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LIVREIRO-ED.ITOR
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ARANHA

da Academia

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H. GARNIER
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Rio de Janeiro

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Milkau cavalgava mollemente o cançado cavallo
que alugara para ir do Queimado á cidade do
P o r t o do Cachoeiro, no Espirito-Santo.
Os seus olhos de immigrante pasciam na doce
redondeza do panorama. N'essa região a terra
exprime uma harmonia perfeita no conjunção
das coisas : nem o rio é largo e monstruoso precipitando-se como espantosa torrente, nem a serra ^
se compõe de grandes montanhas, d'essas que enterram a cabeça nas nuvens e fascinam e attráem
como inspiradoras de cultos tenebrosos, convidando á morte como a u m tentador abrigo... O
Santa Maria é um pequeno íilho das alturas,
""TTgeiro~êm seus teasipio^ depois é m b a r ^ á ^ ^ H <
longo trecho por pedras que o encacho
das quaes se livra n ' u m terrível esforçof^tígind'
de dòr, para alcançar afinal a sua vt\o[i\fà(àc s^vy
e alegre. Escapa-se então por entre '(unia flor

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'H r ^ ^ ^ m e n t o perturbador que cr^a e destróe. Tudo era um *i abandono preguiçoso. o d/***** **CTãiC CHANAAN sem grandeza. Milkau cahia em longa s c í s m a / ^ f y l ^ con. ''%. . Sobre ella não pairava a menor angustia de terror.insectos Í\jMf tornavam mais sedativa u Jrjll& a 2j%L. cavallo tomar o passo indolente e desencontrado . insinua-se vivaz no seio de colunas) torneadas e brandas.//#/*" SLti^^/Asoladora. ^ Z que balançava moroso a cabeça. luminosa e calma.£#»«. f sol nascente vinha erguendo-se / í j ^ ^ a d o na c a l . '^-Jltm+ *'á***-l . Elias por sua vez se alteiam gracipsas. Milkau deixava o . o /wwv^ji sussurro do rio. Os humildes ruídos da natureza contribuíam parfr-trma volu. Absorto na contemplação. um arrastar languido por entre a tranquillidade da paizagem.^qjiellft-qWnão esteve em repouso absp- é ~ >ew?~ lj*f~ r #~* 'y*U*S4 **/***•. A aragem mansa. A solidão formada p rio e pelos morros era n'aquelle glorioso momento fc£.../ ».t "t VtXfAj i&^A longas sobre os olhos viscosos..-v J ptuosa sensação df silencio. o movi. as vozesinhas dos pequeninos /* ÍJll-f. vestidas quente e infinma. que parece entregarem-se \f* complacentes áquella risonha e humida loucura. J gada.v»-maria da noite f c/l seus raios não tinham amda a 'llj \ *£££* potência de alvoroçar as entranhas da terra soce.<lr. J ' a rédea cahia frouxa sobre o pescoçòjdo animal. inquebrantavel immobilidade das coisas. o próprio /v. \xntr-'/yJL rompia-se alli o ruído incessante da vida. ^fei*ando de '' II*' quando em quando as palpebras pesadas/desce^. / .

deixava-se conduzir pelo seu velho cavallo.Tt-^/j^ Na frente do immigrante vinha como guia um ' menino. E oviajantel sahia da contemplação. disse o menino como que espantado de ouvir uma voz humana. para se o / expandir. no turbilhão £MI^Í/^ f>$0jl proferiu accèntos que Sk não percebia. y hojejqtMT sereno^. fluido perturbador que emanaxa^déj seus nervos ~ ff **~ doloridos e máos.^ / . soltava uma . Umas vezes... fíão viyeu em si mesmo .Venho sempre rf quando ha freguez. rebento fanado de uma raça que se ia extinguindo na dôr surda e inconsciente das espécies que nunca chegam a uma florescência superior. ainda ante-hontem vim. muito enfastiado d'aquella viagem e do companheiro. a uma plena expansão da individuali. . ff compungia/deante da trefega e ossuda creança -/^P /^* que era essa. palavra que ficava morta no a r / outras. 5fedag as eternas. esporeava-o e o fazia galopar descompassado e arquejantè. e chamando a * ' si o pequeno : -.f * dade. elle mesmo se ^espanta do yr *..y\i CHA^ÍAN luto. as boas. as santas creações do espiritoV do coração' são/geradas nas forças mysteriosas e fecundas do sile%CTOrrj-. vens sempre ao Cachoeira? — Ah!... resmungava com o animal. Milkau n'esses momentos attentava no menino e . mas / desde muito não chegava ninguém da Victoria. Também choveu tanto estes dias !.. — Então. filho de um alugador de animaes no Queimado. O pequeno. 4. surgia I /oi JÍál do fundo dos seus pensamentos.

nhor sim.i CHAXAAX — De que gostas mais : da tua casa ou da cidade ? — Da cidade.. As vezes... mas é para a freguezia. estávamos já de volta. Milkau fitava com bondade o pequeno guia. Hoje. — Teu serviço em casa de teu pae é só acompanhar os passageiros para o Cachoeira ? cwrtintrou M4Ík*t*-fK>. a gente bebe mingáo. A paizagem não variava no desenho. — Ahi no Queimado vocês não têm carne? — Ah! nhor sim. mas o subdelegado não consente le a gente / tem que se cançar por nada. quando falta. d rio está escasso..4fttertt^toi4eT-qtte. O melhor é pescar com bombas. Seu Zé Francisco diz que é porque a água está fria.croanea^ Frgtil r r í p n n d f l l . mostrando os dentes verdes e ponteagudos..r>nt. mas tia Rita diz que agora é tempo de lua e a mãe d'agua não deixa o peixe sahir. como . apenas o sol começava a incendiar o espaço.»~^ — Ah ! nhor não ! — Que fazes então ? — A gente ajuda o pae. de madrugadinha vamos para a pescaria levantar a rede.. antes do patrão chegar. carne secca na venda do pae. continuavam a marchar pela estrada a tro.-seu-. abrindo os lábios descorados. Só quatro. Nós comemos peixe.... este sorria agradecido..dejj»»i'tuvi" e alegrava a. l l h f 21 ?$n'r* prr>«»pl-nry. Cambem foi só cocoróca e um pinguinho.

*** . O pae disse. concertar a rede que a canoa de seu Zé Francisco arrebentou esta madrugada. após tratar dos animaes. <«/r'"**^.. e nós vamos á noite. hoje é dia de ir com a mãe fazer lenha.menino apontou para adeante e voltando-se disse ao companheiro : (UAJ^- f"T* **£? ^4.. O immigrante compadecido testemunhava n'aquelles nove annos do desgraçado a assombrosa precocidade dos filhos dos miseráveis.CHANAAN Üj^ 5 afiada serra . — Quanto falta para chegarmos.. antes da lua apparecer.tempo depois.. ou queres descançar um pouco? Fica até á tarde.T?"~ meza. — T u voltas logo para casa. — Mais da metade do caminho. meu filho ? perguntou ainda o viajante.. V» . O pae diz que eu volte já. avançavam pelo caminho afora. mas o rosto macillento sepsclarecia com a grande doçura de uma longa resignação de raça. Milkau acompaq~f. alinhava-se garboso no i j ^ v velho cavallo.. fugitiva ligação da piedade e da miséria.. r t . — O h ! patrão. si a água estiver quente. o *^^v£. fincava as pernas de esqueleto e punha f^y^~ o animal n'um trote esperto. O pequeno. ainda não se avista a fazenda da Samambaia. e de lá á cidade é o mesmo que para o Queimado.. WCj \ animado pela conversa. é noite de peixe. deitar a rede.nbai^ujwtinrnVampntP^sga-acteüiiadj&^gos dois asy!lr*^s\m.. ^^ -J2 <=<•£-&. empunhava as rédeas com firZ. n u m a curva da estrada. Pgttee. porque hoje.

A terra morria alli como uma bella mulher ainda moça. uma turva mistura de desfallecimento e de prazer mofino. estirando-se n'um esforço. ora a . A terra era cany~ cada e a plantação medíocre. brilhando aos tons dourados da luz . com o sorriso gentil no rosto violaceo. Milkau e o seu guia chegaram a uma porteira que fechava a estrada no trecho" em que &Ê* cortava as terras da Samambaia. ao contemplar aquella terra sem forças. delgados. / Lá no alto da collina um casarão pardacento ***" * misturava-se k bruma azul acinzentada do longeJ_ / • £ i á medida que Milkau proseguia. como si lhes faltassem raízes — * * « * * * . os pés de mandioca finos. O menino empurrou a cancella ^ com uma das mãos foi /. o morro na frente tapava a estrada.c Cl IA NA AN — Estamos na Samambaia. abrindo*. Milkau passou/Jd atraz d'elle uma pancada //* Í5 b . o horizonte se ia estreitando. if~A / fítt/ÜBL coloria-^de um verde claro. /frffl extenuada para a «-»• vida. ia morrer sobre elle./infecunda para o amor. roça de mandioca na baixada.e WjMwn TTi tarados vent 7 ^~ >>^3Terra 3tecemenie--&~grandp eétFe^çrar-era cheio «f0**~*> i j j n minliii dii~i"TiTT^d M * /c/ 7" . e parecia que esta. io cafesal jyfyffii o matiz verde-chumbo. traducção da força da seiva.JftfJíUft (4tf Wtíj0&Wfr grito agudo.j ilnb {«iiiiLiims^ne /*•*' entia-se^C^'. Os viajantes margeavam ora o cafesal plantado na encosta das collinas. exhausta **" e risonha. oscillavam.

Da esteada pelo morro acima o terreno era inculto./ ' va ennegrecido. sob a pelle/i^*'***'dos pobres animaes a rija ossadura. havia muitos annos fechada. á vista agora. aqui e alli o bolor sobre as paredes traçava extranhas e disformes visagens.m da estrada e de /M*v>r outras direcções á casa de vivenda. f i vam xidlAfmJJ costas de esqueletos. crescia livre a herva com touceiras de matto rasteiro. cf $<$$$£ &fflfjfy bojs agi. uma capella. ^i^tíjfpÁ^çf^A. O caminho barrento. O casarão. mas esta. apenas cortado pelas picadas que 0jf&va. pássaros da morte. abraçava o valle e se approximava da barranca do rio. . descrevia/uma curva que /<* ****'.** \ insoífridos a herva. na frente. jÇ^j^ogo ao penetrar' nas terras da fazenda. esquecidas^^redeas do cavallo e poz-se a mirar */#r^j em volta. era grande e / t ^ i ^ M aca/Kapaá^etomffiEK immensa varanda em fi^ãll //bffljZjjr sem j a n e í p j ^ r f p a r a $f$fi se abriam as portasA^-^ .CHANAAN 7 surda cerrou a estrada.^rgou 0 a * . pegajoso e humido.í4y€f/t desbotadas do interior. Ao lado. com uma côr parda edesegual. bufando e catando . fyffifajfy{//etaCd*^ um cheiro de lama e estrume. / frente á tysfrflç/fáfáffl iyiWtty casa. guardando . cheio de sulcos de carro de boi. piando como /^'T^^f . Fora branco. Faziam-lhes *-*>r*'-"y\ companhia aves de máu agouro. anuns que trepa. da varanda descia uma escada de madeira já com falta de degráos e com os corrimãos arrancados. coberto de matapasto crescido.///***** tando com o movimento inquieto das cabeças a /k****""1*! sineta que traziam ao pescoço.

velados pelas ' ( divindades enclausuradas./attestaj/d^/ na alvura da tez /*â a pureza da geração. / ^ alçava-a sobre a sella n u m gesto de resignaçãoi / . de pés nús. reconheceu-o e disse' vagarosamente ao companheiro : — Lá está seu coronel Affonso./vfyí um vulto que che.//^)<. f ^hysionomia /jji triste. o olhar. tirando cortezmente o chapéu . talvez bel. turvo. com a barba . ZjJs* O cavalio de Milkau continuava a passo/^/guia j£** bocejava indifferente e. muito velho. O dono da fazenda. parecia.j) gava á soleira da/ varanda. á^. a mesma vida superior envolta na queda í . elle representava a figura hu./jt^ lezas ingênuas de uma arte primitivaMjwtâfy/fê l/^" J) jffjfmia.. Milkau cumprimentou. erguendo indolente o sombreiro de palha. camisa de chita sem gomma. calça de zuarte.^ como si elle tivesse consciência de que sobre s i " M recahia o peso do descalabro da raça e da família. egualados '<£j pela morte e pelo esquecimento. ainda assim. Ê Centro 'da egrejinha. branca. apagado para os aspectos da vida *f como o de um idiota.. ^ Toltando-se para a casa. das emoções e sensações^//completo f i//9\ J reduzi//í a uma attitude miserandade autômato. . jaziam no chão sagrado os túmulos de senhores e de escravos./transformada em ignorado e mysterioso relicario de antigas imagens de santos.\ mana. o homem lá no alto correspondeu.^8 CMANAAN I no seu silencio a voz da devoção).^ Ias. erguendo uma perna. o eífgot/amento das s u a s / * / • faculdades. que por ali* l(y passara..

mas envolve no descalabro as pessoas. so. dh£$espessa^ mi-//&**'facroscopica floresta. Dentro-da-casaj estava armada a bolandeira./ donára agora em sua decadência. como uma sobrevivência das antigas ^ > moendas. fi paralysaJ a*fulmina^fazendo fti—^ d'ellas o eixo central da morte e augmentando a Âgk^a* sensação desoladora de uma melancolia infinita. no grande desleixo da casa abandonada. ' Milkau proseguia pela estrada. // restos de machinismos espalhados pelo chão. que o homem. Havia também dois % tachos em que se mexia a farinha pelo processo ^ \ rudimentar das pás/ Eram de cobre e destoa|' vam do resto da engenhoca. ./ ' / bos. bre a qual um limo verde crescia. | $Áfl aflV uma/installação melhor. A O vulto do coronel ficava immovel na soleira dd. caldeiras. E não ha quadro mais doloroso do que a^JÍJé' em que a acção do et***^" ^ m p i x a força da destruição não se limita somente ás tradições e aos inanimados. attestando tfft/$ft ///%. e ao lado a roda onde no tempo do ser. aban.J/^^ur no. onde se preparava a farinha J/Era um velho M • i barracão coberto de telha carcomida e negra. Quasi á beira do caminho e^ava a casa do for.«=> viço se ralava a mandioca.J7j/\y . / -feJ cahindo de prostração em prostração/perdendo ' / todo o polido de uma civilisação artificial. Milkau notou além T — d'isso. para se servir Me**' dos apparelhos primitivos que/se harmonisavam f/y**4* com afeição embrutecida do seu espirito. abrangendo ainda com os olhos o quadro d'essa triste fazenda. arrastada na ruina geral. rodas dentadas. tu.CHANAAN / das coisas.

crescia uma pennugem branca encaracolada.. quebrando o caminho á direita. o pjíl tronco estava nú. como movido por longo habito porta do rancho um velho cafuso com os olhos nevoados fitava vagamente o espaço. O pequeno guia adeantou-se para a casa. (%£** 2* Ju ^***-y ^ *pf*&„ mJ^ y*».s coma chifres./£ " . encostado ao moirão : apenas trajava uma usada calça. instinctivamente.10 CIIANAAN escada. e sob|fe/a pelle resequida de* senhava-se i <fn/<fr^fyjfó de um esqueleto de "9/ ^athleta: sobre o dorso. A-ffy postura era de adoradão rudimentar. que subia até ao queixo 7formavy uma rasteira barba.S* / u / /A. a. quando. Os cabellos não penteados faziam ponta.. como em moribundo ' cepo de arvore. presidindo com o olhar pasmado ao desmoronar silencioso d'aquelles restos de cultura. apertando o 0^/*$£homem e jtí'fyfè/d human/s. rira um pardieiro armado em cruz. circumscrevendo.• d aquella paizagem onde as forças da vida parecia estarem paralysadas e onde tudo tinha a íixidez e a perfeiçâo da immobilidade. elles enfrentaram quasi súbitafnente com um rancho de moradores. Toda ella era a própria indolência. coberto de palha cujas línguas se projectavam desordenadas da cumieira. de um nunca terminado pasmo deante do esplendor e da gloria do mundo. v. que n u m a desforra triumphante vinha vindo. /Õ/iOÍs viajantes Continuavam a aç movensjentro . J" / esperando na lugubre attiiude do inconsciente a I lenta invasão do matto. No batente da porta sentava-se uma mulata moça.

•*'CHANAAN / rv*H / y 11 camisa suja cahia <p toa sfiiw^^collo descarnado. apenasj mudando ^ vagarosamente o olhar. como si reflectisse um momento e sentisse despertar em si uma anciã de communicabilidade..l guiça e desalento. e. — Não. mirava embasbacado os cavalleiros que se achegavam ao tijupá. que sem o menor alvoroço o deixava approximar-se. Olhe só. ~~~7 .. cheio de pre.. moço. que abriu os lábios n'uma rude expressão de riso. Ld'áqui ao Cachoeira é um instantinho. respondendo á saudação J fi **^ — Se apeie. com a baba a escor \ j-er dos beiços tumidos. em pé. um negrinho vestido apenas de um cordão ao pescoço. e os peitos de muxiba /pendiam molles sobre o ventre. donde se dependuravam uma figa de páo e um signo de Salomão. mostrando as gengivas roxas e desalentadas. Milkau cumprimentou o grupo. O guia não esperou mais.. • f/H* fl*"* QLxxtrangcirn npTt"" a mão callosa e áspera do /<£ velho. ao seu lado.. Apenas o / velho <$k&.. Depois o velho. está-se na cidade. obrigado. A creança se acolheiríTella boquiaberta. pulou da sella. vencendo duas curvas do rio. no rosto do viajante. e j U ^ este ptffiji o~pé em terra l ^ f boceja^ n'uma satisfação de repouso. — E h ! meu sinhô. insistiu «com Milkau para que se apeasse. Quero chegar cedo. abandonando o seu cavalloisegurqu_pelo freio o do viajante.. descançou-o. A c a W a não se mexeu.

estendia a mão para o outro lado do rio : Não vê um casarão lá no fundo? Foi alli que me fiz homem. de outra dobrada em rolo e suspensa n u m gancho. I m a pequena divisão de palha. No fundo.. a porta abria para uma clareira do matto. molhos de linha de pescar e alguns pobres instrumentos de lavoura. formando /-' um quarto. — Mora aqui ha muito tempo ? perguntou Milkau. separava um dos cantos da peça. na fazenda do capitão Mattos. onde se viam uma esteira e uma es/ pingarda. dois banquinhos rasteiros. apenasdivisava ao longe um amontoado de ruínas que interrompia a verdura da matta. na qual uma touça de bananeiras se / ( /multiplicava/ //junto a essa porta Medras negras. acompanhando o gesto. um remo. A cobertura era alta no centro e pendia em declive tão rápido para os lados que nas extremidades um homem não podia ficar em pé. o â— mobilia^U/ miserável e simples se compunha de <' uma rede cor de urucú armada n u m canto. E a conversa foi continuando por uma serie de . sinhô moço. uma esteira estendida no chão de soque. defunto meu sinhô. como um biombo lixo. que Deus haja ! O extrangeiro. tacteando o espaço.. indicavam a cozinha. — Fui nascido e creado n'essas bandas. E. j/jy ) que se misturavam a restos de tições apagados.12 Cl I ANA AN Da porta Milkau via claramente o interior da habitação. Alli perto do Mangarahy.

. Comida sempre havia. Tempo hoje anda triste. as festas simples.. sem variedade. sem lances. Ah! tempo bom de fazenda ! A gente trabalhava junto. Que importava feitor ?. por ter occasião de relembrar os tempos de outr'ora. mulatas. bandão de gente. Patrão se mudou com a família para Victoria.. quem debulhava milho debulhava. a caçar de comer. Nunca ninguém morreu de pancada... tudo de parceria. véspera de . onde tem seu emprego. meu sinhô moço.. Eu com minha gente vim para cá. como todos os humildes e pxi mitivos.CHANAAN 13 perguntas de Milkau sobre ávida passada d'aquella região. Governo acabou com as fazendas. de tomar a iniciativa dos assumptos/I contou por phrases gaguejadas a sua triste vida toda ella. n i Cd dê fazenda ? Defunto meu sinhô morreu. para essas terras de seu coronel. onde bem quizeram. cafu :as. os trabalhos e os castigos.. E na tosca linguagem balbuciava com a figura em êxtase a sua turva recordação/ _ — Ah! tudo isto. a comprar de vestir.. mas de quão intensa e profunda agonia! Contou a velha casa cheia de escravos.um pobre drama sem movimento. e nos poz todos no olho do mundo. se acabou. filho d élle foi vivendo até que governo tirou os escravos. e quando era sabbado. ás quaes o velho respondia gostoso. a trabalhar como boi para viver. meus parceiros furaram esse matto grande e cada um levantou casa aqui e acolá. Tudo debandou. quem apanhava café apanhava. sentindo-se incapaz.

com o desespero do isolamento de agora. o preto velho. com a melancolia de um mundo desmoronado. qual nada. jfy/fó Milkau. De brasileiro governo tirou tudo.. Não me tirando a graça de Deus.CHANAAN ÕL^J*^ f' jC^J Jff/Vm*' A * *. Rancho é do marido de minha filha. arrendada por dez mil reis por anno. terra é de seu coronel. da sua vida congregada. K assim o antigo escravo ia misturando no tempero travoso da saudade a lembrança dos prazeres de hontem. ah! meu sinhô.fffy gestos tardos e incertos. proseguia no seu monólogo : — Vosmecê vae ficar aqui ? D'aqui a um anno está podre de rico. ^ ' u m estremecimento. com as mãos abanando. cavallo e negro.. a mão estendida fâf.. sua terra.. com o olhar perdido no vácuo. Todos seus patrícios eu vi chegar sem nada. Hoje em dia tudo aqui é de extrangeiro. — Qual terra.. u Q> k r' 0 domingo..da pesada visão da conquista da terra 'pátria pelos bandos invasores... que está ahi assentada.. têm cafesal. E os seus olhos tristes se obscureceram. tornou-se mais densa. — Mas.. você aqui ao menos está no que é seu. fazenda.. tem sua casa. A nevoa que os cobria. amparada na domesticidade da fazenda.. E agora? Todos têm uma casa... é dono de si mesmo. só pune por allemâo . como que sobrecarregada ftítff. meu amigo. tambor velho roncava até de madrugada. . governo não faz nada por brasileiro. burrada.

0 velho continuava me. e a incapacidade de uma expressão livre e elevada fazia crescer a angustia. apatetados. — Adeus. como si o peso de toda a responsabilidade da situação d'aquella gente cahisse também sobre elle./ ' mava e docemente ia desfilando aos olhos do ca$ j .. Os ventos começavam a // fe^Qf soprar mais espertos e como que agitavam as almas [/ dif. agora de todo inflammada. sumia-se no &H*de> . lá no alto. até á vista. Milkau recolhia o echo d'aquelle queixume de eterno escravo. LjJ O rio descia em direcção contraria á marcha. N'um gesto contrafeito despediu-se..ndando a cabeça e resmungando um choro. Nada achou.-/"/ do' longínquo horizonte. Havia alguma coisa de aleijão n'esse protesto. d'aquella mal definida resignação dos esmagados. meu velho. Milkau /aminhava pela grande luz da manhã. o immigrante notava o . arrancando-as do torpor para a vida. Milkau sentia um estrangulamento.CHANAAN ^ f 15 Seguiu-se um oppressivo silencio. A fazenda. Lá dentro de si mesmo tfatia-se em vão para encontrar a claridade de um sentimento. itíféfti-. a limpidez de uma palavra consoladora. de uma indolência sinistra. dava / maior oppressão a tudo.dos y viajantes. Os outros da família ficaram quietos. e ess^ ^raço dft/moviméntos oppostos f/ v W d a v á a impressão de que toda a paizagem se áni. A <ry figura da filha. > valleiro. O preto abandonou-lhe a mão.

' recendo. desconhecidas. í5 rolar do f j^jL* Santa Maria batendo sobre pedras amontoadas.16 ~ ' . recolhiam e reverberavam a luz do sol. homens. rolando devagar'. au/*/ gmentava. despedaçando-se como um louco nas lages. e agora. como são os caminhos do homem sobre a terra. mas arrastado por uma força incessante que nada deixava repousar. A brisa fresca encanava-se pelas duas ordens fronteiras de collinas parallelas ao rio e trazia ao encontro do / /f viajante um mugido sonoro de cascata. infinita:^ e incertas. gritou-lhe : — Porto do Cachoeira.J Milkau. na matta ll^õu^l ainda fumegarite de nevoas. curvava o pescoço e accelerava brioso o passo. \~U '. como o de fitas mágicas : casas de moradores.1A Í. .< CUANAAN manso desenrolar do panorama. // * 'o corpo se lhe agitou e estremeceu nessa anciã de quem penetra na terra desejada. também se . Xa frente o guia. ao contacto dos logares próximos á cidade. ao sopro da viração. comoJjarfdespertando. A estrada iá se alargando. bui^ / fando. os nervos. espumantes. que. estendendo o braço. a vontade transmittiam um fluido activo ao lerdo animal. Milkau ^Úi ao longe. outra/vinham appa-/-*^. mas o sangue em alvoroço saudou a apparição do povoado. relinchava asperamente.. . l/ ' mordia o freio.transformou em vida. sacidia as crinas. fim das suas jornadas. respirou sôfrego. uma larga mancha branca. como um / espelho vacillante. 7 as suas águas revoltas. tudo ia passando. de narinas escancaradas.

Milkau.. — Em casa do Sr. mas ainda assim procurando os derradeiros e longínquos raios do calor humano. Mirando-as attentamente./ toda branca. com a sua casaria . jjLeeerrdo na*frente. dando á marcha fatigada . a cidadesinha tíâ n'aquelle delicioso e rápido ins//r tante/a filha do sol e das águas. da claridade //(W^ ~ e da musica feita dos sons da cachoeira. Milkau observou que essas casas eram moradas de gente preta. Os cavallos arfavam. O maior sobrado da cidade. e deitando-se á soleira das cidades. que o pequeno.. Cheia de luz.GHANAAN 17 Então. Conhece ? — A h ! nhor sim. o olhar espraiado na paizagem. ^ como soltas na estrada para saudaráíi alviçarei. de uma pequena elevação que ia galgando. Domingo passado levei também um moço para lá.' ras casas iam chegando : eram pobres habitações. quem não sabe?. escancarou para dar passagem á Milkau. Entravam agora mais devagar na cidade. — Onde se apeia. represa #&'"' do fervido rio que se liberta em franjas de prata. Roberto Schultz.. dominava a povoação apertada entre a montanha e o Santa Maria. patrão ? perguntou solicito o guia. as primei. da raça dos antigos escravos. /A/T**' Os viajantes continuavam apressados .. Os viajantes desceram a rampa e foram ter a uma porteira.// v~ ras os viandantes. em plena tíbffà da côr. e adivinhou-os batidos pela invasão dos brancos. para elles extrangeiras e prohibidas.

apenas guardavam na retina inconsciente a vaga sensação de uma cidadesinha allemã no meio da selva tropical. e as mercadorias innumeras davam-lhe uma feição de grandeza e opulencia. não possuíam fixidez nem calma para precisar qualquer observação. em café. foi desviando os h . Chegados a um grande sobrado. iam tropeçando nas pedras soltas da rua. para chegar até ao balcão.1SS CIIANAVN uma sensação de movimentos irregulares. Os olhos de Milkau tinham os estre' ^ l ^ k ^ ^ m e c i m e n t o s das passagens \fly!//fé dos pano' ramas contrários . em fazendas. ao entrever essa população toda branca. como refulgentes chapas de ouro. /mg u a mio o via^ _ v . como si descessem com medo montanhas pedregosas . O armazém de Roberto Schultz era vasto. *y / ' A loja áqüella hora já estava cheia de gente. Ao espirito do immigrante desceu uma confusa e tênue recordação de outros tempos. era um d'esses typos de armazém de colônia. que são uma abreviação de todo o commercio e conservam na profusão e multiplicidade tftJJ das coisas um certo traço de ordem e de harmonia. em vinhos. Tinha quatro portas de frente. o menino voltava com os ÍJMJ animaes. o guia pulou lesto do cavallo e ajudou Milkau a se apear. c. em instrumentos de lavoura. abandonados de rédeas. e. uma espuma abundante os ensopava. jante penetrava na loja. e ao sentir a irradiação do sol batendo sobre as cabeças das creanças. e Milkau. Alli se negociava em tudo. despediram-se como bons amigos.

o Rio ou S. — Então. e immediatamente Milkau foi conduzido ao escriptorio. pesados. / — Na minha opiríião. porém agora os negócios não marcham. Ahi.. Vae-se aborrecer.. vem com a idéa de ficar aqui ? Milkau affirmou essa resolução. — Mas. são os grandes centros de commercio.. todos indecisos. interrompendo-se de vez em quando para fitar o recemchegado. onde acharia um emprego com facilidade.. — Isto aqui é triste e enfadonho. onde um homem taurino e barbado o recebeu. afianço-lhe. noutro tempo ganhava-se algum dinheiro. Dos olhos d'este baixava uma claridade suave. quiz interromper Milkau. disse por dizer. nós estamos abarrotados de pessoal.. Afinal. O immigrante entregou-lhe uma carta de apresentação. ora a ler. o senhor deve voltar hoje mesmo. Roberto não o attendia e continuava a arredal-o ^ / com as suas palavras. Paulo. brancos e tardos allemães.'para longe do Cachoeira. Roberto começou a aconselhal-o i que não se decidisse antes de ver bem as coisas por si. . que elle principiou a ler. Talvez melhor ftíffft ir para. dobrou vagaroso a carta e poz-se a tamborilar na secretária. uma calma dominadora. Disseram a Roberto que havia um viajante á sua procura.. que perturbava o velho negociante. sim. A colônia é um engano .CHANAAN 19 freguezes alli amontoados em pé. Aqui V. ora a mirar pensativo e aborrecido.

dar y// festas.áO CHANAAN em minha casa tenho gente demais. O juiz commissario mandou pregar o . temos de hospedal-os. continuou o negoI ciante... e. E Roberto não oceultou a j n surpresa de ver l ' . — Como ? Vem com o plano de ir para o café ?. Não ha nada como a lavoura. o que é uma vantagem para o colono. quando puder. ^ apezar de extrangeiros. tudo isto nosvae empobrecendo : o que se ganha é uma miséria para esses extraordinários. com o cambio. / — Ah ! isto é outra coisa. Chegou em boa hora para arranjar um excellente prazo nas novas terras do rio Doce. / vá para o matto. ou talvez por isso mesmo. ora. nós nos pagamos em gêneros.àgora amável.. / :— Mas eu não vim com destino ao commercio. E o costume aqui. Olhe. que vou despedir: em nenhuma casa de negocio da colônia o senhor se pôde empregar.. vá nos mandando café. As eleições não tardam.. nós lhe fornecemos tudo de que precisar. a nossa casa está ás suas ordens. somos os que sustentamos os partidos do Estado. arranje a sua colônia e d'aqui a pouco tempo está rico. Que vale hoje o commercio com os impostos. arranjar é$ eleitores . — u m "CõTõfTo~n'aqüeíícTTmmigrante tão bem vestido 'úv / para um simples cultivador. acerescentou baixando ligeiramente o olhar. e com / as contribuições da política?. que se vão abrir aos immigrantes. por ahi já devem vir os chefes da Yictoria.. jiorque nós aqui.. (rtdMi^VJlMMéAji decisivo o viajante..

A porta da loja uma velha de nariz adunco.. que sempre nos apparece por cá.. Este quasi ia arrebatado no meio de agrados e cortezias devidas a um futuro freguez. E.. Não sei o que será. o sr.. Na rua passava uma tropa de burros carregados de canastras de café e repicando campainhas.. como é de uso.. jeaara outro reclamou. .CHANAAN 21 edital para as medições e arrendamentos. chegava montada em sua mula e entre dois alforges suspensos dos ganchos da cangalha. o senhor sabe. porém. Aqui fica melhor . fazendo companhia a um moço chegado ante\ hontem ei também de família importante. O rapaz.. está no Porto do Cachoeira. temo» muitos commodos para hospedes.. elle. — Não vale a pena ir para o hotel. Talvez vergonha de ter immigrado. Ambos atravessaram para o outro lado do balcão. Depois. Os olhos de Milkau deslumbraram-se á luz da manhã alegre e viva. o senhor me pôde ser util^tefi.. anda triste e sorumbatico. êrgueu-se. de rosto de pergaminho franzido. Milkau agradeceu os offerecimentos do negociante e j/JÈ dispuntura partir em busca de uma ti*»*** estalagem.. Imar'—gmeTlôTho do general barão von Lentz.. pedindo a Milkau que o acompanhasse. É um rapaz alegre. sorrindo malicioso. de viagem para as terras. é freguez da casa e é do partido. o agrimensor.. Felicíssimo. dirigindo-se á escada do sobrado. Ah! esses rapazes.

um ser privilegiado na sua pátria. Milkau sentia-se constrangido por ter encontrado n'aquellas paragens extranhas e remotas um filho de general allemão. que se deseja estabelecer no rio Doce Yoltando-se para Milkau.a conversar sobre coisas vagas..*ul\t f> CII. devendo chegar á noite. que estava a escrever.£iA)ClvdlhA' •21 >h) c/ í. Mas de par com este súbito enthusiasmo pela expressão esculptural d'aquella joven figura. roliça como a de um patrício romano. o tempo. Roberto deixou os novos immigrantes. — Pôde continuar o seu trabalho. — Não. disse Milkau delicadamente. Milkau admirava a mobilidade da physionomia do joven von Lentz e não se cançava de observar o fulgor de seus olhos fulvos.VNAAN Xo quarto em que entraram Roberto e Milkau. repetiu-lhe que estivesse como em sua casa e perguntou-lhe pela bagagem. ergueu-se para saudal-os. dominando o rosto sem barba cujas linhas eram accentuadas e fortes. Apenas matava o tempo. um moço. O outro explicou-lhe que vinha tudo pela canoa. E emquanto se entretinham. annunciou o dono da casa/Este patrício. E os dois se puzeram. como um evadido do seu próprio e grande mundo. sobre a viagem. o que eu estava a fazer não é urgente../projectan»e-6jl de uma cabeça ampla. que viera sepultar gi / * . — Trago-lhe um companheiro. a natureza.

á monotonia de um precipitado único. de desespero e de desillusão. automáticos como soldados. Milkau lia n'aqueile ajuntamento de allemães o caracter camponez e militar que fundou a obediência e a tenacidade na sua raça e reduziu tudo o que ella podia ter de belleza. D'ahi a momentos os dois novos se achavam na grande sala de almoço dos empregados do ar. Quem sabe. as paredes. simplesmente caia. pensava que talvez somente se pudesse explicar a incogflita d'essa alma pelas imagens e expressões incertas da vaga e symbolica metaphysica. os creados serviam. o recanto suave do gênio livre ? perguntava a si mesmo Milkau no sussurro regular do almoço.-»A sala / era desguarnecida. Em todas as physionomias d'aquelles homens tão differentes. de elevação moral.CHANAAN \ 23 sem duvida no mysterio das colônias uma parcella de angustia. continuava quasi em sonho. não tinham o menor enfeite. moços de perpetua adolescência J^ffi via-/estampado o pensamento único de cumprir o dever pratico..f das.. flectindo sobre a alma allemã. ao regimento de caixeiros que comiam silenciosos. quem sabe si não foram um dia dois espíritos que se encontraram dispa- . outros.i s . Onde estava a Allemanha sagrada. e re. a pátria do individualismo. de caminhar para a frente no conjuncto harmo^ nico de um só corpo. / *. velhos de pelle enrugada. alguns. contemplando o esquadrão de homens lopos./ mazem e tomavamiá mesa ds^eus togares.

acaba de . Dizendo isto. Felicíssimo. gerando puramente. ambicioso. e o corpo ahi está hoje socegado. nas regiões plácidas do ideal. E quem sabe como foi longo e pertinaz o combate entre as duas forças !. Roberto os chamou. .:2i '\. sem ancias. continuou Roberto. Milkau e Lentz iam por ultimo.. como hospedes despreoccupados. a fim de fazer as medições. qual uma massa de escravos. — Está aqui exactamente o sr. baixo e moreno.. as figuras da poesia e do sonho. que ^^segue depois de amanhã para o rio Doce.. e quando d'ahi a momentos passavam pelo armazém em direcção á rua. e pairava sempre no alto. os caixeiros sahiram em ordem. em que os olhos negros scintillavam vivos e seccos. divino alimento d'onde brota essa luz que ainda o illumina na sua lugubre c devastadora marcha sobre a terra. procurando absorver o outro que voava docemente. a devorar os últimos restos do gênio do passado. CHANAAN ratados em um mesmo corpo. No quarto resolveram visitar a cidade.. Findo o almoço. uma chata cabeça de bacuráo. Milkau. um servil á matéria. cúpido. sem conjuncções torpes. vagarosamente. indicava um moço magro. zombando de tudo. de homens e deuses. — O sr. sem lucfas. cpm o rosto talhado em triângulo cheio de marcas de bexigas.Mas houve um momento em que o demônio da terra venceu o espirito de belleza e de liberdade.

Esperemos.... esperemos. em murmúrio. Eu expliquei-lhe que n'este momento o que ha de melhor é o rio Doce. acampamos no porto do Ingá. — Como não ? acudiu o agrimensor solicito e com um gesto de quem quer abraçar. e meio confuso respondeu : — Para o campo ?. Mas o sr. como si invocasse o testemunho dos mais : — O sr. O negocio é fácil. Roberto. — É só para combinar tudo e quando chegar 'á não haver demora. que está ígora para os lados do Guandu. despachaj mas / ... Felicíssimo perguntou a Milkau o dia da partida. Felicíssimo é k que pôde dizer quanto isto é difficil. o senhor requer um prazo.. a occasião é má..CHANAAN 25 chegar com o propósito de arrematar um lote de terras... as casas estão cheias... Sigo amanhã a me encontrar com a turma que está em Santa Thereza. Os senhores quando vão? Lentz ficou embaraçado. Ainda não sei afinal o que farei na colônia. e que o senhor me "faria o favor de arranjar-lhe um prazo bem situado.. von Lentz prefere uma collocação na cidade. depois de amanhã bem cedinho nos pomos em marcha. Dependo/èeqy^l muito do sr. O negociante cocou a cabeça e disse solemne... e quando fôr lá pelas onze... no rio Doce. e o juiz commissario. no commercio.

26

CMANAAN

não precisamos d'elle para fazer a medição. Na
sua ausência estou auctorisado a tudo, até mesmo
a entregar os lotes aos colonos que os vão trabalhando... Entre nós as coisas não são feitas com
luxo... Não temos formalidades...Tudo se arranja
e legalisa depois. O que é preciso é pagar logo as
custas...
Milkau o interrompeu para se informar das distancias.
— D'aqui a Santa Thereza quantas léguas ?
— Cinco. E de lá ao rio Doce outras tantas. O
senhor deve ir d'aqui até o alto de Santa Thereza, ahi dormir e no dia seguinte tocar para o rio
Doce.
—_J$ preciso um guia ?
— Não... Estrada sem errada, e batida...
Roberto se offereceu para mandar acompanhar
o immigrante por tropeiros que iam diariamente
para essas bandas. Milkau agradeceu, dispensando o obséquio.
Deixando Roberto, sahiram os três do armazém.
Felicíssimo, que dizia não ter nada a fazer
n"aquellas horas, propoz acompanhar os extrangeiros, dando assim expansão aos instinctos da
sua nativa e tranquilla vadiagem.
Agora, o Porto do Cachoeira abrasado de sol
desvendava-se todo. A cidade era dividida em
duas partes, que uma ponte ligava, mas podia
dizer-se que só á margem esquerda era crescente,

CHANAAN

27
tava

porque do outro lado as habitações se conttm JIL
salteadas e raras. As casas d'aquella banda flí enfileiravam/monotonas em frente ao rio, e nem um
jardim quebrava a austeridade das moradas, nem
um quintal margeava os caminhos, nem uma
arvore sombreava as ruas. Pela primeira vez, porventura, nos tropicoaros habitantes de uma pequena ^ /
cidade, como essa, não conheciam os prazeres do
convívio dos animaes domésticos, nem tinham a
expansiva preoccupação da cultura das plantas e
das flores. Uma esterilidade rigorosa e systematica estampava-se no perfil das casas, que eram
apenas o abrigo de uma população de negociantes. Na rua, Milkau ia adivinhando a explicação
moral d'aquella localidade, e uma impressão de
angustia emanada da branca aridez da cidade o
turbava, pois parecia-lhe que o bafo dos traficantes tinha matado a poesia, a graça d'aquelle
canto excepcional da natureza, onde elles nfájííam
levantado as tendas da especulação. Felicíssimo
ia pressuroso, contando os milagres da fortuna
commercial d'aquella gente. — Este sobrado aqui,
dizia elle, apontando para uma casa esguia e egual
ás outras da rua, é de Frederico Bacher, chefe do
partido da opposição; é o rival e o inimigo de Roberto. Chegou aqui sem nada; hoje, veja como
está rico! E aqui são todos assim, todos têm muito
dinheiro. Póde-se dizer que o commercio do Cachoeira é mais forte do que o da Victoria... Ainda
não se deu um caso de quebra... Estes allemães

áS

Cl I AN A AN

/

têm olho... Si fossem brasileiros, esta^ a tudo arrebentado.
/
E o agrimensor continuava nesse tom, a fazer
o elogio das virtudes/germânicas para o^negocioi,
* sim», economia, »«# facilidade de assimilação, mtm
L/energia no trabalho, d^rtdo, como contraste a ellas,
o* I as qualidades inferiores dos brasileiros, quejjwíse ^
comprazia em proclamar, no gáudio de se mostrar,
aos companheiros de passeio, justo.e superior, e ao
mesmo tempo com propósito lisonjeiro. Para se
dar ar de importância e intimidade com os mora\i-r
dores, elle", de instante a instante, deixava Milkau e
\J'
Lentz na i^ua e penetrava pelos armazéns a dentro,
para trocar uma palavra com o dono da casa. Algumas vezes, conseguia arrastar do fundo das lojas
até á porta os negociantes, com quem á vista dos
novos tomava liberdades, dando-lhes palmadinhas
nas costas, beliscões na barriga e dizendo-lhes injurias por gracejo, ao que os allemães complacentes
sorriam muito rubicundos, murmurando em tom
de desculpa aos outros:— Esse sr. Felicíssimo...
Isto é um diabo...
Os três iam seguindo.assim, despertando pelos
gestos e pelas vozes altas do agrimensor a attenção
da rua, mirados pelos tropeiros que descarregavam
os animaes e pelos freguezes que procuravam as
lojas. Lentz não tinha o menor interesse em correr
de casa em casa, á maneira fastidiosa e vulgar de
Felicíssimo; e então, para se ver livre d'essa $y(']/- li,*
rjfalA. J tMwf enfadonha defa&d passos de porta em porta, '" ,

CM ANA AN

29

propoz que subissem a um dos morros que cercavam e abafavam ao mesmo tempo a cidade, e
de lá desfructassem a vista da região. Os outros,
concordaram e assim foram, guiados por Felicíssimo. Para galgar a montanha mais accessivel, //Ága/éT
tiveram de yfi.4idx além da ponte, por sobre a cachoeira cujos cavos borbotões os ensurdeciam; e os ,y./i / /
passos dos homens iabce—aTponte~dè madeira,
ff
em cima das águas que se Quebravam em baixo, MJo^f
míflam vibrações sonoras,ipoderasas/como si sobre , ^ ;
ellaCasasse o pesado tropel da cavallaria. Do otitro i» ^ ^ c
lado estava a montanha que se puzeram a subir por
uma vereda pedregosa e de cascalho solto, dando
á marcha um movimento irregular e fatigante.
Felicíssimo ia mais lépido na frente, emquanto
y
os outros, não acostumados ao calor/caminhavam
J>
difficilmente, alagados em suor. A proporção
que subiam, morriam as vozes da cachoeira, vinham ao seu encontro o hálito perfumado das plantas montanhezas e o ar leve para acalmar-lhes os
ardores. A principio, dentro do circuito dos morros,
a perspectiva era estreita. Em cima, porém, elles
dominavam a vasta região accidentada, e os olhos
dos extrangeiros tiveram um delicioso instante de
êxtase. O contorno arredondado das montanhas
cobertas de uma relva basta, rente, fulgurante,
nas suas cores matizadas, o rio por entre os valles,
o ar limpido e secco mantendo estável a atmosphera,
a força da claridade desdobrando pelas colunas
o panorama, a abobada celeste de um immenso azu

pt &7 6£.*t«*-»« Cj-fZ

30

CI1ANAAN

cobrindo docemente a terra, todo esse conjuncto
de luz, de côr, de traços dava á paizagem um aspecto total de grandeza e confiança.
Felicissimo era o interprete da região. Como
perfeito sabedor, dava o nome ás coisas e designava os logares. Milkau estava sereno no alto
da montanha. Descobrira a cabeça de um louro
de nympha, e sobre ella, e na barba revolta,
a 1 luz do sol batia, n'uma fulguração de resplendor. Era um varão forte, com uma pelle rosca
y.
/%'ve branda de mulher, e cujos poderosos olhos,
fát**<y? da côr do infinito, absorviam, recolhiam doce£y; v ~a # mente a visão segura do que ia passando. A mo- .
"*r KJ „ cidade ainda persTstuférn não/abandonalflff"íruis' *-*
^y^
na harmonia das linhas tranquillas do seu rosto
tZy&r.
já repousava a calma da madureza que ia chegando.
Felicissimo apontava em torno e ia designando
os pontos do horizonte; os outros lhe acompanha///aí_S £Uyam o s gestos rápidos e, como <ffl$fyhté', não po2^
diam fixar os nomes bárbaros e extranhos que lhes
feriam os ouvidos, mas se interessavam em guardar e accentuar as impressões que lhes vinham da
região. Para o oriente era a terra do Queimado,
cujo caminho se desenrola longo e sinuoso, ora
n'uma planice descampada e risonha, ora por entre
O^ £ rTvêfde de um mattó rara, até'um pequeno grupo
de casas que formam o porto do Mangarahy á
beira do Santa Maria, alli orgulhoso e folgado, com
águas desembaraçadas dos cachoeiras. Para

CHANAAN

31

o norte, para o sul, para o poente, as montanhas
vão crescendo, amontoando-se como massas de pintura. Alli o Guandu, acolá S ta Thereza, duas regiões sombrias, que os colonos vão arrancando do
silencio mysterioso da solidão. Sobre um valle cheio
de sol um fio d'agua cáe longo e transparente como
um grande véo de noiva. Para o poente, o Santa
Maria margea os cafesaes, as casas de lavoura/e
lucta com as lages negras que porfiam em re- /
tel-o.
^
Milkau n'esse panorama aberto lia a historia
simples d'aquella obscura terra. Porto do Cachoeira
era o limite de dois mundos que se tocavam. Um
traduzia, na paizagem triste e esbatida do nascente,
o passado, onde a marca do cançaço se"gravava ,.,i
-ina/-yffiffi' m i n g u í d ^ l Ahi se viam destroçosjffir'-e*a/
de fazendas, casas'abandonadas, senzalas em ruifl «c"
nas, capellas, tudo com o perfume e a sagração^,*/ &&
da morte. A cachoeira é um marco. E para o Am*€>»"•'
outro lado d'ella o conjuncto do panorama se rasgava mais forte, mais tenebroso. Era uma terra
nova, prompta a abrigar a avalanche que vinha.das
regiões frias do outro hemispherio e lhe descia aos
seios quentes e fartos; e alli havia de germinar
o futuro povo que cobriria um dia todo o solo,
e a cachoeira não dividiria mais dois mundos,
duas historias, duas raças que se combatem, uma
com a sua pérfida lascívia, outra com a jetrà temerosa energia, até se confundirem n'um mesmo
grande e fecundante amor...

:\2

CIIANAAN

Elles desceram da m o n t a n h a ; e entravam pela
cidade, quando os armazéns se fechavam para se
reabrirem depois da hora do jantar. N'esse m o mento, via-se pelas ruas um movimento maior
de «jente que deixava as lojas e se recolhia ás
casas.
— Aqui, perguntou Lentz ao agrimensor, quasi
todos são allemães ?
— Sim, poucos brasileiros. N o commercio,
póde-se dizer, não ha nenhum.
— Então, em que se occupam os brasileiros do
Cachoeira? indagou Milkau.
— Os que temos aqui são os do foro, os juizes,
escrivães, meirinhos. Outros são t a m b é m empregados públicos, collector, agente de correio
J
— E professores ? perguntou Lentz.
— Só um, porque a língua que se ensina por
essas mattas é o allemão, e os professores são
allemães, com excepção do da cidade... Padres também não temos, nem egreja, como devem ter
reparado. T a m b é m não ha necessidade, porque
raros são aqui os catholicos, e para os .protestantes ha três pastores nas capellas do L u x e m b u r g o ,
Jequitibá e Altona... Os catholicos do município
são o povo do Queimado do Mangarahy e outros
pontos, onde está hoje a gente antiga da terra.
Felicissimo continuava a dar noticias do logar;
os outros ouviam-no em silencio, e a conversa se
foi assim espreguiçando até chegarem á porta
da casa de Roberto. 0 agrimensor se despediu,

este torpor instantâneo./ "/ mando / expressão serena da arte. to.fpr^â1' gado patrício. emoção ^ffd\ do encontro com o seu recem-che. Os primeiros IQ &L£^ perfumes dos mattos da redondeza desciam para' sy*JL>o es embalsamar o panorama. /. »^V! — E por quanto tempo aqui ficaremos ? disse o \yI ar Vil . e uma saudade extranha. //§_ incapazes de sahir á rua e de se ji metter ás priJ/\~ meiras horas da noite na fabrica de cerveja. disse Milkau.CHANAAN 33 promettendo voltar no dia seguinte para os acompanhar em novas excursões. A . Milkau estava fatigado da viagem e do passeio do dia. o repouso e a fixidez das pinturas. Lentz sentia-se esbraseado e abalado pela jy. os dois novos subiram ao quarto. segredando-lhes. \j — Parece que já vi este quadro em algum 4| logar. é segu"4-0|j ramente a primeira vez que conheço.. Os dois immigrantes contemplavam em silencio./ 41 este conjuncto ff^pfH-. . por motivos d'elle não per^^°u°^ cebidos. a nostalgia de illusões que alli se realisavam agora.. que. e sombras leves vinham envolvendo o mundo. . este ar. explicava o mysterio dos quadros sonhados e nunca vistos. que /d fif⣠j^/ff^Sl como y p * * * 1 ! o almoço.. e/// o\ que se percebe vae passaF d'aqui a pouco.. dando-lhes!' /// \j£ a tranquillidade. Mas não. Depois do jantar. na outra margem do. rio. /-?Sentaram-se os dois junto á janella aberta. scismando. . N'essa hora ^^Mnf^M^^t excedisCa si mesma. calma da tarde immobilisava Ííl4fjttâ. já tanto o seduzia e tf prendia. como era o costume alli.

E si aqui está a paz.. este será'o meu ultimo movimento na terra.34 Cl I AN A AN outro n'um bocejo de desalento//o^folharyáj/fyVi preguiçosamente sobre a paizagem.. com suas fôrmas grosseiras. 0 senhor persiste em se dedicar aos negócios ? — Xão sei bem o que faça. Sou um immigrado. Procuro uma vida estável e livre. Além disso. e agora espero que este seja o quadro definitivo da minha existência.. — Aqui fico. respondeu Milkau. é a paz que procuro exactamente. porque não sei até quando viverei. Não me sinto solicitado sinãó por coisas mais simples e approximadas da situação do futuro. — E então por isso que vae para o matto? Não seria melhor ficar aqui no commercio ? — Não.. que é uma sepultura para nós?. e tenho a alma do repouso. em torno de mim desejarei uma harmonia infinita. seus estímulos baixos. sua posição intermediária na sociedade. e o commercio é torturado pela avidez e éambição. Eu me conservarei na humildade. e a industria no velho continente. Estou indeciso â irresoluto. 0 commercio não me attráe.. — Não meço o tempo. fora d'esta paz dolorosa. penso que o trabalho digno do homem é a lavoura nos paizes novos e férteis como este..... Penso que si o commercio pôde ser um * / .. — Mas nada o agita ? Nada o impellirá para fora d'aqui...

-fc.. ityfatffflffl e/não fosse o J o . <\ mulo.come não temos família. Podemo/re<juerer \frA mesmo prazo. com espaços longos de sombra. é também umW ' caminho baixo e vil.\ gador que ha em cada homem. Qti A cidade estava illuminada frouxamente. . E si se arrepender. e ^ i n q u i e t a ç ã o . e. que me não queixarei de ficar só. eu talvez me abalançasse a ir trabalhar na lavoura. faremos uma sociedade . \k {Mfffftl Ferdia-se na noite o seu / ° ^ \ olhar. Milkau apiedou-se d'aquelle silencio afflictivo e. mas em outros pontos as luzes da rua e das casas cahiam sobre as águas do rio. se prolongava a \ fll w? queixa contra o destino e elle se debatia em vão >' /*£f uy dentro dos muros fechados da sua sorte. Lentz. medo do tédio da matta e da morte fla agitação. como em uma grande scisma .CHANAAN 35 meio de fortuna e de dar vasão ás ancias de jo. deixando-se levar pelos bons impulsos da sua confiança abundante. f$<f>p. n'um *^ f esforço de ave ferida para pairar nas regiões do seu sonho. // monólogo intimo e doloroso.. disse ao uya joven „*> companheiro: ' / — Porque não iremos trabalhar no rio Doce ? 0 senhor talvez se achafW ahi mais feliz e mais j^Á-/ independente../ff enoVauxiliaremos mutuamente. o seu rosto / não tinha serenidade. Parecia que ^ét^f^aiSMír^^a... pois esse é ainda até agora o meu destino. as linhas estavam perturbadas. jyf. dando á physionomia uma expressão de rancor t. poderá partir. que as multiplicavam em seu espelho tre../ ..*.

Milkau regozijou-se.. E também se alegrava por si mesmo. Porque não?.emoção. e cujos desígnios revelavam pelo menos uma alma em aspiração. Pasfo sou a conversar negligentemente sobre outras in *f*^-— Então. Esperava que elle reflectisse mais. — Sim.tão intelligente.. que por or-gulho procurava domar. Milkau não quiz insistir e delicadamente desviou o avssumpto. veremos. Pelos lábios de Lentz passou um sorriso tão suave como franjas de um lago manso em que rapidamente se transformaram as fúrias de mar revolto. Todavia não // a^eAttfQuiz de um modo Jtfyfefárf e imprevisto decid r a sorte do outro immigrante pela sua. que era pouco antes a sua alma. que lhe parecia .. tem-lhe agradado a terra? esta verdura de primavera ? o esplendor do sol ? a vegetação possante ? .36 / CII AN A AN //> Estas palavra^jgjjgg? brandas e boas. antes de se determinar a acom/0 panhal-o. Em Lentz o que/predispunha a acceitar a ' companhia de Milkau era a indecisão em que estava de se abandonar á vida rude e mesquinha de caixeiro. Eu lhe agradeço muito.. murmurou n'uma./7oram ditas com muita pureza de coração. porque sentia os seus instinetos de communicação espraiar-se no convívio d'aquelle rapaz.. na perspectiva de ter um fl/j/í /^cortjpanheiro/precisas^/de amparo e conforto no " exiíiò.. era também a seducção intellectual por esse companheiro de acaso.

3 . atalhou Milkau. seus chorões curvos.CHANAAN 37 — Sim. sem lendas. — Em que logar de. mas eu prefiro os . e ha de amar esta natureza até á paixão. Lentz parecia querer arrancar de si a obsessão da luz omnipotente. E com um gesto de mão sobre a cabeça.campos europeus com suas mutações. —'• Oh ! este sol implacável!. S. — A h ! não é esta a primeira vez que vem ao interior do Brasil ? —r Por este lado é a primeira vez. que.. que nos priva da liberdade de julgamento..... Eu já venho de longe e cada vez a admiro mais. Sempre este amarello a nos perseguir. E foi uma grande viagem para mim.M/ando facilidade. ^cAt^ ... João d'el-Rei é uma impressão única.. com suas margens incultas. logo que cheguei ao paiz. — Breve se acostumará. o seu colorido mais distincto. reflecte em mim por seus •próprios merecimentos tanto encanto. dirigi-me para cá. tudo isto é forte e bello.. estive de passagem em Minas Geraes.. sem passado.. Antes.Minas esteve? — No Oeste. o seu quadro de montanhas.' mas não édérâ. sua água límpida e borbulhante. levando o plano de me estabelecer alli. Fora d'ella não sei si o Rheno vale o Santa Maria.. Aqui não ha descanço para uma suave matização da côr. ^ $ f — A Europa tem a tradição.

essa musica extranha não me feria. o que me produziu um doce encantamento. a musica dos sinos me era desconhecida na força e na sonoridade que tinha naquella manhã.. do meu ser.. mas.. e o seu rumor egual e constante passava imperceptível aos ouvidos de Lentz.. Lentz embebeu-se nas palavras de Milkau. — Alli me pareceu ter eu penetrado no passado intacto do Brasil. noemtanto.apafffrr-f.. O espaço estava cheio de sons. . Oh ! Foi uma volta deliciosa aos tempos mortos hoje por toda a parte e que ainda lá prolongam a sua vida. — Logo á primeira madrugada o meu somno de viajante fatigado foi cortado pelo repicar de sinos de muitas egrejas. pois parecia que era entendida por uma alma longínqua que se despertava dentro de mim e tomava posse. No Cachoeiro era silencio/a luzdas casais 'Tiy. Como a todo o homem habituado ás grandes cidades modernas. da noite de verão que é apenas um instantâneo descanço do dia. e eu a recolhia *.. I quasi em êxtase como si fosse uma antiga e revivida sensação. A cachoeira mugia sempre. os lampeões da rua espaçadamente ponteavam de luz as sombras da noite diaphana.. Deixei-me ficar deitado. que começou a contar-lhe a sua visita á velha cidade mineira.38 CHANAAN >J — Como ? interrogou curioso Lentz. E sonhava . embalado pelas caricías do somno. todo á escuta da narração de Milkau.

egrejas freqüentadas quasi todas as horas do dia. O espirito da religião alli localisado dava-lhe o caracter e a significação. As casas acompanhavam esse tom severo e desprentencioso e eram mar-f . Uma cruz negra envolta nas do/ « . ás noites. E eu sonhava.. N'esse tempo. que elle definia como um santuário.\ dotal.. tristes.. Na quaresma a irrupção religiosa era ainda mais crescente. irregular e feio. homens e coisas*. mosteiros.. a natureza «/***" despertada pela alegria dos sinos se volatilisava e líbrava^è leve no ar. se deparava de instante em instante com uma egreja. voava para os céos cantando. todas ÇUAS/ singelas... todos ligados pelas vozes do campanário. A^»^*y Milkau continuava a falar da velha cidade mineira. um padre sahia á rua acompanhado da multidão cantando rezas.CHANAAN 39 o ar leve da montanha fluctuava como si todo _ elle estivesse impregnado de musica. ouvindo repicar. Tudo alli tinha um aspecto sacer. castellos feudaes. A edade média se representava no meu sonho : povoados. tudo falava de religião.. faAa^ por pequenas cruzes negras nas paredes A desbotadas. o somno e o esquecimento. a cidade fugia da terra ff-&carregada nas harmonias./ sas preoccupando o povo e divertindo-o durante / o anno inteiro../ _ / erguidas mais pela necessidade da devoção que pelos carinhos da arte. as festas religio. . Dentro do seu recinto montanhoso. devotas procurando a solidão dos altares. i que marcavfi no espaço a vida e a morte. procurando a calma.

. na mais completa e bella confusão de classes. esse cordão negro succedia cruzar com o bando infantil e branco das collegiaes dirigidas por irmãs de caridade. E lá ia a via sacra percorrendo os passos da cidade. até se sumirem no horizonte. sobre os quaes iam descrevendo longas e marciaes theorias. Nas tardes deverão. .fâjfyftdo ^f?00W> peito um grande. o povo seguia rezando pela rua em um murmúrio $/è.. fervoroso grito. ás vezes. implorava n u m sorriso : misericórdia! Cercada de morros a cidade era guardada ainda por egrejas postadas nas alturas.. oratórios abertos sobre as ruas. Pelas encostas das montanhas subiam os devotos em romarias piedosas aos santos padroeiros das capellinhas humildes. e quando chegava aos passos. meia dúzia de tochas accesas. fazendo coro ás orações começadas pelo padre. N'uma devoção alegre e radiante. E si á hora dsfavemariaíum devoto retardatario passando por aquellas montanhas saudava os seminaristas em nome de Christo. como de atalaia.40 //JofZZ y*ÁrV </al /•> l"^ /a4 ' /// CHANAAN bras alvas do sudario. ajoelhada debaixo-do céo límpido. cantava musicas suaves e ingênuas. subindo e descendo pelos morros. n'um relâmpago se descobriam. (MilkaÍT recordava) costumava desfilar um cortejo de seminaristas em férias e. acariciada pela brisa fresca das alturas. illuminada pelos raios da" lua.. A multidão. os rapazes erguiam a cabeça com altivez para o céo. os dois grupos não se approximavam/^desviavaniyreverentes. e era tudo.

a poesia da liberdade e da grandeza de todo o paiz. porque não muito longe esse conjuncto de poesia. O homem moderno. sulcos abertos e profundos indicavam a passagem ' jL do homem terrível que por alli desentranhou o ouro. de ouro e de sangue. vae aca- . de tradição nacional... não deixará de sentir um frêmito de terror. reconstruindo no espectaculo d'aquella paragem morta todo o quadro de uma epocha feita de escravidão. Â""^^agem_gstá toda /Usignalada éúad. nellas viveram sonhadores. t por ellas passaram martyres.CHANAAN U que a solidão da tarde'no deserto tornava solemnc : Para sempre seja louvado ! A cidade ainda falava a outras tradições do a£Lvelho Brasil.. e povoadas dos restos de outr'ora. e os habitantes do logar ainda sabem ler nas paredes d'essas casas conservadas. Ha casas . f/'v /JA./-£y tjj&s) cicatrizegfdli^erra ferida que assim maltratada e ' hedionda clama ás gerações de hoje contra a devastação do passado.. E essa mistura de fé religiosa e patriótica dá um caracter distincto áquella antiga cidade. — Dou-me por muito feliz em ter ido a tempo de vêr tudo isto. Rematou Milkau esse quadro com algumas reflexões.alli que deviam ser zeladas como relíquias das melhores paginas da historia de uma nação. limpo de coração.. Sobre o fjxí terreno accidentado. purificando-a momentaneamente dos vícios em que se vão dissolvendo as outras.

estdj£eáz. a cobriremos com os nossos corpos brancos e a engrandeceremos para a eternidade. E por ora nós somos apenas um dissolvente i_ / da raça d. nós nos mistu- 7 ^ísXl^f-/ . E uma nova conquista. de energia que em si contem do que os logares mortos de um paiz que se vae extinguir. a religião e as tradições de um povo.. tenaz. os meus olhos se projectam para o futuro. lenta. disse Milkau. mas terrível em seus projectos de ambição. E provável que o nosso destino seja transformar de baixo acima este paiz. pacifica em seus meios. é com dòd que sinto estar prestes o desmoronamento d'ax[uella cidade circumdada ^iá*w4zL de colônias extrangeiras. está escripta a nossa grande responsabilidade. que a&ijrffáfyá lentamente até um dia vencel-a e transformal-a sem piedade. nos espalharemos sobre ella. —I Mas isto é a lei da vida e o destino fatal d'esse paiz.. Falando-lhe com a maior franqueza. Nós penetramos na arga-massa / da nação e aVamos amollecendo. Porto do Cachoeira tem mais significação moral hoje pela força de vida.12 CHANAAN xJAJfaAA^f/J bar. É preciso que a substituição seja tão pura e tão luminosa que sobre ella não caia a amargura e a maldição das destruições.. Na verdade. a civilisação d'esta-terra está na immigração i <j de europeus/mas é preciso que cada um de nós traga a vontade de governar e dirigir. — Nas suas palavras mesmas. de substituir por outra civilisação toda a cultura. A velha cidade mineira da sua narração não me interessa. Nós renovaremos a nação.

indivíduos... / ses differentes.. a lingua vae morrer.. as línguas estão baralhadas.. Ha uma tragédia na alma do brasileiro. uma civilisação cáe e se transforma no desconhecido. quando elle sente que não se desdobrará mais até ao infinito.CHANAAN 43 ramos a este povo. o pae não transmittirá mais ao filho a sua imagem.. os velhos sonhos da raça... Ninguém mais se entende .. matamos as suas tradições e espalhamos a confusão. O remodelamento vae sendo demorado.->.... os longínquos e fundos desejos da personalidade emmudeceram. .. os homens e as mulheres não se amam com as mesmas palavras. vindos de toda a parte trazem na alma a sombra de deu. o futuro não entenderá o passado. os pensamentos não se communicam. Tudo se desagrega.. todos são extranhos..... E a tradição se rompeu. Toda a lei da creação é crear á própria semelhança.

fechando os olhos feridos pela luz grandiosa do dia. Milkau e Lentz. murmurava então Milkau. sentia dentro das palpebras. na câmara rubra das pupillas. fuzilar relâmpagos de sol. . — Quem me dera. n'uma paizagem accidentada e limpa. E.k II — Não vejo nada claro. E os dois caminhavam afastando-se do Porto do Cachoeira na direcção de Santa Thereza. <$> penetrarem na escuridão repentina e fria. d'ahi a momento^ fflkL morria na bocca da matta. A principio a estrada cortava por cima de pequenos morros descobertos. Pouco a pouco elles se recompuzeram. A pátria do homem devia limitar-se a um canto da terra onde não houvesse sombra. sentiram pelos olhos o véo de uma ligeira vertigem... disse Lentz. onde. passeavam errantes as sombras das nuvens . e então admiraram. que o sol se não apagasse.

procurando emparelhará^ com as eguaes e desenhar a linha de uma ordem ideal. \ chão a farta e sombria §oma. Arvores de todos os tamanhos e de todas as feições. as -parasitas se enrascam pelos velhos troncos. l1tny\ traçando um raio de sombra para acampar um iJí. Não se sente n'ella sombra de um sacrifício que seria o triumpho e o prêmio da morte. interrompendo a symetria. umasL^. compacta e atrevida. que a rija e bella progenitora. estas de tronco pejado que cinco homens unidos não abarcariam. e mettendo «•«J^4"^. dentro do bojo de outra mais ampla e opulenta. ífííé de membros asperrimos. entre ellas se curvam e derream até ao 0/.011 AN A AN • 45 A floresta tropical é o esplendor da força na desordem. que lhe sáe do regaço e mais esplendorosa. que é a copa de todas as outras. aquellas tão leves e esguias erguendo-se para espiar o céo. Toda aquella vasta flora traduz a . enorme. força para a expansão da maior belleza O * / de cada uma.a cabeça por cima do immenso chão verde e tre^ } " i ' mulo.^ a rnesmo arvores que são mães de. compondo um conjuncto brutal. quando outras lhes saem ao encontro. *" antigüidade e a vida. é uma florasinha miúda. Uma infinita variedade de arbustos cresce ás plantas dos gigantes verdes. ] . y . E tudo se ergue. ás vezes. Arvores. umas erectas. Dentro. *y I arvores e supportam com fácil e poderosa galhardia a filha. Ha seiva Vlfrff P a r a tudo. e tudo se expande sobre a terra. com a graça de um adorno e de um Jjh£$l ^ fà$$$. f^uesquadrão. arvores que se alteam.

