia designando
os pontos do horizonte; os outros lhe acompanha///aí_S £Uyam o s gestos rápidos e, como <ffl$fyhté', não po2^
diam fixar os nomes bárbaros e extranhos que lhes
feriam os ouvidos, mas se interessavam em guardar e accentuar as impressões que lhes vinham da
região. Para o oriente era a terra do Queimado,
cujo caminho se desenrola longo e sinuoso, ora
n'uma planice descampada e risonha, ora por entre
O^ £ rTvêfde de um mattó rara, até'um pequeno grupo
de casas que formam o porto do Mangarahy á
beira do Santa Maria, alli orgulhoso e folgado, com
águas desembaraçadas dos cachoeiras. Para

CHANAAN

31

o norte, para o sul, para o poente, as montanhas
vão crescendo, amontoando-se como massas de pintura. Alli o Guandu, acolá S ta Thereza, duas regiões sombrias, que os colonos vão arrancando do
silencio mysterioso da solidão. Sobre um valle cheio
de sol um fio d'agua cáe longo e transparente como
um grande véo de noiva. Para o poente, o Santa
Maria margea os cafesaes, as casas de lavoura/e
lucta com as lages negras que porfiam em re- /
tel-o.
^
Milkau n'esse panorama aberto lia a historia
simples d'aquella obscura terra. Porto do Cachoeira
era o limite de dois mundos que se tocavam. Um
traduzia, na paizagem triste e esbatida do nascente,
o passado, onde a marca do cançaço se"gravava ,.,i
-ina/-yffiffi' m i n g u í d ^ l Ahi se viam destroçosjffir'-e*a/
de fazendas, casas'abandonadas, senzalas em ruifl «c"
nas, capellas, tudo com o perfume e a sagração^,*/ &&
da morte. A cachoeira é um marco. E para o Am*€>»"•'
outro lado d'ella o conjuncto do panorama se rasgava mais forte, mais tenebroso. Era uma terra
nova, prompta a abrigar a avalanche que vinha.das
regiões frias do outro hemispherio e lhe descia aos
seios quentes e fartos; e alli havia de germinar
o futuro povo que cobriria um dia todo o solo,
e a cachoeira não dividiria mais dois mundos,
duas historias, duas raças que se combatem, uma
com a sua pérfida lascívia, outra com a jetrà temerosa energia, até se confundirem n'um mesmo
grande e fecundante amor...

:\2

CIIANAAN

Elles desceram da m o n t a n h a ; e entravam pela
cidade, quando os armazéns se fechavam para se
reabrirem depois da hora do jantar. N'esse m o mento, via-se pelas ruas um movimento maior
de «jente que deixava as lojas e se recolhia ás
casas.
— Aqui, perguntou Lentz ao agrimensor, quasi
todos são allemães ?
— Sim, poucos brasileiros. N o commercio,
póde-se dizer, não ha nenhum.
— Então, em que se occupam os brasileiros do
Cachoeira? indagou Milkau.
— Os que temos aqui são os do foro, os juizes,
escrivães, meirinhos. Outros são t a m b é m empregados públicos, collector, agente de correio
J
— E professores ? perguntou Lentz.
— Só um, porque a língua que se ensina por
essas mattas é o allemão, e os professores são
allemães, com excepção do da cidade... Padres também não temos, nem egreja, como devem ter
reparado. T a m b é m não ha necessidade, porque
raros são aqui os catholicos, e para os .protestantes ha três pastores nas capellas do L u x e m b u r g o ,
Jequitibá e Altona... Os catholicos do município
são o povo do Queimado do Mangarahy e outros
pontos, onde está hoje a gente antiga da terra.
Felicissimo continuava a dar noticias do logar;
os outros ouviam-no em silencio, e a conversa se
foi assim espreguiçando até chegarem á porta
da casa de Roberto. 0 agrimensor se despediu,

fpr^â1' gado patrício. é segu"4-0|j ramente a primeira vez que conheço. por motivos d'elle não per^^°u°^ cebidos..CHANAAN 33 promettendo voltar no dia seguinte para os acompanhar em novas excursões. e uma saudade extranha. »^V! — E por quanto tempo aqui ficaremos ? disse o \yI ar Vil .. explicava o mysterio dos quadros sonhados e nunca vistos. /. Milkau estava fatigado da viagem e do passeio do dia. to. este ar. Mas não. scismando. calma da tarde immobilisava Ííl4fjttâ./ 41 este conjuncto ff^pfH-. A . os dois novos subiram ao quarto. Depois do jantar. na outra margem do../ "/ mando / expressão serena da arte. /-?Sentaram-se os dois junto á janella aberta. segredando-lhes. este torpor instantâneo. //§_ incapazes de sahir á rua e de se ji metter ás priJ/\~ meiras horas da noite na fabrica de cerveja. . como era o costume alli. a nostalgia de illusões que alli se realisavam agora. Os dois immigrantes contemplavam em silencio. dando-lhes!' /// \j£ a tranquillidade. que. disse Milkau. e/// o\ que se percebe vae passaF d'aqui a pouco. e sombras leves vinham envolvendo o mundo. o repouso e a fixidez das pinturas. emoção ^ffd\ do encontro com o seu recem-che. \j — Parece que já vi este quadro em algum 4| logar. que /d fif⣠j^/ff^Sl como y p * * * 1 ! o almoço. rio. N'essa hora ^^Mnf^M^^t excedisCa si mesma. Os primeiros IQ &L£^ perfumes dos mattos da redondeza desciam para' sy*JL>o es embalsamar o panorama. . já tanto o seduzia e tf prendia.. Lentz sentia-se esbraseado e abalado pela jy. .

.. que é uma sepultura para nós?. é a paz que procuro exactamente. fora d'esta paz dolorosa. Estou indeciso â irresoluto.. 0 senhor persiste em se dedicar aos negócios ? — Xão sei bem o que faça. e a industria no velho continente. — Mas nada o agita ? Nada o impellirá para fora d'aqui. Eu me conservarei na humildade. e agora espero que este seja o quadro definitivo da minha existência. Não me sinto solicitado sinãó por coisas mais simples e approximadas da situação do futuro.. E si aqui está a paz. Procuro uma vida estável e livre. — E então por isso que vae para o matto? Não seria melhor ficar aqui no commercio ? — Não. penso que o trabalho digno do homem é a lavoura nos paizes novos e férteis como este. — Não meço o tempo.... Sou um immigrado. Penso que si o commercio pôde ser um * / . porque não sei até quando viverei. Além disso. respondeu Milkau.. e o commercio é torturado pela avidez e éambição. sua posição intermediária na sociedade. 0 commercio não me attráe.... com suas fôrmas grosseiras. em torno de mim desejarei uma harmonia infinita. este será'o meu ultimo movimento na terra. seus estímulos baixos. — Aqui fico. e tenho a alma do repouso..34 Cl I AN A AN outro n'um bocejo de desalento//o^folharyáj/fyVi preguiçosamente sobre a paizagem.

como em uma grande scisma . mas em outros pontos as luzes da rua e das casas cahiam sobre as águas do rio. deixando-se levar pelos bons impulsos da sua confiança abundante.. Qti A cidade estava illuminada frouxamente..come não temos família. que as multiplicavam em seu espelho tre. Milkau apiedou-se d'aquelle silencio afflictivo e.. Lentz.. se prolongava a \ fll w? queixa contra o destino e elle se debatia em vão >' /*£f uy dentro dos muros fechados da sua sorte.-fc.. // monólogo intimo e doloroso.CHANAAN 35 meio de fortuna e de dar vasão ás ancias de jo. disse ao uya joven „*> companheiro: ' / — Porque não iremos trabalhar no rio Doce ? 0 senhor talvez se achafW ahi mais feliz e mais j^Á-/ independente. . e ^ i n q u i e t a ç ã o . medo do tédio da matta e da morte fla agitação. n'um *^ f esforço de ave ferida para pairar nas regiões do seu sonho. as linhas estavam perturbadas. ityfatffflffl e/não fosse o J o . com espaços longos de sombra. e. pois esse é ainda até agora o meu destino. Podemo/re<juerer \frA mesmo prazo. jyf.. faremos uma sociedade . que me não queixarei de ficar só. dando á physionomia uma expressão de rancor t. \k {Mfffftl Ferdia-se na noite o seu / ° ^ \ olhar./ff enoVauxiliaremos mutuamente. o seu rosto / não tinha serenidade. eu talvez me abalançasse a ir trabalhar na lavoura. poderá partir. <\ mulo.. f$<f>p. E si se arrepender. Parecia que ^ét^f^aiSMír^^a./ .\ gador que ha em cada homem.*. é também umW ' caminho baixo e vil.

veremos. que era pouco antes a sua alma. era também a seducção intellectual por esse companheiro de acaso. E também se alegrava por si mesmo. Pelos lábios de Lentz passou um sorriso tão suave como franjas de um lago manso em que rapidamente se transformaram as fúrias de mar revolto.emoção. porque sentia os seus instinetos de communicação espraiar-se no convívio d'aquelle rapaz.. Porque não?. e cujos desígnios revelavam pelo menos uma alma em aspiração.36 / CII AN A AN //> Estas palavra^jgjjgg? brandas e boas.. Milkau regozijou-se. que lhe parecia . Eu lhe agradeço muito.. Em Lentz o que/predispunha a acceitar a ' companhia de Milkau era a indecisão em que estava de se abandonar á vida rude e mesquinha de caixeiro.tão intelligente... tem-lhe agradado a terra? esta verdura de primavera ? o esplendor do sol ? a vegetação possante ? . na perspectiva de ter um fl/j/í /^cortjpanheiro/precisas^/de amparo e conforto no " exiíiò. antes de se determinar a acom/0 panhal-o. Todavia não // a^eAttfQuiz de um modo Jtfyfefárf e imprevisto decid r a sorte do outro immigrante pela sua. que por or-gulho procurava domar.. Milkau não quiz insistir e delicadamente desviou o avssumpto. murmurou n'uma. Esperava que elle reflectisse mais. — Sim./7oram ditas com muita pureza de coração. Pasfo sou a conversar negligentemente sobre outras in *f*^-— Então.

o seu colorido mais distincto. Aqui não ha descanço para uma suave matização da côr.campos europeus com suas mutações.' mas não édérâ. ^cAt^ . — Breve se acostumará.. ^ $ f — A Europa tem a tradição. estive de passagem em Minas Geraes. 3 . que nos priva da liberdade de julgamento. mas eu prefiro os . E com um gesto de mão sobre a cabeça. atalhou Milkau. — A h ! não é esta a primeira vez que vem ao interior do Brasil ? —r Por este lado é a primeira vez. Lentz parecia querer arrancar de si a obsessão da luz omnipotente. E foi uma grande viagem para mim.... — Em que logar de. Eu já venho de longe e cada vez a admiro mais. Antes.Minas esteve? — No Oeste. dirigi-me para cá. Sempre este amarello a nos perseguir. S. tudo isto é forte e bello.M/ando facilidade. sem lendas. o seu quadro de montanhas.... levando o plano de me estabelecer alli. Fora d'ella não sei si o Rheno vale o Santa Maria. sem passado. —'• Oh ! este sol implacável!. reflecte em mim por seus •próprios merecimentos tanto encanto. João d'el-Rei é uma impressão única.. sua água límpida e borbulhante.CHANAAN 37 — Sim. logo que cheguei ao paiz. seus chorões curvos.. com suas margens incultas. e ha de amar esta natureza até á paixão.. que...

. A cachoeira mugia sempre. e eu a recolhia *.. todo á escuta da narração de Milkau. I quasi em êxtase como si fosse uma antiga e revivida sensação. O espaço estava cheio de sons... . a musica dos sinos me era desconhecida na força e na sonoridade que tinha naquella manhã. — Alli me pareceu ter eu penetrado no passado intacto do Brasil. noemtanto. o que me produziu um doce encantamento. embalado pelas caricías do somno. mas. que começou a contar-lhe a sua visita á velha cidade mineira.. pois parecia que era entendida por uma alma longínqua que se despertava dentro de mim e tomava posse.. No Cachoeiro era silencio/a luzdas casais 'Tiy.apafffrr-f. essa musica extranha não me feria. e o seu rumor egual e constante passava imperceptível aos ouvidos de Lentz. Lentz embebeu-se nas palavras de Milkau. do meu ser. os lampeões da rua espaçadamente ponteavam de luz as sombras da noite diaphana. — Logo á primeira madrugada o meu somno de viajante fatigado foi cortado pelo repicar de sinos de muitas egrejas. da noite de verão que é apenas um instantâneo descanço do dia.38 CHANAAN >J — Como ? interrogou curioso Lentz. Como a todo o homem habituado ás grandes cidades modernas. Oh ! Foi uma volta deliciosa aos tempos mortos hoje por toda a parte e que ainda lá prolongam a sua vida. Deixei-me ficar deitado. E sonhava ..

N'esse tempo. egrejas freqüentadas quasi todas as horas do dia. o somno e o esquecimento. faAa^ por pequenas cruzes negras nas paredes A desbotadas.. que elle definia como um santuário. A^»^*y Milkau continuava a falar da velha cidade mineira. as festas religio.. i que marcavfi no espaço a vida e a morte. As casas acompanhavam esse tom severo e desprentencioso e eram mar-f . ás noites. um padre sahia á rua acompanhado da multidão cantando rezas. ouvindo repicar. .. homens e coisas*. voava para os céos cantando. Na quaresma a irrupção religiosa era ainda mais crescente. a cidade fugia da terra ff-&carregada nas harmonias.. Uma cruz negra envolta nas do/ « . todos ligados pelas vozes do campanário. todas ÇUAS/ singelas. A edade média se representava no meu sonho : povoados..CHANAAN 39 o ar leve da montanha fluctuava como si todo _ elle estivesse impregnado de musica. a natureza «/***" despertada pela alegria dos sinos se volatilisava e líbrava^è leve no ar./ sas preoccupando o povo e divertindo-o durante / o anno inteiro. Tudo alli tinha um aspecto sacer. devotas procurando a solidão dos altares... castellos feudaes. procurando a calma. tristes. mosteiros. tudo falava de religião.\ dotal.. Dentro do seu recinto montanhoso. se deparava de instante em instante com uma egreja. irregular e feio. O espirito da religião alli localisado dava-lhe o caracter e a significação./ _ / erguidas mais pela necessidade da devoção que pelos carinhos da arte. E eu sonhava.

implorava n u m sorriso : misericórdia! Cercada de morros a cidade era guardada ainda por egrejas postadas nas alturas. (MilkaÍT recordava) costumava desfilar um cortejo de seminaristas em férias e. como de atalaia. na mais completa e bella confusão de classes. os rapazes erguiam a cabeça com altivez para o céo. N'uma devoção alegre e radiante. até se sumirem no horizonte. oratórios abertos sobre as ruas. sobre os quaes iam descrevendo longas e marciaes theorias. esse cordão negro succedia cruzar com o bando infantil e branco das collegiaes dirigidas por irmãs de caridade. fervoroso grito. Nas tardes deverão. o povo seguia rezando pela rua em um murmúrio $/è.. A multidão...40 //JofZZ y*ÁrV </al /•> l"^ /a4 ' /// CHANAAN bras alvas do sudario. e era tudo.. cantava musicas suaves e ingênuas. fazendo coro ás orações começadas pelo padre. os dois grupos não se approximavam/^desviavaniyreverentes. n'um relâmpago se descobriam. Pelas encostas das montanhas subiam os devotos em romarias piedosas aos santos padroeiros das capellinhas humildes. ajoelhada debaixo-do céo límpido. E si á hora dsfavemariaíum devoto retardatario passando por aquellas montanhas saudava os seminaristas em nome de Christo. . E lá ia a via sacra percorrendo os passos da cidade. subindo e descendo pelos morros. ás vezes.fâjfyftdo ^f?00W> peito um grande. illuminada pelos raios da" lua. acariciada pela brisa fresca das alturas. meia dúzia de tochas accesas. e quando chegava aos passos.

a poesia da liberdade e da grandeza de todo o paiz.alli que deviam ser zeladas como relíquias das melhores paginas da historia de uma nação. vae aca- . Â""^^agem_gstá toda /Usignalada éúad. t por ellas passaram martyres.. purificando-a momentaneamente dos vícios em que se vão dissolvendo as outras. E essa mistura de fé religiosa e patriótica dá um caracter distincto áquella antiga cidade. Rematou Milkau esse quadro com algumas reflexões. de ouro e de sangue. Sobre o fjxí terreno accidentado... O homem moderno.. — Dou-me por muito feliz em ter ido a tempo de vêr tudo isto. reconstruindo no espectaculo d'aquella paragem morta todo o quadro de uma epocha feita de escravidão.CHANAAN U que a solidão da tarde'no deserto tornava solemnc : Para sempre seja louvado ! A cidade ainda falava a outras tradições do a£Lvelho Brasil. porque não muito longe esse conjuncto de poesia. e os habitantes do logar ainda sabem ler nas paredes d'essas casas conservadas. limpo de coração. sulcos abertos e profundos indicavam a passagem ' jL do homem terrível que por alli desentranhou o ouro. e povoadas dos restos de outr'ora./-£y tjj&s) cicatrizegfdli^erra ferida que assim maltratada e ' hedionda clama ás gerações de hoje contra a devastação do passado. não deixará de sentir um frêmito de terror. nellas viveram sonhadores. f/'v /JA. Ha casas . de tradição nacional..

.estdj£eáz. tenaz.. E uma nova conquista. É preciso que a substituição seja tão pura e tão luminosa que sobre ella não caia a amargura e a maldição das destruições. nós nos mistu- 7 ^ísXl^f-/ . de energia que em si contem do que os logares mortos de um paiz que se vae extinguir. lenta. Falando-lhe com a maior franqueza. — Nas suas palavras mesmas. os meus olhos se projectam para o futuro. que a&ijrffáfyá lentamente até um dia vencel-a e transformal-a sem piedade. A velha cidade mineira da sua narração não me interessa. disse Milkau. Nós penetramos na arga-massa / da nação e aVamos amollecendo. nos espalharemos sobre ella. Na verdade. pacifica em seus meios. de substituir por outra civilisação toda a cultura. E por ora nós somos apenas um dissolvente i_ / da raça d. a civilisação d'esta-terra está na immigração i <j de europeus/mas é preciso que cada um de nós traga a vontade de governar e dirigir. a cobriremos com os nossos corpos brancos e a engrandeceremos para a eternidade. E provável que o nosso destino seja transformar de baixo acima este paiz.12 CHANAAN xJAJfaAA^f/J bar. a religião e as tradições de um povo. é com dòd que sinto estar prestes o desmoronamento d'ax[uella cidade circumdada ^iá*w4zL de colônias extrangeiras.. Porto do Cachoeira tem mais significação moral hoje pela força de vida. —I Mas isto é a lei da vida e o destino fatal d'esse paiz. mas terrível em seus projectos de ambição. Nós renovaremos a nação. está escripta a nossa grande responsabilidade.

.CHANAAN 43 ramos a este povo. Ninguém mais se entende . indivíduos. matamos as suas tradições e espalhamos a confusão. Ha uma tragédia na alma do brasileiro...->... o pae não transmittirá mais ao filho a sua imagem. o futuro não entenderá o passado. . O remodelamento vae sendo demorado. as línguas estão baralhadas. Tudo se desagrega. os homens e as mulheres não se amam com as mesmas palavras... / ses differentes. os longínquos e fundos desejos da personalidade emmudeceram. quando elle sente que não se desdobrará mais até ao infinito.. Toda a lei da creação é crear á própria semelhança.... uma civilisação cáe e se transforma no desconhecido. vindos de toda a parte trazem na alma a sombra de deu.. os velhos sonhos da raça. todos são extranhos..... a lingua vae morrer. os pensamentos não se communicam. E a tradição se rompeu...

onde. disse Lentz. n'uma paizagem accidentada e limpa. A pátria do homem devia limitar-se a um canto da terra onde não houvesse sombra..k II — Não vejo nada claro. — Quem me dera. . sentiram pelos olhos o véo de uma ligeira vertigem. que o sol se não apagasse. Pouco a pouco elles se recompuzeram. fuzilar relâmpagos de sol. fechando os olhos feridos pela luz grandiosa do dia. E os dois caminhavam afastando-se do Porto do Cachoeira na direcção de Santa Thereza. murmurava então Milkau. d'ahi a momento^ fflkL morria na bocca da matta. na câmara rubra das pupillas. E. e então admiraram. sentia dentro das palpebras. Milkau e Lentz. <$> penetrarem na escuridão repentina e fria.. A principio a estrada cortava por cima de pequenos morros descobertos. passeavam errantes as sombras das nuvens .

e tudo se expande sobre a terra. dentro do bojo de outra mais ampla e opulenta. quando outras lhes saem ao encontro. E tudo se ergue. é uma florasinha miúda. aquellas tão leves e esguias erguendo-se para espiar o céo. força para a expansão da maior belleza O * / de cada uma. ífííé de membros asperrimos. com a graça de um adorno e de um Jjh£$l ^ fà$$$. umasL^. umas erectas.a cabeça por cima do immenso chão verde e tre^ } " i ' mulo. estas de tronco pejado que cinco homens unidos não abarcariam. *" antigüidade e a vida. ás vezes. as -parasitas se enrascam pelos velhos troncos. Não se sente n'ella sombra de um sacrifício que seria o triumpho e o prêmio da morte. arvores que se alteam. Ha seiva Vlfrff P a r a tudo. y . que lhe sáe do regaço e mais esplendorosa. Uma infinita variedade de arbustos cresce ás plantas dos gigantes verdes. ] . Arvores de todos os tamanhos e de todas as feições. compondo um conjuncto brutal. \ chão a farta e sombria §oma. Toda aquella vasta flora traduz a . que a rija e bella progenitora. procurando emparelhará^ com as eguaes e desenhar a linha de uma ordem ideal. l1tny\ traçando um raio de sombra para acampar um iJí. compacta e atrevida.^ a rnesmo arvores que são mães de. *y I arvores e supportam com fácil e poderosa galhardia a filha. Dentro. que é a copa de todas as outras.011 AN A AN • 45 A floresta tropical é o esplendor da força na desordem. enorme. Arvores. f^uesquadrão. interrompendo a symetria. e mettendo «•«J^4"^. entre ellas se curvam e derream até ao 0/.

ora se afasta.niosa d'esse perfume.. e. triumphal. acalma. profundo.r&nita. que é acre e tonteante. da resina que se derrama vagaJ-O / rosa jíek/longo das-arvores. tão sereno que parece eterno.. e de uma luz zodiacal e 0é?fâffi\. as portas da matta formam um circulo longínquo azulado. Na volúpia harmoL. dos troncos verdes e dos troncos carunchosos. enroscando-se pelos braços gigantescos.. tal como o aroma das cathedraes.b r i a g a e adormece fa fMfft. aZá/que se volatilisa e se diffunde no immenso todo. emjl/Ú <4. mas a gradação da sombra..46 CHANAAN 'entretecido no alto pela <éfêè$&fâf basta e densa Co**** das arvores e embaixo pela rede /&$$$(# das v'' . como portas feitas só de luz. desce uma claridade //{ do<*<discreta. das folhas novas e das folhas mortas.. dos insectos. se desfyjfrffá um cheiro mysterioso e singular. está a fonte do jfepejW ^ .. das orchideas. dos animaes occultos no segredo da selva. dos pássaros. JQaesr •me*/ commumca/da negrura do verde ao desmaio do / branco a matização completa. Elias são em si vivas e quentes.(iíC.... E lá. das flores selvagens. De todo o corpo colossal. Pelasfrestas das arvores. e nessa fòtât illuminação se desenrola ' dentro do matto o scenario pomposo das cores.° s i l e ncio que mora na floresta é tão .r £ d a m a t t a . pela transparência das folhas. prendendo-se como por tenazes n'uma grande solidariedade orgânica e viva. todo elle se entrelaça. ****. das parasitas. y fortes e indomáveis raizes. em cada bocca da estrada. Feito 0* l á^trxj^^ . com '&•*«*-Ka claridade que é branda. . que ora avança.

é sombria e trágica. /i E.7 / ' CHANAAN *~f~j>~ tZr*»~ 4 7 ^ . é completo e absoluto na sua perfeita harmonia. dos movimentos l^tr f*M+ó rythmicos dos vegetaes. Milkau replicou : — A sensação que aqui recebemos é muito differente da que nos deixa.. sahindo do seu espanto. çfá$ contemplação. / -«***<* f^jT"" A floresta no Brasil. voltam-se inquietos. mirando r/atf/ o alto e Mf^. conti-jf . cheios da solidão augusta. aquelle que se perde na / <>' adoração é o escravo de uma hypnose : a personar ^Lton-lidade $fó<0$ para se difFundir na alma do Todo. — Extraordinário ! disse Lentz. sentindo no corpo o frioelectrico e instantâneo do pavor. e os viajantes que caminham.. Si por entre as folhas seccas imontoadas no solo se escapa um réptil.. pelo? nervos de todo o matto perpassa um arrepio.. ha no ar uma deslocação fugaz como um relâmpago. afinal. e m si o tédio das coisas eternas. então o jeiro farfalhar d'ellas corta a doce combinação do yfilenfiou.tory nuou : <fr — Aqui o espirito é esmagado pela estupenda magestade da natureza.j ^ / ^ vozes baixas. A floresta européa 4~/fér. a frente. transforma-se infique ^ f o r * * — Mas/dfâf espectaculo de uma grandejn brasileira 4 TOnmhrnlifti nWTTÉl interrogou Lentz yV . dos murmúrios. a paizagem européa.. Nós nos dissolvemos na ^ /.é mais diaphana e passageira. Ella tem ^ ^ ... E.

. — Mas o que se tem feito é quasi nada. não comprehendemos o mysterio. Ninguém. E1 a civilisação não se fará jamais nas raças inferiores. 0^M0á^'é ^ -i a tocarm s a ° ° . Passado algum tempo.. O homem brasileiro nãò é um factor do progresso : é um hybrido. com essa violência. E mudos continuavam a caminhar pela estrada coberta. e ainda assim é o esforço do europeu. \ f4-/$1*- Um dos erros dos interpretes da historia está n" Ctejuizc/ aristrocratico com que concebem a idéa Me raça. MILKAU. — Ora. ! t / £/ A terra só por si. Vê.. a historia. os olhos de ambos a se desmancharem de admiração. até hoje soube definir a raça e ainda menos como se distínguen^ umaSfiüas outras. esta abundância. fazem-se sobre isto jogos de palavras. interrompeu Milkau. J£ o/&. é um embaraço immenso. tu sabes bem como se tem vencido aqui a natureza.. como o homem vae triumphando. Lentz exprimiu alto o que ia pensando : — Não é possível haver civilisação neste paiz.. tal espectaculo nos priva WÇy+rla^ da liberdade de ser..ki-J .CIIAN \ A N .. porém.. Nós passamos por aqui em êxtase.'/ / rancia. esta luz. e afinal nos constrange.. mas que são como esses desenhos de nuvens que alli / ( h^c^^tLA.j: região do assombro.K. 'Zr^—^que succede com esta força. essa exube'(...

Uns se vão i\\uminando. selvagens.. é no encontro das raças adeantadas comas raças virgens.. O papel dos povos superiores é ds&^ instinetivo impulso de desdobramento da cultura. As raças civilisamse pela fusão. á sua luz e calor. qual é a raça privilegiada ^kfijtyf/sò #•*• f~*£ ella fó/d o theatro e o agente da civilisação ? Houve 2 f \ ../frjírÍÁ0fg outros descem ás tre... O tempo da África chegará. Jamais a África.. o hindu nas margens sagradas do Ganges/ e elles eram a civilisação /< t o d a ! o resto do mundo dfy a nebulosa de que se '/ jjf~não cogitava.. n'uma fatal apresentação gradual de grandes trechos da terra. indo de grupo a grupo atravez de todas as raças.. apparições phantasticas do nada. depois. que está o repouso conservador. MILKAU. é junto ao Sena e ao _~ Tâmisa que a cultura se e^goLrlThoje n'uma volu. Até agora não vejo probabilidade da raça negra attingir á civilisação dos brancos. O que eu vejo n'este vasto panorama da historia. no emtanto. o milagre do rejuvenescimento da civilisação. inVf+tU LENTZ. é a civilisação deslocando-se sem interrupção.. E. transfundindo de corpo a corpo.CIIANAAN 4D vemos no alto./J /'' pia farta e alquebrada. para que me volto ancioso e interrogante.. E. £ um tempo na historia em que o semita brilhava -tf^s-Jo em Babylonia e no Egypto.//àw ****Vas.o produeto d'essa o /-/* .

Emquanto não se eliminar a raça que é o producto de tal fusão. Eu tenho para mim > / ^ que o progresso se fará n ^ m a ^ ^ ^ ã o constante / / e indefinida. Não acredito que da fusão com espécies radiÀ//>r*e*'u*' calmente incapazes /$. está na substituição de uma raça hybrida. O problema social para o progresso de uma yi região/como o Brasil. passada a treva da gestação. civilisação de mulatos. como a dos mulatos. etefnos escravos em revoltas e quedas. por europeus. leva mais longe o capital accumulado nas infinitas gerações. LENTZ. . todos os minutos roto pelo sensualismo. N'esta grande massa da humanidade ha nações que chegam ao maior adeantamento. que interessa o futuro humano.50 CHANAAN fusão que.yX^ rv MILKAU. Será sempre uma cultura inferior. A immigração não é simplesmente para o futuro da região do paiz um caso de simples esthetica.($(£ uma raça sobre que se possa desenvolver a civilisação. depois definham e morrem. r s? ^j^-ir A substituição de uma raça não é remédio ao vfêfZy* mal de qualquer civilisação. Foi assim que a Gallia se tornou França e a Germania. outras que apenas . a civilisação será sempre um mysterioso artificio. é antes de tudo uma questão complexa. Allemanha. pela bestialidade e pelo servilismo innato do negro.

segundo varias solicitações do meio e da epocha. das nações.CHANAAN 51 esboçam um principio de cultura para desaparecerem immediatamente. das raças.. tenebrosa e forte.. Lentz. formado dos povos. luminoso e doce. Si a verdade estivesse na conclusío contraria. e pela fusão um povo ahi se iVrina recapitulando O a civilisação desde o seu porito inicial e preparando-se para levar o progresso mais longe que os povos geradores.. os seus desmaios não são mais que períodos de transformações para epochas fecundas e melhores. LENTZ. pôde diminuir ou augmentar em alguma das suas expressões. então a humanidade teria retrocedido depois do período do grego. ha uma elaboração subterrânea. mas pelo facto de não florescer certa fôrma de Arte. E a fatalidade do Universo que se cumpre n'esse todo que é uma parte d'elle.. caminha progredindo/sempre. mas o conjuncto humano. e da renas- .. A arte. o* progresso artístico não deixa de ser maior. Quando não ha um trabalho á flor das coisas. As vezes. é n u m ponto isolado da superfice que se dá a opacidade das trevas. Como ? Então o contacto dos povos da arte com os selvagens determina um precipitado que excede áquelles na capacidade esthetica ? MILKAU. ' e os seus eclipses. <ksdnão <M-J pára em sua marcha.

da fraternidade. Quando a humanidade partiu do silencio das florestas para o tumulto das cidades. Mas toda a questão está na comprehensão do progresso moral. aquelle que na opulencia de uma poesia mágica cria para si um mundo e o gosa. porque até agora a historia não conta epochas tão felizes para a Esculptura e para a Pintura. cada dia ella subjugará o escravo. esse ét homem e senhor. LENTZ. No principio era a força. de toda a liberdade e da própria vida. que se entrega a uma livre expansão dos seus desejos. 11 . veid descrevendo uma longa parábola da maior escravidão á maior liberdade. diminuídas as causas de separação. Essa civilisação.CIIANAAN cença. a força é eterna e não desapparecerá. aquelle que faz tremer o solo. no fim será o amor. . Todo o alvo humano é o augmento da solidariedade. / 3 / Não. LENTZ. que é o sonho da democracia. O fim de toda a sua vida não é a ligação vulgar e mesquinha entre os . e aquelle que um dia attinge a consciência de sua personalidade. e que/elle próprio i uma floração da força e da bellezá. Milkau. O homem deve ser forte e querer viver. é uma triste negação de toda a arte. MILKAU. é a ligação do homem ao homem.

. o rebanho. Oh! mas essa dôr deita gottas de amargura sobre a victoria.<****~ É /> 1 -*" " * tente e indispensável ao conceito social. a busca e a realisação da liberdade como fun. e sem a liberdade não ha ordem possível . amor?Viver a vida na egualdade é apodrecer n'um charco. o que é soberano.. /• ^*»'« d" diiifí mmt de uma sociedade.. nasce e cresce na dôr.. é apenas um factor preexis. /u/ / . indomáveis energias. mesmo n um regimen de escravos e de senhores. tfftfljW cujos nervos não se contraem nap agonia/ o que é sereno $j' e não soffre. como pastor.. não pôde haver sociedade sem ordem. Xão. ' o que tem sua integridade completa e fulgurante. como calculo sem números . os sonhos e as visões' do poeta. o que elle busca no mundo é realisar as expressões.. as nobres. a harmonia existirá por momentos. Mas para ahi chegar.. esta é o verdadeiro apoio. LENTZ. A liberdade é como a própria vida. o que é omnipotente. Que importar/í a solidariedade e o. 1/} I"^ / MILKAU. mas será instável. as inspirações da Arte.. que caminho não percorreu o homem!. Toda a marcha humana é uma aspiração da liberdade. para conduzir como chefe. A ordem não é / / ^ M S £ £ ~ tíjjt um principio moral. o verdadeiro homem é o que se libertou de todo o soffrimento."7 damento da solidariedade são o fim de toda a existência'.CHANAAN 53 homens. o estimulo.

que nos mata depois de rios. No meio de confusas . E quando n'uma sociedade o indivíduo soffre. o mundo está abalado. de satisfação. o próprio solo é vacillante e tremulo. Eu vejo na exaltação das tuas palavras que ha em nós uma tristeza diversa deante do quadro da vida dos homens. e não se pôde substituir a sua consciência fecunda pelo império de uma insensibilidade feroz. de doentes. mas sempre tristeza e deses pero.Omal é universal. nem cultivados. Ha uma crise em tudo. todos se lamentam.entristecer— MILKAU.CHANAAN o que não ama. purificar-nos do seu veneno. nem simples têm o seu quinhão de alegria. da religião e da arte.. //?' ^*^*St7 w il sJ 1 IA li I '""^Tzffipfmrfflffl'1 P e n s o 1 u e devemos voltar atraz. nem ricos. a atmosphera é irrespirável. essa gotta de agonia é bastante para condemnar todo o fundamento da communhão. MILKAU. apagar até aos últimos traços as manchas d'esta civilisação de humildes. O que nos une solidariamente na humanidade é o sofTrimento. ninguém está satisfeito por estes tempos. LENTZ. porque o amor é um desdobramento doloroso da personalidade. nem pobres. como queriam.. e nem senhores. Elle é a fonte do amor. de soffredores. nem escravos.

vem avançando a medo ' como um ladrão nocturno. como o próprio tempo.. Mas eu não esperei o seu passo vacillante e tardo : despi a minha roupagem pesada. A sombra do passado penetra demasiado na morada do homem moderno e enche-lhe a casa de espectros e visões./tr-^~ geiro do gesto consolador. elle .CHANAAN 55 aspirações. sociedade. não volta mais. Uma civilisação de guerreiros persiste no meio do surto da alma pacifica do . n'este contacto extranho de sentimentos tão vários. uma vez perdida. Deixei o que era vão.. LENTZ. E como dentro em mim ar&flr*^ é doce a salvação! LENTZ.H gada e doce da vida ? A religião foi-se. família.+ homem. E para ahi chegares?. Tudo se confunde. .. E o futuro. e á Allemanha nada mais te prende ? . vagaroso e divino.. mensa. ella é do tempo e. E á Europa.. e lépido então fui buscar o perfume e os alimentos que.. póde-se acaso JnMdlar a harmonia soce.# **$%. Deixaste pátria.. ytffâtfyjlL-dindo aos homens.. que o detêm eé perturbam. fá mistura e il repelle f'J/ n u m torvelinho de desespero. uma civilisação superior? MILKAU.

é apenas um prolongamento desharmonico das forças de hontem e das solicições do presente. Lentz. dia e noite ligados. indeciso em sua vasta cultura escolar. 0 que a Europa nos mostra. E' a obra da imaginação e da memória.^0 Crfíeu culto ao que é humano é activo. um d'esses universitários muito instruídos.. e eu não preciso/sentar-me sobre as ruinas para amal-o.. LENTZ. mas/como a maior parte d'elles. é o invisível. Não comprehendo como por um acto de vontade se possa trocar Berlim pelo Cachoeira. Elle era um professor de collegio. Vejo-me ao lado de meu pae.. reside na dupla consciência da continuidade e da indefinidade do progresso. como fôrma da vida.. De que cidade da Allemanha és tu? MILKAU. Mas isto é o incorporeo. era a própria doçura. mas o pudor da audácia ff- . Meu pae. Somente o que'ellas têm de grande no P a s sado. como o corpo e a sombra. Sou de Heidelberg. e as imagens que d'elle conservo no fundo da minha pupilla são de um homem feito de sorrisos suaves e inextinguiveis.5(i C MAN A AN MILKAU. tinha uma intelliencia subtil e aérea. e de lá guardo as minhas mais longínquas recordações.

MILKAU. Ella foi mesquinha de dôr.. e eu amei-a até á sua morte como uma filha tamanhinha e mofina.. e / /~ d'esse excesso de concentração^^hefveiiAi morte. Elle continha e refreiava a imaginação. e o mundo o ignorou. Eu sahia da universidade e entrava no mundo quando meu pae morria.. E então?. Ai sfuas ex-///<J* * pressões nunca transpiraram o sarigue de todo o seu amor humano. d'essa existência.. LENTZ.CM ANA AN 57 o entorpecia.. / ^ que lhe devia ser o amargor da vida. *W Depois de três annos. entre a . Oh! como elle mesmo creava barreiras ao seu espirito ! Os preconceitos chegavam-lhe ao appello da sua timidezlt í/}àf(é /illjftí > $f acariciava/como si fossem numes protéctores. > Mas em tudo isto havia uma infelicidade funda. Minha mãe com lagrimas molhava noite e dia as saudades plantadas no seu coração. Foi o perfume que guardou no « y / ^ i n t e r i o r dd j&üt alma sem transfundil-o além.. E n'esse tempo que edade tinhas ? MILKAU. e por isso todo o seu grande capital de bondade e de amor ficou sepultado no fundo do seu coração. /-Jr LENTZ.

Longos tempos se passaram n'essa enganadora caça. Aos dez annos o amor começou em mim. meio êxtase mystico.a fôrma dos pequenos e intensos martyrios.. Como estremeço ao lembrar-me de tanta vida. LENTZ. Quando volto ao meu passado. Comecei a ouvir os accentos da minha própria voz. mas. $$fi vertiam lagrimas e suavam sangue. Não. os meus sonhos de creança tiveram [Q. parti de Heidelberg com a alma cheia de um grande silencio. os meus brincos.. E nunca amaste a mulher? MILKAU.. essa paixão de infância foi meio doença. como tudo/que nasce prematuro.58 CHANAAN recordação e a piedade.. Em vão? Não sei. todos os meus estudos. de tanto amor consumido por uma sombra. O que ha em mim de sentimento religioso se desenvolveu então na adoração d'aquillo que eu buscava. bens e males da minha vida eu attribuia só a esta influencia poderosa e mortificadora. E não te veiu ao encontro uma voz de mulher ? MILKAU. é ainda esse trecho do caminho da vida que mais me deleita : . E no emtanto ella fugia de mim .. LENTZ.

. v a brandura. de uns e ... procurando o trilho habitual. Milkau e o companheiro ap» encostaram-*]*** a beira da estrada. e não me consolei longo tempo. os gritos. Os tropeiros em sua maioria eram mais brancos que mulatos... as ordens. Aos vinte annos estava tudo acabado. que lhe embaraçavam os meneios da cabeça.*»*— cas de café e os olrTávarrT~tom os seus olhos de besta. o único. ascendi. tristes einsondaveis. A morte d'ella veiu habitar d minha existência. apoiando-se nas arvores. e esse o grande. immensos. redobrando a amplidão das vozes sonoras no silencio da matta. as pragas. até que outro amor. Qs^d^is--aiiTrgrj5~~r»e-*afni«4^i^ Ai <*uma tropa. ^ v^** ao Porto do Cachoeira. cy^s ^JT de animaes. E a grande ventura (quem sabe?) foi que sobre essa montanha de fogo formada em minha alma jamais desceu o sorriso.. Pouco a pouco estes sons perdiam a doçura melancólica e se confundiam com gritos humanos e tropel.. a caricia que resfria e que funde. que fffÜi das terras altas em direcção " . e então eu ascendi. como esse perfume que foi a minha purificação da adolescência vem até a mim. porém. / E Milkau foi interrompido pelo repique de campainhas que descia pela estrada. \|hesy(roçavam)ao corpo as brua..CHANAAN 59 sinto quanto elle é embalsamado pelo amor que ahi passou. a mula da frente marchava ///aUJ*Ã'lu' enfeitada de fitas de côr. pãor me viesse possuir para sempre." Varrida asshxi-QS-jTiimaes.

com excii.J tação. mas um .. que fraca ama o forte. ou antes questão de consciência. já pelos lagos verdes que refrescam as terras. ha muito pouco tempo i^t não pov deria imaginar-me aqui n'esta floresta. já pela cidades traficantes e vis. a2^twi alli na sombra e-humidade das arvores não se extingue nunca. A tropa passou caminho abaixo. na carne e depois d'isto eu a julgava recompensada e feliz.60 CHANAAN outros eram mfos espontaneamente na lingua de' cada um.pelo imprevisto. A historia é muito simples (disse Lentz. mas uma anciã de confissão e de abandono os estimulava n'aquelle mundo extranho. minha amada amou no sangue. Os dois amigos caminharam algum tempo calados. Nós somos governados na vida. E nós fomos assim pelo caminho sumptuoso da minha phantasia. como respondendo a uma interrogação escripta nos olhos de Milkau). de poeira levantada e de lama revolvida.. levando ^ * ^ > X c o m s i g o o seu toiJOfe barulho que quebrava além o somno das coinrw. ao dialogo1 perpetuo dos themas eternos.. que humilde ama o soberbo. arrastando-a eu após mim. Questão de amor.. e elles/ladeados de arvores sem fim^ornavam com frenesi. ' LENTZ. Amei uma mulher. Minha amada conheceu as vibrações infinitas da yolupia.. Atraz d'e11a ficara um odor acre de café verde. bel/" Na verdade.. que pensei ser a creatura sublime. já pela solidão das montanhas de neve.

d se libertar do grupo a //v****/ que pertence..*»de mim com desdém. E o que é peior. dos indivíduos da minha classe!. Então fugi..CHANAAN tíl dia «•revoltou<'e a alma da mulher do occidente. O pae de minha amada era um velho general companheiro de ar<\ mas do meu.lhe annulla a individualidade e lhe traça ' na physionomia as linhas de uma mascara commum e sem distincção própria. conjuncto de idéas ardegas e acceleradas. o que ha em mim de acquisição intellectual. nos escrúpulos e temores de minha mãe . ou ffll a raça. deixando os meus estudos de universidade. Encontrou apoio nos preconceitos» christãos de meu pae. muito tempo. E iri-con. que a longa cobardia dos homens já fez eterna/ n'ella m despertourpara exigir de mim a minha escravidão.f/v /// cia 9» entibiou-~o'que ha em mim de cobarde. j Q ou dtíjl a classe. de escravo. a minha .. A minha arrogan. Milkau.. O homem levará ainda /.pedia á minha família uma \\ *" reparação por aquillo que tinha sido o acto da independência da minha extrema sensibilidade. entorpeceu a energia de minha attitude. no meu grupo social formou-se em torno de m i m uma atmosphera de reprovação : todos se julgavam limpos de consciência para áe afastar. e eí$fes. ou seja a família.que me procurava dissolver ao bafo de sua ternura mórbida. foi morto pelo antigo e implacável sentimento.cH/ fesso (oh! vergonha!) não pude supportar essa ' pressão collectiva dos meus camaradas. Resisti./se emancipar d'essa tyrannia pode./ A***" rosa que.

a minha família. 0 que (H lU ^ b u s c a v a em troca de tudo o que deixei. O que mais me ator- . sobre elle sonhei..tão diverso. a minha fortuna. era um / fl mundo maior.. Depois da morte de minha mãe.. O mar foi para mim a primeira grande sensação da liberdade . renovar a civilisação e produzir um mundo que seja o reino da força radiante e da belleza triumphal.. era um verdadeiro domínio para o homem novo. então vaga e sem objectivo. como tu. Berlim me attrahia / julguei a)fy encontrar uma solução á minha existência. deixei terra natal. porque não actuei sobre elle. A minha trajectoria vem de epocha mais remota. ^ M J ^ Z / para JqncWc q u / saltando por cima dos secu* ' / los da humildade.62 CHANAAN posição. e vivi intensamente o goso do pensamento puro. mas não vivi o mar. com o ímpeto def n'cllas'viver/solitario/na exaltação do meu ideal.. ou de um dia as transformar em um império branco. que é o desejo e a razão do meu sangue. de bens eternos.. e a vida é a acção. Também... E parti então para a virgindade d'estas selvas. ainda virgem e intemerato do contacto lascivo e deprimente d'essa moral christã. quer dar a mão aos antigos e. civilisação. com elles e sob o influxo drelles. Viajei longamente até agora. 4meu primeiro desejo foi sahir de Heidelberg e buscar a vida em outra parte. MILKAU O que cada um de nós procura-é. em troca de bens maiores. sociedade.

o que eu amara tinha desapparecido.AÍiifado de V qualquer crença religiosa. era a consciência de que começava a f/flg^ viver por viver. y^(mey^entiíQcrescer dentro de mim yy*~~~'J mesmo.. sem interesse na \ida..CHANAAN l« mentava. e eu sempre me prendia ao passado do meu coração. eternas ca. e a consolação '/ não me podia vir do nada. Custava-me já resistir a tanto. Vivia naydesillusão. meu pae. sem saber (/( &r»/ aonde os meus passos iriam findar. e ellas as minhas saudades. pelos bosques calados. fiosse m a * apoio. Minha amada. minha mãe. a mim. *f7 a sociedade não me preoccupava.. o que •foL&i^ amo hoje não me tinha chegado. torturado de um desejo de realidades. a minha melancolia acabrunhadora. eram passeios intermináveis. invocando as três imagens dos que amei e cujos retratos povoavam o meu quarto. de sonho que sempre me fugiam : a minha tortura era infinita.. n u m a aspiração indefinivel de amor.. Mas as minhas scismas eram as mesmas. o infinito para mim não existia.. . e pelos parques da cidade.. N'esta epocha a minha não conjEojmiaÇão ao mundo era cada vez maior . sem uma idéa moral que . a minha duvida tinha espaços tão illimitados que meu espirito oscillava e se perdia no mundo .•>T minhadas pelas ruas. a minha doença moral me parecia irremediável. quando tudo me era indeciso e intangível. Vivia vacillante e fugitivo.. Â minha existência $fl /Ç^fr* vagar com os companheiros fortuitos. buscando no exterior a calma para o espirito.. de calma. Nada havia que me jfrfffl/fáfflg /^oi^h^ay á vida.

... e não é o suicídio uma salvação que deve ser collectiva. a que em minha insania eu chamava o acto da vontade. e a Dôr pela sua mão forte e santa me conduziu aos outros homens.. sem ideal e saturada de sen- A f . procurei realisar a acção pela única fôrma que me parecia positiva na vida. Todos os soffrimentos extranhos se infiltravam em minha alma. Olhei todas as vias que se podiam abrir deante de mim. é porque a vida é mais desejável do que a morte. Mas a comtemplação da miséria moral em torno de mim susteve aquillo.. minhas vacillações.. $fytyl/#}flp o clarão bemíaze //// 'ov*Í ° ^ a solidariedade ani apontava. Comprehendi logo que não podia continuar na posição que tinha de critico litterario em um jornal de Berlim . as lentas agonias e os duros sacrifícios alheios erairi o pasto da minha ^piedade. desalentado. é preciso que os se salvem ». e. pela morte. de terminar dj... Eu soffria. No estado de espirito em que me achava. E então tive aquella anciã torturante de resolver de qualquer modo. Não me y '' \*cts restava agora para combater o desespero sinão )**" procurar na mesma -vida a razão que me curasse do mal da morte e fosse um desafogo aos meus novos sentimentos. faltava-me agora o animo de falar de livros inspirados em uma arte vazia.. Não se trata de libertar um só dos martyres.(Si CHANAAN das idéasedas emoções. isto é. E o suicídio começou a ^ p no meu pensamento.. só tinha inclinação para os que se assemelhavam a mim. Reflecti : « si todos soffrem e se resignam.

Convenci-me ainda mais da falsa situação em que estava. para quem não queria definhar na esterilidade e no egoísmo./n'esteem. Porque ella é forte. e sim entre qualquer vida e uma vida. não podia descobrir. . Sim. E agora para onde ir ? perguntava ^-humilhado. porque ahi não encontrava 4... cuja credulidade voluntária é alli como em toda a parte a fôrma de sua cumplicidade na perpetuação do mal sobre a terra. eram vãs para quem não escutava a voz da commodidade ou da ambição. Não podia ir ás officinas.• sação e di qu^To meu novo pensamento ainaa L? 2«* rrrais se afastava. a do político e a do diplomata. peis não era ' mais escolher entre a vida e a morte.. O mundo deve ser a morada deliciosa do guerreiro. que eu queria e por toda a parte procurava.A ' baraço a minha crise prolongava-se. fazendo parte do grupo de ignorantes e dogmáticos.. Essa uma vida que eu sonhava. Não tinha aonde ir..... A guerra é uma volta ao passado. é digna.CIIANAAN 155 sualidade. MILKAU.. ir á industria. que envolvidos nos mysterios da imprensa exploram os outros homens. Aquellas duas vidas. a guerra. a um ideal morto para a cívili. Que profissão «ç será a minha n'este quadro do mundo/A política ? / A diplomacia ? A guerra ? * ' ( LENTZ. para quem buscava o que é eterno.

Xo momento em que tratei a arte. nha attenção ao mundo exterior era vaga e ialyj-cevta. A Belleza entrava no meu espirito como "*** um doce sustento.... / m e u espirito des/ cançava e se apoiava para a existência. Foi pela arte que comecei a amar a natureza. Os panoramas do céo passaram a interessar-me profundamente. ricos e pobres.„ bebendo-me na poesia infinita da côr. pois até então a mi. a minha vista se //^-alongou pelo mundo afora e ÍJL vi o esplendor por n toda a parte. dias inteiros a admirar a limpidez da atmosphera. A minha angustia continuava. / / em que me possui da belleza. ou agitando-me ao vivo movimento do gesto. para as minhas scismas longas e indefinidas. e por entre esses tormentos a minha existência solitaria/ia/se passando na contemplação reconfortante da Arfê. Não se tratava só de trabalho. Ou mirando a linha triumphal da estatuaria. ou aquietando-me á serenidade da attitude repousada eternamente no mármore. ou em.. outros / perder o^J S . onde a arte busca ainda a sua fonte de mysterio e rejuvenescimento.. E então puz-me a viajar longos dias pelas antigas paragens. tratava-se também de uma livre expansão da individualidade. no enigma / y. e a industria nesta velha civilisação é um desfiladeiro apertado de combate no meio da sociedade que ella divide em senhores e escravos.66 CHANAAN ainda a atmosphera para a minha independência e o meu amor.insondavel da figura h u m a n a .. ^jo só tinha os olhos voltados para o meu caso pessoal.

como uma paizagem phantastica e morta. tentador e indomável. Ú rfieu f->~y*r deslumbramento pela natureza afastava-me de tudo' o que não fosse contemplação.^s sado ou dos cuidados do futuro. n'um êxtase de louco. No /y*6*'r tempo d'essa única preoccupaçao reinava em meu C£ /^/j espirito um esquecimento das desgraças do pas. nos lagos e nos campos. e de outras praias brancas. e esse olvido e^. pelos ares. a extrahir das coisas a summa da belleza. No inverno os esqueletos das arvores cobrem-se de branco. ffflff °í//^ outro mar. o pequeno mar do sul da Europa unctuoso e doce. mar que não espanta.. e desce sobre a terra uma neve abundante. que do mina e que é em si mesmo. succedia-me passar longos tempos solitário nas florestas.^. que é um traço de união entre as gentes... como a própria liber.. leve j******" /"!• como arminho.. o mar tenebroso que apavora.. onde se desenrola a vida. farfalhante como areia. inaccessivel. Carregando por toda aparte a minha admiração. outros a sonhar na immensidade das cúpulas azues límpidas e infinitas que são o espaço.CHANAAN 67 os olhos no crystallino do ar. as quaes são abrigos para os homens. dade. immensas. Vi o mar. . vadia. mar amigo. Assim vivi longo ^ T ^ Í(U\ <2~i~& .. e sobre ellas a Morte é uma gloria de ouro. Vivia mais das impressões da luz sobre o quadro.y^—.. que dos alimentos da terra. que estreita a terra cheia de anfractuosidades.. No outomno o sol abrasa as arvores amarellas.^ yj-^me parecia a felicidade pela hypnose com que r/u4/U<^^'JJt adormecia a minha consciência..

Viajava dentro do meu êxtase. forte. E a consolaçãoynão te vei u ? MILKAU. Ao estado de desvario artístico succedia em mim um desejo de mortificação e soffrimento. Depois dos primeiros moI Qj rnentos de prazer e tranquillidade.. Lentz.. havia outra existência... Hoje. que atravessava 'extranho e silencioso o mundo.CS CIIANAAN tempo... ' mas os velhos monges tinham como sustento o / consolo da adoração. d minha cobardia me atormentava infinitamente. e a solidão passou a ser um estado afflictivo. a vida solitária dos monges. Resuscitar. evaporar a minha animalidade e dissolvel-a na combustão de um sentimento activo e fecundo. O meu isolamento era apenas intellectual. y A pririncipio íí/(jrie/íi íludi \pensando que não C—-. tal foi a nova via por que caminhei. em pleno domínio do sensualismo. j/J-iÁC Hf no estudo e na scisma. f .. effão engolphado no meu culto.. tão nobre. que era como um carro de ouro levado pelos cavallos ardegos da imaginação e transportado pelos caminhos deslumbrantes das regiões plácidas emysteriosas da belleza immortal. Concentrado n u m logarejo encravado no coração dos Alpes da Baviera.. //' LENTZ. uma fôrma de desdém do < ' ^ 4 f e ^ m u n d o ' u m a e x P r e s s a o mesquinha de quem fyfyà doHseu logar na vida.

gerar o amor. era fazer ' ****£* amar. Então. dissol^írf-rfver-me no espaço universal e deixar qne/y^Btd. . Aqui nos meus olhos ainda tenho guardado até hoje o ultimo espectaculo . montanhas de si/ Lui^flencio. O ascetismo é como uma ilha solitária que arde no meio do -. Adeus. uma manhã desci das alturas. **. Paizagem solitária e morta. marJlhk seus fogos deslumbrantes têm um phan.. JrjfTpomo si fosse um fundo de mar setco. ///*^' E eu não podia me consumir n'essas chammas. Qne/^mparavl) e um bem'estar infinito <*•-/ t&> nunca mais me deixou.r das montanhas glaciaes. mas ' ' ^ as Mtí labaredas afastam d'ella os homens. como * / L Í i | n a forca de bondade. pois já trazia dentro de mim a porção de humanidade que me conduzia á vida. e sobre *** ^"êlla os fragmentos da vida passando carregados ao ttJ*f A0VX0 do v ento gelado. ligar-me aos espíritos. O que eu amava. penetrasse nas mínimas moléculas.' sorria. penso sempre no deleite d'esse refugio.CHANAAN r. Nunca mais tornarei á .... luz rosea do sol.. mas também que é uma manifestação de estéril orgulho. affir W*ti "e^lencià^üde minha vida se espalhasse por toda a X4**^**** 0**r. nem sobre 9$/ffifâ$ de gelos tf 0* j .. ^ / i / J g e l e i r a fumegante..// L tastico poder de illuminação sobre o mundo..parte.9 quando penso no isolamento a que um homem se consagra.. O amor dentro de mim ^ í . Vj^iEYdas brancas e frias pedras verei mais descançar a /yr>* <££*•. de consolo e de immolação! Quando cheguei Jb^ahaxxo era outrjxjiornem. penso que é um sacrifício.

e as personalidades surgiram. a tua figura de homem vae se apagando. Um dia será a . Tu eras grande quando a tua sombra sinistra de solitário passeava nos Alpes e amedrontava os ursos. massas informes se apresentavam como manchas de nebulosas cobrindo a terra . o amor os reclamará á vida. Jjf~ Reflectindo sobre a condição humana. Todo o goso humano tem o sabor do sangue. á meu pen( samento se esclareceu. é o crime. Eu sou d'aquelles que foram por elle consolados. tudo representa a victoria e a expansão do guerreiro. e eu verei o teu semblante um dia sem luz. sem vida. Não. não ! A vida é a lucta. No principio era o cháos. Mas quando o amor penetrou em ti. quando vi a marcha da humanidade partindo da escravidão inicial. moral hereditária para uma consciência pessoal. .. pois crear homens é a sua obra. O principio do amor me sustenta e protege.70 CHANAAN LENTZ. ' pouco a pouco/d'esta confusão cósmica os homens se destacararr/. começaste a minguar. Ia terminar o drama intimo do meu espirito e concluir-se a passagem dolorosa de um estado de / . emquanto os outros ainda jazem informes na matéria geradora. mirrado pasto da t r i s teza.. Mas um dia chegará também para estes a hora da creação.. MILKAU. sem força..

da grande escravidão para a maior individualidade. A belleza é assassinaie por isso os homens a adoram mais. Vê como tudo te desmente.. Cem combates travou cada arvore d'estas para chegar á sua esplendida florescência. de luz. o sagrado páo d'arco dos gentios d'esta terra. E' a parábola que descreve a vida. Para chegar aquelle esplendor de côr.. Como é magnífica aquella arvore amarella! MILKAU.' LENTZ.. a sua historia é a derrota de muitas espécies. olhando a floresta. é como uma umbella dourada no meio da nave verde da floresta. O ipê. é o fructodalucta. O proceíso é o mesmo por toda a parte .. LENTZ. a belleza de cada uma é o preço da morte de muitas coisas que desde o primeiro contacto da semente poderosa foram destruídas. e o caminho da civilisação é também pelo sangue e pelo crime. de expansão carnal. quanto não matou o bello ipê.. Esta matta que atravessamos. Para viver a vida é preciso / +* J / ' . a victoriado forte. o sol queima-lhe as folhas e elle é o espelho do sol...CHANAAN 71 subordinação de tudo a todos para maior liberdade de cada um.. O ipê é uma gloria de luz.

astro. Os grandes seres absorvem os pequenos. insecto. (E apontando para a vegetação no alto de ama rocJia. pássaro. Um dia. de liga eterna. (euvejo' tudo como um só. olhando a 77iatta. o homem a mulher. uma reciproca e incessante permuta. planta. são os mortos. immenso todo. cooperação jla vida sobre o planeta. quando . E' a lei do mundo. A natureza inteira. j sobre 01 não fructifi^cavam as sementes di arvores e aj(grandes plantas trazidas pelos pássaros e pelos ventos. é preciso nâo/contrariail. E<tudo concorre para tudo.a terra é como a d'aquellas plantas fdfàfklk pedra. Sol. itffifô-fttfjf. homem. o mais forte attráe o mais fraco. trouxeram elles sementes de algas e vegetaes primitivosyM^fJ^J^^jé» mineral da terra •Muito tempo passado. Tudo é subordinação e governo. a vida dos homens ftâftjp. as múltiplas e infinitas fôrmas da matéria no cosmos.CHANAAN ' ir até ao ultimo gráo de energia. MILKAU. emfim.n'um systema de compensação. O mundo é uma expressão da harmonia e do amor universal. Aquelles que cruzam as armas. terra. que Ití& trama e o principio vital do mundo orgânico. O cume da montanha era uma lage estéril. o conjuncto de seres. a lei monarchica. sustentado em suas Ínfimas moléculas por uma cohesão de forças. o senhor arrasta o escravo. de coisas e homens. néra.) Na verdade. peixe.

