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LIVREIRO-ED.ITOR
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ARANHA

da Academia

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H. GARNIER
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Rio de Janeiro

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Milkau cavalgava mollemente o cançado cavallo
que alugara para ir do Queimado á cidade do
P o r t o do Cachoeiro, no Espirito-Santo.
Os seus olhos de immigrante pasciam na doce
redondeza do panorama. N'essa região a terra
exprime uma harmonia perfeita no conjunção
das coisas : nem o rio é largo e monstruoso precipitando-se como espantosa torrente, nem a serra ^
se compõe de grandes montanhas, d'essas que enterram a cabeça nas nuvens e fascinam e attráem
como inspiradoras de cultos tenebrosos, convidando á morte como a u m tentador abrigo... O
Santa Maria é um pequeno íilho das alturas,
""TTgeiro~êm seus teasipio^ depois é m b a r ^ á ^ ^ H <
longo trecho por pedras que o encacho
das quaes se livra n ' u m terrível esforçof^tígind'
de dòr, para alcançar afinal a sua vt\o[i\fà(àc s^vy
e alegre. Escapa-se então por entre '(unia flor

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A aragem mansa. luminosa e calma. / .£#»«. f sol nascente vinha erguendo-se / í j ^ ^ a d o na c a l .t "t VtXfAj i&^A longas sobre os olhos viscosos. Milkau cahia em longa s c í s m a / ^ f y l ^ con. ^fei*ando de '' II*' quando em quando as palpebras pesadas/desce^. um arrastar languido por entre a tranquillidade da paizagem. Milkau deixava o . que parece entregarem-se \f* complacentes áquella risonha e humida loucura. o movi. '^-Jltm+ *'á***-l . o /wwv^ji sussurro do rio. o d/***** **CTãiC CHANAAN sem grandeza. Tudo era um *i abandono preguiçoso. \xntr-'/yJL rompia-se alli o ruído incessante da vida.<lr.. Absorto na contemplação. inquebrantavel immobilidade das coisas. as vozesinhas dos pequeninos /* ÍJll-f. Os humildes ruídos da natureza contribuíam parfr-trma volu. ''%. ^ Z que balançava moroso a cabeça.. J ' a rédea cahia frouxa sobre o pescoçòjdo animal.v»-maria da noite f c/l seus raios não tinham amda a 'llj \ *£££* potência de alvoroçar as entranhas da terra soce. Elias por sua vez se alteiam gracipsas. vestidas quente e infinma.^qjiellft-qWnão esteve em repouso absp- é ~ >ew?~ lj*f~ r #~* 'y*U*S4 **/***•./ ».//#/*" SLti^^/Asoladora. insinua-se vivaz no seio de colunas) torneadas e brandas. cavallo tomar o passo indolente e desencontrado .'H r ^ ^ ^ m e n t o perturbador que cr^a e destróe. . J gada.insectos Í\jMf tornavam mais sedativa u Jrjll& a 2j%L. Sobre ella não pairava a menor angustia de terror. o próprio /v. A solidão formada p rio e pelos morros era n'aquelle glorioso momento fc£.-v J ptuosa sensação df silencio..

elle mesmo se ^espanta do yr *. O pequeno. y hojejqtMT sereno^.. vens sempre ao Cachoeira? — Ah!. 5fedag as eternas.. fíão viyeu em si mesmo . rebento fanado de uma raça que se ia extinguindo na dôr surda e inconsciente das espécies que nunca chegam a uma florescência superior. no turbilhão £MI^Í/^ f>$0jl proferiu accèntos que Sk não percebia.. para se o / expandir. soltava uma . surgia I /oi JÍál do fundo dos seus pensamentos. palavra que ficava morta no a r / outras. esporeava-o e o fazia galopar descompassado e arquejantè. resmungava com o animal.Tt-^/j^ Na frente do immigrante vinha como guia um ' menino. . filho de um alugador de animaes no Queimado.^ / . e chamando a * ' si o pequeno : -. 4. Milkau n'esses momentos attentava no menino e .. mas / desde muito não chegava ninguém da Victoria. as boas. muito enfastiado d'aquella viagem e do companheiro. — Então. disse o menino como que espantado de ouvir uma voz humana. Também choveu tanto estes dias !.. ff compungia/deante da trefega e ossuda creança -/^P /^* que era essa. a uma plena expansão da individuali. E oviajantel sahia da contemplação. as santas creações do espiritoV do coração' são/geradas nas forças mysteriosas e fecundas do sile%CTOrrj-. Umas vezes.Venho sempre rf quando ha freguez. ainda ante-hontem vim. deixava-se conduzir pelo seu velho cavallo. fluido perturbador que emanaxa^déj seus nervos ~ ff **~ doloridos e máos.f * dade..y\i CHA^ÍAN luto.

mas o subdelegado não consente le a gente / tem que se cançar por nada.dejj»»i'tuvi" e alegrava a... Milkau fitava com bondade o pequeno guia.. Só quatro. mas é para a freguezia.4fttertt^toi4eT-qtte..i CHAXAAX — De que gostas mais : da tua casa ou da cidade ? — Da cidade. abrindo os lábios descorados.. — Teu serviço em casa de teu pae é só acompanhar os passageiros para o Cachoeira ? cwrtintrou M4Ík*t*-fK>. — Ahi no Queimado vocês não têm carne? — Ah! nhor sim. antes do patrão chegar. a gente bebe mingáo. Cambem foi só cocoróca e um pinguinho.r>nt.croanea^ Frgtil r r í p n n d f l l .»~^ — Ah ! nhor não ! — Que fazes então ? — A gente ajuda o pae.. l l h f 21 ?$n'r* prr>«»pl-nry. nhor sim.. A paizagem não variava no desenho. este sorria agradecido.. continuavam a marchar pela estrada a tro. Hoje. quando falta. As vezes. apenas o sol começava a incendiar o espaço. mostrando os dentes verdes e ponteagudos. de madrugadinha vamos para a pescaria levantar a rede. estávamos já de volta. O melhor é pescar com bombas. Seu Zé Francisco diz que é porque a água está fria. como . d rio está escasso. Nós comemos peixe... mas tia Rita diz que agora é tempo de lua e a mãe d'agua não deixa o peixe sahir.-seu-. carne secca na venda do pae.

tempo depois. meu filho ? perguntou ainda o viajante. O pae disse. ainda não se avista a fazenda da Samambaia. r t . empunhava as rédeas com firZ. fugitiva ligação da piedade e da miséria.. concertar a rede que a canoa de seu Zé Francisco arrebentou esta madrugada. ou queres descançar um pouco? Fica até á tarde. alinhava-se garboso no i j ^ v velho cavallo. ^^ -J2 <=<•£-&. após tratar dos animaes.menino apontou para adeante e voltando-se disse ao companheiro : (UAJ^- f"T* **£? ^4. — Mais da metade do caminho. O pae diz que eu volte já. e de lá á cidade é o mesmo que para o Queimado. — Quanto falta para chegarmos. deitar a rede. <«/r'"**^.. e nós vamos á noite. si a água estiver quente. WCj \ animado pela conversa.. *** .. hoje é dia de ir com a mãe fazer lenha. o *^^v£. fincava as pernas de esqueleto e punha f^y^~ o animal n'um trote esperto. n u m a curva da estrada. mas o rosto macillento sepsclarecia com a grande doçura de uma longa resignação de raça... V» . — O h ! patrão.nbai^ujwtinrnVampntP^sga-acteüiiadj&^gos dois asy!lr*^s\m. — T u voltas logo para casa. O immigrante compadecido testemunhava n'aquelles nove annos do desgraçado a assombrosa precocidade dos filhos dos miseráveis. é noite de peixe. avançavam pelo caminho afora. Pgttee. Milkau acompaq~f.. antes da lua apparecer..CHANAAN Üj^ 5 afiada serra .T?"~ meza. O pequeno. porque hoje..

com o sorriso gentil no rosto violaceo. ia morrer sobre elle. delgados. brilhando aos tons dourados da luz . Os viajantes margeavam ora o cafesal plantado na encosta das collinas.j ilnb {«iiiiLiims^ne /*•*' entia-se^C^'. estirando-se n'um esforço. abrindo*. ao contemplar aquella terra sem forças. e parecia que esta. O menino empurrou a cancella ^ com uma das mãos foi /. traducção da força da seiva. como si lhes faltassem raízes — * * « * * * . Milkau passou/Jd atraz d'elle uma pancada //* Í5 b . if~A / fítt/ÜBL coloria-^de um verde claro. exhausta **" e risonha./infecunda para o amor.c Cl IA NA AN — Estamos na Samambaia. roça de mandioca na baixada.e WjMwn TTi tarados vent 7 ^~ >>^3Terra 3tecemenie--&~grandp eétFe^çrar-era cheio «f0**~*> i j j n minliii dii~i"TiTT^d M * /c/ 7" . / Lá no alto da collina um casarão pardacento ***" * misturava-se k bruma azul acinzentada do longeJ_ / • £ i á medida que Milkau proseguia. os pés de mandioca finos. o morro na frente tapava a estrada. A terra era cany~ cada e a plantação medíocre. oscillavam. Milkau e o seu guia chegaram a uma porteira que fechava a estrada no trecho" em que &Ê* cortava as terras da Samambaia. ora a . o horizonte se ia estreitando.JftfJíUft (4tf Wtíj0&Wfr grito agudo. /frffl extenuada para a «-»• vida. io cafesal jyfyffii o matiz verde-chumbo. uma turva mistura de desfallecimento e de prazer mofino. A terra morria alli como uma bella mulher ainda moça.

bufando e catando . era grande e / t ^ i ^ M aca/Kapaá^etomffiEK immensa varanda em fi^ãll //bffljZjjr sem j a n e í p j ^ r f p a r a $f$fi se abriam as portasA^-^ . crescia livre a herva com touceiras de matto rasteiro. Fora branco. . da varanda descia uma escada de madeira já com falta de degráos e com os corrimãos arrancados. Faziam-lhes *-*>r*'-"y\ companhia aves de máu agouro. O casarão.m da estrada e de /M*v>r outras direcções á casa de vivenda. anuns que trepa. sob a pelle/i^*'***'dos pobres animaes a rija ossadura. Da esteada pelo morro acima o terreno era inculto. aqui e alli o bolor sobre as paredes traçava extranhas e disformes visagens. abraçava o valle e se approximava da barranca do rio.** \ insoífridos a herva.^rgou 0 a * . na frente. esquecidas^^redeas do cavallo e poz-se a mirar */#r^j em volta. apenas cortado pelas picadas que 0jf&va. piando como /^'T^^f ./ ' va ennegrecido. jÇ^j^ogo ao penetrar' nas terras da fazenda. fyffifajfy{//etaCd*^ um cheiro de lama e estrume. guardando . mas esta. uma capella. á vista agora. O caminho barrento. havia muitos annos fechada.í4y€f/t desbotadas do interior. coberto de matapasto crescido.///***** tando com o movimento inquieto das cabeças a /k****""1*! sineta que traziam ao pescoço. descrevia/uma curva que /<* ****'. pegajoso e humido. ^i^tíjfpÁ^çf^A. com uma côr parda edesegual. Ao lado.CHANAAN 7 surda cerrou a estrada. / frente á tysfrflç/fáfáffl iyiWtty casa. cf $<$$$£ &fflfjfy bojs agi. f i vam xidlAfmJJ costas de esqueletos. cheio de sulcos de carro de boi. pássaros da morte.

apagado para os aspectos da vida *f como o de um idiota. camisa de chita sem gomma. / ^ alçava-a sobre a sella n u m gesto de resignaçãoi / . calça de zuarte../vfyí um vulto que che. O dono da fazenda. tirando cortezmente o chapéu . ainda assim. de pés nús. erguendo indolente o sombreiro de palha. a mesma vida superior envolta na queda í . turvo.\ mana. talvez bel. Milkau cumprimentou. jaziam no chão sagrado os túmulos de senhores e de escravos. muito velho./attestaj/d^/ na alvura da tez /*â a pureza da geração. parecia. ZjJs* O cavalio de Milkau continuava a passo/^/guia j£** bocejava indifferente e.^8 CMANAAN I no seu silencio a voz da devoção). das emoções e sensações^//completo f i//9\ J reduzi//í a uma attitude miserandade autômato.. o eífgot/amento das s u a s / * / • faculdades.j) gava á soleira da/ varanda. egualados '<£j pela morte e pelo esquecimento.^ como si elle tivesse consciência de que sobre s i " M recahia o peso do descalabro da raça e da família. . erguendo uma perna.//^)<. com a barba . branca. velados pelas ' ( divindades enclausuradas. á^. elle representava a figura hu. Ê Centro 'da egrejinha. o homem lá no alto correspondeu.^ Ias./transformada em ignorado e mysterioso relicario de antigas imagens de santos. que por ali* l(y passara. ^ Toltando-se para a casa./jt^ lezas ingênuas de uma arte primitivaMjwtâfy/fê l/^" J) jffjfmia. reconheceu-o e disse' vagarosamente ao companheiro : — Lá está seu coronel Affonso. o olhar. f ^hysionomia /jji triste..

abrangendo ainda com os olhos o quadro d'essa triste fazenda. so./ ' / bos./ donára agora em sua decadência. Dentro-da-casaj estava armada a bolandeira. // restos de machinismos espalhados pelo chão.J/^^ur no. attestando tfft/$ft ///%. no grande desleixo da casa abandonada. dh£$espessa^ mi-//&**'facroscopica floresta. onde se preparava a farinha J/Era um velho M • i barracão coberto de telha carcomida e negra. e ao lado a roda onde no tempo do ser. Havia também dois % tachos em que se mexia a farinha pelo processo ^ \ rudimentar das pás/ Eram de cobre e destoa|' vam do resto da engenhoca. .CHANAAN / das coisas.J7j/\y . arrastada na ruina geral. para se servir Me**' dos apparelhos primitivos que/se harmonisavam f/y**4* com afeição embrutecida do seu espirito. / -feJ cahindo de prostração em prostração/perdendo ' / todo o polido de uma civilisação artificial. E não ha quadro mais doloroso do que a^JÍJé' em que a acção do et***^" ^ m p i x a força da destruição não se limita somente ás tradições e aos inanimados.«=> viço se ralava a mandioca. ' Milkau proseguia pela estrada. Quasi á beira do caminho e^ava a casa do for. caldeiras. fi paralysaJ a*fulmina^fazendo fti—^ d'ellas o eixo central da morte e augmentando a Âgk^a* sensação desoladora de uma melancolia infinita. que o homem. bre a qual um limo verde crescia. A O vulto do coronel ficava immovel na soleira dd. tu. rodas dentadas. aban. como uma sobrevivência das antigas ^ > moendas. | $Áfl aflV uma/installação melhor. Milkau notou além T — d'isso. mas envolve no descalabro as pessoas.

e sob|fe/a pelle resequida de* senhava-se i <fn/<fr^fyjfó de um esqueleto de "9/ ^athleta: sobre o dorso. coberto de palha cujas línguas se projectavam desordenadas da cumieira. quando. como movido por longo habito porta do rancho um velho cafuso com os olhos nevoados fitava vagamente o espaço. (%£** 2* Ju ^***-y ^ *pf*&„ mJ^ y*». que subia até ao queixo 7formavy uma rasteira barba.• d aquella paizagem onde as forças da vida parecia estarem paralysadas e onde tudo tinha a íixidez e a perfeiçâo da immobilidade. de um nunca terminado pasmo deante do esplendor e da gloria do mundo. /Õ/iOÍs viajantes Continuavam a aç movensjentro ./£ " . encostado ao moirão : apenas trajava uma usada calça. a. O pequeno guia adeantou-se para a casa. crescia uma pennugem branca encaracolada.s coma chifres..S* / u / /A. que n u m a desforra triumphante vinha vindo.10 CIIANAAN escada. Toda ella era a própria indolência.. o pjíl tronco estava nú. rira um pardieiro armado em cruz. instinctivamente. apertando o 0^/*$£homem e jtí'fyfè/d human/s. quebrando o caminho á direita. J" / esperando na lugubre attiiude do inconsciente a I lenta invasão do matto. como em moribundo ' cepo de arvore. circumscrevendo. A-ffy postura era de adoradão rudimentar. v. No batente da porta sentava-se uma mulata moça. Os cabellos não penteados faziam ponta. elles enfrentaram quasi súbitafnente com um rancho de moradores. presidindo com o olhar pasmado ao desmoronar silencioso d'aquelles restos de cultura.

descançou-o. •*'CHANAAN / rv*H / y 11 camisa suja cahia <p toa sfiiw^^collo descarnado. ao seu lado. no rosto do viajante. Quero chegar cedo. em pé. que abriu os lábios n'uma rude expressão de riso. que sem o menor alvoroço o deixava approximar-se. A creança se acolheiríTella boquiaberta.. respondendo á saudação J fi **^ — Se apeie.l guiça e desalento. Olhe só. mirava embasbacado os cavalleiros que se achegavam ao tijupá. Apenas o / velho <$k&. está-se na cidade. e. • f/H* fl*"* QLxxtrangcirn npTt"" a mão callosa e áspera do /<£ velho. e j U ^ este ptffiji o~pé em terra l ^ f boceja^ n'uma satisfação de repouso. moço. um negrinho vestido apenas de um cordão ao pescoço. apenasj mudando ^ vagarosamente o olhar. O guia não esperou mais. como si reflectisse um momento e sentisse despertar em si uma anciã de communicabilidade. Milkau cumprimentou o grupo. mostrando as gengivas roxas e desalentadas. obrigado.. Depois o velho. abandonando o seu cavalloisegurqu_pelo freio o do viajante. — E h ! meu sinhô. pulou da sella. e os peitos de muxiba /pendiam molles sobre o ventre. ~~~7 . Ld'áqui ao Cachoeira é um instantinho. com a baba a escor \ j-er dos beiços tumidos. donde se dependuravam uma figa de páo e um signo de Salomão.. vencendo duas curvas do rio... — Não.. A c a W a não se mexeu. cheio de pre. insistiu «com Milkau para que se apeasse..

. como um biombo lixo. na fazenda do capitão Mattos. A cobertura era alta no centro e pendia em declive tão rápido para os lados que nas extremidades um homem não podia ficar em pé. indicavam a cozinha. No fundo. onde se viam uma esteira e uma es/ pingarda.12 Cl I ANA AN Da porta Milkau via claramente o interior da habitação. molhos de linha de pescar e alguns pobres instrumentos de lavoura.. — Fui nascido e creado n'essas bandas. de outra dobrada em rolo e suspensa n u m gancho. na qual uma touça de bananeiras se / ( /multiplicava/ //junto a essa porta Medras negras. sinhô moço. a porta abria para uma clareira do matto. Alli perto do Mangarahy. acompanhando o gesto. defunto meu sinhô. j/jy ) que se misturavam a restos de tições apagados. tacteando o espaço. o â— mobilia^U/ miserável e simples se compunha de <' uma rede cor de urucú armada n u m canto. dois banquinhos rasteiros. E a conversa foi continuando por uma serie de . formando /-' um quarto. E. um remo. uma esteira estendida no chão de soque. I m a pequena divisão de palha. que Deus haja ! O extrangeiro. — Mora aqui ha muito tempo ? perguntou Milkau. apenasdivisava ao longe um amontoado de ruínas que interrompia a verdura da matta. separava um dos cantos da peça. estendia a mão para o outro lado do rio : Não vê um casarão lá no fundo? Foi alli que me fiz homem.

Patrão se mudou com a família para Victoria. meus parceiros furaram esse matto grande e cada um levantou casa aqui e acolá. sem lances. onde bem quizeram. bandão de gente. por ter occasião de relembrar os tempos de outr'ora. Ah! tempo bom de fazenda ! A gente trabalhava junto. Eu com minha gente vim para cá. onde tem seu emprego. Comida sempre havia. Nunca ninguém morreu de pancada. para essas terras de seu coronel. os trabalhos e os castigos..um pobre drama sem movimento. a caçar de comer. filho d élle foi vivendo até que governo tirou os escravos. Governo acabou com as fazendas. véspera de . a comprar de vestir. e nos poz todos no olho do mundo. mas de quão intensa e profunda agonia! Contou a velha casa cheia de escravos.. e quando era sabbado. cafu :as.. Tudo debandou. de tomar a iniciativa dos assumptos/I contou por phrases gaguejadas a sua triste vida toda ella. n i Cd dê fazenda ? Defunto meu sinhô morreu. quem debulhava milho debulhava. como todos os humildes e pxi mitivos. se acabou. tudo de parceria. Que importava feitor ?.. a trabalhar como boi para viver.CHANAAN 13 perguntas de Milkau sobre ávida passada d'aquella região. meu sinhô moço. ás quaes o velho respondia gostoso. as festas simples. quem apanhava café apanhava. mulatas. sentindo-se incapaz. sem variedade... Tempo hoje anda triste.. E na tosca linguagem balbuciava com a figura em êxtase a sua turva recordação/ _ — Ah! tudo isto..

... tem sua casa.CHANAAN ÕL^J*^ f' jC^J Jff/Vm*' A * *. . fazenda. que está ahi assentada. terra é de seu coronel. ah! meu sinhô. o preto velho. proseguia no seu monólogo : — Vosmecê vae ficar aqui ? D'aqui a um anno está podre de rico. Não me tirando a graça de Deus. Rancho é do marido de minha filha. a mão estendida fâf. E agora? Todos têm uma casa. A nevoa que os cobria..fffy gestos tardos e incertos...da pesada visão da conquista da terra 'pátria pelos bandos invasores. governo não faz nada por brasileiro. burrada. E os seus olhos tristes se obscureceram. ^ ' u m estremecimento. com a melancolia de um mundo desmoronado. só pune por allemâo . sua terra. jfy/fó Milkau. é dono de si mesmo. como que sobrecarregada ftítff. você aqui ao menos está no que é seu. arrendada por dez mil reis por anno. De brasileiro governo tirou tudo.. com o olhar perdido no vácuo. com o desespero do isolamento de agora... meu amigo... K assim o antigo escravo ia misturando no tempero travoso da saudade a lembrança dos prazeres de hontem. Todos seus patrícios eu vi chegar sem nada. com as mãos abanando. — Mas. da sua vida congregada. tornou-se mais densa. u Q> k r' 0 domingo. amparada na domesticidade da fazenda.. — Qual terra.. qual nada. Hoje em dia tudo aqui é de extrangeiro. tambor velho roncava até de madrugada.. têm cafesal. cavallo e negro.

e ess^ ^raço dft/moviméntos oppostos f/ v W d a v á a impressão de que toda a paizagem se áni. itíféfti-. de uma indolência sinistra. como si o peso de toda a responsabilidade da situação d'aquella gente cahisse também sobre elle. e a incapacidade de uma expressão livre e elevada fazia crescer a angustia. N'um gesto contrafeito despediu-se. > valleiro. d'aquella mal definida resignação dos esmagados. Lá dentro de si mesmo tfatia-se em vão para encontrar a claridade de um sentimento. agora de todo inflammada. Os outros da família ficaram quietos. lá no alto.-/"/ do' longínquo horizonte.dos y viajantes. A <ry figura da filha. Nada achou. A fazenda. LjJ O rio descia em direcção contraria á marcha. até á vista. dava / maior oppressão a tudo.ndando a cabeça e resmungando um choro. arrancando-as do torpor para a vida. apatetados. 0 velho continuava me. meu velho.. Milkau /aminhava pela grande luz da manhã. o immigrante notava o ./ ' mava e docemente ia desfilando aos olhos do ca$ j ..CHANAAN ^ f 15 Seguiu-se um oppressivo silencio. sumia-se no &H*de> . O preto abandonou-lhe a mão. a limpidez de uma palavra consoladora. Milkau recolhia o echo d'aquelle queixume de eterno escravo. Havia alguma coisa de aleijão n'esse protesto. — Adeus. Milkau sentia um estrangulamento. Os ventos começavam a // fe^Qf soprar mais espertos e como que agitavam as almas [/ dif.

A estrada iá se alargando. . como um / espelho vacillante. sacidia as crinas. mas o sangue em alvoroço saudou a apparição do povoado. infinita:^ e incertas. tudo ia passando.< CUANAAN manso desenrolar do panorama. fim das suas jornadas. Xa frente o guia. que.' recendo. outra/vinham appa-/-*^.16 ~ ' . desconhecidas. na matta ll^õu^l ainda fumegarite de nevoas. também se ..J Milkau. de narinas escancaradas. a vontade transmittiam um fluido activo ao lerdo animal. ao contacto dos logares próximos á cidade. estendendo o braço. e agora. despedaçando-se como um louco nas lages. au/*/ gmentava. os nervos. como o de fitas mágicas : casas de moradores. A brisa fresca encanava-se pelas duas ordens fronteiras de collinas parallelas ao rio e trazia ao encontro do / /f viajante um mugido sonoro de cascata. recolhiam e reverberavam a luz do sol. comoJjarfdespertando. mas arrastado por uma força incessante que nada deixava repousar. como são os caminhos do homem sobre a terra. espumantes.transformou em vida.1A Í. respirou sôfrego. gritou-lhe : — Porto do Cachoeira. curvava o pescoço e accelerava brioso o passo. bui^ / fando. Milkau ^Úi ao longe. í5 rolar do f j^jL* Santa Maria batendo sobre pedras amontoadas. . uma larga mancha branca. // * 'o corpo se lhe agitou e estremeceu nessa anciã de quem penetra na terra desejada. relinchava asperamente. \~U '. ao sopro da viração. l/ ' mordia o freio. homens. 7 as suas águas revoltas. rolando devagar'.

mas ainda assim procurando os derradeiros e longínquos raios do calor humano. Os cavallos arfavam. Domingo passado levei também um moço para lá.. represa #&'"' do fervido rio que se liberta em franjas de prata. e adivinhou-os batidos pela invasão dos brancos. que o pequeno. dominava a povoação apertada entre a montanha e o Santa Maria. Milkau. Roberto Schultz. o olhar espraiado na paizagem. as primei. Conhece ? — A h ! nhor sim.. — Onde se apeia. da raça dos antigos escravos. quem não sabe?. /A/T**' Os viajantes continuavam apressados . em plena tíbffà da côr.GHANAAN 17 Então. jjLeeerrdo na*frente. com a sua casaria . da claridade //(W^ ~ e da musica feita dos sons da cachoeira. ^ como soltas na estrada para saudaráíi alviçarei. escancarou para dar passagem á Milkau. O maior sobrado da cidade. — Em casa do Sr.// v~ ras os viandantes..' ras casas iam chegando : eram pobres habitações. patrão ? perguntou solicito o guia. para elles extrangeiras e prohibidas. a cidadesinha tíâ n'aquelle delicioso e rápido ins//r tante/a filha do sol e das águas. Os viajantes desceram a rampa e foram ter a uma porteira../ toda branca. de uma pequena elevação que ia galgando. Cheia de luz. e deitando-se á soleira das cidades. Milkau observou que essas casas eram moradas de gente preta. Mirando-as attentamente. dando á marcha fatigada . Entravam agora mais devagar na cidade.

/mg u a mio o via^ _ v . Ao espirito do immigrante desceu uma confusa e tênue recordação de outros tempos. e. uma espuma abundante os ensopava. e Milkau. O armazém de Roberto Schultz era vasto. Tinha quatro portas de frente. em café. Chegados a um grande sobrado. e as mercadorias innumeras davam-lhe uma feição de grandeza e opulencia. o menino voltava com os ÍJMJ animaes. em instrumentos de lavoura. como refulgentes chapas de ouro. Os olhos de Milkau tinham os estre' ^ l ^ k ^ ^ m e c i m e n t o s das passagens \fly!//fé dos pano' ramas contrários . em fazendas. ao entrever essa população toda branca. abandonados de rédeas. era um d'esses typos de armazém de colônia. como si descessem com medo montanhas pedregosas . para chegar até ao balcão. jante penetrava na loja. em vinhos. c. que são uma abreviação de todo o commercio e conservam na profusão e multiplicidade tftJJ das coisas um certo traço de ordem e de harmonia. despediram-se como bons amigos. apenas guardavam na retina inconsciente a vaga sensação de uma cidadesinha allemã no meio da selva tropical.1SS CIIANAVN uma sensação de movimentos irregulares. o guia pulou lesto do cavallo e ajudou Milkau a se apear. e ao sentir a irradiação do sol batendo sobre as cabeças das creanças. foi desviando os h . não possuíam fixidez nem calma para precisar qualquer observação. *y / ' A loja áqüella hora já estava cheia de gente. Alli se negociava em tudo. iam tropeçando nas pedras soltas da rua.

pesados. onde um homem taurino e barbado o recebeu. Paulo. O immigrante entregou-lhe uma carta de apresentação. ora a mirar pensativo e aborrecido. afianço-lhe. Roberto não o attendia e continuava a arredal-o ^ / com as suas palavras. noutro tempo ganhava-se algum dinheiro. brancos e tardos allemães. onde acharia um emprego com facilidade. Talvez melhor ftíffft ir para. Dos olhos d'este baixava uma claridade suave.. sim. — Então. são os grandes centros de commercio. quiz interromper Milkau. Aqui V. que perturbava o velho negociante... A colônia é um engano . Vae-se aborrecer.. Roberto começou a aconselhal-o i que não se decidisse antes de ver bem as coisas por si. Afinal. . o senhor deve voltar hoje mesmo.CHANAAN 19 freguezes alli amontoados em pé. interrompendo-se de vez em quando para fitar o recemchegado. ora a ler.'para longe do Cachoeira. uma calma dominadora. — Mas. — Isto aqui é triste e enfadonho.. dobrou vagaroso a carta e poz-se a tamborilar na secretária. que elle principiou a ler. disse por dizer. e immediatamente Milkau foi conduzido ao escriptorio. vem com a idéa de ficar aqui ? Milkau affirmou essa resolução. / — Na minha opiríião. Disseram a Roberto que havia um viajante á sua procura.. o Rio ou S. Ahi. porém agora os negócios não marcham. nós estamos abarrotados de pessoal. todos indecisos.

dar y// festas. temos de hospedal-os. O juiz commissario mandou pregar o . quando puder. nós nos pagamos em gêneros. que vou despedir: em nenhuma casa de negocio da colônia o senhor se pôde empregar. Chegou em boa hora para arranjar um excellente prazo nas novas terras do rio Doce. E Roberto não oceultou a j n surpresa de ver l ' . jiorque nós aqui. ora... (rtdMi^VJlMMéAji decisivo o viajante. arranjar é$ eleitores . arranje a sua colônia e d'aqui a pouco tempo está rico. somos os que sustentamos os partidos do Estado. Olhe.. o que é uma vantagem para o colono. ou talvez por isso mesmo. e com / as contribuições da política?. acerescentou baixando ligeiramente o olhar.. vá nos mandando café. por ahi já devem vir os chefes da Yictoria. tudo isto nosvae empobrecendo : o que se ganha é uma miséria para esses extraordinários. continuou o negoI ciante. / — Ah ! isto é outra coisa. / :— Mas eu não vim com destino ao commercio. nós lhe fornecemos tudo de que precisar.. Não ha nada como a lavoura.áO CHANAAN em minha casa tenho gente demais. As eleições não tardam.àgora amável. Que vale hoje o commercio com os impostos. a nossa casa está ás suas ordens.. ^ apezar de extrangeiros.. — Como ? Vem com o plano de ir para o café ?. — u m "CõTõfTo~n'aqüeíícTTmmigrante tão bem vestido 'úv / para um simples cultivador. E o costume aqui.. que se vão abrir aos immigrantes. com o cambio. / vá para o matto. e.

Não sei o que será. de rosto de pergaminho franzido... de viagem para as terras. . Felicíssimo. Ah! esses rapazes. o senhor me pôde ser util^tefi. É um rapaz alegre.. Os olhos de Milkau deslumbraram-se á luz da manhã alegre e viva. elle. que sempre nos apparece por cá...... E. o senhor sabe. o agrimensor. chegava montada em sua mula e entre dois alforges suspensos dos ganchos da cangalha. está no Porto do Cachoeira.. o sr. Ambos atravessaram para o outro lado do balcão. pedindo a Milkau que o acompanhasse. Talvez vergonha de ter immigrado. Aqui fica melhor . dirigindo-se á escada do sobrado. jeaara outro reclamou. Na rua passava uma tropa de burros carregados de canastras de café e repicando campainhas. fazendo companhia a um moço chegado ante\ hontem ei também de família importante. Milkau agradeceu os offerecimentos do negociante e j/JÈ dispuntura partir em busca de uma ti*»*** estalagem.. Este quasi ia arrebatado no meio de agrados e cortezias devidas a um futuro freguez. A porta da loja uma velha de nariz adunco. êrgueu-se. é freguez da casa e é do partido. porém. temo» muitos commodos para hospedes. sorrindo malicioso.. O rapaz. anda triste e sorumbatico. Imar'—gmeTlôTho do general barão von Lentz. Depois. — Não vale a pena ir para o hotel.CHANAAN 21 edital para as medições e arrendamentos.. como é de uso.

. um ser privilegiado na sua pátria.. — Trago-lhe um companheiro./projectan»e-6jl de uma cabeça ampla. a natureza. sobre a viagem. disse Milkau delicadamente. o tempo. roliça como a de um patrício romano. ergueu-se para saudal-os.VNAAN Xo quarto em que entraram Roberto e Milkau. que estava a escrever. O outro explicou-lhe que vinha tudo pela canoa. como um evadido do seu próprio e grande mundo. — Pôde continuar o seu trabalho. Mas de par com este súbito enthusiasmo pela expressão esculptural d'aquella joven figura. Milkau admirava a mobilidade da physionomia do joven von Lentz e não se cançava de observar o fulgor de seus olhos fulvos.a conversar sobre coisas vagas. annunciou o dono da casa/Este patrício. devendo chegar á noite.*ul\t f> CII. o que eu estava a fazer não é urgente. E os dois se puzeram. que viera sepultar gi / * . — Não. repetiu-lhe que estivesse como em sua casa e perguntou-lhe pela bagagem. que se deseja estabelecer no rio Doce Yoltando-se para Milkau. Milkau sentia-se constrangido por ter encontrado n'aquellas paragens extranhas e remotas um filho de general allemão. um moço. Apenas matava o tempo. dominando o rosto sem barba cujas linhas eram accentuadas e fortes. E emquanto se entretinham. Roberto deixou os novos immigrantes.£iA)ClvdlhA' •21 >h) c/ í.

simplesmente caia. os creados serviam. á monotonia de um precipitado único.f das. Onde estava a Allemanha sagrada. Em todas as physionomias d'aquelles homens tão differentes. e re. de caminhar para a frente no conjuncto harmo^ nico de um só corpo. velhos de pelle enrugada.i s . moços de perpetua adolescência J^ffi via-/estampado o pensamento único de cumprir o dever pratico.. flectindo sobre a alma allemã. / *. continuava quasi em sonho. outros. D'ahi a momentos os dois novos se achavam na grande sala de almoço dos empregados do ar. as paredes. Quem sabe. Milkau lia n'aqueile ajuntamento de allemães o caracter camponez e militar que fundou a obediência e a tenacidade na sua raça e reduziu tudo o que ella podia ter de belleza. de desespero e de desillusão./ mazem e tomavamiá mesa ds^eus togares. alguns. automáticos como soldados. pensava que talvez somente se pudesse explicar a incogflita d'essa alma pelas imagens e expressões incertas da vaga e symbolica metaphysica. não tinham o menor enfeite. de elevação moral.CHANAAN \ 23 sem duvida no mysterio das colônias uma parcella de angustia. o recanto suave do gênio livre ? perguntava a si mesmo Milkau no sussurro regular do almoço. contemplando o esquadrão de homens lopos. quem sabe si não foram um dia dois espíritos que se encontraram dispa- . a pátria do individualismo..-»A sala / era desguarnecida. ao regimento de caixeiros que comiam silenciosos.

No quarto resolveram visitar a cidade. de homens e deuses. continuou Roberto. uma chata cabeça de bacuráo. baixo e moreno. nas regiões plácidas do ideal. e pairava sempre no alto. as figuras da poesia e do sonho. sem lucfas. vagarosamente. CHANAAN ratados em um mesmo corpo. acaba de . que ^^segue depois de amanhã para o rio Doce. em que os olhos negros scintillavam vivos e seccos. indicava um moço magro. e quando d'ahi a momentos passavam pelo armazém em direcção á rua. Milkau. Findo o almoço. Felicíssimo.:2i '\. a fim de fazer as medições. Roberto os chamou. cúpido. gerando puramente. divino alimento d'onde brota essa luz que ainda o illumina na sua lugubre c devastadora marcha sobre a terra. e o corpo ahi está hoje socegado. — O sr. como hospedes despreoccupados. Dizendo isto. qual uma massa de escravos. zombando de tudo. a devorar os últimos restos do gênio do passado.... sem ancias. . os caixeiros sahiram em ordem. procurando absorver o outro que voava docemente. cpm o rosto talhado em triângulo cheio de marcas de bexigas.Mas houve um momento em que o demônio da terra venceu o espirito de belleza e de liberdade. ambicioso. sem conjuncções torpes. — Está aqui exactamente o sr.. um servil á matéria. E quem sabe como foi longo e pertinaz o combate entre as duas forças !. Milkau e Lentz iam por ultimo.

.. Dependo/èeqy^l muito do sr..CHANAAN 25 chegar com o propósito de arrematar um lote de terras. e que o senhor me "faria o favor de arranjar-lhe um prazo bem situado... esperemos.. Eu expliquei-lhe que n'este momento o que ha de melhor é o rio Doce. Mas o sr. no commercio.. Os senhores quando vão? Lentz ficou embaraçado. acampamos no porto do Ingá. Felicíssimo é k que pôde dizer quanto isto é difficil. que está ígora para os lados do Guandu... e o juiz commissario. o senhor requer um prazo. e quando fôr lá pelas onze. — Como não ? acudiu o agrimensor solicito e com um gesto de quem quer abraçar. Sigo amanhã a me encontrar com a turma que está em Santa Thereza. Felicíssimo perguntou a Milkau o dia da partida.. despachaj mas / . O negocio é fácil... Esperemos. Roberto. depois de amanhã bem cedinho nos pomos em marcha. O negociante cocou a cabeça e disse solemne.. Ainda não sei afinal o que farei na colônia. como si invocasse o testemunho dos mais : — O sr. as casas estão cheias.. e meio confuso respondeu : — Para o campo ?. em murmúrio. no rio Doce.. a occasião é má.. — É só para combinar tudo e quando chegar 'á não haver demora. von Lentz prefere uma collocação na cidade.

26

CMANAAN

não precisamos d'elle para fazer a medição. Na
sua ausência estou auctorisado a tudo, até mesmo
a entregar os lotes aos colonos que os vão trabalhando... Entre nós as coisas não são feitas com
luxo... Não temos formalidades...Tudo se arranja
e legalisa depois. O que é preciso é pagar logo as
custas...
Milkau o interrompeu para se informar das distancias.
— D'aqui a Santa Thereza quantas léguas ?
— Cinco. E de lá ao rio Doce outras tantas. O
senhor deve ir d'aqui até o alto de Santa Thereza, ahi dormir e no dia seguinte tocar para o rio
Doce.
—_J$ preciso um guia ?
— Não... Estrada sem errada, e batida...
Roberto se offereceu para mandar acompanhar
o immigrante por tropeiros que iam diariamente
para essas bandas. Milkau agradeceu, dispensando o obséquio.
Deixando Roberto, sahiram os três do armazém.
Felicíssimo, que dizia não ter nada a fazer
n"aquellas horas, propoz acompanhar os extrangeiros, dando assim expansão aos instinctos da
sua nativa e tranquilla vadiagem.
Agora, o Porto do Cachoeira abrasado de sol
desvendava-se todo. A cidade era dividida em
duas partes, que uma ponte ligava, mas podia
dizer-se que só á margem esquerda era crescente,

CHANAAN

27
tava

porque do outro lado as habitações se conttm JIL
salteadas e raras. As casas d'aquella banda flí enfileiravam/monotonas em frente ao rio, e nem um
jardim quebrava a austeridade das moradas, nem
um quintal margeava os caminhos, nem uma
arvore sombreava as ruas. Pela primeira vez, porventura, nos tropicoaros habitantes de uma pequena ^ /
cidade, como essa, não conheciam os prazeres do
convívio dos animaes domésticos, nem tinham a
expansiva preoccupação da cultura das plantas e
das flores. Uma esterilidade rigorosa e systematica estampava-se no perfil das casas, que eram
apenas o abrigo de uma população de negociantes. Na rua, Milkau ia adivinhando a explicação
moral d'aquella localidade, e uma impressão de
angustia emanada da branca aridez da cidade o
turbava, pois parecia-lhe que o bafo dos traficantes tinha matado a poesia, a graça d'aquelle
canto excepcional da natureza, onde elles nfájííam
levantado as tendas da especulação. Felicíssimo
ia pressuroso, contando os milagres da fortuna
commercial d'aquella gente. — Este sobrado aqui,
dizia elle, apontando para uma casa esguia e egual
ás outras da rua, é de Frederico Bacher, chefe do
partido da opposição; é o rival e o inimigo de Roberto. Chegou aqui sem nada; hoje, veja como
está rico! E aqui são todos assim, todos têm muito
dinheiro. Póde-se dizer que o commercio do Cachoeira é mais forte do que o da Victoria... Ainda
não se deu um caso de quebra... Estes allemães

áS

Cl I AN A AN

/

têm olho... Si fossem brasileiros, esta^ a tudo arrebentado.
/
E o agrimensor continuava nesse tom, a fazer
o elogio das virtudes/germânicas para o^negocioi,
* sim», economia, »«# facilidade de assimilação, mtm
L/energia no trabalho, d^rtdo, como contraste a ellas,
o* I as qualidades inferiores dos brasileiros, quejjwíse ^
comprazia em proclamar, no gáudio de se mostrar,
aos companheiros de passeio, justo.e superior, e ao
mesmo tempo com propósito lisonjeiro. Para se
dar ar de importância e intimidade com os mora\i-r
dores, elle", de instante a instante, deixava Milkau e
\J'
Lentz na i^ua e penetrava pelos armazéns a dentro,
para trocar uma palavra com o dono da casa. Algumas vezes, conseguia arrastar do fundo das lojas
até á porta os negociantes, com quem á vista dos
novos tomava liberdades, dando-lhes palmadinhas
nas costas, beliscões na barriga e dizendo-lhes injurias por gracejo, ao que os allemães complacentes
sorriam muito rubicundos, murmurando em tom
de desculpa aos outros:— Esse sr. Felicíssimo...
Isto é um diabo...
Os três iam seguindo.assim, despertando pelos
gestos e pelas vozes altas do agrimensor a attenção
da rua, mirados pelos tropeiros que descarregavam
os animaes e pelos freguezes que procuravam as
lojas. Lentz não tinha o menor interesse em correr
de casa em casa, á maneira fastidiosa e vulgar de
Felicíssimo; e então, para se ver livre d'essa $y(']/- li,*
rjfalA. J tMwf enfadonha defa&d passos de porta em porta, '" ,

CM ANA AN

29

propoz que subissem a um dos morros que cercavam e abafavam ao mesmo tempo a cidade, e
de lá desfructassem a vista da região. Os outros,
concordaram e assim foram, guiados por Felicíssimo. Para galgar a montanha mais accessivel, //Ága/éT
tiveram de yfi.4idx além da ponte, por sobre a cachoeira cujos cavos borbotões os ensurdeciam; e os ,y./i / /
passos dos homens iabce—aTponte~dè madeira,
ff
em cima das águas que se Quebravam em baixo, MJo^f
míflam vibrações sonoras,ipoderasas/como si sobre , ^ ;
ellaCasasse o pesado tropel da cavallaria. Do otitro i» ^ ^ c
lado estava a montanha que se puzeram a subir por
uma vereda pedregosa e de cascalho solto, dando
á marcha um movimento irregular e fatigante.
Felicíssimo ia mais lépido na frente, emquanto
y
os outros, não acostumados ao calor/caminhavam
J>
difficilmente, alagados em suor. A proporção
que subiam, morriam as vozes da cachoeira, vinham ao seu encontro o hálito perfumado das plantas montanhezas e o ar leve para acalmar-lhes os
ardores. A principio, dentro do circuito dos morros,
a perspectiva era estreita. Em cima, porém, elles
dominavam a vasta região accidentada, e os olhos
dos extrangeiros tiveram um delicioso instante de
êxtase. O contorno arredondado das montanhas
cobertas de uma relva basta, rente, fulgurante,
nas suas cores matizadas, o rio por entre os valles,
o ar limpido e secco mantendo estável a atmosphera,
a força da claridade desdobrando pelas colunas
o panorama, a abobada celeste de um immenso azu

pt &7 6£.*t«*-»« Cj-fZ

30

CI1ANAAN

cobrindo docemente a terra, todo esse conjuncto
de luz, de côr, de traços dava á paizagem um aspecto total de grandeza e confiança.
Felicissimo era o interprete da região. Como
perfeito sabedor, dava o nome ás coisas e designava os logares. Milkau estava sereno no alto
da montanha. Descobrira a cabeça de um louro
de nympha, e sobre ella, e na barba revolta,
a 1 luz do sol batia, n'uma fulguração de resplendor. Era um varão forte, com uma pelle rosca
y.
/%'ve branda de mulher, e cujos poderosos olhos,
fát**<y? da côr do infinito, absorviam, recolhiam doce£y; v ~a # mente a visão segura do que ia passando. A mo- .
"*r KJ „ cidade ainda persTstuférn não/abandonalflff"íruis' *-*
^y^
na harmonia das linhas tranquillas do seu rosto
tZy&r.
já repousava a calma da madureza que ia chegando.
Felicissimo apontava em torno e ia designando
os pontos do horizonte; os outros lhe acompanha///aí_S £Uyam o s gestos rápidos e, como <ffl$fyhté', não po2^
diam fixar os nomes bárbaros e extranhos que lhes
feriam os ouvidos, mas se interessavam em guardar e accentuar as impressões que lhes vinham da
região. Para o oriente era a terra do Queimado,
cujo caminho se desenrola longo e sinuoso, ora
n'uma planice descampada e risonha, ora por entre
O^ £ rTvêfde de um mattó rara, até'um pequeno grupo
de casas que formam o porto do Mangarahy á
beira do Santa Maria, alli orgulhoso e folgado, com
águas desembaraçadas dos cachoeiras. Para

CHANAAN

31

o norte, para o sul, para o poente, as montanhas
vão crescendo, amontoando-se como massas de pintura. Alli o Guandu, acolá S ta Thereza, duas regiões sombrias, que os colonos vão arrancando do
silencio mysterioso da solidão. Sobre um valle cheio
de sol um fio d'agua cáe longo e transparente como
um grande véo de noiva. Para o poente, o Santa
Maria margea os cafesaes, as casas de lavoura/e
lucta com as lages negras que porfiam em re- /
tel-o.
^
Milkau n'esse panorama aberto lia a historia
simples d'aquella obscura terra. Porto do Cachoeira
era o limite de dois mundos que se tocavam. Um
traduzia, na paizagem triste e esbatida do nascente,
o passado, onde a marca do cançaço se"gravava ,.,i
-ina/-yffiffi' m i n g u í d ^ l Ahi se viam destroçosjffir'-e*a/
de fazendas, casas'abandonadas, senzalas em ruifl «c"
nas, capellas, tudo com o perfume e a sagração^,*/ &&
da morte. A cachoeira é um marco. E para o Am*€>»"•'
outro lado d'ella o conjuncto do panorama se rasgava mais forte, mais tenebroso. Era uma terra
nova, prompta a abrigar a avalanche que vinha.das
regiões frias do outro hemispherio e lhe descia aos
seios quentes e fartos; e alli havia de germinar
o futuro povo que cobriria um dia todo o solo,
e a cachoeira não dividiria mais dois mundos,
duas historias, duas raças que se combatem, uma
com a sua pérfida lascívia, outra com a jetrà temerosa energia, até se confundirem n'um mesmo
grande e fecundante amor...