Feito 0* l á^trxj^^ . as portas da matta formam um circulo longínquo azulado.. da resina que se derrama vagaJ-O / rosa jíek/longo das-arvores. tal como o aroma das cathedraes. como portas feitas só de luz. enroscando-se pelos braços gigantescos.° s i l e ncio que mora na floresta é tão . mas a gradação da sombra... Elias são em si vivas e quentes. tão sereno que parece eterno. pela transparência das folhas. ****. y fortes e indomáveis raizes. prendendo-se como por tenazes n'uma grande solidariedade orgânica e viva.niosa d'esse perfume. que ora avança.r&nita. aZá/que se volatilisa e se diffunde no immenso todo. está a fonte do jfepejW ^ . todo elle se entrelaça.b r i a g a e adormece fa fMfft..(iíC. dos pássaros. dos animaes occultos no segredo da selva.. das folhas novas e das folhas mortas. JQaesr •me*/ commumca/da negrura do verde ao desmaio do / branco a matização completa. em cada bocca da estrada. com '&•*«*-Ka claridade que é branda. triumphal. dos insectos. De todo o corpo colossal. desce uma claridade //{ do<*<discreta. e. Pelasfrestas das arvores. se desfyjfrffá um cheiro mysterioso e singular. emjl/Ú <4. das flores selvagens. dos troncos verdes e dos troncos carunchosos.. das orchideas. das parasitas. profundo. acalma.46 CHANAAN 'entretecido no alto pela <éfêè$&fâf basta e densa Co**** das arvores e embaixo pela rede /&$$$(# das v'' . Na volúpia harmoL... e de uma luz zodiacal e 0é?fâffi\.. e nessa fòtât illuminação se desenrola ' dentro do matto o scenario pomposo das cores.r £ d a m a t t a . E lá. ora se afasta. que é acre e tonteante. .

A floresta européa 4~/fér. / -«***<* f^jT"" A floresta no Brasil. dos movimentos l^tr f*M+ó rythmicos dos vegetaes.j ^ / ^ vozes baixas. sentindo no corpo o frioelectrico e instantâneo do pavor. — Extraordinário ! disse Lentz. e os viajantes que caminham. Milkau replicou : — A sensação que aqui recebemos é muito differente da que nos deixa.. voltam-se inquietos. transforma-se infique ^ f o r * * — Mas/dfâf espectaculo de uma grandejn brasileira 4 TOnmhrnlifti nWTTÉl interrogou Lentz yV . Nós nos dissolvemos na ^ /. é completo e absoluto na sua perfeita harmonia. çfá$ contemplação. é sombria e trágica.7 / ' CHANAAN *~f~j>~ tZr*»~ 4 7 ^ . mirando r/atf/ o alto e Mf^. pelo? nervos de todo o matto perpassa um arrepio... a paizagem européa.. Ella tem ^ ^ . cheios da solidão augusta. conti-jf . então o jeiro farfalhar d'ellas corta a doce combinação do yfilenfiou. aquelle que se perde na / <>' adoração é o escravo de uma hypnose : a personar ^Lton-lidade $fó<0$ para se difFundir na alma do Todo.. Si por entre as folhas seccas imontoadas no solo se escapa um réptil.tory nuou : <fr — Aqui o espirito é esmagado pela estupenda magestade da natureza. afinal.. e m si o tédio das coisas eternas.. E. sahindo do seu espanto.é mais diaphana e passageira. dos murmúrios. /i E. a frente. ha no ar uma deslocação fugaz como um relâmpago.

porém. os olhos de ambos a se desmancharem de admiração.CIIAN \ A N . Passado algum tempo.'/ / rancia.. como o homem vae triumphando. Lentz exprimiu alto o que ia pensando : — Não é possível haver civilisação neste paiz.. tu sabes bem como se tem vencido aqui a natureza. ! t / £/ A terra só por si. Vê. esta abundância. esta luz. mas que são como esses desenhos de nuvens que alli / ( h^c^^tLA.. essa exube'(. com essa violência. e afinal nos constrange. fazem-se sobre isto jogos de palavras.. não comprehendemos o mysterio. Ninguém. \ f4-/$1*- Um dos erros dos interpretes da historia está n" Ctejuizc/ aristrocratico com que concebem a idéa Me raça. E mudos continuavam a caminhar pela estrada coberta. — Ora.j: região do assombro... interrompeu Milkau. a historia. J£ o/&. E1 a civilisação não se fará jamais nas raças inferiores.K. 0^M0á^'é ^ -i a tocarm s a ° ° ... — Mas o que se tem feito é quasi nada... O homem brasileiro nãò é um factor do progresso : é um hybrido. 'Zr^—^que succede com esta força. até hoje soube definir a raça e ainda menos como se distínguen^ umaSfiüas outras. é um embaraço immenso. tal espectaculo nos priva WÇy+rla^ da liberdade de ser. e ainda assim é o esforço do europeu.. Nós passamos por aqui em êxtase.ki-J . MILKAU.

. qual é a raça privilegiada ^kfijtyf/sò #•*• f~*£ ella fó/d o theatro e o agente da civilisação ? Houve 2 f \ . que está o repouso conservador.. depois. para que me volto ancioso e interrogante. O papel dos povos superiores é ds&^ instinetivo impulso de desdobramento da cultura.. á sua luz e calor. O tempo da África chegará. As raças civilisamse pela fusão.. transfundindo de corpo a corpo. o hindu nas margens sagradas do Ganges/ e elles eram a civilisação /< t o d a ! o resto do mundo dfy a nebulosa de que se '/ jjf~não cogitava. MILKAU. é a civilisação deslocando-se sem interrupção.. O que eu vejo n'este vasto panorama da historia. é junto ao Sena e ao _~ Tâmisa que a cultura se e^goLrlThoje n'uma volu... no emtanto. E. o milagre do rejuvenescimento da civilisação. Até agora não vejo probabilidade da raça negra attingir á civilisação dos brancos. é no encontro das raças adeantadas comas raças virgens. Uns se vão i\\uminando. n'uma fatal apresentação gradual de grandes trechos da terra. E. indo de grupo a grupo atravez de todas as raças./J /'' pia farta e alquebrada. Jamais a África.. apparições phantasticas do nada.CIIANAAN 4D vemos no alto. inVf+tU LENTZ.//àw ****Vas./frjírÍÁ0fg outros descem ás tre. £ um tempo na historia em que o semita brilhava -tf^s-Jo em Babylonia e no Egypto..o produeto d'essa o /-/* .. selvagens.

está na substituição de uma raça hybrida. N'esta grande massa da humanidade ha nações que chegam ao maior adeantamento. pela bestialidade e pelo servilismo innato do negro. a civilisação será sempre um mysterioso artificio. todos os minutos roto pelo sensualismo. Foi assim que a Gallia se tornou França e a Germania. Será sempre uma cultura inferior. LENTZ. A immigração não é simplesmente para o futuro da região do paiz um caso de simples esthetica.yX^ rv MILKAU. Eu tenho para mim > / ^ que o progresso se fará n ^ m a ^ ^ ^ ã o constante / / e indefinida.50 CHANAAN fusão que. é antes de tudo uma questão complexa. Allemanha. Emquanto não se eliminar a raça que é o producto de tal fusão. Não acredito que da fusão com espécies radiÀ//>r*e*'u*' calmente incapazes /$. por europeus. r s? ^j^-ir A substituição de uma raça não é remédio ao vfêfZy* mal de qualquer civilisação. depois definham e morrem. leva mais longe o capital accumulado nas infinitas gerações. como a dos mulatos. civilisação de mulatos. O problema social para o progresso de uma yi região/como o Brasil.($(£ uma raça sobre que se possa desenvolver a civilisação. que interessa o futuro humano. passada a treva da gestação. etefnos escravos em revoltas e quedas. outras que apenas . .

das nações. Quando não ha um trabalho á flor das coisas. e pela fusão um povo ahi se iVrina recapitulando O a civilisação desde o seu porito inicial e preparando-se para levar o progresso mais longe que os povos geradores... ha uma elaboração subterrânea. ' e os seus eclipses. formado dos povos. E a fatalidade do Universo que se cumpre n'esse todo que é uma parte d'elle. das raças.. Si a verdade estivesse na conclusío contraria. <ksdnão <M-J pára em sua marcha..CHANAAN 51 esboçam um principio de cultura para desaparecerem immediatamente. Como ? Então o contacto dos povos da arte com os selvagens determina um precipitado que excede áquelles na capacidade esthetica ? MILKAU. pôde diminuir ou augmentar em alguma das suas expressões. As vezes. Lentz. tenebrosa e forte. caminha progredindo/sempre. luminoso e doce. LENTZ. mas o conjuncto humano. os seus desmaios não são mais que períodos de transformações para epochas fecundas e melhores. o* progresso artístico não deixa de ser maior. A arte. segundo varias solicitações do meio e da epocha. então a humanidade teria retrocedido depois do período do grego. mas pelo facto de não florescer certa fôrma de Arte. e da renas- . é n u m ponto isolado da superfice que se dá a opacidade das trevas..

e que/elle próprio i uma floração da força e da bellezá. MILKAU. cada dia ella subjugará o escravo. Essa civilisação. LENTZ. / 3 / Não. de toda a liberdade e da própria vida. que é o sonho da democracia. aquelle que faz tremer o solo. porque até agora a historia não conta epochas tão felizes para a Esculptura e para a Pintura. . Mas toda a questão está na comprehensão do progresso moral. LENTZ.CIIANAAN cença. Quando a humanidade partiu do silencio das florestas para o tumulto das cidades. que se entrega a uma livre expansão dos seus desejos. aquelle que na opulencia de uma poesia mágica cria para si um mundo e o gosa. diminuídas as causas de separação. No principio era a força. veid descrevendo uma longa parábola da maior escravidão á maior liberdade. esse ét homem e senhor. é uma triste negação de toda a arte. a força é eterna e não desapparecerá. Todo o alvo humano é o augmento da solidariedade. no fim será o amor. 11 . é a ligação do homem ao homem. da fraternidade. e aquelle que um dia attinge a consciência de sua personalidade. O fim de toda a sua vida não é a ligação vulgar e mesquinha entre os . O homem deve ser forte e querer viver. Milkau.

Que importar/í a solidariedade e o. A ordem não é / / ^ M S £ £ ~ tíjjt um principio moral. 1/} I"^ / MILKAU. esta é o verdadeiro apoio. a busca e a realisação da liberdade como fun. Oh! mas essa dôr deita gottas de amargura sobre a victoria. o estimulo. o que é omnipotente. o verdadeiro homem é o que se libertou de todo o soffrimento... A liberdade é como a própria vida. Mas para ahi chegar.. como pastor. o que é soberano. o rebanho.CHANAAN 53 homens. mesmo n um regimen de escravos e de senhores. e sem a liberdade não ha ordem possível .. tfftfljW cujos nervos não se contraem nap agonia/ o que é sereno $j' e não soffre. amor?Viver a vida na egualdade é apodrecer n'um charco."7 damento da solidariedade são o fim de toda a existência'.. para conduzir como chefe. nasce e cresce na dôr. LENTZ. as nobres. ' o que tem sua integridade completa e fulgurante. é apenas um factor preexis. que caminho não percorreu o homem!. o que elle busca no mundo é realisar as expressões. mas será instável. a harmonia existirá por momentos.<****~ É /> 1 -*" " * tente e indispensável ao conceito social. indomáveis energias. como calculo sem números . as inspirações da Arte. Xão. Toda a marcha humana é uma aspiração da liberdade.... os sonhos e as visões' do poeta. /u/ / . /• ^*»'« d" diiifí mmt de uma sociedade. não pôde haver sociedade sem ordem.

o próprio solo é vacillante e tremulo. ninguém está satisfeito por estes tempos.entristecer— MILKAU. purificar-nos do seu veneno. e nem senhores. Eu vejo na exaltação das tuas palavras que ha em nós uma tristeza diversa deante do quadro da vida dos homens.. e não se pôde substituir a sua consciência fecunda pelo império de uma insensibilidade feroz. nem cultivados. //?' ^*^*St7 w il sJ 1 IA li I '""^Tzffipfmrfflffl'1 P e n s o 1 u e devemos voltar atraz. de soffredores. nem ricos. MILKAU. LENTZ. o mundo está abalado. Ha uma crise em tudo. nem escravos. nem pobres. de satisfação. essa gotta de agonia é bastante para condemnar todo o fundamento da communhão.Omal é universal. mas sempre tristeza e deses pero. da religião e da arte.. E quando n'uma sociedade o indivíduo soffre. No meio de confusas . nem simples têm o seu quinhão de alegria. O que nos une solidariamente na humanidade é o sofTrimento. porque o amor é um desdobramento doloroso da personalidade. Elle é a fonte do amor. como queriam. apagar até aos últimos traços as manchas d'esta civilisação de humildes. a atmosphera é irrespirável. que nos mata depois de rios. de doentes. todos se lamentam.CHANAAN o que não ama.

ella é do tempo e..# **$%. Mas eu não esperei o seu passo vacillante e tardo : despi a minha roupagem pesada. elle . vagaroso e divino. mensa... uma civilisação superior? MILKAU. E o futuro. n'este contacto extranho de sentimentos tão vários. póde-se acaso JnMdlar a harmonia soce. fá mistura e il repelle f'J/ n u m torvelinho de desespero. vem avançando a medo ' como um ladrão nocturno. família.. A sombra do passado penetra demasiado na morada do homem moderno e enche-lhe a casa de espectros e visões.H gada e doce da vida ? A religião foi-se.. e á Allemanha nada mais te prende ? ../tr-^~ geiro do gesto consolador. uma vez perdida. ytffâtfyjlL-dindo aos homens. Deixei o que era vão.. que o detêm eé perturbam. e lépido então fui buscar o perfume e os alimentos que.CHANAAN 55 aspirações. .+ homem. como o próprio tempo. não volta mais. sociedade. E como dentro em mim ar&flr*^ é doce a salvação! LENTZ. Tudo se confunde. E para ahi chegares?.. Uma civilisação de guerreiros persiste no meio do surto da alma pacifica do . E á Europa. Deixaste pátria. LENTZ.

Meu pae.. e as imagens que d'elle conservo no fundo da minha pupilla são de um homem feito de sorrisos suaves e inextinguiveis. indeciso em sua vasta cultura escolar.. e eu não preciso/sentar-me sobre as ruinas para amal-o. Somente o que'ellas têm de grande no P a s sado. era a própria doçura. como fôrma da vida.5(i C MAN A AN MILKAU. dia e noite ligados. De que cidade da Allemanha és tu? MILKAU. como o corpo e a sombra. é apenas um prolongamento desharmonico das forças de hontem e das solicições do presente. Mas isto é o incorporeo. mas/como a maior parte d'elles... Sou de Heidelberg. Elle era um professor de collegio. Não comprehendo como por um acto de vontade se possa trocar Berlim pelo Cachoeira. é o invisível. um d'esses universitários muito instruídos. reside na dupla consciência da continuidade e da indefinidade do progresso. tinha uma intelliencia subtil e aérea.^0 Crfíeu culto ao que é humano é activo. Lentz. Vejo-me ao lado de meu pae. E' a obra da imaginação e da memória. e de lá guardo as minhas mais longínquas recordações. LENTZ. mas o pudor da audácia ff- . 0 que a Europa nos mostra.

E então?.. entre a . / ^ que lhe devia ser o amargor da vida. Ella foi mesquinha de dôr.. e eu amei-a até á sua morte como uma filha tamanhinha e mofina.. d'essa existência. > Mas em tudo isto havia uma infelicidade funda. Foi o perfume que guardou no « y / ^ i n t e r i o r dd j&üt alma sem transfundil-o além. MILKAU. Elle continha e refreiava a imaginação. e o mundo o ignorou. *W Depois de três annos. LENTZ. Minha mãe com lagrimas molhava noite e dia as saudades plantadas no seu coração. Oh! como elle mesmo creava barreiras ao seu espirito ! Os preconceitos chegavam-lhe ao appello da sua timidezlt í/}àf(é /illjftí > $f acariciava/como si fossem numes protéctores.... e por isso todo o seu grande capital de bondade e de amor ficou sepultado no fundo do seu coração. Ai sfuas ex-///<J* * pressões nunca transpiraram o sarigue de todo o seu amor humano. /-Jr LENTZ. e / /~ d'esse excesso de concentração^^hefveiiAi morte.CM ANA AN 57 o entorpecia. E n'esse tempo que edade tinhas ? MILKAU. Eu sahia da universidade e entrava no mundo quando meu pae morria.

todos os meus estudos. mas. Em vão? Não sei. como tudo/que nasce prematuro... Não. parti de Heidelberg com a alma cheia de um grande silencio.. O que ha em mim de sentimento religioso se desenvolveu então na adoração d'aquillo que eu buscava. essa paixão de infância foi meio doença. meio êxtase mystico. Comecei a ouvir os accentos da minha própria voz.. LENTZ. Longos tempos se passaram n'essa enganadora caça. E não te veiu ao encontro uma voz de mulher ? MILKAU. os meus sonhos de creança tiveram [Q. $$fi vertiam lagrimas e suavam sangue. Quando volto ao meu passado.. Como estremeço ao lembrar-me de tanta vida. de tanto amor consumido por uma sombra. os meus brincos. E no emtanto ella fugia de mim .a fôrma dos pequenos e intensos martyrios. bens e males da minha vida eu attribuia só a esta influencia poderosa e mortificadora. Aos dez annos o amor começou em mim. E nunca amaste a mulher? MILKAU. é ainda esse trecho do caminho da vida que mais me deleita : .58 CHANAAN recordação e a piedade. LENTZ.

porém. de uns e .. as pragas. que fffÜi das terras altas em direcção " .*»*— cas de café e os olrTávarrT~tom os seus olhos de besta. immensos... cy^s ^JT de animaes.. a mula da frente marchava ///aUJ*Ã'lu' enfeitada de fitas de côr. redobrando a amplidão das vozes sonoras no silencio da matta. e então eu ascendi. ^ v^** ao Porto do Cachoeira. / E Milkau foi interrompido pelo repique de campainhas que descia pela estrada. A morte d'ella veiu habitar d minha existência. v a brandura... Qs^d^is--aiiTrgrj5~~r»e-*afni«4^i^ Ai <*uma tropa. pãor me viesse possuir para sempre. e não me consolei longo tempo. os gritos. Os tropeiros em sua maioria eram mais brancos que mulatos. as ordens." Varrida asshxi-QS-jTiimaes. Pouco a pouco estes sons perdiam a doçura melancólica e se confundiam com gritos humanos e tropel. procurando o trilho habitual. \|hesy(roçavam)ao corpo as brua. apoiando-se nas arvores. tristes einsondaveis. o único.. ascendi. a caricia que resfria e que funde.CHANAAN 59 sinto quanto elle é embalsamado pelo amor que ahi passou. Milkau e o companheiro ap» encostaram-*]*** a beira da estrada. até que outro amor. e esse o grande. como esse perfume que foi a minha purificação da adolescência vem até a mim. E a grande ventura (quem sabe?) foi que sobre essa montanha de fogo formada em minha alma jamais desceu o sorriso. que lhe embaraçavam os meneios da cabeça. Aos vinte annos estava tudo acabado..

' LENTZ. já pela solidão das montanhas de neve. E nós fomos assim pelo caminho sumptuoso da minha phantasia. A tropa passou caminho abaixo. Os dois amigos caminharam algum tempo calados.J tação. com excii. como respondendo a uma interrogação escripta nos olhos de Milkau).. ao dialogo1 perpetuo dos themas eternos. Questão de amor.pelo imprevisto. já pelos lagos verdes que refrescam as terras. que humilde ama o soberbo.. bel/" Na verdade. na carne e depois d'isto eu a julgava recompensada e feliz. a2^twi alli na sombra e-humidade das arvores não se extingue nunca. já pela cidades traficantes e vis. Atraz d'e11a ficara um odor acre de café verde... ha muito pouco tempo i^t não pov deria imaginar-me aqui n'esta floresta.. levando ^ * ^ > X c o m s i g o o seu toiJOfe barulho que quebrava além o somno das coinrw. Nós somos governados na vida..60 CHANAAN outros eram mfos espontaneamente na lingua de' cada um. Amei uma mulher. A historia é muito simples (disse Lentz. minha amada amou no sangue. ou antes questão de consciência. arrastando-a eu após mim. que fraca ama o forte. de poeira levantada e de lama revolvida. que pensei ser a creatura sublime. Minha amada conheceu as vibrações infinitas da yolupia. mas uma anciã de confissão e de abandono os estimulava n'aquelle mundo extranho. mas um . e elles/ladeados de arvores sem fim^ornavam com frenesi.

/ A***" rosa que. Então fugi.cH/ fesso (oh! vergonha!) não pude supportar essa ' pressão collectiva dos meus camaradas.. conjuncto de idéas ardegas e acceleradas. foi morto pelo antigo e implacável sentimento. E o que é peior.*»de mim com desdém. O pae de minha amada era um velho general companheiro de ar<\ mas do meu.f/v /// cia 9» entibiou-~o'que ha em mim de cobarde. d se libertar do grupo a //v****/ que pertence.pedia á minha família uma \\ *" reparação por aquillo que tinha sido o acto da independência da minha extrema sensibilidade. e eí$fes. no meu grupo social formou-se em torno de m i m uma atmosphera de reprovação : todos se julgavam limpos de consciência para áe afastar. a minha . nos escrúpulos e temores de minha mãe . o que ha em mim de acquisição intellectual.. Encontrou apoio nos preconceitos» christãos de meu pae. E iri-con./se emancipar d'essa tyrannia pode. deixando os meus estudos de universidade. de escravo.que me procurava dissolver ao bafo de sua ternura mórbida.lhe annulla a individualidade e lhe traça ' na physionomia as linhas de uma mascara commum e sem distincção própria.CHANAAN tíl dia «•revoltou<'e a alma da mulher do occidente. que a longa cobardia dos homens já fez eterna/ n'ella m despertourpara exigir de mim a minha escravidão. j Q ou dtíjl a classe. Milkau.. entorpeceu a energia de minha attitude. A minha arrogan. ou ffll a raça. Resisti. O homem levará ainda /. muito tempo. ou seja a família.. dos indivíduos da minha classe!.

. ou de um dia as transformar em um império branco. como tu. 4meu primeiro desejo foi sahir de Heidelberg e buscar a vida em outra parte.. era um verdadeiro domínio para o homem novo. que é o desejo e a razão do meu sangue. civilisação. 0 que (H lU ^ b u s c a v a em troca de tudo o que deixei. Depois da morte de minha mãe. Berlim me attrahia / julguei a)fy encontrar uma solução á minha existência. MILKAU O que cada um de nós procura-é. a minha fortuna. ainda virgem e intemerato do contacto lascivo e deprimente d'essa moral christã.62 CHANAAN posição. porque não actuei sobre elle. com elles e sob o influxo drelles. ^ M J ^ Z / para JqncWc q u / saltando por cima dos secu* ' / los da humildade. O mar foi para mim a primeira grande sensação da liberdade . A minha trajectoria vem de epocha mais remota. sociedade. Também. quer dar a mão aos antigos e..tão diverso.. em troca de bens maiores. Viajei longamente até agora... de bens eternos... e vivi intensamente o goso do pensamento puro. a minha família. mas não vivi o mar. sobre elle sonhei. O que mais me ator- . E parti então para a virgindade d'estas selvas. então vaga e sem objectivo. deixei terra natal. era um / fl mundo maior. renovar a civilisação e produzir um mundo que seja o reino da força radiante e da belleza triumphal. com o ímpeto def n'cllas'viver/solitario/na exaltação do meu ideal. e a vida é a acção.

a minha melancolia acabrunhadora. Â minha existência $fl /Ç^fr* vagar com os companheiros fortuitos.•>T minhadas pelas ruas. Mas as minhas scismas eram as mesmas. de calma. de sonho que sempre me fugiam : a minha tortura era infinita. e eu sempre me prendia ao passado do meu coração. y^(mey^entiíQcrescer dentro de mim yy*~~~'J mesmo.. a minha doença moral me parecia irremediável.CHANAAN l« mentava. e a consolação '/ não me podia vir do nada. invocando as três imagens dos que amei e cujos retratos povoavam o meu quarto. minha mãe. n u m a aspiração indefinivel de amor. N'esta epocha a minha não conjEojmiaÇão ao mundo era cada vez maior . quando tudo me era indeciso e intangível. e ellas as minhas saudades... sem interesse na \ida. Minha amada. Custava-me já resistir a tanto. eternas ca. *f7 a sociedade não me preoccupava. Vivia vacillante e fugitivo. buscando no exterior a calma para o espirito. meu pae. era a consciência de que começava a f/flg^ viver por viver... o que •foL&i^ amo hoje não me tinha chegado.. . pelos bosques calados. o infinito para mim não existia. a mim. a minha duvida tinha espaços tão illimitados que meu espirito oscillava e se perdia no mundo . Vivia naydesillusão.. fiosse m a * apoio.AÍiifado de V qualquer crença religiosa. e pelos parques da cidade... eram passeios intermináveis. torturado de um desejo de realidades. sem saber (/( &r»/ aonde os meus passos iriam findar. o que eu amara tinha desapparecido. sem uma idéa moral que . Nada havia que me jfrfffl/fáfflg /^oi^h^ay á vida.

e a Dôr pela sua mão forte e santa me conduziu aos outros homens. Olhei todas as vias que se podiam abrir deante de mim... a que em minha insania eu chamava o acto da vontade. só tinha inclinação para os que se assemelhavam a mim.. Não se trata de libertar um só dos martyres..(Si CHANAAN das idéasedas emoções. é porque a vida é mais desejável do que a morte. pela morte. e não é o suicídio uma salvação que deve ser collectiva... E então tive aquella anciã torturante de resolver de qualquer modo. minhas vacillações. Todos os soffrimentos extranhos se infiltravam em minha alma.. desalentado.. E o suicídio começou a ^ p no meu pensamento. é preciso que os se salvem ». No estado de espirito em que me achava. Reflecti : « si todos soffrem e se resignam. de terminar dj. isto é. sem ideal e saturada de sen- A f . Mas a comtemplação da miséria moral em torno de mim susteve aquillo. as lentas agonias e os duros sacrifícios alheios erairi o pasto da minha ^piedade.. Eu soffria. e. faltava-me agora o animo de falar de livros inspirados em uma arte vazia. Não me y '' \*cts restava agora para combater o desespero sinão )**" procurar na mesma -vida a razão que me curasse do mal da morte e fosse um desafogo aos meus novos sentimentos.. Comprehendi logo que não podia continuar na posição que tinha de critico litterario em um jornal de Berlim . procurei realisar a acção pela única fôrma que me parecia positiva na vida. $fytyl/#}flp o clarão bemíaze //// 'ov*Í ° ^ a solidariedade ani apontava.

A guerra é uma volta ao passado.. O mundo deve ser a morada deliciosa do guerreiro.. Não podia ir ás officinas. que envolvidos nos mysterios da imprensa exploram os outros homens. para quem não queria definhar na esterilidade e no egoísmo. Não tinha aonde ir. Porque ella é forte. para quem buscava o que é eterno. MILKAU... peis não era ' mais escolher entre a vida e a morte. .../n'esteem.• sação e di qu^To meu novo pensamento ainaa L? 2«* rrrais se afastava.. a do político e a do diplomata. não podia descobrir. a um ideal morto para a cívili. que eu queria e por toda a parte procurava.. E agora para onde ir ? perguntava ^-humilhado. fazendo parte do grupo de ignorantes e dogmáticos. Sim. é digna. eram vãs para quem não escutava a voz da commodidade ou da ambição.A ' baraço a minha crise prolongava-se.. Convenci-me ainda mais da falsa situação em que estava. ir á industria. e sim entre qualquer vida e uma vida. cuja credulidade voluntária é alli como em toda a parte a fôrma de sua cumplicidade na perpetuação do mal sobre a terra.CIIANAAN 155 sualidade. Que profissão «ç será a minha n'este quadro do mundo/A política ? / A diplomacia ? A guerra ? * ' ( LENTZ. a guerra. Essa uma vida que eu sonhava. Aquellas duas vidas. porque ahi não encontrava 4.

nha attenção ao mundo exterior era vaga e ialyj-cevta.. Os panoramas do céo passaram a interessar-me profundamente... ^jo só tinha os olhos voltados para o meu caso pessoal. ou em. Foi pela arte que comecei a amar a natureza.insondavel da figura h u m a n a . A Belleza entrava no meu espirito como "*** um doce sustento. E então puz-me a viajar longos dias pelas antigas paragens. e a industria nesta velha civilisação é um desfiladeiro apertado de combate no meio da sociedade que ella divide em senhores e escravos. pois até então a mi.66 CHANAAN ainda a atmosphera para a minha independência e o meu amor.„ bebendo-me na poesia infinita da côr. dias inteiros a admirar a limpidez da atmosphera.. / m e u espirito des/ cançava e se apoiava para a existência. para as minhas scismas longas e indefinidas. onde a arte busca ainda a sua fonte de mysterio e rejuvenescimento. A minha angustia continuava. ou agitando-me ao vivo movimento do gesto. Ou mirando a linha triumphal da estatuaria. tratava-se também de uma livre expansão da individualidade. Não se tratava só de trabalho. no enigma / y. e por entre esses tormentos a minha existência solitaria/ia/se passando na contemplação reconfortante da Arfê. a minha vista se //^-alongou pelo mundo afora e ÍJL vi o esplendor por n toda a parte... Xo momento em que tratei a arte. ricos e pobres. / / em que me possui da belleza. ou aquietando-me á serenidade da attitude repousada eternamente no mármore. outros / perder o^J S .

a extrahir das coisas a summa da belleza. ffflff °í//^ outro mar... e sobre ellas a Morte é uma gloria de ouro. farfalhante como areia. que é um traço de união entre as gentes. succedia-me passar longos tempos solitário nas florestas. . as quaes são abrigos para os homens. leve j******" /"!• como arminho..^ yj-^me parecia a felicidade pela hypnose com que r/u4/U<^^'JJt adormecia a minha consciência. nos lagos e nos campos.^s sado ou dos cuidados do futuro. onde se desenrola a vida. No outomno o sol abrasa as arvores amarellas. Ú rfieu f->~y*r deslumbramento pela natureza afastava-me de tudo' o que não fosse contemplação. inaccessivel. n'um êxtase de louco. Vivia mais das impressões da luz sobre o quadro.^.. No /y*6*'r tempo d'essa única preoccupaçao reinava em meu C£ /^/j espirito um esquecimento das desgraças do pas. mar que não espanta. como uma paizagem phantastica e morta.. que do mina e que é em si mesmo. que dos alimentos da terra. Vi o mar. outros a sonhar na immensidade das cúpulas azues límpidas e infinitas que são o espaço. dade..y^—. vadia. e de outras praias brancas.. o pequeno mar do sul da Europa unctuoso e doce. como a própria liber. Carregando por toda aparte a minha admiração. que estreita a terra cheia de anfractuosidades. pelos ares. e desce sobre a terra uma neve abundante. Assim vivi longo ^ T ^ Í(U\ <2~i~& .... immensas. No inverno os esqueletos das arvores cobrem-se de branco. tentador e indomável. mar amigo.CHANAAN 67 os olhos no crystallino do ar. o mar tenebroso que apavora. e esse olvido e^.

.. Ao estado de desvario artístico succedia em mim um desejo de mortificação e soffrimento. evaporar a minha animalidade e dissolvel-a na combustão de um sentimento activo e fecundo... d minha cobardia me atormentava infinitamente. havia outra existência. //' LENTZ. O meu isolamento era apenas intellectual. a vida solitária dos monges. f . Hoje.... ' mas os velhos monges tinham como sustento o / consolo da adoração. effão engolphado no meu culto. forte. j/J-iÁC Hf no estudo e na scisma. Depois dos primeiros moI Qj rnentos de prazer e tranquillidade. Viajava dentro do meu êxtase. y A pririncipio íí/(jrie/íi íludi \pensando que não C—-. em pleno domínio do sensualismo.CS CIIANAAN tempo. uma fôrma de desdém do < ' ^ 4 f e ^ m u n d o ' u m a e x P r e s s a o mesquinha de quem fyfyà doHseu logar na vida.. Concentrado n u m logarejo encravado no coração dos Alpes da Baviera.. tão nobre. e a solidão passou a ser um estado afflictivo. E a consolaçãoynão te vei u ? MILKAU. que era como um carro de ouro levado pelos cavallos ardegos da imaginação e transportado pelos caminhos deslumbrantes das regiões plácidas emysteriosas da belleza immortal. Resuscitar. tal foi a nova via por que caminhei. que atravessava 'extranho e silencioso o mundo. Lentz.

penso que é um sacrifício. montanhas de si/ Lui^flencio.. Paizagem solitária e morta. O que eu amava. affir W*ti "e^lencià^üde minha vida se espalhasse por toda a X4**^**** 0**r. Vj^iEYdas brancas e frias pedras verei mais descançar a /yr>* <££*•. ligar-me aos espíritos. e sobre *** ^"êlla os fragmentos da vida passando carregados ao ttJ*f A0VX0 do v ento gelado. .parte. O amor dentro de mim ^ í . O ascetismo é como uma ilha solitária que arde no meio do -. **.. mas ' ' ^ as Mtí labaredas afastam d'ella os homens. Qne/^mparavl) e um bem'estar infinito <*•-/ t&> nunca mais me deixou. penso sempre no deleite d'esse refugio. Aqui nos meus olhos ainda tenho guardado até hoje o ultimo espectaculo .9 quando penso no isolamento a que um homem se consagra... Então. mas também que é uma manifestação de estéril orgulho. marJlhk seus fogos deslumbrantes têm um phan. uma manhã desci das alturas.CHANAAN r.. de consolo e de immolação! Quando cheguei Jb^ahaxxo era outrjxjiornem. ///*^' E eu não podia me consumir n'essas chammas. Nunca mais tornarei á .. JrjfTpomo si fosse um fundo de mar setco.r das montanhas glaciaes. pois já trazia dentro de mim a porção de humanidade que me conduzia á vida. ^ / i / J g e l e i r a fumegante. nem sobre 9$/ffifâ$ de gelos tf 0* j . gerar o amor.' sorria. como * / L Í i | n a forca de bondade..// L tastico poder de illuminação sobre o mundo. era fazer ' ****£* amar.. Adeus. luz rosea do sol. penetrasse nas mínimas moléculas. dissol^írf-rfver-me no espaço universal e deixar qne/y^Btd..

massas informes se apresentavam como manchas de nebulosas cobrindo a terra . Mas quando o amor penetrou em ti. Não.. Ia terminar o drama intimo do meu espirito e concluir-se a passagem dolorosa de um estado de / . . MILKAU. á meu pen( samento se esclareceu. tudo representa a victoria e a expansão do guerreiro. No principio era o cháos... a tua figura de homem vae se apagando. é o crime. e eu verei o teu semblante um dia sem luz. Eu sou d'aquelles que foram por elle consolados. mirrado pasto da t r i s teza. o amor os reclamará á vida. pois crear homens é a sua obra. Tu eras grande quando a tua sombra sinistra de solitário passeava nos Alpes e amedrontava os ursos. Todo o goso humano tem o sabor do sangue. Jjf~ Reflectindo sobre a condição humana. sem força. e as personalidades surgiram.70 CHANAAN LENTZ.. ' pouco a pouco/d'esta confusão cósmica os homens se destacararr/. Um dia será a . sem vida. quando vi a marcha da humanidade partindo da escravidão inicial. Mas um dia chegará também para estes a hora da creação. moral hereditária para uma consciência pessoal. não ! A vida é a lucta. começaste a minguar. O principio do amor me sustenta e protege. emquanto os outros ainda jazem informes na matéria geradora.

a sua historia é a derrota de muitas espécies. é como uma umbella dourada no meio da nave verde da floresta. LENTZ.. Como é magnífica aquella arvore amarella! MILKAU. o sagrado páo d'arco dos gentios d'esta terra. A belleza é assassinaie por isso os homens a adoram mais. Vê como tudo te desmente. quanto não matou o bello ipê... a belleza de cada uma é o preço da morte de muitas coisas que desde o primeiro contacto da semente poderosa foram destruídas.. O ipê. Para chegar aquelle esplendor de côr. Cem combates travou cada arvore d'estas para chegar á sua esplendida florescência.. de luz...CHANAAN 71 subordinação de tudo a todos para maior liberdade de cada um. a victoriado forte. O ipê é uma gloria de luz. olhando a floresta. e o caminho da civilisação é também pelo sangue e pelo crime.' LENTZ. Para viver a vida é preciso / +* J / ' .. o sol queima-lhe as folhas e elle é o espelho do sol. Esta matta que atravessamos. O proceíso é o mesmo por toda a parte . da grande escravidão para a maior individualidade. é o fructodalucta. E' a parábola que descreve a vida. de expansão carnal.

quando . trouxeram elles sementes de algas e vegetaes primitivosyM^fJ^J^^jé» mineral da terra •Muito tempo passado. Tudo é subordinação e governo. astro. pássaro. terra.n'um systema de compensação. itffifô-fttfjf. sustentado em suas Ínfimas moléculas por uma cohesão de forças. a vida dos homens ftâftjp. o homem a mulher. o conjuncto de seres. A natureza inteira. MILKAU. que Ití& trama e o principio vital do mundo orgânico. (E apontando para a vegetação no alto de ama rocJia. Sol. planta.CHANAAN ' ir até ao ultimo gráo de energia. peixe. Aquelles que cruzam as armas. insecto. E' a lei do mundo. immenso todo. olhando a 77iatta. é preciso nâo/contrariail. cooperação jla vida sobre o planeta. O mundo é uma expressão da harmonia e do amor universal. Os grandes seres absorvem os pequenos. néra. uma reciproca e incessante permuta. de liga eterna. (euvejo' tudo como um só. de coisas e homens. E<tudo concorre para tudo. o mais forte attráe o mais fraco. as múltiplas e infinitas fôrmas da matéria no cosmos. a lei monarchica. O cume da montanha era uma lage estéril. o senhor arrasta o escravo. são os mortos. j sobre 01 não fructifi^cavam as sementes di arvores e aj(grandes plantas trazidas pelos pássaros e pelos ventos. emfim.a terra é como a d'aquellas plantas fdfàfklk pedra.) Na verdade. homem. Um dia.

em aromas. no corpo de suas filhas. para chegarmos á unidade.. que elle engrinalda como uma coroa de triumpho. Que os nossos mais entranhados instinctos da animalidade se *) / / -.. E preciso não perturbara harmonia dos movimentos e da espontaneidade de todos os seres. f/jffi0/ 7*' coacção moral concorrem as alavancas da sympaCf*^thia. é necessário renunciar a toda a auctoridade. A obra do passado é ainda veneravel. porque — é sobre ella que se fundará o futuro. Os seres são desèguaes. no alto da montanha núa. a toda a violência. KAnvà*/\ .CHANAAN 73 aqftellas sementes primeiro rejeitadas foram de novo para alli carregadas. O mal está na força. surgiu aquillo que nós admiramos: um jardim tropical expandindo-se em luz. mas façamos que este sangue seja cada dia mais amoroso e menos carniceiro. protegendo os prünitivos moradores da pedra/que então ousaram crescer. a todo o governo. espalhando pelo chão a sombra. da solidariedade infinita e intima. já encontraram a terra formada pelas algas e sobre . A vida humana deve ser também assim. mas. Deante da obra da civilisação o papel de cada um é egual ao do outro : a acção dos grandes e dos pequenos se confunde no resultado. a toda posse. Do muito amor. Não amaldiçoemos a civilisação que nos veiu no sangue antigo. cada um tem de contribuir côm uma porção de amor. A historia testemunha que a cultura não é JJ^ksomente a obra do crime e do sangue. entrelaçando-se nos troncos das arvores.ella medraram. emeôr.

.. da dedicação e do amor.74 CHANAAN transformem no vôo luminoso da piedade. que rubro rolava. ... 4Ç y£v*fe •jr-^~r j^ji^' Era finda a viagem. Os dois homens fitavam o sol. que se vinha apoderando docemente das coisas. Os dois homens fitavam a Morte. para debaixo das montanhas.

mo'itrnvfin/-se pelas portas abertas e cheias brancas . um parque ra rde assinalado de arvores salteadas. todas .r./ ./ L > i ternura. Em suspe círcurfiscrevendo a povoação. onde dormira/contemriaj^do a ^ vida plaxjdo a vn que se despertava em ^èrítz^ sahindo por sua vez do qíiarfo. como olhosyque^á^^íkssem." / porta da pequena estaSanta' Thereza. caradas neto uniforme era o de um pombal O seu < na altura silenciosa da montanha. iam juntos pela pequena povoação dddyd£&àa accovdada e radiante na sua ingênua simplicidade. /r de luz . á-~y quándoYLer t o m uma e x p r e s s ã o / ^ ^ ^ « ^ W ^ W jovial.s/r ' / VY . Assim escan. As p^j^éi/a^ c a ^ . . e por onde tóife^r^ <<«^U*4--»^-AíV»*t.//] <£&l * eguaes. Milkau alegrou-se vendo o seu companheiro de destino e <oJ(saudoi7|om um sorriso de K . . levemente expiado pela frescura e subtileza do ar.///*''(f~i '-as. Pouco depois. A enfileiravám-'em ordem.

em harmônicos movimentos peneiravam o milho para o fubá. e di mãos muito brancas e esguias batia sola. E todo esse / ruído era vivo e abgnetJado. swn o pequeno trabalho manual. j/or toda a pary o nual.• 'y<-$y76 / ' -.. humilde humi e doce. deante do quadro que lhes mostrava a população. Milkau e Lentz percorriam o logarejo. ^^lOT^^vP' " O S d e a 8 u a corrente. por uma consoladora esperança. que eram a alma da paizagem. um pequeno engenho para mover os grandes^folles de uma forja de ferreiro. outras. Os dois immigrantes sentiam-se transformados por uma paz intima. grito do vapor e apenas. um velho sapa//•^ teiro de longa barba. todo elle se entretecia sem violenciar^e mesmo o malhar do ferro não • W y W . como única machiníí. ^ aquella pouca gente se entretinha nos seus humildes officios. que a água de uma represa bsi. notando J//o+*i«**3*£ musica ifápfi e alegre fffári/$t/j$f$p vários ////AJO4 ruídos do trabalho. mulheres fiavam nos seus quartos. Emquanto por toda aÀaxXeJ^J na matta espessa/outros se batiam com a terra. cantarolando . Na sua officina.j I K T CHANAAN V. e/todas as artes alli JHB&SMMBÍ na singeleza do seu espontâneo e feliz inicio. I—J . Um alfaiate passava a ferro um panno grosso. Era um pequeno núcleo industrial da colônia. outras amassavam o trigo e preparavam o pão . Lentz achou-o veneravel como um santo. . Zllefr yiam todo o povo trabalhando ás portas e rio interior das casas com tranquillidade. faz'a rodar com estrepito^^noro.

que se não embrutecem no barulho das machinas.CIIANAAN t'. interrompendo o silencio em que iam. que se bastam a si mesmos. e o espectaculo de um trabalho livre e individual nos emb/ílft de prazer. n'aquelle rápido retrocesso aos começos do mundo.(O*™**' timos a um começo de civilisação. é um bello quadro esse que vemos. — Isto é uma gloria. Milkau também admirava. que fazem can' tando l&{ p ã o / iand vestes. que conservam toda a frescura da éid vyy alma. em que o mestre da banda de musica de Santa Thereza dava a lição matinal aos seus discípulos.. estes pobres que trabalham mediocremente com /**tf próprias mãos.. (mf&» Havia uma felicidade n'aquelle co^MÀdli de vida primitiva. são os creadores eTeL*?//* simples' natura(es. . 77 4 destoava do metallico clangor de uma Clarineta.<f$!fô. balho tinha o seu scenario jjif. mas como l//4&r®** enxergasse no louvor de Lentz o/espirito negativo LtAooC^ fftffli. disse elle. ^^fj estes homens que se não mancham nos fumos do '/ carvão./e a creação é n'ellesuma feliz / // satisfação do inconsciente. observou : //?/* — Realmente. Ao espirito desmedido e repentista de Lentz esse inesperado -encontro com o Passado parecia a revelação de um mysterio. Mas no fundo assis. é o homem que ainda não venceu grande parte das forças da natureza e está ao lado d'ella n'uma postura humilde e servil. orgulhoso de ser homem n'aquelle alto de montanha. onde o tra.

inabalável.^ « w . — Para mim ha uma illusão n'esse sentimento romântico. tenho como sagrada toda essa gente. massa da civilisação retroceda a esse antigo período */// Jk> da industria. ^ ^ . Dirigiram os passos para os caminhos que . e é preciso consideral-a pelo seu prisma luminoso como uma aurora. Ao menos estes aqui. A poesia quetâMfjfâfâ è o perfume 0** mysterioso do passado. Nós não podemos fazer que a . e*^) emquanto passeiava ao lado de Milkau. para o qual nos votamos J/irtY atemorisados. famintos e pavorosos. sentindo uma entranhada difficuldade em abandonar aquelle logar.. rando governar o mundo. readquiriu a sua intelligencia. — ^ u ^ f v ^ Zfifyfrfj repetia Lentz. /gral da industria.M^ -^Mrí*m. hojèyque tfrjtfyfâ/tffa a transfor-/^ / mou em um instrumemo de movimentos próprios.^ ^ s e libertou. . _W. dirigindo o machinismo engrandecido quasi á altura de um operário. especialisando e eliminando os homens. servo da machina. Sim. ///fâ&iWfii fflfjbfi de todo o peccado de orgulho. cheios de ambições. Passaram ainda algum tempo.Qhea^iroipa percepção inte. mas ha também uma poesia mais forte e mais seductora na vida industrial de hoje.78 CHANAAN — Mas quem pôde negar que o homem. a machina. se vae afund/ndo n'um embruteci/ • mento peior que o do selvagem? replicou Lentz. procu.. merecem ma\sj£ meu amor que essa infinidade de proletários. são bons ' e ingênuos e supportam o seu jugo com um sorriso.

/* como quem parte para o desconhecido. Uma filha da hoteleira (ós/Qevouyaté á bocca do caminho do Timbuhy JSÍkfr/jtom mil perguntasJ d*tíVàfdlbtfJtffiL uns instantes.T^arou*». Elles admirarão^ dCsea^gesto. o **--/ lhoh üdL éed. valles/ / • / • ' florestas. que os retinham alguns minutos no povoado. A joven estendeu o braço longo indicandolhés o caminho. Dentro tftíjk se abrigava a multidão de bar. Mas afinal tiveram de se a r r a n c a r . e partiram como n'um sonho. ribeiros e cascatas. Milkau e Lentz PÍU sna majch^ passaram jfa V v .f//*~ / baros e de extranhos alli recebidos com brandura / e carinho.^ desandado repouso. va-J?/ V6~/d TiaÂJ / r a s e u / aspectos!'cheio de montes.0 leira. sorriam ás creanças. deixando-se ir na inconsciencia d'esses actos espontâneos. Lentz via na rapariga uma divindade ex. paravam á porta das casas. Procuravam as pequenas elevações.CHANAAN 70 abeiravam Santa Thereza.<*. tranha n'aquella floresta verde. mas uma divin. agradados do seu rdsto delicado. miravam attentos o serviço que n'ellas se fazia. A estrada \ por cima dos morros descampados ora descia. ar. //# [/ '/A principio iam meio apprehensivos e calados. da sua forte e fulva cabel.ML{ leira. O panorama largo/ousado^^-fecundo. e perseguindo comjUusJ olhos de admiração as saudáveis raparigas.graça. Era um trecho de / uma região poderosa e opulenta da terra brasi. a sLd. giravam abaixo e acima pelo parque. iwenrubesciam/E em tudo isso se recreiavam mansamente. ora subia.<*/ dade meiga como eram os habitantes de Santa Thereza.

se precipitam sobre ellá como lagrimas de uma alegria divina. E as casinhas se succediam por todo o valle. as estrellas. as quaes êkJ i viam pela primeira vez. as flores a perfumam com aroma extranho. vestida de sol. ventos suaves lhe penteam e frisam os cabellos verdes. Havia fumo em todas as chaminés. os pássaros a celebram. que era amimada pelas coisas : sobre o seu collo águas dos rios fazem voltas e outra^hejtgnlaçanj)* cintura desejada. abrigadas ' f u r n a s no fdfâfi seio dos morros. animaes e creanças debaixo das arvores. o longo mar. /'/h 7 duradas na encosta d ^ ^ . E os dois immigrantes. ' ' H/ . coberta com o manto do voluptuoso e infinito azul..80 CHANAAN fo/l ///// J/ pelas casas de colonos agricultores. e. de tranquillidade. todas com disposição ' e graça uniformes. a r puzerarrr^a louvar a Terra de Chanaan. mulheres em suas occupações domesticas. outras depenf. com a espuma dos seus beijos tbJ afag/eternamente o corpo. unidos emfim n u m a mesma communhão de esperança e admiração. no silencio dos caminhos. ///*L punham-se a mirar de fora esses retiros encantados de verdura. sem íi^f^ penetrarem. homens mettidos na sombra fresca dos cafesaes que rodeavam as habitações.e abundância.. o mar. / Ou~£du^t Elles disseram que «lia era formosa com os seus trajes magníficos. n'uma vertigem de admiração.

amorosa. não deixam as suas vestes protectoras e a recompensam com o gesto perpetuamente infantil e carinhoso. Elles disseram que ella era generosa. porque no seu bojo phantastico guarda a riqueza innumeravel.-. '//ê/ /' Elles disseram que ella.. e/aj. não / perturba^f/í j ^ f ambição $ l ritffd orgulho . porque fó seus rebanhos fartam d$ suas nações e o fructo dfó suas arvores consola o amargor da existencia. não têm dono .. e(jhe/^ãrítai^ hymnos +».CIIANAAN 81 Elles disseram que ella era opulenta. tribue fó seus dons preciosos fâtffyty d'elles têm V/X. porque era a mãe abastada. o $já seio^C < f / ^ . ytó seus olhos suaves e divinos não /i"v*~ distinguem as separações miseráveis. desejo.. o ouro puro e a pedra illuminada. que a não engeitam por outra. para o orvalho da noite /jr JtLti fria tem o calor da pelle aquecida. j .. enfraquece o sol com as suas sombras. porque um só grão ds^ suas areias fecundas fertilisaria o mundo inteiro e apagaria para sempre a miséria e a fome entre os homens. homens J p ^ * * Êfl/Lptfttffftfí/fytyl tão meiga e consoladora. o ^-//fÉwy^ quecimento instantâneo da agonia eterna. sahidos de um peito alegre. O h ! poderosa!. a casa de ouro. " ^ Elles disseram que ella era feliz entre as outras. sua porta não se fecha. //r //*/V.. fd suas riquezas f # r. porque dis . a providencia dos filhos despreoccupados..

Felicíssimo.82 CHANAAN maternal se abre a todos como um farto' e tepido agasalho. isso são horas de chegar ? E sem esperar resposta foi ao encontro dos dois allemães. — Onde almoçaram? Posso arranjar aqui alguma cousa para entreterem o estômago. os interrompera. o agrimensor Felicissimo se lhes dirigiu com o triângulo moreno do seu rosto escancarado n'um grande riso de vida e bondade.. — Então. porque. / / & aiçy .. isto é mesmo um paraisc. ajoelhados. porém.. Já traziam cinco horas de Santa Thereza quando dfyfdaram á margem do rio Doce. / frei í E os <fd$fâ / ^ / ^ a r a m a contar-lhe com exalfsyrfr tação as suas primeiras impressões. O h ! esperança nossa! Elles disseram estes e outros louvores e caminharam dentro da luz.. sahindo de um barracão verde alli situado. Mal tiveram tempo de dar uma vista d'olhos pela redondeza. concordou com enthusiasmo o agrimensor.. gritou de longe. — Ah! meu caro. adorando esta sua bella terra.. — Não ha duvida.. por um pouco ficávamos por esses caminhos. disse Lentz. nvuma alegria estrepitosa e confortante. preoccupado pelo instincto da hospitalidade. Milkau pensou que era o gênio da raça originaria e senhora d'aquella terra que/lhes deparava.. com as mãos estendidas. .

Felicissimo. recebendo as laranjas. Thereza. Era espaçoso e arrumado como um d o r r r u ^ / . d ^ / M i l k a u . cujo arranjo não podia ser mais simples : alguns instrumentosjl^j^arrrpojld^isou três grandes livros (§obre uma mesa ao cantp). Ainda lhe trazemos algumas aqui. Olhem. Não estraguem a admiração.i~»*uc f nha. respondeu o agrimensor. o desabafo da curiosi. Ao lado havia outro puxado maior. Felicíssimo fazia também d'esse A barracão o seu quarto de dormir./ que era o alojamento destinado aos immigrantes. emquanto esperadddm levantar nos lotes as suas Á/Gt/ casas. torio de hospitalMj^ütáf ao funõTÕ"^"pequena cozi. onde o agrimensor tinha o escriptorio. e em tudo! Encaminharam-se para uma meiaguá coberta de zinco. Nem um livro de leitura. Ao sahirmos de Santa. nem o quadro mais humilde. que eram o registro dos prazos arrendados aos colonos. de uma singeleza / Aomada. Veja que belleza de fructa! — 0ft$jL não viram nada. apenas um maço de jornaes dsÀ.h-0J-&~}~4 dade do cearense. comemos alguma coisa que trazíamos e depois no caminho nos fartámos de laranjas no pomar de uma velha colona. Os hospedes agradece- . porém. e na parede um grande mappa dos lotes de terra da região. não ha Brasil como este. agasalhando-os no barracão do escriptorio. porque têm muito de que ficar de bocca aberta. abrira gostoso uma ex/ cepção para os dois extrangeiros. nem uma photographia. élíL.CHANAAN 83 — Obrigado.

e deante da planta dependurada elle accrescentou : — Para mim. travaram conversas nas quaes os immigrantes se foram informando de muitas coisas do logar. gente! vamos escolher os lotes. interrogava os ou/ tros. acceitou o lote V.84 CHANAAN ram ao brasileiro amável e. até que o agrimensor.jtodo assanhado. Mas si fazem questão. respondeu Lentz. Ahi a terra deve ser esplendida. — De fôrma alguma. em companhia .. Mas olhem que na verdade vale o esforço. O diabo é que está enterrado em plena matta e vão ter muito trabalho para fazer a limpa.' (Pü proposto/foj&^^ejubilavaHi aquelle dia glorioso ///' com a miragem de um grande e santo labor. que não disputava primazias nem & vantagens no mundo.. sentindo que o sol baixava. Uma doce fadiga entorpecia os viajantes e tf0fi/J jr / deitados sobre a relva junto á casa.. abancados todos no quarto de dormir. reflectiu e ponderou aos companheiros : — D'aqui ao lote dez é um pedaço.. Preparavam-se para sahir. . Chegando á porta. Passaram para o escriptorio. seria o numero dez. E melhor ficar para amanhã. o que mais lhes conviria. não teríamos tempo de ir e voltar com d dia. Felicissimo farejou o tempo. Milkau./. lhes disse : — Ande d'ahi. E Felicissimo de varinha em punho para apon9/ tar no mappa. com ares de entendido. Méfà querendo ceder por / ' delicadeza ao parecer do agrimensor.

Chegados ue foram. saudaram surdamente e/arara' calados ara (/ interior do armazém/guardar as ferrarnentas. camaradas!'o rumo está acabado? — Prompto! disseram. Vinham vagarosamente. usava uma pequena barba anelada e falha e o cabello curto em pé sobre a testa. mas essa impressão era xar/.ao~jii£srno \jjl tempo. Felicissimo. Percebendo de longe que havia gente nova. Sónseate.. a umi só f&£ feita da/de todos. e Hc*^ / ( rv t o • •"• (*. barbas avermelhadas. tomava por vezes a apparencia de um ^ .^ havia um mulato.íÁj^j em coisas coisas vagas vagas ee dipiavam diyílavam oo tio I em fio passar passar preguipregui. era bronzeado. fazendo coro. e entreolhando-se rrr.CHANAAN l w II 85 do cearense.i espantados por terem respondido .][ vimento do homem para o homem.. olhos de um azul de abysmo... que entre elles se destacava. Com os olhos rajados de sangue e os dentes ponteagudos de serra. ouviarfi as historias áles^f scismavam **•. ' ' /'»"*' Um grupo de homens armados de ferramentas de campo apparecia á distancia. torso hercúleo.//// coso."' ¥ . passando sem parar. Milkau e Lentz admiravam a robustez d'aquelles homens com pulsos de ferro.. vendo-os passar tão extranhos. caminhavam silenciosos. muito parecidos como um grupo de irmãos. / satyro maligno. Tinha a cara mascarada pelas bexigas . arrastando-se pela estrada descampada junto á praia do rio. com o impulso sinistro e reservado que é o primeiro mo. ficou surprehendido e gritou-lhes : — Então..

seu cadete. — Aposto. replicou o mulato com fanfarrice. Era só pontaria no da frente.. Joca.. em allemão. disse-lhe a rir Felicissimo. Admirara-se Lentz do modo corrente por que o mulato falava allemão.?%cé0) mostrando a Milkau e a Lentz os bandos de aves que passavam na illuminação do crepúsculo. entre elle e a terra um remoto convívio.8C CHANAAN rapidamente a desmanchava um riso fácil e ingênuo. apezar de recheiar a phrase . perpetuado no sangue e transmittido de geração em geração ?. Pouco /pouco os homens foram se approximando dos recém-chegados. seguindo-as pezarosamente.. As aves em bando continuavam serenas e soberbas no seu vôo. ouvindo-lhes silenciosos a ///Á / . saboreando com melancolia os effeitos creados em sua imaginação de caçador. Outras vinham ao longe..... cabra. Não havia. Joca ij olhava. um ar espiritualisado. Felicissimo apontou para v//Cc^°^a. e si a arma fosse espalhadeira.. não ficava um bicho d'aquelles voando. — Ah! Um bom tiro! exclamou o mulato. Como o sol sefôpfyAjfflL e as águas do rio /(7/^' sejÀ$$(tf/$j de sangue. em longas theorias harmônicas. o cabra brasileiro tinha um ar victorioso. No meio da massa indistincta dos companheiros louros e pesados. havia de se ver.. alli tu não apanhavas nada. c o n v e r s a . — Qual.. Os camaradas applaudiram. na verdade. Si eu tivesse uma boa arma.

Essa fraqueza não seria a brecha para os futuros destinos germânicos d'aquella magnífica terra? E poz-se a scismar. perguntou-lhes si falavam a lingua do paiz. — Não estará longe o dia. mas d'esta mistura resultará ainda uma lingua. com os olhos abertos e fulgurantes... O caso das colônias é um accidente.<fffá<fresponderam que não. trabalhado na alma da população por longos . E Felicissimo observou a propósito : — Olhe. No fundo do pensamento de Lentz houve um pequeno júbilo por essas confirmações da insufficiencia do meio brasileiro para impor uma lingua. considerou Milkau. Joca approvou convicto e ajuntou que elle mesmo já falava mais allemão que a sua lingua e arranhava um pouco o polaco e o italiano. que não fala uma palavra de brasileiro. Ha gente na colônia. cuja indole serão os do portuguez. entrada ha mais de trinta annos... Creia que é um dom natural. não ha povo como o nosso para apprender as línguas alheias.CHANAAN 87 de vocábulos brasileiros. não se admire d'esses homens que estão aqui ha um anno ou pouco mais. Não sei. É uma vergonha! O que acontece é que os nossos tropeiros e trabalhadores todos falam o allemão. em que a lingua dos brasileiros dominará no seu paiz. devido em grande parte á segregação d'ellas no meio da população nativa. cujo fundo. Não digo que os idiomas extrangeiros não influam sobre o idioma nacional. EY dirigindo-se aos trabalhadores allemães.

\Q_-V — Ah! murmurou Joca lj>éjf penZ. O caçador era seguido por um bando . um velho muito alto e magro. — É o vizinho mais perto do barracão. de orelhas ora empinadas. ora baixas. de cães que o rodeavam ou o precediam. viram passar pelo caminho. os cães o acompanhavam ganindo e excitados pelo cheiro de sangue que escorria da caça. Emquanto a conversação se ia desenrolando mansamente. queimando o ar <^. "tf*„J* y* exhaustos da caçada.88 CHANAAN séculos. dirigindo-se a Lentz). mas .. Nós seremos os vencidos. Joca.bocca aberta^e lingua de fora. frio com ardente e inquieta respiração. Isto agradou a Felicissimo. á beira do rio. disse Felicissimo. n'uma com^ yM4^!'bustão que os envolvia de ligeiro fumo. todos muito ykití^iláfcardegos. A prophecia dava-lhe desde já um orgulho de vencedor. O caçador /Jltt e caminhava com passo rápido. — E um selvagem. a got- tejar sangue pelas ier\das/00/j^^0l^/j^ fâ/$ft(fá. „ . si nós / i apanhássemos aquelle bichinho para a panella! 0 caçador passou sem os cumprimentar. — Mora por aqui? interrogou Milkau. fixado na poesia e transportado para o futuro por uma litteratura que quer viver. (*. (E sorria. que de tudo só t ( c * ^ * * \ apanhou1 a phrase final. . a resfolegar. ***"^**" trêmulos. nervosos. armado de espingarda e carregando um animal morto. olhou com superioridade a massa de seus companheiros allemães.

e todos se banqueteavam alegremente.. salva. que são valentes como feras. suppoz Lentz. Ergueram-se da relva. fâjfyfatyfé a facundia jf/cLof***» interminável e molle.CHANAAN 89 nem por isso nos. alimentação habitual dos homens do campo nos logares do seu serviço. prevenindo-o de que podiam ir ceiar. etldrídMftóp e m o . outros espertos e faladores como Felicissimo e Joca. passa pela gente como si fossemos cachorros. explicou o agrimensor. não fala com pessoa alguma que eu saiba. alegrando-se n'aquella communhão entre as raças . braços uns. A comida era simples e pobre. — Um arredio.do cearense e do mulato lhe <^4AÀ^ trazia a sensação do enjôo de mar.. \tfT l ^-&-JfJ^&&£sss!sxpeer-tá fr*y*l*\ gcupiüie-homeiis que u observ^airj^7tóá_ftt±fi=sp **"•*.. respondeu Joca. — Ha de ser algum solitário.. sado nos gigantes allemães./ y ^ " ^ rosos entraram todos em casa. . quando um dos camaradas se achegou a Felicissimo. Lentz olhava agora * s duas raças alli reunidas á mesa. ' Os trabalhadores do barracão armaram a mesa das refeições no dormitório dos immigrantes e ahi puzeram-se a ceiar. Milkau estava solicito com todos. alguns n u m prazer discreto e moroso. o peixe salgado e a carne secca. No-emtanto. admirava o que havia de solido e repou. espreguiçando os . bocejando outros..s s nn m muittTV r^mm t ^--nn nn m u t f p --z^~ tfl f Continuavam a tratar da vida singular que levava o caçador. vive só com aquelles cachorros.