Não amaldiçoemos a civilisação que nos veiu no sangue antigo. f/jffi0/ 7*' coacção moral concorrem as alavancas da sympaCf*^thia. no alto da montanha núa. Deante da obra da civilisação o papel de cada um é egual ao do outro : a acção dos grandes e dos pequenos se confunde no resultado. porque — é sobre ella que se fundará o futuro. E preciso não perturbara harmonia dos movimentos e da espontaneidade de todos os seres.. para chegarmos á unidade. em aromas..CHANAAN 73 aqftellas sementes primeiro rejeitadas foram de novo para alli carregadas. A historia testemunha que a cultura não é JJ^ksomente a obra do crime e do sangue. é necessário renunciar a toda a auctoridade. Do muito amor. A vida humana deve ser também assim. mas. A obra do passado é ainda veneravel. a toda posse. protegendo os prünitivos moradores da pedra/que então ousaram crescer. surgiu aquillo que nós admiramos: um jardim tropical expandindo-se em luz. no corpo de suas filhas. que elle engrinalda como uma coroa de triumpho. emeôr. entrelaçando-se nos troncos das arvores. Que os nossos mais entranhados instinctos da animalidade se *) / / -. espalhando pelo chão a sombra. Os seres são desèguaes. já encontraram a terra formada pelas algas e sobre . cada um tem de contribuir côm uma porção de amor. O mal está na força. a toda a violência.ella medraram. KAnvà*/\ . mas façamos que este sangue seja cada dia mais amoroso e menos carniceiro. a todo o governo. da solidariedade infinita e intima.

.. Os dois homens fitavam o sol.74 CHANAAN transformem no vôo luminoso da piedade. 4Ç y£v*fe •jr-^~r j^ji^' Era finda a viagem. Os dois homens fitavam a Morte. da dedicação e do amor.. que se vinha apoderando docemente das coisas. que rubro rolava. .. para debaixo das montanhas.

Milkau alegrou-se vendo o seu companheiro de destino e <oJ(saudoi7|om um sorriso de K . . como olhosyque^á^^íkssem./ . . Assim escan.//] <£&l * eguaes. A enfileiravám-'em ordem. mo'itrnvfin/-se pelas portas abertas e cheias brancas . e por onde tóife^r^ <<«^U*4--»^-AíV»*t. um parque ra rde assinalado de arvores salteadas. onde dormira/contemriaj^do a ^ vida plaxjdo a vn que se despertava em ^èrítz^ sahindo por sua vez do qíiarfo.s/r ' / VY ." / porta da pequena estaSanta' Thereza. todas . As p^j^éi/a^ c a ^ ./ L > i ternura. /r de luz . Em suspe círcurfiscrevendo a povoação. á-~y quándoYLer t o m uma e x p r e s s ã o / ^ ^ ^ « ^ W ^ W jovial. iam juntos pela pequena povoação dddyd£&àa accovdada e radiante na sua ingênua simplicidade. Pouco depois. levemente expiado pela frescura e subtileza do ar. caradas neto uniforme era o de um pombal O seu < na altura silenciosa da montanha.r.///*''(f~i '-as.

e/todas as artes alli JHB&SMMBÍ na singeleza do seu espontâneo e feliz inicio. faz'a rodar com estrepito^^noro. E todo esse / ruído era vivo e abgnetJado. que eram a alma da paizagem.. um pequeno engenho para mover os grandes^folles de uma forja de ferreiro. outras. humilde humi e doce. grito do vapor e apenas. um velho sapa//•^ teiro de longa barba. I—J . outras amassavam o trigo e preparavam o pão . cantarolando . Na sua officina. j/or toda a pary o nual. e di mãos muito brancas e esguias batia sola. notando J//o+*i«**3*£ musica ifápfi e alegre fffári/$t/j$f$p vários ////AJO4 ruídos do trabalho. Um alfaiate passava a ferro um panno grosso. Milkau e Lentz percorriam o logarejo. swn o pequeno trabalho manual. Lentz achou-o veneravel como um santo. ^^lOT^^vP' " O S d e a 8 u a corrente. Emquanto por toda aÀaxXeJ^J na matta espessa/outros se batiam com a terra.j I K T CHANAAN V. como única machiníí. Era um pequeno núcleo industrial da colônia. Zllefr yiam todo o povo trabalhando ás portas e rio interior das casas com tranquillidade. mulheres fiavam nos seus quartos. todo elle se entretecia sem violenciar^e mesmo o malhar do ferro não • W y W . ^ aquella pouca gente se entretinha nos seus humildes officios. por uma consoladora esperança.• 'y<-$y76 / ' -. que a água de uma represa bsi. deante do quadro que lhes mostrava a população. em harmônicos movimentos peneiravam o milho para o fubá. Os dois immigrantes sentiam-se transformados por uma paz intima. .

n'aquelle rápido retrocesso aos começos do mundo. orgulhoso de ser homem n'aquelle alto de montanha.CIIANAAN t'. (mf&» Havia uma felicidade n'aquelle co^MÀdli de vida primitiva. onde o tra./e a creação é n'ellesuma feliz / // satisfação do inconsciente. e o espectaculo de um trabalho livre e individual nos emb/ílft de prazer. é o homem que ainda não venceu grande parte das forças da natureza e está ao lado d'ella n'uma postura humilde e servil. . Milkau também admirava. balho tinha o seu scenario jjif. — Isto é uma gloria. Ao espirito desmedido e repentista de Lentz esse inesperado -encontro com o Passado parecia a revelação de um mysterio. é um bello quadro esse que vemos.. ^^fj estes homens que se não mancham nos fumos do '/ carvão. que fazem can' tando l&{ p ã o / iand vestes. interrompendo o silencio em que iam..(O*™**' timos a um começo de civilisação. que se bastam a si mesmos. 77 4 destoava do metallico clangor de uma Clarineta. que conservam toda a frescura da éid vyy alma. mas como l//4&r®** enxergasse no louvor de Lentz o/espirito negativo LtAooC^ fftffli. são os creadores eTeL*?//* simples' natura(es. que se não embrutecem no barulho das machinas. disse elle. Mas no fundo assis.<f$!fô. estes pobres que trabalham mediocremente com /**tf próprias mãos. observou : //?/* — Realmente. em que o mestre da banda de musica de Santa Thereza dava a lição matinal aos seus discípulos.

Nós não podemos fazer que a . readquiriu a sua intelligencia. especialisando e eliminando os homens.^ « w .M^ -^Mrí*m. _W. inabalável. se vae afund/ndo n'um embruteci/ • mento peior que o do selvagem? replicou Lentz. Ao menos estes aqui. dirigindo o machinismo engrandecido quasi á altura de um operário. . a machina. Passaram ainda algum tempo. rando governar o mundo.Qhea^iroipa percepção inte. Sim. merecem ma\sj£ meu amor que essa infinidade de proletários. massa da civilisação retroceda a esse antigo período */// Jk> da industria. procu. /gral da industria. tenho como sagrada toda essa gente. sentindo uma entranhada difficuldade em abandonar aquelle logar. Dirigiram os passos para os caminhos que . famintos e pavorosos.. — Para mim ha uma illusão n'esse sentimento romântico. e é preciso consideral-a pelo seu prisma luminoso como uma aurora. ///fâ&iWfii fflfjbfi de todo o peccado de orgulho. A poesia quetâMfjfâfâ è o perfume 0** mysterioso do passado. ^ ^ .^ ^ s e libertou. cheios de ambições. — ^ u ^ f v ^ Zfifyfrfj repetia Lentz. para o qual nos votamos J/irtY atemorisados.. e*^) emquanto passeiava ao lado de Milkau. são bons ' e ingênuos e supportam o seu jugo com um sorriso.78 CHANAAN — Mas quem pôde negar que o homem. hojèyque tfrjtfyfâ/tffa a transfor-/^ / mou em um instrumemo de movimentos próprios. servo da machina. mas ha também uma poesia mais forte e mais seductora na vida industrial de hoje.

deixando-se ir na inconsciencia d'esses actos espontâneos. ribeiros e cascatas.<*. Era um trecho de / uma região poderosa e opulenta da terra brasi. iwenrubesciam/E em tudo isso se recreiavam mansamente. Dentro tftíjk se abrigava a multidão de bar.f//*~ / baros e de extranhos alli recebidos com brandura / e carinho.CHANAAN 70 abeiravam Santa Thereza. A estrada \ por cima dos morros descampados ora descia.<*/ dade meiga como eram os habitantes de Santa Thereza. Lentz via na rapariga uma divindade ex. mas uma divin. O panorama largo/ousado^^-fecundo. A joven estendeu o braço longo indicandolhés o caminho. Milkau e Lentz PÍU sna majch^ passaram jfa V v . sorriam ás creanças. /* como quem parte para o desconhecido. a sLd. ar. tranha n'aquella floresta verde. miravam attentos o serviço que n'ellas se fazia. ora subia. da sua forte e fulva cabel. o **--/ lhoh üdL éed. e perseguindo comjUusJ olhos de admiração as saudáveis raparigas. Procuravam as pequenas elevações.T^arou*». valles/ / • / • ' florestas. paravam á porta das casas. Elles admirarão^ dCsea^gesto. e partiram como n'um sonho. que os retinham alguns minutos no povoado.^ desandado repouso.graça. //# [/ '/A principio iam meio apprehensivos e calados. va-J?/ V6~/d TiaÂJ / r a s e u / aspectos!'cheio de montes. giravam abaixo e acima pelo parque. Mas afinal tiveram de se a r r a n c a r . Uma filha da hoteleira (ós/Qevouyaté á bocca do caminho do Timbuhy JSÍkfr/jtom mil perguntasJ d*tíVàfdlbtfJtffiL uns instantes.ML{ leira.0 leira. agradados do seu rdsto delicado.

vestida de sol. as quaes êkJ i viam pela primeira vez.80 CHANAAN fo/l ///// J/ pelas casas de colonos agricultores. E os dois immigrantes. sem íi^f^ penetrarem.. o longo mar. que era amimada pelas coisas : sobre o seu collo águas dos rios fazem voltas e outra^hejtgnlaçanj)* cintura desejada. e. animaes e creanças debaixo das arvores.. mulheres em suas occupações domesticas. com a espuma dos seus beijos tbJ afag/eternamente o corpo. E as casinhas se succediam por todo o valle. no silencio dos caminhos. abrigadas ' f u r n a s no fdfâfi seio dos morros. o mar. / Ou~£du^t Elles disseram que «lia era formosa com os seus trajes magníficos. os pássaros a celebram. Havia fumo em todas as chaminés.e abundância. coberta com o manto do voluptuoso e infinito azul. unidos emfim n u m a mesma communhão de esperança e admiração. ventos suaves lhe penteam e frisam os cabellos verdes. ' ' H/ . outras depenf. as flores a perfumam com aroma extranho. as estrellas. de tranquillidade. /'/h 7 duradas na encosta d ^ ^ . a r puzerarrr^a louvar a Terra de Chanaan. homens mettidos na sombra fresca dos cafesaes que rodeavam as habitações. todas com disposição ' e graça uniformes. n'uma vertigem de admiração. ///*L punham-se a mirar de fora esses retiros encantados de verdura. se precipitam sobre ellá como lagrimas de uma alegria divina.

porque um só grão ds^ suas areias fecundas fertilisaria o mundo inteiro e apagaria para sempre a miséria e a fome entre os homens... tribue fó seus dons preciosos fâtffyty d'elles têm V/X. enfraquece o sol com as suas sombras. não têm dono . sahidos de um peito alegre. O h ! poderosa!. porque dis . //r //*/V. que a não engeitam por outra. e/aj. homens J p ^ * * Êfl/Lptfttffftfí/fytyl tão meiga e consoladora.CIIANAAN 81 Elles disseram que ella era opulenta. para o orvalho da noite /jr JtLti fria tem o calor da pelle aquecida.. ytó seus olhos suaves e divinos não /i"v*~ distinguem as separações miseráveis. " ^ Elles disseram que ella era feliz entre as outras. não / perturba^f/í j ^ f ambição $ l ritffd orgulho . porque fó seus rebanhos fartam d$ suas nações e o fructo dfó suas arvores consola o amargor da existencia. sua porta não se fecha... a providencia dos filhos despreoccupados. amorosa. o $já seio^C < f / ^ . o ^-//fÉwy^ quecimento instantâneo da agonia eterna. fd suas riquezas f # r.. j . desejo. porque no seu bojo phantastico guarda a riqueza innumeravel. porque era a mãe abastada. e(jhe/^ãrítai^ hymnos +». o ouro puro e a pedra illuminada. a casa de ouro. Elles disseram que ella era generosa. '//ê/ /' Elles disseram que ella.-. não deixam as suas vestes protectoras e a recompensam com o gesto perpetuamente infantil e carinhoso.

sahindo de um barracão verde alli situado.. nvuma alegria estrepitosa e confortante.. o agrimensor Felicissimo se lhes dirigiu com o triângulo moreno do seu rosto escancarado n'um grande riso de vida e bondade...82 CHANAAN maternal se abre a todos como um farto' e tepido agasalho. . porque. O h ! esperança nossa! Elles disseram estes e outros louvores e caminharam dentro da luz. gritou de longe.. porém. concordou com enthusiasmo o agrimensor. / frei í E os <fd$fâ / ^ / ^ a r a m a contar-lhe com exalfsyrfr tação as suas primeiras impressões. adorando esta sua bella terra. por um pouco ficávamos por esses caminhos. isso são horas de chegar ? E sem esperar resposta foi ao encontro dos dois allemães. isto é mesmo um paraisc. Já traziam cinco horas de Santa Thereza quando dfyfdaram á margem do rio Doce. preoccupado pelo instincto da hospitalidade. com as mãos estendidas. Felicíssimo.. os interrompera. — Ah! meu caro. Mal tiveram tempo de dar uma vista d'olhos pela redondeza. — Então. / / & aiçy ... ajoelhados. — Não ha duvida. — Onde almoçaram? Posso arranjar aqui alguma cousa para entreterem o estômago. Milkau pensou que era o gênio da raça originaria e senhora d'aquella terra que/lhes deparava. disse Lentz.

agasalhando-os no barracão do escriptorio. e em tudo! Encaminharam-se para uma meiaguá coberta de zinco. torio de hospitalMj^ütáf ao funõTÕ"^"pequena cozi. porém.CHANAAN 83 — Obrigado. respondeu o agrimensor. Ainda lhe trazemos algumas aqui. Os hospedes agradece- . d ^ / M i l k a u .i~»*uc f nha. Ao lado havia outro puxado maior. nem o quadro mais humilde. recebendo as laranjas. Thereza. cujo arranjo não podia ser mais simples : alguns instrumentosjl^j^arrrpojld^isou três grandes livros (§obre uma mesa ao cantp). Ao sahirmos de Santa. onde o agrimensor tinha o escriptorio. Nem um livro de leitura. Felicissimo. o desabafo da curiosi. Não estraguem a admiração. Olhem. Felicíssimo fazia também d'esse A barracão o seu quarto de dormir. Veja que belleza de fructa! — 0ft$jL não viram nada. nem uma photographia./ que era o alojamento destinado aos immigrantes.h-0J-&~}~4 dade do cearense. porque têm muito de que ficar de bocca aberta. élíL. não ha Brasil como este. e na parede um grande mappa dos lotes de terra da região. Era espaçoso e arrumado como um d o r r r u ^ / . emquanto esperadddm levantar nos lotes as suas Á/Gt/ casas. comemos alguma coisa que trazíamos e depois no caminho nos fartámos de laranjas no pomar de uma velha colona. que eram o registro dos prazos arrendados aos colonos. de uma singeleza / Aomada. apenas um maço de jornaes dsÀ. abrira gostoso uma ex/ cepção para os dois extrangeiros.

interrogava os ou/ tros. Passaram para o escriptorio.. Mas si fazem questão.84 CHANAAN ram ao brasileiro amável e.jtodo assanhado. não teríamos tempo de ir e voltar com d dia../. em companhia . com ares de entendido. sentindo que o sol baixava. travaram conversas nas quaes os immigrantes se foram informando de muitas coisas do logar. Méfà querendo ceder por / ' delicadeza ao parecer do agrimensor. E melhor ficar para amanhã. Preparavam-se para sahir. acceitou o lote V. O diabo é que está enterrado em plena matta e vão ter muito trabalho para fazer a limpa. o que mais lhes conviria.. Ahi a terra deve ser esplendida. reflectiu e ponderou aos companheiros : — D'aqui ao lote dez é um pedaço. . Felicissimo farejou o tempo. abancados todos no quarto de dormir. até que o agrimensor. E Felicissimo de varinha em punho para apon9/ tar no mappa. Mas olhem que na verdade vale o esforço. Chegando á porta. Milkau. Uma doce fadiga entorpecia os viajantes e tf0fi/J jr / deitados sobre a relva junto á casa. respondeu Lentz.. que não disputava primazias nem & vantagens no mundo. — De fôrma alguma.' (Pü proposto/foj&^^ejubilavaHi aquelle dia glorioso ///' com a miragem de um grande e santo labor. lhes disse : — Ande d'ahi. gente! vamos escolher os lotes. e deante da planta dependurada elle accrescentou : — Para mim. seria o numero dez.

Com os olhos rajados de sangue e os dentes ponteagudos de serra.. Chegados ue foram.CHANAAN l w II 85 do cearense. que entre elles se destacava.. mas essa impressão era xar/. ' ' /'»"*' Um grupo de homens armados de ferramentas de campo apparecia á distancia. Milkau e Lentz admiravam a robustez d'aquelles homens com pulsos de ferro. com o impulso sinistro e reservado que é o primeiro mo.][ vimento do homem para o homem. / satyro maligno. Felicissimo. vendo-os passar tão extranhos. Vinham vagarosamente. tomava por vezes a apparencia de um ^ . e entreolhando-se rrr. olhos de um azul de abysmo.^ havia um mulato. a umi só f&£ feita da/de todos. fazendo coro.//// coso. passando sem parar. barbas avermelhadas.i espantados por terem respondido . Tinha a cara mascarada pelas bexigas . ficou surprehendido e gritou-lhes : — Então. Percebendo de longe que havia gente nova. torso hercúleo. era bronzeado. caminhavam silenciosos. usava uma pequena barba anelada e falha e o cabello curto em pé sobre a testa...íÁj^j em coisas coisas vagas vagas ee dipiavam diyílavam oo tio I em fio passar passar preguipregui... saudaram surdamente e/arara' calados ara (/ interior do armazém/guardar as ferrarnentas. Sónseate. arrastando-se pela estrada descampada junto á praia do rio.ao~jii£srno \jjl tempo. camaradas!'o rumo está acabado? — Prompto! disseram. muito parecidos como um grupo de irmãos. ouviarfi as historias áles^f scismavam **•. e Hc*^ / ( rv t o • •"• (*."' ¥ .

Admirara-se Lentz do modo corrente por que o mulato falava allemão.. As aves em bando continuavam serenas e soberbas no seu vôo.. Joca...?%cé0) mostrando a Milkau e a Lentz os bandos de aves que passavam na illuminação do crepúsculo. Não havia. na verdade. seu cadete.. Felicissimo apontou para v//Cc^°^a. em allemão.8C CHANAAN rapidamente a desmanchava um riso fácil e ingênuo. cabra. saboreando com melancolia os effeitos creados em sua imaginação de caçador. replicou o mulato com fanfarrice. perpetuado no sangue e transmittido de geração em geração ?.. entre elle e a terra um remoto convívio. em longas theorias harmônicas. Outras vinham ao longe. No meio da massa indistincta dos companheiros louros e pesados. não ficava um bicho d'aquelles voando. havia de se ver. Como o sol sefôpfyAjfflL e as águas do rio /(7/^' sejÀ$$(tf/$j de sangue. o cabra brasileiro tinha um ar victorioso. — Qual.. um ar espiritualisado.. Era só pontaria no da frente. Si eu tivesse uma boa arma. apezar de recheiar a phrase . seguindo-as pezarosamente. e si a arma fosse espalhadeira. — Aposto. Pouco /pouco os homens foram se approximando dos recém-chegados... ouvindo-lhes silenciosos a ///Á / . disse-lhe a rir Felicissimo. c o n v e r s a . Joca ij olhava. alli tu não apanhavas nada. Os camaradas applaudiram. — Ah! Um bom tiro! exclamou o mulato.

No fundo do pensamento de Lentz houve um pequeno júbilo por essas confirmações da insufficiencia do meio brasileiro para impor uma lingua.CHANAAN 87 de vocábulos brasileiros. com os olhos abertos e fulgurantes. trabalhado na alma da população por longos . entrada ha mais de trinta annos.. que não fala uma palavra de brasileiro. mas d'esta mistura resultará ainda uma lingua. — Não estará longe o dia. perguntou-lhes si falavam a lingua do paiz. considerou Milkau.<fffá<fresponderam que não. Creia que é um dom natural. devido em grande parte á segregação d'ellas no meio da população nativa. Não sei. E Felicissimo observou a propósito : — Olhe. Não digo que os idiomas extrangeiros não influam sobre o idioma nacional.. cujo fundo. não ha povo como o nosso para apprender as línguas alheias. Ha gente na colônia... O caso das colônias é um accidente. em que a lingua dos brasileiros dominará no seu paiz. É uma vergonha! O que acontece é que os nossos tropeiros e trabalhadores todos falam o allemão. Essa fraqueza não seria a brecha para os futuros destinos germânicos d'aquella magnífica terra? E poz-se a scismar. Joca approvou convicto e ajuntou que elle mesmo já falava mais allemão que a sua lingua e arranhava um pouco o polaco e o italiano. não se admire d'esses homens que estão aqui ha um anno ou pouco mais. cuja indole serão os do portuguez. EY dirigindo-se aos trabalhadores allemães.

— E um selvagem. ***"^**" trêmulos. de cães que o rodeavam ou o precediam. mas . os cães o acompanhavam ganindo e excitados pelo cheiro de sangue que escorria da caça. (E sorria. dirigindo-se a Lentz). si nós / i apanhássemos aquelle bichinho para a panella! 0 caçador passou sem os cumprimentar. Emquanto a conversação se ia desenrolando mansamente. A prophecia dava-lhe desde já um orgulho de vencedor. O caçador /Jltt e caminhava com passo rápido. Isto agradou a Felicissimo.bocca aberta^e lingua de fora. (*. disse Felicissimo. olhou com superioridade a massa de seus companheiros allemães. Joca. á beira do rio. todos muito ykití^iláfcardegos. a got- tejar sangue pelas ier\das/00/j^^0l^/j^ fâ/$ft(fá. um velho muito alto e magro. de orelhas ora empinadas. „ . — É o vizinho mais perto do barracão. armado de espingarda e carregando um animal morto. a resfolegar.88 CHANAAN séculos. ora baixas. nervosos. O caçador era seguido por um bando . viram passar pelo caminho. .. que de tudo só t ( c * ^ * * \ apanhou1 a phrase final. "tf*„J* y* exhaustos da caçada. \Q_-V — Ah! murmurou Joca lj>éjf penZ. Nós seremos os vencidos. n'uma com^ yM4^!'bustão que os envolvia de ligeiro fumo. fixado na poesia e transportado para o futuro por uma litteratura que quer viver. queimando o ar <^. frio com ardente e inquieta respiração. — Mora por aqui? interrogou Milkau.

do cearense e do mulato lhe <^4AÀ^ trazia a sensação do enjôo de mar. fâjfyfatyfé a facundia jf/cLof***» interminável e molle. \tfT l ^-&-JfJ^&&£sss!sxpeer-tá fr*y*l*\ gcupiüie-homeiis que u observ^airj^7tóá_ftt±fi=sp **"•*. respondeu Joca.. — Um arredio. Milkau estava solicito com todos. etldrídMftóp e m o .CHANAAN 89 nem por isso nos. passa pela gente como si fossemos cachorros.. e todos se banqueteavam alegremente. salva. bocejando outros. vive só com aquelles cachorros. espreguiçando os . — Ha de ser algum solitário. prevenindo-o de que podiam ir ceiar./ y ^ " ^ rosos entraram todos em casa. admirava o que havia de solido e repou. o peixe salgado e a carne secca... Lentz olhava agora * s duas raças alli reunidas á mesa. ' Os trabalhadores do barracão armaram a mesa das refeições no dormitório dos immigrantes e ahi puzeram-se a ceiar. A comida era simples e pobre. suppoz Lentz. outros espertos e faladores como Felicissimo e Joca. braços uns.. No-emtanto. Ergueram-se da relva. explicou o agrimensor. alguns n u m prazer discreto e moroso. quando um dos camaradas se achegou a Felicissimo. não fala com pessoa alguma que eu saiba. . alimentação habitual dos homens do campo nos logares do seu serviço.s s nn m muittTV r^mm t ^--nn nn m u t f p --z^~ tfl f Continuavam a tratar da vida singular que levava o caçador. alegrando-se n'aquella communhão entre as raças . que são valentes como feras. sado nos gigantes allemães.

a*~^ A sala era alumiada por um lampeão de kerose. porque sou de Heidelberg. I $7/v .Comiam mais ou menos egualmente com medo e t^"*^ devagar.CHANAAN U f**. vendo alargar-se o destino da sobrevi. mas sufficiente 2»**. Uns C '' já\eram homens maduros e experimentados por 1 ] /Vi** J° n g° s soffrimentos. 1/ para que os ríovos colonos pudessem distinguir a ^j' .S}_ ^fitíàffy das bandas do Rheno. geral^jfii rfr mente fortes. — De Germersheim. porém. outros novos e joviaes. ir ne e a luz Àxd turva e indecisa. para conversar com os seus at*^> ' patrícios. uma longa intimidade l h e s d é r l e m muitos fi. fí/ —De que logar é? perguntou Milkau ao trabalhador mais edoso. * O trabalhador sorriu. havia. physionomia de cada trabalhador europeu até então <*)' Vi LJ para elles confundidos demoí uma só massa. ' Entreteve-se Milkau. Para Milkau um compatriota era o .-l ' pontos uma só feição. da Pomerania. feliz por ter encontrado um conterrâneo. alguns <$# i/y. Além do fundo uniforme da sua própria ''(/ " classe. e mostrando uma calma indolente y^ r^** nos movimentos e nos olhos um longo descanço.^Z~A. I distinctas. em indagar i/obre W logares donde era cac a um /// Cl * r//ffl' Q u a s i todos procediam da Prússia II ^ oriental. mas a sua alegria não passava de JL um gesto tffflftffésfflfflf incompleto como o próprio espirito. — Então somos quasi vizinhos./~^~*>f.?*** vente mesa commum que cahiaydos tempos como Çf^**" uma relíquia do patriarchado.

Todos se voltaram para o emigrado do Rheno. emfim. todos se moveram a um tempo.. — Ah! exclamou ligeiramente pensativo./ r tovellos. de surpresa. havia uma perfeita unidade.. n'essas transformações de physionomia. Um desejo de voltar atraz.Então é da terra de Soror Martha! Conheceu o Rochedo da Monja. espichou a cabeça para o meio e poz-se á espreita. de um/UW*»»-// mesmo desejo. outro. __*^ emfim. E Milkau pediu ao trabalhador que narrasse ***( essa tradição ignorada pelos que alli estavam. f — Sim./ / 1 ^r~ da. aquella que sá^ de um mesmo pensamento. pelos homens da sua cidade. Lentz perguntou si isso se ligava a alguma len. pelo quadro./J ú*^ mastigava. / ^ddkfy largou o talher grosseiro e descançou os co. de pagar em amor toda a indifferença que tivera pelas coisas da sua terra. que estava á ponta da mesa. ae •f#/n%'' j interesse e mesmo de negligencia. era '/fa£&f\ como um arrependimento de não ter sido nos prin* cipios da vida o homem de hoje.CHANAAN 91 apparecimento Yf/fáffi e inesperado de todo o seu /f/Juy1-** passado. Tfim. mas em todos esses movimentos vários. Uma incomprehensivel saudade dos seus / primeiros annos $$$^001 um instante. esperando com placidez a narrativa. O homem interrogado ficou um segundo atto- . e auzeraa^ ^w^md^% nas caras expressões distinctas. de começar de novo. onde passara a sua mocidade silenciosa.

si tornasse a vel-o. homem de Deus! E segredo? gritou o cabra. Na sua linguagem. sem mais í/triM*/ fimos' fflfâ isolada no castello. O duque morreu na outra cruzada. fez voto de que. e a viuva. Voltou o duque. o primeiro filho que tivessem seria consagrado ao serviço de Deus. a quem o silencio de um instante perturbava e affligia. Os outros ^ ç í á i ^ / a m as suas W * ^ attitudes.a falar. _ f O allemão afinal se Resolveu. e passado algum tempo nasceu-lhes uma filha. olhando para todos. apenas se casbú. Era-lhe único ir irj^juM conforto ver a filha. partira ^HA A ^ v a pelejar pela Fé. A principio não disse uma palavra.>. èdáfitffe Martha se tornou moça. Sua mulher ficara inconsolavel com a separação e. que a queriam ytfjjl esposa dos filhos./j/ífl^ji alia contou que no tempo f % das cruzadas um duque. muito espantado de se ver n'aquella situação saliente. Cocava emba~. raçado a cabeça. que se chamou Martha. que de tempos a tempos ia *-£yz^ <. Joca. voltou-se para o companheiro allemão com os olhos esgazeados. morta para o i JZMX> mundo. — Desembucha. temendo a morte do esposo. A menina era de uma deslumbrante belleza. onde a sua piedade encantava ainda mais que a sua peregrina formosura. viram-na crescer.** ~+ ^ — ' ^»- * ^* .>2 CHANAAN nito e irresoluto em sahir da obscuridade collectiva e anonyma em que até então estivera na mesa. e com Vi pezar os nobres vizinhos. entrou j Ih / »<^ para o convento.

encostado ao penhasco. O conde acompanhou-a. o joven conde bat/ á porta do mosteiro a ^ y para $fyj% á Martha que 4 duqueza estava a /^l~*-«*« morrer. descobriu o seu ardil //Q. vestida de monja./Martha espavorida/ytíj^^A'põe-se /*y^_ a correr. Luctou comsigo por esconder a paixão criminosa. vinha o echo das supplicas da freira pela salvação da alma de seu malfeitor. Ç m rochedo\se^pre^e*récolhe ^t^r* no seio de pedra a joven monja. e v^i/ido pelo desejo formulou o pro. Des. quando chegaram ao logar mais solitário. De dentro. Vão os dois pela floresta como loucos. amolledMd pelas orações da / .. mas foi / impossível. em vez de maldições.//u/*%jecto de raptar a monja. e propoz-lhe fugirei e occultarem o seu amor em '' / ^ outras terras. Ficou assim dias e dias alli vivendo. persegue-a. Uma tarde. A freira transviada ///)//(2 toma um caminho que a afasta do castello. A freira partiu logo para a casa de s u a / mãe. Não v *creditou o tÁ^A» conde na protecção de Deus e teimou em esperar a sahida de Martha. Consolação. allucinado. o conde envelhecia. disfarçado em aldeão. Passaram-se mezes. sua barba embranquecida ?ft alongou"1Tté aos pes. Uma vez. filho de um conde palatino. onde o conde ^ / a vae alcançando.^>v^ lumbrado. /yffa** e silencioso seguiu-a até ao castello. quando esta atravessava o bosque para uma dessas visitas deC J. o rapaz0$J$fflde amor^ela freira. e no / ' " ' ' ^ desespero da fuga chega atéjio rio. aconteceu-lhe fyfpfypax-se com u m / ^ joven caçador. O moço. e. annos. e afinal o coração.CHANAAN 93 visital-a..

passaram todo o tempo ajoelhadas aporta. medrosa. Abre-se a rocha. ausência. ia-se mudando em primavera.. confessando os perigos da sua .\Martha/recolheu 2»« abi S£A° s e u aposento. presas á melodia. onde cantara os-aaais &/&>*'. Para ella. assistida e alimentada pelos anjos. e no seu caminho o tempo. Durante a sua ausência as freiras.(Martha^jâáej na mesma juventude com que entrara. de onde no mesmo momento / * . Partiu curvado. Quando soror Martha sahiu do rochedo. A pobre madre ^0^VM (fât/fjfftyifâr 'éfâtíWfli de allucinação e disse-lhe que ella não se tinha afastado do quarto. ouvindo cantar na sua cella uma voz celestial. o tempo não fifytfla corrido. Jurou então consagrar-se ao serviço de Deus. embevecidas.. entoava os hymnos que Martha lhe ensinava de dentro do rochedo inviolável.Di CHANAAN * é * t e ^ monja. hcouffirffájtffl? da tentação e elle. voltando aos seus labores. velho e cJieio do espirito divino.(Marthaícorna)para o mosteiro. e. parou a voz na cella e as freiras desprenderam-se do encanto. rezando em êxtase. despediu-se da freira por entre lagrimas de arrependimento. parte para o convento. Confusa. e tudo estava como deixara annos antes. Alli também y Ácr^ty tempo $0 jLpfffiÀlf Arrojou-se a monja aos Á*«v" t p^ s d a superiora. Attonita. abrindo-se em flores o campo mirrado. no propósito de fundar uma ordem religiosa.. penitente. e restavaAri & lhe a illusão de ter apenas passado um dia encerrada na pedra.. conver" tido. que era de inverno.bellos louvores a Deus. Entrou no convento.

pois ninguém sabe o que lhe está reservado soffrer e vêr.CHANAAN 95 / 7 * * f*«Vr viu sahir um anjo. cahindo outra vez em silencio.. àffitfMxfyfie todos na solidão que era alli. e que era a sua imagem. Sempre se deve andar prevenido. mas sem força de abalar as convicções plantadas desde séculos ás fontes d'aquellas almas. de que parecia irradiar toda a luz que attenuava a escuridão da noite.. /£jty0MfyrtO*í' rãatígÜ&mIffflúfNà Tjtums/intima communhão.. A ceia miJ-se acabando sob a apprehensão *-&//'' vaga que no animo dos trabalhadores deixava a evocação das lendas nataes. voltados para o rio. E um dos homens foi o interprete de todos quando disse : — Ha muito encantamento neste mundo de Deus.. Milkau e Lentz também se chegaram. ' I que era uma faixa phosphorescente e tremula. Lentz quiz levantar-lhes o espirito e poz-se a negar bruxas. coxeando sobre assumptos incenõ^pois mais forte que estes havia em cada espirito uma idéa intima. dizendo : — As bruxas já morre- . longínqua e poderosa que teimava em se fixar. á aragem fria da noite. pensativos. Não tardaram a se juntar fora no terreiro. E quando elle acabava. concordaram n'um brando murmúrio. Os 6-»-?-c// homens 0 deitaram-ha relva. milagres e encantados. A conversa era (tropéga/|^ morna. que/a substituirá na ausência.. Os outros. Falou longamente. Pouco a pouco cada um se foi erguendo e deixando a sala. D'onde menos se espera surge um perigo.^.

Alli. um dos mais velhos não gostou do tom da negação e replicou : — Não diga tal./ péas transmittidas a elles'adulteradas pelos povos brancos. com o seu caracter immune de contactos extranhos. vinham mais puras.! Cada um lembrou uma historia da sua localidade originaria.... em vozes e cantigas.anões -phantasticos.lhes acontecem por se fiarem. as porfias com a bruxa Brunhilde. os heróes. as nymphas do Rheno. guarda dos thesouros fabulosos. as suas proezas no castello do Nivefliho. seu combate com o gigante. mais límpidas. em que elle combatia invisível pela força mágica do seu chapéo encantado. de mulheres.. que foram os -^primeiros geradores da sua raça mestiça. rainha da Islândia. os gigantes com o seu cortejo de . vencendo a mulher para entregàl-a . e com que sabor não escutaram as façanhas deSiegfried.de um mundo desconhecido e $t$k lhes suggeriam 'i' a reminiscencia de tantas outras historias euro4. Os dois brasileiros se interessavanj ardentemente com esses contos que lhes vinham /// ~jr~. Quantas desgraças não . filho de Sigisberto. no serão da terra tropical. Mas agora as lendas volviam ás suas origens. chamados pelas evocações dos emigrados.96 CHANAAN ram ha muito tempo e ellas sempre foram estas mesmas mulheres que vocês amam —. a derrota do anão"Alberico. os homens devem tomar cautela nos seus amores. moço. surgiram. e depois as suas luctas. os semi-deuses saxões.

? E a tristeza no castello. morrer enlouqueciam ouvindo os seus cânticos..Q d'agua. responde ao som da harpa : « O meu ri... desmaiou e a fada o transportou para o seu palácio de crystal no fundo das águas azues. » * rf * <$fflc/efál$fcfy0J0/alguns passaram 0^»^-^ a commental-a no circulo'de suas nevoadas idéas. divina como um.. ora bemfazeja.. soberana. Áy*£"++/i E Joca declarou que não tinha medo de mães . Milkau achou esse termo extranho de um bello . ora vingativa. vendo a nympha. s^^tóé ella. E com que paixão não ouviram elles tratar da bella Lorelei. // -^-> fffffi fanfarrão : '///wT' t*>. curar o filho. sado par uma lança.. — Não se arreceia de mulheres.. até que um dia. rt ' symbolo. lhe pede/!) -?ít<y restitua..atraves. o velho pae louco a pro. longe do vosso mundo. seduzido pelas suas vozes mágicas. que o attinge no único ponto vulnerável do corpo. avistando Lorelei sobre o rochedo com a lyra na mão.." sonho palácio de crystal é no seio da onda e para lá. fazendo abrir as águas do Rheno para engulirem os ousados que procuravam vêrlhe o semblante mysterioso e que antes de... até que. até que um dia morre o heróe.hL levei o meu amante kj/'•*'' fiel e leal. mesmo diabas ou feiticeiras..CHANAAN 97 ao esposo. protegendo os habitantes de sua vizinhança. Vinha n'essa historia a paixão do conde palatino pela fada. quem já teve trabalho com cur/ufj pira. Como os outros escarnecessem $/$$-.

peei o Ventania que.u>'h 98 CMANAAN e raro accento de linguagem .. coitado.... disse n u m tom familiar ao mulato : — Conte-nos isso. ria das palavras do velho. nós tínhamos acabado de recolher o gado ao curral. y*«(^/con siderou/ como uma d'essas palavras ricas de som dóTdiõrha brasileiro enxertadas no velho tronco da lingua. meu tio. nem a lenda nativa que a elle se prende. Chegados que fomos... seus quatro ajudantes.. quando nos puzemos á mesa. mas como não soubesse a significação do nome. que era o vaqueiro da fazenda. socega com essas viagens noite e dia no matto por causa de rapariga. Meu tio gritou para pôr a janta... — Eh! meu tio! deixe de abusão para amedrontar gente pavorosa. Toma tento comtigo ! Moleque que era eu. O sol já estava esfriando. não foi por estas bandas.. lá se foi paraocampo. frouxo e meio descadeirado. Os cabras traziam uma fome . depois de muito pelejar.. foi no Maranhão. Joca ! — Ah! respondeu este... desempenado e de topete. Qual! currupira é phantasmagoria! E tio Manoel Pereira passava a me contar rodellas e sempre arrematava : — Rapaz! toma tento! Um dia. preparando-se para narrar. eu trouxe da restinga na ponta do laço. porque eu sou de lá Meu tio Manoel Pereira na fazenda do Pindobal me dizia sempre : — Rapaz. e nós.. Meu cavallo estava esfalfado de cercar um garrote arisco. que.... que uma vez cunfupira te pega.

CHANAAN 99 canina. — Pois sim. não me lembrava mais desse ajuntamento marcado para aquella noite.. Fiquei um tempinho meio desalentado. parece uma fome de Satanaz. — Eh! gente. Os outros camaradas eram já maduros e casados... Mas vae o Manoel Formoso e me diz : — Tu não sabes do baile da Maria Benedicta ?— Oh ! cabeça que era minha. Eu estava derreado como um bode lasso Os outros estavam na mesma conformidade. com sua cabecinha delicada como de sussurina.. Eu andava de namoro com a cabocla.. Te esconjuro ! — O que é certo é que as curimatás voaram para dentro.para a patuscada. mas a idéa da rapariga me levantou o corpo cançado. — « E o Formoso se desculpou disfarçando. que espantava minha tia.. fica quieto ! . No sabbado passado tinha tratado com a Chiquinha Rosa nos encontrarmos na ramada onde era a festa. lambendo a bezerrada que do outro lado se roçava na cerca.. se via logo que tinha algum negocio estipulado para outra banda. Vamos d'ahi Manoelsinho... Depois nos assentámos na soleira da porta em frente ao curral. moça espigada como palmeira. Ah! meu sangue. não formavam . só ouvir o cabra. as bananas não ficaram atraz e nós rematámos a boia com um trago da branca. dizia a velha nos servindo. Uma vontade de vêr a Chiquinha me assanhou o corpo e me fez espertar. Aquella hora as vaccas choravam de cortar coração.

enrolei no pescoço o lenço encarnado que tinha comprado a um barqueiro no porto. então já que ninguém me acompanha. disse meio arrevezado aos cabras molles. Ainda era bem de dia. « Levantei-me em direcção á fonte.100 CIIANAAN — Bem. Bati na porta de tia BenU». /5^ l/ti -* a "Ella havia de me dar no baile. nós vamos fazer matalutagem na fazenda da Marambaia. preparei-me com camisa e calça alva. Vosmecê pôde ficar socegado que estou de volta a tempo e bato no seu quarto ás» horas. O meu lenço branco / estava desde a semana passada com a Chiquinha. meu tio.vara guardar no seio e perfumar com o seu cheiro. logo ao entrar da lua. E me . Tio Pereira me vendo de viagem. Dei um mergulho e umas parapemadas. Depois. vou só. disse : — Volta cedo que de manhãsinha. <• Não quiz mais conversa com o velho. com intenção de espantar algum jacaré que andasse na vadiação. Atirei-me á água. — Sim. que me deu um frio nos ossos.— Rapaz. entrou aralhar. / tur. é só trabalho para os outros. « Não me importei com a fala do velho e parti para a fonte. Larga de banho a esta hora que tu apanhas maleitas. fpnis pedi uníí pouc7~da sua pommada de cheiro e éé$ / •fcis ffl/lfl? estava na ordem. porque filho de meu pae não engeita divertimento. e tio Pereira que me circumdava n'um tudo. tu estás maluco. Passei depressa para meu rancho para mudar de roupa.

Quando cheguei para furar a ponta. o coração a querer pular pela bocca. estava parado com os olhos tristes de peixe morto. atirei-me para o caminho. — Então. Mas tomei sustância em mim e me agüentei valente.. « Xão sei si foi pela falação do Zé marinheiro que se me escaldou mais o sangue. pinga não falta. Olha.. . patrão. E vosmecê me encha ahi um quarto de restillo e me corte duas toras de fumo de mascar. Atravessei todo o campo da nossa fazenda com vista a alcançar a ponta do Guariba. o pouco gado magro que havia. Joca.. e. — Olha que tem passado por aqui muita rapaziada. A brincadeira deve estar influída.CHANAAN 101 puz no olho do mundo com passo de ema escabreada. e as pernas me fraqueando. e ainda pude logo dizer ao patrão do negocio : — Eu vou correndo para lá. só se ouvia um barulho de porcos que focinhavam a terra á cata de minhoca. já se sabe. me lembro como si fosse hoje. — Brincar um pouco. « Dito e feito. virados para o lado do sol que se sumia. eu senti como tudo a rodar. tudo lhe mandei eu. Mas a gente não se deve aproveitar dos outros... deve estar prevenido do seu. na ramada da Maria Benedicta. Do Pindobal á ramada da Maria Benedicta eram bem umas duas horas de marcha.... aonde se bota tão paramemado? perguntou-me o portuguez.. por ordem do Pedro Tupinambá. O sol G. esbarrei primeira no negocio de seu Zé marinheiro. tudo estava bem secco.

onde ficava do outro lado a casa da festa. porque o pae não o deixa ir á festa. Outro assobio me passava. com seu par fixo para toda a noite. — Que . Principiei a cortar por uma picada. parecia me estalar dos lados. Continuei a andar. outro. porém. por cima das arvores. mas perdiam o seu serviço. porque a lua estava esclarecendo tudo. não estava muito boa. de vez em quando um pica-páo n'um tronco de madeira secca batia as horas da tarde. da bocca da estrada... andei. cortando os ouvidos. outro. que encurtava a distancia e sahiano campinho.« de toda a parte se apitava. Só parecia que encontrava o terço acabado e a Chiquinha. ouço um assobio fino que vinha de detraz. Lá no fundo da matta havia uma aberta e me parecia que um vulto caminhava para mim. Assumptei de novo. De repente. que se recolhe.os lagartos corriam estremecendo o matto. me largando de esperar. Não dei importância ao sujeito e disse commigo: — Ha de ser o filho do Zé marinheiro. Não havia viva alma. Pernas para que te quero! A cabeça. do fundo do matto. nada. Pensei: — É algum camarada que se vae divertir e me chama. e eu com a pressa de chegar comia poeira que era gosto.102 CHANAAN já estava escondido e os vagalumes começavam a correr no ar parado. andei. A areia estava mais quente ahi dentro que no meio do campo. Voltei a cabeça e não vi ninguém. e do estômago me subia de vez em quando um enjôo. um grande calor me tomava o corpo.

Então gritei com voz de susto. Nós estávamos assim a umas cem braças um do outro. O sangue me fervia. Os assobios de coruja não largavam. porque elle estava perto e vi que não era o filho do portuguez — A modo que não conheço este caboclinho. a cabeça me queimava..CHANAAN 103 bandão de corujas por esta noite.que conversa é essa? Você anda me fazendo visagens ? — Não digo nada. — Larga! berrei — O caboclinho com olíios de sangue me encarava — Larga ! — e eu sempre seguro. para que falaste ? A mattaria toda passou a assobiar como demônio. e eu comecei a ficar apavorado com a matinada.. quando o pequeno se sumiu de novo. tu me' pagas.. o certo é que avancei para o pequeno com raiva de cego— Ah ! seu diabo. — E elle torna a surgir. — Armei o páo para cima. Mas quando eu me vi. o coração me batia a galope. bem alto para intimar o cabra : — Olá. O caboclinho estava agora a umas dez varas de mim. reparei bem. — Onde se metteu o diabo do pequeno ? — Os assobios iam me rodeiando sempre. eparame socegar. eu já estava com a cabeça tonta. bocca. Não digo nada. Fiquei como um . Mas olhei firme para a frente e não vi ninguém.. Eu resmunguei: — Que faz esse sujeitinho que desapparece de vez em quando? Isto não é coisa boa.—Tive assim um arrepio de frio. Outra vez vi o pequeno na minha frente. amigo. quiz me valer do encontro com o filho do Zé marinheiro. Ha de ser agouro. estava seguro pelos pulsos.

. o mal encarado! Com o cabo de poucos minutos. alua era clara como dia. Levei um tempãodesaccordado. os meus pulsos estavam desembaraçados : um grande calor me fervia o corpo . ouvi cascavel tocar seu chocalho... Comecei a tremer de frio. a lingua estava secca e dura que nem de papagaio. Com poucas eu estava no chão com o caboclo em cima de mim. eu ouvi um berro de estrondo. e elle sempre duro.... para cima: eu dava de cabeça na cara do bicho. abri os olhos devagarinho. .. commandados pelo endiabrado. porque outros berros se repetiram.. ah ! pensei que o malvado me deixava. mettia-lhe os pés na canella... meu S. catitú vinha batendo queixo. Lembrei-me de quanto boi valente deitei por terra. Mas foi peior. Toda a bicharia se agitava no matto e caminhava para nós. Avancei para o cabra com mais zanga do que quando me atraquei com o Antônio Pimenta. E os olhos se me fecharam como de morto.. Eu estava afadigado de tanta lucta. e agora alli zombado por um caturra ! Nós luctámos para baixo. uma-feita n'uma vaquejada. o suor me alagava a roupa. as arvores mesmo* se curvavam me abafando. os gaviões desciam. João.. os urubus cheiravam minha carniça. tudo parado. Depois tudo foi cahindo no socego.. sentindo os bichos me rodeando. tudo tinha desapparecido.104 CHANAAN garroteferroado.. e eu disse : — Vou morrer. gatos bravos miavam. um berro de onça. Eu senti um medo molle e abandonei as forças. Abri bem os olhos.

Voltei para traz. Mas tive então_um grande medo e tratei de abalar d'alli.ri bra.. — São horas. acolá.. E eu vi que n'aquella noite tive trabalho com currupira. eu trazia uma sede de jaboti. Era a voz de meu tio com o Formoso. « Dei por mim quando ouvi falar alto na porta.. Não tive con. foi para me bater a garrafa. Tive medo de novo encontro. cachaça e fumo. Mas não encontrei nada. dá.CHANAAN 105 e não vi mais nada... Para tu te veres livre. Joca. caçando minha garrafinha de restillo e as toras de fumo. Nada. o samba devia estar acceso aquella hora. muito longe. Levanta d'ahi. vinha como preto bêbado. cacei. nem o caboclo. Puz a excogitar que toda a pendenga que o caboclo me fez. sahi no campo esbarrando com o gado. cáe . cabeça com suas palavras : — Curjfupira te assom. todo o meu sangue batia para saltar de dentro."logo que o avistes. versa. mas lá vim assim mesmo navegando até á porta do rancho.. nem os bichos brabos. cacei.. . Quiz correr para a ramada da Maria Benedicta. atirei-me vestido na rede que com meu corpo sacudia como uma canoa no Boqueirão. Elles abriram a tramella e um clarão da madrugada alumiou o quarto. a bocca estava grossa. Leyantei-me de um pulo. cáe aqui. Passei a mão em-roda de mim. Velho tio Pereira me veiu á. Para espertar não ha melhor que um gole de canna e uma masca. os olhos me ardiam. . Olhei para a frente e a estrada ia acabar longe.

. do passado encheram-lhes a alma de sombras e saudades. a M r e c o l h e r ^ . meu corpo tremia dentro como si houvesse uma dansa de todos os meus ossos. Cada qual remontou por ins//. principio de somno chegava como urryf tyij. O velho segurou no punho da rede que estava balançando. Elle poz a mão em cima de mim e ed abri os olhos cheios de fogo. Depois da narração os colonos ficaram scisl! mando vagamente. resmungou zangado : — Eu não te disse? Apanhaste a maldita.' um f&j^4 repouso. Os outros levantaram-se bocejando — um •. tantes aos princípios da sua vida/i as recordações jl . E meu tio Pereira.$fy— *fl espreguiçaram-se satisfeitos. seduzidos pela idéa de '. Meu tio mandou o Formoso abrir a porta e a janella.100 . . Tive vexame de relatar ao velho que era assombração de currupira. ou como oity^ L/ dccetitod das mães d'agua. Ficou como dia. mas as forças não acudiam. 4 ' CHANAAN Quiz me erguer. sendo o primeiro a erguer-se do /' chão. Felicissimo achou que era tarde e os convidou '^J~ /Jj. Quem te mandou tomar banho cançado e aquella hora ? Não respondi. sem mais aquella. Do rio Doce e da floresta viIIIi \^m>^[idirn murmúrios W/fiflfop e os colonos em silen'" cio interpretavam esses sons da noite. cubiçosas do amor hu- .

. Outras vezes. fazia-o remontar aos quadros da sua vida passada no logar do nascimento. Nos dias claros. e não achava agasalho na cama fofa e tranquilla. extranha a seus olhos e sentimentos. tinha a garganta secca. o sol rubro '/**** ir^^ ' . Nem uma gotta d'água. o amor violerrto do sol trazia o vasto campo fendido e cortado em pifWf. vários e inconstantes. é Joca ainda se remexia inquieto.CHANAAN 107 mano. sem poder dormir. e então uma saudade o transportava para a longa planice onde vivera: Llldwa no verão o pasto todo morto. c horizonte se confunde com o céu. ou como ruidos das vagabundagens tenebrosas dos currupiras'errantes. A evocação da terra natal alli no meio da floresta do rio Doce. Era uma noite em claro que elle passava. sem nuvens. cuja mobilidade se transmittia á alma plástica dos homens ahi formados. os montes o apertavam. nuvens descem quasi a tocar a terra. No Espirito-Santo sentia-se Joca em terra alheia. passando como / uma serpente jjfâfjjlÜll o caminho feito pelo pé do homem ou pelo rasto do animal.. Já no dormitório os trabalhadores resonavam sobre os colchões estendidos no chão-. e sobre e$e. quando todos supplicam d chuva. por toda a parte a sec/cura e com ella a morte. sentia por vezes a pelle a arder. n'esses campos de Cajapió. os desfiladeiros o suffocavam de terror. sem um fio verde. / o deserto árido e triste.

era depois das primeiras chuvas sobre r o campo. movendo os ossos n'um ruido desencontrado e surdo. corroendo as cobras que se estendem lubricas e felizes ao sol.. A madrugada estava orvalhada. Manadas de gado se apresentam no horizonte. cando-as. levantando o pó tranquillo que.teveXum arrepio e um Ímpeto para se erguer » do colchão.na véspera) accordára depois de uma grande.estreitando o circulo visual7 tudo fó encenjfn'um espaço limiXadoJÍ o viajante caminha para ellas.. envolvendo-as.. E assim a mobilidade do céo amenisa a esterilidade fixa da terra. Nem umagotta d'agua para refrescar ao menos a vista. "•• CHANAAN 1/ t •f . E L • £> ' sempre a terra. as segue. fazendo evoluções como um exercito em campo aberto. como que surgindo subitas*do chão.ii das. sedentas. Varas de porcos vão fossando a terra. ^V / fõõúpo recordar-se d'essas emigrações de ani^ / maesi. \ fo**fò!o Jj y //. implacável. farejando o ar. as miragens se formam. suífo(fêl^. doir . dfó^se afastam inattingiveis.108 '% . '/} as tinge. perturbado 'i *ij no seu repouso. mas serena.. a visão da planície o perseguia.. onde se revolvia agitadamente. esquelético.. t a . /flyi/^^^cyclone. e elle se erguera de sua rede para vêr o tempo. Agora. De espaço a espaço passa um boi faminto. galopando loucamente. veloz e fdtyftf como uma ^eQlumna de fogo. passando n'um turbilhão como um .. Um grande tapete de verdura fresca e humida parecia A/v ÀAÀ*'^^ j U > .tormenta no fim do verão.. Uma manhã lá no Cajapió^Joca se lembrava como si fora.

o pasto agora era farto. e á tarde.. levantava o vôo acolá. buscava ainda mais longe a região dos eternos lagos. multi*'" ' ' does de peixes borbulhavam por encanto. perdiam na campina alegre.(JyLaproveitando a terra firme. de expansão e de vida.~No-itmdo dos lagos. ia/tr. a água porfiava em vencel-o. ^. e quando mais tarde o dilúvio se in. ligeiras elevações da planície. *----r:—7~*I ri r\ ' i ' P*1 JH %U ' ' d a s yirgingaygarças..^ . um bando de marrecas passava grasnando.inquieto e começa A . de rejuvenescimento. Os olhos se. Vinham/ V// pássaros de toda a parte : perrialtas com o seu bicqu-^ de colher. E em tudo o mesmo milagre dè resurreição. Já no meio do inverno a água quasi 7 .*». Massas chuvas continuam. %bt^ji vens cinzentas. èra o bando mar. a do inverno. jassanarís Ietfés~? V*r•''' * e tímidas. Aci / grupe/ brancé ..CHANAAN 109 ter descido do céo e coberto como um manto mysterioso o campo hontem mirrado. $$d$fâ na vasta savana verde p o n t o s / ' * claros que eram o refrigerio dos olhos. marrecas em algazarra.. a água serrupre—ccescente vae engolindo o campo. 5 . mas sem recuar. Eram os primeiros lagos. Em volta d'elles uma multidão cte aves aquáticas brincavam descuidosas e osten/ tavam as pennas de cores vivas e quentes. quando o céo se/Vestia de nu. Dias inteiros de chuvas. pousava aqui.. < / » i 4-. » u -*cial doa vermelho» guarás. ''4i4 nadando. • terrompia. o gado festejava o rebentar da vida na terra e comia a herva tenra.\*-/ ./ a outra emigração.. notava-se desfilar. Vão lentos e vagarosos. para os tesos. fai./w^mettidos n'agua.. caminhando para os refúgios.. -. o gadofsd mostr/.

e cujas louras nymphas eram as espumas das próprias águas.. largas. Milkau n'esse tempo scismava. creando phantasiás e mythos. Nas lendas allemãs Milkau via passar o Rheno. bruxas. penetrando no . vogando como pássaros.emquanto o somno JI o não arrebatava para o esquecimento. os novos deuses latinos. como um grande rio sagrado. Sobre elle repousam os grandes nenuphares.110 ã i". que foi o centro e o nervo do mundo germânico. e desfructado deliciosaas ír^rí/^^mente paizagens distinctas de cada espirito e os panoramas longínquos que foram os quadros da infância de cada povo gerador. um ou outro ponto apparece como ilha e n'ellas o gado está amontoado.i l/J l/r sé- . reflectindo-se o seu vulto espigado á flor silenciosa das águas. ^ . eÂstM que nascera nas águas do rio. todo cheio de encantamento. as múltiplas plantas aquáticas verdes. EU/iínha / /' J saboreado as lendas ouvidas aos tropeiros e md a-"^U7 P a r e c i / fluo tinh^ arregaçado o véo que cobria a / alma d'aquelles homens. cavalleiros andantes e castellos. Em um grande lago manso transformou-se aquillo que fora mezes antes o deserto ardente e fero. Todo o idealismo da raça estava alli. mantinha-se inalterável. yítújíia os quadros recuados no tempo e os quadros novos da epocha medieval.. A vida mudara : descançava na cocheira o cavallo e Joca sonhava-se a empurrar a canoa.' ^g*" I CHANAAN apagou o campo.

de desvendar ^f^^Cvy^ nas cellulas cerebraes as remotas sensações vitaes f****"^ dos povos e que possuir a intuição para distin^ZJrs-fT guir na intelligencia de um homem a dosagem /*~r *p?+ perfeita do extranho precipitado da treva com a y/u * j pureza. #-— vinga-se e beneficia.T^-^A tos difíerentes dos homens./ ( / c ^ ^ ' mecendOi feliz e socegado n'aquella bemfazeja 'J y /u*** ***** XZ">£&"*~ .. as siras santas eram aquellas mesmas fadas do Rheno e os santos os velhos deuses sombrios e batalhadores. do ódio ingenito de uma raça com o amor /. não só da historia ou da socie.. Na lenda do cur/upira outro ti mundo se descortinava. trapi^ortaf-se em mil figuras/'***'*'^^ em creança maligna.*4ly->nhecer as origens. que sacode do torpor tropical as feras ou que protege a natureza. conforme a astucia ou *£-—** a força o exigem.f^T*?'*' " dade. que é a sua encarnaçãoprefe/p ' rida. pensava Milkau.*-*CHANAÀÍiy 111 seu espiritcffici tranoformaraim em divindades barbaras.os desejos. que era toda a alma do tro/Q peiro maranhense. e -tr-r~i*<? cada um traduzia os instinctos.. d/jbfiÚfp1 de outra. Milkau sentia n'aquellas legen. seu perpetuo inimigo. Mundo encantado e *u~<u^«mysterioso. será aquelle que co.f>&* d******." ^ ^ r das o encontro dos vários aspectos dos feitiços... mas de uma alma isolada.. esse das almas dos povos ! O verdadeiro *• J V^C~ philosopho. os habi. em animal ou vegetal.+az. E Milkau ia lentamente a d o r . /^~ as forças eternas da natureza que assombram e cujo symbolo era essa divindade errante que anima as arvores. aquelle que tiver fr^^tír' o segredo de ponderar os espíritos. Alli estavam a matta tenebrosa. intimidando o homem. Ella espanta.

seja um perpetuo deslumbramento de liberdade e de amor. As visões accumu/ ^ ladas nos últimos dias de travessia da matta per/ de s i s t i a m em toda a sua força. que seria a incógnita feliz do amor de todas as outras. ora.miLavan/ deliciosamente até á sua alma. onde a vida fácil. sentia-se passar pela sombra humida da floresta cuja exuberância e vida se /.v t* 'Lentz dá esforçava""por dormir ej(jl debatia/inutilmente para afastar os tumultuosos pensamentos que lhe galopavam na cabeça. que repovoaria o mundo e sobre a qual se fundaria a cidade aberta e universal. vi era o rio immenso. a escravidão se não conheça. Um desdém pelo mulato. e o que era scisma da vigília se ia pouco a pouco transformando no puro sonho em que elle entrevia n'um horizonte illuminado. . no meio de homens primitivos. surgindo docemente. no seio de uma nova terra suave e forte. impeliido por uma força d'esse poder mysterioso que animava as moléculas mais intimas de todo aquelle mundo novo.112 / CHANAAN noite tropical. onde a luz se não apague. pujante que corria para elle. risonha. ora. em que elle expri- i. E Lentz sorria com orgulho na perspectiva da victoria e do domínio de sua raça. . perfumada. E Lentz via por toda a parte •sj^~ o homem branco apossando-se resolutamente da terra e expulsando definitivamente o homem moreno que alli se gerara. Ora. uma nova raça. sentia-se esbraseado com o sol que inflammava ffijjjbféÀfy e lhe queimava o sangue.

e senhores.. vift não em pequenas invasões humildes de OfuLíAii^ 'escravos e traficantes. Elle percebia no seu cérebro exaltado que os allemães íam.. Era tudo um recapitular da antiga Germania. Mas no sonho de Lentz. elles os eliminariam com o ferro e com o fogo.. uma massa immensa e preta marchava no céo qual uma nuvem conductora. sobre os exércitos que caminhavam. sobre as náos que velejavam. fundariam um novo império.~ "" nariam como uma vassalla... elles se espalhariam pelo conti. e eternos repousariam para sempre na alegria da luz. fé xevigoxa>iJÍ erf&m. não para mendigar a proprie. ^ recreio do mulato. pela fatuidade e fragilidade d'este.CHANAAN l 113 mia o seu desprezo pela languidez. Tddo **-/ Jelle era agora um sonho de grandeza e triumpho. turvou-lhe a visão radiosa que a natureza do paiz lhe imprimira no espirito. ~r yMJjtí dixiam n'uma anciã de posse e de domínio.. eternamente na força da natureza que domi. A Aquellas terras feriam o lar dos batalhadores f/r*'""' eteAos. ffly&yixiam'' y>^l agora em grandes massas. matando os homens lascivos e loucos que . . >aporca^ i m m e n s ^ « ^ m ^ / e numerosas os desembarcariam em tõdo~ o paiz. alli se fi^j^aram e macularam com suas torpezas //c*r* a terra formosa. e poderosos. em cohortes infinitas.. aquellas florestas seriam consagradas aos cultos temerosos das virgens ferozes e louras. e depois se transformava n'uma figura extranha e agigantada. não para lavrar a terra para . e ricos..<^ nente .. Ay/^ com sua áspera virgindade de bárbaros./tf'4/ dade defendida pelos soldados negros.