:\2

CIIANAAN

Elles desceram da m o n t a n h a ; e entravam pela
cidade, quando os armazéns se fechavam para se
reabrirem depois da hora do jantar. N'esse m o mento, via-se pelas ruas um movimento maior
de «jente que deixava as lojas e se recolhia ás
casas.
— Aqui, perguntou Lentz ao agrimensor, quasi
todos são allemães ?
— Sim, poucos brasileiros. N o commercio,
póde-se dizer, não ha nenhum.
— Então, em que se occupam os brasileiros do
Cachoeira? indagou Milkau.
— Os que temos aqui são os do foro, os juizes,
escrivães, meirinhos. Outros são t a m b é m empregados públicos, collector, agente de correio
J
— E professores ? perguntou Lentz.
— Só um, porque a língua que se ensina por
essas mattas é o allemão, e os professores são
allemães, com excepção do da cidade... Padres também não temos, nem egreja, como devem ter
reparado. T a m b é m não ha necessidade, porque
raros são aqui os catholicos, e para os .protestantes ha três pastores nas capellas do L u x e m b u r g o ,
Jequitibá e Altona... Os catholicos do município
são o povo do Queimado do Mangarahy e outros
pontos, onde está hoje a gente antiga da terra.
Felicissimo continuava a dar noticias do logar;
os outros ouviam-no em silencio, e a conversa se
foi assim espreguiçando até chegarem á porta
da casa de Roberto. 0 agrimensor se despediu,

por motivos d'elle não per^^°u°^ cebidos. os dois novos subiram ao quarto. Mas não. /. scismando. e uma saudade extranha. A .. explicava o mysterio dos quadros sonhados e nunca vistos. como era o costume alli. emoção ^ffd\ do encontro com o seu recem-che. N'essa hora ^^Mnf^M^^t excedisCa si mesma.. segredando-lhes.. rio. //§_ incapazes de sahir á rua e de se ji metter ás priJ/\~ meiras horas da noite na fabrica de cerveja. já tanto o seduzia e tf prendia. calma da tarde immobilisava Ííl4fjttâ. Os dois immigrantes contemplavam em silencio. é segu"4-0|j ramente a primeira vez que conheço. que. Lentz sentia-se esbraseado e abalado pela jy. dando-lhes!' /// \j£ a tranquillidade.. Depois do jantar.CHANAAN 33 promettendo voltar no dia seguinte para os acompanhar em novas excursões. este torpor instantâneo./ "/ mando / expressão serena da arte. que /d fif⣠j^/ff^Sl como y p * * * 1 ! o almoço. . disse Milkau. e/// o\ que se percebe vae passaF d'aqui a pouco. »^V! — E por quanto tempo aqui ficaremos ? disse o \yI ar Vil . Milkau estava fatigado da viagem e do passeio do dia. /-?Sentaram-se os dois junto á janella aberta. e sombras leves vinham envolvendo o mundo. . . este ar. a nostalgia de illusões que alli se realisavam agora.fpr^â1' gado patrício. o repouso e a fixidez das pinturas. \j — Parece que já vi este quadro em algum 4| logar. to. Os primeiros IQ &L£^ perfumes dos mattos da redondeza desciam para' sy*JL>o es embalsamar o panorama./ 41 este conjuncto ff^pfH-. na outra margem do.

Além disso. com suas fôrmas grosseiras. em torno de mim desejarei uma harmonia infinita. — Mas nada o agita ? Nada o impellirá para fora d'aqui. e a industria no velho continente.. E si aqui está a paz. — Aqui fico. 0 senhor persiste em se dedicar aos negócios ? — Xão sei bem o que faça. Procuro uma vida estável e livre.. respondeu Milkau. — Não meço o tempo.34 Cl I AN A AN outro n'um bocejo de desalento//o^folharyáj/fyVi preguiçosamente sobre a paizagem. sua posição intermediária na sociedade. — E então por isso que vae para o matto? Não seria melhor ficar aqui no commercio ? — Não... e o commercio é torturado pela avidez e éambição... é a paz que procuro exactamente.. Estou indeciso â irresoluto. Eu me conservarei na humildade. seus estímulos baixos. penso que o trabalho digno do homem é a lavoura nos paizes novos e férteis como este. e agora espero que este seja o quadro definitivo da minha existência.. 0 commercio não me attráe.. e tenho a alma do repouso. que é uma sepultura para nós?. fora d'esta paz dolorosa.. Sou um immigrado.. Penso que si o commercio pôde ser um * / . este será'o meu ultimo movimento na terra. Não me sinto solicitado sinãó por coisas mais simples e approximadas da situação do futuro. porque não sei até quando viverei..

dando á physionomia uma expressão de rancor t.. com espaços longos de sombra. como em uma grande scisma . pois esse é ainda até agora o meu destino.. que me não queixarei de ficar só. faremos uma sociedade . o seu rosto / não tinha serenidade.*.. Podemo/re<juerer \frA mesmo prazo. Parecia que ^ét^f^aiSMír^^a. deixando-se levar pelos bons impulsos da sua confiança abundante. que as multiplicavam em seu espelho tre. .\ gador que ha em cada homem. é também umW ' caminho baixo e vil. as linhas estavam perturbadas.-fc. disse ao uya joven „*> companheiro: ' / — Porque não iremos trabalhar no rio Doce ? 0 senhor talvez se achafW ahi mais feliz e mais j^Á-/ independente..come não temos família. \k {Mfffftl Ferdia-se na noite o seu / ° ^ \ olhar. e./ . // monólogo intimo e doloroso. e ^ i n q u i e t a ç ã o .CHANAAN 35 meio de fortuna e de dar vasão ás ancias de jo. eu talvez me abalançasse a ir trabalhar na lavoura. n'um *^ f esforço de ave ferida para pairar nas regiões do seu sonho. Qti A cidade estava illuminada frouxamente.. medo do tédio da matta e da morte fla agitação. poderá partir. Milkau apiedou-se d'aquelle silencio afflictivo e./ff enoVauxiliaremos mutuamente. E si se arrepender. jyf. <\ mulo... Lentz. f$<f>p. se prolongava a \ fll w? queixa contra o destino e elle se debatia em vão >' /*£f uy dentro dos muros fechados da sua sorte. mas em outros pontos as luzes da rua e das casas cahiam sobre as águas do rio. ityfatffflffl e/não fosse o J o .

Esperava que elle reflectisse mais. era também a seducção intellectual por esse companheiro de acaso. que lhe parecia .emoção. antes de se determinar a acom/0 panhal-o... Milkau não quiz insistir e delicadamente desviou o avssumpto. que era pouco antes a sua alma... Todavia não // a^eAttfQuiz de um modo Jtfyfefárf e imprevisto decid r a sorte do outro immigrante pela sua. Eu lhe agradeço muito. Pelos lábios de Lentz passou um sorriso tão suave como franjas de um lago manso em que rapidamente se transformaram as fúrias de mar revolto. E também se alegrava por si mesmo.. tem-lhe agradado a terra? esta verdura de primavera ? o esplendor do sol ? a vegetação possante ? . que por or-gulho procurava domar. veremos. e cujos desígnios revelavam pelo menos uma alma em aspiração.tão intelligente. na perspectiva de ter um fl/j/í /^cortjpanheiro/precisas^/de amparo e conforto no " exiíiò. — Sim. porque sentia os seus instinetos de communicação espraiar-se no convívio d'aquelle rapaz. murmurou n'uma. Milkau regozijou-se.36 / CII AN A AN //> Estas palavra^jgjjgg? brandas e boas. Pasfo sou a conversar negligentemente sobre outras in *f*^-— Então. Porque não?.. Em Lentz o que/predispunha a acceitar a ' companhia de Milkau era a indecisão em que estava de se abandonar á vida rude e mesquinha de caixeiro./7oram ditas com muita pureza de coração.

logo que cheguei ao paiz. E com um gesto de mão sobre a cabeça. Sempre este amarello a nos perseguir. 3 . sem passado.campos europeus com suas mutações.M/ando facilidade. ^ $ f — A Europa tem a tradição. sua água límpida e borbulhante. estive de passagem em Minas Geraes. Aqui não ha descanço para uma suave matização da côr. mas eu prefiro os .. levando o plano de me estabelecer alli. atalhou Milkau. com suas margens incultas.. o seu colorido mais distincto.. e ha de amar esta natureza até á paixão. Eu já venho de longe e cada vez a admiro mais. ^cAt^ . Fora d'ella não sei si o Rheno vale o Santa Maria.. —'• Oh ! este sol implacável!. tudo isto é forte e bello. — Em que logar de.Minas esteve? — No Oeste. João d'el-Rei é uma impressão única..CHANAAN 37 — Sim.... o seu quadro de montanhas.. seus chorões curvos. sem lendas. que nos priva da liberdade de julgamento.. — Breve se acostumará. reflecte em mim por seus •próprios merecimentos tanto encanto...' mas não édérâ. que. — A h ! não é esta a primeira vez que vem ao interior do Brasil ? —r Por este lado é a primeira vez. Antes. dirigi-me para cá. S. Lentz parecia querer arrancar de si a obsessão da luz omnipotente. E foi uma grande viagem para mim.

.. e eu a recolhia *. I quasi em êxtase como si fosse uma antiga e revivida sensação. e o seu rumor egual e constante passava imperceptível aos ouvidos de Lentz. mas. No Cachoeiro era silencio/a luzdas casais 'Tiy. — Alli me pareceu ter eu penetrado no passado intacto do Brasil. — Logo á primeira madrugada o meu somno de viajante fatigado foi cortado pelo repicar de sinos de muitas egrejas.. Lentz embebeu-se nas palavras de Milkau. Oh ! Foi uma volta deliciosa aos tempos mortos hoje por toda a parte e que ainda lá prolongam a sua vida. pois parecia que era entendida por uma alma longínqua que se despertava dentro de mim e tomava posse. os lampeões da rua espaçadamente ponteavam de luz as sombras da noite diaphana. embalado pelas caricías do somno. . da noite de verão que é apenas um instantâneo descanço do dia.. do meu ser. Deixei-me ficar deitado. o que me produziu um doce encantamento. essa musica extranha não me feria.38 CHANAAN >J — Como ? interrogou curioso Lentz. Como a todo o homem habituado ás grandes cidades modernas. E sonhava .. noemtanto. O espaço estava cheio de sons. que começou a contar-lhe a sua visita á velha cidade mineira. a musica dos sinos me era desconhecida na força e na sonoridade que tinha naquella manhã.apafffrr-f... A cachoeira mugia sempre. todo á escuta da narração de Milkau.

a cidade fugia da terra ff-&carregada nas harmonias. Uma cruz negra envolta nas do/ « . A^»^*y Milkau continuava a falar da velha cidade mineira. procurando a calma. faAa^ por pequenas cruzes negras nas paredes A desbotadas. irregular e feio. tudo falava de religião. se deparava de instante em instante com uma egreja... As casas acompanhavam esse tom severo e desprentencioso e eram mar-f . homens e coisas*. E eu sonhava./ _ / erguidas mais pela necessidade da devoção que pelos carinhos da arte. voava para os céos cantando. que elle definia como um santuário.. mosteiros. todos ligados pelas vozes do campanário. um padre sahia á rua acompanhado da multidão cantando rezas.\ dotal. A edade média se representava no meu sonho : povoados.. castellos feudaes. a natureza «/***" despertada pela alegria dos sinos se volatilisava e líbrava^è leve no ar.. O espirito da religião alli localisado dava-lhe o caracter e a significação. ouvindo repicar. Dentro do seu recinto montanhoso. N'esse tempo. . i que marcavfi no espaço a vida e a morte. tristes. devotas procurando a solidão dos altares../ sas preoccupando o povo e divertindo-o durante / o anno inteiro..CHANAAN 39 o ar leve da montanha fluctuava como si todo _ elle estivesse impregnado de musica. egrejas freqüentadas quasi todas as horas do dia. Na quaresma a irrupção religiosa era ainda mais crescente. as festas religio. ás noites.. Tudo alli tinha um aspecto sacer. o somno e o esquecimento. todas ÇUAS/ singelas.

o povo seguia rezando pela rua em um murmúrio $/è. (MilkaÍT recordava) costumava desfilar um cortejo de seminaristas em férias e. fazendo coro ás orações começadas pelo padre. n'um relâmpago se descobriam. os rapazes erguiam a cabeça com altivez para o céo. e quando chegava aos passos. acariciada pela brisa fresca das alturas. oratórios abertos sobre as ruas. Nas tardes deverão. E lá ia a via sacra percorrendo os passos da cidade. esse cordão negro succedia cruzar com o bando infantil e branco das collegiaes dirigidas por irmãs de caridade. meia dúzia de tochas accesas... implorava n u m sorriso : misericórdia! Cercada de morros a cidade era guardada ainda por egrejas postadas nas alturas. e era tudo. . na mais completa e bella confusão de classes. cantava musicas suaves e ingênuas. N'uma devoção alegre e radiante. E si á hora dsfavemariaíum devoto retardatario passando por aquellas montanhas saudava os seminaristas em nome de Christo. illuminada pelos raios da" lua. A multidão.fâjfyftdo ^f?00W> peito um grande.. até se sumirem no horizonte.. sobre os quaes iam descrevendo longas e marciaes theorias. subindo e descendo pelos morros. ás vezes. fervoroso grito. os dois grupos não se approximavam/^desviavaniyreverentes.40 //JofZZ y*ÁrV </al /•> l"^ /a4 ' /// CHANAAN bras alvas do sudario. Pelas encostas das montanhas subiam os devotos em romarias piedosas aos santos padroeiros das capellinhas humildes. ajoelhada debaixo-do céo límpido. como de atalaia.

vae aca- ...alli que deviam ser zeladas como relíquias das melhores paginas da historia de uma nação. limpo de coração. e povoadas dos restos de outr'ora. Rematou Milkau esse quadro com algumas reflexões. de ouro e de sangue. — Dou-me por muito feliz em ter ido a tempo de vêr tudo isto.CHANAAN U que a solidão da tarde'no deserto tornava solemnc : Para sempre seja louvado ! A cidade ainda falava a outras tradições do a£Lvelho Brasil. sulcos abertos e profundos indicavam a passagem ' jL do homem terrível que por alli desentranhou o ouro. porque não muito longe esse conjuncto de poesia. a poesia da liberdade e da grandeza de todo o paiz. t por ellas passaram martyres. reconstruindo no espectaculo d'aquella paragem morta todo o quadro de uma epocha feita de escravidão. Ha casas .. Sobre o fjxí terreno accidentado. Â""^^agem_gstá toda /Usignalada éúad.. nellas viveram sonhadores./-£y tjj&s) cicatrizegfdli^erra ferida que assim maltratada e ' hedionda clama ás gerações de hoje contra a devastação do passado. f/'v /JA.. O homem moderno. e os habitantes do logar ainda sabem ler nas paredes d'essas casas conservadas. de tradição nacional. não deixará de sentir um frêmito de terror. E essa mistura de fé religiosa e patriótica dá um caracter distincto áquella antiga cidade. purificando-a momentaneamente dos vícios em que se vão dissolvendo as outras.

é com dòd que sinto estar prestes o desmoronamento d'ax[uella cidade circumdada ^iá*w4zL de colônias extrangeiras. Falando-lhe com a maior franqueza. a civilisação d'esta-terra está na immigração i <j de europeus/mas é preciso que cada um de nós traga a vontade de governar e dirigir. lenta.. que a&ijrffáfyá lentamente até um dia vencel-a e transformal-a sem piedade. disse Milkau. E por ora nós somos apenas um dissolvente i_ / da raça d. de substituir por outra civilisação toda a cultura. E provável que o nosso destino seja transformar de baixo acima este paiz.. está escripta a nossa grande responsabilidade. nós nos mistu- 7 ^ísXl^f-/ . nos espalharemos sobre ella. — Nas suas palavras mesmas. mas terrível em seus projectos de ambição. de energia que em si contem do que os logares mortos de um paiz que se vae extinguir. A velha cidade mineira da sua narração não me interessa. a cobriremos com os nossos corpos brancos e a engrandeceremos para a eternidade. pacifica em seus meios. —I Mas isto é a lei da vida e o destino fatal d'esse paiz. Nós renovaremos a nação. a religião e as tradições de um povo. os meus olhos se projectam para o futuro.12 CHANAAN xJAJfaAA^f/J bar.. Nós penetramos na arga-massa / da nação e aVamos amollecendo. É preciso que a substituição seja tão pura e tão luminosa que sobre ella não caia a amargura e a maldição das destruições. tenaz. Na verdade. Porto do Cachoeira tem mais significação moral hoje pela força de vida.estdj£eáz. E uma nova conquista.

vindos de toda a parte trazem na alma a sombra de deu. O remodelamento vae sendo demorado.CHANAAN 43 ramos a este povo..... uma civilisação cáe e se transforma no desconhecido... os velhos sonhos da raça. quando elle sente que não se desdobrará mais até ao infinito. os longínquos e fundos desejos da personalidade emmudeceram. indivíduos.... a lingua vae morrer. o pae não transmittirá mais ao filho a sua imagem. . os pensamentos não se communicam. Toda a lei da creação é crear á própria semelhança. E a tradição se rompeu. o futuro não entenderá o passado. Tudo se desagrega.. Ha uma tragédia na alma do brasileiro... as línguas estão baralhadas. os homens e as mulheres não se amam com as mesmas palavras. todos são extranhos.. / ses differentes.->... Ninguém mais se entende . matamos as suas tradições e espalhamos a confusão....

E. sentiram pelos olhos o véo de uma ligeira vertigem. murmurava então Milkau. disse Lentz. d'ahi a momento^ fflkL morria na bocca da matta.. E os dois caminhavam afastando-se do Porto do Cachoeira na direcção de Santa Thereza. fuzilar relâmpagos de sol. passeavam errantes as sombras das nuvens . na câmara rubra das pupillas. que o sol se não apagasse.. e então admiraram. n'uma paizagem accidentada e limpa. onde. — Quem me dera.k II — Não vejo nada claro. Milkau e Lentz. Pouco a pouco elles se recompuzeram. sentia dentro das palpebras. <$> penetrarem na escuridão repentina e fria. A pátria do homem devia limitar-se a um canto da terra onde não houvesse sombra. fechando os olhos feridos pela luz grandiosa do dia. . A principio a estrada cortava por cima de pequenos morros descobertos.

que a rija e bella progenitora. compacta e atrevida. y . quando outras lhes saem ao encontro. procurando emparelhará^ com as eguaes e desenhar a linha de uma ordem ideal. e tudo se expande sobre a terra.011 AN A AN • 45 A floresta tropical é o esplendor da força na desordem. l1tny\ traçando um raio de sombra para acampar um iJí. E tudo se ergue. que lhe sáe do regaço e mais esplendorosa. e mettendo «•«J^4"^. umas erectas.^ a rnesmo arvores que são mães de. f^uesquadrão. Dentro. Toda aquella vasta flora traduz a . ífííé de membros asperrimos. ] .a cabeça por cima do immenso chão verde e tre^ } " i ' mulo. *y I arvores e supportam com fácil e poderosa galhardia a filha. que é a copa de todas as outras. com a graça de um adorno e de um Jjh£$l ^ fà$$$. Arvores de todos os tamanhos e de todas as feições. estas de tronco pejado que cinco homens unidos não abarcariam. força para a expansão da maior belleza O * / de cada uma. interrompendo a symetria. ás vezes. Arvores. dentro do bojo de outra mais ampla e opulenta. Não se sente n'ella sombra de um sacrifício que seria o triumpho e o prêmio da morte. é uma florasinha miúda. arvores que se alteam. Ha seiva Vlfrff P a r a tudo. as -parasitas se enrascam pelos velhos troncos. Uma infinita variedade de arbustos cresce ás plantas dos gigantes verdes. entre ellas se curvam e derream até ao 0/. aquellas tão leves e esguias erguendo-se para espiar o céo. umasL^. enorme. compondo um conjuncto brutal. \ chão a farta e sombria §oma. *" antigüidade e a vida.

tal como o aroma das cathedraes. das flores selvagens. mas a gradação da sombra. y fortes e indomáveis raizes. e de uma luz zodiacal e 0é?fâffi\. dos animaes occultos no segredo da selva. em cada bocca da estrada.r £ d a m a t t a . dos pássaros.46 CHANAAN 'entretecido no alto pela <éfêè$&fâf basta e densa Co**** das arvores e embaixo pela rede /&$$$(# das v'' .. pela transparência das folhas. profundo. da resina que se derrama vagaJ-O / rosa jíek/longo das-arvores. dos troncos verdes e dos troncos carunchosos. e. das orchideas. tão sereno que parece eterno. e nessa fòtât illuminação se desenrola ' dentro do matto o scenario pomposo das cores.(iíC. emjl/Ú <4. Na volúpia harmoL. Pelasfrestas das arvores. das folhas novas e das folhas mortas. está a fonte do jfepejW ^ .r&nita. dos insectos. ****... se desfyjfrffá um cheiro mysterioso e singular.° s i l e ncio que mora na floresta é tão . das parasitas.b r i a g a e adormece fa fMfft.. que ora avança.. as portas da matta formam um circulo longínquo azulado. desce uma claridade //{ do<*<discreta. enroscando-se pelos braços gigantescos. aZá/que se volatilisa e se diffunde no immenso todo. De todo o corpo colossal. todo elle se entrelaça. com '&•*«*-Ka claridade que é branda. prendendo-se como por tenazes n'uma grande solidariedade orgânica e viva. Feito 0* l á^trxj^^ . acalma. JQaesr •me*/ commumca/da negrura do verde ao desmaio do / branco a matização completa. triumphal.. E lá.niosa d'esse perfume.. ora se afasta. que é acre e tonteante.. como portas feitas só de luz.. Elias são em si vivas e quentes. .

. então o jeiro farfalhar d'ellas corta a doce combinação do yfilenfiou.. e os viajantes que caminham. e m si o tédio das coisas eternas. A floresta européa 4~/fér. conti-jf . /i E.. sahindo do seu espanto.j ^ / ^ vozes baixas. transforma-se infique ^ f o r * * — Mas/dfâf espectaculo de uma grandejn brasileira 4 TOnmhrnlifti nWTTÉl interrogou Lentz yV . voltam-se inquietos. dos movimentos l^tr f*M+ó rythmicos dos vegetaes. Ella tem ^ ^ .tory nuou : <fr — Aqui o espirito é esmagado pela estupenda magestade da natureza. a frente. dos murmúrios. E. pelo? nervos de todo o matto perpassa um arrepio. aquelle que se perde na / <>' adoração é o escravo de uma hypnose : a personar ^Lton-lidade $fó<0$ para se difFundir na alma do Todo. é completo e absoluto na sua perfeita harmonia. Si por entre as folhas seccas imontoadas no solo se escapa um réptil. sentindo no corpo o frioelectrico e instantâneo do pavor. cheios da solidão augusta... / -«***<* f^jT"" A floresta no Brasil. çfá$ contemplação. a paizagem européa. é sombria e trágica. afinal.é mais diaphana e passageira. Milkau replicou : — A sensação que aqui recebemos é muito differente da que nos deixa. Nós nos dissolvemos na ^ /. mirando r/atf/ o alto e Mf^. ha no ar uma deslocação fugaz como um relâmpago.7 / ' CHANAAN *~f~j>~ tZr*»~ 4 7 ^ .. — Extraordinário ! disse Lentz..

'/ / rancia.. até hoje soube definir a raça e ainda menos como se distínguen^ umaSfiüas outras. com essa violência... e afinal nos constrange. e ainda assim é o esforço do europeu.. MILKAU. — Ora.. Vê.ki-J . E1 a civilisação não se fará jamais nas raças inferiores. porém. essa exube'(..j: região do assombro. fazem-se sobre isto jogos de palavras. como o homem vae triumphando. mas que são como esses desenhos de nuvens que alli / ( h^c^^tLA. tal espectaculo nos priva WÇy+rla^ da liberdade de ser. 'Zr^—^que succede com esta força. Nós passamos por aqui em êxtase. interrompeu Milkau.. Ninguém. 0^M0á^'é ^ -i a tocarm s a ° ° . é um embaraço immenso. J£ o/&..CIIAN \ A N .. esta luz. tu sabes bem como se tem vencido aqui a natureza. — Mas o que se tem feito é quasi nada. O homem brasileiro nãò é um factor do progresso : é um hybrido.. a historia. não comprehendemos o mysterio. Lentz exprimiu alto o que ia pensando : — Não é possível haver civilisação neste paiz..K. esta abundância. Passado algum tempo. os olhos de ambos a se desmancharem de admiração. ! t / £/ A terra só por si. E mudos continuavam a caminhar pela estrada coberta. \ f4-/$1*- Um dos erros dos interpretes da historia está n" Ctejuizc/ aristrocratico com que concebem a idéa Me raça.

depois.. Jamais a África./J /'' pia farta e alquebrada. é junto ao Sena e ao _~ Tâmisa que a cultura se e^goLrlThoje n'uma volu. inVf+tU LENTZ. qual é a raça privilegiada ^kfijtyf/sò #•*• f~*£ ella fó/d o theatro e o agente da civilisação ? Houve 2 f \ .. n'uma fatal apresentação gradual de grandes trechos da terra. para que me volto ancioso e interrogante. selvagens. indo de grupo a grupo atravez de todas as raças. que está o repouso conservador. Uns se vão i\\uminando. MILKAU.. á sua luz e calor. E. o hindu nas margens sagradas do Ganges/ e elles eram a civilisação /< t o d a ! o resto do mundo dfy a nebulosa de que se '/ jjf~não cogitava.. no emtanto. transfundindo de corpo a corpo... Até agora não vejo probabilidade da raça negra attingir á civilisação dos brancos./frjírÍÁ0fg outros descem ás tre. £ um tempo na historia em que o semita brilhava -tf^s-Jo em Babylonia e no Egypto.//àw ****Vas.o produeto d'essa o /-/* . é a civilisação deslocando-se sem interrupção. E.. O tempo da África chegará. apparições phantasticas do nada. o milagre do rejuvenescimento da civilisação.CIIANAAN 4D vemos no alto... é no encontro das raças adeantadas comas raças virgens. O que eu vejo n'este vasto panorama da historia. O papel dos povos superiores é ds&^ instinetivo impulso de desdobramento da cultura. As raças civilisamse pela fusão..

. por europeus. Será sempre uma cultura inferior. r s? ^j^-ir A substituição de uma raça não é remédio ao vfêfZy* mal de qualquer civilisação. Não acredito que da fusão com espécies radiÀ//>r*e*'u*' calmente incapazes /$. civilisação de mulatos. está na substituição de uma raça hybrida. Eu tenho para mim > / ^ que o progresso se fará n ^ m a ^ ^ ^ ã o constante / / e indefinida. é antes de tudo uma questão complexa. passada a treva da gestação. Allemanha. a civilisação será sempre um mysterioso artificio. A immigração não é simplesmente para o futuro da região do paiz um caso de simples esthetica.50 CHANAAN fusão que. Foi assim que a Gallia se tornou França e a Germania. como a dos mulatos. todos os minutos roto pelo sensualismo. Emquanto não se eliminar a raça que é o producto de tal fusão. N'esta grande massa da humanidade ha nações que chegam ao maior adeantamento. leva mais longe o capital accumulado nas infinitas gerações. outras que apenas . depois definham e morrem. pela bestialidade e pelo servilismo innato do negro.yX^ rv MILKAU. LENTZ. O problema social para o progresso de uma yi região/como o Brasil. que interessa o futuro humano. etefnos escravos em revoltas e quedas.($(£ uma raça sobre que se possa desenvolver a civilisação.

tenebrosa e forte. das nações.CHANAAN 51 esboçam um principio de cultura para desaparecerem immediatamente. LENTZ. segundo varias solicitações do meio e da epocha. o* progresso artístico não deixa de ser maior... As vezes. A arte.. Si a verdade estivesse na conclusío contraria. formado dos povos. das raças. Quando não ha um trabalho á flor das coisas. mas pelo facto de não florescer certa fôrma de Arte. Como ? Então o contacto dos povos da arte com os selvagens determina um precipitado que excede áquelles na capacidade esthetica ? MILKAU. então a humanidade teria retrocedido depois do período do grego. ha uma elaboração subterrânea. é n u m ponto isolado da superfice que se dá a opacidade das trevas. pôde diminuir ou augmentar em alguma das suas expressões. ' e os seus eclipses. E a fatalidade do Universo que se cumpre n'esse todo que é uma parte d'elle.. e da renas- . mas o conjuncto humano. <ksdnão <M-J pára em sua marcha. luminoso e doce. caminha progredindo/sempre. e pela fusão um povo ahi se iVrina recapitulando O a civilisação desde o seu porito inicial e preparando-se para levar o progresso mais longe que os povos geradores.. Lentz. os seus desmaios não são mais que períodos de transformações para epochas fecundas e melhores.

aquelle que faz tremer o solo. Essa civilisação. da fraternidade. porque até agora a historia não conta epochas tão felizes para a Esculptura e para a Pintura. Quando a humanidade partiu do silencio das florestas para o tumulto das cidades. . de toda a liberdade e da própria vida. a força é eterna e não desapparecerá. Mas toda a questão está na comprehensão do progresso moral. esse ét homem e senhor. é a ligação do homem ao homem. No principio era a força. LENTZ. diminuídas as causas de separação. O fim de toda a sua vida não é a ligação vulgar e mesquinha entre os . veid descrevendo uma longa parábola da maior escravidão á maior liberdade. e que/elle próprio i uma floração da força e da bellezá. que se entrega a uma livre expansão dos seus desejos. / 3 / Não. MILKAU. LENTZ. cada dia ella subjugará o escravo. O homem deve ser forte e querer viver.CIIANAAN cença. Milkau. que é o sonho da democracia. no fim será o amor. é uma triste negação de toda a arte. Todo o alvo humano é o augmento da solidariedade. 11 . e aquelle que um dia attinge a consciência de sua personalidade. aquelle que na opulencia de uma poesia mágica cria para si um mundo e o gosa.

Mas para ahi chegar. é apenas um factor preexis.. o rebanho. o estimulo.. o que elle busca no mundo é realisar as expressões..<****~ É /> 1 -*" " * tente e indispensável ao conceito social. Oh! mas essa dôr deita gottas de amargura sobre a victoria. amor?Viver a vida na egualdade é apodrecer n'um charco. o que é soberano. esta é o verdadeiro apoio. Que importar/í a solidariedade e o.. LENTZ. que caminho não percorreu o homem!. e sem a liberdade não ha ordem possível . não pôde haver sociedade sem ordem. como calculo sem números . mas será instável. Xão. ' o que tem sua integridade completa e fulgurante. para conduzir como chefe. a busca e a realisação da liberdade como fun."7 damento da solidariedade são o fim de toda a existência'. o que é omnipotente. /• ^*»'« d" diiifí mmt de uma sociedade. nasce e cresce na dôr. como pastor. /u/ / . tfftfljW cujos nervos não se contraem nap agonia/ o que é sereno $j' e não soffre. as nobres.. os sonhos e as visões' do poeta.. 1/} I"^ / MILKAU. Toda a marcha humana é uma aspiração da liberdade. A ordem não é / / ^ M S £ £ ~ tíjjt um principio moral.. a harmonia existirá por momentos. o verdadeiro homem é o que se libertou de todo o soffrimento.CHANAAN 53 homens. mesmo n um regimen de escravos e de senhores.. as inspirações da Arte. indomáveis energias. A liberdade é como a própria vida.

nem pobres. nem ricos. nem simples têm o seu quinhão de alegria. //?' ^*^*St7 w il sJ 1 IA li I '""^Tzffipfmrfflffl'1 P e n s o 1 u e devemos voltar atraz.CHANAAN o que não ama. Elle é a fonte do amor.Omal é universal. que nos mata depois de rios. como queriam. nem escravos. apagar até aos últimos traços as manchas d'esta civilisação de humildes. e nem senhores. mas sempre tristeza e deses pero. essa gotta de agonia é bastante para condemnar todo o fundamento da communhão. Eu vejo na exaltação das tuas palavras que ha em nós uma tristeza diversa deante do quadro da vida dos homens.. purificar-nos do seu veneno. a atmosphera é irrespirável. O que nos une solidariamente na humanidade é o sofTrimento.entristecer— MILKAU. de soffredores. ninguém está satisfeito por estes tempos. de satisfação. Ha uma crise em tudo. e não se pôde substituir a sua consciência fecunda pelo império de uma insensibilidade feroz. o próprio solo é vacillante e tremulo. da religião e da arte. LENTZ. nem cultivados.. MILKAU. porque o amor é um desdobramento doloroso da personalidade. No meio de confusas . todos se lamentam. E quando n'uma sociedade o indivíduo soffre. de doentes. o mundo está abalado.

e lépido então fui buscar o perfume e os alimentos que.. uma vez perdida. A sombra do passado penetra demasiado na morada do homem moderno e enche-lhe a casa de espectros e visões. não volta mais. Mas eu não esperei o seu passo vacillante e tardo : despi a minha roupagem pesada.. e á Allemanha nada mais te prende ? . mensa. Tudo se confunde. Uma civilisação de guerreiros persiste no meio do surto da alma pacifica do . elle .. E á Europa. póde-se acaso JnMdlar a harmonia soce.. Deixei o que era vão. família.+ homem.H gada e doce da vida ? A religião foi-se. E como dentro em mim ar&flr*^ é doce a salvação! LENTZ. n'este contacto extranho de sentimentos tão vários. vem avançando a medo ' como um ladrão nocturno. vagaroso e divino. como o próprio tempo. LENTZ. E para ahi chegares?. uma civilisação superior? MILKAU. ytffâtfyjlL-dindo aos homens. sociedade. ella é do tempo e. E o futuro.# **$%.... Deixaste pátria.CHANAAN 55 aspirações./tr-^~ geiro do gesto consolador. .. fá mistura e il repelle f'J/ n u m torvelinho de desespero. que o detêm eé perturbam.

dia e noite ligados. 0 que a Europa nos mostra. Somente o que'ellas têm de grande no P a s sado. é apenas um prolongamento desharmonico das forças de hontem e das solicições do presente. e as imagens que d'elle conservo no fundo da minha pupilla são de um homem feito de sorrisos suaves e inextinguiveis. mas/como a maior parte d'elles. De que cidade da Allemanha és tu? MILKAU. Mas isto é o incorporeo. E' a obra da imaginação e da memória. Elle era um professor de collegio.. como fôrma da vida. indeciso em sua vasta cultura escolar. era a própria doçura. Vejo-me ao lado de meu pae. como o corpo e a sombra. Meu pae. Sou de Heidelberg... LENTZ. Não comprehendo como por um acto de vontade se possa trocar Berlim pelo Cachoeira. é o invisível. e de lá guardo as minhas mais longínquas recordações. mas o pudor da audácia ff- . reside na dupla consciência da continuidade e da indefinidade do progresso.^0 Crfíeu culto ao que é humano é activo. um d'esses universitários muito instruídos. tinha uma intelliencia subtil e aérea.5(i C MAN A AN MILKAU.. Lentz. e eu não preciso/sentar-me sobre as ruinas para amal-o.

e / /~ d'esse excesso de concentração^^hefveiiAi morte. MILKAU. Ella foi mesquinha de dôr.. E n'esse tempo que edade tinhas ? MILKAU. Eu sahia da universidade e entrava no mundo quando meu pae morria.. Oh! como elle mesmo creava barreiras ao seu espirito ! Os preconceitos chegavam-lhe ao appello da sua timidezlt í/}àf(é /illjftí > $f acariciava/como si fossem numes protéctores. LENTZ. > Mas em tudo isto havia uma infelicidade funda. Ai sfuas ex-///<J* * pressões nunca transpiraram o sarigue de todo o seu amor humano. *W Depois de três annos..... Foi o perfume que guardou no « y / ^ i n t e r i o r dd j&üt alma sem transfundil-o além. / ^ que lhe devia ser o amargor da vida. e por isso todo o seu grande capital de bondade e de amor ficou sepultado no fundo do seu coração. /-Jr LENTZ. Minha mãe com lagrimas molhava noite e dia as saudades plantadas no seu coração. E então?. d'essa existência. Elle continha e refreiava a imaginação. entre a .CM ANA AN 57 o entorpecia. e eu amei-a até á sua morte como uma filha tamanhinha e mofina. e o mundo o ignorou.

$$fi vertiam lagrimas e suavam sangue. E nunca amaste a mulher? MILKAU.. E no emtanto ella fugia de mim . parti de Heidelberg com a alma cheia de um grande silencio. Em vão? Não sei. meio êxtase mystico. de tanto amor consumido por uma sombra. bens e males da minha vida eu attribuia só a esta influencia poderosa e mortificadora.. Não.a fôrma dos pequenos e intensos martyrios.. LENTZ. O que ha em mim de sentimento religioso se desenvolveu então na adoração d'aquillo que eu buscava. mas. todos os meus estudos.58 CHANAAN recordação e a piedade. LENTZ. Como estremeço ao lembrar-me de tanta vida. os meus brincos. Longos tempos se passaram n'essa enganadora caça. Quando volto ao meu passado. Comecei a ouvir os accentos da minha própria voz. essa paixão de infância foi meio doença. os meus sonhos de creança tiveram [Q. E não te veiu ao encontro uma voz de mulher ? MILKAU. é ainda esse trecho do caminho da vida que mais me deleita : . Aos dez annos o amor começou em mim.. como tudo/que nasce prematuro..

Pouco a pouco estes sons perdiam a doçura melancólica e se confundiam com gritos humanos e tropel. o único. que lhe embaraçavam os meneios da cabeça. porém.. E a grande ventura (quem sabe?) foi que sobre essa montanha de fogo formada em minha alma jamais desceu o sorriso. redobrando a amplidão das vozes sonoras no silencio da matta. e não me consolei longo tempo.. tristes einsondaveis. Milkau e o companheiro ap» encostaram-*]*** a beira da estrada. como esse perfume que foi a minha purificação da adolescência vem até a mim. \|hesy(roçavam)ao corpo as brua. e então eu ascendi. immensos.. ^ v^** ao Porto do Cachoeira. a caricia que resfria e que funde... cy^s ^JT de animaes. de uns e . Qs^d^is--aiiTrgrj5~~r»e-*afni«4^i^ Ai <*uma tropa... v a brandura. as pragas. os gritos. Os tropeiros em sua maioria eram mais brancos que mulatos. pãor me viesse possuir para sempre." Varrida asshxi-QS-jTiimaes.*»*— cas de café e os olrTávarrT~tom os seus olhos de besta. as ordens. e esse o grande.CHANAAN 59 sinto quanto elle é embalsamado pelo amor que ahi passou. A morte d'ella veiu habitar d minha existência. que fffÜi das terras altas em direcção " . apoiando-se nas arvores. Aos vinte annos estava tudo acabado.. / E Milkau foi interrompido pelo repique de campainhas que descia pela estrada. procurando o trilho habitual. ascendi. até que outro amor. a mula da frente marchava ///aUJ*Ã'lu' enfeitada de fitas de côr.

A tropa passou caminho abaixo... de poeira levantada e de lama revolvida. Nós somos governados na vida. que pensei ser a creatura sublime. já pela cidades traficantes e vis. ao dialogo1 perpetuo dos themas eternos. e elles/ladeados de arvores sem fim^ornavam com frenesi. ou antes questão de consciência..60 CHANAAN outros eram mfos espontaneamente na lingua de' cada um. ha muito pouco tempo i^t não pov deria imaginar-me aqui n'esta floresta. mas um . na carne e depois d'isto eu a julgava recompensada e feliz. que humilde ama o soberbo. como respondendo a uma interrogação escripta nos olhos de Milkau). Atraz d'e11a ficara um odor acre de café verde. mas uma anciã de confissão e de abandono os estimulava n'aquelle mundo extranho.. ' LENTZ. Amei uma mulher. bel/" Na verdade. a2^twi alli na sombra e-humidade das arvores não se extingue nunca. levando ^ * ^ > X c o m s i g o o seu toiJOfe barulho que quebrava além o somno das coinrw. E nós fomos assim pelo caminho sumptuoso da minha phantasia. já pelos lagos verdes que refrescam as terras. arrastando-a eu após mim. A historia é muito simples (disse Lentz. Questão de amor.pelo imprevisto.J tação. minha amada amou no sangue. Minha amada conheceu as vibrações infinitas da yolupia. com excii. que fraca ama o forte... já pela solidão das montanhas de neve. Os dois amigos caminharam algum tempo calados.