/~^~*>f. porque sou de Heidelberg. e mostrando uma calma indolente y^ r^** nos movimentos e nos olhos um longo descanço. Além do fundo uniforme da sua própria ''(/ " classe. porém.S}_ ^fitíàffy das bandas do Rheno. ' Entreteve-se Milkau.?*** vente mesa commum que cahiaydos tempos como Çf^**" uma relíquia do patriarchado. outros novos e joviaes. physionomia de cada trabalhador europeu até então <*)' Vi LJ para elles confundidos demoí uma só massa. geral^jfii rfr mente fortes. para conversar com os seus at*^> ' patrícios.Comiam mais ou menos egualmente com medo e t^"*^ devagar.-l ' pontos uma só feição. * O trabalhador sorriu. vendo alargar-se o destino da sobrevi. da Pomerania. mas a sua alegria não passava de JL um gesto tffflftffésfflfflf incompleto como o próprio espirito. alguns <$# i/y. Uns C '' já\eram homens maduros e experimentados por 1 ] /Vi** J° n g° s soffrimentos. havia. — Então somos quasi vizinhos. mas sufficiente 2»**.^Z~A. — De Germersheim. a*~^ A sala era alumiada por um lampeão de kerose. I distinctas. feliz por ter encontrado um conterrâneo. uma longa intimidade l h e s d é r l e m muitos fi. Para Milkau um compatriota era o .CHANAAN U f**. ir ne e a luz Àxd turva e indecisa. 1/ para que os ríovos colonos pudessem distinguir a ^j' . I $7/v . fí/ —De que logar é? perguntou Milkau ao trabalhador mais edoso. em indagar i/obre W logares donde era cac a um /// Cl * r//ffl' Q u a s i todos procediam da Prússia II ^ oriental.

de surpresa. Lentz perguntou si isso se ligava a alguma len.. esperando com placidez a narrativa. — Ah! exclamou ligeiramente pensativo. outro. pelo quadro. de pagar em amor toda a indifferença que tivera pelas coisas da sua terra. aquella que sá^ de um mesmo pensamento. espichou a cabeça para o meio e poz-se á espreita. Tfim. Um desejo de voltar atraz. onde passara a sua mocidade silenciosa. de começar de novo. / ^ddkfy largou o talher grosseiro e descançou os co.. emfim. pelos homens da sua cidade. que estava á ponta da mesa.Então é da terra de Soror Martha! Conheceu o Rochedo da Monja. e auzeraa^ ^w^md^% nas caras expressões distinctas. Todos se voltaram para o emigrado do Rheno. O homem interrogado ficou um segundo atto- . mas em todos esses movimentos vários. __*^ emfim. Uma incomprehensivel saudade dos seus / primeiros annos $$$^001 um instante./ r tovellos. era '/fa£&f\ como um arrependimento de não ter sido nos prin* cipios da vida o homem de hoje. f — Sim. E Milkau pediu ao trabalhador que narrasse ***( essa tradição ignorada pelos que alli estavam. ae •f#/n%'' j interesse e mesmo de negligencia. n'essas transformações de physionomia. todos se moveram a um tempo./ / 1 ^r~ da. havia uma perfeita unidade.CHANAAN 91 apparecimento Yf/fáffi e inesperado de todo o seu /f/Juy1-** passado. de um/UW*»»-// mesmo desejo./J ú*^ mastigava.

onde a sua piedade encantava ainda mais que a sua peregrina formosura. e com Vi pezar os nobres vizinhos. A menina era de uma deslumbrante belleza. èdáfitffe Martha se tornou moça. o primeiro filho que tivessem seria consagrado ao serviço de Deus. morta para o i JZMX> mundo. e a viuva. O duque morreu na outra cruzada. viram-na crescer. partira ^HA A ^ v a pelejar pela Fé./j/ífl^ji alia contou que no tempo f % das cruzadas um duque. Os outros ^ ç í á i ^ / a m as suas W * ^ attitudes. olhando para todos. Na sua linguagem. raçado a cabeça.a falar. Era-lhe único ir irj^juM conforto ver a filha. que a queriam ytfjjl esposa dos filhos. entrou j Ih / »<^ para o convento. si tornasse a vel-o.>2 CHANAAN nito e irresoluto em sahir da obscuridade collectiva e anonyma em que até então estivera na mesa. e passado algum tempo nasceu-lhes uma filha. _ f O allemão afinal se Resolveu. a quem o silencio de um instante perturbava e affligia.** ~+ ^ — ' ^»- * ^* . Voltou o duque. sem mais í/triM*/ fimos' fflfâ isolada no castello. A principio não disse uma palavra. apenas se casbú. Sua mulher ficara inconsolavel com a separação e. Cocava emba~. muito espantado de se ver n'aquella situação saliente. que se chamou Martha. fez voto de que. voltou-se para o companheiro allemão com os olhos esgazeados. Joca. homem de Deus! E segredo? gritou o cabra. temendo a morte do esposo. que de tempos a tempos ia *-£yz^ <. — Desembucha.>.

Uma tarde. disfarçado em aldeão. A freira partiu logo para a casa de s u a / mãe. A freira transviada ///)//(2 toma um caminho que a afasta do castello. Des. vestida de monja. descobriu o seu ardil //Q.//u/*%jecto de raptar a monja. o joven conde bat/ á porta do mosteiro a ^ y para $fyj% á Martha que 4 duqueza estava a /^l~*-«*« morrer. encostado ao penhasco. sua barba embranquecida ?ft alongou"1Tté aos pes. quando esta atravessava o bosque para uma dessas visitas deC J. Uma vez. Vão os dois pela floresta como loucos. e afinal o coração.. e propoz-lhe fugirei e occultarem o seu amor em '' / ^ outras terras. Luctou comsigo por esconder a paixão criminosa. Passaram-se mezes. e.. quando chegaram ao logar mais solitário. Ficou assim dias e dias alli vivendo. amolledMd pelas orações da / .CHANAAN 93 visital-a. o conde envelhecia. aconteceu-lhe fyfpfypax-se com u m / ^ joven caçador. em vez de maldições. persegue-a. Consolação. vinha o echo das supplicas da freira pela salvação da alma de seu malfeitor. o rapaz0$J$fflde amor^ela freira./Martha espavorida/ytíj^^A'põe-se /*y^_ a correr. annos. onde o conde ^ / a vae alcançando. allucinado. Ç m rochedo\se^pre^e*récolhe ^t^r* no seio de pedra a joven monja. Não v *creditou o tÁ^A» conde na protecção de Deus e teimou em esperar a sahida de Martha. De dentro. mas foi / impossível. O moço. e no / ' " ' ' ^ desespero da fuga chega atéjio rio. O conde acompanhou-a. /yffa** e silencioso seguiu-a até ao castello. filho de um conde palatino. e v^i/ido pelo desejo formulou o pro.^>v^ lumbrado.

e restavaAri & lhe a illusão de ter apenas passado um dia encerrada na pedra. Entrou no convento. A pobre madre ^0^VM (fât/fjfftyifâr 'éfâtíWfli de allucinação e disse-lhe que ella não se tinha afastado do quarto. velho e cJieio do espirito divino. parte para o convento. ausência. ia-se mudando em primavera. ouvindo cantar na sua cella uma voz celestial.Di CHANAAN * é * t e ^ monja.. Quando soror Martha sahiu do rochedo.(Marthaícorna)para o mosteiro. embevecidas. presas á melodia. assistida e alimentada pelos anjos. o tempo não fifytfla corrido. no propósito de fundar uma ordem religiosa. onde cantara os-aaais &/&>*'. e tudo estava como deixara annos antes. Durante a sua ausência as freiras. abrindo-se em flores o campo mirrado.. medrosa. e no seu caminho o tempo. Abre-se a rocha. penitente..\Martha/recolheu 2»« abi S£A° s e u aposento. hcouffirffájtffl? da tentação e elle. e. Para ella. Partiu curvado. Attonita. voltando aos seus labores. rezando em êxtase. confessando os perigos da sua .. Jurou então consagrar-se ao serviço de Deus. Confusa. conver" tido. entoava os hymnos que Martha lhe ensinava de dentro do rochedo inviolável.(Martha^jâáej na mesma juventude com que entrara.bellos louvores a Deus. passaram todo o tempo ajoelhadas aporta. que era de inverno. parou a voz na cella e as freiras desprenderam-se do encanto. de onde no mesmo momento / * . despediu-se da freira por entre lagrimas de arrependimento. Alli também y Ácr^ty tempo $0 jLpfffiÀlf Arrojou-se a monja aos Á*«v" t p^ s d a superiora.

Falou longamente. Não tardaram a se juntar fora no terreiro.CHANAAN 95 / 7 * * f*«Vr viu sahir um anjo. milagres e encantados. A ceia miJ-se acabando sob a apprehensão *-&//'' vaga que no animo dos trabalhadores deixava a evocação das lendas nataes. D'onde menos se espera surge um perigo. Lentz quiz levantar-lhes o espirito e poz-se a negar bruxas. A conversa era (tropéga/|^ morna. de que parecia irradiar toda a luz que attenuava a escuridão da noite. E quando elle acabava. dizendo : — As bruxas já morre- . Sempre se deve andar prevenido. ' I que era uma faixa phosphorescente e tremula. Pouco a pouco cada um se foi erguendo e deixando a sala. /£jty0MfyrtO*í' rãatígÜ&mIffflúfNà Tjtums/intima communhão. pensativos.^. coxeando sobre assumptos incenõ^pois mais forte que estes havia em cada espirito uma idéa intima... pois ninguém sabe o que lhe está reservado soffrer e vêr.. E um dos homens foi o interprete de todos quando disse : — Ha muito encantamento neste mundo de Deus. longínqua e poderosa que teimava em se fixar. Os 6-»-?-c// homens 0 deitaram-ha relva. Os outros. concordaram n'um brando murmúrio.. voltados para o rio. á aragem fria da noite. àffitfMxfyfie todos na solidão que era alli. Milkau e Lentz também se chegaram.. cahindo outra vez em silencio. e que era a sua imagem. mas sem força de abalar as convicções plantadas desde séculos ás fontes d'aquellas almas. que/a substituirá na ausência.

/ péas transmittidas a elles'adulteradas pelos povos brancos.. chamados pelas evocações dos emigrados. surgiram. de mulheres. mais límpidas. seu combate com o gigante. Quantas desgraças não . os semi-deuses saxões. um dos mais velhos não gostou do tom da negação e replicou : — Não diga tal. Os dois brasileiros se interessavanj ardentemente com esses contos que lhes vinham /// ~jr~.! Cada um lembrou uma historia da sua localidade originaria. Alli. em vozes e cantigas. Mas agora as lendas volviam ás suas origens.96 CHANAAN ram ha muito tempo e ellas sempre foram estas mesmas mulheres que vocês amam —.. as suas proezas no castello do Nivefliho.. vinham mais puras. a derrota do anão"Alberico. guarda dos thesouros fabulosos. com o seu caracter immune de contactos extranhos. e depois as suas luctas. e com que sabor não escutaram as façanhas deSiegfried. os heróes. rainha da Islândia.lhes acontecem por se fiarem. vencendo a mulher para entregàl-a .de um mundo desconhecido e $t$k lhes suggeriam 'i' a reminiscencia de tantas outras historias euro4. as nymphas do Rheno. os homens devem tomar cautela nos seus amores. filho de Sigisberto. os gigantes com o seu cortejo de ..anões -phantasticos. que foram os -^primeiros geradores da sua raça mestiça. em que elle combatia invisível pela força mágica do seu chapéo encantado. as porfias com a bruxa Brunhilde. no serão da terra tropical. moço.

soberana. o velho pae louco a pro. até que um dia morre o heróe. Vinha n'essa historia a paixão do conde palatino pela fada. Milkau achou esse termo extranho de um bello .. ? E a tristeza no castello. » * rf * <$fflc/efál$fcfy0J0/alguns passaram 0^»^-^ a commental-a no circulo'de suas nevoadas idéas. curar o filho.. rt ' symbolo.Q d'agua. até que um dia. fazendo abrir as águas do Rheno para engulirem os ousados que procuravam vêrlhe o semblante mysterioso e que antes de. — Não se arreceia de mulheres. seduzido pelas suas vozes mágicas." sonho palácio de crystal é no seio da onda e para lá.. Como os outros escarnecessem $/$$-...CHANAAN 97 ao esposo. vendo a nympha. responde ao som da harpa : « O meu ri. lhe pede/!) -?ít<y restitua... // -^-> fffffi fanfarrão : '///wT' t*>.hL levei o meu amante kj/'•*'' fiel e leal. E com que paixão não ouviram elles tratar da bella Lorelei. longe do vosso mundo. ora bemfazeja.. avistando Lorelei sobre o rochedo com a lyra na mão. s^^tóé ella. quem já teve trabalho com cur/ufj pira... ora vingativa. protegendo os habitantes de sua vizinhança. divina como um. desmaiou e a fada o transportou para o seu palácio de crystal no fundo das águas azues.. morrer enlouqueciam ouvindo os seus cânticos. até que.atraves. que o attinge no único ponto vulnerável do corpo.. mesmo diabas ou feiticeiras. sado par uma lança. Áy*£"++/i E Joca declarou que não tinha medo de mães .

Os cabras traziam uma fome .. Meu cavallo estava esfalfado de cercar um garrote arisco. mas como não soubesse a significação do nome. Meu tio gritou para pôr a janta... porque eu sou de lá Meu tio Manoel Pereira na fazenda do Pindobal me dizia sempre : — Rapaz.... lá se foi paraocampo. eu trouxe da restinga na ponta do laço. Joca ! — Ah! respondeu este.. Chegados que fomos. preparando-se para narrar. e nós.. y*«(^/con siderou/ como uma d'essas palavras ricas de som dóTdiõrha brasileiro enxertadas no velho tronco da lingua. não foi por estas bandas. — Eh! meu tio! deixe de abusão para amedrontar gente pavorosa. ria das palavras do velho..u>'h 98 CMANAAN e raro accento de linguagem . peei o Ventania que. meu tio.. nem a lenda nativa que a elle se prende. frouxo e meio descadeirado. que.... que era o vaqueiro da fazenda. desempenado e de topete. disse n u m tom familiar ao mulato : — Conte-nos isso. nós tínhamos acabado de recolher o gado ao curral. socega com essas viagens noite e dia no matto por causa de rapariga. O sol já estava esfriando. coitado. seus quatro ajudantes. Toma tento comtigo ! Moleque que era eu.. que uma vez cunfupira te pega.. depois de muito pelejar. Qual! currupira é phantasmagoria! E tio Manoel Pereira passava a me contar rodellas e sempre arrematava : — Rapaz! toma tento! Um dia... foi no Maranhão. quando nos puzemos á mesa.

Depois nos assentámos na soleira da porta em frente ao curral. — « E o Formoso se desculpou disfarçando.para a patuscada.CHANAAN 99 canina. dizia a velha nos servindo. Eu estava derreado como um bode lasso Os outros estavam na mesma conformidade. não me lembrava mais desse ajuntamento marcado para aquella noite.. No sabbado passado tinha tratado com a Chiquinha Rosa nos encontrarmos na ramada onde era a festa. parece uma fome de Satanaz. com sua cabecinha delicada como de sussurina. mas a idéa da rapariga me levantou o corpo cançado.. Os outros camaradas eram já maduros e casados. as bananas não ficaram atraz e nós rematámos a boia com um trago da branca. Te esconjuro ! — O que é certo é que as curimatás voaram para dentro.. — Eh! gente.. Aquella hora as vaccas choravam de cortar coração.. Fiquei um tempinho meio desalentado.. Uma vontade de vêr a Chiquinha me assanhou o corpo e me fez espertar. não formavam . se via logo que tinha algum negocio estipulado para outra banda. só ouvir o cabra.. lambendo a bezerrada que do outro lado se roçava na cerca. Vamos d'ahi Manoelsinho. moça espigada como palmeira.. fica quieto ! . Ah! meu sangue. Eu andava de namoro com a cabocla. — Pois sim. que espantava minha tia.. Mas vae o Manoel Formoso e me diz : — Tu não sabes do baile da Maria Benedicta ?— Oh ! cabeça que era minha.

meu tio. logo ao entrar da lua. « Não me importei com a fala do velho e parti para a fonte.100 CIIANAAN — Bem. / tur. <• Não quiz mais conversa com o velho. Larga de banho a esta hora que tu apanhas maleitas. E me . e tio Pereira que me circumdava n'um tudo. fpnis pedi uníí pouc7~da sua pommada de cheiro e éé$ / •fcis ffl/lfl? estava na ordem. entrou aralhar. /5^ l/ti -* a "Ella havia de me dar no baile. Passei depressa para meu rancho para mudar de roupa. « Levantei-me em direcção á fonte. disse : — Volta cedo que de manhãsinha. vou só. O meu lenço branco / estava desde a semana passada com a Chiquinha.— Rapaz. nós vamos fazer matalutagem na fazenda da Marambaia. disse meio arrevezado aos cabras molles. Bati na porta de tia BenU». é só trabalho para os outros. porque filho de meu pae não engeita divertimento. Dei um mergulho e umas parapemadas. Tio Pereira me vendo de viagem. Vosmecê pôde ficar socegado que estou de volta a tempo e bato no seu quarto ás» horas. que me deu um frio nos ossos. Depois. Ainda era bem de dia. Atirei-me á água. com intenção de espantar algum jacaré que andasse na vadiação.vara guardar no seio e perfumar com o seu cheiro. enrolei no pescoço o lenço encarnado que tinha comprado a um barqueiro no porto. então já que ninguém me acompanha. tu estás maluco. preparei-me com camisa e calça alva. — Sim.

eu senti como tudo a rodar.. « Xão sei si foi pela falação do Zé marinheiro que se me escaldou mais o sangue. só se ouvia um barulho de porcos que focinhavam a terra á cata de minhoca. já se sabe. Mas a gente não se deve aproveitar dos outros. tudo lhe mandei eu. atirei-me para o caminho. e as pernas me fraqueando. virados para o lado do sol que se sumia. Do Pindobal á ramada da Maria Benedicta eram bem umas duas horas de marcha. — Então.. na ramada da Maria Benedicta.. Mas tomei sustância em mim e me agüentei valente. . o coração a querer pular pela bocca.. e ainda pude logo dizer ao patrão do negocio : — Eu vou correndo para lá. me lembro como si fosse hoje.CHANAAN 101 puz no olho do mundo com passo de ema escabreada. o pouco gado magro que havia. E vosmecê me encha ahi um quarto de restillo e me corte duas toras de fumo de mascar.. Joca. tudo estava bem secco. Quando cheguei para furar a ponta. deve estar prevenido do seu. e.. Olha. por ordem do Pedro Tupinambá. A brincadeira deve estar influída. O sol G... « Dito e feito. aonde se bota tão paramemado? perguntou-me o portuguez. patrão. esbarrei primeira no negocio de seu Zé marinheiro. estava parado com os olhos tristes de peixe morto. — Olha que tem passado por aqui muita rapaziada.. pinga não falta. Atravessei todo o campo da nossa fazenda com vista a alcançar a ponta do Guariba. — Brincar um pouco.

Voltei a cabeça e não vi ninguém. andei. Pernas para que te quero! A cabeça. porém. Lá no fundo da matta havia uma aberta e me parecia que um vulto caminhava para mim. Não dei importância ao sujeito e disse commigo: — Ha de ser o filho do Zé marinheiro. e do estômago me subia de vez em quando um enjôo.. ouço um assobio fino que vinha de detraz. não estava muito boa. que se recolhe. parecia me estalar dos lados. Pensei: — É algum camarada que se vae divertir e me chama. Assumptei de novo. e eu com a pressa de chegar comia poeira que era gosto. outro. Não havia viva alma. onde ficava do outro lado a casa da festa. porque o pae não o deixa ir á festa. De repente. mas perdiam o seu serviço. Só parecia que encontrava o terço acabado e a Chiquinha.102 CHANAAN já estava escondido e os vagalumes começavam a correr no ar parado. com seu par fixo para toda a noite. por cima das arvores. — Que .« de toda a parte se apitava. que encurtava a distancia e sahiano campinho. porque a lua estava esclarecendo tudo. A areia estava mais quente ahi dentro que no meio do campo. um grande calor me tomava o corpo. outro. do fundo do matto. Outro assobio me passava. cortando os ouvidos. Continuei a andar. me largando de esperar. nada. de vez em quando um pica-páo n'um tronco de madeira secca batia as horas da tarde..os lagartos corriam estremecendo o matto. andei. da bocca da estrada. Principiei a cortar por uma picada.

bem alto para intimar o cabra : — Olá. — Larga! berrei — O caboclinho com olíios de sangue me encarava — Larga ! — e eu sempre seguro. — Onde se metteu o diabo do pequeno ? — Os assobios iam me rodeiando sempre. Eu resmunguei: — Que faz esse sujeitinho que desapparece de vez em quando? Isto não é coisa boa. para que falaste ? A mattaria toda passou a assobiar como demônio. a cabeça me queimava. O caboclinho estava agora a umas dez varas de mim. e eu comecei a ficar apavorado com a matinada. tu me' pagas. Mas quando eu me vi. Mas olhei firme para a frente e não vi ninguém.. Os assobios de coruja não largavam. — E elle torna a surgir. bocca. Não digo nada. quiz me valer do encontro com o filho do Zé marinheiro. eparame socegar. Então gritei com voz de susto.. Nós estávamos assim a umas cem braças um do outro. Fiquei como um . o certo é que avancei para o pequeno com raiva de cego— Ah ! seu diabo. porque elle estava perto e vi que não era o filho do portuguez — A modo que não conheço este caboclinho. Ha de ser agouro. quando o pequeno se sumiu de novo. eu já estava com a cabeça tonta.CHANAAN 103 bandão de corujas por esta noite..que conversa é essa? Você anda me fazendo visagens ? — Não digo nada.—Tive assim um arrepio de frio. reparei bem. amigo. estava seguro pelos pulsos. Outra vez vi o pequeno na minha frente.. o coração me batia a galope. — Armei o páo para cima. O sangue me fervia.

uma-feita n'uma vaquejada. os meus pulsos estavam desembaraçados : um grande calor me fervia o corpo . gatos bravos miavam. para cima: eu dava de cabeça na cara do bicho.. commandados pelo endiabrado. Levei um tempãodesaccordado. Eu estava afadigado de tanta lucta.104 CHANAAN garroteferroado. a lingua estava secca e dura que nem de papagaio. porque outros berros se repetiram. Depois tudo foi cahindo no socego. o suor me alagava a roupa. abri os olhos devagarinho.. Lembrei-me de quanto boi valente deitei por terra. ah ! pensei que o malvado me deixava.. catitú vinha batendo queixo. e agora alli zombado por um caturra ! Nós luctámos para baixo. meu S. tudo parado. Comecei a tremer de frio. os urubus cheiravam minha carniça. e elle sempre duro. eu ouvi um berro de estrondo. Mas foi peior. as arvores mesmo* se curvavam me abafando. Toda a bicharia se agitava no matto e caminhava para nós. sentindo os bichos me rodeando. mettia-lhe os pés na canella... ouvi cascavel tocar seu chocalho.. um berro de onça. E os olhos se me fecharam como de morto.. o mal encarado! Com o cabo de poucos minutos. João. e eu disse : — Vou morrer. alua era clara como dia..... Com poucas eu estava no chão com o caboclo em cima de mim.... tudo tinha desapparecido. . Avancei para o cabra com mais zanga do que quando me atraquei com o Antônio Pimenta. Abri bem os olhos. os gaviões desciam. Eu senti um medo molle e abandonei as forças.

Levanta d'ahi. ..CHANAAN 105 e não vi mais nada... Quiz correr para a ramada da Maria Benedicta. eu trazia uma sede de jaboti. Leyantei-me de um pulo. Não tive con. nem os bichos brabos. — São horas.. mas lá vim assim mesmo navegando até á porta do rancho. Joca. atirei-me vestido na rede que com meu corpo sacudia como uma canoa no Boqueirão. vinha como preto bêbado. dá. Passei a mão em-roda de mim. Tive medo de novo encontro. muito longe. cachaça e fumo. Para espertar não ha melhor que um gole de canna e uma masca. Mas tive então_um grande medo e tratei de abalar d'alli. . Nada. o samba devia estar acceso aquella hora."logo que o avistes. a bocca estava grossa. acolá.. cacei. Voltei para traz. versa.ri bra. Velho tio Pereira me veiu á. todo o meu sangue batia para saltar de dentro. Elles abriram a tramella e um clarão da madrugada alumiou o quarto.. cáe aqui. foi para me bater a garrafa. Mas não encontrei nada.. Para tu te veres livre. Era a voz de meu tio com o Formoso. cacei. Puz a excogitar que toda a pendenga que o caboclo me fez. cabeça com suas palavras : — Curjfupira te assom. sahi no campo esbarrando com o gado. « Dei por mim quando ouvi falar alto na porta. os olhos me ardiam. caçando minha garrafinha de restillo e as toras de fumo. nem o caboclo. cáe . Olhei para a frente e a estrada ia acabar longe. E eu vi que n'aquella noite tive trabalho com currupira.

principio de somno chegava como urryf tyij. seduzidos pela idéa de '. mas as forças não acudiam. . tantes aos princípios da sua vida/i as recordações jl . O velho segurou no punho da rede que estava balançando. a M r e c o l h e r ^ . 4 ' CHANAAN Quiz me erguer. do passado encheram-lhes a alma de sombras e saudades. Do rio Doce e da floresta viIIIi \^m>^[idirn murmúrios W/fiflfop e os colonos em silen'" cio interpretavam esses sons da noite.' um f&j^4 repouso. Quem te mandou tomar banho cançado e aquella hora ? Não respondi.$fy— *fl espreguiçaram-se satisfeitos. Tive vexame de relatar ao velho que era assombração de currupira. cubiçosas do amor hu- . meu corpo tremia dentro como si houvesse uma dansa de todos os meus ossos. E meu tio Pereira. Felicissimo achou que era tarde e os convidou '^J~ /Jj. sem mais aquella. sendo o primeiro a erguer-se do /' chão. Depois da narração os colonos ficaram scisl! mando vagamente. resmungou zangado : — Eu não te disse? Apanhaste a maldita. ou como oity^ L/ dccetitod das mães d'agua.100 . Meu tio mandou o Formoso abrir a porta e a janella. Cada qual remontou por ins//. Elle poz a mão em cima de mim e ed abri os olhos cheios de fogo. Ficou como dia.. Os outros levantaram-se bocejando — um •.

sem poder dormir. os desfiladeiros o suffocavam de terror. sem nuvens. sentia por vezes a pelle a arder. A evocação da terra natal alli no meio da floresta do rio Doce. os montes o apertavam. Outras vezes. ou como ruidos das vagabundagens tenebrosas dos currupiras'errantes. extranha a seus olhos e sentimentos. Nos dias claros.CHANAAN 107 mano. o amor violerrto do sol trazia o vasto campo fendido e cortado em pifWf. quando todos supplicam d chuva. tinha a garganta secca. e então uma saudade o transportava para a longa planice onde vivera: Llldwa no verão o pasto todo morto. n'esses campos de Cajapió. vários e inconstantes. por toda a parte a sec/cura e com ella a morte. é Joca ainda se remexia inquieto. e sobre e$e. Já no dormitório os trabalhadores resonavam sobre os colchões estendidos no chão-. sem um fio verde. Era uma noite em claro que elle passava. e não achava agasalho na cama fofa e tranquilla. cuja mobilidade se transmittia á alma plástica dos homens ahi formados. o sol rubro '/**** ir^^ ' . nuvens descem quasi a tocar a terra.. c horizonte se confunde com o céu. / o deserto árido e triste. No Espirito-Santo sentia-se Joca em terra alheia.. passando como / uma serpente jjfâfjjlÜll o caminho feito pelo pé do homem ou pelo rasto do animal. Nem uma gotta d'água. fazia-o remontar aos quadros da sua vida passada no logar do nascimento.

. cando-as. corroendo as cobras que se estendem lubricas e felizes ao sol. Uma manhã lá no Cajapió^Joca se lembrava como si fora. Agora. dfó^se afastam inattingiveis. \ fo**fò!o Jj y //. implacável. /flyi/^^^cyclone.. '/} as tinge. farejando o ar. perturbado 'i *ij no seu repouso..na véspera) accordára depois de uma grande. "•• CHANAAN 1/ t •f .teveXum arrepio e um Ímpeto para se erguer » do colchão.. e elle se erguera de sua rede para vêr o tempo. esquelético. ^V / fõõúpo recordar-se d'essas emigrações de ani^ / maesi. doir . Varas de porcos vão fossando a terra..108 '% . suífo(fêl^.. a visão da planície o perseguia. como que surgindo subitas*do chão. Nem umagotta d'agua para refrescar ao menos a vista. passando n'um turbilhão como um .estreitando o circulo visual7 tudo fó encenjfn'um espaço limiXadoJÍ o viajante caminha para ellas. t a . mas serena. E L • £> ' sempre a terra. era depois das primeiras chuvas sobre r o campo. Um grande tapete de verdura fresca e humida parecia A/v ÀAÀ*'^^ j U > . as miragens se formam. galopando loucamente.ii das. sedentas. De espaço a espaço passa um boi faminto.. envolvendo-as. onde se revolvia agitadamente. as segue. fazendo evoluções como um exercito em campo aberto. movendo os ossos n'um ruido desencontrado e surdo. levantando o pó tranquillo que. veloz e fdtyftf como uma ^eQlumna de fogo. A madrugada estava orvalhada..tormenta no fim do verão. E assim a mobilidade do céo amenisa a esterilidade fixa da terra. Manadas de gado se apresentam no horizonte.

E em tudo o mesmo milagre dè resurreição./w^mettidos n'agua. Em volta d'elles uma multidão cte aves aquáticas brincavam descuidosas e osten/ tavam as pennas de cores vivas e quentes. Os olhos se. • terrompia. marrecas em algazarra.*». Vinham/ V// pássaros de toda a parte : perrialtas com o seu bicqu-^ de colher.. mas sem recuar.^ . %bt^ji vens cinzentas. ''4i4 nadando. e á tarde. levantava o vôo acolá. de expansão e de vida. o gado festejava o rebentar da vida na terra e comia a herva tenra.inquieto e começa A .CHANAAN 109 ter descido do céo e coberto como um manto mysterioso o campo hontem mirrado.~No-itmdo dos lagos. 5 .(JyLaproveitando a terra firme./ a outra emigração. -.. pousava aqui. Massas chuvas continuam.. ^. èra o bando mar. » u -*cial doa vermelho» guarás. a do inverno. notava-se desfilar. de rejuvenescimento.. e quando mais tarde o dilúvio se in. ia/tr.\*-/ . jassanarís Ietfés~? V*r•''' * e tímidas.. um bando de marrecas passava grasnando. Dias inteiros de chuvas. a água porfiava em vencel-o. fai. Eram os primeiros lagos. multi*'" ' ' does de peixes borbulhavam por encanto. ligeiras elevações da planície. perdiam na campina alegre.. Vão lentos e vagarosos. < / » i 4-. Aci / grupe/ brancé . para os tesos. Já no meio do inverno a água quasi 7 . quando o céo se/Vestia de nu. a água serrupre—ccescente vae engolindo o campo... o pasto agora era farto. caminhando para os refúgios. *----r:—7~*I ri r\ ' i ' P*1 JH %U ' ' d a s yirgingaygarças. buscava ainda mais longe a região dos eternos lagos. o gadofsd mostr/. $$d$fâ na vasta savana verde p o n t o s / ' * claros que eram o refrigerio dos olhos.

todo cheio de encantamento. Todo o idealismo da raça estava alli. e desfructado deliciosaas ír^rí/^^mente paizagens distinctas de cada espirito e os panoramas longínquos que foram os quadros da infância de cada povo gerador. largas.emquanto o somno JI o não arrebatava para o esquecimento. Em um grande lago manso transformou-se aquillo que fora mezes antes o deserto ardente e fero. Sobre elle repousam os grandes nenuphares. penetrando no . as múltiplas plantas aquáticas verdes. A vida mudara : descançava na cocheira o cavallo e Joca sonhava-se a empurrar a canoa. creando phantasiás e mythos.i l/J l/r sé- . mantinha-se inalterável. ^ . bruxas.110 ã i".' ^g*" I CHANAAN apagou o campo. vogando como pássaros. Milkau n'esse tempo scismava.. eÂstM que nascera nas águas do rio. um ou outro ponto apparece como ilha e n'ellas o gado está amontoado. que foi o centro e o nervo do mundo germânico. reflectindo-se o seu vulto espigado á flor silenciosa das águas. Nas lendas allemãs Milkau via passar o Rheno.. os novos deuses latinos. cavalleiros andantes e castellos. como um grande rio sagrado. e cujas louras nymphas eram as espumas das próprias águas. EU/iínha / /' J saboreado as lendas ouvidas aos tropeiros e md a-"^U7 P a r e c i / fluo tinh^ arregaçado o véo que cobria a / alma d'aquelles homens. yítújíia os quadros recuados no tempo e os quadros novos da epocha medieval.

d/jbfiÚfp1 de outra. conforme a astucia ou *£-—** a força o exigem. que sacode do torpor tropical as feras ou que protege a natureza. Alli estavam a matta tenebrosa.. #-— vinga-se e beneficia. que é a sua encarnaçãoprefe/p ' rida.+az. esse das almas dos povos ! O verdadeiro *• J V^C~ philosopho. trapi^ortaf-se em mil figuras/'***'*'^^ em creança maligna. será aquelle que co./ ( / c ^ ^ ' mecendOi feliz e socegado n'aquella bemfazeja 'J y /u*** ***** XZ">£&"*~ . Mundo encantado e *u~<u^«mysterioso. em animal ou vegetal.. e -tr-r~i*<? cada um traduzia os instinctos.T^-^A tos difíerentes dos homens.f>&* d******. os habi. Na lenda do cur/upira outro ti mundo se descortinava.os desejos. aquelle que tiver fr^^tír' o segredo de ponderar os espíritos. mas de uma alma isolada.. Milkau sentia n'aquellas legen. pensava Milkau. não só da historia ou da socie. de desvendar ^f^^Cvy^ nas cellulas cerebraes as remotas sensações vitaes f****"^ dos povos e que possuir a intuição para distin^ZJrs-fT guir na intelligencia de um homem a dosagem /*~r *p?+ perfeita do extranho precipitado da treva com a y/u * j pureza. que era toda a alma do tro/Q peiro maranhense." ^ ^ r das o encontro dos vários aspectos dos feitiços... intimidando o homem.*4ly->nhecer as origens. E Milkau ia lentamente a d o r .. /^~ as forças eternas da natureza que assombram e cujo symbolo era essa divindade errante que anima as arvores. Ella espanta. do ódio ingenito de uma raça com o amor /.f^T*?'*' " dade. seu perpetuo inimigo. as siras santas eram aquellas mesmas fadas do Rheno e os santos os velhos deuses sombrios e batalhadores.*-*CHANAÀÍiy 111 seu espiritcffici tranoformaraim em divindades barbaras.

E Lentz via por toda a parte •sj^~ o homem branco apossando-se resolutamente da terra e expulsando definitivamente o homem moreno que alli se gerara. ora. perfumada. uma nova raça. em que elle expri- i. ora.v t* 'Lentz dá esforçava""por dormir ej(jl debatia/inutilmente para afastar os tumultuosos pensamentos que lhe galopavam na cabeça. onde a vida fácil. que seria a incógnita feliz do amor de todas as outras. Ora. sentia-se passar pela sombra humida da floresta cuja exuberância e vida se /. seja um perpetuo deslumbramento de liberdade e de amor. no seio de uma nova terra suave e forte. que repovoaria o mundo e sobre a qual se fundaria a cidade aberta e universal. E Lentz sorria com orgulho na perspectiva da victoria e do domínio de sua raça. no meio de homens primitivos. risonha. surgindo docemente. As visões accumu/ ^ ladas nos últimos dias de travessia da matta per/ de s i s t i a m em toda a sua força.miLavan/ deliciosamente até á sua alma. impeliido por uma força d'esse poder mysterioso que animava as moléculas mais intimas de todo aquelle mundo novo. e o que era scisma da vigília se ia pouco a pouco transformando no puro sonho em que elle entrevia n'um horizonte illuminado. a escravidão se não conheça. pujante que corria para elle. sentia-se esbraseado com o sol que inflammava ffijjjbféÀfy e lhe queimava o sangue. . Um desdém pelo mulato.112 / CHANAAN noite tropical. vi era o rio immenso. . onde a luz se não apague.

e eternos repousariam para sempre na alegria da luz. não para mendigar a proprie. Mas no sonho de Lentz. em cohortes infinitas.. elles os eliminariam com o ferro e com o fogo. Elle percebia no seu cérebro exaltado que os allemães íam. sobre os exércitos que caminhavam.~ "" nariam como uma vassalla.. e senhores. >aporca^ i m m e n s ^ « ^ m ^ / e numerosas os desembarcariam em tõdo~ o paiz. Ay/^ com sua áspera virgindade de bárbaros. e depois se transformava n'uma figura extranha e agigantada. Era tudo um recapitular da antiga Germania.. vift não em pequenas invasões humildes de OfuLíAii^ 'escravos e traficantes./tf'4/ dade defendida pelos soldados negros.. alli se fi^j^aram e macularam com suas torpezas //c*r* a terra formosa. ~r yMJjtí dixiam n'uma anciã de posse e de domínio. aquellas florestas seriam consagradas aos cultos temerosos das virgens ferozes e louras.CHANAAN l 113 mia o seu desprezo pela languidez.<^ nente . sobre as náos que velejavam. matando os homens lascivos e loucos que . uma massa immensa e preta marchava no céo qual uma nuvem conductora. pela fatuidade e fragilidade d'este... elles se espalhariam pelo conti... e ricos.. fundariam um novo império. ffly&yixiam'' y>^l agora em grandes massas. fé xevigoxa>iJÍ erf&m. A Aquellas terras feriam o lar dos batalhadores f/r*'""' eteAos. eternamente na força da natureza que domi. turvou-lhe a visão radiosa que a natureza do paiz lhe imprimira no espirito. não para lavrar a terra para . . ^ recreio do mulato. Tddo **-/ Jelle era agora um sonho de grandeza e triumpho. e poderosos.

. envolvendo as terras e os homens c o m u m a força invencível e magnética.111 CHANAAN cujos olhos penetrantes desciam do alto. . Então (LentZN^yhj) pairar sobre a terra do Brasil a águia negra da Germania..

depois de se fatigar em curvas de réptil por entre os brandos contornos da terra maravilhosa do Espirito-Santo. crivada de clareiras. Era a única quebra da immobilidade. avassallando com singular grandeza o perfil da matta. que. estremecendo n"um leve arrepio a humida superfície. e a tímida linha de . No seu passeio approximaram-se do rio Doce. alli se desdobrava a perder de vista. As grandes chuvas dos dias anteriores tinham enchido fartamente o rio. sobre cujo dorso luzidio e dormente a brisa perpassava volátil.IV Na manhã seguinte. devorou a vegetação das praias. e agora quasi submersos tingiam n'uma orla verde o cinzento pérola do rio. Milkau e Lentz muito cedo estavam admirando o logar. A cheia domina toda a paizagem. ^ Idas arvores cujos galhos outr'ora pendidos como * /chorões simulavam sorver a água. A omnipotente amplidão das águas $ engoliu as margens.

o espalha como um tufão.^^. fulvo amarello. Milkau e Lentz sentiram n'aqueíla 'M.110 CHANAAN montanhas ao longe.. e o panorama que se apresenta não é o constante dia de sol pleno. como esta tranquillidade. ]$(/%$$/ a natu/. „ cerração o delicioso momento da resurreição das cores esplendidas e n'estas voluptuosamente repastavam o faminto appetite da vista. suspensas sob o céo.. E que a felicidade é o esquecimento e a esperança. Abre-se uma trégua para o eterno conflicto da luz e dos tons. Parece-me que attingimos uma região aonde não chegam os gemidos humanos. por isso mesmo o prazer lhe é mais inherente e imperceptível.. para formar o quadro da vida. o espaço e j^/í$54átí|0r íião é a larga e quente paizagem monótona. — Não ha nada. e como um só minuto de descanço não nos dá a illusão da eterna calma! — E que nós somos victimas dos divertimen- ... onde o crepúsculo é um sonho fugaz e a noite cáe como uma cortina negra que iechaftjfâkl^ V ^ r ü X . nevoas densas apagam por instantes o sol.. Quantos elementos. Emanadas das águas. porém. E hoje me sinto feliz como jamais pensei que o seria. sensação extranha e bVils?^. indistincta. tudo é Wy vida fácil.. jfonydMljto dia. e a dôr. a sombra cobre a terra e faz a côr. risonha e amável. não estão em nós para afastar a dôr . aqui não ha um signal de soffrimento. inundando de um só fff <w*4w&Ç°lorido. com que facilidade não a esquecemos.. dizia Milkau emquanto andavam.ÊOL./ "reza humana é feita para o goso.

A nossa superioridade sobre ella. — E eu também vejo aqui a terra immaculada com as suas grandes energias de felicidade. E hoje. — A esperança. as suas fatalidades e nos obriga a tomar o caminho mais seguro para a harmonia geral. que. saltando pelos séculos de humilhação. o prazer mais do que o soffrimento. E tu emprestas n/ á natureza uma consciência que ^kM. Adormeçamos as tristezas do nosso passado. aqui situados n'este mundo. distinguindo-se pela vontade. que começa ainda virgem de sacrifícios.. para martyrisar-nos ao seu sabor. venha renascer aqui. que por esses pérfidos e doces venenos cujos segredos ella possue. forte.CHANAAN 117 tos da natureza. que percebe as suas leis. disse Milkau a sorrir. temos de tirar o verdadeiro sentido da nossa excepcional situação.. e n'ella viverei para vêr reconstruída a cidade antiga. — Mas a vida é mais natural do que a morte.. Muitas vezes tinham de abandonar 7. nos acorrenta á vida.èl/ti^ Ella J^yc^não existe como entidade. dominadora. e a vida nova se abra-para nós como um sonho realisado. já que não podemos apagal-as de todo. n"este grande scenario.. está exactamente nessa consciência que é nossa. se apodera de nós e nos arrebata para o futuro. tu sabes. . Não é verdade que somos felizes ? Pela linha da praia que a enchente tornava apen as uma vereda Comendo o mattoJEóntinuavam elles o passeio...

#M*i — o que eu vejo é o contrario d'isto.. desdenhou Lentz. É antes a venaiidade de tudo. que chama a ambição e espraia o instincto da posse. disse Milkau quando chegaram a um trecho desembaraçado da praia. sem posse? i>> n. amanhã será a preza do homem. outras passavam aos pulos... E riam com essa gymnastica. — Hoje. — Oh! não haverá difficuldade. a ambição. de talhar o nosso pequeno lote. que no nosso caso é o agrimensor Felicissimo. a sua opulencia.118 CHANAAN o caminho e cortar pelas picadas. — Não seria muito mais perfeito que a terra e v J 0 suas fqJfH fossem propriedade de todos. abandonados á sensação agradável da fresca manhã e á volúpia das illusões. porque a vastidão das águas.' venda. mas o que havia de monótono não fatigava.. O que está hoje fora do domínio... sem '... devemos escolher o local para a nossa casa. de pedra em pedra. uma ligeira inquietação de vago terror se mistura ao prazer extraordinário de recomeçar a vida pela fundação do domicilio. dentro da vegetação . Não acreditas que o próprio ar que escapa . replicou Milkau. — O Estado. e pelas minhas próprias mãos. O que é lamentável n esta solemnidade primitiva é a intervenção inútil do Estado. eliminava o enfado. K ^ — Çtyahkjfld mim. como que alargando o espirito n u m conforto amplo e bemfazejo. n'«ste deserto. Por longo espaço o panorama era immutavel.

. não me abandonarei á ambição. • que n'elle tinh* f /*> jfflfâ/f #jL5fc-. será o mesmo que hoje receber. sinto um perfeito encantamentqjjião é só a natureza que me seduz a q u L ^ u e m e festeja) é também a suave "contemplação do homem'. dos museus. — Pois eu. ponderou Lentz. — O meu quinhão de terra. ha como um longínquo afastamento da cólera e do ódio. depois de se apossar dos jardins. si me fixar na ' dt<. O sentimento da posse morrerá com a desnecessidade. Os naturaes da terra são expan- . que signifique fortuna e domínio. idéa de converter-me em colono. que se vae alastrando e que um dia. será vendido. como é hoje a terra? Não será uma nova fôrma da expansão da conquista e da propriedade ? * — Ou melhor. com a suppressão da idéa da defesa pessoal. Desde que chegámos. Ha em todos uma resignação amorosa. . explicou Milkau. nas cidades suspensas. não o ampliarei. mais tarde. não vês a propriedade se tornar cada dia mais collectiva. dos palácios. desejarei ir alargando o meu terreno.CHANAAN 119 á nossa posse... . das estradas... n'uma grande anciã de acquisição popular. chamar a mim outros trabalhadores e fundar um novo núcleo.. Porque só pela riqueza ou pela força nos emanciparemos da servidão. ficarei sempre alegremente reduzido á situação de um homem humilde entre gente simples. . se estenderá a tudo ?. Todos mostram a sua doçura intima estampada na calma das linhas do rosto..

não ha grandes separações. para só pensarmos nos outros e não perturbarmos a serenidade d'esta vida.120 CHANAAN si vos e alviçareiros da felicidade de que nos parecem os portadores. agarrando com enthusiasmo as duas mãos de Felicissimo. — Pregaram-me uma peça. Todos se purificarão e nós também nos devemos esquecer de nós mesmos e dos nossos járxjinzo^. eu adivinho o que é todo este paiz— um ninho de bondade. — Bom dia....que éo feliz gênio da sua raça. visto-me n'um pulo.. de olvido e de paz. vou procural-os para um dedo de prosa. que se atirava a elle n'um gesto festivo e bondoso. corno si despertassem. e os meus amigos já tinham azulado. Vendo-os.. Tivemos pena de accordal-o.. não haverá conflictos de orgulho e ambição. não se immolarão victimas aos preconceitos abandonados na estrada do exilio. esqueceram as suas amarguras. pois havia um s / . a justiça será perfeita . disse Mirkau. Ha-de haver uma grande união entre todos. estão tranquillos e amáveis. o próprio chefe troca no lar o seu prestigio pela espontaneidade niveladora. tirando-os da divagação : — Mas então que fugida foi essa ? Para onde se botam ? ^ Voltaram-se.. Accordo. que vinha quasi a correr. Os que vieram de longe. —. No encalço d'elles uma voz clamava. e viram a cara triangular e interrogativa do agrimensor..

menos. caminhando um a um na estreita beirada. e eu lhes mostrarei o numero dez. disse Leritz. E ' -^tu o sol que se desprendia das" nu vens. melhor desistirmos fi &jfH e aproveitarmos o tempo para um passeio uj ^ mais longo ? — Seja. e fui bem feliz em ter virado para esta banda.. 'muiiln pi In i nnurnr. transformava com violência'. farejei aqui e acolá. Felicissimo frimnn i fn ntr. farOvxA*' — Estão cançados ? gritou Felicissimo. — Aqui mesmo n'esta direcção.//</«•*vista. mais ao . um kilometro. viemos até aqui. — Não acha.. >' ' Crot_ correndo sobre a Terra. puz-me á caça de vocês. semiequencia. grande e incandescente massa do sol derretida. o' «• rio chammejava em ouro.. distrahidos. A conversa ia-se vàidndo em vozes altas.. nevoenta. seguia impre. insistiu o agrimensor.CHANAAN 121 grande silencio na casa quando sahimos. E. Inundado pjflffl/táfytóffl de amarèllo. concluía orientado : — Aqui devemos estar no lote vinte.. andemos um pouco. — Pois eu. aos saltos e trambolhões. /srK<™ZC . olhando rapidamente para os lados. nem nada. Porque não aproveitamos para ver^seso lote de que hontem lhes falei ? — De que lado fica ? perguntou Milkau. Voltaremos ao barracão á hora do almoço. como si fosse toda a <Z//.. E nem tomaram café. E Felicissimo.o //ddjiéado quadro da manhã M/pe^.

suspirava bocejando. — É por causa do caminho. que vamos srahir mesmo dentro do lote. Passando para a ligeira sombra do matto e caminhando pela picada. Lentz. e quando via este ^ ^ á ^ í l p e l o companheiro. saltando ligeiro para deante. Felicissimo enveredou por este. — Cuidado ! implorava este a sorrir. á direita.// j J\^_ . não ha a menor sombra de conforto. Agora cortemos por aqui. tomando um largo fôlego. As vezes era precipitado. recommendou-lhe cautela. E assim foram até que. outras era preciso djÁ n 6Q.G4fi. O agrimensor divertia-séem yí-aLÍ- /. que não era muito batida nem destocada. tudo ia bem. de instante em instante : C á direita ! Agüenta! — Com a mão À/jfJjffl/ ° ramo. — Arre! Que brincadeira! Nunca pensei que o rio estivesse tão cheio. tudo é agreste e selvagem. iam vagarosamente. Algumas vezes tinham de se abaixar para se desviarem dos iii."" UiYfA. — Tudo aqui será uma grande difficuldade. Lentz que o seguia. Não é melhor . si tivéssemos vindo por cima. evitando os tropeços e as poças d'agua. não ha estradas.ffbos com a mão.rosto ou no corpo do vizinho.12-2 CHANAAN — Que juizo faz de nós ? perguntou Lentz. e virou-se para os immigrantes.. pensava elle.*/ Xí^jtz**n. e uma lambada forte e farfalhante batia no.. largava-o. em frente a um atalho. porque realmente tomámos pelo peior.hJjo C/ gritar nara traz. galhos e dos arbustos. calado. Oh ! diabo! O agrimensor n"um falso movimento metteu o pé n'agua.

os colonos não querem fazer nada. — Imagino que o senhor deve ter muitos aborre cimentos. a política se mette no meio.CHANAAN 123 que eu desista de fazer esta vida de colono. .. que lhe sorria como um bemaventurado.. ao penetrarem mais e mais no matto espesso.. E que não se faça! Lá vae uma queixa por intermédio do Roberto ou de qualquer outro figurão ao governador.^ campanha contra a natureza inculta! Não é pxe-' LL&Á/ ferivel toda e qualquer outra vida a esta ? Não é?. e matando a solidão. Em geral. limparemos as estradas. — E pena que a estrada não seja melhor para gosarmos desembaraçados este passeio. prepararemos o terreno. receioso de deixar transparecer o seu desalento. levantaremos uma habitação risonha. limitam-se á sua casa. que lhes dê estradas. Não é verdade ? — Aqui não falta em que trabalhar. e. sabe. disse complacente Milkau.. e nós estamos a levar carões todos os dias. — Que delicioso deserto! dizia-lhe este. que loucura dfffax-me n ' e s t a / ^ ^ . ao seu terreno e esperam que o governo se mexa. pontes e tudo mais.. que nos recompense. — O h ! descança. onde o caminho já esteja aberto e tudo aparelhado pelos / / outros? Realmente. cortou o agrimensor. que havemos de abrir caminhos por tudo isto.. e me enterre ahi n'um armazém de commercio. E os seus olhos descançaram em Milkau. respondeu o outro quasi timido.

/ ' CHANAAN — Não faltam amofinações. que por sua vez o mandou para cá. E a minha vingança é que quando vier o dinheiro. como de costume. foram á fonte limpa. tenho um officio do inspector. Sou um seu creado.estou me ninando para o governo. Immediatamente depois. mandou o papel ao inspector... com medo das eleições. — E n'este tempo que recurso têm os moradores. si a ponte cahir? perguntou inquieto Milkau.. Andaram mais um pouco pela picada e sahiram vertical- . será muito pouco.l-2'i //. elle tinha esquecido tudo e voltava á sua jovialidade. e é preciso fazer a ponte de novo. mandando o engenheiro informar a respeito fájj&ffl representação dos colonos sobre uma ponte que está com o madeiramento estragado. os colonos porém. o páo vae apodrecendo dia a dia. que são matreiros. — Ora. muito simples. e Roberto arranjou com elles um « nós abaixo assignados ». porque o tempo não descança. Lá vem outra vez segundo barulho.. Isto leva ainda um rôr de tempo.. ao engenheiro.. Agora mesmo. Botam uma pinguela de lado a lado e vão vivendo. o governador se assanhou logo. inspector e toda essa recua. o inspector não se importou com o que disse o pessoal... A zanga do agrimensor era d'essas que passam á medida que é espraiada n u m desabafo de linguagem. a fim de fazer o orçamento das obras. que mandou para a Victoria. nós pedimos verba e. Creio mesmo que já cahiram uns páos . e .

Felicissimo../v b r a j f ^ / e calida. de separação do mundo os mortificasse por instantes.. Não viam nada de lado a lado : a vereda fora aberta em plena matta e tudo era encerrado n'uma som. accrescentando : — Este lote é muito bom. concordou Milkau. porém.. que era forte e traduzia a fertilidade do solo. j&W*' — Está aqui o lote que lhes recommendo. Depois do roçado.X / / mentos. a difficuldade está na limpa.. . com as arvores crescidas e todo tapado pela vegetação. e ? dissimulando a divagação dós seWoutros pensa. impacientou-se por uma resposta. a quem uma onda de illusão sacudia o torpor da instantânea cobardia. disse Lentz arrastado. disse ' Felicissimo.. / . andando mais uns passos pela nova estrada. vejam que terra cada páo de respeito. — Estou por tudo. Oh ! Ha de ser um gosto ! — Aqui estamos bem. É preciso um pouco de trabalho. fazem um arranjo com a turma..CHANAAN 125 mente a' um caminho mais largo e mais limpo. Os outros olharam um mattagal cinzento. / ^ T ^ 9 í Ficaram mudos e como ligeiramente apavora^ dos pelo recolhimento das coisas e como si uma sensação de isolamento. o que não é nada. e elles acabam isto n'um abrir e fechar de olhos. Vocês. em cujo espirito trefego e intempestivo o silencio não tinha abrigo. não nego./ .

de arrancar do seu seio pela força e pela violência a nossa alimentação. atacando aTerra. mas virá o dia em que o homem. adaptando-se ao meio cósmico por uma extraordinária longevidade da espécie. — Eu. — Faz pena.. e então dispensará para subsistir o sa«/crificio dos animaes e das d/fyff.Por ora nos conformaremos com este momento de transição. E Milkau disse com a calma da resignação : — Comprehendo bem que é ainda a nossa contingência essa necessidade de ferir a Terra... ha de sempre destruir a vida para crear a vida.. e firo menos o que ha de material n'ella do que o seu prestigio religioso e immortal na alma fiumana. para nos expandirmos. levado pelo mesmo sentimento.\>í. preferiria um lote onde não fosse preciso esse sacrifício. — Não ha nenhum. acudiu Milkau. disse compassivo. CVi^A^y^ rto> t*+. — 0 homem.126 CHANAAN E apoiou-se negligentemente a uma sucopira. que alma tem esta arvore ? E que tivesse. botar tudo isto abaixo.. Sinto dolorosamente que. Nós a eliminariamos.offendo a fonte da nossa própria vida. receberá a força orgânica da sua própria e pacifica harmonia com o ambiente. respondeu Felicissimo. Emquanto os outros se batiam em ^ptAtevrad. E depois.íw+***- l—J .. notou Lentz a sorrir com ar de triumpho. como succede com os vegetaes. por mim. O agrimensor olhou a arvore.

*Z.1++& Os immigrantes concordaram de bom grado em j ^ . — Será uma delicia uma casinha n'este bello logar. espantando os pássaros dormentes e c ^ J^ \ sacudindo do voluptuoso lethargo os calangos. Vien-Z^AM.. folhas passava brandamente. alvoroçados com os vários sentimentos que os trabalhavam. *<^* A^~ * t~ sy**w/y y . E agora toquemos para o barracão. e. — Fazem muito bem. que se escoava de ^rtodas as arvores.. dadas ás victimas no momento do sacrifício. porque esta situação é admirável para o café. são horas do almoço... ^ A aw— Então. — Hão de ver. Puzeram-se a caminho.os troncos. que jv*. e com a mão meiga lhesjfestejava . levantando um V* murmúrio baixo.CHANAAN 127 Felicíssimo. além disto. E hoje mesmo voltaremos com os homens para a medição. no seu amor ingênuo á natureza. como as queixas surdas dos mo-1—«t^^i^j-A^ ribundos. que decidem ? perguntou aos outros o *<*?' / / agrimensor. mirava as velhas arvores. — E vê-se bem o rio ? indagou Lentz. é muita commoda aqui. estabelecendo terreno indicado. — Sem duvida : é só desbastar o matto. humilde. commentou Milkau n'uma irradiação de intimo bem estar. como /s u l t i m / s $ 0 f ô « . tro da matta penetrava o vento da manhã e nas y \ . Na estrada </4<r/ " ? ^" falavam alto. á beira da estrada. ahi está á vista o estirão d'agua.

e em uma d'ellas Milkau teve de encher i com as indicações especiaesde identidade os pontos em claro. foram logo para o escriptorio. graças á condescendência do chefe. em frente ao grande mappa dos terre[ nos.se concentra nas mãos reduzidas de um humilde agrimensor. E eis como. pois ainda não puzeram nada no alforge. e foi esta a única formalidade para a entrega do prazo. As folhas dos requerimentos eram formulas impressas. n'uma musica de chocalho. e. continuando nos mesmos elogios. com f l^t/iS™^'/ ás suas repartições publica/. — Vamos á boia. Este furtou instinctivamente o corpo como para não ser esmagado pelo gesto da intimidade. á semelhança dos outros que já tinham sido concedidos. o agrimensor mostrou-lhes a posição do prazo *« A. que já vae ficando tarde e vocês devem estar dando horas. disse Felicissimo passando a mão espreguiçada no hombro de Lentz. os seus innumeros funccionarios. pois. pagaram as custas da medição e da planta. que de facto é o senhor absoluto d'esses bens públicos. ao mesmo tempo. Os trabalhadores já rodeiavam a mesa prepa- ^ 1 ^ ^ ^ . afinal. pensava Milkau. Chegados ao barracão. toda a complicada engrenagem do Estado. marcou o lote com uma cruz.12S CHANAAN se escapuliam pelas folhas seccas. Isto feito. Felicissimo punha e dispunha das terras a distribuir. os dois companheiros entregaram a petição assignada.escolhido. ^ V &i&&*y&€sr+y • fu*~ **' . e ahi. molhando úma penna em tinta &JU*^ encarnada.

retiraram-se do barracão. arrastava-o no meio de amáveis insultos. bufando. Para o fim. Uma alegre algazarra se formou. não poude resistir e cahiu n u m a scisma profunda. Depois armaram-se com os instrumentos e ferramentas e puzeram-se em marcha na frente. uma súbita preoccupação_£8 apossoü^aelle. cada qual esmurrava o companheiro. Isto espalhava na mesa uma leve melancolia. habituados a essa afflicção intima do agrimensor. Felicissimo passou a entristecer. em que mergulharam as mãos. Mal acabou o almoço. rindo sem saber de que. d'onde o semblante do chefe carregado de sombras os expellia mais depressa. quando os outros entraram na sala. e que era o prenuncio das medições dos leites.CHANAAN 129 rada pobremente para o almoço. esfregando depois as caras com estrepito. Milkau cortezmente procurou con- . A refeição a principio correu ruidosa : todos estavam expansivos pela fome e pelo começo da familiaridade. que refreiava a expansão. E á voz de commando a alma obediente dos homens serenou e todos em ordem terminaram a ablução. mas alvar e gostosamente. os homens da turma. O boccal do barril era pequeno para tanta gente. Por vezes. — Vamos! aviem-se. No terreiro cercaram um barril d'agua. Felicissimo com os novos colonos ia atraz. gritou Felicissimo. no caminho. e os homens rindo disputavam entre si a precedência. e por mais queluctasse para disfarçar.

Havia uma calma grave em todos.130 CHANAAN versar com o agrimensor. Depois de algum tempo. se mettia comsigo. .? brancas e encarnadas. E virando-se para Milkau e Lentz. que recebeu em suas mãos com febril anciedade. Isto é v theodolito. toISÜS?" 1 0 " P o s i Ç a o c o m ° s e u fftffflífofri e ordenou a três trabalhadores que seguissem pela frente da G*) f—J estrada com ds marcoo. abrasados pelo calor do sol. Então seguiam em silencio. Pediu J|KM cavalloto om fôrma de t r / que um homem lhe apresentou rápido. em que Felicissimo deu voz de alta. mal respondendo ás perguntas. Hoje fazemos U >. disse com solemnidade : — Não sei si os senhores conhecem. depois de andarem bastante. ^ „ S í£.jb í **** / %2tl ' ÓZs-c frjb* y*^~ ^T^ JÇ^ o*». que. yfc-*» *** % »* f ^ * < 1 * 9 y%. / W "& 11 *V*-.' o t r V A ^ • ~~ *-***: . Estupenda invenção! Dispensa grande trabalho para levantar as plantas. — E aqui que temos de abrir o rumo. Houve um momento. O X agrimensor os acompanhava com uma compenetração religiosa. soturno. / medições emquanto o diabo esfrega r/olho por- / Q. e o moço cearense entregava-se á sua tarefa com extrema attenção. ruminando os seus pensamentos. quo sram^balisas pintadas / / / em zona. e re aquelle passou o agrimensor a atarrachar o instrumento. / Os trabalhadores começaram a desatrelar os instrumentos e os seus apetrechos accessorios. Todos pararam mecanicamente. e foi com certa sofreguidão que viu abrir-se uma caixa e d'ella ^ r e t i r a r um instrumento. que mesmo no matto coberto era abafadiço.+ h* .

. que conheciam esse momento terrível do theodolito. E a afflicção do agrimensor n'aquelle dia redobrava á vista de Milkau e Lentz.7 ainda mais solemne e entregou-se todo ao instrumento. com medo de algum desabafo. Elle tem hoje o . sempre com insuccesso. voltava a rectificar as lentes. e para Felicissimo. como sabem. erguiase para espiar por cima. parecia interminável. Voltava ao instrumento. é a combinação do nivel e da altura: toma-se um angulo horizontal e um angulo vertical ao mesmo tempo. ora de menos. sem resolver-se a medição. atado em sua angustia. ora abandonava o apparelho e ia miral-o de longe. um suor frio e extenuante alagava o agrimensor. O agrimensor calou-se ^nrt*«*«. tornava a ageital-o. E só n'elle/ Felicissimo se transformava. Em roda faziam um timido silencio os trabalhadores. . ^ para quem dkjí preparava a scena da sabedoria. O tempo ia correndo.. no chão os pés queimavam. mirava na objectiva. torcendo-as ora de mais. Grande invento! Sem elle não sei como me arranjaria! Os novos colonos conheceram pasmos um novo Felicissimoiy não sorriram. — Ah! disse aos hospedes. Já o tomava a angustia de não acertar. f//~r O sol esquentava.CHANAAN lál que. mas ora teimava em seus movimentos. espiava outra vez e sempre o mesmo resultado negativo.. Cada um o temia e instinctivamente se ia afastando do apparelho perturbador.. a ponto de insultar e espancar os seus homens. abaixava-se.

enfraqueciam-no. depois. que agradeciam com os olhos a presença dos novos. murcho. Com certeza ha alguma coisa ahi dentro. E. Felicissimo ficou colérico. Felicissimo arremessou-se ao primeiro : — Oh! seu ordinário. 'cww E c o a v a raivoso o grupo dos trabalhadores.^ O homem «e desculpo u-f dizendo que arreiára o marco quando o chefe já não estava no apparelho. Hoje está muito quente. tornavam-no gago. si . evitando maiores conseqüências da cólera do chefe. Milkau com pena. Com certeza foi quebrado por algum d'esses miseráveis. mas a anciã e a vergonha do insuccesso não davam forças á sua ira. N'este tempo os homens das balisas estavam fatigados e começavam negligentes a oscillar os marcos.132 CHANAAN diabo no corpo: não consigo vêr nada.. quem sabe? O theodolito pôde estar quebrado. Mas para não perdermos tempo. eu logo vi que era você que não me deixava pôr em ordem o theodolito.. e agora definhava no desespero de conseguir qualquer observação. Almoçámos bem. Voltou ao instrumento. tínhamos andado antes. o senhor está fatigado. e em casa mais á vontade o desarma para vêr.. Uma grande tristeza se apoderou d'elle. disse-lhe : — E melhor deixarmos isto para amanhã. Deixe para amanhã com a fresca. Ao contrario. afastando o páo da linha. — Sim. é melhor.. .

E como o agrimensor se approximasse d'elles.tf1/ telligente. abrir o s . Faltava. mas emfim. o apparelho está quebrado. em mais de duzentas medições. apagando os traços da agonia scientifica. o allemão parou. a alma de Felicissimo se ia libertando da angustia. s . lhe alterava o caracter. — Estes mulatos. A medida que o theodolito ia desapparecendo na caixa. que sobre elle exercia uma influencia satânica. — Com certeza.. Elles sabiam bem que o agrimensor. alteando a voz. um pouco sarcástico : — Vamos á fita! A medição fez-se como sempre.CHANAAN 133 fizéssemos a medição com a fita?. não conseguira trabalhar com o maldito instrumento. dizia em aparte Lentz a Milkau.. porém. o punha fora de si e era causa d'esse terror cujos prenuncios lhe sombreavam o espirito desde o fim do almoço. não ha remédio. Os trabalhadores ráj&taa^fcss todos com ar in. ordenou Felicissimo a um homem.. disfarçou.. — Guarde isto. As medidas foram tomadas na fachada da frente do terreno e nos fundos dentro da matta: postes fincados nos quatro ângulos assignalavam o lote adquirido pelos dois immigrantes. desinteressado do theodolito. apontando desdenhoso para o instrumento. e o seu jovial humor o retomava francamente. E um systema atrazado e de que não gosto. Cumpria-se a velha e costumada comedia do theodolito.

. Ouvia-se cahir o machadodes- . O rumo ia sahindo acanhado e torto. Mas quando miraram o serviço feito. si este não sahir de accordo com a planta. O ferro não descançava nos braços sempre em movimento. Milkau dirigiu-se a Felicissimo e perguntou-lhe si podia contractar com os homens esse serviço para aquella hora mesma. uma fúria hysterica de destruição. Havia uma raiva. ladeando quando se encontravam com uma arvore mais robusta. Nós tomamos a responsabilidade de abrir novo rumo. dos outros.L1-Í "rrvotfáy CHANAAN rumo que separasse de lado a lado este quinhão de terra. e em pouco tempo estavam completamente alheios a tudo e entregues á sua vertigem malvada. os marcos estão collocados e o rumo irá sendo aberto com as balisas e medidas rigorosas. ainda receiosos de ^ yJMp^x/n^r ú^J trabalho. — Não seja essa a duvida. O cearense objectou que a planta não estava tirada. disse Milkau. os pequenos arbustos. e derrubadores em grupo combatiam ao mesmo tempo uma pobre arvore. Momentos depois. O agrimensor bondoso e serviçal acquiesceu. para cortar. a principio « W iam escolhendo. n'um compasso vagaroso. os homens como que despertaram da sua instinctiva preguiça e estimulados á vista dos extranhos se atiraram duramente á derrubada. os trabalhadores estavam a derrubar o matto. O machado cantava com energia no âmago dos troncos. e Milkau *» entendeu^com os homens.

o golpe era tirado bem do chão. campo. e das / / / ? boccas rudes deixavam sahir os velhos cantos amados. tudo o que mais amava com as intimas. o drama da sua vida esse abandono da terra natal. E cantava n'um tom que era um longo soluço : ///óCLeal-i ^J r //J7 u 4k Adeus. agora harmônicos e regulares. agora. e a alegria' se lhes espraiava nos rostos congestos. habituados ao exercício. redobravam de ardor. O mulato maranhense dizia as saudades do seu coração. A pequena fadiga fazia bem aos seus membros hercúleos. casa onde morei! Já que é forçoso partir. paxá J(éffifá0$\° homem tinha de fazer um esforço desesperado. Os allemães instinctivamente o imitaram e cada um em sua própria lingua cantava versos bebidos na fonte natal. o suor lhes escorria. Quando estes encontravam um páo mais duro. Joca fora o primeiro a soltar a voz. Era o grande acontecimento. Não mais roncavam com a anciã dos primeiros movimentos. Adeus. matto.distrahiam-se. E elle o cantava sem attender a ninguém. cravando mecanicamente o machado nas arvores. Algum dia te verei. e no impulso furibundo o ferro penetrava tanto que. energias do seu ser humano.CHANAAN 135 locando o ar e arrancando um ronco forte dos robustos peitos dos devastadores. Iam para adeante. Em outros momentos j . serenavam. e adeus.

