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LIVREIRO-ED.ITOR
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ARANHA

da Academia

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H. GARNIER
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Rio de Janeiro

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Milkau cavalgava mollemente o cançado cavallo
que alugara para ir do Queimado á cidade do
P o r t o do Cachoeiro, no Espirito-Santo.
Os seus olhos de immigrante pasciam na doce
redondeza do panorama. N'essa região a terra
exprime uma harmonia perfeita no conjunção
das coisas : nem o rio é largo e monstruoso precipitando-se como espantosa torrente, nem a serra ^
se compõe de grandes montanhas, d'essas que enterram a cabeça nas nuvens e fascinam e attráem
como inspiradoras de cultos tenebrosos, convidando á morte como a u m tentador abrigo... O
Santa Maria é um pequeno íilho das alturas,
""TTgeiro~êm seus teasipio^ depois é m b a r ^ á ^ ^ H <
longo trecho por pedras que o encacho
das quaes se livra n ' u m terrível esforçof^tígind'
de dòr, para alcançar afinal a sua vt\o[i\fà(àc s^vy
e alegre. Escapa-se então por entre '(unia flor

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A aragem mansa.v»-maria da noite f c/l seus raios não tinham amda a 'llj \ *£££* potência de alvoroçar as entranhas da terra soce. ^ Z que balançava moroso a cabeça./ ». luminosa e calma. um arrastar languido por entre a tranquillidade da paizagem. ^fei*ando de '' II*' quando em quando as palpebras pesadas/desce^. cavallo tomar o passo indolente e desencontrado . J ' a rédea cahia frouxa sobre o pescoçòjdo animal.//#/*" SLti^^/Asoladora. Tudo era um *i abandono preguiçoso. ''%. o d/***** **CTãiC CHANAAN sem grandeza. as vozesinhas dos pequeninos /* ÍJll-f. Sobre ella não pairava a menor angustia de terror. J gada. .£#»«. Milkau cahia em longa s c í s m a / ^ f y l ^ con. \xntr-'/yJL rompia-se alli o ruído incessante da vida. Elias por sua vez se alteiam gracipsas.'H r ^ ^ ^ m e n t o perturbador que cr^a e destróe.insectos Í\jMf tornavam mais sedativa u Jrjll& a 2j%L. inquebrantavel immobilidade das coisas.. o /wwv^ji sussurro do rio.<lr.. Milkau deixava o . que parece entregarem-se \f* complacentes áquella risonha e humida loucura.^qjiellft-qWnão esteve em repouso absp- é ~ >ew?~ lj*f~ r #~* 'y*U*S4 **/***•. / .. f sol nascente vinha erguendo-se / í j ^ ^ a d o na c a l . o próprio /v. A solidão formada p rio e pelos morros era n'aquelle glorioso momento fc£. '^-Jltm+ *'á***-l . o movi. vestidas quente e infinma.t "t VtXfAj i&^A longas sobre os olhos viscosos. Absorto na contemplação.-v J ptuosa sensação df silencio. Os humildes ruídos da natureza contribuíam parfr-trma volu. insinua-se vivaz no seio de colunas) torneadas e brandas.

4. 5fedag as eternas. E oviajantel sahia da contemplação. O pequeno. y hojejqtMT sereno^. as boas. . esporeava-o e o fazia galopar descompassado e arquejantè. e chamando a * ' si o pequeno : -. vens sempre ao Cachoeira? — Ah!.f * dade. mas / desde muito não chegava ninguém da Victoria. palavra que ficava morta no a r / outras. resmungava com o animal. soltava uma . as santas creações do espiritoV do coração' são/geradas nas forças mysteriosas e fecundas do sile%CTOrrj-.y\i CHA^ÍAN luto. disse o menino como que espantado de ouvir uma voz humana.. Também choveu tanto estes dias !. ff compungia/deante da trefega e ossuda creança -/^P /^* que era essa. ainda ante-hontem vim. muito enfastiado d'aquella viagem e do companheiro. Milkau n'esses momentos attentava no menino e . Umas vezes. elle mesmo se ^espanta do yr *. fíão viyeu em si mesmo ..^ / .. — Então. filho de um alugador de animaes no Queimado.. fluido perturbador que emanaxa^déj seus nervos ~ ff **~ doloridos e máos. rebento fanado de uma raça que se ia extinguindo na dôr surda e inconsciente das espécies que nunca chegam a uma florescência superior. para se o / expandir. a uma plena expansão da individuali..Tt-^/j^ Na frente do immigrante vinha como guia um ' menino.. deixava-se conduzir pelo seu velho cavallo.Venho sempre rf quando ha freguez. surgia I /oi JÍál do fundo dos seus pensamentos. no turbilhão £MI^Í/^ f>$0jl proferiu accèntos que Sk não percebia.

— Teu serviço em casa de teu pae é só acompanhar os passageiros para o Cachoeira ? cwrtintrou M4Ík*t*-fK>. d rio está escasso.. este sorria agradecido. abrindo os lábios descorados.-seu-...r>nt... nhor sim. mas tia Rita diz que agora é tempo de lua e a mãe d'agua não deixa o peixe sahir. como . estávamos já de volta.»~^ — Ah ! nhor não ! — Que fazes então ? — A gente ajuda o pae. A paizagem não variava no desenho. Hoje.croanea^ Frgtil r r í p n n d f l l . apenas o sol começava a incendiar o espaço. l l h f 21 ?$n'r* prr>«»pl-nry.. continuavam a marchar pela estrada a tro. — Ahi no Queimado vocês não têm carne? — Ah! nhor sim. As vezes. a gente bebe mingáo.dejj»»i'tuvi" e alegrava a. mostrando os dentes verdes e ponteagudos.. Só quatro.i CHAXAAX — De que gostas mais : da tua casa ou da cidade ? — Da cidade. quando falta. Cambem foi só cocoróca e um pinguinho. Nós comemos peixe.. mas o subdelegado não consente le a gente / tem que se cançar por nada.. Milkau fitava com bondade o pequeno guia. carne secca na venda do pae.4fttertt^toi4eT-qtte. O melhor é pescar com bombas. de madrugadinha vamos para a pescaria levantar a rede. antes do patrão chegar. mas é para a freguezia. Seu Zé Francisco diz que é porque a água está fria..

e de lá á cidade é o mesmo que para o Queimado. O immigrante compadecido testemunhava n'aquelles nove annos do desgraçado a assombrosa precocidade dos filhos dos miseráveis... r t . WCj \ animado pela conversa. O pae diz que eu volte já. alinhava-se garboso no i j ^ v velho cavallo. n u m a curva da estrada. ^^ -J2 <=<•£-&.T?"~ meza. fincava as pernas de esqueleto e punha f^y^~ o animal n'um trote esperto. <«/r'"**^. V» . antes da lua apparecer.CHANAAN Üj^ 5 afiada serra . — Quanto falta para chegarmos... deitar a rede. porque hoje. Pgttee. o *^^v£. meu filho ? perguntou ainda o viajante. — Mais da metade do caminho. Milkau acompaq~f.. mas o rosto macillento sepsclarecia com a grande doçura de uma longa resignação de raça. — T u voltas logo para casa. O pequeno. após tratar dos animaes... e nós vamos á noite. avançavam pelo caminho afora.menino apontou para adeante e voltando-se disse ao companheiro : (UAJ^- f"T* **£? ^4. ou queres descançar um pouco? Fica até á tarde. O pae disse. hoje é dia de ir com a mãe fazer lenha. — O h ! patrão. ainda não se avista a fazenda da Samambaia. *** .tempo depois. si a água estiver quente..nbai^ujwtinrnVampntP^sga-acteüiiadj&^gos dois asy!lr*^s\m. empunhava as rédeas com firZ.. concertar a rede que a canoa de seu Zé Francisco arrebentou esta madrugada. é noite de peixe. fugitiva ligação da piedade e da miséria.

j ilnb {«iiiiLiims^ne /*•*' entia-se^C^'. A terra morria alli como uma bella mulher ainda moça. roça de mandioca na baixada. os pés de mandioca finos. e parecia que esta./infecunda para o amor. io cafesal jyfyffii o matiz verde-chumbo. abrindo*. como si lhes faltassem raízes — * * « * * * . brilhando aos tons dourados da luz . ao contemplar aquella terra sem forças. o morro na frente tapava a estrada. estirando-se n'um esforço.c Cl IA NA AN — Estamos na Samambaia. delgados. O menino empurrou a cancella ^ com uma das mãos foi /. traducção da força da seiva. o horizonte se ia estreitando. Milkau passou/Jd atraz d'elle uma pancada //* Í5 b . exhausta **" e risonha. uma turva mistura de desfallecimento e de prazer mofino. if~A / fítt/ÜBL coloria-^de um verde claro. /frffl extenuada para a «-»• vida.e WjMwn TTi tarados vent 7 ^~ >>^3Terra 3tecemenie--&~grandp eétFe^çrar-era cheio «f0**~*> i j j n minliii dii~i"TiTT^d M * /c/ 7" . A terra era cany~ cada e a plantação medíocre. / Lá no alto da collina um casarão pardacento ***" * misturava-se k bruma azul acinzentada do longeJ_ / • £ i á medida que Milkau proseguia. oscillavam. Milkau e o seu guia chegaram a uma porteira que fechava a estrada no trecho" em que &Ê* cortava as terras da Samambaia. ia morrer sobre elle.JftfJíUft (4tf Wtíj0&Wfr grito agudo. ora a . com o sorriso gentil no rosto violaceo. Os viajantes margeavam ora o cafesal plantado na encosta das collinas.

da varanda descia uma escada de madeira já com falta de degráos e com os corrimãos arrancados. era grande e / t ^ i ^ M aca/Kapaá^etomffiEK immensa varanda em fi^ãll //bffljZjjr sem j a n e í p j ^ r f p a r a $f$fi se abriam as portasA^-^ . . cf $<$$$£ &fflfjfy bojs agi. / frente á tysfrflç/fáfáffl iyiWtty casa. anuns que trepa. na frente. sob a pelle/i^*'***'dos pobres animaes a rija ossadura. pássaros da morte. Ao lado./ ' va ennegrecido. f i vam xidlAfmJJ costas de esqueletos. com uma côr parda edesegual. uma capella. havia muitos annos fechada.///***** tando com o movimento inquieto das cabeças a /k****""1*! sineta que traziam ao pescoço. O casarão. fyffifajfy{//etaCd*^ um cheiro de lama e estrume. Faziam-lhes *-*>r*'-"y\ companhia aves de máu agouro. á vista agora. mas esta.^rgou 0 a * . ^i^tíjfpÁ^çf^A. esquecidas^^redeas do cavallo e poz-se a mirar */#r^j em volta. jÇ^j^ogo ao penetrar' nas terras da fazenda. apenas cortado pelas picadas que 0jf&va. coberto de matapasto crescido. aqui e alli o bolor sobre as paredes traçava extranhas e disformes visagens. O caminho barrento. descrevia/uma curva que /<* ****'.m da estrada e de /M*v>r outras direcções á casa de vivenda. Da esteada pelo morro acima o terreno era inculto.CHANAAN 7 surda cerrou a estrada. crescia livre a herva com touceiras de matto rasteiro. cheio de sulcos de carro de boi. bufando e catando . pegajoso e humido. Fora branco.** \ insoífridos a herva. piando como /^'T^^f . abraçava o valle e se approximava da barranca do rio.í4y€f/t desbotadas do interior. guardando .

elle representava a figura hu. f ^hysionomia /jji triste. que por ali* l(y passara. ainda assim. talvez bel./vfyí um vulto que che.. branca. .\ mana. com a barba . ZjJs* O cavalio de Milkau continuava a passo/^/guia j£** bocejava indifferente e..j) gava á soleira da/ varanda. erguendo indolente o sombreiro de palha. á^. camisa de chita sem gomma. reconheceu-o e disse' vagarosamente ao companheiro : — Lá está seu coronel Affonso. muito velho./transformada em ignorado e mysterioso relicario de antigas imagens de santos.^8 CMANAAN I no seu silencio a voz da devoção). erguendo uma perna. ^ Toltando-se para a casa. a mesma vida superior envolta na queda í ./attestaj/d^/ na alvura da tez /*â a pureza da geração. jaziam no chão sagrado os túmulos de senhores e de escravos. tirando cortezmente o chapéu .//^)<. / ^ alçava-a sobre a sella n u m gesto de resignaçãoi / . calça de zuarte. de pés nús. O dono da fazenda. o olhar./jt^ lezas ingênuas de uma arte primitivaMjwtâfy/fê l/^" J) jffjfmia. apagado para os aspectos da vida *f como o de um idiota. o homem lá no alto correspondeu. Ê Centro 'da egrejinha. parecia. Milkau cumprimentou. das emoções e sensações^//completo f i//9\ J reduzi//í a uma attitude miserandade autômato. o eífgot/amento das s u a s / * / • faculdades. egualados '<£j pela morte e pelo esquecimento.^ como si elle tivesse consciência de que sobre s i " M recahia o peso do descalabro da raça e da família.^ Ias. velados pelas ' ( divindades enclausuradas.. turvo.

fi paralysaJ a*fulmina^fazendo fti—^ d'ellas o eixo central da morte e augmentando a Âgk^a* sensação desoladora de uma melancolia infinita. E não ha quadro mais doloroso do que a^JÍJé' em que a acção do et***^" ^ m p i x a força da destruição não se limita somente ás tradições e aos inanimados. dh£$espessa^ mi-//&**'facroscopica floresta. / -feJ cahindo de prostração em prostração/perdendo ' / todo o polido de uma civilisação artificial.CHANAAN / das coisas./ ' / bos./ donára agora em sua decadência.«=> viço se ralava a mandioca. rodas dentadas. aban.J7j/\y . . arrastada na ruina geral. onde se preparava a farinha J/Era um velho M • i barracão coberto de telha carcomida e negra. que o homem. no grande desleixo da casa abandonada. | $Áfl aflV uma/installação melhor. tu. bre a qual um limo verde crescia. como uma sobrevivência das antigas ^ > moendas. // restos de machinismos espalhados pelo chão. Milkau notou além T — d'isso. e ao lado a roda onde no tempo do ser. Dentro-da-casaj estava armada a bolandeira. A O vulto do coronel ficava immovel na soleira dd. ' Milkau proseguia pela estrada. Havia também dois % tachos em que se mexia a farinha pelo processo ^ \ rudimentar das pás/ Eram de cobre e destoa|' vam do resto da engenhoca. caldeiras. so. abrangendo ainda com os olhos o quadro d'essa triste fazenda. Quasi á beira do caminho e^ava a casa do for. para se servir Me**' dos apparelhos primitivos que/se harmonisavam f/y**4* com afeição embrutecida do seu espirito. attestando tfft/$ft ///%. mas envolve no descalabro as pessoas.J/^^ur no.

10 CIIANAAN escada. No batente da porta sentava-se uma mulata moça.S* / u / /A. quebrando o caminho á direita. coberto de palha cujas línguas se projectavam desordenadas da cumieira. encostado ao moirão : apenas trajava uma usada calça. Os cabellos não penteados faziam ponta. rira um pardieiro armado em cruz.s coma chifres. apertando o 0^/*$£homem e jtí'fyfè/d human/s. como movido por longo habito porta do rancho um velho cafuso com os olhos nevoados fitava vagamente o espaço. o pjíl tronco estava nú. presidindo com o olhar pasmado ao desmoronar silencioso d'aquelles restos de cultura. circumscrevendo. v.. como em moribundo ' cepo de arvore.. O pequeno guia adeantou-se para a casa. Toda ella era a própria indolência. crescia uma pennugem branca encaracolada. quando. A-ffy postura era de adoradão rudimentar. que n u m a desforra triumphante vinha vindo. de um nunca terminado pasmo deante do esplendor e da gloria do mundo. J" / esperando na lugubre attiiude do inconsciente a I lenta invasão do matto. elles enfrentaram quasi súbitafnente com um rancho de moradores.• d aquella paizagem onde as forças da vida parecia estarem paralysadas e onde tudo tinha a íixidez e a perfeiçâo da immobilidade. a. (%£** 2* Ju ^***-y ^ *pf*&„ mJ^ y*». instinctivamente. que subia até ao queixo 7formavy uma rasteira barba./£ " . /Õ/iOÍs viajantes Continuavam a aç movensjentro . e sob|fe/a pelle resequida de* senhava-se i <fn/<fr^fyjfó de um esqueleto de "9/ ^athleta: sobre o dorso.

no rosto do viajante. que abriu os lábios n'uma rude expressão de riso. respondendo á saudação J fi **^ — Se apeie. Ld'áqui ao Cachoeira é um instantinho. um negrinho vestido apenas de um cordão ao pescoço. A c a W a não se mexeu. insistiu «com Milkau para que se apeasse. O guia não esperou mais. moço.. Apenas o / velho <$k&. abandonando o seu cavalloisegurqu_pelo freio o do viajante. • f/H* fl*"* QLxxtrangcirn npTt"" a mão callosa e áspera do /<£ velho. está-se na cidade. pulou da sella. — E h ! meu sinhô. donde se dependuravam uma figa de páo e um signo de Salomão. apenasj mudando ^ vagarosamente o olhar. em pé.. •*'CHANAAN / rv*H / y 11 camisa suja cahia <p toa sfiiw^^collo descarnado. e.l guiça e desalento. Quero chegar cedo. como si reflectisse um momento e sentisse despertar em si uma anciã de communicabilidade.. ~~~7 .. cheio de pre. Depois o velho. Milkau cumprimentou o grupo. que sem o menor alvoroço o deixava approximar-se. e os peitos de muxiba /pendiam molles sobre o ventre... mostrando as gengivas roxas e desalentadas. Olhe só. A creança se acolheiríTella boquiaberta. — Não. com a baba a escor \ j-er dos beiços tumidos. e j U ^ este ptffiji o~pé em terra l ^ f boceja^ n'uma satisfação de repouso. ao seu lado. vencendo duas curvas do rio.. descançou-o. obrigado. mirava embasbacado os cavalleiros que se achegavam ao tijupá.

dois banquinhos rasteiros. sinhô moço... apenasdivisava ao longe um amontoado de ruínas que interrompia a verdura da matta. E a conversa foi continuando por uma serie de . separava um dos cantos da peça. formando /-' um quarto. defunto meu sinhô.12 Cl I ANA AN Da porta Milkau via claramente o interior da habitação. o â— mobilia^U/ miserável e simples se compunha de <' uma rede cor de urucú armada n u m canto. acompanhando o gesto. — Fui nascido e creado n'essas bandas. como um biombo lixo. onde se viam uma esteira e uma es/ pingarda. tacteando o espaço. I m a pequena divisão de palha. Alli perto do Mangarahy. — Mora aqui ha muito tempo ? perguntou Milkau. estendia a mão para o outro lado do rio : Não vê um casarão lá no fundo? Foi alli que me fiz homem. E. molhos de linha de pescar e alguns pobres instrumentos de lavoura. indicavam a cozinha. um remo. j/jy ) que se misturavam a restos de tições apagados. que Deus haja ! O extrangeiro. No fundo. na qual uma touça de bananeiras se / ( /multiplicava/ //junto a essa porta Medras negras. de outra dobrada em rolo e suspensa n u m gancho. uma esteira estendida no chão de soque. na fazenda do capitão Mattos. A cobertura era alta no centro e pendia em declive tão rápido para os lados que nas extremidades um homem não podia ficar em pé. a porta abria para uma clareira do matto.

E na tosca linguagem balbuciava com a figura em êxtase a sua turva recordação/ _ — Ah! tudo isto. e nos poz todos no olho do mundo. n i Cd dê fazenda ? Defunto meu sinhô morreu.. para essas terras de seu coronel. Tudo debandou.. Eu com minha gente vim para cá. onde tem seu emprego.CHANAAN 13 perguntas de Milkau sobre ávida passada d'aquella região.. as festas simples. Patrão se mudou com a família para Victoria. a comprar de vestir. como todos os humildes e pxi mitivos. véspera de .. Que importava feitor ?. de tomar a iniciativa dos assumptos/I contou por phrases gaguejadas a sua triste vida toda ella. Governo acabou com as fazendas. tudo de parceria. sem lances. sentindo-se incapaz. Comida sempre havia. cafu :as.. por ter occasião de relembrar os tempos de outr'ora. os trabalhos e os castigos. a trabalhar como boi para viver. filho d élle foi vivendo até que governo tirou os escravos. a caçar de comer. meu sinhô moço. onde bem quizeram. quem debulhava milho debulhava. Nunca ninguém morreu de pancada... quem apanhava café apanhava. meus parceiros furaram esse matto grande e cada um levantou casa aqui e acolá. mulatas. Ah! tempo bom de fazenda ! A gente trabalhava junto. mas de quão intensa e profunda agonia! Contou a velha casa cheia de escravos. e quando era sabbado. sem variedade. se acabou. ás quaes o velho respondia gostoso. Tempo hoje anda triste. bandão de gente..um pobre drama sem movimento.

qual nada. terra é de seu coronel. A nevoa que os cobria. governo não faz nada por brasileiro.. Hoje em dia tudo aqui é de extrangeiro.. que está ahi assentada.. o preto velho... cavallo e negro. tornou-se mais densa... amparada na domesticidade da fazenda. Não me tirando a graça de Deus.fffy gestos tardos e incertos. arrendada por dez mil reis por anno.da pesada visão da conquista da terra 'pátria pelos bandos invasores. com as mãos abanando. você aqui ao menos está no que é seu. com a melancolia de um mundo desmoronado. meu amigo. De brasileiro governo tirou tudo. K assim o antigo escravo ia misturando no tempero travoso da saudade a lembrança dos prazeres de hontem. sua terra.. burrada. tambor velho roncava até de madrugada...CHANAAN ÕL^J*^ f' jC^J Jff/Vm*' A * *. . tem sua casa. da sua vida congregada. ah! meu sinhô.. como que sobrecarregada ftítff. a mão estendida fâf. Todos seus patrícios eu vi chegar sem nada. jfy/fó Milkau. com o desespero do isolamento de agora. — Mas. têm cafesal. proseguia no seu monólogo : — Vosmecê vae ficar aqui ? D'aqui a um anno está podre de rico. — Qual terra. é dono de si mesmo. E agora? Todos têm uma casa.. só pune por allemâo . fazenda. ^ ' u m estremecimento. com o olhar perdido no vácuo. u Q> k r' 0 domingo. Rancho é do marido de minha filha. E os seus olhos tristes se obscureceram...

lá no alto. — Adeus. A fazenda. sumia-se no &H*de> .. 0 velho continuava me./ ' mava e docemente ia desfilando aos olhos do ca$ j . Os outros da família ficaram quietos. Milkau /aminhava pela grande luz da manhã. LjJ O rio descia em direcção contraria á marcha. e ess^ ^raço dft/moviméntos oppostos f/ v W d a v á a impressão de que toda a paizagem se áni.CHANAAN ^ f 15 Seguiu-se um oppressivo silencio. O preto abandonou-lhe a mão. d'aquella mal definida resignação dos esmagados. Havia alguma coisa de aleijão n'esse protesto.. Os ventos começavam a // fe^Qf soprar mais espertos e como que agitavam as almas [/ dif. Lá dentro de si mesmo tfatia-se em vão para encontrar a claridade de um sentimento. dava / maior oppressão a tudo. arrancando-as do torpor para a vida. Milkau sentia um estrangulamento. N'um gesto contrafeito despediu-se. a limpidez de uma palavra consoladora. e a incapacidade de uma expressão livre e elevada fazia crescer a angustia.ndando a cabeça e resmungando um choro. > valleiro. como si o peso de toda a responsabilidade da situação d'aquella gente cahisse também sobre elle.dos y viajantes. o immigrante notava o . Milkau recolhia o echo d'aquelle queixume de eterno escravo. apatetados. itíféfti-. até á vista. de uma indolência sinistra. A <ry figura da filha. agora de todo inflammada. Nada achou.-/"/ do' longínquo horizonte. meu velho.

como são os caminhos do homem sobre a terra. relinchava asperamente.transformou em vida. mas arrastado por uma força incessante que nada deixava repousar. outra/vinham appa-/-*^. desconhecidas. de narinas escancaradas. bui^ / fando. recolhiam e reverberavam a luz do sol. 7 as suas águas revoltas. curvava o pescoço e accelerava brioso o passo. A estrada iá se alargando. // * 'o corpo se lhe agitou e estremeceu nessa anciã de quem penetra na terra desejada. au/*/ gmentava. homens. sacidia as crinas. ao contacto dos logares próximos á cidade. como um / espelho vacillante. despedaçando-se como um louco nas lages. gritou-lhe : — Porto do Cachoeira. . infinita:^ e incertas.' recendo. Milkau ^Úi ao longe. . a vontade transmittiam um fluido activo ao lerdo animal. A brisa fresca encanava-se pelas duas ordens fronteiras de collinas parallelas ao rio e trazia ao encontro do / /f viajante um mugido sonoro de cascata. na matta ll^õu^l ainda fumegarite de nevoas. espumantes. fim das suas jornadas.< CUANAAN manso desenrolar do panorama. comoJjarfdespertando. rolando devagar'. como o de fitas mágicas : casas de moradores. tudo ia passando. também se . que.J Milkau. mas o sangue em alvoroço saudou a apparição do povoado. os nervos. ao sopro da viração. respirou sôfrego. Xa frente o guia. estendendo o braço. e agora. l/ ' mordia o freio.1A Í. í5 rolar do f j^jL* Santa Maria batendo sobre pedras amontoadas. \~U '.. uma larga mancha branca.16 ~ ' .

O maior sobrado da cidade. para elles extrangeiras e prohibidas. escancarou para dar passagem á Milkau. quem não sabe?..// v~ ras os viandantes. da raça dos antigos escravos. — Em casa do Sr.GHANAAN 17 Então. e deitando-se á soleira das cidades. Domingo passado levei também um moço para lá. /A/T**' Os viajantes continuavam apressados . Milkau. e adivinhou-os batidos pela invasão dos brancos. mas ainda assim procurando os derradeiros e longínquos raios do calor humano. a cidadesinha tíâ n'aquelle delicioso e rápido ins//r tante/a filha do sol e das águas. jjLeeerrdo na*frente. Mirando-as attentamente. Milkau observou que essas casas eram moradas de gente preta. Entravam agora mais devagar na cidade.' ras casas iam chegando : eram pobres habitações.. dando á marcha fatigada . Cheia de luz. represa #&'"' do fervido rio que se liberta em franjas de prata. Os cavallos arfavam. em plena tíbffà da côr. dominava a povoação apertada entre a montanha e o Santa Maria. Conhece ? — A h ! nhor sim. as primei. de uma pequena elevação que ia galgando.. da claridade //(W^ ~ e da musica feita dos sons da cachoeira. — Onde se apeia.. Roberto Schultz. ^ como soltas na estrada para saudaráíi alviçarei./ toda branca. com a sua casaria . o olhar espraiado na paizagem. patrão ? perguntou solicito o guia. Os viajantes desceram a rampa e foram ter a uma porteira. que o pequeno.

e as mercadorias innumeras davam-lhe uma feição de grandeza e opulencia. era um d'esses typos de armazém de colônia. /mg u a mio o via^ _ v . como si descessem com medo montanhas pedregosas . uma espuma abundante os ensopava. em fazendas. apenas guardavam na retina inconsciente a vaga sensação de uma cidadesinha allemã no meio da selva tropical. despediram-se como bons amigos. Alli se negociava em tudo. como refulgentes chapas de ouro. para chegar até ao balcão. iam tropeçando nas pedras soltas da rua. c. e. em instrumentos de lavoura. em vinhos. abandonados de rédeas. foi desviando os h . o guia pulou lesto do cavallo e ajudou Milkau a se apear. Os olhos de Milkau tinham os estre' ^ l ^ k ^ ^ m e c i m e n t o s das passagens \fly!//fé dos pano' ramas contrários . Chegados a um grande sobrado. não possuíam fixidez nem calma para precisar qualquer observação. jante penetrava na loja.1SS CIIANAVN uma sensação de movimentos irregulares. Ao espirito do immigrante desceu uma confusa e tênue recordação de outros tempos. O armazém de Roberto Schultz era vasto. o menino voltava com os ÍJMJ animaes. em café. e Milkau. *y / ' A loja áqüella hora já estava cheia de gente. e ao sentir a irradiação do sol batendo sobre as cabeças das creanças. Tinha quatro portas de frente. que são uma abreviação de todo o commercio e conservam na profusão e multiplicidade tftJJ das coisas um certo traço de ordem e de harmonia. ao entrever essa população toda branca.

disse por dizer. Aqui V. Talvez melhor ftíffft ir para. ora a ler. — Mas.. interrompendo-se de vez em quando para fitar o recemchegado. afianço-lhe. todos indecisos. nós estamos abarrotados de pessoal. O immigrante entregou-lhe uma carta de apresentação. brancos e tardos allemães. — Então. .. são os grandes centros de commercio.'para longe do Cachoeira. pesados... / — Na minha opiríião. o Rio ou S. dobrou vagaroso a carta e poz-se a tamborilar na secretária.CHANAAN 19 freguezes alli amontoados em pé. vem com a idéa de ficar aqui ? Milkau affirmou essa resolução. sim. quiz interromper Milkau. onde acharia um emprego com facilidade. A colônia é um engano . noutro tempo ganhava-se algum dinheiro. Vae-se aborrecer. Paulo. — Isto aqui é triste e enfadonho. uma calma dominadora.. que perturbava o velho negociante.. Disseram a Roberto que havia um viajante á sua procura. Roberto não o attendia e continuava a arredal-o ^ / com as suas palavras. porém agora os negócios não marcham. Ahi. ora a mirar pensativo e aborrecido. que elle principiou a ler. onde um homem taurino e barbado o recebeu. e immediatamente Milkau foi conduzido ao escriptorio. Roberto começou a aconselhal-o i que não se decidisse antes de ver bem as coisas por si. Dos olhos d'este baixava uma claridade suave. Afinal. o senhor deve voltar hoje mesmo.

..àgora amável. Que vale hoje o commercio com os impostos. dar y// festas. que se vão abrir aos immigrantes. jiorque nós aqui. / :— Mas eu não vim com destino ao commercio. ^ apezar de extrangeiros. nós lhe fornecemos tudo de que precisar. / vá para o matto. ou talvez por isso mesmo.. ora. por ahi já devem vir os chefes da Yictoria. continuou o negoI ciante. o que é uma vantagem para o colono.. vá nos mandando café. E o costume aqui. — Como ? Vem com o plano de ir para o café ?. arranjar é$ eleitores ... a nossa casa está ás suas ordens. quando puder. Não ha nada como a lavoura. arranje a sua colônia e d'aqui a pouco tempo está rico. temos de hospedal-os. — u m "CõTõfTo~n'aqüeíícTTmmigrante tão bem vestido 'úv / para um simples cultivador. O juiz commissario mandou pregar o .áO CHANAAN em minha casa tenho gente demais. Olhe. / — Ah ! isto é outra coisa. E Roberto não oceultou a j n surpresa de ver l ' . somos os que sustentamos os partidos do Estado. acerescentou baixando ligeiramente o olhar. As eleições não tardam. com o cambio.. tudo isto nosvae empobrecendo : o que se ganha é uma miséria para esses extraordinários. e com / as contribuições da política?. que vou despedir: em nenhuma casa de negocio da colônia o senhor se pôde empregar. (rtdMi^VJlMMéAji decisivo o viajante. nós nos pagamos em gêneros. Chegou em boa hora para arranjar um excellente prazo nas novas terras do rio Doce.. e.

chegava montada em sua mula e entre dois alforges suspensos dos ganchos da cangalha. fazendo companhia a um moço chegado ante\ hontem ei também de família importante. Imar'—gmeTlôTho do general barão von Lentz. pedindo a Milkau que o acompanhasse. de viagem para as terras. o agrimensor.. A porta da loja uma velha de nariz adunco. dirigindo-se á escada do sobrado. o sr. jeaara outro reclamou. Os olhos de Milkau deslumbraram-se á luz da manhã alegre e viva. está no Porto do Cachoeira... Ah! esses rapazes. o senhor me pôde ser util^tefi. Este quasi ia arrebatado no meio de agrados e cortezias devidas a um futuro freguez. Depois. Milkau agradeceu os offerecimentos do negociante e j/JÈ dispuntura partir em busca de uma ti*»*** estalagem. êrgueu-se. sorrindo malicioso. É um rapaz alegre. Talvez vergonha de ter immigrado.. Felicíssimo. porém. de rosto de pergaminho franzido. Não sei o que será.. E. . que sempre nos apparece por cá.... como é de uso. Ambos atravessaram para o outro lado do balcão.. temo» muitos commodos para hospedes. — Não vale a pena ir para o hotel. Na rua passava uma tropa de burros carregados de canastras de café e repicando campainhas... anda triste e sorumbatico. o senhor sabe.CHANAAN 21 edital para as medições e arrendamentos. O rapaz. é freguez da casa e é do partido.. Aqui fica melhor . elle.

Mas de par com este súbito enthusiasmo pela expressão esculptural d'aquella joven figura. — Pôde continuar o seu trabalho./projectan»e-6jl de uma cabeça ampla. repetiu-lhe que estivesse como em sua casa e perguntou-lhe pela bagagem. ergueu-se para saudal-os.a conversar sobre coisas vagas..VNAAN Xo quarto em que entraram Roberto e Milkau. que se deseja estabelecer no rio Doce Yoltando-se para Milkau. como um evadido do seu próprio e grande mundo. roliça como a de um patrício romano. O outro explicou-lhe que vinha tudo pela canoa. que estava a escrever. Milkau sentia-se constrangido por ter encontrado n'aquellas paragens extranhas e remotas um filho de general allemão.. — Trago-lhe um companheiro. disse Milkau delicadamente. E emquanto se entretinham. a natureza.£iA)ClvdlhA' •21 >h) c/ í. um ser privilegiado na sua pátria. Milkau admirava a mobilidade da physionomia do joven von Lentz e não se cançava de observar o fulgor de seus olhos fulvos. sobre a viagem. Apenas matava o tempo. annunciou o dono da casa/Este patrício. — Não. E os dois se puzeram. o que eu estava a fazer não é urgente. dominando o rosto sem barba cujas linhas eram accentuadas e fortes.*ul\t f> CII. o tempo. Roberto deixou os novos immigrantes. um moço. devendo chegar á noite. que viera sepultar gi / * .

Milkau lia n'aqueile ajuntamento de allemães o caracter camponez e militar que fundou a obediência e a tenacidade na sua raça e reduziu tudo o que ella podia ter de belleza. continuava quasi em sonho. e re. contemplando o esquadrão de homens lopos. Onde estava a Allemanha sagrada.. simplesmente caia. Quem sabe. o recanto suave do gênio livre ? perguntava a si mesmo Milkau no sussurro regular do almoço. moços de perpetua adolescência J^ffi via-/estampado o pensamento único de cumprir o dever pratico. pensava que talvez somente se pudesse explicar a incogflita d'essa alma pelas imagens e expressões incertas da vaga e symbolica metaphysica. de desespero e de desillusão. / *. á monotonia de um precipitado único.i s . flectindo sobre a alma allemã..-»A sala / era desguarnecida. D'ahi a momentos os dois novos se achavam na grande sala de almoço dos empregados do ar. ao regimento de caixeiros que comiam silenciosos. outros. a pátria do individualismo. velhos de pelle enrugada. automáticos como soldados. Em todas as physionomias d'aquelles homens tão differentes.CHANAAN \ 23 sem duvida no mysterio das colônias uma parcella de angustia./ mazem e tomavamiá mesa ds^eus togares.f das. de elevação moral. de caminhar para a frente no conjuncto harmo^ nico de um só corpo. as paredes. alguns. quem sabe si não foram um dia dois espíritos que se encontraram dispa- . não tinham o menor enfeite. os creados serviam.

as figuras da poesia e do sonho. E quem sabe como foi longo e pertinaz o combate entre as duas forças !. sem ancias. procurando absorver o outro que voava docemente. a devorar os últimos restos do gênio do passado. vagarosamente. em que os olhos negros scintillavam vivos e seccos. No quarto resolveram visitar a cidade. gerando puramente.Mas houve um momento em que o demônio da terra venceu o espirito de belleza e de liberdade. e quando d'ahi a momentos passavam pelo armazém em direcção á rua. continuou Roberto. ambicioso. e pairava sempre no alto. indicava um moço magro. os caixeiros sahiram em ordem. como hospedes despreoccupados. acaba de . cúpido. sem lucfas. baixo e moreno. de homens e deuses. nas regiões plácidas do ideal. Dizendo isto. sem conjuncções torpes. qual uma massa de escravos. Milkau e Lentz iam por ultimo. .. — O sr. CHANAAN ratados em um mesmo corpo. — Está aqui exactamente o sr.. um servil á matéria. divino alimento d'onde brota essa luz que ainda o illumina na sua lugubre c devastadora marcha sobre a terra. uma chata cabeça de bacuráo. a fim de fazer as medições. Felicíssimo. que ^^segue depois de amanhã para o rio Doce. Milkau. cpm o rosto talhado em triângulo cheio de marcas de bexigas. Roberto os chamou. zombando de tudo... e o corpo ahi está hoje socegado.:2i '\. Findo o almoço.

. Dependo/èeqy^l muito do sr.. esperemos. despachaj mas / . Roberto. Ainda não sei afinal o que farei na colônia. no rio Doce. o senhor requer um prazo.. — Como não ? acudiu o agrimensor solicito e com um gesto de quem quer abraçar. e que o senhor me "faria o favor de arranjar-lhe um prazo bem situado... em murmúrio. Sigo amanhã a me encontrar com a turma que está em Santa Thereza. Felicíssimo é k que pôde dizer quanto isto é difficil.. e o juiz commissario.. Eu expliquei-lhe que n'este momento o que ha de melhor é o rio Doce.. depois de amanhã bem cedinho nos pomos em marcha. as casas estão cheias.... Esperemos. Mas o sr.. a occasião é má. — É só para combinar tudo e quando chegar 'á não haver demora.. von Lentz prefere uma collocação na cidade.CHANAAN 25 chegar com o propósito de arrematar um lote de terras.. acampamos no porto do Ingá. O negocio é fácil. no commercio.. que está ígora para os lados do Guandu. como si invocasse o testemunho dos mais : — O sr. e quando fôr lá pelas onze.. Os senhores quando vão? Lentz ficou embaraçado. e meio confuso respondeu : — Para o campo ?. O negociante cocou a cabeça e disse solemne. Felicíssimo perguntou a Milkau o dia da partida.

26

CMANAAN

não precisamos d'elle para fazer a medição. Na
sua ausência estou auctorisado a tudo, até mesmo
a entregar os lotes aos colonos que os vão trabalhando... Entre nós as coisas não são feitas com
luxo... Não temos formalidades...Tudo se arranja
e legalisa depois. O que é preciso é pagar logo as
custas...
Milkau o interrompeu para se informar das distancias.
— D'aqui a Santa Thereza quantas léguas ?
— Cinco. E de lá ao rio Doce outras tantas. O
senhor deve ir d'aqui até o alto de Santa Thereza, ahi dormir e no dia seguinte tocar para o rio
Doce.
—_J$ preciso um guia ?
— Não... Estrada sem errada, e batida...
Roberto se offereceu para mandar acompanhar
o immigrante por tropeiros que iam diariamente
para essas bandas. Milkau agradeceu, dispensando o obséquio.
Deixando Roberto, sahiram os três do armazém.
Felicíssimo, que dizia não ter nada a fazer
n"aquellas horas, propoz acompanhar os extrangeiros, dando assim expansão aos instinctos da
sua nativa e tranquilla vadiagem.
Agora, o Porto do Cachoeira abrasado de sol
desvendava-se todo. A cidade era dividida em
duas partes, que uma ponte ligava, mas podia
dizer-se que só á margem esquerda era crescente,

CHANAAN

27
tava

porque do outro lado as habitações se conttm JIL
salteadas e raras. As casas d'aquella banda flí enfileiravam/monotonas em frente ao rio, e nem um
jardim quebrava a austeridade das moradas, nem
um quintal margeava os caminhos, nem uma
arvore sombreava as ruas. Pela primeira vez, porventura, nos tropicoaros habitantes de uma pequena ^ /
cidade, como essa, não conheciam os prazeres do
convívio dos animaes domésticos, nem tinham a
expansiva preoccupação da cultura das plantas e
das flores. Uma esterilidade rigorosa e systematica estampava-se no perfil das casas, que eram
apenas o abrigo de uma população de negociantes. Na rua, Milkau ia adivinhando a explicação
moral d'aquella localidade, e uma impressão de
angustia emanada da branca aridez da cidade o
turbava, pois parecia-lhe que o bafo dos traficantes tinha matado a poesia, a graça d'aquelle
canto excepcional da natureza, onde elles nfájííam
levantado as tendas da especulação. Felicíssimo
ia pressuroso, contando os milagres da fortuna
commercial d'aquella gente. — Este sobrado aqui,
dizia elle, apontando para uma casa esguia e egual
ás outras da rua, é de Frederico Bacher, chefe do
partido da opposição; é o rival e o inimigo de Roberto. Chegou aqui sem nada; hoje, veja como
está rico! E aqui são todos assim, todos têm muito
dinheiro. Póde-se dizer que o commercio do Cachoeira é mais forte do que o da Victoria... Ainda
não se deu um caso de quebra... Estes allemães

áS

Cl I AN A AN

/

têm olho... Si fossem brasileiros, esta^ a tudo arrebentado.
/
E o agrimensor continuava nesse tom, a fazer
o elogio das virtudes/germânicas para o^negocioi,
* sim», economia, »«# facilidade de assimilação, mtm
L/energia no trabalho, d^rtdo, como contraste a ellas,
o* I as qualidades inferiores dos brasileiros, quejjwíse ^
comprazia em proclamar, no gáudio de se mostrar,
aos companheiros de passeio, justo.e superior, e ao
mesmo tempo com propósito lisonjeiro. Para se
dar ar de importância e intimidade com os mora\i-r
dores, elle", de instante a instante, deixava Milkau e
\J'
Lentz na i^ua e penetrava pelos armazéns a dentro,
para trocar uma palavra com o dono da casa. Algumas vezes, conseguia arrastar do fundo das lojas
até á porta os negociantes, com quem á vista dos
novos tomava liberdades, dando-lhes palmadinhas
nas costas, beliscões na barriga e dizendo-lhes injurias por gracejo, ao que os allemães complacentes
sorriam muito rubicundos, murmurando em tom
de desculpa aos outros:— Esse sr. Felicíssimo...
Isto é um diabo...
Os três iam seguindo.assim, despertando pelos
gestos e pelas vozes altas do agrimensor a attenção
da rua, mirados pelos tropeiros que descarregavam
os animaes e pelos freguezes que procuravam as
lojas. Lentz não tinha o menor interesse em correr
de casa em casa, á maneira fastidiosa e vulgar de
Felicíssimo; e então, para se ver livre d'essa $y(']/- li,*
rjfalA. J tMwf enfadonha defa&d passos de porta em porta, '" ,

CM ANA AN

29

propoz que subissem a um dos morros que cercavam e abafavam ao mesmo tempo a cidade, e
de lá desfructassem a vista da região. Os outros,
concordaram e assim foram, guiados por Felicíssimo. Para galgar a montanha mais accessivel, //Ága/éT
tiveram de yfi.4idx além da ponte, por sobre a cachoeira cujos cavos borbotões os ensurdeciam; e os ,y./i / /
passos dos homens iabce—aTponte~dè madeira,
ff
em cima das águas que se Quebravam em baixo, MJo^f
míflam vibrações sonoras,ipoderasas/como si sobre , ^ ;
ellaCasasse o pesado tropel da cavallaria. Do otitro i» ^ ^ c
lado estava a montanha que se puzeram a subir por
uma vereda pedregosa e de cascalho solto, dando
á marcha um movimento irregular e fatigante.
Felicíssimo ia mais lépido na frente, emquanto
y
os outros, não acostumados ao calor/caminhavam
J>
difficilmente, alagados em suor. A proporção
que subiam, morriam as vozes da cachoeira, vinham ao seu encontro o hálito perfumado das plantas montanhezas e o ar leve para acalmar-lhes os
ardores. A principio, dentro do circuito dos morros,
a perspectiva era estreita. Em cima, porém, elles
dominavam a vasta região accidentada, e os olhos
dos extrangeiros tiveram um delicioso instante de
êxtase. O contorno arredondado das montanhas
cobertas de uma relva basta, rente, fulgurante,
nas suas cores matizadas, o rio por entre os valles,
o ar limpido e secco mantendo estável a atmosphera,
a força da claridade desdobrando pelas colunas
o panorama, a abobada celeste de um immenso azu

pt &7 6£.*t«*-»« Cj-fZ

30

CI1ANAAN

cobrindo docemente a terra, todo esse conjuncto
de luz, de côr, de traços dava á paizagem um aspecto total de grandeza e confiança.
Felicissimo era o interprete da região. Como
perfeito sabedor, dava o nome ás coisas e designava os logares. Milkau estava sereno no alto
da montanha. Descobrira a cabeça de um louro
de nympha, e sobre ella, e na barba revolta,
a 1 luz do sol batia, n'uma fulguração de resplendor. Era um varão forte, com uma pelle rosca
y.
/%'ve branda de mulher, e cujos poderosos olhos,
fát**<y? da côr do infinito, absorviam, recolhiam doce£y; v ~a # mente a visão segura do que ia passando. A mo- .
"*r KJ „ cidade ainda persTstuférn não/abandonalflff"íruis' *-*
^y^
na harmonia das linhas tranquillas do seu rosto
tZy&r.
já repousava a calma da madureza que ia chegando.
Felicissimo apontava em torno e ia designando
os pontos do horizonte; os outros lhe acompanha///aí_S £Uyam o s gestos rápidos e, como <ffl$fyhté', não po2^
diam fixar os nomes bárbaros e extranhos que lhes
feriam os ouvidos, mas se interessavam em guardar e accentuar as impressões que lhes vinham da
região. Para o oriente era a terra do Queimado,
cujo caminho se desenrola longo e sinuoso, ora
n'uma planice descampada e risonha, ora por entre
O^ £ rTvêfde de um mattó rara, até'um pequeno grupo
de casas que formam o porto do Mangarahy á
beira do Santa Maria, alli orgulhoso e folgado, com
águas desembaraçadas dos cachoeiras. Para

CHANAAN

31

o norte, para o sul, para o poente, as montanhas
vão crescendo, amontoando-se como massas de pintura. Alli o Guandu, acolá S ta Thereza, duas regiões sombrias, que os colonos vão arrancando do
silencio mysterioso da solidão. Sobre um valle cheio
de sol um fio d'agua cáe longo e transparente como
um grande véo de noiva. Para o poente, o Santa
Maria margea os cafesaes, as casas de lavoura/e
lucta com as lages negras que porfiam em re- /
tel-o.
^
Milkau n'esse panorama aberto lia a historia
simples d'aquella obscura terra. Porto do Cachoeira
era o limite de dois mundos que se tocavam. Um
traduzia, na paizagem triste e esbatida do nascente,
o passado, onde a marca do cançaço se"gravava ,.,i
-ina/-yffiffi' m i n g u í d ^ l Ahi se viam destroçosjffir'-e*a/
de fazendas, casas'abandonadas, senzalas em ruifl «c"
nas, capellas, tudo com o perfume e a sagração^,*/ &&
da morte. A cachoeira é um marco. E para o Am*€>»"•'
outro lado d'ella o conjuncto do panorama se rasgava mais forte, mais tenebroso. Era uma terra
nova, prompta a abrigar a avalanche que vinha.das
regiões frias do outro hemispherio e lhe descia aos
seios quentes e fartos; e alli havia de germinar
o futuro povo que cobriria um dia todo o solo,
e a cachoeira não dividiria mais dois mundos,
duas historias, duas raças que se combatem, uma
com a sua pérfida lascívia, outra com a jetrà temerosa energia, até se confundirem n'um mesmo
grande e fecundante amor...

:\2

CIIANAAN

Elles desceram da m o n t a n h a ; e entravam pela
cidade, quando os armazéns se fechavam para se
reabrirem depois da hora do jantar. N'esse m o mento, via-se pelas ruas um movimento maior
de «jente que deixava as lojas e se recolhia ás
casas.
— Aqui, perguntou Lentz ao agrimensor, quasi
todos são allemães ?
— Sim, poucos brasileiros. N o commercio,
póde-se dizer, não ha nenhum.
— Então, em que se occupam os brasileiros do
Cachoeira? indagou Milkau.
— Os que temos aqui são os do foro, os juizes,
escrivães, meirinhos. Outros são t a m b é m empregados públicos, collector, agente de correio
J
— E professores ? perguntou Lentz.
— Só um, porque a língua que se ensina por
essas mattas é o allemão, e os professores são
allemães, com excepção do da cidade... Padres também não temos, nem egreja, como devem ter
reparado. T a m b é m não ha necessidade, porque
raros são aqui os catholicos, e para os .protestantes ha três pastores nas capellas do L u x e m b u r g o ,
Jequitibá e Altona... Os catholicos do município
são o povo do Queimado do Mangarahy e outros
pontos, onde está hoje a gente antiga da terra.
Felicissimo continuava a dar noticias do logar;
os outros ouviam-no em silencio, e a conversa se
foi assim espreguiçando até chegarem á porta
da casa de Roberto. 0 agrimensor se despediu,

explicava o mysterio dos quadros sonhados e nunca vistos. este torpor instantâneo.. Lentz sentia-se esbraseado e abalado pela jy. e uma saudade extranha./ "/ mando / expressão serena da arte. por motivos d'elle não per^^°u°^ cebidos. Os dois immigrantes contemplavam em silencio. disse Milkau. \j — Parece que já vi este quadro em algum 4| logar. to.CHANAAN 33 promettendo voltar no dia seguinte para os acompanhar em novas excursões. este ar. calma da tarde immobilisava Ííl4fjttâ. »^V! — E por quanto tempo aqui ficaremos ? disse o \yI ar Vil . na outra margem do./ 41 este conjuncto ff^pfH-. como era o costume alli. os dois novos subiram ao quarto. o repouso e a fixidez das pinturas. emoção ^ffd\ do encontro com o seu recem-che. Os primeiros IQ &L£^ perfumes dos mattos da redondeza desciam para' sy*JL>o es embalsamar o panorama. /-?Sentaram-se os dois junto á janella aberta. Depois do jantar. que. e sombras leves vinham envolvendo o mundo. rio. é segu"4-0|j ramente a primeira vez que conheço. N'essa hora ^^Mnf^M^^t excedisCa si mesma. . /. . a nostalgia de illusões que alli se realisavam agora. .fpr^â1' gado patrício. que /d fif⣠j^/ff^Sl como y p * * * 1 ! o almoço. já tanto o seduzia e tf prendia... Mas não. e/// o\ que se percebe vae passaF d'aqui a pouco. Milkau estava fatigado da viagem e do passeio do dia. scismando. segredando-lhes.. dando-lhes!' /// \j£ a tranquillidade. //§_ incapazes de sahir á rua e de se ji metter ás priJ/\~ meiras horas da noite na fabrica de cerveja. A .

.. Procuro uma vida estável e livre.. e o commercio é torturado pela avidez e éambição. Eu me conservarei na humildade. — Não meço o tempo.34 Cl I AN A AN outro n'um bocejo de desalento//o^folharyáj/fyVi preguiçosamente sobre a paizagem. fora d'esta paz dolorosa. Não me sinto solicitado sinãó por coisas mais simples e approximadas da situação do futuro. e agora espero que este seja o quadro definitivo da minha existência. 0 commercio não me attráe. — Aqui fico. é a paz que procuro exactamente... com suas fôrmas grosseiras. 0 senhor persiste em se dedicar aos negócios ? — Xão sei bem o que faça. penso que o trabalho digno do homem é a lavoura nos paizes novos e férteis como este.. em torno de mim desejarei uma harmonia infinita. respondeu Milkau. porque não sei até quando viverei. — E então por isso que vae para o matto? Não seria melhor ficar aqui no commercio ? — Não.. — Mas nada o agita ? Nada o impellirá para fora d'aqui... Penso que si o commercio pôde ser um * / . seus estímulos baixos. Estou indeciso â irresoluto.. e a industria no velho continente... Sou um immigrado. sua posição intermediária na sociedade. E si aqui está a paz. Além disso. e tenho a alma do repouso. que é uma sepultura para nós?. este será'o meu ultimo movimento na terra.

./ . com espaços longos de sombra.. que as multiplicavam em seu espelho tre. Podemo/re<juerer \frA mesmo prazo.. o seu rosto / não tinha serenidade. é também umW ' caminho baixo e vil. Milkau apiedou-se d'aquelle silencio afflictivo e.come não temos família. Parecia que ^ét^f^aiSMír^^a. ityfatffflffl e/não fosse o J o .. medo do tédio da matta e da morte fla agitação. Qti A cidade estava illuminada frouxamente. n'um *^ f esforço de ave ferida para pairar nas regiões do seu sonho. poderá partir.*. e ^ i n q u i e t a ç ã o . . f$<f>p. eu talvez me abalançasse a ir trabalhar na lavoura. as linhas estavam perturbadas. jyf. e. que me não queixarei de ficar só. <\ mulo. se prolongava a \ fll w? queixa contra o destino e elle se debatia em vão >' /*£f uy dentro dos muros fechados da sua sorte.. E si se arrepender.\ gador que ha em cada homem. mas em outros pontos as luzes da rua e das casas cahiam sobre as águas do rio. dando á physionomia uma expressão de rancor t. // monólogo intimo e doloroso. pois esse é ainda até agora o meu destino.CHANAAN 35 meio de fortuna e de dar vasão ás ancias de jo.. deixando-se levar pelos bons impulsos da sua confiança abundante..-fc. como em uma grande scisma . disse ao uya joven „*> companheiro: ' / — Porque não iremos trabalhar no rio Doce ? 0 senhor talvez se achafW ahi mais feliz e mais j^Á-/ independente. \k {Mfffftl Ferdia-se na noite o seu / ° ^ \ olhar./ff enoVauxiliaremos mutuamente. Lentz. faremos uma sociedade .

que era pouco antes a sua alma.36 / CII AN A AN //> Estas palavra^jgjjgg? brandas e boas.. Esperava que elle reflectisse mais.. Eu lhe agradeço muito. Pelos lábios de Lentz passou um sorriso tão suave como franjas de um lago manso em que rapidamente se transformaram as fúrias de mar revolto. veremos. Milkau regozijou-se. Milkau não quiz insistir e delicadamente desviou o avssumpto. Porque não?. Todavia não // a^eAttfQuiz de um modo Jtfyfefárf e imprevisto decid r a sorte do outro immigrante pela sua. era também a seducção intellectual por esse companheiro de acaso. que por or-gulho procurava domar.. que lhe parecia . — Sim./7oram ditas com muita pureza de coração. Em Lentz o que/predispunha a acceitar a ' companhia de Milkau era a indecisão em que estava de se abandonar á vida rude e mesquinha de caixeiro. antes de se determinar a acom/0 panhal-o...emoção. na perspectiva de ter um fl/j/í /^cortjpanheiro/precisas^/de amparo e conforto no " exiíiò.. E também se alegrava por si mesmo.tão intelligente. Pasfo sou a conversar negligentemente sobre outras in *f*^-— Então. e cujos desígnios revelavam pelo menos uma alma em aspiração. murmurou n'uma. porque sentia os seus instinetos de communicação espraiar-se no convívio d'aquelle rapaz. tem-lhe agradado a terra? esta verdura de primavera ? o esplendor do sol ? a vegetação possante ? .

que. sem passado. logo que cheguei ao paiz. levando o plano de me estabelecer alli. o seu colorido mais distincto. mas eu prefiro os .. seus chorões curvos. João d'el-Rei é uma impressão única.. — Breve se acostumará. E foi uma grande viagem para mim. dirigi-me para cá. que nos priva da liberdade de julgamento. ^cAt^ . estive de passagem em Minas Geraes. S.. ^ $ f — A Europa tem a tradição. Fora d'ella não sei si o Rheno vale o Santa Maria.' mas não édérâ. Sempre este amarello a nos perseguir. —'• Oh ! este sol implacável!.. — Em que logar de..M/ando facilidade. atalhou Milkau.. com suas margens incultas.campos europeus com suas mutações. Eu já venho de longe e cada vez a admiro mais. Lentz parecia querer arrancar de si a obsessão da luz omnipotente. o seu quadro de montanhas. Aqui não ha descanço para uma suave matização da côr. E com um gesto de mão sobre a cabeça... sua água límpida e borbulhante.. e ha de amar esta natureza até á paixão.. 3 ... Antes.CHANAAN 37 — Sim. tudo isto é forte e bello. sem lendas.Minas esteve? — No Oeste. reflecte em mim por seus •próprios merecimentos tanto encanto. — A h ! não é esta a primeira vez que vem ao interior do Brasil ? —r Por este lado é a primeira vez.

e eu a recolhia *.. Lentz embebeu-se nas palavras de Milkau. a musica dos sinos me era desconhecida na força e na sonoridade que tinha naquella manhã. noemtanto.. A cachoeira mugia sempre.apafffrr-f.. e o seu rumor egual e constante passava imperceptível aos ouvidos de Lentz. da noite de verão que é apenas um instantâneo descanço do dia. mas.. — Alli me pareceu ter eu penetrado no passado intacto do Brasil. E sonhava . . do meu ser. os lampeões da rua espaçadamente ponteavam de luz as sombras da noite diaphana. No Cachoeiro era silencio/a luzdas casais 'Tiy. embalado pelas caricías do somno. I quasi em êxtase como si fosse uma antiga e revivida sensação. pois parecia que era entendida por uma alma longínqua que se despertava dentro de mim e tomava posse.. essa musica extranha não me feria.. que começou a contar-lhe a sua visita á velha cidade mineira..38 CHANAAN >J — Como ? interrogou curioso Lentz. O espaço estava cheio de sons. Deixei-me ficar deitado. todo á escuta da narração de Milkau. Como a todo o homem habituado ás grandes cidades modernas. Oh ! Foi uma volta deliciosa aos tempos mortos hoje por toda a parte e que ainda lá prolongam a sua vida. — Logo á primeira madrugada o meu somno de viajante fatigado foi cortado pelo repicar de sinos de muitas egrejas. o que me produziu um doce encantamento.

. tudo falava de religião.. N'esse tempo. as festas religio.. o somno e o esquecimento. i que marcavfi no espaço a vida e a morte. ás noites. ouvindo repicar. castellos feudaes. que elle definia como um santuário. A^»^*y Milkau continuava a falar da velha cidade mineira.. Na quaresma a irrupção religiosa era ainda mais crescente. Tudo alli tinha um aspecto sacer. As casas acompanhavam esse tom severo e desprentencioso e eram mar-f . tristes. mosteiros.. E eu sonhava. . Uma cruz negra envolta nas do/ « . a natureza «/***" despertada pela alegria dos sinos se volatilisava e líbrava^è leve no ar. se deparava de instante em instante com uma egreja.. O espirito da religião alli localisado dava-lhe o caracter e a significação./ sas preoccupando o povo e divertindo-o durante / o anno inteiro. egrejas freqüentadas quasi todas as horas do dia. devotas procurando a solidão dos altares. A edade média se representava no meu sonho : povoados. todos ligados pelas vozes do campanário.. faAa^ por pequenas cruzes negras nas paredes A desbotadas. procurando a calma. Dentro do seu recinto montanhoso. homens e coisas*.CHANAAN 39 o ar leve da montanha fluctuava como si todo _ elle estivesse impregnado de musica. voava para os céos cantando../ _ / erguidas mais pela necessidade da devoção que pelos carinhos da arte. um padre sahia á rua acompanhado da multidão cantando rezas. a cidade fugia da terra ff-&carregada nas harmonias. todas ÇUAS/ singelas. irregular e feio.\ dotal.

fâjfyftdo ^f?00W> peito um grande. (MilkaÍT recordava) costumava desfilar um cortejo de seminaristas em férias e. ajoelhada debaixo-do céo límpido... E si á hora dsfavemariaíum devoto retardatario passando por aquellas montanhas saudava os seminaristas em nome de Christo. illuminada pelos raios da" lua. sobre os quaes iam descrevendo longas e marciaes theorias. esse cordão negro succedia cruzar com o bando infantil e branco das collegiaes dirigidas por irmãs de caridade. oratórios abertos sobre as ruas. subindo e descendo pelos morros.. e quando chegava aos passos. cantava musicas suaves e ingênuas. A multidão.40 //JofZZ y*ÁrV </al /•> l"^ /a4 ' /// CHANAAN bras alvas do sudario. Nas tardes deverão. E lá ia a via sacra percorrendo os passos da cidade. n'um relâmpago se descobriam.. N'uma devoção alegre e radiante. implorava n u m sorriso : misericórdia! Cercada de morros a cidade era guardada ainda por egrejas postadas nas alturas. até se sumirem no horizonte. e era tudo. os rapazes erguiam a cabeça com altivez para o céo. fazendo coro ás orações começadas pelo padre. na mais completa e bella confusão de classes. os dois grupos não se approximavam/^desviavaniyreverentes. fervoroso grito. como de atalaia. o povo seguia rezando pela rua em um murmúrio $/è. ás vezes. acariciada pela brisa fresca das alturas. Pelas encostas das montanhas subiam os devotos em romarias piedosas aos santos padroeiros das capellinhas humildes. meia dúzia de tochas accesas. .

de ouro e de sangue. Â""^^agem_gstá toda /Usignalada éúad.. nellas viveram sonhadores../-£y tjj&s) cicatrizegfdli^erra ferida que assim maltratada e ' hedionda clama ás gerações de hoje contra a devastação do passado.CHANAAN U que a solidão da tarde'no deserto tornava solemnc : Para sempre seja louvado ! A cidade ainda falava a outras tradições do a£Lvelho Brasil. — Dou-me por muito feliz em ter ido a tempo de vêr tudo isto. f/'v /JA. a poesia da liberdade e da grandeza de todo o paiz. purificando-a momentaneamente dos vícios em que se vão dissolvendo as outras. porque não muito longe esse conjuncto de poesia. Rematou Milkau esse quadro com algumas reflexões. reconstruindo no espectaculo d'aquella paragem morta todo o quadro de uma epocha feita de escravidão. e povoadas dos restos de outr'ora. sulcos abertos e profundos indicavam a passagem ' jL do homem terrível que por alli desentranhou o ouro. O homem moderno. vae aca- . não deixará de sentir um frêmito de terror. de tradição nacional.alli que deviam ser zeladas como relíquias das melhores paginas da historia de uma nação. t por ellas passaram martyres... Ha casas . limpo de coração. Sobre o fjxí terreno accidentado. E essa mistura de fé religiosa e patriótica dá um caracter distincto áquella antiga cidade.. e os habitantes do logar ainda sabem ler nas paredes d'essas casas conservadas.

é com dòd que sinto estar prestes o desmoronamento d'ax[uella cidade circumdada ^iá*w4zL de colônias extrangeiras. E por ora nós somos apenas um dissolvente i_ / da raça d.. lenta. E uma nova conquista.12 CHANAAN xJAJfaAA^f/J bar. nos espalharemos sobre ella. A velha cidade mineira da sua narração não me interessa. Na verdade. É preciso que a substituição seja tão pura e tão luminosa que sobre ella não caia a amargura e a maldição das destruições. de substituir por outra civilisação toda a cultura. a cobriremos com os nossos corpos brancos e a engrandeceremos para a eternidade.. — Nas suas palavras mesmas. mas terrível em seus projectos de ambição. os meus olhos se projectam para o futuro. —I Mas isto é a lei da vida e o destino fatal d'esse paiz. pacifica em seus meios.. que a&ijrffáfyá lentamente até um dia vencel-a e transformal-a sem piedade. disse Milkau.estdj£eáz. de energia que em si contem do que os logares mortos de um paiz que se vae extinguir. a religião e as tradições de um povo. nós nos mistu- 7 ^ísXl^f-/ . está escripta a nossa grande responsabilidade. a civilisação d'esta-terra está na immigração i <j de europeus/mas é preciso que cada um de nós traga a vontade de governar e dirigir. E provável que o nosso destino seja transformar de baixo acima este paiz. Nós renovaremos a nação. Nós penetramos na arga-massa / da nação e aVamos amollecendo. tenaz. Falando-lhe com a maior franqueza. Porto do Cachoeira tem mais significação moral hoje pela força de vida.

os velhos sonhos da raça.. ... os longínquos e fundos desejos da personalidade emmudeceram.. os pensamentos não se communicam. todos são extranhos. matamos as suas tradições e espalhamos a confusão.. vindos de toda a parte trazem na alma a sombra de deu. a lingua vae morrer. indivíduos.. o pae não transmittirá mais ao filho a sua imagem. o futuro não entenderá o passado.. Ha uma tragédia na alma do brasileiro. uma civilisação cáe e se transforma no desconhecido. os homens e as mulheres não se amam com as mesmas palavras.. O remodelamento vae sendo demorado. Toda a lei da creação é crear á própria semelhança.CHANAAN 43 ramos a este povo.. Ninguém mais se entende ..... Tudo se desagrega..->.. / ses differentes.. E a tradição se rompeu. quando elle sente que não se desdobrará mais até ao infinito. as línguas estão baralhadas...

disse Lentz. Pouco a pouco elles se recompuzeram... onde. E os dois caminhavam afastando-se do Porto do Cachoeira na direcção de Santa Thereza. E. na câmara rubra das pupillas. . fechando os olhos feridos pela luz grandiosa do dia. que o sol se não apagasse. — Quem me dera. A principio a estrada cortava por cima de pequenos morros descobertos. n'uma paizagem accidentada e limpa. <$> penetrarem na escuridão repentina e fria. d'ahi a momento^ fflkL morria na bocca da matta. A pátria do homem devia limitar-se a um canto da terra onde não houvesse sombra.k II — Não vejo nada claro. sentiram pelos olhos o véo de uma ligeira vertigem. fuzilar relâmpagos de sol. Milkau e Lentz. murmurava então Milkau. sentia dentro das palpebras. e então admiraram. passeavam errantes as sombras das nuvens .

umasL^. arvores que se alteam. com a graça de um adorno e de um Jjh£$l ^ fà$$$. quando outras lhes saem ao encontro. y . Ha seiva Vlfrff P a r a tudo. umas erectas. e mettendo «•«J^4"^. estas de tronco pejado que cinco homens unidos não abarcariam. Toda aquella vasta flora traduz a . l1tny\ traçando um raio de sombra para acampar um iJí.011 AN A AN • 45 A floresta tropical é o esplendor da força na desordem.a cabeça por cima do immenso chão verde e tre^ } " i ' mulo. que a rija e bella progenitora. as -parasitas se enrascam pelos velhos troncos. Arvores de todos os tamanhos e de todas as feições. *y I arvores e supportam com fácil e poderosa galhardia a filha. que é a copa de todas as outras. E tudo se ergue. f^uesquadrão. interrompendo a symetria. que lhe sáe do regaço e mais esplendorosa. ífííé de membros asperrimos. procurando emparelhará^ com as eguaes e desenhar a linha de uma ordem ideal. e tudo se expande sobre a terra. entre ellas se curvam e derream até ao 0/. compondo um conjuncto brutal. ás vezes. ] . Dentro. *" antigüidade e a vida. é uma florasinha miúda. compacta e atrevida. Arvores. Não se sente n'ella sombra de um sacrifício que seria o triumpho e o prêmio da morte. Uma infinita variedade de arbustos cresce ás plantas dos gigantes verdes. \ chão a farta e sombria §oma.^ a rnesmo arvores que são mães de. força para a expansão da maior belleza O * / de cada uma. dentro do bojo de outra mais ampla e opulenta. aquellas tão leves e esguias erguendo-se para espiar o céo. enorme.