Encontrou apoio nos preconceitos» christãos de meu pae.. Então fugi. Milkau. j Q ou dtíjl a classe../ A***" rosa que..*»de mim com desdém.f/v /// cia 9» entibiou-~o'que ha em mim de cobarde. ou seja a família. A minha arrogan. O homem levará ainda /. a minha . deixando os meus estudos de universidade. foi morto pelo antigo e implacável sentimento. dos indivíduos da minha classe!. o que ha em mim de acquisição intellectual. Resisti. O pae de minha amada era um velho general companheiro de ar<\ mas do meu.lhe annulla a individualidade e lhe traça ' na physionomia as linhas de uma mascara commum e sem distincção própria.CHANAAN tíl dia «•revoltou<'e a alma da mulher do occidente.pedia á minha família uma \\ *" reparação por aquillo que tinha sido o acto da independência da minha extrema sensibilidade. E o que é peior. muito tempo. e eí$fes. d se libertar do grupo a //v****/ que pertence. nos escrúpulos e temores de minha mãe . de escravo. que a longa cobardia dos homens já fez eterna/ n'ella m despertourpara exigir de mim a minha escravidão.cH/ fesso (oh! vergonha!) não pude supportar essa ' pressão collectiva dos meus camaradas. entorpeceu a energia de minha attitude. conjuncto de idéas ardegas e acceleradas./se emancipar d'essa tyrannia pode. ou ffll a raça.. E iri-con.que me procurava dissolver ao bafo de sua ternura mórbida. no meu grupo social formou-se em torno de m i m uma atmosphera de reprovação : todos se julgavam limpos de consciência para áe afastar.

. era um / fl mundo maior.... 4meu primeiro desejo foi sahir de Heidelberg e buscar a vida em outra parte.62 CHANAAN posição. quer dar a mão aos antigos e. O que mais me ator- . 0 que (H lU ^ b u s c a v a em troca de tudo o que deixei. que é o desejo e a razão do meu sangue. ainda virgem e intemerato do contacto lascivo e deprimente d'essa moral christã. O mar foi para mim a primeira grande sensação da liberdade . Berlim me attrahia / julguei a)fy encontrar uma solução á minha existência. então vaga e sem objectivo. a minha família. com o ímpeto def n'cllas'viver/solitario/na exaltação do meu ideal. Viajei longamente até agora. sobre elle sonhei. civilisação. deixei terra natal. de bens eternos. em troca de bens maiores. ou de um dia as transformar em um império branco. A minha trajectoria vem de epocha mais remota. MILKAU O que cada um de nós procura-é. e vivi intensamente o goso do pensamento puro.. sociedade.tão diverso. era um verdadeiro domínio para o homem novo. Depois da morte de minha mãe. porque não actuei sobre elle. E parti então para a virgindade d'estas selvas. a minha fortuna. como tu. renovar a civilisação e produzir um mundo que seja o reino da força radiante e da belleza triumphal. ^ M J ^ Z / para JqncWc q u / saltando por cima dos secu* ' / los da humildade. Também. e a vida é a acção.... com elles e sob o influxo drelles. mas não vivi o mar.

e ellas as minhas saudades. o que eu amara tinha desapparecido. N'esta epocha a minha não conjEojmiaÇão ao mundo era cada vez maior . a minha melancolia acabrunhadora... eternas ca. torturado de um desejo de realidades. quando tudo me era indeciso e intangível. Minha amada... a mim. Vivia naydesillusão. invocando as três imagens dos que amei e cujos retratos povoavam o meu quarto. meu pae. . y^(mey^entiíQcrescer dentro de mim yy*~~~'J mesmo. *f7 a sociedade não me preoccupava. de sonho que sempre me fugiam : a minha tortura era infinita. a minha doença moral me parecia irremediável. Mas as minhas scismas eram as mesmas. Custava-me já resistir a tanto.AÍiifado de V qualquer crença religiosa. de calma... eram passeios intermináveis. e pelos parques da cidade. Vivia vacillante e fugitivo.•>T minhadas pelas ruas. n u m a aspiração indefinivel de amor. Nada havia que me jfrfffl/fáfflg /^oi^h^ay á vida. o que •foL&i^ amo hoje não me tinha chegado. e a consolação '/ não me podia vir do nada.. pelos bosques calados.CHANAAN l« mentava. fiosse m a * apoio. a minha duvida tinha espaços tão illimitados que meu espirito oscillava e se perdia no mundo . sem saber (/( &r»/ aonde os meus passos iriam findar.. o infinito para mim não existia. sem interesse na \ida. buscando no exterior a calma para o espirito. era a consciência de que começava a f/flg^ viver por viver.. sem uma idéa moral que . Â minha existência $fl /Ç^fr* vagar com os companheiros fortuitos. e eu sempre me prendia ao passado do meu coração. minha mãe.

Não me y '' \*cts restava agora para combater o desespero sinão )**" procurar na mesma -vida a razão que me curasse do mal da morte e fosse um desafogo aos meus novos sentimentos. é porque a vida é mais desejável do que a morte. de terminar dj. faltava-me agora o animo de falar de livros inspirados em uma arte vazia.. as lentas agonias e os duros sacrifícios alheios erairi o pasto da minha ^piedade. e a Dôr pela sua mão forte e santa me conduziu aos outros homens. sem ideal e saturada de sen- A f . e não é o suicídio uma salvação que deve ser collectiva. desalentado. Comprehendi logo que não podia continuar na posição que tinha de critico litterario em um jornal de Berlim .. E o suicídio começou a ^ p no meu pensamento... Olhei todas as vias que se podiam abrir deante de mim.. Eu soffria.. a que em minha insania eu chamava o acto da vontade. isto é.. procurei realisar a acção pela única fôrma que me parecia positiva na vida... só tinha inclinação para os que se assemelhavam a mim.. E então tive aquella anciã torturante de resolver de qualquer modo. Não se trata de libertar um só dos martyres. Todos os soffrimentos extranhos se infiltravam em minha alma. é preciso que os se salvem ». $fytyl/#}flp o clarão bemíaze //// 'ov*Í ° ^ a solidariedade ani apontava. minhas vacillações.(Si CHANAAN das idéasedas emoções. Mas a comtemplação da miséria moral em torno de mim susteve aquillo. Reflecti : « si todos soffrem e se resignam. No estado de espirito em que me achava. e. pela morte.

E agora para onde ir ? perguntava ^-humilhado. ir á industria. Não podia ir ás officinas..A ' baraço a minha crise prolongava-se. para quem não queria definhar na esterilidade e no egoísmo. é digna.CIIANAAN 155 sualidade.• sação e di qu^To meu novo pensamento ainaa L? 2«* rrrais se afastava. Porque ella é forte. eram vãs para quem não escutava a voz da commodidade ou da ambição... a guerra. Aquellas duas vidas. não podia descobrir. Essa uma vida que eu sonhava. fazendo parte do grupo de ignorantes e dogmáticos.. que eu queria e por toda a parte procurava. e sim entre qualquer vida e uma vida... para quem buscava o que é eterno. MILKAU. O mundo deve ser a morada deliciosa do guerreiro. Não tinha aonde ir.. cuja credulidade voluntária é alli como em toda a parte a fôrma de sua cumplicidade na perpetuação do mal sobre a terra. Convenci-me ainda mais da falsa situação em que estava. Sim. que envolvidos nos mysterios da imprensa exploram os outros homens. Que profissão «ç será a minha n'este quadro do mundo/A política ? / A diplomacia ? A guerra ? * ' ( LENTZ. peis não era ' mais escolher entre a vida e a morte./n'esteem.. A guerra é uma volta ao passado. a um ideal morto para a cívili. a do político e a do diplomata. porque ahi não encontrava 4.. .

Os panoramas do céo passaram a interessar-me profundamente. A Belleza entrava no meu espirito como "*** um doce sustento. / / em que me possui da belleza. Foi pela arte que comecei a amar a natureza. no enigma / y. e por entre esses tormentos a minha existência solitaria/ia/se passando na contemplação reconfortante da Arfê.. ou em. tratava-se também de uma livre expansão da individualidade. onde a arte busca ainda a sua fonte de mysterio e rejuvenescimento. dias inteiros a admirar a limpidez da atmosphera. para as minhas scismas longas e indefinidas.. / m e u espirito des/ cançava e se apoiava para a existência.66 CHANAAN ainda a atmosphera para a minha independência e o meu amor.insondavel da figura h u m a n a .. ^jo só tinha os olhos voltados para o meu caso pessoal.„ bebendo-me na poesia infinita da côr.. E então puz-me a viajar longos dias pelas antigas paragens. nha attenção ao mundo exterior era vaga e ialyj-cevta. ricos e pobres. ou agitando-me ao vivo movimento do gesto.. pois até então a mi. a minha vista se //^-alongou pelo mundo afora e ÍJL vi o esplendor por n toda a parte. Xo momento em que tratei a arte. ou aquietando-me á serenidade da attitude repousada eternamente no mármore.. e a industria nesta velha civilisação é um desfiladeiro apertado de combate no meio da sociedade que ella divide em senhores e escravos. Ou mirando a linha triumphal da estatuaria. A minha angustia continuava. Não se tratava só de trabalho. outros / perder o^J S .

CHANAAN 67 os olhos no crystallino do ar.. o pequeno mar do sul da Europa unctuoso e doce. succedia-me passar longos tempos solitário nas florestas. tentador e indomável.^. que do mina e que é em si mesmo. mar que não espanta. ffflff °í//^ outro mar. onde se desenrola a vida.^s sado ou dos cuidados do futuro. e sobre ellas a Morte é uma gloria de ouro. outros a sonhar na immensidade das cúpulas azues límpidas e infinitas que são o espaço. immensas. No inverno os esqueletos das arvores cobrem-se de branco. que é um traço de união entre as gentes.. farfalhante como areia.y^—. Ú rfieu f->~y*r deslumbramento pela natureza afastava-me de tudo' o que não fosse contemplação. Vivia mais das impressões da luz sobre o quadro. a extrahir das coisas a summa da belleza. como a própria liber.. vadia. mar amigo. e de outras praias brancas.. como uma paizagem phantastica e morta.^ yj-^me parecia a felicidade pela hypnose com que r/u4/U<^^'JJt adormecia a minha consciência. leve j******" /"!• como arminho.. Assim vivi longo ^ T ^ Í(U\ <2~i~& . e esse olvido e^. o mar tenebroso que apavora. n'um êxtase de louco. Vi o mar. inaccessivel. pelos ares... nos lagos e nos campos. Carregando por toda aparte a minha admiração. No outomno o sol abrasa as arvores amarellas. . que estreita a terra cheia de anfractuosidades. as quaes são abrigos para os homens. dade... que dos alimentos da terra.. No /y*6*'r tempo d'essa única preoccupaçao reinava em meu C£ /^/j espirito um esquecimento das desgraças do pas. e desce sobre a terra uma neve abundante.

uma fôrma de desdém do < ' ^ 4 f e ^ m u n d o ' u m a e x P r e s s a o mesquinha de quem fyfyà doHseu logar na vida. E a consolaçãoynão te vei u ? MILKAU.. Resuscitar. //' LENTZ. e a solidão passou a ser um estado afflictivo. forte. Viajava dentro do meu êxtase. a vida solitária dos monges... tão nobre. havia outra existência. O meu isolamento era apenas intellectual. evaporar a minha animalidade e dissolvel-a na combustão de um sentimento activo e fecundo.. d minha cobardia me atormentava infinitamente. ' mas os velhos monges tinham como sustento o / consolo da adoração.. Depois dos primeiros moI Qj rnentos de prazer e tranquillidade.. Lentz. Concentrado n u m logarejo encravado no coração dos Alpes da Baviera. y A pririncipio íí/(jrie/íi íludi \pensando que não C—-. Ao estado de desvario artístico succedia em mim um desejo de mortificação e soffrimento.. Hoje.CS CIIANAAN tempo.. j/J-iÁC Hf no estudo e na scisma.. que era como um carro de ouro levado pelos cavallos ardegos da imaginação e transportado pelos caminhos deslumbrantes das regiões plácidas emysteriosas da belleza immortal. em pleno domínio do sensualismo. f . que atravessava 'extranho e silencioso o mundo. effão engolphado no meu culto. tal foi a nova via por que caminhei.

mas ' ' ^ as Mtí labaredas afastam d'ella os homens. dissol^írf-rfver-me no espaço universal e deixar qne/y^Btd.r das montanhas glaciaes. luz rosea do sol. affir W*ti "e^lencià^üde minha vida se espalhasse por toda a X4**^**** 0**r.. O ascetismo é como uma ilha solitária que arde no meio do -.. Aqui nos meus olhos ainda tenho guardado até hoje o ultimo espectaculo . penso que é um sacrifício. e sobre *** ^"êlla os fragmentos da vida passando carregados ao ttJ*f A0VX0 do v ento gelado.. JrjfTpomo si fosse um fundo de mar setco. O amor dentro de mim ^ í . uma manhã desci das alturas. ligar-me aos espíritos.CHANAAN r. gerar o amor. como * / L Í i | n a forca de bondade. .' sorria. ///*^' E eu não podia me consumir n'essas chammas. O que eu amava. **. Adeus. pois já trazia dentro de mim a porção de humanidade que me conduzia á vida. mas também que é uma manifestação de estéril orgulho. Qne/^mparavl) e um bem'estar infinito <*•-/ t&> nunca mais me deixou. era fazer ' ****£* amar. nem sobre 9$/ffifâ$ de gelos tf 0* j .. marJlhk seus fogos deslumbrantes têm um phan.// L tastico poder de illuminação sobre o mundo. montanhas de si/ Lui^flencio. Então.. Vj^iEYdas brancas e frias pedras verei mais descançar a /yr>* <££*•. ^ / i / J g e l e i r a fumegante. Paizagem solitária e morta.. penetrasse nas mínimas moléculas. penso sempre no deleite d'esse refugio. Nunca mais tornarei á ...9 quando penso no isolamento a que um homem se consagra..parte. de consolo e de immolação! Quando cheguei Jb^ahaxxo era outrjxjiornem.

quando vi a marcha da humanidade partindo da escravidão inicial. Um dia será a . Tu eras grande quando a tua sombra sinistra de solitário passeava nos Alpes e amedrontava os ursos. á meu pen( samento se esclareceu. No principio era o cháos. Eu sou d'aquelles que foram por elle consolados. começaste a minguar. o amor os reclamará á vida. Mas quando o amor penetrou em ti.. Não. pois crear homens é a sua obra.70 CHANAAN LENTZ. MILKAU. Todo o goso humano tem o sabor do sangue. é o crime. emquanto os outros ainda jazem informes na matéria geradora. O principio do amor me sustenta e protege. Jjf~ Reflectindo sobre a condição humana. Mas um dia chegará também para estes a hora da creação. Ia terminar o drama intimo do meu espirito e concluir-se a passagem dolorosa de um estado de / .. massas informes se apresentavam como manchas de nebulosas cobrindo a terra . moral hereditária para uma consciência pessoal.. tudo representa a victoria e a expansão do guerreiro. sem força. não ! A vida é a lucta. mirrado pasto da t r i s teza. e eu verei o teu semblante um dia sem luz. sem vida. . e as personalidades surgiram. ' pouco a pouco/d'esta confusão cósmica os homens se destacararr/.. a tua figura de homem vae se apagando.

de luz..CHANAAN 71 subordinação de tudo a todos para maior liberdade de cada um. O ipê... A belleza é assassinaie por isso os homens a adoram mais. O proceíso é o mesmo por toda a parte . Para chegar aquelle esplendor de côr. de expansão carnal. o sol queima-lhe as folhas e elle é o espelho do sol.. a sua historia é a derrota de muitas espécies. é como uma umbella dourada no meio da nave verde da floresta. a victoriado forte.' LENTZ. a belleza de cada uma é o preço da morte de muitas coisas que desde o primeiro contacto da semente poderosa foram destruídas. E' a parábola que descreve a vida. Como é magnífica aquella arvore amarella! MILKAU. O ipê é uma gloria de luz. da grande escravidão para a maior individualidade. LENTZ.. Esta matta que atravessamos.. Vê como tudo te desmente. o sagrado páo d'arco dos gentios d'esta terra. Cem combates travou cada arvore d'estas para chegar á sua esplendida florescência. olhando a floresta. é o fructodalucta. quanto não matou o bello ipê... e o caminho da civilisação é também pelo sangue e pelo crime. Para viver a vida é preciso / +* J / ' .

) Na verdade. de liga eterna. terra. (E apontando para a vegetação no alto de ama rocJia. que Ití& trama e o principio vital do mundo orgânico. cooperação jla vida sobre o planeta. uma reciproca e incessante permuta.CHANAAN ' ir até ao ultimo gráo de energia. o mais forte attráe o mais fraco. planta.a terra é como a d'aquellas plantas fdfàfklk pedra. trouxeram elles sementes de algas e vegetaes primitivosyM^fJ^J^^jé» mineral da terra •Muito tempo passado. A natureza inteira. Sol. insecto. immenso todo. é preciso nâo/contrariail. quando . Os grandes seres absorvem os pequenos. o homem a mulher. astro. as múltiplas e infinitas fôrmas da matéria no cosmos. néra.n'um systema de compensação. de coisas e homens. olhando a 77iatta. E' a lei do mundo. j sobre 01 não fructifi^cavam as sementes di arvores e aj(grandes plantas trazidas pelos pássaros e pelos ventos. emfim. O mundo é uma expressão da harmonia e do amor universal. itffifô-fttfjf. a vida dos homens ftâftjp. Um dia. a lei monarchica. Tudo é subordinação e governo. o conjuncto de seres. peixe. (euvejo' tudo como um só. Aquelles que cruzam as armas. são os mortos. O cume da montanha era uma lage estéril. pássaro. MILKAU. E<tudo concorre para tudo. o senhor arrasta o escravo. sustentado em suas Ínfimas moléculas por uma cohesão de forças. homem.

a todo o governo. O mal está na força.ella medraram. mas façamos que este sangue seja cada dia mais amoroso e menos carniceiro. para chegarmos á unidade. Os seres são desèguaes. já encontraram a terra formada pelas algas e sobre . A obra do passado é ainda veneravel. f/jffi0/ 7*' coacção moral concorrem as alavancas da sympaCf*^thia. protegendo os prünitivos moradores da pedra/que então ousaram crescer. no corpo de suas filhas. Que os nossos mais entranhados instinctos da animalidade se *) / / -.. no alto da montanha núa. emeôr. a toda posse. Do muito amor.. A historia testemunha que a cultura não é JJ^ksomente a obra do crime e do sangue. surgiu aquillo que nós admiramos: um jardim tropical expandindo-se em luz. Deante da obra da civilisação o papel de cada um é egual ao do outro : a acção dos grandes e dos pequenos se confunde no resultado.CHANAAN 73 aqftellas sementes primeiro rejeitadas foram de novo para alli carregadas. porque — é sobre ella que se fundará o futuro. em aromas. que elle engrinalda como uma coroa de triumpho. da solidariedade infinita e intima. A vida humana deve ser também assim. a toda a violência. E preciso não perturbara harmonia dos movimentos e da espontaneidade de todos os seres. espalhando pelo chão a sombra. cada um tem de contribuir côm uma porção de amor. Não amaldiçoemos a civilisação que nos veiu no sangue antigo. mas. KAnvà*/\ . entrelaçando-se nos troncos das arvores. é necessário renunciar a toda a auctoridade.

para debaixo das montanhas. . Os dois homens fitavam o sol. que se vinha apoderando docemente das coisas. da dedicação e do amor.. 4Ç y£v*fe •jr-^~r j^ji^' Era finda a viagem.74 CHANAAN transformem no vôo luminoso da piedade.... que rubro rolava. Os dois homens fitavam a Morte.

um parque ra rde assinalado de arvores salteadas. As p^j^éi/a^ c a ^ .r.//] <£&l * eguaes.s/r ' / VY . . caradas neto uniforme era o de um pombal O seu < na altura silenciosa da montanha. Pouco depois. iam juntos pela pequena povoação dddyd£&àa accovdada e radiante na sua ingênua simplicidade./ . levemente expiado pela frescura e subtileza do ar./ L > i ternura. Assim escan. mo'itrnvfin/-se pelas portas abertas e cheias brancas . Milkau alegrou-se vendo o seu companheiro de destino e <oJ(saudoi7|om um sorriso de K .///*''(f~i '-as. . Em suspe círcurfiscrevendo a povoação. e por onde tóife^r^ <<«^U*4--»^-AíV»*t. /r de luz . A enfileiravám-'em ordem. onde dormira/contemriaj^do a ^ vida plaxjdo a vn que se despertava em ^èrítz^ sahindo por sua vez do qíiarfo." / porta da pequena estaSanta' Thereza. á-~y quándoYLer t o m uma e x p r e s s ã o / ^ ^ ^ « ^ W ^ W jovial. todas . como olhosyque^á^^íkssem.

• 'y<-$y76 / ' -. grito do vapor e apenas. Na sua officina. que a água de uma represa bsi. Lentz achou-o veneravel como um santo. como única machiníí. j/or toda a pary o nual. Emquanto por toda aÀaxXeJ^J na matta espessa/outros se batiam com a terra. todo elle se entretecia sem violenciar^e mesmo o malhar do ferro não • W y W . Os dois immigrantes sentiam-se transformados por uma paz intima. . que eram a alma da paizagem. swn o pequeno trabalho manual. Um alfaiate passava a ferro um panno grosso. um velho sapa//•^ teiro de longa barba.j I K T CHANAAN V. E todo esse / ruído era vivo e abgnetJado. humilde humi e doce. notando J//o+*i«**3*£ musica ifápfi e alegre fffári/$t/j$f$p vários ////AJO4 ruídos do trabalho. por uma consoladora esperança. um pequeno engenho para mover os grandes^folles de uma forja de ferreiro. outras amassavam o trigo e preparavam o pão . faz'a rodar com estrepito^^noro. Zllefr yiam todo o povo trabalhando ás portas e rio interior das casas com tranquillidade. I—J . deante do quadro que lhes mostrava a população. e di mãos muito brancas e esguias batia sola. e/todas as artes alli JHB&SMMBÍ na singeleza do seu espontâneo e feliz inicio. ^^lOT^^vP' " O S d e a 8 u a corrente. em harmônicos movimentos peneiravam o milho para o fubá. ^ aquella pouca gente se entretinha nos seus humildes officios. outras. Milkau e Lentz percorriam o logarejo. cantarolando . Era um pequeno núcleo industrial da colônia.. mulheres fiavam nos seus quartos.

(mf&» Havia uma felicidade n'aquelle co^MÀdli de vida primitiva. . é o homem que ainda não venceu grande parte das forças da natureza e está ao lado d'ella n'uma postura humilde e servil. que fazem can' tando l&{ p ã o / iand vestes. ^^fj estes homens que se não mancham nos fumos do '/ carvão..CIIANAAN t'. orgulhoso de ser homem n'aquelle alto de montanha.(O*™**' timos a um começo de civilisação. — Isto é uma gloria. em que o mestre da banda de musica de Santa Thereza dava a lição matinal aos seus discípulos. é um bello quadro esse que vemos. que se bastam a si mesmos. disse elle. são os creadores eTeL*?//* simples' natura(es. balho tinha o seu scenario jjif. Mas no fundo assis. n'aquelle rápido retrocesso aos começos do mundo./e a creação é n'ellesuma feliz / // satisfação do inconsciente. Milkau também admirava. e o espectaculo de um trabalho livre e individual nos emb/ílft de prazer. Ao espirito desmedido e repentista de Lentz esse inesperado -encontro com o Passado parecia a revelação de um mysterio.<f$!fô.. onde o tra. que se não embrutecem no barulho das machinas. mas como l//4&r®** enxergasse no louvor de Lentz o/espirito negativo LtAooC^ fftffli. interrompendo o silencio em que iam. estes pobres que trabalham mediocremente com /**tf próprias mãos. observou : //?/* — Realmente. 77 4 destoava do metallico clangor de uma Clarineta. que conservam toda a frescura da éid vyy alma.

procu. ^ ^ .. servo da machina. especialisando e eliminando os homens. inabalável. A poesia quetâMfjfâfâ è o perfume 0** mysterioso do passado. para o qual nos votamos J/irtY atemorisados.M^ -^Mrí*m. rando governar o mundo. e*^) emquanto passeiava ao lado de Milkau. . tenho como sagrada toda essa gente. Passaram ainda algum tempo.^ « w . a machina. Dirigiram os passos para os caminhos que . — Para mim ha uma illusão n'esse sentimento romântico. sentindo uma entranhada difficuldade em abandonar aquelle logar.. readquiriu a sua intelligencia. mas ha também uma poesia mais forte e mais seductora na vida industrial de hoje. dirigindo o machinismo engrandecido quasi á altura de um operário.Qhea^iroipa percepção inte. merecem ma\sj£ meu amor que essa infinidade de proletários.^ ^ s e libertou. hojèyque tfrjtfyfâ/tffa a transfor-/^ / mou em um instrumemo de movimentos próprios. ///fâ&iWfii fflfjbfi de todo o peccado de orgulho. — ^ u ^ f v ^ Zfifyfrfj repetia Lentz. massa da civilisação retroceda a esse antigo período */// Jk> da industria. _W. se vae afund/ndo n'um embruteci/ • mento peior que o do selvagem? replicou Lentz.78 CHANAAN — Mas quem pôde negar que o homem. e é preciso consideral-a pelo seu prisma luminoso como uma aurora. Ao menos estes aqui. Sim. são bons ' e ingênuos e supportam o seu jugo com um sorriso. cheios de ambições. Nós não podemos fazer que a . /gral da industria. famintos e pavorosos.

0 leira. A estrada \ por cima dos morros descampados ora descia. mas uma divin. da sua forte e fulva cabel. //# [/ '/A principio iam meio apprehensivos e calados. Lentz via na rapariga uma divindade ex. Mas afinal tiveram de se a r r a n c a r . O panorama largo/ousado^^-fecundo. que os retinham alguns minutos no povoado. agradados do seu rdsto delicado. o **--/ lhoh üdL éed. giravam abaixo e acima pelo parque.T^arou*». /* como quem parte para o desconhecido. ribeiros e cascatas. a sLd. Era um trecho de / uma região poderosa e opulenta da terra brasi. Dentro tftíjk se abrigava a multidão de bar.<*/ dade meiga como eram os habitantes de Santa Thereza.^ desandado repouso. paravam á porta das casas. A joven estendeu o braço longo indicandolhés o caminho. e perseguindo comjUusJ olhos de admiração as saudáveis raparigas. va-J?/ V6~/d TiaÂJ / r a s e u / aspectos!'cheio de montes.graça. ar.CHANAAN 70 abeiravam Santa Thereza. valles/ / • / • ' florestas. Elles admirarão^ dCsea^gesto. Procuravam as pequenas elevações. Uma filha da hoteleira (ós/Qevouyaté á bocca do caminho do Timbuhy JSÍkfr/jtom mil perguntasJ d*tíVàfdlbtfJtffiL uns instantes.f//*~ / baros e de extranhos alli recebidos com brandura / e carinho. deixando-se ir na inconsciencia d'esses actos espontâneos. sorriam ás creanças. ora subia.ML{ leira. iwenrubesciam/E em tudo isso se recreiavam mansamente. Milkau e Lentz PÍU sna majch^ passaram jfa V v . e partiram como n'um sonho.<*. miravam attentos o serviço que n'ellas se fazia. tranha n'aquella floresta verde.

/ Ou~£du^t Elles disseram que «lia era formosa com os seus trajes magníficos. E os dois immigrantes. de tranquillidade. as estrellas. /'/h 7 duradas na encosta d ^ ^ . e. abrigadas ' f u r n a s no fdfâfi seio dos morros. outras depenf. Havia fumo em todas as chaminés. todas com disposição ' e graça uniformes. homens mettidos na sombra fresca dos cafesaes que rodeavam as habitações.. sem íi^f^ penetrarem. mulheres em suas occupações domesticas. ventos suaves lhe penteam e frisam os cabellos verdes. os pássaros a celebram. E as casinhas se succediam por todo o valle.e abundância. vestida de sol. se precipitam sobre ellá como lagrimas de uma alegria divina. ///*L punham-se a mirar de fora esses retiros encantados de verdura. coberta com o manto do voluptuoso e infinito azul. o longo mar. com a espuma dos seus beijos tbJ afag/eternamente o corpo. as flores a perfumam com aroma extranho. unidos emfim n u m a mesma communhão de esperança e admiração. n'uma vertigem de admiração. que era amimada pelas coisas : sobre o seu collo águas dos rios fazem voltas e outra^hejtgnlaçanj)* cintura desejada. no silencio dos caminhos.80 CHANAAN fo/l ///// J/ pelas casas de colonos agricultores. animaes e creanças debaixo das arvores. as quaes êkJ i viam pela primeira vez. ' ' H/ . o mar.. a r puzerarrr^a louvar a Terra de Chanaan.

a casa de ouro. o $já seio^C < f / ^ . porque dis . porque era a mãe abastada. o ouro puro e a pedra illuminada.CIIANAAN 81 Elles disseram que ella era opulenta. enfraquece o sol com as suas sombras. a providencia dos filhos despreoccupados. porque fó seus rebanhos fartam d$ suas nações e o fructo dfó suas arvores consola o amargor da existencia. homens J p ^ * * Êfl/Lptfttffftfí/fytyl tão meiga e consoladora. amorosa. tribue fó seus dons preciosos fâtffyty d'elles têm V/X. e(jhe/^ãrítai^ hymnos +». não têm dono . " ^ Elles disseram que ella era feliz entre as outras. o ^-//fÉwy^ quecimento instantâneo da agonia eterna.. não / perturba^f/í j ^ f ambição $ l ritffd orgulho . sahidos de um peito alegre.. ytó seus olhos suaves e divinos não /i"v*~ distinguem as separações miseráveis. //r //*/V. porque no seu bojo phantastico guarda a riqueza innumeravel. para o orvalho da noite /jr JtLti fria tem o calor da pelle aquecida.. porque um só grão ds^ suas areias fecundas fertilisaria o mundo inteiro e apagaria para sempre a miséria e a fome entre os homens.. j . '//ê/ /' Elles disseram que ella. e/aj. fd suas riquezas f # r.-. não deixam as suas vestes protectoras e a recompensam com o gesto perpetuamente infantil e carinhoso. sua porta não se fecha.. O h ! poderosa!. que a não engeitam por outra. Elles disseram que ella era generosa.. desejo.

. com as mãos estendidas. sahindo de um barracão verde alli situado.. / frei í E os <fd$fâ / ^ / ^ a r a m a contar-lhe com exalfsyrfr tação as suas primeiras impressões. — Ah! meu caro. O h ! esperança nossa! Elles disseram estes e outros louvores e caminharam dentro da luz... os interrompera. Milkau pensou que era o gênio da raça originaria e senhora d'aquella terra que/lhes deparava. Mal tiveram tempo de dar uma vista d'olhos pela redondeza. Já traziam cinco horas de Santa Thereza quando dfyfdaram á margem do rio Doce. / / & aiçy . . concordou com enthusiasmo o agrimensor.82 CHANAAN maternal se abre a todos como um farto' e tepido agasalho. o agrimensor Felicissimo se lhes dirigiu com o triângulo moreno do seu rosto escancarado n'um grande riso de vida e bondade.. Felicíssimo. isso são horas de chegar ? E sem esperar resposta foi ao encontro dos dois allemães. preoccupado pelo instincto da hospitalidade. porque. ajoelhados. por um pouco ficávamos por esses caminhos. porém.. — Não ha duvida. — Então.. isto é mesmo um paraisc. disse Lentz. adorando esta sua bella terra. gritou de longe. — Onde almoçaram? Posso arranjar aqui alguma cousa para entreterem o estômago. nvuma alegria estrepitosa e confortante..

Veja que belleza de fructa! — 0ft$jL não viram nada. Olhem. de uma singeleza / Aomada. élíL. nem o quadro mais humilde. Thereza. torio de hospitalMj^ütáf ao funõTÕ"^"pequena cozi. agasalhando-os no barracão do escriptorio. que eram o registro dos prazos arrendados aos colonos. e na parede um grande mappa dos lotes de terra da região. Felicíssimo fazia também d'esse A barracão o seu quarto de dormir.h-0J-&~}~4 dade do cearense. cujo arranjo não podia ser mais simples : alguns instrumentosjl^j^arrrpojld^isou três grandes livros (§obre uma mesa ao cantp). Felicissimo. d ^ / M i l k a u .CHANAAN 83 — Obrigado. Não estraguem a admiração. Os hospedes agradece- . porém. emquanto esperadddm levantar nos lotes as suas Á/Gt/ casas. Ao lado havia outro puxado maior. apenas um maço de jornaes dsÀ.i~»*uc f nha. respondeu o agrimensor. Nem um livro de leitura. comemos alguma coisa que trazíamos e depois no caminho nos fartámos de laranjas no pomar de uma velha colona. onde o agrimensor tinha o escriptorio. Ao sahirmos de Santa. e em tudo! Encaminharam-se para uma meiaguá coberta de zinco. recebendo as laranjas. o desabafo da curiosi. abrira gostoso uma ex/ cepção para os dois extrangeiros. porque têm muito de que ficar de bocca aberta./ que era o alojamento destinado aos immigrantes. Ainda lhe trazemos algumas aqui. não ha Brasil como este. nem uma photographia. Era espaçoso e arrumado como um d o r r r u ^ / .

jtodo assanhado. Preparavam-se para sahir. Passaram para o escriptorio. não teríamos tempo de ir e voltar com d dia./. com ares de entendido.' (Pü proposto/foj&^^ejubilavaHi aquelle dia glorioso ///' com a miragem de um grande e santo labor. Milkau.. E melhor ficar para amanhã. abancados todos no quarto de dormir. — De fôrma alguma. reflectiu e ponderou aos companheiros : — D'aqui ao lote dez é um pedaço... Mas si fazem questão. Chegando á porta. acceitou o lote V. em companhia .84 CHANAAN ram ao brasileiro amável e. seria o numero dez. lhes disse : — Ande d'ahi. e deante da planta dependurada elle accrescentou : — Para mim. Mas olhem que na verdade vale o esforço. . Felicissimo farejou o tempo. O diabo é que está enterrado em plena matta e vão ter muito trabalho para fazer a limpa. até que o agrimensor. travaram conversas nas quaes os immigrantes se foram informando de muitas coisas do logar. Méfà querendo ceder por / ' delicadeza ao parecer do agrimensor. que não disputava primazias nem & vantagens no mundo. respondeu Lentz. gente! vamos escolher os lotes. E Felicissimo de varinha em punho para apon9/ tar no mappa. Uma doce fadiga entorpecia os viajantes e tf0fi/J jr / deitados sobre a relva junto á casa.. Ahi a terra deve ser esplendida. o que mais lhes conviria. sentindo que o sol baixava. interrogava os ou/ tros.

Com os olhos rajados de sangue e os dentes ponteagudos de serra. muito parecidos como um grupo de irmãos.CHANAAN l w II 85 do cearense. ficou surprehendido e gritou-lhes : — Então. e Hc*^ / ( rv t o • •"• (*. mas essa impressão era xar/. arrastando-se pela estrada descampada junto á praia do rio..ao~jii£srno \jjl tempo..//// coso. usava uma pequena barba anelada e falha e o cabello curto em pé sobre a testa..^ havia um mulato."' ¥ . ouviarfi as historias áles^f scismavam **•. Chegados ue foram.][ vimento do homem para o homem. Percebendo de longe que havia gente nova. a umi só f&£ feita da/de todos. Sónseate.. passando sem parar. fazendo coro. Vinham vagarosamente. camaradas!'o rumo está acabado? — Prompto! disseram. Tinha a cara mascarada pelas bexigas . / satyro maligno.íÁj^j em coisas coisas vagas vagas ee dipiavam diyílavam oo tio I em fio passar passar preguipregui. e entreolhando-se rrr. que entre elles se destacava. olhos de um azul de abysmo.i espantados por terem respondido .. Milkau e Lentz admiravam a robustez d'aquelles homens com pulsos de ferro. saudaram surdamente e/arara' calados ara (/ interior do armazém/guardar as ferrarnentas. torso hercúleo. era bronzeado. vendo-os passar tão extranhos. ' ' /'»"*' Um grupo de homens armados de ferramentas de campo apparecia á distancia. barbas avermelhadas. Felicissimo. caminhavam silenciosos. com o impulso sinistro e reservado que é o primeiro mo.. tomava por vezes a apparencia de um ^ .

Os camaradas applaudiram. na verdade..?%cé0) mostrando a Milkau e a Lentz os bandos de aves que passavam na illuminação do crepúsculo. — Ah! Um bom tiro! exclamou o mulato. alli tu não apanhavas nada... entre elle e a terra um remoto convívio.. Não havia. cabra. e si a arma fosse espalhadeira. — Qual.. c o n v e r s a . Joca. em allemão. Outras vinham ao longe. perpetuado no sangue e transmittido de geração em geração ?. um ar espiritualisado. Pouco /pouco os homens foram se approximando dos recém-chegados. havia de se ver.. Si eu tivesse uma boa arma. o cabra brasileiro tinha um ar victorioso. não ficava um bicho d'aquelles voando.. em longas theorias harmônicas. No meio da massa indistincta dos companheiros louros e pesados. disse-lhe a rir Felicissimo.8C CHANAAN rapidamente a desmanchava um riso fácil e ingênuo. Como o sol sefôpfyAjfflL e as águas do rio /(7/^' sejÀ$$(tf/$j de sangue. apezar de recheiar a phrase . — Aposto. replicou o mulato com fanfarrice. Felicissimo apontou para v//Cc^°^a.. seu cadete. Admirara-se Lentz do modo corrente por que o mulato falava allemão. saboreando com melancolia os effeitos creados em sua imaginação de caçador.. Era só pontaria no da frente. seguindo-as pezarosamente. Joca ij olhava. As aves em bando continuavam serenas e soberbas no seu vôo.. ouvindo-lhes silenciosos a ///Á / .

É uma vergonha! O que acontece é que os nossos tropeiros e trabalhadores todos falam o allemão. com os olhos abertos e fulgurantes. cuja indole serão os do portuguez.. No fundo do pensamento de Lentz houve um pequeno júbilo por essas confirmações da insufficiencia do meio brasileiro para impor uma lingua. mas d'esta mistura resultará ainda uma lingua. — Não estará longe o dia. devido em grande parte á segregação d'ellas no meio da população nativa. cujo fundo. que não fala uma palavra de brasileiro. em que a lingua dos brasileiros dominará no seu paiz. O caso das colônias é um accidente.. Ha gente na colônia. E Felicissimo observou a propósito : — Olhe.<fffá<fresponderam que não. Creia que é um dom natural.. entrada ha mais de trinta annos.CHANAAN 87 de vocábulos brasileiros. não ha povo como o nosso para apprender as línguas alheias. Não digo que os idiomas extrangeiros não influam sobre o idioma nacional. Não sei. EY dirigindo-se aos trabalhadores allemães. não se admire d'esses homens que estão aqui ha um anno ou pouco mais. perguntou-lhes si falavam a lingua do paiz. considerou Milkau.. Essa fraqueza não seria a brecha para os futuros destinos germânicos d'aquella magnífica terra? E poz-se a scismar. Joca approvou convicto e ajuntou que elle mesmo já falava mais allemão que a sua lingua e arranhava um pouco o polaco e o italiano. trabalhado na alma da população por longos .

Joca. viram passar pelo caminho. si nós / i apanhássemos aquelle bichinho para a panella! 0 caçador passou sem os cumprimentar. „ . Nós seremos os vencidos. disse Felicissimo. dirigindo-se a Lentz). frio com ardente e inquieta respiração. queimando o ar <^. Emquanto a conversação se ia desenrolando mansamente. de orelhas ora empinadas. O caçador era seguido por um bando .bocca aberta^e lingua de fora. . ora baixas. que de tudo só t ( c * ^ * * \ apanhou1 a phrase final. armado de espingarda e carregando um animal morto. \Q_-V — Ah! murmurou Joca lj>éjf penZ.. á beira do rio. a got- tejar sangue pelas ier\das/00/j^^0l^/j^ fâ/$ft(fá. (*. fixado na poesia e transportado para o futuro por uma litteratura que quer viver. — E um selvagem. um velho muito alto e magro. os cães o acompanhavam ganindo e excitados pelo cheiro de sangue que escorria da caça. Isto agradou a Felicissimo. nervosos. A prophecia dava-lhe desde já um orgulho de vencedor. — É o vizinho mais perto do barracão. (E sorria. "tf*„J* y* exhaustos da caçada.88 CHANAAN séculos. de cães que o rodeavam ou o precediam. O caçador /Jltt e caminhava com passo rápido. a resfolegar. ***"^**" trêmulos. n'uma com^ yM4^!'bustão que os envolvia de ligeiro fumo. olhou com superioridade a massa de seus companheiros allemães. — Mora por aqui? interrogou Milkau. mas . todos muito ykití^iláfcardegos.

bocejando outros. Lentz olhava agora * s duas raças alli reunidas á mesa.s s nn m muittTV r^mm t ^--nn nn m u t f p --z^~ tfl f Continuavam a tratar da vida singular que levava o caçador. A comida era simples e pobre. alimentação habitual dos homens do campo nos logares do seu serviço. não fala com pessoa alguma que eu saiba. respondeu Joca. espreguiçando os .. prevenindo-o de que podiam ir ceiar. passa pela gente como si fossemos cachorros. admirava o que havia de solido e repou. alegrando-se n'aquella communhão entre as raças . salva. braços uns. e todos se banqueteavam alegremente./ y ^ " ^ rosos entraram todos em casa. — Um arredio.. outros espertos e faladores como Felicissimo e Joca. ' Os trabalhadores do barracão armaram a mesa das refeições no dormitório dos immigrantes e ahi puzeram-se a ceiar. Milkau estava solicito com todos. . sado nos gigantes allemães. Ergueram-se da relva. que são valentes como feras.. \tfT l ^-&-JfJ^&&£sss!sxpeer-tá fr*y*l*\ gcupiüie-homeiis que u observ^airj^7tóá_ftt±fi=sp **"•*.. No-emtanto.do cearense e do mulato lhe <^4AÀ^ trazia a sensação do enjôo de mar. vive só com aquelles cachorros. quando um dos camaradas se achegou a Felicissimo. fâjfyfatyfé a facundia jf/cLof***» interminável e molle. suppoz Lentz.. explicou o agrimensor.CHANAAN 89 nem por isso nos. etldrídMftóp e m o . — Ha de ser algum solitário. o peixe salgado e a carne secca. alguns n u m prazer discreto e moroso.

Além do fundo uniforme da sua própria ''(/ " classe. porque sou de Heidelberg. — Então somos quasi vizinhos. a*~^ A sala era alumiada por um lampeão de kerose. — De Germersheim. ir ne e a luz Àxd turva e indecisa. para conversar com os seus at*^> ' patrícios. Para Milkau um compatriota era o . Uns C '' já\eram homens maduros e experimentados por 1 ] /Vi** J° n g° s soffrimentos. porém. mas sufficiente 2»**. outros novos e joviaes./~^~*>f. havia. I distinctas. 1/ para que os ríovos colonos pudessem distinguir a ^j' . e mostrando uma calma indolente y^ r^** nos movimentos e nos olhos um longo descanço.Comiam mais ou menos egualmente com medo e t^"*^ devagar. ' Entreteve-se Milkau.S}_ ^fitíàffy das bandas do Rheno.CHANAAN U f**. uma longa intimidade l h e s d é r l e m muitos fi. em indagar i/obre W logares donde era cac a um /// Cl * r//ffl' Q u a s i todos procediam da Prússia II ^ oriental. feliz por ter encontrado um conterrâneo. vendo alargar-se o destino da sobrevi. geral^jfii rfr mente fortes. * O trabalhador sorriu. physionomia de cada trabalhador europeu até então <*)' Vi LJ para elles confundidos demoí uma só massa.?*** vente mesa commum que cahiaydos tempos como Çf^**" uma relíquia do patriarchado. mas a sua alegria não passava de JL um gesto tffflftffésfflfflf incompleto como o próprio espirito. alguns <$# i/y.-l ' pontos uma só feição. da Pomerania. fí/ —De que logar é? perguntou Milkau ao trabalhador mais edoso. I $7/v .^Z~A.