Então (LentZN^yhj) pairar sobre a terra do Brasil a águia negra da Germania. envolvendo as terras e os homens c o m u m a força invencível e magnética. ...111 CHANAAN cujos olhos penetrantes desciam do alto.

e agora quasi submersos tingiam n'uma orla verde o cinzento pérola do rio. estremecendo n"um leve arrepio a humida superfície. Milkau e Lentz muito cedo estavam admirando o logar. sobre cujo dorso luzidio e dormente a brisa perpassava volátil. No seu passeio approximaram-se do rio Doce. e a tímida linha de . Era a única quebra da immobilidade. As grandes chuvas dos dias anteriores tinham enchido fartamente o rio. A cheia domina toda a paizagem. que. depois de se fatigar em curvas de réptil por entre os brandos contornos da terra maravilhosa do Espirito-Santo. crivada de clareiras. A omnipotente amplidão das águas $ engoliu as margens. devorou a vegetação das praias. alli se desdobrava a perder de vista. ^ Idas arvores cujos galhos outr'ora pendidos como * /chorões simulavam sorver a água. avassallando com singular grandeza o perfil da matta.IV Na manhã seguinte.

jfonydMljto dia. Emanadas das águas. nevoas densas apagam por instantes o sol./ "reza humana é feita para o goso. e o panorama que se apresenta não é o constante dia de sol pleno. sensação extranha e bVils?^.ÊOL. indistincta. Parece-me que attingimos uma região aonde não chegam os gemidos humanos. Milkau e Lentz sentiram n'aqueíla 'M.. porém. E que a felicidade é o esquecimento e a esperança. Abre-se uma trégua para o eterno conflicto da luz e dos tons. e a dôr. dizia Milkau emquanto andavam. suspensas sob o céo. e como um só minuto de descanço não nos dá a illusão da eterna calma! — E que nós somos victimas dos divertimen- . o espaço e j^/í$54átí|0r íião é a larga e quente paizagem monótona. risonha e amável. E hoje me sinto feliz como jamais pensei que o seria. „ cerração o delicioso momento da resurreição das cores esplendidas e n'estas voluptuosamente repastavam o faminto appetite da vista. inundando de um só fff <w*4w&Ç°lorido.. onde o crepúsculo é um sonho fugaz e a noite cáe como uma cortina negra que iechaftjfâkl^ V ^ r ü X .. como esta tranquillidade..110 CHANAAN montanhas ao longe. ]$(/%$$/ a natu/. a sombra cobre a terra e faz a côr. aqui não ha um signal de soffrimento. tudo é Wy vida fácil. não estão em nós para afastar a dôr . Quantos elementos. — Não ha nada... para formar o quadro da vida. o espalha como um tufão... com que facilidade não a esquecemos. fulvo amarello. por isso mesmo o prazer lhe é mais inherente e imperceptível.^^.

saltando pelos séculos de humilhação. e a vida nova se abra-para nós como um sonho realisado.. que percebe as suas leis. se apodera de nós e nos arrebata para o futuro. n"este grande scenario. o prazer mais do que o soffrimento. as suas fatalidades e nos obriga a tomar o caminho mais seguro para a harmonia geral. E tu emprestas n/ á natureza uma consciência que ^kM. tu sabes.èl/ti^ Ella J^yc^não existe como entidade. distinguindo-se pela vontade. aqui situados n'este mundo.. para martyrisar-nos ao seu sabor. já que não podemos apagal-as de todo. que.CHANAAN 117 tos da natureza. disse Milkau a sorrir.. está exactamente nessa consciência que é nossa. venha renascer aqui. E hoje. que por esses pérfidos e doces venenos cujos segredos ella possue.. dominadora. Muitas vezes tinham de abandonar 7. e n'ella viverei para vêr reconstruída a cidade antiga. — A esperança. Adormeçamos as tristezas do nosso passado. temos de tirar o verdadeiro sentido da nossa excepcional situação. .. — E eu também vejo aqui a terra immaculada com as suas grandes energias de felicidade. A nossa superioridade sobre ella. que começa ainda virgem de sacrifícios.. nos acorrenta á vida. — Mas a vida é mais natural do que a morte. forte. Não é verdade que somos felizes ? Pela linha da praia que a enchente tornava apen as uma vereda Comendo o mattoJEóntinuavam elles o passeio.

amanhã será a preza do homem. e pelas minhas próprias mãos.. devemos escolher o local para a nossa casa.' venda. que no nosso caso é o agrimensor Felicissimo. sem '. como que alargando o espirito n u m conforto amplo e bemfazejo. K ^ — Çtyahkjfld mim. desdenhou Lentz. O que é lamentável n esta solemnidade primitiva é a intervenção inútil do Estado. de pedra em pedra.118 CHANAAN o caminho e cortar pelas picadas.. — Não seria muito mais perfeito que a terra e v J 0 suas fqJfH fossem propriedade de todos. uma ligeira inquietação de vago terror se mistura ao prazer extraordinário de recomeçar a vida pela fundação do domicilio. O que está hoje fora do domínio. Não acreditas que o próprio ar que escapa . a ambição. outras passavam aos pulos. É antes a venaiidade de tudo. — Oh! não haverá difficuldade. n'«ste deserto. de talhar o nosso pequeno lote. — O Estado. sem posse? i>> n. dentro da vegetação . replicou Milkau. porque a vastidão das águas.. eliminava o enfado... E riam com essa gymnastica. — Hoje. a sua opulencia.#M*i — o que eu vejo é o contrario d'isto. Por longo espaço o panorama era immutavel. abandonados á sensação agradável da fresca manhã e á volúpia das illusões. disse Milkau quando chegaram a um trecho desembaraçado da praia... que chama a ambição e espraia o instincto da posse. mas o que havia de monótono não fatigava..

... ponderou Lentz. dos museus.. . não o ampliarei. desejarei ir alargando o meu terreno. idéa de converter-me em colono. n'uma grande anciã de acquisição popular. explicou Milkau. sinto um perfeito encantamentqjjião é só a natureza que me seduz a q u L ^ u e m e festeja) é também a suave "contemplação do homem'. O sentimento da posse morrerá com a desnecessidade. se estenderá a tudo ?. — O meu quinhão de terra. não me abandonarei á ambição. . que signifique fortuna e domínio. será vendido... si me fixar na ' dt<. — Pois eu. Porque só pela riqueza ou pela força nos emanciparemos da servidão. Todos mostram a sua doçura intima estampada na calma das linhas do rosto. nas cidades suspensas. como é hoje a terra? Não será uma nova fôrma da expansão da conquista e da propriedade ? * — Ou melhor. • que n'elle tinh* f /*> jfflfâ/f #jL5fc-. chamar a mim outros trabalhadores e fundar um novo núcleo. que se vae alastrando e que um dia. Ha em todos uma resignação amorosa. com a suppressão da idéa da defesa pessoal. será o mesmo que hoje receber. não vês a propriedade se tornar cada dia mais collectiva. Desde que chegámos. ha como um longínquo afastamento da cólera e do ódio.. dos palácios. das estradas. depois de se apossar dos jardins. ficarei sempre alegremente reduzido á situação de um homem humilde entre gente simples. mais tarde. Os naturaes da terra são expan- .CHANAAN 119 á nossa posse..

não haverá conflictos de orgulho e ambição. pois havia um s / . —. que vinha quasi a correr. Ha-de haver uma grande união entre todos. vou procural-os para um dedo de prosa. de olvido e de paz. estão tranquillos e amáveis.. não se immolarão victimas aos preconceitos abandonados na estrada do exilio. — Pregaram-me uma peça. corno si despertassem.. que se atirava a elle n'um gesto festivo e bondoso..120 CHANAAN si vos e alviçareiros da felicidade de que nos parecem os portadores.que éo feliz gênio da sua raça. e viram a cara triangular e interrogativa do agrimensor.. esqueceram as suas amarguras. Tivemos pena de accordal-o. e os meus amigos já tinham azulado. para só pensarmos nos outros e não perturbarmos a serenidade d'esta vida.. visto-me n'um pulo. o próprio chefe troca no lar o seu prestigio pela espontaneidade niveladora. No encalço d'elles uma voz clamava. Vendo-os. agarrando com enthusiasmo as duas mãos de Felicissimo. Accordo. Todos se purificarão e nós também nos devemos esquecer de nós mesmos e dos nossos járxjinzo^. — Bom dia.. Os que vieram de longe.. eu adivinho o que é todo este paiz— um ninho de bondade. tirando-os da divagação : — Mas então que fugida foi essa ? Para onde se botam ? ^ Voltaram-se.. disse Mirkau. não ha grandes separações. a justiça será perfeita .

— Pois eu.. Porque não aproveitamos para ver^seso lote de que hontem lhes falei ? — De que lado fica ? perguntou Milkau. E ' -^tu o sol que se desprendia das" nu vens. /srK<™ZC . disse Leritz. Felicissimo frimnn i fn ntr. farOvxA*' — Estão cançados ? gritou Felicissimo. insistiu o agrimensor.menos. distrahidos.. o' «• rio chammejava em ouro. transformava com violência'. caminhando um a um na estreita beirada.CHANAAN 121 grande silencio na casa quando sahimos.//</«•*vista. nem nada. melhor desistirmos fi &jfH e aproveitarmos o tempo para um passeio uj ^ mais longo ? — Seja. E nem tomaram café..o //ddjiéado quadro da manhã M/pe^. A conversa ia-se vàidndo em vozes altas. olhando rapidamente para os lados. — Não acha. um kilometro.. E Felicissimo. E. mais ao . viemos até aqui. andemos um pouco. seguia impre. — Aqui mesmo n'esta direcção.. como si fosse toda a <Z//. >' ' Crot_ correndo sobre a Terra. concluía orientado : — Aqui devemos estar no lote vinte. puz-me á caça de vocês. grande e incandescente massa do sol derretida. 'muiiln pi In i nnurnr. semiequencia. nevoenta. aos saltos e trambolhões. Voltaremos ao barracão á hora do almoço. e eu lhes mostrarei o numero dez. farejei aqui e acolá. e fui bem feliz em ter virado para esta banda. Inundado pjflffl/táfytóffl de amarèllo..

.hJjo C/ gritar nara traz. e uma lambada forte e farfalhante batia no.G4fi. Lentz que o seguia. Oh ! diabo! O agrimensor n"um falso movimento metteu o pé n'agua.rosto ou no corpo do vizinho. pensava elle. largava-o. E assim foram até que. — Tudo aqui será uma grande difficuldade. tudo ia bem. Felicissimo enveredou por este. tudo é agreste e selvagem. á direita. não ha a menor sombra de conforto. de instante em instante : C á direita ! Agüenta! — Com a mão À/jfJjffl/ ° ramo.*/ Xí^jtz**n. — É por causa do caminho. Lentz. suspirava bocejando. Agora cortemos por aqui. si tivéssemos vindo por cima.12-2 CHANAAN — Que juizo faz de nós ? perguntou Lentz. Algumas vezes tinham de se abaixar para se desviarem dos iii. não ha estradas. — Arre! Que brincadeira! Nunca pensei que o rio estivesse tão cheio. e virou-se para os immigrantes. evitando os tropeços e as poças d'agua. O agrimensor divertia-séem yí-aLÍ- /. saltando ligeiro para deante."" UiYfA. que vamos srahir mesmo dentro do lote. tomando um largo fôlego. Passando para a ligeira sombra do matto e caminhando pela picada. que não era muito batida nem destocada.ffbos com a mão. porque realmente tomámos pelo peior. As vezes era precipitado.. Não é melhor . e quando via este ^ ^ á ^ í l p e l o companheiro. calado. iam vagarosamente. — Cuidado ! implorava este a sorrir. recommendou-lhe cautela. em frente a um atalho.// j J\^_ . galhos e dos arbustos. outras era preciso djÁ n 6Q.

— O h ! descança. — E pena que a estrada não seja melhor para gosarmos desembaraçados este passeio.. cortou o agrimensor.. sabe. que nos recompense. onde o caminho já esteja aberto e tudo aparelhado pelos / / outros? Realmente. e me enterre ahi n'um armazém de commercio. que havemos de abrir caminhos por tudo isto. levantaremos uma habitação risonha. .CHANAAN 123 que eu desista de fazer esta vida de colono. limitam-se á sua casa. ao penetrarem mais e mais no matto espesso. que loucura dfffax-me n ' e s t a / ^ ^ . os colonos não querem fazer nada. e. respondeu o outro quasi timido.. que lhes dê estradas.. que lhe sorria como um bemaventurado. prepararemos o terreno.^ campanha contra a natureza inculta! Não é pxe-' LL&Á/ ferivel toda e qualquer outra vida a esta ? Não é?. receioso de deixar transparecer o seu desalento. Em geral. — Que delicioso deserto! dizia-lhe este. E que não se faça! Lá vae uma queixa por intermédio do Roberto ou de qualquer outro figurão ao governador. limparemos as estradas. a política se mette no meio. e matando a solidão. disse complacente Milkau. e nós estamos a levar carões todos os dias. — Imagino que o senhor deve ter muitos aborre cimentos. E os seus olhos descançaram em Milkau. ao seu terreno e esperam que o governo se mexa. Não é verdade ? — Aqui não falta em que trabalhar... pontes e tudo mais.

o inspector não se importou com o que disse o pessoal../ ' CHANAAN — Não faltam amofinações. e é preciso fazer a ponte de novo.l-2'i //. mandando o engenheiro informar a respeito fájj&ffl representação dos colonos sobre uma ponte que está com o madeiramento estragado. ao engenheiro. Isto leva ainda um rôr de tempo.. inspector e toda essa recua. que são matreiros. o páo vae apodrecendo dia a dia. que por sua vez o mandou para cá. Botam uma pinguela de lado a lado e vão vivendo. será muito pouco. foram á fonte limpa. tenho um officio do inspector... que mandou para a Victoria. a fim de fazer o orçamento das obras. o governador se assanhou logo.estou me ninando para o governo. — Ora. nós pedimos verba e. Immediatamente depois. e . porque o tempo não descança. muito simples. os colonos porém. si a ponte cahir? perguntou inquieto Milkau. Sou um seu creado. Creio mesmo que já cahiram uns páos . Agora mesmo. elle tinha esquecido tudo e voltava á sua jovialidade. Lá vem outra vez segundo barulho. mandou o papel ao inspector. — E n'este tempo que recurso têm os moradores. como de costume. A zanga do agrimensor era d'essas que passam á medida que é espraiada n u m desabafo de linguagem. e Roberto arranjou com elles um « nós abaixo assignados »... E a minha vingança é que quando vier o dinheiro.. Andaram mais um pouco pela picada e sahiram vertical- . com medo das eleições..

porém. concordou Milkau. andando mais uns passos pela nova estrada. . / . Felicissimo. Vocês. É preciso um pouco de trabalho. e elles acabam isto n'um abrir e fechar de olhos. a quem uma onda de illusão sacudia o torpor da instantânea cobardia.X / / mentos./v b r a j f ^ / e calida. impacientou-se por uma resposta. o que não é nada. disse ' Felicissimo.. em cujo espirito trefego e intempestivo o silencio não tinha abrigo. — Estou por tudo./ . / ^ T ^ 9 í Ficaram mudos e como ligeiramente apavora^ dos pelo recolhimento das coisas e como si uma sensação de isolamento.CHANAAN 125 mente a' um caminho mais largo e mais limpo. com as arvores crescidas e todo tapado pela vegetação. e ? dissimulando a divagação dós seWoutros pensa. Não viam nada de lado a lado : a vereda fora aberta em plena matta e tudo era encerrado n'uma som.. vejam que terra cada páo de respeito. que era forte e traduzia a fertilidade do solo. Depois do roçado. disse Lentz arrastado. Os outros olharam um mattagal cinzento.. a difficuldade está na limpa. fazem um arranjo com a turma. de separação do mundo os mortificasse por instantes.. accrescentando : — Este lote é muito bom. Oh ! Ha de ser um gosto ! — Aqui estamos bem.. não nego. j&W*' — Está aqui o lote que lhes recommendo..

126 CHANAAN E apoiou-se negligentemente a uma sucopira.\>í. como succede com os vegetaes. atacando aTerra. levado pelo mesmo sentimento. preferiria um lote onde não fosse preciso esse sacrifício. E depois. E Milkau disse com a calma da resignação : — Comprehendo bem que é ainda a nossa contingência essa necessidade de ferir a Terra. — Faz pena. e então dispensará para subsistir o sa«/crificio dos animaes e das d/fyff. — 0 homem.íw+***- l—J .. por mim. Nós a eliminariamos.... de arrancar do seu seio pela força e pela violência a nossa alimentação. ha de sempre destruir a vida para crear a vida.offendo a fonte da nossa própria vida.. respondeu Felicissimo. notou Lentz a sorrir com ar de triumpho. Sinto dolorosamente que. disse compassivo. para nos expandirmos. adaptando-se ao meio cósmico por uma extraordinária longevidade da espécie. acudiu Milkau. — Não ha nenhum. mas virá o dia em que o homem. O agrimensor olhou a arvore. que alma tem esta arvore ? E que tivesse. e firo menos o que ha de material n'ella do que o seu prestigio religioso e immortal na alma fiumana.. CVi^A^y^ rto> t*+.Por ora nos conformaremos com este momento de transição. — Eu. botar tudo isto abaixo. Emquanto os outros se batiam em ^ptAtevrad. receberá a força orgânica da sua própria e pacifica harmonia com o ambiente.

á beira da estrada. Vien-Z^AM. Na estrada </4<r/ " ? ^" falavam alto. tro da matta penetrava o vento da manhã e nas y \ .os troncos. dadas ás victimas no momento do sacrifício. mirava as velhas arvores. levantando um V* murmúrio baixo. são horas do almoço. E agora toquemos para o barracão. como as queixas surdas dos mo-1—«t^^i^j-A^ ribundos. E hoje mesmo voltaremos com os homens para a medição. alvoroçados com os vários sentimentos que os trabalhavam.. — Sem duvida : é só desbastar o matto. no seu amor ingênuo á natureza. — Fazem muito bem. — E vê-se bem o rio ? indagou Lentz. *Z. *<^* A^~ * t~ sy**w/y y .1++& Os immigrantes concordaram de bom grado em j ^ . que se escoava de ^rtodas as arvores. e. que decidem ? perguntou aos outros o *<*?' / / agrimensor. além disto. que jv*. estabelecendo terreno indicado.. — Será uma delicia uma casinha n'este bello logar. humilde. espantando os pássaros dormentes e c ^ J^ \ sacudindo do voluptuoso lethargo os calangos.. ^ A aw— Então. é muita commoda aqui. e com a mão meiga lhesjfestejava . Puzeram-se a caminho. como /s u l t i m / s $ 0 f ô « . commentou Milkau n'uma irradiação de intimo bem estar. — Hão de ver..CHANAAN 127 Felicíssimo. porque esta situação é admirável para o café. folhas passava brandamente. ahi está á vista o estirão d'agua.

que de facto é o senhor absoluto d'esses bens públicos. e foi esta a única formalidade para a entrega do prazo. Os trabalhadores já rodeiavam a mesa prepa- ^ 1 ^ ^ ^ . pensava Milkau.se concentra nas mãos reduzidas de um humilde agrimensor. e ahi. continuando nos mesmos elogios. n'uma musica de chocalho. com f l^t/iS™^'/ ás suas repartições publica/. o agrimensor mostrou-lhes a posição do prazo *« A. toda a complicada engrenagem do Estado. em frente ao grande mappa dos terre[ nos. Felicissimo punha e dispunha das terras a distribuir. marcou o lote com uma cruz. foram logo para o escriptorio. os seus innumeros funccionarios. As folhas dos requerimentos eram formulas impressas. molhando úma penna em tinta &JU*^ encarnada. disse Felicissimo passando a mão espreguiçada no hombro de Lentz. — Vamos á boia. E eis como. Este furtou instinctivamente o corpo como para não ser esmagado pelo gesto da intimidade. á semelhança dos outros que já tinham sido concedidos. pois ainda não puzeram nada no alforge. Chegados ao barracão. Isto feito. que já vae ficando tarde e vocês devem estar dando horas. pagaram as custas da medição e da planta. graças á condescendência do chefe. afinal. ^ V &i&&*y&€sr+y • fu*~ **' .12S CHANAAN se escapuliam pelas folhas seccas. e em uma d'ellas Milkau teve de encher i com as indicações especiaesde identidade os pontos em claro. ao mesmo tempo. os dois companheiros entregaram a petição assignada. e. pois.escolhido.

Para o fim. e os homens rindo disputavam entre si a precedência. A refeição a principio correu ruidosa : todos estavam expansivos pela fome e pelo começo da familiaridade. e por mais queluctasse para disfarçar. Felicissimo passou a entristecer. Por vezes. gritou Felicissimo. retiraram-se do barracão. quando os outros entraram na sala. uma súbita preoccupação_£8 apossoü^aelle. bufando. no caminho. E á voz de commando a alma obediente dos homens serenou e todos em ordem terminaram a ablução. Uma alegre algazarra se formou. que refreiava a expansão. esfregando depois as caras com estrepito. cada qual esmurrava o companheiro. Felicissimo com os novos colonos ia atraz. O boccal do barril era pequeno para tanta gente. Depois armaram-se com os instrumentos e ferramentas e puzeram-se em marcha na frente. Mal acabou o almoço. arrastava-o no meio de amáveis insultos. d'onde o semblante do chefe carregado de sombras os expellia mais depressa. habituados a essa afflicção intima do agrimensor. e que era o prenuncio das medições dos leites. mas alvar e gostosamente. não poude resistir e cahiu n u m a scisma profunda. os homens da turma. em que mergulharam as mãos.CHANAAN 129 rada pobremente para o almoço. Milkau cortezmente procurou con- . No terreiro cercaram um barril d'agua. Isto espalhava na mesa uma leve melancolia. rindo sem saber de que. — Vamos! aviem-se.

/ W "& 11 *V*-. toISÜS?" 1 0 " P o s i Ç a o c o m ° s e u fftffflífofri e ordenou a três trabalhadores que seguissem pela frente da G*) f—J estrada com ds marcoo. que. abrasados pelo calor do sol.+ h* .jb í **** / %2tl ' ÓZs-c frjb* y*^~ ^T^ JÇ^ o*». Todos pararam mecanicamente.130 CHANAAN versar com o agrimensor. Pediu J|KM cavalloto om fôrma de t r / que um homem lhe apresentou rápido. . / Os trabalhadores começaram a desatrelar os instrumentos e os seus apetrechos accessorios. Depois de algum tempo. soturno. mal respondendo ás perguntas. que mesmo no matto coberto era abafadiço. se mettia comsigo.' o t r V A ^ • ~~ *-***: . depois de andarem bastante. que recebeu em suas mãos com febril anciedade. Hoje fazemos U >. e foi com certa sofreguidão que viu abrir-se uma caixa e d'ella ^ r e t i r a r um instrumento. yfc-*» *** % »* f ^ * < 1 * 9 y%. O X agrimensor os acompanhava com uma compenetração religiosa. quo sram^balisas pintadas / / / em zona. Havia uma calma grave em todos. ruminando os seus pensamentos. Então seguiam em silencio. e o moço cearense entregava-se á sua tarefa com extrema attenção. Houve um momento. E virando-se para Milkau e Lentz.? brancas e encarnadas. Isto é v theodolito. em que Felicissimo deu voz de alta. disse com solemnidade : — Não sei si os senhores conhecem. Estupenda invenção! Dispensa grande trabalho para levantar as plantas. ^ „ S í£. / medições emquanto o diabo esfrega r/olho por- / Q. e re aquelle passou o agrimensor a atarrachar o instrumento. — E aqui que temos de abrir o rumo.

CHANAAN lál que.. que conheciam esse momento terrível do theodolito.7 ainda mais solemne e entregou-se todo ao instrumento. O tempo ia correndo. e para Felicissimo. sempre com insuccesso. parecia interminável. E só n'elle/ Felicissimo se transformava. erguiase para espiar por cima. Já o tomava a angustia de não acertar. abaixava-se. voltava a rectificar as lentes. como sabem. ^ para quem dkjí preparava a scena da sabedoria. torcendo-as ora de mais. espiava outra vez e sempre o mesmo resultado negativo. no chão os pés queimavam. tornava a ageital-o. Grande invento! Sem elle não sei como me arranjaria! Os novos colonos conheceram pasmos um novo Felicissimoiy não sorriram. . O agrimensor calou-se ^nrt*«*«. atado em sua angustia. sem resolver-se a medição.. ora abandonava o apparelho e ia miral-o de longe. E a afflicção do agrimensor n'aquelle dia redobrava á vista de Milkau e Lentz.. f//~r O sol esquentava. mirava na objectiva. mas ora teimava em seus movimentos. Cada um o temia e instinctivamente se ia afastando do apparelho perturbador. é a combinação do nivel e da altura: toma-se um angulo horizontal e um angulo vertical ao mesmo tempo. ora de menos. Em roda faziam um timido silencio os trabalhadores. um suor frio e extenuante alagava o agrimensor. com medo de algum desabafo. Elle tem hoje o . Voltava ao instrumento. — Ah! disse aos hospedes. a ponto de insultar e espancar os seus homens..

. Hoje está muito quente. e agora definhava no desespero de conseguir qualquer observação.. evitando maiores conseqüências da cólera do chefe.. mas a anciã e a vergonha do insuccesso não davam forças á sua ira.. e em casa mais á vontade o desarma para vêr. Felicissimo arremessou-se ao primeiro : — Oh! seu ordinário. 'cww E c o a v a raivoso o grupo dos trabalhadores. Mas para não perdermos tempo. enfraqueciam-no. Uma grande tristeza se apoderou d'elle. Com certeza foi quebrado por algum d'esses miseráveis. quem sabe? O theodolito pôde estar quebrado. Deixe para amanhã com a fresca.132 CHANAAN diabo no corpo: não consigo vêr nada. tínhamos andado antes. eu logo vi que era você que não me deixava pôr em ordem o theodolito. Ao contrario. Milkau com pena. E. é melhor. afastando o páo da linha. Felicissimo ficou colérico. disse-lhe : — E melhor deixarmos isto para amanhã.^ O homem «e desculpo u-f dizendo que arreiára o marco quando o chefe já não estava no apparelho.. depois. si . murcho. Almoçámos bem. que agradeciam com os olhos a presença dos novos. tornavam-no gago. Voltou ao instrumento. Com certeza ha alguma coisa ahi dentro. N'este tempo os homens das balisas estavam fatigados e começavam negligentes a oscillar os marcos. — Sim. o senhor está fatigado.

Faltava.. alteando a voz. lhe alterava o caracter. não ha remédio.. Elles sabiam bem que o agrimensor. abrir o s . disfarçou.. E como o agrimensor se approximasse d'elles. ordenou Felicissimo a um homem. A medida que o theodolito ia desapparecendo na caixa. o apparelho está quebrado. apontando desdenhoso para o instrumento. desinteressado do theodolito. Os trabalhadores ráj&taa^fcss todos com ar in. o allemão parou. em mais de duzentas medições. e o seu jovial humor o retomava francamente. o punha fora de si e era causa d'esse terror cujos prenuncios lhe sombreavam o espirito desde o fim do almoço. As medidas foram tomadas na fachada da frente do terreno e nos fundos dentro da matta: postes fincados nos quatro ângulos assignalavam o lote adquirido pelos dois immigrantes. não conseguira trabalhar com o maldito instrumento. — Guarde isto. apagando os traços da agonia scientifica. E um systema atrazado e de que não gosto. — Estes mulatos. s .CHANAAN 133 fizéssemos a medição com a fita?. — Com certeza.tf1/ telligente.. um pouco sarcástico : — Vamos á fita! A medição fez-se como sempre. porém. a alma de Felicissimo se ia libertando da angustia. dizia em aparte Lentz a Milkau. mas emfim. Cumpria-se a velha e costumada comedia do theodolito. que sobre elle exercia uma influencia satânica.

O ferro não descançava nos braços sempre em movimento. uma fúria hysterica de destruição. e derrubadores em grupo combatiam ao mesmo tempo uma pobre arvore. si este não sahir de accordo com a planta. O machado cantava com energia no âmago dos troncos. e Milkau *» entendeu^com os homens. O agrimensor bondoso e serviçal acquiesceu. Momentos depois. O rumo ia sahindo acanhado e torto. para cortar. Nós tomamos a responsabilidade de abrir novo rumo. disse Milkau. O cearense objectou que a planta não estava tirada. os homens como que despertaram da sua instinctiva preguiça e estimulados á vista dos extranhos se atiraram duramente á derrubada. ainda receiosos de ^ yJMp^x/n^r ú^J trabalho. Havia uma raiva.L1-Í "rrvotfáy CHANAAN rumo que separasse de lado a lado este quinhão de terra. os pequenos arbustos. Mas quando miraram o serviço feito. a principio « W iam escolhendo. Milkau dirigiu-se a Felicissimo e perguntou-lhe si podia contractar com os homens esse serviço para aquella hora mesma. ladeando quando se encontravam com uma arvore mais robusta. Ouvia-se cahir o machadodes- . e em pouco tempo estavam completamente alheios a tudo e entregues á sua vertigem malvada. n'um compasso vagaroso. — Não seja essa a duvida. dos outros. os marcos estão collocados e o rumo irá sendo aberto com as balisas e medidas rigorosas.. os trabalhadores estavam a derrubar o matto.

o golpe era tirado bem do chão. Em outros momentos j . Joca fora o primeiro a soltar a voz. A pequena fadiga fazia bem aos seus membros hercúleos. Os allemães instinctivamente o imitaram e cada um em sua própria lingua cantava versos bebidos na fonte natal. cravando mecanicamente o machado nas arvores. casa onde morei! Já que é forçoso partir. tudo o que mais amava com as intimas. e das / / / ? boccas rudes deixavam sahir os velhos cantos amados. agora. agora harmônicos e regulares. campo. energias do seu ser humano. Adeus. E elle o cantava sem attender a ninguém. e a alegria' se lhes espraiava nos rostos congestos. e adeus.distrahiam-se. Iam para adeante. matto. redobravam de ardor. habituados ao exercício. o suor lhes escorria. o drama da sua vida esse abandono da terra natal. Era o grande acontecimento. O mulato maranhense dizia as saudades do seu coração. E cantava n'um tom que era um longo soluço : ///óCLeal-i ^J r //J7 u 4k Adeus. e no impulso furibundo o ferro penetrava tanto que. serenavam. Quando estes encontravam um páo mais duro.CHANAAN 135 locando o ar e arrancando um ronco forte dos robustos peitos dos devastadores. Algum dia te verei. Não mais roncavam com a anciã dos primeiros movimentos. paxá J(éffifá0$\° homem tinha de fazer um esforço desesperado.

. Perpassava na cadência e no pensarríento da estrophe o frêmito da lux-uria meiga e jj-----^ .«(\ / -Miifetba-iJStavia uns diasjno alojamento dos immigrantes. » (os velhos allemães bebem mais um.' qju /cantigas. e dos seus labi<*§ inconscientes sahiam versqp de outro caracter : Vi o teu rasto na areia E puz-me a considerar : Que encantos não tem teu corpo. Teu rasto faz chorar. Os echos recolhiam as rimas singulares das duas raças. e por um momento alli mesmo.. — . noch ein. fií . mais um).. Si o teu rasto faz chorar! Jb e***rüjj'*''N'esta imagem tão ijina-e-tã-e---mpEtior de um sentimento animal.. Noch. Elias cantavam em coro. 'dl&g^ed. em plena selva tropical.<fQI/ e mais alegre.l-M CHANAAN abandonava esse queixume. Joca se expandia ém gritos voluptuosos. dléMàMa' embebido na contemplaçãolcorrer y\. que se casavam no ar n'uma 'união extranha. A esta solitária voz brasileira se juntavam os accentos fortes e musicaes das vozes allemãs. i r i 1 ' doce de toda a sua raça. noch ein. e ruidosos : .y . /reunido^ aa beb L Jt'I « Die alten Deutsche t: fen noch ein. A derrubada do rumo proseguia mais activa V. $**~ os immigrantes sonhavam-W pela suggestão das t r^~. os immigrantes sonhava beber. e os versos que diziam eram echos das tabernas do paiz germânico.

o estremecimento do ar tj» .**• cortado. l/-«/r~-#^ Amanhecia. Comprehendia a fata-^l^S?Z lidade do seu destino e resignava-se. Pouco depois. apontasse para o alto as línguas ardentes.Í^~«A'-*" panheiro. rubras. na mulher que elle ama. uma alma na har. ainda assim. E Milkau vibrava_^__ !?<yZf com a recordação de todo o soffrimento que o AM^4^* I homem tem causado no mundo. os homens fftfflfy reu. y»**r«M£tTudo vive. Sentia que um pouco da belleza O e do esplendor da terra ia morrer.„•£$»«-. E em roda d'elle a vida em tudo : na terra gera. architectada pelo seu coração em longo sonho. dinação indiscutível e indefinida. ^ -T^ A idéa do fogo chammejou no espirito do com. /^.CHANAAN 137 o tempo-. passando indiffcír^y ferente sem ouvir o gemido do mar rasgado. uma fumaça grossa se desprendia do . {/' dora. i Uma piedade indefinida deante do sacrifício da matta o entorpecera.^^" p*^ monia eterna do universo. I rápidas. e disse ^*~ *£«*_ resolutamente: 'TL--»**' t u — Temos de queimar o matto.(gn 'OÃÕHse decidida começar essa vida. no pó que pisa. á necessidade. n'uma subor/y^t^t^.. fatal portador da morte a integridade da fôrma. Mas. que lhes pareceu mais resequidi Antes que a labareda .-L-U. tudo tem uma voz. a A ^T '• queixa da floresta ardente.. ' '^T^y. quando se chegou a Lentz./ / y n i d o s ^ * todos penetraram na floresta com um recolhimento sacerdotal. por toda a parte destruindo como um r^^. de quem vae cumprir os ritos de cultos infernaes. Milkau perdoava ao homem. N'um dos ângulos da matta lançaram fogo á primeira moita.

***^yy. ^ .**. e triste.as veredas e arremessava para a frente o bafo syf^h y~y. e estendendo os braços umas <"jj£" */i A ás outras espalhavam p o r toda a parte a voragem ÁÜl-e-v /y--^° i n c e n d i o .yvores. resinas que se derretiam estrepitosas. remontando ás alturas n'um vôo deses. O vento penetrava pelos claros abertos %*%% 4j^ < >.„„. . D„ „ „ .quente do fogo.íL vr*-. Uma araponga feria X < ^ rr / ACOVO ar com um grito metaTlico e cruciante.*» * T * ^ . Línguas de <#" * C V T V . ^ a* ©»*>». e um piar choroso ^"'j entrou no coro como nota sryyft. Começara a queima.-4. Estas estremeciam n'um delicioso espasmovPá ' " ú L j .chavam. troncos verdes q u e esta.<-.f ^ ^ ° r " Toda a ramagem da base foi ardendo. atiçando as c h a m m a s . Muitas ^*$r " ^ 7*P arvores estavam contaminadas.„•„„„. Pelos cimos da matta m escapavam aves t£Z* Lry*^ espantadas.&*••' /*~y /^ lavam. Os ni.AJ nhos dependurados arderam.££< f't*d> a m u s ' c a desesperada de uma immensa e aterra. pairando sobre o fumo. ardiam como **».t/A+f viperinas attingil-os. deante do clamor geral das victimas. vagando na direccão dos caminhos como pastosas nuvens. Pesados galhos <*? rfg.t / r w _ de arvores q u e cahiam. fogo r„n ./ «tfie esfusiava. suspendia-se no ar leve da floresta.13S CHANAAN fundo da toiça.yf l/ v< ^ ei^ ^ perado. Çf fogo sé erguêra-e lambia n u m a caricia satanicjuos troncos das ar.i „„ Recuavam.t o c ^ a s monstruosas.?*. g^' dora fuzilaria. Os homens olhavam-se a t t o n i t o s ^ .„„„ procuravam „„„ „<. e a fumaça augmentando entupia 'ff+l "i l^yr— f*. que lhe seguia no encalço. tí/k-c*. e as /. fugindo á perseguição das columnas que mar. ~ l**M l*l.. Alguns se ^^Jfjtsam fí*/y~0i Z\ tf qv*td>/)+*£+' v ."e. faziam *..•afc parasitas como rastilho de pólvora levavam as' /é&^y*' chammas á copa. Pelas abertas do matto corriam os animaes destocados pelo furor das chammas.

erectos.///***£ tonitos..avançava solemne. A nevrose do pavor. Sobre a terra queimada na superfície. o terreno estava desbastado e limpo. Surpresos. E feros e duros atiravam-se á enxada para cavar o aceiro. nos limites da área do lote. N'um alvoroço de alegria.jg^ os troncos firmes. at. E afogüeados. cavaram a trincheira pelo rumo. ennegrecidos. ^//>)rfp/ndo-lhes o prazer. que eram a "* ossadura do monstro. com anciã. Do outro lado. outros cahiam inertes na fornalha.CHANAAN 139 do perigo. Do lado da praia o trabalho foi fácil. si encontravam o embaraço de algum tronco. agora. sob o aguilhão da defesa própria. a lucta foi tremenda. quando a . Mas o fogo avançava sobre . no meio da floresta. centuplicou-lhes as forças.. tinham recorrido ao fogo. quasi pelas terras alheias. O aceiro foi sendo aberto. Ahi abriram rápido o sulco protector.como um ser animado. com raiva. O fogo não tardou a penetrar n'um pequeno taquaral./n . aquecida até ao seio. sôfrega por saciar o appetite. com febre.elles. continuava a queda dos galhos. e feno der. e. não podendo vencel-as. a columna. Os pygmeus que se não mediam com as arvores e que. até que o fogo se approximou. repararam que a devastação tetrica lhes C*/r ** ameaçava a vida e era invencível pelo matto a dentro. ^»arrojavairr"eontra os páos comodenodo de gigantes. os homens viam amarellecer a folhagem verde que era a carne. Ouviram-se succesrvas e ^<> medonhas descargas de um tiroteio. atacavam-no a machado.

A cem metros de separação. e os outros miravam n'uma diabólica. logo que se reconheceram senhoresdo perigo. e lépido. IIJd(yr*y foi veredeando por um atalho. o fogo desafogou-se. A' noite. .^ £ v / d e t i v e r a m e^^se/espalharaqojpara a direita e para a *u—/ esquerda. ^ t . As chammas s a abeiraram""aa valia e. satisfação a matta esbraseada se estorcer nas agonias do incêndio. < Os colonos e trabalhadores semi-mortos voltavam á casa. O fumo crescia e subia ao ar rubro. invencíveis sacrificadores da terra. os estampidos redobravam x as labaredas esguichavam. Farto de devorar a carne dura do /// bambual. os colonos cavavam sempre. até chegar ao aceiro. Milkau chamava na sua imaginação a vinda dos tempos sem violência. que se erguiam á margem. i^r/Jíendo os arbustos. emquanto a fogueira circumdava n'um abraço a moita de bambus. incendiado. continuando a sua obra. dè Ml . quando as estrellas em rythmo moroso parecia caminharem no céo.140 CHANAAN taboca estalava nas chammas. da varanda do barracão. deante do^^spafd-aberto e intransitável. Já os homens n'um esforço immenso se tinham adeantado. e célere.

ou uma pequena consolação da volúpia. Ahi se viam pessoas da família. essa mãe.A felicidade de Milkau era perfeita. d^veneração e de saudade. nada existia alli que fosse a traição de um gosto refinado. Apenas. e a mulher. quasi filha. e deixado que a simplicidade do coração o retorpasse e inspirasse. como veladores Penates que o homem transporta nas suas migrações sobre a terra. Estava povoado de retratos. A sua pequena habitação. erguida no silencio damatta. creança que amara quando ella . o quarto de dormir de Milkau impressionava como uma capella ardente de amor. era humilde como as outras dos colonos . Tinha limitado o inquieto desejo. com grandes olhos de dôr e supplica perenne. do domínio e do orgulho. Trabalhava mansamente no quinhão de terra que occupava. quebrando a uniforme monotonia rústica. apagado do jfe« espirito as manchas da ambição. o pae illuminado por um sorriso de martyr.

amorosos. poetas. ~ * t o perpetua £ o m m u n h ea oque ffâtifc dá a alegria enche oreligiosa. q^tdfíÇ não atemorisava com a sua educa-p^mm ção. emanado do amor e das lem>#<áá»M&-!?ranÇas' ° envolvia. f/j Q) çfy / o m essas imagens sq& Milkau vivia na e ^ ^ . Milkau èejéspraiavgpem relações et-J ^ com o grupo colonial do ria DoceT Achava um ' encanto em conviver com essa gente primitiva. vazio do que isolamento. que. ^ ^ Fnuicn a pougy'. que o recebia sem desconfiança. não pelo que tinha feito. soffredores. Vendo-o assim attento. con or £~ ffifáffltâffjem orgulho de intelligencia. O trabalho pelas próprias mãos (|hej\davAa sensação positiva <*da sua dignidade humana!"ps<Jeus olhos procuravam em torno o mundo para onde elle -m queria l t dirigir/n'um forte desejo de affeição. OsÁ(fi/ffl/ eram retratos das grandes /// w figuras humanas. /cntindo s/ ' feliz e engrandecido. e que ia se deixando infiltrar da sua cordura e meiguice. Éll^ jMl j I ^ fee]7entia^amparado por um fluT3o~~dTr"e"spérança./se f 7JJfò6l y mava»com todas as lições que lhe davam os a n t i g o s ^ ^ cy e experientes colonos sobre aslcoisas da lavoura. /g/fa. " " I I derêsígnação. d ^ # # # f p uma armadurajnvencivel. mas pelo que aspirava fazer. Milkau Jj estava destinado a ser pouco i pouco a figura cen- .142 CHANAAN c ~f. e/em sua presença tinham instinctivamente j T uma artitude cheia de sympathia e respeito.passara deante dos $ffi olhos. dentro d'esse quadro(jJjie/sonw/^ > ' como uma deslumbranter_e§urreição. mais lhe queriam os cam<~ ponios. transfigurando-se para morrer. E ávida.

Outras ve?es caçava. Lentz se encarregava-das viagens. O caracter fraco trahia a audácia do sonhador. paralysado. . das compras da casa. o apóstolo da energia. defronte do barracão. como a terra bebe imperceptivelmente as finas gottas do orvalho até ficar saciada. e. na tarde da sua chegada. e dar um pouco de fadiga aos nervos. Era então que lhe succedia encontrar no matto o vizinho taciturno que passara. os colonos iam absorvendo o seu inuriortaj/prestigio. e sentia uma expansão de alegria quando atravessava solitário as montanhas em silencio £/ sobre ellas dava grandeza aos seus sonhos devida. caminhando na doce sombra de Milkau. que eram o estimulo para a agitação do seu pensamento. o creador da força. o velho allemão ágil. como -um verdadeiro homem.. desdenhando qualquer conversa. incapaz de abandonal-o. enérgico. Jaw"0 . seguia qual uma visão primitiva. e a bondade do sentimento entorpecia-lhe as maldades grandiosas do seu idealismo. Ao contrario do seu companheiro.Í^Lentz/vivia^ triste n'um intimo e reservado desespero. extenuando-see acalmando-se. era para elle uma grande humilhação. A vida que tomara. Ficara alli ao lado de Milkau. cercado da sua >. torturando-o essa pungente agonia de praticar a existência condemnada pela idéa. E assim inactivo. Sempre calado.< ^w/*^*'/<*"**" . <r CHANAAN y ^ ^ ! 143 trai d'aquella região.n um esforço tenaz e porfiado.. sem reparo. Para se distrahir. jiójê!^ áo seducções do camarada. elle. se completava na contradicção.

que se queria identificar com os hábitos da nova sociedade a que se consagrava. Uma tarde. Em Santa Theresa e nas casas de colonos por onde Lentz passara.144 CHANAAN ardega matilha. sahir de si mesma. farejando o chão. Sob a transparência crystallina do firmamento. E também as essências mysticas. alevantar-para o ceo. cujos cães o festejavam aos saltos ou iam á sua frente. de orelhas cahidas. para o espaço. E na madrugada seguinte. Quando já se avizinhavam do Jequitibá. iam pelo caminho encontrando colonos a pé ou montados. dia Estava elle todo possuído ddy^f espirito da ascensão e sua alma escalara também as regiões silenciosas. Famílias e grupos ininter- . n'um soberbo movimento de força e desespero. trazendo a noticia deque no dia immediato haveria uma festa em Jequitibá. os dois amigos partiram. Milkau. n'aquelle instante de exaltação e vertigem. levavam-no a desejar attingir a eternidade e dissolver-se no infinito. formando caravanas. a terra intumescida parecia. e querer s . O novo pastor celebrava o seu primeiro serviço religioso com o<êoncurso dos pastores de Altona e Luxemburgo. á hora 3o amanhecer. plácidas e vastas do infinito. que ainda viviam em Milkau. Raras vezes a paizagem transmittira a Milkau uma emoção maior do que n'aquelles terrenos altos. todos se preparavam para essa diversão. resolveu ir ao Jequitibá. marchando sempre por um caminho de montanhas. Lentz voltava de Santa Theresa.

excitados pela fresca da manhã e pela esperança do prazer em sociedade.CHANAAN 145 ruptos enchiam as estradas. parecia borbulhar de dentro da ^g^_<-*-"" terra. mais a multidão se engrossava. Ao longe.-—"r'1^" diantes. ao saturem de um caminho? coberto. a capella branca. pois havia muitos mezes que não se abria a> capella. ra. feito de uma dourada luz e de pequenas elevações. 9^ Estál ficava-lhes a frente. brandas e fixas de um oceano manso. Qa dois amigoof^epois de algumas Jioras de viagem. e os colonos não se reuniam desde essa epocha. Em certos pontos havia /*-/-necessidade de dexWjfffíh o passo para não se atro. segui jfâfitykhubiam por uns degraus de madeira fir dos rra terra e que muito espaçados chegavam! ( CJ&iV / .'* os olhos dl<úhu abxan-Af\f^ giam todo o panorama claro. era com uma alegria de recemchegados que se saudavam mutuamente^Alguns passavam a galope. então era de vêr a carreira folgazã de toda a gente pelos caminhos. desemboccando (Jy*»»**^' alli de toda a parte. rodeiada pela """ " multidão que fervilhava. como ondas regulares. e tomavam / j ó ^ r y t h m i c a marcha de <f/rij procissão.JJ XÜff pelarem. era como uma presa arrastada vagarosamente por um formigueiro. Todos vjateuq. ^ ?>/**/ «^/"/~ <n~ Acharam-sè]4ãpei«í base da coluna. e esse araou/communicando-s%aos outros. que ondeava. e. Quanto mais perto da egreja. A multidão. via-se a subida dos pygmeus. tr* ' ^ *ij> descortinaram a capella do Jequitibá. Pela encosta do morro que vae ter á «apella.

yf Era u m / grande jfcase/ de colonos da região. os simples pannos brancos envolvendo a cabeça.1 iü CHANAAN até ao alto. vestido segundo o uso do momento em que deixá*Y ra o paiz. — Só isto paga a viagem. á casa do pastor. as toucas de seda. iam vendo viajantes que" chegavam em bestas. as rendas. passando-lhes o L # * / V ^ ^ embornal. O vestido largo. em mirar o povo. / Alguns estavam alli havia trinta annos. como si fosse uma revista retrospectiva de modas. ou a combinação phantasista de um baile de mascaras. O cimo. amarrar os animaes nas estacas. de cintura curta e babados. trajes aldeãos. trajes de cidade. davam-se. U m vozear confuso enchia os ares e turbava Milkau e Lentz. acotovellando-se. e a sua ~ Sj pelle era amarella. Trajavam as suas melhores roupas. já tão descançados e entorpecidos na solidão bonançosa < Mas logo se habituaram. disse Lentz gra- . esguio. o casaco severo. A medida que galgavam. e entretiveram-se.. a capella. encolhida como pergaminho. onde fotexÁ. ç ' outros ainda ^sag:louros e jovens. que era no fim da egrejinha. emqüanto a capella se não abria. formava | uma esplanada. apear-se e . o corpinho fino. e n'ella a massa de gente se remexia. o chapéo de velludo. uma^ b mistura de modas de muitas epochas. uma entrevista nas serras do EspiritoSanto. conservadas^ religiosamente em trajes que se não acabavam '„ mais. Cada uma das mulheres ainda tinha o seu *. o que m//p jffàM/jjffl. as crinolinas.

$(l0fl/jli$0fi. Misturado com o aroma da terra. Cum•»**••-. Mas também admiremos a usÁs.^**-^ desdentado. acompanhando as observações que o amigo fazia sobre d^ f/f ddxisüífk das vestes. Milkau mirava para todos os lados. depois de Jtrt'e£*'' algum tempo. para 9 ^ Cr*~assistirmos á sahida d^Sôvo. — É verdade. Joca e o grupo C L ^ de trabalhadores da commissão de terras.primentou de longe. darlio um passeio -fai. /CJ*&H4 — Até os velhos. o cheiro das /rr^v^**" flores que as raparigas traziam ao cabello e das e>li>my^ roupas domingueiras. e ao longe descobriu Felicissimo.CHANAAN 147 cejando. / .. um perito poderia fixar pelos vestuários a epocha de cada migração. /s$*' paletot pontas de lenço sahiam espalmadas.* c^L . . com uma barretada e um riso Q^. í ^ . O agri. E está ficando quente. guardadas longo tempo nos fao/AcÁ^^ bahús. amenisava o odor forte das multidões. Que^DâgJmportaalmissa fl/£*'/**' do pastor ? Vamos espaí^jjP-fiirVda festa. — A alegria dos velhos é um mandamento para/ ^ / } . j0> ^~^*-^ — Ora. *• « • « O povo continuava no seu borborinho tumultuoso p>rr^ *y*r e alegre.. concordou Milkau. a vida. por essas m o n t a n h ^ & u feitadtâi sombra de aif/y^r£ü=l guma arvore? /<§/' /JPã »*«*'""* 9 . tinuando as medições para outras bandas. que desde algum tempo tinha deixado o rio Doce con^>». já vimos o Jnelhor..^ t*£ê~ mensor estava com um cravo ao peito e do bolso do f\£. disse Lentz.****-felicidade d'este povo. em voz baixa.

francamente. esporeando com força os animaes.. é inseparável do homem. não eiLgoifà o mundo dos pheno/ menos. no começo da ladeira do morro. Nós nos divertiremos vendo divertiros outros. fiquemos aqui e acompanhemos esta boa gente. divina. Defronte d'elles. de um deus ou de uma abstracção. e o conhecimento. além. Afinal disse : — O espirito religioso é irreductivel. é inattingivel á medida que caminhamos. Milkau fitou muito calmo o amigo. do nosso eterno pasmo no universo ou a exaltação do nosso amor.148 CHANAAN — Não .. Além. E o homem viverá sem terror. — Haverá um tempo em que o homem ha de enterrar com os antepassados o culto que elles nos legaram. — e a vida. e o culto. por mais que se alar' j /-^Lgue e avance. hesitando si devia responder. A marcha da sciencia no nosso espirito é como a nossa na planície do deserto : o horizonte foge sempre. como a que divinisa a sociedade humana. três homens chegavam. seja do que fôr. que subiam arquejantes. — Mas. Quando . Para destruil-o é preciso que o homem explique o universo . e é sempre uma força salutar. — Ella é veneravel como toda e qualquer outra. ha sempre o desconhecido e o cultoqueoidealisa. Esteve um instante calado. Elle é a expressão da nossa emoção immorredoura. elles podiam se divertir de outra fôrma. Essa religião. Tudo será esquecido.

O mais velho J+cy era um sujeito de cabeça grande. Darba castanha. meio barrigudo. percebia-se que sentiam a consciência de uma posição superior. Olhavam os colonos como uma massa amorpha e subordinada. e o velho de monoculo. i&eaquant»/o terceira^" jdffh no ^ s ^ r o s t o claro. era o triumvirato judiciário da comarca. Um dos v i z i n h o ^ í i i ^ ^ é ^ s e r e m as auctoridades do Ca. silencioso. esperava solemne. empertigado. Por contagio e por instinctivo signal de respeito dos humildes colonos. que correspondiam desdenhosos. Todos olhavam as portas cerradas da capella. os cumprimentos.//r/ir>->Com effeito. mais afastados. outros. o outro. de monoculo escuro e costelletas. lhes tiraram o chapéu. com uma moldura de [fd/*****1. Fitando-os. e sob os seus ardores a impaciência crescia. rompendo a agglomeração.CHANAAN 149 se apearam. um ar de fadiga e preguiça. muito reverentes e pressurosos de se recommendar. Os homens tiravam o chapéo. Milkau reparou n'elles e rtóou que/Y//v/*'rí eram os mais bem vestidos de todos. limpavam o suor e muitos cobriam a cabeça 'y/)M^\ / /? 1 . O sol já esquentava muito. muito fi joven. praguejando contra o habito de os deixarem de fora. os cumprimentos se propagavam e d'ahi só se viam as cabeças abaixando-se na direcção dos magistrados. Dois ou três homens da cidade. se acercaram d'elles/muito prazenteiros. Lentz 7^1'A' teve curiosidade de saber quem eram. moreno e imberbe.

que bem se casava com a simy plicidade externa. zumbindo. com um aceno de cabeça. como sempre. Mas estacava. mil vezes uma egreja catholica. triturando surdamente o milho. para adeante. A multidão se impellia lentamente para as portas. os animaes bufavam. as suas cerimonias de finas expressões symbolicas. O tom protestante é plebeu. e ornado de listas alvas cheias de palavras santas em negro. empurrando para traz. As moças atavam também o seu ao pescoço. dizia em surdina Lentz ao camarada. com a sua pompa. no centro. na brancura das paredes estavam inscriptos versículos da biblia. A porta afinal se abriu. muito nú. o púlpito baixo. Milkau ^ j í y ^ d W . . um grupo para se proteger do sol apertava-se debaixo de um misero arbusto. e foi uma invasão alvoroçada na capella sombria e íresca! Milkau e Lentz conseguiram logar n'um dos A bancos de madeira. de madeira não envernizada. e ahi tò/dutáados observaram a iMôtih*. Não havia a menor pretenção de enfeite. emquanto mulheres velhas agitavam as saias. ao fundo uma cruz preta com um sudario branco pendente. — Muito triste. inesthetico.singeleza do interior. espanavam-se com os rabos. Alguns se esgueiravam para as escassas sombras das paredes. e espalhando o calor de corpo a corpo. n'um movimento inconsciente de quem ia forçal-as. refrescando-se com estrepito.150 CHANAAN com o lenço. Abafava-se^* murmurava-se.

A musicaenchialí^S** alma capaz de sentir os mais intangíveis e deliciosos segredos do som e de se transportar além de si mesma. Ha muito tempo que não ando por estes lados. respondia outra. recomeçava a impaciência.CHANAAN 151 Em volta d'elles outras conversas proseguiam em voz baixa. — Não. E onde você o viu? — No armazém de Jacob Müller. Depois do descanço do primeiro momento á sombra. Não tardou. alludindo ao novo pastor. Não fomos nós que encommendámos um pastor a Roberto ? Seja como fôr. . ^ —Ainda o não viu ? perguntava uma velha. chamando todos á respeitosa continência.. para que lhe darmos o nosso dinheiro ? — Ah! isso você sabe. A multidão st apaziguou^ o instrumento continuou a cantar os solos. porém. que se esforçavam por conter. infinitas. temos de o agüentar. como murmúrios de piano e de flauta. Que conjuncto de sensações não se accumularam desde as remotas almas pro- (Jf' / / y*J. Musica!. outro dia. mas que se percebia nos bocejos. A musica» infiltrávamos nervos dos ouvintes e Gs i amansavOmollemente. nos movimentos de pernas e de braços. seguidos de um acompanhamento mysterioso de vozes múltiplas. não ha remédio sinão darmos.. que um accorde de harmonium soasse. Parece uma pessoa. Milkau vi/brava.muito de bem. — Também si não fosse. perdendo a própria essência na mais copiosa e allucinadora emoção.

como uma benção e uma luz do céu illuminando o livro santo. longamente... Musica! Canta a mulher ^. emquanto ella. á sua vida primeira.152 CHANAAN genitoras. Era n'uma egreja de Heidelberg. Continuava o sonho. entoava hymnos. até emfim formar-se no homem a derradeira das suas almas... dolorosas.. 4. elle. Um sonho dentro de um sonho . carregado nas harmonias. trabalhando. ou era aquella mulher a sua visão realisada ? Parecia-lhe .. Elle vê uma figura de mulher. que rios de sangue não correram de pães a filhos. ^gEâ-de olhos cerrados. não percebia mais as fronteiras do sonho e da realidade.. afinando o mundo dos nervos. a alma musical!. E emquanto o órgão no alto da capella cantava. lentas. que parecia entretida em vêl-o dormitar. lf 0 J 0 fyp0f de um templo.. Musica! Cessou o órgão na capella do Jequitibá. porque escrever é cantar com a penna. das harmonias. carregando as vibrações recolhidas em cada cellula. 1^1 recolhida. no passado. debaixo. Os seus olhos meio attonitos descançaram em uma joven. na terra antiga.. enche a egreja. que entra na sombra silenciosa e brandamente vae sentar-se. Tudo se/confundia extranhamente. Musica também lá em Heidelberg : uma melodia phantastica. ^ y £ .que Milkau amou. Os olhos d'ella embebem-se na Biblia e sobre esta os seus cabellos caem n'uma chuva de ouro. escrevia poemas sagrados. laia Milkau. mystica e crente. E Milkau. tomado pela saudade. Milkau teve um ligeiro sobresalto e despertou. Milkau ficou indeciso um instante. angélica..

que sempre entendeu como uma religião secca e simples. com uma barba fulva. Pelas mãos callejadas. com a mesma suave e meiga expressão. cercado pela curiosidade do povo. Na scisão da Egreja cada uma parte ficara com a rfaasdi Jt#lCy'p? dos espíritos que lhe era própria e peculiar. a gente do norte inculta. 9. violentos e radicaes. E ella o olhava l/ vagamente distrahida^tí quando reparou que era / \ ' ^ examinada. e. pelo rigor excessivo de seu monotheismo. . em rico contraste. pela côr vermelha do áspero rbsto. curvando o pescoço devagarinho sobre o peito. Era um homem alto. nos quaes o catholicismo se desenrola como um successor natural do paganismo. astuto. aquella que mais se liga ao judaísmo pela austeridade. independente. barbara. em vez de continuar desembaraçado o sermão.CHANAAN 153 já ter visto em outra vida aquella mesma cabeça de macios e crespos cabellos de infante. cujos melhores interpretes eram homens rudes. pelo accento da voz. n u m gesto de recolhimento de ave mansa. elegante e pomposo. ~se revoltára^naturalmente contra os civilisados. O seu primeiro contacto com os colonos era uma crise. o pastor ia desenvolvendo o seu allemão religioso. Subia ao púlpito o novo pastor. que lhe cahia sobre o casaco preto. N'uma toada humilde e timida. e voltaram-lhe á memória as observações de Lentz sobre o protestantismo. pelas phrases. Milkau reconheceu n'elle um camponez. moveu-se. uma religião rústica.