. em cada bocca da estrada.° s i l e ncio que mora na floresta é tão . mas a gradação da sombra. De todo o corpo colossal. como portas feitas só de luz. acalma. aZá/que se volatilisa e se diffunde no immenso todo.. triumphal. ****. Pelasfrestas das arvores. e de uma luz zodiacal e 0é?fâffi\... das parasitas. enroscando-se pelos braços gigantescos. JQaesr •me*/ commumca/da negrura do verde ao desmaio do / branco a matização completa.. tal como o aroma das cathedraes. dos insectos. Feito 0* l á^trxj^^ .niosa d'esse perfume. prendendo-se como por tenazes n'uma grande solidariedade orgânica e viva. que é acre e tonteante. das orchideas.b r i a g a e adormece fa fMfft. as portas da matta formam um circulo longínquo azulado. profundo. ora se afasta.. Na volúpia harmoL.46 CHANAAN 'entretecido no alto pela <éfêè$&fâf basta e densa Co**** das arvores e embaixo pela rede /&$$$(# das v'' . e. das flores selvagens. e nessa fòtât illuminação se desenrola ' dentro do matto o scenario pomposo das cores. pela transparência das folhas. E lá. com '&•*«*-Ka claridade que é branda. y fortes e indomáveis raizes. que ora avança. da resina que se derrama vagaJ-O / rosa jíek/longo das-arvores. . emjl/Ú <4. desce uma claridade //{ do<*<discreta. dos troncos verdes e dos troncos carunchosos. todo elle se entrelaça. está a fonte do jfepejW ^ . dos animaes occultos no segredo da selva.(iíC.. das folhas novas e das folhas mortas. dos pássaros. Elias são em si vivas e quentes.r&nita. tão sereno que parece eterno.. se desfyjfrffá um cheiro mysterioso e singular.r £ d a m a t t a ..

E. mirando r/atf/ o alto e Mf^. então o jeiro farfalhar d'ellas corta a doce combinação do yfilenfiou. dos movimentos l^tr f*M+ó rythmicos dos vegetaes. e m si o tédio das coisas eternas. / -«***<* f^jT"" A floresta no Brasil. aquelle que se perde na / <>' adoração é o escravo de uma hypnose : a personar ^Lton-lidade $fó<0$ para se difFundir na alma do Todo. a frente. /i E. Milkau replicou : — A sensação que aqui recebemos é muito differente da que nos deixa..j ^ / ^ vozes baixas. é sombria e trágica. Ella tem ^ ^ . sahindo do seu espanto. afinal... — Extraordinário ! disse Lentz. a paizagem européa. Nós nos dissolvemos na ^ /..tory nuou : <fr — Aqui o espirito é esmagado pela estupenda magestade da natureza. A floresta européa 4~/fér. conti-jf . sentindo no corpo o frioelectrico e instantâneo do pavor. é completo e absoluto na sua perfeita harmonia. cheios da solidão augusta. ha no ar uma deslocação fugaz como um relâmpago. e os viajantes que caminham. çfá$ contemplação.7 / ' CHANAAN *~f~j>~ tZr*»~ 4 7 ^ . transforma-se infique ^ f o r * * — Mas/dfâf espectaculo de uma grandejn brasileira 4 TOnmhrnlifti nWTTÉl interrogou Lentz yV . pelo? nervos de todo o matto perpassa um arrepio. Si por entre as folhas seccas imontoadas no solo se escapa um réptil.é mais diaphana e passageira.. voltam-se inquietos. dos murmúrios...

Lentz exprimiu alto o que ia pensando : — Não é possível haver civilisação neste paiz.. tal espectaculo nos priva WÇy+rla^ da liberdade de ser. porém. Passado algum tempo.. E mudos continuavam a caminhar pela estrada coberta. MILKAU. E1 a civilisação não se fará jamais nas raças inferiores. fazem-se sobre isto jogos de palavras.ki-J .. esta luz.. J£ o/&.K. esta abundância.j: região do assombro. Ninguém.. e afinal nos constrange. os olhos de ambos a se desmancharem de admiração.'/ / rancia. Nós passamos por aqui em êxtase. O homem brasileiro nãò é um factor do progresso : é um hybrido. \ f4-/$1*- Um dos erros dos interpretes da historia está n" Ctejuizc/ aristrocratico com que concebem a idéa Me raça... como o homem vae triumphando. ! t / £/ A terra só por si. Vê..CIIAN \ A N . e ainda assim é o esforço do europeu. 'Zr^—^que succede com esta força. mas que são como esses desenhos de nuvens que alli / ( h^c^^tLA. não comprehendemos o mysterio. é um embaraço immenso. com essa violência. interrompeu Milkau.. tu sabes bem como se tem vencido aqui a natureza. até hoje soube definir a raça e ainda menos como se distínguen^ umaSfiüas outras... essa exube'(. a historia. — Ora. — Mas o que se tem feito é quasi nada. 0^M0á^'é ^ -i a tocarm s a ° ° .

MILKAU. As raças civilisamse pela fusão. Jamais a África.CIIANAAN 4D vemos no alto.. O que eu vejo n'este vasto panorama da historia. no emtanto. depois. indo de grupo a grupo atravez de todas as raças. n'uma fatal apresentação gradual de grandes trechos da terra. O papel dos povos superiores é ds&^ instinetivo impulso de desdobramento da cultura.../J /'' pia farta e alquebrada...//àw ****Vas. que está o repouso conservador. para que me volto ancioso e interrogante.. £ um tempo na historia em que o semita brilhava -tf^s-Jo em Babylonia e no Egypto. é junto ao Sena e ao _~ Tâmisa que a cultura se e^goLrlThoje n'uma volu. Até agora não vejo probabilidade da raça negra attingir á civilisação dos brancos. O tempo da África chegará. é a civilisação deslocando-se sem interrupção. o hindu nas margens sagradas do Ganges/ e elles eram a civilisação /< t o d a ! o resto do mundo dfy a nebulosa de que se '/ jjf~não cogitava. apparições phantasticas do nada..o produeto d'essa o /-/* . E. inVf+tU LENTZ. á sua luz e calor. é no encontro das raças adeantadas comas raças virgens.. Uns se vão i\\uminando. selvagens.. transfundindo de corpo a corpo. o milagre do rejuvenescimento da civilisação../frjírÍÁ0fg outros descem ás tre. qual é a raça privilegiada ^kfijtyf/sò #•*• f~*£ ella fó/d o theatro e o agente da civilisação ? Houve 2 f \ . E.

está na substituição de uma raça hybrida. N'esta grande massa da humanidade ha nações que chegam ao maior adeantamento. O problema social para o progresso de uma yi região/como o Brasil. pela bestialidade e pelo servilismo innato do negro. Não acredito que da fusão com espécies radiÀ//>r*e*'u*' calmente incapazes /$. etefnos escravos em revoltas e quedas. leva mais longe o capital accumulado nas infinitas gerações. é antes de tudo uma questão complexa. todos os minutos roto pelo sensualismo. que interessa o futuro humano. Allemanha. depois definham e morrem. Será sempre uma cultura inferior. como a dos mulatos. A immigração não é simplesmente para o futuro da região do paiz um caso de simples esthetica.50 CHANAAN fusão que. Foi assim que a Gallia se tornou França e a Germania. LENTZ. r s? ^j^-ir A substituição de uma raça não é remédio ao vfêfZy* mal de qualquer civilisação. . outras que apenas . civilisação de mulatos. passada a treva da gestação. Eu tenho para mim > / ^ que o progresso se fará n ^ m a ^ ^ ^ ã o constante / / e indefinida. a civilisação será sempre um mysterioso artificio. por europeus. Emquanto não se eliminar a raça que é o producto de tal fusão.yX^ rv MILKAU.($(£ uma raça sobre que se possa desenvolver a civilisação.

CHANAAN 51 esboçam um principio de cultura para desaparecerem immediatamente.. As vezes. Quando não ha um trabalho á flor das coisas. mas pelo facto de não florescer certa fôrma de Arte.. <ksdnão <M-J pára em sua marcha. formado dos povos. Como ? Então o contacto dos povos da arte com os selvagens determina um precipitado que excede áquelles na capacidade esthetica ? MILKAU. os seus desmaios não são mais que períodos de transformações para epochas fecundas e melhores. Si a verdade estivesse na conclusío contraria. tenebrosa e forte. ha uma elaboração subterrânea. das nações.. E a fatalidade do Universo que se cumpre n'esse todo que é uma parte d'elle. ' e os seus eclipses. pôde diminuir ou augmentar em alguma das suas expressões. luminoso e doce.. é n u m ponto isolado da superfice que se dá a opacidade das trevas. das raças. mas o conjuncto humano. Lentz. e da renas- . segundo varias solicitações do meio e da epocha. caminha progredindo/sempre. e pela fusão um povo ahi se iVrina recapitulando O a civilisação desde o seu porito inicial e preparando-se para levar o progresso mais longe que os povos geradores. o* progresso artístico não deixa de ser maior. então a humanidade teria retrocedido depois do período do grego. LENTZ. A arte..

veid descrevendo uma longa parábola da maior escravidão á maior liberdade. porque até agora a historia não conta epochas tão felizes para a Esculptura e para a Pintura. de toda a liberdade e da própria vida. da fraternidade. no fim será o amor. LENTZ. diminuídas as causas de separação. 11 . que se entrega a uma livre expansão dos seus desejos. Essa civilisação. Mas toda a questão está na comprehensão do progresso moral. é a ligação do homem ao homem. MILKAU. LENTZ. Todo o alvo humano é o augmento da solidariedade. O homem deve ser forte e querer viver. / 3 / Não. O fim de toda a sua vida não é a ligação vulgar e mesquinha entre os . e aquelle que um dia attinge a consciência de sua personalidade. aquelle que na opulencia de uma poesia mágica cria para si um mundo e o gosa. No principio era a força. é uma triste negação de toda a arte. e que/elle próprio i uma floração da força e da bellezá. . que é o sonho da democracia. cada dia ella subjugará o escravo.CIIANAAN cença. a força é eterna e não desapparecerá. Quando a humanidade partiu do silencio das florestas para o tumulto das cidades. Milkau. esse ét homem e senhor. aquelle que faz tremer o solo.

Toda a marcha humana é uma aspiração da liberdade.CHANAAN 53 homens. como calculo sem números ... Mas para ahi chegar. esta é o verdadeiro apoio. tfftfljW cujos nervos não se contraem nap agonia/ o que é sereno $j' e não soffre. as nobres.. a busca e a realisação da liberdade como fun. /u/ / .. que caminho não percorreu o homem!. os sonhos e as visões' do poeta. o que elle busca no mundo é realisar as expressões. mas será instável. Xão. LENTZ. as inspirações da Arte. A liberdade é como a própria vida. o que é soberano. nasce e cresce na dôr. /• ^*»'« d" diiifí mmt de uma sociedade. amor?Viver a vida na egualdade é apodrecer n'um charco.. mesmo n um regimen de escravos e de senhores. o que é omnipotente. Que importar/í a solidariedade e o. o verdadeiro homem é o que se libertou de todo o soffrimento. a harmonia existirá por momentos. o estimulo.<****~ É /> 1 -*" " * tente e indispensável ao conceito social. para conduzir como chefe."7 damento da solidariedade são o fim de toda a existência'. ' o que tem sua integridade completa e fulgurante. 1/} I"^ / MILKAU. e sem a liberdade não ha ordem possível . indomáveis energias... o rebanho.. não pôde haver sociedade sem ordem. Oh! mas essa dôr deita gottas de amargura sobre a victoria. como pastor. é apenas um factor preexis. A ordem não é / / ^ M S £ £ ~ tíjjt um principio moral.

Ha uma crise em tudo. de soffredores. a atmosphera é irrespirável. //?' ^*^*St7 w il sJ 1 IA li I '""^Tzffipfmrfflffl'1 P e n s o 1 u e devemos voltar atraz. porque o amor é um desdobramento doloroso da personalidade. mas sempre tristeza e deses pero. nem escravos. todos se lamentam. apagar até aos últimos traços as manchas d'esta civilisação de humildes. Eu vejo na exaltação das tuas palavras que ha em nós uma tristeza diversa deante do quadro da vida dos homens. No meio de confusas . Elle é a fonte do amor. purificar-nos do seu veneno. como queriam. nem pobres. O que nos une solidariamente na humanidade é o sofTrimento. ninguém está satisfeito por estes tempos. nem cultivados.CHANAAN o que não ama. de satisfação.. de doentes.Omal é universal. nem simples têm o seu quinhão de alegria. nem ricos. o mundo está abalado. e não se pôde substituir a sua consciência fecunda pelo império de uma insensibilidade feroz. MILKAU. o próprio solo é vacillante e tremulo. e nem senhores. E quando n'uma sociedade o indivíduo soffre. da religião e da arte.entristecer— MILKAU. que nos mata depois de rios. essa gotta de agonia é bastante para condemnar todo o fundamento da communhão.. LENTZ.

uma vez perdida. elle ... Uma civilisação de guerreiros persiste no meio do surto da alma pacifica do . E o futuro.. mensa. E para ahi chegares?. como o próprio tempo./tr-^~ geiro do gesto consolador. LENTZ. vagaroso e divino. ella é do tempo e. Mas eu não esperei o seu passo vacillante e tardo : despi a minha roupagem pesada. fá mistura e il repelle f'J/ n u m torvelinho de desespero. uma civilisação superior? MILKAU.. não volta mais. E como dentro em mim ar&flr*^ é doce a salvação! LENTZ. n'este contacto extranho de sentimentos tão vários. A sombra do passado penetra demasiado na morada do homem moderno e enche-lhe a casa de espectros e visões. . Deixaste pátria... póde-se acaso JnMdlar a harmonia soce.# **$%. e á Allemanha nada mais te prende ? .+ homem. sociedade. Deixei o que era vão. que o detêm eé perturbam. vem avançando a medo ' como um ladrão nocturno. e lépido então fui buscar o perfume e os alimentos que. ytffâtfyjlL-dindo aos homens. Tudo se confunde.H gada e doce da vida ? A religião foi-se..CHANAAN 55 aspirações. E á Europa.. família.

Não comprehendo como por um acto de vontade se possa trocar Berlim pelo Cachoeira.^0 Crfíeu culto ao que é humano é activo. LENTZ. dia e noite ligados. Lentz. como fôrma da vida. Vejo-me ao lado de meu pae. mas o pudor da audácia ff- .5(i C MAN A AN MILKAU. como o corpo e a sombra. e eu não preciso/sentar-me sobre as ruinas para amal-o. Mas isto é o incorporeo. Meu pae. e de lá guardo as minhas mais longínquas recordações.. reside na dupla consciência da continuidade e da indefinidade do progresso. um d'esses universitários muito instruídos. Sou de Heidelberg.. indeciso em sua vasta cultura escolar. E' a obra da imaginação e da memória. mas/como a maior parte d'elles. é o invisível.. De que cidade da Allemanha és tu? MILKAU. tinha uma intelliencia subtil e aérea. Elle era um professor de collegio. era a própria doçura. 0 que a Europa nos mostra. Somente o que'ellas têm de grande no P a s sado. é apenas um prolongamento desharmonico das forças de hontem e das solicições do presente. e as imagens que d'elle conservo no fundo da minha pupilla são de um homem feito de sorrisos suaves e inextinguiveis..

E n'esse tempo que edade tinhas ? MILKAU. Ai sfuas ex-///<J* * pressões nunca transpiraram o sarigue de todo o seu amor humano. *W Depois de três annos... /-Jr LENTZ. Ella foi mesquinha de dôr. e por isso todo o seu grande capital de bondade e de amor ficou sepultado no fundo do seu coração. Oh! como elle mesmo creava barreiras ao seu espirito ! Os preconceitos chegavam-lhe ao appello da sua timidezlt í/}àf(é /illjftí > $f acariciava/como si fossem numes protéctores. e o mundo o ignorou. e / /~ d'esse excesso de concentração^^hefveiiAi morte. / ^ que lhe devia ser o amargor da vida. Eu sahia da universidade e entrava no mundo quando meu pae morria. > Mas em tudo isto havia uma infelicidade funda... LENTZ. entre a .CM ANA AN 57 o entorpecia. Minha mãe com lagrimas molhava noite e dia as saudades plantadas no seu coração. e eu amei-a até á sua morte como uma filha tamanhinha e mofina.. d'essa existência. E então?.. MILKAU. Foi o perfume que guardou no « y / ^ i n t e r i o r dd j&üt alma sem transfundil-o além. Elle continha e refreiava a imaginação.

essa paixão de infância foi meio doença. Como estremeço ao lembrar-me de tanta vida. Longos tempos se passaram n'essa enganadora caça. de tanto amor consumido por uma sombra. E não te veiu ao encontro uma voz de mulher ? MILKAU. LENTZ.. Comecei a ouvir os accentos da minha própria voz..58 CHANAAN recordação e a piedade. Quando volto ao meu passado. os meus sonhos de creança tiveram [Q. todos os meus estudos. os meus brincos. Aos dez annos o amor começou em mim.. é ainda esse trecho do caminho da vida que mais me deleita : . bens e males da minha vida eu attribuia só a esta influencia poderosa e mortificadora. Não. como tudo/que nasce prematuro.. parti de Heidelberg com a alma cheia de um grande silencio. mas. LENTZ. E nunca amaste a mulher? MILKAU. $$fi vertiam lagrimas e suavam sangue. O que ha em mim de sentimento religioso se desenvolveu então na adoração d'aquillo que eu buscava. Em vão? Não sei. meio êxtase mystico.. E no emtanto ella fugia de mim .a fôrma dos pequenos e intensos martyrios.

*»*— cas de café e os olrTávarrT~tom os seus olhos de besta. ascendi.. E a grande ventura (quem sabe?) foi que sobre essa montanha de fogo formada em minha alma jamais desceu o sorriso. até que outro amor. Pouco a pouco estes sons perdiam a doçura melancólica e se confundiam com gritos humanos e tropel. como esse perfume que foi a minha purificação da adolescência vem até a mim.. e não me consolei longo tempo. porém. cy^s ^JT de animaes. ^ v^** ao Porto do Cachoeira. pãor me viesse possuir para sempre... as pragas.CHANAAN 59 sinto quanto elle é embalsamado pelo amor que ahi passou. e então eu ascendi. as ordens. procurando o trilho habitual. os gritos.. v a brandura. Milkau e o companheiro ap» encostaram-*]*** a beira da estrada. Aos vinte annos estava tudo acabado. Qs^d^is--aiiTrgrj5~~r»e-*afni«4^i^ Ai <*uma tropa. de uns e . a mula da frente marchava ///aUJ*Ã'lu' enfeitada de fitas de côr. que fffÜi das terras altas em direcção " ." Varrida asshxi-QS-jTiimaes. / E Milkau foi interrompido pelo repique de campainhas que descia pela estrada.. A morte d'ella veiu habitar d minha existência. \|hesy(roçavam)ao corpo as brua. e esse o grande.. o único. redobrando a amplidão das vozes sonoras no silencio da matta. tristes einsondaveis. apoiando-se nas arvores.. que lhe embaraçavam os meneios da cabeça. Os tropeiros em sua maioria eram mais brancos que mulatos. immensos. a caricia que resfria e que funde.

60 CHANAAN outros eram mfos espontaneamente na lingua de' cada um. Questão de amor. Nós somos governados na vida.. já pela cidades traficantes e vis. com excii.. a2^twi alli na sombra e-humidade das arvores não se extingue nunca.pelo imprevisto. já pela solidão das montanhas de neve. como respondendo a uma interrogação escripta nos olhos de Milkau). de poeira levantada e de lama revolvida. que fraca ama o forte.. que pensei ser a creatura sublime. A tropa passou caminho abaixo. bel/" Na verdade. Os dois amigos caminharam algum tempo calados.. arrastando-a eu após mim. minha amada amou no sangue. ou antes questão de consciência.. levando ^ * ^ > X c o m s i g o o seu toiJOfe barulho que quebrava além o somno das coinrw. mas uma anciã de confissão e de abandono os estimulava n'aquelle mundo extranho. Atraz d'e11a ficara um odor acre de café verde. e elles/ladeados de arvores sem fim^ornavam com frenesi. ' LENTZ. ao dialogo1 perpetuo dos themas eternos. ha muito pouco tempo i^t não pov deria imaginar-me aqui n'esta floresta. mas um . já pelos lagos verdes que refrescam as terras. na carne e depois d'isto eu a julgava recompensada e feliz. A historia é muito simples (disse Lentz. E nós fomos assim pelo caminho sumptuoso da minha phantasia.. Amei uma mulher. Minha amada conheceu as vibrações infinitas da yolupia.J tação. que humilde ama o soberbo.

entorpeceu a energia de minha attitude. O pae de minha amada era um velho general companheiro de ar<\ mas do meu.lhe annulla a individualidade e lhe traça ' na physionomia as linhas de uma mascara commum e sem distincção própria.. dos indivíduos da minha classe!. O homem levará ainda /.pedia á minha família uma \\ *" reparação por aquillo que tinha sido o acto da independência da minha extrema sensibilidade. conjuncto de idéas ardegas e acceleradas./se emancipar d'essa tyrannia pode..cH/ fesso (oh! vergonha!) não pude supportar essa ' pressão collectiva dos meus camaradas. foi morto pelo antigo e implacável sentimento. e eí$fes.. nos escrúpulos e temores de minha mãe . o que ha em mim de acquisição intellectual. muito tempo. A minha arrogan. Então fugi. Encontrou apoio nos preconceitos» christãos de meu pae. E o que é peior./ A***" rosa que. j Q ou dtíjl a classe.*»de mim com desdém.. no meu grupo social formou-se em torno de m i m uma atmosphera de reprovação : todos se julgavam limpos de consciência para áe afastar. Milkau.f/v /// cia 9» entibiou-~o'que ha em mim de cobarde. E iri-con. de escravo. ou ffll a raça. deixando os meus estudos de universidade.que me procurava dissolver ao bafo de sua ternura mórbida. a minha .CHANAAN tíl dia «•revoltou<'e a alma da mulher do occidente. Resisti. d se libertar do grupo a //v****/ que pertence. que a longa cobardia dos homens já fez eterna/ n'ella m despertourpara exigir de mim a minha escravidão. ou seja a família.

Viajei longamente até agora. quer dar a mão aos antigos e... civilisação. O que mais me ator- . ou de um dia as transformar em um império branco. mas não vivi o mar. e a vida é a acção. então vaga e sem objectivo.. porque não actuei sobre elle. renovar a civilisação e produzir um mundo que seja o reino da força radiante e da belleza triumphal. com elles e sob o influxo drelles. Berlim me attrahia / julguei a)fy encontrar uma solução á minha existência. era um verdadeiro domínio para o homem novo. era um / fl mundo maior. ^ M J ^ Z / para JqncWc q u / saltando por cima dos secu* ' / los da humildade.. Depois da morte de minha mãe. sociedade. E parti então para a virgindade d'estas selvas. sobre elle sonhei. 0 que (H lU ^ b u s c a v a em troca de tudo o que deixei. Também. como tu. que é o desejo e a razão do meu sangue. MILKAU O que cada um de nós procura-é. a minha família.62 CHANAAN posição. ainda virgem e intemerato do contacto lascivo e deprimente d'essa moral christã.. de bens eternos. a minha fortuna.. 4meu primeiro desejo foi sahir de Heidelberg e buscar a vida em outra parte. em troca de bens maiores. e vivi intensamente o goso do pensamento puro. A minha trajectoria vem de epocha mais remota..tão diverso.. deixei terra natal. O mar foi para mim a primeira grande sensação da liberdade . com o ímpeto def n'cllas'viver/solitario/na exaltação do meu ideal.

Nada havia que me jfrfffl/fáfflg /^oi^h^ay á vida. Vivia naydesillusão. invocando as três imagens dos que amei e cujos retratos povoavam o meu quarto. e eu sempre me prendia ao passado do meu coração. N'esta epocha a minha não conjEojmiaÇão ao mundo era cada vez maior . torturado de um desejo de realidades. o infinito para mim não existia. quando tudo me era indeciso e intangível. meu pae. Mas as minhas scismas eram as mesmas. Â minha existência $fl /Ç^fr* vagar com os companheiros fortuitos. e a consolação '/ não me podia vir do nada. o que •foL&i^ amo hoje não me tinha chegado. a mim. a minha doença moral me parecia irremediável.•>T minhadas pelas ruas.AÍiifado de V qualquer crença religiosa. *f7 a sociedade não me preoccupava.... o que eu amara tinha desapparecido. pelos bosques calados. Minha amada. sem uma idéa moral que .CHANAAN l« mentava.. era a consciência de que começava a f/flg^ viver por viver. . sem saber (/( &r»/ aonde os meus passos iriam findar... sem interesse na \ida. eternas ca. a minha duvida tinha espaços tão illimitados que meu espirito oscillava e se perdia no mundo . e pelos parques da cidade.. Vivia vacillante e fugitivo. eram passeios intermináveis. Custava-me já resistir a tanto. e ellas as minhas saudades.. buscando no exterior a calma para o espirito.. de calma. y^(mey^entiíQcrescer dentro de mim yy*~~~'J mesmo. de sonho que sempre me fugiam : a minha tortura era infinita. n u m a aspiração indefinivel de amor. fiosse m a * apoio. a minha melancolia acabrunhadora. minha mãe.

(Si CHANAAN das idéasedas emoções.. as lentas agonias e os duros sacrifícios alheios erairi o pasto da minha ^piedade. E o suicídio começou a ^ p no meu pensamento.. Mas a comtemplação da miséria moral em torno de mim susteve aquillo. e. Todos os soffrimentos extranhos se infiltravam em minha alma.. minhas vacillações.. E então tive aquella anciã torturante de resolver de qualquer modo. a que em minha insania eu chamava o acto da vontade. e a Dôr pela sua mão forte e santa me conduziu aos outros homens... só tinha inclinação para os que se assemelhavam a mim. $fytyl/#}flp o clarão bemíaze //// 'ov*Í ° ^ a solidariedade ani apontava. isto é. de terminar dj. Reflecti : « si todos soffrem e se resignam.. sem ideal e saturada de sen- A f .... Não se trata de libertar um só dos martyres. é porque a vida é mais desejável do que a morte. procurei realisar a acção pela única fôrma que me parecia positiva na vida. Não me y '' \*cts restava agora para combater o desespero sinão )**" procurar na mesma -vida a razão que me curasse do mal da morte e fosse um desafogo aos meus novos sentimentos. desalentado. Olhei todas as vias que se podiam abrir deante de mim. Comprehendi logo que não podia continuar na posição que tinha de critico litterario em um jornal de Berlim . e não é o suicídio uma salvação que deve ser collectiva. pela morte. Eu soffria. No estado de espirito em que me achava. faltava-me agora o animo de falar de livros inspirados em uma arte vazia. é preciso que os se salvem ».

e sim entre qualquer vida e uma vida. a do político e a do diplomata. Porque ella é forte... MILKAU. Aquellas duas vidas. porque ahi não encontrava 4. peis não era ' mais escolher entre a vida e a morte. para quem não queria definhar na esterilidade e no egoísmo.. Essa uma vida que eu sonhava. Convenci-me ainda mais da falsa situação em que estava.CIIANAAN 155 sualidade.. ir á industria.. Não tinha aonde ir.. A guerra é uma volta ao passado. para quem buscava o que é eterno.• sação e di qu^To meu novo pensamento ainaa L? 2«* rrrais se afastava. fazendo parte do grupo de ignorantes e dogmáticos. a um ideal morto para a cívili. é digna../n'esteem.A ' baraço a minha crise prolongava-se. eram vãs para quem não escutava a voz da commodidade ou da ambição. O mundo deve ser a morada deliciosa do guerreiro. não podia descobrir. cuja credulidade voluntária é alli como em toda a parte a fôrma de sua cumplicidade na perpetuação do mal sobre a terra. Não podia ir ás officinas. Sim. . que eu queria e por toda a parte procurava. E agora para onde ir ? perguntava ^-humilhado.. que envolvidos nos mysterios da imprensa exploram os outros homens. Que profissão «ç será a minha n'este quadro do mundo/A política ? / A diplomacia ? A guerra ? * ' ( LENTZ.. a guerra.

.. / m e u espirito des/ cançava e se apoiava para a existência.„ bebendo-me na poesia infinita da côr. ricos e pobres. nha attenção ao mundo exterior era vaga e ialyj-cevta. Foi pela arte que comecei a amar a natureza. onde a arte busca ainda a sua fonte de mysterio e rejuvenescimento. Não se tratava só de trabalho.. ou agitando-me ao vivo movimento do gesto. Xo momento em que tratei a arte. Os panoramas do céo passaram a interessar-me profundamente.66 CHANAAN ainda a atmosphera para a minha independência e o meu amor. dias inteiros a admirar a limpidez da atmosphera.. / / em que me possui da belleza. no enigma / y. e por entre esses tormentos a minha existência solitaria/ia/se passando na contemplação reconfortante da Arfê. ou em. a minha vista se //^-alongou pelo mundo afora e ÍJL vi o esplendor por n toda a parte.. A Belleza entrava no meu espirito como "*** um doce sustento. Ou mirando a linha triumphal da estatuaria. tratava-se também de uma livre expansão da individualidade. outros / perder o^J S . A minha angustia continuava.. pois até então a mi. ^jo só tinha os olhos voltados para o meu caso pessoal. para as minhas scismas longas e indefinidas. E então puz-me a viajar longos dias pelas antigas paragens. ou aquietando-me á serenidade da attitude repousada eternamente no mármore. e a industria nesta velha civilisação é um desfiladeiro apertado de combate no meio da sociedade que ella divide em senhores e escravos.insondavel da figura h u m a n a .

. e sobre ellas a Morte é uma gloria de ouro. que dos alimentos da terra. Vivia mais das impressões da luz sobre o quadro.^s sado ou dos cuidados do futuro. dade.. leve j******" /"!• como arminho. como a própria liber. inaccessivel. que do mina e que é em si mesmo. pelos ares. Vi o mar. outros a sonhar na immensidade das cúpulas azues límpidas e infinitas que são o espaço.. ffflff °í//^ outro mar. o mar tenebroso que apavora. onde se desenrola a vida. nos lagos e nos campos. n'um êxtase de louco. immensas. e esse olvido e^.y^—. No outomno o sol abrasa as arvores amarellas. Ú rfieu f->~y*r deslumbramento pela natureza afastava-me de tudo' o que não fosse contemplação. No /y*6*'r tempo d'essa única preoccupaçao reinava em meu C£ /^/j espirito um esquecimento das desgraças do pas. o pequeno mar do sul da Europa unctuoso e doce...CHANAAN 67 os olhos no crystallino do ar. que estreita a terra cheia de anfractuosidades.. a extrahir das coisas a summa da belleza. mar amigo. tentador e indomável. Carregando por toda aparte a minha admiração. e desce sobre a terra uma neve abundante. como uma paizagem phantastica e morta.^.. vadia.. Assim vivi longo ^ T ^ Í(U\ <2~i~& . mar que não espanta.^ yj-^me parecia a felicidade pela hypnose com que r/u4/U<^^'JJt adormecia a minha consciência.. .. as quaes são abrigos para os homens. farfalhante como areia. succedia-me passar longos tempos solitário nas florestas. No inverno os esqueletos das arvores cobrem-se de branco. que é um traço de união entre as gentes. e de outras praias brancas.

Concentrado n u m logarejo encravado no coração dos Alpes da Baviera. d minha cobardia me atormentava infinitamente. Hoje. j/J-iÁC Hf no estudo e na scisma.. tal foi a nova via por que caminhei. Viajava dentro do meu êxtase...CS CIIANAAN tempo. Depois dos primeiros moI Qj rnentos de prazer e tranquillidade. Ao estado de desvario artístico succedia em mim um desejo de mortificação e soffrimento. evaporar a minha animalidade e dissolvel-a na combustão de um sentimento activo e fecundo... E a consolaçãoynão te vei u ? MILKAU. a vida solitária dos monges.. O meu isolamento era apenas intellectual. Resuscitar. effão engolphado no meu culto. havia outra existência. forte.. Lentz. y A pririncipio íí/(jrie/íi íludi \pensando que não C—-. que atravessava 'extranho e silencioso o mundo. //' LENTZ. e a solidão passou a ser um estado afflictivo. ' mas os velhos monges tinham como sustento o / consolo da adoração. tão nobre. uma fôrma de desdém do < ' ^ 4 f e ^ m u n d o ' u m a e x P r e s s a o mesquinha de quem fyfyà doHseu logar na vida. f . em pleno domínio do sensualismo.. que era como um carro de ouro levado pelos cavallos ardegos da imaginação e transportado pelos caminhos deslumbrantes das regiões plácidas emysteriosas da belleza immortal..

.' sorria. O que eu amava.parte. O ascetismo é como uma ilha solitária que arde no meio do -.CHANAAN r. affir W*ti "e^lencià^üde minha vida se espalhasse por toda a X4**^**** 0**r.. penso que é um sacrifício.. de consolo e de immolação! Quando cheguei Jb^ahaxxo era outrjxjiornem. mas ' ' ^ as Mtí labaredas afastam d'ella os homens. Nunca mais tornarei á . penetrasse nas mínimas moléculas. uma manhã desci das alturas. **.... Qne/^mparavl) e um bem'estar infinito <*•-/ t&> nunca mais me deixou.9 quando penso no isolamento a que um homem se consagra. nem sobre 9$/ffifâ$ de gelos tf 0* j . era fazer ' ****£* amar. mas também que é uma manifestação de estéril orgulho. penso sempre no deleite d'esse refugio. .. Adeus. ///*^' E eu não podia me consumir n'essas chammas. luz rosea do sol.. e sobre *** ^"êlla os fragmentos da vida passando carregados ao ttJ*f A0VX0 do v ento gelado. JrjfTpomo si fosse um fundo de mar setco. gerar o amor. dissol^írf-rfver-me no espaço universal e deixar qne/y^Btd. Vj^iEYdas brancas e frias pedras verei mais descançar a /yr>* <££*•. marJlhk seus fogos deslumbrantes têm um phan. ^ / i / J g e l e i r a fumegante.r das montanhas glaciaes. Aqui nos meus olhos ainda tenho guardado até hoje o ultimo espectaculo . Então. montanhas de si/ Lui^flencio. como * / L Í i | n a forca de bondade. ligar-me aos espíritos. Paizagem solitária e morta. pois já trazia dentro de mim a porção de humanidade que me conduzia á vida. O amor dentro de mim ^ í ..// L tastico poder de illuminação sobre o mundo.

70 CHANAAN LENTZ. e eu verei o teu semblante um dia sem luz. a tua figura de homem vae se apagando. começaste a minguar. No principio era o cháos. á meu pen( samento se esclareceu. massas informes se apresentavam como manchas de nebulosas cobrindo a terra . Ia terminar o drama intimo do meu espirito e concluir-se a passagem dolorosa de um estado de / . . sem vida. pois crear homens é a sua obra.. sem força. O principio do amor me sustenta e protege. Todo o goso humano tem o sabor do sangue. mirrado pasto da t r i s teza. Um dia será a . MILKAU. Não. Tu eras grande quando a tua sombra sinistra de solitário passeava nos Alpes e amedrontava os ursos. emquanto os outros ainda jazem informes na matéria geradora. Eu sou d'aquelles que foram por elle consolados. e as personalidades surgiram. tudo representa a victoria e a expansão do guerreiro.. moral hereditária para uma consciência pessoal. não ! A vida é a lucta. o amor os reclamará á vida. ' pouco a pouco/d'esta confusão cósmica os homens se destacararr/. Jjf~ Reflectindo sobre a condição humana. é o crime. Mas quando o amor penetrou em ti. quando vi a marcha da humanidade partindo da escravidão inicial... Mas um dia chegará também para estes a hora da creação.

. O ipê. Vê como tudo te desmente. de expansão carnal. Para chegar aquelle esplendor de côr.. quanto não matou o bello ipê. a sua historia é a derrota de muitas espécies.' LENTZ. é como uma umbella dourada no meio da nave verde da floresta. a belleza de cada uma é o preço da morte de muitas coisas que desde o primeiro contacto da semente poderosa foram destruídas.. Para viver a vida é preciso / +* J / ' . olhando a floresta.. o sol queima-lhe as folhas e elle é o espelho do sol. O proceíso é o mesmo por toda a parte . Como é magnífica aquella arvore amarella! MILKAU. LENTZ. é o fructodalucta. Cem combates travou cada arvore d'estas para chegar á sua esplendida florescência.. A belleza é assassinaie por isso os homens a adoram mais. a victoriado forte.CHANAAN 71 subordinação de tudo a todos para maior liberdade de cada um. o sagrado páo d'arco dos gentios d'esta terra. E' a parábola que descreve a vida. e o caminho da civilisação é também pelo sangue e pelo crime. da grande escravidão para a maior individualidade. de luz.. O ipê é uma gloria de luz. Esta matta que atravessamos...

emfim. o senhor arrasta o escravo. E<tudo concorre para tudo. itffifô-fttfjf. a vida dos homens ftâftjp.) Na verdade. Aquelles que cruzam as armas. A natureza inteira. de liga eterna. é preciso nâo/contrariail. (E apontando para a vegetação no alto de ama rocJia. a lei monarchica. O mundo é uma expressão da harmonia e do amor universal. pássaro. o homem a mulher. Os grandes seres absorvem os pequenos. Um dia. uma reciproca e incessante permuta. planta. (euvejo' tudo como um só. Sol.CHANAAN ' ir até ao ultimo gráo de energia. cooperação jla vida sobre o planeta. terra. j sobre 01 não fructifi^cavam as sementes di arvores e aj(grandes plantas trazidas pelos pássaros e pelos ventos. trouxeram elles sementes de algas e vegetaes primitivosyM^fJ^J^^jé» mineral da terra •Muito tempo passado. homem. que Ití& trama e o principio vital do mundo orgânico. MILKAU. de coisas e homens. E' a lei do mundo. olhando a 77iatta.n'um systema de compensação. astro. sustentado em suas Ínfimas moléculas por uma cohesão de forças. quando . as múltiplas e infinitas fôrmas da matéria no cosmos. o mais forte attráe o mais fraco. o conjuncto de seres. são os mortos. Tudo é subordinação e governo.a terra é como a d'aquellas plantas fdfàfklk pedra. néra. immenso todo. O cume da montanha era uma lage estéril. peixe. insecto.

no corpo de suas filhas. A vida humana deve ser também assim. protegendo os prünitivos moradores da pedra/que então ousaram crescer. no alto da montanha núa.. entrelaçando-se nos troncos das arvores. porque — é sobre ella que se fundará o futuro. Os seres são desèguaes.. Do muito amor. emeôr. Deante da obra da civilisação o papel de cada um é egual ao do outro : a acção dos grandes e dos pequenos se confunde no resultado. Que os nossos mais entranhados instinctos da animalidade se *) / / -. O mal está na força. já encontraram a terra formada pelas algas e sobre . em aromas. a toda posse. a todo o governo. é necessário renunciar a toda a auctoridade. da solidariedade infinita e intima. A obra do passado é ainda veneravel. surgiu aquillo que nós admiramos: um jardim tropical expandindo-se em luz. mas. Não amaldiçoemos a civilisação que nos veiu no sangue antigo.ella medraram. E preciso não perturbara harmonia dos movimentos e da espontaneidade de todos os seres. mas façamos que este sangue seja cada dia mais amoroso e menos carniceiro.CHANAAN 73 aqftellas sementes primeiro rejeitadas foram de novo para alli carregadas. A historia testemunha que a cultura não é JJ^ksomente a obra do crime e do sangue. cada um tem de contribuir côm uma porção de amor. KAnvà*/\ . a toda a violência. para chegarmos á unidade. f/jffi0/ 7*' coacção moral concorrem as alavancas da sympaCf*^thia. espalhando pelo chão a sombra. que elle engrinalda como uma coroa de triumpho.

. que rubro rolava. da dedicação e do amor. Os dois homens fitavam o sol.. Os dois homens fitavam a Morte. 4Ç y£v*fe •jr-^~r j^ji^' Era finda a viagem. que se vinha apoderando docemente das coisas.74 CHANAAN transformem no vôo luminoso da piedade. para debaixo das montanhas. ...

/ L > i ternura. caradas neto uniforme era o de um pombal O seu < na altura silenciosa da montanha. um parque ra rde assinalado de arvores salteadas. mo'itrnvfin/-se pelas portas abertas e cheias brancas . onde dormira/contemriaj^do a ^ vida plaxjdo a vn que se despertava em ^èrítz^ sahindo por sua vez do qíiarfo. .///*''(f~i '-as. As p^j^éi/a^ c a ^ . todas . Milkau alegrou-se vendo o seu companheiro de destino e <oJ(saudoi7|om um sorriso de K . á-~y quándoYLer t o m uma e x p r e s s ã o / ^ ^ ^ « ^ W ^ W jovial. Em suspe círcurfiscrevendo a povoação.s/r ' / VY ./ . como olhosyque^á^^íkssem. e por onde tóife^r^ <<«^U*4--»^-AíV»*t. /r de luz . Pouco depois. levemente expiado pela frescura e subtileza do ar." / porta da pequena estaSanta' Thereza. .//] <£&l * eguaes. A enfileiravám-'em ordem. Assim escan.r. iam juntos pela pequena povoação dddyd£&àa accovdada e radiante na sua ingênua simplicidade.

outras. grito do vapor e apenas. humilde humi e doce. Um alfaiate passava a ferro um panno grosso. um pequeno engenho para mover os grandes^folles de uma forja de ferreiro. Era um pequeno núcleo industrial da colônia. ^^lOT^^vP' " O S d e a 8 u a corrente. um velho sapa//•^ teiro de longa barba. Na sua officina.• 'y<-$y76 / ' -. ^ aquella pouca gente se entretinha nos seus humildes officios. I—J . j/or toda a pary o nual. notando J//o+*i«**3*£ musica ifápfi e alegre fffári/$t/j$f$p vários ////AJO4 ruídos do trabalho. como única machiníí. e di mãos muito brancas e esguias batia sola. Zllefr yiam todo o povo trabalhando ás portas e rio interior das casas com tranquillidade. em harmônicos movimentos peneiravam o milho para o fubá.. Os dois immigrantes sentiam-se transformados por uma paz intima. swn o pequeno trabalho manual. que a água de uma represa bsi. faz'a rodar com estrepito^^noro. por uma consoladora esperança. Emquanto por toda aÀaxXeJ^J na matta espessa/outros se batiam com a terra. Lentz achou-o veneravel como um santo. todo elle se entretecia sem violenciar^e mesmo o malhar do ferro não • W y W . mulheres fiavam nos seus quartos.j I K T CHANAAN V. E todo esse / ruído era vivo e abgnetJado. Milkau e Lentz percorriam o logarejo. . outras amassavam o trigo e preparavam o pão . deante do quadro que lhes mostrava a população. que eram a alma da paizagem. cantarolando . e/todas as artes alli JHB&SMMBÍ na singeleza do seu espontâneo e feliz inicio.

é o homem que ainda não venceu grande parte das forças da natureza e está ao lado d'ella n'uma postura humilde e servil. disse elle. que conservam toda a frescura da éid vyy alma. estes pobres que trabalham mediocremente com /**tf próprias mãos. mas como l//4&r®** enxergasse no louvor de Lentz o/espirito negativo LtAooC^ fftffli. em que o mestre da banda de musica de Santa Thereza dava a lição matinal aos seus discípulos. Ao espirito desmedido e repentista de Lentz esse inesperado -encontro com o Passado parecia a revelação de um mysterio. orgulhoso de ser homem n'aquelle alto de montanha. (mf&» Havia uma felicidade n'aquelle co^MÀdli de vida primitiva. Milkau também admirava. é um bello quadro esse que vemos. que se não embrutecem no barulho das machinas.. que se bastam a si mesmos. balho tinha o seu scenario jjif. onde o tra..(O*™**' timos a um começo de civilisação. ^^fj estes homens que se não mancham nos fumos do '/ carvão. são os creadores eTeL*?//* simples' natura(es.<f$!fô. ./e a creação é n'ellesuma feliz / // satisfação do inconsciente. observou : //?/* — Realmente. e o espectaculo de um trabalho livre e individual nos emb/ílft de prazer.CIIANAAN t'. 77 4 destoava do metallico clangor de uma Clarineta. n'aquelle rápido retrocesso aos começos do mundo. Mas no fundo assis. interrompendo o silencio em que iam. que fazem can' tando l&{ p ã o / iand vestes. — Isto é uma gloria.

famintos e pavorosos. para o qual nos votamos J/irtY atemorisados. dirigindo o machinismo engrandecido quasi á altura de um operário. — ^ u ^ f v ^ Zfifyfrfj repetia Lentz. merecem ma\sj£ meu amor que essa infinidade de proletários. Nós não podemos fazer que a . /gral da industria. inabalável. A poesia quetâMfjfâfâ è o perfume 0** mysterioso do passado.^ « w . são bons ' e ingênuos e supportam o seu jugo com um sorriso. massa da civilisação retroceda a esse antigo período */// Jk> da industria. ^ ^ . ///fâ&iWfii fflfjbfi de todo o peccado de orgulho.M^ -^Mrí*m.^ ^ s e libertou. Ao menos estes aqui. hojèyque tfrjtfyfâ/tffa a transfor-/^ / mou em um instrumemo de movimentos próprios. tenho como sagrada toda essa gente. procu. rando governar o mundo. especialisando e eliminando os homens. Dirigiram os passos para os caminhos que . se vae afund/ndo n'um embruteci/ • mento peior que o do selvagem? replicou Lentz.Qhea^iroipa percepção inte. readquiriu a sua intelligencia. mas ha também uma poesia mais forte e mais seductora na vida industrial de hoje. sentindo uma entranhada difficuldade em abandonar aquelle logar. Sim.. e*^) emquanto passeiava ao lado de Milkau. — Para mim ha uma illusão n'esse sentimento romântico. e é preciso consideral-a pelo seu prisma luminoso como uma aurora. cheios de ambições. servo da machina.. a machina. . Passaram ainda algum tempo.78 CHANAAN — Mas quem pôde negar que o homem. _W.

a sLd. Era um trecho de / uma região poderosa e opulenta da terra brasi. da sua forte e fulva cabel. ar. agradados do seu rdsto delicado. paravam á porta das casas. miravam attentos o serviço que n'ellas se fazia. //# [/ '/A principio iam meio apprehensivos e calados. o **--/ lhoh üdL éed. va-J?/ V6~/d TiaÂJ / r a s e u / aspectos!'cheio de montes. sorriam ás creanças. A joven estendeu o braço longo indicandolhés o caminho.graça. Procuravam as pequenas elevações. Dentro tftíjk se abrigava a multidão de bar.^ desandado repouso. /* como quem parte para o desconhecido. Milkau e Lentz PÍU sna majch^ passaram jfa V v . e partiram como n'um sonho. ribeiros e cascatas. deixando-se ir na inconsciencia d'esses actos espontâneos. tranha n'aquella floresta verde. giravam abaixo e acima pelo parque. mas uma divin. Elles admirarão^ dCsea^gesto.ML{ leira.<*. Mas afinal tiveram de se a r r a n c a r . ora subia.0 leira.<*/ dade meiga como eram os habitantes de Santa Thereza. A estrada \ por cima dos morros descampados ora descia. O panorama largo/ousado^^-fecundo.T^arou*». e perseguindo comjUusJ olhos de admiração as saudáveis raparigas. iwenrubesciam/E em tudo isso se recreiavam mansamente. que os retinham alguns minutos no povoado.CHANAAN 70 abeiravam Santa Thereza. Uma filha da hoteleira (ós/Qevouyaté á bocca do caminho do Timbuhy JSÍkfr/jtom mil perguntasJ d*tíVàfdlbtfJtffiL uns instantes. Lentz via na rapariga uma divindade ex. valles/ / • / • ' florestas.f//*~ / baros e de extranhos alli recebidos com brandura / e carinho.

que era amimada pelas coisas : sobre o seu collo águas dos rios fazem voltas e outra^hejtgnlaçanj)* cintura desejada.80 CHANAAN fo/l ///// J/ pelas casas de colonos agricultores. n'uma vertigem de admiração. Havia fumo em todas as chaminés. E os dois immigrantes. vestida de sol. coberta com o manto do voluptuoso e infinito azul. mulheres em suas occupações domesticas. outras depenf. unidos emfim n u m a mesma communhão de esperança e admiração. as estrellas. ' ' H/ .e abundância. sem íi^f^ penetrarem. /'/h 7 duradas na encosta d ^ ^ . com a espuma dos seus beijos tbJ afag/eternamente o corpo.. no silencio dos caminhos. o mar. homens mettidos na sombra fresca dos cafesaes que rodeavam as habitações. o longo mar. a r puzerarrr^a louvar a Terra de Chanaan. se precipitam sobre ellá como lagrimas de uma alegria divina. as quaes êkJ i viam pela primeira vez. e. de tranquillidade. E as casinhas se succediam por todo o valle. os pássaros a celebram. abrigadas ' f u r n a s no fdfâfi seio dos morros. ///*L punham-se a mirar de fora esses retiros encantados de verdura. todas com disposição ' e graça uniformes. as flores a perfumam com aroma extranho. animaes e creanças debaixo das arvores.. ventos suaves lhe penteam e frisam os cabellos verdes. / Ou~£du^t Elles disseram que «lia era formosa com os seus trajes magníficos.

. tribue fó seus dons preciosos fâtffyty d'elles têm V/X. fd suas riquezas f # r. não / perturba^f/í j ^ f ambição $ l ritffd orgulho . enfraquece o sol com as suas sombras.. porque era a mãe abastada.. ytó seus olhos suaves e divinos não /i"v*~ distinguem as separações miseráveis. e/aj. o ^-//fÉwy^ quecimento instantâneo da agonia eterna. amorosa. Elles disseram que ella era generosa. para o orvalho da noite /jr JtLti fria tem o calor da pelle aquecida. a casa de ouro.-.. //r //*/V. porque um só grão ds^ suas areias fecundas fertilisaria o mundo inteiro e apagaria para sempre a miséria e a fome entre os homens. sua porta não se fecha.. não têm dono . e(jhe/^ãrítai^ hymnos +». porque no seu bojo phantastico guarda a riqueza innumeravel. homens J p ^ * * Êfl/Lptfttffftfí/fytyl tão meiga e consoladora. porque dis .CIIANAAN 81 Elles disseram que ella era opulenta. o ouro puro e a pedra illuminada. porque fó seus rebanhos fartam d$ suas nações e o fructo dfó suas arvores consola o amargor da existencia. a providencia dos filhos despreoccupados.. que a não engeitam por outra. " ^ Elles disseram que ella era feliz entre as outras. '//ê/ /' Elles disseram que ella. O h ! poderosa!. j . o $já seio^C < f / ^ . não deixam as suas vestes protectoras e a recompensam com o gesto perpetuamente infantil e carinhoso. sahidos de um peito alegre. desejo.

O h ! esperança nossa! Elles disseram estes e outros louvores e caminharam dentro da luz. .82 CHANAAN maternal se abre a todos como um farto' e tepido agasalho. — Não ha duvida.. o agrimensor Felicissimo se lhes dirigiu com o triângulo moreno do seu rosto escancarado n'um grande riso de vida e bondade. Milkau pensou que era o gênio da raça originaria e senhora d'aquella terra que/lhes deparava. adorando esta sua bella terra. preoccupado pelo instincto da hospitalidade.. com as mãos estendidas. concordou com enthusiasmo o agrimensor. / / & aiçy . isto é mesmo um paraisc. porque. nvuma alegria estrepitosa e confortante. por um pouco ficávamos por esses caminhos... os interrompera. — Ah! meu caro. disse Lentz. Já traziam cinco horas de Santa Thereza quando dfyfdaram á margem do rio Doce.. ajoelhados.. gritou de longe. — Então. Mal tiveram tempo de dar uma vista d'olhos pela redondeza. isso são horas de chegar ? E sem esperar resposta foi ao encontro dos dois allemães. Felicíssimo.. sahindo de um barracão verde alli situado. / frei í E os <fd$fâ / ^ / ^ a r a m a contar-lhe com exalfsyrfr tação as suas primeiras impressões. porém. — Onde almoçaram? Posso arranjar aqui alguma cousa para entreterem o estômago..

Veja que belleza de fructa! — 0ft$jL não viram nada. Ao lado havia outro puxado maior. d ^ / M i l k a u ./ que era o alojamento destinado aos immigrantes. o desabafo da curiosi. recebendo as laranjas. de uma singeleza / Aomada. Nem um livro de leitura.i~»*uc f nha. e em tudo! Encaminharam-se para uma meiaguá coberta de zinco. e na parede um grande mappa dos lotes de terra da região. nem o quadro mais humilde. élíL. torio de hospitalMj^ütáf ao funõTÕ"^"pequena cozi. onde o agrimensor tinha o escriptorio. Ao sahirmos de Santa. apenas um maço de jornaes dsÀ. Felicissimo. porque têm muito de que ficar de bocca aberta. Thereza. Não estraguem a admiração. comemos alguma coisa que trazíamos e depois no caminho nos fartámos de laranjas no pomar de uma velha colona. nem uma photographia. não ha Brasil como este. porém. Ainda lhe trazemos algumas aqui. que eram o registro dos prazos arrendados aos colonos. Os hospedes agradece- . cujo arranjo não podia ser mais simples : alguns instrumentosjl^j^arrrpojld^isou três grandes livros (§obre uma mesa ao cantp). agasalhando-os no barracão do escriptorio. Era espaçoso e arrumado como um d o r r r u ^ / . abrira gostoso uma ex/ cepção para os dois extrangeiros. Felicíssimo fazia também d'esse A barracão o seu quarto de dormir. emquanto esperadddm levantar nos lotes as suas Á/Gt/ casas.CHANAAN 83 — Obrigado. Olhem.h-0J-&~}~4 dade do cearense. respondeu o agrimensor.

seria o numero dez. lhes disse : — Ande d'ahi. gente! vamos escolher os lotes.jtodo assanhado. respondeu Lentz. Méfà querendo ceder por / ' delicadeza ao parecer do agrimensor. Ahi a terra deve ser esplendida. Mas olhem que na verdade vale o esforço. O diabo é que está enterrado em plena matta e vão ter muito trabalho para fazer a limpa.. Preparavam-se para sahir. abancados todos no quarto de dormir. ./. acceitou o lote V. Chegando á porta.. sentindo que o sol baixava. — De fôrma alguma. até que o agrimensor. reflectiu e ponderou aos companheiros : — D'aqui ao lote dez é um pedaço. travaram conversas nas quaes os immigrantes se foram informando de muitas coisas do logar. não teríamos tempo de ir e voltar com d dia.84 CHANAAN ram ao brasileiro amável e. E Felicissimo de varinha em punho para apon9/ tar no mappa. com ares de entendido.. Felicissimo farejou o tempo. o que mais lhes conviria.. interrogava os ou/ tros. Milkau. e deante da planta dependurada elle accrescentou : — Para mim. em companhia .' (Pü proposto/foj&^^ejubilavaHi aquelle dia glorioso ///' com a miragem de um grande e santo labor. Mas si fazem questão. Uma doce fadiga entorpecia os viajantes e tf0fi/J jr / deitados sobre a relva junto á casa. Passaram para o escriptorio. que não disputava primazias nem & vantagens no mundo. E melhor ficar para amanhã.

. Chegados ue foram. torso hercúleo.. Milkau e Lentz admiravam a robustez d'aquelles homens com pulsos de ferro.CHANAAN l w II 85 do cearense. vendo-os passar tão extranhos. era bronzeado. usava uma pequena barba anelada e falha e o cabello curto em pé sobre a testa. Vinham vagarosamente. / satyro maligno.//// coso. mas essa impressão era xar/.. com o impulso sinistro e reservado que é o primeiro mo. Sónseate. Percebendo de longe que havia gente nova. arrastando-se pela estrada descampada junto á praia do rio. passando sem parar. ' ' /'»"*' Um grupo de homens armados de ferramentas de campo apparecia á distancia.^ havia um mulato..ao~jii£srno \jjl tempo. Felicissimo.. Com os olhos rajados de sangue e os dentes ponteagudos de serra. olhos de um azul de abysmo. muito parecidos como um grupo de irmãos. que entre elles se destacava. e entreolhando-se rrr. Tinha a cara mascarada pelas bexigas . barbas avermelhadas. tomava por vezes a apparencia de um ^ . ficou surprehendido e gritou-lhes : — Então. camaradas!'o rumo está acabado? — Prompto! disseram.i espantados por terem respondido . e Hc*^ / ( rv t o • •"• (*. saudaram surdamente e/arara' calados ara (/ interior do armazém/guardar as ferrarnentas. a umi só f&£ feita da/de todos. caminhavam silenciosos..][ vimento do homem para o homem. ouviarfi as historias áles^f scismavam **•. fazendo coro.íÁj^j em coisas coisas vagas vagas ee dipiavam diyílavam oo tio I em fio passar passar preguipregui."' ¥ .

ouvindo-lhes silenciosos a ///Á / . replicou o mulato com fanfarrice. Joca.. um ar espiritualisado. Admirara-se Lentz do modo corrente por que o mulato falava allemão. Outras vinham ao longe. Joca ij olhava. havia de se ver. — Qual. As aves em bando continuavam serenas e soberbas no seu vôo. Si eu tivesse uma boa arma.. entre elle e a terra um remoto convívio. disse-lhe a rir Felicissimo. em longas theorias harmônicas.?%cé0) mostrando a Milkau e a Lentz os bandos de aves que passavam na illuminação do crepúsculo. apezar de recheiar a phrase . na verdade. Pouco /pouco os homens foram se approximando dos recém-chegados.. No meio da massa indistincta dos companheiros louros e pesados.. não ficava um bicho d'aquelles voando. seu cadete. Era só pontaria no da frente. Como o sol sefôpfyAjfflL e as águas do rio /(7/^' sejÀ$$(tf/$j de sangue..8C CHANAAN rapidamente a desmanchava um riso fácil e ingênuo.. — Aposto. c o n v e r s a . alli tu não apanhavas nada. o cabra brasileiro tinha um ar victorioso. cabra. perpetuado no sangue e transmittido de geração em geração ?. Não havia.. — Ah! Um bom tiro! exclamou o mulato. e si a arma fosse espalhadeira. saboreando com melancolia os effeitos creados em sua imaginação de caçador. seguindo-as pezarosamente. Os camaradas applaudiram. Felicissimo apontou para v//Cc^°^a. em allemão....

perguntou-lhes si falavam a lingua do paiz.<fffá<fresponderam que não. Creia que é um dom natural. que não fala uma palavra de brasileiro. não ha povo como o nosso para apprender as línguas alheias. E Felicissimo observou a propósito : — Olhe. mas d'esta mistura resultará ainda uma lingua... No fundo do pensamento de Lentz houve um pequeno júbilo por essas confirmações da insufficiencia do meio brasileiro para impor uma lingua. devido em grande parte á segregação d'ellas no meio da população nativa. — Não estará longe o dia. trabalhado na alma da população por longos . EY dirigindo-se aos trabalhadores allemães. cuja indole serão os do portuguez. Não sei. não se admire d'esses homens que estão aqui ha um anno ou pouco mais. cujo fundo. entrada ha mais de trinta annos. Joca approvou convicto e ajuntou que elle mesmo já falava mais allemão que a sua lingua e arranhava um pouco o polaco e o italiano.. O caso das colônias é um accidente. É uma vergonha! O que acontece é que os nossos tropeiros e trabalhadores todos falam o allemão. considerou Milkau. Não digo que os idiomas extrangeiros não influam sobre o idioma nacional. Ha gente na colônia.CHANAAN 87 de vocábulos brasileiros. Essa fraqueza não seria a brecha para os futuros destinos germânicos d'aquella magnífica terra? E poz-se a scismar. em que a lingua dos brasileiros dominará no seu paiz. com os olhos abertos e fulgurantes..

dirigindo-se a Lentz). que de tudo só t ( c * ^ * * \ apanhou1 a phrase final.. — Mora por aqui? interrogou Milkau. á beira do rio. Joca. — É o vizinho mais perto do barracão. a got- tejar sangue pelas ier\das/00/j^^0l^/j^ fâ/$ft(fá. os cães o acompanhavam ganindo e excitados pelo cheiro de sangue que escorria da caça. nervosos. n'uma com^ yM4^!'bustão que os envolvia de ligeiro fumo. ora baixas. todos muito ykití^iláfcardegos. ***"^**" trêmulos. de orelhas ora empinadas. A prophecia dava-lhe desde já um orgulho de vencedor. fixado na poesia e transportado para o futuro por uma litteratura que quer viver. Nós seremos os vencidos. "tf*„J* y* exhaustos da caçada.88 CHANAAN séculos. frio com ardente e inquieta respiração. Isto agradou a Felicissimo. disse Felicissimo. — E um selvagem. a resfolegar. (E sorria. si nós / i apanhássemos aquelle bichinho para a panella! 0 caçador passou sem os cumprimentar. mas . O caçador era seguido por um bando . de cães que o rodeavam ou o precediam. \Q_-V — Ah! murmurou Joca lj>éjf penZ.bocca aberta^e lingua de fora. (*. queimando o ar <^. viram passar pelo caminho. um velho muito alto e magro. „ . Emquanto a conversação se ia desenrolando mansamente. . olhou com superioridade a massa de seus companheiros allemães. O caçador /Jltt e caminhava com passo rápido. armado de espingarda e carregando um animal morto.

o peixe salgado e a carne secca. suppoz Lentz. quando um dos camaradas se achegou a Felicissimo.s s nn m muittTV r^mm t ^--nn nn m u t f p --z^~ tfl f Continuavam a tratar da vida singular que levava o caçador. — Um arredio. — Ha de ser algum solitário. explicou o agrimensor. braços uns. que são valentes como feras. alguns n u m prazer discreto e moroso. respondeu Joca. não fala com pessoa alguma que eu saiba. etldrídMftóp e m o .do cearense e do mulato lhe <^4AÀ^ trazia a sensação do enjôo de mar. Ergueram-se da relva. fâjfyfatyfé a facundia jf/cLof***» interminável e molle. passa pela gente como si fossemos cachorros. vive só com aquelles cachorros.. alimentação habitual dos homens do campo nos logares do seu serviço.. A comida era simples e pobre. \tfT l ^-&-JfJ^&&£sss!sxpeer-tá fr*y*l*\ gcupiüie-homeiis que u observ^airj^7tóá_ftt±fi=sp **"•*. . alegrando-se n'aquella communhão entre as raças .CHANAAN 89 nem por isso nos... Milkau estava solicito com todos. outros espertos e faladores como Felicissimo e Joca. bocejando outros. prevenindo-o de que podiam ir ceiar. salva. espreguiçando os . admirava o que havia de solido e repou.. No-emtanto. sado nos gigantes allemães. Lentz olhava agora * s duas raças alli reunidas á mesa./ y ^ " ^ rosos entraram todos em casa. ' Os trabalhadores do barracão armaram a mesa das refeições no dormitório dos immigrantes e ahi puzeram-se a ceiar. e todos se banqueteavam alegremente.

Além do fundo uniforme da sua própria ''(/ " classe. Uns C '' já\eram homens maduros e experimentados por 1 ] /Vi** J° n g° s soffrimentos. da Pomerania. vendo alargar-se o destino da sobrevi. porque sou de Heidelberg. e mostrando uma calma indolente y^ r^** nos movimentos e nos olhos um longo descanço.Comiam mais ou menos egualmente com medo e t^"*^ devagar. uma longa intimidade l h e s d é r l e m muitos fi. I $7/v . havia. a*~^ A sala era alumiada por um lampeão de kerose. ' Entreteve-se Milkau. * O trabalhador sorriu. em indagar i/obre W logares donde era cac a um /// Cl * r//ffl' Q u a s i todos procediam da Prússia II ^ oriental. mas sufficiente 2»**. ir ne e a luz Àxd turva e indecisa. 1/ para que os ríovos colonos pudessem distinguir a ^j' . I distinctas. mas a sua alegria não passava de JL um gesto tffflftffésfflfflf incompleto como o próprio espirito. alguns <$# i/y. para conversar com os seus at*^> ' patrícios.CHANAAN U f**. outros novos e joviaes. geral^jfii rfr mente fortes. Para Milkau um compatriota era o . — Então somos quasi vizinhos.?*** vente mesa commum que cahiaydos tempos como Çf^**" uma relíquia do patriarchado.^Z~A. physionomia de cada trabalhador europeu até então <*)' Vi LJ para elles confundidos demoí uma só massa.S}_ ^fitíàffy das bandas do Rheno. feliz por ter encontrado um conterrâneo./~^~*>f. fí/ —De que logar é? perguntou Milkau ao trabalhador mais edoso. — De Germersheim.-l ' pontos uma só feição. porém.