.Então é da terra de Soror Martha! Conheceu o Rochedo da Monja. havia uma perfeita unidade. e auzeraa^ ^w^md^% nas caras expressões distinctas. ae •f#/n%'' j interesse e mesmo de negligencia. mas em todos esses movimentos vários.. pelos homens da sua cidade. outro. de pagar em amor toda a indifferença que tivera pelas coisas da sua terra. Lentz perguntou si isso se ligava a alguma len. aquella que sá^ de um mesmo pensamento. Uma incomprehensivel saudade dos seus / primeiros annos $$$^001 um instante./ / 1 ^r~ da. __*^ emfim.CHANAAN 91 apparecimento Yf/fáffi e inesperado de todo o seu /f/Juy1-** passado./J ú*^ mastigava. O homem interrogado ficou um segundo atto- . f — Sim. / ^ddkfy largou o talher grosseiro e descançou os co. todos se moveram a um tempo. Todos se voltaram para o emigrado do Rheno. E Milkau pediu ao trabalhador que narrasse ***( essa tradição ignorada pelos que alli estavam. era '/fa£&f\ como um arrependimento de não ter sido nos prin* cipios da vida o homem de hoje. que estava á ponta da mesa. esperando com placidez a narrativa. de um/UW*»»-// mesmo desejo. Tfim./ r tovellos. de surpresa. onde passara a sua mocidade silenciosa. espichou a cabeça para o meio e poz-se á espreita. — Ah! exclamou ligeiramente pensativo. de começar de novo. n'essas transformações de physionomia. emfim. Um desejo de voltar atraz. pelo quadro.

>2 CHANAAN nito e irresoluto em sahir da obscuridade collectiva e anonyma em que até então estivera na mesa. A principio não disse uma palavra. olhando para todos. voltou-se para o companheiro allemão com os olhos esgazeados. si tornasse a vel-o. que a queriam ytfjjl esposa dos filhos. homem de Deus! E segredo? gritou o cabra. A menina era de uma deslumbrante belleza. partira ^HA A ^ v a pelejar pela Fé. Na sua linguagem. muito espantado de se ver n'aquella situação saliente. entrou j Ih / »<^ para o convento. — Desembucha. sem mais í/triM*/ fimos' fflfâ isolada no castello. Sua mulher ficara inconsolavel com a separação e. Voltou o duque. Os outros ^ ç í á i ^ / a m as suas W * ^ attitudes. apenas se casbú. que de tempos a tempos ia *-£yz^ <. O duque morreu na outra cruzada./j/ífl^ji alia contou que no tempo f % das cruzadas um duque. _ f O allemão afinal se Resolveu. fez voto de que.>.a falar. èdáfitffe Martha se tornou moça. onde a sua piedade encantava ainda mais que a sua peregrina formosura.** ~+ ^ — ' ^»- * ^* . morta para o i JZMX> mundo. temendo a morte do esposo. e com Vi pezar os nobres vizinhos. o primeiro filho que tivessem seria consagrado ao serviço de Deus. a quem o silencio de um instante perturbava e affligia. Era-lhe único ir irj^juM conforto ver a filha. viram-na crescer. raçado a cabeça. Joca. Cocava emba~. que se chamou Martha. e a viuva. e passado algum tempo nasceu-lhes uma filha.

De dentro. Uma tarde. /yffa** e silencioso seguiu-a até ao castello. vestida de monja. A freira partiu logo para a casa de s u a / mãe. quando esta atravessava o bosque para uma dessas visitas deC J. e propoz-lhe fugirei e occultarem o seu amor em '' / ^ outras terras. o joven conde bat/ á porta do mosteiro a ^ y para $fyj% á Martha que 4 duqueza estava a /^l~*-«*« morrer. sua barba embranquecida ?ft alongou"1Tté aos pes. em vez de maldições. filho de um conde palatino. A freira transviada ///)//(2 toma um caminho que a afasta do castello.//u/*%jecto de raptar a monja. Ficou assim dias e dias alli vivendo. disfarçado em aldeão. Não v *creditou o tÁ^A» conde na protecção de Deus e teimou em esperar a sahida de Martha. vinha o echo das supplicas da freira pela salvação da alma de seu malfeitor. o rapaz0$J$fflde amor^ela freira. aconteceu-lhe fyfpfypax-se com u m / ^ joven caçador.. persegue-a.. e afinal o coração. mas foi / impossível. onde o conde ^ / a vae alcançando. Passaram-se mezes. e v^i/ido pelo desejo formulou o pro. amolledMd pelas orações da / . allucinado.CHANAAN 93 visital-a./Martha espavorida/ytíj^^A'põe-se /*y^_ a correr. Luctou comsigo por esconder a paixão criminosa. encostado ao penhasco. O conde acompanhou-a. Vão os dois pela floresta como loucos. quando chegaram ao logar mais solitário.^>v^ lumbrado. descobriu o seu ardil //Q. O moço. annos. e. o conde envelhecia. e no / ' " ' ' ^ desespero da fuga chega atéjio rio. Uma vez. Consolação. Des. Ç m rochedo\se^pre^e*récolhe ^t^r* no seio de pedra a joven monja.

Partiu curvado. no propósito de fundar uma ordem religiosa. abrindo-se em flores o campo mirrado. confessando os perigos da sua . e tudo estava como deixara annos antes. e restavaAri & lhe a illusão de ter apenas passado um dia encerrada na pedra. Quando soror Martha sahiu do rochedo..(Martha^jâáej na mesma juventude com que entrara. e. hcouffirffájtffl? da tentação e elle. ouvindo cantar na sua cella uma voz celestial. rezando em êxtase. Confusa. conver" tido. assistida e alimentada pelos anjos. voltando aos seus labores. Para ella. penitente. e no seu caminho o tempo. Attonita. onde cantara os-aaais &/&>*'.bellos louvores a Deus. o tempo não fifytfla corrido.\Martha/recolheu 2»« abi S£A° s e u aposento. passaram todo o tempo ajoelhadas aporta.(Marthaícorna)para o mosteiro. parte para o convento. ausência.Di CHANAAN * é * t e ^ monja. Jurou então consagrar-se ao serviço de Deus. Entrou no convento. velho e cJieio do espirito divino. de onde no mesmo momento / * . ia-se mudando em primavera. que era de inverno.. despediu-se da freira por entre lagrimas de arrependimento. presas á melodia. Abre-se a rocha. embevecidas. Alli também y Ácr^ty tempo $0 jLpfffiÀlf Arrojou-se a monja aos Á*«v" t p^ s d a superiora. parou a voz na cella e as freiras desprenderam-se do encanto. A pobre madre ^0^VM (fât/fjfftyifâr 'éfâtíWfli de allucinação e disse-lhe que ella não se tinha afastado do quarto.. Durante a sua ausência as freiras.. entoava os hymnos que Martha lhe ensinava de dentro do rochedo inviolável. medrosa.

. Lentz quiz levantar-lhes o espirito e poz-se a negar bruxas. á aragem fria da noite. àffitfMxfyfie todos na solidão que era alli. concordaram n'um brando murmúrio. pensativos. de que parecia irradiar toda a luz que attenuava a escuridão da noite.^. /£jty0MfyrtO*í' rãatígÜ&mIffflúfNà Tjtums/intima communhão. que/a substituirá na ausência. E um dos homens foi o interprete de todos quando disse : — Ha muito encantamento neste mundo de Deus. Não tardaram a se juntar fora no terreiro. Os outros. ' I que era uma faixa phosphorescente e tremula... cahindo outra vez em silencio. dizendo : — As bruxas já morre- . E quando elle acabava.CHANAAN 95 / 7 * * f*«Vr viu sahir um anjo. Falou longamente. voltados para o rio. Sempre se deve andar prevenido. milagres e encantados.. A ceia miJ-se acabando sob a apprehensão *-&//'' vaga que no animo dos trabalhadores deixava a evocação das lendas nataes.. e que era a sua imagem. D'onde menos se espera surge um perigo. Pouco a pouco cada um se foi erguendo e deixando a sala. Os 6-»-?-c// homens 0 deitaram-ha relva. mas sem força de abalar as convicções plantadas desde séculos ás fontes d'aquellas almas. A conversa era (tropéga/|^ morna. coxeando sobre assumptos incenõ^pois mais forte que estes havia em cada espirito uma idéa intima. longínqua e poderosa que teimava em se fixar. Milkau e Lentz também se chegaram. pois ninguém sabe o que lhe está reservado soffrer e vêr.

as porfias com a bruxa Brunhilde. seu combate com o gigante. os homens devem tomar cautela nos seus amores.de um mundo desconhecido e $t$k lhes suggeriam 'i' a reminiscencia de tantas outras historias euro4. mais límpidas. Alli. e com que sabor não escutaram as façanhas deSiegfried. vinham mais puras. surgiram.! Cada um lembrou uma historia da sua localidade originaria. as nymphas do Rheno. as suas proezas no castello do Nivefliho. Os dois brasileiros se interessavanj ardentemente com esses contos que lhes vinham /// ~jr~. em que elle combatia invisível pela força mágica do seu chapéo encantado. chamados pelas evocações dos emigrados../ péas transmittidas a elles'adulteradas pelos povos brancos.. filho de Sigisberto. com o seu caracter immune de contactos extranhos. a derrota do anão"Alberico. de mulheres.96 CHANAAN ram ha muito tempo e ellas sempre foram estas mesmas mulheres que vocês amam —. no serão da terra tropical. vencendo a mulher para entregàl-a . os gigantes com o seu cortejo de . e depois as suas luctas. que foram os -^primeiros geradores da sua raça mestiça. Quantas desgraças não . rainha da Islândia... os heróes.anões -phantasticos. guarda dos thesouros fabulosos. um dos mais velhos não gostou do tom da negação e replicou : — Não diga tal. em vozes e cantigas. moço. os semi-deuses saxões.lhes acontecem por se fiarem. Mas agora as lendas volviam ás suas origens.

E com que paixão não ouviram elles tratar da bella Lorelei. s^^tóé ella. Milkau achou esse termo extranho de um bello ." sonho palácio de crystal é no seio da onda e para lá. até que um dia. responde ao som da harpa : « O meu ri... divina como um. rt ' symbolo. o velho pae louco a pro. fazendo abrir as águas do Rheno para engulirem os ousados que procuravam vêrlhe o semblante mysterioso e que antes de. avistando Lorelei sobre o rochedo com a lyra na mão. quem já teve trabalho com cur/ufj pira... até que.. — Não se arreceia de mulheres. curar o filho. mesmo diabas ou feiticeiras.. ? E a tristeza no castello. ora vingativa.. morrer enlouqueciam ouvindo os seus cânticos. que o attinge no único ponto vulnerável do corpo. Como os outros escarnecessem $/$$-. ora bemfazeja..atraves. // -^-> fffffi fanfarrão : '///wT' t*>.CHANAAN 97 ao esposo.. seduzido pelas suas vozes mágicas. sado par uma lança. protegendo os habitantes de sua vizinhança.hL levei o meu amante kj/'•*'' fiel e leal. longe do vosso mundo. Áy*£"++/i E Joca declarou que não tinha medo de mães . Vinha n'essa historia a paixão do conde palatino pela fada. lhe pede/!) -?ít<y restitua. até que um dia morre o heróe..Q d'agua. vendo a nympha... » * rf * <$fflc/efál$fcfy0J0/alguns passaram 0^»^-^ a commental-a no circulo'de suas nevoadas idéas. desmaiou e a fada o transportou para o seu palácio de crystal no fundo das águas azues. soberana.

.. eu trouxe da restinga na ponta do laço. Meu tio gritou para pôr a janta.... Joca ! — Ah! respondeu este. foi no Maranhão. socega com essas viagens noite e dia no matto por causa de rapariga. e nós. mas como não soubesse a significação do nome. Qual! currupira é phantasmagoria! E tio Manoel Pereira passava a me contar rodellas e sempre arrematava : — Rapaz! toma tento! Um dia... desempenado e de topete. nós tínhamos acabado de recolher o gado ao curral.. y*«(^/con siderou/ como uma d'essas palavras ricas de som dóTdiõrha brasileiro enxertadas no velho tronco da lingua. Os cabras traziam uma fome . seus quatro ajudantes...u>'h 98 CMANAAN e raro accento de linguagem . nem a lenda nativa que a elle se prende. Chegados que fomos. disse n u m tom familiar ao mulato : — Conte-nos isso. O sol já estava esfriando... ria das palavras do velho. que uma vez cunfupira te pega. que. que era o vaqueiro da fazenda. quando nos puzemos á mesa. peei o Ventania que. preparando-se para narrar. não foi por estas bandas. depois de muito pelejar. frouxo e meio descadeirado.. coitado. Meu cavallo estava esfalfado de cercar um garrote arisco. meu tio.. Toma tento comtigo ! Moleque que era eu.. lá se foi paraocampo. — Eh! meu tio! deixe de abusão para amedrontar gente pavorosa... porque eu sou de lá Meu tio Manoel Pereira na fazenda do Pindobal me dizia sempre : — Rapaz.

Eu estava derreado como um bode lasso Os outros estavam na mesma conformidade. se via logo que tinha algum negocio estipulado para outra banda. Te esconjuro ! — O que é certo é que as curimatás voaram para dentro. lambendo a bezerrada que do outro lado se roçava na cerca. moça espigada como palmeira. Os outros camaradas eram já maduros e casados. fica quieto ! . — Eh! gente. Fiquei um tempinho meio desalentado. No sabbado passado tinha tratado com a Chiquinha Rosa nos encontrarmos na ramada onde era a festa. Uma vontade de vêr a Chiquinha me assanhou o corpo e me fez espertar. — « E o Formoso se desculpou disfarçando. só ouvir o cabra. Aquella hora as vaccas choravam de cortar coração.. que espantava minha tia.... Mas vae o Manoel Formoso e me diz : — Tu não sabes do baile da Maria Benedicta ?— Oh ! cabeça que era minha.. com sua cabecinha delicada como de sussurina.CHANAAN 99 canina. parece uma fome de Satanaz. não formavam . as bananas não ficaram atraz e nós rematámos a boia com um trago da branca. — Pois sim.para a patuscada. Vamos d'ahi Manoelsinho.. dizia a velha nos servindo. Eu andava de namoro com a cabocla.. não me lembrava mais desse ajuntamento marcado para aquella noite. Ah! meu sangue.. mas a idéa da rapariga me levantou o corpo cançado.. Depois nos assentámos na soleira da porta em frente ao curral.

Ainda era bem de dia. / tur. e tio Pereira que me circumdava n'um tudo. meu tio. enrolei no pescoço o lenço encarnado que tinha comprado a um barqueiro no porto. preparei-me com camisa e calça alva. Larga de banho a esta hora que tu apanhas maleitas. Bati na porta de tia BenU». O meu lenço branco / estava desde a semana passada com a Chiquinha. nós vamos fazer matalutagem na fazenda da Marambaia. fpnis pedi uníí pouc7~da sua pommada de cheiro e éé$ / •fcis ffl/lfl? estava na ordem. tu estás maluco. /5^ l/ti -* a "Ella havia de me dar no baile. Depois. « Não me importei com a fala do velho e parti para a fonte. Tio Pereira me vendo de viagem. disse meio arrevezado aos cabras molles. logo ao entrar da lua. disse : — Volta cedo que de manhãsinha. porque filho de meu pae não engeita divertimento. — Sim.vara guardar no seio e perfumar com o seu cheiro.— Rapaz. Atirei-me á água.100 CIIANAAN — Bem. é só trabalho para os outros. com intenção de espantar algum jacaré que andasse na vadiação. que me deu um frio nos ossos. E me . vou só. Vosmecê pôde ficar socegado que estou de volta a tempo e bato no seu quarto ás» horas. Passei depressa para meu rancho para mudar de roupa. « Levantei-me em direcção á fonte. Dei um mergulho e umas parapemadas. <• Não quiz mais conversa com o velho. então já que ninguém me acompanha. entrou aralhar.

. Mas tomei sustância em mim e me agüentei valente. e. estava parado com os olhos tristes de peixe morto. me lembro como si fosse hoje. Quando cheguei para furar a ponta. E vosmecê me encha ahi um quarto de restillo e me corte duas toras de fumo de mascar. A brincadeira deve estar influída. patrão. — Brincar um pouco...CHANAAN 101 puz no olho do mundo com passo de ema escabreada.. tudo estava bem secco. — Então. só se ouvia um barulho de porcos que focinhavam a terra á cata de minhoca. e ainda pude logo dizer ao patrão do negocio : — Eu vou correndo para lá. « Xão sei si foi pela falação do Zé marinheiro que se me escaldou mais o sangue... eu senti como tudo a rodar. tudo lhe mandei eu. na ramada da Maria Benedicta. Olha. « Dito e feito. Atravessei todo o campo da nossa fazenda com vista a alcançar a ponta do Guariba. por ordem do Pedro Tupinambá. pinga não falta. e as pernas me fraqueando. o coração a querer pular pela bocca.. Joca. virados para o lado do sol que se sumia. O sol G. o pouco gado magro que havia. — Olha que tem passado por aqui muita rapaziada. Do Pindobal á ramada da Maria Benedicta eram bem umas duas horas de marcha. deve estar prevenido do seu. Mas a gente não se deve aproveitar dos outros. já se sabe. atirei-me para o caminho. . aonde se bota tão paramemado? perguntou-me o portuguez... esbarrei primeira no negocio de seu Zé marinheiro.

ouço um assobio fino que vinha de detraz. De repente. Pernas para que te quero! A cabeça.. não estava muito boa.. parecia me estalar dos lados. com seu par fixo para toda a noite. Continuei a andar. — Que . porém.102 CHANAAN já estava escondido e os vagalumes começavam a correr no ar parado. um grande calor me tomava o corpo.os lagartos corriam estremecendo o matto. Só parecia que encontrava o terço acabado e a Chiquinha. que se recolhe. Lá no fundo da matta havia uma aberta e me parecia que um vulto caminhava para mim. do fundo do matto. que encurtava a distancia e sahiano campinho. e eu com a pressa de chegar comia poeira que era gosto. me largando de esperar. nada. onde ficava do outro lado a casa da festa. Não dei importância ao sujeito e disse commigo: — Ha de ser o filho do Zé marinheiro. Pensei: — É algum camarada que se vae divertir e me chama. porque o pae não o deixa ir á festa. outro. andei. Voltei a cabeça e não vi ninguém. porque a lua estava esclarecendo tudo. Assumptei de novo. andei. e do estômago me subia de vez em quando um enjôo. Não havia viva alma. A areia estava mais quente ahi dentro que no meio do campo. por cima das arvores. cortando os ouvidos. da bocca da estrada. Principiei a cortar por uma picada. outro. de vez em quando um pica-páo n'um tronco de madeira secca batia as horas da tarde.« de toda a parte se apitava. mas perdiam o seu serviço. Outro assobio me passava.

porque elle estava perto e vi que não era o filho do portuguez — A modo que não conheço este caboclinho. Ha de ser agouro. Mas olhei firme para a frente e não vi ninguém. — E elle torna a surgir. a cabeça me queimava. bocca. — Onde se metteu o diabo do pequeno ? — Os assobios iam me rodeiando sempre. — Armei o páo para cima. O caboclinho estava agora a umas dez varas de mim. tu me' pagas. Eu resmunguei: — Que faz esse sujeitinho que desapparece de vez em quando? Isto não é coisa boa.. o certo é que avancei para o pequeno com raiva de cego— Ah ! seu diabo. Então gritei com voz de susto. bem alto para intimar o cabra : — Olá. eparame socegar. amigo. quiz me valer do encontro com o filho do Zé marinheiro. reparei bem. para que falaste ? A mattaria toda passou a assobiar como demônio. Mas quando eu me vi. Outra vez vi o pequeno na minha frente. Não digo nada. quando o pequeno se sumiu de novo.. — Larga! berrei — O caboclinho com olíios de sangue me encarava — Larga ! — e eu sempre seguro.. Fiquei como um .—Tive assim um arrepio de frio. estava seguro pelos pulsos.que conversa é essa? Você anda me fazendo visagens ? — Não digo nada. O sangue me fervia. Os assobios de coruja não largavam. o coração me batia a galope.CHANAAN 103 bandão de corujas por esta noite. e eu comecei a ficar apavorado com a matinada.. Nós estávamos assim a umas cem braças um do outro. eu já estava com a cabeça tonta.

o suor me alagava a roupa. Depois tudo foi cahindo no socego. Com poucas eu estava no chão com o caboclo em cima de mim. as arvores mesmo* se curvavam me abafando. gatos bravos miavam. Abri bem os olhos. e eu disse : — Vou morrer. Eu senti um medo molle e abandonei as forças. os urubus cheiravam minha carniça. abri os olhos devagarinho. o mal encarado! Com o cabo de poucos minutos. os gaviões desciam.. tudo parado.. os meus pulsos estavam desembaraçados : um grande calor me fervia o corpo . uma-feita n'uma vaquejada. mettia-lhe os pés na canella.. porque outros berros se repetiram. Lembrei-me de quanto boi valente deitei por terra.. Comecei a tremer de frio.104 CHANAAN garroteferroado. Avancei para o cabra com mais zanga do que quando me atraquei com o Antônio Pimenta.. sentindo os bichos me rodeando. tudo tinha desapparecido. João.. e elle sempre duro. ouvi cascavel tocar seu chocalho.. catitú vinha batendo queixo... meu S. alua era clara como dia.. Eu estava afadigado de tanta lucta... commandados pelo endiabrado. Levei um tempãodesaccordado. a lingua estava secca e dura que nem de papagaio. um berro de onça. Mas foi peior. Toda a bicharia se agitava no matto e caminhava para nós. eu ouvi um berro de estrondo. e agora alli zombado por um caturra ! Nós luctámos para baixo.. . ah ! pensei que o malvado me deixava. para cima: eu dava de cabeça na cara do bicho. E os olhos se me fecharam como de morto..

. mas lá vim assim mesmo navegando até á porta do rancho.ri bra. Joca. cáe aqui. cabeça com suas palavras : — Curjfupira te assom. « Dei por mim quando ouvi falar alto na porta. dá. versa. foi para me bater a garrafa. nem o caboclo. caçando minha garrafinha de restillo e as toras de fumo.."logo que o avistes. Puz a excogitar que toda a pendenga que o caboclo me fez. Nada. Mas tive então_um grande medo e tratei de abalar d'alli.CHANAAN 105 e não vi mais nada. .. Levanta d'ahi. cachaça e fumo. cáe . cacei. acolá. muito longe. E eu vi que n'aquella noite tive trabalho com currupira. Elles abriram a tramella e um clarão da madrugada alumiou o quarto. vinha como preto bêbado.. . Olhei para a frente e a estrada ia acabar longe. — São horas. o samba devia estar acceso aquella hora. os olhos me ardiam. nem os bichos brabos.. Para espertar não ha melhor que um gole de canna e uma masca.. Leyantei-me de um pulo. Velho tio Pereira me veiu á. Mas não encontrei nada. Tive medo de novo encontro. Quiz correr para a ramada da Maria Benedicta. sahi no campo esbarrando com o gado. Para tu te veres livre. Era a voz de meu tio com o Formoso. Passei a mão em-roda de mim. a bocca estava grossa.. atirei-me vestido na rede que com meu corpo sacudia como uma canoa no Boqueirão. Voltei para traz. todo o meu sangue batia para saltar de dentro. eu trazia uma sede de jaboti. cacei. Não tive con.

mas as forças não acudiam. tantes aos princípios da sua vida/i as recordações jl . Cada qual remontou por ins//. Do rio Doce e da floresta viIIIi \^m>^[idirn murmúrios W/fiflfop e os colonos em silen'" cio interpretavam esses sons da noite. cubiçosas do amor hu- . seduzidos pela idéa de '. principio de somno chegava como urryf tyij. meu corpo tremia dentro como si houvesse uma dansa de todos os meus ossos. a M r e c o l h e r ^ . sendo o primeiro a erguer-se do /' chão.$fy— *fl espreguiçaram-se satisfeitos.' um f&j^4 repouso. Elle poz a mão em cima de mim e ed abri os olhos cheios de fogo. Os outros levantaram-se bocejando — um •. Ficou como dia. 4 ' CHANAAN Quiz me erguer. . Depois da narração os colonos ficaram scisl! mando vagamente. Meu tio mandou o Formoso abrir a porta e a janella. O velho segurou no punho da rede que estava balançando. resmungou zangado : — Eu não te disse? Apanhaste a maldita. E meu tio Pereira. do passado encheram-lhes a alma de sombras e saudades. Quem te mandou tomar banho cançado e aquella hora ? Não respondi.100 . sem mais aquella. Felicissimo achou que era tarde e os convidou '^J~ /Jj. Tive vexame de relatar ao velho que era assombração de currupira.. ou como oity^ L/ dccetitod das mães d'agua.

Era uma noite em claro que elle passava. Nos dias claros. é Joca ainda se remexia inquieto. e então uma saudade o transportava para a longa planice onde vivera: Llldwa no verão o pasto todo morto. Nem uma gotta d'água. os montes o apertavam.. os desfiladeiros o suffocavam de terror. e não achava agasalho na cama fofa e tranquilla. sem um fio verde. / o deserto árido e triste. tinha a garganta secca. n'esses campos de Cajapió. cuja mobilidade se transmittia á alma plástica dos homens ahi formados. c horizonte se confunde com o céu. No Espirito-Santo sentia-se Joca em terra alheia. sentia por vezes a pelle a arder. Outras vezes.CHANAAN 107 mano. nuvens descem quasi a tocar a terra. Já no dormitório os trabalhadores resonavam sobre os colchões estendidos no chão-. sem poder dormir. ou como ruidos das vagabundagens tenebrosas dos currupiras'errantes. o amor violerrto do sol trazia o vasto campo fendido e cortado em pifWf. quando todos supplicam d chuva. A evocação da terra natal alli no meio da floresta do rio Doce. extranha a seus olhos e sentimentos. sem nuvens. vários e inconstantes. fazia-o remontar aos quadros da sua vida passada no logar do nascimento. e sobre e$e.. por toda a parte a sec/cura e com ella a morte. passando como / uma serpente jjfâfjjlÜll o caminho feito pelo pé do homem ou pelo rasto do animal. o sol rubro '/**** ir^^ ' .

cando-as. passando n'um turbilhão como um . veloz e fdtyftf como uma ^eQlumna de fogo. Varas de porcos vão fossando a terra.tormenta no fim do verão. suífo(fêl^. esquelético. dfó^se afastam inattingiveis. t a .teveXum arrepio e um Ímpeto para se erguer » do colchão. "•• CHANAAN 1/ t •f . implacável. De espaço a espaço passa um boi faminto.. Manadas de gado se apresentam no horizonte... E L • £> ' sempre a terra. doir . era depois das primeiras chuvas sobre r o campo. como que surgindo subitas*do chão. Uma manhã lá no Cajapió^Joca se lembrava como si fora.ii das. Nem umagotta d'agua para refrescar ao menos a vista.. E assim a mobilidade do céo amenisa a esterilidade fixa da terra. Agora. movendo os ossos n'um ruido desencontrado e surdo. onde se revolvia agitadamente. farejando o ar. perturbado 'i *ij no seu repouso.. e elle se erguera de sua rede para vêr o tempo. sedentas. a visão da planície o perseguia.. levantando o pó tranquillo que. '/} as tinge.108 '% .. galopando loucamente.na véspera) accordára depois de uma grande.. as segue. \ fo**fò!o Jj y //. /flyi/^^^cyclone. ^V / fõõúpo recordar-se d'essas emigrações de ani^ / maesi. fazendo evoluções como um exercito em campo aberto.estreitando o circulo visual7 tudo fó encenjfn'um espaço limiXadoJÍ o viajante caminha para ellas. as miragens se formam. Um grande tapete de verdura fresca e humida parecia A/v ÀAÀ*'^^ j U > . A madrugada estava orvalhada. corroendo as cobras que se estendem lubricas e felizes ao sol. envolvendo-as. mas serena.

jassanarís Ietfés~? V*r•''' * e tímidas. Em volta d'elles uma multidão cte aves aquáticas brincavam descuidosas e osten/ tavam as pennas de cores vivas e quentes. Aci / grupe/ brancé . a água serrupre—ccescente vae engolindo o campo. caminhando para os refúgios. o gadofsd mostr/. $$d$fâ na vasta savana verde p o n t o s / ' * claros que eram o refrigerio dos olhos. Vinham/ V// pássaros de toda a parte : perrialtas com o seu bicqu-^ de colher. ''4i4 nadando. um bando de marrecas passava grasnando. o pasto agora era farto.. a água porfiava em vencel-o.*». Vão lentos e vagarosos. Já no meio do inverno a água quasi 7 . fai. para os tesos. ia/tr.. -. < / » i 4-. Eram os primeiros lagos. notava-se desfilar.\*-/ . %bt^ji vens cinzentas./ a outra emigração.~No-itmdo dos lagos.. ^./w^mettidos n'agua.(JyLaproveitando a terra firme. multi*'" ' ' does de peixes borbulhavam por encanto.. • terrompia.inquieto e começa A . E em tudo o mesmo milagre dè resurreição. o gado festejava o rebentar da vida na terra e comia a herva tenra. pousava aqui.. 5 . ligeiras elevações da planície. a do inverno. de expansão e de vida. levantava o vôo acolá.. èra o bando mar. *----r:—7~*I ri r\ ' i ' P*1 JH %U ' ' d a s yirgingaygarças. quando o céo se/Vestia de nu. » u -*cial doa vermelho» guarás.. Massas chuvas continuam. Dias inteiros de chuvas. marrecas em algazarra. mas sem recuar. Os olhos se. buscava ainda mais longe a região dos eternos lagos. e quando mais tarde o dilúvio se in. e á tarde. perdiam na campina alegre.CHANAAN 109 ter descido do céo e coberto como um manto mysterioso o campo hontem mirrado.. de rejuvenescimento.^ .

penetrando no . Todo o idealismo da raça estava alli. todo cheio de encantamento.' ^g*" I CHANAAN apagou o campo. eÂstM que nascera nas águas do rio. vogando como pássaros. mantinha-se inalterável. e desfructado deliciosaas ír^rí/^^mente paizagens distinctas de cada espirito e os panoramas longínquos que foram os quadros da infância de cada povo gerador. e cujas louras nymphas eram as espumas das próprias águas. Nas lendas allemãs Milkau via passar o Rheno. ^ .i l/J l/r sé- .110 ã i".. A vida mudara : descançava na cocheira o cavallo e Joca sonhava-se a empurrar a canoa. Milkau n'esse tempo scismava. largas. Em um grande lago manso transformou-se aquillo que fora mezes antes o deserto ardente e fero. que foi o centro e o nervo do mundo germânico. as múltiplas plantas aquáticas verdes. um ou outro ponto apparece como ilha e n'ellas o gado está amontoado. EU/iínha / /' J saboreado as lendas ouvidas aos tropeiros e md a-"^U7 P a r e c i / fluo tinh^ arregaçado o véo que cobria a / alma d'aquelles homens.emquanto o somno JI o não arrebatava para o esquecimento. reflectindo-se o seu vulto espigado á flor silenciosa das águas. como um grande rio sagrado. os novos deuses latinos. bruxas. Sobre elle repousam os grandes nenuphares. cavalleiros andantes e castellos.. yítújíia os quadros recuados no tempo e os quadros novos da epocha medieval. creando phantasiás e mythos.

*4ly->nhecer as origens. intimidando o homem. conforme a astucia ou *£-—** a força o exigem. de desvendar ^f^^Cvy^ nas cellulas cerebraes as remotas sensações vitaes f****"^ dos povos e que possuir a intuição para distin^ZJrs-fT guir na intelligencia de um homem a dosagem /*~r *p?+ perfeita do extranho precipitado da treva com a y/u * j pureza. E Milkau ia lentamente a d o r .os desejos.." ^ ^ r das o encontro dos vários aspectos dos feitiços. será aquelle que co.. que sacode do torpor tropical as feras ou que protege a natureza.+az. #-— vinga-se e beneficia. Na lenda do cur/upira outro ti mundo se descortinava. em animal ou vegetal. /^~ as forças eternas da natureza que assombram e cujo symbolo era essa divindade errante que anima as arvores.T^-^A tos difíerentes dos homens./ ( / c ^ ^ ' mecendOi feliz e socegado n'aquella bemfazeja 'J y /u*** ***** XZ">£&"*~ . do ódio ingenito de uma raça com o amor /. aquelle que tiver fr^^tír' o segredo de ponderar os espíritos.. seu perpetuo inimigo.f>&* d******. Mundo encantado e *u~<u^«mysterioso. não só da historia ou da socie.*-*CHANAÀÍiy 111 seu espiritcffici tranoformaraim em divindades barbaras. Ella espanta... mas de uma alma isolada. d/jbfiÚfp1 de outra. que era toda a alma do tro/Q peiro maranhense. pensava Milkau.. e -tr-r~i*<? cada um traduzia os instinctos. os habi. Milkau sentia n'aquellas legen.f^T*?'*' " dade. as siras santas eram aquellas mesmas fadas do Rheno e os santos os velhos deuses sombrios e batalhadores. trapi^ortaf-se em mil figuras/'***'*'^^ em creança maligna. esse das almas dos povos ! O verdadeiro *• J V^C~ philosopho. que é a sua encarnaçãoprefe/p ' rida. Alli estavam a matta tenebrosa.

no seio de uma nova terra suave e forte. Ora. E Lentz via por toda a parte •sj^~ o homem branco apossando-se resolutamente da terra e expulsando definitivamente o homem moreno que alli se gerara. e o que era scisma da vigília se ia pouco a pouco transformando no puro sonho em que elle entrevia n'um horizonte illuminado. E Lentz sorria com orgulho na perspectiva da victoria e do domínio de sua raça. ora. que repovoaria o mundo e sobre a qual se fundaria a cidade aberta e universal. perfumada.miLavan/ deliciosamente até á sua alma. sentia-se esbraseado com o sol que inflammava ffijjjbféÀfy e lhe queimava o sangue. onde a vida fácil. ora.v t* 'Lentz dá esforçava""por dormir ej(jl debatia/inutilmente para afastar os tumultuosos pensamentos que lhe galopavam na cabeça. seja um perpetuo deslumbramento de liberdade e de amor. surgindo docemente. vi era o rio immenso. impeliido por uma força d'esse poder mysterioso que animava as moléculas mais intimas de todo aquelle mundo novo. que seria a incógnita feliz do amor de todas as outras. no meio de homens primitivos. As visões accumu/ ^ ladas nos últimos dias de travessia da matta per/ de s i s t i a m em toda a sua força. uma nova raça. onde a luz se não apague. . Um desdém pelo mulato. sentia-se passar pela sombra humida da floresta cuja exuberância e vida se /. risonha. em que elle expri- i. a escravidão se não conheça.112 / CHANAAN noite tropical. pujante que corria para elle. .

. Era tudo um recapitular da antiga Germania./tf'4/ dade defendida pelos soldados negros.. eternamente na força da natureza que domi. e ricos. fundariam um novo império. Ay/^ com sua áspera virgindade de bárbaros.<^ nente . elles os eliminariam com o ferro e com o fogo.~ "" nariam como uma vassalla. e senhores. Tddo **-/ Jelle era agora um sonho de grandeza e triumpho. ^ recreio do mulato. .CHANAAN l 113 mia o seu desprezo pela languidez.. Elle percebia no seu cérebro exaltado que os allemães íam. alli se fi^j^aram e macularam com suas torpezas //c*r* a terra formosa. aquellas florestas seriam consagradas aos cultos temerosos das virgens ferozes e louras. turvou-lhe a visão radiosa que a natureza do paiz lhe imprimira no espirito. uma massa immensa e preta marchava no céo qual uma nuvem conductora.. ~r yMJjtí dixiam n'uma anciã de posse e de domínio.... A Aquellas terras feriam o lar dos batalhadores f/r*'""' eteAos. Mas no sonho de Lentz. sobre os exércitos que caminhavam. vift não em pequenas invasões humildes de OfuLíAii^ 'escravos e traficantes. matando os homens lascivos e loucos que . em cohortes infinitas. sobre as náos que velejavam. não para lavrar a terra para . e poderosos.. e depois se transformava n'uma figura extranha e agigantada. fé xevigoxa>iJÍ erf&m. elles se espalhariam pelo conti.. e eternos repousariam para sempre na alegria da luz. pela fatuidade e fragilidade d'este. não para mendigar a proprie. >aporca^ i m m e n s ^ « ^ m ^ / e numerosas os desembarcariam em tõdo~ o paiz. ffly&yixiam'' y>^l agora em grandes massas.

Então (LentZN^yhj) pairar sobre a terra do Brasil a águia negra da Germania.111 CHANAAN cujos olhos penetrantes desciam do alto. .. envolvendo as terras e os homens c o m u m a força invencível e magnética..

e a tímida linha de . No seu passeio approximaram-se do rio Doce. e agora quasi submersos tingiam n'uma orla verde o cinzento pérola do rio. crivada de clareiras. Milkau e Lentz muito cedo estavam admirando o logar.IV Na manhã seguinte. Era a única quebra da immobilidade. As grandes chuvas dos dias anteriores tinham enchido fartamente o rio. depois de se fatigar em curvas de réptil por entre os brandos contornos da terra maravilhosa do Espirito-Santo. devorou a vegetação das praias. A omnipotente amplidão das águas $ engoliu as margens. ^ Idas arvores cujos galhos outr'ora pendidos como * /chorões simulavam sorver a água. alli se desdobrava a perder de vista. que. estremecendo n"um leve arrepio a humida superfície. A cheia domina toda a paizagem. sobre cujo dorso luzidio e dormente a brisa perpassava volátil. avassallando com singular grandeza o perfil da matta.

Parece-me que attingimos uma região aonde não chegam os gemidos humanos. — Não ha nada. o espaço e j^/í$54átí|0r íião é a larga e quente paizagem monótona. e o panorama que se apresenta não é o constante dia de sol pleno./ "reza humana é feita para o goso.. sensação extranha e bVils?^. Quantos elementos. por isso mesmo o prazer lhe é mais inherente e imperceptível.. indistincta.. E que a felicidade é o esquecimento e a esperança. onde o crepúsculo é um sonho fugaz e a noite cáe como uma cortina negra que iechaftjfâkl^ V ^ r ü X . porém. „ cerração o delicioso momento da resurreição das cores esplendidas e n'estas voluptuosamente repastavam o faminto appetite da vista. suspensas sob o céo. para formar o quadro da vida. Abre-se uma trégua para o eterno conflicto da luz e dos tons. E hoje me sinto feliz como jamais pensei que o seria. o espalha como um tufão.ÊOL..^^. e como um só minuto de descanço não nos dá a illusão da eterna calma! — E que nós somos victimas dos divertimen- .. como esta tranquillidade. risonha e amável.. nevoas densas apagam por instantes o sol. dizia Milkau emquanto andavam. aqui não ha um signal de soffrimento. não estão em nós para afastar a dôr .. a sombra cobre a terra e faz a côr. fulvo amarello.. Emanadas das águas.110 CHANAAN montanhas ao longe. Milkau e Lentz sentiram n'aqueíla 'M. com que facilidade não a esquecemos. tudo é Wy vida fácil. jfonydMljto dia. ]$(/%$$/ a natu/. inundando de um só fff <w*4w&Ç°lorido. e a dôr.

que. Adormeçamos as tristezas do nosso passado. forte. já que não podemos apagal-as de todo. e n'ella viverei para vêr reconstruída a cidade antiga.CHANAAN 117 tos da natureza. — E eu também vejo aqui a terra immaculada com as suas grandes energias de felicidade. temos de tirar o verdadeiro sentido da nossa excepcional situação... disse Milkau a sorrir.. as suas fatalidades e nos obriga a tomar o caminho mais seguro para a harmonia geral. para martyrisar-nos ao seu sabor. Não é verdade que somos felizes ? Pela linha da praia que a enchente tornava apen as uma vereda Comendo o mattoJEóntinuavam elles o passeio.. n"este grande scenario. e a vida nova se abra-para nós como um sonho realisado. E tu emprestas n/ á natureza uma consciência que ^kM. o prazer mais do que o soffrimento.. E hoje. dominadora.èl/ti^ Ella J^yc^não existe como entidade. distinguindo-se pela vontade. tu sabes. nos acorrenta á vida. aqui situados n'este mundo. A nossa superioridade sobre ella. está exactamente nessa consciência que é nossa.. que começa ainda virgem de sacrifícios. — Mas a vida é mais natural do que a morte. Muitas vezes tinham de abandonar 7. — A esperança. que percebe as suas leis. que por esses pérfidos e doces venenos cujos segredos ella possue. se apodera de nós e nos arrebata para o futuro. venha renascer aqui. saltando pelos séculos de humilhação. .

O que é lamentável n esta solemnidade primitiva é a intervenção inútil do Estado. de talhar o nosso pequeno lote. E riam com essa gymnastica.#M*i — o que eu vejo é o contrario d'isto... que chama a ambição e espraia o instincto da posse.. que no nosso caso é o agrimensor Felicissimo. uma ligeira inquietação de vago terror se mistura ao prazer extraordinário de recomeçar a vida pela fundação do domicilio. — O Estado. como que alargando o espirito n u m conforto amplo e bemfazejo. Não acreditas que o próprio ar que escapa . de pedra em pedra. devemos escolher o local para a nossa casa. disse Milkau quando chegaram a um trecho desembaraçado da praia. n'«ste deserto. K ^ — Çtyahkjfld mim. e pelas minhas próprias mãos. desdenhou Lentz. outras passavam aos pulos. O que está hoje fora do domínio. a ambição. replicou Milkau.118 CHANAAN o caminho e cortar pelas picadas. amanhã será a preza do homem. É antes a venaiidade de tudo... — Hoje. dentro da vegetação .' venda. sem '. — Não seria muito mais perfeito que a terra e v J 0 suas fqJfH fossem propriedade de todos... Por longo espaço o panorama era immutavel. mas o que havia de monótono não fatigava. — Oh! não haverá difficuldade. a sua opulencia.. porque a vastidão das águas. abandonados á sensação agradável da fresca manhã e á volúpia das illusões. eliminava o enfado. sem posse? i>> n.