» (os velhos allemães bebem mais um. noch ein. Si o teu rasto faz chorar! Jb e***rüjj'*''N'esta imagem tão ijina-e-tã-e---mpEtior de um sentimento animal.. e dos seus labi<*§ inconscientes sahiam versqp de outro caracter : Vi o teu rasto na areia E puz-me a considerar : Que encantos não tem teu corpo.«(\ / -Miifetba-iJStavia uns diasjno alojamento dos immigrantes.<fQI/ e mais alegre.. Joca se expandia ém gritos voluptuosos. $**~ os immigrantes sonhavam-W pela suggestão das t r^~. 'dl&g^ed. mais um). A esta solitária voz brasileira se juntavam os accentos fortes e musicaes das vozes allemãs. Perpassava na cadência e no pensarríento da estrophe o frêmito da lux-uria meiga e jj-----^ . A derrubada do rumo proseguia mais activa V. e ruidosos : . e por um momento alli mesmo. em plena selva tropical... fií . e os versos que diziam eram echos das tabernas do paiz germânico. Noch. noch ein. Elias cantavam em coro. — .' qju /cantigas.y . Teu rasto faz chorar. i r i 1 ' doce de toda a sua raça. dléMàMa' embebido na contemplaçãolcorrer y\.l-M CHANAAN abandonava esse queixume. /reunido^ aa beb L Jt'I « Die alten Deutsche t: fen noch ein. que se casavam no ar n'uma 'união extranha. Os echos recolhiam as rimas singulares das duas raças. os immigrantes sonhava beber.

uma fumaça grossa se desprendia do . l/-«/r~-#^ Amanhecia. Sentia que um pouco da belleza O e do esplendor da terra ia morrer. por toda a parte destruindo como um r^^. e disse ^*~ *£«*_ resolutamente: 'TL--»**' t u — Temos de queimar o matto. na mulher que elle ama. n'uma subor/y^t^t^. tudo tem uma voz. ' '^T^y.**• cortado.-L-U.„•£$»«-. de quem vae cumprir os ritos de cultos infernaes. Milkau perdoava ao homem.CHANAAN 137 o tempo-. /^. os homens fftfflfy reu. Mas. á necessidade. dinação indiscutível e indefinida.^^" p*^ monia eterna do universo./ / y n i d o s ^ * todos penetraram na floresta com um recolhimento sacerdotal. uma alma na har.. ainda assim. N'um dos ângulos da matta lançaram fogo á primeira moita. {/' dora. a A ^T '• queixa da floresta ardente.Í^~«A'-*" panheiro. passando indiffcír^y ferente sem ouvir o gemido do mar rasgado. architectada pelo seu coração em longo sonho.(gn 'OÃÕHse decidida começar essa vida. fatal portador da morte a integridade da fôrma. y»**r«M£tTudo vive.. Comprehendia a fata-^l^S?Z lidade do seu destino e resignava-se. ^ -T^ A idéa do fogo chammejou no espirito do com. Pouco depois. quando se chegou a Lentz. I rápidas. apontasse para o alto as línguas ardentes. i Uma piedade indefinida deante do sacrifício da matta o entorpecera. rubras. E Milkau vibrava_^__ !?<yZf com a recordação de todo o soffrimento que o AM^4^* I homem tem causado no mundo. que lhes pareceu mais resequidi Antes que a labareda . E em roda d'elle a vida em tudo : na terra gera. no pó que pisa. o estremecimento do ar tj» .

Muitas ^*$r " ^ 7*P arvores estavam contaminadas.„„.as veredas e arremessava para a frente o bafo syf^h y~y.quente do fogo. resinas que se derretiam estrepitosas. tí/k-c*. ardiam como **». remontando ás alturas n'um vôo deses. Pelos cimos da matta m escapavam aves t£Z* Lry*^ espantadas. Uma araponga feria X < ^ rr / ACOVO ar com um grito metaTlico e cruciante. e as /.&*••' /*~y /^ lavam.-4.13S CHANAAN fundo da toiça."e. e triste. atiçando as c h a m m a s .***^yy. . Os homens olhavam-se a t t o n i t o s ^ .„„„ procuravam „„„ „<. faziam *.t / r w _ de arvores q u e cahiam.íL vr*-. fogo r„n . e estendendo os braços umas <"jj£" */i A ás outras espalhavam p o r toda a parte a voragem ÁÜl-e-v /y--^° i n c e n d i o . troncos verdes q u e esta. fugindo á perseguição das columnas que mar.yf l/ v< ^ ei^ ^ perado. pairando sobre o fumo.chavam. que lhe seguia no encalço. Alguns se ^^Jfjtsam fí*/y~0i Z\ tf qv*td>/)+*£+' v .AJ nhos dependurados arderam. g^' dora fuzilaria. D„ „ „ .**. ^ a* ©»*>». Línguas de <#" * C V T V . vagando na direccão dos caminhos como pastosas nuvens.•afc parasitas como rastilho de pólvora levavam as' /é&^y*' chammas á copa. Pelas abertas do matto corriam os animaes destocados pelo furor das chammas./ «tfie esfusiava. Começara a queima.t/A+f viperinas attingil-os.f ^ ^ ° r " Toda a ramagem da base foi ardendo. Pesados galhos <*? rfg. Çf fogo sé erguêra-e lambia n u m a caricia satanicjuos troncos das ar.yvores.*» * T * ^ . Os ni.££< f't*d> a m u s ' c a desesperada de uma immensa e aterra.. suspendia-se no ar leve da floresta. e um piar choroso ^"'j entrou no coro como nota sryyft.. e a fumaça augmentando entupia 'ff+l "i l^yr— f*. O vento penetrava pelos claros abertos %*%% 4j^ < >.<-.i „„ Recuavam.„•„„„. ~ l**M l*l. deante do clamor geral das victimas.?*. Estas estremeciam n'um delicioso espasmovPá ' " ú L j .t o c ^ a s monstruosas. ^ .

centuplicou-lhes as forças. e. repararam que a devastação tetrica lhes C*/r ** ameaçava a vida e era invencível pelo matto a dentro. quando a ./n . continuava a queda dos galhos. sôfrega por saciar o appetite. O fogo não tardou a penetrar n'um pequeno taquaral. a columna. com febre. A nevrose do pavor. cavaram a trincheira pelo rumo. os homens viam amarellecer a folhagem verde que era a carne. Ouviram-se succesrvas e ^<> medonhas descargas de um tiroteio. at. Ahi abriram rápido o sulco protector. no meio da floresta. erectos.como um ser animado. com anciã.CHANAAN 139 do perigo. Do lado da praia o trabalho foi fácil. ^»arrojavairr"eontra os páos comodenodo de gigantes. nos limites da área do lote. N'um alvoroço de alegria. tinham recorrido ao fogo. não podendo vencel-as. e feno der.avançava solemne. Mas o fogo avançava sobre . com raiva.jg^ os troncos firmes. Sobre a terra queimada na superfície. quasi pelas terras alheias. E afogüeados.. agora. que eram a "* ossadura do monstro. ^//>)rfp/ndo-lhes o prazer.. O aceiro foi sendo aberto. Surpresos. aquecida até ao seio. atacavam-no a machado. Os pygmeus que se não mediam com as arvores e que. E feros e duros atiravam-se á enxada para cavar o aceiro. sob o aguilhão da defesa própria. Do outro lado. a lucta foi tremenda. até que o fogo se approximou.elles. o terreno estava desbastado e limpo. outros cahiam inertes na fornalha.///***£ tonitos. ennegrecidos. si encontravam o embaraço de algum tronco.

^ t . e célere. invencíveis sacrificadores da terra. Já os homens n'um esforço immenso se tinham adeantado. logo que se reconheceram senhoresdo perigo. incendiado. da varanda do barracão. os estampidos redobravam x as labaredas esguichavam. dè Ml . As chammas s a abeiraram""aa valia e. A' noite. . satisfação a matta esbraseada se estorcer nas agonias do incêndio. e os outros miravam n'uma diabólica. Milkau chamava na sua imaginação a vinda dos tempos sem violência.140 CHANAAN taboca estalava nas chammas. e lépido. < Os colonos e trabalhadores semi-mortos voltavam á casa. O fumo crescia e subia ao ar rubro. i^r/Jíendo os arbustos.^ £ v / d e t i v e r a m e^^se/espalharaqojpara a direita e para a *u—/ esquerda. emquanto a fogueira circumdava n'um abraço a moita de bambus. A cem metros de separação. continuando a sua obra. o fogo desafogou-se. deante do^^spafd-aberto e intransitável. quando as estrellas em rythmo moroso parecia caminharem no céo. Farto de devorar a carne dura do /// bambual. até chegar ao aceiro. que se erguiam á margem. os colonos cavavam sempre. IIJd(yr*y foi veredeando por um atalho.

quebrando a uniforme monotonia rústica. do domínio e do orgulho. como veladores Penates que o homem transporta nas suas migrações sobre a terra. Estava povoado de retratos. o pae illuminado por um sorriso de martyr. Trabalhava mansamente no quinhão de terra que occupava. quasi filha. Apenas. era humilde como as outras dos colonos . o quarto de dormir de Milkau impressionava como uma capella ardente de amor.A felicidade de Milkau era perfeita. ou uma pequena consolação da volúpia. d^veneração e de saudade. essa mãe. A sua pequena habitação. apagado do jfe« espirito as manchas da ambição. e deixado que a simplicidade do coração o retorpasse e inspirasse. com grandes olhos de dôr e supplica perenne. erguida no silencio damatta. Tinha limitado o inquieto desejo. Ahi se viam pessoas da família. e a mulher. nada existia alli que fosse a traição de um gosto refinado. creança que amara quando ella .

^ ^ Fnuicn a pougy'. d ^ # # # f p uma armadurajnvencivel. emanado do amor e das lem>#<áá»M&-!?ranÇas' ° envolvia. f/j Q) çfy / o m essas imagens sq& Milkau vivia na e ^ ^ . con or £~ ffifáffltâffjem orgulho de intelligencia. vazio do que isolamento. OsÁ(fi/ffl/ eram retratos das grandes /// w figuras humanas. ~ * t o perpetua £ o m m u n h ea oque ffâtifc dá a alegria enche oreligiosa. e/em sua presença tinham instinctivamente j T uma artitude cheia de sympathia e respeito. Milkau Jj estava destinado a ser pouco i pouco a figura cen- . não pelo que tinha feito. mas pelo que aspirava fazer. /cntindo s/ ' feliz e engrandecido. Vendo-o assim attento. que. Éll^ jMl j I ^ fee]7entia^amparado por um fluT3o~~dTr"e"spérança. /g/fa.142 CHANAAN c ~f. q^tdfíÇ não atemorisava com a sua educa-p^mm ção. mais lhe queriam os cam<~ ponios. que o recebia sem desconfiança./se f 7JJfò6l y mava»com todas as lições que lhe davam os a n t i g o s ^ ^ cy e experientes colonos sobre aslcoisas da lavoura. O trabalho pelas próprias mãos (|hej\davAa sensação positiva <*da sua dignidade humana!"ps<Jeus olhos procuravam em torno o mundo para onde elle -m queria l t dirigir/n'um forte desejo de affeição. poetas. e que ia se deixando infiltrar da sua cordura e meiguice. Milkau èejéspraiavgpem relações et-J ^ com o grupo colonial do ria DoceT Achava um ' encanto em conviver com essa gente primitiva. dentro d'esse quadro(jJjie/sonw/^ > ' como uma deslumbranter_e§urreição. E ávida. soffredores.passara deante dos $ffi olhos. " " I I derêsígnação. amorosos. transfigurando-se para morrer.

e a bondade do sentimento entorpecia-lhe as maldades grandiosas do seu idealismo. das compras da casa. os colonos iam absorvendo o seu inuriortaj/prestigio. elle. extenuando-see acalmando-se.< ^w/*^*'/<*"**" . torturando-o essa pungente agonia de praticar a existência condemnada pela idéa. defronte do barracão. se completava na contradicção. cercado da sua >. sem reparo. Ficara alli ao lado de Milkau. Lentz se encarregava-das viagens. era para elle uma grande humilhação. .. que eram o estimulo para a agitação do seu pensamento. incapaz de abandonal-o. e. E assim inactivo. o apóstolo da energia. A vida que tomara. como a terra bebe imperceptivelmente as finas gottas do orvalho até ficar saciada.n um esforço tenaz e porfiado. como -um verdadeiro homem. desdenhando qualquer conversa. Para se distrahir. o velho allemão ágil. paralysado. Era então que lhe succedia encontrar no matto o vizinho taciturno que passara. caminhando na doce sombra de Milkau.Í^Lentz/vivia^ triste n'um intimo e reservado desespero. enérgico. jiójê!^ áo seducções do camarada.. <r CHANAAN y ^ ^ ! 143 trai d'aquella região. na tarde da sua chegada. seguia qual uma visão primitiva. o creador da força. e sentia uma expansão de alegria quando atravessava solitário as montanhas em silencio £/ sobre ellas dava grandeza aos seus sonhos devida. Jaw"0 . e dar um pouco de fadiga aos nervos. Ao contrario do seu companheiro. O caracter fraco trahia a audácia do sonhador. Outras ve?es caçava. Sempre calado.

que ainda viviam em Milkau. levavam-no a desejar attingir a eternidade e dissolver-se no infinito. á hora 3o amanhecer. todos se preparavam para essa diversão. alevantar-para o ceo. resolveu ir ao Jequitibá. n'um soberbo movimento de força e desespero.144 CHANAAN ardega matilha. Famílias e grupos ininter- . e querer s . E na madrugada seguinte. Uma tarde. de orelhas cahidas. dia Estava elle todo possuído ddy^f espirito da ascensão e sua alma escalara também as regiões silenciosas. Quando já se avizinhavam do Jequitibá. formando caravanas. os dois amigos partiram. Sob a transparência crystallina do firmamento. E também as essências mysticas. iam pelo caminho encontrando colonos a pé ou montados. Milkau. trazendo a noticia deque no dia immediato haveria uma festa em Jequitibá. marchando sempre por um caminho de montanhas. cujos cães o festejavam aos saltos ou iam á sua frente. sahir de si mesma. O novo pastor celebrava o seu primeiro serviço religioso com o<êoncurso dos pastores de Altona e Luxemburgo. plácidas e vastas do infinito. Em Santa Theresa e nas casas de colonos por onde Lentz passara. que se queria identificar com os hábitos da nova sociedade a que se consagrava. Raras vezes a paizagem transmittira a Milkau uma emoção maior do que n'aquelles terrenos altos. n'aquelle instante de exaltação e vertigem. a terra intumescida parecia. farejando o chão. Lentz voltava de Santa Theresa. para o espaço.

CHANAAN 145 ruptos enchiam as estradas. era com uma alegria de recemchegados que se saudavam mutuamente^Alguns passavam a galope. tr* ' ^ *ij> descortinaram a capella do Jequitibá. e.JJ XÜff pelarem. que ondeava. feito de uma dourada luz e de pequenas elevações. e os colonos não se reuniam desde essa epocha. brandas e fixas de um oceano manso. mais a multidão se engrossava. era como uma presa arrastada vagarosamente por um formigueiro. segui jfâfitykhubiam por uns degraus de madeira fir dos rra terra e que muito espaçados chegavam! ( CJ&iV / . ao saturem de um caminho? coberto. como ondas regulares. ra. Qa dois amigoof^epois de algumas Jioras de viagem. e esse araou/communicando-s%aos outros. Todos vjateuq. parecia borbulhar de dentro da ^g^_<-*-"" terra. 9^ Estál ficava-lhes a frente. Quanto mais perto da egreja. pois havia muitos mezes que não se abria a> capella. então era de vêr a carreira folgazã de toda a gente pelos caminhos. A multidão. e tomavam / j ó ^ r y t h m i c a marcha de <f/rij procissão. rodeiada pela """ " multidão que fervilhava. excitados pela fresca da manhã e pela esperança do prazer em sociedade. ^ ?>/**/ «^/"/~ <n~ Acharam-sè]4ãpei«í base da coluna. Pela encosta do morro que vae ter á «apella.'* os olhos dl<úhu abxan-Af\f^ giam todo o panorama claro. a capella branca. via-se a subida dos pygmeus. Em certos pontos havia /*-/-necessidade de dexWjfffíh o passo para não se atro. Ao longe.-—"r'1^" diantes. desemboccando (Jy*»»**^' alli de toda a parte.

o casaco severo.. yf Era u m / grande jfcase/ de colonos da região. uma entrevista nas serras do EspiritoSanto. A medida que galgavam. / Alguns estavam alli havia trinta annos. amarrar os animaes nas estacas. ç ' outros ainda ^sag:louros e jovens. que era no fim da egrejinha. encolhida como pergaminho. O vestido largo. vestido segundo o uso do momento em que deixá*Y ra o paiz. passando-lhes o L # * / V ^ ^ embornal. uma^ b mistura de modas de muitas epochas. o chapéo de velludo. onde fotexÁ. o corpinho fino. já tão descançados e entorpecidos na solidão bonançosa < Mas logo se habituaram. O cimo. a capella. á casa do pastor. Cada uma das mulheres ainda tinha o seu *. como si fosse uma revista retrospectiva de modas. davam-se. trajes aldeãos. emqüanto a capella se não abria. os simples pannos brancos envolvendo a cabeça. ou a combinação phantasista de um baile de mascaras. e entretiveram-se. conservadas^ religiosamente em trajes que se não acabavam '„ mais. trajes de cidade. de cintura curta e babados. formava | uma esplanada. acotovellando-se. apear-se e . as rendas. — Só isto paga a viagem. e a sua ~ Sj pelle era amarella. as crinolinas. Trajavam as suas melhores roupas. o que m//p jffàM/jjffl. e n'ella a massa de gente se remexia. U m vozear confuso enchia os ares e turbava Milkau e Lentz. iam vendo viajantes que" chegavam em bestas. em mirar o povo. as toucas de seda. disse Lentz gra- .1 iü CHANAAN até ao alto. esguio.

e ao longe descobriu Felicissimo. . /s$*' paletot pontas de lenço sahiam espalmadas.. $(l0fl/jli$0fi. darlio um passeio -fai.CHANAAN 147 cejando. j0> ^~^*-^ — Ora. por essas m o n t a n h ^ & u feitadtâi sombra de aif/y^r£ü=l guma arvore? /<§/' /JPã »*«*'""* 9 . Misturado com o aroma da terra.^**-^ desdentado. amenisava o odor forte das multidões. tinuando as medições para outras bandas. disse Lentz. Joca e o grupo C L ^ de trabalhadores da commissão de terras.. um perito poderia fixar pelos vestuários a epocha de cada migração.. depois de Jtrt'e£*'' algum tempo. Cum•»**••-. *• « • « O povo continuava no seu borborinho tumultuoso p>rr^ *y*r e alegre. í ^ . Mas também admiremos a usÁs. — A alegria dos velhos é um mandamento para/ ^ / } .^ t*£ê~ mensor estava com um cravo ao peito e do bolso do f\£. guardadas longo tempo nos fao/AcÁ^^ bahús. para 9 ^ Cr*~assistirmos á sahida d^Sôvo. Que^DâgJmportaalmissa fl/£*'/**' do pastor ? Vamos espaí^jjP-fiirVda festa. Milkau mirava para todos os lados. que desde algum tempo tinha deixado o rio Doce con^>».****-felicidade d'este povo. — É verdade. o cheiro das /rr^v^**" flores que as raparigas traziam ao cabello e das e>li>my^ roupas domingueiras. /CJ*&H4 — Até os velhos. E está ficando quente.* c^L .primentou de longe. / . O agri. já vimos o Jnelhor. em voz baixa. concordou Milkau. com uma barretada e um riso Q^. acompanhando as observações que o amigo fazia sobre d^ f/f ddxisüífk das vestes. a vida.

três homens chegavam. Quando . de um deus ou de uma abstracção. Além. — Haverá um tempo em que o homem ha de enterrar com os antepassados o culto que elles nos legaram. é inattingivel á medida que caminhamos.. e o culto. Essa religião. além. seja do que fôr. fiquemos aqui e acompanhemos esta boa gente. esporeando com força os animaes.. ha sempre o desconhecido e o cultoqueoidealisa. francamente. não eiLgoifà o mundo dos pheno/ menos. Tudo será esquecido. Para destruil-o é preciso que o homem explique o universo . Milkau fitou muito calmo o amigo. que subiam arquejantes. hesitando si devia responder. — e a vida. é inseparável do homem. do nosso eterno pasmo no universo ou a exaltação do nosso amor. como a que divinisa a sociedade humana. por mais que se alar' j /-^Lgue e avance. elles podiam se divertir de outra fôrma. Elle é a expressão da nossa emoção immorredoura. A marcha da sciencia no nosso espirito é como a nossa na planície do deserto : o horizonte foge sempre. divina. Nós nos divertiremos vendo divertiros outros. Defronte d'elles.148 CHANAAN — Não . — Ella é veneravel como toda e qualquer outra. — Mas. no começo da ladeira do morro. E o homem viverá sem terror. e o conhecimento. Esteve um instante calado. Afinal disse : — O espirito religioso é irreductivel. e é sempre uma força salutar.

Olhavam os colonos como uma massa amorpha e subordinada. moreno e imberbe. limpavam o suor e muitos cobriam a cabeça 'y/)M^\ / /? 1 . o outro. Todos olhavam as portas cerradas da capella. Um dos v i z i n h o ^ í i i ^ ^ é ^ s e r e m as auctoridades do Ca. que correspondiam desdenhosos. os cumprimentos. muito fi joven. Milkau reparou n'elles e rtóou que/Y//v/*'rí eram os mais bem vestidos de todos. de monoculo escuro e costelletas. i&eaquant»/o terceira^" jdffh no ^ s ^ r o s t o claro.//r/ir>->Com effeito. um ar de fadiga e preguiça. meio barrigudo. com uma moldura de [fd/*****1. O sol já esquentava muito. muito reverentes e pressurosos de se recommendar. os cumprimentos se propagavam e d'ahi só se viam as cabeças abaixando-se na direcção dos magistrados. lhes tiraram o chapéu. e sob os seus ardores a impaciência crescia. O mais velho J+cy era um sujeito de cabeça grande. outros. silencioso. rompendo a agglomeração. Darba castanha. Lentz 7^1'A' teve curiosidade de saber quem eram. Os homens tiravam o chapéo. praguejando contra o habito de os deixarem de fora.CHANAAN 149 se apearam. se acercaram d'elles/muito prazenteiros. empertigado. e o velho de monoculo. Dois ou três homens da cidade. Fitando-os. esperava solemne. mais afastados. Por contagio e por instinctivo signal de respeito dos humildes colonos. percebia-se que sentiam a consciência de uma posição superior. era o triumvirato judiciário da comarca.

150 CHANAAN com o lenço. A multidão se impellia lentamente para as portas. O tom protestante é plebeu. o púlpito baixo. espanavam-se com os rabos. na brancura das paredes estavam inscriptos versículos da biblia. para adeante. como sempre. Abafava-se^* murmurava-se. emquanto mulheres velhas agitavam as saias. muito nú. as suas cerimonias de finas expressões symbolicas. ao fundo uma cruz preta com um sudario branco pendente. um grupo para se proteger do sol apertava-se debaixo de um misero arbusto.singeleza do interior. e ahi tò/dutáados observaram a iMôtih*. dizia em surdina Lentz ao camarada. Mas estacava. Milkau ^ j í y ^ d W . Não havia a menor pretenção de enfeite. inesthetico. . Alguns se esgueiravam para as escassas sombras das paredes. e foi uma invasão alvoroçada na capella sombria e íresca! Milkau e Lentz conseguiram logar n'um dos A bancos de madeira. com um aceno de cabeça. triturando surdamente o milho. os animaes bufavam. zumbindo. empurrando para traz. refrescando-se com estrepito. A porta afinal se abriu. e ornado de listas alvas cheias de palavras santas em negro. e espalhando o calor de corpo a corpo. — Muito triste. As moças atavam também o seu ao pescoço. que bem se casava com a simy plicidade externa. mil vezes uma egreja catholica. com a sua pompa. no centro. n'um movimento inconsciente de quem ia forçal-as. de madeira não envernizada.

— Não. . perdendo a própria essência na mais copiosa e allucinadora emoção. Parece uma pessoa. não ha remédio sinão darmos. chamando todos á respeitosa continência.CHANAAN 151 Em volta d'elles outras conversas proseguiam em voz baixa. para que lhe darmos o nosso dinheiro ? — Ah! isso você sabe.muito de bem. recomeçava a impaciência. A musica» infiltrávamos nervos dos ouvintes e Gs i amansavOmollemente. infinitas. Não fomos nós que encommendámos um pastor a Roberto ? Seja como fôr. que se esforçavam por conter. nos movimentos de pernas e de braços. E onde você o viu? — No armazém de Jacob Müller. outro dia. como murmúrios de piano e de flauta. Milkau vi/brava. Que conjuncto de sensações não se accumularam desde as remotas almas pro- (Jf' / / y*J. Não tardou. temos de o agüentar. seguidos de um acompanhamento mysterioso de vozes múltiplas. que um accorde de harmonium soasse. ^ —Ainda o não viu ? perguntava uma velha. mas que se percebia nos bocejos. Depois do descanço do primeiro momento á sombra. alludindo ao novo pastor. porém.. A multidão st apaziguou^ o instrumento continuou a cantar os solos. Musica!. A musicaenchialí^S** alma capaz de sentir os mais intangíveis e deliciosos segredos do som e de se transportar além de si mesma.. respondia outra. — Também si não fosse. Ha muito tempo que não ando por estes lados.

.. que rios de sangue não correram de pães a filhos. no passado. laia Milkau. entoava hymnos. na terra antiga. angélica. Musica! Canta a mulher ^. 1^1 recolhida. Milkau ficou indeciso um instante. Musica também lá em Heidelberg : uma melodia phantastica.152 CHANAAN genitoras. 4. elle. das harmonias. Os seus olhos meio attonitos descançaram em uma joven. não percebia mais as fronteiras do sonho e da realidade.. lf 0 J 0 fyp0f de um templo. que entra na sombra silenciosa e brandamente vae sentar-se. trabalhando. que parecia entretida em vêl-o dormitar. E Milkau. afinando o mundo dos nervos. como uma benção e uma luz do céu illuminando o livro santo. á sua vida primeira.. Continuava o sonho. Um sonho dentro de um sonho . Musica! Cessou o órgão na capella do Jequitibá. lentas.. escrevia poemas sagrados. ou era aquella mulher a sua visão realisada ? Parecia-lhe . E emquanto o órgão no alto da capella cantava.. Elle vê uma figura de mulher. carregado nas harmonias. ^ y £ . emquanto ella.. ^gEâ-de olhos cerrados. a alma musical!. Era n'uma egreja de Heidelberg. longamente.. mystica e crente. Tudo se/confundia extranhamente. carregando as vibrações recolhidas em cada cellula. dolorosas. debaixo.. Os olhos d'ella embebem-se na Biblia e sobre esta os seus cabellos caem n'uma chuva de ouro. enche a egreja. Milkau teve um ligeiro sobresalto e despertou.que Milkau amou. até emfim formar-se no homem a derradeira das suas almas. tomado pela saudade. porque escrever é cantar com a penna..

~se revoltára^naturalmente contra os civilisados. moveu-se. curvando o pescoço devagarinho sobre o peito. com a mesma suave e meiga expressão. Milkau reconheceu n'elle um camponez. o pastor ia desenvolvendo o seu allemão religioso. independente. que lhe cahia sobre o casaco preto. 9. E ella o olhava l/ vagamente distrahida^tí quando reparou que era / \ ' ^ examinada. que sempre entendeu como uma religião secca e simples. N'uma toada humilde e timida. em vez de continuar desembaraçado o sermão.CHANAAN 153 já ter visto em outra vida aquella mesma cabeça de macios e crespos cabellos de infante. uma religião rústica. pelo rigor excessivo de seu monotheismo. elegante e pomposo. a gente do norte inculta. Era um homem alto. cercado pela curiosidade do povo. aquella que mais se liga ao judaísmo pela austeridade. e voltaram-lhe á memória as observações de Lentz sobre o protestantismo. cujos melhores interpretes eram homens rudes. nos quaes o catholicismo se desenrola como um successor natural do paganismo. O seu primeiro contacto com os colonos era uma crise. barbara. Subia ao púlpito o novo pastor. . Na scisão da Egreja cada uma parte ficara com a rfaasdi Jt#lCy'p? dos espíritos que lhe era própria e peculiar. com uma barba fulva. Pelas mãos callejadas. violentos e radicaes. pelo accento da voz. n u m gesto de recolhimento de ave mansa. em rico contraste. pelas phrases. e. pela côr vermelha do áspero rbsto. astuto.

porque vendo que as suas palavras eram recolhidas por outros ouvidos da vizinhança... Agora se pôde vêr. A irmã feej^nteressa)por tudo.se preoccupavarm)com o pregador *«• e sua família.154 os-/ CHANAAN elle se detinha a examinar o povo. E a mulher do novo pastor... e muitas vezes parava distrahido. outras ia tropeçando para adeante. Na tribuna o pastor ia rolando o sermão. — Sim. — Ah ! E a outra é que é a irmã d'elle ? — Quem vê um. Outro dia vim preparar a horta.. creio que o pastor tem gosto pelas plantas. vê outro. Os ouvintes desinleressavain^Ê_da--atrapalhada e vagarosa predica e.. tentando . volveu concentrado e hypocrita á sua Biblia. a reflectir sobre si e os seus embaraços. procurando com vão esforço esquentar-se. mas me parece muito boa pessoa. Ao lado de Milkau um homem explicava a uma mulher que bisbilhotava a respeito de duas outras que se viam no coro da capella : — Aquella mais magra e morena... — Pobre! Então.. que lhe fazem ? O colono não respondeu. — Tem cara de judia. A cara não engana. pareceu-me uma alma penada em casa.. que estava toda abandonada. — E Frau Pastür? — Não sei. — E de onde as conhece? — D'aqui mesmo.

agitava a perna. A sua voz logo esmorecia e cahia na morna toada. ao juiz de direito. cahia logo.r -n. ás vezes. — Que macaco! — O grupo dos magistrados também não estava resignado ao enfado da cerimonia. O cearense arregalava os olhos para os n j / seus amigos do rio Doce. a fazer signaes de impaciência. e enfrentavam solemnes f a multidão . e bocejando. enxugando a testa que se franzia em grandes rugas. ao lado do púlpito. a<f> seu lado o /"rpromotor crispava as mãos. cocando a barba por desfastio. em frente a Milkau. o mais velho. sacudia bdftf a cabeça ^jf" n um gesto de contrafeita resignação.-seespreguiçava^Tio banco. Sentaram-se os três juntos n'um banco. fitando com desprezo e rancor o pastor e os colonos. não se cançava de gesticular.^» > -^ ^ ¥Ê^y . e em caretas successivas transformava a sua movei physionomia. o juiz municipal. aborrecido. Lentz não poude deixar de murmurar com um certo desdém a Milkau. que seguia complacente^ /ao agrimensor. ora tirava o lenço. e este. mal assestado ao olho direito. que era o juiz de direito. ora limpava o monoculo que. estirando as pernas. sorria benevola e cavalheirosamente. Do outro lado. bios cerrados. muito nervoso. estava Felicissimo. suando muito. e de la. _ /? K ^ „ti. obrigando-o a repetir indefinidamente os movimentos. murmurava alguma coisa. pondo machinal o monoculo para melhor entender. n'um grande abandono.CHANAAN 155 vociferar e clamar a religião.t < ^ £ ^ 1. o terceiro.

tangido pela musica. tinha uma attitude de gigante tímido. E o tédio envolvia a capella. No meio dos dois o novo pastor de Jequitibá. sem a menor vibração intima. tinha uma voz rouca.156 li CHANAAN Os allemães. levando cada um o echo longínquo dos cantos. todos ficaram deslumbrados com o sol e se apressaram-*em partir. concentravam-se recolhidos ao livro de orações. muito grande e de olhos meigos. ou de olhos fechados voltavam-se para o abysmo vazio do seu espirito. sem um pensamento. as vozes das cantoras vieram n u m a desabafada desforra levantar os ânimos. ed'ahi a pouco homens e mulheres montavam. e a musica do órgão. lentamente. Os três pastores se reuniranvrio fundo da egreja e leram successivamente os psalmos. descendo toda a massa de gente pelo morro abaixo. com a cara toda raspada e de óculos. os embornaes vazios embrulhados e escondidos debaixo da sella. como uma represa de água escura que se tivesse aberto sobre . O velho pastor de Luxemburgo. espraiava o seu ar desabusado e insolente. com uma barba muito curta e dura. para recomeçar um coro a que o povo respondia. cheios de respeito. vendo o povo retirar-se em ordem. os pastores sentaramse. até que o novo pastor terminou a predica. Fora. que se ia apagando J ermpiaafto o pastor de Altona. Os burros foram desamarrados. que elles miravam absortos e suspensos. a musica foi suspensa um instante. não se moviam . Em breve acabou o serviço religioso.

E a gente ia-se escoando pelos caminhos. com receio de um perigoso atropelo. interrompendo. — Bons olhos os vejam. sentindo um toque no hombro. onde ha um grande baile á noite.CHANAAN 157 a verdura da paizagem. e já agora de dia começa o pagode. que lhe falava de cima de um burro. Milkau voltou-se. respondeu Milkau. emquanto os homens se descalçavam. o povo começou a debandar. Era Felicíssimo. . Jyf*-*' as mulheres arregaçavam as saias de cima por economia. Em baixo. E a grande vozeria de commentarios. Milkau e o companheiro vinham-se também arras. A**A ' alguns tomavam a deanteira. matando a tranquillidade da região silenciosa. ninguém se apressava. « /**!L na cruz das estradas. naturalmente. partilhando da alegria e esquecidos de si para \ r ^ 7 se misturarem na communhão alli formada pelo '^'"v acaso e pelo impulso communicativo. de galhofas. galopando na estrada fl'*\ ' e envoltos na poeira. procurando as suas casas. onde costumava passar o domingo. as grandes gargalhadas e gritos festivos rebentavam das mil boccas da multidão.. outros corriam mesmo a pé. — Pois eu lhes proporia — O que? perguntou Lentz. ou as tabernas próximas. Ha quanto tempo não nos avistamos ! E para onde se botam agora ? — Para a casa. e cobriam com ellas as cabeças. levando nas mãos as bolinas ou os chinellos..^ ditando. Escorregando vagarosamente. — Irem á casa de Jacob Müller.

158 Ç-// CHANAAN — Mas não tivemos convite — Oh! isto é uma conversa. Mas não ha difficuldade. — Que negocio ? repetiu o agrimensor. eu vou indo. depois torna a subir e. Quando toparem um sobrado branco com um terreiro.. passem pela frente. meio indecisos. quando chega no alto. — Assim é que eu gosto da rapaziada. Depois. o caminho é este da esquerda. e não podemos ir juntos... vae descendo. E apontava com a mão livre a lingua. Então não sabe? 0 sujeito arranja a festa com olho de fornecer a comida. mas Lentz não demorou em responder : — Pois sim.. a gente não tem mais que se apresentar.. vamos d'ahi. Em se sabendo que ha uma festa. é ahi. fts Os dois amigos se consultaram^om o olhar.. Aqui na colônia não ha convites.. porque isso também faz parte do negocio. É verdade que estou montado.... respondendo. e vão seguindo sem se desviar. vender muita cerveja e tudo mais. disse radiante o agrimensor. Bem. vou na frente. não engeita. — Que negocio ? interrogou Milkau. que não tem historia nem ma/Jadas.. Falou-se em patuscada. tomem á direita... vocês têm um pequeno pouso com uma venda. mando guardar três logares na mesa para nós. .. iremos. Ora. Não ha confusão: a casa está em festa e vocês a reconhecem logo. Temos muito que desenferrujar.

de um louro lavado em que uma rosa traduzia a eterna faceirice da mulher. A taberna era limpa. deu-lhe chicotadas.. e entre todos se trocavam saudações e offerecimentos amáveis de bebida. e alguns tomavam cachaça. gritou para a frente. cerveja fabricada no Cachoeira. espantando os colonos com os berros e a correria.. todos alegres. e ^ for^rVum galope. . « Até logo ! » Picou o burro com vehemencia. freguezes.CHANAAN 159 tomado de uma repentina excitação. passou a fazer tregeitos inconsiderados com a cabeça. fatigado do sol. concordou Milkau. Os outros executaram as indicações do cearense e foram andando apressados pela estrada. moça e loura. algumas mulheres de varias edades se agruparam aos homens. Si não estás morto. — Podemo-nos demorar aqui um pouco. formando grupos differentes. em geral. Dentro. Fora. e fazer a caminhada mais á vontade. No alto estava realmente a venda. continuemos. serviam lestes os. uma grande latada corria pelo oitão da casa e na sombra larga debaixo do caramanchão/sentadas ás mesas toscas. onde já se agglomeravam muitas pessoas. Jjj/yfyjti($ almoçavam e eram attendidas pelo dono da casa. bem arrumada e com duas portas largas. os allemães bebiam. A dona da casa e uma filha. — Como esta sombra convida a descançar! disse Lentz. a rir muito. encostados ao balcão. — Não.

• ^ t^OL — Ora esta.iéM^. alacres dos vestidos das muy yji4. em ' 4ríy. que não ygP* «*/-«* vale a pena mais nos pouparmos. e á beira o sobrado onde se percebia. C '. — Não foi isso o que me fez parar. E quando chegaram á i t v r^. e contente com este rejuvenes. rríj~ lombada de um morro. isto agora vae depressa. as cores simples.^ * w t ' ' 4 ' dffáhfaA do seu espirito.E correram também. viram muita gente que tomava Z.de expansão jovial. disse Lentz. avistaram em baixo d fio * W /*xz+. * yr'**£i — Sim. ^y^-*^E ao lado d'elles passavam rapazes e raparigas ^"a correr pelo morro abaixo. UHt f "' -y— I ^ _ /frt* . gritando de júbilo e levados peja_excitação de chegar sem demora.Jy/ct»* . desconhecendo-se n'aquelle arranco 4/A*-/-1. não« tornar a sahir por este sol! E lá se foram. *„ 0 **$*'. vez de repousar. estávamos a imitar.:Z~. lheres. mas d'ahi a pouco pa/»*'*'/" raram e sorriram vexados da incohsciencia que os ^ .?ét£-i — Apertemos o passo.160 CHANAAN porque receio. onde o verde das folhas f' entrançadas nas grades formava quadro para ^y/„*se. uma vez em casa.. deitando um olhar de cobiça ao caramanchão ruidoso. ^J'*^' No caminho. ^ rumo da casa da festa. propoz Lentz. ^ tomara.. o movimento de uma reunião. Isto %(/-*?#> lhes tFansmittiu também o desejo de correr. Afinal. mas é que. é só descer. a natureza readr . estávamos a nos eigotiar^ponde/£-/» r*^ rou Milkau. —^-d'agua veloz. quando lá está o J+ y^vor*^nosso refugio.f+* perder na alegria do ar na vertigem da des*/**'%*' c ^ a . de se JíJuefi. I t /rLf ±T' * ' mesmo de cima.

que se ia reunindo. e outros do Cachoeiro. Também. A casa tinha uma bella situação no centro de varias estradas. e era um dos maiores pontos do commercio do^nterior da colônia. Era um sobrado branco. Os seus olhos azues estavam radiantes de paz e calma. e foi com o passo cheio de magestade e de graça simples que baixou da montanha. e aos domingos um dos mais procurados pelos habitantes do logar. Muitos a pé ou montados vinham da capella do Jequitibá. .. coitada. O sobrado ficava destacado das grandes massas de arvores e di folhagem que vestiam as pedras dos morros. e até pelos caixeiros da cidade. sacudindo a barba de ouro. Lxoda^Mio terreno estava limpo de plantação. . como esteve em mim até agora amordaçada ! Ergueu a cabeça n'um gesto de desafogo.. no fundo de um valle e á margem de um endiabrado ribeiro. Ao chegareiritao terreiro da casa J á as vozes da \ pj pr*K festa vinham ao^encontro faff d ^ ^ r ^ ^ ^ ^ e > +££& elles foram entrando no meio do ruido. que descia em tropel infindo do morro para o Santa Maria. outros de Santa Theresa. por moradores d*e longe.CHANAAN 161 quiriu os «eus direitos. pensava elle. e havia um pequeno campo de relva tenra e fresca que brilhava ao sol. Nas cercanias da casa de Jacob Müller a paizagem tinha o realce e a vida communicada pelo movimento da gente. da agitação .

corria para elles. em apostas brincalhonas. arrasI tf* tando-os. obrigado. Acharam-no emfim em um banco. com a voz rouca e a gesticulação de embriagados. Qs <»utroc.162 CHANAAN dos allemães á sombra da varanda. debaixo de uma laranjeira. como um bando desesperado de mairacas. A gente movia-se muito. mettendo-se pelos grupos e entrando no armazeiTL Milkau desistiu ^ de seguil-o e Vjf#/ou a Lentz/^rocuraflfâ^ambos um logar para descançareaa. uma pequenada vadia se espalhava guinchandò pelo terreiro. Milkau acompanhou-o. porque precisamos de descançar./spantados da effusão do agri/ ^ mensor. O estrondo dos pés que dansavam no sobrado. cantarolando. — Vamos à um copo de cerveja. yf'/'' para lhe dar uma explicação da recusa. — Não. quando a tarde começava a refrescar e a luz a esmorecer. disse Milkau. lá se foi. atordoando a gente. mas o outro. /« E Felicissimo. em frente á casa. Bandos de moças de branco passavam de mãos dadas. ^_^ O agrimensor ficou meio amuado : — Ora bolas! < ^ fffc-V E os_largou Jbruocamerrte. venham. arranjemos antes um logar aqui á sombra. echoando no vasto armazém. E nas janellas muitas . levado pelo rompante. gritando. rapa-zes corriam pelo campo em mangas de camisa. meus amigos. perguntavam para onde os levava. Outros entravam e sahiam do armazém. — Venham. e o som langoroso de um realejo incessante desciam do alto.

Olhem só lá para dentro do armazém. viu um rosto amigo ^. porque eu estou que não me posso mexer. por cima das cabeças desta gente: vejam que povo está alli agarrado ao balcão. senhores.CHANAAN 103 pessoas com ar indifferente se debruçavam para o terreiro. olhando a agitação em volta. as mesas já estão apinhadas para a hora do jantar.celeridade do regato. que do rio Doce aqui é um estirão! — Sahimos de madrugada e fizemos a viagem sem grande fadiga. — Lá isso não. Se e n c a r r e g o u . de lenço ao pescoço. E atraz. e um cinturão de couro segurando a calça.. abrindo-" a bocca em que se apertavam os dentes dortadesj i-tu*«*o$ epa-seiral * — En-tão vieram divertir-se um pouco? Sim. nas salas. que parecia também mover-se toda. — O que não falta é comida. a contem. Milkau. <... Era Joca que. mas sumiu-se de nós c se esqueceu de nos /Ldizer o que arranjou.<*'(' que se approximava. Começo a ter fome também. concluiu confiante . referiu Lentz. plar satisfeito o prazer alheio.. vinha saudal-o. O que é preciso é marcar os logares desde já. já é coragem. em mangas "'""^ de camisa. e fitando pasmadamente a paizagem.. parece urubu cercando carniça.^ d'isso. — Mas elle ha de voltar.."••-/'£ '*•_. que se tinha conservado mudo. — Seu chefe. respondeu Milkau.. interrompeu Lentz. arrebatada pela.

. que era o logar destinado para seccar o café comprado por JacobMüller. **^£3P* músicos da philarmonica do Cachoeira H«^^njiana chogandn iw i r n à l ) e todas as vistas se voltavam para elles.. a grade era retirada. e n*aquella vida extranha que levava.. — No roçado que fizemos? — Sim. ao lado da casa.164 CHANAAN Milkau. invasão dos animaes e da creançada.„ j . disse em sobresalto o mulato. para folgar um pouco. quando havia festa.. caminhando lentamente e como por um velho habito. agora lá para o Guandu. Isto é. Nos dias de semana. amigo.. E como vão lá no prazo? Já sei que a casa está bonitinha. e você. e estou certo de que temos tudo arranjado. estes dias nós descemos ao Cachoeira. E o cafesal?. a fazer medição. lá vem a banda. se dirigia para um pateo ladrilhado de cimento. que.. que fim levou? — Rolando. olhando alvoroçado para o fundo. De um lado para outro. indicando o tempo remoto. — Plantado. pateo Jfc. Joca. Um grande reboliço §ej|fe^)no povo e repentinamente todos se foram approximando da banda. — E quando beberemos d'esse café ? A resposta foi um gesto largo de mão. Por um instante uma ligeira sobrexcitação coloriu as faces de Lentz que tremia em pensar no vago da distancia ainda á sua frente. uma grade de arame protegia esse !-[. . Aos / domingos. — Ah! agora a coisa vae ser mais animada.

— Então. Wm alarido de gargalhadas e acclamações. O velho Martinho já está com o braço morto de tocar realejo. para irradial-a.CHANAAN 165 e todos tinham a liberdade de penetrar na área. ia repetindo os compassos. que recebia em seu lagedo. acompanhando a banda. alguns dos quaes eram seus conhecidos e camaradas. dansavam descompassados. perseguia um bando de ra- / ÍC^r** /*&* Q. Joca. minha gente. a força do sol. o mulato começou a dar vivas á banda do Cachoeira.«Todos se divertiam. d'esses que são amados da alegria e em quem «üa> não encontra fótf0ty'para reinar livrernerite^_^^ _ _ .. rubros de vexame. '« á união da rapaziada. N'um momento ficou coalhado da gente simples e fácil de contentar. cantando marcialmente. para entreter o povo lá em cima. Joca deixou Milkau e foi se postar ao lado dos músicos. vocês hoje estavam com preguiça de desunhar! A rapaziada aqui já andava impaciente. agradecendo. Vamos á gaita ! E. liso^lavado.. Foi um delírio para o maranhense. que começou"' a dar outros vivas ao « povo do Cachoeiro ».ar^affiirHifcfHi . gesticulavam.na ¥iYjim Os homens da musica sorriam.— Collocadas as estantes(os musicos(sentaram-sg)e começaram a tocar uma marcha de que^ãaXqual. Os músicos installaram-se n'um dos ângulos do pateo largo. contente. a Jacob Müller». com os olhos accesos e as narinas arregaçadas. etòdos automaticamente tiraram o chapéo. enthusiasmado. &*fájfii /ffllff cJt**s ofc *M .

virava-se para os mais teimosos : — Anda. e dava algum lucro ao armazém. que tenho de attender á freguezia. meu velho. a^ípareceu no pateo. principiou a falar. e deu o signal de uma quadrilha. Tberrando: — A festa é das creanças. persuasivamente.de cachimbo ao queixo. w com / . abrindo espaço aos empurrões. de óculos azues e uma cara te genipapo murcho.de camisa.applicavam-lhe palmadas nas costas. com uma longa sobrecasaca preta e surrada. A musica acabou a marcha. e. coradas. que riam destemperadamente. vae tomar um copo lá dentro. ^ lç . a rodar. entrou no terreiro para . elle respondia aos soccos. todo de branco k em mangas. Algumas velhas. vindo em grupo.. ajuda-me./ outras jhejfpuxavanf) levemente a barba. Alguns velhos jáébrios. O logar ficou limpo da gente grande. dando ordens. O dono da casa. que fugiam rindo. Era o argumento irresistível e proveitoso. As creanças invadiam o terreiro. Olha. E depois. Um velho alto. que se enfileirou aos lados. formando o quadro do pateo. a rodar. porque a miragem d'esse copo afastava o homem d'áhi. n u m fingido susto. / um grande chapéo de palha na cabeça. Limpa o terreiro! Arreda! Vocês têm baile á noite. como si fosse movida por um pé de vento. fazendo mesuras ás mulheres. .166 CHANAAN parigas louras. arrastavam as vozes. depois de se entender com o mestre da banda. h. A creançada agora l-girava doidamente.

um dos pequenos recalcitrava contra o arranjo. » As vezes. e a musica rompia a dansa. » « Hermann e Sofia ». — Deixe.„*_.. Afinal o professor conseguia arranjar as quadrilhas.CHANAAN 167 dirigir o baile infantil. « Guilherme e Ida. acompanhando a festa das creanças.(se^tigayaní)da attenção. acompanhadas por outras vozes de mulheres. Os pequenos estavam exercitados.g/ O mestre awesignavafe Augusta Feltz. de modo que tudo corria em ordem. — Mas não é possível : você tão miúdo e ella tão crescida. No circulo as mães intervinham. inclinando o pescoço para o cavalleiro. sem confusão. .. deitando-se na relva para verem passar a . / e s e . — Como? Com quem? — Com Augusta Feltz. Professor. — Mas eu estou compromettido. de canellas compridas e olhos mansos de veada. tremendo-lhe as mandibulas molles. replicava o velho. Foi um instante de socego. com os seus doze annos.. . sr. p u n h a d a passeiar pelo arraíaíTindo á beira t^^-J do rio. « Alberto e Emma. lá ia para a fôrma. chamando cada creança pelo seu nome. Das pessoas grandes. e começou depois a distribuir os pares. professor. O homem mandou que os pequenos se ordenassem pelos sexos. outras. fitando-a muito ancho.. Que é que tem? Cada um escolhe a que deseja. porém. muitas ficavam entretidas. que a levava de braço.

observava Lentz traçando no rosto um gesto de desdém. Em tudo. Viver no meio de gente simples. Compara este povo com os homens de outras terras.para morrer n'um espasmo de maldade. Era isto que eu procurava. Agora havia uma grande roda dos dansantes. — Mas. solto sobre a face do mundo. matar o ódio. fy tíJjfdflisXo é a estagnação. no mais pequeno gesto. alguns. que ora célere. de braço como noivos.. quando passeiavam pelo terreiro ao rythrno da musica.. é a alegria. iam ga peréefido pelo matto a dentro.168 *~J7J£ ^YÍ-f '**^ CHANAAN agua . é uma existência vazia e inútil. e que emfim achei. que na illusão instantânea os transportavam á terra abandonada. devastando-a nos seus impulsos de loucura. estridentes. partilhar com ella o seu doce esquecimento da dôr.. dizia. ia se movendo aos cantos infantis. e olhando a scena. no canto do universo. ora vagarosa. que proseguia vivo e animado. Aqui ao menos é a serenidade. e outros $& reuniam—A1 ao balcão a beber e a cantar as velhas estrophes do prazer e do convívio humano. e estrebuxandd. a reunião alli na estação do Cajá dava a sensação do esquecimento e da alegria. — Era isto o que eu procurava. Milkay a Lentz. move os homens? Que queremos mais? Approximaram-se do baile das creanças. onde cada um parece possuído do espirito do demônio.. no menor movimento. é a calma. / "*• — E não é o amor a acção por excellencia? E não é elle a força que aqui na colônia. e .

e marando por toda a parte. brincando. besuntada de alvaide a cara. imitando animaes. ia dizendo Lentz. 0 palhaço começou a cabriolar. com o amigo pelo braço. se mettiá na a . A aragem refrescava o tempo.. e beiços e faces pintados de vermelhão. disfarçado em palhaço maltrapilho.CHANAAN 169 desafinados. que parecia surgir pouco a pouco do seio secreto das coisas e » expandii"rnais livre á superfície luminosa.r. e os meninos pararam a dansa meio espantados. graduando a côr. afastando-se do circulo. fio meio da algazarra geral. A^paz da Jâlde avançando subtil reinava sobre as gentes. passando volátil pelas cabeças louras das mulheres. Creio que desconfiou comnosco../ roda das creanças.. um sujeito mascarado saltou no pateo. E quando a meninada estava muito entretida. fòfS0j{endo-as com a sua doce Jygsrv*gt*<perfídia. abrindo o circulo. Já aquella hora o sol esfriando transformava magicamente o panorama. 10 IM.L#Á<yh*/r^ . propoz Milkau. a divertil-as. — E Felicissimo que não nos procurou mais? lembrou Milkau. — Vamos procural-o. e_d'ahi a pouco. — E tempo. a gritar. Onde ^ se metteu elle?. 7 jxut*' \ — Mas onde se metteu o agrimensor?. mesmo porque já podíamos ir jantando. — E verdade. accedeu Lentz.t lhes nos cabellos n u m leve arrepio que lhes descia da nuca. passando de grupo em grupo.<>. Uma immensa risada dos grandes o recebeu. ..• . de olhos tapados.

Os dois amigos lançaram uma vista d'olhos pelo armazém e não viram o agrimensor. enfadonha. a rapariga. desistiram de procurar Felicissimo no arraial e «e encaminharam-^* para a casa. com seus olhos serenos e francos. $mu£ou os perturbadores. Áfywflfâflt até á beira das estradas. concluiu Lentz.. Uma caminhada inútil.. e ( ^ ^ ^ ^ Y ç y k m j W a ^ g ^ ande /* avistavam grupos de gente. um par amoroso. Não custava nada uma amabilidade.170 // / W*- CHANAAN — Hoje elle está mysterioso comnosco.o que bebiam. fezlhes um gesto. Éyéntraram no matto.. cantava-se. Procuraram o agrimensor pelo terreiro. Também porque não lhe acceitámos o copo de cerveja?. tão idiota. A mulher de Jacob. Tudo em vão. desviando delicadamente alguns colonos pesados e oscillantes. cochichando. ^ Quando tornaram á clareira. o joven abaixou a cabeça enleiado. indagando . Com a presença dos extranhos. O balcão continuava sempre cercado. e n'uma lingua arrastada. perguntando-üas.. Foram até á margem do regato. — E não se perdia um camarada. — O h ! Também vaes logo aos extremos.. dando volta por traz da casa. bebia-se largamente. n'uma tranquillidade altiva.. percebendo-os indecisos. chegou-se a ella.. Debaixo de uma carregada sombra. Milkau.. há'esperança de achar o cearense. descançava. porém. disfarçando a remexer nos gravetos esparsos no chão.

pois talvez ahi o encontrassem.. no sobrado.. Imagino quantas amizades não tem por ahi. uns com pratos na mão tomavam caldos. A mulher aconselhou-os a subir á sala do fundo onde se servia o jantar. e apenas com algumas pessoas á janella vendo o baile das creanças. Pensei que não quizessem saber de mim hoje. De facto. emquanto a sala da frente se achava quasi deserta. Em pé... Foi você exactamente que nos deixou. agarrando lingüiças. não mude os papeis.CHANAAN 171 de Felicissimo. — Aqui! Aqui! Os outros foram rompendo caminho e tomaram os seus logares. de vinagre e pimenta excitava a multidão e entretinha a sua voracidade. — Não me conte historias.. respondeu Lentz. fatias de pão. e quando avistou os companheiros chamou-os n'um sobresalto. n'um espasmo de satisfacção bestial. Felicissimo estava n u m a cabeceira da mesa com dois logares vazios de cada lado. A mesa muita gente sentada comia avidamente. pois tão entretidos andavam. mastigavam com uma fome voraz e com os olhos injectados. e meio amuado não se importou mais comnosco. a sala do fundo estava n'um grande borborinho. Um cheiro de alho. e falou-lhe dos logares encommendados para três.. patife. com quanta . — Até que afinal vocês resolveram vir. fixos. e outros. Viram passarinho verde ? — Ora. que sem nenhum conhecimento temos andado vagando ámatraca.

enleiada. cahidos e vagos.. com uma cara ffflfa de um riso complacente e velhaco. Em pé. então você mesmo. cortou Lentz. uma rapariga attendeu.» dade.A. comecemos por um caldo de hervas. Felicissimo olhou-o com os olhos miúdos. y~. meu amor. — Lentz não se preoccupa com isto. Felicissimo mirou-a com malícia. é que com esta discussão nós vamos ficando sem jantar. para estes dois amigos. comprehender a sua vida e felici.. com um 0 ' y^XA***'/ C«*w mfo' yt£r.. Vamos lá. quizesse partir. postando-se em frente ao cearense. e não sabia como replicar. elle resolveu-se a falar. — O peior. que quer mais sinão. — O h ! é verdade. nada de segredos. A creada desappareceu rapidamente.. não me conte rodellas. você. arrastando a voz : — Qual. — Vá pregar n'outra freguezia. erguendo-se apoiado nas mãos.A ^ é * ^ ^ * " -j . — Meu bem. e depois como a allemã. Afinal. V. gritou o agrimensor. '^Tvunl — O nosso interesse é y^/t^^Â^o^^f alegna\ m 'c$ *' d'este povo. O allemão enrubesceu. camarada. Milkau veiuemsoccorro. meu amigo. que lá na sua lingua procura misturar-se á alegria d'esta gente. piscando os olhos para o companheiro.. berrava chamando os creados. você traga jantar egual ao que me tem trazido. Depois.. á espera de uma ordem.172 CHANAAN rapariga não tem falado!. seu maganão.

e o grupo continuava a beber indifferente e desdenhoso do resto da gente. e pediam aves em conserva. melancolicamente. de que se serviam bebendo o vinho do Rheno. Puxou o copo de cerveja e bebeu. atirando-lhe os olhos. Alguny ^caixeiros da cidade. — Si vocês fizeram voto. Excitado por essa attenção. — Ah ! esta vida ! esta vida ! murmurava o agrimensor. . Felicissimo estalou a lingua. mais \}em<>dU*^r trajados que os camponios. Milkau agradecia com outro gesto. reconheceram os antigos hospedes nos novos colonos. que serviam no meio de algazarra e de >A_ desordem. Dos seus logares offereciam-lhes vinho. e tanto barulho fazia que não tardou muito sobre elle se voltasse a curiosidade geral. Milkau e Lent^ começaram a jantar dos pratos rústicos. Alguns d'estes rapazes que eram da casa de Roberto. bateu na mesa. objectou Milkau. — Nós não tomamos tanto. pedindo que lhe trouxessem outras seis. que a seguiram como servos amorosos.CHANAAN 173 movimento airoso como um passo de dansa. n'uma expressão amável. o agrimensor exhibia-se por 10. recusavam a comida ordinária. Olhou a garrafa queesvaziára. Felicissimo bebia sempre com grande alarde. acenando com a garrafa. e os cumprimentaram com gestos de cabeça. eu não fiz: beberei todas seis. e sem saber o que dizia.

cantando canções allemãs. trepado na cadeira. O dono da casa. O agrimensor ordenou por sua conta mais cerveja..174 CHANAAN todas as fôrmas.// realejc/6ue . e outros o cercaram. continuando a gritarja. que mandava distribuir em torno. violentos e ferozes. na desattenção. para acompanhar as canções^cujas notas graves eram abafadas no barulho. cantava. levantando brindes. versos d'essa toada sertaneja que lhe falava tão intimamente. ditas no meio de risadas. A * _ y com enthusiasmo. Os camponezes o admiravam n'uma alegria infantil. augmentado pelos repiques nos'copos e nos pratos/e/fi/som estridente de um ni £. berreiro descommunal. O agrimensor o repelliu. . o liquido se espalhava pela mesa . Este variava o seu repertório. que estropeava. mas que ao seu lado eram retomadas com brio. protegendo-o contra Jacob. A estes o agrimensor respondia improvisando versos em portuguez.-^noços e mulheres.exà tangido n'um impulso frenético / . e na confusão. na desordem. mas a cadência dos versos os enternecia e era com amor que pediam ao cearense que não parasse. pelos colonos. que foi expulso da sala aos empurrões. os rapazes da cidade o deprimiam com applausos irônicos. com phrases insultuosas. para forçal-o a descer da cadeira. que* / rendo conter a matinada. Muitos não o entendiam. Produzia-se um . dansava. tomou Felicissimo pelo braço. destacando-se apenas os agudos. feito de vozes de velhos. Disputava-se cada garrafa das mãos das creadas. de copo em punho.

moíjolvenéo^é na contemplação.CHANAAN 175 dos copos entornados na sofreguidão da conquista. encostavam/ *. E de então em deante estas palavras serviam dis. a lua vinha rompendo e a claridade que d'ella descia. ^ ' ' ./ saudade. No terreiro as creanças-fafigadas estavam serenas. E n*esse ins/ tante in4eciso. de idyllios^ L^T**"^*? campesinos casados com aquelle estribilho do cea. perseguidos pela vaia dos que / ficavam. — D'aqui não arredo. e as -mais pequenas. sem)odera-v/)furtivamente do domi. não arreda.* *"* ** '^ >VU0S*. intimidadas pêlo silencio que ellas mesmas faziam. com os olhos pregados no es/ ' paço. Os que yfÃJ* ainda tinham consciência. propoz-lhe sahirem um pouco. E os dois foram-se esgueirando jy -&L da sala.^ ./ nio da várzea abandonada pelo sol./ paratadamente de kjjdbúkd a cada canção. o vento qf*TWCrilTjiMifc. a desfructar o resto da tarde no terreiro. E os allemães embriagados o acompanhavam n'um berreiro. que se fitavam com expressões varias de desdém e **^" j dj/divertimento.*.«f**-*5. de repouso. "-—' .. — Não arreda. l' hf C'lr /r ( ' . Milkau temendo pelo agrimensor.. / S r ^ Milkau e Lentz julgaram-se no meio de doidos.^ j m . Xy*-" . intermediário. cabeceando de somno. j{/•xy*™rf/t e todos se sentiam sob um encanto mysterioso de •"*-». gritava elle.. sem cólera.Y17*^}^ rense. riam gostosamente da ira dos outros e mais que tudo do effeito dos pro prios cantos cheios de versos de amor. i . Fora.

Os dois amigos caminharam até ao rio. ' tes. depois que L ^ " * ' a noite avançara. a musica não cessava de tocar. e s t i m u l a n t e ^ ^ f f i V I i Não oc pass^-muifô^a^^-ciffiffvfue 0 baile [ v**** ' entxOáigf em plena animação. e ouvissem de novo a musica. pois muitos ainda do mantinha-m/á mesa ou se postavam en^ Jj costados ás portas e^ janellas. Os músicos recolhiam os instrumentos e vinham vagarosos jantar. haviam partido para as colônias.. onde na sala da frente se começava a dansar. Alli. Quando a descobriram. ^j I ou /recolhido ao salão do baile. Detiveram-se e sentaram nas pedras. descuidosos por algum tempo. que. Subiram ao / sobrado. A sala. volveram á casa da festa. abria um cir/v r "^" ** ~ culo de fogo em phosphorescencia. o' ' / torpor/ dos rapazes. fora mais illuminada. e pouca gente dansaya. os grandes. e todos se divertiam alegremente. E mais tarde. e o foram margeando. • ella estava illuminada. a musica tocava uma valsa arrastada e langorosa. i ili s. Em geral. Agora é que se podia vêr a variedade de <^<*^«-- p^yHi^J^-u UCm- . doavam proL^i-Í*'^* vocadreâs sacudindo com os seus movimentos. dentro da claridade mansa e leitosa do luar. tímidosjjd negligen. os pares se compunham de rapari(/$*' gas.176 CHANAAN se ás mães sentadas no chão. como esfriasse. e a luz xfyÇjyíjfo/e quente que sahia das janellas e das portas. No terreiro já não havia quasi ninguém : as creanças tinham debandado. erü^çadas umas ás outras. até pux..

Um homem de tosca figura. que estava ao lado de Milkau.CHANAAN 177 gente agglomerada na casa de Jacob./ r i m r— Não ha nenhuma que seja capaz de chegar a Luiza Wolf. é muito graciosa. creadas e todos reunidos n'uma grande promiscuidade. na serie de pares de uma marcha polaca. — Pois admira. O pae .. e o patrão d'ella é aquelle mesmo que é o seu par.. Amanhã estará trabalhando com o mesmo ar — Naturalmente é uma colona. com as'mulheres. — Não. distinguindo-se do resto das outras raparigas. é creada no Cachoeira. desengonçadas ou morosas. — Realmente. Deante de Milkau que. de nariz grande.. caixeiros da cidade. Não conhece? — Não. lavradores. Martin Fidel. sem separação de classes. Ah! lá vae ella ao braço d'aquelle mocinho alto. é em tudo assim. sentado a uma janella aberta. acompanhava a festa. Parece que não cança de levantar aquella cabecinha.. tropeiros. arrastadas com estrepito pelos seus pares. de movimentos ondulantes.. rrfrriiiiir n~ rlin i r » . voluptuosos. não vê? E um colono e filho de colono no Jequitibá. Alli estavam negociantes do Cachoeira. — A h ! E preciso conhecel-a para saber que não é só no baile. é um dos negociantes mais ricos da cidade. a família está toda aqui. passou.. A mulher já -é velha como elle. uma joven de flexível graça.

velhos fumavam o seu cachimbo. faziam um barulho secco.) £/ Milkau estava só. dentro de sapatos grossos ferrados.. separados. namorados passeiavamalli.178 §KANAAN d'elle também está dansando. i ^i^^xamente^de eharuto^ú* cachimbo ao queixo jljl Yj chapéo na cabeça. e todos livres » movianrragarosamente. para se reunirem depois de differentes voltas. Os dansantes continuavam no compasso marcial da polaca. por causa do suor que . o . é aquelle baixo. cõTfío por uma combinação mágica.à 1? abandonado. ora desenhando meias luas. ora fazendo evoluções de homens e mulheres.refrescaríy». (drAddjMfà as mulheres amar'TC i s raVám lenços ao pescoço. procurando os bancos encostados ás paredes das salas ou aos cantos das janellas. Quando^ícon^adansãAparava)os pares se voltavam-Vèn'um mesmo instante. marchando frente a frente. resmungando conversas y o*. ora separando-se em alas. batendo fortemente os pés no assoalho. abraçados. como vê. > 'Y. Os movimentos eram tardos e pesados . barbado e de chapéo na cabeça. í \jfr lhes escorria da fronte. enorme. que^iominava as vozes dos instrumentos. Muitos sahiam até ao terreiro para §&.. uma desenxabida. farto de lhe relatar coisas da colo- í . gorducho'.. executando variadas figuras. o par é a creada. arrastando-se com esforço.seu informante tinha-o ijli.no es^g^ro.

onde com amigos allemães continuava / *~ a cantar e f beber. era o cabello louroJfôfo. ás y//<?&/ vezes. Mas o queuuiaTÍffrfta de superiort^*"* ^ era a fronte aberta. Felicissimo não sahia da sala Q de jantar. entoadas. tocou de novo a musica uma valsa. aquelles mesmos olhos.# y W ^ ~ ' leza. sentaram-se duas mulheres* ^ f u m a dr*il$>c»xeconheQ$bs!tto. I J^T^ era a expressão da bocca. a descançar bem perto . o mirava nos ^ olhos. uma distincção maior do que era commum J*t4*>' nos colonos . volátil. as vozes d'elles. 10$k£$0faí certa b e l . Também da sua parte ella não deixou de acompanhar a furto o vizinho e. Junto de Milkau. z—^~ porém de um contorno fartoJe as mãos brancas.' mas humida e bondosa. . Lentz desde muito tempo não apparecia na sala. Ày*i<y<f''\ 4A . talvez longas demais. . meigos e infinitos "~~^j sobre os -quaes via boiar imagens doloridas que —. a mesma que na capella o fitara durante o seu somno. da sua bocca descorada. fatigado d'aquellas simples e monótonas dansas. plácida e innocente. estivesse no terreiro passeiando solitário.o busto erguido. tinha um ar fatigado e sentava-se n'um pesado abandono. ao menor ' silencio da musica. alegres. becas de galgo. De vez em quando./ drolltb. Alguns minutos depois. e quasi todos foram dansar. o porteesa gracioso.& offegante.CHANAAN 179 nia. sahiam%os braços como ca-. entravam n'um grande alvoroço. MilkauJentãcVtáj^ á vizinha.'"* seriam a vida e o amor da "rapariga/Esta respirava f *. /^jg JffflYOyH^Ut» -é. dxlixfJb . e o amigo pensou que. no mesmo banco.com certa ousadia. Estavam alli.

mas. á moda do logar.. Mas ninguém me acredita. conhece-se a nobreza ou a grosseria da raça ou do grupo moral a que pertencemos. pois não me sinto bem.180 CHANAAN Não dansa ? (Ju-4j?'' Ella não se intimidou ouvindo-a vaq&^Mliii. tomou pelo pulso a outra moça. que traduz a musica do cérebro.rapariga. Um rapaz ae approximouj e sem dizer uma p a lavra. E a sua interlocutora : — É o que me acontece pretextar. pela voz. arrastando-a para a dansa. quando não me sinto bem. Milkau ficou meio confuso e desculpou-se. que é uma das melhores na valsa. <0L. e como que rasgava um tênue véo para mostrar a deliciosa paizagem da sua alma. confessando que não sabia dansar... se érgueu-e. pegou na mão da outra rapariga. que se deixou acariciar negligentemente. A voz d'ella era um canto intimo. E sorriu levemente. como habituada aquellas maneiras da amiga. Vejam só. disse radiante e rápido : . aqui tem esta minha amiga. sonoro. si quer um par. o accentp da sua era uma revelação da personalidade intima. Mr rntão^silifrrrorin r tmnf^iill? Respondeu promptamente: — Não: não posso. percebem-se as qualidades secretas de cada espirito.. ajs*</ e com gesto de carinho quasi maternal. voltando-se para a amiga. E como em toda a voz humana.