. de surpresa. onde passara a sua mocidade silenciosa. n'essas transformações de physionomia./ r tovellos. de começar de novo. Lentz perguntou si isso se ligava a alguma len. aquella que sá^ de um mesmo pensamento. de pagar em amor toda a indifferença que tivera pelas coisas da sua terra. f — Sim. esperando com placidez a narrativa./ / 1 ^r~ da. de um/UW*»»-// mesmo desejo. que estava á ponta da mesa.Então é da terra de Soror Martha! Conheceu o Rochedo da Monja. Uma incomprehensivel saudade dos seus / primeiros annos $$$^001 um instante./J ú*^ mastigava. __*^ emfim.. pelo quadro. e auzeraa^ ^w^md^% nas caras expressões distinctas. emfim. — Ah! exclamou ligeiramente pensativo. Tfim. espichou a cabeça para o meio e poz-se á espreita. era '/fa£&f\ como um arrependimento de não ter sido nos prin* cipios da vida o homem de hoje. havia uma perfeita unidade. mas em todos esses movimentos vários. O homem interrogado ficou um segundo atto- . Um desejo de voltar atraz. E Milkau pediu ao trabalhador que narrasse ***( essa tradição ignorada pelos que alli estavam. todos se moveram a um tempo.CHANAAN 91 apparecimento Yf/fáffi e inesperado de todo o seu /f/Juy1-** passado. pelos homens da sua cidade. / ^ddkfy largou o talher grosseiro e descançou os co. ae •f#/n%'' j interesse e mesmo de negligencia. outro. Todos se voltaram para o emigrado do Rheno.

o primeiro filho que tivessem seria consagrado ao serviço de Deus. partira ^HA A ^ v a pelejar pela Fé. que se chamou Martha. Sua mulher ficara inconsolavel com a separação e. viram-na crescer. entrou j Ih / »<^ para o convento. Cocava emba~. èdáfitffe Martha se tornou moça. Voltou o duque. e com Vi pezar os nobres vizinhos. O duque morreu na outra cruzada.** ~+ ^ — ' ^»- * ^* . Joca. si tornasse a vel-o. Era-lhe único ir irj^juM conforto ver a filha. homem de Deus! E segredo? gritou o cabra. temendo a morte do esposo. A principio não disse uma palavra. olhando para todos. — Desembucha. que a queriam ytfjjl esposa dos filhos. A menina era de uma deslumbrante belleza. e a viuva. Os outros ^ ç í á i ^ / a m as suas W * ^ attitudes. Na sua linguagem.a falar./j/ífl^ji alia contou que no tempo f % das cruzadas um duque. morta para o i JZMX> mundo. muito espantado de se ver n'aquella situação saliente.>2 CHANAAN nito e irresoluto em sahir da obscuridade collectiva e anonyma em que até então estivera na mesa. onde a sua piedade encantava ainda mais que a sua peregrina formosura. _ f O allemão afinal se Resolveu. fez voto de que. raçado a cabeça. que de tempos a tempos ia *-£yz^ <. sem mais í/triM*/ fimos' fflfâ isolada no castello. voltou-se para o companheiro allemão com os olhos esgazeados. a quem o silencio de um instante perturbava e affligia. e passado algum tempo nasceu-lhes uma filha. apenas se casbú.>.

. Consolação. o joven conde bat/ á porta do mosteiro a ^ y para $fyj% á Martha que 4 duqueza estava a /^l~*-«*« morrer. A freira partiu logo para a casa de s u a / mãe. encostado ao penhasco. Não v *creditou o tÁ^A» conde na protecção de Deus e teimou em esperar a sahida de Martha./Martha espavorida/ytíj^^A'põe-se /*y^_ a correr. e v^i/ido pelo desejo formulou o pro. Uma vez. mas foi / impossível. quando chegaram ao logar mais solitário. onde o conde ^ / a vae alcançando. vestida de monja. e.//u/*%jecto de raptar a monja. Luctou comsigo por esconder a paixão criminosa. disfarçado em aldeão. quando esta atravessava o bosque para uma dessas visitas deC J. Uma tarde. annos. o rapaz0$J$fflde amor^ela freira. aconteceu-lhe fyfpfypax-se com u m / ^ joven caçador. Des. amolledMd pelas orações da / . filho de um conde palatino. e no / ' " ' ' ^ desespero da fuga chega atéjio rio. Vão os dois pela floresta como loucos. sua barba embranquecida ?ft alongou"1Tté aos pes. O moço. De dentro. descobriu o seu ardil //Q. e propoz-lhe fugirei e occultarem o seu amor em '' / ^ outras terras.. e afinal o coração. Ç m rochedo\se^pre^e*récolhe ^t^r* no seio de pedra a joven monja. em vez de maldições. allucinado. /yffa** e silencioso seguiu-a até ao castello. O conde acompanhou-a.^>v^ lumbrado.CHANAAN 93 visital-a. persegue-a. Ficou assim dias e dias alli vivendo. Passaram-se mezes. vinha o echo das supplicas da freira pela salvação da alma de seu malfeitor. o conde envelhecia. A freira transviada ///)//(2 toma um caminho que a afasta do castello.

passaram todo o tempo ajoelhadas aporta. o tempo não fifytfla corrido. e tudo estava como deixara annos antes. ia-se mudando em primavera. Durante a sua ausência as freiras. Quando soror Martha sahiu do rochedo. velho e cJieio do espirito divino. Abre-se a rocha. ouvindo cantar na sua cella uma voz celestial. hcouffirffájtffl? da tentação e elle. A pobre madre ^0^VM (fât/fjfftyifâr 'éfâtíWfli de allucinação e disse-lhe que ella não se tinha afastado do quarto. parte para o convento. onde cantara os-aaais &/&>*'. e restavaAri & lhe a illusão de ter apenas passado um dia encerrada na pedra. embevecidas. rezando em êxtase.\Martha/recolheu 2»« abi S£A° s e u aposento. entoava os hymnos que Martha lhe ensinava de dentro do rochedo inviolável. penitente. assistida e alimentada pelos anjos. medrosa. Partiu curvado. que era de inverno. Jurou então consagrar-se ao serviço de Deus. Para ella. despediu-se da freira por entre lagrimas de arrependimento. no propósito de fundar uma ordem religiosa.. presas á melodia.bellos louvores a Deus.Di CHANAAN * é * t e ^ monja. Entrou no convento.(Martha^jâáej na mesma juventude com que entrara. ausência. e. Attonita.. parou a voz na cella e as freiras desprenderam-se do encanto.(Marthaícorna)para o mosteiro. e no seu caminho o tempo. de onde no mesmo momento / * . Confusa. confessando os perigos da sua ... abrindo-se em flores o campo mirrado. conver" tido. voltando aos seus labores. Alli também y Ácr^ty tempo $0 jLpfffiÀlf Arrojou-se a monja aos Á*«v" t p^ s d a superiora.

^. Os outros. mas sem força de abalar as convicções plantadas desde séculos ás fontes d'aquellas almas. àffitfMxfyfie todos na solidão que era alli. Pouco a pouco cada um se foi erguendo e deixando a sala. A ceia miJ-se acabando sob a apprehensão *-&//'' vaga que no animo dos trabalhadores deixava a evocação das lendas nataes.. voltados para o rio. concordaram n'um brando murmúrio.. D'onde menos se espera surge um perigo.. longínqua e poderosa que teimava em se fixar. á aragem fria da noite. Não tardaram a se juntar fora no terreiro. ' I que era uma faixa phosphorescente e tremula. coxeando sobre assumptos incenõ^pois mais forte que estes havia em cada espirito uma idéa intima.CHANAAN 95 / 7 * * f*«Vr viu sahir um anjo. pois ninguém sabe o que lhe está reservado soffrer e vêr. pensativos. /£jty0MfyrtO*í' rãatígÜ&mIffflúfNà Tjtums/intima communhão. E um dos homens foi o interprete de todos quando disse : — Ha muito encantamento neste mundo de Deus. milagres e encantados. e que era a sua imagem. E quando elle acabava. Sempre se deve andar prevenido. Lentz quiz levantar-lhes o espirito e poz-se a negar bruxas.. de que parecia irradiar toda a luz que attenuava a escuridão da noite. Falou longamente.. A conversa era (tropéga/|^ morna. que/a substituirá na ausência. Os 6-»-?-c// homens 0 deitaram-ha relva. cahindo outra vez em silencio. dizendo : — As bruxas já morre- . Milkau e Lentz também se chegaram.

vinham mais puras. Os dois brasileiros se interessavanj ardentemente com esses contos que lhes vinham /// ~jr~. filho de Sigisberto.. em vozes e cantigas. no serão da terra tropical.96 CHANAAN ram ha muito tempo e ellas sempre foram estas mesmas mulheres que vocês amam —. as porfias com a bruxa Brunhilde. Mas agora as lendas volviam ás suas origens./ péas transmittidas a elles'adulteradas pelos povos brancos. os semi-deuses saxões. em que elle combatia invisível pela força mágica do seu chapéo encantado. com o seu caracter immune de contactos extranhos.lhes acontecem por se fiarem. seu combate com o gigante. os heróes.. de mulheres. os homens devem tomar cautela nos seus amores. Quantas desgraças não . vencendo a mulher para entregàl-a . chamados pelas evocações dos emigrados. as suas proezas no castello do Nivefliho. e com que sabor não escutaram as façanhas deSiegfried... um dos mais velhos não gostou do tom da negação e replicou : — Não diga tal. a derrota do anão"Alberico.anões -phantasticos. Alli. os gigantes com o seu cortejo de .! Cada um lembrou uma historia da sua localidade originaria. as nymphas do Rheno. surgiram. que foram os -^primeiros geradores da sua raça mestiça. guarda dos thesouros fabulosos. moço. e depois as suas luctas. rainha da Islândia.de um mundo desconhecido e $t$k lhes suggeriam 'i' a reminiscencia de tantas outras historias euro4. mais límpidas.

sado par uma lança. avistando Lorelei sobre o rochedo com a lyra na mão. E com que paixão não ouviram elles tratar da bella Lorelei.. ora vingativa.. que o attinge no único ponto vulnerável do corpo. morrer enlouqueciam ouvindo os seus cânticos. fazendo abrir as águas do Rheno para engulirem os ousados que procuravam vêrlhe o semblante mysterioso e que antes de.. divina como um. até que..Q d'agua. lhe pede/!) -?ít<y restitua. Áy*£"++/i E Joca declarou que não tinha medo de mães .. responde ao som da harpa : « O meu ri.. curar o filho. // -^-> fffffi fanfarrão : '///wT' t*>.. desmaiou e a fada o transportou para o seu palácio de crystal no fundo das águas azues.. até que um dia..CHANAAN 97 ao esposo. quem já teve trabalho com cur/ufj pira. mesmo diabas ou feiticeiras. rt ' symbolo. protegendo os habitantes de sua vizinhança. — Não se arreceia de mulheres. Vinha n'essa historia a paixão do conde palatino pela fada.. seduzido pelas suas vozes mágicas. soberana. » * rf * <$fflc/efál$fcfy0J0/alguns passaram 0^»^-^ a commental-a no circulo'de suas nevoadas idéas. Milkau achou esse termo extranho de um bello . ? E a tristeza no castello. vendo a nympha. até que um dia morre o heróe. Como os outros escarnecessem $/$$-.hL levei o meu amante kj/'•*'' fiel e leal. ora bemfazeja. o velho pae louco a pro.atraves... longe do vosso mundo. s^^tóé ella." sonho palácio de crystal é no seio da onda e para lá.

. O sol já estava esfriando. preparando-se para narrar. mas como não soubesse a significação do nome. socega com essas viagens noite e dia no matto por causa de rapariga.. que uma vez cunfupira te pega..... ria das palavras do velho... Meu tio gritou para pôr a janta. eu trouxe da restinga na ponta do laço.. desempenado e de topete. Qual! currupira é phantasmagoria! E tio Manoel Pereira passava a me contar rodellas e sempre arrematava : — Rapaz! toma tento! Um dia. e nós. foi no Maranhão. lá se foi paraocampo. nem a lenda nativa que a elle se prende. coitado. nós tínhamos acabado de recolher o gado ao curral.. meu tio.. — Eh! meu tio! deixe de abusão para amedrontar gente pavorosa.. frouxo e meio descadeirado. que era o vaqueiro da fazenda. quando nos puzemos á mesa. não foi por estas bandas.. que. Chegados que fomos. Meu cavallo estava esfalfado de cercar um garrote arisco. y*«(^/con siderou/ como uma d'essas palavras ricas de som dóTdiõrha brasileiro enxertadas no velho tronco da lingua.. Toma tento comtigo ! Moleque que era eu. porque eu sou de lá Meu tio Manoel Pereira na fazenda do Pindobal me dizia sempre : — Rapaz. disse n u m tom familiar ao mulato : — Conte-nos isso.. Os cabras traziam uma fome .. peei o Ventania que.. depois de muito pelejar.u>'h 98 CMANAAN e raro accento de linguagem . Joca ! — Ah! respondeu este. seus quatro ajudantes.

.. não formavam . — « E o Formoso se desculpou disfarçando.para a patuscada. — Eh! gente.CHANAAN 99 canina. Ah! meu sangue. Fiquei um tempinho meio desalentado... não me lembrava mais desse ajuntamento marcado para aquella noite. Uma vontade de vêr a Chiquinha me assanhou o corpo e me fez espertar. Eu andava de namoro com a cabocla. dizia a velha nos servindo. só ouvir o cabra. com sua cabecinha delicada como de sussurina... Depois nos assentámos na soleira da porta em frente ao curral.. Mas vae o Manoel Formoso e me diz : — Tu não sabes do baile da Maria Benedicta ?— Oh ! cabeça que era minha. moça espigada como palmeira. Aquella hora as vaccas choravam de cortar coração. Vamos d'ahi Manoelsinho. fica quieto ! . as bananas não ficaram atraz e nós rematámos a boia com um trago da branca. Os outros camaradas eram já maduros e casados. mas a idéa da rapariga me levantou o corpo cançado. que espantava minha tia. Eu estava derreado como um bode lasso Os outros estavam na mesma conformidade.. parece uma fome de Satanaz. lambendo a bezerrada que do outro lado se roçava na cerca. Te esconjuro ! — O que é certo é que as curimatás voaram para dentro. — Pois sim.. No sabbado passado tinha tratado com a Chiquinha Rosa nos encontrarmos na ramada onde era a festa. se via logo que tinha algum negocio estipulado para outra banda.

/5^ l/ti -* a "Ella havia de me dar no baile. — Sim. então já que ninguém me acompanha. Larga de banho a esta hora que tu apanhas maleitas. « Levantei-me em direcção á fonte. preparei-me com camisa e calça alva. Ainda era bem de dia. disse meio arrevezado aos cabras molles. fpnis pedi uníí pouc7~da sua pommada de cheiro e éé$ / •fcis ffl/lfl? estava na ordem. E me . Dei um mergulho e umas parapemadas. Bati na porta de tia BenU». Passei depressa para meu rancho para mudar de roupa.vara guardar no seio e perfumar com o seu cheiro. logo ao entrar da lua. e tio Pereira que me circumdava n'um tudo. / tur. com intenção de espantar algum jacaré que andasse na vadiação. é só trabalho para os outros. <• Não quiz mais conversa com o velho. tu estás maluco. meu tio.— Rapaz. Vosmecê pôde ficar socegado que estou de volta a tempo e bato no seu quarto ás» horas. Atirei-me á água. entrou aralhar. que me deu um frio nos ossos. Tio Pereira me vendo de viagem. Depois. nós vamos fazer matalutagem na fazenda da Marambaia.100 CIIANAAN — Bem. vou só. O meu lenço branco / estava desde a semana passada com a Chiquinha. enrolei no pescoço o lenço encarnado que tinha comprado a um barqueiro no porto. disse : — Volta cedo que de manhãsinha. « Não me importei com a fala do velho e parti para a fonte. porque filho de meu pae não engeita divertimento.

o pouco gado magro que havia. E vosmecê me encha ahi um quarto de restillo e me corte duas toras de fumo de mascar. só se ouvia um barulho de porcos que focinhavam a terra á cata de minhoca. deve estar prevenido do seu.CHANAAN 101 puz no olho do mundo com passo de ema escabreada.. Atravessei todo o campo da nossa fazenda com vista a alcançar a ponta do Guariba.. virados para o lado do sol que se sumia.. e ainda pude logo dizer ao patrão do negocio : — Eu vou correndo para lá. e. Do Pindobal á ramada da Maria Benedicta eram bem umas duas horas de marcha. estava parado com os olhos tristes de peixe morto. na ramada da Maria Benedicta. aonde se bota tão paramemado? perguntou-me o portuguez. Olha. o coração a querer pular pela bocca. Mas tomei sustância em mim e me agüentei valente. e as pernas me fraqueando. — Então. A brincadeira deve estar influída. Joca. — Olha que tem passado por aqui muita rapaziada. patrão. atirei-me para o caminho. tudo estava bem secco... « Dito e feito. — Brincar um pouco.. Quando cheguei para furar a ponta.. O sol G.. . por ordem do Pedro Tupinambá. « Xão sei si foi pela falação do Zé marinheiro que se me escaldou mais o sangue. tudo lhe mandei eu. esbarrei primeira no negocio de seu Zé marinheiro. eu senti como tudo a rodar. já se sabe. pinga não falta. me lembro como si fosse hoje.. Mas a gente não se deve aproveitar dos outros.

. e do estômago me subia de vez em quando um enjôo. Principiei a cortar por uma picada.« de toda a parte se apitava. parecia me estalar dos lados. Assumptei de novo. Não dei importância ao sujeito e disse commigo: — Ha de ser o filho do Zé marinheiro.. me largando de esperar. Outro assobio me passava. um grande calor me tomava o corpo. Pernas para que te quero! A cabeça.os lagartos corriam estremecendo o matto. de vez em quando um pica-páo n'um tronco de madeira secca batia as horas da tarde. De repente. não estava muito boa. do fundo do matto. Continuei a andar. que se recolhe. e eu com a pressa de chegar comia poeira que era gosto. A areia estava mais quente ahi dentro que no meio do campo. andei. Só parecia que encontrava o terço acabado e a Chiquinha. ouço um assobio fino que vinha de detraz. onde ficava do outro lado a casa da festa. da bocca da estrada. outro. porque a lua estava esclarecendo tudo. andei.102 CHANAAN já estava escondido e os vagalumes começavam a correr no ar parado. nada. Não havia viva alma. por cima das arvores. porque o pae não o deixa ir á festa. — Que . outro. cortando os ouvidos. com seu par fixo para toda a noite. Lá no fundo da matta havia uma aberta e me parecia que um vulto caminhava para mim. que encurtava a distancia e sahiano campinho. Pensei: — É algum camarada que se vae divertir e me chama. mas perdiam o seu serviço. Voltei a cabeça e não vi ninguém. porém.

o certo é que avancei para o pequeno com raiva de cego— Ah ! seu diabo. estava seguro pelos pulsos. — Onde se metteu o diabo do pequeno ? — Os assobios iam me rodeiando sempre.. Mas quando eu me vi. quiz me valer do encontro com o filho do Zé marinheiro. para que falaste ? A mattaria toda passou a assobiar como demônio. reparei bem. Os assobios de coruja não largavam.—Tive assim um arrepio de frio. a cabeça me queimava. bocca. eu já estava com a cabeça tonta.. Não digo nada. Eu resmunguei: — Que faz esse sujeitinho que desapparece de vez em quando? Isto não é coisa boa. porque elle estava perto e vi que não era o filho do portuguez — A modo que não conheço este caboclinho. Fiquei como um .CHANAAN 103 bandão de corujas por esta noite. eparame socegar. Nós estávamos assim a umas cem braças um do outro. Mas olhei firme para a frente e não vi ninguém. amigo. — Armei o páo para cima. tu me' pagas. — E elle torna a surgir. Então gritei com voz de susto.. bem alto para intimar o cabra : — Olá. O caboclinho estava agora a umas dez varas de mim. O sangue me fervia. Ha de ser agouro. e eu comecei a ficar apavorado com a matinada.que conversa é essa? Você anda me fazendo visagens ? — Não digo nada. o coração me batia a galope.. — Larga! berrei — O caboclinho com olíios de sangue me encarava — Larga ! — e eu sempre seguro. Outra vez vi o pequeno na minha frente. quando o pequeno se sumiu de novo.

os gaviões desciam. e agora alli zombado por um caturra ! Nós luctámos para baixo. sentindo os bichos me rodeando.104 CHANAAN garroteferroado.. eu ouvi um berro de estrondo. . Lembrei-me de quanto boi valente deitei por terra.. e elle sempre duro. porque outros berros se repetiram. Avancei para o cabra com mais zanga do que quando me atraquei com o Antônio Pimenta. gatos bravos miavam... meu S. Depois tudo foi cahindo no socego. Eu senti um medo molle e abandonei as forças. ouvi cascavel tocar seu chocalho. o suor me alagava a roupa.... para cima: eu dava de cabeça na cara do bicho. os urubus cheiravam minha carniça.. Com poucas eu estava no chão com o caboclo em cima de mim.. Levei um tempãodesaccordado. João. as arvores mesmo* se curvavam me abafando. Eu estava afadigado de tanta lucta. ah ! pensei que o malvado me deixava. tudo parado. alua era clara como dia.. Toda a bicharia se agitava no matto e caminhava para nós. mettia-lhe os pés na canella.. tudo tinha desapparecido. Comecei a tremer de frio. Mas foi peior. os meus pulsos estavam desembaraçados : um grande calor me fervia o corpo ... o mal encarado! Com o cabo de poucos minutos. abri os olhos devagarinho. um berro de onça. uma-feita n'uma vaquejada.. Abri bem os olhos. e eu disse : — Vou morrer. commandados pelo endiabrado. E os olhos se me fecharam como de morto. catitú vinha batendo queixo. a lingua estava secca e dura que nem de papagaio.

cacei. mas lá vim assim mesmo navegando até á porta do rancho. caçando minha garrafinha de restillo e as toras de fumo. Voltei para traz. E eu vi que n'aquella noite tive trabalho com currupira. Velho tio Pereira me veiu á. Puz a excogitar que toda a pendenga que o caboclo me fez. . eu trazia uma sede de jaboti. Leyantei-me de um pulo.. nem os bichos brabos."logo que o avistes.ri bra. Era a voz de meu tio com o Formoso. Mas tive então_um grande medo e tratei de abalar d'alli. Elles abriram a tramella e um clarão da madrugada alumiou o quarto.. Não tive con. cacei. Olhei para a frente e a estrada ia acabar longe. muito longe. versa. cabeça com suas palavras : — Curjfupira te assom. Para tu te veres livre. — São horas. Passei a mão em-roda de mim.. sahi no campo esbarrando com o gado. cáe . dá. o samba devia estar acceso aquella hora. acolá.. Nada. Para espertar não ha melhor que um gole de canna e uma masca.CHANAAN 105 e não vi mais nada. nem o caboclo.. atirei-me vestido na rede que com meu corpo sacudia como uma canoa no Boqueirão. cáe aqui.. . cachaça e fumo. Mas não encontrei nada.. os olhos me ardiam. Joca. Tive medo de novo encontro. « Dei por mim quando ouvi falar alto na porta. a bocca estava grossa. foi para me bater a garrafa. vinha como preto bêbado. todo o meu sangue batia para saltar de dentro. Quiz correr para a ramada da Maria Benedicta. Levanta d'ahi.

' um f&j^4 repouso. O velho segurou no punho da rede que estava balançando. Quem te mandou tomar banho cançado e aquella hora ? Não respondi. mas as forças não acudiam.. Meu tio mandou o Formoso abrir a porta e a janella. E meu tio Pereira. sem mais aquella. resmungou zangado : — Eu não te disse? Apanhaste a maldita. Do rio Doce e da floresta viIIIi \^m>^[idirn murmúrios W/fiflfop e os colonos em silen'" cio interpretavam esses sons da noite. Os outros levantaram-se bocejando — um •. Ficou como dia. a M r e c o l h e r ^ . meu corpo tremia dentro como si houvesse uma dansa de todos os meus ossos. principio de somno chegava como urryf tyij. ou como oity^ L/ dccetitod das mães d'agua. sendo o primeiro a erguer-se do /' chão.100 . cubiçosas do amor hu- . seduzidos pela idéa de '. Tive vexame de relatar ao velho que era assombração de currupira. Elle poz a mão em cima de mim e ed abri os olhos cheios de fogo. Felicissimo achou que era tarde e os convidou '^J~ /Jj. .$fy— *fl espreguiçaram-se satisfeitos. Cada qual remontou por ins//. Depois da narração os colonos ficaram scisl! mando vagamente. tantes aos princípios da sua vida/i as recordações jl . do passado encheram-lhes a alma de sombras e saudades. 4 ' CHANAAN Quiz me erguer.

e então uma saudade o transportava para a longa planice onde vivera: Llldwa no verão o pasto todo morto.. sem um fio verde. o amor violerrto do sol trazia o vasto campo fendido e cortado em pifWf. nuvens descem quasi a tocar a terra. ou como ruidos das vagabundagens tenebrosas dos currupiras'errantes. c horizonte se confunde com o céu. Era uma noite em claro que elle passava. os montes o apertavam. sem nuvens. tinha a garganta secca. e sobre e$e. No Espirito-Santo sentia-se Joca em terra alheia. / o deserto árido e triste. fazia-o remontar aos quadros da sua vida passada no logar do nascimento. vários e inconstantes. extranha a seus olhos e sentimentos. A evocação da terra natal alli no meio da floresta do rio Doce. Já no dormitório os trabalhadores resonavam sobre os colchões estendidos no chão-. por toda a parte a sec/cura e com ella a morte. quando todos supplicam d chuva. passando como / uma serpente jjfâfjjlÜll o caminho feito pelo pé do homem ou pelo rasto do animal. e não achava agasalho na cama fofa e tranquilla. o sol rubro '/**** ir^^ ' . sentia por vezes a pelle a arder. n'esses campos de Cajapió. Nos dias claros. é Joca ainda se remexia inquieto. cuja mobilidade se transmittia á alma plástica dos homens ahi formados. Nem uma gotta d'água. os desfiladeiros o suffocavam de terror.CHANAAN 107 mano. Outras vezes. sem poder dormir..

teveXum arrepio e um Ímpeto para se erguer » do colchão. t a . levantando o pó tranquillo que.estreitando o circulo visual7 tudo fó encenjfn'um espaço limiXadoJÍ o viajante caminha para ellas. suífo(fêl^. onde se revolvia agitadamente.. De espaço a espaço passa um boi faminto. Varas de porcos vão fossando a terra. Nem umagotta d'agua para refrescar ao menos a vista. E assim a mobilidade do céo amenisa a esterilidade fixa da terra.. como que surgindo subitas*do chão. "•• CHANAAN 1/ t •f . fazendo evoluções como um exercito em campo aberto.. dfó^se afastam inattingiveis. farejando o ar.tormenta no fim do verão. \ fo**fò!o Jj y //.na véspera) accordára depois de uma grande. era depois das primeiras chuvas sobre r o campo. as segue. a visão da planície o perseguia.108 '% . cando-as. sedentas. Um grande tapete de verdura fresca e humida parecia A/v ÀAÀ*'^^ j U > . esquelético. Agora. corroendo as cobras que se estendem lubricas e felizes ao sol. movendo os ossos n'um ruido desencontrado e surdo. doir . veloz e fdtyftf como uma ^eQlumna de fogo.. envolvendo-as... galopando loucamente. ^V / fõõúpo recordar-se d'essas emigrações de ani^ / maesi. mas serena. as miragens se formam. E L • £> ' sempre a terra.. e elle se erguera de sua rede para vêr o tempo. /flyi/^^^cyclone. '/} as tinge. Manadas de gado se apresentam no horizonte. perturbado 'i *ij no seu repouso..ii das. passando n'um turbilhão como um . implacável. A madrugada estava orvalhada. Uma manhã lá no Cajapió^Joca se lembrava como si fora.

o gadofsd mostr/./w^mettidos n'agua.inquieto e começa A . Dias inteiros de chuvas. Aci / grupe/ brancé . notava-se desfilar. e quando mais tarde o dilúvio se in. a água porfiava em vencel-o. o pasto agora era farto.*». perdiam na campina alegre. pousava aqui. *----r:—7~*I ri r\ ' i ' P*1 JH %U ' ' d a s yirgingaygarças. -. marrecas em algazarra. » u -*cial doa vermelho» guarás. Vinham/ V// pássaros de toda a parte : perrialtas com o seu bicqu-^ de colher.CHANAAN 109 ter descido do céo e coberto como um manto mysterioso o campo hontem mirrado. buscava ainda mais longe a região dos eternos lagos. e á tarde. Massas chuvas continuam.. um bando de marrecas passava grasnando.. Vão lentos e vagarosos.. • terrompia.. ia/tr.. de rejuvenescimento. %bt^ji vens cinzentas. de expansão e de vida. multi*'" ' ' does de peixes borbulhavam por encanto.(JyLaproveitando a terra firme. para os tesos../ a outra emigração.~No-itmdo dos lagos. fai.^ . Já no meio do inverno a água quasi 7 . mas sem recuar. o gado festejava o rebentar da vida na terra e comia a herva tenra. Eram os primeiros lagos. ^. a do inverno. ligeiras elevações da planície. a água serrupre—ccescente vae engolindo o campo. caminhando para os refúgios. E em tudo o mesmo milagre dè resurreição.\*-/ . < / » i 4-. èra o bando mar.. Os olhos se. levantava o vôo acolá. ''4i4 nadando.. Em volta d'elles uma multidão cte aves aquáticas brincavam descuidosas e osten/ tavam as pennas de cores vivas e quentes. jassanarís Ietfés~? V*r•''' * e tímidas. quando o céo se/Vestia de nu. 5 . $$d$fâ na vasta savana verde p o n t o s / ' * claros que eram o refrigerio dos olhos.

bruxas. cavalleiros andantes e castellos.emquanto o somno JI o não arrebatava para o esquecimento. A vida mudara : descançava na cocheira o cavallo e Joca sonhava-se a empurrar a canoa..' ^g*" I CHANAAN apagou o campo. largas. Em um grande lago manso transformou-se aquillo que fora mezes antes o deserto ardente e fero. mantinha-se inalterável. EU/iínha / /' J saboreado as lendas ouvidas aos tropeiros e md a-"^U7 P a r e c i / fluo tinh^ arregaçado o véo que cobria a / alma d'aquelles homens. como um grande rio sagrado. que foi o centro e o nervo do mundo germânico. Sobre elle repousam os grandes nenuphares. vogando como pássaros. e cujas louras nymphas eram as espumas das próprias águas. creando phantasiás e mythos. um ou outro ponto apparece como ilha e n'ellas o gado está amontoado. ^ .110 ã i". Milkau n'esse tempo scismava. Nas lendas allemãs Milkau via passar o Rheno. os novos deuses latinos.. reflectindo-se o seu vulto espigado á flor silenciosa das águas. yítújíia os quadros recuados no tempo e os quadros novos da epocha medieval. as múltiplas plantas aquáticas verdes.i l/J l/r sé- . eÂstM que nascera nas águas do rio. Todo o idealismo da raça estava alli. penetrando no . e desfructado deliciosaas ír^rí/^^mente paizagens distinctas de cada espirito e os panoramas longínquos que foram os quadros da infância de cada povo gerador. todo cheio de encantamento.

em animal ou vegetal. Alli estavam a matta tenebrosa. seu perpetuo inimigo. Milkau sentia n'aquellas legen. não só da historia ou da socie.. do ódio ingenito de uma raça com o amor /. intimidando o homem. que sacode do torpor tropical as feras ou que protege a natureza. conforme a astucia ou *£-—** a força o exigem./ ( / c ^ ^ ' mecendOi feliz e socegado n'aquella bemfazeja 'J y /u*** ***** XZ">£&"*~ ..+az. #-— vinga-se e beneficia. os habi.os desejos.*4ly->nhecer as origens. aquelle que tiver fr^^tír' o segredo de ponderar os espíritos.T^-^A tos difíerentes dos homens. será aquelle que co. que era toda a alma do tro/Q peiro maranhense..f>&* d******.f^T*?'*' " dade. e -tr-r~i*<? cada um traduzia os instinctos. pensava Milkau. as siras santas eram aquellas mesmas fadas do Rheno e os santos os velhos deuses sombrios e batalhadores. de desvendar ^f^^Cvy^ nas cellulas cerebraes as remotas sensações vitaes f****"^ dos povos e que possuir a intuição para distin^ZJrs-fT guir na intelligencia de um homem a dosagem /*~r *p?+ perfeita do extranho precipitado da treva com a y/u * j pureza. trapi^ortaf-se em mil figuras/'***'*'^^ em creança maligna. mas de uma alma isolada. que é a sua encarnaçãoprefe/p ' rida.. Na lenda do cur/upira outro ti mundo se descortinava.." ^ ^ r das o encontro dos vários aspectos dos feitiços.*-*CHANAÀÍiy 111 seu espiritcffici tranoformaraim em divindades barbaras. Ella espanta.. Mundo encantado e *u~<u^«mysterioso. E Milkau ia lentamente a d o r . /^~ as forças eternas da natureza que assombram e cujo symbolo era essa divindade errante que anima as arvores. d/jbfiÚfp1 de outra. esse das almas dos povos ! O verdadeiro *• J V^C~ philosopho.

Um desdém pelo mulato. vi era o rio immenso. sentia-se esbraseado com o sol que inflammava ffijjjbféÀfy e lhe queimava o sangue. As visões accumu/ ^ ladas nos últimos dias de travessia da matta per/ de s i s t i a m em toda a sua força. no meio de homens primitivos. risonha. a escravidão se não conheça. . onde a luz se não apague.v t* 'Lentz dá esforçava""por dormir ej(jl debatia/inutilmente para afastar os tumultuosos pensamentos que lhe galopavam na cabeça. seja um perpetuo deslumbramento de liberdade e de amor. E Lentz sorria com orgulho na perspectiva da victoria e do domínio de sua raça. Ora. impeliido por uma força d'esse poder mysterioso que animava as moléculas mais intimas de todo aquelle mundo novo.miLavan/ deliciosamente até á sua alma. . no seio de uma nova terra suave e forte. que seria a incógnita feliz do amor de todas as outras.112 / CHANAAN noite tropical. surgindo docemente. ora. sentia-se passar pela sombra humida da floresta cuja exuberância e vida se /. uma nova raça. ora. E Lentz via por toda a parte •sj^~ o homem branco apossando-se resolutamente da terra e expulsando definitivamente o homem moreno que alli se gerara. e o que era scisma da vigília se ia pouco a pouco transformando no puro sonho em que elle entrevia n'um horizonte illuminado. pujante que corria para elle. que repovoaria o mundo e sobre a qual se fundaria a cidade aberta e universal. perfumada. onde a vida fácil. em que elle expri- i.

.. ffly&yixiam'' y>^l agora em grandes massas. aquellas florestas seriam consagradas aos cultos temerosos das virgens ferozes e louras. A Aquellas terras feriam o lar dos batalhadores f/r*'""' eteAos./tf'4/ dade defendida pelos soldados negros. Mas no sonho de Lentz. turvou-lhe a visão radiosa que a natureza do paiz lhe imprimira no espirito. não para mendigar a proprie. >aporca^ i m m e n s ^ « ^ m ^ / e numerosas os desembarcariam em tõdo~ o paiz. alli se fi^j^aram e macularam com suas torpezas //c*r* a terra formosa. em cohortes infinitas. e senhores..<^ nente ... Tddo **-/ Jelle era agora um sonho de grandeza e triumpho.. fundariam um novo império. ~r yMJjtí dixiam n'uma anciã de posse e de domínio.. sobre os exércitos que caminhavam. Elle percebia no seu cérebro exaltado que os allemães íam. e eternos repousariam para sempre na alegria da luz. elles se espalhariam pelo conti. e ricos. e poderosos. vift não em pequenas invasões humildes de OfuLíAii^ 'escravos e traficantes. uma massa immensa e preta marchava no céo qual uma nuvem conductora. Ay/^ com sua áspera virgindade de bárbaros...~ "" nariam como uma vassalla. Era tudo um recapitular da antiga Germania. sobre as náos que velejavam.CHANAAN l 113 mia o seu desprezo pela languidez. eternamente na força da natureza que domi. . e depois se transformava n'uma figura extranha e agigantada. elles os eliminariam com o ferro e com o fogo. matando os homens lascivos e loucos que . não para lavrar a terra para . ^ recreio do mulato. pela fatuidade e fragilidade d'este. fé xevigoxa>iJÍ erf&m.

.111 CHANAAN cujos olhos penetrantes desciam do alto. Então (LentZN^yhj) pairar sobre a terra do Brasil a águia negra da Germania. .. envolvendo as terras e os homens c o m u m a força invencível e magnética.

alli se desdobrava a perder de vista. ^ Idas arvores cujos galhos outr'ora pendidos como * /chorões simulavam sorver a água. e agora quasi submersos tingiam n'uma orla verde o cinzento pérola do rio. Era a única quebra da immobilidade. que. No seu passeio approximaram-se do rio Doce.IV Na manhã seguinte. depois de se fatigar em curvas de réptil por entre os brandos contornos da terra maravilhosa do Espirito-Santo. Milkau e Lentz muito cedo estavam admirando o logar. A omnipotente amplidão das águas $ engoliu as margens. devorou a vegetação das praias. estremecendo n"um leve arrepio a humida superfície. e a tímida linha de . avassallando com singular grandeza o perfil da matta. sobre cujo dorso luzidio e dormente a brisa perpassava volátil. crivada de clareiras. As grandes chuvas dos dias anteriores tinham enchido fartamente o rio. A cheia domina toda a paizagem.

. indistincta... para formar o quadro da vida. onde o crepúsculo é um sonho fugaz e a noite cáe como uma cortina negra que iechaftjfâkl^ V ^ r ü X . jfonydMljto dia... „ cerração o delicioso momento da resurreição das cores esplendidas e n'estas voluptuosamente repastavam o faminto appetite da vista. porém. suspensas sob o céo. o espalha como um tufão.ÊOL. Milkau e Lentz sentiram n'aqueíla 'M. Abre-se uma trégua para o eterno conflicto da luz e dos tons. com que facilidade não a esquecemos. e o panorama que se apresenta não é o constante dia de sol pleno. como esta tranquillidade. fulvo amarello. E hoje me sinto feliz como jamais pensei que o seria. Parece-me que attingimos uma região aonde não chegam os gemidos humanos. e como um só minuto de descanço não nos dá a illusão da eterna calma! — E que nós somos victimas dos divertimen- . o espaço e j^/í$54átí|0r íião é a larga e quente paizagem monótona. inundando de um só fff <w*4w&Ç°lorido. e a dôr. — Não ha nada. dizia Milkau emquanto andavam. risonha e amável. Emanadas das águas. sensação extranha e bVils?^. E que a felicidade é o esquecimento e a esperança.^^. aqui não ha um signal de soffrimento.. Quantos elementos. tudo é Wy vida fácil. nevoas densas apagam por instantes o sol..110 CHANAAN montanhas ao longe.. a sombra cobre a terra e faz a côr. ]$(/%$$/ a natu/. por isso mesmo o prazer lhe é mais inherente e imperceptível./ "reza humana é feita para o goso. não estão em nós para afastar a dôr .

— A esperança.èl/ti^ Ella J^yc^não existe como entidade. — E eu também vejo aqui a terra immaculada com as suas grandes energias de felicidade. E hoje. dominadora. distinguindo-se pela vontade. forte.. disse Milkau a sorrir. A nossa superioridade sobre ella. n"este grande scenario. para martyrisar-nos ao seu sabor. que percebe as suas leis. já que não podemos apagal-as de todo.. — Mas a vida é mais natural do que a morte. que.. Adormeçamos as tristezas do nosso passado.. venha renascer aqui. tu sabes. temos de tirar o verdadeiro sentido da nossa excepcional situação. está exactamente nessa consciência que é nossa. Muitas vezes tinham de abandonar 7.CHANAAN 117 tos da natureza.. nos acorrenta á vida. que por esses pérfidos e doces venenos cujos segredos ella possue. aqui situados n'este mundo. que começa ainda virgem de sacrifícios. se apodera de nós e nos arrebata para o futuro. saltando pelos séculos de humilhação. .. e n'ella viverei para vêr reconstruída a cidade antiga. as suas fatalidades e nos obriga a tomar o caminho mais seguro para a harmonia geral. Não é verdade que somos felizes ? Pela linha da praia que a enchente tornava apen as uma vereda Comendo o mattoJEóntinuavam elles o passeio. e a vida nova se abra-para nós como um sonho realisado. o prazer mais do que o soffrimento. E tu emprestas n/ á natureza uma consciência que ^kM.

que chama a ambição e espraia o instincto da posse. abandonados á sensação agradável da fresca manhã e á volúpia das illusões. — Não seria muito mais perfeito que a terra e v J 0 suas fqJfH fossem propriedade de todos. como que alargando o espirito n u m conforto amplo e bemfazejo. — O Estado. Não acreditas que o próprio ar que escapa . e pelas minhas próprias mãos. amanhã será a preza do homem.. sem posse? i>> n. sem '.. mas o que havia de monótono não fatigava. — Oh! não haverá difficuldade. Por longo espaço o panorama era immutavel. desdenhou Lentz.#M*i — o que eu vejo é o contrario d'isto. devemos escolher o local para a nossa casa. disse Milkau quando chegaram a um trecho desembaraçado da praia.118 CHANAAN o caminho e cortar pelas picadas. É antes a venaiidade de tudo. O que é lamentável n esta solemnidade primitiva é a intervenção inútil do Estado. de talhar o nosso pequeno lote. porque a vastidão das águas. — Hoje.' venda.. outras passavam aos pulos. replicou Milkau.. E riam com essa gymnastica. uma ligeira inquietação de vago terror se mistura ao prazer extraordinário de recomeçar a vida pela fundação do domicilio. que no nosso caso é o agrimensor Felicissimo... n'«ste deserto. a ambição. O que está hoje fora do domínio.. eliminava o enfado. dentro da vegetação . K ^ — Çtyahkjfld mim.. de pedra em pedra. a sua opulencia.

depois de se apossar dos jardins. será vendido. O sentimento da posse morrerá com a desnecessidade. das estradas. dos palácios. se estenderá a tudo ?. não vês a propriedade se tornar cada dia mais collectiva. n'uma grande anciã de acquisição popular.. não o ampliarei. Desde que chegámos. Os naturaes da terra são expan- . explicou Milkau.CHANAAN 119 á nossa posse. será o mesmo que hoje receber. Ha em todos uma resignação amorosa. ha como um longínquo afastamento da cólera e do ódio. Todos mostram a sua doçura intima estampada na calma das linhas do rosto.. Porque só pela riqueza ou pela força nos emanciparemos da servidão. — Pois eu. . ponderou Lentz. idéa de converter-me em colono. si me fixar na ' dt<. nas cidades suspensas. desejarei ir alargando o meu terreno. como é hoje a terra? Não será uma nova fôrma da expansão da conquista e da propriedade ? * — Ou melhor. . sinto um perfeito encantamentqjjião é só a natureza que me seduz a q u L ^ u e m e festeja) é também a suave "contemplação do homem'.. ficarei sempre alegremente reduzido á situação de um homem humilde entre gente simples. . com a suppressão da idéa da defesa pessoal. dos museus. • que n'elle tinh* f /*> jfflfâ/f #jL5fc-.. que signifique fortuna e domínio.... mais tarde. não me abandonarei á ambição. — O meu quinhão de terra. que se vae alastrando e que um dia. chamar a mim outros trabalhadores e fundar um novo núcleo.

. No encalço d'elles uma voz clamava.que éo feliz gênio da sua raça. e os meus amigos já tinham azulado.120 CHANAAN si vos e alviçareiros da felicidade de que nos parecem os portadores.. Os que vieram de longe. para só pensarmos nos outros e não perturbarmos a serenidade d'esta vida. corno si despertassem. — Bom dia. não ha grandes separações. pois havia um s / ... e viram a cara triangular e interrogativa do agrimensor. de olvido e de paz. Ha-de haver uma grande união entre todos.. estão tranquillos e amáveis.. tirando-os da divagação : — Mas então que fugida foi essa ? Para onde se botam ? ^ Voltaram-se. Accordo. Vendo-os. Tivemos pena de accordal-o. vou procural-os para um dedo de prosa. eu adivinho o que é todo este paiz— um ninho de bondade. o próprio chefe troca no lar o seu prestigio pela espontaneidade niveladora. que se atirava a elle n'um gesto festivo e bondoso. visto-me n'um pulo. esqueceram as suas amarguras.. Todos se purificarão e nós também nos devemos esquecer de nós mesmos e dos nossos járxjinzo^. agarrando com enthusiasmo as duas mãos de Felicissimo. que vinha quasi a correr. disse Mirkau. —. — Pregaram-me uma peça. não se immolarão victimas aos preconceitos abandonados na estrada do exilio. a justiça será perfeita . não haverá conflictos de orgulho e ambição..

E ' -^tu o sol que se desprendia das" nu vens. — Pois eu.. E. um kilometro. disse Leritz.. melhor desistirmos fi &jfH e aproveitarmos o tempo para um passeio uj ^ mais longo ? — Seja. puz-me á caça de vocês. — Aqui mesmo n'esta direcção. farejei aqui e acolá. E nem tomaram café. 'muiiln pi In i nnurnr. semiequencia. caminhando um a um na estreita beirada. nevoenta. concluía orientado : — Aqui devemos estar no lote vinte. como si fosse toda a <Z//. insistiu o agrimensor. aos saltos e trambolhões. Inundado pjflffl/táfytóffl de amarèllo. A conversa ia-se vàidndo em vozes altas.. distrahidos. e fui bem feliz em ter virado para esta banda. Porque não aproveitamos para ver^seso lote de que hontem lhes falei ? — De que lado fica ? perguntou Milkau. viemos até aqui. /srK<™ZC . transformava com violência'. E Felicissimo. mais ao . Voltaremos ao barracão á hora do almoço..o //ddjiéado quadro da manhã M/pe^.CHANAAN 121 grande silencio na casa quando sahimos. olhando rapidamente para os lados. grande e incandescente massa do sol derretida. e eu lhes mostrarei o numero dez. nem nada. andemos um pouco..//</«•*vista. >' ' Crot_ correndo sobre a Terra. — Não acha. Felicissimo frimnn i fn ntr. o' «• rio chammejava em ouro.menos. seguia impre. farOvxA*' — Estão cançados ? gritou Felicissimo..

— É por causa do caminho. E assim foram até que.. galhos e dos arbustos. que vamos srahir mesmo dentro do lote. que não era muito batida nem destocada. tudo é agreste e selvagem.hJjo C/ gritar nara traz. Felicissimo enveredou por este. recommendou-lhe cautela. porque realmente tomámos pelo peior. e quando via este ^ ^ á ^ í l p e l o companheiro. — Tudo aqui será uma grande difficuldade. O agrimensor divertia-séem yí-aLÍ- /. Lentz. evitando os tropeços e as poças d'agua.ffbos com a mão. em frente a um atalho. tomando um largo fôlego.*/ Xí^jtz**n. tudo ia bem. não ha a menor sombra de conforto. — Cuidado ! implorava este a sorrir. iam vagarosamente.. saltando ligeiro para deante.G4fi. de instante em instante : C á direita ! Agüenta! — Com a mão À/jfJjffl/ ° ramo.12-2 CHANAAN — Que juizo faz de nós ? perguntou Lentz. Não é melhor . não ha estradas. — Arre! Que brincadeira! Nunca pensei que o rio estivesse tão cheio. outras era preciso djÁ n 6Q."" UiYfA. pensava elle. á direita. calado. si tivéssemos vindo por cima. e virou-se para os immigrantes. Oh ! diabo! O agrimensor n"um falso movimento metteu o pé n'agua. Passando para a ligeira sombra do matto e caminhando pela picada. largava-o. Agora cortemos por aqui. suspirava bocejando. e uma lambada forte e farfalhante batia no. As vezes era precipitado. Algumas vezes tinham de se abaixar para se desviarem dos iii.// j J\^_ .rosto ou no corpo do vizinho. Lentz que o seguia.

que lhe sorria como um bemaventurado.^ campanha contra a natureza inculta! Não é pxe-' LL&Á/ ferivel toda e qualquer outra vida a esta ? Não é?. onde o caminho já esteja aberto e tudo aparelhado pelos / / outros? Realmente. sabe. a política se mette no meio. que loucura dfffax-me n ' e s t a / ^ ^ . limitam-se á sua casa. e.CHANAAN 123 que eu desista de fazer esta vida de colono. e matando a solidão.. — Que delicioso deserto! dizia-lhe este. limparemos as estradas. Em geral. ao seu terreno e esperam que o governo se mexa. . Não é verdade ? — Aqui não falta em que trabalhar. respondeu o outro quasi timido. — Imagino que o senhor deve ter muitos aborre cimentos. que havemos de abrir caminhos por tudo isto. receioso de deixar transparecer o seu desalento. E que não se faça! Lá vae uma queixa por intermédio do Roberto ou de qualquer outro figurão ao governador.. ao penetrarem mais e mais no matto espesso. que nos recompense. cortou o agrimensor. os colonos não querem fazer nada. — O h ! descança.. e me enterre ahi n'um armazém de commercio... — E pena que a estrada não seja melhor para gosarmos desembaraçados este passeio. que lhes dê estradas. pontes e tudo mais. E os seus olhos descançaram em Milkau. e nós estamos a levar carões todos os dias. disse complacente Milkau. prepararemos o terreno. levantaremos uma habitação risonha..

Creio mesmo que já cahiram uns páos . e é preciso fazer a ponte de novo. Isto leva ainda um rôr de tempo. foram á fonte limpa. que por sua vez o mandou para cá. Lá vem outra vez segundo barulho. a fim de fazer o orçamento das obras. Agora mesmo. — Ora.. e Roberto arranjou com elles um « nós abaixo assignados ». porque o tempo não descança.. o inspector não se importou com o que disse o pessoal./ ' CHANAAN — Não faltam amofinações. será muito pouco. A zanga do agrimensor era d'essas que passam á medida que é espraiada n u m desabafo de linguagem. E a minha vingança é que quando vier o dinheiro. que são matreiros.. — E n'este tempo que recurso têm os moradores. e . nós pedimos verba e. tenho um officio do inspector.. como de costume. Immediatamente depois.. o páo vae apodrecendo dia a dia.. inspector e toda essa recua. Sou um seu creado. muito simples. o governador se assanhou logo. si a ponte cahir? perguntou inquieto Milkau.. elle tinha esquecido tudo e voltava á sua jovialidade. que mandou para a Victoria. Botam uma pinguela de lado a lado e vão vivendo. ao engenheiro. mandando o engenheiro informar a respeito fájj&ffl representação dos colonos sobre uma ponte que está com o madeiramento estragado. os colonos porém.. com medo das eleições.l-2'i //. Andaram mais um pouco pela picada e sahiram vertical- .estou me ninando para o governo. mandou o papel ao inspector.

/ ^ T ^ 9 í Ficaram mudos e como ligeiramente apavora^ dos pelo recolhimento das coisas e como si uma sensação de isolamento. accrescentando : — Este lote é muito bom. Oh ! Ha de ser um gosto ! — Aqui estamos bem. o que não é nada. que era forte e traduzia a fertilidade do solo. porém. vejam que terra cada páo de respeito.. disse ' Felicissimo./v b r a j f ^ / e calida. / . — Estou por tudo.. de separação do mundo os mortificasse por instantes. disse Lentz arrastado. e elles acabam isto n'um abrir e fechar de olhos.X / / mentos. com as arvores crescidas e todo tapado pela vegetação. ./ . Depois do roçado. a quem uma onda de illusão sacudia o torpor da instantânea cobardia. e ? dissimulando a divagação dós seWoutros pensa. impacientou-se por uma resposta. concordou Milkau. Não viam nada de lado a lado : a vereda fora aberta em plena matta e tudo era encerrado n'uma som.. j&W*' — Está aqui o lote que lhes recommendo.. não nego.CHANAAN 125 mente a' um caminho mais largo e mais limpo. Felicissimo... em cujo espirito trefego e intempestivo o silencio não tinha abrigo. Vocês. andando mais uns passos pela nova estrada. Os outros olharam um mattagal cinzento. É preciso um pouco de trabalho. a difficuldade está na limpa. fazem um arranjo com a turma.

.. adaptando-se ao meio cósmico por uma extraordinária longevidade da espécie.Por ora nos conformaremos com este momento de transição. preferiria um lote onde não fosse preciso esse sacrifício. — Eu.. Emquanto os outros se batiam em ^ptAtevrad. — 0 homem. acudiu Milkau.. para nos expandirmos. e então dispensará para subsistir o sa«/crificio dos animaes e das d/fyff.íw+***- l—J . notou Lentz a sorrir com ar de triumpho. levado pelo mesmo sentimento. O agrimensor olhou a arvore. atacando aTerra. Sinto dolorosamente que. que alma tem esta arvore ? E que tivesse.. como succede com os vegetaes. receberá a força orgânica da sua própria e pacifica harmonia com o ambiente.126 CHANAAN E apoiou-se negligentemente a uma sucopira. — Faz pena. e firo menos o que ha de material n'ella do que o seu prestigio religioso e immortal na alma fiumana. CVi^A^y^ rto> t*+. Nós a eliminariamos.\>í.offendo a fonte da nossa própria vida. botar tudo isto abaixo. por mim. — Não ha nenhum. E depois. respondeu Felicissimo. mas virá o dia em que o homem. E Milkau disse com a calma da resignação : — Comprehendo bem que é ainda a nossa contingência essa necessidade de ferir a Terra.. de arrancar do seu seio pela força e pela violência a nossa alimentação. disse compassivo. ha de sempre destruir a vida para crear a vida.

. dadas ás victimas no momento do sacrifício. — Hão de ver.CHANAAN 127 Felicíssimo. tro da matta penetrava o vento da manhã e nas y \ . que jv*. porque esta situação é admirável para o café.. ^ A aw— Então.os troncos. como as queixas surdas dos mo-1—«t^^i^j-A^ ribundos. que se escoava de ^rtodas as arvores. ahi está á vista o estirão d'agua. commentou Milkau n'uma irradiação de intimo bem estar. levantando um V* murmúrio baixo. Vien-Z^AM. *Z. *<^* A^~ * t~ sy**w/y y .. — Sem duvida : é só desbastar o matto. são horas do almoço. Puzeram-se a caminho. — Será uma delicia uma casinha n'este bello logar. humilde. alvoroçados com os vários sentimentos que os trabalhavam. á beira da estrada. no seu amor ingênuo á natureza. e. que decidem ? perguntou aos outros o *<*?' / / agrimensor. espantando os pássaros dormentes e c ^ J^ \ sacudindo do voluptuoso lethargo os calangos. — Fazem muito bem. E agora toquemos para o barracão. — E vê-se bem o rio ? indagou Lentz. além disto.. Na estrada </4<r/ " ? ^" falavam alto. estabelecendo terreno indicado.1++& Os immigrantes concordaram de bom grado em j ^ . E hoje mesmo voltaremos com os homens para a medição. e com a mão meiga lhesjfestejava . folhas passava brandamente. é muita commoda aqui. como /s u l t i m / s $ 0 f ô « . mirava as velhas arvores.

Os trabalhadores já rodeiavam a mesa prepa- ^ 1 ^ ^ ^ .escolhido. os seus innumeros funccionarios. — Vamos á boia. e foi esta a única formalidade para a entrega do prazo. e ahi. com f l^t/iS™^'/ ás suas repartições publica/. á semelhança dos outros que já tinham sido concedidos. afinal. disse Felicissimo passando a mão espreguiçada no hombro de Lentz.se concentra nas mãos reduzidas de um humilde agrimensor. continuando nos mesmos elogios. ao mesmo tempo. Chegados ao barracão. foram logo para o escriptorio. E eis como. Este furtou instinctivamente o corpo como para não ser esmagado pelo gesto da intimidade. As folhas dos requerimentos eram formulas impressas. Felicissimo punha e dispunha das terras a distribuir. marcou o lote com uma cruz. e em uma d'ellas Milkau teve de encher i com as indicações especiaesde identidade os pontos em claro. ^ V &i&&*y&€sr+y • fu*~ **' . pensava Milkau. Isto feito. que de facto é o senhor absoluto d'esses bens públicos. graças á condescendência do chefe. e. molhando úma penna em tinta &JU*^ encarnada. que já vae ficando tarde e vocês devem estar dando horas. os dois companheiros entregaram a petição assignada. pois ainda não puzeram nada no alforge. em frente ao grande mappa dos terre[ nos. o agrimensor mostrou-lhes a posição do prazo *« A. n'uma musica de chocalho. pagaram as custas da medição e da planta.12S CHANAAN se escapuliam pelas folhas seccas. pois. toda a complicada engrenagem do Estado.

Milkau cortezmente procurou con- . Felicissimo passou a entristecer. Isto espalhava na mesa uma leve melancolia. A refeição a principio correu ruidosa : todos estavam expansivos pela fome e pelo começo da familiaridade. rindo sem saber de que. e por mais queluctasse para disfarçar. O boccal do barril era pequeno para tanta gente. os homens da turma. No terreiro cercaram um barril d'agua. — Vamos! aviem-se. Uma alegre algazarra se formou. não poude resistir e cahiu n u m a scisma profunda. gritou Felicissimo. mas alvar e gostosamente. esfregando depois as caras com estrepito. em que mergulharam as mãos. Felicissimo com os novos colonos ia atraz. Para o fim. Depois armaram-se com os instrumentos e ferramentas e puzeram-se em marcha na frente. uma súbita preoccupação_£8 apossoü^aelle. bufando. Por vezes. quando os outros entraram na sala. no caminho. e que era o prenuncio das medições dos leites. Mal acabou o almoço. retiraram-se do barracão. habituados a essa afflicção intima do agrimensor. cada qual esmurrava o companheiro. E á voz de commando a alma obediente dos homens serenou e todos em ordem terminaram a ablução. arrastava-o no meio de amáveis insultos. d'onde o semblante do chefe carregado de sombras os expellia mais depressa.CHANAAN 129 rada pobremente para o almoço. e os homens rindo disputavam entre si a precedência. que refreiava a expansão.

Depois de algum tempo. Todos pararam mecanicamente. toISÜS?" 1 0 " P o s i Ç a o c o m ° s e u fftffflífofri e ordenou a três trabalhadores que seguissem pela frente da G*) f—J estrada com ds marcoo. / Os trabalhadores começaram a desatrelar os instrumentos e os seus apetrechos accessorios. Pediu J|KM cavalloto om fôrma de t r / que um homem lhe apresentou rápido. que.? brancas e encarnadas. . abrasados pelo calor do sol. — E aqui que temos de abrir o rumo. ^ „ S í£. / W "& 11 *V*-. Houve um momento. disse com solemnidade : — Não sei si os senhores conhecem. e foi com certa sofreguidão que viu abrir-se uma caixa e d'ella ^ r e t i r a r um instrumento. em que Felicissimo deu voz de alta. O X agrimensor os acompanhava com uma compenetração religiosa. mal respondendo ás perguntas. e o moço cearense entregava-se á sua tarefa com extrema attenção.jb í **** / %2tl ' ÓZs-c frjb* y*^~ ^T^ JÇ^ o*».130 CHANAAN versar com o agrimensor. que mesmo no matto coberto era abafadiço.' o t r V A ^ • ~~ *-***: . soturno. se mettia comsigo. depois de andarem bastante. Hoje fazemos U >. Então seguiam em silencio. Estupenda invenção! Dispensa grande trabalho para levantar as plantas. yfc-*» *** % »* f ^ * < 1 * 9 y%.+ h* . e re aquelle passou o agrimensor a atarrachar o instrumento. que recebeu em suas mãos com febril anciedade. ruminando os seus pensamentos. Havia uma calma grave em todos. / medições emquanto o diabo esfrega r/olho por- / Q. quo sram^balisas pintadas / / / em zona. Isto é v theodolito. E virando-se para Milkau e Lentz.

. Grande invento! Sem elle não sei como me arranjaria! Os novos colonos conheceram pasmos um novo Felicissimoiy não sorriram. Cada um o temia e instinctivamente se ia afastando do apparelho perturbador. que conheciam esse momento terrível do theodolito. voltava a rectificar as lentes. atado em sua angustia. tornava a ageital-o. parecia interminável. é a combinação do nivel e da altura: toma-se um angulo horizontal e um angulo vertical ao mesmo tempo. Já o tomava a angustia de não acertar. a ponto de insultar e espancar os seus homens. — Ah! disse aos hospedes.7 ainda mais solemne e entregou-se todo ao instrumento. no chão os pés queimavam. . espiava outra vez e sempre o mesmo resultado negativo. ora de menos. um suor frio e extenuante alagava o agrimensor. O agrimensor calou-se ^nrt*«*«. E a afflicção do agrimensor n'aquelle dia redobrava á vista de Milkau e Lentz. f//~r O sol esquentava. sempre com insuccesso.. sem resolver-se a medição. torcendo-as ora de mais. erguiase para espiar por cima. mas ora teimava em seus movimentos. Voltava ao instrumento. e para Felicissimo. abaixava-se.. Em roda faziam um timido silencio os trabalhadores.CHANAAN lál que. E só n'elle/ Felicissimo se transformava. Elle tem hoje o . mirava na objectiva. ^ para quem dkjí preparava a scena da sabedoria.. como sabem. ora abandonava o apparelho e ia miral-o de longe. O tempo ia correndo. com medo de algum desabafo.

. e em casa mais á vontade o desarma para vêr. o senhor está fatigado. depois. e agora definhava no desespero de conseguir qualquer observação.. disse-lhe : — E melhor deixarmos isto para amanhã.132 CHANAAN diabo no corpo: não consigo vêr nada. tornavam-no gago. murcho. mas a anciã e a vergonha do insuccesso não davam forças á sua ira. Com certeza foi quebrado por algum d'esses miseráveis. que agradeciam com os olhos a presença dos novos. E.. enfraqueciam-no. Com certeza ha alguma coisa ahi dentro. Milkau com pena. é melhor. Hoje está muito quente. N'este tempo os homens das balisas estavam fatigados e começavam negligentes a oscillar os marcos.. eu logo vi que era você que não me deixava pôr em ordem o theodolito. 'cww E c o a v a raivoso o grupo dos trabalhadores. afastando o páo da linha. Uma grande tristeza se apoderou d'elle. — Sim. Mas para não perdermos tempo. Felicissimo ficou colérico. Felicissimo arremessou-se ao primeiro : — Oh! seu ordinário. quem sabe? O theodolito pôde estar quebrado. . Ao contrario.^ O homem «e desculpo u-f dizendo que arreiára o marco quando o chefe já não estava no apparelho. si . Deixe para amanhã com a fresca. tínhamos andado antes. Voltou ao instrumento. Almoçámos bem. evitando maiores conseqüências da cólera do chefe.

— Guarde isto. — Com certeza. Elles sabiam bem que o agrimensor. que sobre elle exercia uma influencia satânica. E como o agrimensor se approximasse d'elles.CHANAAN 133 fizéssemos a medição com a fita?. o punha fora de si e era causa d'esse terror cujos prenuncios lhe sombreavam o espirito desde o fim do almoço.. lhe alterava o caracter. o allemão parou. dizia em aparte Lentz a Milkau. E um systema atrazado e de que não gosto. não ha remédio.. não conseguira trabalhar com o maldito instrumento. s . Cumpria-se a velha e costumada comedia do theodolito. o apparelho está quebrado. em mais de duzentas medições. e o seu jovial humor o retomava francamente. ordenou Felicissimo a um homem. A medida que o theodolito ia desapparecendo na caixa. apontando desdenhoso para o instrumento. — Estes mulatos. abrir o s ..tf1/ telligente. a alma de Felicissimo se ia libertando da angustia. desinteressado do theodolito. porém. mas emfim. Os trabalhadores ráj&taa^fcss todos com ar in. apagando os traços da agonia scientifica. disfarçou.. alteando a voz. um pouco sarcástico : — Vamos á fita! A medição fez-se como sempre. As medidas foram tomadas na fachada da frente do terreno e nos fundos dentro da matta: postes fincados nos quatro ângulos assignalavam o lote adquirido pelos dois immigrantes. Faltava.

L1-Í "rrvotfáy CHANAAN rumo que separasse de lado a lado este quinhão de terra. uma fúria hysterica de destruição. disse Milkau. e derrubadores em grupo combatiam ao mesmo tempo uma pobre arvore. O agrimensor bondoso e serviçal acquiesceu. si este não sahir de accordo com a planta. para cortar. Nós tomamos a responsabilidade de abrir novo rumo. O machado cantava com energia no âmago dos troncos. Mas quando miraram o serviço feito. O ferro não descançava nos braços sempre em movimento. os homens como que despertaram da sua instinctiva preguiça e estimulados á vista dos extranhos se atiraram duramente á derrubada. — Não seja essa a duvida. Havia uma raiva. O cearense objectou que a planta não estava tirada. a principio « W iam escolhendo. ainda receiosos de ^ yJMp^x/n^r ú^J trabalho. e em pouco tempo estavam completamente alheios a tudo e entregues á sua vertigem malvada. os marcos estão collocados e o rumo irá sendo aberto com as balisas e medidas rigorosas. e Milkau *» entendeu^com os homens. Ouvia-se cahir o machadodes- . os trabalhadores estavam a derrubar o matto. Milkau dirigiu-se a Felicissimo e perguntou-lhe si podia contractar com os homens esse serviço para aquella hora mesma. n'um compasso vagaroso. os pequenos arbustos.. dos outros. Momentos depois. O rumo ia sahindo acanhado e torto. ladeando quando se encontravam com uma arvore mais robusta.

agora harmônicos e regulares. Algum dia te verei. e no impulso furibundo o ferro penetrava tanto que. Adeus. Quando estes encontravam um páo mais duro. E cantava n'um tom que era um longo soluço : ///óCLeal-i ^J r //J7 u 4k Adeus. redobravam de ardor. Era o grande acontecimento. o suor lhes escorria. o drama da sua vida esse abandono da terra natal.distrahiam-se. cravando mecanicamente o machado nas arvores. Os allemães instinctivamente o imitaram e cada um em sua própria lingua cantava versos bebidos na fonte natal. A pequena fadiga fazia bem aos seus membros hercúleos. e das / / / ? boccas rudes deixavam sahir os velhos cantos amados. e adeus. paxá J(éffifá0$\° homem tinha de fazer um esforço desesperado. agora. Joca fora o primeiro a soltar a voz. matto. Em outros momentos j . E elle o cantava sem attender a ninguém. energias do seu ser humano. e a alegria' se lhes espraiava nos rostos congestos. serenavam. O mulato maranhense dizia as saudades do seu coração. tudo o que mais amava com as intimas. habituados ao exercício. campo. casa onde morei! Já que é forçoso partir. Não mais roncavam com a anciã dos primeiros movimentos. Iam para adeante. o golpe era tirado bem do chão.CHANAAN 135 locando o ar e arrancando um ronco forte dos robustos peitos dos devastadores.

noch ein. Joca se expandia ém gritos voluptuosos.. e dos seus labi<*§ inconscientes sahiam versqp de outro caracter : Vi o teu rasto na areia E puz-me a considerar : Que encantos não tem teu corpo. A derrubada do rumo proseguia mais activa V. 'dl&g^ed. Perpassava na cadência e no pensarríento da estrophe o frêmito da lux-uria meiga e jj-----^ . i r i 1 ' doce de toda a sua raça. $**~ os immigrantes sonhavam-W pela suggestão das t r^~. e ruidosos : ..y .l-M CHANAAN abandonava esse queixume. mais um).«(\ / -Miifetba-iJStavia uns diasjno alojamento dos immigrantes. A esta solitária voz brasileira se juntavam os accentos fortes e musicaes das vozes allemãs. — . Elias cantavam em coro.. Si o teu rasto faz chorar! Jb e***rüjj'*''N'esta imagem tão ijina-e-tã-e---mpEtior de um sentimento animal.' qju /cantigas. que se casavam no ar n'uma 'união extranha. e por um momento alli mesmo. Noch. fií . e os versos que diziam eram echos das tabernas do paiz germânico.. » (os velhos allemães bebem mais um. Teu rasto faz chorar.<fQI/ e mais alegre. /reunido^ aa beb L Jt'I « Die alten Deutsche t: fen noch ein. os immigrantes sonhava beber. dléMàMa' embebido na contemplaçãolcorrer y\. Os echos recolhiam as rimas singulares das duas raças. noch ein. em plena selva tropical.