— Tem cara de judia. — Ah ! E a outra é que é a irmã d'elle ? — Quem vê um... — Pobre! Então. porque vendo que as suas palavras eram recolhidas por outros ouvidos da vizinhança. Agora se pôde vêr. tentando . outras ia tropeçando para adeante.. — E de onde as conhece? — D'aqui mesmo. que lhe fazem ? O colono não respondeu. volveu concentrado e hypocrita á sua Biblia. Ao lado de Milkau um homem explicava a uma mulher que bisbilhotava a respeito de duas outras que se viam no coro da capella : — Aquella mais magra e morena. A irmã feej^nteressa)por tudo. que estava toda abandonada... — Sim. Na tribuna o pastor ia rolando o sermão. Outro dia vim preparar a horta. procurando com vão esforço esquentar-se... E a mulher do novo pastor. vê outro... mas me parece muito boa pessoa..se preoccupavarm)com o pregador *«• e sua família.154 os-/ CHANAAN elle se detinha a examinar o povo. a reflectir sobre si e os seus embaraços. e muitas vezes parava distrahido. creio que o pastor tem gosto pelas plantas. Os ouvintes desinleressavain^Ê_da--atrapalhada e vagarosa predica e. A cara não engana. pareceu-me uma alma penada em casa. — E Frau Pastür? — Não sei.

que seguia complacente^ /ao agrimensor. o terceiro. O cearense arregalava os olhos para os n j / seus amigos do rio Doce. ás vezes. — Que macaco! — O grupo dos magistrados também não estava resignado ao enfado da cerimonia. estava Felicissimo. que era o juiz de direito. Do outro lado. fitando com desprezo e rancor o pastor e os colonos.CHANAAN 155 vociferar e clamar a religião. cocando a barba por desfastio. ora tirava o lenço. em frente a Milkau. Sentaram-se os três juntos n'um banco. _ /? K ^ „ti. bios cerrados. enxugando a testa que se franzia em grandes rugas. e em caretas successivas transformava a sua movei physionomia. agitava a perna. pondo machinal o monoculo para melhor entender. obrigando-o a repetir indefinidamente os movimentos. ao juiz de direito. murmurava alguma coisa. e enfrentavam solemnes f a multidão . ao lado do púlpito. sacudia bdftf a cabeça ^jf" n um gesto de contrafeita resignação. o mais velho. suando muito. cahia logo. não se cançava de gesticular. sorria benevola e cavalheirosamente. n'um grande abandono.-seespreguiçava^Tio banco.^» > -^ ^ ¥Ê^y . mal assestado ao olho direito. a<f> seu lado o /"rpromotor crispava as mãos. e este. ora limpava o monoculo que. e de la. o juiz municipal. A sua voz logo esmorecia e cahia na morna toada. estirando as pernas. aborrecido. e bocejando. muito nervoso. Lentz não poude deixar de murmurar com um certo desdém a Milkau.t < ^ £ ^ 1. a fazer signaes de impaciência.r -n.

para recomeçar um coro a que o povo respondia. Em breve acabou o serviço religioso. Os três pastores se reuniranvrio fundo da egreja e leram successivamente os psalmos. tinha uma voz rouca. os embornaes vazios embrulhados e escondidos debaixo da sella. ou de olhos fechados voltavam-se para o abysmo vazio do seu espirito. os pastores sentaramse. até que o novo pastor terminou a predica. todos ficaram deslumbrados com o sol e se apressaram-*em partir. ed'ahi a pouco homens e mulheres montavam. descendo toda a massa de gente pelo morro abaixo. Fora. como uma represa de água escura que se tivesse aberto sobre . tinha uma attitude de gigante tímido. que se ia apagando J ermpiaafto o pastor de Altona.156 li CHANAAN Os allemães. sem a menor vibração intima. as vozes das cantoras vieram n u m a desabafada desforra levantar os ânimos. que elles miravam absortos e suspensos. não se moviam . e a musica do órgão. No meio dos dois o novo pastor de Jequitibá. O velho pastor de Luxemburgo. a musica foi suspensa um instante. sem um pensamento. com uma barba muito curta e dura. vendo o povo retirar-se em ordem. E o tédio envolvia a capella. Os burros foram desamarrados. espraiava o seu ar desabusado e insolente. tangido pela musica. levando cada um o echo longínquo dos cantos. com a cara toda raspada e de óculos. muito grande e de olhos meigos. concentravam-se recolhidos ao livro de orações. cheios de respeito. lentamente.

E a grande vozeria de commentarios. « /**!L na cruz das estradas. levando nas mãos as bolinas ou os chinellos. matando a tranquillidade da região silenciosa. — Irem á casa de Jacob Müller.. . onde costumava passar o domingo. Escorregando vagarosamente. com receio de um perigoso atropelo. — Bons olhos os vejam.^ ditando. Milkau e o companheiro vinham-se também arras. — Pois eu lhes proporia — O que? perguntou Lentz. E a gente ia-se escoando pelos caminhos. procurando as suas casas. respondeu Milkau. naturalmente. emquanto os homens se descalçavam. onde ha um grande baile á noite.CHANAAN 157 a verdura da paizagem. Era Felicíssimo. Jyf*-*' as mulheres arregaçavam as saias de cima por economia. as grandes gargalhadas e gritos festivos rebentavam das mil boccas da multidão. e cobriam com ellas as cabeças. interrompendo. Em baixo. galopando na estrada fl'*\ ' e envoltos na poeira. sentindo um toque no hombro.. partilhando da alegria e esquecidos de si para \ r ^ 7 se misturarem na communhão alli formada pelo '^'"v acaso e pelo impulso communicativo. Ha quanto tempo não nos avistamos ! E para onde se botam agora ? — Para a casa. de galhofas. o povo começou a debandar. A**A ' alguns tomavam a deanteira. que lhe falava de cima de um burro. outros corriam mesmo a pé. e já agora de dia começa o pagode. Milkau voltou-se. ninguém se apressava. ou as tabernas próximas.

que não tem historia nem ma/Jadas. meio indecisos. disse radiante o agrimensor.. depois torna a subir e. Então não sabe? 0 sujeito arranja a festa com olho de fornecer a comida. . Bem. vamos d'ahi. mando guardar três logares na mesa para nós.. — Assim é que eu gosto da rapaziada. vocês têm um pequeno pouso com uma venda. respondendo. iremos. passem pela frente. Aqui na colônia não ha convites. Temos muito que desenferrujar. porque isso também faz parte do negocio. Quando toparem um sobrado branco com um terreiro.. é ahi. — Que negocio ? interrogou Milkau.. e vão seguindo sem se desviar. fts Os dois amigos se consultaram^om o olhar.. E apontava com a mão livre a lingua. Não ha confusão: a casa está em festa e vocês a reconhecem logo. mas Lentz não demorou em responder : — Pois sim. tomem á direita. Falou-se em patuscada. Ora. vae descendo. vou na frente... É verdade que estou montado. e não podemos ir juntos.. o caminho é este da esquerda... quando chega no alto... Em se sabendo que ha uma festa. — Que negocio ? repetiu o agrimensor. eu vou indo.. Depois. vender muita cerveja e tudo mais.158 Ç-// CHANAAN — Mas não tivemos convite — Oh! isto é uma conversa. Mas não ha difficuldade. a gente não tem mais que se apresentar.. não engeita.

concordou Milkau. em geral. bem arrumada e com duas portas largas. de um louro lavado em que uma rosa traduzia a eterna faceirice da mulher. os allemães bebiam. Si não estás morto. .. continuemos. formando grupos differentes. Os outros executaram as indicações do cearense e foram andando apressados pela estrada. moça e loura. e alguns tomavam cachaça. uma grande latada corria pelo oitão da casa e na sombra larga debaixo do caramanchão/sentadas ás mesas toscas. e fazer a caminhada mais á vontade. cerveja fabricada no Cachoeira. fatigado do sol. a rir muito. No alto estava realmente a venda. A taberna era limpa. freguezes. Dentro. Fora. encostados ao balcão. Jjj/yfyjti($ almoçavam e eram attendidas pelo dono da casa. « Até logo ! » Picou o burro com vehemencia. — Como esta sombra convida a descançar! disse Lentz. algumas mulheres de varias edades se agruparam aos homens. onde já se agglomeravam muitas pessoas. deu-lhe chicotadas. gritou para a frente. — Não. e entre todos se trocavam saudações e offerecimentos amáveis de bebida. A dona da casa e uma filha. passou a fazer tregeitos inconsiderados com a cabeça. — Podemo-nos demorar aqui um pouco. todos alegres. e ^ for^rVum galope.CHANAAN 159 tomado de uma repentina excitação.. espantando os colonos com os berros e a correria. serviam lestes os.

estávamos a nos eigotiar^ponde/£-/» r*^ rou Milkau. —^-d'agua veloz.de expansão jovial. *„ 0 **$*'. uma vez em casa. e á beira o sobrado onde se percebia. não« tornar a sahir por este sol! E lá se foram. estávamos a imitar. que não ygP* «*/-«* vale a pena mais nos pouparmos. ^ tomara. as cores simples.?ét£-i — Apertemos o passo. ^ rumo da casa da festa.E correram também. deitando um olhar de cobiça ao caramanchão ruidoso. mas é que. e contente com este rejuvenes. gritando de júbilo e levados peja_excitação de chegar sem demora.. E quando chegaram á i t v r^. * yr'**£i — Sim. disse Lentz.f+* perder na alegria do ar na vertigem da des*/**'%*' c ^ a . de se JíJuefi. UHt f "' -y— I ^ _ /frt* . viram muita gente que tomava Z.iéM^. alacres dos vestidos das muy yji4. ^J'*^' No caminho. quando lá está o J+ y^vor*^nosso refugio.Jy/ct»* . I t /rLf ±T' * ' mesmo de cima. é só descer. mas d'ahi a pouco pa/»*'*'/" raram e sorriram vexados da incohsciencia que os ^ . ^y^-*^E ao lado d'elles passavam rapazes e raparigas ^"a correr pelo morro abaixo. rríj~ lombada de um morro.^ * w t ' ' 4 ' dffáhfaA do seu espirito. avistaram em baixo d fio * W /*xz+. onde o verde das folhas f' entrançadas nas grades formava quadro para ^y/„*se. — Não foi isso o que me fez parar. isto agora vae depressa. Isto %(/-*?#> lhes tFansmittiu também o desejo de correr. em ' 4ríy. o movimento de uma reunião. C '. lheres. desconhecendo-se n'aquelle arranco 4/A*-/-1. a natureza readr .:Z~.. • ^ t^OL — Ora esta. vez de repousar. Afinal.160 CHANAAN porque receio. propoz Lentz.

. como esteve em mim até agora amordaçada ! Ergueu a cabeça n'um gesto de desafogo. outros de Santa Theresa. e era um dos maiores pontos do commercio do^nterior da colônia. . no fundo de um valle e á margem de um endiabrado ribeiro. Os seus olhos azues estavam radiantes de paz e calma. coitada. pensava elle. e havia um pequeno campo de relva tenra e fresca que brilhava ao sol. e até pelos caixeiros da cidade. e outros do Cachoeiro. Muitos a pé ou montados vinham da capella do Jequitibá. Também. O sobrado ficava destacado das grandes massas de arvores e di folhagem que vestiam as pedras dos morros. e aos domingos um dos mais procurados pelos habitantes do logar. e foi com o passo cheio de magestade e de graça simples que baixou da montanha.CHANAAN 161 quiriu os «eus direitos. Lxoda^Mio terreno estava limpo de plantação. Nas cercanias da casa de Jacob Müller a paizagem tinha o realce e a vida communicada pelo movimento da gente. da agitação . que descia em tropel infindo do morro para o Santa Maria. Ao chegareiritao terreiro da casa J á as vozes da \ pj pr*K festa vinham ao^encontro faff d ^ ^ r ^ ^ ^ ^ e > +££& elles foram entrando no meio do ruido.. por moradores d*e longe. que se ia reunindo. . sacudindo a barba de ouro. A casa tinha uma bella situação no centro de varias estradas. Era um sobrado branco.

arranjemos antes um logar aqui á sombra. disse Milkau. Outros entravam e sahiam do armazém. /« E Felicissimo. — Venham./spantados da effusão do agri/ ^ mensor. venham. A gente movia-se muito. Bandos de moças de branco passavam de mãos dadas. — Não. debaixo de uma laranjeira. em frente á casa. ^_^ O agrimensor ficou meio amuado : — Ora bolas! < ^ fffc-V E os_largou Jbruocamerrte. yf'/'' para lhe dar uma explicação da recusa. echoando no vasto armazém. — Vamos à um copo de cerveja. cantarolando. O estrondo dos pés que dansavam no sobrado. rapa-zes corriam pelo campo em mangas de camisa. porque precisamos de descançar. gritando. mas o outro. meus amigos. quando a tarde começava a refrescar e a luz a esmorecer. arrasI tf* tando-os. corria para elles. mettendo-se pelos grupos e entrando no armazeiTL Milkau desistiu ^ de seguil-o e Vjf#/ou a Lentz/^rocuraflfâ^ambos um logar para descançareaa. obrigado. Qs <»utroc. E nas janellas muitas . Milkau acompanhou-o. uma pequenada vadia se espalhava guinchandò pelo terreiro. atordoando a gente. lá se foi. como um bando desesperado de mairacas.162 CHANAAN dos allemães á sombra da varanda. e o som langoroso de um realejo incessante desciam do alto. Acharam-no emfim em um banco. com a voz rouca e a gesticulação de embriagados. perguntavam para onde os levava. levado pelo rompante. em apostas brincalhonas.

— O que não falta é comida. abrindo-" a bocca em que se apertavam os dentes dortadesj i-tu*«*o$ epa-seiral * — En-tão vieram divertir-se um pouco? Sim. O que é preciso é marcar os logares desde já.. plar satisfeito o prazer alheio..CHANAAN 103 pessoas com ar indifferente se debruçavam para o terreiro. arrebatada pela. e um cinturão de couro segurando a calça. — Lá isso não. Se e n c a r r e g o u . Começo a ter fome também.. vinha saudal-o. — Mas elle ha de voltar. e fitando pasmadamente a paizagem. mas sumiu-se de nós c se esqueceu de nos /Ldizer o que arranjou. olhando a agitação em volta. referiu Lentz. porque eu estou que não me posso mexer.. por cima das cabeças desta gente: vejam que povo está alli agarrado ao balcão. parece urubu cercando carniça. concluiu confiante . nas salas. interrompeu Lentz. em mangas "'""^ de camisa. viu um rosto amigo ^."••-/'£ '*•_. senhores. de lenço ao pescoço. que do rio Doce aqui é um estirão! — Sahimos de madrugada e fizemos a viagem sem grande fadiga. Olhem só lá para dentro do armazém.<*'(' que se approximava.... E atraz. as mesas já estão apinhadas para a hora do jantar.celeridade do regato. — Seu chefe. <.^ d'isso. respondeu Milkau. que se tinha conservado mudo. já é coragem. Milkau. Era Joca que. a contem. que parecia também mover-se toda.

e n*aquella vida extranha que levava.164 CHANAAN Milkau. a grade era retirada.. quando havia festa. Aos / domingos. Nos dias de semana. que era o logar destinado para seccar o café comprado por JacobMüller. Isto é.. uma grade de arame protegia esse !-[. . pateo Jfc. amigo. Um grande reboliço §ej|fe^)no povo e repentinamente todos se foram approximando da banda. para folgar um pouco.. E como vão lá no prazo? Já sei que a casa está bonitinha. — E quando beberemos d'esse café ? A resposta foi um gesto largo de mão. indicando o tempo remoto. — Plantado.. ao lado da casa. estes dias nós descemos ao Cachoeira.. se dirigia para um pateo ladrilhado de cimento. **^£3P* músicos da philarmonica do Cachoeira H«^^njiana chogandn iw i r n à l ) e todas as vistas se voltavam para elles.. De um lado para outro. — Ah! agora a coisa vae ser mais animada. que fim levou? — Rolando. E o cafesal?. que. a fazer medição. invasão dos animaes e da creançada. agora lá para o Guandu. e você. caminhando lentamente e como por um velho habito. — No roçado que fizemos? — Sim. lá vem a banda. Joca. Por um instante uma ligeira sobrexcitação coloriu as faces de Lentz que tremia em pensar no vago da distancia ainda á sua frente. e estou certo de que temos tudo arranjado. olhando alvoroçado para o fundo. disse em sobresalto o mulato.„ j .

que recebia em seu lagedo. Vamos á gaita ! E. o mulato começou a dar vivas á banda do Cachoeira. acompanhando a banda. Os músicos installaram-se n'um dos ângulos do pateo largo. rubros de vexame. d'esses que são amados da alegria e em quem «üa> não encontra fótf0ty'para reinar livrernerite^_^^ _ _ . liso^lavado. para irradial-a. N'um momento ficou coalhado da gente simples e fácil de contentar. Joca deixou Milkau e foi se postar ao lado dos músicos. a força do sol. &*fájfii /ffllff cJt**s ofc *M . Foi um delírio para o maranhense. com os olhos accesos e as narinas arregaçadas. perseguia um bando de ra- / ÍC^r** /*&* Q. que começou"' a dar outros vivas ao « povo do Cachoeiro ». vocês hoje estavam com preguiça de desunhar! A rapaziada aqui já andava impaciente. para entreter o povo lá em cima. Joca. Wm alarido de gargalhadas e acclamações. O velho Martinho já está com o braço morto de tocar realejo. agradecendo.. '« á união da rapaziada. — Então.«Todos se divertiam.ar^affiirHifcfHi ..CHANAAN 165 e todos tinham a liberdade de penetrar na área. ia repetindo os compassos. contente.— Collocadas as estantes(os musicos(sentaram-sg)e começaram a tocar uma marcha de que^ãaXqual. minha gente. enthusiasmado.na ¥iYjim Os homens da musica sorriam. gesticulavam. dansavam descompassados. etòdos automaticamente tiraram o chapéo. cantando marcialmente. alguns dos quaes eram seus conhecidos e camaradas. a Jacob Müller».

Era o argumento irresistível e proveitoso. a rodar. a^ípareceu no pateo. e. Olha. e dava algum lucro ao armazém. depois de se entender com o mestre da banda. Um velho alto. ^ lç . que fugiam rindo. com uma longa sobrecasaca preta e surrada. A creançada agora l-girava doidamente. vindo em grupo. porque a miragem d'esse copo afastava o homem d'áhi. ajuda-me. dando ordens. formando o quadro do pateo. Alguns velhos jáébrios.166 CHANAAN parigas louras. elle respondia aos soccos. fazendo mesuras ás mulheres. As creanças invadiam o terreiro. Tberrando: — A festa é das creanças. como si fosse movida por um pé de vento.. todo de branco k em mangas.de camisa. virava-se para os mais teimosos : — Anda. que tenho de attender á freguezia. persuasivamente. . e deu o signal de uma quadrilha. O logar ficou limpo da gente grande. entrou no terreiro para . h.applicavam-lhe palmadas nas costas. arrastavam as vozes. meu velho. O dono da casa. w com / .de cachimbo ao queixo./ outras jhejfpuxavanf) levemente a barba. n u m fingido susto. que se enfileirou aos lados. vae tomar um copo lá dentro. Algumas velhas. / um grande chapéo de palha na cabeça. abrindo espaço aos empurrões. de óculos azues e uma cara te genipapo murcho. A musica acabou a marcha. E depois. a rodar. Limpa o terreiro! Arreda! Vocês têm baile á noite. coradas. principiou a falar. que riam destemperadamente.

outras. « Alberto e Emma. . com os seus doze annos.. de modo que tudo corria em ordem. um dos pequenos recalcitrava contra o arranjo. — Mas eu estou compromettido. porém. fitando-a muito ancho. muitas ficavam entretidas. — Deixe. Foi um instante de socego. deitando-se na relva para verem passar a . / e s e . » As vezes.. Os pequenos estavam exercitados. « Guilherme e Ida. Das pessoas grandes.„*_. e começou depois a distribuir os pares. sem confusão.g/ O mestre awesignavafe Augusta Feltz. professor. O homem mandou que os pequenos se ordenassem pelos sexos.CHANAAN 167 dirigir o baile infantil. — Como? Com quem? — Com Augusta Feltz. lá ia para a fôrma. — Mas não é possível : você tão miúdo e ella tão crescida. e a musica rompia a dansa. . de canellas compridas e olhos mansos de veada. Afinal o professor conseguia arranjar as quadrilhas. replicava o velho.(se^tigayaní)da attenção.. sr. Professor. acompanhando a festa das creanças. chamando cada creança pelo seu nome. acompanhadas por outras vozes de mulheres. Que é que tem? Cada um escolhe a que deseja. que a levava de braço. inclinando o pescoço para o cavalleiro. tremendo-lhe as mandibulas molles. p u n h a d a passeiar pelo arraíaíTindo á beira t^^-J do rio. » « Hermann e Sofia ».. No circulo as mães intervinham.

onde cada um parece possuído do espirito do demônio. e olhando a scena. é a calma.. que proseguia vivo e animado. move os homens? Que queremos mais? Approximaram-se do baile das creanças. Era isto que eu procurava. Agora havia uma grande roda dos dansantes. solto sobre a face do mundo. no menor movimento. ora vagarosa. iam ga peréefido pelo matto a dentro.. — Mas.para morrer n'um espasmo de maldade. matar o ódio. no mais pequeno gesto. quando passeiavam pelo terreiro ao rythrno da musica.168 *~J7J£ ^YÍ-f '**^ CHANAAN agua . Compara este povo com os homens de outras terras. a reunião alli na estação do Cajá dava a sensação do esquecimento e da alegria. dizia. Aqui ao menos é a serenidade. Viver no meio de gente simples. partilhar com ella o seu doce esquecimento da dôr. alguns. no canto do universo. Em tudo. estridentes. e estrebuxandd. — Era isto o que eu procurava. / "*• — E não é o amor a acção por excellencia? E não é elle a força que aqui na colônia.. e . e que emfim achei. é a alegria. e outros $& reuniam—A1 ao balcão a beber e a cantar as velhas estrophes do prazer e do convívio humano. fy tíJjfdflisXo é a estagnação. de braço como noivos. é uma existência vazia e inútil. ia se movendo aos cantos infantis. observava Lentz traçando no rosto um gesto de desdém. que ora célere. que na illusão instantânea os transportavam á terra abandonada. devastando-a nos seus impulsos de loucura.. Milkay a Lentz.

se mettiá na a .CHANAAN 169 desafinados. e_d'ahi a pouco. com o amigo pelo braço. — Vamos procural-o. que parecia surgir pouco a pouco do seio secreto das coisas e » expandii"rnais livre á superfície luminosa. e os meninos pararam a dansa meio espantados. ia dizendo Lentz. 10 IM. . 7 jxut*' \ — Mas onde se metteu o agrimensor?.t lhes nos cabellos n u m leve arrepio que lhes descia da nuca. Creio que desconfiou comnosco. A aragem refrescava o tempo.. passando volátil pelas cabeças louras das mulheres. e beiços e faces pintados de vermelhão. fio meio da algazarra geral. 0 palhaço começou a cabriolar.L#Á<yh*/r^ . e marando por toda a parte. — E tempo. — E verdade. passando de grupo em grupo. mesmo porque já podíamos ir jantando. graduando a côr. de olhos tapados. E quando a meninada estava muito entretida. a divertil-as. Onde ^ se metteu elle?. fòfS0j{endo-as com a sua doce Jygsrv*gt*<perfídia. afastando-se do circulo.• . abrindo o circulo.. Uma immensa risada dos grandes o recebeu. um sujeito mascarado saltou no pateo. brincando. — E Felicissimo que não nos procurou mais? lembrou Milkau. accedeu Lentz./ roda das creanças. imitando animaes.<>. A^paz da Jâlde avançando subtil reinava sobre as gentes.. Já aquella hora o sol esfriando transformava magicamente o panorama. a gritar..r. disfarçado em palhaço maltrapilho. besuntada de alvaide a cara. propoz Milkau.

.. perguntando-üas. um par amoroso.170 // / W*- CHANAAN — Hoje elle está mysterioso comnosco. há'esperança de achar o cearense. fezlhes um gesto. descançava. Foram até á margem do regato.o que bebiam. cochichando. Com a presença dos extranhos. bebia-se largamente. e n'uma lingua arrastada. ^ Quando tornaram á clareira. Também porque não lhe acceitámos o copo de cerveja?. Áfywflfâflt até á beira das estradas. Não custava nada uma amabilidade. desviando delicadamente alguns colonos pesados e oscillantes. cantava-se. Tudo em vão. porém.. o joven abaixou a cabeça enleiado. desistiram de procurar Felicissimo no arraial e «e encaminharam-^* para a casa. Debaixo de uma carregada sombra... $mu£ou os perturbadores. Os dois amigos lançaram uma vista d'olhos pelo armazém e não viram o agrimensor. Uma caminhada inútil. dando volta por traz da casa. e ( ^ ^ ^ ^ Y ç y k m j W a ^ g ^ ande /* avistavam grupos de gente.. Éyéntraram no matto. — O h ! Também vaes logo aos extremos.. percebendo-os indecisos. com seus olhos serenos e francos. Milkau. concluiu Lentz. chegou-se a ella. O balcão continuava sempre cercado. A mulher de Jacob. n'uma tranquillidade altiva.. disfarçando a remexer nos gravetos esparsos no chão. a rapariga. tão idiota. enfadonha. indagando . Procuraram o agrimensor pelo terreiro. — E não se perdia um camarada.

a sala do fundo estava n'um grande borborinho. A mulher aconselhou-os a subir á sala do fundo onde se servia o jantar. emquanto a sala da frente se achava quasi deserta. — Até que afinal vocês resolveram vir. no sobrado. A mesa muita gente sentada comia avidamente.CHANAAN 171 de Felicissimo.. e falou-lhe dos logares encommendados para três. fatias de pão. e quando avistou os companheiros chamou-os n'um sobresalto. Em pé. De facto. n'um espasmo de satisfacção bestial. Felicissimo estava n u m a cabeceira da mesa com dois logares vazios de cada lado. agarrando lingüiças. uns com pratos na mão tomavam caldos. não mude os papeis. pois tão entretidos andavam. Imagino quantas amizades não tem por ahi. pois talvez ahi o encontrassem. respondeu Lentz. e outros. fixos. de vinagre e pimenta excitava a multidão e entretinha a sua voracidade. mastigavam com uma fome voraz e com os olhos injectados. que sem nenhum conhecimento temos andado vagando ámatraca. e meio amuado não se importou mais comnosco. e apenas com algumas pessoas á janella vendo o baile das creanças. Viram passarinho verde ? — Ora... Pensei que não quizessem saber de mim hoje. — Não me conte historias. — Aqui! Aqui! Os outros foram rompendo caminho e tomaram os seus logares. Um cheiro de alho... com quanta . Foi você exactamente que nos deixou.. patife.

172 CHANAAN rapariga não tem falado!. y~.. camarada. comprehender a sua vida e felici. e não sabia como replicar. enleiada. Depois.. Felicissimo mirou-a com malícia. — Lentz não se preoccupa com isto. que lá na sua lingua procura misturar-se á alegria d'esta gente. — Vá pregar n'outra freguezia.. — O peior. — Meu bem. seu maganão. A creada desappareceu rapidamente. arrastando a voz : — Qual. '^Tvunl — O nosso interesse é y^/t^^Â^o^^f alegna\ m 'c$ *' d'este povo. á espera de uma ordem..» dade. V. Felicissimo olhou-o com os olhos miúdos. você. uma rapariga attendeu. postando-se em frente ao cearense. elle resolveu-se a falar. quizesse partir. erguendo-se apoiado nas mãos.. Em pé. meu amor. — O h ! é verdade. O allemão enrubesceu. cortou Lentz. gritou o agrimensor.A ^ é * ^ ^ * " -j . e depois como a allemã. então você mesmo. berrava chamando os creados. Afinal. você traga jantar egual ao que me tem trazido. nada de segredos. cahidos e vagos. Milkau veiuemsoccorro. que quer mais sinão.A. Vamos lá. não me conte rodellas.. com uma cara ffflfa de um riso complacente e velhaco. meu amigo. com um 0 ' y^XA***'/ C«*w mfo' yt£r. comecemos por um caldo de hervas. piscando os olhos para o companheiro. para estes dois amigos. é que com esta discussão nós vamos ficando sem jantar.

recusavam a comida ordinária. bateu na mesa. Milkau agradecia com outro gesto. Puxou o copo de cerveja e bebeu. n'uma expressão amável. eu não fiz: beberei todas seis. — Si vocês fizeram voto. que serviam no meio de algazarra e de >A_ desordem. e os cumprimentaram com gestos de cabeça. pedindo que lhe trouxessem outras seis. o agrimensor exhibia-se por 10. . Alguny ^caixeiros da cidade. — Ah ! esta vida ! esta vida ! murmurava o agrimensor. Alguns d'estes rapazes que eram da casa de Roberto. Felicissimo estalou a lingua. e sem saber o que dizia. que a seguiram como servos amorosos. Felicissimo bebia sempre com grande alarde. Olhou a garrafa queesvaziára. Dos seus logares offereciam-lhes vinho. de que se serviam bebendo o vinho do Rheno. melancolicamente. objectou Milkau. e pediam aves em conserva. acenando com a garrafa. e tanto barulho fazia que não tardou muito sobre elle se voltasse a curiosidade geral. e o grupo continuava a beber indifferente e desdenhoso do resto da gente. reconheceram os antigos hospedes nos novos colonos. — Nós não tomamos tanto. Milkau e Lent^ começaram a jantar dos pratos rústicos. atirando-lhe os olhos. mais \}em<>dU*^r trajados que os camponios. Excitado por essa attenção.CHANAAN 173 movimento airoso como um passo de dansa.

Disputava-se cada garrafa das mãos das creadas. levantando brindes. mas que ao seu lado eram retomadas com brio. versos d'essa toada sertaneja que lhe falava tão intimamente. A estes o agrimensor respondia improvisando versos em portuguez. cantando canções allemãs. mas a cadência dos versos os enternecia e era com amor que pediam ao cearense que não parasse. Os camponezes o admiravam n'uma alegria infantil. na desordem. o liquido se espalhava pela mesa . e na confusão.-^noços e mulheres.174 CHANAAN todas as fôrmas. que estropeava. continuando a gritarja.. para acompanhar as canções^cujas notas graves eram abafadas no barulho. trepado na cadeira. com phrases insultuosas. A * _ y com enthusiasmo. que* / rendo conter a matinada. O dono da casa. Este variava o seu repertório. na desattenção. de copo em punho. Muitos não o entendiam. para forçal-o a descer da cadeira. os rapazes da cidade o deprimiam com applausos irônicos. . protegendo-o contra Jacob. pelos colonos. ditas no meio de risadas. O agrimensor o repelliu. e outros o cercaram. feito de vozes de velhos. augmentado pelos repiques nos'copos e nos pratos/e/fi/som estridente de um ni £.// realejc/6ue . berreiro descommunal. destacando-se apenas os agudos. Produzia-se um . que foi expulso da sala aos empurrões. violentos e ferozes. O agrimensor ordenou por sua conta mais cerveja. dansava. tomou Felicissimo pelo braço. cantava. que mandava distribuir em torno.exà tangido n'um impulso frenético / .

i .moíjolvenéo^é na contemplação./ paratadamente de kjjdbúkd a cada canção. — D'aqui não arredo. intimidadas pêlo silencio que ellas mesmas faziam. e as -mais pequenas. com os olhos pregados no es/ ' paço.. Fora. Os que yfÃJ* ainda tinham consciência.CHANAAN 175 dos copos entornados na sofreguidão da conquista.«f**-*5. não arreda..^ j m . sem cólera. E os allemães embriagados o acompanhavam n'um berreiro. gritava elle. intermediário.*./ nio da várzea abandonada pelo sol. l' hf C'lr /r ( ' . o vento qf*TWCrilTjiMifc. E de então em deante estas palavras serviam dis.Y17*^}^ rense. a desfructar o resto da tarde no terreiro./ saudade. perseguidos pela vaia dos que / ficavam.* *"* ** '^ >VU0S*. Milkau temendo pelo agrimensor. de idyllios^ L^T**"^*? campesinos casados com aquelle estribilho do cea.^ . j{/•xy*™rf/t e todos se sentiam sob um encanto mysterioso de •"*-». que se fitavam com expressões varias de desdém e **^" j dj/divertimento. de repouso. riam gostosamente da ira dos outros e mais que tudo do effeito dos pro prios cantos cheios de versos de amor. No terreiro as creanças-fafigadas estavam serenas. propoz-lhe sahirem um pouco. ^ ' ' . sem)odera-v/)furtivamente do domi. "-—' . encostavam/ *. E n*esse ins/ tante in4eciso. E os dois foram-se esgueirando jy -&L da sala.. cabeceando de somno. Xy*-" . a lua vinha rompendo e a claridade que d'ella descia. / S r ^ Milkau e Lentz julgaram-se no meio de doidos. — Não arreda.

fora mais illuminada. a musica tocava uma valsa arrastada e langorosa. Detiveram-se e sentaram nas pedras. doavam proL^i-Í*'^* vocadreâs sacudindo com os seus movimentos. até pux. e pouca gente dansaya. os pares se compunham de rapari(/$*' gas. e o foram margeando. e a luz xfyÇjyíjfo/e quente que sahia das janellas e das portas. No terreiro já não havia quasi ninguém : as creanças tinham debandado. A sala. e todos se divertiam alegremente. i ili s. onde na sala da frente se começava a dansar. Agora é que se podia vêr a variedade de <^<*^«-- p^yHi^J^-u UCm- . pois muitos ainda do mantinha-m/á mesa ou se postavam en^ Jj costados ás portas e^ janellas. • ella estava illuminada. Os dois amigos caminharam até ao rio. abria um cir/v r "^" ** ~ culo de fogo em phosphorescencia. ' tes. volveram á casa da festa. ^j I ou /recolhido ao salão do baile.. haviam partido para as colônias. que. os grandes. descuidosos por algum tempo. E mais tarde. dentro da claridade mansa e leitosa do luar.. Os músicos recolhiam os instrumentos e vinham vagarosos jantar. e s t i m u l a n t e ^ ^ f f i V I i Não oc pass^-muifô^a^^-ciffiffvfue 0 baile [ v**** ' entxOáigf em plena animação. tímidosjjd negligen. como esfriasse. a musica não cessava de tocar. Quando a descobriram. Em geral.176 CHANAAN se ás mães sentadas no chão. Subiram ao / sobrado. o' ' / torpor/ dos rapazes. Alli. depois que L ^ " * ' a noite avançara. erü^çadas umas ás outras. e ouvissem de novo a musica.

sentado a uma janella aberta. Martin Fidel.. lavradores. Parece que não cança de levantar aquella cabecinha. distinguindo-se do resto das outras raparigas. não vê? E um colono e filho de colono no Jequitibá. desengonçadas ou morosas. voluptuosos. caixeiros da cidade. sem separação de classes. Amanhã estará trabalhando com o mesmo ar — Naturalmente é uma colona. que estava ao lado de Milkau. a família está toda aqui.. passou.CHANAAN 177 gente agglomerada na casa de Jacob.. com as'mulheres. — Não.. de nariz grande. é creada no Cachoeira. — Realmente. Um homem de tosca figura. — A h ! E preciso conhecel-a para saber que não é só no baile. A mulher já -é velha como elle. creadas e todos reunidos n'uma grande promiscuidade. O pae . acompanhava a festa.. uma joven de flexível graça./ r i m r— Não ha nenhuma que seja capaz de chegar a Luiza Wolf. é muito graciosa. na serie de pares de uma marcha polaca. e o patrão d'ella é aquelle mesmo que é o seu par. tropeiros. Não conhece? — Não. rrfrriiiiir n~ rlin i r » . arrastadas com estrepito pelos seus pares. Deante de Milkau que. é em tudo assim.. Ah! lá vae ella ao braço d'aquelle mocinho alto. Alli estavam negociantes do Cachoeira. de movimentos ondulantes. — Pois admira. é um dos negociantes mais ricos da cidade.

refrescaríy». ora fazendo evoluções de homens e mulheres. cõTfío por uma combinação mágica. (drAddjMfà as mulheres amar'TC i s raVám lenços ao pescoço. e todos livres » movianrragarosamente. resmungando conversas y o*. marchando frente a frente. o par é a creada.. gorducho'. barbado e de chapéo na cabeça. í \jfr lhes escorria da fronte. ora desenhando meias luas.178 §KANAAN d'elle também está dansando.seu informante tinha-o ijli. > 'Y.) £/ Milkau estava só. batendo fortemente os pés no assoalho. ora separando-se em alas.no es^g^ro. é aquelle baixo. faziam um barulho secco..à 1? abandonado. separados. por causa do suor que . dentro de sapatos grossos ferrados.. enorme. Os dansantes continuavam no compasso marcial da polaca. abraçados. executando variadas figuras. velhos fumavam o seu cachimbo. procurando os bancos encostados ás paredes das salas ou aos cantos das janellas. o . como vê. Muitos sahiam até ao terreiro para §&. namorados passeiavamalli. arrastando-se com esforço. i ^i^^xamente^de eharuto^ú* cachimbo ao queixo jljl Yj chapéo na cabeça. Quando^ícon^adansãAparava)os pares se voltavam-Vèn'um mesmo instante. que^iominava as vozes dos instrumentos. Os movimentos eram tardos e pesados . uma desenxabida. farto de lhe relatar coisas da colo- í . para se reunirem depois de differentes voltas.

10$k£$0faí certa b e l . era o cabello louroJfôfo.com certa ousadia. . plácida e innocente. ás y//<?&/ vezes. o mirava nos ^ olhos.# y W ^ ~ ' leza. tocou de novo a musica uma valsa.'"* seriam a vida e o amor da "rapariga/Esta respirava f *. no mesmo banco. Também da sua parte ella não deixou de acompanhar a furto o vizinho e. MilkauJentãcVtáj^ á vizinha.CHANAAN 179 nia. volátil. Lentz desde muito tempo não apparecia na sala. alegres. Ày*i<y<f''\ 4A . estivesse no terreiro passeiando solitário. /^jg JffflYOyH^Ut» -é. as vozes d'elles. ao menor ' silencio da musica. z—^~ porém de um contorno fartoJe as mãos brancas. entoadas. talvez longas demais. becas de galgo. dxlixfJb . . sentaram-se duas mulheres* ^ f u m a dr*il$>c»xeconheQ$bs!tto. Mas o queuuiaTÍffrfta de superiort^*"* ^ era a fronte aberta. tinha um ar fatigado e sentava-se n'um pesado abandono. o porteesa gracioso. e quasi todos foram dansar. De vez em quando.o busto erguido. meigos e infinitos "~~^j sobre os -quaes via boiar imagens doloridas que —. Felicissimo não sahia da sala Q de jantar. e o amigo pensou que. Estavam alli. Junto de Milkau. I J^T^ era a expressão da bocca./ drolltb. da sua bocca descorada. entravam n'um grande alvoroço. aquelles mesmos olhos. fatigado d'aquellas simples e monótonas dansas.& offegante. a mesma que na capella o fitara durante o seu somno. a descançar bem perto . Alguns minutos depois.' mas humida e bondosa. uma distincção maior do que era commum J*t4*>' nos colonos . onde com amigos allemães continuava / *~ a cantar e f beber. sahiam%os braços como ca-.

. conhece-se a nobreza ou a grosseria da raça ou do grupo moral a que pertencemos. á moda do logar. como habituada aquellas maneiras da amiga. Mr rntão^silifrrrorin r tmnf^iill? Respondeu promptamente: — Não: não posso.. pela voz. confessando que não sabia dansar. arrastando-a para a dansa.. E sorriu levemente.. quando não me sinto bem.rapariga. e como que rasgava um tênue véo para mostrar a deliciosa paizagem da sua alma.180 CHANAAN Não dansa ? (Ju-4j?'' Ella não se intimidou ouvindo-a vaq&^Mliii. se érgueu-e. voltando-se para a amiga. Vejam só. si quer um par. pegou na mão da outra rapariga. Mas ninguém me acredita. <0L. pois não me sinto bem. percebem-se as qualidades secretas de cada espirito. disse radiante e rápido : . E como em toda a voz humana. Milkau ficou meio confuso e desculpou-se. tomou pelo pulso a outra moça. Um rapaz ae approximouj e sem dizer uma p a lavra. que é uma das melhores na valsa. E a sua interlocutora : — É o que me acontece pretextar. aqui tem esta minha amiga. o accentp da sua era uma revelação da personalidade intima. ajs*</ e com gesto de carinho quasi maternal. mas. que traduz a musica do cérebro. que se deixou acariciar negligentemente. sonoro. A voz d'ella era um canto intimo.

... Neste banco ou na janella. i — Sim. Quando a joven partiu arrebatada pelo par. Tenho tanto que te dizer. Não é por preguiça seria para esquecer tantos aborrecimentos que iJdesejaria um grande somno.CHANAAN 181 — Maria. que ás vezes seria melhor passar a vida a dormh. onde me esperas?. volveu com vivacidade a rapariga. — Eu ? Nunca.. — Fazia um calor terrível. — Por signal que eu dormi... Maria enrubesceu. — Já vejo que converso com uma grande preguiçosa. Maria disse a Milkau : — Não lhe parece tão boasinha ? E filha de um colono do Luxemburgo. " li t~. — Deixe lá.' '' . recordo-me bem de que não estávamos muito longe um do outro. E o pastor não o divertia. E verdade. referiu Milkau.... mas immediatamente retomou o fio da conversa. replicou meio confiada e intima. — Por aqui mesmo. Lembro-me de tel-a visto na capella do Jequitibá..... sentia um bem esta-" immenso... Não quero me separar de ti. e hoje tem sido um regalo — Oh! desde manhã andamos n'esta roda viva. ha muito /empo não nos viamos. e o somno me veiu como um arrebatamento feliz. Ao contrario. não é verdade ? — Não sei....

não me mexi d'aqui á tua espera.* raço. amor. C_J — Aborrecimentos? Imagino a que «)isas ' simples dá este triste nome. que também ao seu lado não sentia o menor constrangimento e se exprimia sem emba. quando logo depois os ergueu. quando estás que não podes ? Não. — Como é bello dansar! Com a sua mão fina fazia um aceno affavel ás amigas que passavam. Levantou-se. para sua companheira. as cadeiras alli estão desoccupadas. sentar-se á janella. — Talvez. E agora queres dar um passeio ou preferes ficar aqui ? perguntou a outra arquejando' de cançaço e sentando-se instinctivamente : — Oh ! meu Deus ! Passeiar. Ella não respondeu e ligeiramente abaixou os olhos. Quando a musica parou. Milkau ia achando prazer em se entreter «om a rapariga.. fosse preferível. disse Maria á amiga. e as moças correram sôfregas para . — Eu sabia. allucinadas no movimento aéreo da valsa. Vamos para lá : o ar fresco lhe dará forças. observou Milkau. como a um velho conhecido. mudou de assumpto.182 CHANAAN Acabou a phrase com uma voz sumida e vagarosa. descança um pouco. os pares se desfizeram e cada um dos dansantes tomou direcção diversa. — Tu vês. observou Milkau.

Todos se precipitaram para indagar &fc que se passava. os rapazes protestam contra a innovação. Havia grande discussão. Milkau sahiu para vêr de que se tratava. o agrimensor insiste. — Não é nada. receiosas de perdel-as. T/fâúindo que uma grande ^A*//** rixa se travava alli. 0 primeiro olhar d'elles foi para o quadro de fora. em vozes altas _ / e agudas. e pouco tempo depois voltou. — Que é isto ? interrogou Maria.? perguntou Maria. \ . O agrimensor Felicissimo entende que já basta d'estas dansas extrangeiras e que jgora se deve passar ás dansas brasileiras. 0 verde das arvores se adoçaVa á luz diamantina. rijo. um vento manso balançava os ramos.. puro. ensaia alguns passos. transparente. meio assustada por um grande barulho de vozes. as nuvens. — E afinal. e o grande f ampo dzsí. livre. Maria e a companheira ' 'não estavam tranquillas. Toda a terra estava inundada de umiluar branco.. a torrente rolava borbulhando. se desmanchavam no horizonte. descendo no céu. Os músicos não sabem como executal-as. quer forçar os músicos a tocaram. assobia. mas tudo cortado por atroadoras e ^tf/]Mf///^ -7^w*2! dfy gargalhadas. que vinha da sala de jantar para o logar do baile.Jví> CHANAAN [\r*f- ' | v« 18g as cadeiras indicadas. sem estrellas e desmaiado ia se transformando em um pavimento de crystal. Todavia. que elles ignoram. e d'estes as sombras ainda longas dansavam inquietas.

e « j ^ cio de espera. Junto r*?"^"*"^ aos aos músicos. J_ ram para os seus logares. desengraçados. ftffâffl /uccedeu um silení^. Riam em torno. n'um borborinho de risadas. Rodava sobre si mesmo. medonhos.E. ^ f ^ f M W ^ ^ J* / » ^ ^ ^ e > € ^ ^ í ^ # I ^ M j 3 g ^ expe*+*" ^ ^ compJLssísMxx^tnJlndÀ/o^me^nòs gís d^da^síf q«ae '"'* r *' +.^ para a sala. tíremeduára. Depois d'este accordo. arrastava a perna. começj/tjfyfL a tocar uma peça arrastada eM^ . w ^ * ^ " e muitos amontoados ás portas e janellas. e jamais um gesto se casava com o compasso da musica. e a gente anciosa correu ^ . *%*y*c*-o^ livre para a dansa. para con . no meio da casa.. agoxWitf ^ ^ t ^ ^ ^ a f i n a d a . ensaiava ' estalar os dedos como castanholas. quasi todos estavam sentados. músicos. poftyj/í/rffôfyjf oxchestxa. acocorava-se. $if fáfLyju. achando aquillo estúpido e gro- . fazia tregeitos desconnexos. e veremos alguma dansa da terra. Mas nenhum som produziam as suas mãos dormentes. A musica suspirava gemidos languidos.t^^1 que ia elle dansar. erguendo e abaixando os braços.voluptuosa. r^. Alguém perguntou ao agrimensor o yyy. C W De facto. cambaleando. andámen„ < * * * ***** ^ 2 to. sahiu para o meio ^"^jtjtft-^da sa^a> gritando com voz difficil : Í ^ J * — E o chorado. rencissimo Felicissimo cantarolava cantarolava oo anaamen-/^. meu povo! /JZhltÀt*-.184 CHANAAN — Afinal parece que Felicissimo vencerá. com ty*-^ ^ os olhos tortos e compridos. / C . os músicos vie•. «^vT seguir um bom logar. e o dansarino só. ninguém se movia mais na sala. Felicissimo.

• altiva e extraordinária alegria.fz0 A rosos compassos. O agrimensor apoiou-se com a mão á parede. Foi uma barafunda. /-éy^***'" Durante algum tempo ninguém se moveu e a 9<^ri. . Mas. o seu corpo se arrojou rápido. entre gente de outros mundos. mas os lè^i vizinhos o sustiveram na f/f* cadeira. Felicissimo ainda tentou erA guer-se. A sua alma nativa esquecia por um momento essa dolorosa expatriação na própria terra. violento contra a parede. e afinal. Joca pulou na sala e principiou a dansar. Todo o seu corpo se agitava n'um só rythmo .. agradecendo-lhes com o / enternecido/olhar de bêbado manso. como um fauno f/ll antigo. com os dentes em serra. A embriaguez do agrimensor era completa. uns fugiam abandonando os logares. Por enthusiasmo.. com medo de alguma queda desastrada. sorria. solitária nos seus largos e cho. ~ livrando a cabeça.-/. e cahiu J^r/á/á^ e pesado n'uma -w-J^Z cadeira vazia. o mulato se transportaya)para a longe de si mesmo e se transrlgTrnrvjíf n'uma 4. a bocca entreaberta. de repente. a cabeça erguida • tomava uma expressão de prazer illimitado. todos gritavam de susto. outros riam do espectaculo. Felicissimo deu KJ mais algumas voltas.í*' musica didi^dM^. Elle -deixou-se prender. e o inutilisava inteiramente. os cabellos i» agitavam livriuricnlij ou / U . por prazer. a musica continuava. Arrebatado pela musica que lhe falava ás mais remotas e immorredouras essências da vida.CHANAAN 185 tesco. como n'uma gui.'*' nada de navio.

vertiginosa. fazer um silencio que desequilibrasse tudo. como a dansa de um beija-flor. era musica. as mãos. vinha languido. de cabeça inclinada e olhos compridos. tremulo. corria pela sala saracoteando o corpo. quasi de rastos. mas que se adivinhava febril. elle parecia. na sua alegria rara. ou molles cahindo sobre a fronte. querendo arrebatal-a n'uma volúpia contida. estalando castanholas. requebrado. N'esse momento a orchestra podia parar. e nesse gesto. vivendo. outras. e achegava-se a alguma mulher. ébrio de musica. paravam. imperceptível. ora espalmadas no ar. ora baixas. espraiando-se na velha dansa da raça. quasi pairando no ar. sacudindo os membros n'uma dansa desenfreiada. ás vezes. erguia-se n'um salto de tigre. como n*um grande ataque satânico. no seu corpo triumphal. Umas vezes. no impulso da sua alma. agitava-se todoy . rápido. Joca não perceberia a falta dos instrumentos. retomava a sua doidice. com os pés juntos n'um passo miúdo e repinicado. com os braços abertos. os pés voavam no assoalho e. querer voar. ora unidas. n'uma ^rbjfação '^/e*** de todos os nervos. pois todo elle. era vibração. todo elle era movimento. obedecendo ao compasso da musica. perfilado nas pontas dos pés.Hy ^P^y . sahindo dos braços retesados.1S6 CHANAAN empinados e eriçados. suspenso. Depois. que dava a illusão de um instantâneo repouso em pleno espaço. A scena continuou algum tempo com esse único *-.

fluente como um rio. Joca procurou um par.. Todos tinham curiosidade e nada mais. e sem saber o que fazia. que correspondesse aos seus movimentos.. de remexerse ao rythmo d'aquella dansa. Era a valsa aiJi t i lema. Ninguém veiu. esque. /Z^tèr^/ei outra dansa. Maria estremeceu ouvindo o canto de amor. uma raça toda extincta ^jtí^f/j^f n fi^W&fyfflr^ Jmlfy. declamou como na velha bailada : — Ob ich dich liebe ? Frage den Stern. pouco a pouco foi cançando. toda entregue á paixão. N'uma das janellas um pax IfáYJfftflLava.. de uma saudade das suas companheiras de mocidade. Havia jaaki luar Í W W 4 * « / fora. Um momento a rapariga alteou a voz. que sentiam como elle. e. as pernas morenas não se retesavam com a mesma energia de pouco antes.ff/lJ+tf**" cido de dansar. tomado de uma repentina tristeza. larga..CHANAAN 187 personagem. assim o • yUJLS ultimo interprete das dansas nacionaes foi cedendo J. Desolado. ////'*' f" '' tà*\ Na sala<^^pares/roavarrí n um frenesi. emquanto outra musica. uma mulher que acudisse aos seus appellos. infindável e sus^ surrante palestra. Era uma longa. das mulheres negras. «^ 'f^ o terreno aos vencedores.jJKff^0ff *y^fJM^I0^lfl a amiga de Maria. invadia o scenario. clara. E como o derradeiro sobrevivente de. com a flexibilidade vigorosa do páo d'arco. vae derreiando o corpo combalido.. O peito offegava. fitando com os .. as sombras minguando se resumiam mais fixas. ninguém sentiu o Ímpeto de sacudir-se.

Por sua vez. gritou Lentz. Acabara a dansa e era a hora da separação. foi procurar Lentz. lá ! j O pensamento de Milkau. sem uma companheira. no seu destino. peior que o eterno frio. ao ar livre. entre vários colonos. aqui nesta Terra radiante. Pensou na sua própria vida. Um velho7chegcmi#á janella onde estava Maria^ chamou-a. n'esta solidão enaque ia passando a existência. como obedecendo 1 a um chamado extranho. — Oh ! pensei que fosses o ultimo a deixar esta casa. principio da morte. ** viçosa e feliz. um grande silencio reinaria nestes mesmos cantos cheios de movimento e de alegria. apontou a lua. e uma immensa tristeza. Milkau. recebendo jovial o com- . sua vida casta e mysfica. E para quantos não jpomeçára o isolamento.. toda a vida se acabaria.. que no dia seguinte se tornaria a vêr. como de um antigo conhecido.188 CHANAAN olhos ardentes o céo. encontrando-o. A moça despediu-se de Milkau.. Sua vida triste. Hfefcjmaginou a solidão de um mundo sem vida. envolto como n'um véo intangível que o não deixava sahir para o mundo nem permittia que o mundo viesse a elle. já recomposto d'aquelle instantâneo desfallecimento. dizendo com uma voz sumida e tremula : — Que tristeza. essa terra deserta. marchando como um cadáver phantastico na estrada do infinito.. subiu ao astro morto. no terreiro... p f e f l ^ f o u (f[&u< que algum dia também.

— Bem. s t T a m " m e.CHANAAN 189 panheiro. no futuro. — A caminho ! Adeus. Não sabia que eras tão grande apaixonado de festas. que os enlaça e domina na força do seu triumpho. mas agora cuidemos de ir para casa. £j I . começaram a ver cruzes pretas e pedras brancas por entre os pés de café.. disse Milkau. < v iA Bateram durante horas e horasA mesma estrada / j* * '^ de manhã perdorrida.. escassos e raros na fralda da montanha. Até um dia ! . — Que é isto? perguntou Lentz. amigos. por um grande cafesal bello em sua 0 íf}utviçosa negrura. — Aqui estive a conversar sobre a Allemanha com estes amigos. A terra dá o menos possível aos túmulos: elles. na encosta de uma montanha ma. Não ha em Chanaan logar para a morte. camaradas ? / / / ^ K^ ty"$tflftf /ppl au dirarr>la prophecia. — Um cemitério ! respondeu Milkau. gestosa. vendo os outros alegres e te quiz )>' dar~a liberdade de também te divertires ao teu modo. Não é verdade. E accrescentou : — Vê tu. não apagam nem dão sombra sobre a Vida.«Z***»*'. —' / f P . E falámos também de outra Allemanha que ha de vir. \ffôjfncfyfâfap£$$£/$ f/jf* jèfâfffifa.

na mesma casa onde ainda vivia. antigo colono estabelecido no Jequitibá. as creanças crês/ IP- . Filha de immigrantes. e um neto que nascera um anno antes de Maria. Nascera na colônia. ^* vC/ A historia de Maria Perutz era simples como a miséria. a mãe viuva e quasi mendiga ^ empregárar"como criada na casa do velho Augusto Kraus. no barracão da Victoria. Muito das palavras do desconhecido se impregnara no seu espirito.VI Maria não podia esquecer os fugitivos momentos do seu encontro com Milkau. morto ao chegar ao Brasil. longe do Porto do Cachoeira. A « colônia » 0JL prospersí i os outros habitantes eram o filho ca^ ^ j s a d o . Vivia-se tranquillamente. de cC" um pequeno clarão dentroyíi. e ella guardava recordação d'esse dia do baile como de uma festa tranquilla para a sua alma. jfóytâ/yjflfk da sua /»*•»*•-vida. não conhecera o pae.

o facto devia ter acontecido na sua remota infância. viver por viver. amores fabulosos. Sentir a vida é soffrer. s^entretinha^em encher as almas dos meninos de recordações da sua vida. á alma cançada e saudosa do colono. cuidava como de uma creança. tendo quasi chegado ao extremo da curva desse circulo em que as edades se tocam. se punha a fumar. A sua família. como o sol. ^^fjò se separavam á /<J noite. e com o qual mesmo se confundia n'uma grande innocencia. como vive a arvore. de quem ella. vigiando o gado. Esquecera Maria a morte da mãe. paizagens extranhas. de rever essas montanhas da Silesia. quando o ancião vinha para / o meio do terreiro ^Iff^f sentado n u m tronco / / ^ ^ secco de arvore. Com elle conversava longo tempo. O grande amigo de Maria era o velho. O ///' ' sonho era sempre o mesmo.onde dormira quando pequeno.CHANAAN 191 ciam como irmãos. na completa felicidade é adaptar-se definitivamente ao Universo. de que se não distinguia. depois da ceia. a consciência só é despertada pela Dôr. passando a existência sem perceber o mundo. crescida. por muitos annos viveu como inconsciente. Ignorando a própria historia. scismando. de coisas longínquas da pátria gerrnanica. e o velho Augusto. para elle cantava coisas cujo sentido não entendia bem. Viver puramente. um anceio de tornar á > sua terra. não lhe deixando traço na memória. e já moça. lendários. o seu lar era aquelle em que fora recolhida. Nesse . mas que falavam.

até que na epocha da sua' migração. rapariga resultasse alguma ligação de amor. e Maria scroccupavam"em arranjar os leitos. a rapariga achou-o derrubado. Augusto Kraus 9 sentava"ao ar > livre. Elle as viu sempre an» &ud marcha de força^•Áà. Uma noite. E assim. Emma... desceram do céu. de v./jS d ° s n-° c a m p o azul. Já a tristeza entrando no seu espirito lhe revelava o desencanto da existência. baixaram ás águas para desapparecerem uma noite e serem trocadas por outras. de bruços no chão e gelado. lá vinham algumas das antigas conhecidas. _„ ^^ n'umi?ejit¥eftescime«í© infantil. e foi a ultima.j/amJlrA das as preoccupações tomadas. ao balanço do mar. lhe 11 1 traçava a separação entre mfo. Mas. farta como um paiol de algodão. As mulheres. já a ambição dos colonos." i quando a tarefa se concluía e as duas voltavam ao silencio. Maria foi amante ' do joven Moritz Kraus. que assim se chamava a nora. apezar de to•. Estes amores eram. como perdidas das companheiras. donos da temerosos que da convivência do filho jfylíféfl Jláo casa. Maria sahia a buscar o velho. e elle as saudava pelos nomes. para vêr rfVBCrfV* a s velhas estrellas. n'este outro mundo.ez em quando. Depois da morte do velho a situação de Maria na família foi se modificando. como . despertando-o de mansinho/Énfiava-lhe o braço. arrastava-o brandamente até ao quarto e o deitava na cama fofa. até que adormecia tranquillo como um pássaro. Mas ainda.7w <<•^ 192 CHANAAN O tempo conhecia pelos nomes as solitárias estrellas.

sem suspeitarem do ponto a que tinham chegado as relações entre ^_* Moritz e a creada. Não era a distincção de classes. os amores da colônia e deviam acabar por um casamento. que lhe parecia entrar gostoso nos planos yrnAkt*r dos pães. . que a convivência tornara inevitável e levara ao maior compromisso. os planos da família ? Para o rapaz aquella ligação fora uma simples conse- . os pães. Que era ella sinão uma miserável. a avidez de incorporar o filho á fa*§ milia Schenker. uma pobre creada. que não existe entre os colonos. deliberaram mandar o filho para outra colônia. O seu abandono foi completo . quasi todos da mesma origem. com os seus desejos e ambições. uma das mais ricas moças do logar. que poderia ser lançada de um momento para outro na estrada ? Como •'" poderia embaraçar com a sua pessoa. Queriam que o filho se casasse com Emilia Schenker. longe do Jequitibá.iy esperando esquecesse o amovf/ffl^ffl/ftffl^-# ^#££ ijjpyJL o espirito dos Schenker para annuir ao dese. JC^od** Maria viu com grande pasmo a docilidade do *«ÁC«*/-amante. que os levava a afastar Maria. era apenas o interesse. onde o alugaram como trabalhador. Assim esperava Maria.v L Z ^ 3 jado casamento.CHANAAN 193 em geral. Assim. e no d//dft de cortar uma ///*****£• simples inclinação. de Moritz. não tevê meio de communicar com Moritz nem animo de exigir o casamento./( tual. Mas a cupida ambição dos já então velhos Kraus não permittijp que as coisas seguissem o curso habi.

que lhe enchiam os ouvidos. os olhos semicerrados se perdiam no azul do infinito e tudo. e Maria. teve a dolorosa proy[/<x vação de se confundir f. cada hora mais abandonada. alegria dos-ou-tres-. fora apenas uma conclusão animal. e.^ t I tavi/fddtífo e satisfeito a esposal-a. elle sVprest ' ( ./ tumescidos. esquecia-se da tarefa. um grande suor fria. e desde que lhe acenavam com outra mulher rica. terra. porém. parecia balouçar como em alto mar. fl <2oul ' Pouco a pouco.E P o r i s s o n ã o esque- . —tinha tonteiras e tudo se lhe turvava nos olhos. Maria já não era a mesma galharda e resistente serva. Um grande desanimo a . reprimindo os sobresaltos./ tomava. !IJ°^^*tyyL)0íftfÍL só do desalento moral mas também da mysteriosa perturbação do organismo. os cabellos amarellos se £*?»*• f misturavam K relva vecdej-es-^seios arfavam in^t—. não foi á capella nem ao baile de Jacob Müller. céos. Indo ás festas da colônia. e de vez em quando.. e ella(osjüesapertav*)n'um gesto de / desafogo. a bocca se humèdeeía. inundava-lhe a fronte e á garganta I<VK—/ lhe .. mais inquieta com a fatalidade da sua sorte. Quando no cafesal lhe vi/ nham subitamente esses momentos de cançaço. y/tí _ Íf0t^/fHtfft a a S o n i a . —fraqueza yfyyfffip .194 CHANAAN quencia da vida em companhia de uma rapariga .subiam náuseas. deitava-se ao sol n'um / completo abajádono. alvoroçou-se.. retendo uma immensa vontade de chorar. pensando encontrar-se com Moritz. ouvia phrases e juramentos de amores alheios. Este.