. onde me esperas?. E verdade.. recordo-me bem de que não estávamos muito longe um do outro.. e hoje tem sido um regalo — Oh! desde manhã andamos n'esta roda viva.' '' . Tenho tanto que te dizer. Não quero me separar de ti.. ha muito /empo não nos viamos. não é verdade ? — Não sei. i — Sim... — Já vejo que converso com uma grande preguiçosa. — Deixe lá.. — Por aqui mesmo.. e o somno me veiu como um arrebatamento feliz. Ao contrario. sentia um bem esta-" immenso. replicou meio confiada e intima... Neste banco ou na janella.CHANAAN 181 — Maria. E o pastor não o divertia. — Por signal que eu dormi..... volveu com vivacidade a rapariga. mas immediatamente retomou o fio da conversa. referiu Milkau.. que ás vezes seria melhor passar a vida a dormh. Lembro-me de tel-a visto na capella do Jequitibá.. — Fazia um calor terrível. Quando a joven partiu arrebatada pelo par.. " li t~. Maria enrubesceu. — Eu ? Nunca.. Maria disse a Milkau : — Não lhe parece tão boasinha ? E filha de um colono do Luxemburgo. Não é por preguiça seria para esquecer tantos aborrecimentos que iJdesejaria um grande somno.

os pares se desfizeram e cada um dos dansantes tomou direcção diversa. as cadeiras alli estão desoccupadas. sentar-se á janella. C_J — Aborrecimentos? Imagino a que «)isas ' simples dá este triste nome.* raço.. — Eu sabia. disse Maria á amiga. mudou de assumpto. como a um velho conhecido. não me mexi d'aqui á tua espera. fosse preferível. e as moças correram sôfregas para . amor. que também ao seu lado não sentia o menor constrangimento e se exprimia sem emba. Vamos para lá : o ar fresco lhe dará forças. — Talvez. Levantou-se. E agora queres dar um passeio ou preferes ficar aqui ? perguntou a outra arquejando' de cançaço e sentando-se instinctivamente : — Oh ! meu Deus ! Passeiar. descança um pouco. Quando a musica parou. Ella não respondeu e ligeiramente abaixou os olhos. Milkau ia achando prazer em se entreter «om a rapariga. quando estás que não podes ? Não.182 CHANAAN Acabou a phrase com uma voz sumida e vagarosa. — Tu vês. para sua companheira. allucinadas no movimento aéreo da valsa. observou Milkau. observou Milkau. — Como é bello dansar! Com a sua mão fina fazia um aceno affavel ás amigas que passavam. quando logo depois os ergueu.

Todavia. as nuvens. descendo no céu. quer forçar os músicos a tocaram. meio assustada por um grande barulho de vozes. Os músicos não sabem como executal-as. a torrente rolava borbulhando. os rapazes protestam contra a innovação. que elles ignoram. 0 verde das arvores se adoçaVa á luz diamantina. e o grande f ampo dzsí. ensaia alguns passos.. Maria e a companheira ' 'não estavam tranquillas. mas tudo cortado por atroadoras e ^tf/]Mf///^ -7^w*2! dfy gargalhadas. em vozes altas _ / e agudas. — Não é nada. Havia grande discussão. — Que é isto ? interrogou Maria. um vento manso balançava os ramos. Todos se precipitaram para indagar &fc que se passava.Jví> CHANAAN [\r*f- ' | v« 18g as cadeiras indicadas. que vinha da sala de jantar para o logar do baile. e pouco tempo depois voltou. sem estrellas e desmaiado ia se transformando em um pavimento de crystal..? perguntou Maria. receiosas de perdel-as. Milkau sahiu para vêr de que se tratava. e d'estes as sombras ainda longas dansavam inquietas. \ . O agrimensor Felicissimo entende que já basta d'estas dansas extrangeiras e que jgora se deve passar ás dansas brasileiras. T/fâúindo que uma grande ^A*//** rixa se travava alli. o agrimensor insiste. — E afinal. rijo. livre. Toda a terra estava inundada de umiluar branco. puro. transparente. se desmanchavam no horizonte. 0 primeiro olhar d'elles foi para o quadro de fora. assobia.

ensaiava ' estalar os dedos como castanholas. / C . r^. Depois d'este accordo. agoxWitf ^ ^ t ^ ^ ^ a f i n a d a . ftffâffl /uccedeu um silení^. meu povo! /JZhltÀt*-. $if fáfLyju. andámen„ < * * * ***** ^ 2 to. ^ f ^ f M W ^ ^ J* / » ^ ^ ^ e > € ^ ^ í ^ # I ^ M j 3 g ^ expe*+*" ^ ^ compJLssísMxx^tnJlndÀ/o^me^nòs gís d^da^síf q«ae '"'* r *' +. os músicos vie•. C W De facto. «^vT seguir um bom logar. e o dansarino só. *%*y*c*-o^ livre para a dansa. desengraçados. quasi todos estavam sentados. erguendo e abaixando os braços. rencissimo Felicissimo cantarolava cantarolava oo anaamen-/^. A musica suspirava gemidos languidos. n'um borborinho de risadas. Alguém perguntou ao agrimensor o yyy. e a gente anciosa correu ^ . Junto r*?"^"*"^ aos aos músicos. Mas nenhum som produziam as suas mãos dormentes. J_ ram para os seus logares. Felicissimo. e veremos alguma dansa da terra.184 CHANAAN — Afinal parece que Felicissimo vencerá. no meio da casa.voluptuosa. w ^ * ^ " e muitos amontoados ás portas e janellas. começj/tjfyfL a tocar uma peça arrastada eM^ . para con .^ para a sala. tíremeduára. e jamais um gesto se casava com o compasso da musica. achando aquillo estúpido e gro- . arrastava a perna. poftyj/í/rffôfyjf oxchestxa. acocorava-se. cambaleando. com ty*-^ ^ os olhos tortos e compridos.t^^1 que ia elle dansar.. Riam em torno. ninguém se movia mais na sala. sahiu para o meio ^"^jtjtft-^da sa^a> gritando com voz difficil : Í ^ J * — E o chorado. e « j ^ cio de espera. Rodava sobre si mesmo.E. medonhos. fazia tregeitos desconnexos. músicos.

~ livrando a cabeça.. A sua alma nativa esquecia por um momento essa dolorosa expatriação na própria terra. solitária nos seus largos e cho. /-éy^***'" Durante algum tempo ninguém se moveu e a 9<^ri. agradecendo-lhes com o / enternecido/olhar de bêbado manso. Felicissimo deu KJ mais algumas voltas. o mulato se transportaya)para a longe de si mesmo e se transrlgTrnrvjíf n'uma 4. Por enthusiasmo. Foi uma barafunda. entre gente de outros mundos. Elle -deixou-se prender.. Mas. a cabeça erguida • tomava uma expressão de prazer illimitado. violento contra a parede.í*' musica didi^dM^. Felicissimo ainda tentou erA guer-se. com medo de alguma queda desastrada. . a bocca entreaberta. a musica continuava. O agrimensor apoiou-se com a mão á parede. o seu corpo se arrojou rápido. e afinal. • altiva e extraordinária alegria. e o inutilisava inteiramente.fz0 A rosos compassos.-/. todos gritavam de susto. com os dentes em serra. uns fugiam abandonando os logares. como n'uma gui. sorria. A embriaguez do agrimensor era completa. mas os lè^i vizinhos o sustiveram na f/f* cadeira. Arrebatado pela musica que lhe falava ás mais remotas e immorredouras essências da vida. e cahiu J^r/á/á^ e pesado n'uma -w-J^Z cadeira vazia. os cabellos i» agitavam livriuricnlij ou / U . por prazer. como um fauno f/ll antigo. outros riam do espectaculo.CHANAAN 185 tesco. Todo o seu corpo se agitava n'um só rythmo . Joca pulou na sala e principiou a dansar. de repente.'*' nada de navio.

todo elle era movimento. vertiginosa. ora unidas. pois todo elle. perfilado nas pontas dos pés. agitava-se todoy . vinha languido. querer voar. vivendo. suspenso. na sua alegria rara.Hy ^P^y . e nesse gesto. no impulso da sua alma. Umas vezes. mas que se adivinhava febril. sacudindo os membros n'uma dansa desenfreiada. elle parecia. sahindo dos braços retesados. N'esse momento a orchestra podia parar. obedecendo ao compasso da musica. requebrado. era vibração. rápido. no seu corpo triumphal. estalando castanholas. espraiando-se na velha dansa da raça. quasi pairando no ar. e achegava-se a alguma mulher. tremulo. fazer um silencio que desequilibrasse tudo. erguia-se n'um salto de tigre. querendo arrebatal-a n'uma volúpia contida. paravam. Depois. era musica. ora baixas.1S6 CHANAAN empinados e eriçados. as mãos. ora espalmadas no ar. quasi de rastos. Joca não perceberia a falta dos instrumentos. que dava a illusão de um instantâneo repouso em pleno espaço. imperceptível. ou molles cahindo sobre a fronte. n'uma ^rbjfação '^/e*** de todos os nervos. ás vezes. retomava a sua doidice. como n*um grande ataque satânico. A scena continuou algum tempo com esse único *-. de cabeça inclinada e olhos compridos. com os pés juntos n'um passo miúdo e repinicado. ébrio de musica. outras. como a dansa de um beija-flor. os pés voavam no assoalho e. corria pela sala saracoteando o corpo. com os braços abertos.

.. as sombras minguando se resumiam mais fixas. assim o • yUJLS ultimo interprete das dansas nacionaes foi cedendo J.ff/lJ+tf**" cido de dansar. clara. Era a valsa aiJi t i lema. as pernas morenas não se retesavam com a mesma energia de pouco antes. com a flexibilidade vigorosa do páo d'arco. «^ 'f^ o terreno aos vencedores. larga. Havia jaaki luar Í W W 4 * « / fora. e. ninguém sentiu o Ímpeto de sacudir-se. pouco a pouco foi cançando.. das mulheres negras. /Z^tèr^/ei outra dansa. Todos tinham curiosidade e nada mais. uma mulher que acudisse aos seus appellos. O peito offegava. N'uma das janellas um pax IfáYJfftflLava.. declamou como na velha bailada : — Ob ich dich liebe ? Frage den Stern. Era uma longa. de remexerse ao rythmo d'aquella dansa. que correspondesse aos seus movimentos. Ninguém veiu. emquanto outra musica. tomado de uma repentina tristeza. Um momento a rapariga alteou a voz. vae derreiando o corpo combalido. ////'*' f" '' tà*\ Na sala<^^pares/roavarrí n um frenesi. invadia o scenario. esque. infindável e sus^ surrante palestra. Joca procurou um par. toda entregue á paixão. de uma saudade das suas companheiras de mocidade.jJKff^0ff *y^fJM^I0^lfl a amiga de Maria.. Maria estremeceu ouvindo o canto de amor. fitando com os .. que sentiam como elle. E como o derradeiro sobrevivente de. e sem saber o que fazia.CHANAAN 187 personagem. Desolado. uma raça toda extincta ^jtí^f/j^f n fi^W&fyfflr^ Jmlfy. fluente como um rio.

subiu ao astro morto. Sua vida triste. um grande silencio reinaria nestes mesmos cantos cheios de movimento e de alegria. A moça despediu-se de Milkau. foi procurar Lentz.188 CHANAAN olhos ardentes o céo. E para quantos não jpomeçára o isolamento. Acabara a dansa e era a hora da separação. Um velho7chegcmi#á janella onde estava Maria^ chamou-a... p f e f l ^ f o u (f[&u< que algum dia também.. Hfefcjmaginou a solidão de um mundo sem vida. sua vida casta e mysfica. peior que o eterno frio. lá ! j O pensamento de Milkau. no seu destino. aqui nesta Terra radiante. recebendo jovial o com- . que no dia seguinte se tornaria a vêr. Por sua vez. envolto como n'um véo intangível que o não deixava sahir para o mundo nem permittia que o mundo viesse a elle. entre vários colonos. — Oh ! pensei que fosses o ultimo a deixar esta casa. apontou a lua.. como de um antigo conhecido. Pensou na sua própria vida. como obedecendo 1 a um chamado extranho. marchando como um cadáver phantastico na estrada do infinito. sem uma companheira. ** viçosa e feliz. n'esta solidão enaque ia passando a existência. e uma immensa tristeza. já recomposto d'aquelle instantâneo desfallecimento. toda a vida se acabaria. encontrando-o. ao ar livre. dizendo com uma voz sumida e tremula : — Que tristeza. gritou Lentz. Milkau. essa terra deserta... principio da morte. no terreiro.

. escassos e raros na fralda da montanha. não apagam nem dão sombra sobre a Vida. — A caminho ! Adeus. na encosta de uma montanha ma. no futuro. E accrescentou : — Vê tu. disse Milkau.CHANAAN 189 panheiro. < v iA Bateram durante horas e horasA mesma estrada / j* * '^ de manhã perdorrida. por um grande cafesal bello em sua 0 íf}utviçosa negrura. E falámos também de outra Allemanha que ha de vir. começaram a ver cruzes pretas e pedras brancas por entre os pés de café. — Aqui estive a conversar sobre a Allemanha com estes amigos. Não ha em Chanaan logar para a morte. — Bem. camaradas ? / / / ^ K^ ty"$tflftf /ppl au dirarr>la prophecia. amigos. Não é verdade. mas agora cuidemos de ir para casa.«Z***»*'. vendo os outros alegres e te quiz )>' dar~a liberdade de também te divertires ao teu modo. Até um dia ! . —' / f P . — Um cemitério ! respondeu Milkau. Não sabia que eras tão grande apaixonado de festas. que os enlaça e domina na força do seu triumpho. gestosa. £j I . — Que é isto? perguntou Lentz. s t T a m " m e. \ffôjfncfyfâfap£$$£/$ f/jf* jèfâfffifa. A terra dá o menos possível aos túmulos: elles..

e um neto que nascera um anno antes de Maria. morto ao chegar ao Brasil.VI Maria não podia esquecer os fugitivos momentos do seu encontro com Milkau. de cC" um pequeno clarão dentroyíi. e ella guardava recordação d'esse dia do baile como de uma festa tranquilla para a sua alma. Vivia-se tranquillamente. longe do Porto do Cachoeira. Filha de immigrantes. Nascera na colônia. jfóytâ/yjflfk da sua /»*•»*•-vida. a mãe viuva e quasi mendiga ^ empregárar"como criada na casa do velho Augusto Kraus. A « colônia » 0JL prospersí i os outros habitantes eram o filho ca^ ^ j s a d o . no barracão da Victoria. não conhecera o pae. Muito das palavras do desconhecido se impregnara no seu espirito. as creanças crês/ IP- . na mesma casa onde ainda vivia. antigo colono estabelecido no Jequitibá. ^* vC/ A historia de Maria Perutz era simples como a miséria.

scismando.CHANAAN 191 ciam como irmãos. á alma cançada e saudosa do colono. e já moça.onde dormira quando pequeno. por muitos annos viveu como inconsciente. como o sol. Ignorando a própria historia. Viver puramente. passando a existência sem perceber o mundo. ^^fjò se separavam á /<J noite. de quem ella. A sua família. depois da ceia. vigiando o gado. e o velho Augusto. O grande amigo de Maria era o velho. Sentir a vida é soffrer. lendários. Esquecera Maria a morte da mãe. de coisas longínquas da pátria gerrnanica. de rever essas montanhas da Silesia. de que se não distinguia. Nesse . tendo quasi chegado ao extremo da curva desse circulo em que as edades se tocam. quando o ancião vinha para / o meio do terreiro ^Iff^f sentado n u m tronco / / ^ ^ secco de arvore. amores fabulosos. paizagens extranhas. o seu lar era aquelle em que fora recolhida. crescida. O ///' ' sonho era sempre o mesmo. e com o qual mesmo se confundia n'uma grande innocencia. para elle cantava coisas cujo sentido não entendia bem. um anceio de tornar á > sua terra. como vive a arvore. cuidava como de uma creança. se punha a fumar. não lhe deixando traço na memória. na completa felicidade é adaptar-se definitivamente ao Universo. mas que falavam. viver por viver. Com elle conversava longo tempo. a consciência só é despertada pela Dôr. s^entretinha^em encher as almas dos meninos de recordações da sua vida. o facto devia ter acontecido na sua remota infância.

como . despertando-o de mansinho/Énfiava-lhe o braço. Elle as viu sempre an» &ud marcha de força^•Áà. e elle as saudava pelos nomes./jS d ° s n-° c a m p o azul. As mulheres. baixaram ás águas para desapparecerem uma noite e serem trocadas por outras. _„ ^^ n'umi?ejit¥eftescime«í© infantil. para vêr rfVBCrfV* a s velhas estrellas. Maria sahia a buscar o velho. como perdidas das companheiras. n'este outro mundo.. e Maria scroccupavam"em arranjar os leitos. ao balanço do mar. rapariga resultasse alguma ligação de amor. de v. já a ambição dos colonos. Já a tristeza entrando no seu espirito lhe revelava o desencanto da existência.7w <<•^ 192 CHANAAN O tempo conhecia pelos nomes as solitárias estrellas. até que adormecia tranquillo como um pássaro. até que na epocha da sua' migração. Mas. que assim se chamava a nora. desceram do céu. E assim. donos da temerosos que da convivência do filho jfylíféfl Jláo casa. Augusto Kraus 9 sentava"ao ar > livre. lhe 11 1 traçava a separação entre mfo. lá vinham algumas das antigas conhecidas.. de bruços no chão e gelado. Maria foi amante ' do joven Moritz Kraus. a rapariga achou-o derrubado. apezar de to•. e foi a ultima. Depois da morte do velho a situação de Maria na família foi se modificando." i quando a tarefa se concluía e as duas voltavam ao silencio. Emma. Uma noite.ez em quando. Mas ainda.j/amJlrA das as preoccupações tomadas. Estes amores eram. arrastava-o brandamente até ao quarto e o deitava na cama fofa. farta como um paiol de algodão.

CHANAAN 193 em geral. que lhe parecia entrar gostoso nos planos yrnAkt*r dos pães. quasi todos da mesma origem. Mas a cupida ambição dos já então velhos Kraus não permittijp que as coisas seguissem o curso habi. não tevê meio de communicar com Moritz nem animo de exigir o casamento. uma pobre creada. onde o alugaram como trabalhador. de Moritz. longe do Jequitibá.v L Z ^ 3 jado casamento. deliberaram mandar o filho para outra colônia. que os levava a afastar Maria. Que era ella sinão uma miserável. sem suspeitarem do ponto a que tinham chegado as relações entre ^_* Moritz e a creada./( tual. com os seus desejos e ambições. Assim esperava Maria. que a convivência tornara inevitável e levara ao maior compromisso. O seu abandono foi completo . os planos da família ? Para o rapaz aquella ligação fora uma simples conse- . os pães. e no d//dft de cortar uma ///*****£• simples inclinação.iy esperando esquecesse o amovf/ffl^ffl/ftffl^-# ^#££ ijjpyJL o espirito dos Schenker para annuir ao dese. uma das mais ricas moças do logar. que poderia ser lançada de um momento para outro na estrada ? Como •'" poderia embaraçar com a sua pessoa. os amores da colônia e deviam acabar por um casamento. era apenas o interesse. Não era a distincção de classes. Queriam que o filho se casasse com Emilia Schenker. . a avidez de incorporar o filho á fa*§ milia Schenker. JC^od** Maria viu com grande pasmo a docilidade do *«ÁC«*/-amante. que não existe entre os colonos. Assim.

inundava-lhe a fronte e á garganta I<VK—/ lhe . !IJ°^^*tyyL)0íftfÍL só do desalento moral mas também da mysteriosa perturbação do organismo. cada hora mais abandonada. e ella(osjüesapertav*)n'um gesto de / desafogo. pensando encontrar-se com Moritz. teve a dolorosa proy[/<x vação de se confundir f.^ t I tavi/fddtífo e satisfeito a esposal-a. e de vez em quando. e Maria. retendo uma immensa vontade de chorar. deitava-se ao sol n'um / completo abajádono. não foi á capella nem ao baile de Jacob Müller. —fraqueza yfyyfffip . elle sVprest ' ( . os cabellos amarellos se £*?»*• f misturavam K relva vecdej-es-^seios arfavam in^t—. mais inquieta com a fatalidade da sua sorte. a bocca se humèdeeía. Um grande desanimo a .194 CHANAAN quencia da vida em companhia de uma rapariga .. um grande suor fria. Maria já não era a mesma galharda e resistente serva.. que lhe enchiam os ouvidos. e desde que lhe acenavam com outra mulher rica. os olhos semicerrados se perdiam no azul do infinito e tudo. alegria dos-ou-tres-. terra. ouvia phrases e juramentos de amores alheios. fl <2oul ' Pouco a pouco. reprimindo os sobresaltos. y/tí _ Íf0t^/fHtfft a a S o n i a . céos. e. Este. Indo ás festas da colônia.E P o r i s s o n ã o esque- . porém. esquecia-se da tarefa. Quando no cafesal lhe vi/ nham subitamente esses momentos de cançaço./ tumescidos. alvoroçou-se.subiam náuseas. —tinha tonteiras e tudo se lhe turvava nos olhos./ tomava.. fora apenas uma conclusão animal. parecia balouçar como em alto mar.

então.•/-rosamente. mais forte. Kraus olhou o escripto. eram ainda assim repassadas de uma infinita brandura. que t-jfáfa-skcbaiag-. não sabia ler o portuguez.^ / ( 1 — Você se chama Franz Kraus ? pergunto*! o tS^i^lA' v-mulato de cima. que era a sua nova existência. quando um mulato. As palavras d'elle.. apezar de estar no Brasil havia trinta annos. cflÇ^^-n^* n™~JwwH I^^^J^ .. f*\j „ O colono disse que sim. aba.. em funda agonia. E no led desespero. mais l expressiva.CHANAAN 195 cia a sua conversa com Milkau. ?>o outra. Uma manhã. ella se apegava a essa lembrança/como a um trecho de verdura no deserto immenso.tj-f W timento. no ièrj. desolador. E sabia que tudo tinha passado como o rasto do pássaro no ar . ficou embaraçado. •~fc&/"9 — Pois. sem alcance. vazias mesmo. E desdenhoso entregou-o papel. a que pouco A pouco / ^"" a turvada imaginação e a frágil lembrança. e como. outra sensação. . desdobrando uma Q° ^ ^ -folha de papel. que cahia sobre ella como um refrigerio para sua anciã. n'uma doce conspiração. Quem era elle ? Quando o veria mais?.da montaria. se approximou d'elle vaga. o dono da casa ia partir para o cafesal próximo da habitação. tome conhecimento d'isto. vivendo em si mesma como hypnotisada. mas teimava em reproduzir de / memória aquelles momentos. montado n'uma besta.. iam doando / L ^ ^ / outro relevo. tudo ' pervertendo. . sem significação..

— Ah ! Prepare tudo para se arrolar..196 — Não posso ler. Era só o que faltava. Prepare do que comer. / CHANAAN . E um mandado do senhor juiz municipal para que vosmecê dê a inventario os bens de seu pae. o escrivão e eu... E os quartos... ouvindo falar em Justiça.. não tenho mais conversa.. e de casa em casa sempre a mesma coisa : ninguém sabe a nossa lingua.. Que raça ! O colono ficou aturdido com aquelle tom insolente.. que sou o official do juizo. Antes de passar a cancella. e solemne lá se foi n'um chouto pelo caminho.. que também se conta. Kraus estava pregado no mesmo logar..y //Lr <*•» / . mais essa massada. A Justiça pernoita em sua casa. O meirinho gritou: m*^" i ft " . ao meiodia. tirou o chapéu submisso. O colono. f. Ia replicar meio encolerisado. j $ $ ^ o mulato. sinão cadeia. Venho por aqui furando este mundo. porque de nada lhe serve. São três juizes. Ouviu ? Bom. Augusto Kraus. "* . voltouse para a casa. quando o mulato continuou : — Pois fique sabendo que isto é um mandado da justiça.. com o chapéo a rolar nas duas mãos...e do melhor. e ficou como fulminado. Picou o burro. aqui. Não esconda nada. Não era assim o nome d'elle? A audiência é amanhã. adeus . Que é? — Também vocês vivem aqui na terra a vida inteira e estão sempre na mesma. Não lhe deixo contra-fé.

Kraus. Depois. também vestidas .CHANAAN 197 — Comida e dormida para cinco. As mulheres. Franz animou-se. A lei e o direito tinham alli um prestigio inquietador. todos conchegando-se n'uma desfallecida cobardia. . mas o terror dos outros. arrumavajfTa casa. colonos. Veja lá ! Desappareceu. Maria tentou confortal-os. Tudo se fazia debaixo * de conselho. tirando-lhe as energias para distrahir os patrões.QarfrteTnrya. preparava'*». Maria lembrou os hospedes do dia . que o viu em tão extranho abatimento.«/£*/ começou a arranjar a hospedagem.o pão negro dos . As mulheres / ' •>íwatavam-^allinhas. Comprehendendo isso. Na colônia. e o colono ficou por algum f//^^fiu tempo na mesma postura. como succede nos dias de desgraça. Entrou em casa. um terror como si tivesse havido alli uma visitada morte. Apenas. xemexédifé velhos ba. quando foi a tarde. espreitando a chegada dos magistrados. <y) nome mágico da / „ Justiça . poz-se inquieto a andar no terreiro. arrancou-lhe palavra por palavra a narrativa da intimação. _ seguinte e o interesse que/deviam empregar para yj A recebel-os do melhor modo. A mulher. vestido como nos domingos. quando se falava '*"*' em tribunaes e processos. fazia ainda augmentar a própria tristeza d'ella. Franz Kraus não teve mais animo de ir para o trabalho. todos se confrangiam. a « colônia » estava ordenada. e auxiliado por Emma e d creada /£. Na manhã seguinte./i'<í***/-J'*r hús esquecidos nos quartos. cada qual. querendo apoiar-se no outro. ambos ficaram mudos o dia inteiro.

— Mas aqui não ha disto.. eu e o collega. adaptando a luneta azul aos olhos. mas nós dois. Um dos juises largou-lhe o animal .. sempre a gente se diverte. procurando fitar com o monoculo o promotor.. côr de azeitona. a cara de gato . são maiores. disse o juiz de direito. solicito em ajudal-os a apeapagi n ijis âWnaes.. curador de orphãos. os outros da comitiva amarraram os seus nas arvores e todos espararam com o chicote a poeira das botas. então não terei occasião de funccionar ? perguntou vivamente o promotor.. Os magistrados montavam excellentes bestas que. veiu por obrigação. sr. eram empreitadas pelos negociantes ricos do Cachoeiro/O colonoXçon^eu) a recebel-os.. — Perdão. não se arredavam do trabalho na cozinha. de chapéo na mão... — Estou morto! disse o juiz municipal. e só pelo passeio ! Emfim. atalhou com um riso de escarneo um mulato velho. — Uma estafa I Quatro horas de viagem. — Ah ! é verdade. Era mais de meio-dia quando a Justiça entrou senhorilmente na colônia. Todos. espreguiçando-se. meu doutor. recordando nas linhas e na expressão inquieta. Ainda o sr. batendo no chão ruidosamente com os pés.198 yT CHANAAN com os seus melhores fatos. segundo o costume. que nada temos com isto.

Era o escrivão. e poz-se como um creado á espera das ordens. — Não ha mais copos n'esta casa ? perguntou com desprezo o escrivão. Mas que seja do bom. entremos. disse o juiz de direito.. batendo com o chicote nos moveis. A casa é nossa em nome da lei. — Moça bonita que saia ! gritou rindo o promotor. ou farejando para dentro. — Traga paraty ! ordenou o escrivão. de onde vinha um capitoso cheiro de comida. — O sandeu fica todo este tempo a arranjar os animaes e nos deixa aqui ao Deus dará. E todos passeiavam pela sala com estrepito. como era a sua alcunha. ou rindo das pobres estampas nas paredes. — Delicioso esse tempero! Promette! exclamou o juiz de direito. O colono sumiu-se. como si já tivesse commettido o primeiro delicto.CHANAAN 199 maracajá. — Mas onde está esse inventariante imbecil ? perguntou com arrogância o promotor. . — Não haverá alguma por ahi ? Ouvindo tanto rumor. encaminhando-se para dentro. para logo voltar com uma garrafa e um cálice.. — Mas. ou praguejando. senhores. explicou o escrivão. Kraus correu á sala atarantado.

balbuciando desculpas. Rindo. dr. doutor. meus senhores ! propoz o promotor. o mulato chegou-se á mesa com o braço estendido.. um nada. — Sr.. E.. como mais graduado. Esses diabos de colonos a primeira coisa que aprendem aqui na terra é a conhecer paraty.. uma consulta de direito. Itapecurú. E foi distribuindo a cachaça nos copos. o meirinho esperava a sua vez. para clarear as idéas. -— Tome lá. Os outros riram sem responder á pergunta. o sr. — Vamos a isto. e poz em cima da mesa quatro copos. O official de justiça pôde beber antes da audiência ? Na porta. — Sr.200 CHANAAN O colono tornou ao inferior e depois reappareceu. estalando os beiços : — E bom. disse Brederodes. serviu no cálice ao juiz de direito.. uma consulta. . — Você quer ? — Muito pouco. Brederodes. o « maracajá » começou a beber. escrivão. seu fracalhão. — Dr. me affronta com esse copo quasi cheio. continuou o promotor na distribuição. contente. em pé.. — Meus senhores. Segurou a garrafa. — Mas. meio desconfiado.

y* O juiz municipal apalpou éfdi'Ifflf0. porque si formos esperar que esta gente se mova. disse : — Vamos almoçar. escrivão. um dos //<)&&*leitos : ~£*<d*nt*^ Ah! que somno divino aqui! à& Mas. ae grandes colchões de palha farfalhantes e commodos. sr. tomarmos conta da casa. / olhando pelo monoculo ^ subalterno. como é isto ? Só duas camas e somos quatro ! observou inquieto o promotor.CHANAAN jl/ 201 — Vá lá ! depois py esqueça^e tocar a campai-/*) nha. é o nosso mordomo. o homem tinha tudo preparado. Não sahiremos d'aqui. o quarto é este. Quando voltou. todos o seguiram e ii viram-^em um quarto com duas camas altas. si querem lavar as mãos. e temos processo nullo. com medo que esta lhe escapasse. — Este sujeito não nos dá almoço ? Olhe que já é tarde. Faça favor de vêr isto. . O melhor é deixarmos essas nossas cerimonias. E empur- . os olhos cheios d'agua tingi. Olhem. Itapecurú.HS-J ram-se-lhé de vermelho. estamos convidados. ' — Não ha risco ! De um trago engoliu a aguardente. Indicou os aposentos. O sr.. Aqui ao lado ha outro quarto. disse o dr.44. /<*" O escrivão entrou pela habitação a dentro. Uma onda de sangue íhe yj'} ennegrecep o rosto.. procurando o colono.

entraram radiantes na sala. a sorrir intencionalmente. Maria. meijl perturbada.. Os collegas do juiz de direito o imitaram. Brederodes. lavados e refrescados.202 CHANAAN rando a porta de communicação. foi depondo as chicaras de café defronte de cada hospede.ella ficou vexadissimae rubra. meio nervoso. notou o escrivão. — Socega.. dr. veja as chinellas. e. vou me pôr á vontade. o café.*J — Oh ! lá !. — Até o sr. sentindo por instincto a crueza e J^iíVj^dytó^ dos olhares excitados e cobiçosos. só no fim do almoço. Maria. dirigindo-se ao juiz de direito. que de •//U (W Ar^y^ y*«~ "— T / • «• ^'~y i^^1£^t^ A . Manoel.. mudados de roupa. Souza Itapecurú. enfiando" os olhos nos olhos da rapariga. entrou com. li/. e logo depois todos três. Não é nenhuma asneira. Pois bem. não é exacto ? inquiriu o juiz de direito. Elles agradeciam. beberam cerveja em quantidade. Caça extranha. que estivera todo o tempo na cozinha. disse afoitamente o promotor. Comeram com appetite as comidas da colônia. y-.* como si estivessem em suas fazendas. onde o almoço os esperava. o escrivão mostrou-o. Única mulher no meio d'esses homens. dando-lhe de manso uma palmada nas costas. — Nós hoje não sahiremos d'aqui. observou sorrindo o juiz municipal... O official de justiça obedeceu. O dono da casa e o official de justiça serviam a refeição..

finda a tarefa. Brederodes ficou pensativo. E a pobre moça. O « maracajá » poz os óculos e armou-os na testa.. . sentou-se e principiou. de onde elle tirou utensílios para escrever e um formulário. divertindo-se com a scena. seu Pantoja. o papel de margem dobrada. — O h ! é só para vêr.. desappareceu n'um andar incerto e balanceado. que abriu em pagina marcada. E. está prompto o termo. e elle sentiu impe//i^1**'tos de se apossar da mulher. • — Pois sim. Procurou a melhor luz. debruçado sobre. e com ar fatigado e distante começou â acompanhar o serviço do escrivão. '' £2*"*// Depois do almoço. Nos seus olhos turvos passavam miragens de ^/AdÜtd. O official de justiça apresentou-lhe um bahúsinho. com um sorriso parvo enchendo-lhe a cara. dizendo ao juiz municipal : — Sr.•* —r Bem. dr. não manda abrir a audiência? O dr^-Paulo Maciel espreguiçou-se bocejando. e quando um grande torpor ia dominando a companhia. Vamos lá. entendeu o escrivão espertal-a.. a lançar os termos do processo/ Paulo Maciel tomou um logar á cabeceira da mesa.. emquanto os outros commentavam. V S. puzeram-se a fumar descançados. çmquanto arranjava a mesa para o seryiço.CHANAAN 203 ?! monoculo na mão ficou atrapalhado.. como si o convidassem á mais enfadonha das % tarefas.

de campainha em punho. e fizeram-lhe perguntas a que éüi respondia com voz apagada e tremula. onde os collegas fuma- .. que entrou na sala. Ordenaram que se approximasse. e onde élle parecia extranho e prisioneiro. aterravam os moradores da « colônia. Quando declarou que o pae era morto havia quatro annos. sem dar contas á justiça. Paulo Maciel. juiz municipal. então abra a audiência. confuso e medroso.. clamando com voz fanhosa : — Audiência do sr... Este heróe aqui na posse dos bens... foi até á porta e começou a badalar. o escrivão resmungou : — Vejam só. dr. esses gritos estridentes. começara por desconhecer sua própria casa transformada em tribunal. desinteressado. dr. Este. levantou-se e disse ao escrivão : — Seu Pantoja. nem á fazenda nacional. vá tomando as declarações. Sob a força do sol ardente. juiz municipal. avolumando-se no silencio total. ordenou o juiz municipal ao meirinho. Audiência do sr. governada por aquelles homens que se tinham apoderado d'ella. na grande calmaria do mundo. passeiando na frente da casa.. E passou para o quarto.. » Depois foi apregoado o dono da casa. O seu olhar não retinha da scena sinão uma vaga impressão.204 CHANAAN — Sim senhor. desfructando-os como si já fossem d'elle.

Vocês são finos. abrindo de tempos a tempos os olhos fftpéfff de f/i/C^fjjj. junto á janella.... do quarto não vinha " *****'*** mais o som da conversa : apenas um roncar monótono e regular de alguém a dormir enchia a casa. deixando apenas em claro as assignaturas do juiz e dos avaliadores que elle dava como presentes. Na sala. onde tudo 0 êfáffifáfáffa' n'um grande y^/»****'socego..yy .jdespediy o dono da casa. * %&r<>y ... São as penas da sonegação.CHANAAN 205 vam tranquillos e preguiçosos. Tirou o paletot e deitou-se como elles. Pantoja atormentava o colono com perguntas e de vez em quando & interrompia-para ameaçal-o : — Se você me occultar qualquer coisa aqui da casa ou das terras. proseguindo á sua discreção. ím de se haver áéy com a justiça. Penas terríveis! Assim envolvia as suas ameaças nas dobras de termos technicos. somno. mas eu sou ma/ caco velho.. cochilava o meirinho. Acabado o serviço. ou do cafesal. sentado n'uma cadeira. e que eram seus homens de palha. estirados na cama. O processo foi-se fazendo com estes dois únicos personagens . . que assignou tudo quanto elle mandou. sem receber a menor explicação/áenmyPantoja tirou os óculos. com que ainda mais amedrontava o allemão. que se fechavam logo.j ^ Duas horas levou o escrivão a trabalhar no inventario. n'uma costumada fraude que lhe rendia mais custas.

. Havendo milho.é um gosto. E lendo os papeis. — Ora... *"^ — Ah ! o sr.. Venha v. que não fazem inventario ha muito tempo. veiu ao quarto em que estava o juiz municipal. ... assignar os mandados para se fazerem amanhã esses inventários aqui mesmo. s. mas.ordenou o escrivão ao official.206 CHANAAN e manso. — Prompto. não nos adeanta. — Seu P?ntoja. é melhor deixar essa pobre gente em paz. tudo o que cáe na rede é peixe. comendo os espólios á rftnv* tripa forra.. sr.jfpf Svdyr 0ftáo sobre elle IfltftfjffltyÁjfô com os olhos endiabrados e sinistros. seu Pantoja. Afinal.. doutor! • e ^ " ^ ^ 6 * * " i Maciel asespantou^com a voz)ao subalterno.. vae deL* pressa quj. sorrateiro. como si quizesse suster aquelles appetites do escrivão.. — Não. — Neves. . condescendente e resignado. levantou-se. Não sendo coisa grande. meu doutor.ponha*se em campo. ? Já acabou? e <fiy r — T a l o . meu doutor. e em mangas de camisa e chinellos veiu á mesa da audiência assignar os mandados. E cousa pouca. sem nos da^ satisfacção. e quando se sabe expremer a mandioca. seuPantoja. E aqui ha bastante. Tenho pramptos alguns mandados para intimar uns colonos d'esta vizinhança. póde-se vêr o que rende no fim da festa. disse o juiz municipal. repetia alto os nomes das pessoas a intimar : — Viuva Schultz.

Mas não é com o dr.CHANAAN 207 Viuva Koelner. Brederodes.f0frfâjfffâf#U y> r ^ aposento uma luz branda. voltando ao quarto onde descançavam ostollegas. — As qrdens. devemos sempre fazer as nossas desobrigas. E voltando-se para o promotor : —Você tem-se fartado de dormir ! — Para que serve o colono sinão para isso ? Para sustentar e regalar a Justiça. ia dizendo o juiz municipal. aqui.. meu* senhores. não sahiria das « colônias. Olhe. Maciel que se consegue isto.. no seu caso. tudo é perto.. doutor! disse Maciel ao juiz de direito.. — JJrçá^ que malandrice! disse o juiz municipal.. Hff Os dois outros abriram os olhos. Com poucas estou de volta. O sr.. Com este bello dia. bem sabe o trabalho que tivemos para arranjar esta pequena excursão. seu capitão. O meirihho metteu os mandados no bolso e foi sellar o burro. d'estes miseráveis. Otto Bergweg. Maciel. si fosse eu o juiz dos inventários. vamos passeiar! E abrij^ as \v*Xte. — Que boasomneca. — D'esta pobre gente. dr. Esta é a nossa religião. amortecida no verde da Tfftftfifá*^ folhagem das arvores que envolviam a casa. — De que. Para amanhã ás nove horas.. : . — Tenho pena. deitados! Ora. * — Muito bem. sr. . como os vigários.. doutor ? interrogou vivamente o escrivão.

juiz de direito? Itapecurú.. aqui o capitão sabe. e nos seus risos entravam suas almas. deve ter pena é de si. voltou-se gravemente. Qy Havia n'essas palavras um prazer refinado de«r ^ misturar-. dividindo o cabello ralo. colono £ anda fino. . — A quem pergunta! Fui juiz municipal doze annos na Bahia. — Perdão. nós. Fui o terror dos inventários. e trinta dias depois o mandado fazia mexer os recalcitrantes. da sua família e dos seus patrícios. Commigo. metteu-se entre os discutidores. Não é. O sr. que de pé se penteava. eu movia a machina. Estes moços de hoje se dão outros ares. Paulo Maciel m~ viu^assim excluído d'aquella *Nk communhão e ficou meio desdenhoso. os velhos.. protestou Brederodes com interesse.2UN CHANAAN — Na miséria anda a Justiça. quando me constava que havia um fallecimento. Nós somos de outra escola. dr. é por essa falta de espirito pratico que o paiz vae mal. Não deixei um só por fazer.tuirny camaradagem com o subalterno. dr. Vão lá saber a minha fama. Itapecurú.. Ah! todos prosperámos no foro. Capitão Pantoja. \\ Todos triumphantes escarneciam do juiz municipal. sr. assestando o monoculo. mirando \ os collegas dominados pelo olhar felino do escrivão. $"" 'que era o chefe político do logar. tomava nota. não me envolva na V" classe dos românticos. com- .. ia de porta em porta em nome da lei. acudindo á interpellação e.

CHANAAN 209 pondo um conjuncto extravagante. que lhe tapava a calva. pela sua theoria. fructos ^Í^C***^ novos ou sazonados. ia com um paletot de palha de seda. e em mangas de camisa os jovens magistrados fartavam-se do bello ar da tarde.y&i *»'•**• regado de fructos. já muito russa/jfo. contra a immigração! — Então. appareciam. Os colonos. Deram algumas voltas. physionomia. interrompeu o pro12 . amarellos e vermelhos. outro era o riso f/Arlvf canino. Que di&exenç^È. examinando do sitio. com um gorro de velludo na cabeça. tudo nos encanta. sem energia para o ruído. Nada falta aqui. um era o riso tumultuoso. tudo prospera..I bria a cabeça com uma espécie de solidéo de lã. O sol já ia fraco. e «•«. so desleixo. rápido. puzeram^a *JW^' passeiar vagarosos. O escrivão conservava yi a sobrecasaca de alpaca preta.*^/^amena. o juiz de direito que não os acompanhava em tamanho desalinho.. ^» "/^**/ Vieram todos para o terreiro. alvar. e com a relaxação a tristeza e a miséria. E ainda se fala. de Itapecurú. cortante de Brederodes. encurralados na cozinha. A Justiça reinava livremente na casa £V*^ e no pomar. notou Paulo Maciel: — È admirável a ordem e o asseio desta colônia. o do $$jft> // -T ^ era o riso silencioso. engravatado.. e quando estavam debaixo do laranjal car. e a tarde era tZ^. muito penteado. ^df^mdterras cultivadas por brasileiros.. oti^'^jperdendo a força em se estampar demorado na i^f^^-. De chinellos. abandono. não*' «J^ ' .

210 CHANAAN motor. meu amigo. Quando vejo um indivíduo. eu sou um fanático da analyse. E' a conseqüência do que diz o dr. Itapecurú ? O juiz de direito tomou um ar solemne : — Sim e não. — Terra de analyse. como se diz na velha escolastica. Terra invencível. dr. estudo-lhe todos os hábitos.urrencia com um povo analytico. doutor ? gritou o juiz municipal. E' meu. e eu concluo sem medo de çrrar quaes os f?«**0.Então os Estados-Unidos.. Não ha duvida que falta ao brasileiro o espirito de anaiyse.//'sentimentos psychologicos do meu examinado.. refiro-me a todos nós. Não pensa assim.. para mim era indiferente que o paiz fosse entregue aos extrangeiros que soubessem aprecial-o mais do que nós. confirmou este.. devemos entregar tudo aos allemães ? — Apoiado. disse Maciel trocando um olhar com o promotor. — Ah! Tenho confiança nos novos povos formados n'esta escola. — Como. commentou o escrivão. Olhe. — O doutore terrível. basta Ig. uxjtí ^f0fffi/f> P o r exemplo. Ah! Porque uma-vez apanhado. o que esse homem j ^ v í ^ ^ c o m e . não . E que se pôde fazer sem analyse? E o destino da Hespanha : cahiu em nome da philosophia.. — Sim. não preciso saber das suas idéas. classifico-o.. Não podia entrar em conc. Quando estive em França.E quando digo brasileiro. Maciel.

.. morre poxjyLsse mesmo espirito de xheto-/yT . rapazes quasi imberbes. respondi eu. (voltando á nossa HQ^^JO.o~ ***** *$• " •ytj .. com o sr.. E a d'estes de agora nem na praça da Concórdia. analysando os impostos. de Lamartine. ' E Itapecurú arrependeu-se profundamente de ter 'dito isto. Idiotas! Veja hoje essa gente nova.CHANAAN 211 deixei de ir ao parlamento e admirei os jovens espíritos. Até certo ponto convenho.. me disse uma vez em Pariz : veja os seus oradores de hoje. Anões! Lembre-se de Berryer. Fala-se em Lamartine. Não íjj^ Cdolhe você como eíles dizem. Vae vêr.. cheios do espirito de analyse. como vê. nada de serio. dr. não ha inferioridade. E a sua loucura era tão grande que pagavam pela lingua. — E depois ? — Matei-o. que devemos ceder o passo ao mais forte. rica. mas sim o que elles ' J/^t^>«*/dizem. Só rhetorica. educados na sciencia positiva. Ao mais ditoso cedo o ingresso. antigamente esses homens falavam por falar. Não reparemos na yj. / f{ como diz o poeta. — E que respondeu ? — Pepsa que embatuquei ? disse com o seu riso volumoso o magistrado. questão). Não. Quando falavam aqui dentro (estávamos no Palais Bourbon) a voz d'elles era ouvida no mundo inteiro. É uma fatalidade. e até patrício nosso. O Brasil. olhemos jfd^d. Ahi é que está tudo.. Um sujeito.. Maciel. que alli estão dissecando o orçamento.. porque leu nos olhos de Pantoja a sua \ . fôrma..

sim. Brederodes. é preciso desmascarar os patriotas de barriga. não ha mais nada. que é seu. remendar o pensamento. E o pardo cerrou os punhos. estampando-se-lhe na cara um sorriso tenebroso. Patriotismo vae-se vêr em breve. replicou Brederodes. mandar a sua esquadra bloquear os nossos portos. Pantoja. podem vendel-a. meus doutores. — E que fazemâvocês para se oppôrem? Pensa você.gaguejando. disse. Os senhores podem querer entregar a pátria ao extrangeiro. que com o nosso exercito diminuto. meu capitão. — Quando esse imperador da Allemanha que você admira tanto. disse o promotor. — Mas/ capitão. obtemperou o juiz de direito com uma voz de melliflua cobardia. Teve um frio de medo equiz. rangeu os dentes. — E quando é esse famoso momento ? perguntou calmo e desdenhoso Maciel. soturno. — E não ha de tardar muito o momento. mas emquanto houver um mulato que ame este Brasil. as coisas não vão tão simples. — Sim.212 CHANAAN condemnação. Mas o escrivão não lhe deu logar e acudiu rancoroso : — Admira-me ouvir de dois magistrados uma tal linguagem. podemos $ $ / $ $ • a a l S u e m ? . escute. Quem applaudiu mais do que eu a resposta do Marechal ? A bala. á bala quando elles vierem. Não ha mais patriotismo. com a nossa marinha insignificante. não duvide dos meus sentimentos patrióticos.

7 .. Um grande incêndio que ha de espantar o mundo! — Sei d'isto. interveiu o escrivão. — Como ? respondeu o escrivão com uma satisfacção sinistra. Meu doutor. — De toda a parte. r — Ninguém pôde dom.. nas cidades.. Tocando fogo nas casas.. no matto.. — . Nada mais... Itapepurú. meu caro ? — E' verdade. esperando com ar admirativo a resposta. — Como. observou irônico o juiz municipal. com uma caixa de phosphoros se liquida um exercito e toda essa canalha européa.. o juiz de direito. A Polônia e o Transvaal também promettiam tanto. dõ Norte.nar um paiz quando o povo não quer. rindo. Depois. — E a doutrina de Monroe? A^America para os americanos. capitão/ perguntou. ajuntou também. cortez e lisonjeiro. O nosso combate será com os europeus. concluiu gracejando Maciel..CHANAAN 213 Brederodes deu urna gargalhada e disse victorioso : — E os Estados-Unldos. que lucro teríamos n'essa intervenção ÍPassariamos de um senhor para outro.. Como elles mesmos dizem. E a grande America cruzaria os braços? — Não sei até que ponto se metteriam n'isto os Esfádos-Unidos.

Diga-me você : onde está a nossa independência financeira? Qual é a verdadeira moeda que nos domina? Onde o nosso ouro ? Para que serve o nosso miserável papel sinão para comprar a libra ingleza ? Onde está a nossa fortuna publica? O. hypothecado. Você »ão me acredita. » — Por quem ? interrompeu Brederodes. doutor. vapores não temos.. *v .. dó que á honra.eu não a vejo. *'* • • — Os Polacos «rarh aristocratas e por isso indignos.. o juiz municipal». homem. gesticulando com a luneta. — Bravo. e isto decide o povo.pouco que temos. mas. É ou não o regimen colonial com o nome disfarçado de nação livre?. eu desejaria poder salvar o nosso patrimônio moral. cáustico. o que perder. O nosso regimem não é Hvre : somos um povo protegido. Os brasileiros. ** O escrivão encolheu os hombros c«m de^pre^fe. .%. — Espere. O senhor è dos nossos. não duvide dos meus sentimentos. os Boers são uns mArayeís tjue têm. a nossa lingua enffim. felizmente. disse interessado o juiz de direito'. observou."* • — Capitão. Ouça. As rendas das alfândegas nas mãos dos inglezes . disse fora de ei Brederodes. Não temos nada a perder. então.21 í CHANAAN ' . intellectual.. mas a continuar esta . O Brasil é e tem sido sempre colônia. estradas de ferro também não. não. Alli ha mais amor ao dinheiro. Escute.. — Os senhores falam em independência. ás minas. tudo do extrangeiró.

mas um dia. repetiu frio e insistente. Isto reconheço. O oujra enrubesceu. retomando o seu geito.. Qcollega sabe que em questões d'esta ordem não 1 convém falar sem toda a segurança. com os lábios a tremer. continuou : — Si na verdade não entrámos ainda na orbita de um grande povo. é melhor que viesse de uma vez para cá um caixeiro de Rothschild para governar as fortunas. elles nos *-^ccrrrerão. Colônia somos nós e/seremos. o que você não'pôde negar/i a evidencia dos factos. Itapecurú temeu um conflicto. fatigados de l impedir que outros se apossem de nós.CHANAAN 215 miséria.. Dizem.. disse seccamente Maciel. como fizeram a Cuba.. — Menino. emquanto houver miseráveis como você. — Dii^m quea Allemanha tem planos. commentou fofundamente o dr. proseguiu atrevido : — Colônia. O escrivão saboreou a disputa. E. esta torpeza a que chegámos. pallido. insultou-o Brederodes. . deixe de ser malcreado. Temos sobre o continente projectada a sombra dos Estados I Unidos. e um corais nel allemão para endireitar isto.. Itapecurú. E a sua cobardia . Houve um pequeno silencio. e obedecendo a uma excita£ão4ula.. é porque aproveitamos da 1 disputa entre as nações fortes. menino. nias 'Paulo Maciel sorriu logo com superioridade : — Descomponha-me como quizer. — Você é um cynico.

— O negocio não é para manifesto. — Mas esses allemães não fazem nada. varrer. nem para eleições. Porque esses allemães não serão nunca brasileiros.216 CHANAAN solemne punha uma certa brandura na discussão. -> ••r O escrivão ficou embaraçado no seu dfi^plo sentimento de chefe de partido na localidade e de nativista. respondeu o escrivão. — Eaté se aproveitam dos votos do extrangeiro. — As eleições vêm ahi. — Pôde affirmar sem medo. e são os melhores eleitores aqui do capitão Pantoja. de politicagem. São . é essa mania eleitoral : por causa de partidos deixa-se naufragar o paiz. O próprio Imperador paga do seu bolsinho missionários e professores no Rio Grande e em Santa Catharina. esquecendo-se de que o povo soffre e o extrangeiro só tem a ganhar com a nossa miséria. Porque não faiem os senhores um manifesto ? propoz o juiz municipal. E elle mesmo respondeu : — Cruza os braços. Nós precisamos.. que estamos sendo cercados pela cobiça dos Allemães. dos amigos. coisa do interesse dos partidos. tomando a serio o que dizia Maciel. disse o escrivão. Isto é coisa á parte.. replicou Brederodes. cuida de eleições. — Eis o que nos prejudica. accrescentou Paulo Maciel. capitão. que faz a tudo isto ? perguntou Brederodes. esta corja que se apossa do poder p a r a $ enriquectr. — E o governo.

nós nos aproveitamos d'elles. tirando de passagem folhas das laranjeiras que ia aspifando. obedientes. Um rebanho de carneiros.. Pobre Brasil!.. por esses respondo eu. uns velhacos. Capitão... Mas não haverá uma salvação.... nervoso.CHANAAN 217 muito respeitadores e mansos. Momento doloroso em que se joga o destino de um povo. a descuidada inércia.. Abala! Paulo Maciel parecia desinteressar-se da discussão e. Paciencki.... do seu dinheiro. fogo no extrangeiro.. escarnecendo : — Está ahi o perigo. não haverá um deus ou uma força que 13 . Ridículo... Os Allemães são.. deite de conversa.. Foi uma tentativa falha de nacionalidade. Maciel pensava : — E o debate diário da vida brasileira. Brederodes deu uma risada. e elles vão na sombra engrossando. como nos opporemos a que elles venham?.. mettem-se em nossa casa muito quietinhos. nativista sempre. Sul America. Que podemos fazer para resistir aos lobos ? Com a bondade ingenita da raça. descuidado. Os companheiros o seguiam.. T^do vae acabar e se transformar.... a nativa fraqueza. Ser ou não ser umâ nação. Todo este continente está destinado ao pasto das feras. do seu numero... até um dia se despejarem sobre nós e avassallarem o paiz. E que nos adeantam os Estados-Unidos? Será sempre um senhor. foi-se afastando na direcção da casa.. empenhados no assumpto. Ai dos fracos!.

. temido pela sua influencia política.. Caminhando. — O meu nacionalismo... tj da Justiça.. vá lá. e^tó p u z e r a m / a s / ^ ^ ! cadeiras do lado de fora da casa eyi entretiveram-A' a conversar pela noite a dentro. assim chegaram á casa. apezar de tudo. A Terra prosperará.. Emfim.. Maria rodava pela sala.. degradada si quizerem. e o meirinho.. Vale a pena? E o mundo é só isso? Vale a pena viver para ter mais policia? E a lingua? £ raça. . immoraes. esta associação. nossa. emquanto as estrellas vinham se abrindo numerosas e infinitas.. boa. parecia fria e indifferente ás phrases atrevidas.ajudava o serviço. e está acabado... mais policia. D'ahi. Mea culpa.. Acabado o jantar. e voltava ao assumpto... A pobre. Melhor administração. Oh ! muito nossa. e é só.... e amada. onde eram esperados para jantar.. sempre perseguida pelos homens. Temos o que merecemos. Desde a Academia fui um exaltado em questões de patriotismo. porém.218 Y //fP /( CHANAAN paralyse o raio armado contra nós ?.... porque é nossa. capitão. é antigo.. Ah ! nunca transigi.fraca.já devolta das intimações. sim. pôde ser que seja melhor.... O juiz de direito não desanimava em desmanchar qualquer impressão sobre a sua falta de patriotismo que porventura ficasse' no espirito de Pantoja. mesquinha. Puzeram-se á mesa..quasi a esphacelar T se. com que a cobriam os sujeitos . mas amável. Sahindo do seu esconderijo......

como o sr. creia. objectou Maciel. confesso. Não é debalde que me chamo Itapecurú. Os meus sentimentos nacionaes. não sahiria de lá. ia interrompendo Maciel por brincadeira. Não dou tréguas ao extrangeiro. que propõem para matar o jy jjJJ/ .CHANAAN 219 — Mas isso foi n'outro tempo.. sou até jacobino.. E a marca nativista que trago da Academia. estavam enfraquecendo.. devem dar uma vista d'olhos ao velho mundo. respondemos ao nosso modo. vendo a deê&dencia da Europa. E salutar. os Gurupis. si pudesse. estudantes.. Manoel Antônio de Souza Itapecurú. Cada um tomou um nome indígena. — Nunca abandonaria minha pátria. respondeu empenhado Itapecurú pondo o monoculo. — Hoje... Accrescentei Itapecurú. redobrou o meu nativismo. e aom certeza. — Como assim ? inquiriu Brederodes. Não nego que a Europa tenha alguma coisa de bom. sentem desgosto de ser brasileiros. com a edade. — Quando Gonçalves Dias e Alencar deram o grito de alarma pelo Brasil. pelo caboclo. Souza cheirava a galego. Eu me chamava Manoel Antônio de Souza. — Mas divertiu-se bem na Europa. Foi um movimento geral. Aqui para nós. mas. creio que hoje... Aquelles que. E só. Quawdfci mais tarde a palestra esmoreceüyoj uiz de direito disse aos companheiros : — Meus senhores.. nós. os Itabaianas. tive orgulho d'este Brasil e voltei ao meu furor. e d'ahi os Tupinambás.

nem por ser brasileiro. accentuando a phrase com vistas ao escrivão Pantoja. mas. disse o promotor. receba o dobro dos seus patrões. logo que Maciel partiu. — Pôde ser que quando isto fôr da Allemanha. — Não conte commigo. — E'verdade. não dá para nada. — E uma pena. que tem feito ? — Sim. Será bonito e asseiado.insinuou Itapecurú. esse. Eu podia contar impagáveis. Presumpção não lhe falta. disse o dr. era mais feliz quando o deixavam só com os seus pensamentos. desembuche para vermos o que tem tão escondido. Itapecurú. ao contrario dos companheiros.. escarneceu o escrivão. Si um dia escrever para a Capital. fede. que ajuntou por sua vez : — Mas o dinheirinho no fim "do mez não se engeita. — O que elle sabe é descompôr o Brasil. doutor. eu os espero no quarto. Uma coisa affirmo : nada sabe do officio.22U Í^^/l/1 '"/ CHANAAN tempo ? Vamos a uma partida de manilha ? Paulo Maciel não temia o tempo e. que não larga a grammatica allemã ? . havemos de rir muito. accrescentou Brederodes. Boa noite . disse Itapecurú.. para os jornaes. Os outros. — Também pouco se perde. maldizer de tudo o que é nosso. Estou cançado e vou deitar-me. entraram a detrahil-o. no fim de dftij}.

— Pois sim. Os três jogaram algum tempo. Não vejo geito. capitão. Só si V S.tÍÇ£r t*WÁAff-*TU> f — Então ? perguntou o promotor. não querendo desistir de jogar. respondeu Brederodes. agitado de desejos lubricos. acquiesceu Pantoja por entre baforadas da fumaça de cigarro. desaíío-o para uma bisca. — Como assim ? — A bicha é arisca como quê. visse . que tanto o perseguia. com aquelle vago receio do tédio.CHANAAN 221 — Sim. está se preparando para nos governar. doutor. seu doutor. e que acompanhava por divertimento. disse pressuroso o juiz de direito. Neves! — Prompto. O official de justiça estava a cochilar.abandonou o seu logar. Brederodes. — N'este caso. deitado na relva. pretextando cançaço. O juiz de direito trazia sempre um baralho de cartas na mala para essas excursões judiciarias em que nada tinha a fazer. Riram e ergueram-se para jogar. quando o viu ainda de longe. Não tardou o <ffly$tyà*-fà*. aguente-se para uma sova. Brederodes no terreiro chamava em voz baixa o meirinho : — Neves. ficando só. — Qual! seu doutor. até que o promotor. O promotor deu-lhe uma ordem que elle partiu a cumprir. e ergueu-se meio atordoado. passeiava nervoso.

os colonos não davam signal de vida. e um pouco acalmado no seu furor. Brederodes resolveu vir para o quarto. como si ainda tivesse o que perder. Levantóu-sê sorrateiro e. Deixe estar. Uma fluxão de sangue subiu-lhe á cabeça. FyJié» de esperar..reconhecia Ustn-o Jèu^i*'"'^* <**y*~ frf . não se zangue. ruminando vinganças.. ás apalpadellas foi tacteando as paredes. e n a * nente nevrotica pasfâlvam perturbadoras miragens . — Ella me paga. Elle deitou-se de manso e poz-se á espera de que a noite avançasse. rangeu os dentes. não reparou como já vae bem adeantada ? Brederodes ficou colérico. V S. tinham-se resignado a deixar o baralho e estavam deitados nos quartos. Na casa tudo se aquietara. Ahi o seu companheiro. Vou vèr si ainda dou uma volta no caso. um signal qualquer. E desappareceu na direcção da casa. e os olhos na noite escura brilharam felinos e máos. Este ficou só. Ao dar com alguma porta.. fugindo ao desabafo do promotor. mortos de somno. Corja de allemães ! — V S. (b teu sanguf voltava ae*/ímpetos dd deseW. para vêr si... seguiu pela casa a dentro.\ apenas alumiado pela frouxa luz de um candieiro de azeite que estava na sala. punha-se á escuta. resonava. ^ m i e era o escrivão. o ^ridii meirinho não voltara.sensuaés. Nem me respondeu.. e quando na volta do corredor o clarão se acabou. Ainda que tudo isto aqui arrebente.. por um movimento. n'uma meia allucinação. Os dois parceiros..222 CHANAAN o nojo com que me olhou.

duas mulheres e um homem.. dr. Poz a mão no trinco. No dia seguinte. E com esta esperança passouadeante nas trevas. encostados á parede. rodeiados de creanças. o meirinho annunciáVa ao toque de campainha a audiência dos inventários dos vizinhos de Kraus. « Miserável » pensou. Maria? Brederodes recuou para o corredor e deixando a porta aberta deslisou nas pontas dos pés. Isto naturalmente é o quarto dos velhos.. esperando ser chamados. V.. nada.. mas um vago vislumbre da consciência da sua falsa posição tolheu-lhe o movimento. Um impulso de arrombar a porta tomou-o. a tramela levantou-se e com a pressão^ajDortaJabriuíe^rangendo. Mas'esta estava ' / fechada á chave.CHANAAN *~ ~ * \ 223 o quarto de MaúayfÁJ um momento deum^des. n'um instincto salvador que lhe fazia adivinhar no escuro o caminho do quarto. tem de funeciona &/ . o promotor e o juiz de direito á janella conversavam. voltados para dentro. e uma voz assustada de velha perguntar : — Quem é ? Es tu. Brederodes.. com raiva o promotor. Brederodes palpitou alvoroçado. ás neve da manhã. Na sala o juiz municipal e o escrivão estavam no seu posto. — Pôde ser que não seja aqui.• / ê i-0 /cobrif. S. — Sr. Tentou abrir a porta... Escutou . seguiam atemorisados a scena. De dentro ouviu um rumor de alguém que acordara. Outra porta estava em frente. á mesa. em pé.

passou a tomar as primeiras declarações da viuva. no fim do negocio... — Viuva Schultz! chamou Pantoja. — Não é possível arranjar alguma fatia para mim n'esta festa ? perguntou o dr. — Sempre o mesmo. sabe que é depois. aqui todos herdam sem a menor cerimonia. seguido pelo riso zombador dos que ficavam. Pondo o chapéo. emquanto os senhores preparam o prato. Ha uns desvalidos que precisam da protecção legal de V. Juro. Depois de alguma hesitação. O promotor teve um risosinho de satisfacção e veiu sentar-se á mesa. n'um sorriso idiota. — Bem. Todos comerão do bolo.. vou dar um giro ahi fora. assestou o monoculo nos intimados e sahiu magestoso. — Ha dois annos.S. se approximou.. motejando. iniciando o interrogatório deante da apathia do juiz municipal. ia respondendo documente a .2->'i V CHANAAN como curador de orphãos nos três inventários. n'este caso. — Ha quanto tempo seu marido é morto? perguntou o escrivão.. '>— V S. Isto vae acabar.. ainda moça. como nada tenho a fazer. Ninguém cumpre a lei.. Em seguida. disse o escrivão. que triste e subjugada por aquelle apparato judiciário. Itapecurú. uma camponeza alta. que se precisa da sua benção.

sem nadadizer áinteressada. pôde ser que tenha mais ou menos. meu defunto marido avaliava em quatrocentos. no meu cartório. radiante de allivio. . e um immenso pejo a assaltava.CHANAAN 225 tudo. disse á colona : — Agora pôde ir. não sabia ler o portuguez. A mulher ia se retirando. — Mas..além de tudo.. — Quantos pés de café tem a sua colônia ? — Quinhentos. — Só? Não minta. sinão temos conversa no Cachoeiro.. — Espere lá !. /// Depois de algum tempo. para receber os seus papeis. não contei um por um.. observou com accento escarninho o « maracajá ». Que desembaraço! Ainda não lhe disse o principal.. eu plantei uns cem n'estes dois annos. sommou13...que.i o valor dos bens pára accrescer os seus lucros. levantaram-se e foram entretidos para a janella.. D'aqui a duas semanas appareça no Cachoeira. — Bem. senhor. E calado. A mulher a cada passo soffria descomposturas insolentes de Pantoja.. N'üm papel escreveu varias parcellas. O juiz municipal e o promotor. despreoccupados da audiência. segundo o seu velho processo de tudo //• fazer elle mesmo e/augmentarijiy descaradamente y . eu arredondo a cifra. Continuava Pantoja a lançar os termos do inventario. escreveu : — Mil e quinhentos pés de café.