^ -T^ A idéa do fogo chammejou no espirito do com. por toda a parte destruindo como um r^^. o estremecimento do ar tj» .**• cortado. l/-«/r~-#^ Amanhecia. e disse ^*~ *£«*_ resolutamente: 'TL--»**' t u — Temos de queimar o matto. I rápidas. ainda assim. Comprehendia a fata-^l^S?Z lidade do seu destino e resignava-se. uma alma na har. de quem vae cumprir os ritos de cultos infernaes. N'um dos ângulos da matta lançaram fogo á primeira moita. apontasse para o alto as línguas ardentes. architectada pelo seu coração em longo sonho. E em roda d'elle a vida em tudo : na terra gera. ' '^T^y. Mas. Pouco depois.. E Milkau vibrava_^__ !?<yZf com a recordação de todo o soffrimento que o AM^4^* I homem tem causado no mundo. Milkau perdoava ao homem.(gn 'OÃÕHse decidida começar essa vida. á necessidade. quando se chegou a Lentz.^^" p*^ monia eterna do universo. passando indiffcír^y ferente sem ouvir o gemido do mar rasgado.Í^~«A'-*" panheiro.„•£$»«-. /^. que lhes pareceu mais resequidi Antes que a labareda .. na mulher que elle ama. os homens fftfflfy reu.CHANAAN 137 o tempo-. n'uma subor/y^t^t^. uma fumaça grossa se desprendia do . dinação indiscutível e indefinida. Sentia que um pouco da belleza O e do esplendor da terra ia morrer. i Uma piedade indefinida deante do sacrifício da matta o entorpecera. a A ^T '• queixa da floresta ardente./ / y n i d o s ^ * todos penetraram na floresta com um recolhimento sacerdotal. fatal portador da morte a integridade da fôrma. y»**r«M£tTudo vive.-L-U. tudo tem uma voz. {/' dora. rubras. no pó que pisa.

t o c ^ a s monstruosas. ^ . remontando ás alturas n'um vôo deses. e a fumaça augmentando entupia 'ff+l "i l^yr— f*.chavam. Estas estremeciam n'um delicioso espasmovPá ' " ú L j .•afc parasitas como rastilho de pólvora levavam as' /é&^y*' chammas á copa. ardiam como **». troncos verdes q u e esta.***^yy.i „„ Recuavam.13S CHANAAN fundo da toiça. Alguns se ^^Jfjtsam fí*/y~0i Z\ tf qv*td>/)+*£+' v . que lhe seguia no encalço.as veredas e arremessava para a frente o bafo syf^h y~y."e. Começara a queima. Uma araponga feria X < ^ rr / ACOVO ar com um grito metaTlico e cruciante..quente do fogo. Muitas ^*$r " ^ 7*P arvores estavam contaminadas. D„ „ „ . resinas que se derretiam estrepitosas. fogo r„n . O vento penetrava pelos claros abertos %*%% 4j^ < >. fugindo á perseguição das columnas que mar.*» * T * ^ .yf l/ v< ^ ei^ ^ perado. atiçando as c h a m m a s . faziam *.„„. vagando na direccão dos caminhos como pastosas nuvens.?*. .yvores./ «tfie esfusiava.-4..<-. pairando sobre o fumo.**. ^ a* ©»*>». e triste. Pelos cimos da matta m escapavam aves t£Z* Lry*^ espantadas. Línguas de <#" * C V T V . Pelas abertas do matto corriam os animaes destocados pelo furor das chammas.t/A+f viperinas attingil-os. tí/k-c*.íL vr*-. e estendendo os braços umas <"jj£" */i A ás outras espalhavam p o r toda a parte a voragem ÁÜl-e-v /y--^° i n c e n d i o . ~ l**M l*l.f ^ ^ ° r " Toda a ramagem da base foi ardendo. Çf fogo sé erguêra-e lambia n u m a caricia satanicjuos troncos das ar. deante do clamor geral das victimas.&*••' /*~y /^ lavam.t / r w _ de arvores q u e cahiam. g^' dora fuzilaria. Os ni.„•„„„. Pesados galhos <*? rfg. suspendia-se no ar leve da floresta.££< f't*d> a m u s ' c a desesperada de uma immensa e aterra. e um piar choroso ^"'j entrou no coro como nota sryyft.AJ nhos dependurados arderam.„„„ procuravam „„„ „<. e as /. Os homens olhavam-se a t t o n i t o s ^ .

A nevrose do pavor. ennegrecidos. E afogüeados.CHANAAN 139 do perigo. Mas o fogo avançava sobre . nos limites da área do lote. a columna. outros cahiam inertes na fornalha. com raiva. N'um alvoroço de alegria.///***£ tonitos.. erectos. com anciã. Os pygmeus que se não mediam com as arvores e que. Do lado da praia o trabalho foi fácil. até que o fogo se approximou. si encontravam o embaraço de algum tronco./n . cavaram a trincheira pelo rumo. ^»arrojavairr"eontra os páos comodenodo de gigantes. e. que eram a "* ossadura do monstro. Do outro lado.elles.como um ser animado. o terreno estava desbastado e limpo. no meio da floresta.jg^ os troncos firmes. quasi pelas terras alheias. E feros e duros atiravam-se á enxada para cavar o aceiro. quando a . repararam que a devastação tetrica lhes C*/r ** ameaçava a vida e era invencível pelo matto a dentro. atacavam-no a machado. Ahi abriram rápido o sulco protector. sob o aguilhão da defesa própria. com febre. agora. at. O fogo não tardou a penetrar n'um pequeno taquaral. os homens viam amarellecer a folhagem verde que era a carne. continuava a queda dos galhos. não podendo vencel-as. ^//>)rfp/ndo-lhes o prazer. tinham recorrido ao fogo.avançava solemne. Sobre a terra queimada na superfície. a lucta foi tremenda. e feno der. O aceiro foi sendo aberto. Surpresos.. centuplicou-lhes as forças. sôfrega por saciar o appetite. Ouviram-se succesrvas e ^<> medonhas descargas de um tiroteio. aquecida até ao seio.

continuando a sua obra. A' noite. incendiado. invencíveis sacrificadores da terra. e os outros miravam n'uma diabólica. satisfação a matta esbraseada se estorcer nas agonias do incêndio. . logo que se reconheceram senhoresdo perigo. Já os homens n'um esforço immenso se tinham adeantado. emquanto a fogueira circumdava n'um abraço a moita de bambus. dè Ml . IIJd(yr*y foi veredeando por um atalho. até chegar ao aceiro. deante do^^spafd-aberto e intransitável. A cem metros de separação. que se erguiam á margem. Farto de devorar a carne dura do /// bambual.140 CHANAAN taboca estalava nas chammas. i^r/Jíendo os arbustos. e lépido. quando as estrellas em rythmo moroso parecia caminharem no céo. As chammas s a abeiraram""aa valia e. o fogo desafogou-se. da varanda do barracão.^ £ v / d e t i v e r a m e^^se/espalharaqojpara a direita e para a *u—/ esquerda. os colonos cavavam sempre. Milkau chamava na sua imaginação a vinda dos tempos sem violência. e célere. os estampidos redobravam x as labaredas esguichavam. < Os colonos e trabalhadores semi-mortos voltavam á casa. ^ t . O fumo crescia e subia ao ar rubro.

o quarto de dormir de Milkau impressionava como uma capella ardente de amor. d^veneração e de saudade. era humilde como as outras dos colonos . apagado do jfe« espirito as manchas da ambição. Trabalhava mansamente no quinhão de terra que occupava. essa mãe. creança que amara quando ella . A sua pequena habitação.A felicidade de Milkau era perfeita. com grandes olhos de dôr e supplica perenne. Apenas. o pae illuminado por um sorriso de martyr. e deixado que a simplicidade do coração o retorpasse e inspirasse. nada existia alli que fosse a traição de um gosto refinado. e a mulher. como veladores Penates que o homem transporta nas suas migrações sobre a terra. quebrando a uniforme monotonia rústica. quasi filha. ou uma pequena consolação da volúpia. Tinha limitado o inquieto desejo. Ahi se viam pessoas da família. erguida no silencio damatta. do domínio e do orgulho. Estava povoado de retratos.

soffredores. mas pelo que aspirava fazer. e que ia se deixando infiltrar da sua cordura e meiguice. emanado do amor e das lem>#<áá»M&-!?ranÇas' ° envolvia. que. Vendo-o assim attento. ^ ^ Fnuicn a pougy'. não pelo que tinha feito. q^tdfíÇ não atemorisava com a sua educa-p^mm ção. poetas. Milkau èejéspraiavgpem relações et-J ^ com o grupo colonial do ria DoceT Achava um ' encanto em conviver com essa gente primitiva. e/em sua presença tinham instinctivamente j T uma artitude cheia de sympathia e respeito. mais lhe queriam os cam<~ ponios. con or £~ ffifáffltâffjem orgulho de intelligencia. amorosos. E ávida. d ^ # # # f p uma armadurajnvencivel./se f 7JJfò6l y mava»com todas as lições que lhe davam os a n t i g o s ^ ^ cy e experientes colonos sobre aslcoisas da lavoura. " " I I derêsígnação. Éll^ jMl j I ^ fee]7entia^amparado por um fluT3o~~dTr"e"spérança. ~ * t o perpetua £ o m m u n h ea oque ffâtifc dá a alegria enche oreligiosa. /cntindo s/ ' feliz e engrandecido. Milkau Jj estava destinado a ser pouco i pouco a figura cen- . O trabalho pelas próprias mãos (|hej\davAa sensação positiva <*da sua dignidade humana!"ps<Jeus olhos procuravam em torno o mundo para onde elle -m queria l t dirigir/n'um forte desejo de affeição. vazio do que isolamento. transfigurando-se para morrer. f/j Q) çfy / o m essas imagens sq& Milkau vivia na e ^ ^ . dentro d'esse quadro(jJjie/sonw/^ > ' como uma deslumbranter_e§urreição.142 CHANAAN c ~f. /g/fa.passara deante dos $ffi olhos. que o recebia sem desconfiança. OsÁ(fi/ffl/ eram retratos das grandes /// w figuras humanas.

Lentz se encarregava-das viagens. desdenhando qualquer conversa. Sempre calado. E assim inactivo. Ao contrario do seu companheiro. torturando-o essa pungente agonia de praticar a existência condemnada pela idéa. e a bondade do sentimento entorpecia-lhe as maldades grandiosas do seu idealismo. que eram o estimulo para a agitação do seu pensamento. defronte do barracão. Era então que lhe succedia encontrar no matto o vizinho taciturno que passara. cercado da sua >. e dar um pouco de fadiga aos nervos. o velho allemão ágil. jiójê!^ áo seducções do camarada. os colonos iam absorvendo o seu inuriortaj/prestigio. elle. Ficara alli ao lado de Milkau.. se completava na contradicção. e sentia uma expansão de alegria quando atravessava solitário as montanhas em silencio £/ sobre ellas dava grandeza aos seus sonhos devida. seguia qual uma visão primitiva. Outras ve?es caçava. na tarde da sua chegada. incapaz de abandonal-o. extenuando-see acalmando-se. o apóstolo da energia. o creador da força. . das compras da casa. era para elle uma grande humilhação. e. como -um verdadeiro homem. enérgico. A vida que tomara.n um esforço tenaz e porfiado. caminhando na doce sombra de Milkau. Jaw"0 . paralysado. sem reparo. como a terra bebe imperceptivelmente as finas gottas do orvalho até ficar saciada..Í^Lentz/vivia^ triste n'um intimo e reservado desespero. Para se distrahir.< ^w/*^*'/<*"**" . <r CHANAAN y ^ ^ ! 143 trai d'aquella região. O caracter fraco trahia a audácia do sonhador.

que ainda viviam em Milkau. e querer s . E também as essências mysticas. iam pelo caminho encontrando colonos a pé ou montados. marchando sempre por um caminho de montanhas. cujos cães o festejavam aos saltos ou iam á sua frente. E na madrugada seguinte. de orelhas cahidas. a terra intumescida parecia. Lentz voltava de Santa Theresa. Milkau. Em Santa Theresa e nas casas de colonos por onde Lentz passara. O novo pastor celebrava o seu primeiro serviço religioso com o<êoncurso dos pastores de Altona e Luxemburgo.144 CHANAAN ardega matilha. farejando o chão. plácidas e vastas do infinito. alevantar-para o ceo. Famílias e grupos ininter- . levavam-no a desejar attingir a eternidade e dissolver-se no infinito. Quando já se avizinhavam do Jequitibá. sahir de si mesma. á hora 3o amanhecer. Sob a transparência crystallina do firmamento. Raras vezes a paizagem transmittira a Milkau uma emoção maior do que n'aquelles terrenos altos. n'um soberbo movimento de força e desespero. resolveu ir ao Jequitibá. trazendo a noticia deque no dia immediato haveria uma festa em Jequitibá. dia Estava elle todo possuído ddy^f espirito da ascensão e sua alma escalara também as regiões silenciosas. todos se preparavam para essa diversão. os dois amigos partiram. para o espaço. Uma tarde. formando caravanas. n'aquelle instante de exaltação e vertigem. que se queria identificar com os hábitos da nova sociedade a que se consagrava.

desemboccando (Jy*»»**^' alli de toda a parte. tr* ' ^ *ij> descortinaram a capella do Jequitibá. via-se a subida dos pygmeus.JJ XÜff pelarem. mais a multidão se engrossava. excitados pela fresca da manhã e pela esperança do prazer em sociedade. era com uma alegria de recemchegados que se saudavam mutuamente^Alguns passavam a galope. parecia borbulhar de dentro da ^g^_<-*-"" terra. e os colonos não se reuniam desde essa epocha. Todos vjateuq. brandas e fixas de um oceano manso. era como uma presa arrastada vagarosamente por um formigueiro. que ondeava.-—"r'1^" diantes. e tomavam / j ó ^ r y t h m i c a marcha de <f/rij procissão. como ondas regulares. 9^ Estál ficava-lhes a frente. pois havia muitos mezes que não se abria a> capella. Pela encosta do morro que vae ter á «apella. ra. Em certos pontos havia /*-/-necessidade de dexWjfffíh o passo para não se atro. A multidão. segui jfâfitykhubiam por uns degraus de madeira fir dos rra terra e que muito espaçados chegavam! ( CJ&iV / . Quanto mais perto da egreja.CHANAAN 145 ruptos enchiam as estradas. então era de vêr a carreira folgazã de toda a gente pelos caminhos. e. Ao longe. ao saturem de um caminho? coberto.'* os olhos dl<úhu abxan-Af\f^ giam todo o panorama claro. a capella branca. rodeiada pela """ " multidão que fervilhava. ^ ?>/**/ «^/"/~ <n~ Acharam-sè]4ãpei«í base da coluna. Qa dois amigoof^epois de algumas Jioras de viagem. e esse araou/communicando-s%aos outros. feito de uma dourada luz e de pequenas elevações.

em mirar o povo. davam-se. apear-se e . amarrar os animaes nas estacas. e entretiveram-se. ou a combinação phantasista de um baile de mascaras. como si fosse uma revista retrospectiva de modas. e n'ella a massa de gente se remexia. formava | uma esplanada. iam vendo viajantes que" chegavam em bestas. as rendas.1 iü CHANAAN até ao alto. disse Lentz gra- . — Só isto paga a viagem. e a sua ~ Sj pelle era amarella. trajes de cidade. vestido segundo o uso do momento em que deixá*Y ra o paiz. acotovellando-se. o chapéo de velludo. emqüanto a capella se não abria. á casa do pastor. esguio. O cimo. onde fotexÁ. Trajavam as suas melhores roupas. yf Era u m / grande jfcase/ de colonos da região. O vestido largo. U m vozear confuso enchia os ares e turbava Milkau e Lentz. ç ' outros ainda ^sag:louros e jovens. / Alguns estavam alli havia trinta annos. que era no fim da egrejinha. uma entrevista nas serras do EspiritoSanto. o corpinho fino. de cintura curta e babados. trajes aldeãos. as toucas de seda. conservadas^ religiosamente em trajes que se não acabavam '„ mais. as crinolinas. A medida que galgavam. os simples pannos brancos envolvendo a cabeça. uma^ b mistura de modas de muitas epochas.. a capella. encolhida como pergaminho. Cada uma das mulheres ainda tinha o seu *. já tão descançados e entorpecidos na solidão bonançosa < Mas logo se habituaram. o que m//p jffàM/jjffl. passando-lhes o L # * / V ^ ^ embornal. o casaco severo.

disse Lentz. para 9 ^ Cr*~assistirmos á sahida d^Sôvo. Joca e o grupo C L ^ de trabalhadores da commissão de terras. $(l0fl/jli$0fi. que desde algum tempo tinha deixado o rio Doce con^>».. j0> ^~^*-^ — Ora.****-felicidade d'este povo. E está ficando quente. depois de Jtrt'e£*'' algum tempo. tinuando as medições para outras bandas. — É verdade.^**-^ desdentado.CHANAAN 147 cejando. já vimos o Jnelhor. / . por essas m o n t a n h ^ & u feitadtâi sombra de aif/y^r£ü=l guma arvore? /<§/' /JPã »*«*'""* 9 . O agri. e ao longe descobriu Felicissimo. o cheiro das /rr^v^**" flores que as raparigas traziam ao cabello e das e>li>my^ roupas domingueiras. Cum•»**••-. amenisava o odor forte das multidões. Milkau mirava para todos os lados. /s$*' paletot pontas de lenço sahiam espalmadas. í ^ . concordou Milkau. Mas também admiremos a usÁs.^ t*£ê~ mensor estava com um cravo ao peito e do bolso do f\£.primentou de longe.. em voz baixa. Que^DâgJmportaalmissa fl/£*'/**' do pastor ? Vamos espaí^jjP-fiirVda festa.* c^L . /CJ*&H4 — Até os velhos. guardadas longo tempo nos fao/AcÁ^^ bahús. *• « • « O povo continuava no seu borborinho tumultuoso p>rr^ *y*r e alegre. Misturado com o aroma da terra. com uma barretada e um riso Q^. darlio um passeio -fai. acompanhando as observações que o amigo fazia sobre d^ f/f ddxisüífk das vestes. a vida. — A alegria dos velhos é um mandamento para/ ^ / } . um perito poderia fixar pelos vestuários a epocha de cada migração.. .

por mais que se alar' j /-^Lgue e avance. Milkau fitou muito calmo o amigo. no começo da ladeira do morro. — e a vida. do nosso eterno pasmo no universo ou a exaltação do nosso amor. esporeando com força os animaes.. Além.. é inseparável do homem. A marcha da sciencia no nosso espirito é como a nossa na planície do deserto : o horizonte foge sempre. três homens chegavam. Defronte d'elles. Esteve um instante calado. e o conhecimento. e é sempre uma força salutar. hesitando si devia responder. é inattingivel á medida que caminhamos. seja do que fôr. — Ella é veneravel como toda e qualquer outra. Elle é a expressão da nossa emoção immorredoura.148 CHANAAN — Não . Afinal disse : — O espirito religioso é irreductivel. elles podiam se divertir de outra fôrma. E o homem viverá sem terror. que subiam arquejantes. Nós nos divertiremos vendo divertiros outros. além. Tudo será esquecido. — Mas. — Haverá um tempo em que o homem ha de enterrar com os antepassados o culto que elles nos legaram. ha sempre o desconhecido e o cultoqueoidealisa. de um deus ou de uma abstracção. como a que divinisa a sociedade humana. fiquemos aqui e acompanhemos esta boa gente. e o culto. não eiLgoifà o mundo dos pheno/ menos. Quando . divina. Essa religião. francamente. Para destruil-o é preciso que o homem explique o universo .

era o triumvirato judiciário da comarca. Lentz 7^1'A' teve curiosidade de saber quem eram. O sol já esquentava muito. outros. e sob os seus ardores a impaciência crescia. os cumprimentos. O mais velho J+cy era um sujeito de cabeça grande. se acercaram d'elles/muito prazenteiros. rompendo a agglomeração. Milkau reparou n'elles e rtóou que/Y//v/*'rí eram os mais bem vestidos de todos. Os homens tiravam o chapéo. um ar de fadiga e preguiça. i&eaquant»/o terceira^" jdffh no ^ s ^ r o s t o claro. Darba castanha. meio barrigudo.//r/ir>->Com effeito. percebia-se que sentiam a consciência de uma posição superior. Olhavam os colonos como uma massa amorpha e subordinada. os cumprimentos se propagavam e d'ahi só se viam as cabeças abaixando-se na direcção dos magistrados. de monoculo escuro e costelletas. Um dos v i z i n h o ^ í i i ^ ^ é ^ s e r e m as auctoridades do Ca. que correspondiam desdenhosos. Por contagio e por instinctivo signal de respeito dos humildes colonos. limpavam o suor e muitos cobriam a cabeça 'y/)M^\ / /? 1 . Dois ou três homens da cidade.CHANAAN 149 se apearam. esperava solemne. lhes tiraram o chapéu. com uma moldura de [fd/*****1. Todos olhavam as portas cerradas da capella. e o velho de monoculo. Fitando-os. mais afastados. empertigado. o outro. muito fi joven. muito reverentes e pressurosos de se recommendar. silencioso. praguejando contra o habito de os deixarem de fora. moreno e imberbe.

com um aceno de cabeça. . Milkau ^ j í y ^ d W . A multidão se impellia lentamente para as portas. e ahi tò/dutáados observaram a iMôtih*. zumbindo. como sempre. na brancura das paredes estavam inscriptos versículos da biblia. e espalhando o calor de corpo a corpo. As moças atavam também o seu ao pescoço. Abafava-se^* murmurava-se. triturando surdamente o milho.150 CHANAAN com o lenço. inesthetico. Mas estacava. e foi uma invasão alvoroçada na capella sombria e íresca! Milkau e Lentz conseguiram logar n'um dos A bancos de madeira. dizia em surdina Lentz ao camarada. Alguns se esgueiravam para as escassas sombras das paredes. de madeira não envernizada. Não havia a menor pretenção de enfeite. muito nú. as suas cerimonias de finas expressões symbolicas.singeleza do interior. empurrando para traz. que bem se casava com a simy plicidade externa. A porta afinal se abriu. no centro. os animaes bufavam. um grupo para se proteger do sol apertava-se debaixo de um misero arbusto. O tom protestante é plebeu. — Muito triste. e ornado de listas alvas cheias de palavras santas em negro. refrescando-se com estrepito. n'um movimento inconsciente de quem ia forçal-as. espanavam-se com os rabos. mil vezes uma egreja catholica. ao fundo uma cruz preta com um sudario branco pendente. emquanto mulheres velhas agitavam as saias. o púlpito baixo. com a sua pompa. para adeante.

Não tardou. Ha muito tempo que não ando por estes lados.. Depois do descanço do primeiro momento á sombra.CHANAAN 151 Em volta d'elles outras conversas proseguiam em voz baixa. — Não. outro dia. Musica!. não ha remédio sinão darmos. nos movimentos de pernas e de braços. mas que se percebia nos bocejos. que se esforçavam por conter. porém. recomeçava a impaciência. Milkau vi/brava..muito de bem. Não fomos nós que encommendámos um pastor a Roberto ? Seja como fôr. E onde você o viu? — No armazém de Jacob Müller. seguidos de um acompanhamento mysterioso de vozes múltiplas. alludindo ao novo pastor. chamando todos á respeitosa continência. como murmúrios de piano e de flauta. A multidão st apaziguou^ o instrumento continuou a cantar os solos. Parece uma pessoa. A musica» infiltrávamos nervos dos ouvintes e Gs i amansavOmollemente. . Que conjuncto de sensações não se accumularam desde as remotas almas pro- (Jf' / / y*J. ^ —Ainda o não viu ? perguntava uma velha. perdendo a própria essência na mais copiosa e allucinadora emoção. que um accorde de harmonium soasse. respondia outra. infinitas. temos de o agüentar. — Também si não fosse. A musicaenchialí^S** alma capaz de sentir os mais intangíveis e deliciosos segredos do som e de se transportar além de si mesma. para que lhe darmos o nosso dinheiro ? — Ah! isso você sabe.

porque escrever é cantar com a penna. emquanto ella. Milkau ficou indeciso um instante.. como uma benção e uma luz do céu illuminando o livro santo. Era n'uma egreja de Heidelberg.. escrevia poemas sagrados. a alma musical!.que Milkau amou. enche a egreja. á sua vida primeira. não percebia mais as fronteiras do sonho e da realidade. Os olhos d'ella embebem-se na Biblia e sobre esta os seus cabellos caem n'uma chuva de ouro. na terra antiga. longamente. entoava hymnos. debaixo. carregando as vibrações recolhidas em cada cellula. laia Milkau. afinando o mundo dos nervos. trabalhando.152 CHANAAN genitoras. ^ y £ . no passado.. lf 0 J 0 fyp0f de um templo.. Elle vê uma figura de mulher. 1^1 recolhida.. Musica também lá em Heidelberg : uma melodia phantastica. Musica! Cessou o órgão na capella do Jequitibá. angélica. mystica e crente. que rios de sangue não correram de pães a filhos. E Milkau. ou era aquella mulher a sua visão realisada ? Parecia-lhe . carregado nas harmonias. E emquanto o órgão no alto da capella cantava. até emfim formar-se no homem a derradeira das suas almas. Um sonho dentro de um sonho .. 4. dolorosas. ^gEâ-de olhos cerrados. Musica! Canta a mulher ^... Milkau teve um ligeiro sobresalto e despertou. elle. das harmonias. Tudo se/confundia extranhamente. lentas. que entra na sombra silenciosa e brandamente vae sentar-se. Os seus olhos meio attonitos descançaram em uma joven... tomado pela saudade. Continuava o sonho. que parecia entretida em vêl-o dormitar.

CHANAAN 153 já ter visto em outra vida aquella mesma cabeça de macios e crespos cabellos de infante. nos quaes o catholicismo se desenrola como um successor natural do paganismo. com a mesma suave e meiga expressão. aquella que mais se liga ao judaísmo pela austeridade. elegante e pomposo. barbara. n u m gesto de recolhimento de ave mansa. e. em vez de continuar desembaraçado o sermão. uma religião rústica. Subia ao púlpito o novo pastor. cercado pela curiosidade do povo. pela côr vermelha do áspero rbsto. 9. ~se revoltára^naturalmente contra os civilisados. que lhe cahia sobre o casaco preto. Era um homem alto. a gente do norte inculta. Milkau reconheceu n'elle um camponez. astuto. pelas phrases. e voltaram-lhe á memória as observações de Lentz sobre o protestantismo. Na scisão da Egreja cada uma parte ficara com a rfaasdi Jt#lCy'p? dos espíritos que lhe era própria e peculiar. cujos melhores interpretes eram homens rudes. N'uma toada humilde e timida. moveu-se. que sempre entendeu como uma religião secca e simples. o pastor ia desenvolvendo o seu allemão religioso. violentos e radicaes. pelo rigor excessivo de seu monotheismo. Pelas mãos callejadas. . com uma barba fulva. O seu primeiro contacto com os colonos era uma crise. curvando o pescoço devagarinho sobre o peito. pelo accento da voz. E ella o olhava l/ vagamente distrahida^tí quando reparou que era / \ ' ^ examinada. em rico contraste. independente.

. Os ouvintes desinleressavain^Ê_da--atrapalhada e vagarosa predica e. a reflectir sobre si e os seus embaraços. Ao lado de Milkau um homem explicava a uma mulher que bisbilhotava a respeito de duas outras que se viam no coro da capella : — Aquella mais magra e morena.. mas me parece muito boa pessoa. procurando com vão esforço esquentar-se. — Sim.se preoccupavarm)com o pregador *«• e sua família.. — E de onde as conhece? — D'aqui mesmo. que estava toda abandonada. Na tribuna o pastor ia rolando o sermão. que lhe fazem ? O colono não respondeu.. A cara não engana.. — Pobre! Então. Outro dia vim preparar a horta. pareceu-me uma alma penada em casa. vê outro. volveu concentrado e hypocrita á sua Biblia. e muitas vezes parava distrahido. creio que o pastor tem gosto pelas plantas. A irmã feej^nteressa)por tudo.. Agora se pôde vêr. — E Frau Pastür? — Não sei.. tentando . — Ah ! E a outra é que é a irmã d'elle ? — Quem vê um.154 os-/ CHANAAN elle se detinha a examinar o povo. porque vendo que as suas palavras eram recolhidas por outros ouvidos da vizinhança. — Tem cara de judia.... E a mulher do novo pastor. outras ia tropeçando para adeante.

sorria benevola e cavalheirosamente. A sua voz logo esmorecia e cahia na morna toada. Sentaram-se os três juntos n'um banco. — Que macaco! — O grupo dos magistrados também não estava resignado ao enfado da cerimonia. ora tirava o lenço. o juiz municipal. _ /? K ^ „ti. murmurava alguma coisa. cahia logo.t < ^ £ ^ 1. aborrecido.-seespreguiçava^Tio banco. ao juiz de direito. Do outro lado.CHANAAN 155 vociferar e clamar a religião. estava Felicissimo. sacudia bdftf a cabeça ^jf" n um gesto de contrafeita resignação. ora limpava o monoculo que. o mais velho. pondo machinal o monoculo para melhor entender.r -n. Lentz não poude deixar de murmurar com um certo desdém a Milkau. n'um grande abandono. cocando a barba por desfastio. e enfrentavam solemnes f a multidão . muito nervoso. e em caretas successivas transformava a sua movei physionomia. a<f> seu lado o /"rpromotor crispava as mãos. bios cerrados. suando muito. estirando as pernas. fitando com desprezo e rancor o pastor e os colonos. O cearense arregalava os olhos para os n j / seus amigos do rio Doce. agitava a perna. e de la. e este. ao lado do púlpito. não se cançava de gesticular. em frente a Milkau. que seguia complacente^ /ao agrimensor. que era o juiz de direito.^» > -^ ^ ¥Ê^y . mal assestado ao olho direito. e bocejando. ás vezes. o terceiro. enxugando a testa que se franzia em grandes rugas. a fazer signaes de impaciência. obrigando-o a repetir indefinidamente os movimentos.

Os três pastores se reuniranvrio fundo da egreja e leram successivamente os psalmos. não se moviam . descendo toda a massa de gente pelo morro abaixo. os pastores sentaramse. Fora. a musica foi suspensa um instante. como uma represa de água escura que se tivesse aberto sobre . que se ia apagando J ermpiaafto o pastor de Altona. O velho pastor de Luxemburgo. ou de olhos fechados voltavam-se para o abysmo vazio do seu espirito. concentravam-se recolhidos ao livro de orações. tinha uma attitude de gigante tímido. lentamente. tangido pela musica. Os burros foram desamarrados. sem um pensamento. sem a menor vibração intima. com uma barba muito curta e dura.156 li CHANAAN Os allemães. que elles miravam absortos e suspensos. cheios de respeito. muito grande e de olhos meigos. Em breve acabou o serviço religioso. os embornaes vazios embrulhados e escondidos debaixo da sella. todos ficaram deslumbrados com o sol e se apressaram-*em partir. E o tédio envolvia a capella. levando cada um o echo longínquo dos cantos. as vozes das cantoras vieram n u m a desabafada desforra levantar os ânimos. vendo o povo retirar-se em ordem. espraiava o seu ar desabusado e insolente. e a musica do órgão. No meio dos dois o novo pastor de Jequitibá. para recomeçar um coro a que o povo respondia. até que o novo pastor terminou a predica. tinha uma voz rouca. com a cara toda raspada e de óculos. ed'ahi a pouco homens e mulheres montavam.

sentindo um toque no hombro. levando nas mãos as bolinas ou os chinellos. E a grande vozeria de commentarios. e cobriam com ellas as cabeças. partilhando da alegria e esquecidos de si para \ r ^ 7 se misturarem na communhão alli formada pelo '^'"v acaso e pelo impulso communicativo. onde ha um grande baile á noite. emquanto os homens se descalçavam. Era Felicíssimo. o povo começou a debandar. outros corriam mesmo a pé. que lhe falava de cima de um burro. e já agora de dia começa o pagode. « /**!L na cruz das estradas. onde costumava passar o domingo. com receio de um perigoso atropelo. E a gente ia-se escoando pelos caminhos. procurando as suas casas.. Em baixo. Milkau voltou-se. . naturalmente. de galhofas. Milkau e o companheiro vinham-se também arras. — Bons olhos os vejam.^ ditando. matando a tranquillidade da região silenciosa. Escorregando vagarosamente. interrompendo. — Pois eu lhes proporia — O que? perguntou Lentz. — Irem á casa de Jacob Müller. ninguém se apressava. respondeu Milkau. Jyf*-*' as mulheres arregaçavam as saias de cima por economia. ou as tabernas próximas. Ha quanto tempo não nos avistamos ! E para onde se botam agora ? — Para a casa. as grandes gargalhadas e gritos festivos rebentavam das mil boccas da multidão..CHANAAN 157 a verdura da paizagem. galopando na estrada fl'*\ ' e envoltos na poeira. A**A ' alguns tomavam a deanteira.

meio indecisos. respondendo.. Em se sabendo que ha uma festa. quando chega no alto.. Não ha confusão: a casa está em festa e vocês a reconhecem logo. Falou-se em patuscada. mas Lentz não demorou em responder : — Pois sim. vender muita cerveja e tudo mais. é ahi.. Bem.. o caminho é este da esquerda. Temos muito que desenferrujar. É verdade que estou montado. Ora. vou na frente.. não engeita. — Assim é que eu gosto da rapaziada.. Quando toparem um sobrado branco com um terreiro. passem pela frente. Aqui na colônia não ha convites. fts Os dois amigos se consultaram^om o olhar.. vocês têm um pequeno pouso com uma venda. Depois... mando guardar três logares na mesa para nós.... iremos. eu vou indo. . vae descendo. disse radiante o agrimensor. Mas não ha difficuldade. E apontava com a mão livre a lingua. e não podemos ir juntos. que não tem historia nem ma/Jadas. — Que negocio ? interrogou Milkau. Então não sabe? 0 sujeito arranja a festa com olho de fornecer a comida.. e vão seguindo sem se desviar. porque isso também faz parte do negocio. tomem á direita. depois torna a subir e. a gente não tem mais que se apresentar.158 Ç-// CHANAAN — Mas não tivemos convite — Oh! isto é uma conversa. — Que negocio ? repetiu o agrimensor.. vamos d'ahi.

gritou para a frente. concordou Milkau. Si não estás morto. e alguns tomavam cachaça. onde já se agglomeravam muitas pessoas. todos alegres. uma grande latada corria pelo oitão da casa e na sombra larga debaixo do caramanchão/sentadas ás mesas toscas. e entre todos se trocavam saudações e offerecimentos amáveis de bebida. passou a fazer tregeitos inconsiderados com a cabeça. A dona da casa e uma filha. serviam lestes os. espantando os colonos com os berros e a correria. Fora. bem arrumada e com duas portas largas. — Como esta sombra convida a descançar! disse Lentz..CHANAAN 159 tomado de uma repentina excitação. « Até logo ! » Picou o burro com vehemencia. encostados ao balcão. . moça e loura. a rir muito. os allemães bebiam. — Não.. deu-lhe chicotadas. No alto estava realmente a venda. Jjj/yfyjti($ almoçavam e eram attendidas pelo dono da casa. algumas mulheres de varias edades se agruparam aos homens. em geral. formando grupos differentes. A taberna era limpa. Dentro. fatigado do sol. e ^ for^rVum galope. Os outros executaram as indicações do cearense e foram andando apressados pela estrada. cerveja fabricada no Cachoeira. continuemos. — Podemo-nos demorar aqui um pouco. de um louro lavado em que uma rosa traduzia a eterna faceirice da mulher. freguezes. e fazer a caminhada mais á vontade.

iéM^. uma vez em casa. desconhecendo-se n'aquelle arranco 4/A*-/-1. isto agora vae depressa. propoz Lentz. as cores simples.Jy/ct»* . onde o verde das folhas f' entrançadas nas grades formava quadro para ^y/„*se. mas é que. mas d'ahi a pouco pa/»*'*'/" raram e sorriram vexados da incohsciencia que os ^ . UHt f "' -y— I ^ _ /frt* . e contente com este rejuvenes. avistaram em baixo d fio * W /*xz+. Afinal. ^J'*^' No caminho. vez de repousar. em ' 4ríy. que não ygP* «*/-«* vale a pena mais nos pouparmos. Isto %(/-*?#> lhes tFansmittiu também o desejo de correr. ^y^-*^E ao lado d'elles passavam rapazes e raparigas ^"a correr pelo morro abaixo..de expansão jovial. é só descer. *„ 0 **$*'. a natureza readr .^ * w t ' ' 4 ' dffáhfaA do seu espirito. alacres dos vestidos das muy yji4. não« tornar a sahir por este sol! E lá se foram. C '. lheres. de se JíJuefi. gritando de júbilo e levados peja_excitação de chegar sem demora.:Z~. — Não foi isso o que me fez parar.E correram também. e á beira o sobrado onde se percebia. ^ rumo da casa da festa. —^-d'agua veloz. disse Lentz. ^ tomara. o movimento de uma reunião. rríj~ lombada de um morro. deitando um olhar de cobiça ao caramanchão ruidoso.. quando lá está o J+ y^vor*^nosso refugio. • ^ t^OL — Ora esta. estávamos a imitar.?ét£-i — Apertemos o passo. I t /rLf ±T' * ' mesmo de cima.f+* perder na alegria do ar na vertigem da des*/**'%*' c ^ a . E quando chegaram á i t v r^. * yr'**£i — Sim. estávamos a nos eigotiar^ponde/£-/» r*^ rou Milkau. viram muita gente que tomava Z.160 CHANAAN porque receio.

que descia em tropel infindo do morro para o Santa Maria. e foi com o passo cheio de magestade e de graça simples que baixou da montanha.. sacudindo a barba de ouro. e outros do Cachoeiro. coitada. Muitos a pé ou montados vinham da capella do Jequitibá. Também. Ao chegareiritao terreiro da casa J á as vozes da \ pj pr*K festa vinham ao^encontro faff d ^ ^ r ^ ^ ^ ^ e > +££& elles foram entrando no meio do ruido. A casa tinha uma bella situação no centro de varias estradas. por moradores d*e longe. outros de Santa Theresa. Os seus olhos azues estavam radiantes de paz e calma. Nas cercanias da casa de Jacob Müller a paizagem tinha o realce e a vida communicada pelo movimento da gente.. como esteve em mim até agora amordaçada ! Ergueu a cabeça n'um gesto de desafogo. e até pelos caixeiros da cidade. . no fundo de um valle e á margem de um endiabrado ribeiro. Era um sobrado branco. e aos domingos um dos mais procurados pelos habitantes do logar. e era um dos maiores pontos do commercio do^nterior da colônia. pensava elle. .CHANAAN 161 quiriu os «eus direitos. Lxoda^Mio terreno estava limpo de plantação. que se ia reunindo. e havia um pequeno campo de relva tenra e fresca que brilhava ao sol. O sobrado ficava destacado das grandes massas de arvores e di folhagem que vestiam as pedras dos morros. da agitação .

quando a tarde começava a refrescar e a luz a esmorecer. gritando. O estrondo dos pés que dansavam no sobrado. levado pelo rompante. cantarolando. uma pequenada vadia se espalhava guinchandò pelo terreiro. — Vamos à um copo de cerveja. lá se foi. porque precisamos de descançar. A gente movia-se muito. rapa-zes corriam pelo campo em mangas de camisa. — Venham. arranjemos antes um logar aqui á sombra. atordoando a gente. ^_^ O agrimensor ficou meio amuado : — Ora bolas! < ^ fffc-V E os_largou Jbruocamerrte. e o som langoroso de um realejo incessante desciam do alto. meus amigos. E nas janellas muitas . perguntavam para onde os levava. debaixo de uma laranjeira. venham.162 CHANAAN dos allemães á sombra da varanda./spantados da effusão do agri/ ^ mensor. — Não. em frente á casa. Milkau acompanhou-o. disse Milkau. /« E Felicissimo. como um bando desesperado de mairacas. em apostas brincalhonas. obrigado. arrasI tf* tando-os. Bandos de moças de branco passavam de mãos dadas. mas o outro. mettendo-se pelos grupos e entrando no armazeiTL Milkau desistiu ^ de seguil-o e Vjf#/ou a Lentz/^rocuraflfâ^ambos um logar para descançareaa. Acharam-no emfim em um banco. corria para elles. com a voz rouca e a gesticulação de embriagados. Outros entravam e sahiam do armazém. Qs <»utroc. echoando no vasto armazém. yf'/'' para lhe dar uma explicação da recusa.

as mesas já estão apinhadas para a hora do jantar. senhores... que do rio Doce aqui é um estirão! — Sahimos de madrugada e fizemos a viagem sem grande fadiga. parece urubu cercando carniça. e fitando pasmadamente a paizagem.celeridade do regato. interrompeu Lentz. Era Joca que. viu um rosto amigo ^.. Milkau. <."••-/'£ '*•_. que parecia também mover-se toda. vinha saudal-o.. de lenço ao pescoço. respondeu Milkau. mas sumiu-se de nós c se esqueceu de nos /Ldizer o que arranjou. E atraz. porque eu estou que não me posso mexer.^ d'isso. que se tinha conservado mudo. Se e n c a r r e g o u . abrindo-" a bocca em que se apertavam os dentes dortadesj i-tu*«*o$ epa-seiral * — En-tão vieram divertir-se um pouco? Sim. nas salas. arrebatada pela. — Lá isso não.<*'(' que se approximava. — Mas elle ha de voltar.. O que é preciso é marcar os logares desde já. Começo a ter fome também. e um cinturão de couro segurando a calça.CHANAAN 103 pessoas com ar indifferente se debruçavam para o terreiro. plar satisfeito o prazer alheio. a contem. concluiu confiante . Olhem só lá para dentro do armazém.. olhando a agitação em volta. já é coragem.. — O que não falta é comida. em mangas "'""^ de camisa. por cima das cabeças desta gente: vejam que povo está alli agarrado ao balcão. referiu Lentz. — Seu chefe.

. e n*aquella vida extranha que levava. Um grande reboliço §ej|fe^)no povo e repentinamente todos se foram approximando da banda.. amigo. quando havia festa. — E quando beberemos d'esse café ? A resposta foi um gesto largo de mão. caminhando lentamente e como por um velho habito. e estou certo de que temos tudo arranjado. Joca... Nos dias de semana. disse em sobresalto o mulato. que. olhando alvoroçado para o fundo. E o cafesal?.„ j . — Plantado. Isto é. invasão dos animaes e da creançada. . pateo Jfc. De um lado para outro. lá vem a banda. que era o logar destinado para seccar o café comprado por JacobMüller.. a fazer medição. e você. agora lá para o Guandu. que fim levou? — Rolando. para folgar um pouco. — Ah! agora a coisa vae ser mais animada. a grade era retirada. Aos / domingos. **^£3P* músicos da philarmonica do Cachoeira H«^^njiana chogandn iw i r n à l ) e todas as vistas se voltavam para elles.. ao lado da casa. estes dias nós descemos ao Cachoeira. indicando o tempo remoto. se dirigia para um pateo ladrilhado de cimento.164 CHANAAN Milkau. uma grade de arame protegia esse !-[. — No roçado que fizemos? — Sim. Por um instante uma ligeira sobrexcitação coloriu as faces de Lentz que tremia em pensar no vago da distancia ainda á sua frente. E como vão lá no prazo? Já sei que a casa está bonitinha.

'« á união da rapaziada. contente. rubros de vexame. Vamos á gaita ! E. que recebia em seu lagedo. que começou"' a dar outros vivas ao « povo do Cachoeiro ». O velho Martinho já está com o braço morto de tocar realejo. alguns dos quaes eram seus conhecidos e camaradas. acompanhando a banda. gesticulavam. o mulato começou a dar vivas á banda do Cachoeira. agradecendo. dansavam descompassados. perseguia um bando de ra- / ÍC^r** /*&* Q. liso^lavado. Os músicos installaram-se n'um dos ângulos do pateo largo.na ¥iYjim Os homens da musica sorriam.«Todos se divertiam. a Jacob Müller». Foi um delírio para o maranhense.. para entreter o povo lá em cima. para irradial-a. Joca deixou Milkau e foi se postar ao lado dos músicos. cantando marcialmente. com os olhos accesos e as narinas arregaçadas.ar^affiirHifcfHi . Wm alarido de gargalhadas e acclamações. d'esses que são amados da alegria e em quem «üa> não encontra fótf0ty'para reinar livrernerite^_^^ _ _ . a força do sol.. ia repetindo os compassos. Joca. enthusiasmado. minha gente.— Collocadas as estantes(os musicos(sentaram-sg)e começaram a tocar uma marcha de que^ãaXqual. vocês hoje estavam com preguiça de desunhar! A rapaziada aqui já andava impaciente. &*fájfii /ffllff cJt**s ofc *M . — Então. N'um momento ficou coalhado da gente simples e fácil de contentar. etòdos automaticamente tiraram o chapéo.CHANAAN 165 e todos tinham a liberdade de penetrar na área.

w com / . fazendo mesuras ás mulheres. / um grande chapéo de palha na cabeça. . abrindo espaço aos empurrões. entrou no terreiro para . todo de branco k em mangas. meu velho.de camisa. com uma longa sobrecasaca preta e surrada. O logar ficou limpo da gente grande. principiou a falar. a rodar. persuasivamente. As creanças invadiam o terreiro.de cachimbo ao queixo. vae tomar um copo lá dentro. que fugiam rindo. virava-se para os mais teimosos : — Anda. depois de se entender com o mestre da banda. Algumas velhas. formando o quadro do pateo. ajuda-me. e dava algum lucro ao armazém. que se enfileirou aos lados. elle respondia aos soccos. arrastavam as vozes. porque a miragem d'esse copo afastava o homem d'áhi. ^ lç . Limpa o terreiro! Arreda! Vocês têm baile á noite. Olha. a^ípareceu no pateo. dando ordens. coradas. n u m fingido susto. de óculos azues e uma cara te genipapo murcho. e deu o signal de uma quadrilha. A creançada agora l-girava doidamente. que riam destemperadamente. Um velho alto.166 CHANAAN parigas louras.. Alguns velhos jáébrios. que tenho de attender á freguezia. como si fosse movida por um pé de vento. e. vindo em grupo. h. a rodar. O dono da casa. Era o argumento irresistível e proveitoso. A musica acabou a marcha. E depois.applicavam-lhe palmadas nas costas./ outras jhejfpuxavanf) levemente a barba. Tberrando: — A festa é das creanças.

» As vezes.. « Guilherme e Ida.g/ O mestre awesignavafe Augusta Feltz. Professor. de canellas compridas e olhos mansos de veada. e começou depois a distribuir os pares. — Mas eu estou compromettido. Que é que tem? Cada um escolhe a que deseja. muitas ficavam entretidas. Afinal o professor conseguia arranjar as quadrilhas. e a musica rompia a dansa. lá ia para a fôrma. / e s e . — Deixe. sem confusão. No circulo as mães intervinham. fitando-a muito ancho. chamando cada creança pelo seu nome. Os pequenos estavam exercitados.. p u n h a d a passeiar pelo arraíaíTindo á beira t^^-J do rio. — Mas não é possível : você tão miúdo e ella tão crescida. que a levava de braço. sr.„*_. acompanhando a festa das creanças. replicava o velho. inclinando o pescoço para o cavalleiro. deitando-se na relva para verem passar a . » « Hermann e Sofia ». porém. outras. — Como? Com quem? — Com Augusta Feltz.(se^tigayaní)da attenção... um dos pequenos recalcitrava contra o arranjo. . acompanhadas por outras vozes de mulheres. O homem mandou que os pequenos se ordenassem pelos sexos. Das pessoas grandes. « Alberto e Emma. tremendo-lhe as mandibulas molles. de modo que tudo corria em ordem. professor. Foi um instante de socego. . com os seus doze annos.CHANAAN 167 dirigir o baile infantil.

168 *~J7J£ ^YÍ-f '**^ CHANAAN agua . partilhar com ella o seu doce esquecimento da dôr. / "*• — E não é o amor a acção por excellencia? E não é elle a força que aqui na colônia. que proseguia vivo e animado. quando passeiavam pelo terreiro ao rythrno da musica. Compara este povo com os homens de outras terras.. move os homens? Que queremos mais? Approximaram-se do baile das creanças.. — Mas. — Era isto o que eu procurava.. alguns. observava Lentz traçando no rosto um gesto de desdém. que ora célere. dizia. ia se movendo aos cantos infantis. devastando-a nos seus impulsos de loucura. no canto do universo. iam ga peréefido pelo matto a dentro. Em tudo. de braço como noivos. Aqui ao menos é a serenidade. estridentes. e outros $& reuniam—A1 ao balcão a beber e a cantar as velhas estrophes do prazer e do convívio humano. Milkay a Lentz.. e olhando a scena. fy tíJjfdflisXo é a estagnação. no menor movimento. e estrebuxandd. ora vagarosa. e . que na illusão instantânea os transportavam á terra abandonada. é uma existência vazia e inútil.para morrer n'um espasmo de maldade. é a alegria. Viver no meio de gente simples. onde cada um parece possuído do espirito do demônio. e que emfim achei. Era isto que eu procurava. Agora havia uma grande roda dos dansantes. a reunião alli na estação do Cajá dava a sensação do esquecimento e da alegria. solto sobre a face do mundo. matar o ódio. no mais pequeno gesto. é a calma.

— E tempo. afastando-se do circulo. Onde ^ se metteu elle?.<>. passando volátil pelas cabeças louras das mulheres. a divertil-as. brincando. e os meninos pararam a dansa meio espantados. propoz Milkau. ia dizendo Lentz.. que parecia surgir pouco a pouco do seio secreto das coisas e » expandii"rnais livre á superfície luminosa. fio meio da algazarra geral. — E Felicissimo que não nos procurou mais? lembrou Milkau. 7 jxut*' \ — Mas onde se metteu o agrimensor?. graduando a côr.• . Creio que desconfiou comnosco. accedeu Lentz. A aragem refrescava o tempo. E quando a meninada estava muito entretida. Uma immensa risada dos grandes o recebeu. — E verdade. abrindo o circulo. disfarçado em palhaço maltrapilho. um sujeito mascarado saltou no pateo. imitando animaes..CHANAAN 169 desafinados.. — Vamos procural-o. Já aquella hora o sol esfriando transformava magicamente o panorama./ roda das creanças. A^paz da Jâlde avançando subtil reinava sobre as gentes. mesmo porque já podíamos ir jantando.r. passando de grupo em grupo.L#Á<yh*/r^ . de olhos tapados. e beiços e faces pintados de vermelhão. fòfS0j{endo-as com a sua doce Jygsrv*gt*<perfídia. besuntada de alvaide a cara. 0 palhaço começou a cabriolar. e_d'ahi a pouco. 10 IM. a gritar.. se mettiá na a .t lhes nos cabellos n u m leve arrepio que lhes descia da nuca. . e marando por toda a parte. com o amigo pelo braço.

— O h ! Também vaes logo aos extremos. chegou-se a ella. ^ Quando tornaram á clareira. Não custava nada uma amabilidade. disfarçando a remexer nos gravetos esparsos no chão. dando volta por traz da casa. e n'uma lingua arrastada. Tudo em vão. Também porque não lhe acceitámos o copo de cerveja?. concluiu Lentz. bebia-se largamente. porém. n'uma tranquillidade altiva. $mu£ou os perturbadores. Foram até á margem do regato. há'esperança de achar o cearense. Com a presença dos extranhos. tão idiota. desistiram de procurar Felicissimo no arraial e «e encaminharam-^* para a casa... Milkau. o joven abaixou a cabeça enleiado.. com seus olhos serenos e francos.o que bebiam. Procuraram o agrimensor pelo terreiro. indagando . enfadonha. O balcão continuava sempre cercado. Uma caminhada inútil. Áfywflfâflt até á beira das estradas. cochichando.. Os dois amigos lançaram uma vista d'olhos pelo armazém e não viram o agrimensor. Éyéntraram no matto. um par amoroso.. e ( ^ ^ ^ ^ Y ç y k m j W a ^ g ^ ande /* avistavam grupos de gente. — E não se perdia um camarada. perguntando-üas. A mulher de Jacob. Debaixo de uma carregada sombra... descançava. fezlhes um gesto.. cantava-se. a rapariga.170 // / W*- CHANAAN — Hoje elle está mysterioso comnosco. desviando delicadamente alguns colonos pesados e oscillantes. percebendo-os indecisos.

no sobrado. fixos. mastigavam com uma fome voraz e com os olhos injectados. De facto. Pensei que não quizessem saber de mim hoje. que sem nenhum conhecimento temos andado vagando ámatraca. agarrando lingüiças. — Não me conte historias. Imagino quantas amizades não tem por ahi. não mude os papeis.. Foi você exactamente que nos deixou.. de vinagre e pimenta excitava a multidão e entretinha a sua voracidade.. respondeu Lentz. com quanta ... fatias de pão. e falou-lhe dos logares encommendados para três. pois talvez ahi o encontrassem. n'um espasmo de satisfacção bestial. — Até que afinal vocês resolveram vir. uns com pratos na mão tomavam caldos. patife. e meio amuado não se importou mais comnosco. e outros. A mulher aconselhou-os a subir á sala do fundo onde se servia o jantar.CHANAAN 171 de Felicissimo. e quando avistou os companheiros chamou-os n'um sobresalto. e apenas com algumas pessoas á janella vendo o baile das creanças. Em pé. Viram passarinho verde ? — Ora. A mesa muita gente sentada comia avidamente. Felicissimo estava n u m a cabeceira da mesa com dois logares vazios de cada lado. a sala do fundo estava n'um grande borborinho. — Aqui! Aqui! Os outros foram rompendo caminho e tomaram os seus logares.. Um cheiro de alho. emquanto a sala da frente se achava quasi deserta. pois tão entretidos andavam.

— Vá pregar n'outra freguezia. berrava chamando os creados.172 CHANAAN rapariga não tem falado!. — O h ! é verdade.» dade. meu amor. comprehender a sua vida e felici. nada de segredos.. O allemão enrubesceu. cortou Lentz. Em pé. V. uma rapariga attendeu. que quer mais sinão. Felicissimo olhou-o com os olhos miúdos. á espera de uma ordem. Afinal. arrastando a voz : — Qual.. cahidos e vagos.. você traga jantar egual ao que me tem trazido. — Meu bem. erguendo-se apoiado nas mãos. elle resolveu-se a falar.A.. é que com esta discussão nós vamos ficando sem jantar. e não sabia como replicar. gritou o agrimensor.A ^ é * ^ ^ * " -j .. y~. então você mesmo. — O peior. com um 0 ' y^XA***'/ C«*w mfo' yt£r. Felicissimo mirou-a com malícia. com uma cara ffflfa de um riso complacente e velhaco. enleiada. postando-se em frente ao cearense. para estes dois amigos. — Lentz não se preoccupa com isto. comecemos por um caldo de hervas. que lá na sua lingua procura misturar-se á alegria d'esta gente. Vamos lá. e depois como a allemã. Depois. meu amigo. camarada.. quizesse partir. A creada desappareceu rapidamente. seu maganão. você. piscando os olhos para o companheiro. não me conte rodellas. '^Tvunl — O nosso interesse é y^/t^^Â^o^^f alegna\ m 'c$ *' d'este povo. Milkau veiuemsoccorro.

objectou Milkau. que a seguiram como servos amorosos. pedindo que lhe trouxessem outras seis. eu não fiz: beberei todas seis. — Si vocês fizeram voto. mais \}em<>dU*^r trajados que os camponios. Milkau e Lent^ começaram a jantar dos pratos rústicos. — Nós não tomamos tanto. Felicissimo estalou a lingua. e tanto barulho fazia que não tardou muito sobre elle se voltasse a curiosidade geral. bateu na mesa. Excitado por essa attenção. Puxou o copo de cerveja e bebeu. melancolicamente. Milkau agradecia com outro gesto. recusavam a comida ordinária. e sem saber o que dizia. Alguns d'estes rapazes que eram da casa de Roberto. — Ah ! esta vida ! esta vida ! murmurava o agrimensor.CHANAAN 173 movimento airoso como um passo de dansa. Olhou a garrafa queesvaziára. de que se serviam bebendo o vinho do Rheno. que serviam no meio de algazarra e de >A_ desordem. e os cumprimentaram com gestos de cabeça. Felicissimo bebia sempre com grande alarde. acenando com a garrafa. Dos seus logares offereciam-lhes vinho. e pediam aves em conserva. o agrimensor exhibia-se por 10. . atirando-lhe os olhos. reconheceram os antigos hospedes nos novos colonos. n'uma expressão amável. Alguny ^caixeiros da cidade. e o grupo continuava a beber indifferente e desdenhoso do resto da gente.

e na confusão. ditas no meio de risadas. com phrases insultuosas. os rapazes da cidade o deprimiam com applausos irônicos. na desordem. na desattenção. tomou Felicissimo pelo braço.exà tangido n'um impulso frenético / . cantava. versos d'essa toada sertaneja que lhe falava tão intimamente. que estropeava. que* / rendo conter a matinada. que mandava distribuir em torno. A estes o agrimensor respondia improvisando versos em portuguez. para forçal-o a descer da cadeira. berreiro descommunal. violentos e ferozes. feito de vozes de velhos. A * _ y com enthusiasmo. trepado na cadeira. levantando brindes. continuando a gritarja. augmentado pelos repiques nos'copos e nos pratos/e/fi/som estridente de um ni £. pelos colonos. O agrimensor ordenou por sua conta mais cerveja. Os camponezes o admiravam n'uma alegria infantil.174 CHANAAN todas as fôrmas.-^noços e mulheres. e outros o cercaram. dansava. para acompanhar as canções^cujas notas graves eram abafadas no barulho. O dono da casa.. cantando canções allemãs. mas a cadência dos versos os enternecia e era com amor que pediam ao cearense que não parasse.// realejc/6ue . Muitos não o entendiam. o liquido se espalhava pela mesa . protegendo-o contra Jacob. mas que ao seu lado eram retomadas com brio. Produzia-se um . Disputava-se cada garrafa das mãos das creadas. Este variava o seu repertório. O agrimensor o repelliu. . que foi expulso da sala aos empurrões. de copo em punho. destacando-se apenas os agudos.

* *"* ** '^ >VU0S*. propoz-lhe sahirem um pouco. Fora. E n*esse ins/ tante in4eciso. o vento qf*TWCrilTjiMifc. j{/•xy*™rf/t e todos se sentiam sob um encanto mysterioso de •"*-»./ paratadamente de kjjdbúkd a cada canção.moíjolvenéo^é na contemplação.CHANAAN 175 dos copos entornados na sofreguidão da conquista. — D'aqui não arredo. e as -mais pequenas. encostavam/ *. que se fitavam com expressões varias de desdém e **^" j dj/divertimento. gritava elle. de repouso. intermediário. intimidadas pêlo silencio que ellas mesmas faziam. Os que yfÃJ* ainda tinham consciência..*. i . Milkau temendo pelo agrimensor. E os dois foram-se esgueirando jy -&L da sala.«f**-*5. com os olhos pregados no es/ ' paço. Xy*-" ../ saudade. a desfructar o resto da tarde no terreiro. sem)odera-v/)furtivamente do domi.Y17*^}^ rense. E de então em deante estas palavras serviam dis./ nio da várzea abandonada pelo sol.^ j m . / S r ^ Milkau e Lentz julgaram-se no meio de doidos. cabeceando de somno. No terreiro as creanças-fafigadas estavam serenas. l' hf C'lr /r ( ' .. não arreda. sem cólera. a lua vinha rompendo e a claridade que d'ella descia.^ . de idyllios^ L^T**"^*? campesinos casados com aquelle estribilho do cea. perseguidos pela vaia dos que / ficavam. "-—' . ^ ' ' . — Não arreda. riam gostosamente da ira dos outros e mais que tudo do effeito dos pro prios cantos cheios de versos de amor. E os allemães embriagados o acompanhavam n'um berreiro.

E mais tarde. fora mais illuminada. Os músicos recolhiam os instrumentos e vinham vagarosos jantar. A sala. pois muitos ainda do mantinha-m/á mesa ou se postavam en^ Jj costados ás portas e^ janellas. abria um cir/v r "^" ** ~ culo de fogo em phosphorescencia. Quando a descobriram. e pouca gente dansaya. os grandes. No terreiro já não havia quasi ninguém : as creanças tinham debandado. Em geral.. Alli. ' tes. como esfriasse. onde na sala da frente se começava a dansar. volveram á casa da festa. a musica tocava uma valsa arrastada e langorosa. os pares se compunham de rapari(/$*' gas. e o foram margeando. haviam partido para as colônias. e todos se divertiam alegremente. ^j I ou /recolhido ao salão do baile. • ella estava illuminada. depois que L ^ " * ' a noite avançara. até pux. Os dois amigos caminharam até ao rio.176 CHANAAN se ás mães sentadas no chão. i ili s. tímidosjjd negligen. o' ' / torpor/ dos rapazes.. Detiveram-se e sentaram nas pedras. Subiram ao / sobrado. e ouvissem de novo a musica. dentro da claridade mansa e leitosa do luar. descuidosos por algum tempo. e a luz xfyÇjyíjfo/e quente que sahia das janellas e das portas. doavam proL^i-Í*'^* vocadreâs sacudindo com os seus movimentos. Agora é que se podia vêr a variedade de <^<*^«-- p^yHi^J^-u UCm- . erü^çadas umas ás outras. e s t i m u l a n t e ^ ^ f f i V I i Não oc pass^-muifô^a^^-ciffiffvfue 0 baile [ v**** ' entxOáigf em plena animação. que. a musica não cessava de tocar.

. acompanhava a festa. a família está toda aqui. que estava ao lado de Milkau. voluptuosos. com as'mulheres. creadas e todos reunidos n'uma grande promiscuidade. Deante de Milkau que. Um homem de tosca figura. Não conhece? — Não. sentado a uma janella aberta. arrastadas com estrepito pelos seus pares. uma joven de flexível graça. passou. de movimentos ondulantes. e o patrão d'ella é aquelle mesmo que é o seu par. Amanhã estará trabalhando com o mesmo ar — Naturalmente é uma colona. é muito graciosa. lavradores. desengonçadas ou morosas. caixeiros da cidade. Parece que não cança de levantar aquella cabecinha. distinguindo-se do resto das outras raparigas. é um dos negociantes mais ricos da cidade. Ah! lá vae ella ao braço d'aquelle mocinho alto./ r i m r— Não ha nenhuma que seja capaz de chegar a Luiza Wolf. — Realmente... não vê? E um colono e filho de colono no Jequitibá.. é em tudo assim.CHANAAN 177 gente agglomerada na casa de Jacob. rrfrriiiiir n~ rlin i r » . — Não. sem separação de classes. Alli estavam negociantes do Cachoeira. de nariz grande. tropeiros.. — Pois admira. na serie de pares de uma marcha polaca.. — A h ! E preciso conhecel-a para saber que não é só no baile. é creada no Cachoeira. Martin Fidel. O pae . A mulher já -é velha como elle.

como vê. é aquelle baixo. Os movimentos eram tardos e pesados . (drAddjMfà as mulheres amar'TC i s raVám lenços ao pescoço. Quando^ícon^adansãAparava)os pares se voltavam-Vèn'um mesmo instante. que^iominava as vozes dos instrumentos. namorados passeiavamalli. por causa do suor que . dentro de sapatos grossos ferrados. abraçados. marchando frente a frente. barbado e de chapéo na cabeça. enorme. faziam um barulho secco.refrescaríy». separados. e todos livres » movianrragarosamente.à 1? abandonado. ora separando-se em alas. o par é a creada. ora desenhando meias luas. arrastando-se com esforço. í \jfr lhes escorria da fronte. resmungando conversas y o*.) £/ Milkau estava só.seu informante tinha-o ijli. para se reunirem depois de differentes voltas. velhos fumavam o seu cachimbo.. executando variadas figuras.. cõTfío por uma combinação mágica.no es^g^ro. Muitos sahiam até ao terreiro para §&. procurando os bancos encostados ás paredes das salas ou aos cantos das janellas.178 §KANAAN d'elle também está dansando. farto de lhe relatar coisas da colo- í . Os dansantes continuavam no compasso marcial da polaca. uma desenxabida. batendo fortemente os pés no assoalho. o . ora fazendo evoluções de homens e mulheres.. gorducho'. > 'Y. i ^i^^xamente^de eharuto^ú* cachimbo ao queixo jljl Yj chapéo na cabeça.

volátil. Alguns minutos depois. talvez longas demais. dxlixfJb . aquelles mesmos olhos. /^jg JffflYOyH^Ut» -é. sahiam%os braços como ca-. a descançar bem perto . Felicissimo não sahia da sala Q de jantar. ás y//<?&/ vezes. alegres. Junto de Milkau.& offegante. era o cabello louroJfôfo. e o amigo pensou que. De vez em quando. tinha um ar fatigado e sentava-se n'um pesado abandono. I J^T^ era a expressão da bocca. as vozes d'elles. 10$k£$0faí certa b e l .com certa ousadia. o mirava nos ^ olhos. a mesma que na capella o fitara durante o seu somno. . e quasi todos foram dansar.' mas humida e bondosa. entoadas. .'"* seriam a vida e o amor da "rapariga/Esta respirava f *. entravam n'um grande alvoroço. Mas o queuuiaTÍffrfta de superiort^*"* ^ era a fronte aberta.# y W ^ ~ ' leza.CHANAAN 179 nia. estivesse no terreiro passeiando solitário. da sua bocca descorada. no mesmo banco. meigos e infinitos "~~^j sobre os -quaes via boiar imagens doloridas que —. becas de galgo. tocou de novo a musica uma valsa. uma distincção maior do que era commum J*t4*>' nos colonos . onde com amigos allemães continuava / *~ a cantar e f beber. sentaram-se duas mulheres* ^ f u m a dr*il$>c»xeconheQ$bs!tto. z—^~ porém de um contorno fartoJe as mãos brancas. Estavam alli.o busto erguido. Também da sua parte ella não deixou de acompanhar a furto o vizinho e. MilkauJentãcVtáj^ á vizinha. o porteesa gracioso. Lentz desde muito tempo não apparecia na sala. fatigado d'aquellas simples e monótonas dansas. plácida e innocente. ao menor ' silencio da musica./ drolltb. Ày*i<y<f''\ 4A .