Kraus olhou o escripto. no ièrj.da montaria. outra sensação. . n'uma doce conspiração. desolador. que era a sua nova existência. que cahia sobre ella como um refrigerio para sua anciã. mas teimava em reproduzir de / memória aquelles momentos.CHANAAN 195 cia a sua conversa com Milkau. ella se apegava a essa lembrança/como a um trecho de verdura no deserto immenso.. apezar de estar no Brasil havia trinta annos. a que pouco A pouco / ^"" a turvada imaginação e a frágil lembrança. mais forte. o dono da casa ia partir para o cafesal próximo da habitação. mais l expressiva.. Quem era elle ? Quando o veria mais?.•/-rosamente. tome conhecimento d'isto. E sabia que tudo tinha passado como o rasto do pássaro no ar . •~fc&/"9 — Pois. e como. aba. sem significação. sem alcance.. montado n'uma besta. Uma manhã. cflÇ^^-n^* n™~JwwH I^^^J^ . então. não sabia ler o portuguez. tudo ' pervertendo. ?>o outra.. vivendo em si mesma como hypnotisada. f*\j „ O colono disse que sim.. eram ainda assim repassadas de uma infinita brandura. As palavras d'elle. E no led desespero. E desdenhoso entregou-o papel. que t-jfáfa-skcbaiag-. ficou embaraçado. . vazias mesmo. se approximou d'elle vaga. quando um mulato.^ / ( 1 — Você se chama Franz Kraus ? pergunto*! o tS^i^lA' v-mulato de cima. desdobrando uma Q° ^ ^ -folha de papel.tj-f W timento. em funda agonia. iam doando / L ^ ^ / outro relevo.

. Não esconda nada. o escrivão e eu. O colono. ao meiodia. Picou o burro. porque de nada lhe serve... Não era assim o nome d'elle? A audiência é amanhã. / CHANAAN . E os quartos.. que sou o official do juizo. f. São três juizes. "* . e solemne lá se foi n'um chouto pelo caminho. Ouviu ? Bom. Não lhe deixo contra-fé.e do melhor.y //Lr <*•» / . quando o mulato continuou : — Pois fique sabendo que isto é um mandado da justiça. sinão cadeia. com o chapéo a rolar nas duas mãos. Que raça ! O colono ficou aturdido com aquelle tom insolente. E um mandado do senhor juiz municipal para que vosmecê dê a inventario os bens de seu pae. mais essa massada. Venho por aqui furando este mundo.. Era só o que faltava. O meirinho gritou: m*^" i ft " . tirou o chapéu submisso.... Augusto Kraus. adeus . voltouse para a casa..... Que é? — Também vocês vivem aqui na terra a vida inteira e estão sempre na mesma. Prepare do que comer. A Justiça pernoita em sua casa. — Ah ! Prepare tudo para se arrolar. j $ $ ^ o mulato. que também se conta.. aqui.196 — Não posso ler. e ficou como fulminado. e de casa em casa sempre a mesma coisa : ninguém sabe a nossa lingua. ouvindo falar em Justiça. não tenho mais conversa. Antes de passar a cancella. Kraus estava pregado no mesmo logar. Ia replicar meio encolerisado..

<y) nome mágico da / „ Justiça . a « colônia » estava ordenada. poz-se inquieto a andar no terreiro. espreitando a chegada dos magistrados. Tudo se fazia debaixo * de conselho. xemexédifé velhos ba. quando se falava '*"*' em tribunaes e processos. tirando-lhe as energias para distrahir os patrões. As mulheres / ' •>íwatavam-^allinhas. todos se confrangiam. Apenas. preparava'*». Na colônia. Franz Kraus não teve mais animo de ir para o trabalho. . Maria lembrou os hospedes do dia . e o colono ficou por algum f//^^fiu tempo na mesma postura. mas o terror dos outros. A mulher. Depois. ambos ficaram mudos o dia inteiro. Na manhã seguinte.o pão negro dos . vestido como nos domingos. A lei e o direito tinham alli um prestigio inquietador.CHANAAN 197 — Comida e dormida para cinco. arrancou-lhe palavra por palavra a narrativa da intimação. todos conchegando-se n'uma desfallecida cobardia./i'<í***/-J'*r hús esquecidos nos quartos. Comprehendendo isso. quando foi a tarde. um terror como si tivesse havido alli uma visitada morte. Maria tentou confortal-os. As mulheres. Franz animou-se.QarfrteTnrya. que o viu em tão extranho abatimento. como succede nos dias de desgraça. e auxiliado por Emma e d creada /£. arrumavajfTa casa. fazia ainda augmentar a própria tristeza d'ella. cada qual. Kraus. querendo apoiar-se no outro. Entrou em casa. colonos. também vestidas . Veja lá ! Desappareceu.«/£*/ começou a arranjar a hospedagem. _ seguinte e o interesse que/deviam empregar para yj A recebel-os do melhor modo.

— Ah ! é verdade. sr. que nada temos com isto. não se arredavam do trabalho na cozinha.198 yT CHANAAN com os seus melhores fatos.. — Perdão.. procurando fitar com o monoculo o promotor.. — Estou morto! disse o juiz municipal. mas nós dois. — Mas aqui não ha disto. veiu por obrigação. os outros da comitiva amarraram os seus nas arvores e todos espararam com o chicote a poeira das botas. recordando nas linhas e na expressão inquieta. então não terei occasião de funccionar ? perguntou vivamente o promotor. a cara de gato . de chapéo na mão. solicito em ajudal-os a apeapagi n ijis âWnaes. eu e o collega.. curador de orphãos.. batendo no chão ruidosamente com os pés. segundo o costume. espreguiçando-se. Um dos juises largou-lhe o animal . Ainda o sr. eram empreitadas pelos negociantes ricos do Cachoeiro/O colonoXçon^eu) a recebel-os.. disse o juiz de direito. — Uma estafa I Quatro horas de viagem. atalhou com um riso de escarneo um mulato velho. Era mais de meio-dia quando a Justiça entrou senhorilmente na colônia. adaptando a luneta azul aos olhos. e só pelo passeio ! Emfim. Os magistrados montavam excellentes bestas que.. sempre a gente se diverte. côr de azeitona. são maiores.. Todos. meu doutor.

ou praguejando. disse o juiz de direito. — Delicioso esse tempero! Promette! exclamou o juiz de direito. de onde vinha um capitoso cheiro de comida. batendo com o chicote nos moveis. — Não haverá alguma por ahi ? Ouvindo tanto rumor. Era o escrivão. para logo voltar com uma garrafa e um cálice. — Moça bonita que saia ! gritou rindo o promotor.. encaminhando-se para dentro. entremos. ou farejando para dentro. — Mas. como era a sua alcunha. e poz-se como um creado á espera das ordens. explicou o escrivão. como si já tivesse commettido o primeiro delicto. — O sandeu fica todo este tempo a arranjar os animaes e nos deixa aqui ao Deus dará. . ou rindo das pobres estampas nas paredes.. Kraus correu á sala atarantado. — Mas onde está esse inventariante imbecil ? perguntou com arrogância o promotor. A casa é nossa em nome da lei. O colono sumiu-se. Mas que seja do bom. E todos passeiavam pela sala com estrepito.CHANAAN 199 maracajá. — Traga paraty ! ordenou o escrivão. senhores. — Não ha mais copos n'esta casa ? perguntou com desprezo o escrivão.

— Dr.. uma consulta de direito.. — Vamos a isto. disse Brederodes.. meus senhores ! propoz o promotor. . Itapecurú. Segurou a garrafa. para clarear as idéas. E. balbuciando desculpas. serviu no cálice ao juiz de direito. -— Tome lá. meio desconfiado. — Sr. dr. escrivão. estalando os beiços : — E bom.. e poz em cima da mesa quatro copos. Os outros riram sem responder á pergunta. O official de justiça pôde beber antes da audiência ? Na porta. Brederodes. uma consulta. seu fracalhão. — Sr. Rindo. Esses diabos de colonos a primeira coisa que aprendem aqui na terra é a conhecer paraty. um nada. E foi distribuindo a cachaça nos copos..200 CHANAAN O colono tornou ao inferior e depois reappareceu. — Mas. o sr. em pé. o meirinho esperava a sua vez. — Você quer ? — Muito pouco. doutor. o mulato chegou-se á mesa com o braço estendido. o « maracajá » começou a beber. contente.. como mais graduado. continuou o promotor na distribuição. — Meus senhores. me affronta com esse copo quasi cheio.

Indicou os aposentos. sr. todos o seguiram e ii viram-^em um quarto com duas camas altas. Não sahiremos d'aqui. estamos convidados. E empur- .. O sr. é o nosso mordomo. um dos //<)&&*leitos : ~£*<d*nt*^ Ah! que somno divino aqui! à& Mas. e temos processo nullo. o homem tinha tudo preparado. porque si formos esperar que esta gente se mova. si querem lavar as mãos. o quarto é este. como é isto ? Só duas camas e somos quatro ! observou inquieto o promotor. — Este sujeito não nos dá almoço ? Olhe que já é tarde. / olhando pelo monoculo ^ subalterno. os olhos cheios d'agua tingi. Quando voltou. escrivão. Olhem. O melhor é deixarmos essas nossas cerimonias. Itapecurú. tomarmos conta da casa. /<*" O escrivão entrou pela habitação a dentro. ae grandes colchões de palha farfalhantes e commodos.HS-J ram-se-lhé de vermelho.44. Aqui ao lado ha outro quarto. disse o dr..CHANAAN jl/ 201 — Vá lá ! depois py esqueça^e tocar a campai-/*) nha. com medo que esta lhe escapasse. Uma onda de sangue íhe yj'} ennegrecep o rosto. disse : — Vamos almoçar. . Faça favor de vêr isto. ' — Não ha risco ! De um trago engoliu a aguardente. procurando o colono. y* O juiz municipal apalpou éfdi'Ifflf0.

que de •//U (W Ar^y^ y*«~ "— T / • «• ^'~y i^^1£^t^ A . e logo depois todos três..202 CHANAAN rando a porta de communicação. Maria. só no fim do almoço. meijl perturbada. Os collegas do juiz de direito o imitaram. veja as chinellas. onde o almoço os esperava. Maria. lavados e refrescados. Não é nenhuma asneira.*J — Oh ! lá !.* como si estivessem em suas fazendas. beberam cerveja em quantidade. y-. Brederodes. dirigindo-se ao juiz de direito. notou o escrivão. O dono da casa e o official de justiça serviam a refeição. li/. — Socega.. disse afoitamente o promotor. meio nervoso.. o café. vou me pôr á vontade. sentindo por instincto a crueza e J^iíVj^dytó^ dos olhares excitados e cobiçosos. enfiando" os olhos nos olhos da rapariga.. Pois bem. a sorrir intencionalmente. e. Manoel. foi depondo as chicaras de café defronte de cada hospede. observou sorrindo o juiz municipal. — Até o sr. não é exacto ? inquiriu o juiz de direito.. o escrivão mostrou-o. Comeram com appetite as comidas da colônia.ella ficou vexadissimae rubra. dando-lhe de manso uma palmada nas costas. Única mulher no meio d'esses homens. entraram radiantes na sala. que estivera todo o tempo na cozinha. Elles agradeciam. Caça extranha. dr. mudados de roupa. Souza Itapecurú. entrou com. — Nós hoje não sahiremos d'aqui.. O official de justiça obedeceu.

.. divertindo-se com a scena. seu Pantoja. e com ar fatigado e distante começou â acompanhar o serviço do escrivão. dr. está prompto o termo. com um sorriso parvo enchendo-lhe a cara. sentou-se e principiou. dizendo ao juiz municipal : — Sr. Procurou a melhor luz. puzeram-se a fumar descançados. emquanto os outros commentavam. Brederodes ficou pensativo. • — Pois sim. '' £2*"*// Depois do almoço. — O h ! é só para vêr.. como si o convidassem á mais enfadonha das % tarefas. desappareceu n'um andar incerto e balanceado. Vamos lá. V S. Nos seus olhos turvos passavam miragens de ^/AdÜtd. entendeu o escrivão espertal-a. çmquanto arranjava a mesa para o seryiço. O official de justiça apresentou-lhe um bahúsinho. que abriu em pagina marcada. e elle sentiu impe//i^1**'tos de se apossar da mulher. O « maracajá » poz os óculos e armou-os na testa. debruçado sobre.. E a pobre moça. finda a tarefa. de onde elle tirou utensílios para escrever e um formulário..CHANAAN 203 ?! monoculo na mão ficou atrapalhado. . E. a lançar os termos do processo/ Paulo Maciel tomou um logar á cabeceira da mesa. não manda abrir a audiência? O dr^-Paulo Maciel espreguiçou-se bocejando.•* —r Bem. o papel de margem dobrada. e quando um grande torpor ia dominando a companhia.

confuso e medroso.. Paulo Maciel. E passou para o quarto. clamando com voz fanhosa : — Audiência do sr. desinteressado. juiz municipal. dr. juiz municipal. » Depois foi apregoado o dono da casa.. que entrou na sala. Este.. onde os collegas fuma- . e onde élle parecia extranho e prisioneiro. vá tomando as declarações.. ordenou o juiz municipal ao meirinho. passeiando na frente da casa. na grande calmaria do mundo. aterravam os moradores da « colônia. foi até á porta e começou a badalar. governada por aquelles homens que se tinham apoderado d'ella. O seu olhar não retinha da scena sinão uma vaga impressão. Este heróe aqui na posse dos bens.. Audiência do sr. avolumando-se no silencio total.. Quando declarou que o pae era morto havia quatro annos. começara por desconhecer sua própria casa transformada em tribunal.. esses gritos estridentes. Sob a força do sol ardente. e fizeram-lhe perguntas a que éüi respondia com voz apagada e tremula. dr. desfructando-os como si já fossem d'elle. então abra a audiência. levantou-se e disse ao escrivão : — Seu Pantoja. sem dar contas á justiça. o escrivão resmungou : — Vejam só.204 CHANAAN — Sim senhor. de campainha em punho. nem á fazenda nacional.. Ordenaram que se approximasse.

. mas eu sou ma/ caco velho. Na sala. Vocês são finos. que assignou tudo quanto elle mandou. do quarto não vinha " *****'*** mais o som da conversa : apenas um roncar monótono e regular de alguém a dormir enchia a casa. Pantoja atormentava o colono com perguntas e de vez em quando & interrompia-para ameaçal-o : — Se você me occultar qualquer coisa aqui da casa ou das terras. onde tudo 0 êfáffifáfáffa' n'um grande y^/»****'socego. abrindo de tempos a tempos os olhos fftpéfff de f/i/C^fjjj.j ^ Duas horas levou o escrivão a trabalhar no inventario. deixando apenas em claro as assignaturas do juiz e dos avaliadores que elle dava como presentes.... com que ainda mais amedrontava o allemão.jdespediy o dono da casa.. ím de se haver áéy com a justiça. que se fechavam logo. . Acabado o serviço.. e que eram seus homens de palha. ou do cafesal. São as penas da sonegação. n'uma costumada fraude que lhe rendia mais custas. sem receber a menor explicação/áenmyPantoja tirou os óculos. O processo foi-se fazendo com estes dois únicos personagens . Penas terríveis! Assim envolvia as suas ameaças nas dobras de termos technicos. sentado n'uma cadeira.CHANAAN 205 vam tranquillos e preguiçosos.yy . estirados na cama. proseguindo á sua discreção. Tirou o paletot e deitou-se como elles. * %&r<>y . somno.. cochilava o meirinho. junto á janella.

. seuPantoja. veiu ao quarto em que estava o juiz municipal. como si quizesse suster aquelles appetites do escrivão.206 CHANAAN e manso.jfpf Svdyr 0ftáo sobre elle IfltftfjffltyÁjfô com os olhos endiabrados e sinistros.ordenou o escrivão ao official. assignar os mandados para se fazerem amanhã esses inventários aqui mesmo. seu Pantoja.é um gosto. . sr. Tenho pramptos alguns mandados para intimar uns colonos d'esta vizinhança. doutor! • e ^ " ^ ^ 6 * * " i Maciel asespantou^com a voz)ao subalterno. póde-se vêr o que rende no fim da festa. e quando se sabe expremer a mandioca. disse o juiz municipal.. . — Prompto. — Neves. ? Já acabou? e <fiy r — T a l o . repetia alto os nomes das pessoas a intimar : — Viuva Schultz. tudo o que cáe na rede é peixe. *"^ — Ah ! o sr. condescendente e resignado. é melhor deixar essa pobre gente em paz. mas.. Afinal. — Não. Não sendo coisa grande. que não fazem inventario ha muito tempo. sorrateiro.. levantou-se.. meu doutor. E cousa pouca.. comendo os espólios á rftnv* tripa forra.. Venha v. sem nos da^ satisfacção. — Ora. e em mangas de camisa e chinellos veiu á mesa da audiência assignar os mandados. s. .. vae deL* pressa quj. não nos adeanta. — Seu P?ntoja. E lendo os papeis.. Havendo milho. E aqui ha bastante.ponha*se em campo. meu doutor.

amortecida no verde da Tfftftfifá*^ folhagem das arvores que envolviam a casa. Esta é a nossa religião. Para amanhã ás nove horas. Olhe. aqui. doutor ? interrogou vivamente o escrivão. meu* senhores. Otto Bergweg. — Tenho pena. : . Maciel. devemos sempre fazer as nossas desobrigas. — Que boasomneca.CHANAAN 207 Viuva Koelner.. Maciel que se consegue isto. deitados! Ora.. dr. como os vigários. não sahiria das « colônias. si fosse eu o juiz dos inventários. * — Muito bem. Brederodes. — D'esta pobre gente. voltando ao quarto onde descançavam ostollegas. Hff Os dois outros abriram os olhos. seu capitão. bem sabe o trabalho que tivemos para arranjar esta pequena excursão. — De que. E voltando-se para o promotor : —Você tem-se fartado de dormir ! — Para que serve o colono sinão para isso ? Para sustentar e regalar a Justiça. d'estes miseráveis. Com poucas estou de volta.. — JJrçá^ que malandrice! disse o juiz municipal.. vamos passeiar! E abrij^ as \v*Xte. Mas não é com o dr..f0frfâjfffâf#U y> r ^ aposento uma luz branda. . — As qrdens. Com este bello dia. tudo é perto. doutor! disse Maciel ao juiz de direito. no seu caso.. ia dizendo o juiz municipal... sr. O sr. O meirihho metteu os mandados no bolso e foi sellar o burro.

com- . ia de porta em porta em nome da lei. \\ Todos triumphantes escarneciam do juiz municipal. tomava nota. assestando o monoculo. deve ter pena é de si. — A quem pergunta! Fui juiz municipal doze annos na Bahia. protestou Brederodes com interesse. juiz de direito? Itapecurú. Itapecurú.. Capitão Pantoja. e trinta dias depois o mandado fazia mexer os recalcitrantes. Não deixei um só por fazer. . Estes moços de hoje se dão outros ares. nós. sr.. O sr. — Perdão. quando me constava que havia um fallecimento. aqui o capitão sabe. voltou-se gravemente. Qy Havia n'essas palavras um prazer refinado de«r ^ misturar-. Vão lá saber a minha fama. dr. $"" 'que era o chefe político do logar. metteu-se entre os discutidores.2UN CHANAAN — Na miséria anda a Justiça. os velhos. acudindo á interpellação e.. colono £ anda fino. é por essa falta de espirito pratico que o paiz vae mal. não me envolva na V" classe dos românticos. Fui o terror dos inventários. Ah! todos prosperámos no foro. eu movia a machina. Nós somos de outra escola. mirando \ os collegas dominados pelo olhar felino do escrivão. Paulo Maciel m~ viu^assim excluído d'aquella *Nk communhão e ficou meio desdenhoso. e nos seus risos entravam suas almas. Commigo..tuirny camaradagem com o subalterno. Não é. dr. que de pé se penteava. dividindo o cabello ralo. da sua família e dos seus patrícios.

e a tarde era tZ^. puzeram^a *JW^' passeiar vagarosos. cortante de Brederodes. O sol já ia fraco. A Justiça reinava livremente na casa £V*^ e no pomar. Os colonos. notou Paulo Maciel: — È admirável a ordem e o asseio desta colônia. physionomia. E ainda se fala. tudo prospera. amarellos e vermelhos.I bria a cabeça com uma espécie de solidéo de lã. rápido.. examinando do sitio. não*' «J^ ' . o do $$jft> // -T ^ era o riso silencioso. ^» "/^**/ Vieram todos para o terreiro. pela sua theoria. O escrivão conservava yi a sobrecasaca de alpaca preta..*^/^amena. e com a relaxação a tristeza e a miséria. Que di&exenç^È. alvar. tudo nos encanta. Nada falta aqui. De chinellos. so desleixo. o juiz de direito que não os acompanhava em tamanho desalinho.y&i *»'•**• regado de fructos.. Deram algumas voltas. já muito russa/jfo. e em mangas de camisa os jovens magistrados fartavam-se do bello ar da tarde. de Itapecurú. e quando estavam debaixo do laranjal car. um era o riso tumultuoso. que lhe tapava a calva.. outro era o riso f/Arlvf canino. sem energia para o ruído. engravatado. ia com um paletot de palha de seda. oti^'^jperdendo a força em se estampar demorado na i^f^^-. e «•«. fructos ^Í^C***^ novos ou sazonados. abandono. encurralados na cozinha. ^df^mdterras cultivadas por brasileiros. muito penteado. contra a immigração! — Então. com um gorro de velludo na cabeça.CHANAAN 209 pondo um conjuncto extravagante. interrompeu o pro12 . appareciam.

e eu concluo sem medo de çrrar quaes os f?«**0. E' meu. Olhe. — Ah! Tenho confiança nos novos povos formados n'esta escola.//'sentimentos psychologicos do meu examinado. o que esse homem j ^ v í ^ ^ c o m e . Não ha duvida que falta ao brasileiro o espirito de anaiyse. Ah! Porque uma-vez apanhado. confirmou este. meu amigo.. para mim era indiferente que o paiz fosse entregue aos extrangeiros que soubessem aprecial-o mais do que nós. Terra invencível. classifico-o. Não pensa assim. doutor ? gritou o juiz municipal.210 CHANAAN motor. Quando vejo um indivíduo. devemos entregar tudo aos allemães ? — Apoiado.. — Sim. — Terra de analyse. refiro-me a todos nós. não preciso saber das suas idéas. dr. commentou o escrivão. Itapecurú ? O juiz de direito tomou um ar solemne : — Sim e não. como se diz na velha escolastica. uxjtí ^f0fffi/f> P o r exemplo. E que se pôde fazer sem analyse? E o destino da Hespanha : cahiu em nome da philosophia. estudo-lhe todos os hábitos. — O doutore terrível.urrencia com um povo analytico. Maciel... Não podia entrar em conc.Então os Estados-Unidos. basta Ig. E' a conseqüência do que diz o dr.. não . — Como.E quando digo brasileiro. Quando estive em França. eu sou um fanático da analyse. disse Maciel trocando um olhar com o promotor..

olhemos jfd^d. que alli estão dissecando o orçamento. não ha inferioridade. com o sr. porque leu nos olhos de Pantoja a sua \ . rapazes quasi imberbes. Vae vêr. morre poxjyLsse mesmo espirito de xheto-/yT .. respondi eu.. fôrma.. nada de serio. educados na sciencia positiva. / f{ como diz o poeta. Ao mais ditoso cedo o ingresso. analysando os impostos. Não reparemos na yj. cheios do espirito de analyse. me disse uma vez em Pariz : veja os seus oradores de hoje. Idiotas! Veja hoje essa gente nova. de Lamartine. Não. — E que respondeu ? — Pepsa que embatuquei ? disse com o seu riso volumoso o magistrado.. — E depois ? — Matei-o. Quando falavam aqui dentro (estávamos no Palais Bourbon) a voz d'elles era ouvida no mundo inteiro.. Fala-se em Lamartine. como vê. questão). antigamente esses homens falavam por falar. Ahi é que está tudo.. rica..CHANAAN 211 deixei de ir ao parlamento e admirei os jovens espíritos. Anões! Lembre-se de Berryer.. Maciel. mas sim o que elles ' J/^t^>«*/dizem. Um sujeito. dr. O Brasil. (voltando á nossa HQ^^JO. ' E Itapecurú arrependeu-se profundamente de ter 'dito isto. que devemos ceder o passo ao mais forte..o~ ***** *$• " •ytj . Só rhetorica. Não íjj^ Cdolhe você como eíles dizem. E a d'estes de agora nem na praça da Concórdia.. É uma fatalidade. E a sua loucura era tão grande que pagavam pela lingua. Até certo ponto convenho. e até patrício nosso.

— Sim. Os senhores podem querer entregar a pátria ao extrangeiro. podemos $ $ / $ $ • a a l S u e m ? . Brederodes. não ha mais nada. meus doutores. Não ha mais patriotismo. obtemperou o juiz de direito com uma voz de melliflua cobardia. que com o nosso exercito diminuto. — Quando esse imperador da Allemanha que você admira tanto. Quem applaudiu mais do que eu a resposta do Marechal ? A bala. mandar a sua esquadra bloquear os nossos portos. Pantoja. rangeu os dentes. disse. soturno. estampando-se-lhe na cara um sorriso tenebroso. Teve um frio de medo equiz. escute. é preciso desmascarar os patriotas de barriga. — E que fazemâvocês para se oppôrem? Pensa você.212 CHANAAN condemnação. as coisas não vão tão simples. que é seu. sim. — E quando é esse famoso momento ? perguntou calmo e desdenhoso Maciel. mas emquanto houver um mulato que ame este Brasil. não duvide dos meus sentimentos patrióticos. com a nossa marinha insignificante. disse o promotor. Patriotismo vae-se vêr em breve. podem vendel-a.gaguejando. replicou Brederodes. Mas o escrivão não lhe deu logar e acudiu rancoroso : — Admira-me ouvir de dois magistrados uma tal linguagem. — E não ha de tardar muito o momento. — Mas/ capitão. remendar o pensamento. meu capitão. á bala quando elles vierem. E o pardo cerrou os punhos.

A Polônia e o Transvaal também promettiam tanto. o juiz de direito. — Como. Itapepurú. — E a doutrina de Monroe? A^America para os americanos. Depois. capitão/ perguntou.CHANAAN 213 Brederodes deu urna gargalhada e disse victorioso : — E os Estados-Unldos. cortez e lisonjeiro. r — Ninguém pôde dom. Meu doutor. Nada mais. E a grande America cruzaria os braços? — Não sei até que ponto se metteriam n'isto os Esfádos-Unidos. concluiu gracejando Maciel.. Tocando fogo nas casas. — . rindo. meu caro ? — E' verdade.. que lucro teríamos n'essa intervenção ÍPassariamos de um senhor para outro. esperando com ar admirativo a resposta. — De toda a parte. com uma caixa de phosphoros se liquida um exercito e toda essa canalha européa.nar um paiz quando o povo não quer. observou irônico o juiz municipal. 7 .. no matto.. Como elles mesmos dizem. nas cidades... interveiu o escrivão. ajuntou também... Um grande incêndio que ha de espantar o mundo! — Sei d'isto. O nosso combate será com os europeus.. dõ Norte. — Como ? respondeu o escrivão com uma satisfacção sinistra..

a nossa lingua enffim. ás minas. não duvide dos meus sentimentos."* • — Capitão. Diga-me você : onde está a nossa independência financeira? Qual é a verdadeira moeda que nos domina? Onde o nosso ouro ? Para que serve o nosso miserável papel sinão para comprar a libra ingleza ? Onde está a nossa fortuna publica? O. É ou não o regimen colonial com o nome disfarçado de nação livre?. cáustico. O senhor è dos nossos. disse interessado o juiz de direito'. Você »ão me acredita.%. O nosso regimem não é Hvre : somos um povo protegido. e isto decide o povo. eu desejaria poder salvar o nosso patrimônio moral. não... hypothecado. gesticulando com a luneta. homem. felizmente. mas. dó que á honra... Os brasileiros. observou.eu não a vejo. Escute. O Brasil é e tem sido sempre colônia. Ouça. As rendas das alfândegas nas mãos dos inglezes . intellectual. doutor. tudo do extrangeiró. o que perder. estradas de ferro também não. .pouco que temos. o juiz municipal». disse fora de ei Brederodes. Não temos nada a perder.21 í CHANAAN ' . » — Por quem ? interrompeu Brederodes. Alli ha mais amor ao dinheiro. — Espere. os Boers são uns mArayeís tjue têm. *'* • • — Os Polacos «rarh aristocratas e por isso indignos. *v .. — Os senhores falam em independência. vapores não temos. mas a continuar esta . — Bravo. ** O escrivão encolheu os hombros c«m de^pre^fe. então.

emquanto houver miseráveis como você..CHANAAN 215 miséria. O oujra enrubesceu. Temos sobre o continente projectada a sombra dos Estados I Unidos. retomando o seu geito. pallido. repetiu frio e insistente. Dizem. Colônia somos nós e/seremos. o que você não'pôde negar/i a evidencia dos factos. como fizeram a Cuba. proseguiu atrevido : — Colônia. esta torpeza a que chegámos. — Menino. deixe de ser malcreado. Houve um pequeno silencio. E. é melhor que viesse de uma vez para cá um caixeiro de Rothschild para governar as fortunas.. Qcollega sabe que em questões d'esta ordem não 1 convém falar sem toda a segurança.. e um corais nel allemão para endireitar isto.. O escrivão saboreou a disputa. commentou fofundamente o dr.. E a sua cobardia . nias 'Paulo Maciel sorriu logo com superioridade : — Descomponha-me como quizer. continuou : — Si na verdade não entrámos ainda na orbita de um grande povo. é porque aproveitamos da 1 disputa entre as nações fortes. — Você é um cynico. disse seccamente Maciel. e obedecendo a uma excita£ão4ula.. Isto reconheço. com os lábios a tremer. insultou-o Brederodes. . Itapecurú. Itapecurú temeu um conflicto. mas um dia. fatigados de l impedir que outros se apossem de nós. elles nos *-^ccrrrerão. — Dii^m quea Allemanha tem planos. menino.

coisa do interesse dos partidos. — E o governo. Porque esses allemães não serão nunca brasileiros.. esquecendo-se de que o povo soffre e o extrangeiro só tem a ganhar com a nossa miséria. capitão.216 CHANAAN solemne punha uma certa brandura na discussão. que estamos sendo cercados pela cobiça dos Allemães. replicou Brederodes. O próprio Imperador paga do seu bolsinho missionários e professores no Rio Grande e em Santa Catharina. -> ••r O escrivão ficou embaraçado no seu dfi^plo sentimento de chefe de partido na localidade e de nativista. é essa mania eleitoral : por causa de partidos deixa-se naufragar o paiz. varrer. disse o escrivão. nem para eleições. tomando a serio o que dizia Maciel. E elle mesmo respondeu : — Cruza os braços. Porque não faiem os senhores um manifesto ? propoz o juiz municipal.. São . que faz a tudo isto ? perguntou Brederodes. de politicagem. — As eleições vêm ahi. esta corja que se apossa do poder p a r a $ enriquectr. Nós precisamos. — Pôde affirmar sem medo. — O negocio não é para manifesto. cuida de eleições. accrescentou Paulo Maciel. Isto é coisa á parte. — Eis o que nos prejudica. respondeu o escrivão. — Eaté se aproveitam dos votos do extrangeiro. dos amigos. e são os melhores eleitores aqui do capitão Pantoja. — Mas esses allemães não fazem nada.

como nos opporemos a que elles venham?. mettem-se em nossa casa muito quietinhos. uns velhacos. até um dia se despejarem sobre nós e avassallarem o paiz. descuidado. e elles vão na sombra engrossando.. fogo no extrangeiro. Maciel pensava : — E o debate diário da vida brasileira.. Todo este continente está destinado ao pasto das feras. deite de conversa..... Foi uma tentativa falha de nacionalidade. Um rebanho de carneiros... E que nos adeantam os Estados-Unidos? Será sempre um senhor.CHANAAN 217 muito respeitadores e mansos. Brederodes deu uma risada. empenhados no assumpto.. tirando de passagem folhas das laranjeiras que ia aspifando.. escarnecendo : — Está ahi o perigo. Os companheiros o seguiam... obedientes. nativista sempre... não haverá um deus ou uma força que 13 . Ser ou não ser umâ nação. Paciencki.. a descuidada inércia.. foi-se afastando na direcção da casa. do seu dinheiro. Sul America. Ridículo. Mas não haverá uma salvação. a nativa fraqueza... Ai dos fracos!. Os Allemães são... Pobre Brasil!.. do seu numero. Momento doloroso em que se joga o destino de um povo. nós nos aproveitamos d'elles. Que podemos fazer para resistir aos lobos ? Com a bondade ingenita da raça. por esses respondo eu. nervoso.... Capitão. T^do vae acabar e se transformar. Abala! Paulo Maciel parecia desinteressar-se da discussão e.

Sahindo do seu esconderijo. é antigo.. e é só. Ah ! nunca transigi.. — O meu nacionalismo. Desde a Academia fui um exaltado em questões de patriotismo.. .. sempre perseguida pelos homens... e está acabado..fraca. e amada. Vale a pena? E o mundo é só isso? Vale a pena viver para ter mais policia? E a lingua? £ raça. immoraes. A Terra prosperará. apezar de tudo. esta associação. Caminhando.. vá lá.. Mea culpa.já devolta das intimações.218 Y //fP /( CHANAAN paralyse o raio armado contra nós ?.. Puzeram-se á mesa. pôde ser que seja melhor.. emquanto as estrellas vinham se abrindo numerosas e infinitas... Acabado o jantar... e voltava ao assumpto.. Temos o que merecemos.. sim.. onde eram esperados para jantar.. assim chegaram á casa. Maria rodava pela sala. D'ahi.. degradada si quizerem.. com que a cobriam os sujeitos .... nossa. e^tó p u z e r a m / a s / ^ ^ ! cadeiras do lado de fora da casa eyi entretiveram-A' a conversar pela noite a dentro. parecia fria e indifferente ás phrases atrevidas. mas amável.ajudava o serviço. porque é nossa.. e o meirinho. tj da Justiça... A pobre. mesquinha. temido pela sua influencia política. porém... boa. Oh ! muito nossa. Melhor administração. mais policia. capitão... O juiz de direito não desanimava em desmanchar qualquer impressão sobre a sua falta de patriotismo que porventura ficasse' no espirito de Pantoja.. Emfim.quasi a esphacelar T se.

. creio que hoje. pelo caboclo. — Como assim ? inquiriu Brederodes. estudantes. creia. não sahiria de lá. os Itabaianas. tive orgulho d'este Brasil e voltei ao meu furor... — Hoje. E a marca nativista que trago da Academia.. respondeu empenhado Itapecurú pondo o monoculo. com a edade. como o sr. objectou Maciel. e aom certeza. sou até jacobino. e d'ahi os Tupinambás. Cada um tomou um nome indígena. Foi um movimento geral. — Nunca abandonaria minha pátria.. E só. Accrescentei Itapecurú. — Quando Gonçalves Dias e Alencar deram o grito de alarma pelo Brasil. E salutar.. Não dou tréguas ao extrangeiro.. Eu me chamava Manoel Antônio de Souza. sentem desgosto de ser brasileiros. vendo a deê&dencia da Europa. Não é debalde que me chamo Itapecurú. os Gurupis. Aquelles que. confesso. Os meus sentimentos nacionaes. redobrou o meu nativismo. Manoel Antônio de Souza Itapecurú.. nós. respondemos ao nosso modo.. ia interrompendo Maciel por brincadeira. mas. que propõem para matar o jy jjJJ/ . devem dar uma vista d'olhos ao velho mundo. si pudesse. Souza cheirava a galego. Aqui para nós.CHANAAN 219 — Mas isso foi n'outro tempo. — Mas divertiu-se bem na Europa. Não nego que a Europa tenha alguma coisa de bom. Quawdfci mais tarde a palestra esmoreceüyoj uiz de direito disse aos companheiros : — Meus senhores. estavam enfraquecendo.

mas. que não larga a grammatica allemã ? . eu os espero no quarto. — E uma pena. esse. fede. que tem feito ? — Sim. para os jornaes. disse o promotor. desembuche para vermos o que tem tão escondido. não dá para nada. — E'verdade. nem por ser brasileiro. escarneceu o escrivão. entraram a detrahil-o. Si um dia escrever para a Capital.. Será bonito e asseiado. era mais feliz quando o deixavam só com os seus pensamentos. disse o dr. Itapecurú. accrescentou Brederodes. que ajuntou por sua vez : — Mas o dinheirinho no fim "do mez não se engeita. Presumpção não lhe falta. Eu podia contar impagáveis. receba o dobro dos seus patrões. disse Itapecurú. doutor. ao contrario dos companheiros. — Não conte commigo. Estou cançado e vou deitar-me. Uma coisa affirmo : nada sabe do officio. logo que Maciel partiu.22U Í^^/l/1 '"/ CHANAAN tempo ? Vamos a uma partida de manilha ? Paulo Maciel não temia o tempo e. maldizer de tudo o que é nosso.insinuou Itapecurú. no fim de dftij}. — Pôde ser que quando isto fôr da Allemanha.. accentuando a phrase com vistas ao escrivão Pantoja. Boa noite . — O que elle sabe é descompôr o Brasil. Os outros. — Também pouco se perde. havemos de rir muito.

— Pois sim. não querendo desistir de jogar. aguente-se para uma sova. disse pressuroso o juiz de direito. respondeu Brederodes. O official de justiça estava a cochilar. até que o promotor. ficando só. desaíío-o para uma bisca. — Como assim ? — A bicha é arisca como quê. está se preparando para nos governar. seu doutor. — N'este caso. Só si V S. Neves! — Prompto. Não tardou o <ffly$tyà*-fà*. Riram e ergueram-se para jogar. quando o viu ainda de longe. O juiz de direito trazia sempre um baralho de cartas na mala para essas excursões judiciarias em que nada tinha a fazer. Os três jogaram algum tempo.CHANAAN 221 — Sim. Brederodes.abandonou o seu logar. pretextando cançaço. e ergueu-se meio atordoado. deitado na relva. Brederodes no terreiro chamava em voz baixa o meirinho : — Neves. passeiava nervoso. visse . Não vejo geito. O promotor deu-lhe uma ordem que elle partiu a cumprir.tÍÇ£r t*WÁAff-*TU> f — Então ? perguntou o promotor. capitão. — Qual! seu doutor. agitado de desejos lubricos. doutor. e que acompanhava por divertimento. acquiesceu Pantoja por entre baforadas da fumaça de cigarro. que tanto o perseguia. com aquelle vago receio do tédio.

ruminando vinganças.\ apenas alumiado pela frouxa luz de um candieiro de azeite que estava na sala. Os dois parceiros.. por um movimento. o ^ridii meirinho não voltara. como si ainda tivesse o que perder.sensuaés. Na casa tudo se aquietara.. e os olhos na noite escura brilharam felinos e máos. Nem me respondeu. FyJié» de esperar. V S. não reparou como já vae bem adeantada ? Brederodes ficou colérico. os colonos não davam signal de vida. Ao dar com alguma porta. mortos de somno.222 CHANAAN o nojo com que me olhou. e n a * nente nevrotica pasfâlvam perturbadoras miragens .. Este ficou só. fugindo ao desabafo do promotor. — Ella me paga. não se zangue. Vou vèr si ainda dou uma volta no caso.. Deixe estar. punha-se á escuta. rangeu os dentes. e quando na volta do corredor o clarão se acabou. para vêr si. seguiu pela casa a dentro.. ás apalpadellas foi tacteando as paredes. n'uma meia allucinação. tinham-se resignado a deixar o baralho e estavam deitados nos quartos. Corja de allemães ! — V S.reconhecia Ustn-o Jèu^i*'"'^* <**y*~ frf . (b teu sanguf voltava ae*/ímpetos dd deseW. Ahi o seu companheiro. ^ m i e era o escrivão. Ainda que tudo isto aqui arrebente. Uma fluxão de sangue subiu-lhe á cabeça. e um pouco acalmado no seu furor. E desappareceu na direcção da casa. resonava. Elle deitou-se de manso e poz-se á espera de que a noite avançasse... Brederodes resolveu vir para o quarto.. Levantóu-sê sorrateiro e. um signal qualquer.

Outra porta estava em frente. n'um instincto salvador que lhe fazia adivinhar no escuro o caminho do quarto. voltados para dentro. V. a tramela levantou-se e com a pressão^ajDortaJabriuíe^rangendo. á mesa. o promotor e o juiz de direito á janella conversavam. esperando ser chamados. encostados á parede. « Miserável » pensou. nada. em pé. Tentou abrir a porta. — Sr.. Na sala o juiz municipal e o escrivão estavam no seu posto. Mas'esta estava ' / fechada á chave. Brederodes palpitou alvoroçado. o meirinho annunciáVa ao toque de campainha a audiência dos inventários dos vizinhos de Kraus. Escutou . duas mulheres e um homem. Maria? Brederodes recuou para o corredor e deixando a porta aberta deslisou nas pontas dos pés.• / ê i-0 /cobrif. No dia seguinte. dr. Brederodes.... rodeiados de creanças. e uma voz assustada de velha perguntar : — Quem é ? Es tu. — Pôde ser que não seja aqui. De dentro ouviu um rumor de alguém que acordara. E com esta esperança passouadeante nas trevas.CHANAAN *~ ~ * \ 223 o quarto de MaúayfÁJ um momento deum^des. mas um vago vislumbre da consciência da sua falsa posição tolheu-lhe o movimento. Poz a mão no trinco. seguiam atemorisados a scena... tem de funeciona &/ .. com raiva o promotor. Isto naturalmente é o quarto dos velhos. Um impulso de arrombar a porta tomou-o. S. ás neve da manhã.

que se precisa da sua benção. ainda moça.. vou dar um giro ahi fora. assestou o monoculo nos intimados e sahiu magestoso. Ninguém cumpre a lei. sabe que é depois. emquanto os senhores preparam o prato. '>— V S. Itapecurú. — Ha quanto tempo seu marido é morto? perguntou o escrivão.. motejando. O promotor teve um risosinho de satisfacção e veiu sentar-se á mesa.. disse o escrivão. se approximou. Juro. Em seguida. — Não é possível arranjar alguma fatia para mim n'esta festa ? perguntou o dr. — Bem. Ha uns desvalidos que precisam da protecção legal de V. n'este caso. passou a tomar as primeiras declarações da viuva... iniciando o interrogatório deante da apathia do juiz municipal. seguido pelo riso zombador dos que ficavam. Todos comerão do bolo.2->'i V CHANAAN como curador de orphãos nos três inventários. Pondo o chapéo. como nada tenho a fazer.. ia respondendo documente a . Depois de alguma hesitação. Isto vae acabar. que triste e subjugada por aquelle apparato judiciário. n'um sorriso idiota. — Sempre o mesmo. — Ha dois annos. no fim do negocio. aqui todos herdam sem a menor cerimonia. uma camponeza alta.S.. — Viuva Schultz! chamou Pantoja.

— Quantos pés de café tem a sua colônia ? — Quinhentos.CHANAAN 225 tudo. E calado... meu defunto marido avaliava em quatrocentos.. — Espere lá !. eu plantei uns cem n'estes dois annos. N'üm papel escreveu varias parcellas. no meu cartório. não contei um por um. eu arredondo a cifra. — Só? Não minta. pôde ser que tenha mais ou menos. segundo o seu velho processo de tudo //• fazer elle mesmo e/augmentarijiy descaradamente y . observou com accento escarninho o « maracajá ». senhor.sem nadadizer áinteressada.que.. .além de tudo.i o valor dos bens pára accrescer os seus lucros. Que desembaraço! Ainda não lhe disse o principal. D'aqui a duas semanas appareça no Cachoeira.. sommou13. A mulher ia se retirando. para receber os seus papeis. levantaram-se e foram entretidos para a janella. A mulher a cada passo soffria descomposturas insolentes de Pantoja. O juiz municipal e o promotor. e um immenso pejo a assaltava.. radiante de allivio. — Mas. sinão temos conversa no Cachoeiro.. escreveu : — Mil e quinhentos pés de café. despreoccupados da audiência. Continuava Pantoja a lançar os termos do inventario.. não sabia ler o portuguez.. /// Depois de algum tempo. disse á colona : — Agora pôde ir. — Bem.

é que havia de ser bonito. . porque não houve demanda.. veiu sentar-se no seu logar e se interessou um pouco por esse grupo.. Nada de conversa e bico calado. tem de se haver commigo. cançado de estar em pé. que continuavam indifferentes a sua palestra. aqui não se faz esmola. que esperava a sua vez de ser apregoado. olhe leve comsigo o dinheiro das custas. — E viuva ha pouco tempo ? perguntou elle. Si eu souber que vosmecê andou batendo a bocca pelo mundo. Paulo Maciel. Ouviu? — Trezentos mil reis !. — Está direito.. Meu senhor! — Não tem meu senhor nem nada. Pantoja chamou o colono.. s? approximou*TJma filha de cinco annos lhe (seguravayb vestido e ella carregava ao collo outra. Trezentos mil reis... A colona lançou olhos de supplica para os dois magistrados.22G *7 CHANAAN as resmungando e disse comsigo afinal : — Cento e oitenta mil reis. sahiu cabisbaixa da sala da audiência. cuja cabeça dourada se realçava radiante por entre a pretidão das roupas da mãe.. Trezentos mil reis. E depois de repetir com elle a mesma cousa. A mulher. esmagada. muito baixa e ainda joven. com um ar apatetado e longínquo. Trezentos mil reis !. e dê-se por muito feliz. o ar da miséria. Sem um apoio.. passou a se occupar da ultima intimada. Si tivesse de metter um advogado. vestida de luto.

. — Como é isto ? disse tremulo o escrivão. Brederodçs . no fundo de todos elles temido. E melhor mandal-a embora. opinou Maciel. disse Pantoja. Que diz a isto.. Não é verdade ? — Apenas houve tempo de levantar a casa. seu Pantoja. — E desde quando está no Brasil? — Ha um anno apenas.. A mulher ficou pensativa sem responder. — E triste! E como vive você ? inquiriu compassivo. dr.. respondeu a moça. — Naturalmente tem algum amigo que substitue o defunto. — Estavam principiando a vida. fingiu não ouvir..CHANAAN 227 — Dois mezes. para se vingar do interesse do juiz. Meu marido.. Paulo Maciel.. o que elle. — No fim de contas. tem competência para dispensar na lei ? Ora. para evitar uma discussão com o subalterno. não durou muito. habituado a fazer tudo. fazer o roçado para a plantação. esta é muito boa. V S.. A colona.... considerava como uma invasão dos seus privilégios. não ha inventario a fazer. Não se plantou nada. que já vinha doente do peito. disse : — Estou em trato para vender a minha casa e vou me empregar como creada em outra colônia. afinal...

O seu sentimento era suspender. cheguemos a um accordo.. em vez de um inventario formal.. que somma de energia. sr.. de fluido nervoso. e a intelligencia fina. — Está bom. pérfida. Inventario é inventario. era dispensar o inventario-.. Paulo Maciel ficou sem saber o que dizer deante de taes attitudes... eu requeiro. — Isto é uma novidade para illudir a lei.-228 •ÍA l-J CHANAAN V S. lucta inglória em que elle não se queria estragar. é o principal interessado. E si o senhor não quer fazer ex-officio. distincta descortinou-lhe. com esse escrivão chefe político. Valeria a pena ? As suas poucas forças o trahiram. Façase apenas um arrolamento summario dos bens. Pantoja mediu-o triumphante. acudiu vivamente o promotor. aqui está o formulário official e / . Mas para isso. não precisava de consumir !. Trata-se de orphãos. prender este escrivão insolente. i.. mandão da localidade. .o desenrolar de uma lucta cornos seus collegas. apossando-se da situação que o superior lhe abandonava. propoz com uma voz fatigada. respondeu o escrivão... seu subordinado legal. Os juizes passam e os escrivães ficam.. Juiz municipal. não me mostra esses arrolamentos. era ainda por cima dar dinheiro do seu bolso á desgraçada e mandal-a embora. dr. dr. — Não concordo na dispensa do inventario. envolvendo-a n'um clarão de bondade..

— Primeiro a Justiça. Todas ellas choram. com as mesmas extorsões e violências. — Deixe o caso commigo.. seu Maciel.. Era só o que faltava....CHANAAN 229 — Homem. esta começou a chorar. disse o promotor. Que mal ha em fazer-se o inventario ? — Que mal?. ia dizendo o juiz municipal.. — Deixemos de scenas. colérico e intratável.. Si não quizer nos pagar. No fim. deixe de luxos. dividas da moléstia e depois trabalhar para outras novas. quando o escrivão intimou a colona a que lhe desse duzentos mil reis.. — Sim.. objectou alegremente Pantoja. E o inventario foi feito como os outros. não entende d'isto.. obrigar esta pobre mulher a pagar mais custas. V S. — Capitão Pantoja. Atordoada como uma . vou vender o que tenho para pagar as dividas de meu marido. não venderá a casa nem o roçado.. veiu hontem ao mundo.. — Venda a casa.... e agora vamos vêr.. meu senhor. Lagrimas!. mas a mim ninguém me embaça. Deu uma risada secca. é rapaz. atalhou o escrivão. Querem obrigar a Justiça a trabalhar de graça. É pouco? — As custas são o azeite da machina do foro.... E voltando-se para a colona : — Vá.. — Mas não posso arranjar tanto dinheiro. eu prendo os papeis. á mulher moça não falta dinheiro.

. — Bravo. penhoras.... a colona sahiu. Olhe que o negocio podia ser peior.. vá buscar. que o fitou espantado da intimidade. E por isso dê-nos logo. Uma vertigem o ia tomando... Sob aquella pressão. Você pôde. Está me cheirando mal o fiado. E batendo rio hombro de Franz Kraus. o colono foi caminhando automaticamente para a casa. O homem vacillou. O escrivão empurrou-o de manso. ajudados pelo meirinho e pelo dono da casa. como para cahir. Pantoja chegou-se ao grupo e disse ao promotor.. os animaes estavam sellados para a partida. Os juizes vieram para montar. na garganta a voz morreulhe n'um espasmo. amigo. camarada... accrescentou n'um gesto de irônica cortezia : — Muito obrigado pela hospedagem. observou lisonjeiro o juiz de direito. — As nossas custas. não se espante. — Que é ? interrogou inquieto o colono. . o senhor é de força. Advogados. Depois do almoço. mas ainda falta alguma coisa. que mantinha sempre com a luz poderosa um grande silencio. Quatrocentos mil réis. demandas. capitão. O dia era abafadiço e dominado pelo sol..230 CHANAAN somnambula. dizendo-lhe zombeteiro : — Vá.. apontando o colono : — Ainda não' tive a minha conversa aqui com o amigo. arrastando os filhos. meu amigo.

está chovendo na sua roça. Subitamente. A cavalgada partiu. O juiz municipal. no fim do mez. o colono via com os olhos desvairados a Justiça sumir-se na estrada. E montou. . as faces inchadas e rubras. mudo e abatido. disse Itapecurú a Paulo Maciel. Chorara. de chapéo na mão. — Parabéns. respondeu o escrivão. murmurou olhando ^ e d r o s o para os lados : — Ladrões! //&r*/~ i^*'*' .• CHANAAN 231 — Ainda não viram nada. Em pé. F i quemos bons amigos.. olhou-o com um grande nojo. n u m a raiva immensa e cobarde. Agora" tudo está em ordem. a cabeça ao sol. no meio do terreiro.. sem dar-lhe resposta. — Muito bem. appareçeu o velho Kraus. E quando Ella desappareceu e tudo voltou ao socego profundo. estimulado. ficou elle longo tempo com a vista jpjffààfy na mesma direcção. Depois de alguma demora. O colono olhava-o.. Pantoja recebeu o dinheiro e contou. que os ia impacientando. Tinha os olhos vermelhos. Procure os papeis no cartório..

e ella $é deixavá ficar na colônia e na vida. Mas. as forças não lhe acudiam para qualquer resolução. desconhecida e forte. sem preoccupações alheias. e sem poder dormir noites e noites na afflictiva anciã de querer salvar-se da deshonra. nos serviços domésticos. vivia como uma louca. vigiada pelos olhos cúpidos e inquisidores dos velhos. fraca.. preza de um grande temor. Desesperada da volta de Moritz. . Assaltavaa muitas vezes um desespero de fugir. cobarde..VII y/y // A'l^-'de Continuava Maria na colônia de Franz Kraus no seu mesquinho penar. definhava languidamente. de uma immensa e mofina vergonha. volteando apatetada pela casa. de ir para longe. Outras vezes. no mesmo ruminar desespero e de agonia.. esperar que das próprias entranhas lhe viesse a salvação e o consolo do futuro. que o tempo indifferente e implacável trazia cada vez mais á flor.. e queria morrer.

E agora passavam os dias muito unidos. nem mesmo para a maldade . que se quebrou.(( lavei. com as mãos tremulas. Assim viveram algum tempo esses desgraçados. ficavam irresolutos. a vida n'aquella colônia era uma tortura para todos. a velha Emma enfureceu-se e começou a insultal-a . e é&T ~ com desespero nevrotico dúé^viam a misera inaba. E d'este w** modo. deixasse cahir um prato.CHANAAN 233 Os velhos não tinham mais illusão sobre o estado da rapariga. tudo fora tarde.fl/Qtante gesto de somnambula. aoDravam-ine os rraDainos. e vendo-a mover-se pela casa. com medo de . n'um passo tropego. Maria. processos. tomada de um suor frio. E. n'um cons. já fatigada de trabalhar. sem um movimento de revolta. como uma manhã. em cochichos de vingança ou em planos para "se verem livres de Maria. Não se conversava mais. erguida alli como um estorvo ao desafogo da ambição d'elles. sentiam um ódio surdo contra ella. Mas as suas cabeças não eram inventivas. Viam desfeito o casamento do filho com a herdeira dos Schenker. A todo o momento eram ralhos e insultos. com o ar transfigurado que lhe punha a } amargurada maternidade. diziam inconsolaveis. eram exigen- quasi comida. mais a indifferença pela existência. que é o único encanto d'esta. subjugados pelo /píffiító e crescente jljcc*^ "-> terror que lhes deixara a visita da Justiça. não havia mais o esquecimento do tempo.

. querendo se refugiar. ordinária.. a rapariga. Maria sahiu para o terreiro e.. offegante. agarrou uma acha de lenha e brandiu-a..2.. protegendo o ventre com as mãos. Emma segurou a moça pelo braço. collou-se á parede. fugindo atordoada do alarido. A excitação dos velhos. Vae-te d'aqui. Franz estacotLili. e foi debaixo de maldições. peste. uma baba viscosa a escorrer-lhe da bocca contorcida. Por entre a folhagem verde.. de pragas rancorosas.. caminhava firme.. Vae-te embora.. suja. os diúi cabellos descobertos iam espa- . que a misera entrouxou algumas roupas. Sáe. Sáe.... Franz correu á cozinha. não deixava de prolongar-se... livida. sem hesitação. possessa. communicado do mesmo furor.mui i h l h . e transbordando-se-lhe o ódio.. A rapariga obedeceu automaticamente. rangendo os dentes. O marido. E foi então que Emma gritou : — Miserável. para o desconhecido. levada pelo impulso das ordens violentas. o velho alcançou-a e com violento empurrão impediu-a de fechar a porta. berrava Emma. avançou colérico para Maria que. — Fora e já.14 /í*- CHANAAN n um berreiro. Fora.. Carrega teus trapos. Cf Maria correu ao quarto. n u m a ameaça de morte : — Fora.. de súbita que fora. ia recuando. e ordenou-lhe : — Parte. que apertou com violência.. intimidada. canalha.

.. voltar. um fio d'agua. entrar sem rancor. que lhe entorpecia os passos e flra despertava a consciência. que des- j/p /. tudo era apanhado pela sua aguçada retina.Tudo acabado.... Tudo cortado. n u m a insondavel^sj^áção. um cafesal verde... desmanchar com o sorriso o pesadelo monstruoso. quando se dispunha a retroceder. Vae. Maldita! Maria andou algum tempo. o mundo !. Atraz... trazendo-lhe uma sensação de desanimo. seguia-lhe no encalço.. E na memória os quadros da sua vida desde a infância. sem dar fé da sua direcção. Quiz tornar á casa. um reflexo-de sol.. não mumurava uma queixa.Uma arvore cortada.. Sob a grande e funda emoção as idéas tinham-se congelado JtíÁ^y^l a sua visão dilatada ia notando e retendo os pequenos incidentes da paizagem. reconheceu. miserável.. como um latido de cão.. voltar! Mas.. Era uma estatua marchando.CHANAAN 2.. e os olhos grandes e limpos tinham o lustre crystallino e secco dos frios espelhos. o jardim.. Não dizia $A palavra. perdição de minha casa.. //fofam .n'um impefo de cólera.. E foi caminhando..15 lhando o fogo do sol. um animal que se movia no fundo negro da matta.. Via-se expulsa da Velha casa que lhe fora o lar. a voz de Emma : — Vae. Sim. cuja razão não percebia bem. até que lhe chegou a fadiga da energia em que se mantinham os nervos. inconsciente e desvairada. sem explicação.

^*?^~w. .. a rapariga avistou a egreja e a morada do pastor. com a cabeça pendida sobre o seio. A paizagem era limpa. cio da estrada. e com a saudade ia enchendo. E á proporção que Maria subia. porque a falta absoluta de outro apoio no mundo lhe ídcJéphUft. Mas foi instantânea a hesitação. c*v Uma vaga inquietação de não pyiiídnjxax um ( 'i pouso. Parada. um abrigo n'aquelle deserto. mas da sua d _ ' tímida e doce figura de camponio lhe ficará uma / agradável impressão. um sobresalto de terror^he^acudiiAo corpo. . os olhos embebidos no / próprio corpo. Desde aquella manhã da missa. Lembravam habitações humanas perdidas no deserto. povoando de gente. que ella seguiu confiadamente. o sacrifício.. 1 fl/tí^<~tffá}/fâdy(/yffl/0i appello de salvaçãoj^è* ** "/**' yfyyyy o pastor de Jequitibá. imaginando poder tão simplesmente restabelecer o que estava extincto. houve um rebate de esperança. dando-lhe animo para prag^guir no silen/ ' ^. QdamÂ/pt depois de duas horas de marcha. lembravam o isolamento.236 CHANAAN vairava. começou a /f~. uma extranha / ^ZZrv^-mtrepidez. ^ agital-a. recordava-se da ultima festa da colônia.• casas conhecidas. e os dois pequenos edifícios de atalaia davam maior tristeza á solidão. o abandono. Na pequena alma de mulher rústica e simples de Maria. &icaminhou-se^ara os logares mais invios. . chorava.Começou a subir. pois um grande pejo a afastava das /. não o tornara a vêr.

assustada w****™ Mí rt/t*~** —i yr~* ' zS£sâj&&*>A**^ .<y tra. talhada e preparada para jardim.~De dentro nenhum outro rumor ffffa P a r a aDafar a v o z da c r e _ anca na escola. Passou adeante e em face da porta fechada da casa tremeu mais. e a voz infantil. que xeúniu di^filtí^ n'aquelle repouso uni. ' / A mulher do pastor acudiu á porta. De uma porta aberta vinham vozes de creanças soletrando. mas o medo *>da solidão. emquanto elle dormia. levada por essa corrente de evocações. deu-lhe um tremor. Alagada em suor frio. ia scismando com a musica do harmonium que soava na capeljinha. Era ahi a escola regida pela irmã do padre. A de valor. j . cabeças alvas de creanças movendo-se ibelhuda/ pa£a ella. Depois. monótonas -— f£»0 e cantantes. infatigavel. c . o que era a ' paixão do novo pastor. veiu-lhe um novo esforço /( . jlJL (£dduâ6 chegouao alto viu a terra em roda dajifí1 casa.. Maria passou cabisbaixa.///l*"r' 1 ças. sinis. o vazio descampado das montanhas e dos valles calados.. e viu uma sala escura. da montanha deserta. atí/ou ao chão a trouxa de roupa e se * jy apoioji á parede. de movimento. Olhou de soslaio. e n'um impulso nervoso tocou a campai/ ' nha.. o terror do recolhimento d'aquella casa aHi£<fou-h\e as for. desfallecida um y/Jsr*W*^\ instante. que proseguia desarticulada. Maria quiz fugir... de vida../yfy versai.CHANAAN 237 de vozes e gestos. uma mulher de preto no fundo. na parede uma cruz negra envolta no sudario. Ella recompunha também os instantes em que vira Milkau e. mais forte e estridente.