. Trezentos mil reis. é que havia de ser bonito. — Está direito. Trezentos mil reis !. E depois de repetir com elle a mesma cousa. tem de se haver commigo. olhe leve comsigo o dinheiro das custas. A mulher. com um ar apatetado e longínquo. — E viuva ha pouco tempo ? perguntou elle. muito baixa e ainda joven... Nada de conversa e bico calado. .. A colona lançou olhos de supplica para os dois magistrados. o ar da miséria. vestida de luto. que continuavam indifferentes a sua palestra. passou a se occupar da ultima intimada. Ouviu? — Trezentos mil reis !. que esperava a sua vez de ser apregoado..... sahiu cabisbaixa da sala da audiência. Sem um apoio. cuja cabeça dourada se realçava radiante por entre a pretidão das roupas da mãe. Meu senhor! — Não tem meu senhor nem nada. cançado de estar em pé. aqui não se faz esmola. Si tivesse de metter um advogado. veiu sentar-se no seu logar e se interessou um pouco por esse grupo. e dê-se por muito feliz. s? approximou*TJma filha de cinco annos lhe (seguravayb vestido e ella carregava ao collo outra. Trezentos mil reis. esmagada. Paulo Maciel.22G *7 CHANAAN as resmungando e disse comsigo afinal : — Cento e oitenta mil reis. Pantoja chamou o colono. porque não houve demanda. Si eu souber que vosmecê andou batendo a bocca pelo mundo.

esta é muito boa. o que elle. — E triste! E como vive você ? inquiriu compassivo... que já vinha doente do peito.. fingiu não ouvir.. — Estavam principiando a vida.. Meu marido. não durou muito. A mulher ficou pensativa sem responder. não ha inventario a fazer.. tem competência para dispensar na lei ? Ora. Não é verdade ? — Apenas houve tempo de levantar a casa. dr. Não se plantou nada.. afinal. disse Pantoja. Que diz a isto. no fundo de todos elles temido. — E desde quando está no Brasil? — Ha um anno apenas. Paulo Maciel. E melhor mandal-a embora.CHANAAN 227 — Dois mezes. para se vingar do interesse do juiz. respondeu a moça.. para evitar uma discussão com o subalterno... V S. A colona. disse : — Estou em trato para vender a minha casa e vou me empregar como creada em outra colônia. Brederodçs . — Naturalmente tem algum amigo que substitue o defunto. — Como é isto ? disse tremulo o escrivão. considerava como uma invasão dos seus privilégios.. fazer o roçado para a plantação. opinou Maciel. seu Pantoja. habituado a fazer tudo.. — No fim de contas..

. Trata-se de orphãos. e a intelligencia fina. Juiz municipal. apossando-se da situação que o superior lhe abandonava. Paulo Maciel ficou sem saber o que dizer deante de taes attitudes. aqui está o formulário official e / . lucta inglória em que elle não se queria estragar. prender este escrivão insolente. em vez de um inventario formal.. de fluido nervoso. era dispensar o inventario-. pérfida. com esse escrivão chefe político. cheguemos a um accordo. . envolvendo-a n'um clarão de bondade. i.. — Isto é uma novidade para illudir a lei. é o principal interessado. propoz com uma voz fatigada.-228 •ÍA l-J CHANAAN V S.o desenrolar de uma lucta cornos seus collegas. seu subordinado legal. eu requeiro. — Está bom. E si o senhor não quer fazer ex-officio. Inventario é inventario.. dr. não me mostra esses arrolamentos. O seu sentimento era suspender.. — Não concordo na dispensa do inventario. distincta descortinou-lhe. acudiu vivamente o promotor. sr. respondeu o escrivão.. Pantoja mediu-o triumphante.. dr. Façase apenas um arrolamento summario dos bens. Valeria a pena ? As suas poucas forças o trahiram. era ainda por cima dar dinheiro do seu bolso á desgraçada e mandal-a embora. não precisava de consumir !... Mas para isso. Os juizes passam e os escrivães ficam. que somma de energia.. mandão da localidade..

— Deixe o caso commigo. E o inventario foi feito como os outros. é rapaz. meu senhor. Era só o que faltava.. — Capitão Pantoja. atalhou o escrivão. V S. dividas da moléstia e depois trabalhar para outras novas. deixe de luxos. não venderá a casa nem o roçado. E voltando-se para a colona : — Vá.... e agora vamos vêr.. Querem obrigar a Justiça a trabalhar de graça. colérico e intratável.. Lagrimas!. esta começou a chorar. seu Maciel. á mulher moça não falta dinheiro. mas a mim ninguém me embaça.. Todas ellas choram... Si não quizer nos pagar. com as mesmas extorsões e violências. obrigar esta pobre mulher a pagar mais custas. não entende d'isto... — Mas não posso arranjar tanto dinheiro. É pouco? — As custas são o azeite da machina do foro. — Sim. Atordoada como uma . objectou alegremente Pantoja.. No fim. — Venda a casa.... eu prendo os papeis. ia dizendo o juiz municipal. Que mal ha em fazer-se o inventario ? — Que mal?. — Primeiro a Justiça... — Deixemos de scenas. vou vender o que tenho para pagar as dividas de meu marido... Deu uma risada secca.CHANAAN 229 — Homem. veiu hontem ao mundo. quando o escrivão intimou a colona a que lhe desse duzentos mil reis. disse o promotor..

vá buscar. que mantinha sempre com a luz poderosa um grande silencio. capitão. accrescentou n'um gesto de irônica cortezia : — Muito obrigado pela hospedagem. Uma vertigem o ia tomando. O dia era abafadiço e dominado pelo sol. Olhe que o negocio podia ser peior. O homem vacillou. os animaes estavam sellados para a partida.. meu amigo. como para cahir. E batendo rio hombro de Franz Kraus. Sob aquella pressão. na garganta a voz morreulhe n'um espasmo. arrastando os filhos. demandas. a colona sahiu. observou lisonjeiro o juiz de direito. o colono foi caminhando automaticamente para a casa. — As nossas custas. que o fitou espantado da intimidade. E por isso dê-nos logo.. Depois do almoço. Você pôde.. apontando o colono : — Ainda não' tive a minha conversa aqui com o amigo. O escrivão empurrou-o de manso. amigo.. Os juizes vieram para montar. . camarada. Pantoja chegou-se ao grupo e disse ao promotor. Quatrocentos mil réis. o senhor é de força. não se espante. Advogados. — Que é ? interrogou inquieto o colono.. Está me cheirando mal o fiado.. mas ainda falta alguma coisa.230 CHANAAN somnambula. ajudados pelo meirinho e pelo dono da casa... — Bravo. dizendo-lhe zombeteiro : — Vá..... penhoras.

O juiz municipal.. no fim do mez. está chovendo na sua roça.. E quando Ella desappareceu e tudo voltou ao socego profundo. estimulado. que os ia impacientando. de chapéo na mão. Agora" tudo está em ordem. no meio do terreiro. respondeu o escrivão. F i quemos bons amigos. appareçeu o velho Kraus. sem dar-lhe resposta. o colono via com os olhos desvairados a Justiça sumir-se na estrada. Tinha os olhos vermelhos. murmurou olhando ^ e d r o s o para os lados : — Ladrões! //&r*/~ i^*'*' . disse Itapecurú a Paulo Maciel. Em pé. A cavalgada partiu. ficou elle longo tempo com a vista jpjffààfy na mesma direcção. Chorara. Procure os papeis no cartório. O colono olhava-o. Pantoja recebeu o dinheiro e contou. Depois de alguma demora.• CHANAAN 231 — Ainda não viram nada. Subitamente. as faces inchadas e rubras.. mudo e abatido. n u m a raiva immensa e cobarde. — Parabéns. olhou-o com um grande nojo. .. E montou. a cabeça ao sol. — Muito bem.

e ella $é deixavá ficar na colônia e na vida. de ir para longe.. as forças não lhe acudiam para qualquer resolução. definhava languidamente. preza de um grande temor. fraca. Outras vezes. . sem preoccupações alheias. cobarde. nos serviços domésticos.. vigiada pelos olhos cúpidos e inquisidores dos velhos. e sem poder dormir noites e noites na afflictiva anciã de querer salvar-se da deshonra. que o tempo indifferente e implacável trazia cada vez mais á flor. esperar que das próprias entranhas lhe viesse a salvação e o consolo do futuro. Desesperada da volta de Moritz. vivia como uma louca.VII y/y // A'l^-'de Continuava Maria na colônia de Franz Kraus no seu mesquinho penar. volteando apatetada pela casa.. no mesmo ruminar desespero e de agonia. de uma immensa e mofina vergonha. e queria morrer.. Assaltavaa muitas vezes um desespero de fugir. desconhecida e forte. Mas.

ficavam irresolutos. que é o único encanto d'esta. subjugados pelo /píffiító e crescente jljcc*^ "-> terror que lhes deixara a visita da Justiça. n'um passo tropego.CHANAAN 233 Os velhos não tinham mais illusão sobre o estado da rapariga. erguida alli como um estorvo ao desafogo da ambição d'elles.(( lavei. E. sentiam um ódio surdo contra ella. que se quebrou. tomada de um suor frio. como uma manhã. e é&T ~ com desespero nevrotico dúé^viam a misera inaba. nem mesmo para a maldade . e vendo-a mover-se pela casa. Assim viveram algum tempo esses desgraçados. tudo fora tarde. com o ar transfigurado que lhe punha a } amargurada maternidade. diziam inconsolaveis. deixasse cahir um prato. sem um movimento de revolta. n'um cons. E d'este w** modo. A todo o momento eram ralhos e insultos. aoDravam-ine os rraDainos. em cochichos de vingança ou em planos para "se verem livres de Maria. E agora passavam os dias muito unidos. Não se conversava mais. Maria. já fatigada de trabalhar. não havia mais o esquecimento do tempo. a velha Emma enfureceu-se e começou a insultal-a . processos. a vida n'aquella colônia era uma tortura para todos. mais a indifferença pela existência. com medo de . eram exigen- quasi comida. Viam desfeito o casamento do filho com a herdeira dos Schenker. com as mãos tremulas.fl/Qtante gesto de somnambula. Mas as suas cabeças não eram inventivas.

.. e transbordando-se-lhe o ódio. Vae-te embora. peste. que apertou com violência.. intimidada.. de súbita que fora. A rapariga obedeceu automaticamente. de pragas rancorosas. collou-se á parede. canalha. E foi então que Emma gritou : — Miserável. ia recuando. offegante. suja. sem hesitação. ordinária. levada pelo impulso das ordens violentas. Fora.. possessa. Carrega teus trapos.. communicado do mesmo furor. Franz correu á cozinha. caminhava firme. Franz estacotLili. e ordenou-lhe : — Parte... Cf Maria correu ao quarto. que a misera entrouxou algumas roupas. A excitação dos velhos. avançou colérico para Maria que. uma baba viscosa a escorrer-lhe da bocca contorcida.. protegendo o ventre com as mãos... o velho alcançou-a e com violento empurrão impediu-a de fechar a porta. agarrou uma acha de lenha e brandiu-a.2.. para o desconhecido. — Fora e já.. Sáe. os diúi cabellos descobertos iam espa- .14 /í*- CHANAAN n um berreiro. O marido.. Sáe. não deixava de prolongar-se. Emma segurou a moça pelo braço. querendo se refugiar... Maria sahiu para o terreiro e.. n u m a ameaça de morte : — Fora.mui i h l h . Por entre a folhagem verde. Vae-te d'aqui. fugindo atordoada do alarido. berrava Emma. a rapariga. livida.. rangendo os dentes. e foi debaixo de maldições.

não mumurava uma queixa... entrar sem rancor.. Maldita! Maria andou algum tempo..Tudo acabado.. voltar. trazendo-lhe uma sensação de desanimo.Uma arvore cortada. o jardim. voltar! Mas... n u m a insondavel^sj^áção. quando se dispunha a retroceder. um fio d'agua. como um latido de cão.. sem dar fé da sua direcção. que des- j/p /.. desmanchar com o sorriso o pesadelo monstruoso. E foi caminhando. //fofam ... Tudo cortado. Via-se expulsa da Velha casa que lhe fora o lar. até que lhe chegou a fadiga da energia em que se mantinham os nervos. Quiz tornar á casa. inconsciente e desvairada.. um cafesal verde..15 lhando o fogo do sol. e os olhos grandes e limpos tinham o lustre crystallino e secco dos frios espelhos. tudo era apanhado pela sua aguçada retina. Vae.n'um impefo de cólera. reconheceu. cuja razão não percebia bem.CHANAAN 2.. sem explicação. um animal que se movia no fundo negro da matta. Sob a grande e funda emoção as idéas tinham-se congelado JtíÁ^y^l a sua visão dilatada ia notando e retendo os pequenos incidentes da paizagem. Atraz. Era uma estatua marchando. que lhe entorpecia os passos e flra despertava a consciência. E na memória os quadros da sua vida desde a infância. a voz de Emma : — Vae. perdição de minha casa. seguia-lhe no encalço... Sim.. um reflexo-de sol. miserável... o mundo !... Não dizia $A palavra.

pois um grande pejo a afastava das /. . imaginando poder tão simplesmente restabelecer o que estava extincto. que ella seguiu confiadamente. os olhos embebidos no / próprio corpo. recordava-se da ultima festa da colônia. Lembravam habitações humanas perdidas no deserto. e os dois pequenos edifícios de atalaia davam maior tristeza á solidão. um sobresalto de terror^he^acudiiAo corpo. houve um rebate de esperança. com a cabeça pendida sobre o seio. o abandono. o sacrifício. ^ agital-a.. uma extranha / ^ZZrv^-mtrepidez. começou a /f~.236 CHANAAN vairava.• casas conhecidas. c*v Uma vaga inquietação de não pyiiídnjxax um ( 'i pouso. e com a saudade ia enchendo. . &icaminhou-se^ara os logares mais invios. Parada. QdamÂ/pt depois de duas horas de marcha. chorava. Na pequena alma de mulher rústica e simples de Maria. cio da estrada. 1 fl/tí^<~tffá}/fâdy(/yffl/0i appello de salvaçãoj^è* ** "/**' yfyyyy o pastor de Jequitibá. não o tornara a vêr. mas da sua d _ ' tímida e doce figura de camponio lhe ficará uma / agradável impressão. E á proporção que Maria subia.Começou a subir. Desde aquella manhã da missa. povoando de gente. porque a falta absoluta de outro apoio no mundo lhe ídcJéphUft. ^*?^~w. lembravam o isolamento. a rapariga avistou a egreja e a morada do pastor. . um abrigo n'aquelle deserto. Mas foi instantânea a hesitação.. A paizagem era limpa. dando-lhe animo para prag^guir no silen/ ' ^.

da montanha deserta. deu-lhe um tremor. cabeças alvas de creanças movendo-se ibelhuda/ pa£a ella. e n'um impulso nervoso tocou a campai/ ' nha. Maria quiz fugir. Olhou de soslaio. desfallecida um y/Jsr*W*^\ instante. emquanto elle dormia.<y tra. sinis.. de movimento. que proseguia desarticulada.. j . Era ahi a escola regida pela irmã do padre. Ella recompunha também os instantes em que vira Milkau e. ' / A mulher do pastor acudiu á porta. c .. e a voz infantil. De uma porta aberta vinham vozes de creanças soletrando. monótonas -— f£»0 e cantantes.~De dentro nenhum outro rumor ffffa P a r a aDafar a v o z da c r e _ anca na escola. assustada w****™ Mí rt/t*~** —i yr~* ' zS£sâj&&*>A**^ . infatigavel. veiu-lhe um novo esforço /( . Depois. que xeúniu di^filtí^ n'aquelle repouso uni. A de valor. mais forte e estridente. Passou adeante e em face da porta fechada da casa tremeu mais./yfy versai. levada por essa corrente de evocações. jlJL (£dduâ6 chegouao alto viu a terra em roda dajifí1 casa. o que era a ' paixão do novo pastor.. de vida. na parede uma cruz negra envolta no sudario. Alagada em suor frio.. talhada e preparada para jardim. e viu uma sala escura. o vazio descampado das montanhas e dos valles calados.///l*"r' 1 ças.CHANAAN 237 de vozes e gestos. o terror do recolhimento d'aquella casa aHi£<fou-h\e as for.. mas o medo *>da solidão. Maria passou cabisbaixa. ia scismando com a musica do harmonium que soava na capeljinha. atí/ou ao chão a trouxa de roupa e se * jy apoioji á parede. uma mulher de preto no fundo.

muito vermelha e tremula. — Vamos.. achando extranho o pedido. ^7w/£»*^ O pastor fftydA confuso. Jh véi-e. Frau Pastor se approximoú^ / bateu-lhe no hombro : ** — . que lhe sahia do ^ÍP^ ^ * ^ ^ e Í í o d e touro como um balido deovelha. que veiu logo á sala.. minha filha ? Maria não respondeu.. depois de confusas explicações. que lhe aconteceu?. K A6 o r a i a este mofino contacto d/piedade. — Eu. Poz os olhos no chão.. queria. com uma expressão de espanto que ainda mais atemorisou Maria. (jfdfáfá MariaJÍBBHficou petrificada. __ « -/ ' mSna^0ff0f.. jjj^Velle. onde a rapariga o espe/. • « Que lhe aconteceu ? Perdeu seu emprego ? * (bjjjü. grandes lagrimas rolaram-lhe pelas faces. cás^jlecantido d/arrancanwy alguma coifsa sobre *y í /*" a:suásituação"e^lhe r dar&ir*maisconfiança.. jtfl erecto como u m T ^ l a d o e vestido como um jardineiro.238 CHANAAN pelo barulho... entrou esta para falar ao pastor. "{y^y ^ sempre com a sua voz macia. eu... O homem. Nós não precisamos de mais creadas. As pessoas da . rava.. tinha uma voz de uma doçura inesperada c que se não casava com o seu porte rústico.. — Que deseja.. interveiu com meiguice Frau Pastor.respondeu soluçando a miserável. Depois.? . Maria f ^ fjT ch/rava sem pejo. um agasalho.. / — Você não tem uma casa./fríraT y" H-/ / 7 . Afinal. abundantemente. uma colônia. r-.

temendo a explosão da cunhada. Eu sei bem porque os seus . Era o alegre rumor da liberdade. uma grande /J. onde Frau Pastor era uma sombra do marido. entrou na sala. deixemos de comedia. Frau Pastor. e pelo instíricto da obediência respondia. trocando um olhar com a irmã. Na casa.CHANAAN /am a lha jéropôr variao queotoag'^ Pouco a pouco 'ella se foi acalmando.. interrompeu o inquérito com uma risada secca. fui expulsa.. fiel aos seus hábitos de nunca perguntar. — Vamos. por entre lagrimas. algazarra ijti^^ e gritos festivos de creanças soltas [f se foram perdendo pela encosta da montanha«abaixo. severa e silenciosa. O pastor a temia. para deixar a sala.. amedrontando-o com as regras religiosas.. e essa mulher. Fora. Como posso tomal-a sem saber de tudo? — Não me quizeram mais. filha. — O h ! Oh! Então o negocio é grave! Que falta commetteu você. esperou que tudo se explicasse. rústica e marcial como elle.. e ella o tinha submisso. Mas a curiosidade reteve a sua alma de creança.. A irmã do pastor. dizia o sacerdote com o geito astuto do camponio. — Ora. — Vamos. para tamanha punição ? A professora. O irmão explicou-lhe o assumpto. que mirava com olhos devassadores a rapariga. a auctoridade da cunhada era decisiva. ainda não me disse porque deixou a casa de Kraus. clamou zombeteira a professora. ergueu-se por instincto.

disse : /YrvoTw — Em nossa casa nãol^yyfyytjji^f^o prazer... a mesquinha Maria. com aquella maldita e doce voz. a inabalada. a incendiar a irmã do pastor. medrosa. O seu é horrível.. lhe inspirasse maior piedade por aquella esvaída sombra de gente. a m o rada de Deus. mulher. Mas era uma compaixão sem agasalho. e talvez o coração. Um olhar de piedade infantil escapava de Frau Pastor. emquanto a outra. que tudo faz comprehender. Desencadeiou-se a ira do Sei nhor. a puzeram na estrada.. acariciando-a paternalmente. já que entrou n esse caminho. O pastor empurrou-a de leve para a porta. a torre fechada. a amiga do homem? — Oh! minha senhora.. que devem ser gente honrada. Maria lho retribuiu. JâuLkpx -Maria cessou de chorar e jtíMl^/ espantada que alli também todos estivessem loucos.. o que vem do sentimento sexual.. que mal lhe fiz?. Lembre-se de que todo o peccado tem uma punição. Não era ella a mulher incompleta. E ao passo que a rapariga ia deixando a casa. regenere-se.. Vá para a sua vida. Esta é uma casa de respeito. inane. Era o grande ódio. aqui é o logar do amor de Deus. Ergueu-se da cadeira o pastor e muito solemne. Vá. Fora... Vá. era a perturbadora. a ft 7/ .. o maior de todos.210 CHANAAN patrões. não era para aqui que se devia dirigir.. Divertiu-se? Porque chora? Temos nós culpa dos seus prazeres? Olhe. a consoladora.

emfim. Jy^Jr^'Transformava-se a expressão das coüsas./Yrt/>' meiras sombras. e as encostas dos morros. filha.. • cendio do dia. e na sua febre sentia-se como que apertada. Maria. cuidado com os caminhos. Si não fosse terrível a morada de Deus! Vá. . as pri. Depois.etótófe<ám-se da luz serena da tarde. a^porta se fechou? e tudo o que era humano alli desappareceu n'um immenso silencio.. na sua intelligencia confusa. poz-se a caminhar pela que levava a Santa Thereza.. Transmontava o sol. livres do. cuidado na descida. preguiçosas. filha. minha. a montanha.. Era o soffrimento animal n'uma alma rudimentar. o desespero do desamparo na matta. allucinada. grande in. suffocada pelos morros e enterrando-se n'elles. pobrefilha. começou a descer. filha. a voz do pastor ainda lhe cantava ao ouvido: — Vá. No seu coração innocente.Si este logar não fosse sagrado.CHANAAN 241 voz do padre se revestia de um accento cada vez mais delicioso de ternura : . que pena! Como soffrocttnãopoder guardal-aém minha casa. e o que a impellia para a frente era um vago terror da noite.. todas as scenas violentas d'esse dia se misturavam extranhas como n'um pesadelo. Ao chegar abaixo. á cruz das estradas. —Vá. 14 . deitando-se longas. os valles apaziguados e. Isto aqui é muito solitário. vá! E quando Maria se viu no alto da montanha e olhou deslumbrada. arrastada pelo medo e por um assomo de vergonha... Ficando só. correndo.

que não era só o cançaço da corrida. em cada uma das casinhas da matta brasileira. impellida pelo imperioso desejo d & j M j ^ o e * * ^ conchego. Da t . o calor. a sympathia dos semelhantes.. então. mas o vácuo da fome. e aquella hora.. Das chaminés sahia fumaça... Aos seus ouvidos subiam vozes humanas. ^---^*2^"ando. e em torno da mesa esperavam a ceia. não havia ninguém fora. sem o menor pejo. a viagem dos pássaros na limpidez do' céo. na opulenta terra de Chanaan. que ella escutava. No fundo do valle Maria viu um núcleo de colônias engastadas na vegetação. com IP j ^ l sua calma de louca. ergueu-se e desceu rápida para o grupo de casas. // Os cães R e c e b e r a m ' n'um atroador alarido.ahi chegou.. Maria teve o Ímpeto de «erprecipitap-clo alto sobre as casas que estavam a seus pés. a fadiga physiologica da maternidade. tornando.. mas ÍM3 ella proseguiu pelo terreiro a dentro.. como uma musica sussurrante. inoffensivos os animaes. arrebatada pela fome. deliciosa. E. A miserável sentou-se desalentada sobre a borda do morro com a vista perdida nas habitações. as famílias dos emigrados se reuniam n u m olvido feliz. reunidas n'aquellas vivendas. alli. dilatados pela claridade crystallina do ar.242 CHANAAN como tomadas de somno sobre a relva avelludada e voluptuosamente verde: os pequenos ventos acalmando a febre da terra inflammada . Outra fraqueza a pungia. ***** Maria. esquecida da sua triste situação.. sentindo-se attrahida pelo feixe de forças humanas.

raivosos e ululantes : — Maluca.. Correram as mulheres para 1//"^ o interioii M.. / " — Fora. E como no seu enleio a miserável respondesse por disparates. amedrontando-a. n'um grande berreiro. — Fora. « gosa doida vagabunda. Foi um pânico. Ui/rJi****^". fugindo espavorida para longe d'aquelle ponto. fcffdtos homens pegaram em páos e ' yjr avançaram psópgüa. A claridade da tarde ahi dentro esmo- .1 primeira morada sahiram para vêr a razão do alarma.CHANAAN 24. Na sua carreira chegou até uma pequena matta que o caminho cortava. Os c#es excitados ladravam furiosamente. Já Maria voltara á estrada. Assaltaram-na de perguntas. sem saber o que dizer. e ainda continuava mesmo offegante a correr. maluca! maluca! A moça fugiu n'uma desabalada corrida. fazendo coro com os vizinhos. Homens e mulheres chegaram á porta. e das outras casas a gente sahia para o pateo. fora. que se communicou/yj!$//amente. Homens e cães^rperseguiram^lguns naomentoe. alguém disse : . ainda mastigando e aborrecidos de ser interrompidos/Ao enJMÍi/ar a gente. Maria recuou d^èttddddídfjsem perceber bem o cuo6~ que se passava..//tS^«^/' e todos se julgaram em presença de alguma peri. — É com certeza uma maluca. a fugitiva como que despertou e ficou intimidada. maluca.. maluca.

j f^ ( CHANAAN recia ainda mais. vendo-se colhida em/pleno deserto pela noite.... ao clarão indeciso do crepúsculo. como o bafo vaporoso.. n u m vôo captivo e arquejante. Maria ficou pregada á beira . azues e pardas.. cojjoo^carpideiras phantasticas da natureza merfaT.. tomada de um calafrio. a mesquinha derreou-se aos pés seculares de uma arvore. sem animo para íugir. No céo. nuvens colossaes e tumidas rolavam para o abysmo do horizonte. postada na abertura da floresta. EjfgotTada de forças. E o poder de visão redobrava á medida que a sombra surgia mysteriosa nos meandros dçf 4 J wasqui. s^^Tn^fg^ f grqi 1 f' pg s^rpmrrsrfflfiajtas. e de olhos dilatados. Os caminhos.' As arvores soltas choravam ao vento. até perder os olhos na outra longínqua porta de luz. Pela estrada interior iam e vinham borboletas enormes../„ J"^.. -etí* espreitava o rumor e o curso das coisas. aterrada. espiou para dentro. Das mãos tremulas e despercebidas cahiu-lhe a trouxa de roupa. batida. Na várzea. Na sua imaginação perturbada sentia a natureza toda agitando-se para suffocal-a. Maria parou.. . os seres tomavam ares de monstros.2í'i /Pu &tic^ ~J2 ! /-*. subindo ameaçadoras da terra..IA / . com medo de penetrar na sombra. As montanhas.... Os pti* . perfilavam-se tenebrosas..e urna inexplicável e funda attracção por aquelle sombrioe tenebroso mundo a retinhaextatica. e. Augmentavam as sombras.da floresta/ sem animo para entrar. desamparada. (.. impalpavel da ' Terra. ouvidos apurados. espreguiçando-se sobre os campos.

. O que havia de hi\ ?T '~*" vago. No ar luminoso tudo i^uejU^ retomava a physionomia impassível.. tí*T" . No alto."^f""". /^'r^^rtfA Serenavam aquellas primeiras ancias da Natureza.'./...( M . Qs-pyíHftairrpo. e myriades e myriades d'elles cobriam os troncos das arvores. Maria quiz fugir.s iam-se xnulti-J(^VX^Y ** plicando dentro da floresta. começou a dormir. /Al rr~~"W arvores. pouco a pouco foi vencida pelo somno.. A desgraçada.. e insensivelmente bro. sobre a qual passavam camadas de ondas amarellas. abatida por um grande JYt^^M^ torpor. e v <Uo jy .^^.. de indistincto. no desenho das coasas 0 -^ / <crer r< transformava"em límpida nitidez. V / Os prirneiros vagalumes começavam no bojo d a / ^ / w /matta a correr as suas lâmpadas divinas. e o« fogos 0j> JyfâyfjfíJJjfa/ espalhavam ahi uma claridade verde. ^sr acalmavaiTKna immobilidade perpetua. tavam silenciosos e mnumeraveis nos troncos das / .. 1/ I as estrellas miúdas e successivas principiavam tam. ao penetrar no mysterio da noite. As montanhas ' /«'-/*. . que faiscavam cravados de diamantes e tqpazios^Era uma illuminação deslumbrante e ^ g n o g y ^ e n t r o da matta tropical.(ji4F $t*r* CHANAAN 245 / _meiros pássaros nocturnos gemiam agouros com pios fúnebres. as ar^/>«>vores esparsas na várzea perdiam o aspecto de p ^ phantasmas desvairados.. mas os membros . Os pyrilampos já não voavam.. deitada ás plantas da arvore. . cançados não ac/ídiam aos Ímpetos do medo e t c y deixavam-na prostrada em uma angustia desesperada. alaran- /y & w * ~ **• "•* .^ Njoem a illuminar. como si as raízes se abrissem em pontos *i~ttc4*u>>-u luminosos..^ ^> \ ? Cvf.

t \ f. os andrajos desappareçeram n'uma profusão infinita de pedrarias. era • J como uma opala encravada no seio verde de uma ÉL esmeralda..o poder d'essa luz o mundo ira da um silencio / ' i(M> religioso. aili e além.UCt 246 \ sMM****** // CHANAAN jadas e brandamente azues. jopf'£. dormindo imperturbável.•" *i&di rubins. para um noivado com Deus. ' . Ull'kArt^''^x'dÂ. E\os pyrilampos «s* incrustavam-V» nas folhas e aqui. . fyn :^.'/-^^briram-na.Por toda a parte a bemfazeja itanquillidade da luz.. collo.. a carne da mulher desmaiada. Maria foi cercada pelos pyrilampos que vinham cobrir o pé da arvore em'que adormecera. e interrompendo a combinação luminosa da matta. transparente. como lagrimas dasestrellas. vestida defflídfktíwjt^. e assim ella recebeu n u m halo dourado a cercadura triumphal./ . amethystas e as mais pedras jfó4/ J/a^q^h parcellas das cores 4 i y i n a s e eternas.. A sua immqbilidade era absoluta.ar*aÜg*r. saphiras. mãos. como tocada fde uma morte divina. As figuras das arvores ae-desenhavan^envoltas n'uma phosphorescencia zodiacal.. não se^ouvia mais o agouro dos pássaros da morte^yTvento que agita e perturba/. cojno si a flo. Sobre a cabeça dourada brilhavam reflexos azulados. parecia partir para uma festa phantastica no céo. E os pyrilampos desciam em maior quantidade sobre ella. mesclados com os fc I pontos escuros. Âzzsa esmeraldas. cabellos se sumiam no montão de fogo innocente E yd&Ç&inj&is vinham mais e mais. violaceose d'ahi a pouco braços. Depois os y&gamntóâ' incontavei^co. e a desgraçada.

e um perfume concentrado durante a noite se dfyffflfâffi.Jl&rZÁ** lampos. Um momento. indecisa. incolor. Ias abandonam o céo.CHANAAN 247 resta se desmanchasse toda n'uma pulverisação de luz. infatigavel memória lembrou-lhe a agonia. Maria foi emergindo—dosonhorA a s u a innocencia detodo o pec^a^^dWlípexfeita confusão com o Universo / f &/£ acahff ao rebate violento da consciência)^ a / / / „*. As estrelf^^/^pu. de todos os galhos da floresta sáe uma nota musical. e. que enche os ouvidos da mulher com o accento de uma felicidade inextinguivel. Arrancada pelo pavor UA r ^y^Y^^^JZZ^ . e tudo se esclarecia de outra luz. for. _yt rado de umjl 44frf$í e recahiu adormecida na face /// dbévf illuminada da Terra. Maria IJ^jWJt conheceu-se a si mesma... começa o canto dos pássaros. sem tardar. cahindo sobre o corpo de Maria até o sepultarem n uma tumba mágica.ff/oUjt— pelo mundo despertado. Pyrilampos espantados faiscavam relâmpagos de cores. ' O silencio da noite foi perturbado pelas primeiras brisas. e o ruido começava. despida das jóias mysteriosas.*M t£o>y~ mando uma luz turva. Maria pensou que p sonho a levara ao abysmo dou.. Na ax-'""i vore que agasalha Maria. capitoso. abriu os olhos. que se deslumbraram.-.. emquanto os seúTdèrradeiros lampejos na — «-->!•* matta ^ m f s t ó ^ ^ á ^ p clarão do dia nascente.. E aves surgiam. Abandonada pelos pyri. mensageiras da madrugada.. a rapariga inquieta ergueu docemente a cabeça. os Vctó^itóí vão se apa-''''^ gando medrosos e(se\occuftand/)no segredo das b-j selvas.

ficou mais tímida. já encontrou o sol. a fartura do homem. # # ' CIIVXAAN dos perigos porventura passados naquelle deserto. vacillando.-248 . n'umapostura . viajantes tomavam a primeira refeição da manhã. A miserável marchou seguidamente duas horas. vultos de mulheres Sfc. homens rachavam toros de lenha. E foi n'um grande rubor. na densa evaporação dos curraes. já por valles repletos de colônias. sem pejo da fome alheia. que lhe recordavam a sua vida de hontem. e de todas as chaminés aquelle suave e ineffavel fumo da manhã. gerado da acabrunhadora humilhação. Maria continuou a subir as montanhas até ao alto de Santa Thereza. na sua lembrança persistia um clarão. que lhe descia d'essa miragem entrevista no espectaculo da noite maravilhosa. que se dirigiu. creanças corriam nos terreiros limpos. apezar do medo que a tomara. Maria ficou parada á porta.movianrnem roda das vaccas. Em todas as casas começava com o dia o trabalho. para a estalagem. Quando alyattingiu. que annuncia. que lhe engrandeciam a dV^T/ção. ergueu-se de um salto e partiu correndo. a cuja temível potência morreu toda a illusão do sonho. E quando chegou aos caminhos descobertos. E emquanto atravessava a matta. passando já por desertos. Na taberna que era o único pouso d'aquellas alturas. receiosa de perturbar com o seu ar de vagabunda a serenidade da população activa e silenciosa do logarejo.

n'um embrutecimento de faminta. vendo-a. A estalajadeira veiu examinar a foragida. A estalajadeira tornou : — Mas que traz você ahi n'esse embrulho ? A mendiga / ia abrmpara lhe mostrar as roupas. . l/y^ A moça atravessou o corredor sem olhar para o refeitório. E Maria teve um confrangido asco. insultando-a. Afinal. como que arrependida. quando de dentro os passageiros gritaram pela dona da casa. menos atarefadá. esperando de pé. com os olhos seccos e vidrados. mas depois. que não tinha pensado n'isso.CHANAAN 249 de mendiga. Era a creada do albergue. Maria disse que tinha fome. deixou-a j^M/da/mente e foi falar /<*> étM z a mãe. ^*e quando esta lhe efLjfyíffou que buscava abrigo e / L < ^ t ^ trabalho. uma massa repulsiva se movia como uma lesma. veiu á porta inquirir de que necessitava. mas a filha. A joven a convidou a entrar. — E então como quer você que lhe dê de comer ? Maria fitou-a aterrada. não reparou n'ella. A dona da casa. a comida que lhe iam dar. — Bem. Com a voz sumida. Na cozinha onde entrou. ao lado do grosseiro fogão de barro. ficou embaraçada em responder. A outra insistiu. occupada em servir. que jálraráttendo. não ousando sentar-se. a velha perguntou : / — E que dinheiro traz você ? Maria. A velha virou como um corropio. dizendo : . entre para a cozinha. a rapariga confessou que nada trazia.

repousada e esquecida. . Ninguém v—. -• Mergulhada na desgraça. na conchegada e bo' nançosa vida aldèã. mais primitiva._ lhe falava. e a estalajadeira foi á cozinha. e ella.e por toda a parte aonde chegava. ligeiros vislumbres de uma sensibilidade menos $ r grosseira.^V. alheia. . Per- .lquando o sol baixava. E foi se apoderando da trouxa. A'desgraçada. Depois de examinar o que Maria trazia. absorta. Maria passou o dia inteiro a vagar pela povoação. / v^ cheia de fome. depois do jantar. Não era ella alli na . rolava vagarosa. arrastando-se como um animal empestado. ia despertando a curiosidade e dando a impressão de tristeza que apavorava a descuidada gente do logar. o extranho phantasma da i miséria ? / £. E para o meio-dia. I A. deante da com- / rfaric placente apathia da rapariga.tranquillidade do povoado. No meio da felicidade dos outros. que recalcava todos os ^. dou-lhe comida e dormida dois dias. sentiu Maria crescer a sua solidão. n u m insç-v tincto de apertada defesa. Ninguém a " queria. escorraçavam-na. comeu n'uma fyfâtòtâ desprezível^ //' ^í^jy. / a população -s^ apresentava^a porta das casas. era quasi sem pudor que pedia trabalho de casa em casa.250 CHAANAN Os viajantes partiram. A tarde. a quem deu um peyy^a 1 daço de P a o e UIf tigela de café. Mnrin nlnnrn n pniifjef */7 fZ H sendo governada por uma~veihã áíma^TmrisTu^J? dimentar. repelliam-na. fiyf- t Por esta roupa.

* Alumiada pôr uma candeia de luz mortiça.CHANAAN 251 correu a estrada que corta Santa Thereza e foi até ao fim. Tirou o casaco e ficou em camisa e saia. a infeliz ficou um instante só. mostrando uma magreza de bruxa. Os cabellos despenteados cahiam-lhe sobre o pescoço. desalen^ tada sobre o colchão de palha podre. mas não teve animo de se afastar d'aquella atmosphera de desespero. á luz turva os olhos brilhavam n'um fulgor de loucura. pela matt. O bafio do quarto tonteou-a. a moça permaneceu petrificada. n'outro monturo de palhas. de se evadir do raio do calor humano. Mas os olhos da megera se a^í^úiív^ím de ódio contra a rapariga. Era a velha creada. Voltou. Sobresaltada deante da megera. " {^cc^r^. a invasora cl>^y do seu circulo de independência n'aquelle immun- . na mesma postura. que ficava em frente aquelle em que se achava Maria. que lhe apparecia como uma inimiga. Naquella primeira noite. onde acabava a povoação. quiz ir além. e n'uma vertigem ella cahiu. que começou a devorar. a dona d'este mostrou-lhe um colchão estendido n'um quarto infecto.a a dentro. — Está ahi a sua cama. e foi com um revoltado nojo que viu na tíbia claridade a sua companheira metter a mão esquelética na palha nauseabunda e retirar [d'alli um pedaço de carne. quando foi a hora de se recolher ao albergue. As duas miseráveis não se falaram. NãO"tardou tl^^ 4 » è um vulto entx0tjlfno quarto e ff0f sente-se //.

livida. Guinchando. irrequietos. acompanhava o ruido aterrador dos ratos. derrubada por alguma rajada de somno. ora se illuminava em suecessivos relâmpagos. Vencida pela prostração. Correram os dois dias marcados pela estalajadeira. Os ratos largaram a comida e continuaram á sua infatigavel investigação no aposente. indo e vindo a todos os cantos.. ratos começaram a surgir no quarto. Maria sentiu-se endoidecer de pavor. Maria.. farejando. ora se escurecia. o máo cheiro e o terror da bruxa. que ainda assim era o refugio da ind^ clinavel liberdade. alongando as mãos de esqueleto. via n'um instantâneo pesadelo a velha erguer-se. . para a estrangular. não tardou muito a tombar dormindo sobre a palha. satânica. o medonho quarto.252 CHANAAN do aposento. passeiavam pelo corpo da velha como sobre um cadáver. Maria acompanhava o aríar d'aquelle corcovado corpo e o latejar das grossas arterias. A lamparina principiou a se-extinguirferepitando. e o quarto. E quando ia cabeceando. e no seu colchão comeram os restos de carne que ella deixán». sempre alerta.. até cahir tudo n'uma profunda escuridão. que continuava a dormir. no maior silencio da casa. incessantes. gelada. Pela noite a dentro. Despertava convulsa e. espichava a cabeça até junto da outra.^e-4ião podia dormir com inquieto^feceioJTTudo a prendia á vigília. e semi-morta sentiu passar sobre a cabeça o vôo tenebroso de um morcego. sem que Maria pudesse encontrar trabalh í . corriam doidamente.

esmagada. appareceu aqui sem um vintém e tanto chorou que a fui deixando .CHANAAN 253 suas implorações e suas supplicas eram desdenhadas. tC^Vé^quem era i mulhecqao alia acabny/i dia^. mas nesse maldito apego á vida. que é o alimento da desgraça.ficar. almoçava socegadamente no albergue de Santa Thereza. Apezar da miserável situação em que ella estava. • quando viu Maria passar no corredor.. Desatou a chorar. atirando-se aos pés da velha para que a deixasse permanecer alli até en... e Maria teve um pânico terrível em se vêr de novo obrigada a bater as estradas. apathica. dpííada-^dl.i/yU cohtrar um emprego. Depois de alguma hesitação. Milkau reconheceu a sua joven companheira do baile de Jacob Müller. em companhia da outra. tanta lfáy/L miséria. chamou a dona da casa e pergun. A dona do albergue intimou-a a deixar a casa. E assim viveu alguns dias. Milkau em viagem para o Porto do Cachoeiro. sem pão e sem guarida. teve animo para intervir e Maria ficou na ' hospedaria como creada. n u m delicioso momento. Ficou um instante pensat<Vn prCítaando explicar por vãs conjectura? ttivo encontro. y Af*^^ > ' —• Ah! ri ir r ri "Hfr é uma vagabunda que recolhi. onde ia comprar mantimentos. A-filha. Uma manhã. e n'um instante a sua miséria tornou-se o ludibrio da gente amparada e farta d'aquelle retiro do mundo. e que entrevira primeiro na capella de Jequitibá. Não sei d'onde veiu. 15 i j '• . entrando da rüa.

... aqui ninguém a quer. Está-se a se lhe arranjar emprego e ainda fica amuada.25 í CHANAAN — É sua creada hoje ? — Quall Um trambolho. Essa linguagem atordoou o espirito de Milkau. Vendo-o agora. Milkau levarjtou-se commovido e procurou acalmal-a. A dona do albergue. com immensa vergonha. e delicadamente Milkau a desviava dos ponjres íntimos e mais dolo-' rosos. vejam só. Não continuou. E então breve. poz-se ella a chorar. motejava : — Olhem.. Alguns momentos depois.. porque da cozinha a chamaram. deixando Milkau e Maria a sós. * J/kau f^decidfiiraKronlar-lhe a suü Hes/raçV Por ve~ 'zes. /^ tendo por sua vez reconhecido/Milkau. vinha ' arrastada. E quando n aquella sala da hospedaria .. que. coitadinha. Também era só o que faltava! Aquillc . que tem de ir para a cama. y a estalajadeira entrava empurrando Maria... desmoralisa uma casa. A confiante #meiguice das palavras de Mil. O que ella me fa? não é nada em relação ao que eu lhe faço. Esta não quer me largar a sopa!. e ella acudiu. retomada de um inesperado ardor. /<«". Maria.. sem eira nem beira. fwe^M.no estado em que está. embaraçava-se vergonhosa. Milkau n'uma grande afflicção interrompeu o almoço. C melhor é que se vá para outras bandas. o que logo a velha fez. Promptamente pediu que chamasse a rapariga. abria-lhe todos os cantos da sua humilde existência.. espantada da scena. porém.

. Jy/^/^T Si elle não desse ouvidos.... E longe. abandonado a velha sociedade odiosa e recomeçado a existência na virgindade de um mundo immaculado. E n u m instante esse encontro lhe $ffâ0Â. > deixasse no caminho a miséria alheia e continuasse no seu embevecimento de felicidade?. Estou prompta para caminhar. mergulhan-'" do-se outra vez nos cyclos sombrios do soffrimen/ to.. Não tinha elle fugido á maldade humana. reflectindo : — Mas o senhor não ia para o Cachoeira ? Por- . E uma casa de conhecidos meus no Rio Doce. A dôr sa-nrqstuafei com r-^. Passouse longo tempo n'esse silencio triste.CHANAAN 255 Milkau acabou de ouvir a narrativa. Era a primeira vez em que na sua vida nova se esbarrava com a Desgraça. / ee*»—*n^Era a salvação. — Bem. Maria sorriu encantada. — Abatida? Oh! não. disse afinal Milkau. onde a paz devia ser inalterável ? Porque então o espectro do soffrimento o perseguia ainda alli ? Milkau divagava n'um fundo desespero. tenho uma colônia onde posso empregal-a. Depois. com o semblante illuminado. de resurreição.. devastadora. todos os longos mezes ' de felicidade.T^íj^ràred$ porém... de que não agüente afyÍJfrft'^ viagem. poz-se a scismar. esperando que elle falasse. d'onde pensara ter-se táffyúado para sempre.... e os sentimentos *y<**fl&:y de Milkau galopavam para o passado. si passasse adeante.(*&**<{ a sua força solemne. Vae vêr como não me canço.. e está tão abatida. Maria fl fitáva-^erena.

Chamaram a estalajadeira. Ella não é minha filha. Depois de vêl-a amparada. — Mas. — Vamos.. — Diga-me uma coisa : quanto devia pagar esta pobre moça aqui na sua estalagem ? inquiriu Milkau. — Agora. e dando o dinheiro : . ' /Ç^ contentissima.. A mulher fez uma careta zombeteira : — Oh!. isto não vale nada. peço que restitua a roupa que foi o penhor do pagamento. sem se importar com o que estava tagarelando a velha. 'Oil*' f-ffk foz-seja contar nos dedos e depois pediu um preço exaggerado. a quem Milkau communicou que a rapariga seguia com elle. respondeu Milkau. negocio é negocio.. Milkau explicou mansamente que ella tinha de . accrescentou Milkau. A roupa foi coisa á parte.. tornarei ao Cachoeira. — Eis a c l u ' A a i m P o r t a n c i a 'j^4^4^^^f^ / //yji (oJ*' mulher jpdfò p a s m ^ V recolheu as cédulas. Que bem me importa a mim. meu senhor. disse elle com meiga decisão... Uma vagabunda..256 CHANAAN que então abandona a sua viagem e volta ao Rio Doce? Por amor de mim? — Ora. A dona do albergue tornou-se fula. pôde tomal-a como quizer. Amanhã mesmo... como si fosse roubada: — Esta é boa. sem allectaçâo. Milkau não replicou.

a miséria da sorte da companheira. pensava elle. Amanhã. risonha. o seu espirito tomava outro caminho e confiava qme aquelle doloroso incidente. assim compellida. Mas. foi alegre conversando com ella. o fóú amante arrependido virá buscal-a. e a velha... afastando as apprehensões de uma irremediável desillusão. Maria seguiua. resmungando.. com uma fita azul no cabello. A estalajadeira. interrompendo a descuidada bemaventurança. clamava aos vizinhos : — Vejam só.. e tudo voltaria á doce calma. Isto(^i-4he)novas forças e. -V //f. E quando voltou á sala.. de que não necessitava. fincada na porta. emquanto elles atravessavam o povoado.. Partiram. Maria tornará a ser feliz.. Milkau recordou-se da sua primeira viagem com Lentz. vinha de roupa mudada. faceira. esquecendo a tristeza. passaria rápido. e todas as ligeiras feridas da dôr serão curadas por um sopro de bondade.. e foi buscal-os. malcreada.CHANAAN -257 optar entre os vestidos e o dinheiro. Não é que a desavergonhada teve sorte.. atravessando n'um êxtase a pomposa região. preferiu ficar com a quantia e restituir os objectos. para se libertar do Mal. Milkau festejou n u m sorriso o despertardamulher.. Quando deixaram Santa Thereza e tomaram o caminho do Timbuhy. contra o ódio entre os homens. E aquelle sujeito com uma cara de santo ! Pouca vergonha. A'^áí viagem de hoje era ainda um combate contra o soffrimento.Q ///*' .

perfumando /fi* á . n'um capricho de linhas. \pf&t/i**t.JíWdfy a uniformidade Í^Vv / das habitações dos immigrantes. seccas. era um peque5 no jardim europeu. e. oyl passava gente a pé. de desenho. negras. que ç(já. casas. percebendo que lhes erVimpossivel alcançar o Rio Doce n'aquelle dia. ora. escoteiros. Milkau ficou inquieto. onde talvez conseguissem agasalho. e urria colônia se lhes deparou no alto da montanha. ora mattas /r W ^"~_folhudas. áridas. r / A colônia para onde se dirigiam. e durante as primeiras horas Maria marchava lépida. '0^^Mh[d^^ddtíJU¥.xnbaixo / _ e^tendia-sè^ilma serie de vafles recortados em / / mil aspectos diversos. montanhas baixas formando massas enormes. . Milkau propoz subirem pela vereda que £ levava até lá. Sen/?>**>**" taram-se ás sombras das arvores.yfcfrppoy a Maria continuassem a caminhar até descobrirem uma colônia onde r/irrflrrfm n n^it/ Andaram mais um pouco. Descendo das regiões férteis. tudo n'uma abundância crea •S "*\JZ-^ Ção. £r / Maria fez um esforço e foi subindo vagarosamente. plantações. Á medida que se ^j approximavam. despenhadeiros.QiJU*** 25si I CHANAAN Debaixo do sol ardente desciam e subiam morros. ora. passavam tropas de burros carregados para o Porto do Cachoeira. Os viajantes foram-se deliciando com o scenario.riachos. e só elles. ti dei^ v » t ü / xavarrí ficar alli. a beira dos caminhos. "Mais tarde começou a fraquear e era com difficuld\de que yj/fâyfjgfâdy1. lírv"*1 como n'uma paizagem extravagante. Com o avançar da t^irde. passavam viajantes montados.. descuidados. apezar de tudo. planícies.

Penetraram no jardim. alisai^ /H./ do a longa barba branca. e da janella apontou as plantações no morro próximo. Milkau bateu palmas. uma irradiação espectral. morava alli só. ia-lhes contando que era viuvo. foi de um só conjuneto de cores desdobradas ao infinito. n u m gesto de agasalho fácil e espontâneo. Os cães u ^ * ladraram atirando-se sobre a cerca. A vista se lhes extendia farta e satisfeita sobre uma tela mágica. E o velho. seguido de Maria. socegando-os com alegre auetoridade : — Olá. Levou-os o velho para dentro da casa e offereceulhes jantar. e depois. Os olhos não se podiam fixar em nenhum porrnenor. ate ate que. e logo um velho acudiu. começou a pas- . A impressão que tiveram. Entretanto. Milkau explicou-lhe o que os levara ahi. o que o entretinha era cultivar flores. escancarou a porta.jiy . gaddy á cancella. radiante. divina e rara. checom os os aromas aromas que que yyiinám ene. que. as filhas eram casadas e os filhos viviam na vizinhança. uma zona cambjante. e o velho. patifes ! assim é que se recebem visitas ? Os cães a-afastaram"rosnando. vieram os três para o jardim.. o cafesal também o distrahia. havia muitos annos. servindo-os á mesa e obsequiando-os como podia. Milkau ficou um momento admirando os movimentos expertos e juvenis do ancião.CHANAAN 259 y/f&fUM*< com ytjipáxh do do jardim. jardim. tratadas com o carinho de uma horta. que estava em triumphal floração. O homem da colônia deixou os hospedes e foi regar as plantas. falou aos viajantes. mostrando no riso uma fila de dentes sãos. Findo o jantar.

entristecido. toda era encanto por Milkau. E foram caminhando XlL?. J" como espectros: olhos perdidos no vago.. como flores aladas.260 CHANAAN .//" mão no homb/o de Milkau. susbtituida a tragédia da natureza brasileira pela doçura européa trazida nas flores que^peregrinaram até ahi. a terra que abandonara. ' . das U"^' casas.ITõ'calor emanado das entranhas' £ * geradoras da mulher infiltrou-se^^aSs^nervos. as plantas cheiravam ainda mais. Andaram até onde A.. Ella parecia nunca ter soffrido/ uma resignação de nômada apagara rapidamente os vestígios da miséria.f / ^ w ^ torpecendo-os . Naquella mesma hora era alli a hora da \Jyy primavera. Encerrado alli. Com a queda do dia. en. Quando elles passavam esquecidos. E um instantâneo olvido encerrou a sua agonia. E no animo de Milkau amollentado pelo violento encontro da dôr.. abatido apontou no momento do crepúsculo uma ligeira sombra de nostalgia.. Agora. Milkau julgava-se fora da natureza tropical. absortos. e elle daf y ^ transportou éM jfmqf da saudade para a velha **"" / Germania. da gente n u m regosijo de novidade ao calor bemfazejo do sol. Este sentiu^uírxâtlttí. Recordou-se dos bosques. mudos e gr* sonhadores.'y ' seiar pelo jardim. borboletas voavam sahindo das plantas. E o jardim lembrou"2-Makau.bmscamante. via interrompida a eterna verdura. Tudo resuscitava.. sahindo da morte . Maria estava meic/fatigada e inconscientemente apoiou a . dos jardins.(•*$» **"•**"'-ffflrranrejeáéícíÉr. JL U gelada.. e com os olhos postos n'elle ficava embebida'n'um humilde enlevo.

o immenso globo ostentava uma succes• siva gradação de cores. cahindo de somno.. e acompanharam a morte do sol. Era noite. esterilisando aterra.. á mesa. propoz irem dormir. sfeerguerarrKpara o céo... no seu leito... descampado. Era uma representação phantastica.. Seguia deliciosamente todo aquelle brando respirar.. acompanhava o somno de Maria. até que o dono da ' casa. uma palmeira se alteava. Os olhos. E já a casa estava em socego e Milkau. onde lhes tinha preparado as camas. no despenhadeiro da montanha. onde. sobre a sua superfície as cores ainda continuavam n u m a infinita mutação. que se lhe infiltrava.CHANAAN 261 o jardim ia acabar n u m logar secco. Dentro. O resonar leve e regular da mulher lhe vinha aos ouvidos. 0 mundo inteiro tinha parado para assistir ao espectaculo. Mostrou a Milkau dois quartos contíguos. sem reverberação.. O colono acabara o serviço e veiu ter com os hospedes. convidando-os a dé xecolhexdyfi. . como uma mulher bella e damninha. os . O grande actor foi descendo no espaço sem nuvens. Sentaram-se em uma pedra. depois de mergulharem no tremedal que ficava em baixo. como si dentro d'elle um mágico se divertisse em illuminal-o. como uma musica extranha.v ' três conversaram sem interesse. e pouco a pouco uma/yíyídd perturbação h\e f/f^ f/^ '< . Sem raios. aquecendo-o. sem poder dormir.. até que afinal eUe-mergulhou no horizonte e a terra tingii>se de sangue e em seus mil nervos agitou-se toda.

/wrJ*44. Ej^JSÜ* esta palavra evocadora lhe dilatava. " *&** °~<- ou*'«0 alvoroçava o sangue. Chegou-se á porta entreaberta do quarto de Maria.. o* »i coração galopando. Z^ZT^^* 262 t..... % # f r | ^ ^ N ã o era u m V //' /Tfêsonar Hormeclda.. o seu respirar chegava sempre aos ouvidos de Milkau....*"+ +«*y< ?t+yy^*r*.. sacudido pela volúpia.:vexame... *Só elle era mudo. viu-se o ludibrio do desejo e descreu da redempção.. que vos c a n t a i O chéTro o jardim tr^nstornavTãTc^Iiã^rrrMilkau estremeceu outra vez.. dando-lhe um instante de consciência e um profundo. e todos se amavam. eralím"suspifo de amante.•. 1 E um torpor.. Aquella/hora lhey• chegavaP do universo inteiro o echo dó Amor. J/lJtAftrt^enchendo-os de um goso ... aj \ bocca secca.. -Maria continuava a dormir tranquillamente.<*.. Mulher! E lá vinham do esquecimento.. Cresceu-lhe o tremor e uma languida molleza o deteve. debaixo de cujas camadas sonoras se sente 0 / mysterio do instrumento.1 os horizontes da fejtringida e quasi apagada sensualidade.. as visões lubricaselascivas.o y-<n<«v A •*»*..fU..Mulher!. O homem forte ficou envergonhado d'esse momento de loucura. pensava elle. Milkau levantou-se tremulo. Era noite. . e. Amaldiçôou-se e teve nojo de si.. um espreguiçamento dos músculos o desequilibrou de uma vez e o atirou a uma vertigem de volupra. Mulher!. onde jaziam sepultadas. a garganta estrangulada. abrindo a janella. E o seu olhar prescrutava as sombras da immensidade. Tudo seifiuminava ao poder for- a* ?"/ +< ****&* • * cd*>" . poz-se a scismar debruçado sobre a Noite divina.

..... sem poder ir além. i&fêturados. fugiu. Ella. e nos cabellos de Maria. mudo e refreiado. se degelou n'um momento e. gemiam n u m frenesi de doidos.* tario também amou. luminosos como um rio de ouro.CHANAAN 263 midavel da sua allucinação. que não era mais o mesmo. E tudo era uma visão > de amor : as boccas se beijavam com febre.. E ficou tremulo..Miíkaurecolheu a quentura do corpo feminino. Retirou a mão e.Milkau deixou a noite tentadora e entrou no quarto de Maria. Socega. n u m frêmito convulso. a Noite era outra. E para elle. — Já são horas de partir? A voz innocente cahiu sobre Milkau como uma rajada de frio. não tinha mais aquelles accentos de volúpia.. Voltou á janella.. Deslumbrado pela vertigem. Não é nada. n'uma arquejante respiração. clamou o corpo da mulher. como em frocos macios e louros. mergulhou a mão até ao fundo. Era serena e bemfazeja como a face de uma . os corpos. não. voltando rapidamente a si. murmurando : — Não.. Ficou assim séculos pregado aquelle corpo. os braços se apertavam enlaçados. O soli... com os olhos meio cerrados. que amornava o aposento.. O sangue dentro d'elle. via-lhe os cabellos descer pelo corpo abaixo. quente e sôfrego. Os cabellos d'ella estavam soltos e cahiam sobre ocollo nú. Dorme.. perguntou : .. o joven sangue parado pela illusão. . correntios.. aquelles transportes de luxuria. que accordou a rapariga..

humilhado. De manhã. partiu altivo.204 CHANAAN irmã. ao deixarem a casa. Milkau sentiu uma pungente tortura com aquelle sorriso. e com a brisa misturou os queixumes da sua agonia sexual. o velho os acompanhou até á porta do jardim encantado. confundiu as suas lagrimas de solitário. erguendo a cabeça. e com o orvalho. Maria retribuiu a saudação sem jfytír o que esta dizia. confuso. como se costuma sorrir aos noivos. como o vencedor de si mesmo. sorrindoIhes com carinhosa malícia. Ficou longo tempo alli. arrependido. que a madrugada para o sarar lhe derramou sobre a cabeça. mas logo. .

e os pés de café. tão insignificante que não clame aos que passam. Não podia esquecer a desgraça de Maria. Toda a dôr é immensa.VIII A passagem da miséria na nova yjdd de Milkau / ' * £ * ' deixara o seu vestígio perturbador.. Já por esses ^ . piedade e reparação com o alarido de cem mil boceas.No espirito d'elle íe/fl*^*' uma melancolia teimosa se espraiava infinita.tempos a colônia tinha um bello e florescente aspecto. Não ha soffrimento. que brotavam n'um indomável viço. Desapparecêra a coivara. e agora o pensamento rolava vertiginoso para o desanimo. entorpecedora. que o cercava e lhe extendia os braços amorosos. cobriam como um manto a antiga hediondez do roçado.. vaga. Não ha desgraça pequena. Milkau se\gonsagravf)ainda mais ao trabalho. seismava elle. o terreno . Todo o «prazo» estava cultivado. E para afugentar a persistente Tristeza.

266 CHANAAN semelhava um verdejante parque cercado das arvores immensas da floresta. Mas. apenas interrompida. No mesmo tecto esses dois homens exprimiam duas culturas differentes. até se tornar universal e indestructivel. de imaginação. formára-se umaattracção. e todas as suas faculdades de attenção. buscava expandir-se n'essa fôrma inicial e selvagem da civilisação. Milkau trabalhava sempre. Restringido a um circulo de limitada actividade. longe do ódio. Milkau era agricultor por instincto. e o outro. da lucta fratricida. Lentz era o caçador. uma solda inquebrantavel e que ainda significava a imagem d'essa impulsiva liga entre todos no mundo. e. que cada dia será crescente. os nervos cança- . a fronte suada. luctava com os animaes. flores do seu jardim. as empregava com desvelo e ardor no trabalho com as próprias mãos. curvado sobre a enxada. alliado a outros colonos de egual inclinação. simples lavrador. que ennobrecia o seu destino humano. em poucos mezes para elle já não havia segredos na floresta brasileira. Caçava.. e a humilde casinha dos dois emigrados estava coberta de trepadeiras. fructos da terra. Um offerecia ao mundo façanhas. sacrifícios de sangue. E quando. matanças. devastava as mattas. entre esses dois interpretes successivos da vida.. sempre retrogrado. o seu espirito. que se abriam em flôresJ dando aquelle jardim alli nos trópicos um perpetuo ar festivo á vivenda.

como uma mancha na sua visão radiante. que ensopemos a terra com o nosso suor. a decepção. » Assim pensava Milkau. mais d/)^W. Milkau respeitava esse pejo. emfim ? Também ella não mourejava dia e noite no trabalho. essas flores..fôxavw « colônia ». um esquecimento devia adormecer-lhe os pensamentos. Ella se retrahia cada dia mais e nem mesmo a elle confiava os passos do seu martyrio. Que importa que nos fatiguemos. mais doce. é preciso haver outra coisa no mundo. •Võariao vcgea.CHANAAN 267 dos.O Amor!. « Não é no trabalho que está a salvação da miséria nem o estimulo para o desalento. sarar a morte do sonho.. mais subtil. lá vinha ainda nesses instantes o tormento da piedade. como um forçado ? E a consolação lhe vinha-? Oh! não. o continuo testemunhar da desgraça alheia. cavava a terra. e sem insistir em desnudar-lhe o coração. emquanto a enxada./para levar-lhe algum conforto.. recommendava á gente da casa a maior caridade para a desgraçada.. Outra coisa mais santa. esses fructos não são balsamos para aquella ferida extranha!.. manejada pelos braços inconscientes. vive a Dôr. ao nosso lado. Que bem fariam a côr. onde Maria se empregara. si alli adeante. um repouso suave. mais poderosa.. que cubramos o mundo de flores sahidas das nossas mãos infatigaveis. mais bemfazeja. pedindo que . o perfume e o sabor das coisas ao padecer de Maria ? Como remediar. mais vasta emais mysteriosa. si todo esse sangue.

como uma intrusa que lhes ia roubar a tranquillidade. êü porta estava um ancião. que ainda não tinham visto.interessava^pelos pormenores d'essas historias. nada havia na colônia capaz de encher-lhe a imaginação. mudos e abysmados nas suas scismas. e era com um passo moroso e incerto que vagavam ás tardes pelas habitações vizinhas.mra a caça. Lentz aç.' e. que os convidou a repousar um pouco. e o velho falava satisfeito . que se approximava. Os colonos promettiam-lhe tudo. atormentada pelo medo do doloroso momento. Durante o dia trabalhavam.^s y o ancião narrou-lhes sem demora traços da sua vida. r/£é^# com J// . ^fiyL$J(^iJfdJt0/a vida de Milkau continuava a ser minada pela tristeza. mas na verdade o sentimento d'elles era outro : tratavam a miserável com desdém. E também para o com-^panheiro. Aos antigos tormentos juntavajo desprezo e o ódio dos novos patrões. N'um d'esses passeios foram até uma colônia. os dois amigos ficaram a conversar corn o velho. Maria não se queixava. Falaram da Allemanha.208 CHANAAN velassem por ella e a não desamparassem na próxima crise. emquanto a família se entretinha nos arranjos domésticos e no trato dos animaes. Era um veterano do exercito prussiano cuja / memória estava cheia de lembranças da ultima grande guerra. E ainda assim se agarrava a essas raras migalhas de uma desdenhosa condescendência humana.* rancor. dar-lhes trabalho e augmentar-lhes o custeio da casa.

y-yyj\\ . Desde então dera baixa e emigrara para o Brazil. e como.. além do que era permittido reclamar.. cahira do cavallo e por cima do nr*J**^ peito lhe passara n'um galope o animal de um camarada. a chuva oblíqua da metralha mudava em lama sanguinolenta a miserável e inquieta poeira humana. desabavam cargas de cavallaria. Ainda o apavorava o terror da disciplina.. caminhando tropego. estrondeava o tumulto das batalhas. porque uma noite de dezembro. Lentz applaudiu então a Força immortal. O velho soldado terminou tjfflllédHt que uma vez. Enthusiasmado. em França. abandonado. / o veterano ergueu-se e. varrida em turbilhões heróicos pelo tufão da Conquista. quadros d*?-*"***^ da cultura extrangeira apenas entrevista e que recolhera á retina com essa sensação de deslumbramento maravilhoso. que commandava e era temida..CHANAAN 269 e vaidoso de entreter os jovens. a vomitar sangue../ Jb***'\ . E sorria como havia muito tempo não lhe era dado.. desfilavam exércitos. elle ia pagando com a vida. fazendo parte de uma guarnição. fora por um acaso colhido na estrada. levou / os vizinhos para dentro da casa mostrar-lhes v e . Escapara de ser fuzilado. como a que ficava do minuto de um Bárbaro no seio da civilisação. n'um //r^lrx reconhecimento. A ess0 jdmpfddddi €& ^^ misturava outros episódios da invasão. onde o clima quente lhe mantinha a vida. Na sua narrativa imaginosa passavam cidades extranhas. E essa extorsão. exigira uns cobertores dos moradores da casa onde se acampara.

respondeu Milkau. Em caminho para a colônia. a guerra.. com um tom emphatico de superioridade. a sciencia. a servidão. vistas da Prússia. o demônio que o agitava. tudo o que separa e destróe..27H ' £. esses são os verdadeiros . — Porque? Porque. aquelles cujas almas se fazem artificialmente antigas. Os que se collocam no passado. o sangue. disse Lentz : — Que consolo senti indo á casa d'esse velho! Parecia ter penetrado um instante no passado intacto da Prússia.. o prestigio das próprias lettras mortas são outros tantos venenos que acobardam a alma do homem de hoje e dão um encanto crescente ao mysterio da Auctoridade. observou Milkau. a alma senhoril. estampas da guerra. a arte. — Mas é preciso não amaresdemais essepassado. Amemos o sacrifício feito pelo amor humano. tudo o que foi. Mas aquelle amor inconsiderado por tudo o que é passado. Amas p ^ f ó ^ espirito de destruição.. o que estimas n'esse passado é exactamente o que elle tem de humilhante e vergonhoso. mobílias. Tudo era antigo. E eu tenho que o estudo das coisas antigas. quadros e lembranças. — E porque não me retemperarei nas fontes da minha raça ? perguntou Lentz. Dia a dia será reduzido o campo da veneração pelas instituições da Antigüidade.. / - CHANAAN lhos retratos de reis. é um dos sopros mais poderosos para a desordem universal.. Tudo alli era uma volta ao Passado.

absolutamente.. Milkau. os prophetas do tédio e da morte. uma expressão da política. Nem arte. nem religião. nada tem uma fôrma elevada. a somma de nós mesmos multiplicados ao infinito.. — Tu sabes bem. A Pátria é pequenina. — Mas que é a Pátria ? A/ / — A Pátria... uma restricção que é preciso quebrar. o gênio militar. ora. a fibra bellicosa. são os pregadores da desordem. tu não sabes? E a © / raça. a Pátria é uma abstracção transitória e que vae morrer.. a guerra. mas regosijo-me / / / / . Immortal! — Não.CHANAAN 271 inimigos do gênero humano. a disciplina. a desordem. Sobre ella nada se fundou. o nosso eu. mesquinha. a expansão universal. A Pátria é o aspecto secundário das coisas. — E que beneficio resulta d'essa força. meu querido Lentz. não é tudo do passado que eu amo.. Nada.. Entraram em casa e durante a noite largo tempo . a nossa própria projecção no mundo. a tenacidade. Não ha ninguém que fuja da sua atmosphera. uma limitação para o amor dos homens. sendo patriótico. nem sciencia. interrompeu Lentz. d'essa grandeza da Pátria ? — Oh! Exactamente o que n'ella venero é a tendência imperial. O gênio humano é universal.... uma civilisação particular que nos fala no sangue. quando testemunho numa ostentação das fortes IIf'^*' qualidades humanas da nossa Pátria.