Milkau ficou meio confuso e desculpou-se. e como que rasgava um tênue véo para mostrar a deliciosa paizagem da sua alma. mas. conhece-se a nobreza ou a grosseria da raça ou do grupo moral a que pertencemos. A voz d'ella era um canto intimo. pela voz. aqui tem esta minha amiga. si quer um par. pois não me sinto bem. Um rapaz ae approximouj e sem dizer uma p a lavra. Mr rntão^silifrrrorin r tmnf^iill? Respondeu promptamente: — Não: não posso. voltando-se para a amiga. disse radiante e rápido : . pegou na mão da outra rapariga. como habituada aquellas maneiras da amiga.rapariga.180 CHANAAN Não dansa ? (Ju-4j?'' Ella não se intimidou ouvindo-a vaq&^Mliii. confessando que não sabia dansar. que se deixou acariciar negligentemente.. que traduz a musica do cérebro.. ajs*</ e com gesto de carinho quasi maternal.. E sorriu levemente. percebem-se as qualidades secretas de cada espirito. <0L. E como em toda a voz humana. Vejam só. E a sua interlocutora : — É o que me acontece pretextar. se érgueu-e. sonoro. Mas ninguém me acredita. o accentp da sua era uma revelação da personalidade intima. quando não me sinto bem.. arrastando-a para a dansa. á moda do logar. que é uma das melhores na valsa. tomou pelo pulso a outra moça.

. — Já vejo que converso com uma grande preguiçosa... i — Sim. Lembro-me de tel-a visto na capella do Jequitibá. Neste banco ou na janella. Não quero me separar de ti... onde me esperas?. que ás vezes seria melhor passar a vida a dormh. e o somno me veiu como um arrebatamento feliz. E verdade. — Por aqui mesmo. — Por signal que eu dormi. E o pastor não o divertia.. e hoje tem sido um regalo — Oh! desde manhã andamos n'esta roda viva. referiu Milkau... Tenho tanto que te dizer. — Fazia um calor terrível.. sentia um bem esta-" immenso.. Quando a joven partiu arrebatada pelo par.CHANAAN 181 — Maria... ha muito /empo não nos viamos. Ao contrario.. Maria enrubesceu. não é verdade ? — Não sei. volveu com vivacidade a rapariga.' '' . " li t~. recordo-me bem de que não estávamos muito longe um do outro.. — Deixe lá.. mas immediatamente retomou o fio da conversa. Maria disse a Milkau : — Não lhe parece tão boasinha ? E filha de um colono do Luxemburgo.. replicou meio confiada e intima. Não é por preguiça seria para esquecer tantos aborrecimentos que iJdesejaria um grande somno.. — Eu ? Nunca..

quando estás que não podes ? Não. Vamos para lá : o ar fresco lhe dará forças. C_J — Aborrecimentos? Imagino a que «)isas ' simples dá este triste nome. fosse preferível. Ella não respondeu e ligeiramente abaixou os olhos. como a um velho conhecido. — Talvez. mudou de assumpto. quando logo depois os ergueu.. observou Milkau. E agora queres dar um passeio ou preferes ficar aqui ? perguntou a outra arquejando' de cançaço e sentando-se instinctivamente : — Oh ! meu Deus ! Passeiar. — Eu sabia. que também ao seu lado não sentia o menor constrangimento e se exprimia sem emba. Quando a musica parou. amor. allucinadas no movimento aéreo da valsa. os pares se desfizeram e cada um dos dansantes tomou direcção diversa.182 CHANAAN Acabou a phrase com uma voz sumida e vagarosa.* raço. sentar-se á janella. Levantou-se. as cadeiras alli estão desoccupadas. descança um pouco. disse Maria á amiga. — Como é bello dansar! Com a sua mão fina fazia um aceno affavel ás amigas que passavam. Milkau ia achando prazer em se entreter «om a rapariga. para sua companheira. e as moças correram sôfregas para . — Tu vês. não me mexi d'aqui á tua espera. observou Milkau.

as nuvens. meio assustada por um grande barulho de vozes.. Todavia. mas tudo cortado por atroadoras e ^tf/]Mf///^ -7^w*2! dfy gargalhadas. 0 verde das arvores se adoçaVa á luz diamantina. que elles ignoram. rijo. puro. o agrimensor insiste. receiosas de perdel-as. a torrente rolava borbulhando. descendo no céu. Havia grande discussão.Jví> CHANAAN [\r*f- ' | v« 18g as cadeiras indicadas. — Que é isto ? interrogou Maria.. T/fâúindo que uma grande ^A*//** rixa se travava alli. — E afinal. e pouco tempo depois voltou. quer forçar os músicos a tocaram. — Não é nada. sem estrellas e desmaiado ia se transformando em um pavimento de crystal. e o grande f ampo dzsí. Milkau sahiu para vêr de que se tratava. livre. transparente. os rapazes protestam contra a innovação. \ .? perguntou Maria. em vozes altas _ / e agudas. 0 primeiro olhar d'elles foi para o quadro de fora. Maria e a companheira ' 'não estavam tranquillas. Os músicos não sabem como executal-as. se desmanchavam no horizonte. Toda a terra estava inundada de umiluar branco. O agrimensor Felicissimo entende que já basta d'estas dansas extrangeiras e que jgora se deve passar ás dansas brasileiras. um vento manso balançava os ramos. ensaia alguns passos. Todos se precipitaram para indagar &fc que se passava. que vinha da sala de jantar para o logar do baile. assobia. e d'estes as sombras ainda longas dansavam inquietas.

w ^ * ^ " e muitos amontoados ás portas e janellas. achando aquillo estúpido e gro- . Depois d'este accordo. / C . e a gente anciosa correu ^ . acocorava-se. poftyj/í/rffôfyjf oxchestxa. medonhos. para con . A musica suspirava gemidos languidos. Rodava sobre si mesmo. músicos. quasi todos estavam sentados. os músicos vie•. no meio da casa. *%*y*c*-o^ livre para a dansa.voluptuosa. ^ f ^ f M W ^ ^ J* / » ^ ^ ^ e > € ^ ^ í ^ # I ^ M j 3 g ^ expe*+*" ^ ^ compJLssísMxx^tnJlndÀ/o^me^nòs gís d^da^síf q«ae '"'* r *' +. «^vT seguir um bom logar. e « j ^ cio de espera. desengraçados.E. J_ ram para os seus logares. sahiu para o meio ^"^jtjtft-^da sa^a> gritando com voz difficil : Í ^ J * — E o chorado. cambaleando. e o dansarino só. C W De facto. com ty*-^ ^ os olhos tortos e compridos.. tíremeduára. r^. fazia tregeitos desconnexos. e jamais um gesto se casava com o compasso da musica. Junto r*?"^"*"^ aos aos músicos. arrastava a perna. Mas nenhum som produziam as suas mãos dormentes. n'um borborinho de risadas. ftffâffl /uccedeu um silení^. meu povo! /JZhltÀt*-. erguendo e abaixando os braços. agoxWitf ^ ^ t ^ ^ ^ a f i n a d a . Riam em torno. começj/tjfyfL a tocar uma peça arrastada eM^ . e veremos alguma dansa da terra. Alguém perguntou ao agrimensor o yyy. ninguém se movia mais na sala. Felicissimo. rencissimo Felicissimo cantarolava cantarolava oo anaamen-/^. andámen„ < * * * ***** ^ 2 to.t^^1 que ia elle dansar. ensaiava ' estalar os dedos como castanholas.^ para a sala. $if fáfLyju.184 CHANAAN — Afinal parece que Felicissimo vencerá.

Foi uma barafunda. A embriaguez do agrimensor era completa. Arrebatado pela musica que lhe falava ás mais remotas e immorredouras essências da vida.-/. uns fugiam abandonando os logares. e afinal.. outros riam do espectaculo. A sua alma nativa esquecia por um momento essa dolorosa expatriação na própria terra. ~ livrando a cabeça. todos gritavam de susto. /-éy^***'" Durante algum tempo ninguém se moveu e a 9<^ri. O agrimensor apoiou-se com a mão á parede. mas os lè^i vizinhos o sustiveram na f/f* cadeira. com medo de alguma queda desastrada. agradecendo-lhes com o / enternecido/olhar de bêbado manso. Todo o seu corpo se agitava n'um só rythmo . o seu corpo se arrojou rápido. Joca pulou na sala e principiou a dansar. • altiva e extraordinária alegria.CHANAAN 185 tesco. a musica continuava. por prazer. e cahiu J^r/á/á^ e pesado n'uma -w-J^Z cadeira vazia. os cabellos i» agitavam livriuricnlij ou / U . . e o inutilisava inteiramente. sorria. Elle -deixou-se prender. violento contra a parede. o mulato se transportaya)para a longe de si mesmo e se transrlgTrnrvjíf n'uma 4. Mas.'*' nada de navio. a cabeça erguida • tomava uma expressão de prazer illimitado. com os dentes em serra. Felicissimo ainda tentou erA guer-se.fz0 A rosos compassos. como n'uma gui. Felicissimo deu KJ mais algumas voltas. Por enthusiasmo. entre gente de outros mundos. como um fauno f/ll antigo.. de repente. solitária nos seus largos e cho.í*' musica didi^dM^. a bocca entreaberta.

ora espalmadas no ar. com os pés juntos n'um passo miúdo e repinicado. obedecendo ao compasso da musica. suspenso. fazer um silencio que desequilibrasse tudo. mas que se adivinhava febril. com os braços abertos. quasi de rastos. corria pela sala saracoteando o corpo. outras. Umas vezes. na sua alegria rara. de cabeça inclinada e olhos compridos. quasi pairando no ar. e nesse gesto. requebrado. como a dansa de um beija-flor. ou molles cahindo sobre a fronte. retomava a sua doidice. querer voar. como n*um grande ataque satânico. imperceptível. n'uma ^rbjfação '^/e*** de todos os nervos. os pés voavam no assoalho e. ora unidas. era vibração. todo elle era movimento. vinha languido. N'esse momento a orchestra podia parar. vertiginosa. querendo arrebatal-a n'uma volúpia contida. paravam. Depois. as mãos. ás vezes. Joca não perceberia a falta dos instrumentos. A scena continuou algum tempo com esse único *-.Hy ^P^y . rápido. sahindo dos braços retesados. perfilado nas pontas dos pés. vivendo. sacudindo os membros n'uma dansa desenfreiada.1S6 CHANAAN empinados e eriçados. no impulso da sua alma. agitava-se todoy . elle parecia. tremulo. erguia-se n'um salto de tigre. que dava a illusão de um instantâneo repouso em pleno espaço. espraiando-se na velha dansa da raça. ébrio de musica. no seu corpo triumphal. era musica. pois todo elle. estalando castanholas. ora baixas. e achegava-se a alguma mulher.

O peito offegava. «^ 'f^ o terreno aos vencedores. Maria estremeceu ouvindo o canto de amor. Era uma longa. larga.. invadia o scenario. Joca procurou um par. clara.. ninguém sentiu o Ímpeto de sacudir-se. Desolado.. as sombras minguando se resumiam mais fixas. declamou como na velha bailada : — Ob ich dich liebe ? Frage den Stern. toda entregue á paixão. que sentiam como elle. com a flexibilidade vigorosa do páo d'arco. e sem saber o que fazia. Havia jaaki luar Í W W 4 * « / fora. Ninguém veiu. Todos tinham curiosidade e nada mais. E como o derradeiro sobrevivente de. /Z^tèr^/ei outra dansa. esque. de remexerse ao rythmo d'aquella dansa. vae derreiando o corpo combalido. uma mulher que acudisse aos seus appellos.jJKff^0ff *y^fJM^I0^lfl a amiga de Maria.. de uma saudade das suas companheiras de mocidade. fluente como um rio. e. Era a valsa aiJi t i lema. das mulheres negras.CHANAAN 187 personagem.. infindável e sus^ surrante palestra. Um momento a rapariga alteou a voz. uma raça toda extincta ^jtí^f/j^f n fi^W&fyfflr^ Jmlfy. ////'*' f" '' tà*\ Na sala<^^pares/roavarrí n um frenesi. que correspondesse aos seus movimentos. assim o • yUJLS ultimo interprete das dansas nacionaes foi cedendo J. emquanto outra musica. fitando com os . pouco a pouco foi cançando. as pernas morenas não se retesavam com a mesma energia de pouco antes.. tomado de uma repentina tristeza.ff/lJ+tf**" cido de dansar. N'uma das janellas um pax IfáYJfftflLava.

.. envolto como n'um véo intangível que o não deixava sahir para o mundo nem permittia que o mundo viesse a elle. no terreiro. entre vários colonos. dizendo com uma voz sumida e tremula : — Que tristeza.. toda a vida se acabaria. gritou Lentz. peior que o eterno frio. Sua vida triste. Pensou na sua própria vida. Acabara a dansa e era a hora da separação. p f e f l ^ f o u (f[&u< que algum dia também. aqui nesta Terra radiante. já recomposto d'aquelle instantâneo desfallecimento.188 CHANAAN olhos ardentes o céo. e uma immensa tristeza. como de um antigo conhecido. Por sua vez. como obedecendo 1 a um chamado extranho. ao ar livre. A moça despediu-se de Milkau. subiu ao astro morto. que no dia seguinte se tornaria a vêr.. — Oh ! pensei que fosses o ultimo a deixar esta casa. recebendo jovial o com- .. n'esta solidão enaque ia passando a existência. Hfefcjmaginou a solidão de um mundo sem vida. um grande silencio reinaria nestes mesmos cantos cheios de movimento e de alegria. Um velho7chegcmi#á janella onde estava Maria^ chamou-a. principio da morte. ** viçosa e feliz. sem uma companheira. sua vida casta e mysfica. Milkau. lá ! j O pensamento de Milkau. essa terra deserta. E para quantos não jpomeçára o isolamento. marchando como um cadáver phantastico na estrada do infinito.. foi procurar Lentz. encontrando-o. no seu destino. apontou a lua.

A terra dá o menos possível aos túmulos: elles. gestosa.«Z***»*'. Não sabia que eras tão grande apaixonado de festas. E falámos também de outra Allemanha que ha de vir.. — Bem. \ffôjfncfyfâfap£$$£/$ f/jf* jèfâfffifa. amigos. escassos e raros na fralda da montanha.CHANAAN 189 panheiro. — Um cemitério ! respondeu Milkau. começaram a ver cruzes pretas e pedras brancas por entre os pés de café. Até um dia ! . Não ha em Chanaan logar para a morte. camaradas ? / / / ^ K^ ty"$tflftf /ppl au dirarr>la prophecia. não apagam nem dão sombra sobre a Vida. vendo os outros alegres e te quiz )>' dar~a liberdade de também te divertires ao teu modo. — A caminho ! Adeus. s t T a m " m e. por um grande cafesal bello em sua 0 íf}utviçosa negrura. Não é verdade. — Que é isto? perguntou Lentz. no futuro. E accrescentou : — Vê tu. —' / f P . — Aqui estive a conversar sobre a Allemanha com estes amigos.. que os enlaça e domina na força do seu triumpho. mas agora cuidemos de ir para casa. na encosta de uma montanha ma. £j I . disse Milkau. < v iA Bateram durante horas e horasA mesma estrada / j* * '^ de manhã perdorrida.

Filha de immigrantes. Muito das palavras do desconhecido se impregnara no seu espirito. de cC" um pequeno clarão dentroyíi. morto ao chegar ao Brasil. antigo colono estabelecido no Jequitibá. Vivia-se tranquillamente. A « colônia » 0JL prospersí i os outros habitantes eram o filho ca^ ^ j s a d o . não conhecera o pae. longe do Porto do Cachoeira.VI Maria não podia esquecer os fugitivos momentos do seu encontro com Milkau. na mesma casa onde ainda vivia. ^* vC/ A historia de Maria Perutz era simples como a miséria. no barracão da Victoria. a mãe viuva e quasi mendiga ^ empregárar"como criada na casa do velho Augusto Kraus. Nascera na colônia. e um neto que nascera um anno antes de Maria. as creanças crês/ IP- . jfóytâ/yjflfk da sua /»*•»*•-vida. e ella guardava recordação d'esse dia do baile como de uma festa tranquilla para a sua alma.

e o velho Augusto. para elle cantava coisas cujo sentido não entendia bem. tendo quasi chegado ao extremo da curva desse circulo em que as edades se tocam. e com o qual mesmo se confundia n'uma grande innocencia. o seu lar era aquelle em que fora recolhida. se punha a fumar. O ///' ' sonho era sempre o mesmo. e já moça. Sentir a vida é soffrer. s^entretinha^em encher as almas dos meninos de recordações da sua vida. um anceio de tornar á > sua terra. como o sol. A sua família. á alma cançada e saudosa do colono. como vive a arvore. Ignorando a própria historia. vigiando o gado. por muitos annos viveu como inconsciente. depois da ceia. mas que falavam. cuidava como de uma creança. Esquecera Maria a morte da mãe. ^^fjò se separavam á /<J noite.CHANAAN 191 ciam como irmãos. passando a existência sem perceber o mundo. o facto devia ter acontecido na sua remota infância. lendários. a consciência só é despertada pela Dôr. quando o ancião vinha para / o meio do terreiro ^Iff^f sentado n u m tronco / / ^ ^ secco de arvore. na completa felicidade é adaptar-se definitivamente ao Universo. crescida. de rever essas montanhas da Silesia. viver por viver. não lhe deixando traço na memória. de que se não distinguia. de quem ella. amores fabulosos. scismando. paizagens extranhas.onde dormira quando pequeno. de coisas longínquas da pátria gerrnanica. Com elle conversava longo tempo. Nesse . O grande amigo de Maria era o velho. Viver puramente.

Maria foi amante ' do joven Moritz Kraus. farta como um paiol de algodão.ez em quando. n'este outro mundo. de bruços no chão e gelado. rapariga resultasse alguma ligação de amor.j/amJlrA das as preoccupações tomadas. e elle as saudava pelos nomes. desceram do céu. apezar de to•. e Maria scroccupavam"em arranjar os leitos. Mas.. como perdidas das companheiras. Elle as viu sempre an» &ud marcha de força^•Áà. a rapariga achou-o derrubado. despertando-o de mansinho/Énfiava-lhe o braço.. Depois da morte do velho a situação de Maria na família foi se modificando. Emma." i quando a tarefa se concluía e as duas voltavam ao silencio. Uma noite. arrastava-o brandamente até ao quarto e o deitava na cama fofa./jS d ° s n-° c a m p o azul. Já a tristeza entrando no seu espirito lhe revelava o desencanto da existência. como . Augusto Kraus 9 sentava"ao ar > livre. até que na epocha da sua' migração. lhe 11 1 traçava a separação entre mfo. baixaram ás águas para desapparecerem uma noite e serem trocadas por outras. E assim. Maria sahia a buscar o velho. _„ ^^ n'umi?ejit¥eftescime«í© infantil. já a ambição dos colonos. Mas ainda. que assim se chamava a nora. As mulheres. donos da temerosos que da convivência do filho jfylíféfl Jláo casa. para vêr rfVBCrfV* a s velhas estrellas. até que adormecia tranquillo como um pássaro. Estes amores eram. lá vinham algumas das antigas conhecidas.7w <<•^ 192 CHANAAN O tempo conhecia pelos nomes as solitárias estrellas. ao balanço do mar. e foi a ultima. de v.

. Mas a cupida ambição dos já então velhos Kraus não permittijp que as coisas seguissem o curso habi. era apenas o interesse. que não existe entre os colonos.CHANAAN 193 em geral. Queriam que o filho se casasse com Emilia Schenker. deliberaram mandar o filho para outra colônia. os pães. que os levava a afastar Maria. que lhe parecia entrar gostoso nos planos yrnAkt*r dos pães. O seu abandono foi completo . que poderia ser lançada de um momento para outro na estrada ? Como •'" poderia embaraçar com a sua pessoa. e no d//dft de cortar uma ///*****£• simples inclinação. Assim esperava Maria. os amores da colônia e deviam acabar por um casamento. uma pobre creada. sem suspeitarem do ponto a que tinham chegado as relações entre ^_* Moritz e a creada. longe do Jequitibá.iy esperando esquecesse o amovf/ffl^ffl/ftffl^-# ^#££ ijjpyJL o espirito dos Schenker para annuir ao dese. quasi todos da mesma origem. que a convivência tornara inevitável e levara ao maior compromisso. Que era ella sinão uma miserável. onde o alugaram como trabalhador. com os seus desejos e ambições. Assim. uma das mais ricas moças do logar. não tevê meio de communicar com Moritz nem animo de exigir o casamento./( tual. a avidez de incorporar o filho á fa*§ milia Schenker. Não era a distincção de classes.v L Z ^ 3 jado casamento. JC^od** Maria viu com grande pasmo a docilidade do *«ÁC«*/-amante. de Moritz. os planos da família ? Para o rapaz aquella ligação fora uma simples conse- .

os cabellos amarellos se £*?»*• f misturavam K relva vecdej-es-^seios arfavam in^t—. e Maria. elle sVprest ' ( .. deitava-se ao sol n'um / completo abajádono. !IJ°^^*tyyL)0íftfÍL só do desalento moral mas também da mysteriosa perturbação do organismo. mais inquieta com a fatalidade da sua sorte.194 CHANAAN quencia da vida em companhia de uma rapariga . alegria dos-ou-tres-. —fraqueza yfyyfffip ./ tumescidos. a bocca se humèdeeía.^ t I tavi/fddtífo e satisfeito a esposal-a. e ella(osjüesapertav*)n'um gesto de / desafogo. céos. —tinha tonteiras e tudo se lhe turvava nos olhos. terra. ouvia phrases e juramentos de amores alheios. Indo ás festas da colônia.. não foi á capella nem ao baile de Jacob Müller. fora apenas uma conclusão animal.. teve a dolorosa proy[/<x vação de se confundir f. Um grande desanimo a . alvoroçou-se. parecia balouçar como em alto mar. cada hora mais abandonada. fl <2oul ' Pouco a pouco. esquecia-se da tarefa. Este. Maria já não era a mesma galharda e resistente serva. y/tí _ Íf0t^/fHtfft a a S o n i a . que lhe enchiam os ouvidos. os olhos semicerrados se perdiam no azul do infinito e tudo./ tomava. pensando encontrar-se com Moritz. Quando no cafesal lhe vi/ nham subitamente esses momentos de cançaço. inundava-lhe a fronte e á garganta I<VK—/ lhe . e de vez em quando. e. porém. um grande suor fria. reprimindo os sobresaltos.E P o r i s s o n ã o esque- . e desde que lhe acenavam com outra mulher rica.subiam náuseas. retendo uma immensa vontade de chorar.

tudo ' pervertendo. sem alcance. ?>o outra. f*\j „ O colono disse que sim. cflÇ^^-n^* n™~JwwH I^^^J^ . mais forte. que era a sua nova existência. Uma manhã. E no led desespero. As palavras d'elle. ficou embaraçado. Kraus olhou o escripto. apezar de estar no Brasil havia trinta annos. quando um mulato. mais l expressiva. iam doando / L ^ ^ / outro relevo. que t-jfáfa-skcbaiag-. ella se apegava a essa lembrança/como a um trecho de verdura no deserto immenso. tome conhecimento d'isto.^ / ( 1 — Você se chama Franz Kraus ? pergunto*! o tS^i^lA' v-mulato de cima. no ièrj. .. •~fc&/"9 — Pois. em funda agonia... então. . vivendo em si mesma como hypnotisada. eram ainda assim repassadas de uma infinita brandura. mas teimava em reproduzir de / memória aquelles momentos. outra sensação.tj-f W timento. desdobrando uma Q° ^ ^ -folha de papel. n'uma doce conspiração. desolador.CHANAAN 195 cia a sua conversa com Milkau. a que pouco A pouco / ^"" a turvada imaginação e a frágil lembrança.. se approximou d'elle vaga. Quem era elle ? Quando o veria mais?. sem significação. aba. e como. que cahia sobre ella como um refrigerio para sua anciã. E desdenhoso entregou-o papel. vazias mesmo. o dono da casa ia partir para o cafesal próximo da habitação. E sabia que tudo tinha passado como o rasto do pássaro no ar . montado n'uma besta..•/-rosamente. não sabia ler o portuguez.da montaria.

j $ $ ^ o mulato. Prepare do que comer. aqui. que também se conta.e do melhor. e de casa em casa sempre a mesma coisa : ninguém sabe a nossa lingua.. / CHANAAN . ao meiodia. tirou o chapéu submisso.. São três juizes.. Que é? — Também vocês vivem aqui na terra a vida inteira e estão sempre na mesma.. — Ah ! Prepare tudo para se arrolar. Picou o burro.y //Lr <*•» / .196 — Não posso ler. com o chapéo a rolar nas duas mãos. E um mandado do senhor juiz municipal para que vosmecê dê a inventario os bens de seu pae... e ficou como fulminado. Não esconda nada. voltouse para a casa. que sou o official do juizo.. O colono. Augusto Kraus. porque de nada lhe serve. Antes de passar a cancella. Ouviu ? Bom. mais essa massada.. Kraus estava pregado no mesmo logar.. não tenho mais conversa. adeus . sinão cadeia. Venho por aqui furando este mundo... E os quartos. "* . ouvindo falar em Justiça. Ia replicar meio encolerisado. Não lhe deixo contra-fé. A Justiça pernoita em sua casa. e solemne lá se foi n'um chouto pelo caminho. f. Não era assim o nome d'elle? A audiência é amanhã... Era só o que faltava. Que raça ! O colono ficou aturdido com aquelle tom insolente.. O meirinho gritou: m*^" i ft " . o escrivão e eu. quando o mulato continuou : — Pois fique sabendo que isto é um mandado da justiça.

arrumavajfTa casa. Veja lá ! Desappareceu. Apenas.«/£*/ começou a arranjar a hospedagem. Entrou em casa. arrancou-lhe palavra por palavra a narrativa da intimação. fazia ainda augmentar a própria tristeza d'ella. cada qual. que o viu em tão extranho abatimento. colonos. quando se falava '*"*' em tribunaes e processos. espreitando a chegada dos magistrados. também vestidas . <y) nome mágico da / „ Justiça . quando foi a tarde. um terror como si tivesse havido alli uma visitada morte. Maria lembrou os hospedes do dia .o pão negro dos . a « colônia » estava ordenada. como succede nos dias de desgraça. vestido como nos domingos.QarfrteTnrya. preparava'*». Na colônia. mas o terror dos outros. A mulher. Na manhã seguinte. Kraus. tirando-lhe as energias para distrahir os patrões./i'<í***/-J'*r hús esquecidos nos quartos. . querendo apoiar-se no outro. As mulheres / ' •>íwatavam-^allinhas. Franz animou-se. _ seguinte e o interesse que/deviam empregar para yj A recebel-os do melhor modo. Depois. Franz Kraus não teve mais animo de ir para o trabalho. As mulheres. e auxiliado por Emma e d creada /£. ambos ficaram mudos o dia inteiro. Comprehendendo isso.CHANAAN 197 — Comida e dormida para cinco. A lei e o direito tinham alli um prestigio inquietador. todos conchegando-se n'uma desfallecida cobardia. todos se confrangiam. Tudo se fazia debaixo * de conselho. e o colono ficou por algum f//^^fiu tempo na mesma postura. poz-se inquieto a andar no terreiro. Maria tentou confortal-os. xemexédifé velhos ba.

eram empreitadas pelos negociantes ricos do Cachoeiro/O colonoXçon^eu) a recebel-os. curador de orphãos. e só pelo passeio ! Emfim. Um dos juises largou-lhe o animal . solicito em ajudal-os a apeapagi n ijis âWnaes. — Perdão. de chapéo na mão. procurando fitar com o monoculo o promotor. que nada temos com isto. Os magistrados montavam excellentes bestas que.. eu e o collega. — Mas aqui não ha disto.. — Uma estafa I Quatro horas de viagem. atalhou com um riso de escarneo um mulato velho. Ainda o sr. Era mais de meio-dia quando a Justiça entrou senhorilmente na colônia. — Ah ! é verdade.198 yT CHANAAN com os seus melhores fatos. mas nós dois. veiu por obrigação... recordando nas linhas e na expressão inquieta. Todos.. adaptando a luneta azul aos olhos. batendo no chão ruidosamente com os pés. a cara de gato . segundo o costume. — Estou morto! disse o juiz municipal. não se arredavam do trabalho na cozinha. meu doutor. então não terei occasião de funccionar ? perguntou vivamente o promotor. são maiores.. sr. os outros da comitiva amarraram os seus nas arvores e todos espararam com o chicote a poeira das botas. côr de azeitona... sempre a gente se diverte. disse o juiz de direito. espreguiçando-se.

O colono sumiu-se. A casa é nossa em nome da lei. como era a sua alcunha. Era o escrivão. . Kraus correu á sala atarantado. — O sandeu fica todo este tempo a arranjar os animaes e nos deixa aqui ao Deus dará. — Moça bonita que saia ! gritou rindo o promotor. — Mas onde está esse inventariante imbecil ? perguntou com arrogância o promotor. E todos passeiavam pela sala com estrepito. de onde vinha um capitoso cheiro de comida.CHANAAN 199 maracajá. — Não ha mais copos n'esta casa ? perguntou com desprezo o escrivão.. para logo voltar com uma garrafa e um cálice. Mas que seja do bom. senhores. e poz-se como um creado á espera das ordens. como si já tivesse commettido o primeiro delicto. disse o juiz de direito. — Não haverá alguma por ahi ? Ouvindo tanto rumor. — Traga paraty ! ordenou o escrivão. entremos. ou rindo das pobres estampas nas paredes. ou praguejando. explicou o escrivão.. batendo com o chicote nos moveis. — Delicioso esse tempero! Promette! exclamou o juiz de direito. ou farejando para dentro. encaminhando-se para dentro. — Mas.

o mulato chegou-se á mesa com o braço estendido. escrivão. — Sr. disse Brederodes. Itapecurú.. E. E foi distribuindo a cachaça nos copos. — Sr.. Segurou a garrafa. Esses diabos de colonos a primeira coisa que aprendem aqui na terra é a conhecer paraty. contente. — Você quer ? — Muito pouco. Brederodes. balbuciando desculpas.. uma consulta. Rindo. o sr. para clarear as idéas.. . -— Tome lá.200 CHANAAN O colono tornou ao inferior e depois reappareceu.. em pé. o meirinho esperava a sua vez. serviu no cálice ao juiz de direito. meio desconfiado.. e poz em cima da mesa quatro copos. dr. uma consulta de direito. meus senhores ! propoz o promotor. doutor. continuou o promotor na distribuição. — Dr. o « maracajá » começou a beber. — Meus senhores. — Mas. O official de justiça pôde beber antes da audiência ? Na porta. Os outros riram sem responder á pergunta. estalando os beiços : — E bom. me affronta com esse copo quasi cheio. um nada. seu fracalhão. como mais graduado. — Vamos a isto.

Uma onda de sangue íhe yj'} ennegrecep o rosto. sr. e temos processo nullo. porque si formos esperar que esta gente se mova.HS-J ram-se-lhé de vermelho. y* O juiz municipal apalpou éfdi'Ifflf0. é o nosso mordomo.44. / olhando pelo monoculo ^ subalterno. ' — Não ha risco ! De um trago engoliu a aguardente.. estamos convidados. com medo que esta lhe escapasse. como é isto ? Só duas camas e somos quatro ! observou inquieto o promotor. os olhos cheios d'agua tingi. O sr. Itapecurú. Aqui ao lado ha outro quarto. escrivão. tomarmos conta da casa. E empur- . Faça favor de vêr isto. — Este sujeito não nos dá almoço ? Olhe que já é tarde. o quarto é este. Indicou os aposentos. O melhor é deixarmos essas nossas cerimonias. o homem tinha tudo preparado. Olhem. Quando voltou. /<*" O escrivão entrou pela habitação a dentro..CHANAAN jl/ 201 — Vá lá ! depois py esqueça^e tocar a campai-/*) nha. todos o seguiram e ii viram-^em um quarto com duas camas altas. disse o dr. Não sahiremos d'aqui. . disse : — Vamos almoçar. um dos //<)&&*leitos : ~£*<d*nt*^ Ah! que somno divino aqui! à& Mas. si querem lavar as mãos. procurando o colono. ae grandes colchões de palha farfalhantes e commodos.

que estivera todo o tempo na cozinha. — Até o sr. veja as chinellas. meijl perturbada. notou o escrivão. e logo depois todos três. dirigindo-se ao juiz de direito.. onde o almoço os esperava.202 CHANAAN rando a porta de communicação. — Nós hoje não sahiremos d'aqui. o café. beberam cerveja em quantidade. Caça extranha.ella ficou vexadissimae rubra. mudados de roupa. sentindo por instincto a crueza e J^iíVj^dytó^ dos olhares excitados e cobiçosos. o escrivão mostrou-o. enfiando" os olhos nos olhos da rapariga. e. observou sorrindo o juiz municipal.. Pois bem. dr. entrou com. li/.* como si estivessem em suas fazendas. Brederodes. lavados e refrescados. disse afoitamente o promotor. — Socega. O official de justiça obedeceu. foi depondo as chicaras de café defronte de cada hospede. só no fim do almoço. Comeram com appetite as comidas da colônia. O dono da casa e o official de justiça serviam a refeição. entraram radiantes na sala. Os collegas do juiz de direito o imitaram. y-. Maria. Elles agradeciam. meio nervoso. Manoel.. Maria. que de •//U (W Ar^y^ y*«~ "— T / • «• ^'~y i^^1£^t^ A .. a sorrir intencionalmente. não é exacto ? inquiriu o juiz de direito. Única mulher no meio d'esses homens. Não é nenhuma asneira. dando-lhe de manso uma palmada nas costas.*J — Oh ! lá !. Souza Itapecurú.. vou me pôr á vontade..

Vamos lá. como si o convidassem á mais enfadonha das % tarefas. Procurou a melhor luz. com um sorriso parvo enchendo-lhe a cara. Brederodes ficou pensativo. E a pobre moça. — O h ! é só para vêr. emquanto os outros commentavam.. Nos seus olhos turvos passavam miragens de ^/AdÜtd. V S. o papel de margem dobrada..•* —r Bem. que abriu em pagina marcada. debruçado sobre... O official de justiça apresentou-lhe um bahúsinho. e elle sentiu impe//i^1**'tos de se apossar da mulher. está prompto o termo. divertindo-se com a scena. '' £2*"*// Depois do almoço. E. e com ar fatigado e distante começou â acompanhar o serviço do escrivão. e quando um grande torpor ia dominando a companhia. não manda abrir a audiência? O dr^-Paulo Maciel espreguiçou-se bocejando. a lançar os termos do processo/ Paulo Maciel tomou um logar á cabeceira da mesa. entendeu o escrivão espertal-a..CHANAAN 203 ?! monoculo na mão ficou atrapalhado. . • — Pois sim. finda a tarefa. puzeram-se a fumar descançados. seu Pantoja. dizendo ao juiz municipal : — Sr. çmquanto arranjava a mesa para o seryiço. de onde elle tirou utensílios para escrever e um formulário. desappareceu n'um andar incerto e balanceado. dr. O « maracajá » poz os óculos e armou-os na testa. sentou-se e principiou.

e fizeram-lhe perguntas a que éüi respondia com voz apagada e tremula. aterravam os moradores da « colônia. desinteressado. Este heróe aqui na posse dos bens. confuso e medroso. passeiando na frente da casa.. esses gritos estridentes... onde os collegas fuma- . avolumando-se no silencio total. que entrou na sala. e onde élle parecia extranho e prisioneiro. nem á fazenda nacional. começara por desconhecer sua própria casa transformada em tribunal. juiz municipal. Audiência do sr. Quando declarou que o pae era morto havia quatro annos. governada por aquelles homens que se tinham apoderado d'ella... dr. o escrivão resmungou : — Vejam só. E passou para o quarto. Paulo Maciel. então abra a audiência. dr. Sob a força do sol ardente. ordenou o juiz municipal ao meirinho. de campainha em punho.204 CHANAAN — Sim senhor. vá tomando as declarações.. O seu olhar não retinha da scena sinão uma vaga impressão. desfructando-os como si já fossem d'elle. sem dar contas á justiça. juiz municipal. Ordenaram que se approximasse. foi até á porta e começou a badalar. » Depois foi apregoado o dono da casa. Este.. clamando com voz fanhosa : — Audiência do sr.. na grande calmaria do mundo. levantou-se e disse ao escrivão : — Seu Pantoja.

CHANAAN 205 vam tranquillos e preguiçosos. cochilava o meirinho.jdespediy o dono da casa. ím de se haver áéy com a justiça. n'uma costumada fraude que lhe rendia mais custas. * %&r<>y .j ^ Duas horas levou o escrivão a trabalhar no inventario.. Vocês são finos. abrindo de tempos a tempos os olhos fftpéfff de f/i/C^fjjj. O processo foi-se fazendo com estes dois únicos personagens . proseguindo á sua discreção. estirados na cama. sem receber a menor explicação/áenmyPantoja tirou os óculos.yy . e que eram seus homens de palha. onde tudo 0 êfáffifáfáffa' n'um grande y^/»****'socego. Na sala. do quarto não vinha " *****'*** mais o som da conversa : apenas um roncar monótono e regular de alguém a dormir enchia a casa. somno. junto á janella. São as penas da sonegação. Tirou o paletot e deitou-se como elles. que se fechavam logo. Acabado o serviço. mas eu sou ma/ caco velho.. Pantoja atormentava o colono com perguntas e de vez em quando & interrompia-para ameaçal-o : — Se você me occultar qualquer coisa aqui da casa ou das terras. .. deixando apenas em claro as assignaturas do juiz e dos avaliadores que elle dava como presentes.. sentado n'uma cadeira.. Penas terríveis! Assim envolvia as suas ameaças nas dobras de termos technicos. com que ainda mais amedrontava o allemão.. que assignou tudo quanto elle mandou. ou do cafesal..

sr. Tenho pramptos alguns mandados para intimar uns colonos d'esta vizinhança.ordenou o escrivão ao official. meu doutor. comendo os espólios á rftnv* tripa forra. — Não. póde-se vêr o que rende no fim da festa... e quando se sabe expremer a mandioca. é melhor deixar essa pobre gente em paz.é um gosto. sorrateiro. Afinal. como si quizesse suster aquelles appetites do escrivão. condescendente e resignado. veiu ao quarto em que estava o juiz municipal.. levantou-se.. E lendo os papeis. Não sendo coisa grande. ? Já acabou? e <fiy r — T a l o . sem nos da^ satisfacção. .jfpf Svdyr 0ftáo sobre elle IfltftfjffltyÁjfô com os olhos endiabrados e sinistros. vae deL* pressa quj. não nos adeanta. Venha v. — Prompto. — Neves. — Seu P?ntoja..ponha*se em campo. E cousa pouca.. seu Pantoja.. tudo o que cáe na rede é peixe. disse o juiz municipal. s. E aqui ha bastante. mas. e em mangas de camisa e chinellos veiu á mesa da audiência assignar os mandados. . *"^ — Ah ! o sr. repetia alto os nomes das pessoas a intimar : — Viuva Schultz. meu doutor.. assignar os mandados para se fazerem amanhã esses inventários aqui mesmo. — Ora..206 CHANAAN e manso. doutor! • e ^ " ^ ^ 6 * * " i Maciel asespantou^com a voz)ao subalterno. Havendo milho. que não fazem inventario ha muito tempo. seuPantoja. .

— De que.. si fosse eu o juiz dos inventários.CHANAAN 207 Viuva Koelner. E voltando-se para o promotor : —Você tem-se fartado de dormir ! — Para que serve o colono sinão para isso ? Para sustentar e regalar a Justiça. sr. Com este bello dia. deitados! Ora. * — Muito bem. ia dizendo o juiz municipal. — JJrçá^ que malandrice! disse o juiz municipal. Olhe. meu* senhores. dr.. voltando ao quarto onde descançavam ostollegas.. Com poucas estou de volta. — As qrdens. bem sabe o trabalho que tivemos para arranjar esta pequena excursão. Maciel que se consegue isto.. . Esta é a nossa religião. d'estes miseráveis. — D'esta pobre gente. Brederodes. vamos passeiar! E abrij^ as \v*Xte. aqui. amortecida no verde da Tfftftfifá*^ folhagem das arvores que envolviam a casa. Otto Bergweg. — Tenho pena. Maciel.. como os vigários.. O sr. doutor! disse Maciel ao juiz de direito. não sahiria das « colônias. O meirihho metteu os mandados no bolso e foi sellar o burro. doutor ? interrogou vivamente o escrivão. seu capitão. Para amanhã ás nove horas. devemos sempre fazer as nossas desobrigas. Mas não é com o dr. tudo é perto..f0frfâjfffâf#U y> r ^ aposento uma luz branda. Hff Os dois outros abriram os olhos. : .. — Que boasomneca. no seu caso.

protestou Brederodes com interesse. deve ter pena é de si. é por essa falta de espirito pratico que o paiz vae mal. \\ Todos triumphantes escarneciam do juiz municipal. metteu-se entre os discutidores. ia de porta em porta em nome da lei. da sua família e dos seus patrícios. dr. e nos seus risos entravam suas almas. acudindo á interpellação e. . $"" 'que era o chefe político do logar. Nós somos de outra escola. Ah! todos prosperámos no foro. os velhos. voltou-se gravemente. quando me constava que havia um fallecimento. Estes moços de hoje se dão outros ares. Capitão Pantoja. que de pé se penteava. aqui o capitão sabe. juiz de direito? Itapecurú.tuirny camaradagem com o subalterno. Vão lá saber a minha fama. não me envolva na V" classe dos românticos. — A quem pergunta! Fui juiz municipal doze annos na Bahia. com- . dr. — Perdão. Paulo Maciel m~ viu^assim excluído d'aquella *Nk communhão e ficou meio desdenhoso. assestando o monoculo. O sr. e trinta dias depois o mandado fazia mexer os recalcitrantes. Não é... dividindo o cabello ralo. Não deixei um só por fazer. nós.. sr. Commigo. colono £ anda fino. tomava nota. Itapecurú.2UN CHANAAN — Na miséria anda a Justiça. mirando \ os collegas dominados pelo olhar felino do escrivão.. Fui o terror dos inventários. Qy Havia n'essas palavras um prazer refinado de«r ^ misturar-. eu movia a machina.

y&i *»'•**• regado de fructos. o do $$jft> // -T ^ era o riso silencioso. abandono. de Itapecurú. sem energia para o ruído. Nada falta aqui. contra a immigração! — Então. amarellos e vermelhos. Que di&exenç^È.. notou Paulo Maciel: — È admirável a ordem e o asseio desta colônia. puzeram^a *JW^' passeiar vagarosos. que lhe tapava a calva. physionomia. A Justiça reinava livremente na casa £V*^ e no pomar. Deram algumas voltas. não*' «J^ ' . O sol já ia fraco. De chinellos.*^/^amena. pela sua theoria. tudo nos encanta. e com a relaxação a tristeza e a miséria.. e a tarde era tZ^. examinando do sitio. engravatado. e em mangas de camisa os jovens magistrados fartavam-se do bello ar da tarde.I bria a cabeça com uma espécie de solidéo de lã. ^» "/^**/ Vieram todos para o terreiro.. e quando estavam debaixo do laranjal car. O escrivão conservava yi a sobrecasaca de alpaca preta. E ainda se fala. alvar. so desleixo. ^df^mdterras cultivadas por brasileiros. rápido. tudo prospera. encurralados na cozinha. muito penteado. e «•«. ia com um paletot de palha de seda. fructos ^Í^C***^ novos ou sazonados. interrompeu o pro12 . outro era o riso f/Arlvf canino. Os colonos. um era o riso tumultuoso. appareciam. já muito russa/jfo. com um gorro de velludo na cabeça. cortante de Brederodes.CHANAAN 209 pondo um conjuncto extravagante. oti^'^jperdendo a força em se estampar demorado na i^f^^-. o juiz de direito que não os acompanhava em tamanho desalinho..

Maciel. não . Não ha duvida que falta ao brasileiro o espirito de anaiyse... confirmou este. o que esse homem j ^ v í ^ ^ c o m e . Ah! Porque uma-vez apanhado. Quando vejo um indivíduo. não preciso saber das suas idéas. e eu concluo sem medo de çrrar quaes os f?«**0. estudo-lhe todos os hábitos. refiro-me a todos nós..210 CHANAAN motor. Terra invencível. eu sou um fanático da analyse. — O doutore terrível. E' a conseqüência do que diz o dr.//'sentimentos psychologicos do meu examinado.. uxjtí ^f0fffi/f> P o r exemplo. disse Maciel trocando um olhar com o promotor. — Ah! Tenho confiança nos novos povos formados n'esta escola. como se diz na velha escolastica. classifico-o. devemos entregar tudo aos allemães ? — Apoiado. — Sim. doutor ? gritou o juiz municipal. — Terra de analyse. dr. para mim era indiferente que o paiz fosse entregue aos extrangeiros que soubessem aprecial-o mais do que nós. Não pensa assim.. basta Ig.Então os Estados-Unidos.E quando digo brasileiro. Não podia entrar em conc. E que se pôde fazer sem analyse? E o destino da Hespanha : cahiu em nome da philosophia. Itapecurú ? O juiz de direito tomou um ar solemne : — Sim e não. E' meu. Olhe.urrencia com um povo analytico.. commentou o escrivão. meu amigo. Quando estive em França. — Como.

rapazes quasi imberbes. dr.. não ha inferioridade. cheios do espirito de analyse. antigamente esses homens falavam por falar... Só rhetorica.. — E que respondeu ? — Pepsa que embatuquei ? disse com o seu riso volumoso o magistrado. E a d'estes de agora nem na praça da Concórdia.. como vê... Maciel.. respondi eu. (voltando á nossa HQ^^JO. mas sim o que elles ' J/^t^>«*/dizem. me disse uma vez em Pariz : veja os seus oradores de hoje. Até certo ponto convenho. fôrma. rica. E a sua loucura era tão grande que pagavam pela lingua. morre poxjyLsse mesmo espirito de xheto-/yT . com o sr. Um sujeito.CHANAAN 211 deixei de ir ao parlamento e admirei os jovens espíritos. Idiotas! Veja hoje essa gente nova.. analysando os impostos.. de Lamartine. Fala-se em Lamartine. nada de serio.o~ ***** *$• " •ytj . ' E Itapecurú arrependeu-se profundamente de ter 'dito isto. e até patrício nosso. / f{ como diz o poeta. Não. O Brasil. Anões! Lembre-se de Berryer. Não reparemos na yj. Não íjj^ Cdolhe você como eíles dizem. que alli estão dissecando o orçamento. Vae vêr. questão). porque leu nos olhos de Pantoja a sua \ . Quando falavam aqui dentro (estávamos no Palais Bourbon) a voz d'elles era ouvida no mundo inteiro. Ao mais ditoso cedo o ingresso. educados na sciencia positiva. que devemos ceder o passo ao mais forte. — E depois ? — Matei-o. É uma fatalidade. Ahi é que está tudo. olhemos jfd^d.

remendar o pensamento. Teve um frio de medo equiz.212 CHANAAN condemnação. podem vendel-a. mas emquanto houver um mulato que ame este Brasil. — E quando é esse famoso momento ? perguntou calmo e desdenhoso Maciel. não duvide dos meus sentimentos patrióticos. que é seu. Quem applaudiu mais do que eu a resposta do Marechal ? A bala. Os senhores podem querer entregar a pátria ao extrangeiro. Brederodes. disse. — Quando esse imperador da Allemanha que você admira tanto. estampando-se-lhe na cara um sorriso tenebroso. com a nossa marinha insignificante. Pantoja. disse o promotor. replicou Brederodes. — Sim. sim.gaguejando. mandar a sua esquadra bloquear os nossos portos. que com o nosso exercito diminuto. meus doutores. obtemperou o juiz de direito com uma voz de melliflua cobardia. — E que fazemâvocês para se oppôrem? Pensa você. — Mas/ capitão. á bala quando elles vierem. soturno. as coisas não vão tão simples. Mas o escrivão não lhe deu logar e acudiu rancoroso : — Admira-me ouvir de dois magistrados uma tal linguagem. escute. Não ha mais patriotismo. E o pardo cerrou os punhos. podemos $ $ / $ $ • a a l S u e m ? . rangeu os dentes. Patriotismo vae-se vêr em breve. é preciso desmascarar os patriotas de barriga. meu capitão. — E não ha de tardar muito o momento. não ha mais nada.

meu caro ? — E' verdade.. r — Ninguém pôde dom. A Polônia e o Transvaal também promettiam tanto. Nada mais.. concluiu gracejando Maciel. — . Meu doutor. cortez e lisonjeiro. observou irônico o juiz municipal. esperando com ar admirativo a resposta. nas cidades... ajuntou também. com uma caixa de phosphoros se liquida um exercito e toda essa canalha européa. Itapepurú. — De toda a parte. capitão/ perguntou. O nosso combate será com os europeus. Um grande incêndio que ha de espantar o mundo! — Sei d'isto. Tocando fogo nas casas. que lucro teríamos n'essa intervenção ÍPassariamos de um senhor para outro.. o juiz de direito... dõ Norte. Depois. — Como. interveiu o escrivão. — E a doutrina de Monroe? A^America para os americanos...nar um paiz quando o povo não quer. no matto. 7 .CHANAAN 213 Brederodes deu urna gargalhada e disse victorioso : — E os Estados-Unldos. rindo. Como elles mesmos dizem. — Como ? respondeu o escrivão com uma satisfacção sinistra. E a grande America cruzaria os braços? — Não sei até que ponto se metteriam n'isto os Esfádos-Unidos..

. hypothecado.. As rendas das alfândegas nas mãos dos inglezes . O nosso regimem não é Hvre : somos um povo protegido. É ou não o regimen colonial com o nome disfarçado de nação livre?.. ** O escrivão encolheu os hombros c«m de^pre^fe. ás minas. Não temos nada a perder. . observou. Escute. a nossa lingua enffim. *v . doutor. e isto decide o povo. O Brasil é e tem sido sempre colônia. Diga-me você : onde está a nossa independência financeira? Qual é a verdadeira moeda que nos domina? Onde o nosso ouro ? Para que serve o nosso miserável papel sinão para comprar a libra ingleza ? Onde está a nossa fortuna publica? O. disse fora de ei Brederodes.. homem. o que perder. cáustico. os Boers são uns mArayeís tjue têm. *'* • • — Os Polacos «rarh aristocratas e por isso indignos. Ouça. — Espere. eu desejaria poder salvar o nosso patrimônio moral.eu não a vejo. Os brasileiros. disse interessado o juiz de direito'.21 í CHANAAN ' . intellectual. mas a continuar esta . O senhor è dos nossos. — Os senhores falam em independência. não. então. gesticulando com a luneta.%. vapores não temos. mas. Você »ão me acredita. não duvide dos meus sentimentos.pouco que temos. tudo do extrangeiró. dó que á honra. felizmente.. — Bravo. estradas de ferro também não. » — Por quem ? interrompeu Brederodes. Alli ha mais amor ao dinheiro."* • — Capitão. o juiz municipal».

. — Você é um cynico. Houve um pequeno silencio. esta torpeza a que chegámos. e um corais nel allemão para endireitar isto.CHANAAN 215 miséria. — Menino. é melhor que viesse de uma vez para cá um caixeiro de Rothschild para governar as fortunas.. é porque aproveitamos da 1 disputa entre as nações fortes. elles nos *-^ccrrrerão. Isto reconheço. Dizem. pallido. Qcollega sabe que em questões d'esta ordem não 1 convém falar sem toda a segurança. E a sua cobardia . com os lábios a tremer.. . Itapecurú. fatigados de l impedir que outros se apossem de nós.. — Dii^m quea Allemanha tem planos. commentou fofundamente o dr. nias 'Paulo Maciel sorriu logo com superioridade : — Descomponha-me como quizer. deixe de ser malcreado. o que você não'pôde negar/i a evidencia dos factos. continuou : — Si na verdade não entrámos ainda na orbita de um grande povo. e obedecendo a uma excita£ão4ula.. mas um dia. Temos sobre o continente projectada a sombra dos Estados I Unidos. retomando o seu geito. E. disse seccamente Maciel. insultou-o Brederodes. proseguiu atrevido : — Colônia. menino. O escrivão saboreou a disputa. O oujra enrubesceu. como fizeram a Cuba.. repetiu frio e insistente. Itapecurú temeu um conflicto. emquanto houver miseráveis como você. Colônia somos nós e/seremos.

216 CHANAAN solemne punha uma certa brandura na discussão. que estamos sendo cercados pela cobiça dos Allemães. São . nem para eleições. varrer. — O negocio não é para manifesto. E elle mesmo respondeu : — Cruza os braços. — Pôde affirmar sem medo. replicou Brederodes. Porque não faiem os senhores um manifesto ? propoz o juiz municipal. esta corja que se apossa do poder p a r a $ enriquectr. esquecendo-se de que o povo soffre e o extrangeiro só tem a ganhar com a nossa miséria. Isto é coisa á parte. — As eleições vêm ahi. respondeu o escrivão. -> ••r O escrivão ficou embaraçado no seu dfi^plo sentimento de chefe de partido na localidade e de nativista. tomando a serio o que dizia Maciel. cuida de eleições. — E o governo. Porque esses allemães não serão nunca brasileiros. que faz a tudo isto ? perguntou Brederodes. capitão. — Mas esses allemães não fazem nada. — Eaté se aproveitam dos votos do extrangeiro. — Eis o que nos prejudica. Nós precisamos. é essa mania eleitoral : por causa de partidos deixa-se naufragar o paiz. de politicagem.. O próprio Imperador paga do seu bolsinho missionários e professores no Rio Grande e em Santa Catharina. coisa do interesse dos partidos. dos amigos.. e são os melhores eleitores aqui do capitão Pantoja. accrescentou Paulo Maciel. disse o escrivão.

Que podemos fazer para resistir aos lobos ? Com a bondade ingenita da raça. Sul America. a nativa fraqueza. Mas não haverá uma salvação. obedientes.. foi-se afastando na direcção da casa. Foi uma tentativa falha de nacionalidade.. Brederodes deu uma risada.. nós nos aproveitamos d'elles.. uns velhacos. deite de conversa. Ridículo. T^do vae acabar e se transformar..CHANAAN 217 muito respeitadores e mansos. do seu dinheiro.. Maciel pensava : — E o debate diário da vida brasileira. empenhados no assumpto.. nervoso. Pobre Brasil!. como nos opporemos a que elles venham?. escarnecendo : — Está ahi o perigo. Os companheiros o seguiam. e elles vão na sombra engrossando.. Momento doloroso em que se joga o destino de um povo... a descuidada inércia. nativista sempre. não haverá um deus ou uma força que 13 . até um dia se despejarem sobre nós e avassallarem o paiz. Abala! Paulo Maciel parecia desinteressar-se da discussão e.. tirando de passagem folhas das laranjeiras que ia aspifando. Todo este continente está destinado ao pasto das feras.. descuidado.. E que nos adeantam os Estados-Unidos? Será sempre um senhor. Ser ou não ser umâ nação.. mettem-se em nossa casa muito quietinhos.. Os Allemães são. do seu numero. Ai dos fracos!... fogo no extrangeiro... por esses respondo eu.... Um rebanho de carneiros... Capitão. Paciencki.

parecia fria e indifferente ás phrases atrevidas. mas amável. Ah ! nunca transigi... vá lá. e amada. Vale a pena? E o mundo é só isso? Vale a pena viver para ter mais policia? E a lingua? £ raça.. D'ahi. Mea culpa.quasi a esphacelar T se.. Temos o que merecemos.. apezar de tudo. degradada si quizerem. porém. Puzeram-se á mesa. Melhor administração. immoraes. tj da Justiça.já devolta das intimações.. e voltava ao assumpto. Desde a Academia fui um exaltado em questões de patriotismo.. e é só.. assim chegaram á casa. e está acabado. A pobre. Oh ! muito nossa. Sahindo do seu esconderijo. O juiz de direito não desanimava em desmanchar qualquer impressão sobre a sua falta de patriotismo que porventura ficasse' no espirito de Pantoja.... nossa. sim.. capitão.. e o meirinho. onde eram esperados para jantar. esta associação. mais policia.. temido pela sua influencia política. Maria rodava pela sala. é antigo.218 Y //fP /( CHANAAN paralyse o raio armado contra nós ?.. Emfim.. sempre perseguida pelos homens.. e^tó p u z e r a m / a s / ^ ^ ! cadeiras do lado de fora da casa eyi entretiveram-A' a conversar pela noite a dentro...... porque é nossa.. . A Terra prosperará... pôde ser que seja melhor. Acabado o jantar. Caminhando.. — O meu nacionalismo. com que a cobriam os sujeitos .. mesquinha...ajudava o serviço.. emquanto as estrellas vinham se abrindo numerosas e infinitas... boa.fraca.

Accrescentei Itapecurú.. — Nunca abandonaria minha pátria. e d'ahi os Tupinambás. — Como assim ? inquiriu Brederodes. — Hoje.. Os meus sentimentos nacionaes. Manoel Antônio de Souza Itapecurú. E salutar.. respondeu empenhado Itapecurú pondo o monoculo. Aquelles que. — Mas divertiu-se bem na Europa. creio que hoje. — Quando Gonçalves Dias e Alencar deram o grito de alarma pelo Brasil. redobrou o meu nativismo.. Foi um movimento geral. objectou Maciel. si pudesse. respondemos ao nosso modo. como o sr. sentem desgosto de ser brasileiros. Aqui para nós. creia. mas. confesso. Não nego que a Europa tenha alguma coisa de bom. não sahiria de lá. E só.. ia interrompendo Maciel por brincadeira.CHANAAN 219 — Mas isso foi n'outro tempo. Quawdfci mais tarde a palestra esmoreceüyoj uiz de direito disse aos companheiros : — Meus senhores. que propõem para matar o jy jjJJ/ . devem dar uma vista d'olhos ao velho mundo. os Itabaianas.. e aom certeza.. sou até jacobino. vendo a deê&dencia da Europa. Não dou tréguas ao extrangeiro. pelo caboclo. estavam enfraquecendo. estudantes. Eu me chamava Manoel Antônio de Souza. Não é debalde que me chamo Itapecurú. Cada um tomou um nome indígena. com a edade. tive orgulho d'este Brasil e voltei ao meu furor. os Gurupis. Souza cheirava a galego.. E a marca nativista que trago da Academia. nós..

receba o dobro dos seus patrões. Presumpção não lhe falta. não dá para nada. Os outros. esse.. Será bonito e asseiado.insinuou Itapecurú. era mais feliz quando o deixavam só com os seus pensamentos. — O que elle sabe é descompôr o Brasil.22U Í^^/l/1 '"/ CHANAAN tempo ? Vamos a uma partida de manilha ? Paulo Maciel não temia o tempo e. — Pôde ser que quando isto fôr da Allemanha. escarneceu o escrivão. mas. disse o promotor. disse Itapecurú. que ajuntou por sua vez : — Mas o dinheirinho no fim "do mez não se engeita. fede. Uma coisa affirmo : nada sabe do officio. disse o dr. que não larga a grammatica allemã ? . accrescentou Brederodes. maldizer de tudo o que é nosso. eu os espero no quarto. — Não conte commigo. Si um dia escrever para a Capital. havemos de rir muito. entraram a detrahil-o. desembuche para vermos o que tem tão escondido. accentuando a phrase com vistas ao escrivão Pantoja. Estou cançado e vou deitar-me. logo que Maciel partiu. Eu podia contar impagáveis.. que tem feito ? — Sim. doutor. para os jornaes. — Também pouco se perde. — E'verdade. nem por ser brasileiro. ao contrario dos companheiros. no fim de dftij}. Itapecurú. — E uma pena. Boa noite .

aguente-se para uma sova. Brederodes no terreiro chamava em voz baixa o meirinho : — Neves. e que acompanhava por divertimento. Não vejo geito. O promotor deu-lhe uma ordem que elle partiu a cumprir.CHANAAN 221 — Sim. com aquelle vago receio do tédio. ficando só. não querendo desistir de jogar. desaíío-o para uma bisca. até que o promotor. visse . Não tardou o <ffly$tyà*-fà*. deitado na relva. que tanto o perseguia. — Como assim ? — A bicha é arisca como quê. está se preparando para nos governar. acquiesceu Pantoja por entre baforadas da fumaça de cigarro. Neves! — Prompto. Só si V S.abandonou o seu logar.tÍÇ£r t*WÁAff-*TU> f — Então ? perguntou o promotor. O official de justiça estava a cochilar. passeiava nervoso. Riram e ergueram-se para jogar. disse pressuroso o juiz de direito. agitado de desejos lubricos. Brederodes. quando o viu ainda de longe. Os três jogaram algum tempo. seu doutor. capitão. — Qual! seu doutor. pretextando cançaço. respondeu Brederodes. e ergueu-se meio atordoado. — N'este caso. doutor. — Pois sim. O juiz de direito trazia sempre um baralho de cartas na mala para essas excursões judiciarias em que nada tinha a fazer.

Ainda que tudo isto aqui arrebente. os colonos não davam signal de vida. Corja de allemães ! — V S.. e n a * nente nevrotica pasfâlvam perturbadoras miragens . Uma fluxão de sangue subiu-lhe á cabeça. ás apalpadellas foi tacteando as paredes. n'uma meia allucinação. E desappareceu na direcção da casa. V S. resonava. Vou vèr si ainda dou uma volta no caso. ruminando vinganças. Deixe estar. Levantóu-sê sorrateiro e.. e quando na volta do corredor o clarão se acabou.reconhecia Ustn-o Jèu^i*'"'^* <**y*~ frf . Brederodes resolveu vir para o quarto. Na casa tudo se aquietara. não reparou como já vae bem adeantada ? Brederodes ficou colérico.. o ^ridii meirinho não voltara. punha-se á escuta. para vêr si.sensuaés.... Os dois parceiros. Nem me respondeu. tinham-se resignado a deixar o baralho e estavam deitados nos quartos. (b teu sanguf voltava ae*/ímpetos dd deseW. e um pouco acalmado no seu furor. e os olhos na noite escura brilharam felinos e máos. Ao dar com alguma porta. Este ficou só. Elle deitou-se de manso e poz-se á espera de que a noite avançasse. por um movimento. fugindo ao desabafo do promotor. — Ella me paga. mortos de somno.. ^ m i e era o escrivão. seguiu pela casa a dentro. rangeu os dentes. como si ainda tivesse o que perder. FyJié» de esperar. Ahi o seu companheiro. um signal qualquer. não se zangue.\ apenas alumiado pela frouxa luz de um candieiro de azeite que estava na sala.222 CHANAAN o nojo com que me olhou..

rodeiados de creanças.. em pé. tem de funeciona &/ . dr. o meirinho annunciáVa ao toque de campainha a audiência dos inventários dos vizinhos de Kraus. Escutou . No dia seguinte. — Pôde ser que não seja aqui.CHANAAN *~ ~ * \ 223 o quarto de MaúayfÁJ um momento deum^des.. Tentou abrir a porta. De dentro ouviu um rumor de alguém que acordara. seguiam atemorisados a scena. o promotor e o juiz de direito á janella conversavam.. Brederodes. Poz a mão no trinco. Na sala o juiz municipal e o escrivão estavam no seu posto. n'um instincto salvador que lhe fazia adivinhar no escuro o caminho do quarto. Isto naturalmente é o quarto dos velhos. á mesa. mas um vago vislumbre da consciência da sua falsa posição tolheu-lhe o movimento. voltados para dentro. Brederodes palpitou alvoroçado.. S. V. e uma voz assustada de velha perguntar : — Quem é ? Es tu. nada. « Miserável » pensou. Mas'esta estava ' / fechada á chave. Outra porta estava em frente.. a tramela levantou-se e com a pressão^ajDortaJabriuíe^rangendo.. E com esta esperança passouadeante nas trevas. encostados á parede. — Sr.• / ê i-0 /cobrif. Maria? Brederodes recuou para o corredor e deixando a porta aberta deslisou nas pontas dos pés. esperando ser chamados. com raiva o promotor. duas mulheres e um homem. ás neve da manhã. Um impulso de arrombar a porta tomou-o..

Ninguém cumpre a lei. ia respondendo documente a . se approximou.S. passou a tomar as primeiras declarações da viuva. n'um sorriso idiota. iniciando o interrogatório deante da apathia do juiz municipal. aqui todos herdam sem a menor cerimonia.. que triste e subjugada por aquelle apparato judiciário.. Em seguida. que se precisa da sua benção. n'este caso.2->'i V CHANAAN como curador de orphãos nos três inventários. assestou o monoculo nos intimados e sahiu magestoso. sabe que é depois. no fim do negocio. motejando. Isto vae acabar. — Sempre o mesmo. — Bem. — Ha quanto tempo seu marido é morto? perguntou o escrivão. '>— V S. disse o escrivão.. Pondo o chapéo. — Não é possível arranjar alguma fatia para mim n'esta festa ? perguntou o dr. O promotor teve um risosinho de satisfacção e veiu sentar-se á mesa. — Viuva Schultz! chamou Pantoja. emquanto os senhores preparam o prato... como nada tenho a fazer. Juro. uma camponeza alta. — Ha dois annos. ainda moça. Ha uns desvalidos que precisam da protecção legal de V. seguido pelo riso zombador dos que ficavam. Depois de alguma hesitação. vou dar um giro ahi fora. Itapecurú.. Todos comerão do bolo..