. um agasalho.. abundantemente. — Vamos. que veiu logo á sala. eu.respondeu soluçando a miserável.. As pessoas da ... Afinal.. (jfdfáfá MariaJÍBBHficou petrificada.. entrou esta para falar ao pastor. grandes lagrimas rolaram-lhe pelas faces. Depois. "{y^y ^ sempre com a sua voz macia. onde a rapariga o espe/.238 CHANAAN pelo barulho. Maria f ^ fjT ch/rava sem pejo. muito vermelha e tremula. minha filha ? Maria não respondeu. • « Que lhe aconteceu ? Perdeu seu emprego ? * (bjjjü.. que lhe aconteceu?./fríraT y" H-/ / 7 . Nós não precisamos de mais creadas. — Eu. / — Você não tem uma casa. uma colônia.? . cás^jlecantido d/arrancanwy alguma coifsa sobre *y í /*" a:suásituação"e^lhe r dar&ir*maisconfiança. depois de confusas explicações.. que lhe sahia do ^ÍP^ ^ * ^ ^ e Í í o d e touro como um balido deovelha.. jtfl erecto como u m T ^ l a d o e vestido como um jardineiro. ^7w/£»*^ O pastor fftydA confuso. Frau Pastor se approximoú^ / bateu-lhe no hombro : ** — .. com uma expressão de espanto que ainda mais atemorisou Maria. O homem. tinha uma voz de uma doçura inesperada c que se não casava com o seu porte rústico. K A6 o r a i a este mofino contacto d/piedade. interveiu com meiguice Frau Pastor. Jh véi-e. r-.. queria. __ « -/ ' mSna^0ff0f.. achando extranho o pedido. Poz os olhos no chão. jjj^Velle. — Que deseja.. rava.

para tamanha punição ? A professora. O irmão explicou-lhe o assumpto. ainda não me disse porque deixou a casa de Kraus. fiel aos seus hábitos de nunca perguntar. onde Frau Pastor era uma sombra do marido. por entre lagrimas. algazarra ijti^^ e gritos festivos de creanças soltas [f se foram perdendo pela encosta da montanha«abaixo.CHANAAN /am a lha jéropôr variao queotoag'^ Pouco a pouco 'ella se foi acalmando. Frau Pastor.. trocando um olhar com a irmã. A irmã do pastor. — Ora.. temendo a explosão da cunhada. e essa mulher. deixemos de comedia. fui expulsa. esperou que tudo se explicasse. — Vamos. que mirava com olhos devassadores a rapariga.. O pastor a temia. amedrontando-o com as regras religiosas. — O h ! Oh! Então o negocio é grave! Que falta commetteu você. Como posso tomal-a sem saber de tudo? — Não me quizeram mais. para deixar a sala. severa e silenciosa. — Vamos. filha. entrou na sala. Fora. dizia o sacerdote com o geito astuto do camponio. Era o alegre rumor da liberdade. a auctoridade da cunhada era decisiva. Na casa. interrompeu o inquérito com uma risada secca.. ergueu-se por instincto.. e ella o tinha submisso. Eu sei bem porque os seus .. rústica e marcial como elle. Mas a curiosidade reteve a sua alma de creança. e pelo instíricto da obediência respondia. uma grande /J. clamou zombeteira a professora.

aqui é o logar do amor de Deus. emquanto a outra... regenere-se.. a consoladora.. mulher. disse : /YrvoTw — Em nossa casa nãol^yyfyytjji^f^o prazer. medrosa. Divertiu-se? Porque chora? Temos nós culpa dos seus prazeres? Olhe. Fora. a torre fechada. Desencadeiou-se a ira do Sei nhor. que mal lhe fiz?... que tudo faz comprehender. a puzeram na estrada. acariciando-a paternalmente. Maria lho retribuiu. que devem ser gente honrada.. era a perturbadora. Vá para a sua vida. O pastor empurrou-a de leve para a porta.. Era o grande ódio. não era para aqui que se devia dirigir. inane.. o que vem do sentimento sexual.210 CHANAAN patrões. lhe inspirasse maior piedade por aquella esvaída sombra de gente. Ergueu-se da cadeira o pastor e muito solemne. a mesquinha Maria.. Esta é uma casa de respeito. E ao passo que a rapariga ia deixando a casa. com aquella maldita e doce voz. a inabalada. e talvez o coração. a amiga do homem? — Oh! minha senhora. JâuLkpx -Maria cessou de chorar e jtíMl^/ espantada que alli também todos estivessem loucos. Vá. Mas era uma compaixão sem agasalho.. Lembre-se de que todo o peccado tem uma punição. Um olhar de piedade infantil escapava de Frau Pastor. O seu é horrível. a ft 7/ .. a incendiar a irmã do pastor. Não era ella a mulher incompleta. o maior de todos. já que entrou n esse caminho. Vá. a m o rada de Deus.

Era o soffrimento animal n'uma alma rudimentar. Transmontava o sol. á cruz das estradas. filha. arrastada pelo medo e por um assomo de vergonha.. • cendio do dia. na sua intelligencia confusa.. suffocada pelos morros e enterrando-se n'elles. e na sua febre sentia-se como que apertada.Si este logar não fosse sagrado. minha.etótófe<ám-se da luz serena da tarde. a^porta se fechou? e tudo o que era humano alli desappareceu n'um immenso silencio. 14 . começou a descer. No seu coração innocente. e o que a impellia para a frente era um vago terror da noite. a montanha. livres do. Isto aqui é muito solitário. deitando-se longas. correndo. as pri. emfim. preguiçosas. Si não fosse terrível a morada de Deus! Vá../Yrt/>' meiras sombras. —Vá. pobrefilha. o desespero do desamparo na matta. os valles apaziguados e. filha.. filha. Jy^Jr^'Transformava-se a expressão das coüsas. . que pena! Como soffrocttnãopoder guardal-aém minha casa. todas as scenas violentas d'esse dia se misturavam extranhas como n'um pesadelo. Ficando só.. cuidado na descida.CHANAAN 241 voz do padre se revestia de um accento cada vez mais delicioso de ternura : . Ao chegar abaixo. a voz do pastor ainda lhe cantava ao ouvido: — Vá.. poz-se a caminhar pela que levava a Santa Thereza. grande in. Maria. Depois. vá! E quando Maria se viu no alto da montanha e olhou deslumbrada. cuidado com os caminhos. allucinada. e as encostas dos morros..

então. tornando. não havia ninguém fora. na opulenta terra de Chanaan. arrebatada pela fome. a viagem dos pássaros na limpidez do' céo. que não era só o cançaço da corrida. com IP j ^ l sua calma de louca. como uma musica sussurrante.242 CHANAAN como tomadas de somno sobre a relva avelludada e voluptuosamente verde: os pequenos ventos acalmando a febre da terra inflammada .. o calor. inoffensivos os animaes. as famílias dos emigrados se reuniam n u m olvido feliz. e aquella hora... E. No fundo do valle Maria viu um núcleo de colônias engastadas na vegetação. sem o menor pejo. ***** Maria. a fadiga physiologica da maternidade.ahi chegou. alli. A miserável sentou-se desalentada sobre a borda do morro com a vista perdida nas habitações. ergueu-se e desceu rápida para o grupo de casas.. mas o vácuo da fome. a sympathia dos semelhantes. impellida pelo imperioso desejo d & j M j ^ o e * * ^ conchego. dilatados pela claridade crystallina do ar. deliciosa.. esquecida da sua triste situação. ^---^*2^"ando. reunidas n'aquellas vivendas. em cada uma das casinhas da matta brasileira. Aos seus ouvidos subiam vozes humanas... sentindo-se attrahida pelo feixe de forças humanas. Das chaminés sahia fumaça. Maria teve o Ímpeto de «erprecipitap-clo alto sobre as casas que estavam a seus pés. que ella escutava. mas ÍM3 ella proseguiu pelo terreiro a dentro.. Outra fraqueza a pungia. Da t . // Os cães R e c e b e r a m ' n'um atroador alarido. e em torno da mesa esperavam a ceia.

A claridade da tarde ahi dentro esmo- .. « gosa doida vagabunda... / " — Fora. E como no seu enleio a miserável respondesse por disparates. maluca. alguém disse : . Na sua carreira chegou até uma pequena matta que o caminho cortava. Homens e mulheres chegaram á porta. Assaltaram-na de perguntas. raivosos e ululantes : — Maluca. maluca. fcffdtos homens pegaram em páos e ' yjr avançaram psópgüa. e das outras casas a gente sahia para o pateo. e ainda continuava mesmo offegante a correr.. fazendo coro com os vizinhos. fora.1 primeira morada sahiram para vêr a razão do alarma. Os c#es excitados ladravam furiosamente. n'um grande berreiro. Correram as mulheres para 1//"^ o interioii M. maluca! maluca! A moça fugiu n'uma desabalada corrida. sem saber o que dizer. fugindo espavorida para longe d'aquelle ponto. que se communicou/yj!$//amente. Ui/rJi****^". Foi um pânico. Homens e cães^rperseguiram^lguns naomentoe. Já Maria voltara á estrada.//tS^«^/' e todos se julgaram em presença de alguma peri. a fugitiva como que despertou e ficou intimidada. — É com certeza uma maluca. ainda mastigando e aborrecidos de ser interrompidos/Ao enJMÍi/ar a gente.CHANAAN 24. Maria recuou d^èttddddídfjsem perceber bem o cuo6~ que se passava. amedrontando-a. — Fora.

postada na abertura da floresta. Das mãos tremulas e despercebidas cahiu-lhe a trouxa de roupa. -etí* espreitava o rumor e o curso das coisas. As montanhas.. espiou para dentro. e. Os caminhos. subindo ameaçadoras da terra. j f^ ( CHANAAN recia ainda mais. os seres tomavam ares de monstros.... Augmentavam as sombras.. perfilavam-se tenebrosas. tomada de um calafrio.. n u m vôo captivo e arquejante./„ J"^. E o poder de visão redobrava á medida que a sombra surgia mysteriosa nos meandros dçf 4 J wasqui. como o bafo vaporoso. sem animo para íugir. Maria ficou pregada á beira .. Na sua imaginação perturbada sentia a natureza toda agitando-se para suffocal-a..e urna inexplicável e funda attracção por aquelle sombrioe tenebroso mundo a retinhaextatica. até perder os olhos na outra longínqua porta de luz. desamparada. ouvidos apurados.. azues e pardas. Na várzea. Pela estrada interior iam e vinham borboletas enormes. (. No céo.IA / ... aterrada.' As arvores soltas choravam ao vento. impalpavel da ' Terra.da floresta/ sem animo para entrar... Maria parou. s^^Tn^fg^ f grqi 1 f' pg s^rpmrrsrfflfiajtas.2í'i /Pu &tic^ ~J2 ! /-*. Os pti* . EjfgotTada de forças. nuvens colossaes e tumidas rolavam para o abysmo do horizonte. . cojjoo^carpideiras phantasticas da natureza merfaT. a mesquinha derreou-se aos pés seculares de uma arvore. batida. com medo de penetrar na sombra. ao clarão indeciso do crepúsculo. espreguiçando-se sobre os campos. e de olhos dilatados. vendo-se colhida em/pleno deserto pela noite...

e o« fogos 0j> JyfâyfjfíJJjfa/ espalhavam ahi uma claridade verde. e insensivelmente bro. A desgraçada..s iam-se xnulti-J(^VX^Y ** plicando dentro da floresta. No alto. cançados não ac/ídiam aos Ímpetos do medo e t c y deixavam-na prostrada em uma angustia desesperada. mas os membros . as ar^/>«>vores esparsas na várzea perdiam o aspecto de p ^ phantasmas desvairados.'. tí*T" . e v <Uo jy . e myriades e myriades d'elles cobriam os troncos das arvores. O que havia de hi\ ?T '~*" vago.(ji4F $t*r* CHANAAN 245 / _meiros pássaros nocturnos gemiam agouros com pios fúnebres. tavam silenciosos e mnumeraveis nos troncos das / .^ Njoem a illuminar. Maria quiz fugir. deitada ás plantas da arvore..( M . começou a dormir. /Al rr~~"W arvores. sobre a qual passavam camadas de ondas amarellas... Os pyrilampos já não voavam.. que faiscavam cravados de diamantes e tqpazios^Era uma illuminação deslumbrante e ^ g n o g y ^ e n t r o da matta tropical. ^sr acalmavaiTKna immobilidade perpetua. 1/ I as estrellas miúdas e successivas principiavam tam. no desenho das coasas 0 -^ / <crer r< transformava"em límpida nitidez."^f""".. alaran- /y & w * ~ **• "•* ... como si as raízes se abrissem em pontos *i~ttc4*u>>-u luminosos.. /^'r^^rtfA Serenavam aquellas primeiras ancias da Natureza. V / Os prirneiros vagalumes começavam no bojo d a / ^ / w /matta a correr as suas lâmpadas divinas. pouco a pouco foi vencida pelo somno. de indistincto. . abatida por um grande JYt^^M^ torpor.^^. ao penetrar no mysterio da noite. No ar luminoso tudo i^uejU^ retomava a physionomia impassível..^ ^> \ ? Cvf. Qs-pyíHftairrpo../. . As montanhas ' /«'-/*.

mesclados com os fc I pontos escuros.o poder d'essa luz o mundo ira da um silencio / ' i(M> religioso. mãos. .. parecia partir para uma festa phantastica no céo. collo. vestida defflídfktíwjt^.'/-^^briram-na.. e assim ella recebeu n u m halo dourado a cercadura triumphal. cojno si a flo. os andrajos desappareçeram n'uma profusão infinita de pedrarias. cabellos se sumiam no montão de fogo innocente E yd&Ç&inj&is vinham mais e mais. e interrompendo a combinação luminosa da matta./ . E os pyrilampos desciam em maior quantidade sobre ella. violaceose d'ahi a pouco braços. e a desgraçada. não se^ouvia mais o agouro dos pássaros da morte^yTvento que agita e perturba/. amethystas e as mais pedras jfó4/ J/a^q^h parcellas das cores 4 i y i n a s e eternas. Âzzsa esmeraldas. transparente. As figuras das arvores ae-desenhavan^envoltas n'uma phosphorescencia zodiacal. saphiras. Sobre a cabeça dourada brilhavam reflexos azulados. para um noivado com Deus.... como tocada fde uma morte divina. A sua immqbilidade era absoluta. t \ f. jopf'£.ar*aÜg*r. fyn :^. era • J como uma opala encravada no seio verde de uma ÉL esmeralda. aili e além. Depois os y&gamntóâ' incontavei^co. ' . como lagrimas dasestrellas. Ull'kArt^''^x'dÂ.Por toda a parte a bemfazeja itanquillidade da luz. Maria foi cercada pelos pyrilampos que vinham cobrir o pé da arvore em'que adormecera. E\os pyrilampos «s* incrustavam-V» nas folhas e aqui. dormindo imperturbável.•" *i&di rubins.UCt 246 \ sMM****** // CHANAAN jadas e brandamente azues. a carne da mulher desmaiada.

Na ax-'""i vore que agasalha Maria. e tudo se esclarecia de outra luz. despida das jóias mysteriosas.. Abandonada pelos pyri. indecisa.. sem tardar.CHANAAN 247 resta se desmanchasse toda n'uma pulverisação de luz. ' O silencio da noite foi perturbado pelas primeiras brisas. os Vctó^itóí vão se apa-''''^ gando medrosos e(se\occuftand/)no segredo das b-j selvas. e o ruido começava. capitoso.ff/oUjt— pelo mundo despertado.. e um perfume concentrado durante a noite se dfyffflfâffi..-. _yt rado de umjl 44frf$í e recahiu adormecida na face /// dbévf illuminada da Terra...*M t£o>y~ mando uma luz turva. Ias abandonam o céo. começa o canto dos pássaros. Pyrilampos espantados faiscavam relâmpagos de cores. emquanto os seúTdèrradeiros lampejos na — «-->!•* matta ^ m f s t ó ^ ^ á ^ p clarão do dia nascente. que enche os ouvidos da mulher com o accento de uma felicidade inextinguivel. e. cahindo sobre o corpo de Maria até o sepultarem n uma tumba mágica. Arrancada pelo pavor UA r ^y^Y^^^JZZ^ . E aves surgiam. de todos os galhos da floresta sáe uma nota musical. for. abriu os olhos. que se deslumbraram. Maria pensou que p sonho a levara ao abysmo dou. a rapariga inquieta ergueu docemente a cabeça.Jl&rZÁ** lampos. incolor. infatigavel memória lembrou-lhe a agonia. As estrelf^^/^pu. Maria foi emergindo—dosonhorA a s u a innocencia detodo o pec^a^^dWlípexfeita confusão com o Universo / f &/£ acahff ao rebate violento da consciência)^ a / / / „*. mensageiras da madrugada. Maria IJ^jWJt conheceu-se a si mesma. Um momento.

vacillando. receiosa de perturbar com o seu ar de vagabunda a serenidade da população activa e silenciosa do logarejo. creanças corriam nos terreiros limpos. sem pejo da fome alheia. Maria ficou parada á porta. Maria continuou a subir as montanhas até ao alto de Santa Thereza. E emquanto atravessava a matta. Em todas as casas começava com o dia o trabalho. a cuja temível potência morreu toda a illusão do sonho.-248 . E quando chegou aos caminhos descobertos. ficou mais tímida. A miserável marchou seguidamente duas horas. já por valles repletos de colônias. E foi n'um grande rubor. vultos de mulheres Sfc. gerado da acabrunhadora humilhação. já encontrou o sol. que lhe descia d'essa miragem entrevista no espectaculo da noite maravilhosa. n'umapostura . a fartura do homem. e de todas as chaminés aquelle suave e ineffavel fumo da manhã. que se dirigiu. que annuncia. ergueu-se de um salto e partiu correndo. passando já por desertos. Quando alyattingiu.movianrnem roda das vaccas. na densa evaporação dos curraes. na sua lembrança persistia um clarão. # # ' CIIVXAAN dos perigos porventura passados naquelle deserto. que lhe engrandeciam a dV^T/ção. para a estalagem. Na taberna que era o único pouso d'aquellas alturas. viajantes tomavam a primeira refeição da manhã. apezar do medo que a tomara. que lhe recordavam a sua vida de hontem. homens rachavam toros de lenha.

veiu á porta inquirir de que necessitava. a velha perguntou : / — E que dinheiro traz você ? Maria. Com a voz sumida. l/y^ A moça atravessou o corredor sem olhar para o refeitório. Na cozinha onde entrou. occupada em servir. insultando-a. Era a creada do albergue. A joven a convidou a entrar. não reparou n'ella. a comida que lhe iam dar. menos atarefadá. mas a filha.CHANAAN 249 de mendiga. ao lado do grosseiro fogão de barro. Afinal. A outra insistiu. A velha virou como um corropio. n'um embrutecimento de faminta. não ousando sentar-se. Maria disse que tinha fome. mas depois. E Maria teve um confrangido asco. — Bem. uma massa repulsiva se movia como uma lesma. dizendo : . ^*e quando esta lhe efLjfyíffou que buscava abrigo e / L < ^ t ^ trabalho. que não tinha pensado n'isso. quando de dentro os passageiros gritaram pela dona da casa. como que arrependida. deixou-a j^M/da/mente e foi falar /<*> étM z a mãe. esperando de pé. que jálraráttendo. com os olhos seccos e vidrados. A dona da casa. vendo-a. entre para a cozinha. A estalajadeira tornou : — Mas que traz você ahi n'esse embrulho ? A mendiga / ia abrmpara lhe mostrar as roupas. ficou embaraçada em responder. . — E então como quer você que lhe dê de comer ? Maria fitou-a aterrada. A estalajadeira veiu examinar a foragida. a rapariga confessou que nada trazia.

250 CHAANAN Os viajantes partiram. ia despertando a curiosidade e dando a impressão de tristeza que apavorava a descuidada gente do logar. E para o meio-dia. Não era ella alli na . sentiu Maria crescer a sua solidão. arrastando-se como um animal empestado. deante da com- / rfaric placente apathia da rapariga. No meio da felicidade dos outros. a quem deu um peyy^a 1 daço de P a o e UIf tigela de café.lquando o sol baixava. alheia. e a estalajadeira foi á cozinha. A'desgraçada. dou-lhe comida e dormida dois dias.e por toda a parte aonde chegava. . que recalcava todos os ^.^V. rolava vagarosa. escorraçavam-na. I A. n u m insç-v tincto de apertada defesa. . era quasi sem pudor que pedia trabalho de casa em casa. repelliam-na.tranquillidade do povoado. Ninguém v—. o extranho phantasma da i miséria ? / £. depois do jantar. A tarde. / a população -s^ apresentava^a porta das casas. Ninguém a " queria. fiyf- t Por esta roupa. absorta. mais primitiva. Mnrin nlnnrn n pniifjef */7 fZ H sendo governada por uma~veihã áíma^TmrisTu^J? dimentar. E foi se apoderando da trouxa. Per- . repousada e esquecida. / v^ cheia de fome. comeu n'uma fyfâtòtâ desprezível^ //' ^í^jy. Depois de examinar o que Maria trazia. ligeiros vislumbres de uma sensibilidade menos $ r grosseira. e ella. na conchegada e bo' nançosa vida aldèã._ lhe falava. -• Mergulhada na desgraça. Maria passou o dia inteiro a vagar pela povoação.

mostrando uma magreza de bruxa. Voltou.CHANAAN 251 correu a estrada que corta Santa Thereza e foi até ao fim. onde acabava a povoação. que começou a devorar. n'outro monturo de palhas. a infeliz ficou um instante só. a moça permaneceu petrificada. a invasora cl>^y do seu circulo de independência n'aquelle immun- . quiz ir além. As duas miseráveis não se falaram. a dona d'este mostrou-lhe um colchão estendido n'um quarto infecto. Sobresaltada deante da megera.a a dentro. Mas os olhos da megera se a^í^úiív^ím de ódio contra a rapariga. Os cabellos despenteados cahiam-lhe sobre o pescoço. * Alumiada pôr uma candeia de luz mortiça. de se evadir do raio do calor humano. desalen^ tada sobre o colchão de palha podre. á luz turva os olhos brilhavam n'um fulgor de loucura. que lhe apparecia como uma inimiga. pela matt. Tirou o casaco e ficou em camisa e saia. que ficava em frente aquelle em que se achava Maria. O bafio do quarto tonteou-a. quando foi a hora de se recolher ao albergue. NãO"tardou tl^^ 4 » è um vulto entx0tjlfno quarto e ff0f sente-se //. na mesma postura. — Está ahi a sua cama. e n'uma vertigem ella cahiu. " {^cc^r^. e foi com um revoltado nojo que viu na tíbia claridade a sua companheira metter a mão esquelética na palha nauseabunda e retirar [d'alli um pedaço de carne. mas não teve animo de se afastar d'aquella atmosphera de desespero. Naquella primeira noite. Era a velha creada.

no maior silencio da casa. corriam doidamente. indo e vindo a todos os cantos. Correram os dois dias marcados pela estalajadeira. que ainda assim era o refugio da ind^ clinavel liberdade. para a estrangular. ora se escurecia. o medonho quarto. derrubada por alguma rajada de somno.252 CHANAAN do aposento. sem que Maria pudesse encontrar trabalh í . Maria. e semi-morta sentiu passar sobre a cabeça o vôo tenebroso de um morcego. alongando as mãos de esqueleto. o máo cheiro e o terror da bruxa.^e-4ião podia dormir com inquieto^feceioJTTudo a prendia á vigília. até cahir tudo n'uma profunda escuridão. E quando ia cabeceando. satânica. acompanhava o ruido aterrador dos ratos. . não tardou muito a tombar dormindo sobre a palha. Pela noite a dentro. Vencida pela prostração. gelada. ora se illuminava em suecessivos relâmpagos. Maria sentiu-se endoidecer de pavor. Os ratos largaram a comida e continuaram á sua infatigavel investigação no aposente. incessantes. ratos começaram a surgir no quarto. passeiavam pelo corpo da velha como sobre um cadáver. livida. e no seu colchão comeram os restos de carne que ella deixán». farejando.. via n'um instantâneo pesadelo a velha erguer-se. A lamparina principiou a se-extinguirferepitando. Despertava convulsa e.. sempre alerta. Guinchando. e o quarto.. espichava a cabeça até junto da outra. irrequietos. que continuava a dormir. Maria acompanhava o aríar d'aquelle corcovado corpo e o latejar das grossas arterias.

n u m delicioso momento. apathica. A-filha. Não sei d'onde veiu. appareceu aqui sem um vintém e tanto chorou que a fui deixando . y Af*^^ > ' —• Ah! ri ir r ri "Hfr é uma vagabunda que recolhi.. Milkau em viagem para o Porto do Cachoeiro. esmagada. tanta lfáy/L miséria. mas nesse maldito apego á vida.CHANAAN 253 suas implorações e suas supplicas eram desdenhadas. atirando-se aos pés da velha para que a deixasse permanecer alli até en. e que entrevira primeiro na capella de Jequitibá. E assim viveu alguns dias. Uma manhã.. dpííada-^dl. em companhia da outra. e n'um instante a sua miséria tornou-se o ludibrio da gente amparada e farta d'aquelle retiro do mundo. entrando da rüa. onde ia comprar mantimentos. • quando viu Maria passar no corredor. sem pão e sem guarida. Ficou um instante pensat<Vn prCítaando explicar por vãs conjectura? ttivo encontro.. 15 i j '• . tC^Vé^quem era i mulhecqao alia acabny/i dia^.ficar. teve animo para intervir e Maria ficou na ' hospedaria como creada. chamou a dona da casa e pergun. Milkau reconheceu a sua joven companheira do baile de Jacob Müller. Depois de alguma hesitação. que é o alimento da desgraça. Desatou a chorar. almoçava socegadamente no albergue de Santa Thereza. Apezar da miserável situação em que ella estava. A dona do albergue intimou-a a deixar a casa.i/yU cohtrar um emprego. e Maria teve um pânico terrível em se vêr de novo obrigada a bater as estradas.

no estado em que está. deixando Milkau e Maria a sós. * J/kau f^decidfiiraKronlar-lhe a suü Hes/raçV Por ve~ 'zes. fwe^M. espantada da scena. porque da cozinha a chamaram. Promptamente pediu que chamasse a rapariga. E então breve. motejava : — Olhem. que. Milkau n'uma grande afflicção interrompeu o almoço. Não continuou. /^ tendo por sua vez reconhecido/Milkau... coitadinha. que tem de ir para a cama.25 í CHANAAN — É sua creada hoje ? — Quall Um trambolho. vinha ' arrastada.. C melhor é que se vá para outras bandas. sem eira nem beira... A dona do albergue. o que logo a velha fez. embaraçava-se vergonhosa. e ella acudiu. poz-se ella a chorar. e delicadamente Milkau a desviava dos ponjres íntimos e mais dolo-' rosos. retomada de um inesperado ardor. porém.. Milkau levarjtou-se commovido e procurou acalmal-a. vejam só. Maria.. y a estalajadeira entrava empurrando Maria. com immensa vergonha. desmoralisa uma casa. Está-se a se lhe arranjar emprego e ainda fica amuada. Também era só o que faltava! Aquillc . A confiante #meiguice das palavras de Mil.. Alguns momentos depois. aqui ninguém a quer. Esta não quer me largar a sopa!. /<«"... E quando n aquella sala da hospedaria . Vendo-o agora. abria-lhe todos os cantos da sua humilde existência. O que ella me fa? não é nada em relação ao que eu lhe faço. Essa linguagem atordoou o espirito de Milkau.

/ ee*»—*n^Era a salvação. > deixasse no caminho a miséria alheia e continuasse no seu embevecimento de felicidade?.. disse afinal Milkau. poz-se a scismar. esperando que elle falasse. E n u m instante esse encontro lhe $ffâ0Â.. E longe. abandonado a velha sociedade odiosa e recomeçado a existência na virgindade de um mundo immaculado.. — Bem... Vae vêr como não me canço. e está tão abatida.. Depois. — Abatida? Oh! não. tenho uma colônia onde posso empregal-a. Estou prompta para caminhar. e os sentimentos *y<**fl&:y de Milkau galopavam para o passado. A dôr sa-nrqstuafei com r-^. d'onde pensara ter-se táffyúado para sempre. com o semblante illuminado. de que não agüente afyÍJfrft'^ viagem... todos os longos mezes ' de felicidade. devastadora. si passasse adeante. de resurreição.T^íj^ràred$ porém. E uma casa de conhecidos meus no Rio Doce. Maria sorriu encantada. Era a primeira vez em que na sua vida nova se esbarrava com a Desgraça.CHANAAN 255 Milkau acabou de ouvir a narrativa..(*&**<{ a sua força solemne. onde a paz devia ser inalterável ? Porque então o espectro do soffrimento o perseguia ainda alli ? Milkau divagava n'um fundo desespero.. Jy/^/^T Si elle não desse ouvidos. reflectindo : — Mas o senhor não ia para o Cachoeira ? Por- .. Maria fl fitáva-^erena. Não tinha elle fugido á maldade humana.. mergulhan-'" do-se outra vez nos cyclos sombrios do soffrimen/ to. Passouse longo tempo n'esse silencio triste.

respondeu Milkau. peço que restitua a roupa que foi o penhor do pagamento. Milkau não replicou.. Depois de vêl-a amparada. a quem Milkau communicou que a rapariga seguia com elle. — Agora. A mulher fez uma careta zombeteira : — Oh!. Milkau explicou mansamente que ella tinha de . Chamaram a estalajadeira. Que bem me importa a mim.. Uma vagabunda. tornarei ao Cachoeira. A dona do albergue tornou-se fula. disse elle com meiga decisão... isto não vale nada.256 CHANAAN que então abandona a sua viagem e volta ao Rio Doce? Por amor de mim? — Ora. como si fosse roubada: — Esta é boa. pôde tomal-a como quizer. 'Oil*' f-ffk foz-seja contar nos dedos e depois pediu um preço exaggerado. — Diga-me uma coisa : quanto devia pagar esta pobre moça aqui na sua estalagem ? inquiriu Milkau. sem se importar com o que estava tagarelando a velha.... Amanhã mesmo. meu senhor. sem allectaçâo. Ella não é minha filha. accrescentou Milkau. A roupa foi coisa á parte. e dando o dinheiro : . negocio é negocio. — Vamos. ' /Ç^ contentissima. — Mas.. — Eis a c l u ' A a i m P o r t a n c i a 'j^4^4^^^f^ / //yji (oJ*' mulher jpdfò p a s m ^ V recolheu as cédulas..

para se libertar do Mal. Maria tornará a ser feliz.. malcreada. Mas. clamava aos vizinhos : — Vejam só. Amanhã. E aquelle sujeito com uma cara de santo ! Pouca vergonha.... passaria rápido. atravessando n'um êxtase a pomposa região. Maria seguiua.. contra o ódio entre os homens. Isto(^i-4he)novas forças e. Partiram. vinha de roupa mudada. a miséria da sorte da companheira. Não é que a desavergonhada teve sorte. faceira. pensava elle.. Quando deixaram Santa Thereza e tomaram o caminho do Timbuhy. o fóú amante arrependido virá buscal-a. resmungando.. afastando as apprehensões de uma irremediável desillusão. E quando voltou á sala. A'^áí viagem de hoje era ainda um combate contra o soffrimento. Milkau recordou-se da sua primeira viagem com Lentz. e todas as ligeiras feridas da dôr serão curadas por um sopro de bondade... o seu espirito tomava outro caminho e confiava qme aquelle doloroso incidente. -V //f.CHANAAN -257 optar entre os vestidos e o dinheiro. e tudo voltaria á doce calma.. fincada na porta. assim compellida. risonha.Q ///*' . e foi buscal-os. e a velha. de que não necessitava. foi alegre conversando com ella. com uma fita azul no cabello. A estalajadeira. interrompendo a descuidada bemaventurança. Milkau festejou n u m sorriso o despertardamulher. esquecendo a tristeza. emquanto elles atravessavam o povoado. preferiu ficar com a quantia e restituir os objectos.

percebendo que lhes erVimpossivel alcançar o Rio Doce n'aquelle dia. n'um capricho de linhas. . ti dei^ v » t ü / xavarrí ficar alli. escoteiros. Com o avançar da t^irde. negras.yfcfrppoy a Maria continuassem a caminhar até descobrirem uma colônia onde r/irrflrrfm n n^it/ Andaram mais um pouco. e. ora mattas /r W ^"~_folhudas. era um peque5 no jardim europeu. e urria colônia se lhes deparou no alto da montanha. Os viajantes foram-se deliciando com o scenario. que ç(já. despenhadeiros. Sen/?>**>**" taram-se ás sombras das arvores.QiJU*** 25si I CHANAAN Debaixo do sol ardente desciam e subiam morros. plantações. Milkau ficou inquieto. £r / Maria fez um esforço e foi subindo vagarosamente. ora. a beira dos caminhos. passavam viajantes montados. tudo n'uma abundância crea •S "*\JZ-^ Ção. \pf&t/i**t. lírv"*1 como n'uma paizagem extravagante. "Mais tarde começou a fraquear e era com difficuld\de que yj/fâyfjgfâdy1.riachos. descuidados. e só elles. seccas. planícies.. casas. montanhas baixas formando massas enormes.xnbaixo / _ e^tendia-sè^ilma serie de vafles recortados em / / mil aspectos diversos. Descendo das regiões férteis. passavam tropas de burros carregados para o Porto do Cachoeira. Milkau propoz subirem pela vereda que £ levava até lá. r / A colônia para onde se dirigiam. apezar de tudo. '0^^Mh[d^^ddtíJU¥. e durante as primeiras horas Maria marchava lépida. áridas. onde talvez conseguissem agasalho. oyl passava gente a pé. ora. perfumando /fi* á . de desenho. Á medida que se ^j approximavam.JíWdfy a uniformidade Í^Vv / das habitações dos immigrantes.

Milkau ficou um momento admirando os movimentos expertos e juvenis do ancião. Os cães u ^ * ladraram atirando-se sobre a cerca. A vista se lhes extendia farta e satisfeita sobre uma tela mágica. as filhas eram casadas e os filhos viviam na vizinhança. e da janella apontou as plantações no morro próximo. e o velho. ate ate que. mostrando no riso uma fila de dentes sãos. Entretanto. o que o entretinha era cultivar flores. E o velho. falou aos viajantes. Milkau explicou-lhe o que os levara ahi. A impressão que tiveram. e logo um velho acudiu. morava alli só. n u m gesto de agasalho fácil e espontâneo. ia-lhes contando que era viuvo.. foi de um só conjuneto de cores desdobradas ao infinito. que. Milkau bateu palmas. tratadas com o carinho de uma horta. Levou-os o velho para dentro da casa e offereceulhes jantar. Penetraram no jardim. alisai^ /H. divina e rara. Os olhos não se podiam fixar em nenhum porrnenor.jiy . radiante. havia muitos annos. O homem da colônia deixou os hospedes e foi regar as plantas. Findo o jantar. escancarou a porta. uma irradiação espectral. seguido de Maria. o cafesal também o distrahia. e depois. patifes ! assim é que se recebem visitas ? Os cães a-afastaram"rosnando. vieram os três para o jardim. checom os os aromas aromas que que yyiinám ene./ do a longa barba branca. servindo-os á mesa e obsequiando-os como podia. gaddy á cancella.CHANAAN 259 y/f&fUM*< com ytjipáxh do do jardim. jardim. uma zona cambjante. que estava em triumphal floração. socegando-os com alegre auetoridade : — Olá. começou a pas- .

. via interrompida a eterna verdura. Naquella mesma hora era alli a hora da \Jyy primavera. en.260 CHANAAN .//" mão no homb/o de Milkau.(•*$» **"•**"'-ffflrranrejeáéícíÉr. Quando elles passavam esquecidos. abatido apontou no momento do crepúsculo uma ligeira sombra de nostalgia.f / ^ w ^ torpecendo-os .. e com os olhos postos n'elle ficava embebida'n'um humilde enlevo.. como flores aladas. JL U gelada. Com a queda do dia. E um instantâneo olvido encerrou a sua agonia. entristecido.'y ' seiar pelo jardim. absortos.bmscamante. Ella parecia nunca ter soffrido/ uma resignação de nômada apagara rapidamente os vestígios da miséria. toda era encanto por Milkau. Milkau julgava-se fora da natureza tropical. E no animo de Milkau amollentado pelo violento encontro da dôr. a terra que abandonara. Encerrado alli. dos jardins. Tudo resuscitava. Este sentiu^uírxâtlttí.. susbtituida a tragédia da natureza brasileira pela doçura européa trazida nas flores que^peregrinaram até ahi. Andaram até onde A. J" como espectros: olhos perdidos no vago. as plantas cheiravam ainda mais. ' . E foram caminhando XlL?. borboletas voavam sahindo das plantas. E o jardim lembrou"2-Makau.. Agora.ITõ'calor emanado das entranhas' £ * geradoras da mulher infiltrou-se^^aSs^nervos. sahindo da morte . da gente n u m regosijo de novidade ao calor bemfazejo do sol. das U"^' casas. Recordou-se dos bosques.. Maria estava meic/fatigada e inconscientemente apoiou a . mudos e gr* sonhadores. e elle daf y ^ transportou éM jfmqf da saudade para a velha **"" / Germania.

... Sentaram-se em uma pedra. no seu leito. Os olhos.v ' três conversaram sem interesse. esterilisando aterra... o immenso globo ostentava uma succes• siva gradação de cores. . onde lhes tinha preparado as camas. até que o dono da ' casa. uma palmeira se alteava. onde. como uma mulher bella e damninha. 0 mundo inteiro tinha parado para assistir ao espectaculo. Seguia deliciosamente todo aquelle brando respirar. e pouco a pouco uma/yíyídd perturbação h\e f/f^ f/^ '< . propoz irem dormir. á mesa. Dentro. Era uma representação phantastica. como uma musica extranha. sfeerguerarrKpara o céo.. e acompanharam a morte do sol. até que afinal eUe-mergulhou no horizonte e a terra tingii>se de sangue e em seus mil nervos agitou-se toda. que se lhe infiltrava. Era noite. aquecendo-o. Mostrou a Milkau dois quartos contíguos. Sem raios. convidando-os a dé xecolhexdyfi... O grande actor foi descendo no espaço sem nuvens. cahindo de somno. acompanhava o somno de Maria. como si dentro d'elle um mágico se divertisse em illuminal-o. O colono acabara o serviço e veiu ter com os hospedes. sobre a sua superfície as cores ainda continuavam n u m a infinita mutação. depois de mergulharem no tremedal que ficava em baixo. sem reverberação. descampado. O resonar leve e regular da mulher lhe vinha aos ouvidos.. sem poder dormir. E já a casa estava em socego e Milkau.. no despenhadeiro da montanha.CHANAAN 261 o jardim ia acabar n u m logar secco. os .

um espreguiçamento dos músculos o desequilibrou de uma vez e o atirou a uma vertigem de volupra. Chegou-se á porta entreaberta do quarto de Maria.. *Só elle era mudo. poz-se a scismar debruçado sobre a Noite divina. " *&** °~<- ou*'«0 alvoroçava o sangue.. pensava elle. Aquella/hora lhey• chegavaP do universo inteiro o echo dó Amor.../wrJ*44.. aj \ bocca secca. e. Ej^JSÜ* esta palavra evocadora lhe dilatava. o seu respirar chegava sempre aos ouvidos de Milkau. onde jaziam sepultadas. e todos se amavam. Z^ZT^^* 262 t.fU. que vos c a n t a i O chéTro o jardim tr^nstornavTãTc^Iiã^rrrMilkau estremeceu outra vez.. . Mulher! E lá vinham do esquecimento. o* »i coração galopando.. -Maria continuava a dormir tranquillamente..:vexame.o y-<n<«v A •*»*. E o seu olhar prescrutava as sombras da immensidade. J/lJtAftrt^enchendo-os de um goso .•.. Tudo seifiuminava ao poder for- a* ?"/ +< ****&* • * cd*>" .. O homem forte ficou envergonhado d'esse momento de loucura. debaixo de cujas camadas sonoras se sente 0 / mysterio do instrumento. abrindo a janella..1 os horizontes da fejtringida e quasi apagada sensualidade. a garganta estrangulada.. Amaldiçôou-se e teve nojo de si.. dando-lhe um instante de consciência e um profundo.. Mulher!.. % # f r | ^ ^ N ã o era u m V //' /Tfêsonar Hormeclda.Mulher!. Cresceu-lhe o tremor e uma languida molleza o deteve.... viu-se o ludibrio do desejo e descreu da redempção.*"+ +«*y< ?t+yy^*r*. Era noite.. 1 E um torpor.. as visões lubricaselascivas....<*. Milkau levantou-se tremulo. eralím"suspifo de amante.. sacudido pela volúpia.

com os olhos meio cerrados. i&fêturados.. . perguntou : . os corpos. — Já são horas de partir? A voz innocente cahiu sobre Milkau como uma rajada de frio. sem poder ir além.. Os cabellos d'ella estavam soltos e cahiam sobre ocollo nú. voltando rapidamente a si. os braços se apertavam enlaçados. O soli. E para elle. Retirou a mão e.. que accordou a rapariga... e nos cabellos de Maria. Voltou á janella.. Deslumbrado pela vertigem. Socega. gemiam n u m frenesi de doidos. E tudo era uma visão > de amor : as boccas se beijavam com febre.. luminosos como um rio de ouro.. Não é nada. o joven sangue parado pela illusão. murmurando : — Não. mergulhou a mão até ao fundo. fugiu. que amornava o aposento. Dorme.CHANAAN 263 midavel da sua allucinação... n u m frêmito convulso. correntios. clamou o corpo da mulher. Ficou assim séculos pregado aquelle corpo. Era serena e bemfazeja como a face de uma . Ella. se degelou n'um momento e.. O sangue dentro d'elle..Miíkaurecolheu a quentura do corpo feminino. mudo e refreiado.Milkau deixou a noite tentadora e entrou no quarto de Maria. via-lhe os cabellos descer pelo corpo abaixo.. não. que não era mais o mesmo. como em frocos macios e louros. quente e sôfrego. n'uma arquejante respiração.. não tinha mais aquelles accentos de volúpia. aquelles transportes de luxuria.. a Noite era outra. E ficou tremulo..* tario também amou..

e com o orvalho. erguendo a cabeça. . como o vencedor de si mesmo. que a madrugada para o sarar lhe derramou sobre a cabeça. humilhado. Maria retribuiu a saudação sem jfytír o que esta dizia. o velho os acompanhou até á porta do jardim encantado. ao deixarem a casa.204 CHANAAN irmã. mas logo. arrependido. De manhã. como se costuma sorrir aos noivos. partiu altivo. Milkau sentiu uma pungente tortura com aquelle sorriso. e com a brisa misturou os queixumes da sua agonia sexual. confundiu as suas lagrimas de solitário. Ficou longo tempo alli. sorrindoIhes com carinhosa malícia. confuso.

Milkau se\gonsagravf)ainda mais ao trabalho. seismava elle. Não ha desgraça pequena. Já por esses ^ .. Todo o «prazo» estava cultivado.No espirito d'elle íe/fl*^*' uma melancolia teimosa se espraiava infinita. cobriam como um manto a antiga hediondez do roçado. que brotavam n'um indomável viço. Não podia esquecer a desgraça de Maria. Desapparecêra a coivara. Toda a dôr é immensa. o terreno ..VIII A passagem da miséria na nova yjdd de Milkau / ' * £ * ' deixara o seu vestígio perturbador. e agora o pensamento rolava vertiginoso para o desanimo. vaga. que o cercava e lhe extendia os braços amorosos. tão insignificante que não clame aos que passam.tempos a colônia tinha um bello e florescente aspecto. e os pés de café. piedade e reparação com o alarido de cem mil boceas. Não ha soffrimento. entorpecedora. E para afugentar a persistente Tristeza.

. e a humilde casinha dos dois emigrados estava coberta de trepadeiras. E quando. as empregava com desvelo e ardor no trabalho com as próprias mãos. em poucos mezes para elle já não havia segredos na floresta brasileira. buscava expandir-se n'essa fôrma inicial e selvagem da civilisação.. Mas. flores do seu jardim. e todas as suas faculdades de attenção. o seu espirito. simples lavrador. e. luctava com os animaes. até se tornar universal e indestructivel. Milkau trabalhava sempre. de imaginação. apenas interrompida. que ennobrecia o seu destino humano. sacrifícios de sangue. curvado sobre a enxada. da lucta fratricida. que se abriam em flôresJ dando aquelle jardim alli nos trópicos um perpetuo ar festivo á vivenda. Lentz era o caçador. Milkau era agricultor por instincto. No mesmo tecto esses dois homens exprimiam duas culturas differentes. sempre retrogrado. alliado a outros colonos de egual inclinação. uma solda inquebrantavel e que ainda significava a imagem d'essa impulsiva liga entre todos no mundo. formára-se umaattracção. entre esses dois interpretes successivos da vida. que cada dia será crescente. e o outro. devastava as mattas. Caçava. os nervos cança- . longe do ódio. Restringido a um circulo de limitada actividade. fructos da terra.266 CHANAAN semelhava um verdejante parque cercado das arvores immensas da floresta. matanças. a fronte suada. Um offerecia ao mundo façanhas.

esses fructos não são balsamos para aquella ferida extranha!. mais vasta emais mysteriosa. Ella se retrahia cada dia mais e nem mesmo a elle confiava os passos do seu martyrio.. mais poderosa. que ensopemos a terra com o nosso suor. •Võariao vcgea. « Não é no trabalho que está a salvação da miséria nem o estimulo para o desalento. como um forçado ? E a consolação lhe vinha-? Oh! não. manejada pelos braços inconscientes. e sem insistir em desnudar-lhe o coração. sarar a morte do sonho. emfim ? Também ella não mourejava dia e noite no trabalho. si todo esse sangue. mais bemfazeja. ao nosso lado. » Assim pensava Milkau. Que importa que nos fatiguemos. mais subtil. Que bem fariam a côr.fôxavw « colônia ».CHANAAN 267 dos. como uma mancha na sua visão radiante.. essas flores. recommendava á gente da casa a maior caridade para a desgraçada. emquanto a enxada. a decepção. cavava a terra. pedindo que . mais d/)^W. mais doce. si alli adeante... vive a Dôr. é preciso haver outra coisa no mundo. Outra coisa mais santa. um esquecimento devia adormecer-lhe os pensamentos. lá vinha ainda nesses instantes o tormento da piedade.. Milkau respeitava esse pejo. um repouso suave. onde Maria se empregara. o perfume e o sabor das coisas ao padecer de Maria ? Como remediar./para levar-lhe algum conforto. que cubramos o mundo de flores sahidas das nossas mãos infatigaveis. o continuo testemunhar da desgraça alheia..O Amor!.

Era um veterano do exercito prussiano cuja / memória estava cheia de lembranças da ultima grande guerra. mudos e abysmados nas suas scismas. E ainda assim se agarrava a essas raras migalhas de uma desdenhosa condescendência humana. mas na verdade o sentimento d'elles era outro : tratavam a miserável com desdém. r/£é^# com J// .208 CHANAAN velassem por ella e a não desamparassem na próxima crise. emquanto a família se entretinha nos arranjos domésticos e no trato dos animaes. que os convidou a repousar um pouco. E também para o com-^panheiro. Aos antigos tormentos juntavajo desprezo e o ódio dos novos patrões. e era com um passo moroso e incerto que vagavam ás tardes pelas habitações vizinhas. como uma intrusa que lhes ia roubar a tranquillidade. Lentz aç. N'um d'esses passeios foram até uma colônia. Os colonos promettiam-lhe tudo.' e. êü porta estava um ancião. dar-lhes trabalho e augmentar-lhes o custeio da casa. Durante o dia trabalhavam. os dois amigos ficaram a conversar corn o velho. Falaram da Allemanha.* rancor. ^fiyL$J(^iJfdJt0/a vida de Milkau continuava a ser minada pela tristeza. nada havia na colônia capaz de encher-lhe a imaginação. atormentada pelo medo do doloroso momento. que ainda não tinham visto.interessava^pelos pormenores d'essas historias. que se approximava. Maria não se queixava.mra a caça.^s y o ancião narrou-lhes sem demora traços da sua vida. e o velho falava satisfeito .

/ o veterano ergueu-se e. a vomitar sangue.CHANAAN 269 e vaidoso de entreter os jovens. Enthusiasmado. O velho soldado terminou tjfflllédHt que uma vez. Escapara de ser fuzilado. elle ia pagando com a vida. fazendo parte de uma guarnição. exigira uns cobertores dos moradores da casa onde se acampara. desfilavam exércitos. a chuva oblíqua da metralha mudava em lama sanguinolenta a miserável e inquieta poeira humana. E essa extorsão.. fora por um acaso colhido na estrada. em França./ Jb***'\ . varrida em turbilhões heróicos pelo tufão da Conquista.. porque uma noite de dezembro. Ainda o apavorava o terror da disciplina.y-yyj\\ . estrondeava o tumulto das batalhas. Na sua narrativa imaginosa passavam cidades extranhas. quadros d*?-*"***^ da cultura extrangeira apenas entrevista e que recolhera á retina com essa sensação de deslumbramento maravilhoso. levou / os vizinhos para dentro da casa mostrar-lhes v e . como a que ficava do minuto de um Bárbaro no seio da civilisação.. E sorria como havia muito tempo não lhe era dado. Desde então dera baixa e emigrara para o Brazil. desabavam cargas de cavallaria. que commandava e era temida.. cahira do cavallo e por cima do nr*J**^ peito lhe passara n'um galope o animal de um camarada.. além do que era permittido reclamar. Lentz applaudiu então a Força immortal. onde o clima quente lhe mantinha a vida. n'um //r^lrx reconhecimento. e como. caminhando tropego. abandonado. A ess0 jdmpfddddi €& ^^ misturava outros episódios da invasão..

é um dos sopros mais poderosos para a desordem universal.. com um tom emphatico de superioridade. respondeu Milkau. Dia a dia será reduzido o campo da veneração pelas instituições da Antigüidade. — Mas é preciso não amaresdemais essepassado. quadros e lembranças. Tudo era antigo. / - CHANAAN lhos retratos de reis. a servidão. estampas da guerra. Tudo alli era uma volta ao Passado. — Porque? Porque. disse Lentz : — Que consolo senti indo á casa d'esse velho! Parecia ter penetrado um instante no passado intacto da Prússia. — E porque não me retemperarei nas fontes da minha raça ? perguntou Lentz. o prestigio das próprias lettras mortas são outros tantos venenos que acobardam a alma do homem de hoje e dão um encanto crescente ao mysterio da Auctoridade.. a sciencia. o demônio que o agitava. o sangue. a guerra. Mas aquelle amor inconsiderado por tudo o que é passado. mobílias. vistas da Prússia... o que estimas n'esse passado é exactamente o que elle tem de humilhante e vergonhoso. Os que se collocam no passado. a alma senhoril. aquelles cujas almas se fazem artificialmente antigas.. Amas p ^ f ó ^ espirito de destruição. observou Milkau. esses são os verdadeiros . Amemos o sacrifício feito pelo amor humano.. tudo o que separa e destróe. tudo o que foi.27H ' £. Em caminho para a colônia. a arte. E eu tenho que o estudo das coisas antigas.

Entraram em casa e durante a noite largo tempo . a nossa própria projecção no mundo. a fibra bellicosa. o nosso eu. — Mas que é a Pátria ? A/ / — A Pátria. mesquinha. sendo patriótico. A Pátria é pequenina. Nem arte.. A Pátria é o aspecto secundário das coisas. — E que beneficio resulta d'essa força.. Milkau.. uma expressão da política. uma restricção que é preciso quebrar. nada tem uma fôrma elevada. uma limitação para o amor dos homens. nem religião.CHANAAN 271 inimigos do gênero humano. Sobre ella nada se fundou. uma civilisação particular que nos fala no sangue. meu querido Lentz. a somma de nós mesmos multiplicados ao infinito. o gênio militar. são os pregadores da desordem. a guerra. ora. O gênio humano é universal. nem sciencia... a tenacidade. Immortal! — Não. — Tu sabes bem.. quando testemunho numa ostentação das fortes IIf'^*' qualidades humanas da nossa Pátria. a Pátria é uma abstracção transitória e que vae morrer. a disciplina. Não ha ninguém que fuja da sua atmosphera.. Nada.. tu não sabes? E a © / raça. a expansão universal. os prophetas do tédio e da morte. a desordem. absolutamente. mas regosijo-me / / / / .. interrompeu Lentz. d'essa grandeza da Pátria ? — Oh! Exactamente o que n'ella venero é a tendência imperial.. não é tudo do passado que eu amo.

CHANAAN

debateram essas idéas. No dia seguinte, quando
Jj
Milkau trabalhava solitariOj/^ava-lhe na cabeça a
f/,yf^
discussão da véspera; e sentia um mal estar lembrando-se da viva contrariedade que oppuzera aos
sentimentos do amigo.
— Não ha duvida, pensava elle, penitenciando-se,
é assim por natureza. Quando dois homens se collocam frente a frente, uma instinctiva animalidade
' - - j ^ - surge ddjJdffflyèfó perturbando a sympathia. É o
Qifj''4''querer
innato de subjugar, ou pela força, ou pela
0,
superioridade da intelligencia, ou pela consciência
da própria perfeição. Assim também sou eu; procuro reduzir Lentz a mim,dominal-o até ao fundo
das suas idéas, do seu próprio ser. Oh! orgulho damninho! Quando a própria humildade deixará de
ter no seu mais intimo recesso a desfiguração, o
amargor da vaidade, da soberba, do domínio?
Milkau reconheceu-se inferior ás suas idéas, humilhado por uma força inconsciente. Depois tornava aos mesmos pensamentos. Comprehendia que
no seu companheiro essaexaggeração do amor da
pátria era talvez um symptoma de nostalgia, uma
anciã pela terra das origens. E não é isto uma conseqüência doentia da educação patriótica? Mas,
n'aquelle instante de angustia, quando por sua
vez se examinava mais de perto, |ê\revelayj^a si
mesmo... Fitou o céo immenso, desvelado",de uma
serenidade, de um brilho e de uma firmeza de crystal, e sentiu-se extranho a elle... Admirou ao longe
o corte das montanhas, a negrura da matta, atfronde/

CHANAAN

273

das arvores... Debaixo dos seus pés a terra vermelha, como embebida de sangue, e das plantas tenebrosas o cheiro que tonteia e excita... O morno
socego do universo... E tudo lhe era extranho. Elle
ê o Mundo, elle e tudo mais, a dualidade, a distincção irremediável. « Eu não estou em ti, tu não
estás em mim... Ainda assim eu te amo, mas tu não
és eu.»
.,, -A^ i
N'uma dôr0^/jljl Milkau, devorado de magua, m/v*^"***
combalido, sentiu-se também expatriado... Não
havia entre elle e todas as coisas em volta de si a
subtil intimidade que nos prende eternamente a
ellas, o imperceptível e mysterioso fluido de commuriicação que faz de tudo o mesmo ser... E percebia,
n'um grande desalento, que o conjuncto tropical
do paiz do sol o deixava extatico, errante e incomprehensivel, e que í sua alma emigrava d'alli, incapaz de uma communhão perfeita, de uma infiltração definitiva com a terra...
— Que sou eu então? Que verme, que átomo
miserável, que se não governa, que não pôde amar
o que quer, que se não pôde identificar com todas
as moléculas do mundo ? Que sou eu, onde leis
imperiosas, perversas, me dominam, me vencem
o novo sangue ?
Outros vizinhos vieram algum tempo depois SÊT
estabelecep^ó^Rio Doce, na campina que sahindo
da matta morre sobre as águas. Era uma pequena
família magyar, composta do pae viuvo, duas

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CHANAAN

filhas e um filho, a que se juntaram outro rapaz
da mesma raça, que era noivo de uma das raparigas, e um cigano. Viviam unidos em uma só communhão de desanimo e de espanto, na casinha feita
de madeira tosca, .com tecto de telhas de páo, incendiada pelo sol nos dias quentes, varada pelo
vento, invadida pela chuva nos dias de tormenta.
Ahi cumpriam o ritual dos costumes pátrios. Sob
a pressão cobarde do isolamento, apegavam-se,
como a um refugio, ás intactas tradições, transportadas dê sangue a sangue e mantidas pelo
temor religioso desde os antepassados. O cigano
partira também, arrastado pelo instincto vagabundo. Na longa travessia, o eterno caminhante da
planicie imaginava-se prisioneiro no vapor, que
lhe parecia uma jaula movediça e endemoninhada. O oceano contemplado da terra attrahia-o
pela irresistível seducção da immensidade. Sobre o
mar elle não sentia mais liberdade moral. O infinito é uma miragem atormentadora, em que se
perde a essência humana... No meio das águas
illimitadas, sitiado pelo perigo, assaltado pelo terror, o espirito, dissolvendo as suas forças vitaes
n'uma desaggregação continua, transforma aquella
attracção impulsiva e illusoria em uma persistente
impressão de assombro e de terror, e a orla de
terra que se lhe escapou ao longe, e/para onde se
volta incessante, recebe os queixumes da saudade.
O homem só é senhor da sua individualidade na
porção de espaçp cujo horizonte^póde medir com

ju.