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debateram essas idéas. No dia seguinte, quando
Jj
Milkau trabalhava solitariOj/^ava-lhe na cabeça a
f/,yf^
discussão da véspera; e sentia um mal estar lembrando-se da viva contrariedade que oppuzera aos
sentimentos do amigo.
— Não ha duvida, pensava elle, penitenciando-se,
é assim por natureza. Quando dois homens se collocam frente a frente, uma instinctiva animalidade
' - - j ^ - surge ddjJdffflyèfó perturbando a sympathia. É o
Qifj''4''querer
innato de subjugar, ou pela força, ou pela
0,
superioridade da intelligencia, ou pela consciência
da própria perfeição. Assim também sou eu; procuro reduzir Lentz a mim,dominal-o até ao fundo
das suas idéas, do seu próprio ser. Oh! orgulho damninho! Quando a própria humildade deixará de
ter no seu mais intimo recesso a desfiguração, o
amargor da vaidade, da soberba, do domínio?
Milkau reconheceu-se inferior ás suas idéas, humilhado por uma força inconsciente. Depois tornava aos mesmos pensamentos. Comprehendia que
no seu companheiro essaexaggeração do amor da
pátria era talvez um symptoma de nostalgia, uma
anciã pela terra das origens. E não é isto uma conseqüência doentia da educação patriótica? Mas,
n'aquelle instante de angustia, quando por sua
vez se examinava mais de perto, |ê\revelayj^a si
mesmo... Fitou o céo immenso, desvelado",de uma
serenidade, de um brilho e de uma firmeza de crystal, e sentiu-se extranho a elle... Admirou ao longe
o corte das montanhas, a negrura da matta, atfronde/

CHANAAN

273

das arvores... Debaixo dos seus pés a terra vermelha, como embebida de sangue, e das plantas tenebrosas o cheiro que tonteia e excita... O morno
socego do universo... E tudo lhe era extranho. Elle
ê o Mundo, elle e tudo mais, a dualidade, a distincção irremediável. « Eu não estou em ti, tu não
estás em mim... Ainda assim eu te amo, mas tu não
és eu.»
.,, -A^ i
N'uma dôr0^/jljl Milkau, devorado de magua, m/v*^"***
combalido, sentiu-se também expatriado... Não
havia entre elle e todas as coisas em volta de si a
subtil intimidade que nos prende eternamente a
ellas, o imperceptível e mysterioso fluido de commuriicação que faz de tudo o mesmo ser... E percebia,
n'um grande desalento, que o conjuncto tropical
do paiz do sol o deixava extatico, errante e incomprehensivel, e que í sua alma emigrava d'alli, incapaz de uma communhão perfeita, de uma infiltração definitiva com a terra...
— Que sou eu então? Que verme, que átomo
miserável, que se não governa, que não pôde amar
o que quer, que se não pôde identificar com todas
as moléculas do mundo ? Que sou eu, onde leis
imperiosas, perversas, me dominam, me vencem
o novo sangue ?
Outros vizinhos vieram algum tempo depois SÊT
estabelecep^ó^Rio Doce, na campina que sahindo
da matta morre sobre as águas. Era uma pequena
família magyar, composta do pae viuvo, duas

274

CHANAAN

filhas e um filho, a que se juntaram outro rapaz
da mesma raça, que era noivo de uma das raparigas, e um cigano. Viviam unidos em uma só communhão de desanimo e de espanto, na casinha feita
de madeira tosca, .com tecto de telhas de páo, incendiada pelo sol nos dias quentes, varada pelo
vento, invadida pela chuva nos dias de tormenta.
Ahi cumpriam o ritual dos costumes pátrios. Sob
a pressão cobarde do isolamento, apegavam-se,
como a um refugio, ás intactas tradições, transportadas dê sangue a sangue e mantidas pelo
temor religioso desde os antepassados. O cigano
partira também, arrastado pelo instincto vagabundo. Na longa travessia, o eterno caminhante da
planicie imaginava-se prisioneiro no vapor, que
lhe parecia uma jaula movediça e endemoninhada. O oceano contemplado da terra attrahia-o
pela irresistível seducção da immensidade. Sobre o
mar elle não sentia mais liberdade moral. O infinito é uma miragem atormentadora, em que se
perde a essência humana... No meio das águas
illimitadas, sitiado pelo perigo, assaltado pelo terror, o espirito, dissolvendo as suas forças vitaes
n'uma desaggregação continua, transforma aquella
attracção impulsiva e illusoria em uma persistente
impressão de assombro e de terror, e a orla de
terra que se lhe escapou ao longe, e/para onde se
volta incessante, recebe os queixumes da saudade.
O homem só é senhor da sua individualidade na
porção de espaçp cujo horizonte^póde medir com

ju.

** W/i*

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bs

275

olhos, naquillo que é finito e limitado...
yjjfc/Passaram ^xft^^tídjatídUtí
os primeiros
tem-yyOtyfa^,
pos, esmagados pela perspectiva do desconhecido, ryyd**™
com a alma em suspensão. Até então não se trabalhara; os homens corriam as vizinhanças, caçavam, vagavam pelos montes e iam aos povoados ; as mulheres viviam no lar. Quando cahia
a sombra, o cigano s&. deitava* sobre a relva, á
beira do rio, e pregava os olhos preguiçosos no
poente, vendo morrer o sol. Aos domingos, a família «s- reunia^na varanda; o velho a um canto,
bonné enterrado até os olhos, cachimbo na bocca, /ir
quilotava repousadamente as longas barbas amaZ^&T
rellas e as rugas da cara; as raparigas e os dois */ ^ - , "
rapazes,como legítimos magyares,ornavam-se com Agfa&t as bellas roupas do seu paiz e vinham faustosos e , ^ * , ^ ^ ^
garridos entregar-se ao grande prazer da sua raça, d^r jwr_
á dansa.
^-* <s
As vezes, Milkau e Lentz nos seus passeios pela ^ S ^ T ^ ^
margem do rio ficavam-se debaixo de alguma y<^ ) •***>*
arvore, assistindo aquellas festas no silencio da ^y>w+* <£*<•
grande solidão. O musico era o cigano com o inse- *jf*~ ""•
paravel violino, sentado ao lado do velho. Dado o &+***• ^
signal, os pares punham-se em ordem,e iniciavam '?*~V*~**
as marchas polacas. A musica tangia á festa.
vr<^ / "
Os seus compassos a principio langorosos iam ga- -Q+VHJ*
nhando movimento e a largos impulsos do som t*.'/^**"
arrastavam os figurantes. Faziam rápidas voltas, « i ^ meias luas harmônicas, enrascavam os braços /*r**~•-**
uns nos outros e balouçavam-se cadenciados, ^*^*^"

276

CHANAAN

como suspensos sobre as notas, formando em sua
graça artística grupos de estatuaria clássica. Ao
findar a contradansa, respiravam satisfacção, espalhando-se-lhes no semblante o orgulho da sua
mestria. Mas o cigano os não deixava socegar,
vibrava o violino, e logo todos sentiam o despertar nervoso da paixão.
e^v**</***,,***,^ .
Com
V íwfcr^
ffâiffr
preso sob o queixo e)fcmpuxügàjl /t,
/ • /yyu-ydCt p n r n m i níiin coni'ii1Wi emquanto a outràyfhanejava o axco^rf^ys/c^Jytyffiiyfâajdfí
TTWfnu.iirnlu.
Os homens, trazendo chapéo dé 'feltro'comlindas plumas, paletot
' *«****" * % calça de velludo e á cinta uma larga faixa de seda
,- carmesim, enlaçavam as raparigas, cujo corpinho

^" £, meio aberto ao collo vestia o busto esbelto, e cuCm~po
j a s saias ornadas de velludo e seda lhes envolviam
9/¥ e>
^ ^^ 'as
fôrmas poderosas. Naquelle espaço estreito, na
varanda quasi debruçada sobre o grande rio selvagem, e extranho aquellas melodias, reuniam-se,
na fraternidade do destino e da arte, as duas raças, a que tem o sentimento innato da musica, e
'/r
a que tem a espontaneidade da dansa. Çdex^^í^/jt
t/
f/rrv^ a
valsa. Os artistas da dansa acompanhavam a
V loucura da rabeca n'um vôo quasi imperceptível e
para deante, para deante, por sua vez no sublime
surto dos" sentidos, improvisavam novas figuras.
Quando estavam no auge do prazer, a mais moça
das raparigas, amparada nos braços do irmão,
deslisava alegre, feliz, com o rosto illuminado,
embevecida, a fitar o musico amado, com avel-

CHANAAN

^

277^VV\^T

ludados e longos olhos, que sorriam primeiro que i V ^
a bocca... E quando a musica ia morrendo, a > \ >, "ç •
outra rapariga, transportada, em êxtase, a cabeça
Ç ^ \ ®*
loura reclinada sobre o hombro do noivo, n'uma
^&'^
vertigem aérea, respirava a pequenos haustos com
a bocca entreaberta, sua bocca vermelha como o
sangue, humida como o orvalho.
A turma de Felicissimo voltara para novas medições. O agrimensor depois do trabalho ia todas
as tardes conversar na colônia de Milkau, e com a
sua vivacidade e alegria entretinha os dois emi- ,
grados, contando episódios dá sua vida aventu- / ^
reira, scenas do Norte, d'esse Ceará trágico em
cuja{areias sedentas e implacáveis se vasam, de
fundeai? na resignação, na dôr, na energia e na es- / •*perança, a alma dos homens... Quando não havia
f
serviço urgente, Joca juntava-se a Lentz e o%-dois
"j
^». embrenhavam'no matto, a caçar. Na conviven'*|
cia com esses sertanejos Milkau apaziguava as an^
cias em que se vinha debatendo o seu espirito. A
\|"
espontaneidade de raça, a coragem e a bondade
ri
d'elles eram novos arrimos para a illusão...
j.
Nenhum incidente perturbava o calmo viver de
Í
immigrantes e trabalhadores, até que uma manhã
%.
o agrimensor e os seus ajudantes, sentados á porta
^
do barracão, viram uma mancha preta passar ve>
lejando magestosa, serena, no céo claro.
^
— Urubu !.. disse Felicissimo.
— Ah! temos carniça por aqui... opinou Joca. /^<*<í^*r,'v
indagando com os olhos atilados o vôo dfíamfyí.
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278

CHANAAN

A grande ave solitária descia vagarosa, boiando
negligente n'um vasto circulo do espaço, como um
barco de velas negras... Logo depois outra subia
.j
no horizonte e não tardou muito que outras mais
^ r H '***
viessem $/ax a limpidez do azul. E d'ahi a pouco
se ia baixando e restringindo a um ponto da matta
aJ *Artl° v o ° dfó idyffidffá infecteis, que os trabalhadores
/
acompanhavam curiosos e divertidos em suas almas infantis.
— Mas... alli, n'aquelle ponto, é a casa do
«bruxo», observou um dos homens, designando
assim a morada do intratável e velho caçador que
habitava aquellas margens do rio.
— Vae vêr que é algum dos cachorros que morreu... Também, que o diabo os leve a todos... praguejou o mulato.
— Que a peste os acabe... Malvados !.. ajuntou
outro.
— E mais o dono.,.
— Qual, para mim não morreu bicho nenhum.
Si fosse, o velho o teria enterrado, como a um filho,
concluiu Felicissimo.
— Sim... e não haveria carniça.
— Quem sabe si não é o velho que está morto ?
conjecturou um trabalhador.
— Homem, é verdade... acudiu um camarada.
Ha dias que o não vejo...
— Quem sabe! também eu... âlyldddtátamoutxos

£'r*/«zr

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°-

CHANAAN

279

— Vamos vêr, seu cadete? propoz Joca ao agrimensor.
E todos se levantaram e seguiram na direcção / o
da morada do caçador. Ao approximar|ÍA-se, ou- '
viram latidos e uivos de cães. Mais perto, quando
descortinaram a casa, viram os cães ladrando, correndo como demônios doidos para os urubus que
teimavam em baixar á terra. As aves negras rasteavam quasi o chão, e quando os cães se arremessavam sobre ellas, erguiam o vôo e iam pousar logo
adeante.
— Vocês não vêm ?.. A carniça é o velho...
gritou n'uma gargalhada alvar um dos homens.
— Que fedor !... Este diabo está podre ha muitos dias, berrou outro.
Instinctivamente, y&fff pararam, como n'um
conselho.
' /'
— Então., seu cadete, que se faz ? perguntou
Joca ao agrimensor.
— Ora !.. vamos a enterrar o velho... Deus lhe
perdoe a alma... Nós lhe cuidaremos do corpo,
disse decisivo o cearense.
Os homens não hesitaram mais, agora inspirados pelo impulso de piedade de Felicissimo, e tó^
dos caminharam para dentro do cercado. Vendoos approximar-se a matilha de cães abandonou os j ,
uwibúe e avançou como uma só massa,atroadora, —-y^^d<*n
furibunda, terrível, contra os homens. Aproveitando a diversão, os m/dm caminhavam no terreiro,e n'uma dansa macapra iam invadindo a ca-Jym • * .

s****-

e^ *%*•*"» °«-r,

280

CHANAAN

sa, n'um riso infernal, espichando voluptuosos as
cabeças petulantes de harpias descabelladas.
Deante do arranco dos cães, os homens fugiram, e
na porteira da cerca os defensores da casa pararam
arreganhando os dentes, uivando, ladrando, as
sangüíneas boccas escancaradas.
— Como podemos afrontar essa canalha?., perguntou um dos trabalhadores, quando já estavam
fora do perigo.
— Joca, vá com outros buscar os ferros para
darmos uma licção aquella cachorrada... ordenou
Felicissimo, saboreando uma vingança.
— Vamos d'ahi, disse Joca, e partiu acompanhado de mais dois.
Os outros ficaram atirando pedras aos cães, que,
estacados na cancella, não se arredavam, furiosos e tremendos. Os urubus, descendòyeTTT^rnaior
numero daflTBfln,.continuavam em cortejo a penetrar na casa. Um horrível e crescente fétido mesmo
á distancia tonteava os homens, dando-lhes ancias
de vomitar.
— Oh ! que demora, resmungava impaciente
Felicissimo, esperando na estrada a volta de Joca.
E ia gritando aos j/Lamea^l:
— Pedra, rapaziada! mão certeira!
Os cães latiam, mostrando os dentes brancos e
afiados... E os urubus continuavam a baixar do
céo... Afinal, pela estrada vieram correndo esbaforidos Joca e os companheiros, carregados de

CHANAAN

281

enxadas, foices e páos. Cada um se armou, e Felicissimo ordenou com enthusiasmo:
— Agora, avança, meu povo!
Os homens resolutos e raivosos precipitaram-se
sobre a cancella, que ao choque dos seus corpos
unidô^espatifou^c., dando-lhes passagem; os cães
não retrocederam e »lançaramrsobre elles, mordendo-os desesperadamente. Os invasores berravam na dôr :
— Mata! mata!
E a páo e foice arremetteramy^i? contra os ani- / / *
maes. N'um momento estavam os Iptmpné todos ^ Çr
rotos, e o sangue lhes corria das feridas. E da peleja,
umas vezes sahia um cão gritando, ganindo, quando
J
uma paulada certeira e furibunda lhe quebrava as > t
pernas, outras eram homens que, debandados, iso- \ £
lados, fugiam pelo terreiro, perseguidos... Estes J J
trataram logo de ss unir^ traçando com os instru. }"mentos um circulo de defesa:
-— Não afrouxem! ordenava Felicissimo.
— Avança! avança!
— Para dentro!... para dentro!...
Recuaram os cães ante a energia do ataque; e,correndo sumiram-se como por encanto. Os homens,
indo-lhes no encalço, penetraram na casa, brandindo as armas... Mas, entontecidos pelo cheiro suffocante, estacaram indecisos e apavorados deante de
um quadro medonho. Dentro, os urubus comiam
um cadáver humano que jazia por terra, o corpo do
solitário e abandonado immigrante. Os olhos ti16.

282

CHANAAN

nham sido devorados e as cavidades immensas e
rubras escancaravam-lhe a testa. Allucinados em
CK-y
seu goso satânico, osfflddMjd, sem dar fé dfáUaessaJ,
/^/^<^**^continuavam a picar, a comer, avidamente, embebidos. Os cães, esquecidos d'elles, faziam frente
aos invasores.
— Chô! Chô, canalha, atrôou um grito de Joca,
desesperado de nojo.
E n'um impeto de compaixão avançou para o
cadáver para livral-o dos urubus. Agarrando-o
pelas canellas e pelas roupas, os cães o detiveram... Os camaradas acudiram promptos em sua
defesa. Deante do alarido da lucta, os urubus esbordoados largaram a preza e, abrindo as azas,
espalhando com o vôo ainda mais o fedor, incapazes de se afastarem d'aquella nauseabunda
atmosphera, pousaram morosos, pesados, nas traves
lífdvi
^ a c a s a > n "hi ac p o s t a / á ^ fúnebres, medo//
nhos, como testemunhas do combate dos homens e
dos cães... Quando Joca conseguiu tocar o cadáver, recrudesceu o furor das feras. Não temiam
mais os ferros e os cacetes e atacavam os inimigos, que se apossavam do amo... Foi um desvario:
homens e animaes ty batíam""corpo a corpo, se
f e r i a r r v ^ - despedaçavam,-»como n'um combate
de doidos... Os homens estavam estraçalhados e
sobre as pernas nuas e brancas de muitos d'elles
corria um sahgúé^0tihif... Guinchando, os cães
IJf^mB
morriam,estorcendo-se como possessos e atirandose sobre o cadáver do velho. Depois de muito tempo

..m n'uma d'ellas e. Não! Havemos de enterrar o pobre velho. avançando JoÚliC/ impávidos rfffd o cadáver. Os homens maltratados. os urubus . obedeceram. a cabeça ficou segura na carne da victima e das artérias „ rotas jorrava o sangue^/ J^a^i/uu>^ Não havia mais cães a matar. emquanto os companheiros os defendiam n'um esforçado arrojo. É\ enxotando' as aves. — Mais funda! f< •*ty v+vfa>y£"*y . extenuados já lhes queriam abandonar. não/conseguiu. que os trabalhadores Jy/^^rt. picando-o com o ferro e tentando arrancal-o com as mãos. Pega enxada! E o cearense agarrou .. não esmoreceram / mais allucinados investiam. mas eram logo mortos. mutilados. Em revoada.. " — Não! gritou zangado Felicissimo. j^Teram assanhados para o terreiro. Correu outro homem em seu soccorro e com um certeiro e violento golpe de foice cortou o pescoço do animal. deitaram no chão o velho. Era só o que faltava.. O cão cada vez mais se enterrava pelas suas carnes a dentro. de membros esparsos. Os que ainda restavam. O terreiro fic#íf Uo^ alastrado de corpos decepados.. O resto dos cães ainda arremettiam contra elles. seus miseráveis !.. alguns ftomcnf puderam apossar-se do corpo e o foram carregando para fora. doloridos.CHANAAN^'' 283 de lucta. começou a cavar a co mnlmrurando.. Um d'elles cravou as prezas na coxa de ui homem com tal fúria que este.

quando o catitú matraca no matto. Faz dó vêr uma pobre creatura de Deus desamparada. os urubus o desenterrariam. mudos. uma roncaria aterradora.. Nas noites de tempestade ainda hoje. melancólicos.. ouviram na matta um clamor. Felicissimo ajoelhou-se e rezou:— Padre nosso.... Em breve a cova ficou prompta e «-abafa enterraram o immigrante caçador.. A' medida que o cadáver ia sendo coberto. Era uma vara de queixadas que passava. todos se recolhem medrosos.284 l//uJ« CHANAAN Assim. sem ninguém n'este mundo. Depois. comido por estes sujos. quando os trabalhadores da turma de Felicissimo se reuniram aporta do barracão. rezaram.. As linhas definitivas dos objectosae-infundíamos monta- . feitas catilús para desenterrar e resuscitar o velho demônio. pensando nos cães encantados.. encheram a cova de terra. N'aquella noite. acabrunhados em face da morte. quebrando o silencio bemfazejo. tristes... remontavam os idtídyf um aum ás alturas secretas. Formava-se assim um novo mytho no Rio Doce. que só agora se lhes revelava. E Joca explicou: — Lá vão as almas dos cachorros.. Ao amanhecer de um^dia'de nevoeiro. a paizagem perdera o seu contorno exacto e regular. Dominados por uma compaixão súbita e extranha os homens rudes ajoelha/am-se e de chapéo na mão. que estaes no Céo..

o miravam ^•«f^**-*.—f e se dilatou "em maravilhosa limpidez. A mancha gp-sk? movei sobre a planicie{sej^efiniu)no perfil de um pobre cavallo que passeiava na verdura os seus olhos de velhice e fadiga. vinha distrahil-o d'aquella postura de curiosidade humilde. uma d'essas manchas. tristes e longos. movia-se. erguia-se e ^ / / l e n t a //'/. com os tumidos e negros beiços. e extendendo o focinho. veloz. o rio sem horizonte. De passada. Não mais encontrava a nevoa. aa. a cuja porta os seus tt^^° donos. ligeiramente azulada. E sobre a campina esverdeada. triturando-a com fastio e desanimo. arqueava-se. arregaçando os beiços. A neblina leve. Por toda a parte manchas esplendidas se ostentavam. / / / O . levada pela brisa. abaixava-se. Estremecia n u m goso manso. para a cabana. como uma grande pasta cinzenta. O desenho «S^pagára^a bruma mascarava os perfis das coisas e o colorido surgia com a sombra n u m a sublime desforra. py^f (li& *" èMÁid a sua attenção de cavallo experimentado í^*****'* iffily fifMMjyâ. com interesse. e acariciava n'um frio electrico o fád pello ralo e //r^ falhado. vaporosa.-I u. sem limite./ mente/dissipanarf/O sol não tardou a vir. affagava a herva. a cabelleira das arvores fumegava. os novos colonos magyares. tureza se^sacudift/a nevoa fugiUjOcéoTeespannou «. ligava ^ ' ao céo baixo e denso. Um raio . e a na-™*'//''/etAsito. como si fosse o imperceptível véo que envolvesse alguma deusa errante e retardada. sensual e grato.CHANAAN 285 nhas enterravam as cabeças nas nuvens. que fugira para os montes. beijava o ar.

' . afastaram^um pouco e ficaram a . Os .. onde o amarrou. Um dos jovens magyares. que. C-JUrfc ei* i+t**&> — Ainda bem. irresoluta. e o velho deu ordem de partir $ para a queimada. Chegaram ao aceiro $ $ / / aberto como uma 11'/ ) larga ferida sobre. disse Milkau. ennegrecidos. Milkau < e Lentz. desamarrando o cavallo. fazia-me dó vêr esta gente apathica. yfdfi o grupo » «w^ afastar-se vagarosamente.o dorso da terra. descera a brincar-lhe nos olhos e incendiava-lhe a pupilla.filhos armaram-se das ferramentas de lavourá^Tcigano. As xapaxigaS/â/fâfiffij/lffli (J tf-ij em casa cheias de instinctivo pavor. HtítL. O animal entregou-lhe a cabeça n'uma mistura de abandono e tédio.n . Meiguices da natureza. caminhou para o cavallo. Os colonos tinham resolvido principiar n'aquelle dia a plantação do i W prazo. Da matta carbonisada ainda resistiam de pé alguns troncos despojados. circumdando a queimada. passeiando aquella hoi i. era um sulco de alguns metros de largura.280 CHANAAN de sol. seguiramZènt 2eíá4 ffl) <t™ com eítê para o roçado. n iijripimbwu os outros. porém. levando uma corda.y viram chegaxléfti o grupo dos vizinhos. sahindo de sua modorra e apenas armado de um chicote. E os dois st. elles vão trabalhar. xÈUtâdffâfr rte do iiQoadw. ruBiaeí/ — Mas para que trazem elles quasi arrastado aquelle cavallo ? perguntou Lentz. O rapaz passou-lhe o cabresto e ^r levou"'ao poste fronteiro á casa.

Estirou o cavallo o pescoço para a frente. como um sacerdote. encostando quasi o ventre á terra.CHANAAN 287 distancia. a immolação ficou sempre no espirito dos descendentes como um dever. como arrancando-se de si mes. pinoteou assustado. n'um recolhimento religioso. Quando os antepassados tartaros desceram do planalto asiático. conduzia a victima. acompanhando os movimentos do grupo. seguida do cigano. o cigano seguia atraz. levando-o ao furor do açoite. O velho. Os saas-—• J\" membros se^extorciam. abaixou-se. E desapiedadamente. E. assim. alongou-se. para lavrar o campo e buscar na cultura a satisfacção da vida. Este.sacrificaram aos deuses o velho companheiro de peregrinação nos brancos steppes. confrangidos sob a dôr /1**immensa.//»~ mo. N'aquelle sacrifício cumpria-se uma missão sagrada: ligavase á nova terra o nervo da tradição da terra antiga. e no solo europeu renunciaram á vida errante dos pastores. Continuava o grupo a caminhar.n u m sibillo. e a primeira vergastada. O pae puxou o cavallo para a frente. cujas raizes se entendem até ao fundo da alma das raças. cortando o ar. Novas lambadas W0$y 1/'' arremessadas por mão vigorosa. em cujo rosto se recompunha a antiga expres- . como para se libertar do flagello que lhe vinha do alto. Os filhos puzeram-se de lado. puxavam-no para deante. De chicote em punho. O velho colono segurou o animal pelo cabresto e / collocou-^io meio da valia. cahiu em cheio sobre o animal.

que. regando a terra. acerba.vabriagí mais fundos. h 4L* " \ O ^ ^ * . como torneiras de sangue. Os sulcos na 4n\~l carne se. Veiu-lhe uma hysterica insensibilidade. E o relho soava. O ar leve e frio. fO chicote cruel e rápido marcava o compasso d'esse rythmo extranho. Cavos gemidos resoavam no peito da besta. o sangue escorria / frouxo. immobilisados. esvaindo-se pelas veias abertas. assistiam/ao sacrifício. O cigano mais terrível. As ss»s narinas y ^ u . Gottas vermelhas respingavam sobre a descoberta cabeça do velho m a •=*-• ^ §y a r ' d e u m a brancura de açucena. Estonteou-o uma vertigem. emquanto o martyr ia lento. O contagio do furor & anoderou">alos outros. Mofino de dôr. o cavallo proseguia arrastado.288 CHANAAN são infernal e terrível dos antepassados. aguda. as suas pontas dè ferro cortavam o lombo do animal. uma assassina obsessão. n'um retrocesso harmônico e rápido. pernas tropegas. transfigurava-se. Os outros assistiam mudos á cerimonia. O chicote vibrava incessante. o canto de guerra dos velhos tartaros. mas o açoite não parou. E no seu olhar jMÊtàffl ' jade moribundo se traduziam os humildes protestos e os tímidos appellos de misericórdia. seXdilatavam em languido goso. e a vista e o cheiro do sangue excitavam ainda mais a energia do flagellador. produzido pelo singular efteito da paixão sanguinária. uma rudimentaranesthesia. penetrando nos fios dé carne viva. mais feroz. de pescoço estirado. e dajÀk garganta afinada irrompeu jdtídtâfdsonoxo. causava uma dôr fina.

rezando como phantasmas .CHANAAN 289 E. rompendo a cruenta tradição do passado.*} /. E esta imagem medonha.c*. cahira de lado. que se lhe guardara no interior dos olhos. impressa em sangue. o repudio da ' immolação. tornava o seio da terra impenetrável ao sangue. n'um coro infernal. A camada de argilla. era a infinita tortura que o acompanharia além da própria morte. O animal.. presidindo á dolorosa decomposição da sua carne de martyr. como n'uma verônica. lisa. o canto que feria asperamente o ar. Arquejante. resfo. Era a rejeição do sacrifício. pelo odor de carne sangrenta. embriagados pouco a pouco pelas phrases da musica../ em torno do cadáver. acompanhavam o canto. e afinal'se prostroi/f sobre a terra. e era o echo da melodia satânica da morte. 17 . A nova Terra juntava a sua contribuição aos límpidos ideaes dos novos homens. cambaleando como umallucinado. legando n'um espaçado estertor. Poças e fios vermelhos manchavam o sulco. — . pela suggestão do rito. escorregadia como uma couraça. Nas suas pupillas de moribundo s^Tphotographararrfrf um derradeiro clarão as physionomias dos algozes. que sorvido pelo sol se evaporava e dissol. O açoite inexorável ainda o levantou uma vez. ficou estampada a imagem do seu corpo. / via no ar. exhausto. Os homens seVagruparam **< . O cavallo deu mais alguns passos. e no solo.loucos. lugubre. como um peso inerte.Proseguia sem interrupção.. fogoso. morria vagarosamente. Cessaram as vozes.

lhes daria os seus fructos.. como uma rapariga bella e fresca. a fecundação pelo sangue. cedendo tão somente ás brandas violências do amor?. . si Ella.290 CHANAAN — E para que? dizia Milkau comrriovido até ás lagrimas. risonhae alegre. e para que a tortura.

sósinha. porém. acontecia.' ce da crise. Maria. Teve./" ATt*^ ' . es'perar ô~dèsenla. no abrigo doméstico. O traba. Cahiu pesada no chão.IX E o que tinha de acontecer. lho não flillldífl ffMt das mãos entorpecidas ylffffULcCras deixava cahir frouxa a enxada. e as pernas trope. No meio do cafesal que estava a limpar..y l meiro movimento foi dV /se\recolhei^ á li o seu pni n n nhritrn H n m p c t i r n pencrar n rlpçpnlncasa e ahi. medo de affrontar a ira dos patrões. para se furtarem ao incommodo do tratamento. sentiu repentinamente uma dôr aguda nas entranhas. /. que dia e noite ameaçavam despedil-a. Resistiu e continuou a labutar debaixo dos pés de café. no silencio do dia. o corpo se lhe retorceu todo e o rosto desmaiado se desfiguro^ n'uma contorsão medonha.. <*-—/ A dôr fora viva e passageira: e logo que a rapariga voltou u a si. que já desde a véspera vinha soffrendo. como de uma violenta punhalada. assaltada por um grande terror..

clamando soccorro. os olhos indifferentes se entendiam sobre o campo e recolhiam a pom- . abandonou o serviço e. as únicas arvores que havia eram esparsos cajueiros muito derreiados. e contra toda a vontade gemia alto. pensando que a viriam acudir. De espaço a espaço a mesma dôr voltava. O aroma forte invadiu-lhe a cabeça. Nos intervallos erguia-se. Maria -$• amparava^ apertando-se com as mãos para suffocar o soffrimento extranho e vergonhoso que sentia. no terreno inculto e bravio. onde era mais deserto. Quando serenava. volumosas. tinha ímpetos de gritar. sem mais esperança.292 CHANAAN gas. esgalhando-se pelo chão. esforçando/fe por trabalhar. viu chegada a hora da maternidade. e a desgraçada. Tomada de medo. espantava-se dos seus inconscientes desabafos e tremia de pavor. deixou o cafesal e gfe aventurou-para o lado do rio. As vezes. como si lhe dilacerasse o ventre. alagada em suor frio. de aviltamento e seguramente em uma expulsão immediata d'aquelle lar desagasalhado.desbastando o matto tecido ao cafesal. As dores inexoráveis proseguiam amiudadas. mas ainda assim um lar. Sabia bem que qualquer auxilio dos amos importaria em um augmento de tortura. No vão das dores. Ahi. E ella combalida deixou-se pender sobre a terra. Maria sentouse debaixo d'uma d'essas arvores que n'aquella epocha estavam em flor. afastando-se o mais possível da casa. mas logo era derrubada exhausta. não se sustinham firmes.

acabando n'um grito soluçidiái IJoàOf que se perdia n u m longo espasmo. Soffria muito. a dôr Q fi» interrompeu de novo e o suor frio banhou-lhe o corpo. Nada se movia alli na solidão. e a miserável. que jazia desfallecido e inerte. ii entretinha^em acompanhar-lhes a morosa viagem. Depois. agora mais miúdas. mais cortantes.. Maria gemia livremente. parecendo que se ia desmanchando n'uma humidade viscosa.. abafadas. Os porcos pouco a* pouco se iam approximando. até que arrancos lancinantes o agitaram outra vez. e^torcendo-se na agonia. <)lovas dores vieram. as mãos roseas cerravam-se como molas de ferro. Sempre as mesmas dores. a não ser uma manada de porcos. A morte devia ser assim. &/ /eus gritos eram finos e estridentes e ás vezes resoavam asperamente. quasi surdas.CHANAAN 293 posa phosphorescencia do rio faiscante.. O h ! peior que a morte. que vinha ao longe focinhando e escavando aterra. as faces tumidas estalavam de sangue. sacudindo-a violentamente. Tudo n'ella era desordem.. E de repente sentiu-se mais desfallecida. o vestido arrebentando deixava vêr o colo nú e arquejante. repugnante.. desprendendo-se. alheia a si mesma. os cabellos. Rasgavam-se-lhe as entranhas.. o /' corpo lhe tremia convulso.. como estrangulada gargalhada hysterica.. dilatando-se á força.. cahiam ennovellados sobre o rosto... os dentes batiam de frio nervoso. Maria .. dando-lhe andas de apertar alguma coisa contra si.

. chegando mesmo alguns *mais atrevidos. attrahidos pelo cheiro que d'ahi ffv #/^yltídiíava. Maria. A mulher e^m. Os porcos/se\afastarar^i. Nos ouvividos entrava-lhe o resfolegar roufenho dos porcos.. Em torno fungavam os porcos. i exangue. yyyj que a cercavam. . que a estimulava 'fíáv^o extranhamente. Um novo gemido sahiu do peito de Maria.. 4-*\.. a lamber afoitamente o chão. cravando-lhe os dentes^desespexadayaá^w/ £/ Zs convulsivamenje. nem mesmo tinha forças para um / . mas as dores a retomavam.294 CHANAAN abraçou-se ao tronco deitado do cajueiro.^ez u m cançado gesto para apanhar o filho. longe do soffrimento. ameaçadores. Subitamente.. /ngvl. queria afugental-os. o braço morreu-lhe sobre o corpo. grito agudo.. remexendo as folhas seccas do cajueiro. atropelando-se no sangue que corria.. e só podia gemer estrebuchando n'uma Icvvrh. horrorisada../ J/f # . E ella (sè\agarrav/já arvore. estrei/ ^i/i / tando-a com os níveos báços nús e mordia o ' tronco. mais vorazes. E os porcos persistiam sinistros.. E os animaes sedentos se enchafurdavam.. ella cahiu extenuada. Um vagido de creança Çjy^t^yjf yditifyflyyfd ffo roncos dos animaes. yjpyyd olhos desvairados não viam mais nada. Uma vertigem turbou-lhe a visão.. débil.. mistura de/soffrimento e de^oso.. guinchando. largando a arvore. enfraqueceu-lhe OS o u v !-eyJT rá° s > e n 'uma / ^ r j ^ f de bem estar parecia deliciosamente suspensa nos ares.. despertando-a em sobresalto. mas. imperiosas. ouvindo no arfar dos porcos o resfolegar longínquo e adormecedor do mar..espantados. longe da Terra..

/ | a creança. hirta. Brederodes percorria ' j~Lj. f -£~ Á. fknjAlfado pelos ///éíòàfi*"porcos. livida. em busca de Maria. Quando esta abriu os olhos. filha dos patrões. e yyndo a espantosa scena. 'Í0- Dois dias depois. sôfregos. ojkz. y/^^j^f* !„*****. antes da audiência. que ás primeiras dentadas soltou um grito forte. sorveram o sangue e na excitação da voracidade arremessaram-se á creança. sentindo-a socegada.0/-** do dr.jfc/~~ pio... que fugiam pelo campo afora.. e os sustentaculos da colônia. se precipitarairrsobre os resíduos sangrentos.CHANAAN 295 Jjf i e ella... sm*^^*" os ricos negociantes. deu um lü fa* salto ^fditfè e pondo-se de pé. * com .** / t r *^ rios unidos tá agitaram^para a vingança e o exem.jfsèm dddyy indagar retrocedeu á casa.. espalhados no chão. quando um grande vácuo se lhe fez de todo nas entranhas. uns jornaes políticos da capital. mei/consciente. e Maria mergulhou afundada em outra vertigem. Maria estava na cadeia do Cachoeira. quando Roberto e^*»«* /< . Os porcos. escrivão Pantoja .jf nada.. Itapecurú/$0^despachava7âutos com o /& /0<T'. A população germânica m^d/pj^/^^f m a noticia do crime. mirou attonita f*. tremendos . que vagia estrangulada'. Depois. a dôr cessou. / o dr. <átí//$$(. Uma manhã. viu o filho aos trambolhões. despertando a mãe. Devoravam tudo. se contorceu.. os proprieta. ^yfyfflÊàfy tándo n'uma espontânea e communicátiva mal que a creada tinha matado o filho. os pastores. chegava nesse instante. alluci.

vestido como nos domingos. pensava o juiz.. Que será? pensava o juiz de 4Z. entrou solemne. sinão não estaria tão grave. saudou-o com servilismo o juiz de direito.%^-ft-' direito. — Oh! meu bom amigo. m . — Não.290 CHANAAN Schultz. sacudindo os hombros. anniquilado. — Senhor doutor. Algum despacho. o senhor manda. Si fôr de direito. sorrindo estúpido e sem L*ty%5 propósito aos outros. Não. que proseguia-^fa^rancos.j muito macio e delicado. como de £» *****. £</ .. não é para uma questão de autos.. que também. E o magistrado ficou abatido. vem exigir o paga^jll/jLt-^ mento da minha conta? — Aqui. ficou nervoso. Não. não pede. não era cobrança. Não é. O allemão cumprimentou a todos corn uma palavra amável para cada um.... Entretiveram-se algum tempo sem pretexto. o que me traz aqui. Aqui estamos todos para servil-o. quem sabe. Itapecurú presentia que Roberto tinha o que lhe communicar em reserva. n'uma conversa. que vem pedir.. senão apressava.costume? Ou. Itapecurú..... longe ^m/T^y do assumpto. Não se atrevia a chamar o allemão em particular e demorava com geito o escrivão. Assim. Ha de ser a conta. deante de gente. não era a conta. / Itapecurú respirou. doutor Brederodes ? O promotor resmungou... Com esse ar de importância.. — Seja bemvindo a esta casa. cheio de curiosidade. disse por fim Roberto já maéI -í I fado. — Depende.

espraiando as bochechas n'um riso grotesco.. A Justiça tem os olhos vendados. doutor e caro collega./ 17. E em que termos está o processo. que enrubesceu com a ' impertinente familiaridade. — A colônia sabe./ sérias ? perguntou o* allemão. Nós somos amigos velhos e nunca o senhor me pediu nada desarrazoado. ' ' . Havemos de examinar tudo com o cuidado que sempre empregamos em nossa missão. considerou o Juiz de direito. — Meus senhores. — Nem a mim. disse gravemente Itapecurú. eu venho aqui.... Brederodes deu hontem a denuncia. não ha du/ .. — Ah! Então. fitando o escrivão. capitão? — O dr. acudiu Pantoja. sorrindo.. — Está claro..y res jilwi uma fraqueza de coração pela sorte da L/ú ré. e a dignidade dos allemães exige uma licção severa. que aqui não falta Justiça. em nome da colônia.. ' — Oh! impossível.CHANAAN 297 — Como. — O que nós receiamos é que algum dos senho. — Mas de que se trata?. e. acariciando / o hombro do promotor. capitão. accrescentou Itapecurú. interrogou abelhudo o « maracajá ». senhor doutor? Julga V S. que eu seria capaz de faljar á Justiça sinão de coisas (. que o desarmou do monoculo. O crime é horrível. Já expedi os mandados para a formação da culpa. pedir a punição d'essa miserável que matou o filho.

Imagine V. Mas não ha de ser aqui que pegarão esses máos exemplos. — E' muita petulância. arriscou o allemão. empenhando-nos para não haver andamento no processo.298 ta '/ CHANAAN vida sobre a criminalidade da accusada ? pergunton' Itapecurú ao promotor. observou Roberto.. — Não pôde haver duvida.. Eu não digo. Os outros queriam evitar o desabafo do joven promotor. O senhor. que viu os autos? Brederodes não respondeu e continuou de lado a folhear os jornaes... — Não denunciando. quasi esbor- . depois... Ha testemunhas de vista.. capitão. Este continuava a vociferar... — Mas como podiam os senhores abafar o crime? perguntou Brederodes seccamente. não prendendo.. que o senhor Roberto e os seus patrícios nos têm aqui como seus creados? E Brederodes deu um violento murro na mesa.. os precedentes.. — Doutor Brederodes. que affirmam ter ella lançado a creança aos porcos... — Senhor doutor. E. comprehende.. si nós passássemos a mão por cima. — Ah! — Sim. V S. que seria da moralidade das famílias dos colonos para o futuro?.. O filho lhe seria um trambolho.... si ficasse impune o delicto... Uma perdida... S..

..... e ahi está o que ella era.. hypocrisia... Aproveitarei a occasião para . Ladrões. exigir em nome da colônia.... Como viram uma das filhas apanhada com a bocca na botija. Vem aqui á casa do juiz de direito um bolas qualquer... creio.. de pudica commigo. A moralidade de salteadores.. — Qual povo. Qual povo!. fez-se de fina. — O que elles querem é exactamente justiça! — Tartufos. E' boa! — Mas não ha inconveniente. teve forcas de dizer o > allemão. mandões de aldeia. qual nada. a mesma. — Moralidade? Fingimento. para desviar a questão. collega. miseráveis. porque enriqueceu furtando o nosso dinheiro.CHANAAN 299 doando o negociante. que se apossam de nossas terras e enriquecem! — Então V. replicou Brederodes. Exigir que se cumpra a lei. S. Muito boa! — A nossa moralidade. conheço-a bem. mas agora liquidaremos contas. — Si ha? Oh! esta miserável.. — Sim. Que colônia?... á& alvoroçam^todos para reclamar justiça.. creados. e como não ha remédio algum. que procurava com um riso cobarde amparar a fúria do brasileiro.. Extrangeiros.. pensa que não ha crime no caso ? interrogou Pantoja. que o povo...... m o t e j a m ! ^ ^ * ^ ^ — E' aquella ? perguntou)6maracajá}i Sá// ' d— Sim.

Nós gostamos muito de bolir com elle para vêl-o se.. que ia acompanhando da janella a marcha de Brederodes na rua. Este facto não é o único. desmascarar toda esta corja d aqui. Eu também admiro os direitos do homem.300 levar esse processo até ao* fim... rapaziadas. Suum cuique tribuere. commentava o escrivão. falando sósinho. O allemão não dizia nada.queimarr^ajuntou por disfarce Itapecurú. Para mim todas estas allemãs matam os filhos. isso não. que ainda o quiz demorar.. j/afybflf/fâjado pela cólera. — Lá se vae batendo com as mãos... Pensam que o progresso é a revolução. Não era alli que havia de confessar os seus rancores. quando ficararhN i sós. Itapecurú. Havemos de vêr. São simples revolucionários. — É verdade. Não sou o promotor? Exigências commigo? Não. é a falta de attenção com os elementos conservadores do paiz. querendo illudir a impressão deixada pelos desmandos da ira do promotor. mas como magistrado sei dar a cada um o que é s^u. Que damnado!. fdfffderou o dr. sou liberal. balançando o monoculo. quando. Não poude mais vociferar. Pegou no chapéo e. sahiu olhando com raiva a figura ffijfa edesmoralisada de Roberto.. mal apertando a mão de Itapecurú. — O defeito principal dos moços de hoje. $H*#" o- CHANAAN . — Tem graça! disse Pantoja.

. nas classes respeitáveis. seu doutor. aqui na . Mas Roberto não esperou o resto.y ^ colônia. Para elles a política é só destruir e botar abaixo. — Sim. nos proprietários.. fez-lhe uma grande cortezia e foi sahindo. retrucou o escri- .! que perder. Roberto.CHANAAN 301 — E' o habito da justiça. E não é maltratando-as. sem ouvinte. ainda mais que tudo aborrecido por ficar só.. Itapecurú sorriu da incapacidade do mudo auditório e continuou : — Onde está o elemento ? Nos senhores negociantes. já venho.. já principiando a enfadar-se.. Os senhores jacobinos não comprehendem este principio admirável. que se /em /V*r*'' uma perfeita organisação social. onde Mifijdfo este salutar elemento? //<fr é"*"" Ninguém respondeu. — Oh! seu escrivão! E os nossos autos ? interrogou afflicto o juiz de direito. nos colonos estabelecidos. Posso responder á colônia que não ha meio da criminosa escapar ? — A colônia sabe que pelas minhas theorias. — Bem. cortou o escrivão. Por exemplo. Que pôde fazer uma sociedade sem ordem ? E a base.. ia dizendo Itapecurú. — Espere um pouco. E' preciso termos sempre em vista o elemento conservador do paiz. levantou-se. Pois é pena. Pantoja acompanhou-o com passo sorrateiro. impaciente. velhos e jovens. que têm o / /^. a justiça para todos. emfim. O juiz de direito suspendeu o discurso.

. para o inferno. segredo. E logo proseguiu na lingua do paiz : — E boa! Os senhores querem o nosso auxilio nas eleições. — E.. — Maluco. tem razão. que vive a g^insultar<Togemcom o corpo!... Que não faço pelo partido? Mas.. Todos se protegem. E. E «e.. — Tem razão. embaraçado. O diabo é que esses jacobinos são muito fortes. e quando se trata de^castigar um insolente. mudando de assumpto. quinhentos votos só aqui nesta colônia. pedindo.. Veja.. Posso contar? — Oh! commigo o senhor sempre conta. ha muito pedido do . eu mesmo vou escrever ao governador. Uma irmandade.... pelo menos. em segredo......... — E o tal processo ? interrompeu Roberto. Porque. Olhe.102 CHANAAN vão sem se voltar.. — E que tal o promotorzinho! disse na rua Roberto ao «maracajá».. Basta a remoção. — Maluco ? Canalha! vou já escrever para o Cachoeira armando-lhe a cama.. gaguejou o escrivão..... Não é ? — Que vá para o inferno! — Sim.... — Donnerwetter ! praguejou o allemão. repetiu o outro machinal e pensativo. os jacobinos.. foi esgueirando ao lado do allemão. E não vá o governador não attender.. sabe.. a remoção do Brederodes. Muito entre nós... — Então escreva.

. esse. Brederodes. Dá-se um berro com elle. — Sim. e tudo vae direito. E' meu.. E eu. Que se diria? Que as allemãs do Cachoeira são umas perdidas e atiram os filhos aos porcos. Pantoja sorriu. Realmente. é um senhor cheio de maisadas. é nosso. em Itapemirim. Os )s jacobinos de quem o senhor fala tanto. é preciso um exemplo. c / / esse doutor Maciel. — Não faça caso.... coitado! já se sabe.. acompanhando o gesto. — E' verdade. temos o Itapecurú e as testemunhas.. nas outras colônias.. Além d'isso. O juiz de direito. perseguirá a tal sujeita até ás ultimas. gritarão.. — E o promotor? — Não viu ? Com a idéa de se vingar dos colonos.. batendo com alarde no bolso da calça.. como fez o sr. — Quanto ao juiz municipal.. Benevides. E' cabeçudo.. Um imbecil. que respondo pelo resultado d'esse negocio. é um caso monstruoso. posso dizer.CHANAAN 303 centro. continuou o escrivão.. ' É muito sério. E depois.. esse seu . A colônia não pôde abafar. e mesmo por tolices pessoaes. comprehendo. para que se calem — Pôde ficar tranquillo... proclamou o negociante.. — Ah! a política! — . por toda a partejQs nossos patrícios haviam de dfj desmoralisar/Nada.

depois de condemtyfc llk ^"Z/ . Mas logo o « maracajá » voltou sobre os passos e gritou para o outro: — Ia-me passando. approximando-se.304 CHANAAN creado. o emprego para remunerar serviços eleitoraes. não esqueça a carta. E' para a caixa do partido... Bom... era tal. — Appareça. — Muito obrigado. Um corredor dividia a casa ao meio : de LÍj um lado fal a prisão e do outro o alojamento hdos dois únicos soldados. de cem mil reis.. Não é para mim. concluiu com jactancia o cabra. em que ^ t ó # H # M ^ . Entre presos e solda/«/*^t~ dos havia a mais relaxada camaradagem. Pantoja e o allemão se separaram. Depois. que eram / ^ guardas '<? * effectivos dos detidos. A cadeia do Porto do Cachoeira.. que móe a mandioca. hoje. ajuntou pressuroso. adeus.. — Sim. resto do antigo povoado. . como é o habito no C^j paiz.. já existente antes da colonisação. seguindo direcções diversas. perfeito. ninguém discrepa. As c j ' l-— paredes eram negras e as grades enferrujadas da janella quasi soltas dentro dos buracos da cravação. baixou a voz : — Tenho precisão urgente. O carcereiro ahi raramente yF I apparecia* tinham-lhe dado. Os accu**** sados passavam n'essa casa apenas como por uma estação durante o processo. J vez a mais velha e a peior habitação da cidade.

. acobardada.-lhe o momento doloroso zm/flC/Oín*.... por instincto de bondade. que os seus olhos uma vez tiveram a suprema agonia de vêr.ÁfcáL^ prehendeu logo. E foi um rugido no seu coração. e de tudo o que . até que de novo o torpor ' bemfazejo lhe arrebatava a consciência. /l/fz%t!L Tfítf JM0WI01 Milkau fy#0L da sorte . vergonha. que atraz d'essa accusação havia um drama. quando.*. e apenas de longe em longe lhe vinham/vislumbres da exa. Trazia-lhe a / memória o quadro medonho. um tecido de cobardia. E ella . de! jtífy. A inrelligencia n'ella adormecera. sem roupas. era vida.. ao frio. desprezo de si mesmo. ^/debatia em gemidos de horror. Mas o que soffriam esses miseráveis quasi sem alimento. mais calma.. o lll'(/tiyu seu maior tormento era a desesperada anciã por seu filho./ / soffrenjjfesmagada pelo temeroso peso do mundo. eram remettidos para as prisões da capital. se exaltava../ cta noção do que tinha acontecido. que o divino sonho se desmancha ao sopro da mal. e AMÊ^ ainda assim fraca. dormindo sobre estrados de madeira. de estupidez. tão fértil nos humanos.. entrevisto tão bello no nevoeiro da vertigem. e pela " '' crystallina claridade da sua alma desannuviada. ^ de Maria. á humidade e n'uma incrível immundicie ! Maria não comprehendia bem porque a prendiam. E teve pejo de ser homem. n'uma promiscuidade animal. Com.^/^TOL' . Em « outros intervallos. em choros.*H. quasi a morrer. de vingança. tíld^fjf.CHANAAN 305 nados.. em /"*^ supplicas..

— E por isso me deixas ?. Na tarde desse mesmo dia. chegando ao Cachoeiro.. Milkau disse a Lentz: — Vou ao Cachoeiro por algum tempo. esse soccorro. E partiu j^r. a cidadesinha não tinha mais para elle o encanto d'aquella primeira manhã. Então não vês que essa desgraçada é uma victima? E desde que eu a tenho por tal... — A sympathia pelo destino d'essa infeliz rapariga. — Quem sabe da verdade ? — E quando não fosse innocente.306 r CHANAAN dade.. parece-me......Tudo o que julgara como o doce convívio da bondade. — Não comprehendes ? respondeu Milkau com calma. como é o teu. em que a saudara como filha do sol e das águas. replicou seccamente Lentz. o seu crime não seria antes a culpa dos que a repelliram e a levaram ao desespero ? — Mas tu não estás em causa.. A tristeza que .. — E que te leva lá? perguntou o amigo. No dia seguinte.. do esquecimento e da paz não era sinão o baixo connubio de todas as vilezas sociaes. devo correr para o seu lado. — Todo o homem está em causa.. a nossa colônia? — E meu dever. escarneceu Lentz. Abandonas os nossos interesses. esperando uma resposta.. quando ha um soffrimento no Universo.. — Não comprehendo.

Milkau pediu permissão'para falar á p r i . viam-se estampadas a esterilidade e a aridez. de farda desabotoada. com receio de se vêr n'um instante desilludido sobre a innocencia d'ella. a gente grosseira e rude mostrava o ar embrutecido. dolorosamente nús. O único desejo de Milkau era estar immediatamente com Maria. /**" seres monstruosos. mesquinho e ridículo. um mulato moço. trágico. á cadeia. agitado. como para um povo apenas acampado sobre a terra. Apertado entre duas linhas de morros. desarmado/era o guarda da / j prisão. quasi sem água. e o que era humano. O sol infernal castigava sem piedade as habitaçS^s e sobre as rochas abrasadas. feitas ás pressas. descalçadas. q[ E. quebrando-se nas pedras negras. m communicava / a paizagem e toda a antiga maravilha d'esta se desfazia mysteriosamente.' . impellido por im. er• guiam-se. colossaes. o povoado parecia-lhe abafado e condemnado a uma irremediável angt^ja.. olhando para o rio. vestido de soldado. torturado pela ávida cobiça. O rio. A porta. petos confusos e irresistíveis. tremulo. verdadeiros aleijões. fervilhava o seu cachão ^ monótono. informes. na embryonaria e abor' f" tada cidade. Eram pequenos sobrados. sem arte. Sobre as ruas barrentas.. dirigia-se.CHANAAN 307 trazia. Tudo o que era natureza tinha o aspecto sinistro. casas deseguaes. e de ouvir a lugubre confissão do crime. E ahi. desolador.Todavia hesitava. fffjfiff/fí w**" 0t' n a s n n n a s inconscientes figuras deformadas de .

tinha-se apagado. Foi um goso subtil. Maria recebeu d'aquellas mãos e d'aquella voz um fluido de ternura extranha e de bondade nunca s^n^?da. curvada _ como para lhe recolher toda a caricia. Milkau entrou. ' e nenhum dos dois por algum tempo disse uma palavra. . l/flW*"%— Soffres jfòj<f>. O que fora n'esta de gracioso. sem olhar o "\\ n -/ homem. com a mão preguiçosa. apprehensivo. E nos lábios da desIfrtJf^ graçada chegou a abotoar um sorriso. Milkau não espercKl^que ella falasse.v 308 CHANAAN . uma face livida. de seductor. d'onde espiavam scintillantes olhos em que dansava a loucura. muito assustada com a apparição. e só restava uma triste carcassa. qu cama. mostrou-lhe d'alli. 011a. Enixe».^ ^ Ella curvava humilhada a cabeça. sem mesmo a*levantar da soleira da porta. depois. de docemente feminino. tacte# ando-lhe levemente a cabeça. sorriso u/)^ infantil e humilde. muito branca. O homem. tremia .• • não é? disse Milkau. ^ sioneira.8llo3 oo orguilrii o pnwir>ci . que ella.(õ^tou implorando misericórdia. A compaixão foi crescendo em Milkau ao aspecto miserável da mulher. o corredor da casa e apontou-lhe o quarto onde ella estava. quéjJ&Bíp' jr\J/* prolongado indefinidamente. Ia por 4- " ^ <• ^ \ \.

. Sim. wk deixou affagar os cabellos tecidos. Mas isto vae acabar. Não. -fcai*.. Era a loucura em ti. como um ninho dou* rado.. -arrastado pela deliciosa anciã de confortar : — Foi n'um momento de allucinação.. Haverá piedade da tua sorte../JJn to. bem sei. continuava Milkau. Não eras tu...Jf<*.. isto vae acabar.. Milkau proseguia. p sobre os joelhos d'elle descançou muda.. que levantar alli o espectro do crime ? E éÕffi se rea.iJ%a«i para o chão.. Abandonada. As lagrimas seçcaramMhe instantaneamente. sentia sobre o corpo a morna humidade das lagrimas/^ //l^ ym****-1 — E preciso cuidarès de ti... Eu sei. fe/r Maria estremeceu.... puxando para si a cabeça de Maria. e doente... Instinctivamente hesitava em accusal-a.. — Soffres. á medida que falava. Porque. dddil l/(y^~ inerte.. e pouco a pouco. Não te abandono. que o não deixava premeditar nas palavras e nos gestos. ao poder mysterioso da bondade.< e direi aos outros que a culpa não é tua. J/aÊ. Estás tão fraquinha. Elles te perdoarão.edfA/ emmaranhados e seccos. /Asubmissa. ia surgindo a sua consciência ^^mf^^Âj^f'//Ê'gyyny*'~ j — Olha. a fronte. /^^ÊL Terás ainda tanta felicidade n'este mundo.... Para .. Tu sahirás d'aqui../ > " * ' nimava. Erguer o espirito.. .CHANAAN 309 deante arrebatado pela sympathia... Tanta! H/fJ^f E sentou-se na uVjya' cadeira que havia no quar.. confessando a sua terrível falta. yym não lhe via a face voltada Ht^. Não é? são os mais culpados.. forão elles os responsáveis. mas. E ainda a felicidade..

confuso. — Não.. — Que tu mataste... — Eu? — Tu.. Elles não te perdoam.. // CHANAAN perdida.... recuou para o fundo do estrado. é horrível! E os seus olhos pungentes e frios atravessavam os de Milkau.. Arrancaram-no de mim para o devorar.... Meu filho. Não me lembro bem. Eu fico para «-salvar<affirmou Milkau obstinado. pesadas. N'um impulso frenético de arrancara confissão de tudo saber. Não tenhas medo....310 '-/ ç . Assassina... — Não. murmurou arquejante... — Vae. Oh! meu Deus. não quizeste (desgraçada que foste!) vêr o teu filho soffrer. vae.. Milkau H^ÀMp se perdia desvai radamente.. não. vae. espantado.. Elles te pedirão conta de teu próprio filho.. meu filho. — Não... ora... querendo attrahil-a... vae.. — Meu filho.. tu... disse Milkau. comprimiam como tenazes a cabeça... — Eu me compadeço de ti.. — Desgraçada! Que te resta. E com o gesto incerto o expellia da sua vista. ora crispadas se torciam juntas n u m aperto. — Não... A miserável ergueu a cabeça ef^qlhandá/firme. si me repelles... ' — Sim... Não.. como tu. . aterrada.. Meu Deus! E as mãos. que.. sim. emmudecéjdjl Agora era ella que falava.

Calou-se pensativo. — Não. disse com uma voz imperceptível. Has de me dizer tudo.. Dize-me.. eu te peço por tudo que amas : dize-me que' estavas louca. quando te viste desamparada. Vergonha... — Vergonha! E por isso.... quero....CHANAAN 311 — Assassina ! Meu filho ! Oh! Porque me vem perseguir na minha miséria? O h ! Deixe-me.. deixe-me. anniquilado. que não eras tu quando mataste teu filho.. aós pés do dominador. recomeçou elle com uma voz f]$/Ju Í0í... É para o teu bem. — Natureza humana! Vergonha. mas apenas pairou um momento livre e logo cahiu vencido. insistia Milkau.% Maria ficou acobardada.... A cólera de Milkau abrandara em presença d'esse desespero. murmurava suffocada a pobre.. perseguida ? Porque ? Não confiavas em mim ? — Tinha medo. — Maria.. e humilhado m arrependia^do seu transporte inconsciente. 0 seu ^ C& espirito frágil debateu-se ainda para luctar. Deixe-me. A rapariga esperava submissa.... — Porque não me chamaste em teu soccorro. E .. . disseste.. Devo ficar. sentindo a enexgiiy ddd HJ ^ cisão com que foram ditas essas palavras. Fico. — Quero saber.. tomado de uma tristeza infinita. — Deixe-me..

... m fjfc*0fc 0. E então. Elles te accusam. carinhoso e terno.... responde. gritou n'um feliz. p bre os joelhos d'ellef i fsf^í na infecta e tenebrosa ^í?"'prisão.. Chorava ! Meu Deus! Depois.£ e mou. Anda. Ella obedeceu. os dois desgraçados foram recompondo tudo lugubremente : — T u te sentiste desfallecer... um roncar de porcos em roda de nós. ella se approxi. chamou-a a si.312 CHANAAN por isso mataste teu filhinho. dócil e abandonada.. — E quem matou ?. e a espantosa scena se lhe representou exacta na imaginação 1 aguçada pela sympathia..... -ti— E os porcos.... . (íurvóu-se outra vez so•. comendo..... cheia de meiguice... Depois. e foram. comendo. — E depois? — Ouvi ao meu lado a vozinha d'elle. illuminado de todüj /oV^. Estes fragmentos de phrases eram bastante para aclarar o espirito de Milkau. fy/ ' — Nao nt Elles são máos.. Pensei estar tão longe. j^. supplicou angustiado Milkau. miserável.. eeu não matei ninguém.... Pensei estar morrendo. egues. — Quando foi.. Uma vertigem te derrubou... teu filhinho?. — Mas... elles o carregaram.. — Vem ! Escuta ! A essa voz....

. Não te escutaram. O sangue corria... elle. rica d | 4 * emoção e de bemaventurada ingenuidade. nos dentes dos porcos... [desgraçada.. * • * * . — Meu filho! — Perguntaram-te por elle. "• — E agora. — Chorava aos teus pés. á doçura do amigo... Accusaram-te. — Meu filho! — Tu despertaste e viste ao longe teu filho ensangüentado. -j^encaim^Y -*£5~' tava-*em sondar essa alma primitiva.. aos pedaços... Que me resta ? — A innocencia. Fazia-1. amaldiçoada..... lia a/m lei. px sioiiei daãd de entr IU1Í [aria / chegou a se *1? sentir feliz na sua misérjr Longos momentos ha ")^f via em que.. ficava17***»-^?#k deliciosamente esquecida do próprio infoFfunio| / ^ u T'r> Por sua vez.. a creança.. — A creança.. Fala..CHANAAN 313 — Vieram....... IS irdi qeixflvajn 18" _^_. presa á voz. prenderam-te. 7>*4Y-cSY?e* . Desde aquelle momento á vida de Milkau Jfs\ transformoii. — E os porcos. $yóÚL L/ fala..... . r ao desamt imju<flad is-v isit. Nàfl^-^^jSb..de ndvo.. Todas as forças do seu cc ração votou-as á defesa e salvação de Maria.. vendo-a diariamente. pxfsioneixaf. — Arrebataram-na.

nas grandes cidades tumultuosas sem piedade. I .. as mais indignas conjecturas. *~—N Na cidade. Tudo ella ouvia com sofreguidão.314 CHANAAN conversas. á mulher que! y/f ' lhe matara o filho. depois com rancor. IJ^Kíiu ^acompanhavam d/M extranha conducta. 1 f bifa 4"*rgV . vj... engulidos pela treva insondavel. subiam aos Alpes gelados e guardavam nas pupüjas as cores maravilhosas do sol a morrer.... a passarem sinistros para se \ mergulhar. como se formariam em qualquer parte do mundo..\ pela lua. arrastados pelas tempestades. esclarecido vagamente .J çados pelos ventos. fydt 6n_ m a s a c u j a mysteriosa musica ^ f e t ó ^ c h o r a n d o ~fom&c*y» perdidamente. e a sua vida de peregrino no mundo. Ora. acompanhando fielmente os casos por elle praticados ou conhecidos. como sombra. no mar. e brancos navios avolumados na phos\ phorescencia da noite. Ora... Acreditou-se que era elle o amante de Maria. que se fíl dd' * J r a v a a m < ^ a ' talvez como cúmplice. e I um ódio collectivo não poupava d homem. seu correspondente para os fornecimentos da colônia. lia-lhe ijy poemas. Outras vezes. Forma/' ram-se alli. narrava-lhe sempre as suas viagens... balan. Todos o evitavam./a principio com curiosidade... sempre atraz. sempre o seguindo. sumir. onde ha fome. em casa de Roberto Schultz. de que ella não percebia bem o sentido. ^ E ainda no mar glacial. não contava.. era tratado com desdém. Ora. E ella. sem saber porque. Milkau começou a ser notado. erravam nas pequenas cidades do Rheno e resuscitavam lendas. Ora.