O juiz municipal e o promotor. levantaram-se e foram entretidos para a janella. Continuava Pantoja a lançar os termos do inventario. e um immenso pejo a assaltava. — Quantos pés de café tem a sua colônia ? — Quinhentos. — Bem.. eu arredondo a cifra.i o valor dos bens pára accrescer os seus lucros. meu defunto marido avaliava em quatrocentos. senhor. não sabia ler o portuguez. A mulher a cada passo soffria descomposturas insolentes de Pantoja.sem nadadizer áinteressada... escreveu : — Mil e quinhentos pés de café.que. — Mas. E calado..CHANAAN 225 tudo. A mulher ia se retirando. despreoccupados da audiência. segundo o seu velho processo de tudo //• fazer elle mesmo e/augmentarijiy descaradamente y . no meu cartório.. /// Depois de algum tempo.. eu plantei uns cem n'estes dois annos. para receber os seus papeis. sinão temos conversa no Cachoeiro.. radiante de allivio. disse á colona : — Agora pôde ir. .. não contei um por um. pôde ser que tenha mais ou menos. observou com accento escarninho o « maracajá ». N'üm papel escreveu varias parcellas. — Espere lá !. Que desembaraço! Ainda não lhe disse o principal. D'aqui a duas semanas appareça no Cachoeira. sommou13.além de tudo.. — Só? Não minta.

A colona lançou olhos de supplica para os dois magistrados. Meu senhor! — Não tem meu senhor nem nada. Si eu souber que vosmecê andou batendo a bocca pelo mundo. veiu sentar-se no seu logar e se interessou um pouco por esse grupo..22G *7 CHANAAN as resmungando e disse comsigo afinal : — Cento e oitenta mil reis. cuja cabeça dourada se realçava radiante por entre a pretidão das roupas da mãe. que continuavam indifferentes a sua palestra. o ar da miséria. Sem um apoio.. é que havia de ser bonito. aqui não se faz esmola. cançado de estar em pé. que esperava a sua vez de ser apregoado. Si tivesse de metter um advogado.. — Está direito.. olhe leve comsigo o dinheiro das custas. Pantoja chamou o colono. Trezentos mil reis. muito baixa e ainda joven. vestida de luto. porque não houve demanda. . A mulher. sahiu cabisbaixa da sala da audiência. Paulo Maciel.. tem de se haver commigo. Trezentos mil reis.. com um ar apatetado e longínquo. Ouviu? — Trezentos mil reis !. Trezentos mil reis !.. — E viuva ha pouco tempo ? perguntou elle.. esmagada. e dê-se por muito feliz. s? approximou*TJma filha de cinco annos lhe (seguravayb vestido e ella carregava ao collo outra. E depois de repetir com elle a mesma cousa. Nada de conversa e bico calado. passou a se occupar da ultima intimada.

. Não é verdade ? — Apenas houve tempo de levantar a casa. — E desde quando está no Brasil? — Ha um anno apenas. A colona. considerava como uma invasão dos seus privilégios.. afinal. respondeu a moça. disse : — Estou em trato para vender a minha casa e vou me empregar como creada em outra colônia. tem competência para dispensar na lei ? Ora. para evitar uma discussão com o subalterno. Brederodçs .. Que diz a isto.. fingiu não ouvir. seu Pantoja. — Estavam principiando a vida.. fazer o roçado para a plantação. — No fim de contas. A mulher ficou pensativa sem responder... Paulo Maciel. — Como é isto ? disse tremulo o escrivão. E melhor mandal-a embora. Meu marido..CHANAAN 227 — Dois mezes. V S. não ha inventario a fazer.. opinou Maciel... para se vingar do interesse do juiz. não durou muito.. — E triste! E como vive você ? inquiriu compassivo. que já vinha doente do peito. dr. no fundo de todos elles temido. — Naturalmente tem algum amigo que substitue o defunto. o que elle. disse Pantoja. esta é muito boa. Não se plantou nada.. habituado a fazer tudo.

.. dr. — Não concordo na dispensa do inventario.. aqui está o formulário official e / . e a intelligencia fina.-228 •ÍA l-J CHANAAN V S. Trata-se de orphãos. pérfida. Inventario é inventario. prender este escrivão insolente. . eu requeiro. Pantoja mediu-o triumphante. com esse escrivão chefe político. Os juizes passam e os escrivães ficam. não me mostra esses arrolamentos. sr. era dispensar o inventario-. que somma de energia.. O seu sentimento era suspender. acudiu vivamente o promotor. i.. dr. — Está bom. envolvendo-a n'um clarão de bondade. Paulo Maciel ficou sem saber o que dizer deante de taes attitudes... — Isto é uma novidade para illudir a lei.. E si o senhor não quer fazer ex-officio. Mas para isso. mandão da localidade. distincta descortinou-lhe. não precisava de consumir !. propoz com uma voz fatigada.o desenrolar de uma lucta cornos seus collegas. Façase apenas um arrolamento summario dos bens. cheguemos a um accordo.. Juiz municipal. em vez de um inventario formal. era ainda por cima dar dinheiro do seu bolso á desgraçada e mandal-a embora. apossando-se da situação que o superior lhe abandonava. respondeu o escrivão.. seu subordinado legal. é o principal interessado. Valeria a pena ? As suas poucas forças o trahiram.. lucta inglória em que elle não se queria estragar. de fluido nervoso.

. Deu uma risada secca.. deixe de luxos. vou vender o que tenho para pagar as dividas de meu marido. E o inventario foi feito como os outros. com as mesmas extorsões e violências. não entende d'isto. Si não quizer nos pagar. obrigar esta pobre mulher a pagar mais custas.CHANAAN 229 — Homem. veiu hontem ao mundo. objectou alegremente Pantoja.. Lagrimas!.. Querem obrigar a Justiça a trabalhar de graça.. Que mal ha em fazer-se o inventario ? — Que mal?. esta começou a chorar.. ia dizendo o juiz municipal. mas a mim ninguém me embaça.. e agora vamos vêr. quando o escrivão intimou a colona a que lhe desse duzentos mil reis. seu Maciel.. Era só o que faltava.. atalhou o escrivão.. — Primeiro a Justiça. dividas da moléstia e depois trabalhar para outras novas. Atordoada como uma .. Todas ellas choram. — Sim. — Capitão Pantoja. é rapaz... eu prendo os papeis.. não venderá a casa nem o roçado. — Mas não posso arranjar tanto dinheiro. É pouco? — As custas são o azeite da machina do foro.. V S... meu senhor. colérico e intratável. No fim. — Deixe o caso commigo. E voltando-se para a colona : — Vá. disse o promotor.. á mulher moça não falta dinheiro... — Deixemos de scenas. — Venda a casa.

O dia era abafadiço e dominado pelo sol. Quatrocentos mil réis... apontando o colono : — Ainda não' tive a minha conversa aqui com o amigo. Olhe que o negocio podia ser peior. Pantoja chegou-se ao grupo e disse ao promotor. Advogados. mas ainda falta alguma coisa. na garganta a voz morreulhe n'um espasmo. Sob aquella pressão.230 CHANAAN somnambula.. E por isso dê-nos logo. Os juizes vieram para montar.. meu amigo. vá buscar. capitão. Está me cheirando mal o fiado. O homem vacillou. O escrivão empurrou-o de manso.... camarada. demandas. amigo. que o fitou espantado da intimidade. dizendo-lhe zombeteiro : — Vá. ajudados pelo meirinho e pelo dono da casa. Uma vertigem o ia tomando. Você pôde. não se espante. a colona sahiu. accrescentou n'um gesto de irônica cortezia : — Muito obrigado pela hospedagem. — As nossas custas.. penhoras. E batendo rio hombro de Franz Kraus.. o senhor é de força. Depois do almoço. como para cahir.. observou lisonjeiro o juiz de direito. . — Que é ? interrogou inquieto o colono.. — Bravo. os animaes estavam sellados para a partida. que mantinha sempre com a luz poderosa um grande silencio. arrastando os filhos. o colono foi caminhando automaticamente para a casa..

Chorara. Depois de alguma demora. sem dar-lhe resposta. appareçeu o velho Kraus. A cavalgada partiu. n u m a raiva immensa e cobarde. Em pé. — Parabéns. o colono via com os olhos desvairados a Justiça sumir-se na estrada. mudo e abatido. disse Itapecurú a Paulo Maciel. Pantoja recebeu o dinheiro e contou. ficou elle longo tempo com a vista jpjffààfy na mesma direcção. as faces inchadas e rubras.. murmurou olhando ^ e d r o s o para os lados : — Ladrões! //&r*/~ i^*'*' . estimulado. E quando Ella desappareceu e tudo voltou ao socego profundo. a cabeça ao sol. O colono olhava-o. está chovendo na sua roça. que os ia impacientando.. E montou. Agora" tudo está em ordem. Procure os papeis no cartório. F i quemos bons amigos.• CHANAAN 231 — Ainda não viram nada. olhou-o com um grande nojo. respondeu o escrivão. — Muito bem.. de chapéo na mão. O juiz municipal. Subitamente. no fim do mez. Tinha os olhos vermelhos.. no meio do terreiro. .

nos serviços domésticos. Assaltavaa muitas vezes um desespero de fugir. vivia como uma louca. desconhecida e forte. e queria morrer. sem preoccupações alheias. cobarde. de uma immensa e mofina vergonha. e ella $é deixavá ficar na colônia e na vida. esperar que das próprias entranhas lhe viesse a salvação e o consolo do futuro. de ir para longe. definhava languidamente.VII y/y // A'l^-'de Continuava Maria na colônia de Franz Kraus no seu mesquinho penar. volteando apatetada pela casa. Desesperada da volta de Moritz.. as forças não lhe acudiam para qualquer resolução. preza de um grande temor.. no mesmo ruminar desespero e de agonia. que o tempo indifferente e implacável trazia cada vez mais á flor. fraca.. .. Outras vezes. Mas. e sem poder dormir noites e noites na afflictiva anciã de querer salvar-se da deshonra. vigiada pelos olhos cúpidos e inquisidores dos velhos.

a velha Emma enfureceu-se e começou a insultal-a . com as mãos tremulas. nem mesmo para a maldade . ficavam irresolutos. Viam desfeito o casamento do filho com a herdeira dos Schenker.(( lavei. em cochichos de vingança ou em planos para "se verem livres de Maria. erguida alli como um estorvo ao desafogo da ambição d'elles. deixasse cahir um prato. já fatigada de trabalhar. a vida n'aquella colônia era uma tortura para todos. E d'este w** modo. com o ar transfigurado que lhe punha a } amargurada maternidade. E. como uma manhã. que se quebrou. e vendo-a mover-se pela casa. tudo fora tarde. sentiam um ódio surdo contra ella. Assim viveram algum tempo esses desgraçados. processos. aoDravam-ine os rraDainos. que é o único encanto d'esta. Mas as suas cabeças não eram inventivas. A todo o momento eram ralhos e insultos. eram exigen- quasi comida. n'um cons. sem um movimento de revolta. subjugados pelo /píffiító e crescente jljcc*^ "-> terror que lhes deixara a visita da Justiça. com medo de .CHANAAN 233 Os velhos não tinham mais illusão sobre o estado da rapariga. tomada de um suor frio. e é&T ~ com desespero nevrotico dúé^viam a misera inaba. não havia mais o esquecimento do tempo. Maria. mais a indifferença pela existência. Não se conversava mais.fl/Qtante gesto de somnambula. n'um passo tropego. diziam inconsolaveis. E agora passavam os dias muito unidos.

protegendo o ventre com as mãos. — Fora e já. E foi então que Emma gritou : — Miserável. Franz estacotLili. ia recuando. canalha.. Sáe. Emma segurou a moça pelo braço.. berrava Emma. Vae-te embora. querendo se refugiar.. Maria sahiu para o terreiro e.14 /í*- CHANAAN n um berreiro. os diúi cabellos descobertos iam espa- . rangendo os dentes.. communicado do mesmo furor.. e transbordando-se-lhe o ódio.. sem hesitação. livida.. a rapariga. ordinária.mui i h l h . de pragas rancorosas.. Carrega teus trapos. para o desconhecido. não deixava de prolongar-se. A excitação dos velhos. de súbita que fora. uma baba viscosa a escorrer-lhe da bocca contorcida.. levada pelo impulso das ordens violentas. agarrou uma acha de lenha e brandiu-a. Vae-te d'aqui. O marido. offegante. o velho alcançou-a e com violento empurrão impediu-a de fechar a porta.. Por entre a folhagem verde.. Franz correu á cozinha.. que apertou com violência.. fugindo atordoada do alarido.. que a misera entrouxou algumas roupas. caminhava firme. peste. collou-se á parede. avançou colérico para Maria que. intimidada. n u m a ameaça de morte : — Fora. e foi debaixo de maldições. A rapariga obedeceu automaticamente.. Fora. e ordenou-lhe : — Parte... suja. Sáe. Cf Maria correu ao quarto. possessa.2..

. e os olhos grandes e limpos tinham o lustre crystallino e secco dos frios espelhos. tudo era apanhado pela sua aguçada retina. um animal que se movia no fundo negro da matta.. E na memória os quadros da sua vida desde a infância. quando se dispunha a retroceder.. que lhe entorpecia os passos e flra despertava a consciência. até que lhe chegou a fadiga da energia em que se mantinham os nervos. a voz de Emma : — Vae. Tudo cortado.. um reflexo-de sol.CHANAAN 2. desmanchar com o sorriso o pesadelo monstruoso. Via-se expulsa da Velha casa que lhe fora o lar.15 lhando o fogo do sol. um cafesal verde.. sem dar fé da sua direcção... um fio d'agua.. o mundo !. trazendo-lhe uma sensação de desanimo. voltar! Mas. cuja razão não percebia bem. Sob a grande e funda emoção as idéas tinham-se congelado JtíÁ^y^l a sua visão dilatada ia notando e retendo os pequenos incidentes da paizagem. reconheceu. como um latido de cão. não mumurava uma queixa. Não dizia $A palavra.... Sim..Uma arvore cortada. E foi caminhando. Era uma estatua marchando. inconsciente e desvairada.. voltar.... o jardim. Atraz... //fofam . perdição de minha casa.n'um impefo de cólera.. entrar sem rancor. que des- j/p /.. Quiz tornar á casa. sem explicação. n u m a insondavel^sj^áção.. Vae. Maldita! Maria andou algum tempo.Tudo acabado. seguia-lhe no encalço. miserável.

imaginando poder tão simplesmente restabelecer o que estava extincto. mas da sua d _ ' tímida e doce figura de camponio lhe ficará uma / agradável impressão. o abandono. c*v Uma vaga inquietação de não pyiiídnjxax um ( 'i pouso. cio da estrada. dando-lhe animo para prag^guir no silen/ ' ^... . &icaminhou-se^ara os logares mais invios. uma extranha / ^ZZrv^-mtrepidez. 1 fl/tí^<~tffá}/fâdy(/yffl/0i appello de salvaçãoj^è* ** "/**' yfyyyy o pastor de Jequitibá. pois um grande pejo a afastava das /. recordava-se da ultima festa da colônia. um abrigo n'aquelle deserto. não o tornara a vêr. E á proporção que Maria subia.236 CHANAAN vairava. com a cabeça pendida sobre o seio. que ella seguiu confiadamente. Na pequena alma de mulher rústica e simples de Maria. um sobresalto de terror^he^acudiiAo corpo. Parada. porque a falta absoluta de outro apoio no mundo lhe ídcJéphUft. e com a saudade ia enchendo. lembravam o isolamento. QdamÂ/pt depois de duas horas de marcha. e os dois pequenos edifícios de atalaia davam maior tristeza á solidão. A paizagem era limpa. Desde aquella manhã da missa. o sacrifício. .Começou a subir. começou a /f~. povoando de gente.• casas conhecidas. houve um rebate de esperança. ^*?^~w. . Mas foi instantânea a hesitação. Lembravam habitações humanas perdidas no deserto. chorava. a rapariga avistou a egreja e a morada do pastor. os olhos embebidos no / próprio corpo. ^ agital-a.

monótonas -— f£»0 e cantantes. infatigavel. ' / A mulher do pastor acudiu á porta. Passou adeante e em face da porta fechada da casa tremeu mais. desfallecida um y/Jsr*W*^\ instante. deu-lhe um tremor. da montanha deserta.///l*"r' 1 ças... o que era a ' paixão do novo pastor. cabeças alvas de creanças movendo-se ibelhuda/ pa£a ella. Maria passou cabisbaixa. Era ahi a escola regida pela irmã do padre./yfy versai. o terror do recolhimento d'aquella casa aHi£<fou-h\e as for. o vazio descampado das montanhas e dos valles calados. Olhou de soslaio.. e n'um impulso nervoso tocou a campai/ ' nha. assustada w****™ Mí rt/t*~** —i yr~* ' zS£sâj&&*>A**^ . c . j .CHANAAN 237 de vozes e gestos. Depois. de movimento. atí/ou ao chão a trouxa de roupa e se * jy apoioji á parede. emquanto elle dormia. Alagada em suor frio. e viu uma sala escura. veiu-lhe um novo esforço /( . de vida. De uma porta aberta vinham vozes de creanças soletrando. na parede uma cruz negra envolta no sudario. que xeúniu di^filtí^ n'aquelle repouso uni. sinis. Ella recompunha também os instantes em que vira Milkau e. ia scismando com a musica do harmonium que soava na capeljinha.<y tra. levada por essa corrente de evocações..~De dentro nenhum outro rumor ffffa P a r a aDafar a v o z da c r e _ anca na escola.. mas o medo *>da solidão. mais forte e estridente. jlJL (£dduâ6 chegouao alto viu a terra em roda dajifí1 casa. que proseguia desarticulada. talhada e preparada para jardim. Maria quiz fugir.. e a voz infantil. A de valor. uma mulher de preto no fundo.

Depois. Jh véi-e. com uma expressão de espanto que ainda mais atemorisou Maria. O homem.respondeu soluçando a miserável. Frau Pastor se approximoú^ / bateu-lhe no hombro : ** — . minha filha ? Maria não respondeu.... muito vermelha e tremula. ^7w/£»*^ O pastor fftydA confuso. / — Você não tem uma casa.. onde a rapariga o espe/.. eu. (jfdfáfá MariaJÍBBHficou petrificada..238 CHANAAN pelo barulho. abundantemente.. uma colônia. depois de confusas explicações. jjj^Velle. queria.. grandes lagrimas rolaram-lhe pelas faces. K A6 o r a i a este mofino contacto d/piedade./fríraT y" H-/ / 7 . — Eu. Afinal.. Poz os olhos no chão. __ « -/ ' mSna^0ff0f. achando extranho o pedido. • « Que lhe aconteceu ? Perdeu seu emprego ? * (bjjjü. — Que deseja. interveiu com meiguice Frau Pastor.. tinha uma voz de uma doçura inesperada c que se não casava com o seu porte rústico. que lhe sahia do ^ÍP^ ^ * ^ ^ e Í í o d e touro como um balido deovelha. Nós não precisamos de mais creadas.? . — Vamos. rava.. cás^jlecantido d/arrancanwy alguma coifsa sobre *y í /*" a:suásituação"e^lhe r dar&ir*maisconfiança. que lhe aconteceu?. "{y^y ^ sempre com a sua voz macia. r-. As pessoas da . jtfl erecto como u m T ^ l a d o e vestido como um jardineiro. entrou esta para falar ao pastor. que veiu logo á sala. um agasalho.. Maria f ^ fjT ch/rava sem pejo...

Na casa. ainda não me disse porque deixou a casa de Kraus. esperou que tudo se explicasse. Frau Pastor. O irmão explicou-lhe o assumpto. onde Frau Pastor era uma sombra do marido. fui expulsa.. e essa mulher.. severa e silenciosa. ergueu-se por instincto. e ella o tinha submisso. para deixar a sala. Fora. a auctoridade da cunhada era decisiva.CHANAAN /am a lha jéropôr variao queotoag'^ Pouco a pouco 'ella se foi acalmando. Eu sei bem porque os seus . fiel aos seus hábitos de nunca perguntar. — Vamos. para tamanha punição ? A professora. uma grande /J. algazarra ijti^^ e gritos festivos de creanças soltas [f se foram perdendo pela encosta da montanha«abaixo. — Ora. rústica e marcial como elle. filha... trocando um olhar com a irmã. dizia o sacerdote com o geito astuto do camponio. deixemos de comedia. — O h ! Oh! Então o negocio é grave! Que falta commetteu você. Era o alegre rumor da liberdade.. por entre lagrimas. Como posso tomal-a sem saber de tudo? — Não me quizeram mais. clamou zombeteira a professora. interrompeu o inquérito com uma risada secca. entrou na sala.. O pastor a temia. temendo a explosão da cunhada. e pelo instíricto da obediência respondia. Mas a curiosidade reteve a sua alma de creança. A irmã do pastor. amedrontando-o com as regras religiosas. — Vamos. que mirava com olhos devassadores a rapariga.

Era o grande ódio. a incendiar a irmã do pastor.. a amiga do homem? — Oh! minha senhora. medrosa.. Vá para a sua vida. já que entrou n esse caminho. a ft 7/ . que mal lhe fiz?. Ergueu-se da cadeira o pastor e muito solemne.. a torre fechada. que devem ser gente honrada.. Divertiu-se? Porque chora? Temos nós culpa dos seus prazeres? Olhe. Vá. a mesquinha Maria. a inabalada. a m o rada de Deus. mulher. a puzeram na estrada... Não era ella a mulher incompleta. Vá.. O pastor empurrou-a de leve para a porta. a consoladora. E ao passo que a rapariga ia deixando a casa. era a perturbadora. o que vem do sentimento sexual. e talvez o coração. Mas era uma compaixão sem agasalho. O seu é horrível.. inane. com aquella maldita e doce voz. JâuLkpx -Maria cessou de chorar e jtíMl^/ espantada que alli também todos estivessem loucos. aqui é o logar do amor de Deus. que tudo faz comprehender. acariciando-a paternalmente.210 CHANAAN patrões. não era para aqui que se devia dirigir. disse : /YrvoTw — Em nossa casa nãol^yyfyytjji^f^o prazer. Maria lho retribuiu. lhe inspirasse maior piedade por aquella esvaída sombra de gente. Fora. Esta é uma casa de respeito. regenere-se.. o maior de todos.... Um olhar de piedade infantil escapava de Frau Pastor. emquanto a outra. Lembre-se de que todo o peccado tem uma punição. Desencadeiou-se a ira do Sei nhor.

. a montanha. deitando-se longas. e na sua febre sentia-se como que apertada. preguiçosas. Depois. Isto aqui é muito solitário. emfim. correndo. Ficando só. filha. Maria.. cuidado na descida. filha. á cruz das estradas. todas as scenas violentas d'esse dia se misturavam extranhas como n'um pesadelo. suffocada pelos morros e enterrando-se n'elles. No seu coração innocente. a voz do pastor ainda lhe cantava ao ouvido: — Vá. pobrefilha. o desespero do desamparo na matta.Si este logar não fosse sagrado. —Vá. grande in. e as encostas dos morros. vá! E quando Maria se viu no alto da montanha e olhou deslumbrada. a^porta se fechou? e tudo o que era humano alli desappareceu n'um immenso silencio. . poz-se a caminhar pela que levava a Santa Thereza. arrastada pelo medo e por um assomo de vergonha. que pena! Como soffrocttnãopoder guardal-aém minha casa. cuidado com os caminhos./Yrt/>' meiras sombras. Ao chegar abaixo. Transmontava o sol. os valles apaziguados e.etótófe<ám-se da luz serena da tarde. começou a descer. filha.... livres do. Jy^Jr^'Transformava-se a expressão das coüsas. 14 .. Si não fosse terrível a morada de Deus! Vá. • cendio do dia. na sua intelligencia confusa.CHANAAN 241 voz do padre se revestia de um accento cada vez mais delicioso de ternura : . as pri. minha. Era o soffrimento animal n'uma alma rudimentar. allucinada.. e o que a impellia para a frente era um vago terror da noite.

e aquella hora.. // Os cães R e c e b e r a m ' n'um atroador alarido.242 CHANAAN como tomadas de somno sobre a relva avelludada e voluptuosamente verde: os pequenos ventos acalmando a febre da terra inflammada . ***** Maria. mas ÍM3 ella proseguiu pelo terreiro a dentro. Da t . Aos seus ouvidos subiam vozes humanas. A miserável sentou-se desalentada sobre a borda do morro com a vista perdida nas habitações. que não era só o cançaço da corrida. então.. impellida pelo imperioso desejo d & j M j ^ o e * * ^ conchego. ^---^*2^"ando. não havia ninguém fora.. E. o calor. em cada uma das casinhas da matta brasileira. a fadiga physiologica da maternidade. na opulenta terra de Chanaan. Maria teve o Ímpeto de «erprecipitap-clo alto sobre as casas que estavam a seus pés. tornando.. as famílias dos emigrados se reuniam n u m olvido feliz. ergueu-se e desceu rápida para o grupo de casas. alli. reunidas n'aquellas vivendas.. esquecida da sua triste situação. sem o menor pejo. Outra fraqueza a pungia.. arrebatada pela fome. inoffensivos os animaes. dilatados pela claridade crystallina do ar. a sympathia dos semelhantes. Das chaminés sahia fumaça. No fundo do valle Maria viu um núcleo de colônias engastadas na vegetação... deliciosa.ahi chegou. como uma musica sussurrante. sentindo-se attrahida pelo feixe de forças humanas. mas o vácuo da fome. e em torno da mesa esperavam a ceia. com IP j ^ l sua calma de louca. que ella escutava. a viagem dos pássaros na limpidez do' céo.

fazendo coro com os vizinhos. / " — Fora. — Fora. sem saber o que dizer. Já Maria voltara á estrada. Na sua carreira chegou até uma pequena matta que o caminho cortava. a fugitiva como que despertou e ficou intimidada. fora. maluca. E como no seu enleio a miserável respondesse por disparates. — É com certeza uma maluca. alguém disse : . e ainda continuava mesmo offegante a correr. fcffdtos homens pegaram em páos e ' yjr avançaram psópgüa. que se communicou/yj!$//amente. maluca. fugindo espavorida para longe d'aquelle ponto. e das outras casas a gente sahia para o pateo.//tS^«^/' e todos se julgaram em presença de alguma peri. Assaltaram-na de perguntas.1 primeira morada sahiram para vêr a razão do alarma.. Foi um pânico. « gosa doida vagabunda. maluca! maluca! A moça fugiu n'uma desabalada corrida. amedrontando-a. A claridade da tarde ahi dentro esmo- . Correram as mulheres para 1//"^ o interioii M. ainda mastigando e aborrecidos de ser interrompidos/Ao enJMÍi/ar a gente..CHANAAN 24. n'um grande berreiro. Homens e mulheres chegaram á porta. Os c#es excitados ladravam furiosamente. Maria recuou d^èttddddídfjsem perceber bem o cuo6~ que se passava. Ui/rJi****^". raivosos e ululantes : — Maluca.. Homens e cães^rperseguiram^lguns naomentoe..

.. vendo-se colhida em/pleno deserto pela noite. os seres tomavam ares de monstros. . até perder os olhos na outra longínqua porta de luz... e.e urna inexplicável e funda attracção por aquelle sombrioe tenebroso mundo a retinhaextatica./„ J"^. e de olhos dilatados. Maria parou. desamparada... cojjoo^carpideiras phantasticas da natureza merfaT.. a mesquinha derreou-se aos pés seculares de uma arvore. aterrada.. Na várzea. nuvens colossaes e tumidas rolavam para o abysmo do horizonte. subindo ameaçadoras da terra.. ao clarão indeciso do crepúsculo. sem animo para íugir. Pela estrada interior iam e vinham borboletas enormes. Das mãos tremulas e despercebidas cahiu-lhe a trouxa de roupa. tomada de um calafrio.. j f^ ( CHANAAN recia ainda mais. No céo. postada na abertura da floresta... Augmentavam as sombras. batida. E o poder de visão redobrava á medida que a sombra surgia mysteriosa nos meandros dçf 4 J wasqui. -etí* espreitava o rumor e o curso das coisas. com medo de penetrar na sombra. (. azues e pardas.. espiou para dentro. Maria ficou pregada á beira . ouvidos apurados. EjfgotTada de forças. Na sua imaginação perturbada sentia a natureza toda agitando-se para suffocal-a.2í'i /Pu &tic^ ~J2 ! /-*. As montanhas. Os caminhos. s^^Tn^fg^ f grqi 1 f' pg s^rpmrrsrfflfiajtas.da floresta/ sem animo para entrar. perfilavam-se tenebrosas. espreguiçando-se sobre os campos. impalpavel da ' Terra. Os pti* .IA / . como o bafo vaporoso...' As arvores soltas choravam ao vento. n u m vôo captivo e arquejante.

No alto. no desenho das coasas 0 -^ / <crer r< transformava"em límpida nitidez. mas os membros . As montanhas ' /«'-/*. 1/ I as estrellas miúdas e successivas principiavam tam.^ Njoem a illuminar. /Al rr~~"W arvores. e myriades e myriades d'elles cobriam os troncos das arvores. Maria quiz fugir.. A desgraçada. de indistincto. abatida por um grande JYt^^M^ torpor. e o« fogos 0j> JyfâyfjfíJJjfa/ espalhavam ahi uma claridade verde.( M . sobre a qual passavam camadas de ondas amarellas. cançados não ac/ídiam aos Ímpetos do medo e t c y deixavam-na prostrada em uma angustia desesperada. começou a dormir. e insensivelmente bro."^f""".. pouco a pouco foi vencida pelo somno.. e v <Uo jy . deitada ás plantas da arvore.s iam-se xnulti-J(^VX^Y ** plicando dentro da floresta. tí*T" .. Qs-pyíHftairrpo.. V / Os prirneiros vagalumes começavam no bojo d a / ^ / w /matta a correr as suas lâmpadas divinas.'. tavam silenciosos e mnumeraveis nos troncos das / ...^ ^> \ ? Cvf. como si as raízes se abrissem em pontos *i~ttc4*u>>-u luminosos. Os pyrilampos já não voavam. No ar luminoso tudo i^uejU^ retomava a physionomia impassível. ao penetrar no mysterio da noite. /^'r^^rtfA Serenavam aquellas primeiras ancias da Natureza.. . O que havia de hi\ ?T '~*" vago. alaran- /y & w * ~ **• "•* .. . as ar^/>«>vores esparsas na várzea perdiam o aspecto de p ^ phantasmas desvairados.. que faiscavam cravados de diamantes e tqpazios^Era uma illuminação deslumbrante e ^ g n o g y ^ e n t r o da matta tropical.(ji4F $t*r* CHANAAN 245 / _meiros pássaros nocturnos gemiam agouros com pios fúnebres../.^^. ^sr acalmavaiTKna immobilidade perpetua.

E\os pyrilampos «s* incrustavam-V» nas folhas e aqui. cojno si a flo. fyn :^.'/-^^briram-na. parecia partir para uma festa phantastica no céo. era • J como uma opala encravada no seio verde de uma ÉL esmeralda./ . e a desgraçada. Ull'kArt^''^x'dÂ. e assim ella recebeu n u m halo dourado a cercadura triumphal..Por toda a parte a bemfazeja itanquillidade da luz.ar*aÜg*r..o poder d'essa luz o mundo ira da um silencio / ' i(M> religioso. ' . violaceose d'ahi a pouco braços. mesclados com os fc I pontos escuros.. amethystas e as mais pedras jfó4/ J/a^q^h parcellas das cores 4 i y i n a s e eternas. a carne da mulher desmaiada. vestida defflídfktíwjt^.. Depois os y&gamntóâ' incontavei^co. collo. . dormindo imperturbável.. como lagrimas dasestrellas. As figuras das arvores ae-desenhavan^envoltas n'uma phosphorescencia zodiacal. Sobre a cabeça dourada brilhavam reflexos azulados. t \ f. os andrajos desappareçeram n'uma profusão infinita de pedrarias. E os pyrilampos desciam em maior quantidade sobre ella. Maria foi cercada pelos pyrilampos que vinham cobrir o pé da arvore em'que adormecera. transparente. para um noivado com Deus. Âzzsa esmeraldas. mãos. aili e além.UCt 246 \ sMM****** // CHANAAN jadas e brandamente azues. como tocada fde uma morte divina. saphiras. jopf'£.•" *i&di rubins. cabellos se sumiam no montão de fogo innocente E yd&Ç&inj&is vinham mais e mais. não se^ouvia mais o agouro dos pássaros da morte^yTvento que agita e perturba/. e interrompendo a combinação luminosa da matta. A sua immqbilidade era absoluta.

Maria IJ^jWJt conheceu-se a si mesma. Maria pensou que p sonho a levara ao abysmo dou. cahindo sobre o corpo de Maria até o sepultarem n uma tumba mágica. e.. emquanto os seúTdèrradeiros lampejos na — «-->!•* matta ^ m f s t ó ^ ^ á ^ p clarão do dia nascente.CHANAAN 247 resta se desmanchasse toda n'uma pulverisação de luz. que se deslumbraram.. os Vctó^itóí vão se apa-''''^ gando medrosos e(se\occuftand/)no segredo das b-j selvas. for.. indecisa..-.. mensageiras da madrugada. que enche os ouvidos da mulher com o accento de uma felicidade inextinguivel.. As estrelf^^/^pu. a rapariga inquieta ergueu docemente a cabeça. e um perfume concentrado durante a noite se dfyffflfâffi.Jl&rZÁ** lampos. e tudo se esclarecia de outra luz. Na ax-'""i vore que agasalha Maria. infatigavel memória lembrou-lhe a agonia. e o ruido começava. sem tardar. capitoso. Ias abandonam o céo. abriu os olhos.ff/oUjt— pelo mundo despertado. Um momento. ' O silencio da noite foi perturbado pelas primeiras brisas. despida das jóias mysteriosas. começa o canto dos pássaros. de todos os galhos da floresta sáe uma nota musical. Abandonada pelos pyri. E aves surgiam. Pyrilampos espantados faiscavam relâmpagos de cores. _yt rado de umjl 44frf$í e recahiu adormecida na face /// dbévf illuminada da Terra. incolor. Maria foi emergindo—dosonhorA a s u a innocencia detodo o pec^a^^dWlípexfeita confusão com o Universo / f &/£ acahff ao rebate violento da consciência)^ a / / / „*.*M t£o>y~ mando uma luz turva. Arrancada pelo pavor UA r ^y^Y^^^JZZ^ .

n'umapostura . Maria continuou a subir as montanhas até ao alto de Santa Thereza. # # ' CIIVXAAN dos perigos porventura passados naquelle deserto. que lhe engrandeciam a dV^T/ção. a cuja temível potência morreu toda a illusão do sonho. A miserável marchou seguidamente duas horas. para a estalagem.-248 . na densa evaporação dos curraes. Quando alyattingiu. Em todas as casas começava com o dia o trabalho. Na taberna que era o único pouso d'aquellas alturas. vultos de mulheres Sfc. E foi n'um grande rubor. que annuncia. a fartura do homem. E quando chegou aos caminhos descobertos. sem pejo da fome alheia. já encontrou o sol. passando já por desertos. que lhe descia d'essa miragem entrevista no espectaculo da noite maravilhosa. vacillando. na sua lembrança persistia um clarão. ficou mais tímida. homens rachavam toros de lenha. já por valles repletos de colônias. receiosa de perturbar com o seu ar de vagabunda a serenidade da população activa e silenciosa do logarejo. E emquanto atravessava a matta. que lhe recordavam a sua vida de hontem. apezar do medo que a tomara. viajantes tomavam a primeira refeição da manhã. e de todas as chaminés aquelle suave e ineffavel fumo da manhã. ergueu-se de um salto e partiu correndo. Maria ficou parada á porta. que se dirigiu. gerado da acabrunhadora humilhação. creanças corriam nos terreiros limpos.movianrnem roda das vaccas.

n'um embrutecimento de faminta. — Bem. A dona da casa. A velha virou como um corropio. ^*e quando esta lhe efLjfyíffou que buscava abrigo e / L < ^ t ^ trabalho. Com a voz sumida. A joven a convidou a entrar. uma massa repulsiva se movia como uma lesma. Era a creada do albergue. mas depois. que não tinha pensado n'isso. — E então como quer você que lhe dê de comer ? Maria fitou-a aterrada. entre para a cozinha.CHANAAN 249 de mendiga. ficou embaraçada em responder. não ousando sentar-se. que jálraráttendo. a velha perguntou : / — E que dinheiro traz você ? Maria. A outra insistiu. com os olhos seccos e vidrados. A estalajadeira tornou : — Mas que traz você ahi n'esse embrulho ? A mendiga / ia abrmpara lhe mostrar as roupas. veiu á porta inquirir de que necessitava. l/y^ A moça atravessou o corredor sem olhar para o refeitório. insultando-a. deixou-a j^M/da/mente e foi falar /<*> étM z a mãe. esperando de pé. a rapariga confessou que nada trazia. . dizendo : . occupada em servir. não reparou n'ella. Na cozinha onde entrou. como que arrependida. E Maria teve um confrangido asco. Afinal. mas a filha. menos atarefadá. A estalajadeira veiu examinar a foragida. a comida que lhe iam dar. quando de dentro os passageiros gritaram pela dona da casa. Maria disse que tinha fome. vendo-a. ao lado do grosseiro fogão de barro.

_ lhe falava. . era quasi sem pudor que pedia trabalho de casa em casa. fiyf- t Por esta roupa. Ninguém v—. depois do jantar. repousada e esquecida.e por toda a parte aonde chegava. na conchegada e bo' nançosa vida aldèã. deante da com- / rfaric placente apathia da rapariga. escorraçavam-na. repelliam-na. sentiu Maria crescer a sua solidão. / a população -s^ apresentava^a porta das casas. -• Mergulhada na desgraça. Maria passou o dia inteiro a vagar pela povoação.^V.lquando o sol baixava. rolava vagarosa. Mnrin nlnnrn n pniifjef */7 fZ H sendo governada por uma~veihã áíma^TmrisTu^J? dimentar. A tarde. dou-lhe comida e dormida dois dias. E para o meio-dia.tranquillidade do povoado. n u m insç-v tincto de apertada defesa. a quem deu um peyy^a 1 daço de P a o e UIf tigela de café. . que recalcava todos os ^. ligeiros vislumbres de uma sensibilidade menos $ r grosseira. Não era ella alli na . E foi se apoderando da trouxa. comeu n'uma fyfâtòtâ desprezível^ //' ^í^jy. o extranho phantasma da i miséria ? / £. No meio da felicidade dos outros. e a estalajadeira foi á cozinha. e ella. I A. mais primitiva. Ninguém a " queria. alheia. Depois de examinar o que Maria trazia. / v^ cheia de fome. A'desgraçada. absorta.250 CHAANAN Os viajantes partiram. ia despertando a curiosidade e dando a impressão de tristeza que apavorava a descuidada gente do logar. Per- . arrastando-se como um animal empestado.

Mas os olhos da megera se a^í^úiív^ím de ódio contra a rapariga. desalen^ tada sobre o colchão de palha podre. que lhe apparecia como uma inimiga. que começou a devorar. que ficava em frente aquelle em que se achava Maria. de se evadir do raio do calor humano. Era a velha creada.CHANAAN 251 correu a estrada que corta Santa Thereza e foi até ao fim. * Alumiada pôr uma candeia de luz mortiça. n'outro monturo de palhas. mostrando uma magreza de bruxa. a infeliz ficou um instante só. Naquella primeira noite. a moça permaneceu petrificada. onde acabava a povoação. NãO"tardou tl^^ 4 » è um vulto entx0tjlfno quarto e ff0f sente-se //. e n'uma vertigem ella cahiu. a invasora cl>^y do seu circulo de independência n'aquelle immun- . Sobresaltada deante da megera. O bafio do quarto tonteou-a. " {^cc^r^. As duas miseráveis não se falaram. a dona d'este mostrou-lhe um colchão estendido n'um quarto infecto. Os cabellos despenteados cahiam-lhe sobre o pescoço. quando foi a hora de se recolher ao albergue. quiz ir além. e foi com um revoltado nojo que viu na tíbia claridade a sua companheira metter a mão esquelética na palha nauseabunda e retirar [d'alli um pedaço de carne. á luz turva os olhos brilhavam n'um fulgor de loucura. — Está ahi a sua cama. Tirou o casaco e ficou em camisa e saia. pela matt. na mesma postura.a a dentro. Voltou. mas não teve animo de se afastar d'aquella atmosphera de desespero.

. A lamparina principiou a se-extinguirferepitando. Pela noite a dentro.. sempre alerta. corriam doidamente. ratos começaram a surgir no quarto. irrequietos. alongando as mãos de esqueleto. e semi-morta sentiu passar sobre a cabeça o vôo tenebroso de um morcego. que ainda assim era o refugio da ind^ clinavel liberdade.. para a estrangular.252 CHANAAN do aposento. no maior silencio da casa. indo e vindo a todos os cantos. E quando ia cabeceando. gelada. Maria. e o quarto. o medonho quarto. Os ratos largaram a comida e continuaram á sua infatigavel investigação no aposente. passeiavam pelo corpo da velha como sobre um cadáver. espichava a cabeça até junto da outra. e no seu colchão comeram os restos de carne que ella deixán». acompanhava o ruido aterrador dos ratos. o máo cheiro e o terror da bruxa. Correram os dois dias marcados pela estalajadeira. Despertava convulsa e. até cahir tudo n'uma profunda escuridão. livida. incessantes. não tardou muito a tombar dormindo sobre a palha. Vencida pela prostração. ora se escurecia. Maria sentiu-se endoidecer de pavor. que continuava a dormir. . derrubada por alguma rajada de somno. Maria acompanhava o aríar d'aquelle corcovado corpo e o latejar das grossas arterias. satânica. farejando. Guinchando.^e-4ião podia dormir com inquieto^feceioJTTudo a prendia á vigília. sem que Maria pudesse encontrar trabalh í . via n'um instantâneo pesadelo a velha erguer-se. ora se illuminava em suecessivos relâmpagos.

apathica. que é o alimento da desgraça. Depois de alguma hesitação. A dona do albergue intimou-a a deixar a casa. Desatou a chorar..i/yU cohtrar um emprego. entrando da rüa.ficar. 15 i j '• . almoçava socegadamente no albergue de Santa Thereza. Milkau em viagem para o Porto do Cachoeiro. Apezar da miserável situação em que ella estava. onde ia comprar mantimentos. appareceu aqui sem um vintém e tanto chorou que a fui deixando . chamou a dona da casa e pergun. sem pão e sem guarida. Não sei d'onde veiu. n u m delicioso momento. e Maria teve um pânico terrível em se vêr de novo obrigada a bater as estradas. atirando-se aos pés da velha para que a deixasse permanecer alli até en.. y Af*^^ > ' —• Ah! ri ir r ri "Hfr é uma vagabunda que recolhi. tC^Vé^quem era i mulhecqao alia acabny/i dia^. teve animo para intervir e Maria ficou na ' hospedaria como creada. mas nesse maldito apego á vida. E assim viveu alguns dias. Milkau reconheceu a sua joven companheira do baile de Jacob Müller. tanta lfáy/L miséria. e n'um instante a sua miséria tornou-se o ludibrio da gente amparada e farta d'aquelle retiro do mundo.. Ficou um instante pensat<Vn prCítaando explicar por vãs conjectura? ttivo encontro. • quando viu Maria passar no corredor. e que entrevira primeiro na capella de Jequitibá. esmagada. em companhia da outra.CHANAAN 253 suas implorações e suas supplicas eram desdenhadas. Uma manhã. A-filha. dpííada-^dl.

porém. poz-se ella a chorar. E então breve. desmoralisa uma casa... com immensa vergonha. Maria. vinha ' arrastada. Esta não quer me largar a sopa!. A dona do albergue.. /^ tendo por sua vez reconhecido/Milkau.. motejava : — Olhem. fwe^M. Vendo-o agora. Promptamente pediu que chamasse a rapariga.. que tem de ir para a cama. que. Milkau n'uma grande afflicção interrompeu o almoço. porque da cozinha a chamaram. Essa linguagem atordoou o espirito de Milkau. C melhor é que se vá para outras bandas. deixando Milkau e Maria a sós.no estado em que está. o que logo a velha fez. E quando n aquella sala da hospedaria . Está-se a se lhe arranjar emprego e ainda fica amuada. aqui ninguém a quer. retomada de um inesperado ardor.. y a estalajadeira entrava empurrando Maria.. A confiante #meiguice das palavras de Mil. O que ella me fa? não é nada em relação ao que eu lhe faço. abria-lhe todos os cantos da sua humilde existência.25 í CHANAAN — É sua creada hoje ? — Quall Um trambolho. /<«". espantada da scena.. coitadinha. e delicadamente Milkau a desviava dos ponjres íntimos e mais dolo-' rosos. Alguns momentos depois. embaraçava-se vergonhosa. e ella acudiu. Milkau levarjtou-se commovido e procurou acalmal-a. Também era só o que faltava! Aquillc . * J/kau f^decidfiiraKronlar-lhe a suü Hes/raçV Por ve~ 'zes.. vejam só.. Não continuou. sem eira nem beira.

. Passouse longo tempo n'esse silencio triste. si passasse adeante... Depois. reflectindo : — Mas o senhor não ia para o Cachoeira ? Por- .. A dôr sa-nrqstuafei com r-^. de resurreição. todos os longos mezes ' de felicidade. E uma casa de conhecidos meus no Rio Doce. Estou prompta para caminhar.. esperando que elle falasse. Vae vêr como não me canço. Jy/^/^T Si elle não desse ouvidos. mergulhan-'" do-se outra vez nos cyclos sombrios do soffrimen/ to.. com o semblante illuminado.. d'onde pensara ter-se táffyúado para sempre. — Abatida? Oh! não.. Não tinha elle fugido á maldade humana.(*&**<{ a sua força solemne.. E n u m instante esse encontro lhe $ffâ0Â. devastadora. Maria fl fitáva-^erena. — Bem.. e os sentimentos *y<**fl&:y de Milkau galopavam para o passado. abandonado a velha sociedade odiosa e recomeçado a existência na virgindade de um mundo immaculado. poz-se a scismar. disse afinal Milkau.T^íj^ràred$ porém. Era a primeira vez em que na sua vida nova se esbarrava com a Desgraça.CHANAAN 255 Milkau acabou de ouvir a narrativa. > deixasse no caminho a miséria alheia e continuasse no seu embevecimento de felicidade?. tenho uma colônia onde posso empregal-a.. onde a paz devia ser inalterável ? Porque então o espectro do soffrimento o perseguia ainda alli ? Milkau divagava n'um fundo desespero. Maria sorriu encantada.. E longe. / ee*»—*n^Era a salvação. de que não agüente afyÍJfrft'^ viagem. e está tão abatida.

— Eis a c l u ' A a i m P o r t a n c i a 'j^4^4^^^f^ / //yji (oJ*' mulher jpdfò p a s m ^ V recolheu as cédulas. Milkau explicou mansamente que ella tinha de . ' /Ç^ contentissima. 'Oil*' f-ffk foz-seja contar nos dedos e depois pediu um preço exaggerado. a quem Milkau communicou que a rapariga seguia com elle.256 CHANAAN que então abandona a sua viagem e volta ao Rio Doce? Por amor de mim? — Ora. A dona do albergue tornou-se fula. — Agora. — Diga-me uma coisa : quanto devia pagar esta pobre moça aqui na sua estalagem ? inquiriu Milkau. respondeu Milkau. Milkau não replicou. Ella não é minha filha. e dando o dinheiro : . Que bem me importa a mim. A roupa foi coisa á parte... — Mas. pôde tomal-a como quizer. Depois de vêl-a amparada. accrescentou Milkau. Chamaram a estalajadeira.. Amanhã mesmo.... — Vamos. disse elle com meiga decisão. tornarei ao Cachoeira... sem se importar com o que estava tagarelando a velha. sem allectaçâo. Uma vagabunda.. como si fosse roubada: — Esta é boa. A mulher fez uma careta zombeteira : — Oh!. meu senhor. negocio é negocio. peço que restitua a roupa que foi o penhor do pagamento. isto não vale nada.

e foi buscal-os. -V //f. clamava aos vizinhos : — Vejam só. E aquelle sujeito com uma cara de santo ! Pouca vergonha. de que não necessitava. preferiu ficar com a quantia e restituir os objectos. interrompendo a descuidada bemaventurança. atravessando n'um êxtase a pomposa região.. com uma fita azul no cabello. e todas as ligeiras feridas da dôr serão curadas por um sopro de bondade. pensava elle. fincada na porta..Q ///*' .. Mas. Não é que a desavergonhada teve sorte... E quando voltou á sala.. foi alegre conversando com ella. assim compellida. faceira. vinha de roupa mudada. esquecendo a tristeza.. Milkau recordou-se da sua primeira viagem com Lentz. Amanhã. Maria tornará a ser feliz. o fóú amante arrependido virá buscal-a. para se libertar do Mal. o seu espirito tomava outro caminho e confiava qme aquelle doloroso incidente. Maria seguiua. emquanto elles atravessavam o povoado.. malcreada. A'^áí viagem de hoje era ainda um combate contra o soffrimento. e tudo voltaria á doce calma. Milkau festejou n u m sorriso o despertardamulher.. Partiram. passaria rápido..CHANAAN -257 optar entre os vestidos e o dinheiro. afastando as apprehensões de uma irremediável desillusão. e a velha. A estalajadeira. Isto(^i-4he)novas forças e. contra o ódio entre os homens. a miséria da sorte da companheira. risonha. Quando deixaram Santa Thereza e tomaram o caminho do Timbuhy. resmungando.

"Mais tarde começou a fraquear e era com difficuld\de que yj/fâyfjgfâdy1. seccas.QiJU*** 25si I CHANAAN Debaixo do sol ardente desciam e subiam morros. '0^^Mh[d^^ddtíJU¥. \pf&t/i**t. era um peque5 no jardim europeu. ora mattas /r W ^"~_folhudas. ora. passavam tropas de burros carregados para o Porto do Cachoeira. planícies. descuidados. lírv"*1 como n'uma paizagem extravagante. oyl passava gente a pé. £r / Maria fez um esforço e foi subindo vagarosamente.yfcfrppoy a Maria continuassem a caminhar até descobrirem uma colônia onde r/irrflrrfm n n^it/ Andaram mais um pouco. negras. Os viajantes foram-se deliciando com o scenario.JíWdfy a uniformidade Í^Vv / das habitações dos immigrantes. ti dei^ v » t ü / xavarrí ficar alli. apezar de tudo. n'um capricho de linhas. onde talvez conseguissem agasalho.. . plantações. e urria colônia se lhes deparou no alto da montanha. casas. a beira dos caminhos. Milkau ficou inquieto. que ç(já. percebendo que lhes erVimpossivel alcançar o Rio Doce n'aquelle dia. escoteiros. Milkau propoz subirem pela vereda que £ levava até lá. e. r / A colônia para onde se dirigiam. perfumando /fi* á .riachos. passavam viajantes montados. Sen/?>**>**" taram-se ás sombras das arvores. áridas. Com o avançar da t^irde. despenhadeiros. ora. tudo n'uma abundância crea •S "*\JZ-^ Ção. Á medida que se ^j approximavam. montanhas baixas formando massas enormes. e só elles.xnbaixo / _ e^tendia-sè^ilma serie de vafles recortados em / / mil aspectos diversos. de desenho. e durante as primeiras horas Maria marchava lépida. Descendo das regiões férteis.

as filhas eram casadas e os filhos viviam na vizinhança. divina e rara. checom os os aromas aromas que que yyiinám ene. Levou-os o velho para dentro da casa e offereceulhes jantar. e depois. gaddy á cancella. Os olhos não se podiam fixar em nenhum porrnenor. A vista se lhes extendia farta e satisfeita sobre uma tela mágica. O homem da colônia deixou os hospedes e foi regar as plantas. e o velho. uma zona cambjante. o que o entretinha era cultivar flores. escancarou a porta. servindo-os á mesa e obsequiando-os como podia. morava alli só. Milkau explicou-lhe o que os levara ahi. alisai^ /H./ do a longa barba branca. Milkau ficou um momento admirando os movimentos expertos e juvenis do ancião. jardim. Milkau bateu palmas.CHANAAN 259 y/f&fUM*< com ytjipáxh do do jardim. ia-lhes contando que era viuvo. mostrando no riso uma fila de dentes sãos. havia muitos annos. Findo o jantar. vieram os três para o jardim. Entretanto. ate ate que. A impressão que tiveram. começou a pas- . radiante. falou aos viajantes. n u m gesto de agasalho fácil e espontâneo. que. socegando-os com alegre auetoridade : — Olá. E o velho. uma irradiação espectral. e da janella apontou as plantações no morro próximo. patifes ! assim é que se recebem visitas ? Os cães a-afastaram"rosnando. Os cães u ^ * ladraram atirando-se sobre a cerca. que estava em triumphal floração. seguido de Maria. Penetraram no jardim. tratadas com o carinho de uma horta. foi de um só conjuneto de cores desdobradas ao infinito. o cafesal também o distrahia. e logo um velho acudiu..jiy .

as plantas cheiravam ainda mais.. das U"^' casas. a terra que abandonara. E no animo de Milkau amollentado pelo violento encontro da dôr. dos jardins. Maria estava meic/fatigada e inconscientemente apoiou a . via interrompida a eterna verdura. mudos e gr* sonhadores. Ella parecia nunca ter soffrido/ uma resignação de nômada apagara rapidamente os vestígios da miséria. Naquella mesma hora era alli a hora da \Jyy primavera. Encerrado alli..260 CHANAAN . da gente n u m regosijo de novidade ao calor bemfazejo do sol.. Tudo resuscitava. Recordou-se dos bosques. toda era encanto por Milkau. JL U gelada. Milkau julgava-se fora da natureza tropical. en. absortos..'y ' seiar pelo jardim. sahindo da morte . abatido apontou no momento do crepúsculo uma ligeira sombra de nostalgia.. E o jardim lembrou"2-Makau. entristecido. E um instantâneo olvido encerrou a sua agonia. como flores aladas. Este sentiu^uírxâtlttí.ITõ'calor emanado das entranhas' £ * geradoras da mulher infiltrou-se^^aSs^nervos. e com os olhos postos n'elle ficava embebida'n'um humilde enlevo. E foram caminhando XlL?. Andaram até onde A.bmscamante. Quando elles passavam esquecidos.f / ^ w ^ torpecendo-os . J" como espectros: olhos perdidos no vago. susbtituida a tragédia da natureza brasileira pela doçura européa trazida nas flores que^peregrinaram até ahi. e elle daf y ^ transportou éM jfmqf da saudade para a velha **"" / Germania. Com a queda do dia. borboletas voavam sahindo das plantas. ' .(•*$» **"•**"'-ffflrranrejeáéícíÉr. Agora.//" mão no homb/o de Milkau..

Sem raios. como si dentro d'elle um mágico se divertisse em illuminal-o.. até que afinal eUe-mergulhou no horizonte e a terra tingii>se de sangue e em seus mil nervos agitou-se toda. como uma musica extranha. convidando-os a dé xecolhexdyfi. Sentaram-se em uma pedra. sem reverberação.. O colono acabara o serviço e veiu ter com os hospedes. á mesa. no seu leito. O resonar leve e regular da mulher lhe vinha aos ouvidos... onde. o immenso globo ostentava uma succes• siva gradação de cores. sfeerguerarrKpara o céo. Era noite.v ' três conversaram sem interesse. sem poder dormir. E já a casa estava em socego e Milkau. propoz irem dormir. esterilisando aterra. Era uma representação phantastica. como uma mulher bella e damninha.CHANAAN 261 o jardim ia acabar n u m logar secco. sobre a sua superfície as cores ainda continuavam n u m a infinita mutação... depois de mergulharem no tremedal que ficava em baixo. . Seguia deliciosamente todo aquelle brando respirar. aquecendo-o. no despenhadeiro da montanha.. 0 mundo inteiro tinha parado para assistir ao espectaculo. os .. Dentro. e pouco a pouco uma/yíyídd perturbação h\e f/f^ f/^ '< . Mostrou a Milkau dois quartos contíguos.. e acompanharam a morte do sol. cahindo de somno. Os olhos.. uma palmeira se alteava. que se lhe infiltrava. acompanhava o somno de Maria. O grande actor foi descendo no espaço sem nuvens. descampado. onde lhes tinha preparado as camas. até que o dono da ' casa.

.1 os horizontes da fejtringida e quasi apagada sensualidade. debaixo de cujas camadas sonoras se sente 0 / mysterio do instrumento. -Maria continuava a dormir tranquillamente. " *&** °~<- ou*'«0 alvoroçava o sangue. dando-lhe um instante de consciência e um profundo. Cresceu-lhe o tremor e uma languida molleza o deteve.. o* »i coração galopando..*"+ +«*y< ?t+yy^*r*... Amaldiçôou-se e teve nojo de si... eralím"suspifo de amante..•. O homem forte ficou envergonhado d'esse momento de loucura. um espreguiçamento dos músculos o desequilibrou de uma vez e o atirou a uma vertigem de volupra. poz-se a scismar debruçado sobre a Noite divina... . Tudo seifiuminava ao poder for- a* ?"/ +< ****&* • * cd*>" .. a garganta estrangulada.. aj \ bocca secca. Chegou-se á porta entreaberta do quarto de Maria.. Mulher!. Milkau levantou-se tremulo...Mulher!./wrJ*44.. as visões lubricaselascivas... sacudido pela volúpia. abrindo a janella. pensava elle.. Ej^JSÜ* esta palavra evocadora lhe dilatava.o y-<n<«v A •*»*. *Só elle era mudo. e todos se amavam.:vexame.fU.. que vos c a n t a i O chéTro o jardim tr^nstornavTãTc^Iiã^rrrMilkau estremeceu outra vez. viu-se o ludibrio do desejo e descreu da redempção. E o seu olhar prescrutava as sombras da immensidade..... onde jaziam sepultadas. Z^ZT^^* 262 t. Aquella/hora lhey• chegavaP do universo inteiro o echo dó Amor. e. J/lJtAftrt^enchendo-os de um goso . Mulher! E lá vinham do esquecimento. 1 E um torpor. o seu respirar chegava sempre aos ouvidos de Milkau. % # f r | ^ ^ N ã o era u m V //' /Tfêsonar Hormeclda.<*. Era noite.

Retirou a mão e. E para elle. Voltou á janella. .. murmurando : — Não.. Os cabellos d'ella estavam soltos e cahiam sobre ocollo nú. fugiu. os braços se apertavam enlaçados. Ficou assim séculos pregado aquelle corpo.* tario também amou. correntios. a Noite era outra.Miíkaurecolheu a quentura do corpo feminino. Deslumbrado pela vertigem. gemiam n u m frenesi de doidos. E ficou tremulo. clamou o corpo da mulher. O soli.... os corpos. com os olhos meio cerrados.. n'uma arquejante respiração. Ella.. Socega. Era serena e bemfazeja como a face de uma . E tudo era uma visão > de amor : as boccas se beijavam com febre.CHANAAN 263 midavel da sua allucinação. n u m frêmito convulso.. mergulhou a mão até ao fundo. e nos cabellos de Maria. quente e sôfrego. O sangue dentro d'elle. que não era mais o mesmo. — Já são horas de partir? A voz innocente cahiu sobre Milkau como uma rajada de frio. via-lhe os cabellos descer pelo corpo abaixo. i&fêturados.. se degelou n'um momento e.. voltando rapidamente a si. luminosos como um rio de ouro. aquelles transportes de luxuria. não tinha mais aquelles accentos de volúpia. Não é nada. perguntou : ... mudo e refreiado. como em frocos macios e louros... sem poder ir além. Dorme. que amornava o aposento. que accordou a rapariga.. o joven sangue parado pela illusão.. não..Milkau deixou a noite tentadora e entrou no quarto de Maria.

e com a brisa misturou os queixumes da sua agonia sexual.204 CHANAAN irmã. ao deixarem a casa. arrependido. sorrindoIhes com carinhosa malícia. De manhã. e com o orvalho. como se costuma sorrir aos noivos. mas logo. humilhado. partiu altivo. Ficou longo tempo alli. erguendo a cabeça. que a madrugada para o sarar lhe derramou sobre a cabeça. confuso. Maria retribuiu a saudação sem jfytír o que esta dizia. como o vencedor de si mesmo. o velho os acompanhou até á porta do jardim encantado. confundiu as suas lagrimas de solitário. Milkau sentiu uma pungente tortura com aquelle sorriso. .

Já por esses ^ . tão insignificante que não clame aos que passam.. Milkau se\gonsagravf)ainda mais ao trabalho. cobriam como um manto a antiga hediondez do roçado. seismava elle. Não ha soffrimento. e agora o pensamento rolava vertiginoso para o desanimo..tempos a colônia tinha um bello e florescente aspecto. Desapparecêra a coivara. que o cercava e lhe extendia os braços amorosos. Não podia esquecer a desgraça de Maria. Não ha desgraça pequena.VIII A passagem da miséria na nova yjdd de Milkau / ' * £ * ' deixara o seu vestígio perturbador. Todo o «prazo» estava cultivado. piedade e reparação com o alarido de cem mil boceas. que brotavam n'um indomável viço.No espirito d'elle íe/fl*^*' uma melancolia teimosa se espraiava infinita. o terreno . E para afugentar a persistente Tristeza. entorpecedora. Toda a dôr é immensa. vaga. e os pés de café.

e a humilde casinha dos dois emigrados estava coberta de trepadeiras. Lentz era o caçador. longe do ódio. em poucos mezes para elle já não havia segredos na floresta brasileira. uma solda inquebrantavel e que ainda significava a imagem d'essa impulsiva liga entre todos no mundo. que se abriam em flôresJ dando aquelle jardim alli nos trópicos um perpetuo ar festivo á vivenda. Mas. formára-se umaattracção. que ennobrecia o seu destino humano. o seu espirito. buscava expandir-se n'essa fôrma inicial e selvagem da civilisação. Um offerecia ao mundo façanhas. flores do seu jardim. da lucta fratricida. as empregava com desvelo e ardor no trabalho com as próprias mãos. curvado sobre a enxada.. e o outro. simples lavrador. a fronte suada. sempre retrogrado. alliado a outros colonos de egual inclinação. Milkau trabalhava sempre. No mesmo tecto esses dois homens exprimiam duas culturas differentes. sacrifícios de sangue. devastava as mattas. entre esses dois interpretes successivos da vida. os nervos cança- . apenas interrompida. de imaginação. fructos da terra. e todas as suas faculdades de attenção. Restringido a um circulo de limitada actividade. matanças. luctava com os animaes. Milkau era agricultor por instincto. que cada dia será crescente. Caçava.266 CHANAAN semelhava um verdejante parque cercado das arvores immensas da floresta. E quando. até se tornar universal e indestructivel.. e.

um esquecimento devia adormecer-lhe os pensamentos. mais subtil. « Não é no trabalho que está a salvação da miséria nem o estimulo para o desalento. Milkau respeitava esse pejo../para levar-lhe algum conforto. Que importa que nos fatiguemos. Que bem fariam a côr. mais d/)^W.. que cubramos o mundo de flores sahidas das nossas mãos infatigaveis. manejada pelos braços inconscientes. lá vinha ainda nesses instantes o tormento da piedade. é preciso haver outra coisa no mundo. onde Maria se empregara. pedindo que . Ella se retrahia cada dia mais e nem mesmo a elle confiava os passos do seu martyrio.. Outra coisa mais santa.O Amor!. emfim ? Também ella não mourejava dia e noite no trabalho. esses fructos não são balsamos para aquella ferida extranha!. o perfume e o sabor das coisas ao padecer de Maria ? Como remediar. ao nosso lado. que ensopemos a terra com o nosso suor. o continuo testemunhar da desgraça alheia. » Assim pensava Milkau.. mais vasta emais mysteriosa. como uma mancha na sua visão radiante. •Võariao vcgea.CHANAAN 267 dos.. mais bemfazeja. recommendava á gente da casa a maior caridade para a desgraçada. emquanto a enxada. mais poderosa. vive a Dôr.. um repouso suave. sarar a morte do sonho. e sem insistir em desnudar-lhe o coração. cavava a terra. como um forçado ? E a consolação lhe vinha-? Oh! não. a decepção. si todo esse sangue. si alli adeante. essas flores. mais doce.fôxavw « colônia ».

nada havia na colônia capaz de encher-lhe a imaginação. Maria não se queixava. e era com um passo moroso e incerto que vagavam ás tardes pelas habitações vizinhas. êü porta estava um ancião. E também para o com-^panheiro. que ainda não tinham visto. ^fiyL$J(^iJfdJt0/a vida de Milkau continuava a ser minada pela tristeza. Falaram da Allemanha. os dois amigos ficaram a conversar corn o velho.mra a caça. r/£é^# com J// .* rancor.208 CHANAAN velassem por ella e a não desamparassem na próxima crise.interessava^pelos pormenores d'essas historias.^s y o ancião narrou-lhes sem demora traços da sua vida. mas na verdade o sentimento d'elles era outro : tratavam a miserável com desdém. E ainda assim se agarrava a essas raras migalhas de uma desdenhosa condescendência humana. dar-lhes trabalho e augmentar-lhes o custeio da casa. que se approximava.' e. N'um d'esses passeios foram até uma colônia. emquanto a família se entretinha nos arranjos domésticos e no trato dos animaes. Os colonos promettiam-lhe tudo. Aos antigos tormentos juntavajo desprezo e o ódio dos novos patrões. que os convidou a repousar um pouco. atormentada pelo medo do doloroso momento. Lentz aç. Era um veterano do exercito prussiano cuja / memória estava cheia de lembranças da ultima grande guerra. mudos e abysmados nas suas scismas. e o velho falava satisfeito . Durante o dia trabalhavam. como uma intrusa que lhes ia roubar a tranquillidade.

onde o clima quente lhe mantinha a vida.. quadros d*?-*"***^ da cultura extrangeira apenas entrevista e que recolhera á retina com essa sensação de deslumbramento maravilhoso.. Escapara de ser fuzilado. exigira uns cobertores dos moradores da casa onde se acampara. E sorria como havia muito tempo não lhe era dado. a chuva oblíqua da metralha mudava em lama sanguinolenta a miserável e inquieta poeira humana.CHANAAN 269 e vaidoso de entreter os jovens. Enthusiasmado... desfilavam exércitos. em França. porque uma noite de dezembro. levou / os vizinhos para dentro da casa mostrar-lhes v e .. Ainda o apavorava o terror da disciplina. desabavam cargas de cavallaria. abandonado. O velho soldado terminou tjfflllédHt que uma vez. A ess0 jdmpfddddi €& ^^ misturava outros episódios da invasão. estrondeava o tumulto das batalhas. além do que era permittido reclamar. fora por um acaso colhido na estrada. Desde então dera baixa e emigrara para o Brazil. Na sua narrativa imaginosa passavam cidades extranhas. Lentz applaudiu então a Força immortal. n'um //r^lrx reconhecimento. varrida em turbilhões heróicos pelo tufão da Conquista. que commandava e era temida.. como a que ficava do minuto de um Bárbaro no seio da civilisação. cahira do cavallo e por cima do nr*J**^ peito lhe passara n'um galope o animal de um camarada. / o veterano ergueu-se e. fazendo parte de uma guarnição. E essa extorsão./ Jb***'\ . caminhando tropego.y-yyj\\ . elle ia pagando com a vida. e como. a vomitar sangue.

respondeu Milkau. Em caminho para a colônia. Amas p ^ f ó ^ espirito de destruição. a arte. — E porque não me retemperarei nas fontes da minha raça ? perguntou Lentz. a guerra.27H ' £. observou Milkau. esses são os verdadeiros . E eu tenho que o estudo das coisas antigas.. Tudo alli era uma volta ao Passado. é um dos sopros mais poderosos para a desordem universal. Tudo era antigo. mobílias. Os que se collocam no passado. tudo o que foi. o demônio que o agitava. estampas da guerra. — Mas é preciso não amaresdemais essepassado. aquelles cujas almas se fazem artificialmente antigas. o que estimas n'esse passado é exactamente o que elle tem de humilhante e vergonhoso. com um tom emphatico de superioridade. Mas aquelle amor inconsiderado por tudo o que é passado. o sangue... / - CHANAAN lhos retratos de reis. Dia a dia será reduzido o campo da veneração pelas instituições da Antigüidade. tudo o que separa e destróe. — Porque? Porque.... a servidão. disse Lentz : — Que consolo senti indo á casa d'esse velho! Parecia ter penetrado um instante no passado intacto da Prússia. a alma senhoril. a sciencia. vistas da Prússia. o prestigio das próprias lettras mortas são outros tantos venenos que acobardam a alma do homem de hoje e dão um encanto crescente ao mysterio da Auctoridade. Amemos o sacrifício feito pelo amor humano. quadros e lembranças.

mas regosijo-me / / / / . os prophetas do tédio e da morte. A Pátria é pequenina.. mesquinha. a Pátria é uma abstracção transitória e que vae morrer. a guerra.. d'essa grandeza da Pátria ? — Oh! Exactamente o que n'ella venero é a tendência imperial.CHANAAN 271 inimigos do gênero humano.. uma limitação para o amor dos homens.. uma civilisação particular que nos fala no sangue. a somma de nós mesmos multiplicados ao infinito. nada tem uma fôrma elevada. O gênio humano é universal. interrompeu Lentz. Milkau. o nosso eu. Nada. Não ha ninguém que fuja da sua atmosphera. Nem arte. a desordem.. A Pátria é o aspecto secundário das coisas.. não é tudo do passado que eu amo. a fibra bellicosa. — Tu sabes bem. — Mas que é a Pátria ? A/ / — A Pátria.. absolutamente. são os pregadores da desordem. uma restricção que é preciso quebrar. a nossa própria projecção no mundo.. nem sciencia.. nem religião. o gênio militar. sendo patriótico. uma expressão da política. a disciplina. Sobre ella nada se fundou. — E que beneficio resulta d'essa força. meu querido Lentz. Entraram em casa e durante a noite largo tempo . a tenacidade. ora. quando testemunho numa ostentação das fortes IIf'^*' qualidades humanas da nossa Pátria. tu não sabes? E a © / raça. a expansão universal.. Immortal! — Não.