** W/i*

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bs

275

olhos, naquillo que é finito e limitado...
yjjfc/Passaram ^xft^^tídjatídUtí
os primeiros
tem-yyOtyfa^,
pos, esmagados pela perspectiva do desconhecido, ryyd**™
com a alma em suspensão. Até então não se trabalhara; os homens corriam as vizinhanças, caçavam, vagavam pelos montes e iam aos povoados ; as mulheres viviam no lar. Quando cahia
a sombra, o cigano s&. deitava* sobre a relva, á
beira do rio, e pregava os olhos preguiçosos no
poente, vendo morrer o sol. Aos domingos, a família «s- reunia^na varanda; o velho a um canto,
bonné enterrado até os olhos, cachimbo na bocca, /ir
quilotava repousadamente as longas barbas amaZ^&T
rellas e as rugas da cara; as raparigas e os dois */ ^ - , "
rapazes,como legítimos magyares,ornavam-se com Agfa&t as bellas roupas do seu paiz e vinham faustosos e , ^ * , ^ ^ ^
garridos entregar-se ao grande prazer da sua raça, d^r jwr_
á dansa.
^-* <s
As vezes, Milkau e Lentz nos seus passeios pela ^ S ^ T ^ ^
margem do rio ficavam-se debaixo de alguma y<^ ) •***>*
arvore, assistindo aquellas festas no silencio da ^y>w+* <£*<•
grande solidão. O musico era o cigano com o inse- *jf*~ ""•
paravel violino, sentado ao lado do velho. Dado o &+***• ^
signal, os pares punham-se em ordem,e iniciavam '?*~V*~**
as marchas polacas. A musica tangia á festa.
vr<^ / "
Os seus compassos a principio langorosos iam ga- -Q+VHJ*
nhando movimento e a largos impulsos do som t*.'/^**"
arrastavam os figurantes. Faziam rápidas voltas, « i ^ meias luas harmônicas, enrascavam os braços /*r**~•-**
uns nos outros e balouçavam-se cadenciados, ^*^*^"

276

CHANAAN

como suspensos sobre as notas, formando em sua
graça artística grupos de estatuaria clássica. Ao
findar a contradansa, respiravam satisfacção, espalhando-se-lhes no semblante o orgulho da sua
mestria. Mas o cigano os não deixava socegar,
vibrava o violino, e logo todos sentiam o despertar nervoso da paixão.
e^v**</***,,***,^ .
Com
V íwfcr^
ffâiffr
preso sob o queixo e)fcmpuxügàjl /t,
/ • /yyu-ydCt p n r n m i níiin coni'ii1Wi emquanto a outràyfhanejava o axco^rf^ys/c^Jytyffiiyfâajdfí
TTWfnu.iirnlu.
Os homens, trazendo chapéo dé 'feltro'comlindas plumas, paletot
' *«****" * % calça de velludo e á cinta uma larga faixa de seda
,- carmesim, enlaçavam as raparigas, cujo corpinho

^" £, meio aberto ao collo vestia o busto esbelto, e cuCm~po
j a s saias ornadas de velludo e seda lhes envolviam
9/¥ e>
^ ^^ 'as
fôrmas poderosas. Naquelle espaço estreito, na
varanda quasi debruçada sobre o grande rio selvagem, e extranho aquellas melodias, reuniam-se,
na fraternidade do destino e da arte, as duas raças, a que tem o sentimento innato da musica, e
'/r
a que tem a espontaneidade da dansa. Çdex^^í^/jt
t/
f/rrv^ a
valsa. Os artistas da dansa acompanhavam a
V loucura da rabeca n'um vôo quasi imperceptível e
para deante, para deante, por sua vez no sublime
surto dos" sentidos, improvisavam novas figuras.
Quando estavam no auge do prazer, a mais moça
das raparigas, amparada nos braços do irmão,
deslisava alegre, feliz, com o rosto illuminado,
embevecida, a fitar o musico amado, com avel-

CHANAAN

^

277^VV\^T

ludados e longos olhos, que sorriam primeiro que i V ^
a bocca... E quando a musica ia morrendo, a > \ >, "ç •
outra rapariga, transportada, em êxtase, a cabeça
Ç ^ \ ®*
loura reclinada sobre o hombro do noivo, n'uma
^&'^
vertigem aérea, respirava a pequenos haustos com
a bocca entreaberta, sua bocca vermelha como o
sangue, humida como o orvalho.
A turma de Felicissimo voltara para novas medições. O agrimensor depois do trabalho ia todas
as tardes conversar na colônia de Milkau, e com a
sua vivacidade e alegria entretinha os dois emi- ,
grados, contando episódios dá sua vida aventu- / ^
reira, scenas do Norte, d'esse Ceará trágico em
cuja{areias sedentas e implacáveis se vasam, de
fundeai? na resignação, na dôr, na energia e na es- / •*perança, a alma dos homens... Quando não havia
f
serviço urgente, Joca juntava-se a Lentz e o%-dois
"j
^». embrenhavam'no matto, a caçar. Na conviven'*|
cia com esses sertanejos Milkau apaziguava as an^
cias em que se vinha debatendo o seu espirito. A
\|"
espontaneidade de raça, a coragem e a bondade
ri
d'elles eram novos arrimos para a illusão...
j.
Nenhum incidente perturbava o calmo viver de
Í
immigrantes e trabalhadores, até que uma manhã
%.
o agrimensor e os seus ajudantes, sentados á porta
^
do barracão, viram uma mancha preta passar ve>
lejando magestosa, serena, no céo claro.
^
— Urubu !.. disse Felicissimo.
— Ah! temos carniça por aqui... opinou Joca. /^<*<í^*r,'v
indagando com os olhos atilados o vôo dfíamfyí.
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278

CHANAAN

A grande ave solitária descia vagarosa, boiando
negligente n'um vasto circulo do espaço, como um
barco de velas negras... Logo depois outra subia
.j
no horizonte e não tardou muito que outras mais
^ r H '***
viessem $/ax a limpidez do azul. E d'ahi a pouco
se ia baixando e restringindo a um ponto da matta
aJ *Artl° v o ° dfó idyffidffá infecteis, que os trabalhadores
/
acompanhavam curiosos e divertidos em suas almas infantis.
— Mas... alli, n'aquelle ponto, é a casa do
«bruxo», observou um dos homens, designando
assim a morada do intratável e velho caçador que
habitava aquellas margens do rio.
— Vae vêr que é algum dos cachorros que morreu... Também, que o diabo os leve a todos... praguejou o mulato.
— Que a peste os acabe... Malvados !.. ajuntou
outro.
— E mais o dono.,.
— Qual, para mim não morreu bicho nenhum.
Si fosse, o velho o teria enterrado, como a um filho,
concluiu Felicissimo.
— Sim... e não haveria carniça.
— Quem sabe si não é o velho que está morto ?
conjecturou um trabalhador.
— Homem, é verdade... acudiu um camarada.
Ha dias que o não vejo...
— Quem sabe! também eu... âlyldddtátamoutxos

£'r*/«zr

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°-

CHANAAN

279

— Vamos vêr, seu cadete? propoz Joca ao agrimensor.
E todos se levantaram e seguiram na direcção / o
da morada do caçador. Ao approximar|ÍA-se, ou- '
viram latidos e uivos de cães. Mais perto, quando
descortinaram a casa, viram os cães ladrando, correndo como demônios doidos para os urubus que
teimavam em baixar á terra. As aves negras rasteavam quasi o chão, e quando os cães se arremessavam sobre ellas, erguiam o vôo e iam pousar logo
adeante.
— Vocês não vêm ?.. A carniça é o velho...
gritou n'uma gargalhada alvar um dos homens.
— Que fedor !... Este diabo está podre ha muitos dias, berrou outro.
Instinctivamente, y&fff pararam, como n'um
conselho.
' /'
— Então., seu cadete, que se faz ? perguntou
Joca ao agrimensor.
— Ora !.. vamos a enterrar o velho... Deus lhe
perdoe a alma... Nós lhe cuidaremos do corpo,
disse decisivo o cearense.
Os homens não hesitaram mais, agora inspirados pelo impulso de piedade de Felicissimo, e tó^
dos caminharam para dentro do cercado. Vendoos approximar-se a matilha de cães abandonou os j ,
uwibúe e avançou como uma só massa,atroadora, —-y^^d<*n
furibunda, terrível, contra os homens. Aproveitando a diversão, os m/dm caminhavam no terreiro,e n'uma dansa macapra iam invadindo a ca-Jym • * .

s****-

e^ *%*•*"» °«-r,

280

CHANAAN

sa, n'um riso infernal, espichando voluptuosos as
cabeças petulantes de harpias descabelladas.
Deante do arranco dos cães, os homens fugiram, e
na porteira da cerca os defensores da casa pararam
arreganhando os dentes, uivando, ladrando, as
sangüíneas boccas escancaradas.
— Como podemos afrontar essa canalha?., perguntou um dos trabalhadores, quando já estavam
fora do perigo.
— Joca, vá com outros buscar os ferros para
darmos uma licção aquella cachorrada... ordenou
Felicissimo, saboreando uma vingança.
— Vamos d'ahi, disse Joca, e partiu acompanhado de mais dois.
Os outros ficaram atirando pedras aos cães, que,
estacados na cancella, não se arredavam, furiosos e tremendos. Os urubus, descendòyeTTT^rnaior
numero daflTBfln,.continuavam em cortejo a penetrar na casa. Um horrível e crescente fétido mesmo
á distancia tonteava os homens, dando-lhes ancias
de vomitar.
— Oh ! que demora, resmungava impaciente
Felicissimo, esperando na estrada a volta de Joca.
E ia gritando aos j/Lamea^l:
— Pedra, rapaziada! mão certeira!
Os cães latiam, mostrando os dentes brancos e
afiados... E os urubus continuavam a baixar do
céo... Afinal, pela estrada vieram correndo esbaforidos Joca e os companheiros, carregados de

CHANAAN

281

enxadas, foices e páos. Cada um se armou, e Felicissimo ordenou com enthusiasmo:
— Agora, avança, meu povo!
Os homens resolutos e raivosos precipitaram-se
sobre a cancella, que ao choque dos seus corpos
unidô^espatifou^c., dando-lhes passagem; os cães
não retrocederam e »lançaramrsobre elles, mordendo-os desesperadamente. Os invasores berravam na dôr :
— Mata! mata!
E a páo e foice arremetteramy^i? contra os ani- / / *
maes. N'um momento estavam os Iptmpné todos ^ Çr
rotos, e o sangue lhes corria das feridas. E da peleja,
umas vezes sahia um cão gritando, ganindo, quando
J
uma paulada certeira e furibunda lhe quebrava as > t
pernas, outras eram homens que, debandados, iso- \ £
lados, fugiam pelo terreiro, perseguidos... Estes J J
trataram logo de ss unir^ traçando com os instru. }"mentos um circulo de defesa:
-— Não afrouxem! ordenava Felicissimo.
— Avança! avança!
— Para dentro!... para dentro!...
Recuaram os cães ante a energia do ataque; e,correndo sumiram-se como por encanto. Os homens,
indo-lhes no encalço, penetraram na casa, brandindo as armas... Mas, entontecidos pelo cheiro suffocante, estacaram indecisos e apavorados deante de
um quadro medonho. Dentro, os urubus comiam
um cadáver humano que jazia por terra, o corpo do
solitário e abandonado immigrante. Os olhos ti16.

282

CHANAAN

nham sido devorados e as cavidades immensas e
rubras escancaravam-lhe a testa. Allucinados em
CK-y
seu goso satânico, osfflddMjd, sem dar fé dfáUaessaJ,
/^/^<^**^continuavam a picar, a comer, avidamente, embebidos. Os cães, esquecidos d'elles, faziam frente
aos invasores.
— Chô! Chô, canalha, atrôou um grito de Joca,
desesperado de nojo.
E n'um impeto de compaixão avançou para o
cadáver para livral-o dos urubus. Agarrando-o
pelas canellas e pelas roupas, os cães o detiveram... Os camaradas acudiram promptos em sua
defesa. Deante do alarido da lucta, os urubus esbordoados largaram a preza e, abrindo as azas,
espalhando com o vôo ainda mais o fedor, incapazes de se afastarem d'aquella nauseabunda
atmosphera, pousaram morosos, pesados, nas traves
lífdvi
^ a c a s a > n "hi ac p o s t a / á ^ fúnebres, medo//
nhos, como testemunhas do combate dos homens e
dos cães... Quando Joca conseguiu tocar o cadáver, recrudesceu o furor das feras. Não temiam
mais os ferros e os cacetes e atacavam os inimigos, que se apossavam do amo... Foi um desvario:
homens e animaes ty batíam""corpo a corpo, se
f e r i a r r v ^ - despedaçavam,-»como n'um combate
de doidos... Os homens estavam estraçalhados e
sobre as pernas nuas e brancas de muitos d'elles
corria um sahgúé^0tihif... Guinchando, os cães
IJf^mB
morriam,estorcendo-se como possessos e atirandose sobre o cadáver do velho. Depois de muito tempo

Não! Havemos de enterrar o pobre velho. picando-o com o ferro e tentando arrancal-o com as mãos. j^Teram assanhados para o terreiro.. mas eram logo mortos. obedeceram.. começou a cavar a co mnlmrurando. O cão cada vez mais se enterrava pelas suas carnes a dentro. " — Não! gritou zangado Felicissimo. alguns ftomcnf puderam apossar-se do corpo e o foram carregando para fora. a cabeça ficou segura na carne da victima e das artérias „ rotas jorrava o sangue^/ J^a^i/uu>^ Não havia mais cães a matar. O terreiro fic#íf Uo^ alastrado de corpos decepados.CHANAAN^'' 283 de lucta. Os que ainda restavam.. Era só o que faltava. não esmoreceram / mais allucinados investiam. doloridos.. É\ enxotando' as aves. seus miseráveis !. que os trabalhadores Jy/^^rt. mutilados. avançando JoÚliC/ impávidos rfffd o cadáver. Correu outro homem em seu soccorro e com um certeiro e violento golpe de foice cortou o pescoço do animal. extenuados já lhes queriam abandonar.. Pega enxada! E o cearense agarrou . — Mais funda! f< •*ty v+vfa>y£"*y . Um d'elles cravou as prezas na coxa de ui homem com tal fúria que este. Os homens maltratados. deitaram no chão o velho. Em revoada..m n'uma d'ellas e.. de membros esparsos. emquanto os companheiros os defendiam n'um esforçado arrojo.. os urubus . O resto dos cães ainda arremettiam contra elles. não/conseguiu.

Ao amanhecer de um^dia'de nevoeiro. comido por estes sujos. a paizagem perdera o seu contorno exacto e regular. Faz dó vêr uma pobre creatura de Deus desamparada. remontavam os idtídyf um aum ás alturas secretas. que estaes no Céo. rezaram... todos se recolhem medrosos.. encheram a cova de terra. Em breve a cova ficou prompta e «-abafa enterraram o immigrante caçador. mudos. Felicissimo ajoelhou-se e rezou:— Padre nosso.... sem ninguém n'este mundo. Depois. Era uma vara de queixadas que passava. que só agora se lhes revelava.. acabrunhados em face da morte. As linhas definitivas dos objectosae-infundíamos monta- . feitas catilús para desenterrar e resuscitar o velho demônio. os urubus o desenterrariam.. Dominados por uma compaixão súbita e extranha os homens rudes ajoelha/am-se e de chapéo na mão. pensando nos cães encantados. tristes.. quebrando o silencio bemfazejo.. uma roncaria aterradora. E Joca explicou: — Lá vão as almas dos cachorros.284 l//uJ« CHANAAN Assim.. N'aquella noite. Formava-se assim um novo mytho no Rio Doce. A' medida que o cadáver ia sendo coberto. melancólicos. Nas noites de tempestade ainda hoje.. quando o catitú matraca no matto. ouviram na matta um clamor. quando os trabalhadores da turma de Felicissimo se reuniram aporta do barracão.

que fugira para os montes.CHANAAN 285 nhas enterravam as cabeças nas nuvens. affagava a herva. como uma grande pasta cinzenta. arregaçando os beiços. aa. a cabelleira das arvores fumegava. tristes e longos. o rio sem horizonte. sem limite. como si fosse o imperceptível véo que envolvesse alguma deusa errante e retardada. com os tumidos e negros beiços. A mancha gp-sk? movei sobre a planicie{sej^efiniu)no perfil de um pobre cavallo que passeiava na verdura os seus olhos de velhice e fadiga. vinha distrahil-o d'aquella postura de curiosidade humilde. Um raio . ligeiramente azulada. Por toda a parte manchas esplendidas se ostentavam. veloz. e acariciava n'um frio electrico o fád pello ralo e //r^ falhado.-I u. tureza se^sacudift/a nevoa fugiUjOcéoTeespannou «. levada pela brisa. vaporosa. e extendendo o focinho. Não mais encontrava a nevoa. erguia-se e ^ / / l e n t a //'/. a cuja porta os seus tt^^° donos. / / / O . arqueava-se. E sobre a campina esverdeada. triturando-a com fastio e desanimo. A neblina leve./ mente/dissipanarf/O sol não tardou a vir. movia-se. py^f (li& *" èMÁid a sua attenção de cavallo experimentado í^*****'* iffily fifMMjyâ.—f e se dilatou "em maravilhosa limpidez. uma d'essas manchas. beijava o ar. e a na-™*'//''/etAsito. o miravam ^•«f^**-*. para a cabana. os novos colonos magyares. sensual e grato. ligava ^ ' ao céo baixo e denso. com interesse. Estremecia n u m goso manso. abaixava-se. O desenho «S^pagára^a bruma mascarava os perfis das coisas e o colorido surgia com a sombra n u m a sublime desforra. De passada.

Meiguices da natureza. descera a brincar-lhe nos olhos e incendiava-lhe a pupilla. que. seguiramZènt 2eíá4 ffl) <t™ com eítê para o roçado.n . porém. yfdfi o grupo » «w^ afastar-se vagarosamente. levando uma corda.280 CHANAAN de sol. onde o amarrou. caminhou para o cavallo.o dorso da terra. passeiando aquella hoi i. disse Milkau. O animal entregou-lhe a cabeça n'uma mistura de abandono e tédio. Milkau < e Lentz. Um dos jovens magyares. xÈUtâdffâfr rte do iiQoadw. Chegaram ao aceiro $ $ / / aberto como uma 11'/ ) larga ferida sobre. C-JUrfc ei* i+t**&> — Ainda bem.. circumdando a queimada. e o velho deu ordem de partir $ para a queimada. sahindo de sua modorra e apenas armado de um chicote. Os . fazia-me dó vêr esta gente apathica. ruBiaeí/ — Mas para que trazem elles quasi arrastado aquelle cavallo ? perguntou Lentz. n iijripimbwu os outros. era um sulco de alguns metros de largura. irresoluta. ' .y viram chegaxléfti o grupo dos vizinhos. desamarrando o cavallo.filhos armaram-se das ferramentas de lavourá^Tcigano. E os dois st. O rapaz passou-lhe o cabresto e ^r levou"'ao poste fronteiro á casa. Os colonos tinham resolvido principiar n'aquelle dia a plantação do i W prazo. Da matta carbonisada ainda resistiam de pé alguns troncos despojados. HtítL. ennegrecidos. elles vão trabalhar. afastaram^um pouco e ficaram a . As xapaxigaS/â/fâfiffij/lffli (J tf-ij em casa cheias de instinctivo pavor.

O pae puxou o cavallo para a frente. cahiu em cheio sobre o animal. conduzia a victima. assim. levando-o ao furor do açoite. Estirou o cavallo o pescoço para a frente. E. Quando os antepassados tartaros desceram do planalto asiático. O velho colono segurou o animal pelo cabresto e / collocou-^io meio da valia. e a primeira vergastada. Novas lambadas W0$y 1/'' arremessadas por mão vigorosa. De chicote em punho.//»~ mo. encostando quasi o ventre á terra. para lavrar o campo e buscar na cultura a satisfacção da vida. Este.CHANAAN 287 distancia. como para se libertar do flagello que lhe vinha do alto.sacrificaram aos deuses o velho companheiro de peregrinação nos brancos steppes. abaixou-se. Os filhos puzeram-se de lado. confrangidos sob a dôr /1**immensa. em cujo rosto se recompunha a antiga expres- . como um sacerdote. pinoteou assustado.n u m sibillo. alongou-se. puxavam-no para deante. E desapiedadamente. Continuava o grupo a caminhar. O velho. e no solo europeu renunciaram á vida errante dos pastores. como arrancando-se de si mes. seguida do cigano. n'um recolhimento religioso. o cigano seguia atraz. acompanhando os movimentos do grupo. cujas raizes se entendem até ao fundo da alma das raças. cortando o ar. Os saas-—• J\" membros se^extorciam. N'aquelle sacrifício cumpria-se uma missão sagrada: ligavase á nova terra o nervo da tradição da terra antiga. a immolação ficou sempre no espirito dos descendentes como um dever.

pernas tropegas. produzido pelo singular efteito da paixão sanguinária. causava uma dôr fina. Os outros assistiam mudos á cerimonia. O ar leve e frio. Os sulcos na 4n\~l carne se. que. immobilisados. Cavos gemidos resoavam no peito da besta. assistiam/ao sacrifício. Mofino de dôr. transfigurava-se. como torneiras de sangue. O contagio do furor & anoderou">alos outros. esvaindo-se pelas veias abertas.288 CHANAAN são infernal e terrível dos antepassados. uma rudimentaranesthesia. e dajÀk garganta afinada irrompeu jdtídtâfdsonoxo. o cavallo proseguia arrastado. seXdilatavam em languido goso. O cigano mais terrível. mas o açoite não parou.vabriagí mais fundos. o canto de guerra dos velhos tartaros. emquanto o martyr ia lento. Gottas vermelhas respingavam sobre a descoberta cabeça do velho m a •=*-• ^ §y a r ' d e u m a brancura de açucena. h 4L* " \ O ^ ^ * . mais feroz. n'um retrocesso harmônico e rápido. aguda. E no seu olhar jMÊtàffl ' jade moribundo se traduziam os humildes protestos e os tímidos appellos de misericórdia. de pescoço estirado. fO chicote cruel e rápido marcava o compasso d'esse rythmo extranho. Estonteou-o uma vertigem. O chicote vibrava incessante. penetrando nos fios dé carne viva. acerba. as suas pontas dè ferro cortavam o lombo do animal. e a vista e o cheiro do sangue excitavam ainda mais a energia do flagellador. As ss»s narinas y ^ u . o sangue escorria / frouxo. regando a terra. Veiu-lhe uma hysterica insensibilidade. E o relho soava. uma assassina obsessão.

Era a rejeição do sacrifício. ficou estampada a imagem do seu corpo. e no solo. Poças e fios vermelhos manchavam o sulco. Arquejante.. que sorvido pelo sol se evaporava e dissol. como um peso inerte. presidindo á dolorosa decomposição da sua carne de martyr. e afinal'se prostroi/f sobre a terra.CHANAAN 289 E. cahira de lado. exhausto. cambaleando como umallucinado. impressa em sangue. acompanhavam o canto. era a infinita tortura que o acompanharia além da própria morte. — . escorregadia como uma couraça. rezando como phantasmas . embriagados pouco a pouco pelas phrases da musica.loucos..c*.Proseguia sem interrupção. lisa. O animal. rompendo a cruenta tradição do passado. que se lhe guardara no interior dos olhos. e era o echo da melodia satânica da morte. O açoite inexorável ainda o levantou uma vez./ em torno do cadáver. o canto que feria asperamente o ar. morria vagarosamente. resfo. Cessaram as vozes. tornava o seio da terra impenetrável ao sangue. n'um coro infernal. pela suggestão do rito. Os homens seVagruparam **< . A nova Terra juntava a sua contribuição aos límpidos ideaes dos novos homens. o repudio da ' immolação. legando n'um espaçado estertor. O cavallo deu mais alguns passos. A camada de argilla. / via no ar. fogoso. Nas suas pupillas de moribundo s^Tphotographararrfrf um derradeiro clarão as physionomias dos algozes.. lugubre. pelo odor de carne sangrenta. como n'uma verônica. E esta imagem medonha. 17 .*} /.

. si Ella..290 CHANAAN — E para que? dizia Milkau comrriovido até ás lagrimas. lhes daria os seus fructos. como uma rapariga bella e fresca. a fecundação pelo sangue. cedendo tão somente ás brandas violências do amor?. e para que a tortura. risonhae alegre.

No meio do cafesal que estava a limpar. lho não flillldífl ffMt das mãos entorpecidas ylffffULcCras deixava cahir frouxa a enxada. es'perar ô~dèsenla. como de uma violenta punhalada. Maria. para se furtarem ao incommodo do tratamento.IX E o que tinha de acontecer. assaltada por um grande terror. Teve.y l meiro movimento foi dV /se\recolhei^ á li o seu pni n n nhritrn H n m p c t i r n pencrar n rlpçpnlncasa e ahi. que dia e noite ameaçavam despedil-a. Cahiu pesada no chão. medo de affrontar a ira dos patrões. no silencio do dia.' ce da crise../" ATt*^ ' .. /. e as pernas trope. <*-—/ A dôr fora viva e passageira: e logo que a rapariga voltou u a si. sósinha. Resistiu e continuou a labutar debaixo dos pés de café. o corpo se lhe retorceu todo e o rosto desmaiado se desfiguro^ n'uma contorsão medonha.. sentiu repentinamente uma dôr aguda nas entranhas. porém. acontecia. que já desde a véspera vinha soffrendo. O traba. no abrigo doméstico.

viu chegada a hora da maternidade. os olhos indifferentes se entendiam sobre o campo e recolhiam a pom- . clamando soccorro. Sabia bem que qualquer auxilio dos amos importaria em um augmento de tortura. de aviltamento e seguramente em uma expulsão immediata d'aquelle lar desagasalhado. no terreno inculto e bravio. E ella combalida deixou-se pender sobre a terra. como si lhe dilacerasse o ventre. onde era mais deserto. mas logo era derrubada exhausta. O aroma forte invadiu-lhe a cabeça. Maria sentouse debaixo d'uma d'essas arvores que n'aquella epocha estavam em flor. esforçando/fe por trabalhar. De espaço a espaço a mesma dôr voltava.292 CHANAAN gas. afastando-se o mais possível da casa. sem mais esperança. No vão das dores. pensando que a viriam acudir. volumosas.desbastando o matto tecido ao cafesal. Quando serenava. abandonou o serviço e. As vezes. Tomada de medo. espantava-se dos seus inconscientes desabafos e tremia de pavor. e a desgraçada. Nos intervallos erguia-se. Ahi. tinha ímpetos de gritar. mas ainda assim um lar. esgalhando-se pelo chão. As dores inexoráveis proseguiam amiudadas. deixou o cafesal e gfe aventurou-para o lado do rio. as únicas arvores que havia eram esparsos cajueiros muito derreiados. e contra toda a vontade gemia alto. não se sustinham firmes. alagada em suor frio. Maria -$• amparava^ apertando-se com as mãos para suffocar o soffrimento extranho e vergonhoso que sentia.

até que arrancos lancinantes o agitaram outra vez. dilatando-se á força. e^torcendo-se na agonia. que jazia desfallecido e inerte. agora mais miúdas. quasi surdas. e a miserável.. Nada se movia alli na solidão. Maria .. as faces tumidas estalavam de sangue. Rasgavam-se-lhe as entranhas. sacudindo-a violentamente... mais cortantes. alheia a si mesma.. as mãos roseas cerravam-se como molas de ferro.CHANAAN 293 posa phosphorescencia do rio faiscante.. Depois. repugnante. os cabellos. a não ser uma manada de porcos.. dando-lhe andas de apertar alguma coisa contra si. O h ! peior que a morte. os dentes batiam de frio nervoso.. Maria gemia livremente. cahiam ennovellados sobre o rosto. E de repente sentiu-se mais desfallecida. &/ /eus gritos eram finos e estridentes e ás vezes resoavam asperamente. desprendendo-se. como estrangulada gargalhada hysterica. ii entretinha^em acompanhar-lhes a morosa viagem.. <)lovas dores vieram. parecendo que se ia desmanchando n'uma humidade viscosa. acabando n'um grito soluçidiái IJoàOf que se perdia n u m longo espasmo. abafadas. A morte devia ser assim. Sempre as mesmas dores. o /' corpo lhe tremia convulso. Tudo n'ella era desordem. Soffria muito. Os porcos pouco a* pouco se iam approximando. o vestido arrebentando deixava vêr o colo nú e arquejante. a dôr Q fi» interrompeu de novo e o suor frio banhou-lhe o corpo.... que vinha ao longe focinhando e escavando aterra.

longe do soffrimento. mistura de/soffrimento e de^oso. 4-*\. E ella (sè\agarrav/já arvore. guinchando.. Nos ouvividos entrava-lhe o resfolegar roufenho dos porcos..294 CHANAAN abraçou-se ao tronco deitado do cajueiro. Em torno fungavam os porcos... .. que a estimulava 'fíáv^o extranhamente. mais vorazes. a lamber afoitamente o chão.. /ngvl. Um novo gemido sahiu do peito de Maria.. estrei/ ^i/i / tando-a com os níveos báços nús e mordia o ' tronco. yyyj que a cercavam./ J/f # .. i exangue. enfraqueceu-lhe OS o u v !-eyJT rá° s > e n 'uma / ^ r j ^ f de bem estar parecia deliciosamente suspensa nos ares.. despertando-a em sobresalto. nem mesmo tinha forças para um / . yjpyyd olhos desvairados não viam mais nada.. chegando mesmo alguns *mais atrevidos. horrorisada. ameaçadores. Um vagido de creança Çjy^t^yjf yditifyflyyfd ffo roncos dos animaes. ouvindo no arfar dos porcos o resfolegar longínquo e adormecedor do mar.. Maria. Subitamente.^ez u m cançado gesto para apanhar o filho.. Os porcos/se\afastarar^i. attrahidos pelo cheiro que d'ahi ffv #/^yltídiíava. grito agudo. débil. E os animaes sedentos se enchafurdavam. mas as dores a retomavam... queria afugental-os.. largando a arvore. mas.. Uma vertigem turbou-lhe a visão.espantados. atropelando-se no sangue que corria. e só podia gemer estrebuchando n'uma Icvvrh. o braço morreu-lhe sobre o corpo. remexendo as folhas seccas do cajueiro. imperiosas. ella cahiu extenuada. longe da Terra. E os porcos persistiam sinistros. A mulher e^m. cravando-lhe os dentes^desespexadayaá^w/ £/ Zs convulsivamenje.

Quando esta abriu os olhos. sôfregos./ | a creança. livida. f -£~ Á. A população germânica m^d/pj^/^^f m a noticia do crime.CHANAAN 295 Jjf i e ella. hirta. e Maria mergulhou afundada em outra vertigem. sm*^^*" os ricos negociantes. Os porcos. os pastores.. despertando a mãe. Devoravam tudo. alluci. deu um lü fa* salto ^fditfè e pondo-se de pé. filha dos patrões.. mei/consciente.jfsèm dddyy indagar retrocedeu á casa. que fugiam pelo campo afora. e os sustentaculos da colônia. antes da audiência..jfc/~~ pio. se precipitarairrsobre os resíduos sangrentos. Depois. em busca de Maria. viu o filho aos trambolhões. ^yfyfflÊàfy tándo n'uma espontânea e communicátiva mal que a creada tinha matado o filho. quando um grande vácuo se lhe fez de todo nas entranhas.. y/^^j^f* !„*****. Maria estava na cadeia do Cachoeira.. que ás primeiras dentadas soltou um grito forte. tremendos . Itapecurú/$0^despachava7âutos com o /& /0<T'.. sorveram o sangue e na excitação da voracidade arremessaram-se á creança. Uma manhã. chegava nesse instante. e yyndo a espantosa scena. fknjAlfado pelos ///éíòàfi*"porcos. espalhados no chão. ojkz. quando Roberto e^*»«* /< . Brederodes percorria ' j~Lj.0/-** do dr. a dôr cessou.jf nada... que vagia estrangulada'. mirou attonita f*. 'Í0- Dois dias depois. * com . se contorceu. os proprieta. sentindo-a socegada. / o dr. uns jornaes políticos da capital. <átí//$$(.** / t r *^ rios unidos tá agitaram^para a vingança e o exem. escrivão Pantoja .

Itapecurú. que proseguia-^fa^rancos. — Senhor doutor.. senão apressava. n'uma conversa.. saudou-o com servilismo o juiz de direito. / Itapecurú respirou. — Seja bemvindo a esta casa. ficou nervoso. Si fôr de direito...j muito macio e delicado. disse por fim Roberto já maéI -í I fado. não era a conta... o senhor manda. Assim. m . — Não.costume? Ou. vestido como nos domingos. Não. O allemão cumprimentou a todos corn uma palavra amável para cada um. sorrindo estúpido e sem L*ty%5 propósito aos outros. sacudindo os hombros. longe ^m/T^y do assumpto. Algum despacho. pensava o juiz. cheio de curiosidade. Não é.. deante de gente.... E o magistrado ficou abatido.. Entretiveram-se algum tempo sem pretexto. Aqui estamos todos para servil-o. quem sabe. que vem pedir. Itapecurú presentia que Roberto tinha o que lhe communicar em reserva. não era cobrança. Com esse ar de importância. não pede.%^-ft-' direito. sinão não estaria tão grave. vem exigir o paga^jll/jLt-^ mento da minha conta? — Aqui.290 CHANAAN Schultz. anniquilado. Ha de ser a conta. não é para uma questão de autos.. doutor Brederodes ? O promotor resmungou.. Não. o que me traz aqui. £</ . que também.. entrou solemne. Não se atrevia a chamar o allemão em particular e demorava com geito o escrivão. — Depende. como de £» *****. Que será? pensava o juiz de 4Z. — Oh! meu bom amigo.

doutor e caro collega.. accrescentou Itapecurú.CHANAAN 297 — Como. — Mas de que se trata?.. ' — Oh! impossível.. O crime é horrível.. sorrindo. disse gravemente Itapecurú. que enrubesceu com a ' impertinente familiaridade. senhor doutor? Julga V S. E em que termos está o processo. pedir a punição d'essa miserável que matou o filho./ 17. fitando o escrivão. eu venho aqui. Havemos de examinar tudo com o cuidado que sempre empregamos em nossa missão. — Nem a mim. interrogou abelhudo o « maracajá ». — O que nós receiamos é que algum dos senho. A Justiça tem os olhos vendados. Brederodes deu hontem a denuncia. considerou o Juiz de direito. ' ' . Já expedi os mandados para a formação da culpa. acudiu Pantoja. acariciando / o hombro do promotor. e. — Ah! Então. que aqui não falta Justiça. não ha du/ . que o desarmou do monoculo. que eu seria capaz de faljar á Justiça sinão de coisas (.. Nós somos amigos velhos e nunca o senhor me pediu nada desarrazoado.y res jilwi uma fraqueza de coração pela sorte da L/ú ré. capitão? — O dr. espraiando as bochechas n'um riso grotesco.. — A colônia sabe. — Está claro. — Meus senhores. capitão. e a dignidade dos allemães exige uma licção severa. em nome da colônia.../ sérias ? perguntou o* allemão.

— Senhor doutor. arriscou o allemão. observou Roberto... não prendendo.. V S... que affirmam ter ella lançado a creança aos porcos. Eu não digo... Uma perdida. os precedentes.. — Não denunciando. si nós passássemos a mão por cima. Os outros queriam evitar o desabafo do joven promotor... si ficasse impune o delicto.. Este continuava a vociferar.. Mas não ha de ser aqui que pegarão esses máos exemplos... — Mas como podiam os senhores abafar o crime? perguntou Brederodes seccamente... — E' muita petulância. capitão.. que seria da moralidade das famílias dos colonos para o futuro?. quasi esbor- . Ha testemunhas de vista. depois.. — Não pôde haver duvida.... comprehende. — Doutor Brederodes.. empenhando-nos para não haver andamento no processo.. que o senhor Roberto e os seus patrícios nos têm aqui como seus creados? E Brederodes deu um violento murro na mesa.298 ta '/ CHANAAN vida sobre a criminalidade da accusada ? pergunton' Itapecurú ao promotor. E. O filho lhe seria um trambolho. que viu os autos? Brederodes não respondeu e continuou de lado a folhear os jornaes. Imagine V. S.. O senhor. — Ah! — Sim.

mandões de aldeia.. que se apossam de nossas terras e enriquecem! — Então V. que procurava com um riso cobarde amparar a fúria do brasileiro. hypocrisia. — Sim.. e como não ha remédio algum.. Como viram uma das filhas apanhada com a bocca na botija.. para desviar a questão. creio. Qual povo!.. Ladrões. A moralidade de salteadores. de pudica commigo.. — Si ha? Oh! esta miserável. Vem aqui á casa do juiz de direito um bolas qualquer. e ahi está o que ella era. collega. E' boa! — Mas não ha inconveniente. conheço-a bem.. Extrangeiros.. Aproveitarei a occasião para . Exigir que se cumpra a lei.. qual nada. fez-se de fina... teve forcas de dizer o > allemão. mas agora liquidaremos contas. miseráveis. exigir em nome da colônia. porque enriqueceu furtando o nosso dinheiro. S.... Que colônia?... pensa que não ha crime no caso ? interrogou Pantoja.. — Moralidade? Fingimento. que o povo. Muito boa! — A nossa moralidade. a mesma... replicou Brederodes.... á& alvoroçam^todos para reclamar justiça. creados.... m o t e j a m ! ^ ^ * ^ ^ — E' aquella ? perguntou)6maracajá}i Sá// ' d— Sim. — O que elles querem é exactamente justiça! — Tartufos. — Qual povo.CHANAAN 299 doando o negociante..

Pegou no chapéo e. $H*#" o- CHANAAN . sou liberal. São simples revolucionários.. sahiu olhando com raiva a figura ffijfa edesmoralisada de Roberto. O allemão não dizia nada.300 levar esse processo até ao* fim.. commentava o escrivão. — O defeito principal dos moços de hoje. mas como magistrado sei dar a cada um o que é s^u. quando ficararhN i sós. Eu também admiro os direitos do homem.queimarr^ajuntou por disfarce Itapecurú. é a falta de attenção com os elementos conservadores do paiz. Suum cuique tribuere.. rapaziadas. Itapecurú. j/afybflf/fâjado pela cólera. falando sósinho. Não era alli que havia de confessar os seus rancores. — Lá se vae batendo com as mãos. balançando o monoculo. fdfffderou o dr. Não sou o promotor? Exigências commigo? Não. quando.. Nós gostamos muito de bolir com elle para vêl-o se. que ia acompanhando da janella a marcha de Brederodes na rua. que ainda o quiz demorar. Para mim todas estas allemãs matam os filhos. Que damnado!... querendo illudir a impressão deixada pelos desmandos da ira do promotor.. — Tem graça! disse Pantoja. — É verdade. Pensam que o progresso é a revolução. Não poude mais vociferar. desmascarar toda esta corja d aqui. Havemos de vêr. isso não. Este facto não é o único. mal apertando a mão de Itapecurú.

. já venho. nos colonos estabelecidos.. Pantoja acompanhou-o com passo sorrateiro. Roberto. Os senhores jacobinos não comprehendem este principio admirável. Posso responder á colônia que não ha meio da criminosa escapar ? — A colônia sabe que pelas minhas theorias.. impaciente. nas classes respeitáveis.! que perder. aqui na . que se /em /V*r*'' uma perfeita organisação social. Que pôde fazer uma sociedade sem ordem ? E a base. Por exemplo. O juiz de direito suspendeu o discurso. Itapecurú sorriu da incapacidade do mudo auditório e continuou : — Onde está o elemento ? Nos senhores negociantes. a justiça para todos. emfim. — Sim. levantou-se. sem ouvinte. fez-lhe uma grande cortezia e foi sahindo... Mas Roberto não esperou o resto. velhos e jovens. onde Mifijdfo este salutar elemento? //<fr é"*"" Ninguém respondeu. que têm o / /^. nos proprietários. — Bem. cortou o escrivão. seu doutor. E não é maltratando-as.CHANAAN 301 — E' o habito da justiça.. ainda mais que tudo aborrecido por ficar só. já principiando a enfadar-se.y ^ colônia. — Espere um pouco. ia dizendo Itapecurú. retrucou o escri- . Pois é pena. E' preciso termos sempre em vista o elemento conservador do paiz. Para elles a política é só destruir e botar abaixo. — Oh! seu escrivão! E os nossos autos ? interrogou afflicto o juiz de direito.

os jacobinos. Olhe.... ha muito pedido do . em segredo. gaguejou o escrivão. sabe. — Maluco. pelo menos... para o inferno. E.. eu mesmo vou escrever ao governador.... quinhentos votos só aqui nesta colônia.. mudando de assumpto. Não é ? — Que vá para o inferno! — Sim... pedindo.. Que não faço pelo partido? Mas. — E o tal processo ? interrompeu Roberto.. repetiu o outro machinal e pensativo. Porque. Uma irmandade. Todos se protegem. E «e. e quando se trata de^castigar um insolente. segredo. — Então escreva. a remoção do Brederodes.. Muito entre nós... O diabo é que esses jacobinos são muito fortes...... — E. E logo proseguiu na lingua do paiz : — E boa! Os senhores querem o nosso auxilio nas eleições. Veja. — Tem razão..102 CHANAAN vão sem se voltar. embaraçado. foi esgueirando ao lado do allemão. que vive a g^insultar<Togemcom o corpo!. tem razão..... Posso contar? — Oh! commigo o senhor sempre conta.... E não vá o governador não attender.. — Donnerwetter ! praguejou o allemão. Basta a remoção.. — Maluco ? Canalha! vou já escrever para o Cachoeira armando-lhe a cama... — E que tal o promotorzinho! disse na rua Roberto ao «maracajá».

coitado! já se sabe. que respondo pelo resultado d'esse negocio..CHANAAN 303 centro. Dá-se um berro com elle.. Realmente. esse seu . por toda a partejQs nossos patrícios haviam de dfj desmoralisar/Nada. e mesmo por tolices pessoaes... para que se calem — Pôde ficar tranquillo. Os )s jacobinos de quem o senhor fala tanto. gritarão. é nosso.. batendo com alarde no bolso da calça.. proclamou o negociante. perseguirá a tal sujeita até ás ultimas. — Quanto ao juiz municipal. Brederodes. E' meu. continuou o escrivão. A colônia não pôde abafar. c / / esse doutor Maciel... Além d'isso. nas outras colônias. ' É muito sério. E depois. como fez o sr. E' cabeçudo... posso dizer. — E o promotor? — Não viu ? Com a idéa de se vingar dos colonos. E eu. Benevides. — Sim. Que se diria? Que as allemãs do Cachoeira são umas perdidas e atiram os filhos aos porcos. — Ah! a política! — .. é preciso um exemplo. acompanhando o gesto. em Itapemirim. — E' verdade.. Um imbecil... esse. temos o Itapecurú e as testemunhas. é um caso monstruoso. Pantoja sorriu. — Não faça caso. comprehendo. é um senhor cheio de maisadas. e tudo vae direito... O juiz de direito...

hoje. — Muito obrigado. — Appareça. não esqueça a carta. o emprego para remunerar serviços eleitoraes. As c j ' l-— paredes eram negras e as grades enferrujadas da janella quasi soltas dentro dos buracos da cravação. O carcereiro ahi raramente yF I apparecia* tinham-lhe dado. Depois.304 CHANAAN creado. E' para a caixa do partido. ajuntou pressuroso. Mas logo o « maracajá » voltou sobre os passos e gritou para o outro: — Ia-me passando. Bom. A cadeia do Porto do Cachoeira. resto do antigo povoado.. seguindo direcções diversas. perfeito. Pantoja e o allemão se separaram. em que ^ t ó # H # M ^ .. de cem mil reis. . approximando-se... — Sim. como é o habito no C^j paiz. Entre presos e solda/«/*^t~ dos havia a mais relaxada camaradagem. depois de condemtyfc llk ^"Z/ . era tal. J vez a mais velha e a peior habitação da cidade. baixou a voz : — Tenho precisão urgente. já existente antes da colonisação.. concluiu com jactancia o cabra.. Um corredor dividia a casa ao meio : de LÍj um lado fal a prisão e do outro o alojamento hdos dois únicos soldados... que móe a mandioca. ninguém discrepa. Os accu**** sados passavam n'essa casa apenas como por uma estação durante o processo. adeus. que eram / ^ guardas '<? * effectivos dos detidos. Não é para mim.

. ao frio.*H. o lll'(/tiyu seu maior tormento era a desesperada anciã por seu filho... E foi um rugido no seu coração. e pela " '' crystallina claridade da sua alma desannuviada./ / soffrenjjfesmagada pelo temeroso peso do mundo.. era vida. que atraz d'essa accusação havia um drama. E ella . desprezo de si mesmo. Trazia-lhe a / memória o quadro medonho. que o divino sonho se desmancha ao sopro da mal. tíld^fjf.. e apenas de longe em longe lhe vinham/vislumbres da exa. em choros.. /l/fz%t!L Tfítf JM0WI01 Milkau fy#0L da sorte .. quando.ÁfcáL^ prehendeu logo. E teve pejo de ser homem. entrevisto tão bello no nevoeiro da vertigem. Mas o que soffriam esses miseráveis quasi sem alimento. de! jtífy.. Em « outros intervallos. ^ de Maria. vergonha. de estupidez. ^/debatia em gemidos de horror. até que de novo o torpor ' bemfazejo lhe arrebatava a consciência. e de tudo o que . eram remettidos para as prisões da capital. que os seus olhos uma vez tiveram a suprema agonia de vêr.^/^TOL' . um tecido de cobardia. n'uma promiscuidade animal. por instincto de bondade. de vingança. á humidade e n'uma incrível immundicie ! Maria não comprehendia bem porque a prendiam.. quasi a morrer.. tão fértil nos humanos. sem roupas. acobardada. mais calma. se exaltava. dormindo sobre estrados de madeira. em /"*^ supplicas. A inrelligencia n'ella adormecera.*.CHANAAN 305 nados. Com.-lhe o momento doloroso zm/flC/Oín*./ cta noção do que tinha acontecido. e AMÊ^ ainda assim fraca.

escarneceu Lentz. em que a saudara como filha do sol e das águas. — A sympathia pelo destino d'essa infeliz rapariga. parece-me.. — Todo o homem está em causa. como é o teu.. E partiu j^r.306 r CHANAAN dade.. Na tarde desse mesmo dia.. Abandonas os nossos interesses.. — E por isso me deixas ?. a nossa colônia? — E meu dever. — Quem sabe da verdade ? — E quando não fosse innocente. do esquecimento e da paz não era sinão o baixo connubio de todas as vilezas sociaes. a cidadesinha não tinha mais para elle o encanto d'aquella primeira manhã. — Não comprehendo.. No dia seguinte... — E que te leva lá? perguntou o amigo. devo correr para o seu lado. — Não comprehendes ? respondeu Milkau com calma... Então não vês que essa desgraçada é uma victima? E desde que eu a tenho por tal. Milkau disse a Lentz: — Vou ao Cachoeiro por algum tempo.. o seu crime não seria antes a culpa dos que a repelliram e a levaram ao desespero ? — Mas tu não estás em causa. chegando ao Cachoeiro. esse soccorro.Tudo o que julgara como o doce convívio da bondade. esperando uma resposta. A tristeza que .. replicou seccamente Lentz.... quando ha um soffrimento no Universo.

desolador. informes. E ahi. O rio. um mulato moço.CHANAAN 307 trazia. de farda desabotoada. agitado. tremulo. m communicava / a paizagem e toda a antiga maravilha d'esta se desfazia mysteriosamente.Todavia hesitava. Eram pequenos sobrados. mesquinho e ridículo. descalçadas. Tudo o que era natureza tinha o aspecto sinistro. petos confusos e irresistíveis. A porta. O único desejo de Milkau era estar immediatamente com Maria. casas deseguaes. dolorosamente nús. feitas ás pressas. q[ E.. na embryonaria e abor' f" tada cidade. o povoado parecia-lhe abafado e condemnado a uma irremediável angt^ja. trágico.' .. e o que era humano. torturado pela ávida cobiça. com receio de se vêr n'um instante desilludido sobre a innocencia d'ella. quebrando-se nas pedras negras. er• guiam-se. sem arte. Milkau pediu permissão'para falar á p r i . vestido de soldado. colossaes. fffjfiff/fí w**" 0t' n a s n n n a s inconscientes figuras deformadas de . impellido por im. /**" seres monstruosos. dirigia-se. viam-se estampadas a esterilidade e a aridez. desarmado/era o guarda da / j prisão. Sobre as ruas barrentas. quasi sem água. verdadeiros aleijões. olhando para o rio. como para um povo apenas acampado sobre a terra. O sol infernal castigava sem piedade as habitaçS^s e sobre as rochas abrasadas. fervilhava o seu cachão ^ monótono. a gente grosseira e rude mostrava o ar embrutecido. á cadeia. e de ouvir a lugubre confissão do crime. Apertado entre duas linhas de morros.

Foi um goso subtil. l/flW*"%— Soffres jfòj<f>. ^ sioneira.8llo3 oo orguilrii o pnwir>ci . Ia por 4- " ^ <• ^ \ \. quéjJ&Bíp' jr\J/* prolongado indefinidamente. . Milkau entrou. o corredor da casa e apontou-lhe o quarto onde ella estava. muito assustada com a apparição. apprehensivo. mostrou-lhe d'alli. Maria recebeu d'aquellas mãos e d'aquella voz um fluido de ternura extranha e de bondade nunca s^n^?da. O que fora n'esta de gracioso. que ella. uma face livida. E nos lábios da desIfrtJf^ graçada chegou a abotoar um sorriso. sem mesmo a*levantar da soleira da porta.v 308 CHANAAN . qu cama. d'onde espiavam scintillantes olhos em que dansava a loucura.(õ^tou implorando misericórdia. depois. sorriso u/)^ infantil e humilde. curvada _ como para lhe recolher toda a caricia. de seductor. ' e nenhum dos dois por algum tempo disse uma palavra. Enixe». sem olhar o "\\ n -/ homem. tinha-se apagado. muito branca. A compaixão foi crescendo em Milkau ao aspecto miserável da mulher.^ ^ Ella curvava humilhada a cabeça. com a mão preguiçosa. tacte# ando-lhe levemente a cabeça. Milkau não espercKl^que ella falasse.• • não é? disse Milkau. tremia . de docemente feminino. O homem. 011a. e só restava uma triste carcassa.

Porque.. Eu sei. /^^ÊL Terás ainda tanta felicidade n'este mundo. As lagrimas seçcaramMhe instantaneamente.. Tanta! H/fJ^f E sentou-se na uVjya' cadeira que havia no quar. ia surgindo a sua consciência ^^mf^^Âj^f'//Ê'gyyny*'~ j — Olha. e doente.Jf<*. ao poder mysterioso da bondade. mas.. — Soffres. -arrastado pela deliciosa anciã de confortar : — Foi n'um momento de allucinação. Estás tão fraquinha. forão elles os responsáveis. J/aÊ. Erguer o espirito. dddil l/(y^~ inerte.. Sim./JJn to.. Era a loucura em ti. a fronte.. Mas isto vae acabar.< e direi aos outros que a culpa não é tua.. puxando para si a cabeça de Maria....... . fe/r Maria estremeceu.CHANAAN 309 deante arrebatado pela sympathia.edfA/ emmaranhados e seccos... Para ..iJ%a«i para o chão. Não te abandono. Instinctivamente hesitava em accusal-a.. bem sei. e pouco a pouco.. Elles te perdoarão. Não eras tu. continuava Milkau... yym não lhe via a face voltada Ht^.. p sobre os joelhos d'elle descançou muda. que levantar alli o espectro do crime ? E éÕffi se rea. /Asubmissa. Milkau proseguia... E ainda a felicidade. sentia sobre o corpo a morna humidade das lagrimas/^ //l^ ym****-1 — E preciso cuidarès de ti.. Tu sahirás d'aqui. -fcai*. confessando a sua terrível falta. Não. Haverá piedade da tua sorte.../ > " * ' nimava. Não é? são os mais culpados.. wk deixou affagar os cabellos tecidos. como um ninho dou* rado.. que o não deixava premeditar nas palavras e nos gestos. Abandonada. á medida que falava.. isto vae acabar...

. — Eu me compadeço de ti. Não... confuso. tu.. comprimiam como tenazes a cabeça... Milkau H^ÀMp se perdia desvai radamente. — Eu? — Tu. Eu fico para «-salvar<affirmou Milkau obstinado.... aterrada. Elles não te perdoam.. — Vae. Não me lembro bem. vae...310 '-/ ç .. — Meu filho. Oh! meu Deus. é horrível! E os seus olhos pungentes e frios atravessavam os de Milkau. — Não. . murmurou arquejante.. ora crispadas se torciam juntas n u m aperto.. — Que tu mataste.. não quizeste (desgraçada que foste!) vêr o teu filho soffrer. E com o gesto incerto o expellia da sua vista. vae. espantado. emmudecéjdjl Agora era ella que falava. disse Milkau.... pesadas. não. Meu Deus! E as mãos.. — Não.. meu filho.... como tu.. que.. vae. Arrancaram-no de mim para o devorar.... Assassina.. ' — Sim. — Não.... Meu filho. querendo attrahil-a. // CHANAAN perdida.... Elles te pedirão conta de teu próprio filho. — Desgraçada! Que te resta..... A miserável ergueu a cabeça ef^qlhandá/firme. N'um impulso frenético de arrancara confissão de tudo saber... — Não. ora. Não tenhas medo. recuou para o fundo do estrado. sim.. si me repelles...

A rapariga esperava submissa. — Quero saber.. É para o teu bem... — Deixe-me. Vergonha...... E . — Natureza humana! Vergonha. Deixe-me... deixe-me.CHANAAN 311 — Assassina ! Meu filho ! Oh! Porque me vem perseguir na minha miséria? O h ! Deixe-me.% Maria ficou acobardada.. tomado de uma tristeza infinita.. mas apenas pairou um momento livre e logo cahiu vencido.. — Porque não me chamaste em teu soccorro. eu te peço por tudo que amas : dize-me que' estavas louca. Calou-se pensativo. disse com uma voz imperceptível. quero.. sentindo a enexgiiy ddd HJ ^ cisão com que foram ditas essas palavras. anniquilado.. A cólera de Milkau abrandara em presença d'esse desespero... Dize-me. murmurava suffocada a pobre. insistia Milkau.... Has de me dizer tudo. perseguida ? Porque ? Não confiavas em mim ? — Tinha medo. quando te viste desamparada. aós pés do dominador. Devo ficar.. e humilhado m arrependia^do seu transporte inconsciente. que não eras tu quando mataste teu filho.... recomeçou elle com uma voz f]$/Ju Í0í. Fico. — Maria. 0 seu ^ C& espirito frágil debateu-se ainda para luctar. disseste.. — Vergonha! E por isso. . — Não..

.. chamou-a a si. responde.... -ti— E os porcos. Ella obedeceu.. eeu não matei ninguém.. comendo.. Elles te accusam. elles o carregaram. Anda...£ e mou... — E quem matou ?.. cheia de meiguice..... Pensei estar morrendo..... gritou n'um feliz.. fy/ ' — Nao nt Elles são máos. egues. — Quando foi.. os dois desgraçados foram recompondo tudo lugubremente : — T u te sentiste desfallecer. um roncar de porcos em roda de nós.312 CHANAAN por isso mataste teu filhinho. — Mas.. Chorava ! Meu Deus! Depois. p bre os joelhos d'ellef i fsf^í na infecta e tenebrosa ^í?"'prisão.. comendo. teu filhinho?.. Pensei estar tão longe. Uma vertigem te derrubou.... e a espantosa scena se lhe representou exacta na imaginação 1 aguçada pela sympathia. j^. m fjfc*0fc 0.. carinhoso e terno. — Vem ! Escuta ! A essa voz.. e foram. Estes fragmentos de phrases eram bastante para aclarar o espirito de Milkau. ella se approxi.. — E depois? — Ouvi ao meu lado a vozinha d'elle.. dócil e abandonada. supplicou angustiado Milkau.. illuminado de todüj /oV^... miserável. Depois.. E então. (íurvóu-se outra vez so•. .

$yóÚL L/ fala.....CHANAAN 313 — Vieram.. presa á voz. — Meu filho! — Tu despertaste e viste ao longe teu filho ensangüentado.. -j^encaim^Y -*£5~' tava-*em sondar essa alma primitiva.. elle. "• — E agora.. — Chorava aos teus pés. Que me resta ? — A innocencia. rica d | 4 * emoção e de bemaventurada ingenuidade. O sangue corria..... Desde aquelle momento á vida de Milkau Jfs\ transformoii. aos pedaços... á doçura do amigo.... * • * * . Accusaram-te.. ficava17***»-^?#k deliciosamente esquecida do próprio infoFfunio| / ^ u T'r> Por sua vez. amaldiçoada. prenderam-te........de ndvo. Nàfl^-^^jSb. — Arrebataram-na. lia a/m lei... . [desgraçada.. — Meu filho! — Perguntaram-te por elle. Todas as forças do seu cc ração votou-as á defesa e salvação de Maria. r ao desamt imju<flad is-v isit. IS irdi qeixflvajn 18" _^_. px sioiiei daãd de entr IU1Í [aria / chegou a se *1? sentir feliz na sua misérjr Longos momentos ha ")^f via em que. Fala.. — A creança. nos dentes dos porcos. Fazia-1.. vendo-a diariamente.. — E os porcos. Não te escutaram. a creança.. pxfsioneixaf.. 7>*4Y-cSY?e* .

á mulher que! y/f ' lhe matara o filho. seu correspondente para os fornecimentos da colônia. narrava-lhe sempre as suas viagens.. nas grandes cidades tumultuosas sem piedade. Ora. onde ha fome.. e brancos navios avolumados na phos\ phorescencia da noite. que se fíl dd' * J r a v a a m < ^ a ' talvez como cúmplice. erravam nas pequenas cidades do Rheno e resuscitavam lendas. *~—N Na cidade. IJ^Kíiu ^acompanhavam d/M extranha conducta. Ora. em casa de Roberto Schultz. e I um ódio collectivo não poupava d homem. sempre o seguindo. 1 f bifa 4"*rgV .J çados pelos ventos.. sem saber porque... arrastados pelas tempestades. esclarecido vagamente . subiam aos Alpes gelados e guardavam nas pupüjas as cores maravilhosas do sol a morrer. I . Outras vezes. fydt 6n_ m a s a c u j a mysteriosa musica ^ f e t ó ^ c h o r a n d o ~fom&c*y» perdidamente... Todos o evitavam. acompanhando fielmente os casos por elle praticados ou conhecidos. Ora. Acreditou-se que era elle o amante de Maria. era tratado com desdém.. Milkau começou a ser notado. lia-lhe ijy poemas. sempre atraz. depois com rancor.. a passarem sinistros para se \ mergulhar. como se formariam em qualquer parte do mundo. sumir. as mais indignas conjecturas. engulidos pela treva insondavel. como sombra.314 CHANAAN conversas. vj.. Tudo ella ouvia com sofreguidão. de que ella não percebia bem o sentido... não contava. e a sua vida de peregrino no mundo./a principio com curiosidade. Ora.. Forma/' ram-se alli. ^ E ainda no mar glacial.\ pela lua.. no mar. balan. E ella.

era o companheiro de Milkau nos )asseios e com inquietação amiga observava-lhe os silêncios profundos. mudo. Milkau abandonou Felicissimo e .resignou.. e. na sua superioridade axno-df/f**^ rasa. com a sua Índole franca e bondosa. humido. deixou passar aquella visão que lhe parecia o phantasma da Innocencia levada para o martyrio. /y/fl/t/id**/ O cearense. De volta de uma d'essas caladas excursões. Ao longe ella se foi perdendo.** precipitouTno encalço.<a-~ phar branco. • soldados. entraram uma manhã na cidade e viram um movimento desacostumado na rua principal. não procurou detel-o.a ser o inimigo commum. os olhos postos no chão tinham grinaldas roxas. jfê. que ia responder ao processo. As portas das lojas e nas calçadas a gente do logar e os tropeiros e colonos do centro seguiam pasmados um grupo. apagando-se. ladeada dos dois . irticipava do preconceito da cidade. que passava. e á claridade do dia a sua lividez era cadaverica. compadecido. . Dias depois Felicissimo chegou ao Cachoeira e . Milkau commovido. E assim. repellido pelos jtuiyMy quando não ia á cadeia. Era Maria.. O agrimensor.» alojou-^ho mesmo hotel em que ffdwf Milkau. e na boccauhe\morri/Jüm nenu. ^ W ^ ///Wb*re\ transfigurada.p>*h CHANAAN 315 fMíylMtí. gelado.. para o Juizo. passeiava solitário pelos arredores do po-' voado... na sua força. Depois da primeira audiência seguiram-se outras.. a isso..

.Cachoeira $7/fôí ffcdzfijtfftjfàt sem alteração para ú****''4' Milkau.. A trama estava bem tecida e fatalmente a accusada não poderia rompel-a. que tratava sempre com sympathia e ás vezes com respeito. — Que desgraça! que desgraça! foi lhe dizendo abrupto o cearense. Maciel s* entretinha^muito á vontade com elle. Milkau achava o juiz municipal uma esplendida natureza e o ia estimando. — Que foi? perguntou Milkau interessado. — Uma desgraça. '. Quando estava deante de outro homem. Não era seguramente a posição do magistrado que o attrahia. uma tarde. Por seu lado. de família. o seu espirito eliminava todas as separações que vêm da sociedade e instinctivamente não conhecia as vãs distincções de posição. A persistência de Milkau tornava-o um familiar das audiências e. esse homem lhe inspirava tal sentimento. de raça. pela superioridade moral. As testemunhas depunham contestes contra Maria. quando. Pedro Maciel era o juiz da instrucção. Milkau 9*. ffJe/J^J encontrou Felicissimo muito sobresaltado.. Apenas via um ser egual. muitas vezes. depois de acabado o trabalho. pelo soffrimento augusto. de fortuna. <Myi$ftf voltando da cadeia. O pequenino Fritz. Os dias d'essa acabrunhadora vida no Porto do m .316 CHANAAN a que Milkau não faltava. dirigindo desprevenido e intelligente o processo. o filhi- .imaginava"no deserto. com uma inútil cordura. pela sadia intelligencia.

o esmagamento tinha sido no thorax.CHANAAN 317 nho de Otto Bauer acaba de ser esmagado por um barril de vinho no armazém do pae. Quando chegaram. de tão dilatadas. Este tinha o ar trágico de um satyro em dôr.vinha á cidade. — Pobre creança! gemeu Milkau. e o cabra sentia-se 18. e volto para lá. confusa. — Vamos. n'uma dôr sombria. Fui chamar o medico. O pequeno Fritz agitava de vez em quando os bracinhos. E atraz d'elle uma voz lhe pediu : — Veja se dá um remédio para a salvação. A mãe ainda joven debruçava-se sobre ella. a casa estava em alvoroço. Milkau voltou-se e fitou Joca. mais abaixo. Em casa d'elles. atordoado com o desastre. A creança era o carinho do tropeiro quando eààe. estrebuxando. Ouviam-se lamentos e choros em roda. Pelos cantos da boquinha escarlate sahiam espumas de sangue. A noticia se tinha espalhado e muita gente apiedada viera agglomerar-se ahi. parecia não lhes caberem mais. devorando-a com os olhos. apontou Felicissimo. invadindo com a familiaridade da compaixão o aposento onde. Os olhos azues « r arregalavam" desmedidos e as pupillas immensas. O pae vagava a tremer pela sala. entregavam-na aos seus desvelos quasi maternaes. A cabeça estava intacta. não duvidando da morte. . a creança morria.. Os pães lh'a confiavam a passeio. — Que horror! Pobresinho! E onde está? — Alli. deitada em uma mesa. de animal..

sacudindo a cabeça. Era uma bella mulher. olhos e o somno lhe foi vitelo ao tempo que a respiração offegante moderava e as cores ruIIjiji b r a s das faces inchadas se iam dddddndo até uma </&s"r*JU' pallidez absoluta. jtAíy frouxa claridade das velas mortuarias éa. baro molhada de lagrimas. O medico não tardou. a physionomia serenou. De fora $$fjd pelas janel-tu. de uma cabelleira farta . muito silenciosos. Pouco a pouco o silencio em que estavam e a fadiga do coração foi ddvfwdifHfid e adormecendo a quasi todos. sinistra. quando o trazia nos braços de loja em loja ou quando lhe dava.. a mão na rua para ir ensaiando os passinhos vacillantes..318 CHANAAN desvanecido. Viu o que estava praticado e. fez com auxilio do tropeiro alguns curaf^ tivos.. e/sem a menor espef ^ I rança. murmurou : — Era o que se podia fazer.... de uma transparência vitrea. Não ha mais nada. E. Depois. quasi extincta. a bisavó do pequenino. desenhava'fugitivamente o vulto de uma velhinha. com o cuidado de uma ama. incorporea.divagando em scismas. tomando uma expressão socegada e feliz. feliz. morreu o pequeno Fritz. a vida só nos olhinhos limpos e de uma scintillação . » vendo aquella face de homem primitivo e barf I /. IJ^yr 7. Milkau ficou sensibilisado. Na vigília da noite eram todos os que guardavam o cadaverzinho..-u> Ias abertas o doloroso mugido da cachoeira. A mãe de Fritz também fechou os yy oLl/ja. nas tenebrosas torturas da meningite.