.. nas cidades suspensas. como é hoje a terra? Não será uma nova fôrma da expansão da conquista e da propriedade ? * — Ou melhor. sinto um perfeito encantamentqjjião é só a natureza que me seduz a q u L ^ u e m e festeja) é também a suave "contemplação do homem'.. com a suppressão da idéa da defesa pessoal. O sentimento da posse morrerá com a desnecessidade. das estradas. será o mesmo que hoje receber. não o ampliarei. não me abandonarei á ambição. se estenderá a tudo ?. ficarei sempre alegremente reduzido á situação de um homem humilde entre gente simples.CHANAAN 119 á nossa posse. . dos palácios. • que n'elle tinh* f /*> jfflfâ/f #jL5fc-. mais tarde. ponderou Lentz. Ha em todos uma resignação amorosa. . explicou Milkau. será vendido. Porque só pela riqueza ou pela força nos emanciparemos da servidão.... n'uma grande anciã de acquisição popular. chamar a mim outros trabalhadores e fundar um novo núcleo. desejarei ir alargando o meu terreno. . — Pois eu. Desde que chegámos. Todos mostram a sua doçura intima estampada na calma das linhas do rosto. dos museus. si me fixar na ' dt<.. depois de se apossar dos jardins. ha como um longínquo afastamento da cólera e do ódio. Os naturaes da terra são expan- . não vês a propriedade se tornar cada dia mais collectiva. que signifique fortuna e domínio. — O meu quinhão de terra. idéa de converter-me em colono. que se vae alastrando e que um dia.

disse Mirkau. agarrando com enthusiasmo as duas mãos de Felicissimo. não haverá conflictos de orgulho e ambição. e os meus amigos já tinham azulado.. a justiça será perfeita . estão tranquillos e amáveis. de olvido e de paz. eu adivinho o que é todo este paiz— um ninho de bondade. No encalço d'elles uma voz clamava. Tivemos pena de accordal-o. visto-me n'um pulo. o próprio chefe troca no lar o seu prestigio pela espontaneidade niveladora.. vou procural-os para um dedo de prosa. e viram a cara triangular e interrogativa do agrimensor. — Pregaram-me uma peça. para só pensarmos nos outros e não perturbarmos a serenidade d'esta vida. que se atirava a elle n'um gesto festivo e bondoso.. corno si despertassem. Ha-de haver uma grande união entre todos. não ha grandes separações.que éo feliz gênio da sua raça. — Bom dia. que vinha quasi a correr. Vendo-os.. pois havia um s / .120 CHANAAN si vos e alviçareiros da felicidade de que nos parecem os portadores. não se immolarão victimas aos preconceitos abandonados na estrada do exilio.. tirando-os da divagação : — Mas então que fugida foi essa ? Para onde se botam ? ^ Voltaram-se.... —. Accordo. Os que vieram de longe. esqueceram as suas amarguras. Todos se purificarão e nós também nos devemos esquecer de nós mesmos e dos nossos járxjinzo^.

caminhando um a um na estreita beirada. mais ao . concluía orientado : — Aqui devemos estar no lote vinte.. 'muiiln pi In i nnurnr. o' «• rio chammejava em ouro.. semiequencia. distrahidos. — Pois eu. /srK<™ZC . A conversa ia-se vàidndo em vozes altas. e eu lhes mostrarei o numero dez. Felicissimo frimnn i fn ntr. como si fosse toda a <Z//. farejei aqui e acolá. >' ' Crot_ correndo sobre a Terra.. Porque não aproveitamos para ver^seso lote de que hontem lhes falei ? — De que lado fica ? perguntou Milkau.. grande e incandescente massa do sol derretida.menos. viemos até aqui.. puz-me á caça de vocês. seguia impre.//</«•*vista. nevoenta. aos saltos e trambolhões. olhando rapidamente para os lados. nem nada. transformava com violência'. andemos um pouco. E nem tomaram café.o //ddjiéado quadro da manhã M/pe^. E. um kilometro. farOvxA*' — Estão cançados ? gritou Felicissimo. E Felicissimo. disse Leritz. insistiu o agrimensor. Voltaremos ao barracão á hora do almoço.. — Aqui mesmo n'esta direcção. Inundado pjflffl/táfytóffl de amarèllo. melhor desistirmos fi &jfH e aproveitarmos o tempo para um passeio uj ^ mais longo ? — Seja.CHANAAN 121 grande silencio na casa quando sahimos. — Não acha. e fui bem feliz em ter virado para esta banda. E ' -^tu o sol que se desprendia das" nu vens.

ffbos com a mão. que não era muito batida nem destocada. pensava elle. e virou-se para os immigrantes.G4fi. não ha a menor sombra de conforto. Passando para a ligeira sombra do matto e caminhando pela picada. tudo ia bem. evitando os tropeços e as poças d'agua.// j J\^_ . — Cuidado ! implorava este a sorrir."" UiYfA. saltando ligeiro para deante. outras era preciso djÁ n 6Q. Felicissimo enveredou por este.12-2 CHANAAN — Que juizo faz de nós ? perguntou Lentz. tomando um largo fôlego. não ha estradas. tudo é agreste e selvagem. Lentz. Algumas vezes tinham de se abaixar para se desviarem dos iii. e uma lambada forte e farfalhante batia no. E assim foram até que. iam vagarosamente. si tivéssemos vindo por cima. em frente a um atalho.rosto ou no corpo do vizinho. de instante em instante : C á direita ! Agüenta! — Com a mão À/jfJjffl/ ° ramo. porque realmente tomámos pelo peior. — Tudo aqui será uma grande difficuldade. á direita. recommendou-lhe cautela.hJjo C/ gritar nara traz. Lentz que o seguia.. calado. e quando via este ^ ^ á ^ í l p e l o companheiro. Oh ! diabo! O agrimensor n"um falso movimento metteu o pé n'agua. Não é melhor . — Arre! Que brincadeira! Nunca pensei que o rio estivesse tão cheio. O agrimensor divertia-séem yí-aLÍ- /. — É por causa do caminho.. As vezes era precipitado.*/ Xí^jtz**n. largava-o. Agora cortemos por aqui. galhos e dos arbustos. suspirava bocejando. que vamos srahir mesmo dentro do lote.

prepararemos o terreno. e...^ campanha contra a natureza inculta! Não é pxe-' LL&Á/ ferivel toda e qualquer outra vida a esta ? Não é?. E os seus olhos descançaram em Milkau. onde o caminho já esteja aberto e tudo aparelhado pelos / / outros? Realmente.. — Imagino que o senhor deve ter muitos aborre cimentos. os colonos não querem fazer nada.. ao penetrarem mais e mais no matto espesso. — O h ! descança.. e me enterre ahi n'um armazém de commercio. Não é verdade ? — Aqui não falta em que trabalhar.. pontes e tudo mais. limparemos as estradas. receioso de deixar transparecer o seu desalento. disse complacente Milkau. E que não se faça! Lá vae uma queixa por intermédio do Roberto ou de qualquer outro figurão ao governador. e matando a solidão. que lhe sorria como um bemaventurado. limitam-se á sua casa. — E pena que a estrada não seja melhor para gosarmos desembaraçados este passeio. e nós estamos a levar carões todos os dias. cortou o agrimensor. que nos recompense. . ao seu terreno e esperam que o governo se mexa. que havemos de abrir caminhos por tudo isto. — Que delicioso deserto! dizia-lhe este. Em geral. a política se mette no meio. que loucura dfffax-me n ' e s t a / ^ ^ .CHANAAN 123 que eu desista de fazer esta vida de colono. sabe. respondeu o outro quasi timido. levantaremos uma habitação risonha. que lhes dê estradas.

si a ponte cahir? perguntou inquieto Milkau. Agora mesmo. mandou o papel ao inspector. elle tinha esquecido tudo e voltava á sua jovialidade.. Creio mesmo que já cahiram uns páos .estou me ninando para o governo. que por sua vez o mandou para cá. o inspector não se importou com o que disse o pessoal. Lá vem outra vez segundo barulho. com medo das eleições. tenho um officio do inspector. A zanga do agrimensor era d'essas que passam á medida que é espraiada n u m desabafo de linguagem. que mandou para a Victoria. Andaram mais um pouco pela picada e sahiram vertical- . a fim de fazer o orçamento das obras. Botam uma pinguela de lado a lado e vão vivendo./ ' CHANAAN — Não faltam amofinações. Isto leva ainda um rôr de tempo.. nós pedimos verba e.. e . foram á fonte limpa. o páo vae apodrecendo dia a dia. e é preciso fazer a ponte de novo. e Roberto arranjou com elles um « nós abaixo assignados ».. será muito pouco. E a minha vingança é que quando vier o dinheiro. os colonos porém. porque o tempo não descança.l-2'i //. Sou um seu creado. ao engenheiro. como de costume... — Ora. Immediatamente depois. — E n'este tempo que recurso têm os moradores... inspector e toda essa recua. mandando o engenheiro informar a respeito fájj&ffl representação dos colonos sobre uma ponte que está com o madeiramento estragado. muito simples. o governador se assanhou logo. que são matreiros.

Os outros olharam um mattagal cinzento. / ./ . vejam que terra cada páo de respeito. / ^ T ^ 9 í Ficaram mudos e como ligeiramente apavora^ dos pelo recolhimento das coisas e como si uma sensação de isolamento. e elles acabam isto n'um abrir e fechar de olhos. em cujo espirito trefego e intempestivo o silencio não tinha abrigo. e ? dissimulando a divagação dós seWoutros pensa. o que não é nada. Depois do roçado. concordou Milkau. fazem um arranjo com a turma. impacientou-se por uma resposta./v b r a j f ^ / e calida.. com as arvores crescidas e todo tapado pela vegetação. a difficuldade está na limpa. Não viam nada de lado a lado : a vereda fora aberta em plena matta e tudo era encerrado n'uma som. que era forte e traduzia a fertilidade do solo. de separação do mundo os mortificasse por instantes. accrescentando : — Este lote é muito bom.. Vocês.. Oh ! Ha de ser um gosto ! — Aqui estamos bem. — Estou por tudo. É preciso um pouco de trabalho. j&W*' — Está aqui o lote que lhes recommendo. . porém. não nego.CHANAAN 125 mente a' um caminho mais largo e mais limpo.. disse ' Felicissimo.X / / mentos.. a quem uma onda de illusão sacudia o torpor da instantânea cobardia. Felicissimo. disse Lentz arrastado.. andando mais uns passos pela nova estrada.

Sinto dolorosamente que. e firo menos o que ha de material n'ella do que o seu prestigio religioso e immortal na alma fiumana. ha de sempre destruir a vida para crear a vida. acudiu Milkau. mas virá o dia em que o homem. Emquanto os outros se batiam em ^ptAtevrad. E Milkau disse com a calma da resignação : — Comprehendo bem que é ainda a nossa contingência essa necessidade de ferir a Terra.. respondeu Felicissimo.\>í. para nos expandirmos.. levado pelo mesmo sentimento. que alma tem esta arvore ? E que tivesse... O agrimensor olhou a arvore. e então dispensará para subsistir o sa«/crificio dos animaes e das d/fyff. Nós a eliminariamos. por mim. como succede com os vegetaes. notou Lentz a sorrir com ar de triumpho. atacando aTerra.126 CHANAAN E apoiou-se negligentemente a uma sucopira. CVi^A^y^ rto> t*+.Por ora nos conformaremos com este momento de transição. de arrancar do seu seio pela força e pela violência a nossa alimentação. E depois. — Não ha nenhum. botar tudo isto abaixo. — Faz pena. — Eu. adaptando-se ao meio cósmico por uma extraordinária longevidade da espécie. disse compassivo. receberá a força orgânica da sua própria e pacifica harmonia com o ambiente.offendo a fonte da nossa própria vida.. preferiria um lote onde não fosse preciso esse sacrifício..íw+***- l—J . — 0 homem.

— E vê-se bem o rio ? indagou Lentz. que decidem ? perguntou aos outros o *<*?' / / agrimensor. é muita commoda aqui..CHANAAN 127 Felicíssimo. espantando os pássaros dormentes e c ^ J^ \ sacudindo do voluptuoso lethargo os calangos. commentou Milkau n'uma irradiação de intimo bem estar. como /s u l t i m / s $ 0 f ô « ..os troncos. dadas ás victimas no momento do sacrifício. além disto. levantando um V* murmúrio baixo. — Hão de ver. — Sem duvida : é só desbastar o matto. e com a mão meiga lhesjfestejava . Puzeram-se a caminho. á beira da estrada. estabelecendo terreno indicado. ahi está á vista o estirão d'agua. são horas do almoço. *Z. Vien-Z^AM. E hoje mesmo voltaremos com os homens para a medição. *<^* A^~ * t~ sy**w/y y . mirava as velhas arvores. e. porque esta situação é admirável para o café. no seu amor ingênuo á natureza. humilde. que jv*.. tro da matta penetrava o vento da manhã e nas y \ . E agora toquemos para o barracão.. — Será uma delicia uma casinha n'este bello logar. ^ A aw— Então. folhas passava brandamente. Na estrada </4<r/ " ? ^" falavam alto.1++& Os immigrantes concordaram de bom grado em j ^ . que se escoava de ^rtodas as arvores. — Fazem muito bem. como as queixas surdas dos mo-1—«t^^i^j-A^ ribundos. alvoroçados com os vários sentimentos que os trabalhavam.

toda a complicada engrenagem do Estado. — Vamos á boia.12S CHANAAN se escapuliam pelas folhas seccas. molhando úma penna em tinta &JU*^ encarnada. E eis como. disse Felicissimo passando a mão espreguiçada no hombro de Lentz. graças á condescendência do chefe. Este furtou instinctivamente o corpo como para não ser esmagado pelo gesto da intimidade. continuando nos mesmos elogios. ao mesmo tempo. Chegados ao barracão.escolhido. e em uma d'ellas Milkau teve de encher i com as indicações especiaesde identidade os pontos em claro. As folhas dos requerimentos eram formulas impressas.se concentra nas mãos reduzidas de um humilde agrimensor. foram logo para o escriptorio. afinal. com f l^t/iS™^'/ ás suas repartições publica/. e foi esta a única formalidade para a entrega do prazo. os dois companheiros entregaram a petição assignada. os seus innumeros funccionarios. que de facto é o senhor absoluto d'esses bens públicos. pensava Milkau. Isto feito. e. pois ainda não puzeram nada no alforge. Felicissimo punha e dispunha das terras a distribuir. á semelhança dos outros que já tinham sido concedidos. Os trabalhadores já rodeiavam a mesa prepa- ^ 1 ^ ^ ^ . pagaram as custas da medição e da planta. n'uma musica de chocalho. em frente ao grande mappa dos terre[ nos. e ahi. marcou o lote com uma cruz. ^ V &i&&*y&€sr+y • fu*~ **' . que já vae ficando tarde e vocês devem estar dando horas. pois. o agrimensor mostrou-lhes a posição do prazo *« A.

Mal acabou o almoço. arrastava-o no meio de amáveis insultos. rindo sem saber de que. No terreiro cercaram um barril d'agua. esfregando depois as caras com estrepito. — Vamos! aviem-se. Isto espalhava na mesa uma leve melancolia. e os homens rindo disputavam entre si a precedência. Por vezes. E á voz de commando a alma obediente dos homens serenou e todos em ordem terminaram a ablução. Para o fim. O boccal do barril era pequeno para tanta gente. quando os outros entraram na sala. bufando. gritou Felicissimo. cada qual esmurrava o companheiro. Felicissimo com os novos colonos ia atraz. A refeição a principio correu ruidosa : todos estavam expansivos pela fome e pelo começo da familiaridade. Felicissimo passou a entristecer. e por mais queluctasse para disfarçar. no caminho. uma súbita preoccupação_£8 apossoü^aelle. d'onde o semblante do chefe carregado de sombras os expellia mais depressa. e que era o prenuncio das medições dos leites. mas alvar e gostosamente. não poude resistir e cahiu n u m a scisma profunda. em que mergulharam as mãos. retiraram-se do barracão. habituados a essa afflicção intima do agrimensor. os homens da turma. Uma alegre algazarra se formou.CHANAAN 129 rada pobremente para o almoço. Milkau cortezmente procurou con- . que refreiava a expansão. Depois armaram-se com os instrumentos e ferramentas e puzeram-se em marcha na frente.

quo sram^balisas pintadas / / / em zona. — E aqui que temos de abrir o rumo. depois de andarem bastante. Isto é v theodolito. ^ „ S í£. mal respondendo ás perguntas. soturno. E virando-se para Milkau e Lentz. Todos pararam mecanicamente. Depois de algum tempo. O X agrimensor os acompanhava com uma compenetração religiosa. em que Felicissimo deu voz de alta. yfc-*» *** % »* f ^ * < 1 * 9 y%. que recebeu em suas mãos com febril anciedade. / W "& 11 *V*-. / Os trabalhadores começaram a desatrelar os instrumentos e os seus apetrechos accessorios. e o moço cearense entregava-se á sua tarefa com extrema attenção. Hoje fazemos U >.' o t r V A ^ • ~~ *-***: . que mesmo no matto coberto era abafadiço. toISÜS?" 1 0 " P o s i Ç a o c o m ° s e u fftffflífofri e ordenou a três trabalhadores que seguissem pela frente da G*) f—J estrada com ds marcoo.+ h* . Pediu J|KM cavalloto om fôrma de t r / que um homem lhe apresentou rápido. e foi com certa sofreguidão que viu abrir-se uma caixa e d'ella ^ r e t i r a r um instrumento. Estupenda invenção! Dispensa grande trabalho para levantar as plantas. Então seguiam em silencio.jb í **** / %2tl ' ÓZs-c frjb* y*^~ ^T^ JÇ^ o*». Havia uma calma grave em todos. / medições emquanto o diabo esfrega r/olho por- / Q. ruminando os seus pensamentos. e re aquelle passou o agrimensor a atarrachar o instrumento. . disse com solemnidade : — Não sei si os senhores conhecem.130 CHANAAN versar com o agrimensor. que.? brancas e encarnadas. se mettia comsigo. Houve um momento. abrasados pelo calor do sol.

. espiava outra vez e sempre o mesmo resultado negativo. — Ah! disse aos hospedes. Elle tem hoje o .7 ainda mais solemne e entregou-se todo ao instrumento. Voltava ao instrumento. é a combinação do nivel e da altura: toma-se um angulo horizontal e um angulo vertical ao mesmo tempo. torcendo-as ora de mais. e para Felicissimo.. f//~r O sol esquentava. com medo de algum desabafo. mirava na objectiva. Grande invento! Sem elle não sei como me arranjaria! Os novos colonos conheceram pasmos um novo Felicissimoiy não sorriram. um suor frio e extenuante alagava o agrimensor. que conheciam esse momento terrível do theodolito. sempre com insuccesso. erguiase para espiar por cima. abaixava-se. parecia interminável. a ponto de insultar e espancar os seus homens. E só n'elle/ Felicissimo se transformava. ^ para quem dkjí preparava a scena da sabedoria. mas ora teimava em seus movimentos. no chão os pés queimavam. atado em sua angustia. ora abandonava o apparelho e ia miral-o de longe. O tempo ia correndo. voltava a rectificar as lentes. Já o tomava a angustia de não acertar.CHANAAN lál que. O agrimensor calou-se ^nrt*«*«. Em roda faziam um timido silencio os trabalhadores. Cada um o temia e instinctivamente se ia afastando do apparelho perturbador... ora de menos. sem resolver-se a medição.. tornava a ageital-o. como sabem. E a afflicção do agrimensor n'aquelle dia redobrava á vista de Milkau e Lentz.

Almoçámos bem. .132 CHANAAN diabo no corpo: não consigo vêr nada.. eu logo vi que era você que não me deixava pôr em ordem o theodolito. mas a anciã e a vergonha do insuccesso não davam forças á sua ira. Felicissimo ficou colérico. Felicissimo arremessou-se ao primeiro : — Oh! seu ordinário. Mas para não perdermos tempo. depois.. Com certeza foi quebrado por algum d'esses miseráveis. e em casa mais á vontade o desarma para vêr. tínhamos andado antes. é melhor. Ao contrario. que agradeciam com os olhos a presença dos novos. E. evitando maiores conseqüências da cólera do chefe. o senhor está fatigado.. disse-lhe : — E melhor deixarmos isto para amanhã. si .^ O homem «e desculpo u-f dizendo que arreiára o marco quando o chefe já não estava no apparelho. Com certeza ha alguma coisa ahi dentro. N'este tempo os homens das balisas estavam fatigados e começavam negligentes a oscillar os marcos. 'cww E c o a v a raivoso o grupo dos trabalhadores. Voltou ao instrumento. Milkau com pena. tornavam-no gago. — Sim. quem sabe? O theodolito pôde estar quebrado. Uma grande tristeza se apoderou d'elle. enfraqueciam-no.. Hoje está muito quente. Deixe para amanhã com a fresca. e agora definhava no desespero de conseguir qualquer observação. afastando o páo da linha. murcho.

o punha fora de si e era causa d'esse terror cujos prenuncios lhe sombreavam o espirito desde o fim do almoço. — Guarde isto. As medidas foram tomadas na fachada da frente do terreno e nos fundos dentro da matta: postes fincados nos quatro ângulos assignalavam o lote adquirido pelos dois immigrantes.CHANAAN 133 fizéssemos a medição com a fita?. um pouco sarcástico : — Vamos á fita! A medição fez-se como sempre. E um systema atrazado e de que não gosto.. não conseguira trabalhar com o maldito instrumento. Elles sabiam bem que o agrimensor. apagando os traços da agonia scientifica. a alma de Felicissimo se ia libertando da angustia. o apparelho está quebrado.. porém. o allemão parou. que sobre elle exercia uma influencia satânica. ordenou Felicissimo a um homem. alteando a voz. E como o agrimensor se approximasse d'elles. — Com certeza.. dizia em aparte Lentz a Milkau. Faltava. disfarçou. mas emfim. e o seu jovial humor o retomava francamente. abrir o s . Cumpria-se a velha e costumada comedia do theodolito. desinteressado do theodolito. Os trabalhadores ráj&taa^fcss todos com ar in. A medida que o theodolito ia desapparecendo na caixa. — Estes mulatos. não ha remédio. em mais de duzentas medições. apontando desdenhoso para o instrumento.. lhe alterava o caracter. s .tf1/ telligente.

os pequenos arbustos. ainda receiosos de ^ yJMp^x/n^r ú^J trabalho. O ferro não descançava nos braços sempre em movimento. O rumo ia sahindo acanhado e torto. O machado cantava com energia no âmago dos troncos. — Não seja essa a duvida. a principio « W iam escolhendo. Nós tomamos a responsabilidade de abrir novo rumo. disse Milkau. para cortar. O cearense objectou que a planta não estava tirada.. O agrimensor bondoso e serviçal acquiesceu. Milkau dirigiu-se a Felicissimo e perguntou-lhe si podia contractar com os homens esse serviço para aquella hora mesma. dos outros. n'um compasso vagaroso. e derrubadores em grupo combatiam ao mesmo tempo uma pobre arvore. e Milkau *» entendeu^com os homens. os trabalhadores estavam a derrubar o matto. si este não sahir de accordo com a planta.L1-Í "rrvotfáy CHANAAN rumo que separasse de lado a lado este quinhão de terra. os marcos estão collocados e o rumo irá sendo aberto com as balisas e medidas rigorosas. Mas quando miraram o serviço feito. ladeando quando se encontravam com uma arvore mais robusta. os homens como que despertaram da sua instinctiva preguiça e estimulados á vista dos extranhos se atiraram duramente á derrubada. Momentos depois. e em pouco tempo estavam completamente alheios a tudo e entregues á sua vertigem malvada. Ouvia-se cahir o machadodes- . uma fúria hysterica de destruição. Havia uma raiva.

matto. agora harmônicos e regulares. Iam para adeante. energias do seu ser humano. casa onde morei! Já que é forçoso partir. Algum dia te verei. agora. paxá J(éffifá0$\° homem tinha de fazer um esforço desesperado. habituados ao exercício. Joca fora o primeiro a soltar a voz. campo.CHANAAN 135 locando o ar e arrancando um ronco forte dos robustos peitos dos devastadores. e a alegria' se lhes espraiava nos rostos congestos. e das / / / ? boccas rudes deixavam sahir os velhos cantos amados. Em outros momentos j . E elle o cantava sem attender a ninguém. o golpe era tirado bem do chão. E cantava n'um tom que era um longo soluço : ///óCLeal-i ^J r //J7 u 4k Adeus. serenavam. o suor lhes escorria. Os allemães instinctivamente o imitaram e cada um em sua própria lingua cantava versos bebidos na fonte natal. Não mais roncavam com a anciã dos primeiros movimentos. e adeus. Quando estes encontravam um páo mais duro. Adeus. e no impulso furibundo o ferro penetrava tanto que. Era o grande acontecimento. o drama da sua vida esse abandono da terra natal. redobravam de ardor. A pequena fadiga fazia bem aos seus membros hercúleos.distrahiam-se. O mulato maranhense dizia as saudades do seu coração. tudo o que mais amava com as intimas. cravando mecanicamente o machado nas arvores.

Os echos recolhiam as rimas singulares das duas raças.' qju /cantigas.«(\ / -Miifetba-iJStavia uns diasjno alojamento dos immigrantes. e os versos que diziam eram echos das tabernas do paiz germânico. os immigrantes sonhava beber. em plena selva tropical. Si o teu rasto faz chorar! Jb e***rüjj'*''N'esta imagem tão ijina-e-tã-e---mpEtior de um sentimento animal.. — . noch ein. Noch. $**~ os immigrantes sonhavam-W pela suggestão das t r^~. 'dl&g^ed. A esta solitária voz brasileira se juntavam os accentos fortes e musicaes das vozes allemãs.. e dos seus labi<*§ inconscientes sahiam versqp de outro caracter : Vi o teu rasto na areia E puz-me a considerar : Que encantos não tem teu corpo. dléMàMa' embebido na contemplaçãolcorrer y\. noch ein. fií . e por um momento alli mesmo. Joca se expandia ém gritos voluptuosos.. mais um). A derrubada do rumo proseguia mais activa V. que se casavam no ar n'uma 'união extranha. e ruidosos : . i r i 1 ' doce de toda a sua raça.y .<fQI/ e mais alegre. Elias cantavam em coro. » (os velhos allemães bebem mais um. Teu rasto faz chorar.l-M CHANAAN abandonava esse queixume.. Perpassava na cadência e no pensarríento da estrophe o frêmito da lux-uria meiga e jj-----^ . /reunido^ aa beb L Jt'I « Die alten Deutsche t: fen noch ein.

^ -T^ A idéa do fogo chammejou no espirito do com. uma alma na har. l/-«/r~-#^ Amanhecia. architectada pelo seu coração em longo sonho. na mulher que elle ama. tudo tem uma voz. a A ^T '• queixa da floresta ardente. e disse ^*~ *£«*_ resolutamente: 'TL--»**' t u — Temos de queimar o matto. apontasse para o alto as línguas ardentes. que lhes pareceu mais resequidi Antes que a labareda . o estremecimento do ar tj» .. ainda assim. Mas. /^. quando se chegou a Lentz. {/' dora. por toda a parte destruindo como um r^^. Pouco depois..(gn 'OÃÕHse decidida começar essa vida.-L-U.„•£$»«-.^^" p*^ monia eterna do universo. E em roda d'elle a vida em tudo : na terra gera. dinação indiscutível e indefinida. i Uma piedade indefinida deante do sacrifício da matta o entorpecera. Sentia que um pouco da belleza O e do esplendor da terra ia morrer. Comprehendia a fata-^l^S?Z lidade do seu destino e resignava-se. no pó que pisa. n'uma subor/y^t^t^. ' '^T^y. os homens fftfflfy reu.**• cortado. á necessidade. y»**r«M£tTudo vive. N'um dos ângulos da matta lançaram fogo á primeira moita. Milkau perdoava ao homem. passando indiffcír^y ferente sem ouvir o gemido do mar rasgado. uma fumaça grossa se desprendia do ./ / y n i d o s ^ * todos penetraram na floresta com um recolhimento sacerdotal. rubras. fatal portador da morte a integridade da fôrma. E Milkau vibrava_^__ !?<yZf com a recordação de todo o soffrimento que o AM^4^* I homem tem causado no mundo. de quem vae cumprir os ritos de cultos infernaes.CHANAAN 137 o tempo-. I rápidas.Í^~«A'-*" panheiro.

***^yy.as veredas e arremessava para a frente o bafo syf^h y~y. ~ l**M l*l. Pelas abertas do matto corriam os animaes destocados pelo furor das chammas. tí/k-c*. Muitas ^*$r " ^ 7*P arvores estavam contaminadas.&*••' /*~y /^ lavam.íL vr*-. fugindo á perseguição das columnas que mar.t/A+f viperinas attingil-os. Pelos cimos da matta m escapavam aves t£Z* Lry*^ espantadas./ «tfie esfusiava. . pairando sobre o fumo.t / r w _ de arvores q u e cahiam. Estas estremeciam n'um delicioso espasmovPá ' " ú L j .„•„„„. Os ni.. e as /. ^ a* ©»*>». Alguns se ^^Jfjtsam fí*/y~0i Z\ tf qv*td>/)+*£+' v .yf l/ v< ^ ei^ ^ perado.*» * T * ^ . suspendia-se no ar leve da floresta. fogo r„n . e um piar choroso ^"'j entrou no coro como nota sryyft. resinas que se derretiam estrepitosas. vagando na direccão dos caminhos como pastosas nuvens. e triste. remontando ás alturas n'um vôo deses."e. D„ „ „ . Çf fogo sé erguêra-e lambia n u m a caricia satanicjuos troncos das ar. e estendendo os braços umas <"jj£" */i A ás outras espalhavam p o r toda a parte a voragem ÁÜl-e-v /y--^° i n c e n d i o . Os homens olhavam-se a t t o n i t o s ^ .i „„ Recuavam.•afc parasitas como rastilho de pólvora levavam as' /é&^y*' chammas á copa. ardiam como **». g^' dora fuzilaria. Começara a queima. troncos verdes q u e esta.?*.13S CHANAAN fundo da toiça.„„„ procuravam „„„ „<.££< f't*d> a m u s ' c a desesperada de uma immensa e aterra.**.chavam.f ^ ^ ° r " Toda a ramagem da base foi ardendo. que lhe seguia no encalço. O vento penetrava pelos claros abertos %*%% 4j^ < >.-4.<-. faziam *. ^ ..quente do fogo.yvores.AJ nhos dependurados arderam. Línguas de <#" * C V T V . e a fumaça augmentando entupia 'ff+l "i l^yr— f*.t o c ^ a s monstruosas. Uma araponga feria X < ^ rr / ACOVO ar com um grito metaTlico e cruciante. Pesados galhos <*? rfg. deante do clamor geral das victimas.„„. atiçando as c h a m m a s .

Ahi abriram rápido o sulco protector.. Do lado da praia o trabalho foi fácil. A nevrose do pavor. sôfrega por saciar o appetite.. com raiva.///***£ tonitos. os homens viam amarellecer a folhagem verde que era a carne. cavaram a trincheira pelo rumo. centuplicou-lhes as forças. quando a . Do outro lado. e feno der. E feros e duros atiravam-se á enxada para cavar o aceiro. não podendo vencel-as. a lucta foi tremenda. até que o fogo se approximou. e. N'um alvoroço de alegria. o terreno estava desbastado e limpo. aquecida até ao seio. que eram a "* ossadura do monstro. ^//>)rfp/ndo-lhes o prazer.avançava solemne. nos limites da área do lote. E afogüeados. si encontravam o embaraço de algum tronco. Surpresos. Os pygmeus que se não mediam com as arvores e que. sob o aguilhão da defesa própria. O aceiro foi sendo aberto./n . O fogo não tardou a penetrar n'um pequeno taquaral. continuava a queda dos galhos. outros cahiam inertes na fornalha. agora. erectos. Mas o fogo avançava sobre .elles. a columna. at.CHANAAN 139 do perigo. tinham recorrido ao fogo.jg^ os troncos firmes. repararam que a devastação tetrica lhes C*/r ** ameaçava a vida e era invencível pelo matto a dentro.como um ser animado. ennegrecidos. quasi pelas terras alheias. com febre. no meio da floresta. com anciã. Sobre a terra queimada na superfície. ^»arrojavairr"eontra os páos comodenodo de gigantes. Ouviram-se succesrvas e ^<> medonhas descargas de um tiroteio. atacavam-no a machado.

incendiado. emquanto a fogueira circumdava n'um abraço a moita de bambus. Milkau chamava na sua imaginação a vinda dos tempos sem violência. até chegar ao aceiro. logo que se reconheceram senhoresdo perigo.^ £ v / d e t i v e r a m e^^se/espalharaqojpara a direita e para a *u—/ esquerda. quando as estrellas em rythmo moroso parecia caminharem no céo. continuando a sua obra.140 CHANAAN taboca estalava nas chammas. . deante do^^spafd-aberto e intransitável. Farto de devorar a carne dura do /// bambual. A cem metros de separação. e lépido. e célere. que se erguiam á margem. i^r/Jíendo os arbustos. IIJd(yr*y foi veredeando por um atalho. ^ t . dè Ml . < Os colonos e trabalhadores semi-mortos voltavam á casa. A' noite. Já os homens n'um esforço immenso se tinham adeantado. os estampidos redobravam x as labaredas esguichavam. As chammas s a abeiraram""aa valia e. satisfação a matta esbraseada se estorcer nas agonias do incêndio. e os outros miravam n'uma diabólica. invencíveis sacrificadores da terra. O fumo crescia e subia ao ar rubro. o fogo desafogou-se. da varanda do barracão. os colonos cavavam sempre.

creança que amara quando ella . como veladores Penates que o homem transporta nas suas migrações sobre a terra.A felicidade de Milkau era perfeita. d^veneração e de saudade. A sua pequena habitação. o quarto de dormir de Milkau impressionava como uma capella ardente de amor. Estava povoado de retratos. Apenas. quasi filha. quebrando a uniforme monotonia rústica. nada existia alli que fosse a traição de um gosto refinado. essa mãe. apagado do jfe« espirito as manchas da ambição. era humilde como as outras dos colonos . do domínio e do orgulho. erguida no silencio damatta. Tinha limitado o inquieto desejo. o pae illuminado por um sorriso de martyr. ou uma pequena consolação da volúpia. e deixado que a simplicidade do coração o retorpasse e inspirasse. Ahi se viam pessoas da família. e a mulher. Trabalhava mansamente no quinhão de terra que occupava. com grandes olhos de dôr e supplica perenne.

não pelo que tinha feito. O trabalho pelas próprias mãos (|hej\davAa sensação positiva <*da sua dignidade humana!"ps<Jeus olhos procuravam em torno o mundo para onde elle -m queria l t dirigir/n'um forte desejo de affeição. Éll^ jMl j I ^ fee]7entia^amparado por um fluT3o~~dTr"e"spérança. con or £~ ffifáffltâffjem orgulho de intelligencia.passara deante dos $ffi olhos. Vendo-o assim attento. Milkau Jj estava destinado a ser pouco i pouco a figura cen- . Milkau èejéspraiavgpem relações et-J ^ com o grupo colonial do ria DoceT Achava um ' encanto em conviver com essa gente primitiva. d ^ # # # f p uma armadurajnvencivel.142 CHANAAN c ~f. /cntindo s/ ' feliz e engrandecido. /g/fa. ~ * t o perpetua £ o m m u n h ea oque ffâtifc dá a alegria enche oreligiosa. OsÁ(fi/ffl/ eram retratos das grandes /// w figuras humanas. amorosos. vazio do que isolamento. f/j Q) çfy / o m essas imagens sq& Milkau vivia na e ^ ^ . E ávida. emanado do amor e das lem>#<áá»M&-!?ranÇas' ° envolvia./se f 7JJfò6l y mava»com todas as lições que lhe davam os a n t i g o s ^ ^ cy e experientes colonos sobre aslcoisas da lavoura. e que ia se deixando infiltrar da sua cordura e meiguice. mas pelo que aspirava fazer. mais lhe queriam os cam<~ ponios. que. e/em sua presença tinham instinctivamente j T uma artitude cheia de sympathia e respeito. q^tdfíÇ não atemorisava com a sua educa-p^mm ção. ^ ^ Fnuicn a pougy'. transfigurando-se para morrer. dentro d'esse quadro(jJjie/sonw/^ > ' como uma deslumbranter_e§urreição. " " I I derêsígnação. que o recebia sem desconfiança. poetas. soffredores.

. na tarde da sua chegada. o apóstolo da energia. e a bondade do sentimento entorpecia-lhe as maldades grandiosas do seu idealismo. Era então que lhe succedia encontrar no matto o vizinho taciturno que passara. os colonos iam absorvendo o seu inuriortaj/prestigio. O caracter fraco trahia a audácia do sonhador.. Outras ve?es caçava. e sentia uma expansão de alegria quando atravessava solitário as montanhas em silencio £/ sobre ellas dava grandeza aos seus sonhos devida. sem reparo. enérgico. Para se distrahir.< ^w/*^*'/<*"**" . o velho allemão ágil. jiójê!^ áo seducções do camarada. caminhando na doce sombra de Milkau. defronte do barracão. como a terra bebe imperceptivelmente as finas gottas do orvalho até ficar saciada. Sempre calado. o creador da força. Lentz se encarregava-das viagens.Í^Lentz/vivia^ triste n'um intimo e reservado desespero. elle. e dar um pouco de fadiga aos nervos. A vida que tomara.. como -um verdadeiro homem. seguia qual uma visão primitiva. das compras da casa. incapaz de abandonal-o. se completava na contradicção. desdenhando qualquer conversa. paralysado. extenuando-see acalmando-se. Ao contrario do seu companheiro. Ficara alli ao lado de Milkau. cercado da sua >. e. <r CHANAAN y ^ ^ ! 143 trai d'aquella região. era para elle uma grande humilhação. Jaw"0 .n um esforço tenaz e porfiado. torturando-o essa pungente agonia de praticar a existência condemnada pela idéa. E assim inactivo. que eram o estimulo para a agitação do seu pensamento.

os dois amigos partiram. que se queria identificar com os hábitos da nova sociedade a que se consagrava. O novo pastor celebrava o seu primeiro serviço religioso com o<êoncurso dos pastores de Altona e Luxemburgo. plácidas e vastas do infinito. Sob a transparência crystallina do firmamento. E na madrugada seguinte. cujos cães o festejavam aos saltos ou iam á sua frente. Famílias e grupos ininter- . farejando o chão. Lentz voltava de Santa Theresa. Milkau. a terra intumescida parecia. dia Estava elle todo possuído ddy^f espirito da ascensão e sua alma escalara também as regiões silenciosas. Uma tarde. n'aquelle instante de exaltação e vertigem. Quando já se avizinhavam do Jequitibá. trazendo a noticia deque no dia immediato haveria uma festa em Jequitibá. sahir de si mesma. para o espaço. n'um soberbo movimento de força e desespero. levavam-no a desejar attingir a eternidade e dissolver-se no infinito. formando caravanas. de orelhas cahidas. iam pelo caminho encontrando colonos a pé ou montados. Em Santa Theresa e nas casas de colonos por onde Lentz passara. Raras vezes a paizagem transmittira a Milkau uma emoção maior do que n'aquelles terrenos altos. alevantar-para o ceo.144 CHANAAN ardega matilha. todos se preparavam para essa diversão. marchando sempre por um caminho de montanhas. á hora 3o amanhecer. resolveu ir ao Jequitibá. E também as essências mysticas. que ainda viviam em Milkau. e querer s .

e tomavam / j ó ^ r y t h m i c a marcha de <f/rij procissão. excitados pela fresca da manhã e pela esperança do prazer em sociedade.-—"r'1^" diantes. ra. Ao longe. Quanto mais perto da egreja.'* os olhos dl<úhu abxan-Af\f^ giam todo o panorama claro. desemboccando (Jy*»»**^' alli de toda a parte. Pela encosta do morro que vae ter á «apella. A multidão.JJ XÜff pelarem. feito de uma dourada luz e de pequenas elevações. mais a multidão se engrossava. ao saturem de um caminho? coberto. a capella branca. como ondas regulares. e. Qa dois amigoof^epois de algumas Jioras de viagem. e os colonos não se reuniam desde essa epocha. parecia borbulhar de dentro da ^g^_<-*-"" terra. tr* ' ^ *ij> descortinaram a capella do Jequitibá. via-se a subida dos pygmeus. então era de vêr a carreira folgazã de toda a gente pelos caminhos. Todos vjateuq. segui jfâfitykhubiam por uns degraus de madeira fir dos rra terra e que muito espaçados chegavam! ( CJ&iV / . Em certos pontos havia /*-/-necessidade de dexWjfffíh o passo para não se atro. era como uma presa arrastada vagarosamente por um formigueiro. pois havia muitos mezes que não se abria a> capella. que ondeava. era com uma alegria de recemchegados que se saudavam mutuamente^Alguns passavam a galope. ^ ?>/**/ «^/"/~ <n~ Acharam-sè]4ãpei«í base da coluna. brandas e fixas de um oceano manso. rodeiada pela """ " multidão que fervilhava. 9^ Estál ficava-lhes a frente.CHANAAN 145 ruptos enchiam as estradas. e esse araou/communicando-s%aos outros.

esguio. apear-se e . emqüanto a capella se não abria. vestido segundo o uso do momento em que deixá*Y ra o paiz. em mirar o povo. o casaco severo. o chapéo de velludo.. ou a combinação phantasista de um baile de mascaras. A medida que galgavam. amarrar os animaes nas estacas. U m vozear confuso enchia os ares e turbava Milkau e Lentz. Trajavam as suas melhores roupas. passando-lhes o L # * / V ^ ^ embornal. o que m//p jffàM/jjffl. e a sua ~ Sj pelle era amarella. trajes aldeãos. yf Era u m / grande jfcase/ de colonos da região. uma entrevista nas serras do EspiritoSanto. O cimo. o corpinho fino. como si fosse uma revista retrospectiva de modas. — Só isto paga a viagem. á casa do pastor. Cada uma das mulheres ainda tinha o seu *. já tão descançados e entorpecidos na solidão bonançosa < Mas logo se habituaram.1 iü CHANAAN até ao alto. e n'ella a massa de gente se remexia. acotovellando-se. encolhida como pergaminho. os simples pannos brancos envolvendo a cabeça. as crinolinas. as rendas. uma^ b mistura de modas de muitas epochas. ç ' outros ainda ^sag:louros e jovens. iam vendo viajantes que" chegavam em bestas. e entretiveram-se. disse Lentz gra- . que era no fim da egrejinha. davam-se. de cintura curta e babados. as toucas de seda. trajes de cidade. conservadas^ religiosamente em trajes que se não acabavam '„ mais. a capella. / Alguns estavam alli havia trinta annos. O vestido largo. formava | uma esplanada. onde fotexÁ.

por essas m o n t a n h ^ & u feitadtâi sombra de aif/y^r£ü=l guma arvore? /<§/' /JPã »*«*'""* 9 . concordou Milkau. amenisava o odor forte das multidões. para 9 ^ Cr*~assistirmos á sahida d^Sôvo.. acompanhando as observações que o amigo fazia sobre d^ f/f ddxisüífk das vestes.. e ao longe descobriu Felicissimo. O agri. já vimos o Jnelhor. darlio um passeio -fai.^**-^ desdentado. Mas também admiremos a usÁs. /CJ*&H4 — Até os velhos.****-felicidade d'este povo.primentou de longe. Joca e o grupo C L ^ de trabalhadores da commissão de terras. com uma barretada e um riso Q^. j0> ^~^*-^ — Ora. a vida. / . /s$*' paletot pontas de lenço sahiam espalmadas. — A alegria dos velhos é um mandamento para/ ^ / } . Cum•»**••-. em voz baixa. . disse Lentz. *• « • « O povo continuava no seu borborinho tumultuoso p>rr^ *y*r e alegre. E está ficando quente.. guardadas longo tempo nos fao/AcÁ^^ bahús.^ t*£ê~ mensor estava com um cravo ao peito e do bolso do f\£.* c^L . í ^ . — É verdade. tinuando as medições para outras bandas. $(l0fl/jli$0fi. Misturado com o aroma da terra. depois de Jtrt'e£*'' algum tempo. um perito poderia fixar pelos vestuários a epocha de cada migração. Milkau mirava para todos os lados. Que^DâgJmportaalmissa fl/£*'/**' do pastor ? Vamos espaí^jjP-fiirVda festa.CHANAAN 147 cejando. o cheiro das /rr^v^**" flores que as raparigas traziam ao cabello e das e>li>my^ roupas domingueiras. que desde algum tempo tinha deixado o rio Doce con^>».

fiquemos aqui e acompanhemos esta boa gente. — e a vida. no começo da ladeira do morro. por mais que se alar' j /-^Lgue e avance. Nós nos divertiremos vendo divertiros outros.. francamente. além. seja do que fôr. é inattingivel á medida que caminhamos. divina.. — Ella é veneravel como toda e qualquer outra. Quando . Para destruil-o é preciso que o homem explique o universo . é inseparável do homem. e é sempre uma força salutar. Elle é a expressão da nossa emoção immorredoura. como a que divinisa a sociedade humana. Defronte d'elles. A marcha da sciencia no nosso espirito é como a nossa na planície do deserto : o horizonte foge sempre. Esteve um instante calado. esporeando com força os animaes. hesitando si devia responder. de um deus ou de uma abstracção. e o culto. Essa religião. Além. não eiLgoifà o mundo dos pheno/ menos. Milkau fitou muito calmo o amigo. E o homem viverá sem terror. elles podiam se divertir de outra fôrma. Tudo será esquecido. e o conhecimento. que subiam arquejantes. ha sempre o desconhecido e o cultoqueoidealisa. — Haverá um tempo em que o homem ha de enterrar com os antepassados o culto que elles nos legaram.148 CHANAAN — Não . do nosso eterno pasmo no universo ou a exaltação do nosso amor. Afinal disse : — O espirito religioso é irreductivel. três homens chegavam. — Mas.

meio barrigudo. silencioso. percebia-se que sentiam a consciência de uma posição superior. e sob os seus ardores a impaciência crescia. e o velho de monoculo. um ar de fadiga e preguiça. o outro. O mais velho J+cy era um sujeito de cabeça grande. limpavam o suor e muitos cobriam a cabeça 'y/)M^\ / /? 1 . O sol já esquentava muito.//r/ir>->Com effeito. Todos olhavam as portas cerradas da capella. rompendo a agglomeração. esperava solemne. mais afastados. Por contagio e por instinctivo signal de respeito dos humildes colonos. Lentz 7^1'A' teve curiosidade de saber quem eram. Dois ou três homens da cidade. os cumprimentos se propagavam e d'ahi só se viam as cabeças abaixando-se na direcção dos magistrados. Darba castanha. empertigado. Os homens tiravam o chapéo. Fitando-os. com uma moldura de [fd/*****1. Um dos v i z i n h o ^ í i i ^ ^ é ^ s e r e m as auctoridades do Ca. muito fi joven. os cumprimentos. Olhavam os colonos como uma massa amorpha e subordinada.CHANAAN 149 se apearam. Milkau reparou n'elles e rtóou que/Y//v/*'rí eram os mais bem vestidos de todos. praguejando contra o habito de os deixarem de fora. se acercaram d'elles/muito prazenteiros. i&eaquant»/o terceira^" jdffh no ^ s ^ r o s t o claro. moreno e imberbe. muito reverentes e pressurosos de se recommendar. era o triumvirato judiciário da comarca. de monoculo escuro e costelletas. outros. que correspondiam desdenhosos. lhes tiraram o chapéu.

os animaes bufavam. no centro. Abafava-se^* murmurava-se. mil vezes uma egreja catholica. de madeira não envernizada. e ahi tò/dutáados observaram a iMôtih*. ao fundo uma cruz preta com um sudario branco pendente. zumbindo. o púlpito baixo. Milkau ^ j í y ^ d W . . e ornado de listas alvas cheias de palavras santas em negro. emquanto mulheres velhas agitavam as saias. dizia em surdina Lentz ao camarada. O tom protestante é plebeu. refrescando-se com estrepito. espanavam-se com os rabos.150 CHANAAN com o lenço. e foi uma invasão alvoroçada na capella sombria e íresca! Milkau e Lentz conseguiram logar n'um dos A bancos de madeira. inesthetico. A multidão se impellia lentamente para as portas. como sempre. e espalhando o calor de corpo a corpo. Alguns se esgueiravam para as escassas sombras das paredes. que bem se casava com a simy plicidade externa. um grupo para se proteger do sol apertava-se debaixo de um misero arbusto.singeleza do interior. — Muito triste. na brancura das paredes estavam inscriptos versículos da biblia. triturando surdamente o milho. para adeante. empurrando para traz. com a sua pompa. com um aceno de cabeça. As moças atavam também o seu ao pescoço. Não havia a menor pretenção de enfeite. as suas cerimonias de finas expressões symbolicas. n'um movimento inconsciente de quem ia forçal-as. Mas estacava. A porta afinal se abriu. muito nú.