CHANAAN

debateram essas idéas. No dia seguinte, quando
Jj
Milkau trabalhava solitariOj/^ava-lhe na cabeça a
f/,yf^
discussão da véspera; e sentia um mal estar lembrando-se da viva contrariedade que oppuzera aos
sentimentos do amigo.
— Não ha duvida, pensava elle, penitenciando-se,
é assim por natureza. Quando dois homens se collocam frente a frente, uma instinctiva animalidade
' - - j ^ - surge ddjJdffflyèfó perturbando a sympathia. É o
Qifj''4''querer
innato de subjugar, ou pela força, ou pela
0,
superioridade da intelligencia, ou pela consciência
da própria perfeição. Assim também sou eu; procuro reduzir Lentz a mim,dominal-o até ao fundo
das suas idéas, do seu próprio ser. Oh! orgulho damninho! Quando a própria humildade deixará de
ter no seu mais intimo recesso a desfiguração, o
amargor da vaidade, da soberba, do domínio?
Milkau reconheceu-se inferior ás suas idéas, humilhado por uma força inconsciente. Depois tornava aos mesmos pensamentos. Comprehendia que
no seu companheiro essaexaggeração do amor da
pátria era talvez um symptoma de nostalgia, uma
anciã pela terra das origens. E não é isto uma conseqüência doentia da educação patriótica? Mas,
n'aquelle instante de angustia, quando por sua
vez se examinava mais de perto, |ê\revelayj^a si
mesmo... Fitou o céo immenso, desvelado",de uma
serenidade, de um brilho e de uma firmeza de crystal, e sentiu-se extranho a elle... Admirou ao longe
o corte das montanhas, a negrura da matta, atfronde/

CHANAAN

273

das arvores... Debaixo dos seus pés a terra vermelha, como embebida de sangue, e das plantas tenebrosas o cheiro que tonteia e excita... O morno
socego do universo... E tudo lhe era extranho. Elle
ê o Mundo, elle e tudo mais, a dualidade, a distincção irremediável. « Eu não estou em ti, tu não
estás em mim... Ainda assim eu te amo, mas tu não
és eu.»
.,, -A^ i
N'uma dôr0^/jljl Milkau, devorado de magua, m/v*^"***
combalido, sentiu-se também expatriado... Não
havia entre elle e todas as coisas em volta de si a
subtil intimidade que nos prende eternamente a
ellas, o imperceptível e mysterioso fluido de commuriicação que faz de tudo o mesmo ser... E percebia,
n'um grande desalento, que o conjuncto tropical
do paiz do sol o deixava extatico, errante e incomprehensivel, e que í sua alma emigrava d'alli, incapaz de uma communhão perfeita, de uma infiltração definitiva com a terra...
— Que sou eu então? Que verme, que átomo
miserável, que se não governa, que não pôde amar
o que quer, que se não pôde identificar com todas
as moléculas do mundo ? Que sou eu, onde leis
imperiosas, perversas, me dominam, me vencem
o novo sangue ?
Outros vizinhos vieram algum tempo depois SÊT
estabelecep^ó^Rio Doce, na campina que sahindo
da matta morre sobre as águas. Era uma pequena
família magyar, composta do pae viuvo, duas

274

CHANAAN

filhas e um filho, a que se juntaram outro rapaz
da mesma raça, que era noivo de uma das raparigas, e um cigano. Viviam unidos em uma só communhão de desanimo e de espanto, na casinha feita
de madeira tosca, .com tecto de telhas de páo, incendiada pelo sol nos dias quentes, varada pelo
vento, invadida pela chuva nos dias de tormenta.
Ahi cumpriam o ritual dos costumes pátrios. Sob
a pressão cobarde do isolamento, apegavam-se,
como a um refugio, ás intactas tradições, transportadas dê sangue a sangue e mantidas pelo
temor religioso desde os antepassados. O cigano
partira também, arrastado pelo instincto vagabundo. Na longa travessia, o eterno caminhante da
planicie imaginava-se prisioneiro no vapor, que
lhe parecia uma jaula movediça e endemoninhada. O oceano contemplado da terra attrahia-o
pela irresistível seducção da immensidade. Sobre o
mar elle não sentia mais liberdade moral. O infinito é uma miragem atormentadora, em que se
perde a essência humana... No meio das águas
illimitadas, sitiado pelo perigo, assaltado pelo terror, o espirito, dissolvendo as suas forças vitaes
n'uma desaggregação continua, transforma aquella
attracção impulsiva e illusoria em uma persistente
impressão de assombro e de terror, e a orla de
terra que se lhe escapou ao longe, e/para onde se
volta incessante, recebe os queixumes da saudade.
O homem só é senhor da sua individualidade na
porção de espaçp cujo horizonte^póde medir com

ju.

** W/i*

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bs

275

olhos, naquillo que é finito e limitado...
yjjfc/Passaram ^xft^^tídjatídUtí
os primeiros
tem-yyOtyfa^,
pos, esmagados pela perspectiva do desconhecido, ryyd**™
com a alma em suspensão. Até então não se trabalhara; os homens corriam as vizinhanças, caçavam, vagavam pelos montes e iam aos povoados ; as mulheres viviam no lar. Quando cahia
a sombra, o cigano s&. deitava* sobre a relva, á
beira do rio, e pregava os olhos preguiçosos no
poente, vendo morrer o sol. Aos domingos, a família «s- reunia^na varanda; o velho a um canto,
bonné enterrado até os olhos, cachimbo na bocca, /ir
quilotava repousadamente as longas barbas amaZ^&T
rellas e as rugas da cara; as raparigas e os dois */ ^ - , "
rapazes,como legítimos magyares,ornavam-se com Agfa&t as bellas roupas do seu paiz e vinham faustosos e , ^ * , ^ ^ ^
garridos entregar-se ao grande prazer da sua raça, d^r jwr_
á dansa.
^-* <s
As vezes, Milkau e Lentz nos seus passeios pela ^ S ^ T ^ ^
margem do rio ficavam-se debaixo de alguma y<^ ) •***>*
arvore, assistindo aquellas festas no silencio da ^y>w+* <£*<•
grande solidão. O musico era o cigano com o inse- *jf*~ ""•
paravel violino, sentado ao lado do velho. Dado o &+***• ^
signal, os pares punham-se em ordem,e iniciavam '?*~V*~**
as marchas polacas. A musica tangia á festa.
vr<^ / "
Os seus compassos a principio langorosos iam ga- -Q+VHJ*
nhando movimento e a largos impulsos do som t*.'/^**"
arrastavam os figurantes. Faziam rápidas voltas, « i ^ meias luas harmônicas, enrascavam os braços /*r**~•-**
uns nos outros e balouçavam-se cadenciados, ^*^*^"

276

CHANAAN

como suspensos sobre as notas, formando em sua
graça artística grupos de estatuaria clássica. Ao
findar a contradansa, respiravam satisfacção, espalhando-se-lhes no semblante o orgulho da sua
mestria. Mas o cigano os não deixava socegar,
vibrava o violino, e logo todos sentiam o despertar nervoso da paixão.
e^v**</***,,***,^ .
Com
V íwfcr^
ffâiffr
preso sob o queixo e)fcmpuxügàjl /t,
/ • /yyu-ydCt p n r n m i níiin coni'ii1Wi emquanto a outràyfhanejava o axco^rf^ys/c^Jytyffiiyfâajdfí
TTWfnu.iirnlu.
Os homens, trazendo chapéo dé 'feltro'comlindas plumas, paletot
' *«****" * % calça de velludo e á cinta uma larga faixa de seda
,- carmesim, enlaçavam as raparigas, cujo corpinho

^" £, meio aberto ao collo vestia o busto esbelto, e cuCm~po
j a s saias ornadas de velludo e seda lhes envolviam
9/¥ e>
^ ^^ 'as
fôrmas poderosas. Naquelle espaço estreito, na
varanda quasi debruçada sobre o grande rio selvagem, e extranho aquellas melodias, reuniam-se,
na fraternidade do destino e da arte, as duas raças, a que tem o sentimento innato da musica, e
'/r
a que tem a espontaneidade da dansa. Çdex^^í^/jt
t/
f/rrv^ a
valsa. Os artistas da dansa acompanhavam a
V loucura da rabeca n'um vôo quasi imperceptível e
para deante, para deante, por sua vez no sublime
surto dos" sentidos, improvisavam novas figuras.
Quando estavam no auge do prazer, a mais moça
das raparigas, amparada nos braços do irmão,
deslisava alegre, feliz, com o rosto illuminado,
embevecida, a fitar o musico amado, com avel-

CHANAAN

^

277^VV\^T

ludados e longos olhos, que sorriam primeiro que i V ^
a bocca... E quando a musica ia morrendo, a > \ >, "ç •
outra rapariga, transportada, em êxtase, a cabeça
Ç ^ \ ®*
loura reclinada sobre o hombro do noivo, n'uma
^&'^
vertigem aérea, respirava a pequenos haustos com
a bocca entreaberta, sua bocca vermelha como o
sangue, humida como o orvalho.
A turma de Felicissimo voltara para novas medições. O agrimensor depois do trabalho ia todas
as tardes conversar na colônia de Milkau, e com a
sua vivacidade e alegria entretinha os dois emi- ,
grados, contando episódios dá sua vida aventu- / ^
reira, scenas do Norte, d'esse Ceará trágico em
cuja{areias sedentas e implacáveis se vasam, de
fundeai? na resignação, na dôr, na energia e na es- / •*perança, a alma dos homens... Quando não havia
f
serviço urgente, Joca juntava-se a Lentz e o%-dois
"j
^». embrenhavam'no matto, a caçar. Na conviven'*|
cia com esses sertanejos Milkau apaziguava as an^
cias em que se vinha debatendo o seu espirito. A
\|"
espontaneidade de raça, a coragem e a bondade
ri
d'elles eram novos arrimos para a illusão...
j.
Nenhum incidente perturbava o calmo viver de
Í
immigrantes e trabalhadores, até que uma manhã
%.
o agrimensor e os seus ajudantes, sentados á porta
^
do barracão, viram uma mancha preta passar ve>
lejando magestosa, serena, no céo claro.
^
— Urubu !.. disse Felicissimo.
— Ah! temos carniça por aqui... opinou Joca. /^<*<í^*r,'v
indagando com os olhos atilados o vôo dfíamfyí.
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278

CHANAAN

A grande ave solitária descia vagarosa, boiando
negligente n'um vasto circulo do espaço, como um
barco de velas negras... Logo depois outra subia
.j
no horizonte e não tardou muito que outras mais
^ r H '***
viessem $/ax a limpidez do azul. E d'ahi a pouco
se ia baixando e restringindo a um ponto da matta
aJ *Artl° v o ° dfó idyffidffá infecteis, que os trabalhadores
/
acompanhavam curiosos e divertidos em suas almas infantis.
— Mas... alli, n'aquelle ponto, é a casa do
«bruxo», observou um dos homens, designando
assim a morada do intratável e velho caçador que
habitava aquellas margens do rio.
— Vae vêr que é algum dos cachorros que morreu... Também, que o diabo os leve a todos... praguejou o mulato.
— Que a peste os acabe... Malvados !.. ajuntou
outro.
— E mais o dono.,.
— Qual, para mim não morreu bicho nenhum.
Si fosse, o velho o teria enterrado, como a um filho,
concluiu Felicissimo.
— Sim... e não haveria carniça.
— Quem sabe si não é o velho que está morto ?
conjecturou um trabalhador.
— Homem, é verdade... acudiu um camarada.
Ha dias que o não vejo...
— Quem sabe! também eu... âlyldddtátamoutxos

£'r*/«zr

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°-

CHANAAN

279

— Vamos vêr, seu cadete? propoz Joca ao agrimensor.
E todos se levantaram e seguiram na direcção / o
da morada do caçador. Ao approximar|ÍA-se, ou- '
viram latidos e uivos de cães. Mais perto, quando
descortinaram a casa, viram os cães ladrando, correndo como demônios doidos para os urubus que
teimavam em baixar á terra. As aves negras rasteavam quasi o chão, e quando os cães se arremessavam sobre ellas, erguiam o vôo e iam pousar logo
adeante.
— Vocês não vêm ?.. A carniça é o velho...
gritou n'uma gargalhada alvar um dos homens.
— Que fedor !... Este diabo está podre ha muitos dias, berrou outro.
Instinctivamente, y&fff pararam, como n'um
conselho.
' /'
— Então., seu cadete, que se faz ? perguntou
Joca ao agrimensor.
— Ora !.. vamos a enterrar o velho... Deus lhe
perdoe a alma... Nós lhe cuidaremos do corpo,
disse decisivo o cearense.
Os homens não hesitaram mais, agora inspirados pelo impulso de piedade de Felicissimo, e tó^
dos caminharam para dentro do cercado. Vendoos approximar-se a matilha de cães abandonou os j ,
uwibúe e avançou como uma só massa,atroadora, —-y^^d<*n
furibunda, terrível, contra os homens. Aproveitando a diversão, os m/dm caminhavam no terreiro,e n'uma dansa macapra iam invadindo a ca-Jym • * .

s****-

e^ *%*•*"» °«-r,

280

CHANAAN

sa, n'um riso infernal, espichando voluptuosos as
cabeças petulantes de harpias descabelladas.
Deante do arranco dos cães, os homens fugiram, e
na porteira da cerca os defensores da casa pararam
arreganhando os dentes, uivando, ladrando, as
sangüíneas boccas escancaradas.
— Como podemos afrontar essa canalha?., perguntou um dos trabalhadores, quando já estavam
fora do perigo.
— Joca, vá com outros buscar os ferros para
darmos uma licção aquella cachorrada... ordenou
Felicissimo, saboreando uma vingança.
— Vamos d'ahi, disse Joca, e partiu acompanhado de mais dois.
Os outros ficaram atirando pedras aos cães, que,
estacados na cancella, não se arredavam, furiosos e tremendos. Os urubus, descendòyeTTT^rnaior
numero daflTBfln,.continuavam em cortejo a penetrar na casa. Um horrível e crescente fétido mesmo
á distancia tonteava os homens, dando-lhes ancias
de vomitar.
— Oh ! que demora, resmungava impaciente
Felicissimo, esperando na estrada a volta de Joca.
E ia gritando aos j/Lamea^l:
— Pedra, rapaziada! mão certeira!
Os cães latiam, mostrando os dentes brancos e
afiados... E os urubus continuavam a baixar do
céo... Afinal, pela estrada vieram correndo esbaforidos Joca e os companheiros, carregados de

CHANAAN

281

enxadas, foices e páos. Cada um se armou, e Felicissimo ordenou com enthusiasmo:
— Agora, avança, meu povo!
Os homens resolutos e raivosos precipitaram-se
sobre a cancella, que ao choque dos seus corpos
unidô^espatifou^c., dando-lhes passagem; os cães
não retrocederam e »lançaramrsobre elles, mordendo-os desesperadamente. Os invasores berravam na dôr :
— Mata! mata!
E a páo e foice arremetteramy^i? contra os ani- / / *
maes. N'um momento estavam os Iptmpné todos ^ Çr
rotos, e o sangue lhes corria das feridas. E da peleja,
umas vezes sahia um cão gritando, ganindo, quando
J
uma paulada certeira e furibunda lhe quebrava as > t
pernas, outras eram homens que, debandados, iso- \ £
lados, fugiam pelo terreiro, perseguidos... Estes J J
trataram logo de ss unir^ traçando com os instru. }"mentos um circulo de defesa:
-— Não afrouxem! ordenava Felicissimo.
— Avança! avança!
— Para dentro!... para dentro!...
Recuaram os cães ante a energia do ataque; e,correndo sumiram-se como por encanto. Os homens,
indo-lhes no encalço, penetraram na casa, brandindo as armas... Mas, entontecidos pelo cheiro suffocante, estacaram indecisos e apavorados deante de
um quadro medonho. Dentro, os urubus comiam
um cadáver humano que jazia por terra, o corpo do
solitário e abandonado immigrante. Os olhos ti16.

282

CHANAAN

nham sido devorados e as cavidades immensas e
rubras escancaravam-lhe a testa. Allucinados em
CK-y
seu goso satânico, osfflddMjd, sem dar fé dfáUaessaJ,
/^/^<^**^continuavam a picar, a comer, avidamente, embebidos. Os cães, esquecidos d'elles, faziam frente
aos invasores.
— Chô! Chô, canalha, atrôou um grito de Joca,
desesperado de nojo.
E n'um impeto de compaixão avançou para o
cadáver para livral-o dos urubus. Agarrando-o
pelas canellas e pelas roupas, os cães o detiveram... Os camaradas acudiram promptos em sua
defesa. Deante do alarido da lucta, os urubus esbordoados largaram a preza e, abrindo as azas,
espalhando com o vôo ainda mais o fedor, incapazes de se afastarem d'aquella nauseabunda
atmosphera, pousaram morosos, pesados, nas traves
lífdvi
^ a c a s a > n "hi ac p o s t a / á ^ fúnebres, medo//
nhos, como testemunhas do combate dos homens e
dos cães... Quando Joca conseguiu tocar o cadáver, recrudesceu o furor das feras. Não temiam
mais os ferros e os cacetes e atacavam os inimigos, que se apossavam do amo... Foi um desvario:
homens e animaes ty batíam""corpo a corpo, se
f e r i a r r v ^ - despedaçavam,-»como n'um combate
de doidos... Os homens estavam estraçalhados e
sobre as pernas nuas e brancas de muitos d'elles
corria um sahgúé^0tihif... Guinchando, os cães
IJf^mB
morriam,estorcendo-se como possessos e atirandose sobre o cadáver do velho. Depois de muito tempo

" — Não! gritou zangado Felicissimo. O cão cada vez mais se enterrava pelas suas carnes a dentro. não esmoreceram / mais allucinados investiam. extenuados já lhes queriam abandonar. deitaram no chão o velho. Pega enxada! E o cearense agarrou . doloridos. É\ enxotando' as aves. O resto dos cães ainda arremettiam contra elles. Era só o que faltava. Em revoada. os urubus . alguns ftomcnf puderam apossar-se do corpo e o foram carregando para fora. mas eram logo mortos.. obedeceram. não/conseguiu. emquanto os companheiros os defendiam n'um esforçado arrojo. começou a cavar a co mnlmrurando. O terreiro fic#íf Uo^ alastrado de corpos decepados.. — Mais funda! f< •*ty v+vfa>y£"*y . j^Teram assanhados para o terreiro.... Os que ainda restavam. picando-o com o ferro e tentando arrancal-o com as mãos. avançando JoÚliC/ impávidos rfffd o cadáver.CHANAAN^'' 283 de lucta.. Correu outro homem em seu soccorro e com um certeiro e violento golpe de foice cortou o pescoço do animal. Um d'elles cravou as prezas na coxa de ui homem com tal fúria que este.. que os trabalhadores Jy/^^rt. Os homens maltratados. de membros esparsos.. Não! Havemos de enterrar o pobre velho. mutilados. a cabeça ficou segura na carne da victima e das artérias „ rotas jorrava o sangue^/ J^a^i/uu>^ Não havia mais cães a matar. seus miseráveis !.m n'uma d'ellas e.

Formava-se assim um novo mytho no Rio Doce. rezaram. os urubus o desenterrariam... sem ninguém n'este mundo. a paizagem perdera o seu contorno exacto e regular. Era uma vara de queixadas que passava. Depois. pensando nos cães encantados... mudos. melancólicos. quando o catitú matraca no matto. Felicissimo ajoelhou-se e rezou:— Padre nosso. Dominados por uma compaixão súbita e extranha os homens rudes ajoelha/am-se e de chapéo na mão.284 l//uJ« CHANAAN Assim. tristes. quando os trabalhadores da turma de Felicissimo se reuniram aporta do barracão. acabrunhados em face da morte. Nas noites de tempestade ainda hoje. encheram a cova de terra.. Faz dó vêr uma pobre creatura de Deus desamparada. uma roncaria aterradora.. comido por estes sujos.. ouviram na matta um clamor.. Ao amanhecer de um^dia'de nevoeiro. Em breve a cova ficou prompta e «-abafa enterraram o immigrante caçador. A' medida que o cadáver ia sendo coberto... quebrando o silencio bemfazejo. todos se recolhem medrosos. que só agora se lhes revelava. feitas catilús para desenterrar e resuscitar o velho demônio. remontavam os idtídyf um aum ás alturas secretas. N'aquella noite... As linhas definitivas dos objectosae-infundíamos monta- . que estaes no Céo. E Joca explicou: — Lá vão as almas dos cachorros.

e extendendo o focinho. ligeiramente azulada. a cuja porta os seus tt^^° donos. triturando-a com fastio e desanimo. vaporosa.—f e se dilatou "em maravilhosa limpidez. erguia-se e ^ / / l e n t a //'/. o rio sem horizonte. o miravam ^•«f^**-*. e acariciava n'um frio electrico o fád pello ralo e //r^ falhado. os novos colonos magyares. Estremecia n u m goso manso. como si fosse o imperceptível véo que envolvesse alguma deusa errante e retardada. Por toda a parte manchas esplendidas se ostentavam.CHANAAN 285 nhas enterravam as cabeças nas nuvens. que fugira para os montes. para a cabana. / / / O . De passada. Um raio . tristes e longos. ligava ^ ' ao céo baixo e denso. tureza se^sacudift/a nevoa fugiUjOcéoTeespannou «. movia-se. com os tumidos e negros beiços. arregaçando os beiços. arqueava-se. A mancha gp-sk? movei sobre a planicie{sej^efiniu)no perfil de um pobre cavallo que passeiava na verdura os seus olhos de velhice e fadiga. vinha distrahil-o d'aquella postura de curiosidade humilde. levada pela brisa. affagava a herva. veloz. com interesse. sem limite. O desenho «S^pagára^a bruma mascarava os perfis das coisas e o colorido surgia com a sombra n u m a sublime desforra. abaixava-se. beijava o ar.-I u./ mente/dissipanarf/O sol não tardou a vir. E sobre a campina esverdeada. a cabelleira das arvores fumegava. e a na-™*'//''/etAsito. sensual e grato. Não mais encontrava a nevoa. uma d'essas manchas. A neblina leve. py^f (li& *" èMÁid a sua attenção de cavallo experimentado í^*****'* iffily fifMMjyâ. aa. como uma grande pasta cinzenta.

xÈUtâdffâfr rte do iiQoadw.280 CHANAAN de sol.y viram chegaxléfti o grupo dos vizinhos..o dorso da terra. descera a brincar-lhe nos olhos e incendiava-lhe a pupilla. HtítL. Chegaram ao aceiro $ $ / / aberto como uma 11'/ ) larga ferida sobre. ennegrecidos. elles vão trabalhar. Um dos jovens magyares. levando uma corda. circumdando a queimada. ruBiaeí/ — Mas para que trazem elles quasi arrastado aquelle cavallo ? perguntou Lentz. O rapaz passou-lhe o cabresto e ^r levou"'ao poste fronteiro á casa. caminhou para o cavallo. Os .filhos armaram-se das ferramentas de lavourá^Tcigano.n . disse Milkau. ' . afastaram^um pouco e ficaram a . E os dois st. Da matta carbonisada ainda resistiam de pé alguns troncos despojados. fazia-me dó vêr esta gente apathica. porém. e o velho deu ordem de partir $ para a queimada. As xapaxigaS/â/fâfiffij/lffli (J tf-ij em casa cheias de instinctivo pavor. passeiando aquella hoi i. sahindo de sua modorra e apenas armado de um chicote. era um sulco de alguns metros de largura. onde o amarrou. n iijripimbwu os outros. Meiguices da natureza. Milkau < e Lentz. O animal entregou-lhe a cabeça n'uma mistura de abandono e tédio. irresoluta. yfdfi o grupo » «w^ afastar-se vagarosamente. seguiramZènt 2eíá4 ffl) <t™ com eítê para o roçado. desamarrando o cavallo. Os colonos tinham resolvido principiar n'aquelle dia a plantação do i W prazo. C-JUrfc ei* i+t**&> — Ainda bem. que.

Os filhos puzeram-se de lado. N'aquelle sacrifício cumpria-se uma missão sagrada: ligavase á nova terra o nervo da tradição da terra antiga. em cujo rosto se recompunha a antiga expres- . cahiu em cheio sobre o animal. o cigano seguia atraz.sacrificaram aos deuses o velho companheiro de peregrinação nos brancos steppes. O velho. O velho colono segurou o animal pelo cabresto e / collocou-^io meio da valia. Estirou o cavallo o pescoço para a frente. conduzia a victima. alongou-se. Os saas-—• J\" membros se^extorciam. E.n u m sibillo. E desapiedadamente. e no solo europeu renunciaram á vida errante dos pastores. seguida do cigano. Quando os antepassados tartaros desceram do planalto asiático. encostando quasi o ventre á terra. puxavam-no para deante. para lavrar o campo e buscar na cultura a satisfacção da vida. acompanhando os movimentos do grupo. como um sacerdote. a immolação ficou sempre no espirito dos descendentes como um dever. assim. abaixou-se. como para se libertar do flagello que lhe vinha do alto. Este. Novas lambadas W0$y 1/'' arremessadas por mão vigorosa. e a primeira vergastada. como arrancando-se de si mes. O pae puxou o cavallo para a frente. pinoteou assustado.//»~ mo. Continuava o grupo a caminhar. De chicote em punho. confrangidos sob a dôr /1**immensa. cortando o ar. n'um recolhimento religioso. cujas raizes se entendem até ao fundo da alma das raças. levando-o ao furor do açoite.CHANAAN 287 distancia.

uma assassina obsessão. fO chicote cruel e rápido marcava o compasso d'esse rythmo extranho. que. e a vista e o cheiro do sangue excitavam ainda mais a energia do flagellador. penetrando nos fios dé carne viva. produzido pelo singular efteito da paixão sanguinária.vabriagí mais fundos. pernas tropegas. As ss»s narinas y ^ u . Os outros assistiam mudos á cerimonia. O ar leve e frio. n'um retrocesso harmônico e rápido. immobilisados. esvaindo-se pelas veias abertas.288 CHANAAN são infernal e terrível dos antepassados. Gottas vermelhas respingavam sobre a descoberta cabeça do velho m a •=*-• ^ §y a r ' d e u m a brancura de açucena. Mofino de dôr. de pescoço estirado. E no seu olhar jMÊtàffl ' jade moribundo se traduziam os humildes protestos e os tímidos appellos de misericórdia. causava uma dôr fina. Estonteou-o uma vertigem. O cigano mais terrível. O contagio do furor & anoderou">alos outros. regando a terra. h 4L* " \ O ^ ^ * . mais feroz. E o relho soava. como torneiras de sangue. acerba. e dajÀk garganta afinada irrompeu jdtídtâfdsonoxo. Cavos gemidos resoavam no peito da besta. o cavallo proseguia arrastado. as suas pontas dè ferro cortavam o lombo do animal. o canto de guerra dos velhos tartaros. uma rudimentaranesthesia. aguda. mas o açoite não parou. Os sulcos na 4n\~l carne se. Veiu-lhe uma hysterica insensibilidade. O chicote vibrava incessante. o sangue escorria / frouxo. emquanto o martyr ia lento. transfigurava-se. assistiam/ao sacrifício. seXdilatavam em languido goso.

ficou estampada a imagem do seu corpo. Arquejante. A camada de argilla. presidindo á dolorosa decomposição da sua carne de martyr. resfo. Nas suas pupillas de moribundo s^Tphotographararrfrf um derradeiro clarão as physionomias dos algozes. como n'uma verônica. tornava o seio da terra impenetrável ao sangue. cambaleando como umallucinado. lisa. pelo odor de carne sangrenta. Cessaram as vozes. como um peso inerte. — .. cahira de lado. exhausto.loucos. O açoite inexorável ainda o levantou uma vez. rezando como phantasmas . n'um coro infernal. lugubre.. / via no ar.c*. era a infinita tortura que o acompanharia além da própria morte. e afinal'se prostroi/f sobre a terra. e no solo.*} /. o canto que feria asperamente o ar. morria vagarosamente. 17 . que sorvido pelo sol se evaporava e dissol. acompanhavam o canto. impressa em sangue. fogoso../ em torno do cadáver.CHANAAN 289 E. E esta imagem medonha.Proseguia sem interrupção. pela suggestão do rito. embriagados pouco a pouco pelas phrases da musica. que se lhe guardara no interior dos olhos. O cavallo deu mais alguns passos. o repudio da ' immolação. legando n'um espaçado estertor. escorregadia como uma couraça. rompendo a cruenta tradição do passado. O animal. Os homens seVagruparam **< . Era a rejeição do sacrifício. Poças e fios vermelhos manchavam o sulco. e era o echo da melodia satânica da morte. A nova Terra juntava a sua contribuição aos límpidos ideaes dos novos homens.

si Ella. e para que a tortura. cedendo tão somente ás brandas violências do amor?. lhes daria os seus fructos. .. como uma rapariga bella e fresca. a fecundação pelo sangue.290 CHANAAN — E para que? dizia Milkau comrriovido até ás lagrimas. risonhae alegre.

no silencio do dia. /. Teve. e as pernas trope.' ce da crise. <*-—/ A dôr fora viva e passageira: e logo que a rapariga voltou u a si. porém. es'perar ô~dèsenla.y l meiro movimento foi dV /se\recolhei^ á li o seu pni n n nhritrn H n m p c t i r n pencrar n rlpçpnlncasa e ahi. para se furtarem ao incommodo do tratamento. o corpo se lhe retorceu todo e o rosto desmaiado se desfiguro^ n'uma contorsão medonha. No meio do cafesal que estava a limpar. lho não flillldífl ffMt das mãos entorpecidas ylffffULcCras deixava cahir frouxa a enxada. assaltada por um grande terror. acontecia. que já desde a véspera vinha soffrendo. que dia e noite ameaçavam despedil-a.IX E o que tinha de acontecer. medo de affrontar a ira dos patrões. Resistiu e continuou a labutar debaixo dos pés de café./" ATt*^ ' .. no abrigo doméstico. sentiu repentinamente uma dôr aguda nas entranhas. O traba. Cahiu pesada no chão.. Maria. sósinha. como de uma violenta punhalada..

Ahi. esforçando/fe por trabalhar. deixou o cafesal e gfe aventurou-para o lado do rio. no terreno inculto e bravio. e a desgraçada. alagada em suor frio. Maria -$• amparava^ apertando-se com as mãos para suffocar o soffrimento extranho e vergonhoso que sentia. Nos intervallos erguia-se. O aroma forte invadiu-lhe a cabeça. As vezes. pensando que a viriam acudir. tinha ímpetos de gritar. os olhos indifferentes se entendiam sobre o campo e recolhiam a pom- . Maria sentouse debaixo d'uma d'essas arvores que n'aquella epocha estavam em flor. não se sustinham firmes. as únicas arvores que havia eram esparsos cajueiros muito derreiados. mas ainda assim um lar. De espaço a espaço a mesma dôr voltava. viu chegada a hora da maternidade. abandonou o serviço e. No vão das dores. espantava-se dos seus inconscientes desabafos e tremia de pavor. volumosas. Quando serenava. esgalhando-se pelo chão. clamando soccorro. afastando-se o mais possível da casa. e contra toda a vontade gemia alto. sem mais esperança.292 CHANAAN gas.desbastando o matto tecido ao cafesal. onde era mais deserto. E ella combalida deixou-se pender sobre a terra. mas logo era derrubada exhausta. As dores inexoráveis proseguiam amiudadas. de aviltamento e seguramente em uma expulsão immediata d'aquelle lar desagasalhado. como si lhe dilacerasse o ventre. Sabia bem que qualquer auxilio dos amos importaria em um augmento de tortura. Tomada de medo.

O h ! peior que a morte. mais cortantes. o /' corpo lhe tremia convulso..CHANAAN 293 posa phosphorescencia do rio faiscante. &/ /eus gritos eram finos e estridentes e ás vezes resoavam asperamente. a dôr Q fi» interrompeu de novo e o suor frio banhou-lhe o corpo.. E de repente sentiu-se mais desfallecida.. sacudindo-a violentamente. os dentes batiam de frio nervoso. as faces tumidas estalavam de sangue. Os porcos pouco a* pouco se iam approximando. parecendo que se ia desmanchando n'uma humidade viscosa.. Rasgavam-se-lhe as entranhas. Sempre as mesmas dores.. a não ser uma manada de porcos. abafadas. como estrangulada gargalhada hysterica. e a miserável. Soffria muito. Depois. até que arrancos lancinantes o agitaram outra vez.. que vinha ao longe focinhando e escavando aterra. Tudo n'ella era desordem. agora mais miúdas. desprendendo-se. que jazia desfallecido e inerte. o vestido arrebentando deixava vêr o colo nú e arquejante. quasi surdas. cahiam ennovellados sobre o rosto. acabando n'um grito soluçidiái IJoàOf que se perdia n u m longo espasmo. <)lovas dores vieram. alheia a si mesma.. os cabellos. ii entretinha^em acompanhar-lhes a morosa viagem. Maria . dilatando-se á força.... as mãos roseas cerravam-se como molas de ferro. A morte devia ser assim. repugnante. Nada se movia alli na solidão. Maria gemia livremente. e^torcendo-se na agonia. dando-lhe andas de apertar alguma coisa contra si...

grito agudo. yjpyyd olhos desvairados não viam mais nada.. a lamber afoitamente o chão. .. guinchando. despertando-a em sobresalto... imperiosas. Nos ouvividos entrava-lhe o resfolegar roufenho dos porcos. atropelando-se no sangue que corria. chegando mesmo alguns *mais atrevidos. e só podia gemer estrebuchando n'uma Icvvrh. mistura de/soffrimento e de^oso.. E os animaes sedentos se enchafurdavam. queria afugental-os. Subitamente.. longe da Terra. Os porcos/se\afastarar^i. débil.. largando a arvore. Um novo gemido sahiu do peito de Maria./ J/f # . que a estimulava 'fíáv^o extranhamente.. mais vorazes.. Um vagido de creança Çjy^t^yjf yditifyflyyfd ffo roncos dos animaes. Uma vertigem turbou-lhe a visão. enfraqueceu-lhe OS o u v !-eyJT rá° s > e n 'uma / ^ r j ^ f de bem estar parecia deliciosamente suspensa nos ares. mas. /ngvl.. E ella (sè\agarrav/já arvore. Maria. longe do soffrimento. Em torno fungavam os porcos. remexendo as folhas seccas do cajueiro.. ameaçadores.espantados.. attrahidos pelo cheiro que d'ahi ffv #/^yltídiíava. A mulher e^m. ouvindo no arfar dos porcos o resfolegar longínquo e adormecedor do mar.. E os porcos persistiam sinistros. i exangue. horrorisada. nem mesmo tinha forças para um / .. estrei/ ^i/i / tando-a com os níveos báços nús e mordia o ' tronco.. ella cahiu extenuada. o braço morreu-lhe sobre o corpo. mas as dores a retomavam.294 CHANAAN abraçou-se ao tronco deitado do cajueiro.. 4-*\. cravando-lhe os dentes^desespexadayaá^w/ £/ Zs convulsivamenje. yyyj que a cercavam.^ez u m cançado gesto para apanhar o filho.

antes da audiência. despertando a mãe. livida. Brederodes percorria ' j~Lj. Depois. y/^^j^f* !„*****. que vagia estrangulada'. quando um grande vácuo se lhe fez de todo nas entranhas. fknjAlfado pelos ///éíòàfi*"porcos. ojkz. Uma manhã. sm*^^*" os ricos negociantes. ^yfyfflÊàfy tándo n'uma espontânea e communicátiva mal que a creada tinha matado o filho. / o dr. escrivão Pantoja ./ | a creança. Quando esta abriu os olhos. viu o filho aos trambolhões.jf nada. em busca de Maria. sentindo-a socegada.. 'Í0- Dois dias depois. se precipitarairrsobre os resíduos sangrentos.CHANAAN 295 Jjf i e ella. Maria estava na cadeia do Cachoeira. que fugiam pelo campo afora. mei/consciente. hirta. mirou attonita f*. f -£~ Á.** / t r *^ rios unidos tá agitaram^para a vingança e o exem. A população germânica m^d/pj^/^^f m a noticia do crime. espalhados no chão... filha dos patrões. os pastores. se contorceu. <átí//$$(. * com . chegava nesse instante. Devoravam tudo. que ás primeiras dentadas soltou um grito forte. a dôr cessou. Os porcos.. alluci. e Maria mergulhou afundada em outra vertigem. tremendos . e os sustentaculos da colônia.0/-** do dr. sôfregos..jfsèm dddyy indagar retrocedeu á casa. sorveram o sangue e na excitação da voracidade arremessaram-se á creança.. Itapecurú/$0^despachava7âutos com o /& /0<T'. quando Roberto e^*»«* /< . os proprieta.jfc/~~ pio... e yyndo a espantosa scena. deu um lü fa* salto ^fditfè e pondo-se de pé. uns jornaes políticos da capital.

. Não. senão apressava. quem sabe... cheio de curiosidade. ficou nervoso. — Senhor doutor. Assim. não é para uma questão de autos.%^-ft-' direito. pensava o juiz. vestido como nos domingos. Algum despacho. disse por fim Roberto já maéI -í I fado. vem exigir o paga^jll/jLt-^ mento da minha conta? — Aqui.. deante de gente. como de £» *****. anniquilado. não era cobrança. não era a conta. n'uma conversa. sacudindo os hombros. m . longe ^m/T^y do assumpto. o que me traz aqui. — Seja bemvindo a esta casa. Aqui estamos todos para servil-o. que proseguia-^fa^rancos. Não se atrevia a chamar o allemão em particular e demorava com geito o escrivão. doutor Brederodes ? O promotor resmungou. £</ . que também.. — Não. que vem pedir. Itapecurú presentia que Roberto tinha o que lhe communicar em reserva. sorrindo estúpido e sem L*ty%5 propósito aos outros.. O allemão cumprimentou a todos corn uma palavra amável para cada um...290 CHANAAN Schultz. Não.j muito macio e delicado. sinão não estaria tão grave. Si fôr de direito.. — Oh! meu bom amigo..costume? Ou. o senhor manda. Itapecurú. não pede. Ha de ser a conta. Entretiveram-se algum tempo sem pretexto. entrou solemne.. Não é. — Depende.. Que será? pensava o juiz de 4Z. Com esse ar de importância. / Itapecurú respirou.. E o magistrado ficou abatido. saudou-o com servilismo o juiz de direito..

/ sérias ? perguntou o* allemão. que aqui não falta Justiça. — Nem a mim. ' ' . acariciando / o hombro do promotor. disse gravemente Itapecurú. sorrindo.y res jilwi uma fraqueza de coração pela sorte da L/ú ré. — Está claro. espraiando as bochechas n'um riso grotesco. pedir a punição d'essa miserável que matou o filho. — Mas de que se trata?.. fitando o escrivão. E em que termos está o processo. e a dignidade dos allemães exige uma licção severa. interrogou abelhudo o « maracajá ». em nome da colônia. A Justiça tem os olhos vendados.CHANAAN 297 — Como. — O que nós receiamos é que algum dos senho. considerou o Juiz de direito.. Já expedi os mandados para a formação da culpa. senhor doutor? Julga V S. doutor e caro collega. — Ah! Então... capitão? — O dr. capitão. Havemos de examinar tudo com o cuidado que sempre empregamos em nossa missão. acudiu Pantoja./ 17. e.. — Meus senhores. accrescentou Itapecurú. que o desarmou do monoculo. Nós somos amigos velhos e nunca o senhor me pediu nada desarrazoado. não ha du/ . Brederodes deu hontem a denuncia... ' — Oh! impossível. que eu seria capaz de faljar á Justiça sinão de coisas (. O crime é horrível.. — A colônia sabe. eu venho aqui. que enrubesceu com a ' impertinente familiaridade.

. capitão. — E' muita petulância.. depois.298 ta '/ CHANAAN vida sobre a criminalidade da accusada ? pergunton' Itapecurú ao promotor. arriscou o allemão. si nós passássemos a mão por cima. O senhor.. — Mas como podiam os senhores abafar o crime? perguntou Brederodes seccamente. O filho lhe seria um trambolho. Este continuava a vociferar. E. Mas não ha de ser aqui que pegarão esses máos exemplos. — Ah! — Sim. que seria da moralidade das famílias dos colonos para o futuro?... Eu não digo. V S.. que o senhor Roberto e os seus patrícios nos têm aqui como seus creados? E Brederodes deu um violento murro na mesa. Imagine V.. empenhando-nos para não haver andamento no processo... os precedentes. S. — Não denunciando.. que affirmam ter ella lançado a creança aos porcos.. — Doutor Brederodes. Uma perdida... comprehende. quasi esbor- ...... não prendendo. observou Roberto.. — Senhor doutor. si ficasse impune o delicto. — Não pôde haver duvida. Os outros queriam evitar o desabafo do joven promotor..... que viu os autos? Brederodes não respondeu e continuou de lado a folhear os jornaes.. Ha testemunhas de vista.

Como viram uma das filhas apanhada com a bocca na botija. mas agora liquidaremos contas. de pudica commigo. que procurava com um riso cobarde amparar a fúria do brasileiro. S.. e como não ha remédio algum. m o t e j a m ! ^ ^ * ^ ^ — E' aquella ? perguntou)6maracajá}i Sá// ' d— Sim... Exigir que se cumpra a lei... — Qual povo. Qual povo!.... Extrangeiros. conheço-a bem.. exigir em nome da colônia... — Moralidade? Fingimento. — Si ha? Oh! esta miserável.. replicou Brederodes. E' boa! — Mas não ha inconveniente.. — Sim. pensa que não ha crime no caso ? interrogou Pantoja. — O que elles querem é exactamente justiça! — Tartufos... fez-se de fina. miseráveis... mandões de aldeia. Aproveitarei a occasião para . e ahi está o que ella era.CHANAAN 299 doando o negociante. hypocrisia. a mesma.. Vem aqui á casa do juiz de direito um bolas qualquer. Ladrões. para desviar a questão.. á& alvoroçam^todos para reclamar justiça. Que colônia?. que se apossam de nossas terras e enriquecem! — Então V. creados..... que o povo. creio. teve forcas de dizer o > allemão. A moralidade de salteadores. qual nada.. collega. Muito boa! — A nossa moralidade. porque enriqueceu furtando o nosso dinheiro...

mas como magistrado sei dar a cada um o que é s^u. falando sósinho. Que damnado!. Pegou no chapéo e. sou liberal. rapaziadas. que ainda o quiz demorar. é a falta de attenção com os elementos conservadores do paiz. São simples revolucionários. isso não. — O defeito principal dos moços de hoje. desmascarar toda esta corja d aqui. Eu também admiro os direitos do homem.queimarr^ajuntou por disfarce Itapecurú. Havemos de vêr. j/afybflf/fâjado pela cólera.. Pensam que o progresso é a revolução. Suum cuique tribuere. mal apertando a mão de Itapecurú. quando... Não era alli que havia de confessar os seus rancores. commentava o escrivão. O allemão não dizia nada.. sahiu olhando com raiva a figura ffijfa edesmoralisada de Roberto. quando ficararhN i sós. balançando o monoculo. Não poude mais vociferar.300 levar esse processo até ao* fim. Nós gostamos muito de bolir com elle para vêl-o se. querendo illudir a impressão deixada pelos desmandos da ira do promotor. Este facto não é o único. Para mim todas estas allemãs matam os filhos. fdfffderou o dr.. Não sou o promotor? Exigências commigo? Não. Itapecurú. — Lá se vae batendo com as mãos. — Tem graça! disse Pantoja. — É verdade. que ia acompanhando da janella a marcha de Brederodes na rua. $H*#" o- CHANAAN ...

aqui na . O juiz de direito suspendeu o discurso. Pantoja acompanhou-o com passo sorrateiro. nas classes respeitáveis.. E não é maltratando-as.. Para elles a política é só destruir e botar abaixo. cortou o escrivão. Mas Roberto não esperou o resto. Os senhores jacobinos não comprehendem este principio admirável. sem ouvinte.! que perder.. nos colonos estabelecidos. fez-lhe uma grande cortezia e foi sahindo. seu doutor.. Itapecurú sorriu da incapacidade do mudo auditório e continuou : — Onde está o elemento ? Nos senhores negociantes. — Espere um pouco.. Posso responder á colônia que não ha meio da criminosa escapar ? — A colônia sabe que pelas minhas theorias. que têm o / /^.. levantou-se. ia dizendo Itapecurú.CHANAAN 301 — E' o habito da justiça. — Sim. Que pôde fazer uma sociedade sem ordem ? E a base. velhos e jovens. Roberto. Pois é pena. ainda mais que tudo aborrecido por ficar só. E' preciso termos sempre em vista o elemento conservador do paiz. — Oh! seu escrivão! E os nossos autos ? interrogou afflicto o juiz de direito. impaciente. onde Mifijdfo este salutar elemento? //<fr é"*"" Ninguém respondeu. a justiça para todos. já venho. que se /em /V*r*'' uma perfeita organisação social. nos proprietários. emfim. Por exemplo.y ^ colônia. — Bem. retrucou o escri- . já principiando a enfadar-se.

E.... em segredo.. — E o tal processo ? interrompeu Roberto. mudando de assumpto. gaguejou o escrivão. Basta a remoção. — Maluco ? Canalha! vou já escrever para o Cachoeira armando-lhe a cama. tem razão... a remoção do Brederodes.. — Então escreva.. repetiu o outro machinal e pensativo.. Veja. Que não faço pelo partido? Mas. — Tem razão. — Donnerwetter ! praguejou o allemão. segredo. — E... Não é ? — Que vá para o inferno! — Sim. Todos se protegem. os jacobinos... — Maluco... E logo proseguiu na lingua do paiz : — E boa! Os senhores querem o nosso auxilio nas eleições... Porque... pelo menos... Olhe. embaraçado. eu mesmo vou escrever ao governador. Posso contar? — Oh! commigo o senhor sempre conta... e quando se trata de^castigar um insolente.... que vive a g^insultar<Togemcom o corpo!. O diabo é que esses jacobinos são muito fortes. para o inferno. sabe. — E que tal o promotorzinho! disse na rua Roberto ao «maracajá».. Uma irmandade... pedindo.. E não vá o governador não attender. ha muito pedido do . foi esgueirando ao lado do allemão... quinhentos votos só aqui nesta colônia. Muito entre nós..102 CHANAAN vão sem se voltar. E «e..

. — E o promotor? — Não viu ? Com a idéa de se vingar dos colonos. E' meu. — Sim. Dá-se um berro com elle. E eu.. Um imbecil. Realmente. é um caso monstruoso. é nosso.. c / / esse doutor Maciel. A colônia não pôde abafar. nas outras colônias. gritarão.... — E' verdade. em Itapemirim. continuou o escrivão. esse seu .. batendo com alarde no bolso da calça. posso dizer.. comprehendo. e tudo vae direito.... — Não faça caso. E' cabeçudo. é um senhor cheio de maisadas. Pantoja sorriu. Benevides. Os )s jacobinos de quem o senhor fala tanto. temos o Itapecurú e as testemunhas. que respondo pelo resultado d'esse negocio. ' É muito sério. — Quanto ao juiz municipal. e mesmo por tolices pessoaes. por toda a partejQs nossos patrícios haviam de dfj desmoralisar/Nada. esse..CHANAAN 303 centro. Que se diria? Que as allemãs do Cachoeira são umas perdidas e atiram os filhos aos porcos. é preciso um exemplo. proclamou o negociante.. E depois. Brederodes. acompanhando o gesto. Além d'isso. perseguirá a tal sujeita até ás ultimas. coitado! já se sabe... — Ah! a política! — ... como fez o sr.. O juiz de direito. para que se calem — Pôde ficar tranquillo.

Um corredor dividia a casa ao meio : de LÍj um lado fal a prisão e do outro o alojamento hdos dois únicos soldados. perfeito. adeus. que eram / ^ guardas '<? * effectivos dos detidos. já existente antes da colonisação.. concluiu com jactancia o cabra. depois de condemtyfc llk ^"Z/ . hoje. approximando-se. Os accu**** sados passavam n'essa casa apenas como por uma estação durante o processo.. — Muito obrigado. — Appareça. A cadeia do Porto do Cachoeira. Mas logo o « maracajá » voltou sobre os passos e gritou para o outro: — Ia-me passando.. não esqueça a carta. baixou a voz : — Tenho precisão urgente. era tal. E' para a caixa do partido. Pantoja e o allemão se separaram.. que móe a mandioca. — Sim.. ninguém discrepa.304 CHANAAN creado.. . seguindo direcções diversas.. As c j ' l-— paredes eram negras e as grades enferrujadas da janella quasi soltas dentro dos buracos da cravação. o emprego para remunerar serviços eleitoraes. O carcereiro ahi raramente yF I apparecia* tinham-lhe dado. como é o habito no C^j paiz. em que ^ t ó # H # M ^ . resto do antigo povoado. Não é para mim. de cem mil reis.. Entre presos e solda/«/*^t~ dos havia a mais relaxada camaradagem. J vez a mais velha e a peior habitação da cidade. ajuntou pressuroso. Bom. Depois.

^/^TOL' . Em « outros intervallos. de estupidez. E teve pejo de ser homem. E ella . e apenas de longe em longe lhe vinham/vislumbres da exa. dormindo sobre estrados de madeira.... que o divino sonho se desmancha ao sopro da mal.-lhe o momento doloroso zm/flC/Oín*. vergonha. á humidade e n'uma incrível immundicie ! Maria não comprehendia bem porque a prendiam. em /"*^ supplicas.. tão fértil nos humanos. E foi um rugido no seu coração. mais calma. n'uma promiscuidade animal. eram remettidos para as prisões da capital. quasi a morrer. /l/fz%t!L Tfítf JM0WI01 Milkau fy#0L da sorte ..CHANAAN 305 nados. quando. até que de novo o torpor ' bemfazejo lhe arrebatava a consciência.. em choros. Com. de! jtífy. que os seus olhos uma vez tiveram a suprema agonia de vêr. de vingança. ao frio.. tíld^fjf. se exaltava. e pela " '' crystallina claridade da sua alma desannuviada. o lll'(/tiyu seu maior tormento era a desesperada anciã por seu filho.. desprezo de si mesmo. ^ de Maria. Trazia-lhe a / memória o quadro medonho.ÁfcáL^ prehendeu logo. entrevisto tão bello no nevoeiro da vertigem. ^/debatia em gemidos de horror. acobardada. A inrelligencia n'ella adormecera.. que atraz d'essa accusação havia um drama. um tecido de cobardia.. Mas o que soffriam esses miseráveis quasi sem alimento. e de tudo o que .*H. sem roupas. era vida. por instincto de bondade.*./ cta noção do que tinha acontecido./ / soffrenjjfesmagada pelo temeroso peso do mundo. e AMÊ^ ainda assim fraca.

. — E por isso me deixas ?. — Não comprehendes ? respondeu Milkau com calma. quando ha um soffrimento no Universo..306 r CHANAAN dade.. em que a saudara como filha do sol e das águas. chegando ao Cachoeiro. No dia seguinte. o seu crime não seria antes a culpa dos que a repelliram e a levaram ao desespero ? — Mas tu não estás em causa.. devo correr para o seu lado.. A tristeza que . Abandonas os nossos interesses.. como é o teu. E partiu j^r.. parece-me. Então não vês que essa desgraçada é uma victima? E desde que eu a tenho por tal. a cidadesinha não tinha mais para elle o encanto d'aquella primeira manhã. replicou seccamente Lentz. Na tarde desse mesmo dia. esse soccorro.. escarneceu Lentz.. — Não comprehendo. — Quem sabe da verdade ? — E quando não fosse innocente. Milkau disse a Lentz: — Vou ao Cachoeiro por algum tempo. — E que te leva lá? perguntou o amigo. a nossa colônia? — E meu dever.. do esquecimento e da paz não era sinão o baixo connubio de todas as vilezas sociaes......Tudo o que julgara como o doce convívio da bondade. — A sympathia pelo destino d'essa infeliz rapariga. esperando uma resposta. — Todo o homem está em causa.

agitado. na embryonaria e abor' f" tada cidade. petos confusos e irresistíveis. er• guiam-se. desarmado/era o guarda da / j prisão. /**" seres monstruosos. quasi sem água. feitas ás pressas. Apertado entre duas linhas de morros. de farda desabotoada. dolorosamente nús. viam-se estampadas a esterilidade e a aridez. sem arte. colossaes. olhando para o rio. descalçadas. m communicava / a paizagem e toda a antiga maravilha d'esta se desfazia mysteriosamente. mesquinho e ridículo. Sobre as ruas barrentas. quebrando-se nas pedras negras. impellido por im. um mulato moço. casas deseguaes. verdadeiros aleijões. Tudo o que era natureza tinha o aspecto sinistro. fervilhava o seu cachão ^ monótono. a gente grosseira e rude mostrava o ar embrutecido.Todavia hesitava.. O único desejo de Milkau era estar immediatamente com Maria. e de ouvir a lugubre confissão do crime. fffjfiff/fí w**" 0t' n a s n n n a s inconscientes figuras deformadas de . E ahi. á cadeia. q[ E. Milkau pediu permissão'para falar á p r i .CHANAAN 307 trazia. como para um povo apenas acampado sobre a terra. trágico.. e o que era humano. torturado pela ávida cobiça. O sol infernal castigava sem piedade as habitaçS^s e sobre as rochas abrasadas. desolador. informes. dirigia-se.' . com receio de se vêr n'um instante desilludido sobre a innocencia d'ella. vestido de soldado. o povoado parecia-lhe abafado e condemnado a uma irremediável angt^ja. Eram pequenos sobrados. O rio. A porta. tremulo.

011a. A compaixão foi crescendo em Milkau ao aspecto miserável da mulher. qu cama.• • não é? disse Milkau. curvada _ como para lhe recolher toda a caricia. ' e nenhum dos dois por algum tempo disse uma palavra. sem olhar o "\\ n -/ homem. depois. O que fora n'esta de gracioso. .8llo3 oo orguilrii o pnwir>ci . apprehensivo. uma face livida. O homem. com a mão preguiçosa. Maria recebeu d'aquellas mãos e d'aquella voz um fluido de ternura extranha e de bondade nunca s^n^?da. Foi um goso subtil. quéjJ&Bíp' jr\J/* prolongado indefinidamente. Ia por 4- " ^ <• ^ \ \. ^ sioneira. Milkau não espercKl^que ella falasse. Milkau entrou. sem mesmo a*levantar da soleira da porta.^ ^ Ella curvava humilhada a cabeça. tremia . l/flW*"%— Soffres jfòj<f>. d'onde espiavam scintillantes olhos em que dansava a loucura. que ella. tacte# ando-lhe levemente a cabeça. Enixe». de docemente feminino. tinha-se apagado.(õ^tou implorando misericórdia. o corredor da casa e apontou-lhe o quarto onde ella estava.v 308 CHANAAN . muito branca. E nos lábios da desIfrtJf^ graçada chegou a abotoar um sorriso. muito assustada com a apparição. e só restava uma triste carcassa. de seductor. mostrou-lhe d'alli. sorriso u/)^ infantil e humilde.

... . mas. dddil l/(y^~ inerte. Elles te perdoarão. Estás tão fraquinha.. ia surgindo a sua consciência ^^mf^^Âj^f'//Ê'gyyny*'~ j — Olha.. /Asubmissa.. confessando a sua terrível falta. p sobre os joelhos d'elle descançou muda. Para . Era a loucura em ti. Eu sei. -fcai*./JJn to. As lagrimas seçcaramMhe instantaneamente. e pouco a pouco.. a fronte.edfA/ emmaranhados e seccos. Instinctivamente hesitava em accusal-a... puxando para si a cabeça de Maria.. Tanta! H/fJ^f E sentou-se na uVjya' cadeira que havia no quar. isto vae acabar.. wk deixou affagar os cabellos tecidos. continuava Milkau. Milkau proseguia.. forão elles os responsáveis. Sim. Não.. Abandonada.. bem sei... Porque.< e direi aos outros que a culpa não é tua. sentia sobre o corpo a morna humidade das lagrimas/^ //l^ ym****-1 — E preciso cuidarès de ti. e doente.. Mas isto vae acabar....... que o não deixava premeditar nas palavras e nos gestos. Haverá piedade da tua sorte..iJ%a«i para o chão. /^^ÊL Terás ainda tanta felicidade n'este mundo...Jf<*./ > " * ' nimava. J/aÊ. á medida que falava.. Não te abandono... E ainda a felicidade. como um ninho dou* rado.. que levantar alli o espectro do crime ? E éÕffi se rea. Não eras tu.. ao poder mysterioso da bondade. — Soffres. Tu sahirás d'aqui.CHANAAN 309 deante arrebatado pela sympathia. Erguer o espirito. yym não lhe via a face voltada Ht^. Não é? são os mais culpados. -arrastado pela deliciosa anciã de confortar : — Foi n'um momento de allucinação. fe/r Maria estremeceu.

Assassina. Não me lembro bem...... Oh! meu Deus... disse Milkau. N'um impulso frenético de arrancara confissão de tudo saber. Meu Deus! E as mãos... é horrível! E os seus olhos pungentes e frios atravessavam os de Milkau.. sim. vae... .. E com o gesto incerto o expellia da sua vista...... ' — Sim. não quizeste (desgraçada que foste!) vêr o teu filho soffrer.. tu. — Desgraçada! Que te resta. vae.. Eu fico para «-salvar<affirmou Milkau obstinado. Não tenhas medo. vae. como tu. comprimiam como tenazes a cabeça. recuou para o fundo do estrado... — Não. A miserável ergueu a cabeça ef^qlhandá/firme. ora crispadas se torciam juntas n u m aperto.. — Eu? — Tu. emmudecéjdjl Agora era ella que falava.. espantado. ora. Não... Milkau H^ÀMp se perdia desvai radamente. — Vae... — Que tu mataste. — Eu me compadeço de ti. Elles não te perdoam.310 '-/ ç ... meu filho... Arrancaram-no de mim para o devorar. aterrada. — Não.. // CHANAAN perdida. murmurou arquejante.. — Não..... si me repelles.. Meu filho. pesadas.. não... — Meu filho. que.. querendo attrahil-a. — Não.. Elles te pedirão conta de teu próprio filho. confuso..

Vergonha.. — Não... disseste.. perseguida ? Porque ? Não confiavas em mim ? — Tinha medo. Fico. recomeçou elle com uma voz f]$/Ju Í0í. — Porque não me chamaste em teu soccorro. eu te peço por tudo que amas : dize-me que' estavas louca.. — Maria. anniquilado. — Deixe-me.. — Vergonha! E por isso... É para o teu bem... quero. 0 seu ^ C& espirito frágil debateu-se ainda para luctar.. — Quero saber. Has de me dizer tudo. quando te viste desamparada... tomado de uma tristeza infinita.. sentindo a enexgiiy ddd HJ ^ cisão com que foram ditas essas palavras.. aós pés do dominador.. deixe-me. E . A cólera de Milkau abrandara em presença d'esse desespero........ Calou-se pensativo.% Maria ficou acobardada..CHANAAN 311 — Assassina ! Meu filho ! Oh! Porque me vem perseguir na minha miséria? O h ! Deixe-me. mas apenas pairou um momento livre e logo cahiu vencido.. Dize-me. que não eras tu quando mataste teu filho. disse com uma voz imperceptível. insistia Milkau.. Deixe-me. Devo ficar. murmurava suffocada a pobre. A rapariga esperava submissa. — Natureza humana! Vergonha. . e humilhado m arrependia^do seu transporte inconsciente.

m fjfc*0fc 0. Pensei estar tão longe. Estes fragmentos de phrases eram bastante para aclarar o espirito de Milkau.... .... — Vem ! Escuta ! A essa voz. supplicou angustiado Milkau. Ella obedeceu. Pensei estar morrendo. illuminado de todüj /oV^.. eeu não matei ninguém..£ e mou.. (íurvóu-se outra vez so•. dócil e abandonada.. Elles te accusam. — E depois? — Ouvi ao meu lado a vozinha d'elle.. elles o carregaram. comendo. um roncar de porcos em roda de nós. responde. cheia de meiguice. teu filhinho?. e foram..312 CHANAAN por isso mataste teu filhinho.. e a espantosa scena se lhe representou exacta na imaginação 1 aguçada pela sympathia... miserável.. — Mas............ — E quem matou ?... Chorava ! Meu Deus! Depois... comendo.. fy/ ' — Nao nt Elles são máos. Uma vertigem te derrubou. os dois desgraçados foram recompondo tudo lugubremente : — T u te sentiste desfallecer. E então.. egues. ella se approxi. p bre os joelhos d'ellef i fsf^í na infecta e tenebrosa ^í?"'prisão. carinhoso e terno.. -ti— E os porcos. chamou-a a si... — Quando foi. gritou n'um feliz. j^. Anda. Depois..

CHANAAN 313 — Vieram.. Accusaram-te. r ao desamt imju<flad is-v isit. lia a/m lei... IS irdi qeixflvajn 18" _^_. — Chorava aos teus pés... rica d | 4 * emoção e de bemaventurada ingenuidade. Não te escutaram..... [desgraçada... O sangue corria.. prenderam-te.. pxfsioneixaf... Que me resta ? — A innocencia.. Fazia-1. -j^encaim^Y -*£5~' tava-*em sondar essa alma primitiva. .. ficava17***»-^?#k deliciosamente esquecida do próprio infoFfunio| / ^ u T'r> Por sua vez. Desde aquelle momento á vida de Milkau Jfs\ transformoii.. * • * * . amaldiçoada. — Arrebataram-na. vendo-a diariamente. — Meu filho! — Tu despertaste e viste ao longe teu filho ensangüentado. Fala.. "• — E agora.. á doçura do amigo.. — A creança. — E os porcos. $yóÚL L/ fala. presa á voz. aos pedaços.. Todas as forças do seu cc ração votou-as á defesa e salvação de Maria. — Meu filho! — Perguntaram-te por elle.de ndvo. elle..... Nàfl^-^^jSb... nos dentes dos porcos... a creança.... 7>*4Y-cSY?e* . px sioiiei daãd de entr IU1Í [aria / chegou a se *1? sentir feliz na sua misérjr Longos momentos ha ")^f via em que.