A. yztTl formidade entre o gênero humano e a mulher.. E. os que foram apenas esboços da existência. voltada para o filho morto. scismava : — E' dolorosa ainda mais do que as outras a morte de uma creança. . Não viver.. uma hospeda extranha e importuna.. Elle estava também esmagado e abatido. família catholica «agdapanlava. No canto da sala uma imagem de Nossa Senhora. de muito longe. e a dôr IM \jdfcfflmyy $$fd como como y y y.. Os que ainda l*df* /&w alerta a contemplavam. com um perfil delicado e fino.. E porque ? Talvez pela maior con. ficavam ffll **/Tj quasi desertos...y. dos templos onde passara e onde sempre os altares d'Ella attrahiam mais os corações das gentes. fUvédmr^ii. fffjfyijp uma pungente dd^J/Ke^ tortura vendo essa mãe bonita e moça dormindo a sorrir. E Milkau reflectia deante do admirável symbolojXiínhaa impressão de que todo o culto se ia restringindo em torno da Virgem Maria. ¥~- /tW^" .íembrava-se das cathedraes. E' a dôr deante do inacabado.CHANAAN 319 e negra. que ia insensivelmentetí/J f//^ íÁdddyabsorvendo todos os outros?..// dj/jjídhfdMfo os outros.. presidia a morte. do que nos ia completar. do apenas ensaiado. E CL^T essa tendência universal para divinisar. mesmo os'do Christo.. illuminada por uma lâmpada.. exaltar as deusas. Tudo n'ella //*&«*-„ exprimia saúde e força. as santas. quando olhava o mortosinho.. não vinha acaso de longe. ™ u oda a noite passou Milkau a confortar a família. E os que morrem sem ter vivido.. não estava agora em plena culminância no culto de Maria.

que carregavam o esquife. nós também morremos um pouco n'ella. ruido e musica alegre.320 CHANAAN deixam-nos uma piedade torturante.s auctondades brasileiras ssaasaj».. puxava o prestito. porque ahi morre uma illusão nossa. ~^ A manhã era límpida. No outro dia foi o enterro.. tornando a tristeza collectiva. 1 u e t r a z i a m flôres^jtó^ídy^íd^ coj / Jf. ruidosa. Toda a gente da cidade. Quando deixou a rua á margem do rio. alongando o cortejo. os armazéns também-cessaram o trabalho e de todas as casas e lojas vinha gente encorporar-se ao enterro. estava Joca. a m i r a r a / Z i£ j —/ Wyddjdo o seu amado menino vestido de m a r i / ZT^ nheiro e embarcado como n u m brinco infantil n'aquella gondolasinha dourada e vermelha. mesmo os inimigos e competidores do l//' ~fé/T. Foi um luto geral na povoação espantada com a catastrophe : às escolas «ç fecharam-^e grupos de meninos vestidos de branco se enfileiraram. como nos enterros de anjos.P a e ^ e Fritz. lavada e azul. que não perdoava^ao extrangeiro nem// ira/t* /mesmo nad^s^raça/Eji maTcha iã^n^ssaTnistura de amargura. Quando morre uma creança. Entre os \ /«. participava de um mesmo pezar. excepto Bre. n'uma espontânea unidade de sentimentos. o enterro .I /(z^r^fj derodes. Uma banda ' de musica alegre. em viagem para o céo. desenroi lando-se pela rua principal do povoado. em que o povo vinha sorumbatico e lugubre.

outras vozes abafadas. levado pela musica macabra do resfolegar dos porcos. na sua sensibilidade desvairada.. cavernosas. Ella ouvia agora. Com • o rosto descomposto. n u m a contorsão.. ia ouvindo.... apavorados e rancorosos. E despercebida... O yjfjn enterro dmlU.. Lá. a victoria da força e da felicidade. Os mais. E Maria. y/J / noe/ sentiu uma íifyf-í claridade n'alma com aquellas 11/ **** caricias do som ímmortal. só Milkau olhava para ella. títiM marcial e solemne. Vinham de longe.... veiu á grade e il poz-^a mirar. Ainda alli na morte passava o triumpho.. unida *&*" na piedade como no ódio. o seu olhar de allucinada sahia violento "%•' pelas grades da prisão e repousava ardente no morto. ia vendo o enterro do próprio filho.. tomado de uma compaixão infinita.. Maria If-jy^" t espreitava. que tudo ignorava. attraJ/IH^if^ hida !>(/>/JJjifóf. A colônia passava... tão terríveis que dominavam os cantos dos instrumentos.CHANAAN 321 tomou a direcção da cadeia. . e Maria. què ficava perto do cemitério. agarrada ás grades. Da multidão. á prisão chegou primeiro matinal e alviçareira a musica. mas tão persistentes. os cabellos pendentes.. ficara hirta. desviavam-se da figura n infernal da desgraçada.. confundidas na harmonia dos sons. do desconhecido. a bocca •' cerrada.

disse o magistrado. depois das audiências do processo. sjgdaaatast». a amizade se ia formando entre elles. Ad^ttt^cúj ifcara Maciel.X Paulo Maciel. fora elle tão feliz e fecundo. tinham o perfume da liberdade. Apenas lhe explicdjque. agora. — Meu amigo. não estou convencido de coisa alguma. logo que se encerraram no escriptorio. — Não vejo meio de evitar um máo desenlace ao processo. — Como ? Está convencido da culpa de Maria Perutz ? perguntou Milkau inquieto. que se sentia separado /de todos d'aquella terra. pelos depoi0_/ . arrastava Milkau diariamente á sua casa e em longas e nobres palestras. e jamais. dignas de homens. respondendo a uma pergunta de Milkau. esses momentos eram sagrados. depois que o doce veneno da duvida lhe corrompera a alma.

foram industriadas para essa desgraçada -conclusão. affirmou Maciel no seu pendor para generalisar. pela prova dada. — No Brasil. ninguém o pôde embaraçar.. — No mundo inteiro a justiça é uma illusão. apoio para a sua intenção. si aqui um homem entender m apossaria propriedade de outro. Mas é inútil. è a condemnação... não é ? — E' horrível!. — Um paiz sem justiça não é um paiz habitavel. Que exprimem as minhas sentenças sobre a verdade dos factos ? Nada. continuava. Olhe. O processo é feito de tal maneira que tudo vae em perigo. no modo por que se faz o processo. porque não se trata de raros eclypses de justiça. encontra no nosso systema de justiça. vêm insinuadas. — Mas no Brasil a situação é ainda peior.. interrompeu Milkau. ha n'elles tal tecido de mentiras que tenho de capitular E' de desesperar. . E si esse homem é um potentado. a pronuncia é fatal. — Mas as testemunhas. e ninguém está garantido... concluiu. é uma agglomeração de bárbaros. Nem eu mesmo. Digo-lhe isto eu. não ha lei.CHANAAN 323 mentos. quando recebo uns autos.. f — A quem o diz ? E' sempre assim entre nós : não ha um processo em que se possa fazer justiça. cortou Milkau.... que sou juiz. Não pense que não desejaria reagir.

ouvindo o joven magistrado que proseguia n u m impulso de confissão. E' a conquista. mudando de ponto de vista. — Virão. da Europa.. — De onde ? — De toda a parte. si aqui dentro estamos na desordem e no desespero? O que se dá no paiz é uma verdadeira crise do caracter. sem dizer nada. Como poderemos nós subsistir desta fôrma em que vamos ? Onde a base moral para mantermos a nossa independência no exterior. que chamamos nação.. mas hoje está tudo acabado. a raça não se distingue pela persistência de uma virtude conservadora. E' um cadáver que se decompõe este pobre Brasil. e de um modo superior. não ha um fundo moral commum. ficou pensativo. a nossa virtude social ? Nem mesmo a bravura. Posso accrescentar mesmo : não ha dois brasileiras eguaes. sobre cada um de nós seria futil erguer o quadro de virtudes e defeitos da communhão.talvez uma apparencia de liberdade e de justiça. explicou Milkau. aqui já houve.. A valentia aqui é um . repito. Onde está. — Não creio.....324 CHANAAN Milkau. não é" nada. — Um caracter de raça. Não ha uma virtude fundamental. Os urubus ahi vêm. nós a temos com equilíbrio e constância. dos Estados Unidos. — Isso. assegurou Milkau.. meu amigo. de desabafo. — SiVn. que é a mais rudimentar e instinctiva. Aqui.

/ Calou-se. No Brasil a grande massa da população não tem esse sentimento.. aqui. tão hystericamente. interessado n'esta analyse franca de Maciel. não que seja a ^. de ita cobardia nos enchem a lembrança!. a nossa bondade.. como familP' somos tão máos./que ha profunda disparidade entre as varias camadas da população./ CHANAAN 325 nes pulso nervoso. inutild o s y t e máos!.. mas simples symptoma de inércia moral. compadecido das torturas d'aquella alma ' de brasileiro. como levado a tristes recordações. desta instabilidade. de sangue. Collectivamente. proseguiu depois Maciel. ponderou Milkau.. Note que os poucos patriotas que temos. indicio da perda precoce de um sentimento que se devia casar com o estado atrazado de nossa cultura. 'í. Veja as nossas guerras. desbruçando-se um pouco sobre a mesa. replicou a este n'um tom mais decisivo e Vibrante : — Tem razão. fitava-o com immensa sympathia. E a falta de homogeneidade será talvez a maior causa deste desequilíbrio. — Não ha duvida. voltado para Milkau. /Milkau. O juiz reflectiu e...expressão d'uma larga e generosa philosophia. O aspecto da sociedade brasileira é uma singular physionomia de E 19 . ve tempo em que se proclamava r a nossa ade. emfim logicamente selvagens. são ainda homens de ódios. ha\um cosmopolismo dissolvente. — Repare o que se passa com o patriotismo.

e seu apego ás posições e ao ganho? E não é só o governo. encheu-lhe os ouvidos de louvores á natureza.despontam para o mundo. abriu a janella que dava para o rio. Ha uma confusão geral. tudo n u m declive em que se vão resvalando. e do eáfgommento â/> I I raças acabadas. sem se mover do seu logar. ás coisas superiores.. gentes. A correntes da immoralidade vagueam sobvda. Si a sociedade é urna obra de suggestão. horrivelmente deformados. que se pôde esperar dos sentimentos. Milkau. são os funccionarios. e poz-se a mirar absorto e vago a cachoeira. Levantou-se muito nervoso. E'a magistratura subserviente e apparelhada para explorar os restos da fortuna priva-la. o clero. quando a imaginação d'ellas é deslumbrada pejlo espectaculo da mais desbragada perversão <ljgs governantes ? Que reacções sobre cérebros obscuros não provocará o desamor d'esses conductores das. ao ideal. A decadência a. r é um mixto doloroso de selvageria dospovos q$ç •d H. Uma tal nação está pxcÇ \ rada para receber o peior dos males que pôde cahir sobre o mundo: a geração dos governos arbitrários e despoticos. os militares. E Maciel voltou-se: f . da idealisação das massas incultas. sociedade e não encontram resistência \ de nenhuma instituição. mansa e suave. invadia o aposento.326 CHANAAN decrepitude e de infantilidade.. emquanto a claridade da tarde.

Parou.. A Europa! Sim. Maciel (seNcontevj com esforço.. tudo . murmurou n'um desalento : — O meu desejo é largar tudo isto. A família vae sendo demolida pela força imperiosa dos vícios. Por outro lado. esse terror que nos vem dos acontecimentos presentes. que não ha nada fixo e eterno : tudo vae de passagem.. Ao menos. A Europa. ficou repentinamente mudo. expatriar-me. — Não quero diminuir.. Quando estamos dentro d'elles. tudo está sempre em crise. O clima.. terrível e formidável. E por quanto tempo. temos a benignidadedacalmaeatranquillidade da família. Ou melhor.. Mas lembre-se de que não ha sociedade sem abalos. procurando perpétuas e incessantes combinações de ser. a exactidão dos seus conceitos. abandonar o paiz. A peste se apodera do corpo miserável da nação. e as palavras cahiam frescas e consoladoras sobre os.. não sei. tando com os olhos vermelhos e humidos o extrangeiro. E quando ia seijdo arrebatado pela expansão dos seus mais Íntimos anceios.. Milkau falou-lhe com brandura. campos desertos d'aquelle coração.. e como resumindo todas as suas decepções e anhelos. disse elle. tudo se mostra grandioso ou ridículo. é também um pouco uma questão de perspectiva.. ao menos até passar a crise.CHANAAN 327 — Ainda é uma vantagem viver-se na roça nesta hora tenebrosa. e com os meus ir viver tranquillo n'um canto da Europa...

. \e nós começamos a louval-os. parecem normaes e suaves. w ^ . O povo brasileiro foi por longos annos apenas uma expressão nominal de um conjuncto de raças e castas separadas. como uma engenhosa e \ admirável expressão dos melhores tempos\ que são sempre os passados. no meio das ondas e dos ventos : o espectaculo do oceano enche-nos a alma de terror. Do que tenho observado e adivinhado um pouco. festejando a metaphora. Deixa que lhe /aça uma imagem ? E' assim como si estivéssemos no mar. E Maciel também sorriu.. as ondulações das vagas são como um leve sorriso. desde dois séculos estes luctavam por vencer aquelles. si a forte e imperiosa sensualidade dos conquistadores não se encarregasse de demolir os muros da separaç ã o ^ não formasse essa raça intermediária de mes- . é "ella conseqüência da primitiva formação do paiz. — E' natural. porém depois que o atravessamos e o olhamos de longe. e não podia ser de outro modo. E isso se manteria assim por muitos séculos. replicou. Desde o principio houve vencedores e vencidos. mas aqui se passa uma verdadeira tormenta. — Muito bem.... Todas as revoluções da historia brasileira têm a significação de uma lucta de classe. tornando-se subitamente jovial. sob a fôrma de senhores e escravos. mas no futuro elles minguam á força de distancia. yid^r 328 JAAN CHANAAN í parece ir acabarn'umadesâggregaçãoirremediável. de dominados contra dominadores.

CHANAAN 329 ticos e mulatos. e sendo a expressão das qualidades médias de todos. Perfeito. Equando o exercito deixou de ser uma casta de brancos e passou a ser dominado pelos mestiços. também gracejando. d'elles... afflrmou Milkau. augmentando cada dia. que se conformando melhor com a natureza.. Está ahi a explicação do triumpho e do prestigio do nosso " Maracajá *' — É o representativo. a liga nacional. Era preciso formar-se do conflicto de nossas espécies humanas um typo de mestiço.. n'uma harmonia momentânea com os instinctos psychologicos que as crearam. ... commentou o juiz. a revolta não foi mais do que a desforra dos opprimidos. foi ganhando os pontos de defesa dos seus oppressores.. O Brasil é. Os que tendem a nos governar. Reparemos que Pantoja não é um caso isolado. que fundaram desde logo instituições destinadas a permanecer algum tempo. e que nos governam com melhor acceitação e êxito. •— Bravo! applaudiu Maciel.. são desse mesmo typo de mulatos. e que. — Vejo bem que é isso mesmo. e depois. emfim. fosse o vencedor e eliminasse os extremos geradores.. ^/ Paulo Maciel 0 deteveriam momento. com o ambiente physico. Era preciso esse choque do inconsciente para se fazer o que se buscava desde séculos por outros meios : a nacionalidade. que é o laço. pela sua própria força de gravidade..

. vencido pelos outros. toda a trama da historia é um processo de fusão : só as raças estacionadas. O pequeno mundo da colônia.. E preciso um pouco mais de identificação. estes não marcham firmes e seguros?. Porque não nasci mulato?.. tangido pelo escrivão. disse Maciel negligentemente .. meu amigo.... Pantoja. A crise da cultura aqui é motivada pela divergência dos estados de civilisação das varias classes do povo. representou-se no espirito de Milkau como um resumo bem claro de todo o paiz.330 CHANAAN emquanto olhava para as mãos brancas e longas.. Isto não se pôde concluir dos meus pensamentos. Si eu tivesse algumas gottas de sangue africano. de uma sensibilidade maior e mais distincta.. Não são os donos da terra?. continuou com um sorriso irônico : — Não ha duvida. era anniquilado. Brederodes.. Todos os nacionaes que alli dominavam. é uma incapacidade de raça para a civilisação. com certeza não estaria aqui a lamentar:?: O equilíbrio com o paiz seria então definitivo. isto .. E' fatal. — Oh! não... Não ha raças capazes ou incapazes de civilisação. como dolorosamente já se está fazendo. Tinha razão ? Faltava-lhe a gotta de sangue negro para que tudo n'elle se equilibrasse ? — Vê. sahiam fatalmente do núcleo da fusão das raças. não ha salvação possível para o nosso caso. emquanto aquelle joven de uma intelligencia mais fina..

acceitando com reconhecimento o patrimônio dos seus predecessores mestiços. porque nada passa inutilmente na terra. a cultura se fará regularmente sobre esse mesmo fundo de população mestiça. Não vos deixeis deslumbrar pela e^haustapompa da sua civilisação. pela força inútil dos seus exércitos. se mantém no estado selvagem. Si não tivesse havido a fatal mistura de povos mais adeantados com populações atrazadas. as vossas cançadas almas. para onde d'aqui se voltam os vossos longos olhos de sonhadores e moribundos. E Milkau disse ao brasileiro : — Essa Europa. nem a côr da pelle.CHANAAN 331 é. suspirou Maciel.. Não a temaes nem a invejeis. de vida. sejam brancas ou negras. as que se não fundem com outras. — O paiz será branco em breve. a civilisação não teria caminhado no mundo.. Como vós. para voltar a edade dos novos brancos vindos da recente invasão. essa Europa também soffre do mal que desaggrega e mata. cobiçosas de felicidade. E no futuro remoto. de cultura. ella está no/ . de arte. pelo lustre perigoso do seu gênio. porque já houve o toque divino da fusão creadora. E no Brasil. fique certo. que terão edificado alguma coisa. quando fôr conquistado pelas armas da Europa. Nada mais pôde embaraçar o seu vôo. a epocha dos mulatos passará. nem a aspereza dos cabellos.

. Ainda alli se combate a velha e tremenda batalha entre senhores e escravos. como si estivesse para morrer..332 CHANAAN desespero. nascidas de fontes impuras para matar a liberdade fecunda. n'esse momento indeciso em que não teme mais a justiça vingadora e posthuma. E ainda para manter taes ruinas.. consumida de ódio. diz servidão e fjj***'. quando ao vosso lado sempre alguém morre de fome. são o escudo perturbador do governo e da riqueza. que amedrontava no passado os espíritos. sem cuidar dos que vêm surgindo após. não exprimem o novo direito. Está vacillante. Não ha calma para a consciência. inquieta. Tudo/que se apresenta á flor da vida não ' corresponde mais aos fundamentos da Vida.destruição. As leis. Por ellas tudo se baralha. passando. e nem pratica a maravilhosa justiça que vae chegar amanhã para dar a todos o que é de todos. não ha tranquillidade no goso. « Nada corresponde ao Tempo.. O espirito que morreu.. e quem diz auctoridade diz posse. não é o sonhado mundo que se renova todos os dias.... P o r í ^ f leis os povos chegaram a / W ^ esse excesso de grandeza que é o primeiro toque da decadência. As . sempre bello. ainda anima debilmente o mundo. os governantes armam homens contra homens e entretêm-lhes os ances/ traes appetites de lobos com a pilhagem de outras Io nações. sempre joven. E' uma sociedade que acaba. toda a humanidade parece sem raizes na terra. devorada de separações.

E já as posições vão sendo tomadas insensivelmente pelos que as desprezam. pois como a essas figuras carbonisadas desentranhadas da terra do passado. E por tudo isto que eiilanguesce e definha. a universidade e tudo mais que deva finar. da arte. passa o veneno sensual. do ódio e do amor e de mil outras potências ainda incógnitas. mórbido e pérfido. . crea19. como o bafo sagrado das divindades do futuro. ella se despedaçará. um sopro de vento os reduzirá a pó. A arte não exprime a vida.... nem a alma do momento. tirando a força ao homem e a bondade ao leite da mulher. a poesia volta-se para o passado e a sua lingua subtil. antes que se erga contra vós. da intelligencia. que vos não pôde escravisar. — É o primeiro passo e um grande bem. sem seiva nem vigor. não é a lamina poderosa e refulgente onde se reflecte a imagem dos novos homens.. o sopro bemfazejo que tudo invade. Não longe. a magistratura. os seus exércitos não se poderão mover. n'uma voz imperceptível. fina e mesquinha.. mysteriosas e santas. o governo. a diplomacia. Os povos abandonaram a religião e conservam os templos e o sacerdócio. da industria. disse involuntariamente Maciel. e que são as forças redemptoras da sciencia... caia nas mãos dos que julgam taes instituições como instrumentos do mal. Que o exercito. Não a temaes. tudo vence.. — E' um grande mal.CHANAAN 333 raças deixaram de ser guerreiras e ainda se armam. o parlamento.

. grosseiras ou ridículas. e conduzem ao mesmo resultado n'este systema planetário. apesar do deslumbramento da visão. as atribulações do momento venciam-no — Tudo desmorona em torno de mim. — Si taes conseqüências resultarem. sonhar os mesmos sonhos. mais funda que apparente. Então os exércitos não marcharão. onde. n'uma semelhança de destino. este amor de mulher que me conforta.. E. e esta ... Já ninguém aqui se entende. n'essas ancias para novas e mais bellas expressões da vida. n'essa esperança luminosa e feiticeira. entrou o Brasil para soffrer comnosco os mesmos sacrifícios. scismava em tudo o que acabava de entrever deliciosamente. — Não será a conquista fatal do paiz.iSA CHANAAN ções. destacando-se da nebulosa inicial. ficando só.... O domínio do vencedor d'essas luctas inferiores será instantâneo. onde isto primeiro se dér ? arriscou o joven brasileiro. n'esse mundo a transfigurar-se. e não tarda que eu mesmo seja extranho a tudo e nada mais sinta de commum com aquelles que são os homens de minha terra. as mesmas transformações e.. Quando Milkau partiu.. o juiz. serão tão fugazes e passageiras que não devemos d'ellas cogitar. O que me resta é ainda este socego da família. porque aquellas forças da resurreicão se communicam invisíveis entre os > homens do nosso grupo de cultura.

como tinha por habito todos os dias antes do jantar. e sem de. as faces vivas e accesas. oc**<+*l* — Gloria! Gloria! murmurou. éter. emquanto lá fora tudo vae desabando. Vibrando. tre.olhando-a sem vêr. foi em sussurro entretecendo com a companheira.^AT mora esquecido de suas devastadoras angustias e^y^ débeis revoltas. magra e ainda muito joven. dilatava-lhe os olhos negros e faiscantes. /'/Jt/nÂ* wh. mia-lhe o narizinho. arrancando o marido das scismas em que estava. e pela testa corria um suor gelado. . foi-se reclinando suavemente ddM elle. uma doce e infinda conversação. A pallidez brasileira. abafada : %*yd& — Mamãe! <*/*&Esta. Cahiu J^y^u^ nos braços da senhora. Era esbelta. avançando e estendendo-lhes em silencio os braços cheios de ternura mysteriosa. . a mulher de Paulo Maciel entrou ahi discretamente. Maciel.pÀe d Àpapmnd a figura em desordem de ffl/ffl ujpa/^rearíça.. /rf^oeé/ E tudofoiumatfétídfAl casta e subtil. acalmou-se. / * * T £ .lffry*s. ^^x**^'fi***i .CHANAAN 335 creança que nos rejuvenesce. doentia e diaphana. afflicta e estupefacta.fff d** "finamente fascinado por ella.ímÍM^í 4nf4iM4d^^A%AWs^> V^ r e g #í/TW/#/W W *** ° rndüâ inyap. A noite vinha vindo. recolheu-lhe anciosa o corpinho. como em fios de brando e macio cabello de mulher.^c*"-*''* dados. Tyldlziy. os cabellos vinham deban. Sentou-se no seu logar de retiro e d'ahi. Não ouvindo mais rumor de conversa no escriptorio do marido.

N'este momento entrou no 'ft ccrn> aposento a criada. A creança encarou-o indecisa. quando 1L uns immigrantes mendigos-ac acercararrrj]J«lki. e tomando-lhe umas das mãos. Paulo Maciel. Mal puderam escapar. Esta palavra foi dita varonilmente e trouxe lagrimas á mulher. Algumas mulheres do bando ///$YJ//A****r /avam com mãos descarnadas apossar-se das jóia* da menina. correndo n'uma gargalhada de triumpho. — Soceguem. para diminuir nesta o natural e invencível horror aos pobres. dm/ÂdJ^dví coxneçou a expli'itfiu*/ car a angustia da menina. *"'/! r*~¥> %-'~r~£r«é r± 1 •*^*fr í V'-? ^ . a creança. no meio de imprecações de fúria. enterrou mais a cabeça no collo onde se agasalhára. sorrindo d'aquelles sustos. beijou a creança.336 CHANAAN O marido achegou-se a ella. como uma reacção de alento. Durante a narração. / pedindo esmola. tentou disfarçar o acontecimento.*_ . e Gloria. beijando-lhe freqüentemente os amortecidos olhos de somnambula. o filho arrancou-lhe o laço de fita. um episódio da rua. quasi n'uma algazarra. repellindo o grupo com o chapéo de sol. Passeavam ambas. A criada defendera Gloria. reconstituindo com largos gestos e grandes vozes. a moça segurava a menina pela cabeça. partiram desvairadas para a casa.£*. mas á sua energia tonta correspondera uma vozeria desbragada. Si não fosse a intervenção de dois homens que passavam. a lucta não se terminaria logo. e uma mais ousada beijou-lhe o rostoi "Femquanto forçava por tirar-lhe a pulseira.

e tornava vãs as palavras. fitou os outros com um sorriso leve. a quem não sobrava regaço para occultal-a.CHANAAN 337 O medo lhe. mamãe! Depois. Êr^Zfei ^ J. segurando-se á senhora. que traduzia uma mansa agonia. outro. mais outro. Levantou a cabeça. succedendo uma modorra interrompida de instante e instante pelo crispar de suas garrasinhas aferradas aos pulsos da senhora. melancólico. perdidamente. e apenas como recurso lançavam-se ao argumento que nunca tráe. como num remanso.. que tentava inutilmente adormecel-a. maternalmente. um soluço hysterico. Vxojldfifji^i distrahil-a e desviar para coisas alegres e diversas a sua attenção. davj^lo justo sentimento do real. primitivas ou infantis. scismavam. e os dois esperaram. ás idéas lhes fugiam. que foram então arquejantes. rudimentar. e abrigal-a mais e envolvel-a com os braços. Moveu os lábios como quem ia falar. e só a menina de vez em quando tremia. as perturbações. — Tenho medo. M-^~ IjJ Cj m dT ' . a sua voz. A grande calma do crepúsculo aquietava-lhes. inconsciente. elles paravam. A invenção djdf éMM0f( não foi feliz e fértil naquelle momento. beijos.. £U. Os éidd sentidos sahiam do pesadelo n'uma dolorida expressão de susto e de fadiga. em súbita transformação de allivio. pois já aos cinco annos uma precoce e mórbida phantasia era-lhe doença d'alma. a indizivel tristeza das almas rudes.

. yyl^f 0t^ypaxecia yf/ojlj dias passados. longe. Ouviu-se um grande suspiro. e enfiou olhos agudos na menina. mamãe! murmurou Gloria.. não foi. A sua physionomia transfigurava-se com essa jyy recordação. ficou aterrada. Aqui' não se treme. T— Sim. Quedou-se um momento calada.. quando eu não podia mais.338 CHANAAN — Ah! nós também fomos como elles. e. — Gloria. mas do pouco que comprehendeu. você me carregava. Mas. como que irresistivelmente: — Ah! que frio fazia lá. Os ^MdM scisma/ vam. Porque. em êxtase.. dormíamos na rua. disse Maciel. ' .. deixou cahir o livro. n'outra terra. A menina moveu para elle o rosto.. voltada para a janella. obedecendo á intimação. mamãe.Você se lembra quando a gente não tinha que comer e ia pedindo dinheiro ? Você me beliscava para eu chorar e me empurrava dentro das lojas para pedir comida. mamãe?. Você se lembra d'aquelle chapéo que você tirou do menino na rua e me deu? Ih! correram atraz de nós. que tolices são essas? Não fales n'isso. ha muito tempo. A mulher de Maciel a principio não percebeu toda a extensão d'aquelle pensamento. não cáe neve. mamãe ? Mas nós nos escondemos n'aquella casa 0rr** . Maciel que estava a ler.. papae me dava tanto.. Nós andávamos na rua toda a hora. d'ahi a pouco. brandamente. hein.

Me dá. Não é. — Gloria.. E posou Gloria no 0"*/™"' cnao com a gravura. e eu fiquei com o chapéo bonito. tinham ares de monstros. não chore. tomou/aVao collo e mostrou-lhe uma estampa. A criada tardava em trazer a lâmpada. — Você não era assim. E ainda assim. boa para mim. papae ? — Dou.. Tinha uma pulseira que aquelle moço 11 . á sombra que abafava os últimos clarões da luz. que resurgia em meio da felicidade. não tinha dinheiro. Não era? Você não/ tinha vestido bonito. como agora. Você não apanha. — Que bonito! Não se conteve a creança. não tinha anel!. Gloria! teve a moça forças de exclamar.CHANAAN 339 escura. No completo repouso da casa. ^pff!^ Paulo Maciel levantou-se convulso. que tirou precipitadamente do armário. não tintia criada.. a figura e as palavras de Gloria... nem cama! Andava suja. papae ? Fazia-se escuro. mamãe. Eu não tinha boneca.. A creança. porém^pouco se /*/**r demorou em admiral-a. si não disseres mais tolices.. Você tem tanto dinheiro.. voltou á senhora que es^ tava a chorar : —JVlamãe. Voltaria á realidade o seu espirito desannuviado das nevoas que ° 1/ / edjjfham} pensou Maciel.. Maciel gosava um absurdo e requintado prazer intellectual n'aquellas tenebrosas visões da creança. Ella pagou-lhe com um beijo.. como a imagem e a voz de um passado horrível.

Levantando os braços n'um immenso esforço de Y I n ( quem suspende algemas. — Mamãe também mordeu na rua a mão da menina para tirar o anel. n'um grande .. Pensa que eu não vi? Agora a gente não tira mais de ninguém. Papae ficou zangado. amanhã. Havia dois annos.. quando papae foi preso pelos soldados. Me dava dinheiro. cadê o homem que você quiz matar com aquella faca?. Eu vi.340 CHANAAN deu... gritou Gloria. partindo no seu encalço.. voltou-se para a senhora : — Amanhã vou passear com o vestido côr de rosa ? Levo a boneca maior.. A sua caridade amorosa colhia os fructos amargos de Chanaan. — Emilia. Agarrados um ao outro. você disse que elle era tonto. a criada penetrou no gabinete trazendo um candieiro acceso.. — O moço dormiu lá. dizia que eu era filha d'elle.. fulminados pela sensação. Paulo avançou esbotf-J çando no espaço gestos inúteis para tapar aquella bocca maldita e innocente. Emilia. sim ? Murmurando umas desculpas.. a Dulce.. P a pae. Papae voltou. De repente. você apanhou muito. A pobre moça desalentada parecia vêr lagrimas no rosto do marido.. olhavam correr a creança. hein mamãe!... A mulher de Paulo Maciel abraçou-se / elle como a um rochedo.. aquella mulher contou tudo. mas eu queria era meu papae.

uma existência de outros..CHANAAN 3'il desespero de infecundidade. como um castigo. E. um passado alheio. . das cellulas obscuras e implacáveis d'ella.. tinham aberto o coração aquella filha de uns immigrantes hespanhóes. agora. surgia-lhes.

XI

A

•>/

I

Lentz vagava nas desertas margens do Rio Doce;
seu espirito, atormentado pela solidão, retrase comprimido deante da serenidade desesperadora da terra. Sobre elle o céo cavado e longínquo/
desdobrava-se sereno e luminoso, o sol abrasava
um mundo parado e morte;. Ia errante e perdido,
embebidos os olhos no que alli era a única vida,
nas águas vagarosas, desusando como alma expirante. A implacável belleza do silencio o exaltava,
e elle passava amaldiçoando a ímpassibilidade do
universo, que não.yestremecia nem se agitava fecundo aos seus pés sobrehumanos. Na conspiração da calma, da solidão, da luz, do esplendor, do
infinito, o espirito do homem delirava. E nesse delírio a memória apagava-lhe as origens da existência,
o passado não tinha sido ; e tudo, fôrmas deliciosas das coisas, água, que ainda se movia, arvores
silentes e concentradas, céos, sol, montes, nuvens,
l

CHANAAN

343

tudo era a expressão de vidas que se extinguiram, de seres que se agitaram cheios de alma, e
,
preparavam extaticos o leito admiravej para o l'-p~* \
pertar do primeiro homem. E a nova existen- '
cia das novas fôrmas ia começar...
ÍIM
.
se abriam seus olhos sem passado, virgens e pri— ^ ^ T * " ^
mitivos; mas o tédio de se vêr único, errante, desa- •2e^*y*
lentava-o, e immortal, e infinito, mergulhava o espirito no tempo immemorial, e tremia de tristeza.
E assim na região do silencio as ancias da creação
agitaram o homem forte. O principio da vida, o
impeto de repetir-se eternamente erguia-se n'elle,
supplice e imperioso. Lentz quiz que as suas forças
intimas e essenciaes, desaggregando-sej se fracciol
nassem em parcellas imponderáveis e invisíveis,
como partículas de luz, n u m a mysteriosa fecundação do Nada. Anceado, inquieto, doloroso, delirava... e uma illusão perversa descortinava a sua
imagem multiplicada em myriades de corpos formosos e serenos, como a geração de um deus.
Deliciou-se extasiado nos olhos da sua raça> nos
cabellos, nos membros e traços de gloria, em que
cada um resumia a belleza e a força do universo...
E tudo era bello, e tudo era bom, porque tudo era
elle.
Depois, não tardou a chegar-lhe a invencível monotonia de se vêr a si, a si indefinidamente. No desespero, quiz voltar ao increado, extinguir tudo, e
gerar novos seres, que não fossem a sua imagem,

yfr
344

•y
CHANAAN

que não fossem divinos, que gemessem, que morressem e fossem humanos. O creador luctou com o
sett espirito e o espirito, como uma força diabólica,
indestructivel, venceu-o, creando sempre a mesma
expressão, sempre elle só. Elle... E as fôrmas que
sahiam da força solitária e desdenhosa, acompanhavam-no eternas e fataes. Lentz horrorisava-se
de se vêr a si mesmo, n'uma multiplicação infernal. Do alto da montanha, aonde chegara, precipitou-se, fugindo da multidão de phantasmas que o
perseguiam amorosos e escravos e que eram elle,
sempre elle... Approximou-se do rio, voou sobre
este n'um impulso de salvação, n u m desejo extranho de anniquilamento, de allivio... e parou.
Sobre o crystal das águas a sua imagem o espreitava para^seguiráin<ia na morte.
E o delírio se repetia<-sob mil terríveis combinações, nos dias serenos que abrasavam a alma frágil
e desvairada do solitário. E quando, nas noites
socegadas, os tormentos da nova vida sobrehumana não o mortificavam, elle penetrava na solidão infecunda do espirito e errava pelo deserto
ululando, amesquinhado e cobarde. Implorava a
companhia tenebrosa do vento, e o vento se calava
aquella invocação satânica; com os olhos ardentes
e devoradores, buscava, em vão, reanimar as coisas que adormeciam. A lua voltava .para elle a
sua livida face de cadáver
Um movimento de piedade trouxe Milkau á

CHANAAN

colônia. Durante todo aquelle tempo, não esque-,
cera o seu companheiro de destino. E, <djM^tí
n/l)üfoè/uma parada no processo, /wjí ao Rio Doce.
Era ainda madrugada quando entrou no prazo, e
logo no jardim abandonado, invadido pelo matto,
que não perdoa e está sempre attento ao descuido
do homem, Milkau adivinhou tudo. A casa estava
aberta, e derrubado no chão adormecia pesado o
corpo de Lentz.
Permaneceram juntos na colônia até o dia seguinte. O contacto de Milkau alevantava e restabelecia o espirito do infeliz. E agora, n'um incommensuravel pavor da solidão, este se ia deixando governar pelo instincto da ligação universal, e prendia-se
n'úma affeição entranhada e decidida a Milkau,
que o chamava ao Cachoeira, á defesa e ao consolo do soffrimento. Um raio da luz que irrompia
do martyrio de Maria, chegou a Lentz que, obfiecendo ao poder do inconsciente, contra que tanto
luctára, curvou a cabeça e seguiu o amigo.
Na estrada, quando tudo se animava á passagem
d'elles, e ventos, e pássaros, e arvores cantavam
em volta, Lentz, recapitulando a curta historia da
sua desillusão, dizia comsigo :
— Ah! como tenho saudades dos meus sonhos t t
/
de audácia, dos meus desejos e ambições... E tudo
isto que eu e elle ambicionávamos fazer, é nada.
Encontrámos no nosso caminho a Dôr mesquinha
e poderosa, e ella nos guia e nos transforma...
— Toda a maldade n'elle era obra da imagina-

isuf

346

CHANAAN

ção, reflectia Milkau, acompanhando-o com o carinho dos olhos. Mas não é a idéa que governa o
homem, é o sentimento. A nossa força individual
não é nada em comparação á força accumulada na
vida. Que pôde um só contra a corrente imperiosa
e dominadora, formada pelas primeiras lagrimas,
descendo das origens do mundo, avolumando-se,
tudo arrastando, tudo vencendo, até que um dia
seja um perenne preamar de bondade e de doçura ?
Que pôde o homem, insignificante e inútil, erguer
para desviar o curso, o Ímpeto da piedade e da
sympathia ?
Chegando ao Cachoeira, foram logo á cadeia.
Durante a ausência de Milkau, tinha conhecido
Maria uma nova tortura, a que sáe das perseguições da sensualidade. Com a sua brancura, com a
v <>yk^extranheza da sua raça, ella yffi$fflj)w de algum
« j ^ í ^ ^ í e m p o 00$$&
os soldados negras. A princi' //ff/'' pio, o aspecto severo da desgraça os aiastaxa,dá\ fffach* /djV/ndo-a n'um circulo de respeito e de protecção;
[//
imperceptivelmente, porém, a convivência e a fami|
liaridade foram permittindo que n'elles se erguesse
o desenfreiado desejo. Procuraram seduzil-a, communicando-lhe por instincto a lubricidade; mas
l
quando a viram insensível e obstinada nas suas
.
recusas, fugindo ao velho costume da prisão, onde
as mulheres encarceradas eram amantes dos guardas, se enfurecerar/ije empregaram para vencel-a
o medo, a força e a crueldade. Md/uas noites eram
agitadas, escapando ella sempre de ser violada

Ã

CHANAAN

347

pelos soldados assanhados e bêbados. Debatia-se
nas mãos d'elles, e salvava-se, ou pela disputa sensual da posse, que entre os dois pretos se formava,
ou pelo alarido levantado, deante do qual se recolhiam cobardes e espavoridos. E os dias, que lhe
concediam, eram para vingar as luctas da noite,
obrigando-a a trabalhar para elles como uma escrava, dando-lhe pancadas, negando-lhe alimento.
E Milkau, agora,na frouxa luz da prisão, notava,
surprehendido, quão terrível fora a devastação da
miséria no corpo da rapariga. Não se enganava
elle sobre a exacta situação da pobre victima, por
mais que esta lhe sorrisse, mostrando-lhe vislumbres de esperança e traços de resignação, que- ,>ê
rendo com esforço dfjji-tí a historia do seu mar- y/yfj&fa*'"
tyrio escripta indelevelmente nos olhos famintos, " ***
no rosto murcho, nas mãos de esqueleto e no peito
mirrado.
Milkau teve a impetuosa anciã de
arrebatal-a d'alli e carregai-a afoitamente para
longe, muito longe, e pôl-a onde as feras não fossem homens...
Durante o tempo que ahi passaram, Lentz ficou
silencioso. Pela primeira vez se via n u m cárcere,
misturando-se com criminosos e reprobos. A sua
velha alma aristocrática estremecia de repugrtancia, e o espirito de sonhador soberano e forte, que
não se lhe tinha extinguido de vez, extranhava o
iy,
contacto da miséria, revoltava-se por se fffiffftx
jyjtdt/^r^i
da molleza, da piedade, ardendo em remontar ás
alturas do silencio e do império. Mas era tarde : a

348

CHANAAN

garra da compaixão o prendia ao mundo, que elle
também assim fecundava com o seu quinhão de
soffrimento.
Na rua, quando sahiram da cadeia, Milkau
ouviu, como um echo do seu próprio coração, estes
murmúrios:'
— Pobre mulher! Como é triste a vida!
Era o novo Lentz que falava.
Commovidos e angustiados, os dois amigos separaram-se. Emquanto o outro voltava a se recolher ao repugnante albergue do Cachoeira, Milkau
seguia sem propósito, vagando, para as bandas
do Queimado, a região abandonada onde fora a
antiga cultura do logar, e que atravessara no dia
de esperança em que chegou á colônia.
Entrou na velha terra exhausta e morta. Ainda
no chão, que pisava, estavam os marcos deixados
pela geração extincta e vencida... U m dia, tudo o
que fora vida já por alli transitara... E agora, restos
disformes de habitações humanas m sustinham-*^petrificados, dolorosos e nús, e trepadeiras mesquinhas e bravas se- esforçavam^por cobrir-lhes o
pejo de ruinas mutiladas. Nas colunas baixas e
humildes da redondeza, destroços de pedras mirava!^ com suas caladas mascaras de monstros a
grande Terra em frente, as altas e viçosas montanhas, onde se fartava a força dos invasores...
Perdido no largo e desdobrado espaço, o Santa Maria, desembaraçado das pedras que antes o faziam
vibrar alegre e vivaz, passava vagindo mofino e

. sol moribundo \yj%o meu rosto se estampava-o riso continuo e fatigante...CHANAAN 349 lento. Milkau scismava: < Não.. se vestiam de purpura e ouro. No silencio dos ventos. e estendo-te os braços n'esse doloroso e invencível amor. Tudo era languido. N'um canto da planície. fria e morta. e outras de pé./ figuração gloriosa.. com que o sonho ama o passado. Antes de •*£ conhecer-^-perfida illusão (me\entorpecif) os <x -7 sentidos. n'uma trans. uma moita de arvores extinguia-se mansamente. a razão da minha energia. ruminando preguiçosas.' tocadas pela morte.. e deserto. a força do meu pensamento. doce Tristeza! Tu és a reveladora do meu ser. Aquella hora. a morte ama a vida. e descampado. e a minha frivola existência foi a lúgubre ' marcha do inconsciente risonho por um caminho de dores. Elias vinham de outr'ora e ainda eram a derradeira vida que alli restava./ u .. N'esse momento eu ainda te não buscava. cabras aconchegadas aos filhos ae roçavam nos oitões das ruinas. O sol impaciente ^j^J^fí/^jL-Âãtí ' fc rf fc r a mergulhar nos braços verdejantes e opulentos •íU«f<*-*c' da Terra futura e mostrava ao Passado a outra u face roxa.. no theatro da Agonia.. Cadáveres de arvores derrubadas se desmanchavamrEm pó. eu não te fujo. e elle afastava de mim os 20 .. Pas' .[ saros no céo desmaiado buscavam o pouso da noite. tu me attráes. Sobre ti me reclino. como si foras um insondavel e voluptuoso abysmo. e vazio.

que és o guia do soffrimento humano. faço da dôr universal ./ / CHANAAN homens. « Tristeza! tu me fazes ir até ao fundo das remotas raizes do meu espirito. Entraste. por ti. çe extinguiu} e então soou para mim a a hora da paz e da calma. porque é a fonte do nosso desenvolvimento. e nos explica a nossa fraqueza nativa. por ti. A aragem «fccalárar/?''Õ débil vagido da cachoeira ia-se perdendo para sempre. de cançada. N o céo não passavam mais os bandos das aves. O sol resvalara de todo do fundo do horizonte. Por ti comprehendo a agonia da vida. a dôr é bella. E como esperaste ! Um dia a alegria.350 fa . A dôr é fecunda.. E como desde logo amei a nobreza do teu gesto! O h ! Melancolia! minha alma é a morada tranquilla onde reinas docemente. a força da arte. porque nos*aperfeiçôa. A dôr é religiosa. E' a liga intensa da solidariedade universal. Milkau caminhou ainda illuminado pelos últimos c] arões da luz. porque faz despertar em nós uma consciência perdida. E Milkau scismava : « A dôr é boa. Mas tu. Tu te sentaste á minha porta.. a perenne creadora da poesia. porque une os homens. não estavas longe. n'uma postura de resignação e silencio. Tristeza. para quem a eterna alegria é morte.

oh! bemfazeja! aos outros homens. Curva-te sobre mim. a tua séria e nobre figura..... Que o meu rosto não mais se desfigure pelas visagens do riso cançado e matador.. dá-me a tua serenidade. envolve-me com o teu véo protector..CHANAAN 351 a minha própria dôr. ...Tristeza salutar! Melancolia... Conduze-me. . não me desampares.... Não deixes que o meu espirito seja a preza da vã alegria. Tristeza.

. disse-lhe elle.. conduzindo-a para a noite e para a liberdade: . A -prisioneira j ^ ^ f a d a quiz recuar. — Maria. a claridade da noite. E gestos infantis e leves roçavam pela barba de Milkau n u m a inconsciente caricia... deixava vêr o corpo de um Ldf soldado/ negro/ dormindo n'uma postura pesada / b r u t i . afastou de si o rosto que se inclinara sobre ella. Obedecendo. — Vamos! Levanta-te. Maria ergueu-se . recolhendo e enfeixando com energia as suas forças mais intensas. sou eu. sacudindo o morno carinho. baixo e com firmeza. estiradas. parecia-lhe que beiços^rôxos. como uma figura tosca e archaica. que entrava 'pela porta da rua. sedentos eviscosos lhe buscavam os lábios. aberta como de costume. repetiu Milkau. Milkau tomou-lhe as mãos com império e passou com ella sereno/ forte ao lado da sentinella..XII *4dix0t V»/ i — Maria! A desgraçada estremeceu. e com as mãos hirtas. Ella abriu os olhos e ficou deslumbrada.. No corredor.. Nas torturas do pesadelo. A sua mão agora branda e languidatacteava incerta para se certificar da súbita e extranha apparição do amigo.. e pela mão de Milkau foi seguindo pela casa meio escura.

espiando com os olhos immensos e dila. onde a bondade corra espontânea e abundsrhte. Mas só lhes chegava o chiar monótono e eterno da cachoeira. / ^ / ^ ^ ' tropeçavam nas pedras soltas da rua. Dobraram de cautela. os passos d'ella eram .. ella vacillou e veiu s« apoiar^nos braços de Milkau...m'"?r^ terrompido pelas vozes da perseguição surgindo das casas accordadas. O silencio inquietador enchia-lhe o espirito do antigo pavor que se não extingue nunca. E depois tudo voltava ao socego ameaçador. Uma ou outra vez. Enlaçados.. que parecia ser a cada instante tMfe^amente in. como a água sobre a terra. o ar subtil e frio que lhe penetrava nas carnes somnolentas e tepidas. por tanto t e m p o ^ r ^ í / / i d o s . cães somnolentos despertavam com o passar dos vultos.. Vem.. / niodrrW. a scintillação das estreitas. Lr' . Repousemos depais na perpetua alegria. caminhavam pela cidade calada e adormecida. e ladrando scarremessavantem vão contra elles... e os pés. aos outros homens. as fôrmas f i a d a s e sinistras do Ijaet&v mundo. a immensidade do espaço davam á fugitiva uma deliciosa vertigem. em outra parte. vamos além. e. . Era no ouvido d'eíla. o céo crystallino. Subamos aquellas montanhas de esperança. Vamos.. £-// vacillantes.. Iam morosos. assustadiça e .CHANAAN 353 Fora.. que a foi arrastando vagarosamente. tados pela treva.. que Milkau ia fallando: / — Fujamos para sempre de tudo o que te persegue. corre. a largueza.. n'um desfallecido collapso.

L Are/' Iam inquietos. que agora sé prendiam aos de Milkau. nada mais viram . Depois.. E o vento implacável ia passando. Havia um rumor continuo eafflictivode vento máo nas folhas da grande massa. coberto pelo manto cinzento e vaporoso da bruma. levantando alli uma phosphorescencia vaga de nebulosa. receio de despertal-a.. sem fôrma ainda imaginada. cortava. E debaixo d'esse manto se desenhavam seres phantasticos. A rigidez fria. afundando os olhos na infindai^l negrura. a várzea do Queimado. sobre que passava a luz exhausta da noite humida. Um trecho do Santa Maria. atravessando o tecto ondeante. fazendo-as gemer rumot rosamente. perdiam elles de instante a instante a vista do Cachoeira.. so fôra^f 0 dos braços de Maria. Subindo. como um gladio fumegante. subiram ainda e entraram no bojo da matta. galgavam a montanha. onde as collinas baixas semelhavam corpos deitados de heróes antigos e mutilados. No vão das trevasiXde espaço a espaço.354 CHANAAN Deixaram a cidade. Os braços de Maria se retesaram de novo e apertaram os de Milkau. e agora sen1. creada pelo terror. tepidos e brandos. lépidos e ra-^ diantes.. parado e morto... d'onde vinha o clamor do mysterio e do soffrimento das arvores castigadas. e docemente illuminada pelos reflexos <ftv/ / .. gigantescos. em baixo aos seus pés. corcundas ealeijões. IJ -UXJ&SIJ-J ftmjf frest^ <^r claridade/descjir.. colossaes. e do jorro de luz^/l _^___f—----se^brmã\'a dentro dáfloresta uma columna ale< *"* / vantada do chão para o céo.

caminhavam velozes. Maria quasi não caminhava. e ahi. encontraremos outros homens. e Maria já se animava. puxava com esforço o braço de Milkau.CHANAAN 355 das arvores espectraes. margeando o despenhadeiro. E este se ia estreitando. vem. O passo da fuga moderou. outro mundo. E' a felicidade. — E' a felicidade que te prometto. escasso. voando.... Quando vier a luz.. aquecendo-lhe o rosto com o seu hálito offegante. e es. Ella é da Terra... Estreitados um ao outro. O caminho deixou a matta sombria e sahiu pelas alturas descobertas. recolhendo nessa voz acariciadora o canto mágico dos seus esponsaes com a ventura. aspirando o aroma capitoso e perturbador que se desprendia das flores nõcturnas. Subiam lentos. acorrentado no fundo do cavado e fragoso valle. escalavam a subida. e as ribas mais angustas pareciam se terminar-f confundidas .. Subiram.. fatigada e de pés maltratados. vinham os urros do Santa Maria.. Milkau repetia no ouvido da companheira o seu appello de seducção.... Era pedregoso. A estrada tomava sempre pela beira de precipícios cada vez mais difficeis de vencer.seus olhos mergulhavam no abysmo e 3» perdiam^fascinados na toalha branca e espumosa do rio.. arrastando-se unidos. Vem. como uma zoada infernal. Assim espantava o terror.. mais inclinada sobre elle. e havemos de achal-a. e aos fugitivos. Milkau não mais falava. Cautelosos e arquejantes. voando.

4 t t L ./ corpo frio... alquebrado. .356 CHANAAN no horizonte.. Os braços d'ella.. a -\^f/ .. agarrou-a pela cintura. o retinham.. (jè^tbajjaj$è7$£ca£avj$ di rr/ U ' .. rolaram por terra confundicfòs>batendo-se.. mas a força d'elle que a queria levar para a' morte. vendo-se perdido n'aquelle recôncavo tenebroso.. feroz e resoluto.. Elle olhou-a cornos olhos desvairados. recobrou urna extranha tW energia e tentou retel-o... gaguejou estrangulado: l I Jpy — Não ha mais nada.. fjH^^fljl n u m assommo de pavor. ^ ( ^ ^ j £ . De um salto. O Santa Maria urrava soturno e medonho.e infernal para o abysmo. e com um sorriso diabólico. diddjéntíúik para o abysmo. e o « A. arrastando-o para a encosta da montanha. Milkau ergueu-se.^ *W*.. allucinados.luctando. e arrebatando a mulher do chão. e logo estacou. y y morte. Milkau desanimou. / . para a morte.. Só.. teve de ceder á d'ella.. ^^J^y%* \\r^j^**rAaxia resistia com fúria. doidos.-/ 0 i . os dois desgraçados luctaram longamente. mais nada. só. Percorria-lhe os membros um suor gelado. Maria. enlaçando-se como cornentes a uma arvore. sobre rochedos escarpados e negros. beijando-a febril^se* e ferozmente: Também ella i » apertavaTcom fúria <& j&b) n-lim accordar violento das suas entranhas. Pregados assim n'efisa postura.. A tentação satânica da morte era mais poderosa. Qp calor da mulher/já/utiWolvidado jftorooHDncrvw incendiava-o/ e no combate alie 4L estreitava cor vehemenci^(I com ardor. n aquella solidão de pedra. debatendo-se nas mãos ^A^ fortes do homem. avançou alegre ..

ouvia fflyf a voz^ée Milkau.CHANAAN 357 que os prendia á vida. deitoúN(a correr veloz pela vereda de pedra..L -J ^J^^ã^lfr/Mf^/j. de si. reanimando-se..^ Mas o horizonte na planice sa estendia^pelo seio da noite e n&. Começava a sentir a angustiada sensação de uma corrida no Infinito. — Chanaan! Chanaan!...... vibrando como / ^ / ^ i w a modulação de um hymno. enormes. Não pares.. e agora elles se precipitavam •% numa campina suavemente esclarecida pela noite maravilhosa e límpida. na obscuridade da treva.. e pasmaram a vista nos livres descampados por onde descia a estrada.. anniquilado. Corriam... seguiu-a.. supplicava elle em <yr~~ t~*r*>. confundia"com os céos.L ^ n^r^> L*^ . Chanaan! Chanaan! . sentindo-se em liber. N'um momento. espavorida. Eu vejo. / que aos seus pés medrosos e vivos se tornava ^ macia e segura. E Milkau fraqueou por fim. e dos seus braços esvaídos dklyyjdfâffl/dr^ü-^ Maria. E as duas sombras. cahiu n um "rápido marasmo. os ruidos desesperados e attrahentes do rio morriam atraz.. Milkau não sabia para onde o impulso os levava : era o desconhecido que os attrahia com a poderosa e magnética força da Illusão.///</? dade. a vista da planície /vftw**dilatada e bemfazeja.. '"•'* — Adeante. A agonia . duivc. iam desfilando sinistras e rápidas pela aresta da barranca. corriam.. galgaram o alto da montanha. o abysmo negro e assombroso passava como o tormento de uma vertigem.. Milkau.. „ coniuso. Adeante. J^t^fivida. Atraz .

e nada lhe apparecia.. pedindo á noite que lhe revelasse a estrada da Promissão.. elle atraz anceado. os olhos iam illuminando o caminho. para/fim do seu martyrio. acompanhava em amargurado êxtase a sombra que o arrebatava. Animada. veloz e intangível. corriam.. Corriam... Corriam. E tudo era silencio.358 CHANAAN pensamento.... transmudada pelo mysterioso poder do Sonho... que cobriam e beneficiavam o mundo. fatigadps de voar. corriam. e mysterio.. Cb/anaan! Chanaan! pedia elle no coração. Corriam. sem \0 poder j / / ^ i . horas e horas. os cabellos cresciam-lhe milagrosos como florestas douradas deitando ramagens. inflammando-as. novo sangue batia-lhe victorioso nas artérias... e nada variava. E nunca.. // n'aquella busca vã e fatigante.. / é . Corriam. A figura phantastica sempre.[ mais. sumida na nevoa incommensuravel. adeante. e Milkau en no hbfmfld jflf° f ° c o d'essa gloriosa luz. E o mundo parecia sem fim.. E Milkau. ia vendo que tudo era o mesmo. que seguia amando.. e temendo dissolver com a sua voz / mortal a dourada fôrma da Illusão... a Mulher enchia de novas carnes o seu esqueleto de prisioneira e martyr... jamais lhe a^parecia a terra desejada.... Apenas na sua frente uma visão deliciosa: era a transfiguração de Maria. E tudo era immutavel na noite. corriam. Nunca! yd. alcança/. . n'um soffrimento devôrador. corriam... e a terra do Amor mergulhada....

Purifiquemos os nossos corpos.. é o sentimento da perpetuidade. Cada um de nós.. Elle disse : . / q u e ' s e fará a passagem dolorosa do soffrimento. A nova luzsemmysterio chegou. Aquelle que vive o Ideal contráe um empréstimo com a Eterni• dade. Ao contacto humano ella parou. Emfim. Com as suas mãos desesperançadas. que é a Violência. desdobraremos infinitamente a ¥*k<V v w v c _V ... Chanaan ia revelar-se!.. — Não te cances em vão... Não desesperes. H &y inútil. como n'um.. ^ é-qu& somos a força creadora da utopia. Nós nos prolongaremos. e Maria volveu outra xez para Milkau a primitiva face moribunda.. Ainda não despontou á Vida. tocou a Visão que o arrastara. Sejamos fieis á doce illusão da Miragem.. a mesma bocca murcha.. Paremos aqui e esperemos que ella venha vindo no sangue das gerações redimidas. nós que viemos do mal originário. que tudo era deserto. e esclareceu a várzea.indefini/o ponto de transição.. Não corras. o mundo cançava de ser egual./emní mesmos.. na miseranda realidade. A terra da Promissão. Milkau festejou n'um frêmito de esperança a deliciosa transição. não a vejo mais. que eu te ia mos/ trar e que também anceoso buscava... a somma de todos nós. O que seduz na vida. que os novos homens ainda alli não tinham surgido. Milkau viu que tudo era vazio.. a mesma figura de martyr. os mesmos olhos pisados. Vendo-a assim.CHANAAN 359 A noite enganadora recolhia-se.

muito longe. abandonemos os nossos ódios destruidores. . desaggregar-nbs. Mas. si isto tem de acabar . e divino. não nos separemos para sempre um do outro nesta attitude de rancor. rue cies Saint-Pères. que venha do seio< maternal da T e r r a .. iremos viver longe. indestructivel. E essas expressões desesperadas. esperando a hora da resurreição.. Façamos d'ella o vaso sagrado da nossa ternura. dissolver-nos na estrada dos céos. Apr proximemo-nos uns dos outros. Todo o mal está na Força e só o Amor pôde conduzir os homens. li. — Typ. a minha visão se confina em volta de ti. 322.. Os meus olhos não attingem os limites inabordaveis do Infinito. na alma dos descendentes. passam no curso dos tempos.360 • CHANAAN nossa personalidade.. angustiosas.. ou si tivermos de aee despedaçar^ com ella no Universo. todas as agonias.. todos os sacrifícios.. Eu te supplico. todos os martyrios são fôrmas ^errantes da Liberdade. eu te digo.AKNIER. morrem passageiramente. Paris. « Tudo o que vês. reconciliemo-nos antes de chegar ao instante da Morte. ou si é informe e transitório. Eu não sei si tudo o que é vida tem um rythmo eterno. e santo.. ou si um dia nos extinguirmos com a ultima onda de calor.. todas as revoltas.12. a ti e á tua ainda innumeravel geração. (. onde depositaremos tudo o que é puro.. I).1901. suavemente..para se repetir em outra parte o cyclo da existência..

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