Musica!.. chamando todos á respeitosa continência. recomeçava a impaciência. alludindo ao novo pastor. mas que se percebia nos bocejos. outro dia.CHANAAN 151 Em volta d'elles outras conversas proseguiam em voz baixa. Depois do descanço do primeiro momento á sombra. como murmúrios de piano e de flauta. — Não. para que lhe darmos o nosso dinheiro ? — Ah! isso você sabe. Não tardou. A multidão st apaziguou^ o instrumento continuou a cantar os solos. respondia outra. perdendo a própria essência na mais copiosa e allucinadora emoção. Que conjuncto de sensações não se accumularam desde as remotas almas pro- (Jf' / / y*J. temos de o agüentar. Ha muito tempo que não ando por estes lados. ^ —Ainda o não viu ? perguntava uma velha. seguidos de um acompanhamento mysterioso de vozes múltiplas. infinitas. E onde você o viu? — No armazém de Jacob Müller. não ha remédio sinão darmos.. A musicaenchialí^S** alma capaz de sentir os mais intangíveis e deliciosos segredos do som e de se transportar além de si mesma. porém. . que um accorde de harmonium soasse. que se esforçavam por conter. — Também si não fosse. A musica» infiltrávamos nervos dos ouvintes e Gs i amansavOmollemente. nos movimentos de pernas e de braços. Não fomos nós que encommendámos um pastor a Roberto ? Seja como fôr. Parece uma pessoa.muito de bem. Milkau vi/brava.

á sua vida primeira. lentas. trabalhando. ^gEâ-de olhos cerrados. Elle vê uma figura de mulher. das harmonias. laia Milkau. na terra antiga. até emfim formar-se no homem a derradeira das suas almas. Os olhos d'ella embebem-se na Biblia e sobre esta os seus cabellos caem n'uma chuva de ouro. escrevia poemas sagrados. E Milkau. elle. Os seus olhos meio attonitos descançaram em uma joven.. não percebia mais as fronteiras do sonho e da realidade. 1^1 recolhida. porque escrever é cantar com a penna. Milkau ficou indeciso um instante. no passado. longamente. ou era aquella mulher a sua visão realisada ? Parecia-lhe . carregado nas harmonias.que Milkau amou. Continuava o sonho. que parecia entretida em vêl-o dormitar.. angélica. 4. a alma musical!. lf 0 J 0 fyp0f de um templo.152 CHANAAN genitoras. E emquanto o órgão no alto da capella cantava. Musica! Cessou o órgão na capella do Jequitibá. enche a egreja... entoava hymnos. Era n'uma egreja de Heidelberg... Um sonho dentro de um sonho .. Tudo se/confundia extranhamente. como uma benção e uma luz do céu illuminando o livro santo. debaixo.. afinando o mundo dos nervos. Musica também lá em Heidelberg : uma melodia phantastica.. carregando as vibrações recolhidas em cada cellula. que rios de sangue não correram de pães a filhos. mystica e crente. que entra na sombra silenciosa e brandamente vae sentar-se. dolorosas. tomado pela saudade. ^ y £ . emquanto ella. Musica! Canta a mulher ^. Milkau teve um ligeiro sobresalto e despertou..

aquella que mais se liga ao judaísmo pela austeridade. que sempre entendeu como uma religião secca e simples. moveu-se. em rico contraste. com uma barba fulva. que lhe cahia sobre o casaco preto. pelas phrases. nos quaes o catholicismo se desenrola como um successor natural do paganismo. Na scisão da Egreja cada uma parte ficara com a rfaasdi Jt#lCy'p? dos espíritos que lhe era própria e peculiar. . o pastor ia desenvolvendo o seu allemão religioso. cujos melhores interpretes eram homens rudes. O seu primeiro contacto com os colonos era uma crise. uma religião rústica. n u m gesto de recolhimento de ave mansa. 9. ~se revoltára^naturalmente contra os civilisados. em vez de continuar desembaraçado o sermão. Pelas mãos callejadas.CHANAAN 153 já ter visto em outra vida aquella mesma cabeça de macios e crespos cabellos de infante. e voltaram-lhe á memória as observações de Lentz sobre o protestantismo. com a mesma suave e meiga expressão. astuto. e. barbara. pela côr vermelha do áspero rbsto. a gente do norte inculta. pelo accento da voz. violentos e radicaes. pelo rigor excessivo de seu monotheismo. N'uma toada humilde e timida. Era um homem alto. elegante e pomposo. independente. cercado pela curiosidade do povo. Subia ao púlpito o novo pastor. Milkau reconheceu n'elle um camponez. E ella o olhava l/ vagamente distrahida^tí quando reparou que era / \ ' ^ examinada. curvando o pescoço devagarinho sobre o peito.

. creio que o pastor tem gosto pelas plantas. tentando . — E Frau Pastür? — Não sei.. Outro dia vim preparar a horta. procurando com vão esforço esquentar-se. volveu concentrado e hypocrita á sua Biblia. que lhe fazem ? O colono não respondeu. — Tem cara de judia. vê outro. outras ia tropeçando para adeante. que estava toda abandonada. — Ah ! E a outra é que é a irmã d'elle ? — Quem vê um. pareceu-me uma alma penada em casa.154 os-/ CHANAAN elle se detinha a examinar o povo. Ao lado de Milkau um homem explicava a uma mulher que bisbilhotava a respeito de duas outras que se viam no coro da capella : — Aquella mais magra e morena. Agora se pôde vêr. — Pobre! Então..se preoccupavarm)com o pregador *«• e sua família. a reflectir sobre si e os seus embaraços... — E de onde as conhece? — D'aqui mesmo.. E a mulher do novo pastor. A irmã feej^nteressa)por tudo. e muitas vezes parava distrahido. Os ouvintes desinleressavain^Ê_da--atrapalhada e vagarosa predica e. mas me parece muito boa pessoa.. A cara não engana... — Sim. Na tribuna o pastor ia rolando o sermão. porque vendo que as suas palavras eram recolhidas por outros ouvidos da vizinhança..

sorria benevola e cavalheirosamente. obrigando-o a repetir indefinidamente os movimentos. — Que macaco! — O grupo dos magistrados também não estava resignado ao enfado da cerimonia. estava Felicissimo. e bocejando. n'um grande abandono. Lentz não poude deixar de murmurar com um certo desdém a Milkau. e de la.-seespreguiçava^Tio banco. _ /? K ^ „ti. muito nervoso. aborrecido. suando muito. pondo machinal o monoculo para melhor entender. sacudia bdftf a cabeça ^jf" n um gesto de contrafeita resignação. ás vezes. ao lado do púlpito. e em caretas successivas transformava a sua movei physionomia. a<f> seu lado o /"rpromotor crispava as mãos. a fazer signaes de impaciência. bios cerrados. O cearense arregalava os olhos para os n j / seus amigos do rio Doce. em frente a Milkau. Sentaram-se os três juntos n'um banco. e este.CHANAAN 155 vociferar e clamar a religião. enxugando a testa que se franzia em grandes rugas. o mais velho. mal assestado ao olho direito. ora limpava o monoculo que.^» > -^ ^ ¥Ê^y . fitando com desprezo e rancor o pastor e os colonos. e enfrentavam solemnes f a multidão .r -n. estirando as pernas. cocando a barba por desfastio. A sua voz logo esmorecia e cahia na morna toada. que era o juiz de direito. murmurava alguma coisa. cahia logo. que seguia complacente^ /ao agrimensor. o juiz municipal.t < ^ £ ^ 1. ora tirava o lenço. agitava a perna. Do outro lado. o terceiro. ao juiz de direito. não se cançava de gesticular.

e a musica do órgão. vendo o povo retirar-se em ordem. a musica foi suspensa um instante. tinha uma attitude de gigante tímido. até que o novo pastor terminou a predica. muito grande e de olhos meigos. Os três pastores se reuniranvrio fundo da egreja e leram successivamente os psalmos. tangido pela musica. O velho pastor de Luxemburgo. com a cara toda raspada e de óculos. sem um pensamento. Os burros foram desamarrados. cheios de respeito. espraiava o seu ar desabusado e insolente. que se ia apagando J ermpiaafto o pastor de Altona. todos ficaram deslumbrados com o sol e se apressaram-*em partir. descendo toda a massa de gente pelo morro abaixo. Em breve acabou o serviço religioso. levando cada um o echo longínquo dos cantos. os embornaes vazios embrulhados e escondidos debaixo da sella. com uma barba muito curta e dura. Fora. que elles miravam absortos e suspensos. concentravam-se recolhidos ao livro de orações. lentamente. para recomeçar um coro a que o povo respondia. ou de olhos fechados voltavam-se para o abysmo vazio do seu espirito. as vozes das cantoras vieram n u m a desabafada desforra levantar os ânimos. os pastores sentaramse. No meio dos dois o novo pastor de Jequitibá. tinha uma voz rouca. E o tédio envolvia a capella. não se moviam . sem a menor vibração intima. ed'ahi a pouco homens e mulheres montavam.156 li CHANAAN Os allemães. como uma represa de água escura que se tivesse aberto sobre .

interrompendo. sentindo um toque no hombro. naturalmente. respondeu Milkau. Jyf*-*' as mulheres arregaçavam as saias de cima por economia. de galhofas. Em baixo.. procurando as suas casas. partilhando da alegria e esquecidos de si para \ r ^ 7 se misturarem na communhão alli formada pelo '^'"v acaso e pelo impulso communicativo. o povo começou a debandar. — Pois eu lhes proporia — O que? perguntou Lentz. E a gente ia-se escoando pelos caminhos. com receio de um perigoso atropelo. e cobriam com ellas as cabeças. Milkau voltou-se. « /**!L na cruz das estradas. onde ha um grande baile á noite. ninguém se apressava.^ ditando. levando nas mãos as bolinas ou os chinellos. — Bons olhos os vejam. — Irem á casa de Jacob Müller. E a grande vozeria de commentarios. A**A ' alguns tomavam a deanteira. . outros corriam mesmo a pé. as grandes gargalhadas e gritos festivos rebentavam das mil boccas da multidão. Milkau e o companheiro vinham-se também arras. que lhe falava de cima de um burro. e já agora de dia começa o pagode.CHANAAN 157 a verdura da paizagem. onde costumava passar o domingo. Ha quanto tempo não nos avistamos ! E para onde se botam agora ? — Para a casa.. emquanto os homens se descalçavam. ou as tabernas próximas. matando a tranquillidade da região silenciosa. Era Felicíssimo. galopando na estrada fl'*\ ' e envoltos na poeira. Escorregando vagarosamente.

vocês têm um pequeno pouso com uma venda. Quando toparem um sobrado branco com um terreiro. depois torna a subir e. É verdade que estou montado. vamos d'ahi. Temos muito que desenferrujar. Não ha confusão: a casa está em festa e vocês a reconhecem logo. — Que negocio ? repetiu o agrimensor. Em se sabendo que ha uma festa.. fts Os dois amigos se consultaram^om o olhar. a gente não tem mais que se apresentar. — Que negocio ? interrogou Milkau. Bem.. Depois.. E apontava com a mão livre a lingua. Falou-se em patuscada. vae descendo. mando guardar três logares na mesa para nós. vou na frente.. Ora. é ahi.... Mas não ha difficuldade. . iremos. vender muita cerveja e tudo mais. passem pela frente... porque isso também faz parte do negocio. o caminho é este da esquerda. e vão seguindo sem se desviar... respondendo. meio indecisos. quando chega no alto. disse radiante o agrimensor. não engeita. — Assim é que eu gosto da rapaziada. Então não sabe? 0 sujeito arranja a festa com olho de fornecer a comida. e não podemos ir juntos. Aqui na colônia não ha convites. que não tem historia nem ma/Jadas. mas Lentz não demorou em responder : — Pois sim... eu vou indo..158 Ç-// CHANAAN — Mas não tivemos convite — Oh! isto é uma conversa. tomem á direita.

No alto estava realmente a venda. continuemos. os allemães bebiam. deu-lhe chicotadas. A taberna era limpa. cerveja fabricada no Cachoeira. concordou Milkau. moça e loura. e ^ for^rVum galope..CHANAAN 159 tomado de uma repentina excitação. uma grande latada corria pelo oitão da casa e na sombra larga debaixo do caramanchão/sentadas ás mesas toscas. A dona da casa e uma filha.. — Como esta sombra convida a descançar! disse Lentz. . passou a fazer tregeitos inconsiderados com a cabeça. — Não. bem arrumada e com duas portas largas. serviam lestes os. onde já se agglomeravam muitas pessoas. e alguns tomavam cachaça. a rir muito. espantando os colonos com os berros e a correria. algumas mulheres de varias edades se agruparam aos homens. gritou para a frente. Jjj/yfyjti($ almoçavam e eram attendidas pelo dono da casa. — Podemo-nos demorar aqui um pouco. Os outros executaram as indicações do cearense e foram andando apressados pela estrada. de um louro lavado em que uma rosa traduzia a eterna faceirice da mulher. e entre todos se trocavam saudações e offerecimentos amáveis de bebida. Si não estás morto. fatigado do sol. « Até logo ! » Picou o burro com vehemencia. em geral. freguezes. formando grupos differentes. Fora. encostados ao balcão. Dentro. e fazer a caminhada mais á vontade. todos alegres.

Jy/ct»* .^ * w t ' ' 4 ' dffáhfaA do seu espirito. gritando de júbilo e levados peja_excitação de chegar sem demora. as cores simples. * yr'**£i — Sim. ^ rumo da casa da festa.iéM^. avistaram em baixo d fio * W /*xz+.?ét£-i — Apertemos o passo. • ^ t^OL — Ora esta. quando lá está o J+ y^vor*^nosso refugio. — Não foi isso o que me fez parar. mas d'ahi a pouco pa/»*'*'/" raram e sorriram vexados da incohsciencia que os ^ .. —^-d'agua veloz. isto agora vae depressa. em ' 4ríy. *„ 0 **$*'. estávamos a imitar. disse Lentz.:Z~. propoz Lentz. desconhecendo-se n'aquelle arranco 4/A*-/-1. E quando chegaram á i t v r^. mas é que. e á beira o sobrado onde se percebia. rríj~ lombada de um morro. ^y^-*^E ao lado d'elles passavam rapazes e raparigas ^"a correr pelo morro abaixo. Afinal. lheres. estávamos a nos eigotiar^ponde/£-/» r*^ rou Milkau. a natureza readr . é só descer.f+* perder na alegria do ar na vertigem da des*/**'%*' c ^ a .de expansão jovial. ^ tomara. Isto %(/-*?#> lhes tFansmittiu também o desejo de correr. uma vez em casa. alacres dos vestidos das muy yji4. de se JíJuefi. não« tornar a sahir por este sol! E lá se foram. que não ygP* «*/-«* vale a pena mais nos pouparmos.E correram também. ^J'*^' No caminho.160 CHANAAN porque receio. o movimento de uma reunião. UHt f "' -y— I ^ _ /frt* .. C '. e contente com este rejuvenes. onde o verde das folhas f' entrançadas nas grades formava quadro para ^y/„*se. I t /rLf ±T' * ' mesmo de cima. deitando um olhar de cobiça ao caramanchão ruidoso. vez de repousar. viram muita gente que tomava Z.

e aos domingos um dos mais procurados pelos habitantes do logar. que descia em tropel infindo do morro para o Santa Maria. e outros do Cachoeiro. . Lxoda^Mio terreno estava limpo de plantação. Era um sobrado branco.. e foi com o passo cheio de magestade e de graça simples que baixou da montanha. da agitação . O sobrado ficava destacado das grandes massas de arvores e di folhagem que vestiam as pedras dos morros. pensava elle.CHANAAN 161 quiriu os «eus direitos. por moradores d*e longe. Nas cercanias da casa de Jacob Müller a paizagem tinha o realce e a vida communicada pelo movimento da gente. Os seus olhos azues estavam radiantes de paz e calma. e até pelos caixeiros da cidade.. Também. e era um dos maiores pontos do commercio do^nterior da colônia. . Muitos a pé ou montados vinham da capella do Jequitibá. Ao chegareiritao terreiro da casa J á as vozes da \ pj pr*K festa vinham ao^encontro faff d ^ ^ r ^ ^ ^ ^ e > +££& elles foram entrando no meio do ruido. outros de Santa Theresa. sacudindo a barba de ouro. e havia um pequeno campo de relva tenra e fresca que brilhava ao sol. como esteve em mim até agora amordaçada ! Ergueu a cabeça n'um gesto de desafogo. no fundo de um valle e á margem de um endiabrado ribeiro. que se ia reunindo. coitada. A casa tinha uma bella situação no centro de varias estradas.

arranjemos antes um logar aqui á sombra. porque precisamos de descançar. Qs <»utroc. venham. echoando no vasto armazém. corria para elles. rapa-zes corriam pelo campo em mangas de camisa.162 CHANAAN dos allemães á sombra da varanda. mas o outro. cantarolando. em apostas brincalhonas. como um bando desesperado de mairacas. yf'/'' para lhe dar uma explicação da recusa. e o som langoroso de um realejo incessante desciam do alto. uma pequenada vadia se espalhava guinchandò pelo terreiro. com a voz rouca e a gesticulação de embriagados. levado pelo rompante. Outros entravam e sahiam do armazém. O estrondo dos pés que dansavam no sobrado. gritando. — Venham. meus amigos. Milkau acompanhou-o. disse Milkau. obrigado. — Não. lá se foi. A gente movia-se muito. mettendo-se pelos grupos e entrando no armazeiTL Milkau desistiu ^ de seguil-o e Vjf#/ou a Lentz/^rocuraflfâ^ambos um logar para descançareaa. — Vamos à um copo de cerveja. Bandos de moças de branco passavam de mãos dadas. E nas janellas muitas . quando a tarde começava a refrescar e a luz a esmorecer. Acharam-no emfim em um banco. debaixo de uma laranjeira. arrasI tf* tando-os. ^_^ O agrimensor ficou meio amuado : — Ora bolas! < ^ fffc-V E os_largou Jbruocamerrte. atordoando a gente. /« E Felicissimo. perguntavam para onde os levava. em frente á casa./spantados da effusão do agri/ ^ mensor.

já é coragem.CHANAAN 103 pessoas com ar indifferente se debruçavam para o terreiro. porque eu estou que não me posso mexer. <.<*'(' que se approximava. por cima das cabeças desta gente: vejam que povo está alli agarrado ao balcão.. que parecia também mover-se toda. viu um rosto amigo ^. que do rio Doce aqui é um estirão! — Sahimos de madrugada e fizemos a viagem sem grande fadiga. olhando a agitação em volta. mas sumiu-se de nós c se esqueceu de nos /Ldizer o que arranjou. respondeu Milkau."••-/'£ '*•_. Milkau. em mangas "'""^ de camisa. Era Joca que. O que é preciso é marcar os logares desde já. plar satisfeito o prazer alheio. referiu Lentz. Olhem só lá para dentro do armazém... de lenço ao pescoço.. que se tinha conservado mudo. arrebatada pela. as mesas já estão apinhadas para a hora do jantar. e fitando pasmadamente a paizagem. interrompeu Lentz.celeridade do regato. abrindo-" a bocca em que se apertavam os dentes dortadesj i-tu*«*o$ epa-seiral * — En-tão vieram divertir-se um pouco? Sim.^ d'isso. Se e n c a r r e g o u .. nas salas. — Mas elle ha de voltar. concluiu confiante . — O que não falta é comida. E atraz. — Seu chefe.. senhores. vinha saudal-o.. parece urubu cercando carniça. a contem. e um cinturão de couro segurando a calça. — Lá isso não. Começo a ter fome também.

**^£3P* músicos da philarmonica do Cachoeira H«^^njiana chogandn iw i r n à l ) e todas as vistas se voltavam para elles. E como vão lá no prazo? Já sei que a casa está bonitinha. invasão dos animaes e da creançada. ao lado da casa.. — Ah! agora a coisa vae ser mais animada.. e estou certo de que temos tudo arranjado. pateo Jfc. Joca. a fazer medição. Um grande reboliço §ej|fe^)no povo e repentinamente todos se foram approximando da banda. caminhando lentamente e como por um velho habito. agora lá para o Guandu.164 CHANAAN Milkau. uma grade de arame protegia esse !-[. — No roçado que fizemos? — Sim. Por um instante uma ligeira sobrexcitação coloriu as faces de Lentz que tremia em pensar no vago da distancia ainda á sua frente. — E quando beberemos d'esse café ? A resposta foi um gesto largo de mão. se dirigia para um pateo ladrilhado de cimento. Nos dias de semana. e você. — Plantado. indicando o tempo remoto. que fim levou? — Rolando. Aos / domingos. amigo. olhando alvoroçado para o fundo. que era o logar destinado para seccar o café comprado por JacobMüller. quando havia festa. estes dias nós descemos ao Cachoeira. que. para folgar um pouco. e n*aquella vida extranha que levava.. E o cafesal?.„ j .. De um lado para outro. disse em sobresalto o mulato. Isto é. lá vem a banda. .. a grade era retirada..

agradecendo. minha gente. Joca. acompanhando a banda. que recebia em seu lagedo. Vamos á gaita ! E. perseguia um bando de ra- / ÍC^r** /*&* Q.. rubros de vexame.na ¥iYjim Os homens da musica sorriam.. que começou"' a dar outros vivas ao « povo do Cachoeiro ». o mulato começou a dar vivas á banda do Cachoeira. cantando marcialmente. para entreter o povo lá em cima.— Collocadas as estantes(os musicos(sentaram-sg)e começaram a tocar uma marcha de que^ãaXqual. O velho Martinho já está com o braço morto de tocar realejo.«Todos se divertiam. '« á união da rapaziada. Os músicos installaram-se n'um dos ângulos do pateo largo. liso^lavado. gesticulavam. contente. N'um momento ficou coalhado da gente simples e fácil de contentar.ar^affiirHifcfHi . dansavam descompassados. alguns dos quaes eram seus conhecidos e camaradas. Foi um delírio para o maranhense. ia repetindo os compassos. com os olhos accesos e as narinas arregaçadas. enthusiasmado. vocês hoje estavam com preguiça de desunhar! A rapaziada aqui já andava impaciente. a força do sol. — Então. para irradial-a.CHANAAN 165 e todos tinham a liberdade de penetrar na área. etòdos automaticamente tiraram o chapéo. &*fájfii /ffllff cJt**s ofc *M . a Jacob Müller». d'esses que são amados da alegria e em quem «üa> não encontra fótf0ty'para reinar livrernerite^_^^ _ _ . Wm alarido de gargalhadas e acclamações. Joca deixou Milkau e foi se postar ao lado dos músicos.

.de camisa. As creanças invadiam o terreiro. Tberrando: — A festa é das creanças. E depois. formando o quadro do pateo. Era o argumento irresistível e proveitoso. como si fosse movida por um pé de vento. que riam destemperadamente. fazendo mesuras ás mulheres. depois de se entender com o mestre da banda. n u m fingido susto. / um grande chapéo de palha na cabeça. vindo em grupo. vae tomar um copo lá dentro. dando ordens. Olha. a rodar. ajuda-me. Um velho alto. virava-se para os mais teimosos : — Anda. de óculos azues e uma cara te genipapo murcho. e.applicavam-lhe palmadas nas costas. porque a miragem d'esse copo afastava o homem d'áhi. Algumas velhas.166 CHANAAN parigas louras. e dava algum lucro ao armazém. principiou a falar. Alguns velhos jáébrios. todo de branco k em mangas. A creançada agora l-girava doidamente. A musica acabou a marcha. O dono da casa. h. que fugiam rindo. Limpa o terreiro! Arreda! Vocês têm baile á noite. . entrou no terreiro para . w com / . e deu o signal de uma quadrilha. persuasivamente. ^ lç . a^ípareceu no pateo. meu velho. que se enfileirou aos lados.de cachimbo ao queixo. arrastavam as vozes./ outras jhejfpuxavanf) levemente a barba. com uma longa sobrecasaca preta e surrada. coradas. abrindo espaço aos empurrões. a rodar. O logar ficou limpo da gente grande. que tenho de attender á freguezia. elle respondia aos soccos.

Das pessoas grandes. de canellas compridas e olhos mansos de veada.„*_. p u n h a d a passeiar pelo arraíaíTindo á beira t^^-J do rio. lá ia para a fôrma. Que é que tem? Cada um escolhe a que deseja... sr. chamando cada creança pelo seu nome. / e s e . um dos pequenos recalcitrava contra o arranjo. . outras. Professor. O homem mandou que os pequenos se ordenassem pelos sexos. Foi um instante de socego. — Mas não é possível : você tão miúdo e ella tão crescida.g/ O mestre awesignavafe Augusta Feltz. acompanhando a festa das creanças. de modo que tudo corria em ordem. — Mas eu estou compromettido. » « Hermann e Sofia ». replicava o velho.(se^tigayaní)da attenção. » As vezes. . deitando-se na relva para verem passar a . porém. No circulo as mães intervinham. tremendo-lhe as mandibulas molles.. professor. e a musica rompia a dansa. « Alberto e Emma. muitas ficavam entretidas. acompanhadas por outras vozes de mulheres.CHANAAN 167 dirigir o baile infantil. Afinal o professor conseguia arranjar as quadrilhas. « Guilherme e Ida. que a levava de braço. com os seus doze annos. Os pequenos estavam exercitados. fitando-a muito ancho.. sem confusão. inclinando o pescoço para o cavalleiro. e começou depois a distribuir os pares. — Como? Com quem? — Com Augusta Feltz. — Deixe.

Era isto que eu procurava. Viver no meio de gente simples. alguns. e que emfim achei.. Aqui ao menos é a serenidade. estridentes. onde cada um parece possuído do espirito do demônio. que na illusão instantânea os transportavam á terra abandonada.para morrer n'um espasmo de maldade. de braço como noivos. — Mas. Em tudo. que proseguia vivo e animado. matar o ódio. devastando-a nos seus impulsos de loucura. no canto do universo. ora vagarosa. Agora havia uma grande roda dos dansantes.168 *~J7J£ ^YÍ-f '**^ CHANAAN agua . — Era isto o que eu procurava. é a calma.. quando passeiavam pelo terreiro ao rythrno da musica. que ora célere. Milkay a Lentz. fy tíJjfdflisXo é a estagnação. / "*• — E não é o amor a acção por excellencia? E não é elle a força que aqui na colônia. e olhando a scena. e estrebuxandd. ia se movendo aos cantos infantis. iam ga peréefido pelo matto a dentro.. solto sobre a face do mundo. dizia. no menor movimento. no mais pequeno gesto. observava Lentz traçando no rosto um gesto de desdém. é a alegria. partilhar com ella o seu doce esquecimento da dôr. e outros $& reuniam—A1 ao balcão a beber e a cantar as velhas estrophes do prazer e do convívio humano. Compara este povo com os homens de outras terras. e .. é uma existência vazia e inútil. move os homens? Que queremos mais? Approximaram-se do baile das creanças. a reunião alli na estação do Cajá dava a sensação do esquecimento e da alegria.

Uma immensa risada dos grandes o recebeu. graduando a côr.L#Á<yh*/r^ . Já aquella hora o sol esfriando transformava magicamente o panorama.CHANAAN 169 desafinados. um sujeito mascarado saltou no pateo. e beiços e faces pintados de vermelhão./ roda das creanças. a divertil-as. e os meninos pararam a dansa meio espantados. disfarçado em palhaço maltrapilho. E quando a meninada estava muito entretida. — E tempo.<>. a gritar. accedeu Lentz. 7 jxut*' \ — Mas onde se metteu o agrimensor?. propoz Milkau. se mettiá na a . — E Felicissimo que não nos procurou mais? lembrou Milkau. passando de grupo em grupo. — Vamos procural-o. Creio que desconfiou comnosco. e_d'ahi a pouco. 10 IM..• .. 0 palhaço começou a cabriolar. ia dizendo Lentz. e marando por toda a parte. Onde ^ se metteu elle?. — E verdade. com o amigo pelo braço. mesmo porque já podíamos ir jantando. passando volátil pelas cabeças louras das mulheres. besuntada de alvaide a cara. fio meio da algazarra geral. que parecia surgir pouco a pouco do seio secreto das coisas e » expandii"rnais livre á superfície luminosa. de olhos tapados.. brincando. A^paz da Jâlde avançando subtil reinava sobre as gentes. . fòfS0j{endo-as com a sua doce Jygsrv*gt*<perfídia. afastando-se do circulo. imitando animaes.r. A aragem refrescava o tempo.. abrindo o circulo.t lhes nos cabellos n u m leve arrepio que lhes descia da nuca.

Também porque não lhe acceitámos o copo de cerveja?. O balcão continuava sempre cercado.. Debaixo de uma carregada sombra. Uma caminhada inútil.. um par amoroso. e n'uma lingua arrastada.. $mu£ou os perturbadores. — E não se perdia um camarada.. há'esperança de achar o cearense. percebendo-os indecisos. dando volta por traz da casa. Tudo em vão. tão idiota. chegou-se a ella. enfadonha. n'uma tranquillidade altiva.o que bebiam. perguntando-üas. desistiram de procurar Felicissimo no arraial e «e encaminharam-^* para a casa. o joven abaixou a cabeça enleiado. com seus olhos serenos e francos... descançava. e ( ^ ^ ^ ^ Y ç y k m j W a ^ g ^ ande /* avistavam grupos de gente.. Áfywflfâflt até á beira das estradas. ^ Quando tornaram á clareira. cantava-se. Não custava nada uma amabilidade. porém. A mulher de Jacob. a rapariga. bebia-se largamente. Procuraram o agrimensor pelo terreiro. cochichando.170 // / W*- CHANAAN — Hoje elle está mysterioso comnosco. fezlhes um gesto. concluiu Lentz. Éyéntraram no matto. Com a presença dos extranhos. — O h ! Também vaes logo aos extremos. disfarçando a remexer nos gravetos esparsos no chão. indagando .. Milkau. desviando delicadamente alguns colonos pesados e oscillantes. Foram até á margem do regato. Os dois amigos lançaram uma vista d'olhos pelo armazém e não viram o agrimensor.

não mude os papeis. agarrando lingüiças.. n'um espasmo de satisfacção bestial. fatias de pão. Felicissimo estava n u m a cabeceira da mesa com dois logares vazios de cada lado.. Pensei que não quizessem saber de mim hoje. e apenas com algumas pessoas á janella vendo o baile das creanças. Foi você exactamente que nos deixou. pois tão entretidos andavam. uns com pratos na mão tomavam caldos. que sem nenhum conhecimento temos andado vagando ámatraca. — Aqui! Aqui! Os outros foram rompendo caminho e tomaram os seus logares. e quando avistou os companheiros chamou-os n'um sobresalto. com quanta . — Não me conte historias.. — Até que afinal vocês resolveram vir. e meio amuado não se importou mais comnosco.CHANAAN 171 de Felicissimo. patife. no sobrado. emquanto a sala da frente se achava quasi deserta. a sala do fundo estava n'um grande borborinho. Imagino quantas amizades não tem por ahi. Em pé.. A mulher aconselhou-os a subir á sala do fundo onde se servia o jantar. De facto. e falou-lhe dos logares encommendados para três. Viram passarinho verde ? — Ora.. de vinagre e pimenta excitava a multidão e entretinha a sua voracidade. mastigavam com uma fome voraz e com os olhos injectados. pois talvez ahi o encontrassem. Um cheiro de alho. respondeu Lentz.. e outros. fixos. A mesa muita gente sentada comia avidamente.

para estes dois amigos. com um 0 ' y^XA***'/ C«*w mfo' yt£r. é que com esta discussão nós vamos ficando sem jantar. — O h ! é verdade. berrava chamando os creados. Vamos lá. arrastando a voz : — Qual. cahidos e vagos. cortou Lentz. postando-se em frente ao cearense. Afinal. não me conte rodellas. gritou o agrimensor. comecemos por um caldo de hervas. que quer mais sinão..» dade. — Lentz não se preoccupa com isto. camarada. y~. e depois como a allemã.. Depois. meu amigo. '^Tvunl — O nosso interesse é y^/t^^Â^o^^f alegna\ m 'c$ *' d'este povo. enleiada.A. O allemão enrubesceu. e não sabia como replicar. você traga jantar egual ao que me tem trazido. meu amor. comprehender a sua vida e felici. á espera de uma ordem. Felicissimo olhou-o com os olhos miúdos. nada de segredos. elle resolveu-se a falar. Em pé. então você mesmo. que lá na sua lingua procura misturar-se á alegria d'esta gente. — O peior. A creada desappareceu rapidamente... V. Milkau veiuemsoccorro. seu maganão. piscando os olhos para o companheiro.. — Vá pregar n'outra freguezia.172 CHANAAN rapariga não tem falado!. com uma cara ffflfa de um riso complacente e velhaco. você. — Meu bem.. uma rapariga attendeu. quizesse partir. erguendo-se apoiado nas mãos. Felicissimo mirou-a com malícia.A ^ é * ^ ^ * " -j .

CHANAAN 173 movimento airoso como um passo de dansa. pedindo que lhe trouxessem outras seis. melancolicamente. . Excitado por essa attenção. n'uma expressão amável. e pediam aves em conserva. Felicissimo estalou a lingua. reconheceram os antigos hospedes nos novos colonos. e sem saber o que dizia. Alguns d'estes rapazes que eram da casa de Roberto. objectou Milkau. eu não fiz: beberei todas seis. — Nós não tomamos tanto. e tanto barulho fazia que não tardou muito sobre elle se voltasse a curiosidade geral. de que se serviam bebendo o vinho do Rheno. — Si vocês fizeram voto. que serviam no meio de algazarra e de >A_ desordem. e o grupo continuava a beber indifferente e desdenhoso do resto da gente. bateu na mesa. — Ah ! esta vida ! esta vida ! murmurava o agrimensor. que a seguiram como servos amorosos. Milkau e Lent^ começaram a jantar dos pratos rústicos. Puxou o copo de cerveja e bebeu. Alguny ^caixeiros da cidade. recusavam a comida ordinária. o agrimensor exhibia-se por 10. Dos seus logares offereciam-lhes vinho. acenando com a garrafa. atirando-lhe os olhos. Olhou a garrafa queesvaziára. Milkau agradecia com outro gesto. e os cumprimentaram com gestos de cabeça. Felicissimo bebia sempre com grande alarde. mais \}em<>dU*^r trajados que os camponios.

A estes o agrimensor respondia improvisando versos em portuguez. na desattenção. levantando brindes. versos d'essa toada sertaneja que lhe falava tão intimamente. dansava. que estropeava. com phrases insultuosas. o liquido se espalhava pela mesa . ditas no meio de risadas. cantava.// realejc/6ue . pelos colonos. O dono da casa. berreiro descommunal. cantando canções allemãs.174 CHANAAN todas as fôrmas. tomou Felicissimo pelo braço. A * _ y com enthusiasmo. de copo em punho. trepado na cadeira. continuando a gritarja. Este variava o seu repertório. O agrimensor ordenou por sua conta mais cerveja. Muitos não o entendiam.exà tangido n'um impulso frenético / .-^noços e mulheres. e outros o cercaram. feito de vozes de velhos. protegendo-o contra Jacob. Disputava-se cada garrafa das mãos das creadas. O agrimensor o repelliu. que* / rendo conter a matinada. mas que ao seu lado eram retomadas com brio. Os camponezes o admiravam n'uma alegria infantil. destacando-se apenas os agudos. . augmentado pelos repiques nos'copos e nos pratos/e/fi/som estridente de um ni £. para forçal-o a descer da cadeira. Produzia-se um . na desordem. que mandava distribuir em torno. mas a cadência dos versos os enternecia e era com amor que pediam ao cearense que não parasse. violentos e ferozes. os rapazes da cidade o deprimiam com applausos irônicos. que foi expulso da sala aos empurrões. e na confusão.. para acompanhar as canções^cujas notas graves eram abafadas no barulho.

"-—' .«f**-*5. intimidadas pêlo silencio que ellas mesmas faziam./ paratadamente de kjjdbúkd a cada canção. i . intermediário. j{/•xy*™rf/t e todos se sentiam sob um encanto mysterioso de •"*-». a lua vinha rompendo e a claridade que d'ella descia.. riam gostosamente da ira dos outros e mais que tudo do effeito dos pro prios cantos cheios de versos de amor. — Não arreda. sem cólera. ^ ' ' . com os olhos pregados no es/ ' paço. cabeceando de somno./ saudade. Xy*-" . de repouso..^ j m . de idyllios^ L^T**"^*? campesinos casados com aquelle estribilho do cea. gritava elle. Fora. o vento qf*TWCrilTjiMifc.CHANAAN 175 dos copos entornados na sofreguidão da conquista./ nio da várzea abandonada pelo sol.. E de então em deante estas palavras serviam dis. encostavam/ *. a desfructar o resto da tarde no terreiro. E os dois foram-se esgueirando jy -&L da sala. E n*esse ins/ tante in4eciso. Milkau temendo pelo agrimensor. que se fitavam com expressões varias de desdém e **^" j dj/divertimento. E os allemães embriagados o acompanhavam n'um berreiro.moíjolvenéo^é na contemplação. perseguidos pela vaia dos que / ficavam.* *"* ** '^ >VU0S*.^ . — D'aqui não arredo. sem)odera-v/)furtivamente do domi. propoz-lhe sahirem um pouco.Y17*^}^ rense.*. e as -mais pequenas. não arreda. l' hf C'lr /r ( ' . Os que yfÃJ* ainda tinham consciência. No terreiro as creanças-fafigadas estavam serenas. / S r ^ Milkau e Lentz julgaram-se no meio de doidos.

haviam partido para as colônias.176 CHANAAN se ás mães sentadas no chão. os grandes. doavam proL^i-Í*'^* vocadreâs sacudindo com os seus movimentos. ^j I ou /recolhido ao salão do baile. que. Subiram ao / sobrado. a musica não cessava de tocar. volveram á casa da festa. a musica tocava uma valsa arrastada e langorosa. onde na sala da frente se começava a dansar. o' ' / torpor/ dos rapazes. Em geral. e s t i m u l a n t e ^ ^ f f i V I i Não oc pass^-muifô^a^^-ciffiffvfue 0 baile [ v**** ' entxOáigf em plena animação. como esfriasse.. Os dois amigos caminharam até ao rio. e o foram margeando. Agora é que se podia vêr a variedade de <^<*^«-- p^yHi^J^-u UCm- . fora mais illuminada. e todos se divertiam alegremente. Detiveram-se e sentaram nas pedras. depois que L ^ " * ' a noite avançara. • ella estava illuminada. dentro da claridade mansa e leitosa do luar. e ouvissem de novo a musica. tímidosjjd negligen. Os músicos recolhiam os instrumentos e vinham vagarosos jantar. No terreiro já não havia quasi ninguém : as creanças tinham debandado. pois muitos ainda do mantinha-m/á mesa ou se postavam en^ Jj costados ás portas e^ janellas. Alli. descuidosos por algum tempo. erü^çadas umas ás outras. os pares se compunham de rapari(/$*' gas.. Quando a descobriram. e pouca gente dansaya. A sala. ' tes. até pux. E mais tarde. i ili s. abria um cir/v r "^" ** ~ culo de fogo em phosphorescencia. e a luz xfyÇjyíjfo/e quente que sahia das janellas e das portas.