Forma/' ram-se alli.. á mulher que! y/f ' lhe matara o filho. Tudo ella ouvia com sofreguidão. balan. sumir. narrava-lhe sempre as suas viagens. lia-lhe ijy poemas. Acreditou-se que era elle o amante de Maria. e I um ódio collectivo não poupava d homem. e a sua vida de peregrino no mundo. a passarem sinistros para se \ mergulhar.J çados pelos ventos.314 CHANAAN conversas. seu correspondente para os fornecimentos da colônia. Ora. sempre atraz. no mar. depois com rancor. acompanhando fielmente os casos por elle praticados ou conhecidos. onde ha fome. IJ^Kíiu ^acompanhavam d/M extranha conducta. e brancos navios avolumados na phos\ phorescencia da noite. Ora.. como sombra. como se formariam em qualquer parte do mundo. I .. Ora. arrastados pelas tempestades. *~—N Na cidade. Milkau começou a ser notado. Todos o evitavam..\ pela lua. erravam nas pequenas cidades do Rheno e resuscitavam lendas. E ella. ^ E ainda no mar glacial. Outras vezes. que se fíl dd' * J r a v a a m < ^ a ' talvez como cúmplice.. engulidos pela treva insondavel.. subiam aos Alpes gelados e guardavam nas pupüjas as cores maravilhosas do sol a morrer. vj. sempre o seguindo.. as mais indignas conjecturas.. não contava.. era tratado com desdém. em casa de Roberto Schultz./a principio com curiosidade..... de que ella não percebia bem o sentido. esclarecido vagamente . nas grandes cidades tumultuosas sem piedade. 1 f bifa 4"*rgV .. Ora. sem saber porque. fydt 6n_ m a s a c u j a mysteriosa musica ^ f e t ó ^ c h o r a n d o ~fom&c*y» perdidamente.

na sua força. mudo.a ser o inimigo commum.. era o companheiro de Milkau nos )asseios e com inquietação amiga observava-lhe os silêncios profundos.. Dias depois Felicissimo chegou ao Cachoeira e . irticipava do preconceito da cidade... De volta de uma d'essas caladas excursões. O agrimensor.<a-~ phar branco. Milkau commovido.** precipitouTno encalço. Ao longe ella se foi perdendo. As portas das lojas e nas calçadas a gente do logar e os tropeiros e colonos do centro seguiam pasmados um grupo. Depois da primeira audiência seguiram-se outras. deixou passar aquella visão que lhe parecia o phantasma da Innocencia levada para o martyrio. e na boccauhe\morri/Jüm nenu. jfê. para o Juizo. que passava.. apagando-se. entraram uma manhã na cidade e viram um movimento desacostumado na rua principal. os olhos postos no chão tinham grinaldas roxas. a isso. . E assim.resignou..» alojou-^ho mesmo hotel em que ffdwf Milkau. /y/fl/t/id**/ O cearense. Era Maria. que ia responder ao processo. gelado. • soldados. na sua superioridade axno-df/f**^ rasa. ladeada dos dois .. e á claridade do dia a sua lividez era cadaverica. compadecido.p>*h CHANAAN 315 fMíylMtí. ^ W ^ ///Wb*re\ transfigurada. passeiava solitário pelos arredores do po-' voado. repellido pelos jtuiyMy quando não ia á cadeia. e. humido. com a sua Índole franca e bondosa. Milkau abandonou Felicissimo e . não procurou detel-o.

o filhi- . Milkau 9*.. Maciel s* entretinha^muito á vontade com elle. pelo soffrimento augusto. Quando estava deante de outro homem. Os dias d'essa acabrunhadora vida no Porto do m .. '. depois de acabado o trabalho. que tratava sempre com sympathia e ás vezes com respeito. com uma inútil cordura. A persistência de Milkau tornava-o um familiar das audiências e. <Myi$ftf voltando da cadeia.316 CHANAAN a que Milkau não faltava.Cachoeira $7/fôí ffcdzfijtfftjfàt sem alteração para ú****''4' Milkau. de família. Milkau achava o juiz municipal uma esplendida natureza e o ia estimando. uma tarde. dirigindo desprevenido e intelligente o processo. A trama estava bem tecida e fatalmente a accusada não poderia rompel-a. ffJe/J^J encontrou Felicissimo muito sobresaltado. Apenas via um ser egual. As testemunhas depunham contestes contra Maria. — Uma desgraça. Não era seguramente a posição do magistrado que o attrahia.. esse homem lhe inspirava tal sentimento. Pedro Maciel era o juiz da instrucção.imaginava"no deserto. pela sadia intelligencia. de fortuna. — Que desgraça! que desgraça! foi lhe dizendo abrupto o cearense. — Que foi? perguntou Milkau interessado. Por seu lado. quando. o seu espirito eliminava todas as separações que vêm da sociedade e instinctivamente não conhecia as vãs distincções de posição. O pequenino Fritz. pela superioridade moral. de raça. muitas vezes.

Quando chegaram. e o cabra sentia-se 18. o esmagamento tinha sido no thorax. Os pães lh'a confiavam a passeio.. invadindo com a familiaridade da compaixão o aposento onde. Fui chamar o medico. Milkau voltou-se e fitou Joca. Pelos cantos da boquinha escarlate sahiam espumas de sangue. O pae vagava a tremer pela sala. a creança morria. de animal. mais abaixo. a casa estava em alvoroço. — Pobre creança! gemeu Milkau. estrebuxando. de tão dilatadas.vinha á cidade. . atordoado com o desastre. Ouviam-se lamentos e choros em roda. — Que horror! Pobresinho! E onde está? — Alli. A cabeça estava intacta. A mãe ainda joven debruçava-se sobre ella.CHANAAN 317 nho de Otto Bauer acaba de ser esmagado por um barril de vinho no armazém do pae. O pequeno Fritz agitava de vez em quando os bracinhos. confusa. parecia não lhes caberem mais. n'uma dôr sombria. E atraz d'elle uma voz lhe pediu : — Veja se dá um remédio para a salvação. Este tinha o ar trágico de um satyro em dôr. e volto para lá. Os olhos azues « r arregalavam" desmedidos e as pupillas immensas. A noticia se tinha espalhado e muita gente apiedada viera agglomerar-se ahi. devorando-a com os olhos. deitada em uma mesa. Em casa d'elles. não duvidando da morte. A creança era o carinho do tropeiro quando eààe. — Vamos.. entregavam-na aos seus desvelos quasi maternaes. apontou Felicissimo.

baro molhada de lagrimas. » vendo aquella face de homem primitivo e barf I /. sacudindo a cabeça. Na vigília da noite eram todos os que guardavam o cadaverzinho. quasi extincta. a bisavó do pequenino. muito silenciosos. jtAíy frouxa claridade das velas mortuarias éa. a physionomia serenou. De fora $$fjd pelas janel-tu. Era uma bella mulher. de uma transparência vitrea. incorporea. morreu o pequeno Fritz. tomando uma expressão socegada e feliz.. E.. com o cuidado de uma ama.-u> Ias abertas o doloroso mugido da cachoeira.318 CHANAAN desvanecido... Milkau ficou sensibilisado. quando o trazia nos braços de loja em loja ou quando lhe dava. a vida só nos olhinhos limpos e de uma scintillação . desenhava'fugitivamente o vulto de uma velhinha. fez com auxilio do tropeiro alguns curaf^ tivos. A mãe de Fritz também fechou os yy oLl/ja. Não ha mais nada.divagando em scismas. O medico não tardou. a mão na rua para ir ensaiando os passinhos vacillantes. de uma cabelleira farta . sinistra. Depois. murmurou : — Era o que se podia fazer. Viu o que estava praticado e.. e/sem a menor espef ^ I rança. feliz. nas tenebrosas torturas da meningite... olhos e o somno lhe foi vitelo ao tempo que a respiração offegante moderava e as cores ruIIjiji b r a s das faces inchadas se iam dddddndo até uma </&s"r*JU' pallidez absoluta. Pouco a pouco o silencio em que estavam e a fadiga do coração foi ddvfwdifHfid e adormecendo a quasi todos. IJ^yr 7.

quando olhava o mortosinho.. E' a dôr deante do inacabado.CHANAAN 319 e negra. Tudo n'ella //*&«*-„ exprimia saúde e força. família catholica «agdapanlava. exaltar as deusas.... de muito longe. E os que morrem sem ter vivido. No canto da sala uma imagem de Nossa Senhora.A.. Elle estava também esmagado e abatido. fffjfyijp uma pungente dd^J/Ke^ tortura vendo essa mãe bonita e moça dormindo a sorrir.y. E Milkau reflectia deante do admirável symbolojXiínhaa impressão de que todo o culto se ia restringindo em torno da Virgem Maria. presidia a morte. scismava : — E' dolorosa ainda mais do que as outras a morte de uma creança.. dos templos onde passara e onde sempre os altares d'Ella attrahiam mais os corações das gentes. do que nos ia completar. não estava agora em plena culminância no culto de Maria. do apenas ensaiado. ¥~- /tW^" . os que foram apenas esboços da existência. ™ u oda a noite passou Milkau a confortar a família. mesmo os'do Christo. uma hospeda extranha e importuna. Não viver. . illuminada por uma lâmpada.. Os que ainda l*df* /&w alerta a contemplavam. as santas.// dj/jjídhfdMfo os outros.. ficavam ffll **/Tj quasi desertos. E. E CL^T essa tendência universal para divinisar. e a dôr IM \jdfcfflmyy $$fd como como y y y. E porque ? Talvez pela maior con. yztTl formidade entre o gênero humano e a mulher.. não vinha acaso de longe.. que ia insensivelmentetí/J f//^ íÁdddyabsorvendo todos os outros?..íembrava-se das cathedraes. voltada para o filho morto. com um perfil delicado e fino... fUvédmr^ii.

No outro dia foi o enterro. ruidosa. porque ahi morre uma illusão nossa. como nos enterros de anjos. os armazéns também-cessaram o trabalho e de todas as casas e lojas vinha gente encorporar-se ao enterro. participava de um mesmo pezar.. mesmo os inimigos e competidores do l//' ~fé/T.P a e ^ e Fritz. em viagem para o céo. em que o povo vinha sorumbatico e lugubre.s auctondades brasileiras ssaasaj». puxava o prestito. 1 u e t r a z i a m flôres^jtó^ídy^íd^ coj / Jf. Uma banda ' de musica alegre. desenroi lando-se pela rua principal do povoado. ~^ A manhã era límpida. que não perdoava^ao extrangeiro nem// ira/t* /mesmo nad^s^raça/Eji maTcha iã^n^ssaTnistura de amargura. excepto Bre. Quando morre uma creança. tornando a tristeza collectiva. alongando o cortejo. a m i r a r a / Z i£ j —/ Wyddjdo o seu amado menino vestido de m a r i / ZT^ nheiro e embarcado como n u m brinco infantil n'aquella gondolasinha dourada e vermelha. o enterro . estava Joca. Entre os \ /«. Quando deixou a rua á margem do rio. ruido e musica alegre.. Foi um luto geral na povoação espantada com a catastrophe : às escolas «ç fecharam-^e grupos de meninos vestidos de branco se enfileiraram. lavada e azul. nós também morremos um pouco n'ella. n'uma espontânea unidade de sentimentos. Toda a gente da cidade.I /(z^r^fj derodes.320 CHANAAN deixam-nos uma piedade torturante. que carregavam o esquife.

Lá. agarrada ás grades. ficara hirta. y/J / noe/ sentiu uma íifyf-í claridade n'alma com aquellas 11/ **** caricias do som ímmortal. attraJ/IH^if^ hida !>(/>/JJjifóf. que tudo ignorava.. cavernosas... A colônia passava. Com • o rosto descomposto. veiu á grade e il poz-^a mirar. Os mais. ia ouvindo. confundidas na harmonia dos sons. Ainda alli na morte passava o triumpho. outras vozes abafadas.. levado pela musica macabra do resfolegar dos porcos... Vinham de longe. títiM marcial e solemne. tomado de uma compaixão infinita. Ella ouvia agora. què ficava perto do cemitério. a victoria da força e da felicidade. E Maria. na sua sensibilidade desvairada. e Maria.. E despercebida. mas tão persistentes.. desviavam-se da figura n infernal da desgraçada. Maria If-jy^" t espreitava. . o seu olhar de allucinada sahia violento "%•' pelas grades da prisão e repousava ardente no morto. Da multidão. tão terríveis que dominavam os cantos dos instrumentos.CHANAAN 321 tomou a direcção da cadeia.. apavorados e rancorosos.. só Milkau olhava para ella. n u m a contorsão. unida *&*" na piedade como no ódio. do desconhecido... a bocca •' cerrada. os cabellos pendentes. ia vendo o enterro do próprio filho... á prisão chegou primeiro matinal e alviçareira a musica.. O yjfjn enterro dmlU....

Ad^ttt^cúj ifcara Maciel. — Meu amigo. depois das audiências do processo. a amizade se ia formando entre elles. Apenas lhe explicdjque. que se sentia separado /de todos d'aquella terra.X Paulo Maciel. tinham o perfume da liberdade. e jamais. — Não vejo meio de evitar um máo desenlace ao processo. depois que o doce veneno da duvida lhe corrompera a alma. agora. logo que se encerraram no escriptorio. respondendo a uma pergunta de Milkau. esses momentos eram sagrados. disse o magistrado. — Como ? Está convencido da culpa de Maria Perutz ? perguntou Milkau inquieto. pelos depoi0_/ . dignas de homens. não estou convencido de coisa alguma. sjgdaaatast». arrastava Milkau diariamente á sua casa e em longas e nobres palestras. fora elle tão feliz e fecundo.

porque não se trata de raros eclypses de justiça. Que exprimem as minhas sentenças sobre a verdade dos factos ? Nada. encontra no nosso systema de justiça.. Mas é inútil. Olhe. — No mundo inteiro a justiça é uma illusão. Digo-lhe isto eu. concluiu. f — A quem o diz ? E' sempre assim entre nós : não ha um processo em que se possa fazer justiça. . O processo é feito de tal maneira que tudo vae em perigo. não ha lei.. que sou juiz. — Mas no Brasil a situação é ainda peior. — Um paiz sem justiça não é um paiz habitavel. interrompeu Milkau. é uma agglomeração de bárbaros. si aqui um homem entender m apossaria propriedade de outro. è a condemnação.CHANAAN 323 mentos. E si esse homem é um potentado. ninguém o pôde embaraçar.... affirmou Maciel no seu pendor para generalisar. a pronuncia é fatal... continuava. no modo por que se faz o processo. — No Brasil. apoio para a sua intenção. quando recebo uns autos. foram industriadas para essa desgraçada -conclusão.. Não pense que não desejaria reagir. — Mas as testemunhas. cortou Milkau.. Nem eu mesmo. e ninguém está garantido. ha n'elles tal tecido de mentiras que tenho de capitular E' de desesperar.. pela prova dada. não é ? — E' horrível!. vêm insinuadas.

dos Estados Unidos. si aqui dentro estamos na desordem e no desespero? O que se dá no paiz é uma verdadeira crise do caracter. Como poderemos nós subsistir desta fôrma em que vamos ? Onde a base moral para mantermos a nossa independência no exterior. a nossa virtude social ? Nem mesmo a bravura. — Virão. não é" nada. — De onde ? — De toda a parte. explicou Milkau. — Não creio. e de um modo superior. não ha um fundo moral commum. Onde está.. repito. mudando de ponto de vista. Os urubus ahi vêm. da Europa... A valentia aqui é um . nós a temos com equilíbrio e constância. — SiVn.. sem dizer nada. mas hoje está tudo acabado. ficou pensativo. assegurou Milkau. Posso accrescentar mesmo : não ha dois brasileiras eguaes. — Um caracter de raça. aqui já houve. de desabafo.talvez uma apparencia de liberdade e de justiça. E' a conquista. que chamamos nação. — Isso.. sobre cada um de nós seria futil erguer o quadro de virtudes e defeitos da communhão. Não ha uma virtude fundamental. meu amigo..324 CHANAAN Milkau.. a raça não se distingue pela persistência de uma virtude conservadora.. ouvindo o joven magistrado que proseguia n u m impulso de confissão. Aqui. que é a mais rudimentar e instinctiva. E' um cadáver que se decompõe este pobre Brasil.

Veja as nossas guerras. E a falta de homogeneidade será talvez a maior causa deste desequilíbrio. tão hystericamente. — Não ha duvida. ve tempo em que se proclamava r a nossa ade. Note que os poucos patriotas que temos./que ha profunda disparidade entre as varias camadas da população. indicio da perda precoce de um sentimento que se devia casar com o estado atrazado de nossa cultura. de sangue. aqui.expressão d'uma larga e generosa philosophia. O aspecto da sociedade brasileira é uma singular physionomia de E 19 . são ainda homens de ódios. como levado a tristes recordações. ponderou Milkau. desbruçando-se um pouco sobre a mesa. ha\um cosmopolismo dissolvente. como familP' somos tão máos. — Repare o que se passa com o patriotismo./ CHANAAN 325 nes pulso nervoso. interessado n'esta analyse franca de Maciel. de ita cobardia nos enchem a lembrança!. a nossa bondade.. mas simples symptoma de inércia moral. compadecido das torturas d'aquella alma ' de brasileiro. replicou a este n'um tom mais decisivo e Vibrante : — Tem razão.. O juiz reflectiu e. voltado para Milkau. 'í... No Brasil a grande massa da população não tem esse sentimento. / Calou-se. não que seja a ^.. fitava-o com immensa sympathia. Collectivamente. desta instabilidade.. /Milkau. proseguiu depois Maciel. inutild o s y t e máos!. emfim logicamente selvagens.

gentes. invadia o aposento.despontam para o mundo. Si a sociedade é urna obra de suggestão. Levantou-se muito nervoso. tudo n u m declive em que se vão resvalando. mansa e suave. ás coisas superiores. E Maciel voltou-se: f . A correntes da immoralidade vagueam sobvda. que se pôde esperar dos sentimentos. emquanto a claridade da tarde. sociedade e não encontram resistência \ de nenhuma instituição. A decadência a. encheu-lhe os ouvidos de louvores á natureza. Milkau. sem se mover do seu logar. horrivelmente deformados... Uma tal nação está pxcÇ \ rada para receber o peior dos males que pôde cahir sobre o mundo: a geração dos governos arbitrários e despoticos. ao ideal. quando a imaginação d'ellas é deslumbrada pejlo espectaculo da mais desbragada perversão <ljgs governantes ? Que reacções sobre cérebros obscuros não provocará o desamor d'esses conductores das. e seu apego ás posições e ao ganho? E não é só o governo. são os funccionarios. os militares. r é um mixto doloroso de selvageria dospovos q$ç •d H.326 CHANAAN decrepitude e de infantilidade. e do eáfgommento â/> I I raças acabadas. E'a magistratura subserviente e apparelhada para explorar os restos da fortuna priva-la. da idealisação das massas incultas. o clero. e poz-se a mirar absorto e vago a cachoeira. abriu a janella que dava para o rio. Ha uma confusão geral.

Ao menos. é também um pouco uma questão de perspectiva. A Europa! Sim.. Milkau falou-lhe com brandura. ficou repentinamente mudo.. Por outro lado. Quando estamos dentro d'elles. tudo . ao menos até passar a crise. A família vae sendo demolida pela força imperiosa dos vícios. Maciel (seNcontevj com esforço. — Não quero diminuir. e com os meus ir viver tranquillo n'um canto da Europa... tudo se mostra grandioso ou ridículo. Mas lembre-se de que não ha sociedade sem abalos.. O clima. E quando ia seijdo arrebatado pela expansão dos seus mais Íntimos anceios. murmurou n'um desalento : — O meu desejo é largar tudo isto. temos a benignidadedacalmaeatranquillidade da família. esse terror que nos vem dos acontecimentos presentes.. tudo está sempre em crise. Parou. tando com os olhos vermelhos e humidos o extrangeiro.. a exactidão dos seus conceitos.. A peste se apodera do corpo miserável da nação..CHANAAN 327 — Ainda é uma vantagem viver-se na roça nesta hora tenebrosa.. que não ha nada fixo e eterno : tudo vae de passagem.. procurando perpétuas e incessantes combinações de ser. e como resumindo todas as suas decepções e anhelos. E por quanto tempo. campos desertos d'aquelle coração. expatriar-me.. A Europa. e as palavras cahiam frescas e consoladoras sobre os. Ou melhor. não sei. disse elle. abandonar o paiz. terrível e formidável.

parecem normaes e suaves. porém depois que o atravessamos e o olhamos de longe. desde dois séculos estes luctavam por vencer aquelles. yid^r 328 JAAN CHANAAN í parece ir acabarn'umadesâggregaçãoirremediável. sob a fôrma de senhores e escravos.. como uma engenhosa e \ admirável expressão dos melhores tempos\ que são sempre os passados.. no meio das ondas e dos ventos : o espectaculo do oceano enche-nos a alma de terror. mas no futuro elles minguam á força de distancia.. Todas as revoluções da historia brasileira têm a significação de uma lucta de classe. replicou. — E' natural. Deixa que lhe /aça uma imagem ? E' assim como si estivéssemos no mar. E isso se manteria assim por muitos séculos. de dominados contra dominadores. tornando-se subitamente jovial. si a forte e imperiosa sensualidade dos conquistadores não se encarregasse de demolir os muros da separaç ã o ^ não formasse essa raça intermediária de mes- . é "ella conseqüência da primitiva formação do paiz.. as ondulações das vagas são como um leve sorriso.. festejando a metaphora. \e nós começamos a louval-os. w ^ . mas aqui se passa uma verdadeira tormenta. e não podia ser de outro modo. Do que tenho observado e adivinhado um pouco. — Muito bem. Desde o principio houve vencedores e vencidos. O povo brasileiro foi por longos annos apenas uma expressão nominal de um conjuncto de raças e castas separadas. E Maciel também sorriu.

Reparemos que Pantoja não é um caso isolado. afflrmou Milkau. Equando o exercito deixou de ser uma casta de brancos e passou a ser dominado pelos mestiços. Está ahi a explicação do triumpho e do prestigio do nosso " Maracajá *' — É o representativo. d'elles.... que se conformando melhor com a natureza. Era preciso esse choque do inconsciente para se fazer o que se buscava desde séculos por outros meios : a nacionalidade. que é o laço. Perfeito.. foi ganhando os pontos de defesa dos seus oppressores.. pela sua própria força de gravidade. Os que tendem a nos governar. e depois.. a liga nacional. Era preciso formar-se do conflicto de nossas espécies humanas um typo de mestiço. e que nos governam com melhor acceitação e êxito. também gracejando. emfim. augmentando cada dia.. commentou o juiz.CHANAAN 329 ticos e mulatos.. com o ambiente physico.. e sendo a expressão das qualidades médias de todos. e que.. que fundaram desde logo instituições destinadas a permanecer algum tempo. ^/ Paulo Maciel 0 deteveriam momento. a revolta não foi mais do que a desforra dos opprimidos. fosse o vencedor e eliminasse os extremos geradores. n'uma harmonia momentânea com os instinctos psychologicos que as crearam. O Brasil é. são desse mesmo typo de mulatos. . •— Bravo! applaudiu Maciel. — Vejo bem que é isso mesmo.

A crise da cultura aqui é motivada pela divergência dos estados de civilisação das varias classes do povo. Todos os nacionaes que alli dominavam. sahiam fatalmente do núcleo da fusão das raças. isto . Isto não se pôde concluir dos meus pensamentos. vencido pelos outros. não ha salvação possível para o nosso caso... é uma incapacidade de raça para a civilisação. meu amigo.. disse Maciel negligentemente .. com certeza não estaria aqui a lamentar:?: O equilíbrio com o paiz seria então definitivo. toda a trama da historia é um processo de fusão : só as raças estacionadas. Si eu tivesse algumas gottas de sangue africano... representou-se no espirito de Milkau como um resumo bem claro de todo o paiz. Tinha razão ? Faltava-lhe a gotta de sangue negro para que tudo n'elle se equilibrasse ? — Vê.. — Oh! não.. Não são os donos da terra?. Não ha raças capazes ou incapazes de civilisação. E' fatal. tangido pelo escrivão.330 CHANAAN emquanto olhava para as mãos brancas e longas. Porque não nasci mulato?. Brederodes.. como dolorosamente já se está fazendo. Pantoja... estes não marcham firmes e seguros?.. E preciso um pouco mais de identificação. era anniquilado. emquanto aquelle joven de uma intelligencia mais fina.. O pequeno mundo da colônia. de uma sensibilidade maior e mais distincta. continuou com um sorriso irônico : — Não ha duvida..

ella está no/ . Nada mais pôde embaraçar o seu vôo. sejam brancas ou negras. de vida. as vossas cançadas almas. a civilisação não teria caminhado no mundo. porque nada passa inutilmente na terra. essa Europa também soffre do mal que desaggrega e mata. E no futuro remoto. para voltar a edade dos novos brancos vindos da recente invasão. Não vos deixeis deslumbrar pela e^haustapompa da sua civilisação.. nem a côr da pelle. as que se não fundem com outras. a cultura se fará regularmente sobre esse mesmo fundo de população mestiça. de arte. de cultura. cobiçosas de felicidade..CHANAAN 331 é. pela força inútil dos seus exércitos. E no Brasil. suspirou Maciel. para onde d'aqui se voltam os vossos longos olhos de sonhadores e moribundos. se mantém no estado selvagem. porque já houve o toque divino da fusão creadora. — O paiz será branco em breve. quando fôr conquistado pelas armas da Europa. Como vós. E Milkau disse ao brasileiro : — Essa Europa. Si não tivesse havido a fatal mistura de povos mais adeantados com populações atrazadas. pelo lustre perigoso do seu gênio. Não a temaes nem a invejeis. a epocha dos mulatos passará. acceitando com reconhecimento o patrimônio dos seus predecessores mestiços. que terão edificado alguma coisa. nem a aspereza dos cabellos. fique certo.

não é o sonhado mundo que se renova todos os dias. diz servidão e fjj***'. não ha tranquillidade no goso. sempre bello.332 CHANAAN desespero... Está vacillante. O espirito que morreu. como si estivesse para morrer.. e quem diz auctoridade diz posse. que amedrontava no passado os espíritos. devorada de separações. Tudo/que se apresenta á flor da vida não ' corresponde mais aos fundamentos da Vida. nascidas de fontes impuras para matar a liberdade fecunda.. e nem pratica a maravilhosa justiça que vae chegar amanhã para dar a todos o que é de todos. Por ellas tudo se baralha. sem cuidar dos que vêm surgindo após. sempre joven. toda a humanidade parece sem raizes na terra. n'esse momento indeciso em que não teme mais a justiça vingadora e posthuma.. os governantes armam homens contra homens e entretêm-lhes os ances/ traes appetites de lobos com a pilhagem de outras Io nações. « Nada corresponde ao Tempo. passando.. P o r í ^ f leis os povos chegaram a / W ^ esse excesso de grandeza que é o primeiro toque da decadência. inquieta. quando ao vosso lado sempre alguém morre de fome. Não ha calma para a consciência. As leis. Ainda alli se combate a velha e tremenda batalha entre senhores e escravos.. consumida de ódio. não exprimem o novo direito.destruição. E ainda para manter taes ruinas. ainda anima debilmente o mundo. são o escudo perturbador do governo e da riqueza. E' uma sociedade que acaba.. As .

. Que o exercito. — É o primeiro passo e um grande bem.. a poesia volta-se para o passado e a sua lingua subtil. o governo. ella se despedaçará. nem a alma do momento.CHANAAN 333 raças deixaram de ser guerreiras e ainda se armam. E por tudo isto que eiilanguesce e definha. e que são as forças redemptoras da sciencia. tudo vence. caia nas mãos dos que julgam taes instituições como instrumentos do mal. .. mysteriosas e santas.. Não a temaes. o parlamento. como o bafo sagrado das divindades do futuro. fina e mesquinha. antes que se erga contra vós. sem seiva nem vigor. da intelligencia. E já as posições vão sendo tomadas insensivelmente pelos que as desprezam. n'uma voz imperceptível. não é a lamina poderosa e refulgente onde se reflecte a imagem dos novos homens. — E' um grande mal. do ódio e do amor e de mil outras potências ainda incógnitas.. da industria. Os povos abandonaram a religião e conservam os templos e o sacerdócio. que vos não pôde escravisar. a universidade e tudo mais que deva finar. tirando a força ao homem e a bondade ao leite da mulher. da arte.. a diplomacia. a magistratura. Não longe. passa o veneno sensual. mórbido e pérfido. um sopro de vento os reduzirá a pó. pois como a essas figuras carbonisadas desentranhadas da terra do passado.. disse involuntariamente Maciel. crea19. os seus exércitos não se poderão mover. o sopro bemfazejo que tudo invade. A arte não exprime a vida..

. scismava em tudo o que acabava de entrever deliciosamente. ficando só. n'esse mundo a transfigurar-se. grosseiras ou ridículas.. entrou o Brasil para soffrer comnosco os mesmos sacrifícios.. n'essas ancias para novas e mais bellas expressões da vida... Já ninguém aqui se entende.iSA CHANAAN ções. e não tarda que eu mesmo seja extranho a tudo e nada mais sinta de commum com aquelles que são os homens de minha terra. Então os exércitos não marcharão. este amor de mulher que me conforta. mais funda que apparente. n'essa esperança luminosa e feiticeira. O domínio do vencedor d'essas luctas inferiores será instantâneo. e conduzem ao mesmo resultado n'este systema planetário. e esta .. — Si taes conseqüências resultarem. n'uma semelhança de destino. O que me resta é ainda este socego da família. — Não será a conquista fatal do paiz. serão tão fugazes e passageiras que não devemos d'ellas cogitar. onde. as atribulações do momento venciam-no — Tudo desmorona em torno de mim. Quando Milkau partiu.. as mesmas transformações e. apesar do deslumbramento da visão. E. onde isto primeiro se dér ? arriscou o joven brasileiro. o juiz... destacando-se da nebulosa inicial. porque aquellas forças da resurreicão se communicam invisíveis entre os > homens do nosso grupo de cultura. sonhar os mesmos sonhos.

pÀe d Àpapmnd a figura em desordem de ffl/ffl ujpa/^rearíça. éter.^c*"-*''* dados. como tinha por habito todos os dias antes do jantar. arrancando o marido das scismas em que estava. / * * T £ . /'/Jt/nÂ* wh. e pela testa corria um suor gelado. doentia e diaphana. A pallidez brasileira.. . recolheu-lhe anciosa o corpinho. a mulher de Paulo Maciel entrou ahi discretamente. tre. foi-se reclinando suavemente ddM elle.olhando-a sem vêr.lffry*s.ímÍM^í 4nf4iM4d^^A%AWs^> V^ r e g #í/TW/#/W W *** ° rndüâ inyap.CHANAAN 335 creança que nos rejuvenesce. afflicta e estupefacta. uma doce e infinda conversação. Maciel. foi em sussurro entretecendo com a companheira. acalmou-se. emquanto lá fora tudo vae desabando.fff d** "finamente fascinado por ella. Vibrando. ^^x**^'fi***i .^AT mora esquecido de suas devastadoras angustias e^y^ débeis revoltas. Tyldlziy. mia-lhe o narizinho. avançando e estendendo-lhes em silencio os braços cheios de ternura mysteriosa. Não ouvindo mais rumor de conversa no escriptorio do marido. . Cahiu J^y^u^ nos braços da senhora. dilatava-lhe os olhos negros e faiscantes. Sentou-se no seu logar de retiro e d'ahi. magra e ainda muito joven. /rf^oeé/ E tudofoiumatfétídfAl casta e subtil. oc**<+*l* — Gloria! Gloria! murmurou. Era esbelta. como em fios de brando e macio cabello de mulher. abafada : %*yd& — Mamãe! <*/*&Esta. as faces vivas e accesas. os cabellos vinham deban. A noite vinha vindo. e sem de.

£*. correndo n'uma gargalhada de triumpho. um episódio da rua.336 CHANAAN O marido achegou-se a ella. dm/ÂdJ^dví coxneçou a expli'itfiu*/ car a angustia da menina.*_ . Algumas mulheres do bando ///$YJ//A****r /avam com mãos descarnadas apossar-se das jóia* da menina. a creança. mas á sua energia tonta correspondera uma vozeria desbragada. A creança encarou-o indecisa. e uma mais ousada beijou-lhe o rostoi "Femquanto forçava por tirar-lhe a pulseira. partiram desvairadas para a casa. sorrindo d'aquelles sustos. Mal puderam escapar. e Gloria. no meio de imprecações de fúria. como uma reacção de alento. Si não fosse a intervenção de dois homens que passavam. tentou disfarçar o acontecimento. e tomando-lhe umas das mãos. Esta palavra foi dita varonilmente e trouxe lagrimas á mulher. reconstituindo com largos gestos e grandes vozes. beijou a creança. A criada defendera Gloria. Durante a narração. para diminuir nesta o natural e invencível horror aos pobres. Paulo Maciel. enterrou mais a cabeça no collo onde se agasalhára. N'este momento entrou no 'ft ccrn> aposento a criada. — Soceguem. *"'/! r*~¥> %-'~r~£r«é r± 1 •*^*fr í V'-? ^ . a lucta não se terminaria logo. Passeavam ambas. a moça segurava a menina pela cabeça. beijando-lhe freqüentemente os amortecidos olhos de somnambula. quando 1L uns immigrantes mendigos-ac acercararrrj]J«lki. / pedindo esmola. repellindo o grupo com o chapéo de sol. o filho arrancou-lhe o laço de fita. quasi n'uma algazarra.

as perturbações. um soluço hysterico. pois já aos cinco annos uma precoce e mórbida phantasia era-lhe doença d'alma. inconsciente.CHANAAN 337 O medo lhe.. Levantou a cabeça. Vxojldfifji^i distrahil-a e desviar para coisas alegres e diversas a sua attenção. Moveu os lábios como quem ia falar. que tentava inutilmente adormecel-a. segurando-se á senhora. mamãe! Depois. em súbita transformação de allivio. e apenas como recurso lançavam-se ao argumento que nunca tráe. e abrigal-a mais e envolvel-a com os braços. £U. que foram então arquejantes. rudimentar. davj^lo justo sentimento do real. a sua voz. e tornava vãs as palavras. M-^~ IjJ Cj m dT ' . outro. beijos.. a quem não sobrava regaço para occultal-a. e os dois esperaram. elles paravam. melancólico. maternalmente. Os éidd sentidos sahiam do pesadelo n'uma dolorida expressão de susto e de fadiga. — Tenho medo. scismavam. que traduzia uma mansa agonia. primitivas ou infantis. como num remanso. A invenção djdf éMM0f( não foi feliz e fértil naquelle momento. e só a menina de vez em quando tremia. Êr^Zfei ^ J. ás idéas lhes fugiam. succedendo uma modorra interrompida de instante e instante pelo crispar de suas garrasinhas aferradas aos pulsos da senhora. A grande calma do crepúsculo aquietava-lhes. mais outro. fitou os outros com um sorriso leve. perdidamente. a indizivel tristeza das almas rudes.

em êxtase. quando eu não podia mais... mas do pouco que comprehendeu. n'outra terra. e. obedecendo á intimação.338 CHANAAN — Ah! nós também fomos como elles. Porque. Ouviu-se um grande suspiro. Quedou-se um momento calada. Mas. Nós andávamos na rua toda a hora. ' . yyl^f 0t^ypaxecia yf/ojlj dias passados. Maciel que estava a ler. T— Sim. A sua physionomia transfigurava-se com essa jyy recordação.. você me carregava. A mulher de Maciel a principio não percebeu toda a extensão d'aquelle pensamento. Você se lembra d'aquelle chapéo que você tirou do menino na rua e me deu? Ih! correram atraz de nós. mamãe?. mamãe! murmurou Gloria. Os ^MdM scisma/ vam. voltada para a janella. mamãe. ficou aterrada. deixou cahir o livro. Aqui' não se treme. ha muito tempo. longe. que tolices são essas? Não fales n'isso. como que irresistivelmente: — Ah! que frio fazia lá. dormíamos na rua. A menina moveu para elle o rosto. mamãe ? Mas nós nos escondemos n'aquella casa 0rr** .. disse Maciel.Você se lembra quando a gente não tinha que comer e ia pedindo dinheiro ? Você me beliscava para eu chorar e me empurrava dentro das lojas para pedir comida. — Gloria.. e enfiou olhos agudos na menina. brandamente.. d'ahi a pouco.. não foi. papae me dava tanto. hein. não cáe neve..

voltou á senhora que es^ tava a chorar : —JVlamãe. Ella pagou-lhe com um beijo... papae ? — Dou. si não disseres mais tolices. tomou/aVao collo e mostrou-lhe uma estampa. como a imagem e a voz de um passado horrível. Voltaria á realidade o seu espirito desannuviado das nevoas que ° 1/ / edjjfham} pensou Maciel. E ainda assim.. Gloria! teve a moça forças de exclamar. A criada tardava em trazer a lâmpada. mamãe. tinham ares de monstros. boa para mim. Não era? Você não/ tinha vestido bonito. E posou Gloria no 0"*/™"' cnao com a gravura. — Que bonito! Não se conteve a creança. Eu não tinha boneca. Você tem tanto dinheiro..CHANAAN 339 escura. e eu fiquei com o chapéo bonito. não chore. á sombra que abafava os últimos clarões da luz.. Me dá. — Gloria. Não é. Maciel gosava um absurdo e requintado prazer intellectual n'aquellas tenebrosas visões da creança. Você não apanha.. não tintia criada. papae ? Fazia-se escuro. que resurgia em meio da felicidade. porém^pouco se /*/**r demorou em admiral-a.. No completo repouso da casa. não tinha dinheiro. como agora. não tinha anel!. ^pff!^ Paulo Maciel levantou-se convulso. A creança. nem cama! Andava suja.. — Você não era assim. a figura e as palavras de Gloria... que tirou precipitadamente do armário. Tinha uma pulseira que aquelle moço 11 .

fulminados pela sensação. gritou Gloria. Pensa que eu não vi? Agora a gente não tira mais de ninguém. quando papae foi preso pelos soldados. dizia que eu era filha d'elle. P a pae. cadê o homem que você quiz matar com aquella faca?. n'um grande . você disse que elle era tonto.. Havia dois annos.. Me dava dinheiro. aquella mulher contou tudo.. a Dulce.. amanhã.. mas eu queria era meu papae. Levantando os braços n'um immenso esforço de Y I n ( quem suspende algemas. De repente.. hein mamãe!. — O moço dormiu lá... A mulher de Paulo Maciel abraçou-se / elle como a um rochedo. — Mamãe também mordeu na rua a mão da menina para tirar o anel. você apanhou muito. Papae ficou zangado. Emilia. A sua caridade amorosa colhia os fructos amargos de Chanaan.340 CHANAAN deu.. voltou-se para a senhora : — Amanhã vou passear com o vestido côr de rosa ? Levo a boneca maior.. sim ? Murmurando umas desculpas. a criada penetrou no gabinete trazendo um candieiro acceso.. Paulo avançou esbotf-J çando no espaço gestos inúteis para tapar aquella bocca maldita e innocente. — Emilia. Eu vi.... olhavam correr a creança. Papae voltou. A pobre moça desalentada parecia vêr lagrimas no rosto do marido. partindo no seu encalço. Agarrados um ao outro.

uma existência de outros. um passado alheio. como um castigo... das cellulas obscuras e implacáveis d'ella. tinham aberto o coração aquella filha de uns immigrantes hespanhóes. . surgia-lhes.CHANAAN 3'il desespero de infecundidade. E. agora.

XI

A

•>/

I

Lentz vagava nas desertas margens do Rio Doce;
seu espirito, atormentado pela solidão, retrase comprimido deante da serenidade desesperadora da terra. Sobre elle o céo cavado e longínquo/
desdobrava-se sereno e luminoso, o sol abrasava
um mundo parado e morte;. Ia errante e perdido,
embebidos os olhos no que alli era a única vida,
nas águas vagarosas, desusando como alma expirante. A implacável belleza do silencio o exaltava,
e elle passava amaldiçoando a ímpassibilidade do
universo, que não.yestremecia nem se agitava fecundo aos seus pés sobrehumanos. Na conspiração da calma, da solidão, da luz, do esplendor, do
infinito, o espirito do homem delirava. E nesse delírio a memória apagava-lhe as origens da existência,
o passado não tinha sido ; e tudo, fôrmas deliciosas das coisas, água, que ainda se movia, arvores
silentes e concentradas, céos, sol, montes, nuvens,
l

CHANAAN

343

tudo era a expressão de vidas que se extinguiram, de seres que se agitaram cheios de alma, e
,
preparavam extaticos o leito admiravej para o l'-p~* \
pertar do primeiro homem. E a nova existen- '
cia das novas fôrmas ia começar...
ÍIM
.
se abriam seus olhos sem passado, virgens e pri— ^ ^ T * " ^
mitivos; mas o tédio de se vêr único, errante, desa- •2e^*y*
lentava-o, e immortal, e infinito, mergulhava o espirito no tempo immemorial, e tremia de tristeza.
E assim na região do silencio as ancias da creação
agitaram o homem forte. O principio da vida, o
impeto de repetir-se eternamente erguia-se n'elle,
supplice e imperioso. Lentz quiz que as suas forças
intimas e essenciaes, desaggregando-sej se fracciol
nassem em parcellas imponderáveis e invisíveis,
como partículas de luz, n u m a mysteriosa fecundação do Nada. Anceado, inquieto, doloroso, delirava... e uma illusão perversa descortinava a sua
imagem multiplicada em myriades de corpos formosos e serenos, como a geração de um deus.
Deliciou-se extasiado nos olhos da sua raça> nos
cabellos, nos membros e traços de gloria, em que
cada um resumia a belleza e a força do universo...
E tudo era bello, e tudo era bom, porque tudo era
elle.
Depois, não tardou a chegar-lhe a invencível monotonia de se vêr a si, a si indefinidamente. No desespero, quiz voltar ao increado, extinguir tudo, e
gerar novos seres, que não fossem a sua imagem,

yfr
344

•y
CHANAAN

que não fossem divinos, que gemessem, que morressem e fossem humanos. O creador luctou com o
sett espirito e o espirito, como uma força diabólica,
indestructivel, venceu-o, creando sempre a mesma
expressão, sempre elle só. Elle... E as fôrmas que
sahiam da força solitária e desdenhosa, acompanhavam-no eternas e fataes. Lentz horrorisava-se
de se vêr a si mesmo, n'uma multiplicação infernal. Do alto da montanha, aonde chegara, precipitou-se, fugindo da multidão de phantasmas que o
perseguiam amorosos e escravos e que eram elle,
sempre elle... Approximou-se do rio, voou sobre
este n'um impulso de salvação, n u m desejo extranho de anniquilamento, de allivio... e parou.
Sobre o crystal das águas a sua imagem o espreitava para^seguiráin<ia na morte.
E o delírio se repetia<-sob mil terríveis combinações, nos dias serenos que abrasavam a alma frágil
e desvairada do solitário. E quando, nas noites
socegadas, os tormentos da nova vida sobrehumana não o mortificavam, elle penetrava na solidão infecunda do espirito e errava pelo deserto
ululando, amesquinhado e cobarde. Implorava a
companhia tenebrosa do vento, e o vento se calava
aquella invocação satânica; com os olhos ardentes
e devoradores, buscava, em vão, reanimar as coisas que adormeciam. A lua voltava .para elle a
sua livida face de cadáver
Um movimento de piedade trouxe Milkau á

CHANAAN

colônia. Durante todo aquelle tempo, não esque-,
cera o seu companheiro de destino. E, <djM^tí
n/l)üfoè/uma parada no processo, /wjí ao Rio Doce.
Era ainda madrugada quando entrou no prazo, e
logo no jardim abandonado, invadido pelo matto,
que não perdoa e está sempre attento ao descuido
do homem, Milkau adivinhou tudo. A casa estava
aberta, e derrubado no chão adormecia pesado o
corpo de Lentz.
Permaneceram juntos na colônia até o dia seguinte. O contacto de Milkau alevantava e restabelecia o espirito do infeliz. E agora, n'um incommensuravel pavor da solidão, este se ia deixando governar pelo instincto da ligação universal, e prendia-se
n'úma affeição entranhada e decidida a Milkau,
que o chamava ao Cachoeira, á defesa e ao consolo do soffrimento. Um raio da luz que irrompia
do martyrio de Maria, chegou a Lentz que, obfiecendo ao poder do inconsciente, contra que tanto
luctára, curvou a cabeça e seguiu o amigo.
Na estrada, quando tudo se animava á passagem
d'elles, e ventos, e pássaros, e arvores cantavam
em volta, Lentz, recapitulando a curta historia da
sua desillusão, dizia comsigo :
— Ah! como tenho saudades dos meus sonhos t t
/
de audácia, dos meus desejos e ambições... E tudo
isto que eu e elle ambicionávamos fazer, é nada.
Encontrámos no nosso caminho a Dôr mesquinha
e poderosa, e ella nos guia e nos transforma...
— Toda a maldade n'elle era obra da imagina-

isuf

346

CHANAAN

ção, reflectia Milkau, acompanhando-o com o carinho dos olhos. Mas não é a idéa que governa o
homem, é o sentimento. A nossa força individual
não é nada em comparação á força accumulada na
vida. Que pôde um só contra a corrente imperiosa
e dominadora, formada pelas primeiras lagrimas,
descendo das origens do mundo, avolumando-se,
tudo arrastando, tudo vencendo, até que um dia
seja um perenne preamar de bondade e de doçura ?
Que pôde o homem, insignificante e inútil, erguer
para desviar o curso, o Ímpeto da piedade e da
sympathia ?
Chegando ao Cachoeira, foram logo á cadeia.
Durante a ausência de Milkau, tinha conhecido
Maria uma nova tortura, a que sáe das perseguições da sensualidade. Com a sua brancura, com a
v <>yk^extranheza da sua raça, ella yffi$fflj)w de algum
« j ^ í ^ ^ í e m p o 00$$&
os soldados negras. A princi' //ff/'' pio, o aspecto severo da desgraça os aiastaxa,dá\ fffach* /djV/ndo-a n'um circulo de respeito e de protecção;
[//
imperceptivelmente, porém, a convivência e a fami|
liaridade foram permittindo que n'elles se erguesse
o desenfreiado desejo. Procuraram seduzil-a, communicando-lhe por instincto a lubricidade; mas
l
quando a viram insensível e obstinada nas suas
.
recusas, fugindo ao velho costume da prisão, onde
as mulheres encarceradas eram amantes dos guardas, se enfurecerar/ije empregaram para vencel-a
o medo, a força e a crueldade. Md/uas noites eram
agitadas, escapando ella sempre de ser violada

Ã

CHANAAN

347

pelos soldados assanhados e bêbados. Debatia-se
nas mãos d'elles, e salvava-se, ou pela disputa sensual da posse, que entre os dois pretos se formava,
ou pelo alarido levantado, deante do qual se recolhiam cobardes e espavoridos. E os dias, que lhe
concediam, eram para vingar as luctas da noite,
obrigando-a a trabalhar para elles como uma escrava, dando-lhe pancadas, negando-lhe alimento.
E Milkau, agora,na frouxa luz da prisão, notava,
surprehendido, quão terrível fora a devastação da
miséria no corpo da rapariga. Não se enganava
elle sobre a exacta situação da pobre victima, por
mais que esta lhe sorrisse, mostrando-lhe vislumbres de esperança e traços de resignação, que- ,>ê
rendo com esforço dfjji-tí a historia do seu mar- y/yfj&fa*'"
tyrio escripta indelevelmente nos olhos famintos, " ***
no rosto murcho, nas mãos de esqueleto e no peito
mirrado.
Milkau teve a impetuosa anciã de
arrebatal-a d'alli e carregai-a afoitamente para
longe, muito longe, e pôl-a onde as feras não fossem homens...
Durante o tempo que ahi passaram, Lentz ficou
silencioso. Pela primeira vez se via n u m cárcere,
misturando-se com criminosos e reprobos. A sua
velha alma aristocrática estremecia de repugrtancia, e o espirito de sonhador soberano e forte, que
não se lhe tinha extinguido de vez, extranhava o
iy,
contacto da miséria, revoltava-se por se fffiffftx
jyjtdt/^r^i
da molleza, da piedade, ardendo em remontar ás
alturas do silencio e do império. Mas era tarde : a

348

CHANAAN

garra da compaixão o prendia ao mundo, que elle
também assim fecundava com o seu quinhão de
soffrimento.
Na rua, quando sahiram da cadeia, Milkau
ouviu, como um echo do seu próprio coração, estes
murmúrios:'
— Pobre mulher! Como é triste a vida!
Era o novo Lentz que falava.
Commovidos e angustiados, os dois amigos separaram-se. Emquanto o outro voltava a se recolher ao repugnante albergue do Cachoeira, Milkau
seguia sem propósito, vagando, para as bandas
do Queimado, a região abandonada onde fora a
antiga cultura do logar, e que atravessara no dia
de esperança em que chegou á colônia.
Entrou na velha terra exhausta e morta. Ainda
no chão, que pisava, estavam os marcos deixados
pela geração extincta e vencida... U m dia, tudo o
que fora vida já por alli transitara... E agora, restos
disformes de habitações humanas m sustinham-*^petrificados, dolorosos e nús, e trepadeiras mesquinhas e bravas se- esforçavam^por cobrir-lhes o
pejo de ruinas mutiladas. Nas colunas baixas e
humildes da redondeza, destroços de pedras mirava!^ com suas caladas mascaras de monstros a
grande Terra em frente, as altas e viçosas montanhas, onde se fartava a força dos invasores...
Perdido no largo e desdobrado espaço, o Santa Maria, desembaraçado das pedras que antes o faziam
vibrar alegre e vivaz, passava vagindo mofino e

N'esse momento eu ainda te não buscava. fria e morta. Aquella hora. e descampado. com que o sonho ama o passado. a razão da minha energia. tu me attráes.. sol moribundo \yj%o meu rosto se estampava-o riso continuo e fatigante. como si foras um insondavel e voluptuoso abysmo.[ saros no céo desmaiado buscavam o pouso da noite. se vestiam de purpura e ouro. a força do meu pensamento. e outras de pé. e vazio. Antes de •*£ conhecer-^-perfida illusão (me\entorpecif) os <x -7 sentidos... Tudo era languido.. No silencio dos ventos. e estendo-te os braços n'esse doloroso e invencível amor. no theatro da Agonia. O sol impaciente ^j^J^fí/^jL-Âãtí ' fc rf fc r a mergulhar nos braços verdejantes e opulentos •íU«f<*-*c' da Terra futura e mostrava ao Passado a outra u face roxa. e a minha frivola existência foi a lúgubre ' marcha do inconsciente risonho por um caminho de dores. Milkau scismava: < Não.... n'uma trans. Elias vinham de outr'ora e ainda eram a derradeira vida que alli restava. e deserto. Sobre ti me reclino. eu não te fujo. a morte ama a vida./ u . Pas' . ruminando preguiçosas.. uma moita de arvores extinguia-se mansamente. doce Tristeza! Tu és a reveladora do meu ser.' tocadas pela morte. cabras aconchegadas aos filhos ae roçavam nos oitões das ruinas...CHANAAN 349 lento. Cadáveres de arvores derrubadas se desmanchavamrEm pó./ figuração gloriosa. N'um canto da planície. e elle afastava de mim os 20 .

Tristeza.. A dôr é fecunda. faço da dôr universal . a perenne creadora da poesia. de cançada. « Tristeza! tu me fazes ir até ao fundo das remotas raizes do meu espirito. O sol resvalara de todo do fundo do horizonte. n'uma postura de resignação e silencio. Por ti comprehendo a agonia da vida. porque faz despertar em nós uma consciência perdida. çe extinguiu} e então soou para mim a a hora da paz e da calma. N o céo não passavam mais os bandos das aves. Mas tu. por ti. que és o guia do soffrimento humano. a força da arte. E como esperaste ! Um dia a alegria. porque nos*aperfeiçôa. para quem a eterna alegria é morte. A aragem «fccalárar/?''Õ débil vagido da cachoeira ia-se perdendo para sempre. porque une os homens. por ti. Milkau caminhou ainda illuminado pelos últimos c] arões da luz. E como desde logo amei a nobreza do teu gesto! O h ! Melancolia! minha alma é a morada tranquilla onde reinas docemente./ / CHANAAN homens. a dôr é bella.. Tu te sentaste á minha porta.350 fa . e nos explica a nossa fraqueza nativa. E Milkau scismava : « A dôr é boa. A dôr é religiosa. E' a liga intensa da solidariedade universal. não estavas longe. Entraste. porque é a fonte do nosso desenvolvimento.

CHANAAN 351 a minha própria dôr. ... Tristeza. Que o meu rosto não mais se desfigure pelas visagens do riso cançado e matador. Conduze-me. Não deixes que o meu espirito seja a preza da vã alegria.Tristeza salutar! Melancolia.. não me desampares. oh! bemfazeja! aos outros homens.... Curva-te sobre mim. .. dá-me a tua serenidade..... a tua séria e nobre figura.. envolve-me com o teu véo protector..

. disse-lhe elle.. Milkau tomou-lhe as mãos com império e passou com ella sereno/ forte ao lado da sentinella. A -prisioneira j ^ ^ f a d a quiz recuar. Nas torturas do pesadelo. recolhendo e enfeixando com energia as suas forças mais intensas. sou eu.. Maria ergueu-se . baixo e com firmeza. afastou de si o rosto que se inclinara sobre ella. sacudindo o morno carinho.. e com as mãos hirtas. que entrava 'pela porta da rua. sedentos eviscosos lhe buscavam os lábios. aberta como de costume. Obedecendo. como uma figura tosca e archaica. a claridade da noite. A sua mão agora branda e languidatacteava incerta para se certificar da súbita e extranha apparição do amigo.XII *4dix0t V»/ i — Maria! A desgraçada estremeceu. e pela mão de Milkau foi seguindo pela casa meio escura. estiradas.... — Vamos! Levanta-te. — Maria. repetiu Milkau. E gestos infantis e leves roçavam pela barba de Milkau n u m a inconsciente caricia. Ella abriu os olhos e ficou deslumbrada. parecia-lhe que beiços^rôxos. No corredor.. deixava vêr o corpo de um Ldf soldado/ negro/ dormindo n'uma postura pesada / b r u t i . conduzindo-a para a noite e para a liberdade: .

e os pés. Vamos. que parecia ser a cada instante tMfe^amente in. Subamos aquellas montanhas de esperança. os passos d'ella eram ... E depois tudo voltava ao socego ameaçador. ella vacillou e veiu s« apoiar^nos braços de Milkau.. / ^ / ^ ^ ' tropeçavam nas pedras soltas da rua. que a foi arrastando vagarosamente. Enlaçados. Mas só lhes chegava o chiar monótono e eterno da cachoeira. as fôrmas f i a d a s e sinistras do Ijaet&v mundo. a largueza. Repousemos depais na perpetua alegria. aos outros homens. e ladrando scarremessavantem vão contra elles. a immensidade do espaço davam á fugitiva uma deliciosa vertigem. .. a scintillação das estreitas. Iam morosos... tados pela treva. onde a bondade corra espontânea e abundsrhte. n'um desfallecido collapso. corre. caminhavam pela cidade calada e adormecida. Dobraram de cautela. espiando com os olhos immensos e dila. o ar subtil e frio que lhe penetrava nas carnes somnolentas e tepidas. que Milkau ia fallando: / — Fujamos para sempre de tudo o que te persegue... Era no ouvido d'eíla. £-// vacillantes. por tanto t e m p o ^ r ^ í / / i d o s .m'"?r^ terrompido pelas vozes da perseguição surgindo das casas accordadas.. em outra parte. Uma ou outra vez. / niodrrW. o céo crystallino. como a água sobre a terra. vamos além. assustadiça e .. cães somnolentos despertavam com o passar dos vultos.. e. Vem..CHANAAN 353 Fora. O silencio inquietador enchia-lhe o espirito do antigo pavor que se não extingue nunca.. Lr' .

. cortava. No vão das trevasiXde espaço a espaço. creada pelo terror.. a várzea do Queimado. A rigidez fria.354 CHANAAN Deixaram a cidade. perdiam elles de instante a instante a vista do Cachoeira. em baixo aos seus pés.. levantando alli uma phosphorescencia vaga de nebulosa. receio de despertal-a. E o vento implacável ia passando. Os braços de Maria se retesaram de novo e apertaram os de Milkau. tepidos e brandos. parado e morto. d'onde vinha o clamor do mysterio e do soffrimento das arvores castigadas. onde as collinas baixas semelhavam corpos deitados de heróes antigos e mutilados. E debaixo d'esse manto se desenhavam seres phantasticos.. colossaes. galgavam a montanha. corcundas ealeijões. atravessando o tecto ondeante. e agora sen1. coberto pelo manto cinzento e vaporoso da bruma. nada mais viram . e do jorro de luz^/l _^___f—----se^brmã\'a dentro dáfloresta uma columna ale< *"* / vantada do chão para o céo. e docemente illuminada pelos reflexos <ftv/ / . so fôra^f 0 dos braços de Maria. Subindo. subiram ainda e entraram no bojo da matta. que agora sé prendiam aos de Milkau. fazendo-as gemer rumot rosamente. Depois. lépidos e ra-^ diantes. L Are/' Iam inquietos. IJ -UXJ&SIJ-J ftmjf frest^ <^r claridade/descjir... como um gladio fumegante. sem fôrma ainda imaginada.. afundando os olhos na infindai^l negrura.. Um trecho do Santa Maria. gigantescos. Havia um rumor continuo eafflictivode vento máo nas folhas da grande massa. sobre que passava a luz exhausta da noite humida.

.. escalavam a subida. encontraremos outros homens. Maria quasi não caminhava. A estrada tomava sempre pela beira de precipícios cada vez mais difficeis de vencer. como uma zoada infernal. aspirando o aroma capitoso e perturbador que se desprendia das flores nõcturnas.. Milkau não mais falava. aquecendo-lhe o rosto com o seu hálito offegante. Quando vier a luz. voando. vem... e as ribas mais angustas pareciam se terminar-f confundidas . arrastando-se unidos. E' a felicidade.. e havemos de achal-a. e es. recolhendo nessa voz acariciadora o canto mágico dos seus esponsaes com a ventura. Era pedregoso. outro mundo. margeando o despenhadeiro. Milkau repetia no ouvido da companheira o seu appello de seducção.. vinham os urros do Santa Maria. puxava com esforço o braço de Milkau. Cautelosos e arquejantes..seus olhos mergulhavam no abysmo e 3» perdiam^fascinados na toalha branca e espumosa do rio. caminhavam velozes. O passo da fuga moderou. acorrentado no fundo do cavado e fragoso valle. mais inclinada sobre elle. Estreitados um ao outro. — E' a felicidade que te prometto.. Ella é da Terra. voando.CHANAAN 355 das arvores espectraes. O caminho deixou a matta sombria e sahiu pelas alturas descobertas. e aos fugitivos.. e Maria já se animava. e ahi. Vem... E este se ia estreitando... Subiram. escasso. fatigada e de pés maltratados. Subiam lentos. Assim espantava o terror.

. Elle olhou-a cornos olhos desvairados. beijando-a febril^se* e ferozmente: Também ella i » apertavaTcom fúria <& j&b) n-lim accordar violento das suas entranhas... Qp calor da mulher/já/utiWolvidado jftorooHDncrvw incendiava-o/ e no combate alie 4L estreitava cor vehemenci^(I com ardor. o retinham. feroz e resoluto. A tentação satânica da morte era mais poderosa.. rolaram por terra confundicfòs>batendo-se. e logo estacou. Milkau ergueu-se. enlaçando-se como cornentes a uma arvore.. Maria. allucinados. teve de ceder á d'ella. recobrou urna extranha tW energia e tentou retel-o. a -\^f/ .. arrastando-o para a encosta da montanha.356 CHANAAN no horizonte. vendo-se perdido n'aquelle recôncavo tenebroso.^ *W*.. diddjéntíúik para o abysmo. os dois desgraçados luctaram longamente./ corpo frio..... De um salto.. Percorria-lhe os membros um suor gelado. doidos. e arrebatando a mulher do chão. Pregados assim n'efisa postura.. Só. . sobre rochedos escarpados e negros..e infernal para o abysmo. (jè^tbajjaj$è7$£ca£avj$ di rr/ U ' . fjH^^fljl n u m assommo de pavor. 4 t t L . só.. mais nada. para a morte.luctando. debatendo-se nas mãos ^A^ fortes do homem. mas a força d'elle que a queria levar para a' morte.. agarrou-a pela cintura. e com um sorriso diabólico. alquebrado... Os braços d'ella.-/ 0 i . y y morte. O Santa Maria urrava soturno e medonho. Milkau desanimou. ^^J^y%* \\r^j^**rAaxia resistia com fúria. e o « A. avançou alegre . gaguejou estrangulado: l I Jpy — Não ha mais nada. n aquella solidão de pedra. ^ ( ^ ^ j £ . / ..

L -J ^J^^ã^lfr/Mf^/j. duivc. corriam. deitoúN(a correr veloz pela vereda de pedra.. anniquilado... e dos seus braços esvaídos dklyyjdfâffl/dr^ü-^ Maria. E as duas sombras. galgaram o alto da montanha. de si. o abysmo negro e assombroso passava como o tormento de uma vertigem. / que aos seus pés medrosos e vivos se tornava ^ macia e segura. seguiu-a.. confundia"com os céos. Eu vejo. reanimando-se. iam desfilando sinistras e rápidas pela aresta da barranca.CHANAAN 357 que os prendia á vida. N'um momento. Adeante. Chanaan! Chanaan! .///</? dade. Milkau não sabia para onde o impulso os levava : era o desconhecido que os attrahia com a poderosa e magnética força da Illusão....L ^ n^r^> L*^ ...^ Mas o horizonte na planice sa estendia^pelo seio da noite e n&. A agonia . — Chanaan! Chanaan!.. J^t^fivida. espavorida. na obscuridade da treva. os ruidos desesperados e attrahentes do rio morriam atraz. vibrando como / ^ / ^ i w a modulação de um hymno. ouvia fflyf a voz^ée Milkau. Atraz .... Milkau. '"•'* — Adeante. Não pares. enormes.. supplicava elle em <yr~~ t~*r*>. e agora elles se precipitavam •% numa campina suavemente esclarecida pela noite maravilhosa e límpida.. sentindo-se em liber. „ coniuso.. Começava a sentir a angustiada sensação de uma corrida no Infinito. a vista da planície /vftw**dilatada e bemfazeja. e pasmaram a vista nos livres descampados por onde descia a estrada... E Milkau fraqueou por fim. cahiu n um "rápido marasmo. Corriam.

... a Mulher enchia de novas carnes o seu esqueleto de prisioneira e martyr. e mysterio. que seguia amando. E Milkau. Animada. Corriam. pedindo á noite que lhe revelasse a estrada da Promissão. sem \0 poder j / / ^ i . jamais lhe a^parecia a terra desejada. que cobriam e beneficiavam o mundo.. inflammando-as.. Corriam. Apenas na sua frente uma visão deliciosa: era a transfiguração de Maria.. fatigadps de voar. corriam. para/fim do seu martyrio. e a terra do Amor mergulhada. Nunca! yd... n'um soffrimento devôrador. horas e horas... acompanhava em amargurado êxtase a sombra que o arrebatava. ia vendo que tudo era o mesmo. os cabellos cresciam-lhe milagrosos como florestas douradas deitando ramagens. .. transmudada pelo mysterioso poder do Sonho... / é . // n'aquella busca vã e fatigante.. E tudo era immutavel na noite.. corriam.[ mais. elle atraz anceado. corriam...358 CHANAAN pensamento.. novo sangue batia-lhe victorioso nas artérias. alcança/... e Milkau en no hbfmfld jflf° f ° c o d'essa gloriosa luz.. Cb/anaan! Chanaan! pedia elle no coração... sumida na nevoa incommensuravel. Corriam. e nada variava. e temendo dissolver com a sua voz / mortal a dourada fôrma da Illusão... adeante. Corriam. corriam. E tudo era silencio.. E nunca. A figura phantastica sempre.... e nada lhe apparecia. E o mundo parecia sem fim. veloz e intangível. os olhos iam illuminando o caminho.

. não a vejo mais... Paremos aqui e esperemos que ella venha vindo no sangue das gerações redimidas.. Emfim. Ao contacto humano ella parou.. que os novos homens ainda alli não tinham surgido. que tudo era deserto. Milkau festejou n'um frêmito de esperança a deliciosa transição. o mundo cançava de ser egual.. / q u e ' s e fará a passagem dolorosa do soffrimento.... Ainda não despontou á Vida. Chanaan ia revelar-se!.CHANAAN 359 A noite enganadora recolhia-se. — Não te cances em vão. Aquelle que vive o Ideal contráe um empréstimo com a Eterni• dade. O que seduz na vida. a mesma bocca murcha. Não corras. e esclareceu a várzea.. e Maria volveu outra xez para Milkau a primitiva face moribunda. Não desesperes. H &y inútil. a mesma figura de martyr. desdobraremos infinitamente a ¥*k<V v w v c _V . ^ é-qu& somos a força creadora da utopia.. Purifiquemos os nossos corpos.. a somma de todos nós. que eu te ia mos/ trar e que também anceoso buscava. Sejamos fieis á doce illusão da Miragem. como n'um. nós que viemos do mal originário. que é a Violência.indefini/o ponto de transição. Vendo-a assim. Com as suas mãos desesperançadas... Nós nos prolongaremos. Elle disse : . é o sentimento da perpetuidade./emní mesmos. Milkau viu que tudo era vazio.. tocou a Visão que o arrastara. os mesmos olhos pisados. Cada um de nós.. na miseranda realidade. A terra da Promissão. A nova luzsemmysterio chegou.

Paris. abandonemos os nossos ódios destruidores. muito longe. morrem passageiramente. ou si é informe e transitório. e santo. não nos separemos para sempre um do outro nesta attitude de rancor... Apr proximemo-nos uns dos outros. onde depositaremos tudo o que é puro. indestructivel. angustiosas. « Tudo o que vês.. desaggregar-nbs. . e divino. Mas.. a minha visão se confina em volta de ti. eu te digo.para se repetir em outra parte o cyclo da existência. E essas expressões desesperadas. na alma dos descendentes. todas as agonias. esperando a hora da resurreição.AKNIER. li. (. a ti e á tua ainda innumeravel geração... todas as revoltas. iremos viver longe. todos os martyrios são fôrmas ^errantes da Liberdade.360 • CHANAAN nossa personalidade. Os meus olhos não attingem os limites inabordaveis do Infinito. Eu te supplico.. rue cies Saint-Pères. 322. Eu não sei si tudo o que é vida tem um rythmo eterno. Todo o mal está na Força e só o Amor pôde conduzir os homens. — Typ.12... todos os sacrifícios. suavemente.. I). ou si tivermos de aee despedaçar^ com ella no Universo.1901. reconciliemo-nos antes de chegar ao instante da Morte.. passam no curso dos tempos. Façamos d'ella o vaso sagrado da nossa ternura. si isto tem de acabar .. dissolver-nos na estrada dos céos. que venha do seio< maternal da T e r r a . ou si um dia nos extinguirmos com a ultima onda de calor.

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