. repellido pelos jtuiyMy quando não ia á cadeia. gelado.resignou. deixou passar aquella visão que lhe parecia o phantasma da Innocencia levada para o martyrio. Milkau abandonou Felicissimo e . na sua superioridade axno-df/f**^ rasa. E assim. que passava. que ia responder ao processo. Depois da primeira audiência seguiram-se outras. ^ W ^ ///Wb*re\ transfigurada. De volta de uma d'essas caladas excursões. Dias depois Felicissimo chegou ao Cachoeira e . a isso. jfê. não procurou detel-o. . na sua força. • soldados.p>*h CHANAAN 315 fMíylMtí. entraram uma manhã na cidade e viram um movimento desacostumado na rua principal. e. era o companheiro de Milkau nos )asseios e com inquietação amiga observava-lhe os silêncios profundos. humido. mudo. ladeada dos dois . Era Maria. e na boccauhe\morri/Jüm nenu. Milkau commovido..<a-~ phar branco. compadecido..a ser o inimigo commum. As portas das lojas e nas calçadas a gente do logar e os tropeiros e colonos do centro seguiam pasmados um grupo.. /y/fl/t/id**/ O cearense. e á claridade do dia a sua lividez era cadaverica. irticipava do preconceito da cidade. para o Juizo. apagando-se. os olhos postos no chão tinham grinaldas roxas. O agrimensor...» alojou-^ho mesmo hotel em que ffdwf Milkau. Ao longe ella se foi perdendo.** precipitouTno encalço. com a sua Índole franca e bondosa. passeiava solitário pelos arredores do po-' voado..

pela sadia intelligencia.imaginava"no deserto. com uma inútil cordura. de família. pela superioridade moral. Por seu lado. Maciel s* entretinha^muito á vontade com elle. A trama estava bem tecida e fatalmente a accusada não poderia rompel-a. Não era seguramente a posição do magistrado que o attrahia. '.316 CHANAAN a que Milkau não faltava. muitas vezes. — Que foi? perguntou Milkau interessado.Cachoeira $7/fôí ffcdzfijtfftjfàt sem alteração para ú****''4' Milkau. Os dias d'essa acabrunhadora vida no Porto do m . o seu espirito eliminava todas as separações que vêm da sociedade e instinctivamente não conhecia as vãs distincções de posição. de raça.. O pequenino Fritz. depois de acabado o trabalho.. <Myi$ftf voltando da cadeia. quando. Quando estava deante de outro homem. Apenas via um ser egual. esse homem lhe inspirava tal sentimento. Pedro Maciel era o juiz da instrucção.. pelo soffrimento augusto. que tratava sempre com sympathia e ás vezes com respeito. A persistência de Milkau tornava-o um familiar das audiências e. ffJe/J^J encontrou Felicissimo muito sobresaltado. As testemunhas depunham contestes contra Maria. — Que desgraça! que desgraça! foi lhe dizendo abrupto o cearense. Milkau achava o juiz municipal uma esplendida natureza e o ia estimando. uma tarde. o filhi- . de fortuna. Milkau 9*. dirigindo desprevenido e intelligente o processo. — Uma desgraça.

o esmagamento tinha sido no thorax. atordoado com o desastre. Fui chamar o medico. entregavam-na aos seus desvelos quasi maternaes. E atraz d'elle uma voz lhe pediu : — Veja se dá um remédio para a salvação. Pelos cantos da boquinha escarlate sahiam espumas de sangue. não duvidando da morte.vinha á cidade. A mãe ainda joven debruçava-se sobre ella. — Pobre creança! gemeu Milkau. deitada em uma mesa. parecia não lhes caberem mais. Os olhos azues « r arregalavam" desmedidos e as pupillas immensas. O pequeno Fritz agitava de vez em quando os bracinhos. A noticia se tinha espalhado e muita gente apiedada viera agglomerar-se ahi. mais abaixo. apontou Felicissimo. Ouviam-se lamentos e choros em roda. e volto para lá. A creança era o carinho do tropeiro quando eààe. Os pães lh'a confiavam a passeio. Em casa d'elles. n'uma dôr sombria. a casa estava em alvoroço.CHANAAN 317 nho de Otto Bauer acaba de ser esmagado por um barril de vinho no armazém do pae. de animal. e o cabra sentia-se 18. estrebuxando. Milkau voltou-se e fitou Joca. de tão dilatadas. A cabeça estava intacta. — Vamos. devorando-a com os olhos. invadindo com a familiaridade da compaixão o aposento onde. — Que horror! Pobresinho! E onde está? — Alli. Este tinha o ar trágico de um satyro em dôr. O pae vagava a tremer pela sala. Quando chegaram. a creança morria. .. confusa..

. Milkau ficou sensibilisado. Pouco a pouco o silencio em que estavam e a fadiga do coração foi ddvfwdifHfid e adormecendo a quasi todos. quando o trazia nos braços de loja em loja ou quando lhe dava. de uma transparência vitrea. quasi extincta. morreu o pequeno Fritz.. Depois. A mãe de Fritz também fechou os yy oLl/ja. a bisavó do pequenino. murmurou : — Era o que se podia fazer. Na vigília da noite eram todos os que guardavam o cadaverzinho. a mão na rua para ir ensaiando os passinhos vacillantes. tomando uma expressão socegada e feliz.318 CHANAAN desvanecido. e/sem a menor espef ^ I rança. de uma cabelleira farta . jtAíy frouxa claridade das velas mortuarias éa. sacudindo a cabeça. fez com auxilio do tropeiro alguns curaf^ tivos. O medico não tardou. IJ^yr 7. feliz.. Não ha mais nada. muito silenciosos.divagando em scismas. baro molhada de lagrimas. desenhava'fugitivamente o vulto de uma velhinha. com o cuidado de uma ama..-u> Ias abertas o doloroso mugido da cachoeira.. » vendo aquella face de homem primitivo e barf I /. De fora $$fjd pelas janel-tu. a vida só nos olhinhos limpos e de uma scintillação ... olhos e o somno lhe foi vitelo ao tempo que a respiração offegante moderava e as cores ruIIjiji b r a s das faces inchadas se iam dddddndo até uma </&s"r*JU' pallidez absoluta. Era uma bella mulher. E. sinistra. a physionomia serenou. nas tenebrosas torturas da meningite. Viu o que estava praticado e. incorporea.

. do apenas ensaiado. ™ u oda a noite passou Milkau a confortar a família. família catholica «agdapanlava. yztTl formidade entre o gênero humano e a mulher. presidia a morte. ¥~- /tW^" .. exaltar as deusas. que ia insensivelmentetí/J f//^ íÁdddyabsorvendo todos os outros?.. illuminada por uma lâmpada. ficavam ffll **/Tj quasi desertos. as santas.A. e a dôr IM \jdfcfflmyy $$fd como como y y y. Não viver. .// dj/jjídhfdMfo os outros. Os que ainda l*df* /&w alerta a contemplavam. Elle estava também esmagado e abatido. os que foram apenas esboços da existência.. fUvédmr^ii.. com um perfil delicado e fino. uma hospeda extranha e importuna.CHANAAN 319 e negra.. voltada para o filho morto. E. No canto da sala uma imagem de Nossa Senhora.. E os que morrem sem ter vivido. E' a dôr deante do inacabado. fffjfyijp uma pungente dd^J/Ke^ tortura vendo essa mãe bonita e moça dormindo a sorrir. dos templos onde passara e onde sempre os altares d'Ella attrahiam mais os corações das gentes... E Milkau reflectia deante do admirável symbolojXiínhaa impressão de que todo o culto se ia restringindo em torno da Virgem Maria. E CL^T essa tendência universal para divinisar. Tudo n'ella //*&«*-„ exprimia saúde e força. quando olhava o mortosinho. do que nos ia completar...y. mesmo os'do Christo. não vinha acaso de longe.íembrava-se das cathedraes. de muito longe. scismava : — E' dolorosa ainda mais do que as outras a morte de uma creança. E porque ? Talvez pela maior con... não estava agora em plena culminância no culto de Maria.

os armazéns também-cessaram o trabalho e de todas as casas e lojas vinha gente encorporar-se ao enterro.s auctondades brasileiras ssaasaj». tornando a tristeza collectiva. puxava o prestito. mesmo os inimigos e competidores do l//' ~fé/T.I /(z^r^fj derodes.320 CHANAAN deixam-nos uma piedade torturante. como nos enterros de anjos. Entre os \ /«. lavada e azul. ruido e musica alegre. No outro dia foi o enterro. Quando deixou a rua á margem do rio. o enterro . porque ahi morre uma illusão nossa. ruidosa. nós também morremos um pouco n'ella. participava de um mesmo pezar. Foi um luto geral na povoação espantada com a catastrophe : às escolas «ç fecharam-^e grupos de meninos vestidos de branco se enfileiraram. excepto Bre. ~^ A manhã era límpida.. 1 u e t r a z i a m flôres^jtó^ídy^íd^ coj / Jf. desenroi lando-se pela rua principal do povoado. a m i r a r a / Z i£ j —/ Wyddjdo o seu amado menino vestido de m a r i / ZT^ nheiro e embarcado como n u m brinco infantil n'aquella gondolasinha dourada e vermelha.. alongando o cortejo. Toda a gente da cidade. em que o povo vinha sorumbatico e lugubre. estava Joca. n'uma espontânea unidade de sentimentos.P a e ^ e Fritz. em viagem para o céo. Quando morre uma creança. que carregavam o esquife. que não perdoava^ao extrangeiro nem// ira/t* /mesmo nad^s^raça/Eji maTcha iã^n^ssaTnistura de amargura. Uma banda ' de musica alegre.

a bocca •' cerrada. na sua sensibilidade desvairada. E Maria. o seu olhar de allucinada sahia violento "%•' pelas grades da prisão e repousava ardente no morto. A colônia passava. tão terríveis que dominavam os cantos dos instrumentos.CHANAAN 321 tomou a direcção da cadeia.. levado pela musica macabra do resfolegar dos porcos.... á prisão chegou primeiro matinal e alviçareira a musica. Vinham de longe. Lá. apavorados e rancorosos. Os mais. Com • o rosto descomposto.... cavernosas. mas tão persistentes... veiu á grade e il poz-^a mirar. O yjfjn enterro dmlU. confundidas na harmonia dos sons. attraJ/IH^if^ hida !>(/>/JJjifóf.. unida *&*" na piedade como no ódio. n u m a contorsão.. os cabellos pendentes.. que tudo ignorava. Ainda alli na morte passava o triumpho. Ella ouvia agora. títiM marcial e solemne.. què ficava perto do cemitério. Maria If-jy^" t espreitava. tomado de uma compaixão infinita. a victoria da força e da felicidade. ia ouvindo. ia vendo o enterro do próprio filho.. e Maria. do desconhecido. y/J / noe/ sentiu uma íifyf-í claridade n'alma com aquellas 11/ **** caricias do som ímmortal.. Da multidão. . E despercebida.. ficara hirta. só Milkau olhava para ella. agarrada ás grades.. desviavam-se da figura n infernal da desgraçada.. outras vozes abafadas.

logo que se encerraram no escriptorio. Apenas lhe explicdjque. esses momentos eram sagrados. — Como ? Está convencido da culpa de Maria Perutz ? perguntou Milkau inquieto. dignas de homens. arrastava Milkau diariamente á sua casa e em longas e nobres palestras. — Não vejo meio de evitar um máo desenlace ao processo. respondendo a uma pergunta de Milkau. fora elle tão feliz e fecundo. não estou convencido de coisa alguma. sjgdaaatast». a amizade se ia formando entre elles. agora. — Meu amigo.X Paulo Maciel. depois que o doce veneno da duvida lhe corrompera a alma. e jamais. depois das audiências do processo. pelos depoi0_/ . que se sentia separado /de todos d'aquella terra. tinham o perfume da liberdade. disse o magistrado. Ad^ttt^cúj ifcara Maciel.

vêm insinuadas. interrompeu Milkau. — No mundo inteiro a justiça é uma illusão. si aqui um homem entender m apossaria propriedade de outro. que sou juiz... porque não se trata de raros eclypses de justiça. não é ? — E' horrível!. affirmou Maciel no seu pendor para generalisar. — Um paiz sem justiça não é um paiz habitavel. e ninguém está garantido. no modo por que se faz o processo.. foram industriadas para essa desgraçada -conclusão. ninguém o pôde embaraçar. — Mas as testemunhas. .. ha n'elles tal tecido de mentiras que tenho de capitular E' de desesperar. a pronuncia é fatal. quando recebo uns autos. é uma agglomeração de bárbaros. não ha lei. Olhe. encontra no nosso systema de justiça. concluiu. — Mas no Brasil a situação é ainda peior. Mas é inútil. è a condemnação. cortou Milkau. f — A quem o diz ? E' sempre assim entre nós : não ha um processo em que se possa fazer justiça.. Digo-lhe isto eu.CHANAAN 323 mentos. Que exprimem as minhas sentenças sobre a verdade dos factos ? Nada. E si esse homem é um potentado. pela prova dada. Nem eu mesmo. continuava. O processo é feito de tal maneira que tudo vae em perigo.. — No Brasil. Não pense que não desejaria reagir.... apoio para a sua intenção..

ficou pensativo. a raça não se distingue pela persistência de uma virtude conservadora. da Europa. — Um caracter de raça. mas hoje está tudo acabado. dos Estados Unidos. sobre cada um de nós seria futil erguer o quadro de virtudes e defeitos da communhão.. sem dizer nada. de desabafo.talvez uma apparencia de liberdade e de justiça... Posso accrescentar mesmo : não ha dois brasileiras eguaes. meu amigo.324 CHANAAN Milkau. não é" nada. — SiVn. aqui já houve. — Isso. nós a temos com equilíbrio e constância. que é a mais rudimentar e instinctiva.. e de um modo superior.. E' a conquista. E' um cadáver que se decompõe este pobre Brasil.. Aqui. — De onde ? — De toda a parte. A valentia aqui é um . explicou Milkau. assegurou Milkau. não ha um fundo moral commum. si aqui dentro estamos na desordem e no desespero? O que se dá no paiz é uma verdadeira crise do caracter.. Onde está. mudando de ponto de vista. a nossa virtude social ? Nem mesmo a bravura. — Não creio. Não ha uma virtude fundamental. Os urubus ahi vêm. ouvindo o joven magistrado que proseguia n u m impulso de confissão.. Como poderemos nós subsistir desta fôrma em que vamos ? Onde a base moral para mantermos a nossa independência no exterior. — Virão. que chamamos nação. repito.

inutild o s y t e máos!. voltado para Milkau. interessado n'esta analyse franca de Maciel. O aspecto da sociedade brasileira é uma singular physionomia de E 19 . desbruçando-se um pouco sobre a mesa. Collectivamente. proseguiu depois Maciel. /Milkau. ha\um cosmopolismo dissolvente. a nossa bondade. como familP' somos tão máos. 'í. — Não ha duvida./ CHANAAN 325 nes pulso nervoso. ponderou Milkau. de ita cobardia nos enchem a lembrança!. — Repare o que se passa com o patriotismo. O juiz reflectiu e. E a falta de homogeneidade será talvez a maior causa deste desequilíbrio. não que seja a ^. No Brasil a grande massa da população não tem esse sentimento. como levado a tristes recordações. Note que os poucos patriotas que temos. Veja as nossas guerras. ve tempo em que se proclamava r a nossa ade../que ha profunda disparidade entre as varias camadas da população. emfim logicamente selvagens. desta instabilidade.. tão hystericamente... fitava-o com immensa sympathia. / Calou-se. indicio da perda precoce de um sentimento que se devia casar com o estado atrazado de nossa cultura.expressão d'uma larga e generosa philosophia. são ainda homens de ódios.. replicou a este n'um tom mais decisivo e Vibrante : — Tem razão. aqui. de sangue. mas simples symptoma de inércia moral.. compadecido das torturas d'aquella alma ' de brasileiro.

e poz-se a mirar absorto e vago a cachoeira. quando a imaginação d'ellas é deslumbrada pejlo espectaculo da mais desbragada perversão <ljgs governantes ? Que reacções sobre cérebros obscuros não provocará o desamor d'esses conductores das. ás coisas superiores. emquanto a claridade da tarde. e seu apego ás posições e ao ganho? E não é só o governo. que se pôde esperar dos sentimentos. mansa e suave. A decadência a. Uma tal nação está pxcÇ \ rada para receber o peior dos males que pôde cahir sobre o mundo: a geração dos governos arbitrários e despoticos.despontam para o mundo. ao ideal. e do eáfgommento â/> I I raças acabadas. invadia o aposento. horrivelmente deformados. gentes. da idealisação das massas incultas. tudo n u m declive em que se vão resvalando. E Maciel voltou-se: f . abriu a janella que dava para o rio. Ha uma confusão geral. Si a sociedade é urna obra de suggestão. o clero. são os funccionarios. E'a magistratura subserviente e apparelhada para explorar os restos da fortuna priva-la. os militares.. encheu-lhe os ouvidos de louvores á natureza. sem se mover do seu logar. Levantou-se muito nervoso.. A correntes da immoralidade vagueam sobvda.326 CHANAAN decrepitude e de infantilidade. r é um mixto doloroso de selvageria dospovos q$ç •d H. Milkau. sociedade e não encontram resistência \ de nenhuma instituição.

. Quando estamos dentro d'elles.. terrível e formidável.. A família vae sendo demolida pela força imperiosa dos vícios. Ao menos. é também um pouco uma questão de perspectiva. campos desertos d'aquelle coração... temos a benignidadedacalmaeatranquillidade da família. a exactidão dos seus conceitos. Maciel (seNcontevj com esforço. — Não quero diminuir. e com os meus ir viver tranquillo n'um canto da Europa. murmurou n'um desalento : — O meu desejo é largar tudo isto. A Europa! Sim. tando com os olhos vermelhos e humidos o extrangeiro. Milkau falou-lhe com brandura.... não sei. ficou repentinamente mudo. A Europa. Mas lembre-se de que não ha sociedade sem abalos.. e como resumindo todas as suas decepções e anhelos. Parou. E quando ia seijdo arrebatado pela expansão dos seus mais Íntimos anceios. O clima. disse elle. abandonar o paiz. A peste se apodera do corpo miserável da nação. que não ha nada fixo e eterno : tudo vae de passagem. tudo . Ou melhor. procurando perpétuas e incessantes combinações de ser. tudo se mostra grandioso ou ridículo. esse terror que nos vem dos acontecimentos presentes. expatriar-me.. E por quanto tempo..CHANAAN 327 — Ainda é uma vantagem viver-se na roça nesta hora tenebrosa. Por outro lado. ao menos até passar a crise.. e as palavras cahiam frescas e consoladoras sobre os. tudo está sempre em crise.

parecem normaes e suaves. mas no futuro elles minguam á força de distancia. — Muito bem. \e nós começamos a louval-os. mas aqui se passa uma verdadeira tormenta. si a forte e imperiosa sensualidade dos conquistadores não se encarregasse de demolir os muros da separaç ã o ^ não formasse essa raça intermediária de mes- .. Do que tenho observado e adivinhado um pouco. E Maciel também sorriu. sob a fôrma de senhores e escravos. no meio das ondas e dos ventos : o espectaculo do oceano enche-nos a alma de terror. yid^r 328 JAAN CHANAAN í parece ir acabarn'umadesâggregaçãoirremediável.. Desde o principio houve vencedores e vencidos. as ondulações das vagas são como um leve sorriso. porém depois que o atravessamos e o olhamos de longe. w ^ . tornando-se subitamente jovial. desde dois séculos estes luctavam por vencer aquelles. replicou. Todas as revoluções da historia brasileira têm a significação de uma lucta de classe. é "ella conseqüência da primitiva formação do paiz. de dominados contra dominadores. O povo brasileiro foi por longos annos apenas uma expressão nominal de um conjuncto de raças e castas separadas.. como uma engenhosa e \ admirável expressão dos melhores tempos\ que são sempre os passados. Deixa que lhe /aça uma imagem ? E' assim como si estivéssemos no mar.. festejando a metaphora. e não podia ser de outro modo. E isso se manteria assim por muitos séculos.. — E' natural.

que fundaram desde logo instituições destinadas a permanecer algum tempo. Perfeito. que é o laço. afflrmou Milkau. e que nos governam com melhor acceitação e êxito.. e que. •— Bravo! applaudiu Maciel. e depois. Era preciso esse choque do inconsciente para se fazer o que se buscava desde séculos por outros meios : a nacionalidade.. a liga nacional. d'elles. Está ahi a explicação do triumpho e do prestigio do nosso " Maracajá *' — É o representativo. O Brasil é.. augmentando cada dia. .. Era preciso formar-se do conflicto de nossas espécies humanas um typo de mestiço. são desse mesmo typo de mulatos. com o ambiente physico. que se conformando melhor com a natureza. fosse o vencedor e eliminasse os extremos geradores.. e sendo a expressão das qualidades médias de todos.. Reparemos que Pantoja não é um caso isolado.. também gracejando. pela sua própria força de gravidade. n'uma harmonia momentânea com os instinctos psychologicos que as crearam.CHANAAN 329 ticos e mulatos. Equando o exercito deixou de ser uma casta de brancos e passou a ser dominado pelos mestiços.. emfim. Os que tendem a nos governar.. ^/ Paulo Maciel 0 deteveriam momento.. commentou o juiz. foi ganhando os pontos de defesa dos seus oppressores. — Vejo bem que é isso mesmo. a revolta não foi mais do que a desforra dos opprimidos.

emquanto aquelle joven de uma intelligencia mais fina. Porque não nasci mulato?. Não ha raças capazes ou incapazes de civilisação. disse Maciel negligentemente .. Isto não se pôde concluir dos meus pensamentos.. — Oh! não. E preciso um pouco mais de identificação. sahiam fatalmente do núcleo da fusão das raças. tangido pelo escrivão. meu amigo. estes não marcham firmes e seguros?... representou-se no espirito de Milkau como um resumo bem claro de todo o paiz. Não são os donos da terra?. era anniquilado. toda a trama da historia é um processo de fusão : só as raças estacionadas.. isto .330 CHANAAN emquanto olhava para as mãos brancas e longas. Si eu tivesse algumas gottas de sangue africano.. como dolorosamente já se está fazendo.. vencido pelos outros. de uma sensibilidade maior e mais distincta. não ha salvação possível para o nosso caso. é uma incapacidade de raça para a civilisação. continuou com um sorriso irônico : — Não ha duvida... Pantoja.. com certeza não estaria aqui a lamentar:?: O equilíbrio com o paiz seria então definitivo. E' fatal. Brederodes.... Tinha razão ? Faltava-lhe a gotta de sangue negro para que tudo n'elle se equilibrasse ? — Vê. Todos os nacionaes que alli dominavam. O pequeno mundo da colônia. A crise da cultura aqui é motivada pela divergência dos estados de civilisação das varias classes do povo..

de vida. fique certo. a epocha dos mulatos passará. as que se não fundem com outras. E no futuro remoto.. pelo lustre perigoso do seu gênio. sejam brancas ou negras. de cultura. acceitando com reconhecimento o patrimônio dos seus predecessores mestiços. a civilisação não teria caminhado no mundo. porque nada passa inutilmente na terra. a cultura se fará regularmente sobre esse mesmo fundo de população mestiça. de arte. E no Brasil. porque já houve o toque divino da fusão creadora. cobiçosas de felicidade. — O paiz será branco em breve. nem a côr da pelle. que terão edificado alguma coisa. E Milkau disse ao brasileiro : — Essa Europa. essa Europa também soffre do mal que desaggrega e mata. Não vos deixeis deslumbrar pela e^haustapompa da sua civilisação. pela força inútil dos seus exércitos. Como vós. as vossas cançadas almas. ella está no/ . para voltar a edade dos novos brancos vindos da recente invasão. Não a temaes nem a invejeis. suspirou Maciel. se mantém no estado selvagem. Nada mais pôde embaraçar o seu vôo.. Si não tivesse havido a fatal mistura de povos mais adeantados com populações atrazadas.CHANAAN 331 é. nem a aspereza dos cabellos. para onde d'aqui se voltam os vossos longos olhos de sonhadores e moribundos. quando fôr conquistado pelas armas da Europa.

toda a humanidade parece sem raizes na terra.332 CHANAAN desespero. Por ellas tudo se baralha.. Está vacillante. « Nada corresponde ao Tempo. não exprimem o novo direito. ainda anima debilmente o mundo. consumida de ódio. sempre joven. que amedrontava no passado os espíritos. inquieta.. são o escudo perturbador do governo e da riqueza. P o r í ^ f leis os povos chegaram a / W ^ esse excesso de grandeza que é o primeiro toque da decadência.destruição. passando. quando ao vosso lado sempre alguém morre de fome. não é o sonhado mundo que se renova todos os dias. sempre bello. n'esse momento indeciso em que não teme mais a justiça vingadora e posthuma. os governantes armam homens contra homens e entretêm-lhes os ances/ traes appetites de lobos com a pilhagem de outras Io nações.... Tudo/que se apresenta á flor da vida não ' corresponde mais aos fundamentos da Vida. As leis.. e quem diz auctoridade diz posse. nascidas de fontes impuras para matar a liberdade fecunda. sem cuidar dos que vêm surgindo após. e nem pratica a maravilhosa justiça que vae chegar amanhã para dar a todos o que é de todos. Ainda alli se combate a velha e tremenda batalha entre senhores e escravos. E' uma sociedade que acaba. O espirito que morreu. diz servidão e fjj***'. Não ha calma para a consciência. devorada de separações. E ainda para manter taes ruinas. As .. não ha tranquillidade no goso. como si estivesse para morrer..

passa o veneno sensual.. e que são as forças redemptoras da sciencia.. nem a alma do momento. mórbido e pérfido. da industria. fina e mesquinha. antes que se erga contra vós. E por tudo isto que eiilanguesce e definha. — É o primeiro passo e um grande bem. como o bafo sagrado das divindades do futuro. sem seiva nem vigor. um sopro de vento os reduzirá a pó.. que vos não pôde escravisar. o sopro bemfazejo que tudo invade. crea19. n'uma voz imperceptível.. ella se despedaçará.. da arte. tudo vence. Não a temaes. da intelligencia. disse involuntariamente Maciel.. . Os povos abandonaram a religião e conservam os templos e o sacerdócio. a diplomacia. do ódio e do amor e de mil outras potências ainda incógnitas. mysteriosas e santas. o parlamento. Não longe.. pois como a essas figuras carbonisadas desentranhadas da terra do passado. tirando a força ao homem e a bondade ao leite da mulher. a poesia volta-se para o passado e a sua lingua subtil. E já as posições vão sendo tomadas insensivelmente pelos que as desprezam.CHANAAN 333 raças deixaram de ser guerreiras e ainda se armam.. o governo. caia nas mãos dos que julgam taes instituições como instrumentos do mal. a universidade e tudo mais que deva finar. não é a lamina poderosa e refulgente onde se reflecte a imagem dos novos homens. os seus exércitos não se poderão mover. A arte não exprime a vida. — E' um grande mal. a magistratura. Que o exercito.

. e conduzem ao mesmo resultado n'este systema planetário. porque aquellas forças da resurreicão se communicam invisíveis entre os > homens do nosso grupo de cultura.. mais funda que apparente. — Si taes conseqüências resultarem. — Não será a conquista fatal do paiz.. grosseiras ou ridículas. scismava em tudo o que acabava de entrever deliciosamente. onde isto primeiro se dér ? arriscou o joven brasileiro. O que me resta é ainda este socego da família. E. este amor de mulher que me conforta. serão tão fugazes e passageiras que não devemos d'ellas cogitar. n'essas ancias para novas e mais bellas expressões da vida. onde. as atribulações do momento venciam-no — Tudo desmorona em torno de mim. e esta ... Quando Milkau partiu.. e não tarda que eu mesmo seja extranho a tudo e nada mais sinta de commum com aquelles que são os homens de minha terra. Então os exércitos não marcharão. n'uma semelhança de destino.. O domínio do vencedor d'essas luctas inferiores será instantâneo. sonhar os mesmos sonhos. o juiz. destacando-se da nebulosa inicial. n'essa esperança luminosa e feiticeira.iSA CHANAAN ções. n'esse mundo a transfigurar-se. Já ninguém aqui se entende. ficando só. entrou o Brasil para soffrer comnosco os mesmos sacrifícios. as mesmas transformações e. apesar do deslumbramento da visão...

olhando-a sem vêr. avançando e estendendo-lhes em silencio os braços cheios de ternura mysteriosa. Cahiu J^y^u^ nos braços da senhora.^c*"-*''* dados. Sentou-se no seu logar de retiro e d'ahi. arrancando o marido das scismas em que estava.pÀe d Àpapmnd a figura em desordem de ffl/ffl ujpa/^rearíça. os cabellos vinham deban. /'/Jt/nÂ* wh. / * * T £ .CHANAAN 335 creança que nos rejuvenesce.. Maciel. como em fios de brando e macio cabello de mulher. Tyldlziy.lffry*s. dilatava-lhe os olhos negros e faiscantes. oc**<+*l* — Gloria! Gloria! murmurou. A pallidez brasileira.ímÍM^í 4nf4iM4d^^A%AWs^> V^ r e g #í/TW/#/W W *** ° rndüâ inyap. tre. éter. e pela testa corria um suor gelado.^AT mora esquecido de suas devastadoras angustias e^y^ débeis revoltas.fff d** "finamente fascinado por ella. . recolheu-lhe anciosa o corpinho. uma doce e infinda conversação. magra e ainda muito joven. emquanto lá fora tudo vae desabando. Era esbelta. ^^x**^'fi***i . a mulher de Paulo Maciel entrou ahi discretamente. foi em sussurro entretecendo com a companheira. afflicta e estupefacta. as faces vivas e accesas. acalmou-se. abafada : %*yd& — Mamãe! <*/*&Esta. e sem de. /rf^oeé/ E tudofoiumatfétídfAl casta e subtil. doentia e diaphana. Não ouvindo mais rumor de conversa no escriptorio do marido. mia-lhe o narizinho. A noite vinha vindo. foi-se reclinando suavemente ddM elle. como tinha por habito todos os dias antes do jantar. . Vibrando.

beijou a creança. A creança encarou-o indecisa. Durante a narração. a moça segurava a menina pela cabeça. / pedindo esmola. Algumas mulheres do bando ///$YJ//A****r /avam com mãos descarnadas apossar-se das jóia* da menina. *"'/! r*~¥> %-'~r~£r«é r± 1 •*^*fr í V'-? ^ . como uma reacção de alento. e uma mais ousada beijou-lhe o rostoi "Femquanto forçava por tirar-lhe a pulseira. quando 1L uns immigrantes mendigos-ac acercararrrj]J«lki. sorrindo d'aquelles sustos. Mal puderam escapar. repellindo o grupo com o chapéo de sol. — Soceguem. A criada defendera Gloria. a creança.*_ .336 CHANAAN O marido achegou-se a ella. tentou disfarçar o acontecimento. o filho arrancou-lhe o laço de fita. reconstituindo com largos gestos e grandes vozes. a lucta não se terminaria logo. e Gloria. um episódio da rua. Esta palavra foi dita varonilmente e trouxe lagrimas á mulher. Paulo Maciel. e tomando-lhe umas das mãos. partiram desvairadas para a casa. no meio de imprecações de fúria. Passeavam ambas. correndo n'uma gargalhada de triumpho. N'este momento entrou no 'ft ccrn> aposento a criada. para diminuir nesta o natural e invencível horror aos pobres. mas á sua energia tonta correspondera uma vozeria desbragada. Si não fosse a intervenção de dois homens que passavam. dm/ÂdJ^dví coxneçou a expli'itfiu*/ car a angustia da menina. beijando-lhe freqüentemente os amortecidos olhos de somnambula. quasi n'uma algazarra. enterrou mais a cabeça no collo onde se agasalhára.£*.

ás idéas lhes fugiam. que tentava inutilmente adormecel-a. maternalmente. Vxojldfifji^i distrahil-a e desviar para coisas alegres e diversas a sua attenção.. beijos. melancólico. Levantou a cabeça. A grande calma do crepúsculo aquietava-lhes. pois já aos cinco annos uma precoce e mórbida phantasia era-lhe doença d'alma. em súbita transformação de allivio. outro. rudimentar. mamãe! Depois. fitou os outros com um sorriso leve. a sua voz. e abrigal-a mais e envolvel-a com os braços. Os éidd sentidos sahiam do pesadelo n'uma dolorida expressão de susto e de fadiga. elles paravam. a indizivel tristeza das almas rudes.. e só a menina de vez em quando tremia. e tornava vãs as palavras. segurando-se á senhora. a quem não sobrava regaço para occultal-a.CHANAAN 337 O medo lhe. como num remanso. davj^lo justo sentimento do real. £U. inconsciente. Moveu os lábios como quem ia falar. Êr^Zfei ^ J. mais outro. e apenas como recurso lançavam-se ao argumento que nunca tráe. A invenção djdf éMM0f( não foi feliz e fértil naquelle momento. que foram então arquejantes. scismavam. M-^~ IjJ Cj m dT ' . — Tenho medo. primitivas ou infantis. e os dois esperaram. succedendo uma modorra interrompida de instante e instante pelo crispar de suas garrasinhas aferradas aos pulsos da senhora. um soluço hysterico. as perturbações. que traduzia uma mansa agonia. perdidamente.

. quando eu não podia mais. A menina moveu para elle o rosto.Você se lembra quando a gente não tinha que comer e ia pedindo dinheiro ? Você me beliscava para eu chorar e me empurrava dentro das lojas para pedir comida. e enfiou olhos agudos na menina. — Gloria. mamãe! murmurou Gloria. que tolices são essas? Não fales n'isso. mamãe. mamãe ? Mas nós nos escondemos n'aquella casa 0rr** .. deixou cahir o livro. ficou aterrada.. dormíamos na rua. voltada para a janella.. Porque. Maciel que estava a ler. como que irresistivelmente: — Ah! que frio fazia lá. d'ahi a pouco. Os ^MdM scisma/ vam. disse Maciel. Você se lembra d'aquelle chapéo que você tirou do menino na rua e me deu? Ih! correram atraz de nós. mas do pouco que comprehendeu. n'outra terra. e. yyl^f 0t^ypaxecia yf/ojlj dias passados. Aqui' não se treme. Mas. não cáe neve. você me carregava.. A sua physionomia transfigurava-se com essa jyy recordação. não foi. Quedou-se um momento calada. A mulher de Maciel a principio não percebeu toda a extensão d'aquelle pensamento. Nós andávamos na rua toda a hora. ' .. T— Sim. em êxtase. longe. obedecendo á intimação. brandamente. papae me dava tanto. hein.338 CHANAAN — Ah! nós também fomos como elles.. ha muito tempo. mamãe?.. Ouviu-se um grande suspiro.

Ella pagou-lhe com um beijo. — Que bonito! Não se conteve a creança.... Me dá. não chore.. papae ? Fazia-se escuro. Você não apanha. que resurgia em meio da felicidade.. á sombra que abafava os últimos clarões da luz. Não era? Você não/ tinha vestido bonito. Maciel gosava um absurdo e requintado prazer intellectual n'aquellas tenebrosas visões da creança.. ^pff!^ Paulo Maciel levantou-se convulso... voltou á senhora que es^ tava a chorar : —JVlamãe. não tinha anel!. que tirou precipitadamente do armário. Não é. não tintia criada. — Gloria. Tinha uma pulseira que aquelle moço 11 . Você tem tanto dinheiro. No completo repouso da casa. tinham ares de monstros. A criada tardava em trazer a lâmpada.. Voltaria á realidade o seu espirito desannuviado das nevoas que ° 1/ / edjjfham} pensou Maciel. boa para mim. E ainda assim. como a imagem e a voz de um passado horrível. Eu não tinha boneca. E posou Gloria no 0"*/™"' cnao com a gravura. Gloria! teve a moça forças de exclamar. si não disseres mais tolices. mamãe.CHANAAN 339 escura. como agora. não tinha dinheiro. porém^pouco se /*/**r demorou em admiral-a. tomou/aVao collo e mostrou-lhe uma estampa.. A creança. papae ? — Dou. nem cama! Andava suja. e eu fiquei com o chapéo bonito. a figura e as palavras de Gloria. — Você não era assim.

. dizia que eu era filha d'elle. — Emilia.. sim ? Murmurando umas desculpas.. Havia dois annos.. Pensa que eu não vi? Agora a gente não tira mais de ninguém. gritou Gloria... P a pae. voltou-se para a senhora : — Amanhã vou passear com o vestido côr de rosa ? Levo a boneca maior... A sua caridade amorosa colhia os fructos amargos de Chanaan. De repente.. a Dulce. Emilia. Me dava dinheiro.340 CHANAAN deu. olhavam correr a creança. Levantando os braços n'um immenso esforço de Y I n ( quem suspende algemas. amanhã. você apanhou muito. quando papae foi preso pelos soldados. — O moço dormiu lá. Papae voltou. A mulher de Paulo Maciel abraçou-se / elle como a um rochedo. fulminados pela sensação... partindo no seu encalço. Paulo avançou esbotf-J çando no espaço gestos inúteis para tapar aquella bocca maldita e innocente.. cadê o homem que você quiz matar com aquella faca?. n'um grande . você disse que elle era tonto. a criada penetrou no gabinete trazendo um candieiro acceso.. — Mamãe também mordeu na rua a mão da menina para tirar o anel. hein mamãe!. Eu vi. A pobre moça desalentada parecia vêr lagrimas no rosto do marido.. aquella mulher contou tudo. mas eu queria era meu papae. Agarrados um ao outro. Papae ficou zangado.

E. como um castigo. das cellulas obscuras e implacáveis d'ella.CHANAAN 3'il desespero de infecundidade. um passado alheio. surgia-lhes. tinham aberto o coração aquella filha de uns immigrantes hespanhóes. agora. uma existência de outros... .

XI

A

•>/

I

Lentz vagava nas desertas margens do Rio Doce;
seu espirito, atormentado pela solidão, retrase comprimido deante da serenidade desesperadora da terra. Sobre elle o céo cavado e longínquo/
desdobrava-se sereno e luminoso, o sol abrasava
um mundo parado e morte;. Ia errante e perdido,
embebidos os olhos no que alli era a única vida,
nas águas vagarosas, desusando como alma expirante. A implacável belleza do silencio o exaltava,
e elle passava amaldiçoando a ímpassibilidade do
universo, que não.yestremecia nem se agitava fecundo aos seus pés sobrehumanos. Na conspiração da calma, da solidão, da luz, do esplendor, do
infinito, o espirito do homem delirava. E nesse delírio a memória apagava-lhe as origens da existência,
o passado não tinha sido ; e tudo, fôrmas deliciosas das coisas, água, que ainda se movia, arvores
silentes e concentradas, céos, sol, montes, nuvens,
l

CHANAAN

343

tudo era a expressão de vidas que se extinguiram, de seres que se agitaram cheios de alma, e
,
preparavam extaticos o leito admiravej para o l'-p~* \
pertar do primeiro homem. E a nova existen- '
cia das novas fôrmas ia começar...
ÍIM
.
se abriam seus olhos sem passado, virgens e pri— ^ ^ T * " ^
mitivos; mas o tédio de se vêr único, errante, desa- •2e^*y*
lentava-o, e immortal, e infinito, mergulhava o espirito no tempo immemorial, e tremia de tristeza.
E assim na região do silencio as ancias da creação
agitaram o homem forte. O principio da vida, o
impeto de repetir-se eternamente erguia-se n'elle,
supplice e imperioso. Lentz quiz que as suas forças
intimas e essenciaes, desaggregando-sej se fracciol
nassem em parcellas imponderáveis e invisíveis,
como partículas de luz, n u m a mysteriosa fecundação do Nada. Anceado, inquieto, doloroso, delirava... e uma illusão perversa descortinava a sua
imagem multiplicada em myriades de corpos formosos e serenos, como a geração de um deus.
Deliciou-se extasiado nos olhos da sua raça> nos
cabellos, nos membros e traços de gloria, em que
cada um resumia a belleza e a força do universo...
E tudo era bello, e tudo era bom, porque tudo era
elle.
Depois, não tardou a chegar-lhe a invencível monotonia de se vêr a si, a si indefinidamente. No desespero, quiz voltar ao increado, extinguir tudo, e
gerar novos seres, que não fossem a sua imagem,

yfr
344

•y
CHANAAN

que não fossem divinos, que gemessem, que morressem e fossem humanos. O creador luctou com o
sett espirito e o espirito, como uma força diabólica,
indestructivel, venceu-o, creando sempre a mesma
expressão, sempre elle só. Elle... E as fôrmas que
sahiam da força solitária e desdenhosa, acompanhavam-no eternas e fataes. Lentz horrorisava-se
de se vêr a si mesmo, n'uma multiplicação infernal. Do alto da montanha, aonde chegara, precipitou-se, fugindo da multidão de phantasmas que o
perseguiam amorosos e escravos e que eram elle,
sempre elle... Approximou-se do rio, voou sobre
este n'um impulso de salvação, n u m desejo extranho de anniquilamento, de allivio... e parou.
Sobre o crystal das águas a sua imagem o espreitava para^seguiráin<ia na morte.
E o delírio se repetia<-sob mil terríveis combinações, nos dias serenos que abrasavam a alma frágil
e desvairada do solitário. E quando, nas noites
socegadas, os tormentos da nova vida sobrehumana não o mortificavam, elle penetrava na solidão infecunda do espirito e errava pelo deserto
ululando, amesquinhado e cobarde. Implorava a
companhia tenebrosa do vento, e o vento se calava
aquella invocação satânica; com os olhos ardentes
e devoradores, buscava, em vão, reanimar as coisas que adormeciam. A lua voltava .para elle a
sua livida face de cadáver
Um movimento de piedade trouxe Milkau á

CHANAAN

colônia. Durante todo aquelle tempo, não esque-,
cera o seu companheiro de destino. E, <djM^tí
n/l)üfoè/uma parada no processo, /wjí ao Rio Doce.
Era ainda madrugada quando entrou no prazo, e
logo no jardim abandonado, invadido pelo matto,
que não perdoa e está sempre attento ao descuido
do homem, Milkau adivinhou tudo. A casa estava
aberta, e derrubado no chão adormecia pesado o
corpo de Lentz.
Permaneceram juntos na colônia até o dia seguinte. O contacto de Milkau alevantava e restabelecia o espirito do infeliz. E agora, n'um incommensuravel pavor da solidão, este se ia deixando governar pelo instincto da ligação universal, e prendia-se
n'úma affeição entranhada e decidida a Milkau,
que o chamava ao Cachoeira, á defesa e ao consolo do soffrimento. Um raio da luz que irrompia
do martyrio de Maria, chegou a Lentz que, obfiecendo ao poder do inconsciente, contra que tanto
luctára, curvou a cabeça e seguiu o amigo.
Na estrada, quando tudo se animava á passagem
d'elles, e ventos, e pássaros, e arvores cantavam
em volta, Lentz, recapitulando a curta historia da
sua desillusão, dizia comsigo :
— Ah! como tenho saudades dos meus sonhos t t
/
de audácia, dos meus desejos e ambições... E tudo
isto que eu e elle ambicionávamos fazer, é nada.
Encontrámos no nosso caminho a Dôr mesquinha
e poderosa, e ella nos guia e nos transforma...
— Toda a maldade n'elle era obra da imagina-

isuf

346

CHANAAN

ção, reflectia Milkau, acompanhando-o com o carinho dos olhos. Mas não é a idéa que governa o
homem, é o sentimento. A nossa força individual
não é nada em comparação á força accumulada na
vida. Que pôde um só contra a corrente imperiosa
e dominadora, formada pelas primeiras lagrimas,
descendo das origens do mundo, avolumando-se,
tudo arrastando, tudo vencendo, até que um dia
seja um perenne preamar de bondade e de doçura ?
Que pôde o homem, insignificante e inútil, erguer
para desviar o curso, o Ímpeto da piedade e da
sympathia ?
Chegando ao Cachoeira, foram logo á cadeia.
Durante a ausência de Milkau, tinha conhecido
Maria uma nova tortura, a que sáe das perseguições da sensualidade. Com a sua brancura, com a
v <>yk^extranheza da sua raça, ella yffi$fflj)w de algum
« j ^ í ^ ^ í e m p o 00$$&
os soldados negras. A princi' //ff/'' pio, o aspecto severo da desgraça os aiastaxa,dá\ fffach* /djV/ndo-a n'um circulo de respeito e de protecção;
[//
imperceptivelmente, porém, a convivência e a fami|
liaridade foram permittindo que n'elles se erguesse
o desenfreiado desejo. Procuraram seduzil-a, communicando-lhe por instincto a lubricidade; mas
l
quando a viram insensível e obstinada nas suas
.
recusas, fugindo ao velho costume da prisão, onde
as mulheres encarceradas eram amantes dos guardas, se enfurecerar/ije empregaram para vencel-a
o medo, a força e a crueldade. Md/uas noites eram
agitadas, escapando ella sempre de ser violada

Ã

CHANAAN

347

pelos soldados assanhados e bêbados. Debatia-se
nas mãos d'elles, e salvava-se, ou pela disputa sensual da posse, que entre os dois pretos se formava,
ou pelo alarido levantado, deante do qual se recolhiam cobardes e espavoridos. E os dias, que lhe
concediam, eram para vingar as luctas da noite,
obrigando-a a trabalhar para elles como uma escrava, dando-lhe pancadas, negando-lhe alimento.
E Milkau, agora,na frouxa luz da prisão, notava,
surprehendido, quão terrível fora a devastação da
miséria no corpo da rapariga. Não se enganava
elle sobre a exacta situação da pobre victima, por
mais que esta lhe sorrisse, mostrando-lhe vislumbres de esperança e traços de resignação, que- ,>ê
rendo com esforço dfjji-tí a historia do seu mar- y/yfj&fa*'"
tyrio escripta indelevelmente nos olhos famintos, " ***
no rosto murcho, nas mãos de esqueleto e no peito
mirrado.
Milkau teve a impetuosa anciã de
arrebatal-a d'alli e carregai-a afoitamente para
longe, muito longe, e pôl-a onde as feras não fossem homens...
Durante o tempo que ahi passaram, Lentz ficou
silencioso. Pela primeira vez se via n u m cárcere,
misturando-se com criminosos e reprobos. A sua
velha alma aristocrática estremecia de repugrtancia, e o espirito de sonhador soberano e forte, que
não se lhe tinha extinguido de vez, extranhava o
iy,
contacto da miséria, revoltava-se por se fffiffftx
jyjtdt/^r^i
da molleza, da piedade, ardendo em remontar ás
alturas do silencio e do império. Mas era tarde : a

348

CHANAAN

garra da compaixão o prendia ao mundo, que elle
também assim fecundava com o seu quinhão de
soffrimento.
Na rua, quando sahiram da cadeia, Milkau
ouviu, como um echo do seu próprio coração, estes
murmúrios:'
— Pobre mulher! Como é triste a vida!
Era o novo Lentz que falava.
Commovidos e angustiados, os dois amigos separaram-se. Emquanto o outro voltava a se recolher ao repugnante albergue do Cachoeira, Milkau
seguia sem propósito, vagando, para as bandas
do Queimado, a região abandonada onde fora a
antiga cultura do logar, e que atravessara no dia
de esperança em que chegou á colônia.
Entrou na velha terra exhausta e morta. Ainda
no chão, que pisava, estavam os marcos deixados
pela geração extincta e vencida... U m dia, tudo o
que fora vida já por alli transitara... E agora, restos
disformes de habitações humanas m sustinham-*^petrificados, dolorosos e nús, e trepadeiras mesquinhas e bravas se- esforçavam^por cobrir-lhes o
pejo de ruinas mutiladas. Nas colunas baixas e
humildes da redondeza, destroços de pedras mirava!^ com suas caladas mascaras de monstros a
grande Terra em frente, as altas e viçosas montanhas, onde se fartava a força dos invasores...
Perdido no largo e desdobrado espaço, o Santa Maria, desembaraçado das pedras que antes o faziam
vibrar alegre e vivaz, passava vagindo mofino e

No silencio dos ventos. e vazio. Cadáveres de arvores derrubadas se desmanchavamrEm pó. uma moita de arvores extinguia-se mansamente. Milkau scismava: < Não.. e elle afastava de mim os 20 . sol moribundo \yj%o meu rosto se estampava-o riso continuo e fatigante. e a minha frivola existência foi a lúgubre ' marcha do inconsciente risonho por um caminho de dores..' tocadas pela morte. se vestiam de purpura e ouro.. no theatro da Agonia.. e estendo-te os braços n'esse doloroso e invencível amor. O sol impaciente ^j^J^fí/^jL-Âãtí ' fc rf fc r a mergulhar nos braços verdejantes e opulentos •íU«f<*-*c' da Terra futura e mostrava ao Passado a outra u face roxa.. a morte ama a vida. a razão da minha energia.../ figuração gloriosa. como si foras um insondavel e voluptuoso abysmo. tu me attráes.. n'uma trans.. e outras de pé. com que o sonho ama o passado. Tudo era languido. ruminando preguiçosas. e descampado.[ saros no céo desmaiado buscavam o pouso da noite. eu não te fujo. N'um canto da planície. e deserto. Antes de •*£ conhecer-^-perfida illusão (me\entorpecif) os <x -7 sentidos. cabras aconchegadas aos filhos ae roçavam nos oitões das ruinas. Aquella hora. Sobre ti me reclino. a força do meu pensamento. fria e morta. Elias vinham de outr'ora e ainda eram a derradeira vida que alli restava.. N'esse momento eu ainda te não buscava. doce Tristeza! Tu és a reveladora do meu ser. Pas' ./ u .CHANAAN 349 lento.

porque nos*aperfeiçôa. e nos explica a nossa fraqueza nativa. O sol resvalara de todo do fundo do horizonte./ / CHANAAN homens. Milkau caminhou ainda illuminado pelos últimos c] arões da luz. E Milkau scismava : « A dôr é boa. n'uma postura de resignação e silencio. Por ti comprehendo a agonia da vida. A aragem «fccalárar/?''Õ débil vagido da cachoeira ia-se perdendo para sempre. por ti.350 fa . porque une os homens.. porque faz despertar em nós uma consciência perdida. porque é a fonte do nosso desenvolvimento. que és o guia do soffrimento humano. para quem a eterna alegria é morte. Tristeza. E como esperaste ! Um dia a alegria. faço da dôr universal . A dôr é fecunda. Tu te sentaste á minha porta. E como desde logo amei a nobreza do teu gesto! O h ! Melancolia! minha alma é a morada tranquilla onde reinas docemente. Entraste. a perenne creadora da poesia. a força da arte. Mas tu. não estavas longe. çe extinguiu} e então soou para mim a a hora da paz e da calma. « Tristeza! tu me fazes ir até ao fundo das remotas raizes do meu espirito. A dôr é religiosa. a dôr é bella. de cançada. N o céo não passavam mais os bandos das aves. E' a liga intensa da solidariedade universal.. por ti.

Não deixes que o meu espirito seja a preza da vã alegria. oh! bemfazeja! aos outros homens.. Que o meu rosto não mais se desfigure pelas visagens do riso cançado e matador..Tristeza salutar! Melancolia..... não me desampares. dá-me a tua serenidade. Curva-te sobre mim. envolve-me com o teu véo protector. .CHANAAN 351 a minha própria dôr..... . a tua séria e nobre figura. Tristeza... Conduze-me..

afastou de si o rosto que se inclinara sobre ella.. A sua mão agora branda e languidatacteava incerta para se certificar da súbita e extranha apparição do amigo. Nas torturas do pesadelo. a claridade da noite. parecia-lhe que beiços^rôxos. sou eu. repetiu Milkau. Milkau tomou-lhe as mãos com império e passou com ella sereno/ forte ao lado da sentinella. No corredor. que entrava 'pela porta da rua... conduzindo-a para a noite e para a liberdade: . recolhendo e enfeixando com energia as suas forças mais intensas. estiradas. — Maria. baixo e com firmeza. sacudindo o morno carinho.. A -prisioneira j ^ ^ f a d a quiz recuar. Maria ergueu-se . Obedecendo. como uma figura tosca e archaica... sedentos eviscosos lhe buscavam os lábios. — Vamos! Levanta-te. e pela mão de Milkau foi seguindo pela casa meio escura. e com as mãos hirtas. E gestos infantis e leves roçavam pela barba de Milkau n u m a inconsciente caricia. aberta como de costume.. disse-lhe elle. deixava vêr o corpo de um Ldf soldado/ negro/ dormindo n'uma postura pesada / b r u t i . Ella abriu os olhos e ficou deslumbrada.XII *4dix0t V»/ i — Maria! A desgraçada estremeceu..

que Milkau ia fallando: / — Fujamos para sempre de tudo o que te persegue. E depois tudo voltava ao socego ameaçador. Iam morosos.m'"?r^ terrompido pelas vozes da perseguição surgindo das casas accordadas. tados pela treva. Mas só lhes chegava o chiar monótono e eterno da cachoeira.. o céo crystallino. Enlaçados. a largueza. que parecia ser a cada instante tMfe^amente in. e os pés. ella vacillou e veiu s« apoiar^nos braços de Milkau. vamos além. Vem. aos outros homens. o ar subtil e frio que lhe penetrava nas carnes somnolentas e tepidas. corre. assustadiça e .. / niodrrW... Dobraram de cautela.... e ladrando scarremessavantem vão contra elles.. n'um desfallecido collapso. e. espiando com os olhos immensos e dila. cães somnolentos despertavam com o passar dos vultos.CHANAAN 353 Fora. como a água sobre a terra. Lr' . por tanto t e m p o ^ r ^ í / / i d o s . . Uma ou outra vez. que a foi arrastando vagarosamente. a immensidade do espaço davam á fugitiva uma deliciosa vertigem. Repousemos depais na perpetua alegria. os passos d'ella eram .. £-// vacillantes. / ^ / ^ ^ ' tropeçavam nas pedras soltas da rua.. Vamos.. as fôrmas f i a d a s e sinistras do Ijaet&v mundo. Subamos aquellas montanhas de esperança. Era no ouvido d'eíla. caminhavam pela cidade calada e adormecida. a scintillação das estreitas. O silencio inquietador enchia-lhe o espirito do antigo pavor que se não extingue nunca. onde a bondade corra espontânea e abundsrhte... em outra parte.

Havia um rumor continuo eafflictivode vento máo nas folhas da grande massa. No vão das trevasiXde espaço a espaço. gigantescos. corcundas ealeijões.. lépidos e ra-^ diantes. sem fôrma ainda imaginada. tepidos e brandos. coberto pelo manto cinzento e vaporoso da bruma. e agora sen1. atravessando o tecto ondeante. so fôra^f 0 dos braços de Maria. L Are/' Iam inquietos. A rigidez fria.. Um trecho do Santa Maria. E debaixo d'esse manto se desenhavam seres phantasticos. galgavam a montanha. onde as collinas baixas semelhavam corpos deitados de heróes antigos e mutilados. receio de despertal-a. sobre que passava a luz exhausta da noite humida. afundando os olhos na infindai^l negrura. nada mais viram .. parado e morto. colossaes. cortava. subiram ainda e entraram no bojo da matta. como um gladio fumegante. em baixo aos seus pés. d'onde vinha o clamor do mysterio e do soffrimento das arvores castigadas.. Os braços de Maria se retesaram de novo e apertaram os de Milkau.. fazendo-as gemer rumot rosamente.. Subindo. Depois. e do jorro de luz^/l _^___f—----se^brmã\'a dentro dáfloresta uma columna ale< *"* / vantada do chão para o céo. perdiam elles de instante a instante a vista do Cachoeira. E o vento implacável ia passando. creada pelo terror..354 CHANAAN Deixaram a cidade. a várzea do Queimado. levantando alli uma phosphorescencia vaga de nebulosa. e docemente illuminada pelos reflexos <ftv/ / . que agora sé prendiam aos de Milkau.. IJ -UXJ&SIJ-J ftmjf frest^ <^r claridade/descjir.

Vem.. e havemos de achal-a. Assim espantava o terror. escalavam a subida. Subiam lentos. Quando vier a luz.. e as ribas mais angustas pareciam se terminar-f confundidas . voando.. mais inclinada sobre elle. aquecendo-lhe o rosto com o seu hálito offegante. fatigada e de pés maltratados. E este se ia estreitando. arrastando-se unidos. encontraremos outros homens.. A estrada tomava sempre pela beira de precipícios cada vez mais difficeis de vencer. Milkau não mais falava. margeando o despenhadeiro. Estreitados um ao outro. e Maria já se animava. puxava com esforço o braço de Milkau. voando. caminhavam velozes. — E' a felicidade que te prometto... Subiram. e aos fugitivos. e es. aspirando o aroma capitoso e perturbador que se desprendia das flores nõcturnas.seus olhos mergulhavam no abysmo e 3» perdiam^fascinados na toalha branca e espumosa do rio. Cautelosos e arquejantes. Maria quasi não caminhava. recolhendo nessa voz acariciadora o canto mágico dos seus esponsaes com a ventura. Era pedregoso. acorrentado no fundo do cavado e fragoso valle. O caminho deixou a matta sombria e sahiu pelas alturas descobertas. Ella é da Terra.. e ahi. Milkau repetia no ouvido da companheira o seu appello de seducção.CHANAAN 355 das arvores espectraes... O passo da fuga moderou.. vem. outro mundo.. E' a felicidade. vinham os urros do Santa Maria. como uma zoada infernal... escasso..

^ ( ^ ^ j £ .^ *W*.. fjH^^fljl n u m assommo de pavor. Milkau ergueu-se.. recobrou urna extranha tW energia e tentou retel-o.. feroz e resoluto. a -\^f/ . Milkau desanimou. arrastando-o para a encosta da montanha.. debatendo-se nas mãos ^A^ fortes do homem..luctando. . doidos. rolaram por terra confundicfòs>batendo-se... De um salto. e o « A. Pregados assim n'efisa postura. enlaçando-se como cornentes a uma arvore. alquebrado. agarrou-a pela cintura. A tentação satânica da morte era mais poderosa.. só.356 CHANAAN no horizonte... Qp calor da mulher/já/utiWolvidado jftorooHDncrvw incendiava-o/ e no combate alie 4L estreitava cor vehemenci^(I com ardor. avançou alegre .. o retinham. sobre rochedos escarpados e negros.. (jè^tbajjaj$è7$£ca£avj$ di rr/ U ' . para a morte. ^^J^y%* \\r^j^**rAaxia resistia com fúria./ corpo frio. mas a força d'elle que a queria levar para a' morte.. O Santa Maria urrava soturno e medonho.. mais nada. e arrebatando a mulher do chão. e com um sorriso diabólico. 4 t t L .. n aquella solidão de pedra.-/ 0 i . os dois desgraçados luctaram longamente. Maria. allucinados. Os braços d'ella. Só. / .. diddjéntíúik para o abysmo. vendo-se perdido n'aquelle recôncavo tenebroso. beijando-a febril^se* e ferozmente: Também ella i » apertavaTcom fúria <& j&b) n-lim accordar violento das suas entranhas... y y morte.e infernal para o abysmo. gaguejou estrangulado: l I Jpy — Não ha mais nada. e logo estacou. Elle olhou-a cornos olhos desvairados.. Percorria-lhe os membros um suor gelado. teve de ceder á d'ella.

.... N'um momento. a vista da planície /vftw**dilatada e bemfazeja.... iam desfilando sinistras e rápidas pela aresta da barranca. Milkau não sabia para onde o impulso os levava : era o desconhecido que os attrahia com a poderosa e magnética força da Illusão. deitoúN(a correr veloz pela vereda de pedra.^ Mas o horizonte na planice sa estendia^pelo seio da noite e n&. sentindo-se em liber. confundia"com os céos.. o abysmo negro e assombroso passava como o tormento de uma vertigem. Eu vejo. anniquilado.///</? dade.CHANAAN 357 que os prendia á vida. „ coniuso. / que aos seus pés medrosos e vivos se tornava ^ macia e segura. ouvia fflyf a voz^ée Milkau. reanimando-se. e agora elles se precipitavam •% numa campina suavemente esclarecida pela noite maravilhosa e límpida. enormes. na obscuridade da treva.. E Milkau fraqueou por fim.. E as duas sombras. — Chanaan! Chanaan!. Chanaan! Chanaan! . e pasmaram a vista nos livres descampados por onde descia a estrada. cahiu n um "rápido marasmo. seguiu-a. e dos seus braços esvaídos dklyyjdfâffl/dr^ü-^ Maria. Atraz .. de si... supplicava elle em <yr~~ t~*r*>.L ^ n^r^> L*^ . Começava a sentir a angustiada sensação de uma corrida no Infinito.L -J ^J^^ã^lfr/Mf^/j.. duivc. '"•'* — Adeante. corriam. Adeante. vibrando como / ^ / ^ i w a modulação de um hymno. A agonia . J^t^fivida. Milkau.... galgaram o alto da montanha. Não pares. os ruidos desesperados e attrahentes do rio morriam atraz.. Corriam. espavorida.

E tudo era silencio.. horas e horas... Cb/anaan! Chanaan! pedia elle no coração.. e mysterio. fatigadps de voar.. corriam. pedindo á noite que lhe revelasse a estrada da Promissão.. os olhos iam illuminando o caminho.. e nada lhe apparecia. e a terra do Amor mergulhada. // n'aquella busca vã e fatigante. inflammando-as.. Animada. sem \0 poder j / / ^ i . sumida na nevoa incommensuravel.. alcança/. os cabellos cresciam-lhe milagrosos como florestas douradas deitando ramagens... acompanhava em amargurado êxtase a sombra que o arrebatava... que seguia amando. adeante. Corriam. Corriam. E o mundo parecia sem fim. que cobriam e beneficiavam o mundo.358 CHANAAN pensamento.. . novo sangue batia-lhe victorioso nas artérias.... n'um soffrimento devôrador. transmudada pelo mysterioso poder do Sonho.. Apenas na sua frente uma visão deliciosa: era a transfiguração de Maria.. Nunca! yd.. E nunca... e temendo dissolver com a sua voz / mortal a dourada fôrma da Illusão.. E Milkau. elle atraz anceado.. a Mulher enchia de novas carnes o seu esqueleto de prisioneira e martyr. jamais lhe a^parecia a terra desejada. / é .. Corriam... Corriam. para/fim do seu martyrio. corriam. E tudo era immutavel na noite. e nada variava..[ mais. corriam. veloz e intangível. ia vendo que tudo era o mesmo. corriam. e Milkau en no hbfmfld jflf° f ° c o d'essa gloriosa luz.. A figura phantastica sempre.

. Cada um de nós. os mesmos olhos pisados.. / q u e ' s e fará a passagem dolorosa do soffrimento.. a somma de todos nós. que tudo era deserto. tocou a Visão que o arrastara.. Chanaan ia revelar-se!. Purifiquemos os nossos corpos. nós que viemos do mal originário. Milkau viu que tudo era vazio.. Ainda não despontou á Vida.indefini/o ponto de transição. a mesma bocca murcha. desdobraremos infinitamente a ¥*k<V v w v c _V ./emní mesmos. Nós nos prolongaremos. Sejamos fieis á doce illusão da Miragem.... é o sentimento da perpetuidade.. Com as suas mãos desesperançadas. o mundo cançava de ser egual. Ao contacto humano ella parou.. não a vejo mais. A nova luzsemmysterio chegou.CHANAAN 359 A noite enganadora recolhia-se. Elle disse : . Emfim.. ^ é-qu& somos a força creadora da utopia.. Não corras.. Paremos aqui e esperemos que ella venha vindo no sangue das gerações redimidas. que os novos homens ainda alli não tinham surgido... — Não te cances em vão. na miseranda realidade. que é a Violência. e Maria volveu outra xez para Milkau a primitiva face moribunda. Milkau festejou n'um frêmito de esperança a deliciosa transição. a mesma figura de martyr. O que seduz na vida. Vendo-a assim. Aquelle que vive o Ideal contráe um empréstimo com a Eterni• dade. que eu te ia mos/ trar e que também anceoso buscava.. A terra da Promissão. Não desesperes. e esclareceu a várzea. H &y inútil. como n'um.

ou si é informe e transitório. que venha do seio< maternal da T e r r a ..AKNIER. passam no curso dos tempos. suavemente. — Typ. « Tudo o que vês.. Eu não sei si tudo o que é vida tem um rythmo eterno. Apr proximemo-nos uns dos outros. Todo o mal está na Força e só o Amor pôde conduzir os homens.para se repetir em outra parte o cyclo da existência. Façamos d'ella o vaso sagrado da nossa ternura. 322. onde depositaremos tudo o que é puro.. e divino. a minha visão se confina em volta de ti.12. todos os sacrifícios. todas as revoltas. morrem passageiramente. I).. todos os martyrios são fôrmas ^errantes da Liberdade. não nos separemos para sempre um do outro nesta attitude de rancor. Eu te supplico. li. a ti e á tua ainda innumeravel geração.... dissolver-nos na estrada dos céos. muito longe.. . e santo. eu te digo. rue cies Saint-Pères. desaggregar-nbs. angustiosas. indestructivel. si isto tem de acabar . todas as agonias. reconciliemo-nos antes de chegar ao instante da Morte. na alma dos descendentes. (... Mas.360 • CHANAAN nossa personalidade. abandonemos os nossos ódios destruidores. iremos viver longe. ou si tivermos de aee despedaçar^ com ella no Universo. esperando a hora da resurreição. Os meus olhos não attingem os limites inabordaveis do Infinito. ou si um dia nos extinguirmos com a ultima onda de calor.1901.. Paris. E essas expressões desesperadas..

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