— Pois admira. — Realmente. tropeiros. — A h ! E preciso conhecel-a para saber que não é só no baile. Alli estavam negociantes do Cachoeira. voluptuosos. que estava ao lado de Milkau.. lavradores. Ah! lá vae ella ao braço d'aquelle mocinho alto. na serie de pares de uma marcha polaca. é em tudo assim.. Um homem de tosca figura. rrfrriiiiir n~ rlin i r » . é um dos negociantes mais ricos da cidade. de movimentos ondulantes. — Não. distinguindo-se do resto das outras raparigas. e o patrão d'ella é aquelle mesmo que é o seu par. creadas e todos reunidos n'uma grande promiscuidade. de nariz grande. não vê? E um colono e filho de colono no Jequitibá. Não conhece? — Não. com as'mulheres.CHANAAN 177 gente agglomerada na casa de Jacob. é creada no Cachoeira. arrastadas com estrepito pelos seus pares.. sem separação de classes. caixeiros da cidade. Deante de Milkau que. sentado a uma janella aberta. A mulher já -é velha como elle. passou. é muito graciosa... uma joven de flexível graça. Parece que não cança de levantar aquella cabecinha. O pae . Amanhã estará trabalhando com o mesmo ar — Naturalmente é uma colona.. Martin Fidel. a família está toda aqui. acompanhava a festa./ r i m r— Não ha nenhuma que seja capaz de chegar a Luiza Wolf. desengonçadas ou morosas.

por causa do suor que . para se reunirem depois de differentes voltas. enorme. Os dansantes continuavam no compasso marcial da polaca. (drAddjMfà as mulheres amar'TC i s raVám lenços ao pescoço.refrescaríy». i ^i^^xamente^de eharuto^ú* cachimbo ao queixo jljl Yj chapéo na cabeça. separados. é aquelle baixo. que^iominava as vozes dos instrumentos. como vê. velhos fumavam o seu cachimbo. gorducho'. ora fazendo evoluções de homens e mulheres. í \jfr lhes escorria da fronte.. namorados passeiavamalli. ora separando-se em alas. barbado e de chapéo na cabeça. Muitos sahiam até ao terreiro para §&.. cõTfío por uma combinação mágica. o . dentro de sapatos grossos ferrados.no es^g^ro. > 'Y. faziam um barulho secco.178 §KANAAN d'elle também está dansando.. Os movimentos eram tardos e pesados . executando variadas figuras. e todos livres » movianrragarosamente. ora desenhando meias luas. farto de lhe relatar coisas da colo- í . abraçados. Quando^ícon^adansãAparava)os pares se voltavam-Vèn'um mesmo instante. marchando frente a frente.seu informante tinha-o ijli. uma desenxabida. o par é a creada. batendo fortemente os pés no assoalho. resmungando conversas y o*. arrastando-se com esforço. procurando os bancos encostados ás paredes das salas ou aos cantos das janellas.à 1? abandonado.) £/ Milkau estava só.

Alguns minutos depois.'"* seriam a vida e o amor da "rapariga/Esta respirava f *.& offegante.CHANAAN 179 nia. o porteesa gracioso. Estavam alli. z—^~ porém de um contorno fartoJe as mãos brancas. 10$k£$0faí certa b e l . o mirava nos ^ olhos. Mas o queuuiaTÍffrfta de superiort^*"* ^ era a fronte aberta. I J^T^ era a expressão da bocca. Ày*i<y<f''\ 4A . no mesmo banco. da sua bocca descorada. dxlixfJb . Lentz desde muito tempo não apparecia na sala. e o amigo pensou que. aquelles mesmos olhos. entoadas.o busto erguido. estivesse no terreiro passeiando solitário. tinha um ar fatigado e sentava-se n'um pesado abandono.# y W ^ ~ ' leza. Também da sua parte ella não deixou de acompanhar a furto o vizinho e. alegres. entravam n'um grande alvoroço. e quasi todos foram dansar. . sentaram-se duas mulheres* ^ f u m a dr*il$>c»xeconheQ$bs!tto.' mas humida e bondosa. ao menor ' silencio da musica. Felicissimo não sahia da sala Q de jantar. uma distincção maior do que era commum J*t4*>' nos colonos . a descançar bem perto ./ drolltb. volátil. era o cabello louroJfôfo. Junto de Milkau. meigos e infinitos "~~^j sobre os -quaes via boiar imagens doloridas que —. ás y//<?&/ vezes. . a mesma que na capella o fitara durante o seu somno. talvez longas demais. becas de galgo. plácida e innocente. sahiam%os braços como ca-. De vez em quando. as vozes d'elles. fatigado d'aquellas simples e monótonas dansas. onde com amigos allemães continuava / *~ a cantar e f beber. /^jg JffflYOyH^Ut» -é.com certa ousadia. MilkauJentãcVtáj^ á vizinha. tocou de novo a musica uma valsa.

180 CHANAAN Não dansa ? (Ju-4j?'' Ella não se intimidou ouvindo-a vaq&^Mliii. pela voz. Um rapaz ae approximouj e sem dizer uma p a lavra. disse radiante e rápido : . e como que rasgava um tênue véo para mostrar a deliciosa paizagem da sua alma. arrastando-a para a dansa. pegou na mão da outra rapariga. A voz d'ella era um canto intimo.. que traduz a musica do cérebro.. o accentp da sua era uma revelação da personalidade intima. pois não me sinto bem. como habituada aquellas maneiras da amiga.. se érgueu-e. confessando que não sabia dansar. E sorriu levemente. conhece-se a nobreza ou a grosseria da raça ou do grupo moral a que pertencemos. percebem-se as qualidades secretas de cada espirito. Mas ninguém me acredita. Vejam só. mas. <0L.rapariga.. Mr rntão^silifrrrorin r tmnf^iill? Respondeu promptamente: — Não: não posso. ajs*</ e com gesto de carinho quasi maternal. si quer um par. Milkau ficou meio confuso e desculpou-se. quando não me sinto bem. que se deixou acariciar negligentemente. que é uma das melhores na valsa. voltando-se para a amiga. E como em toda a voz humana. tomou pelo pulso a outra moça. aqui tem esta minha amiga. E a sua interlocutora : — É o que me acontece pretextar. sonoro. á moda do logar.

— Por aqui mesmo. — Deixe lá.. não é verdade ? — Não sei. — Já vejo que converso com uma grande preguiçosa.. e o somno me veiu como um arrebatamento feliz.. Quando a joven partiu arrebatada pelo par. Lembro-me de tel-a visto na capella do Jequitibá... Ao contrario. Não quero me separar de ti. Não é por preguiça seria para esquecer tantos aborrecimentos que iJdesejaria um grande somno. Tenho tanto que te dizer. Maria enrubesceu. e hoje tem sido um regalo — Oh! desde manhã andamos n'esta roda viva.... — Fazia um calor terrível. — Eu ? Nunca.. volveu com vivacidade a rapariga. que ás vezes seria melhor passar a vida a dormh.. Maria disse a Milkau : — Não lhe parece tão boasinha ? E filha de um colono do Luxemburgo. Neste banco ou na janella. recordo-me bem de que não estávamos muito longe um do outro.' '' .. sentia um bem esta-" immenso. E o pastor não o divertia..CHANAAN 181 — Maria. ha muito /empo não nos viamos. onde me esperas?. replicou meio confiada e intima.. " li t~... E verdade. i — Sim. mas immediatamente retomou o fio da conversa. — Por signal que eu dormi... referiu Milkau..

Vamos para lá : o ar fresco lhe dará forças. que também ao seu lado não sentia o menor constrangimento e se exprimia sem emba. — Como é bello dansar! Com a sua mão fina fazia um aceno affavel ás amigas que passavam. como a um velho conhecido. fosse preferível. descança um pouco. para sua companheira.* raço. Levantou-se. Quando a musica parou. — Talvez. allucinadas no movimento aéreo da valsa. disse Maria á amiga. E agora queres dar um passeio ou preferes ficar aqui ? perguntou a outra arquejando' de cançaço e sentando-se instinctivamente : — Oh ! meu Deus ! Passeiar.. C_J — Aborrecimentos? Imagino a que «)isas ' simples dá este triste nome. observou Milkau. quando estás que não podes ? Não. e as moças correram sôfregas para .182 CHANAAN Acabou a phrase com uma voz sumida e vagarosa. os pares se desfizeram e cada um dos dansantes tomou direcção diversa. Ella não respondeu e ligeiramente abaixou os olhos. sentar-se á janella. não me mexi d'aqui á tua espera. — Tu vês. mudou de assumpto. as cadeiras alli estão desoccupadas. Milkau ia achando prazer em se entreter «om a rapariga. observou Milkau. amor. quando logo depois os ergueu. — Eu sabia.

— E afinal. transparente. que vinha da sala de jantar para o logar do baile. O agrimensor Felicissimo entende que já basta d'estas dansas extrangeiras e que jgora se deve passar ás dansas brasileiras. T/fâúindo que uma grande ^A*//** rixa se travava alli. e d'estes as sombras ainda longas dansavam inquietas. se desmanchavam no horizonte. as nuvens. 0 primeiro olhar d'elles foi para o quadro de fora. mas tudo cortado por atroadoras e ^tf/]Mf///^ -7^w*2! dfy gargalhadas.Jví> CHANAAN [\r*f- ' | v« 18g as cadeiras indicadas. que elles ignoram. — Que é isto ? interrogou Maria. Havia grande discussão. a torrente rolava borbulhando. assobia. meio assustada por um grande barulho de vozes. em vozes altas _ / e agudas. — Não é nada. e pouco tempo depois voltou. puro.. quer forçar os músicos a tocaram. Todos se precipitaram para indagar &fc que se passava.. receiosas de perdel-as. Todavia. e o grande f ampo dzsí. rijo. o agrimensor insiste. descendo no céu. um vento manso balançava os ramos. Milkau sahiu para vêr de que se tratava.? perguntou Maria. os rapazes protestam contra a innovação. 0 verde das arvores se adoçaVa á luz diamantina. \ . Os músicos não sabem como executal-as. sem estrellas e desmaiado ia se transformando em um pavimento de crystal. ensaia alguns passos. Maria e a companheira ' 'não estavam tranquillas. Toda a terra estava inundada de umiluar branco. livre.

músicos. achando aquillo estúpido e gro- . tíremeduára. r^. desengraçados. A musica suspirava gemidos languidos. «^vT seguir um bom logar. C W De facto. ^ f ^ f M W ^ ^ J* / » ^ ^ ^ e > € ^ ^ í ^ # I ^ M j 3 g ^ expe*+*" ^ ^ compJLssísMxx^tnJlndÀ/o^me^nòs gís d^da^síf q«ae '"'* r *' +.voluptuosa. começj/tjfyfL a tocar uma peça arrastada eM^ .E. e veremos alguma dansa da terra. para con .t^^1 que ia elle dansar. n'um borborinho de risadas. ftffâffl /uccedeu um silení^. Alguém perguntou ao agrimensor o yyy. J_ ram para os seus logares. Riam em torno. e « j ^ cio de espera. erguendo e abaixando os braços.^ para a sala. Mas nenhum som produziam as suas mãos dormentes. no meio da casa. ninguém se movia mais na sala. e jamais um gesto se casava com o compasso da musica. meu povo! /JZhltÀt*-. Depois d'este accordo. *%*y*c*-o^ livre para a dansa. e a gente anciosa correu ^ . quasi todos estavam sentados. ensaiava ' estalar os dedos como castanholas. w ^ * ^ " e muitos amontoados ás portas e janellas. / C . os músicos vie•. Rodava sobre si mesmo. arrastava a perna. poftyj/í/rffôfyjf oxchestxa. andámen„ < * * * ***** ^ 2 to. sahiu para o meio ^"^jtjtft-^da sa^a> gritando com voz difficil : Í ^ J * — E o chorado. medonhos.184 CHANAAN — Afinal parece que Felicissimo vencerá.. com ty*-^ ^ os olhos tortos e compridos. fazia tregeitos desconnexos. Junto r*?"^"*"^ aos aos músicos. $if fáfLyju. cambaleando. agoxWitf ^ ^ t ^ ^ ^ a f i n a d a . e o dansarino só. acocorava-se. Felicissimo. rencissimo Felicissimo cantarolava cantarolava oo anaamen-/^.

Elle -deixou-se prender. a musica continuava. e cahiu J^r/á/á^ e pesado n'uma -w-J^Z cadeira vazia. por prazer. • altiva e extraordinária alegria. entre gente de outros mundos. os cabellos i» agitavam livriuricnlij ou / U .í*' musica didi^dM^.CHANAAN 185 tesco. Todo o seu corpo se agitava n'um só rythmo . . uns fugiam abandonando os logares. o mulato se transportaya)para a longe de si mesmo e se transrlgTrnrvjíf n'uma 4. com os dentes em serra. ~ livrando a cabeça. A embriaguez do agrimensor era completa. violento contra a parede. Mas. Por enthusiasmo. solitária nos seus largos e cho. o seu corpo se arrojou rápido. e o inutilisava inteiramente. Foi uma barafunda. como um fauno f/ll antigo.fz0 A rosos compassos. de repente.-/.. /-éy^***'" Durante algum tempo ninguém se moveu e a 9<^ri. Felicissimo deu KJ mais algumas voltas. Joca pulou na sala e principiou a dansar. mas os lè^i vizinhos o sustiveram na f/f* cadeira. como n'uma gui. O agrimensor apoiou-se com a mão á parede. agradecendo-lhes com o / enternecido/olhar de bêbado manso. com medo de alguma queda desastrada. Arrebatado pela musica que lhe falava ás mais remotas e immorredouras essências da vida. e afinal.'*' nada de navio. Felicissimo ainda tentou erA guer-se. A sua alma nativa esquecia por um momento essa dolorosa expatriação na própria terra. outros riam do espectaculo.. todos gritavam de susto. a bocca entreaberta. a cabeça erguida • tomava uma expressão de prazer illimitado. sorria.

vinha languido. como n*um grande ataque satânico. suspenso. na sua alegria rara. sahindo dos braços retesados. estalando castanholas. erguia-se n'um salto de tigre. elle parecia. era vibração. e nesse gesto. imperceptível. Depois. corria pela sala saracoteando o corpo. todo elle era movimento. agitava-se todoy . os pés voavam no assoalho e. vertiginosa. obedecendo ao compasso da musica. querer voar. com os braços abertos. ora unidas. querendo arrebatal-a n'uma volúpia contida. n'uma ^rbjfação '^/e*** de todos os nervos. outras. Joca não perceberia a falta dos instrumentos. ora baixas. que dava a illusão de um instantâneo repouso em pleno espaço. rápido. no impulso da sua alma.1S6 CHANAAN empinados e eriçados. no seu corpo triumphal. ou molles cahindo sobre a fronte. requebrado. quasi pairando no ar. fazer um silencio que desequilibrasse tudo. N'esse momento a orchestra podia parar. sacudindo os membros n'uma dansa desenfreiada. as mãos. ébrio de musica. com os pés juntos n'um passo miúdo e repinicado. era musica. ás vezes. paravam. retomava a sua doidice. como a dansa de um beija-flor. Umas vezes.Hy ^P^y . de cabeça inclinada e olhos compridos. pois todo elle. mas que se adivinhava febril. vivendo. A scena continuou algum tempo com esse único *-. e achegava-se a alguma mulher. espraiando-se na velha dansa da raça. tremulo. ora espalmadas no ar. perfilado nas pontas dos pés. quasi de rastos.

. N'uma das janellas um pax IfáYJfftflLava. emquanto outra musica. ////'*' f" '' tà*\ Na sala<^^pares/roavarrí n um frenesi. E como o derradeiro sobrevivente de.ff/lJ+tf**" cido de dansar. que correspondesse aos seus movimentos. uma raça toda extincta ^jtí^f/j^f n fi^W&fyfflr^ Jmlfy.CHANAAN 187 personagem. e sem saber o que fazia. invadia o scenario. assim o • yUJLS ultimo interprete das dansas nacionaes foi cedendo J. larga.. vae derreiando o corpo combalido. clara. infindável e sus^ surrante palestra. Ninguém veiu. Um momento a rapariga alteou a voz. pouco a pouco foi cançando. as pernas morenas não se retesavam com a mesma energia de pouco antes. Todos tinham curiosidade e nada mais. esque. Era uma longa.. toda entregue á paixão. «^ 'f^ o terreno aos vencedores. fitando com os . O peito offegava. fluente como um rio..jJKff^0ff *y^fJM^I0^lfl a amiga de Maria. declamou como na velha bailada : — Ob ich dich liebe ? Frage den Stern. /Z^tèr^/ei outra dansa. ninguém sentiu o Ímpeto de sacudir-se. Desolado. as sombras minguando se resumiam mais fixas. Era a valsa aiJi t i lema. com a flexibilidade vigorosa do páo d'arco. Maria estremeceu ouvindo o canto de amor. das mulheres negras. Havia jaaki luar Í W W 4 * « / fora. de uma saudade das suas companheiras de mocidade.. Joca procurou um par. que sentiam como elle. tomado de uma repentina tristeza.. uma mulher que acudisse aos seus appellos. de remexerse ao rythmo d'aquella dansa. e.

. Acabara a dansa e era a hora da separação. como de um antigo conhecido. A moça despediu-se de Milkau. já recomposto d'aquelle instantâneo desfallecimento.. dizendo com uma voz sumida e tremula : — Que tristeza. ao ar livre. um grande silencio reinaria nestes mesmos cantos cheios de movimento e de alegria. que no dia seguinte se tornaria a vêr. E para quantos não jpomeçára o isolamento. Hfefcjmaginou a solidão de um mundo sem vida. principio da morte. n'esta solidão enaque ia passando a existência. e uma immensa tristeza. Sua vida triste. — Oh ! pensei que fosses o ultimo a deixar esta casa. envolto como n'um véo intangível que o não deixava sahir para o mundo nem permittia que o mundo viesse a elle. foi procurar Lentz. aqui nesta Terra radiante. essa terra deserta. ** viçosa e feliz. lá ! j O pensamento de Milkau.. recebendo jovial o com- . gritou Lentz. no terreiro. apontou a lua.. Milkau.. encontrando-o. sem uma companheira. marchando como um cadáver phantastico na estrada do infinito. sua vida casta e mysfica. p f e f l ^ f o u (f[&u< que algum dia também. Pensou na sua própria vida. como obedecendo 1 a um chamado extranho. Por sua vez. peior que o eterno frio. Um velho7chegcmi#á janella onde estava Maria^ chamou-a. no seu destino. subiu ao astro morto.188 CHANAAN olhos ardentes o céo. toda a vida se acabaria.. entre vários colonos.

E falámos também de outra Allemanha que ha de vir. —' / f P . s t T a m " m e. que os enlaça e domina na força do seu triumpho. — Que é isto? perguntou Lentz. na encosta de uma montanha ma. Não sabia que eras tão grande apaixonado de festas. vendo os outros alegres e te quiz )>' dar~a liberdade de também te divertires ao teu modo. \ffôjfncfyfâfap£$$£/$ f/jf* jèfâfffifa. disse Milkau. — Bem. A terra dá o menos possível aos túmulos: elles. por um grande cafesal bello em sua 0 íf}utviçosa negrura.. amigos. não apagam nem dão sombra sobre a Vida. £j I . camaradas ? / / / ^ K^ ty"$tflftf /ppl au dirarr>la prophecia.CHANAAN 189 panheiro. Não é verdade. — Um cemitério ! respondeu Milkau. no futuro. — A caminho ! Adeus. gestosa. começaram a ver cruzes pretas e pedras brancas por entre os pés de café. < v iA Bateram durante horas e horasA mesma estrada / j* * '^ de manhã perdorrida. Até um dia ! . mas agora cuidemos de ir para casa. escassos e raros na fralda da montanha.. — Aqui estive a conversar sobre a Allemanha com estes amigos. Não ha em Chanaan logar para a morte. E accrescentou : — Vê tu.«Z***»*'.

^* vC/ A historia de Maria Perutz era simples como a miséria. e ella guardava recordação d'esse dia do baile como de uma festa tranquilla para a sua alma. e um neto que nascera um anno antes de Maria.VI Maria não podia esquecer os fugitivos momentos do seu encontro com Milkau. morto ao chegar ao Brasil. Nascera na colônia. no barracão da Victoria. na mesma casa onde ainda vivia. de cC" um pequeno clarão dentroyíi. Muito das palavras do desconhecido se impregnara no seu espirito. Vivia-se tranquillamente. as creanças crês/ IP- . não conhecera o pae. jfóytâ/yjflfk da sua /»*•»*•-vida. antigo colono estabelecido no Jequitibá. longe do Porto do Cachoeira. a mãe viuva e quasi mendiga ^ empregárar"como criada na casa do velho Augusto Kraus. Filha de immigrantes. A « colônia » 0JL prospersí i os outros habitantes eram o filho ca^ ^ j s a d o .

Viver puramente. para elle cantava coisas cujo sentido não entendia bem. crescida. de que se não distinguia. Com elle conversava longo tempo. Esquecera Maria a morte da mãe. O ///' ' sonho era sempre o mesmo. ^^fjò se separavam á /<J noite.CHANAAN 191 ciam como irmãos. de quem ella. se punha a fumar. e o velho Augusto.onde dormira quando pequeno. e já moça. mas que falavam. depois da ceia. um anceio de tornar á > sua terra. por muitos annos viveu como inconsciente. o seu lar era aquelle em que fora recolhida. e com o qual mesmo se confundia n'uma grande innocencia. de rever essas montanhas da Silesia. amores fabulosos. á alma cançada e saudosa do colono. cuidava como de uma creança. a consciência só é despertada pela Dôr. A sua família. lendários. tendo quasi chegado ao extremo da curva desse circulo em que as edades se tocam. como vive a arvore. passando a existência sem perceber o mundo. de coisas longínquas da pátria gerrnanica. vigiando o gado. Nesse . O grande amigo de Maria era o velho. Ignorando a própria historia. s^entretinha^em encher as almas dos meninos de recordações da sua vida. o facto devia ter acontecido na sua remota infância. Sentir a vida é soffrer. viver por viver. como o sol. quando o ancião vinha para / o meio do terreiro ^Iff^f sentado n u m tronco / / ^ ^ secco de arvore. scismando. paizagens extranhas. não lhe deixando traço na memória. na completa felicidade é adaptar-se definitivamente ao Universo.

7w <<•^ 192 CHANAAN O tempo conhecia pelos nomes as solitárias estrellas. Emma. apezar de to•. já a ambição dos colonos.j/amJlrA das as preoccupações tomadas. até que na epocha da sua' migração. desceram do céu../jS d ° s n-° c a m p o azul. As mulheres. _„ ^^ n'umi?ejit¥eftescime«í© infantil. farta como um paiol de algodão. Elle as viu sempre an» &ud marcha de força^•Áà. e foi a ultima. de v. e Maria scroccupavam"em arranjar os leitos. Augusto Kraus 9 sentava"ao ar > livre. lá vinham algumas das antigas conhecidas. Mas ainda. ao balanço do mar. donos da temerosos que da convivência do filho jfylíféfl Jláo casa.. Uma noite. que assim se chamava a nora. a rapariga achou-o derrubado. rapariga resultasse alguma ligação de amor. lhe 11 1 traçava a separação entre mfo. Maria foi amante ' do joven Moritz Kraus. até que adormecia tranquillo como um pássaro. Já a tristeza entrando no seu espirito lhe revelava o desencanto da existência. como .ez em quando. arrastava-o brandamente até ao quarto e o deitava na cama fofa. e elle as saudava pelos nomes. Depois da morte do velho a situação de Maria na família foi se modificando. de bruços no chão e gelado. Estes amores eram. Mas. baixaram ás águas para desapparecerem uma noite e serem trocadas por outras. despertando-o de mansinho/Énfiava-lhe o braço. E assim. para vêr rfVBCrfV* a s velhas estrellas. como perdidas das companheiras. n'este outro mundo." i quando a tarefa se concluía e as duas voltavam ao silencio. Maria sahia a buscar o velho.

e no d//dft de cortar uma ///*****£• simples inclinação. com os seus desejos e ambições. os pães. Não era a distincção de classes. onde o alugaram como trabalhador. era apenas o interesse. Mas a cupida ambição dos já então velhos Kraus não permittijp que as coisas seguissem o curso habi./( tual. sem suspeitarem do ponto a que tinham chegado as relações entre ^_* Moritz e a creada. . que poderia ser lançada de um momento para outro na estrada ? Como •'" poderia embaraçar com a sua pessoa. longe do Jequitibá. uma das mais ricas moças do logar. quasi todos da mesma origem.CHANAAN 193 em geral. que lhe parecia entrar gostoso nos planos yrnAkt*r dos pães. JC^od** Maria viu com grande pasmo a docilidade do *«ÁC«*/-amante.v L Z ^ 3 jado casamento. Assim. Que era ella sinão uma miserável. O seu abandono foi completo . Queriam que o filho se casasse com Emilia Schenker. Assim esperava Maria. a avidez de incorporar o filho á fa*§ milia Schenker.iy esperando esquecesse o amovf/ffl^ffl/ftffl^-# ^#££ ijjpyJL o espirito dos Schenker para annuir ao dese. que os levava a afastar Maria. não tevê meio de communicar com Moritz nem animo de exigir o casamento. os planos da família ? Para o rapaz aquella ligação fora uma simples conse- . que a convivência tornara inevitável e levara ao maior compromisso. deliberaram mandar o filho para outra colônia. uma pobre creada. de Moritz. que não existe entre os colonos. os amores da colônia e deviam acabar por um casamento.

e ella(osjüesapertav*)n'um gesto de / desafogo. Um grande desanimo a . —fraqueza yfyyfffip . inundava-lhe a fronte e á garganta I<VK—/ lhe .^ t I tavi/fddtífo e satisfeito a esposal-a. —tinha tonteiras e tudo se lhe turvava nos olhos. !IJ°^^*tyyL)0íftfÍL só do desalento moral mas também da mysteriosa perturbação do organismo. cada hora mais abandonada. elle sVprest ' ( .E P o r i s s o n ã o esque- . e de vez em quando. e. porém. os olhos semicerrados se perdiam no azul do infinito e tudo. reprimindo os sobresaltos.194 CHANAAN quencia da vida em companhia de uma rapariga .. pensando encontrar-se com Moritz. Quando no cafesal lhe vi/ nham subitamente esses momentos de cançaço. Este. y/tí _ Íf0t^/fHtfft a a S o n i a . não foi á capella nem ao baile de Jacob Müller./ tumescidos.. alegria dos-ou-tres-. Indo ás festas da colônia. fora apenas uma conclusão animal. Maria já não era a mesma galharda e resistente serva./ tomava. e Maria. mais inquieta com a fatalidade da sua sorte. ouvia phrases e juramentos de amores alheios. esquecia-se da tarefa. alvoroçou-se. e desde que lhe acenavam com outra mulher rica. que lhe enchiam os ouvidos. a bocca se humèdeeía.subiam náuseas. teve a dolorosa proy[/<x vação de se confundir f. parecia balouçar como em alto mar. fl <2oul ' Pouco a pouco.. deitava-se ao sol n'um / completo abajádono. retendo uma immensa vontade de chorar. um grande suor fria. céos. terra. os cabellos amarellos se £*?»*• f misturavam K relva vecdej-es-^seios arfavam in^t—.

As palavras d'elle.. Quem era elle ? Quando o veria mais?. desolador.. que era a sua nova existência. aba. Kraus olhou o escripto.tj-f W timento. mais l expressiva. quando um mulato.. iam doando / L ^ ^ / outro relevo. no ièrj. mas teimava em reproduzir de / memória aquelles momentos. cflÇ^^-n^* n™~JwwH I^^^J^ . ?>o outra. mais forte.•/-rosamente. f*\j „ O colono disse que sim. montado n'uma besta.. sem alcance. e como. E desdenhoso entregou-o papel. E sabia que tudo tinha passado como o rasto do pássaro no ar . em funda agonia. a que pouco A pouco / ^"" a turvada imaginação e a frágil lembrança. que t-jfáfa-skcbaiag-. E no led desespero. vivendo em si mesma como hypnotisada. vazias mesmo. ella se apegava a essa lembrança/como a um trecho de verdura no deserto immenso. desdobrando uma Q° ^ ^ -folha de papel. eram ainda assim repassadas de uma infinita brandura. •~fc&/"9 — Pois. sem significação. o dono da casa ia partir para o cafesal próximo da habitação. Uma manhã. tome conhecimento d'isto. se approximou d'elle vaga.CHANAAN 195 cia a sua conversa com Milkau.. que cahia sobre ella como um refrigerio para sua anciã. então.da montaria. não sabia ler o portuguez.^ / ( 1 — Você se chama Franz Kraus ? pergunto*! o tS^i^lA' v-mulato de cima. . . outra sensação. apezar de estar no Brasil havia trinta annos. ficou embaraçado. n'uma doce conspiração. tudo ' pervertendo.

Augusto Kraus. "* . São três juizes. j $ $ ^ o mulato. adeus . Era só o que faltava. mais essa massada. Antes de passar a cancella. E os quartos.y //Lr <*•» / . e de casa em casa sempre a mesma coisa : ninguém sabe a nossa lingua. Venho por aqui furando este mundo... Não esconda nada. sinão cadeia. o escrivão e eu. A Justiça pernoita em sua casa. Não lhe deixo contra-fé. O colono. ouvindo falar em Justiça. aqui. e solemne lá se foi n'um chouto pelo caminho. tirou o chapéu submisso. não tenho mais conversa. — Ah ! Prepare tudo para se arrolar. e ficou como fulminado.. voltouse para a casa. Ouviu ? Bom. Que raça ! O colono ficou aturdido com aquelle tom insolente. porque de nada lhe serve. que sou o official do juizo. Picou o burro.. Não era assim o nome d'elle? A audiência é amanhã. Ia replicar meio encolerisado... Prepare do que comer... quando o mulato continuou : — Pois fique sabendo que isto é um mandado da justiça. Que é? — Também vocês vivem aqui na terra a vida inteira e estão sempre na mesma. com o chapéo a rolar nas duas mãos.. / CHANAAN . O meirinho gritou: m*^" i ft " .e do melhor... ao meiodia. f.. Kraus estava pregado no mesmo logar. que também se conta. E um mandado do senhor juiz municipal para que vosmecê dê a inventario os bens de seu pae..196 — Não posso ler..

o pão negro dos . que o viu em tão extranho abatimento. a « colônia » estava ordenada. todos se confrangiam. e auxiliado por Emma e d creada /£. Maria lembrou os hospedes do dia . poz-se inquieto a andar no terreiro. querendo apoiar-se no outro. xemexédifé velhos ba. quando foi a tarde. arrumavajfTa casa. quando se falava '*"*' em tribunaes e processos. Veja lá ! Desappareceu. Depois. Na manhã seguinte. ambos ficaram mudos o dia inteiro.«/£*/ começou a arranjar a hospedagem.QarfrteTnrya. . espreitando a chegada dos magistrados. Na colônia. também vestidas . Franz Kraus não teve mais animo de ir para o trabalho. Entrou em casa. Maria tentou confortal-os. arrancou-lhe palavra por palavra a narrativa da intimação. e o colono ficou por algum f//^^fiu tempo na mesma postura. um terror como si tivesse havido alli uma visitada morte. vestido como nos domingos. tirando-lhe as energias para distrahir os patrões. Franz animou-se. como succede nos dias de desgraça. A lei e o direito tinham alli um prestigio inquietador. todos conchegando-se n'uma desfallecida cobardia. cada qual.CHANAAN 197 — Comida e dormida para cinco. mas o terror dos outros. preparava'*». Kraus. Tudo se fazia debaixo * de conselho. As mulheres / ' •>íwatavam-^allinhas. Comprehendendo isso. A mulher. Apenas. _ seguinte e o interesse que/deviam empregar para yj A recebel-os do melhor modo. colonos. <y) nome mágico da / „ Justiça . fazia ainda augmentar a própria tristeza d'ella. As mulheres./i'<í***/-J'*r hús esquecidos nos quartos.

procurando fitar com o monoculo o promotor.. Todos. côr de azeitona... eram empreitadas pelos negociantes ricos do Cachoeiro/O colonoXçon^eu) a recebel-os... não se arredavam do trabalho na cozinha. e só pelo passeio ! Emfim. eu e o collega. sr. batendo no chão ruidosamente com os pés. Ainda o sr. mas nós dois.. espreguiçando-se.. são maiores. — Ah ! é verdade. sempre a gente se diverte. meu doutor. de chapéo na mão. — Mas aqui não ha disto. recordando nas linhas e na expressão inquieta. atalhou com um riso de escarneo um mulato velho.. segundo o costume. Era mais de meio-dia quando a Justiça entrou senhorilmente na colônia. disse o juiz de direito. que nada temos com isto.198 yT CHANAAN com os seus melhores fatos. Um dos juises largou-lhe o animal . — Perdão. solicito em ajudal-os a apeapagi n ijis âWnaes. curador de orphãos. a cara de gato . os outros da comitiva amarraram os seus nas arvores e todos espararam com o chicote a poeira das botas. veiu por obrigação. — Uma estafa I Quatro horas de viagem. então não terei occasião de funccionar ? perguntou vivamente o promotor. — Estou morto! disse o juiz municipal. adaptando a luneta azul aos olhos. Os magistrados montavam excellentes bestas que.

— O sandeu fica todo este tempo a arranjar os animaes e nos deixa aqui ao Deus dará. Mas que seja do bom. de onde vinha um capitoso cheiro de comida. encaminhando-se para dentro. como si já tivesse commettido o primeiro delicto. — Mas onde está esse inventariante imbecil ? perguntou com arrogância o promotor. entremos. ou praguejando. — Não ha mais copos n'esta casa ? perguntou com desprezo o escrivão. E todos passeiavam pela sala com estrepito. para logo voltar com uma garrafa e um cálice. — Mas.. disse o juiz de direito. A casa é nossa em nome da lei.CHANAAN 199 maracajá. como era a sua alcunha. Era o escrivão.. Kraus correu á sala atarantado. O colono sumiu-se. batendo com o chicote nos moveis. — Não haverá alguma por ahi ? Ouvindo tanto rumor. ou rindo das pobres estampas nas paredes. — Moça bonita que saia ! gritou rindo o promotor. — Delicioso esse tempero! Promette! exclamou o juiz de direito. ou farejando para dentro. e poz-se como um creado á espera das ordens. explicou o escrivão. — Traga paraty ! ordenou o escrivão. . senhores.

uma consulta de direito. estalando os beiços : — E bom. -— Tome lá. e poz em cima da mesa quatro copos. E. — Vamos a isto. — Meus senhores. o « maracajá » começou a beber. Rindo. me affronta com esse copo quasi cheio. Segurou a garrafa.. meio desconfiado. — Sr. Esses diabos de colonos a primeira coisa que aprendem aqui na terra é a conhecer paraty. continuou o promotor na distribuição.200 CHANAAN O colono tornou ao inferior e depois reappareceu. — Dr... o mulato chegou-se á mesa com o braço estendido. contente. doutor. como mais graduado. meus senhores ! propoz o promotor. balbuciando desculpas.. — Mas. o meirinho esperava a sua vez. escrivão. Os outros riram sem responder á pergunta. disse Brederodes. Itapecurú. seu fracalhão. dr. — Você quer ? — Muito pouco.. Brederodes. uma consulta. serviu no cálice ao juiz de direito. um nada.. o sr. para clarear as idéas. em pé. O official de justiça pôde beber antes da audiência ? Na porta. E foi distribuindo a cachaça nos copos. . — Sr.

— Este sujeito não nos dá almoço ? Olhe que já é tarde. Faça favor de vêr isto. . escrivão.. um dos //<)&&*leitos : ~£*<d*nt*^ Ah! que somno divino aqui! à& Mas. ' — Não ha risco ! De um trago engoliu a aguardente. /<*" O escrivão entrou pela habitação a dentro. Não sahiremos d'aqui. todos o seguiram e ii viram-^em um quarto com duas camas altas. o homem tinha tudo preparado. tomarmos conta da casa.44. Aqui ao lado ha outro quarto. Indicou os aposentos. porque si formos esperar que esta gente se mova.HS-J ram-se-lhé de vermelho. O sr. si querem lavar as mãos. os olhos cheios d'agua tingi. ae grandes colchões de palha farfalhantes e commodos. como é isto ? Só duas camas e somos quatro ! observou inquieto o promotor. Itapecurú. o quarto é este. O melhor é deixarmos essas nossas cerimonias. disse : — Vamos almoçar. é o nosso mordomo. Quando voltou. / olhando pelo monoculo ^ subalterno. y* O juiz municipal apalpou éfdi'Ifflf0.CHANAAN jl/ 201 — Vá lá ! depois py esqueça^e tocar a campai-/*) nha. Olhem. estamos convidados. e temos processo nullo. procurando o colono. sr. Uma onda de sangue íhe yj'} ennegrecep o rosto. disse o dr. com medo que esta lhe escapasse. E empur- ..

enfiando" os olhos nos olhos da rapariga. Comeram com appetite as comidas da colônia. veja as chinellas. Pois bem. li/. entraram radiantes na sala. O dono da casa e o official de justiça serviam a refeição. o café. não é exacto ? inquiriu o juiz de direito.ella ficou vexadissimae rubra. disse afoitamente o promotor.. que estivera todo o tempo na cozinha. — Socega. dirigindo-se ao juiz de direito. o escrivão mostrou-o..202 CHANAAN rando a porta de communicação. lavados e refrescados. a sorrir intencionalmente. beberam cerveja em quantidade. Maria.*J — Oh ! lá !. foi depondo as chicaras de café defronte de cada hospede. notou o escrivão. onde o almoço os esperava.* como si estivessem em suas fazendas.. observou sorrindo o juiz municipal. Brederodes. Os collegas do juiz de direito o imitaram. y-. e.. — Nós hoje não sahiremos d'aqui. meio nervoso. vou me pôr á vontade. O official de justiça obedeceu. sentindo por instincto a crueza e J^iíVj^dytó^ dos olhares excitados e cobiçosos. Caça extranha. Elles agradeciam. dando-lhe de manso uma palmada nas costas. entrou com. — Até o sr. Não é nenhuma asneira. Souza Itapecurú. mudados de roupa. Manoel. só no fim do almoço. que de •//U (W Ar^y^ y*«~ "— T / • «• ^'~y i^^1£^t^ A . meijl perturbada. Única mulher no meio d'esses homens... e logo depois todos três. dr. Maria.

de onde elle tirou utensílios para escrever e um formulário. — O h ! é só para vêr. como si o convidassem á mais enfadonha das % tarefas. Brederodes ficou pensativo. e com ar fatigado e distante começou â acompanhar o serviço do escrivão. dr. sentou-se e principiou. Vamos lá. e elle sentiu impe//i^1**'tos de se apossar da mulher.CHANAAN 203 ?! monoculo na mão ficou atrapalhado. Procurou a melhor luz. desappareceu n'um andar incerto e balanceado. '' £2*"*// Depois do almoço. O « maracajá » poz os óculos e armou-os na testa. debruçado sobre.. O official de justiça apresentou-lhe um bahúsinho. entendeu o escrivão espertal-a. está prompto o termo. não manda abrir a audiência? O dr^-Paulo Maciel espreguiçou-se bocejando. E. seu Pantoja. divertindo-se com a scena. dizendo ao juiz municipal : — Sr. e quando um grande torpor ia dominando a companhia. finda a tarefa.. çmquanto arranjava a mesa para o seryiço. E a pobre moça. V S. Nos seus olhos turvos passavam miragens de ^/AdÜtd. que abriu em pagina marcada. o papel de margem dobrada. emquanto os outros commentavam.. com um sorriso parvo enchendo-lhe a cara. puzeram-se a fumar descançados.•* —r Bem.. . a lançar os termos do processo/ Paulo Maciel tomou um logar á cabeceira da mesa. • — Pois sim..

nem á fazenda nacional. governada por aquelles homens que se tinham apoderado d'ella. ordenou o juiz municipal ao meirinho. levantou-se e disse ao escrivão : — Seu Pantoja. então abra a audiência. que entrou na sala.. vá tomando as declarações. o escrivão resmungou : — Vejam só.. avolumando-se no silencio total. E passou para o quarto. desinteressado. juiz municipal. foi até á porta e começou a badalar.. confuso e medroso.. dr. Quando declarou que o pae era morto havia quatro annos. clamando com voz fanhosa : — Audiência do sr. começara por desconhecer sua própria casa transformada em tribunal.204 CHANAAN — Sim senhor. passeiando na frente da casa. e fizeram-lhe perguntas a que éüi respondia com voz apagada e tremula. sem dar contas á justiça. onde os collegas fuma- . Este.. dr. Paulo Maciel. » Depois foi apregoado o dono da casa. aterravam os moradores da « colônia. de campainha em punho. Este heróe aqui na posse dos bens.. na grande calmaria do mundo. juiz municipal. O seu olhar não retinha da scena sinão uma vaga impressão. esses gritos estridentes. Audiência do sr.. e onde élle parecia extranho e prisioneiro.. Sob a força do sol ardente. desfructando-os como si já fossem d'elle. Ordenaram que se approximasse.

jdespediy o dono da casa. que assignou tudo quanto elle mandou. que se fechavam logo..j ^ Duas horas levou o escrivão a trabalhar no inventario. Tirou o paletot e deitou-se como elles. . junto á janella. ím de se haver áéy com a justiça. onde tudo 0 êfáffifáfáffa' n'um grande y^/»****'socego. mas eu sou ma/ caco velho. cochilava o meirinho. sem receber a menor explicação/áenmyPantoja tirou os óculos. Pantoja atormentava o colono com perguntas e de vez em quando & interrompia-para ameaçal-o : — Se você me occultar qualquer coisa aqui da casa ou das terras. ou do cafesal.yy .... estirados na cama. São as penas da sonegação. proseguindo á sua discreção.. deixando apenas em claro as assignaturas do juiz e dos avaliadores que elle dava como presentes. do quarto não vinha " *****'*** mais o som da conversa : apenas um roncar monótono e regular de alguém a dormir enchia a casa. com que ainda mais amedrontava o allemão. O processo foi-se fazendo com estes dois únicos personagens . Vocês são finos.. n'uma costumada fraude que lhe rendia mais custas. * %&r<>y . Penas terríveis! Assim envolvia as suas ameaças nas dobras de termos technicos. Na sala. somno. e que eram seus homens de palha. abrindo de tempos a tempos os olhos fftpéfff de f/i/C^fjjj.. Acabado o serviço.CHANAAN 205 vam tranquillos e preguiçosos. sentado n'uma cadeira.

comendo os espólios á rftnv* tripa forra. Havendo milho. como si quizesse suster aquelles appetites do escrivão.é um gosto.jfpf Svdyr 0ftáo sobre elle IfltftfjffltyÁjfô com os olhos endiabrados e sinistros. ... sem nos da^ satisfacção. repetia alto os nomes das pessoas a intimar : — Viuva Schultz. s. disse o juiz municipal.. Tenho pramptos alguns mandados para intimar uns colonos d'esta vizinhança. levantou-se. seuPantoja. sr. E cousa pouca. E lendo os papeis.. — Prompto. . e em mangas de camisa e chinellos veiu á mesa da audiência assignar os mandados. meu doutor.ponha*se em campo. Afinal. Não sendo coisa grande. doutor! • e ^ " ^ ^ 6 * * " i Maciel asespantou^com a voz)ao subalterno. — Não. assignar os mandados para se fazerem amanhã esses inventários aqui mesmo. veiu ao quarto em que estava o juiz municipal. mas. é melhor deixar essa pobre gente em paz. — Ora. Venha v.. vae deL* pressa quj. E aqui ha bastante... . póde-se vêr o que rende no fim da festa. que não fazem inventario ha muito tempo. ? Já acabou? e <fiy r — T a l o . condescendente e resignado. *"^ — Ah ! o sr..ordenou o escrivão ao official. seu Pantoja.206 CHANAAN e manso. não nos adeanta. sorrateiro. tudo o que cáe na rede é peixe. e quando se sabe expremer a mandioca. meu doutor.. — Seu P?ntoja. — Neves.

doutor! disse Maciel ao juiz de direito.. sr. Mas não é com o dr. Hff Os dois outros abriram os olhos. — Que boasomneca. bem sabe o trabalho que tivemos para arranjar esta pequena excursão. voltando ao quarto onde descançavam ostollegas. dr. — JJrçá^ que malandrice! disse o juiz municipal.. : . amortecida no verde da Tfftftfifá*^ folhagem das arvores que envolviam a casa. devemos sempre fazer as nossas desobrigas. não sahiria das « colônias. Para amanhã ás nove horas. deitados! Ora. si fosse eu o juiz dos inventários.. Com este bello dia.. Olhe. Maciel que se consegue isto. .. Esta é a nossa religião. como os vigários. doutor ? interrogou vivamente o escrivão.. — As qrdens. Brederodes.CHANAAN 207 Viuva Koelner. d'estes miseráveis. vamos passeiar! E abrij^ as \v*Xte. Otto Bergweg.. Maciel. ia dizendo o juiz municipal. aqui. no seu caso. * — Muito bem. O meirihho metteu os mandados no bolso e foi sellar o burro. tudo é perto.. E voltando-se para o promotor : —Você tem-se fartado de dormir ! — Para que serve o colono sinão para isso ? Para sustentar e regalar a Justiça.f0frfâjfffâf#U y> r ^ aposento uma luz branda. Com poucas estou de volta. — D'esta pobre gente. seu capitão. meu* senhores. — De que. O sr. — Tenho pena.

Fui o terror dos inventários. $"" 'que era o chefe político do logar. ia de porta em porta em nome da lei. acudindo á interpellação e. colono £ anda fino. Vão lá saber a minha fama. Itapecurú.. tomava nota. — A quem pergunta! Fui juiz municipal doze annos na Bahia. é por essa falta de espirito pratico que o paiz vae mal. Nós somos de outra escola. . \\ Todos triumphantes escarneciam do juiz municipal. dividindo o cabello ralo. Ah! todos prosperámos no foro. voltou-se gravemente. Estes moços de hoje se dão outros ares. nós. mirando \ os collegas dominados pelo olhar felino do escrivão. protestou Brederodes com interesse. Não deixei um só por fazer. da sua família e dos seus patrícios. metteu-se entre os discutidores. sr. quando me constava que havia um fallecimento. e trinta dias depois o mandado fazia mexer os recalcitrantes.tuirny camaradagem com o subalterno. e nos seus risos entravam suas almas. Qy Havia n'essas palavras um prazer refinado de«r ^ misturar-. eu movia a machina. Capitão Pantoja. juiz de direito? Itapecurú.. Paulo Maciel m~ viu^assim excluído d'aquella *Nk communhão e ficou meio desdenhoso. não me envolva na V" classe dos românticos. dr. dr. deve ter pena é de si. assestando o monoculo... O sr. Commigo. que de pé se penteava.2UN CHANAAN — Na miséria anda a Justiça. aqui o capitão sabe. os velhos. Não é. com- . — Perdão.

o do $$jft> // -T ^ era o riso silencioso. um era o riso tumultuoso. que lhe tapava a calva.. pela sua theoria. oti^'^jperdendo a força em se estampar demorado na i^f^^-. cortante de Brederodes. ia com um paletot de palha de seda. fructos ^Í^C***^ novos ou sazonados. A Justiça reinava livremente na casa £V*^ e no pomar. Deram algumas voltas. appareciam. de Itapecurú. alvar. Que di&exenç^È. outro era o riso f/Arlvf canino. De chinellos. o juiz de direito que não os acompanhava em tamanho desalinho. notou Paulo Maciel: — È admirável a ordem e o asseio desta colônia.. puzeram^a *JW^' passeiar vagarosos. ^df^mdterras cultivadas por brasileiros. Nada falta aqui. so desleixo. O escrivão conservava yi a sobrecasaca de alpaca preta.CHANAAN 209 pondo um conjuncto extravagante. engravatado. amarellos e vermelhos. interrompeu o pro12 . contra a immigração! — Então. já muito russa/jfo. e em mangas de camisa os jovens magistrados fartavam-se do bello ar da tarde. e com a relaxação a tristeza e a miséria. ^» "/^**/ Vieram todos para o terreiro. com um gorro de velludo na cabeça. examinando do sitio.y&i *»'•**• regado de fructos. e quando estavam debaixo do laranjal car. muito penteado. encurralados na cozinha.I bria a cabeça com uma espécie de solidéo de lã. O sol já ia fraco. tudo nos encanta. tudo prospera. não*' «J^ ' . e «•«.*^/^amena. abandono. e a tarde era tZ^. E ainda se fala. physionomia. sem energia para o ruído. Os colonos... rápido.

basta Ig. classifico-o. eu sou um fanático da analyse. — Como. devemos entregar tudo aos allemães ? — Apoiado.. disse Maciel trocando um olhar com o promotor. confirmou este. Maciel. meu amigo. Não ha duvida que falta ao brasileiro o espirito de anaiyse.//'sentimentos psychologicos do meu examinado. para mim era indiferente que o paiz fosse entregue aos extrangeiros que soubessem aprecial-o mais do que nós. o que esse homem j ^ v í ^ ^ c o m e .210 CHANAAN motor. commentou o escrivão. Não podia entrar em conc. — O doutore terrível. doutor ? gritou o juiz municipal. — Sim. E que se pôde fazer sem analyse? E o destino da Hespanha : cahiu em nome da philosophia. dr. Quando vejo um indivíduo... Terra invencível.. E' meu.Então os Estados-Unidos. não . E' a conseqüência do que diz o dr.urrencia com um povo analytico. Olhe. Quando estive em França. — Ah! Tenho confiança nos novos povos formados n'esta escola. e eu concluo sem medo de çrrar quaes os f?«**0.E quando digo brasileiro. refiro-me a todos nós. não preciso saber das suas idéas. Não pensa assim. Itapecurú ? O juiz de direito tomou um ar solemne : — Sim e não.. Ah! Porque uma-vez apanhado.. como se diz na velha escolastica. uxjtí ^f0fffi/f> P o r exemplo. estudo-lhe todos os hábitos. — Terra de analyse.

Só rhetorica. não ha inferioridade. ' E Itapecurú arrependeu-se profundamente de ter 'dito isto.. O Brasil. fôrma.. porque leu nos olhos de Pantoja a sua \ . Idiotas! Veja hoje essa gente nova. (voltando á nossa HQ^^JO.. cheios do espirito de analyse. — E que respondeu ? — Pepsa que embatuquei ? disse com o seu riso volumoso o magistrado. E a sua loucura era tão grande que pagavam pela lingua. antigamente esses homens falavam por falar. questão). com o sr.o~ ***** *$• " •ytj . como vê. Não. dr. educados na sciencia positiva. Não íjj^ Cdolhe você como eíles dizem. analysando os impostos. Até certo ponto convenho.. Anões! Lembre-se de Berryer. rica. Não reparemos na yj.. me disse uma vez em Pariz : veja os seus oradores de hoje.. rapazes quasi imberbes.CHANAAN 211 deixei de ir ao parlamento e admirei os jovens espíritos. Ao mais ditoso cedo o ingresso. respondi eu. Um sujeito. e até patrício nosso. mas sim o que elles ' J/^t^>«*/dizem. É uma fatalidade.. Vae vêr. Ahi é que está tudo. / f{ como diz o poeta.. Maciel. que alli estão dissecando o orçamento. Fala-se em Lamartine. nada de serio.. de Lamartine. que devemos ceder o passo ao mais forte. Quando falavam aqui dentro (estávamos no Palais Bourbon) a voz d'elles era ouvida no mundo inteiro. morre poxjyLsse mesmo espirito de xheto-/yT . olhemos jfd^d. — E depois ? — Matei-o. E a d'estes de agora nem na praça da Concórdia..

podem vendel-a. á bala quando elles vierem. Pantoja. Quem applaudiu mais do que eu a resposta do Marechal ? A bala. com a nossa marinha insignificante. mandar a sua esquadra bloquear os nossos portos. Os senhores podem querer entregar a pátria ao extrangeiro. Teve um frio de medo equiz. meu capitão. — E quando é esse famoso momento ? perguntou calmo e desdenhoso Maciel. meus doutores. não duvide dos meus sentimentos patrióticos. podemos $ $ / $ $ • a a l S u e m ? . Não ha mais patriotismo. Mas o escrivão não lhe deu logar e acudiu rancoroso : — Admira-me ouvir de dois magistrados uma tal linguagem. replicou Brederodes. mas emquanto houver um mulato que ame este Brasil. Patriotismo vae-se vêr em breve. que é seu. sim. não ha mais nada. — Mas/ capitão. rangeu os dentes. — Sim. remendar o pensamento. — E que fazemâvocês para se oppôrem? Pensa você. — E não ha de tardar muito o momento. as coisas não vão tão simples. disse. Brederodes. E o pardo cerrou os punhos. é preciso desmascarar os patriotas de barriga.gaguejando. disse o promotor. — Quando esse imperador da Allemanha que você admira tanto. obtemperou o juiz de direito com uma voz de melliflua cobardia. estampando-se-lhe na cara um sorriso tenebroso. escute.212 CHANAAN condemnação. que com o nosso exercito diminuto. soturno.

O nosso combate será com os europeus. o juiz de direito. interveiu o escrivão.. — Como.. no matto.. E a grande America cruzaria os braços? — Não sei até que ponto se metteriam n'isto os Esfádos-Unidos. concluiu gracejando Maciel. Tocando fogo nas casas.. — E a doutrina de Monroe? A^America para os americanos. observou irônico o juiz municipal. 7 .. Um grande incêndio que ha de espantar o mundo! — Sei d'isto.. — . Nada mais.nar um paiz quando o povo não quer.. cortez e lisonjeiro. meu caro ? — E' verdade..CHANAAN 213 Brederodes deu urna gargalhada e disse victorioso : — E os Estados-Unldos. ajuntou também. nas cidades. A Polônia e o Transvaal também promettiam tanto. — Como ? respondeu o escrivão com uma satisfacção sinistra.. esperando com ar admirativo a resposta. Itapepurú. dõ Norte. Meu doutor. Como elles mesmos dizem. capitão/ perguntou. r — Ninguém pôde dom. — De toda a parte. rindo. Depois. que lucro teríamos n'essa intervenção ÍPassariamos de um senhor para outro.. com uma caixa de phosphoros se liquida um exercito e toda essa canalha européa.

O senhor è dos nossos.%. intellectual. os Boers são uns mArayeís tjue têm.. cáustico. O nosso regimem não é Hvre : somos um povo protegido. o juiz municipal». ás minas. — Espere.21 í CHANAAN ' . não.. Diga-me você : onde está a nossa independência financeira? Qual é a verdadeira moeda que nos domina? Onde o nosso ouro ? Para que serve o nosso miserável papel sinão para comprar a libra ingleza ? Onde está a nossa fortuna publica? O. doutor... *v .eu não a vejo. estradas de ferro também não. tudo do extrangeiró. Você »ão me acredita. vapores não temos. *'* • • — Os Polacos «rarh aristocratas e por isso indignos. homem. » — Por quem ? interrompeu Brederodes. o que perder. disse fora de ei Brederodes. Ouça. — Bravo. a nossa lingua enffim. felizmente. ** O escrivão encolheu os hombros c«m de^pre^fe. observou. Os brasileiros."* • — Capitão. hypothecado. mas. dó que á honra. Escute. É ou não o regimen colonial com o nome disfarçado de nação livre?. Não temos nada a perder. . eu desejaria poder salvar o nosso patrimônio moral.pouco que temos. disse interessado o juiz de direito'. — Os senhores falam em independência. O Brasil é e tem sido sempre colônia. Alli ha mais amor ao dinheiro. mas a continuar esta . As rendas das alfândegas nas mãos dos inglezes . não duvide dos meus sentimentos.. e isto decide o povo. então. gesticulando com a luneta.

esta torpeza a que chegámos.. insultou-o Brederodes. Qcollega sabe que em questões d'esta ordem não 1 convém falar sem toda a segurança. elles nos *-^ccrrrerão. Isto reconheço.. E. — Menino. é porque aproveitamos da 1 disputa entre as nações fortes. O escrivão saboreou a disputa. . com os lábios a tremer.CHANAAN 215 miséria.. mas um dia... — Dii^m quea Allemanha tem planos. — Você é um cynico. e um corais nel allemão para endireitar isto. repetiu frio e insistente. e obedecendo a uma excita£ão4ula. retomando o seu geito. E a sua cobardia . fatigados de l impedir que outros se apossem de nós. o que você não'pôde negar/i a evidencia dos factos. O oujra enrubesceu. proseguiu atrevido : — Colônia. como fizeram a Cuba.. Itapecurú. Itapecurú temeu um conflicto. emquanto houver miseráveis como você. menino. deixe de ser malcreado. Temos sobre o continente projectada a sombra dos Estados I Unidos. Houve um pequeno silencio. continuou : — Si na verdade não entrámos ainda na orbita de um grande povo. commentou fofundamente o dr. pallido. nias 'Paulo Maciel sorriu logo com superioridade : — Descomponha-me como quizer. Dizem. disse seccamente Maciel. é melhor que viesse de uma vez para cá um caixeiro de Rothschild para governar as fortunas. Colônia somos nós e/seremos.

216 CHANAAN solemne punha uma certa brandura na discussão. coisa do interesse dos partidos. — Eaté se aproveitam dos votos do extrangeiro. Porque esses allemães não serão nunca brasileiros. — O negocio não é para manifesto. — E o governo. E elle mesmo respondeu : — Cruza os braços.. disse o escrivão. varrer. dos amigos. capitão. cuida de eleições. O próprio Imperador paga do seu bolsinho missionários e professores no Rio Grande e em Santa Catharina. nem para eleições. é essa mania eleitoral : por causa de partidos deixa-se naufragar o paiz. tomando a serio o que dizia Maciel. Nós precisamos. — As eleições vêm ahi. — Mas esses allemães não fazem nada. Isto é coisa á parte. de politicagem. respondeu o escrivão. Porque não faiem os senhores um manifesto ? propoz o juiz municipal. que faz a tudo isto ? perguntou Brederodes. — Pôde affirmar sem medo. — Eis o que nos prejudica. replicou Brederodes.. accrescentou Paulo Maciel. que estamos sendo cercados pela cobiça dos Allemães. -> ••r O escrivão ficou embaraçado no seu dfi^plo sentimento de chefe de partido na localidade e de nativista. São . esquecendo-se de que o povo soffre e o extrangeiro só tem a ganhar com a nossa miséria. esta corja que se apossa do poder p a r a $ enriquectr. e são os melhores eleitores aqui do capitão Pantoja.

Abala! Paulo Maciel parecia desinteressar-se da discussão e. até um dia se despejarem sobre nós e avassallarem o paiz. uns velhacos. Sul America. mettem-se em nossa casa muito quietinhos. a descuidada inércia. não haverá um deus ou uma força que 13 .. descuidado. nervoso. Momento doloroso em que se joga o destino de um povo. Ai dos fracos!.. como nos opporemos a que elles venham?. tirando de passagem folhas das laranjeiras que ia aspifando... nativista sempre.. Paciencki. a nativa fraqueza.. do seu dinheiro.. Os companheiros o seguiam... empenhados no assumpto. Foi uma tentativa falha de nacionalidade. Um rebanho de carneiros. Ser ou não ser umâ nação. nós nos aproveitamos d'elles.. Ridículo.. foi-se afastando na direcção da casa. Maciel pensava : — E o debate diário da vida brasileira. Capitão.CHANAAN 217 muito respeitadores e mansos. Todo este continente está destinado ao pasto das feras. obedientes... Os Allemães são.. Mas não haverá uma salvação. do seu numero. Brederodes deu uma risada.. e elles vão na sombra engrossando.. T^do vae acabar e se transformar.. fogo no extrangeiro. deite de conversa... Pobre Brasil!. por esses respondo eu. Que podemos fazer para resistir aos lobos ? Com a bondade ingenita da raça... E que nos adeantam os Estados-Unidos? Será sempre um senhor... escarnecendo : — Está ahi o perigo..

e o meirinho.. capitão. esta associação..ajudava o serviço... A Terra prosperará.. apezar de tudo. tj da Justiça... immoraes. porém.já devolta das intimações.. Temos o que merecemos. Desde a Academia fui um exaltado em questões de patriotismo.. temido pela sua influencia política. assim chegaram á casa.. sim..218 Y //fP /( CHANAAN paralyse o raio armado contra nós ?... O juiz de direito não desanimava em desmanchar qualquer impressão sobre a sua falta de patriotismo que porventura ficasse' no espirito de Pantoja.. e^tó p u z e r a m / a s / ^ ^ ! cadeiras do lado de fora da casa eyi entretiveram-A' a conversar pela noite a dentro.quasi a esphacelar T se.. porque é nossa.. parecia fria e indifferente ás phrases atrevidas... mais policia. onde eram esperados para jantar.. Emfim. Puzeram-se á mesa. . Acabado o jantar.. pôde ser que seja melhor.. vá lá... Caminhando. Vale a pena? E o mundo é só isso? Vale a pena viver para ter mais policia? E a lingua? £ raça. mas amável. Ah ! nunca transigi. Melhor administração. mesquinha.... e voltava ao assumpto. Oh ! muito nossa.. D'ahi. Sahindo do seu esconderijo. é antigo. e amada. — O meu nacionalismo... com que a cobriam os sujeitos .. degradada si quizerem. sempre perseguida pelos homens. nossa.fraca.. e é só. Maria rodava pela sala.. boa. A pobre. Mea culpa. emquanto as estrellas vinham se abrindo numerosas e infinitas. e está acabado.

— Como assim ? inquiriu Brederodes... E a marca nativista que trago da Academia. Os meus sentimentos nacionaes.. pelo caboclo. respondemos ao nosso modo. E salutar. não sahiria de lá.. devem dar uma vista d'olhos ao velho mundo.. tive orgulho d'este Brasil e voltei ao meu furor. creio que hoje. — Mas divertiu-se bem na Europa. Cada um tomou um nome indígena. sou até jacobino. — Quando Gonçalves Dias e Alencar deram o grito de alarma pelo Brasil. Não nego que a Europa tenha alguma coisa de bom. vendo a deê&dencia da Europa. Manoel Antônio de Souza Itapecurú. Foi um movimento geral. respondeu empenhado Itapecurú pondo o monoculo. — Hoje. redobrou o meu nativismo.. e d'ahi os Tupinambás. e aom certeza. estavam enfraquecendo. Não dou tréguas ao extrangeiro. Accrescentei Itapecurú.. ia interrompendo Maciel por brincadeira. Não é debalde que me chamo Itapecurú. que propõem para matar o jy jjJJ/ . E só. Aqui para nós. com a edade. os Itabaianas. creia.CHANAAN 219 — Mas isso foi n'outro tempo. si pudesse. Aquelles que. estudantes. — Nunca abandonaria minha pátria.. Eu me chamava Manoel Antônio de Souza. mas. os Gurupis. objectou Maciel. confesso. nós.. Quawdfci mais tarde a palestra esmoreceüyoj uiz de direito disse aos companheiros : — Meus senhores. Souza cheirava a galego. como o sr. sentem desgosto de ser brasileiros.

entraram a detrahil-o. Boa noite . no fim de dftij}. Os outros. que tem feito ? — Sim. doutor. — Também pouco se perde. Si um dia escrever para a Capital.. que ajuntou por sua vez : — Mas o dinheirinho no fim "do mez não se engeita. accentuando a phrase com vistas ao escrivão Pantoja. — Pôde ser que quando isto fôr da Allemanha. disse Itapecurú. escarneceu o escrivão. disse o promotor. havemos de rir muito. para os jornaes. nem por ser brasileiro. Estou cançado e vou deitar-me. — O que elle sabe é descompôr o Brasil. Uma coisa affirmo : nada sabe do officio. esse. eu os espero no quarto. logo que Maciel partiu. accrescentou Brederodes..22U Í^^/l/1 '"/ CHANAAN tempo ? Vamos a uma partida de manilha ? Paulo Maciel não temia o tempo e. receba o dobro dos seus patrões. não dá para nada. — E'verdade. Presumpção não lhe falta. Eu podia contar impagáveis.insinuou Itapecurú. maldizer de tudo o que é nosso. mas. Será bonito e asseiado. — E uma pena. disse o dr. era mais feliz quando o deixavam só com os seus pensamentos. Itapecurú. — Não conte commigo. fede. ao contrario dos companheiros. desembuche para vermos o que tem tão escondido. que não larga a grammatica allemã ? .

até que o promotor. O promotor deu-lhe uma ordem que elle partiu a cumprir.abandonou o seu logar. Riram e ergueram-se para jogar. aguente-se para uma sova. — Como assim ? — A bicha é arisca como quê. — N'este caso.tÍÇ£r t*WÁAff-*TU> f — Então ? perguntou o promotor. com aquelle vago receio do tédio. deitado na relva. Só si V S. e ergueu-se meio atordoado. capitão. respondeu Brederodes. acquiesceu Pantoja por entre baforadas da fumaça de cigarro. passeiava nervoso. seu doutor. O juiz de direito trazia sempre um baralho de cartas na mala para essas excursões judiciarias em que nada tinha a fazer. doutor. Neves! — Prompto. ficando só. Não vejo geito. Brederodes no terreiro chamava em voz baixa o meirinho : — Neves. Os três jogaram algum tempo. está se preparando para nos governar. visse . desaíío-o para uma bisca. Não tardou o <ffly$tyà*-fà*. pretextando cançaço. Brederodes. agitado de desejos lubricos. — Pois sim. quando o viu ainda de longe. disse pressuroso o juiz de direito. não querendo desistir de jogar. O official de justiça estava a cochilar. e que acompanhava por divertimento. — Qual! seu doutor.CHANAAN 221 — Sim. que tanto o perseguia.

. Nem me respondeu. não se zangue. Corja de allemães ! — V S. o ^ridii meirinho não voltara. e um pouco acalmado no seu furor. FyJié» de esperar.. os colonos não davam signal de vida.sensuaés.. Este ficou só. Vou vèr si ainda dou uma volta no caso. por um movimento. n'uma meia allucinação. mortos de somno. ^ m i e era o escrivão. Ahi o seu companheiro. Na casa tudo se aquietara. Elle deitou-se de manso e poz-se á espera de que a noite avançasse. E desappareceu na direcção da casa. Levantóu-sê sorrateiro e. como si ainda tivesse o que perder. e os olhos na noite escura brilharam felinos e máos. ás apalpadellas foi tacteando as paredes. punha-se á escuta.\ apenas alumiado pela frouxa luz de um candieiro de azeite que estava na sala.222 CHANAAN o nojo com que me olhou. ruminando vinganças. um signal qualquer. para vêr si. Os dois parceiros. Brederodes resolveu vir para o quarto.. seguiu pela casa a dentro. e quando na volta do corredor o clarão se acabou. tinham-se resignado a deixar o baralho e estavam deitados nos quartos.. — Ella me paga. Ainda que tudo isto aqui arrebente. Ao dar com alguma porta. não reparou como já vae bem adeantada ? Brederodes ficou colérico. V S. Uma fluxão de sangue subiu-lhe á cabeça.. (b teu sanguf voltava ae*/ímpetos dd deseW.reconhecia Ustn-o Jèu^i*'"'^* <**y*~ frf . e n a * nente nevrotica pasfâlvam perturbadoras miragens . resonava.. Deixe estar. rangeu os dentes. fugindo ao desabafo do promotor..

Brederodes.. — Pôde ser que não seja aqui. No dia seguinte. nada. Escutou .. E com esta esperança passouadeante nas trevas. o meirinho annunciáVa ao toque de campainha a audiência dos inventários dos vizinhos de Kraus. esperando ser chamados. Poz a mão no trinco. V.. a tramela levantou-se e com a pressão^ajDortaJabriuíe^rangendo. Um impulso de arrombar a porta tomou-o. duas mulheres e um homem. rodeiados de creanças. em pé.• / ê i-0 /cobrif. encostados á parede. com raiva o promotor. « Miserável » pensou. dr. Mas'esta estava ' / fechada á chave. S... Na sala o juiz municipal e o escrivão estavam no seu posto.CHANAAN *~ ~ * \ 223 o quarto de MaúayfÁJ um momento deum^des. Maria? Brederodes recuou para o corredor e deixando a porta aberta deslisou nas pontas dos pés. n'um instincto salvador que lhe fazia adivinhar no escuro o caminho do quarto. tem de funeciona &/ . e uma voz assustada de velha perguntar : — Quem é ? Es tu.. o promotor e o juiz de direito á janella conversavam. De dentro ouviu um rumor de alguém que acordara. Brederodes palpitou alvoroçado. Tentou abrir a porta. voltados para dentro. seguiam atemorisados a scena. Isto naturalmente é o quarto dos velhos. mas um vago vislumbre da consciência da sua falsa posição tolheu-lhe o movimento. á mesa. — Sr. ás neve da manhã. Outra porta estava em frente..

— Viuva Schultz! chamou Pantoja.. vou dar um giro ahi fora... ia respondendo documente a .. uma camponeza alta. O promotor teve um risosinho de satisfacção e veiu sentar-se á mesa.2->'i V CHANAAN como curador de orphãos nos três inventários. motejando. Juro. como nada tenho a fazer. Ninguém cumpre a lei. — Sempre o mesmo. — Bem. no fim do negocio. '>— V S. Em seguida. disse o escrivão. que se precisa da sua benção. — Não é possível arranjar alguma fatia para mim n'esta festa ? perguntou o dr. emquanto os senhores preparam o prato. assestou o monoculo nos intimados e sahiu magestoso. que triste e subjugada por aquelle apparato judiciário.. passou a tomar as primeiras declarações da viuva.. se approximou. — Ha quanto tempo seu marido é morto? perguntou o escrivão. aqui todos herdam sem a menor cerimonia. ainda moça. Isto vae acabar.S. Ha uns desvalidos que precisam da protecção legal de V. seguido pelo riso zombador dos que ficavam. iniciando o interrogatório deante da apathia do juiz municipal.. — Ha dois annos. Todos comerão do bolo. Itapecurú. Depois de alguma hesitação. sabe que é depois. n'este caso. Pondo o chapéo. n'um sorriso idiota.

além de tudo.. pôde ser que tenha mais ou menos. D'aqui a duas semanas appareça no Cachoeira. E calado. — Bem.. — Mas. Que desembaraço! Ainda não lhe disse o principal. eu plantei uns cem n'estes dois annos. segundo o seu velho processo de tudo //• fazer elle mesmo e/augmentarijiy descaradamente y . eu arredondo a cifra. Continuava Pantoja a lançar os termos do inventario. sinão temos conversa no Cachoeiro. — Só? Não minta.CHANAAN 225 tudo. escreveu : — Mil e quinhentos pés de café.. radiante de allivio. /// Depois de algum tempo. despreoccupados da audiência. A mulher ia se retirando. senhor. A mulher a cada passo soffria descomposturas insolentes de Pantoja. não contei um por um. para receber os seus papeis. O juiz municipal e o promotor. levantaram-se e foram entretidos para a janella. e um immenso pejo a assaltava. — Espere lá !.sem nadadizer áinteressada.. disse á colona : — Agora pôde ir.. — Quantos pés de café tem a sua colônia ? — Quinhentos. não sabia ler o portuguez.i o valor dos bens pára accrescer os seus lucros. N'üm papel escreveu varias parcellas. no meu cartório.. observou com accento escarninho o « maracajá ». ... meu defunto marido avaliava em quatrocentos.. sommou13.que.

esmagada. é que havia de ser bonito.. A colona lançou olhos de supplica para os dois magistrados. Ouviu? — Trezentos mil reis !. com um ar apatetado e longínquo. olhe leve comsigo o dinheiro das custas.. s? approximou*TJma filha de cinco annos lhe (seguravayb vestido e ella carregava ao collo outra. Paulo Maciel. cuja cabeça dourada se realçava radiante por entre a pretidão das roupas da mãe. Si tivesse de metter um advogado. Trezentos mil reis. vestida de luto. Trezentos mil reis !.22G *7 CHANAAN as resmungando e disse comsigo afinal : — Cento e oitenta mil reis. cançado de estar em pé.. o ar da miséria. muito baixa e ainda joven. que esperava a sua vez de ser apregoado.. Sem um apoio. que continuavam indifferentes a sua palestra. tem de se haver commigo. e dê-se por muito feliz. — Está direito.. Nada de conversa e bico calado.. sahiu cabisbaixa da sala da audiência.. porque não houve demanda. passou a se occupar da ultima intimada. Trezentos mil reis. Pantoja chamou o colono. . aqui não se faz esmola. A mulher. Meu senhor! — Não tem meu senhor nem nada. — E viuva ha pouco tempo ? perguntou elle. veiu sentar-se no seu logar e se interessou um pouco por esse grupo. Si eu souber que vosmecê andou batendo a bocca pelo mundo. E depois de repetir com elle a mesma cousa..

E melhor mandal-a embora... respondeu a moça. fingiu não ouvir.. — Como é isto ? disse tremulo o escrivão. Que diz a isto. disse : — Estou em trato para vender a minha casa e vou me empregar como creada em outra colônia.CHANAAN 227 — Dois mezes. fazer o roçado para a plantação.. esta é muito boa. V S. não ha inventario a fazer.. tem competência para dispensar na lei ? Ora.. Não se plantou nada.. no fundo de todos elles temido.. A colona. habituado a fazer tudo. — Naturalmente tem algum amigo que substitue o defunto. Brederodçs .. considerava como uma invasão dos seus privilégios. Paulo Maciel. disse Pantoja. seu Pantoja.. Meu marido. dr.. — E triste! E como vive você ? inquiriu compassivo. opinou Maciel.. A mulher ficou pensativa sem responder. para evitar uma discussão com o subalterno. afinal. — Estavam principiando a vida. o que elle. — E desde quando está no Brasil? — Ha um anno apenas. Não é verdade ? — Apenas houve tempo de levantar a casa.. não durou muito. — No fim de contas. para se vingar do interesse do juiz. que já vinha doente do peito.

-228 •ÍA l-J CHANAAN V S.. cheguemos a um accordo. dr.. E si o senhor não quer fazer ex-officio. Pantoja mediu-o triumphante. prender este escrivão insolente. . acudiu vivamente o promotor. mandão da localidade. Inventario é inventario. era dispensar o inventario-. em vez de um inventario formal.. não me mostra esses arrolamentos. i. — Não concordo na dispensa do inventario. não precisava de consumir !. com esse escrivão chefe político. dr. Trata-se de orphãos. respondeu o escrivão. Façase apenas um arrolamento summario dos bens.. Valeria a pena ? As suas poucas forças o trahiram..o desenrolar de uma lucta cornos seus collegas. Os juizes passam e os escrivães ficam. distincta descortinou-lhe. O seu sentimento era suspender.. envolvendo-a n'um clarão de bondade. lucta inglória em que elle não se queria estragar. eu requeiro. Paulo Maciel ficou sem saber o que dizer deante de taes attitudes.. e a intelligencia fina. sr.. pérfida. apossando-se da situação que o superior lhe abandonava. Juiz municipal. propoz com uma voz fatigada.. — Isto é uma novidade para illudir a lei. seu subordinado legal. é o principal interessado. de fluido nervoso.. era ainda por cima dar dinheiro do seu bolso á desgraçada e mandal-a embora. aqui está o formulário official e / .. que somma de energia. — Está bom. Mas para isso.

Lagrimas!. seu Maciel... — Venda a casa. Que mal ha em fazer-se o inventario ? — Que mal?. dividas da moléstia e depois trabalhar para outras novas.. esta começou a chorar. obrigar esta pobre mulher a pagar mais custas. É pouco? — As custas são o azeite da machina do foro. — Capitão Pantoja.. — Sim. E o inventario foi feito como os outros... e agora vamos vêr. — Primeiro a Justiça. eu prendo os papeis. disse o promotor. E voltando-se para a colona : — Vá.. — Deixe o caso commigo. — Deixemos de scenas. Querem obrigar a Justiça a trabalhar de graça.. com as mesmas extorsões e violências.... deixe de luxos. atalhou o escrivão. Si não quizer nos pagar. objectou alegremente Pantoja.. ia dizendo o juiz municipal.CHANAAN 229 — Homem. meu senhor... colérico e intratável.. á mulher moça não falta dinheiro... mas a mim ninguém me embaça. — Mas não posso arranjar tanto dinheiro. Atordoada como uma . quando o escrivão intimou a colona a que lhe desse duzentos mil reis. vou vender o que tenho para pagar as dividas de meu marido. Todas ellas choram. não venderá a casa nem o roçado... Era só o que faltava.. veiu hontem ao mundo. No fim. V S. não entende d'isto. é rapaz. Deu uma risada secca.

camarada. ajudados pelo meirinho e pelo dono da casa. — Bravo. O homem vacillou.. Os juizes vieram para montar. Olhe que o negocio podia ser peior. que o fitou espantado da intimidade. não se espante. a colona sahiu.. E batendo rio hombro de Franz Kraus. amigo. E por isso dê-nos logo. meu amigo.... arrastando os filhos. apontando o colono : — Ainda não' tive a minha conversa aqui com o amigo. dizendo-lhe zombeteiro : — Vá. Depois do almoço. Advogados. — As nossas custas. accrescentou n'um gesto de irônica cortezia : — Muito obrigado pela hospedagem. observou lisonjeiro o juiz de direito. Você pôde. vá buscar. Quatrocentos mil réis..230 CHANAAN somnambula.. Sob aquella pressão.. o senhor é de força. na garganta a voz morreulhe n'um espasmo. penhoras. — Que é ? interrogou inquieto o colono. capitão. O dia era abafadiço e dominado pelo sol. O escrivão empurrou-o de manso. como para cahir.. ... o colono foi caminhando automaticamente para a casa. Está me cheirando mal o fiado.. Pantoja chegou-se ao grupo e disse ao promotor. Uma vertigem o ia tomando. que mantinha sempre com a luz poderosa um grande silencio. os animaes estavam sellados para a partida. mas ainda falta alguma coisa. demandas.

no meio do terreiro. E quando Ella desappareceu e tudo voltou ao socego profundo. mudo e abatido. Chorara. respondeu o escrivão. as faces inchadas e rubras. A cavalgada partiu. o colono via com os olhos desvairados a Justiça sumir-se na estrada. Subitamente. está chovendo na sua roça. E montou. a cabeça ao sol. O juiz municipal. olhou-o com um grande nojo. disse Itapecurú a Paulo Maciel. Procure os papeis no cartório. que os ia impacientando. no fim do mez. Em pé.• CHANAAN 231 — Ainda não viram nada. de chapéo na mão. appareçeu o velho Kraus. murmurou olhando ^ e d r o s o para os lados : — Ladrões! //&r*/~ i^*'*' . ficou elle longo tempo com a vista jpjffààfy na mesma direcção.. O colono olhava-o.. — Parabéns. estimulado. n u m a raiva immensa e cobarde.. Tinha os olhos vermelhos. Pantoja recebeu o dinheiro e contou. F i quemos bons amigos. Depois de alguma demora.. Agora" tudo está em ordem. . sem dar-lhe resposta. — Muito bem.

. preza de um grande temor. fraca. . Mas..VII y/y // A'l^-'de Continuava Maria na colônia de Franz Kraus no seu mesquinho penar. Outras vezes.. vivia como uma louca. e ella $é deixavá ficar na colônia e na vida. sem preoccupações alheias. no mesmo ruminar desespero e de agonia. e sem poder dormir noites e noites na afflictiva anciã de querer salvar-se da deshonra. as forças não lhe acudiam para qualquer resolução. de uma immensa e mofina vergonha. que o tempo indifferente e implacável trazia cada vez mais á flor. vigiada pelos olhos cúpidos e inquisidores dos velhos. definhava languidamente. volteando apatetada pela casa. nos serviços domésticos. e queria morrer. cobarde.. esperar que das próprias entranhas lhe viesse a salvação e o consolo do futuro. desconhecida e forte. Assaltavaa muitas vezes um desespero de fugir. de ir para longe. Desesperada da volta de Moritz.

processos. A todo o momento eram ralhos e insultos. Viam desfeito o casamento do filho com a herdeira dos Schenker. eram exigen- quasi comida. a vida n'aquella colônia era uma tortura para todos. E. com as mãos tremulas. Maria. subjugados pelo /píffiító e crescente jljcc*^ "-> terror que lhes deixara a visita da Justiça. Mas as suas cabeças não eram inventivas. em cochichos de vingança ou em planos para "se verem livres de Maria. não havia mais o esquecimento do tempo. que é o único encanto d'esta. e vendo-a mover-se pela casa.(( lavei. com o ar transfigurado que lhe punha a } amargurada maternidade. E agora passavam os dias muito unidos. como uma manhã. tomada de um suor frio. mais a indifferença pela existência. erguida alli como um estorvo ao desafogo da ambição d'elles. Não se conversava mais. n'um cons. a velha Emma enfureceu-se e começou a insultal-a . com medo de . Assim viveram algum tempo esses desgraçados. já fatigada de trabalhar. sem um movimento de revolta. aoDravam-ine os rraDainos. e é&T ~ com desespero nevrotico dúé^viam a misera inaba.CHANAAN 233 Os velhos não tinham mais illusão sobre o estado da rapariga. que se quebrou. ficavam irresolutos. n'um passo tropego. tudo fora tarde. sentiam um ódio surdo contra ella. deixasse cahir um prato. diziam inconsolaveis.fl/Qtante gesto de somnambula. E d'este w** modo. nem mesmo para a maldade .

communicado do mesmo furor. intimidada... Franz estacotLili. e transbordando-se-lhe o ódio. livida. fugindo atordoada do alarido. Vae-te embora.. A excitação dos velhos. avançou colérico para Maria que. caminhava firme... querendo se refugiar. Por entre a folhagem verde.14 /í*- CHANAAN n um berreiro. Sáe. agarrou uma acha de lenha e brandiu-a. peste. uma baba viscosa a escorrer-lhe da bocca contorcida. offegante... de pragas rancorosas. possessa.. Carrega teus trapos. Emma segurou a moça pelo braço. Maria sahiu para o terreiro e. que a misera entrouxou algumas roupas.. para o desconhecido. O marido. não deixava de prolongar-se.. o velho alcançou-a e com violento empurrão impediu-a de fechar a porta.. E foi então que Emma gritou : — Miserável. rangendo os dentes. A rapariga obedeceu automaticamente.. ordinária.. de súbita que fora.. a rapariga.. berrava Emma. Sáe. ia recuando.. que apertou com violência. collou-se á parede. os diúi cabellos descobertos iam espa- . suja. Cf Maria correu ao quarto. n u m a ameaça de morte : — Fora. — Fora e já. e foi debaixo de maldições. levada pelo impulso das ordens violentas. canalha. Fora.mui i h l h . Franz correu á cozinha. protegendo o ventre com as mãos.2. sem hesitação... e ordenou-lhe : — Parte. Vae-te d'aqui.

inconsciente e desvairada. um animal que se movia no fundo negro da matta. Via-se expulsa da Velha casa que lhe fora o lar..... Quiz tornar á casa. sem dar fé da sua direcção.. E foi caminhando. cuja razão não percebia bem. o mundo !. reconheceu. não mumurava uma queixa.. sem explicação. tudo era apanhado pela sua aguçada retina.Tudo acabado... Não dizia $A palavra.. perdição de minha casa. miserável. a voz de Emma : — Vae. que des- j/p /.15 lhando o fogo do sol. E na memória os quadros da sua vida desde a infância. //fofam . Sob a grande e funda emoção as idéas tinham-se congelado JtíÁ^y^l a sua visão dilatada ia notando e retendo os pequenos incidentes da paizagem.. Vae. um reflexo-de sol. que lhe entorpecia os passos e flra despertava a consciência. entrar sem rancor. o jardim. Tudo cortado. um fio d'agua. voltar.. Sim. n u m a insondavel^sj^áção... e os olhos grandes e limpos tinham o lustre crystallino e secco dos frios espelhos. Era uma estatua marchando.. Atraz. Maldita! Maria andou algum tempo. um cafesal verde.n'um impefo de cólera... como um latido de cão... voltar! Mas. até que lhe chegou a fadiga da energia em que se mantinham os nervos. seguia-lhe no encalço. trazendo-lhe uma sensação de desanimo.Uma arvore cortada... desmanchar com o sorriso o pesadelo monstruoso..CHANAAN 2. quando se dispunha a retroceder.

com a cabeça pendida sobre o seio. ^*?^~w. começou a /f~. mas da sua d _ ' tímida e doce figura de camponio lhe ficará uma / agradável impressão. c*v Uma vaga inquietação de não pyiiídnjxax um ( 'i pouso. cio da estrada. a rapariga avistou a egreja e a morada do pastor. ^ agital-a.Começou a subir. . um abrigo n'aquelle deserto. Na pequena alma de mulher rústica e simples de Maria. . e os dois pequenos edifícios de atalaia davam maior tristeza á solidão. E á proporção que Maria subia. QdamÂ/pt depois de duas horas de marcha. uma extranha / ^ZZrv^-mtrepidez. . A paizagem era limpa. povoando de gente. houve um rebate de esperança. Lembravam habitações humanas perdidas no deserto. dando-lhe animo para prag^guir no silen/ ' ^. Mas foi instantânea a hesitação. o sacrifício. pois um grande pejo a afastava das /. recordava-se da ultima festa da colônia. não o tornara a vêr. um sobresalto de terror^he^acudiiAo corpo. imaginando poder tão simplesmente restabelecer o que estava extincto. Desde aquella manhã da missa.. porque a falta absoluta de outro apoio no mundo lhe ídcJéphUft. e com a saudade ia enchendo. lembravam o isolamento. os olhos embebidos no / próprio corpo. que ella seguiu confiadamente. Parada. o abandono..• casas conhecidas. chorava.236 CHANAAN vairava. 1 fl/tí^<~tffá}/fâdy(/yffl/0i appello de salvaçãoj^è* ** "/**' yfyyyy o pastor de Jequitibá. &icaminhou-se^ara os logares mais invios.

da montanha deserta. assustada w****™ Mí rt/t*~** —i yr~* ' zS£sâj&&*>A**^ . ia scismando com a musica do harmonium que soava na capeljinha.~De dentro nenhum outro rumor ffffa P a r a aDafar a v o z da c r e _ anca na escola. e viu uma sala escura. Ella recompunha também os instantes em que vira Milkau e. na parede uma cruz negra envolta no sudario. o terror do recolhimento d'aquella casa aHi£<fou-h\e as for. e a voz infantil. que proseguia desarticulada. o que era a ' paixão do novo pastor. deu-lhe um tremor.CHANAAN 237 de vozes e gestos. emquanto elle dormia. Olhou de soslaio. e n'um impulso nervoso tocou a campai/ ' nha.<y tra.. uma mulher de preto no fundo. j . Maria quiz fugir./yfy versai. de movimento. desfallecida um y/Jsr*W*^\ instante. levada por essa corrente de evocações. atí/ou ao chão a trouxa de roupa e se * jy apoioji á parede. cabeças alvas de creanças movendo-se ibelhuda/ pa£a ella.. Alagada em suor frio. de vida.. De uma porta aberta vinham vozes de creanças soletrando. mais forte e estridente.. Depois. sinis. jlJL (£dduâ6 chegouao alto viu a terra em roda dajifí1 casa. o vazio descampado das montanhas e dos valles calados. ' / A mulher do pastor acudiu á porta. veiu-lhe um novo esforço /( . mas o medo *>da solidão. talhada e preparada para jardim. Era ahi a escola regida pela irmã do padre. Passou adeante e em face da porta fechada da casa tremeu mais. infatigavel. que xeúniu di^filtí^ n'aquelle repouso uni. monótonas -— f£»0 e cantantes. c .///l*"r' 1 ças. A de valor.. Maria passou cabisbaixa..

. tinha uma voz de uma doçura inesperada c que se não casava com o seu porte rústico. que lhe aconteceu?. jtfl erecto como u m T ^ l a d o e vestido como um jardineiro. — Eu. com uma expressão de espanto que ainda mais atemorisou Maria. • « Que lhe aconteceu ? Perdeu seu emprego ? * (bjjjü. ^7w/£»*^ O pastor fftydA confuso. depois de confusas explicações.. eu. Maria f ^ fjT ch/rava sem pejo.238 CHANAAN pelo barulho. um agasalho. achando extranho o pedido. que veiu logo á sala. rava. __ « -/ ' mSna^0ff0f.. "{y^y ^ sempre com a sua voz macia.... Afinal.. Jh véi-e. que lhe sahia do ^ÍP^ ^ * ^ ^ e Í í o d e touro como um balido deovelha. entrou esta para falar ao pastor. Depois. / — Você não tem uma casa. Frau Pastor se approximoú^ / bateu-lhe no hombro : ** — ...respondeu soluçando a miserável. jjj^Velle. muito vermelha e tremula.. uma colônia. — Vamos..? . interveiu com meiguice Frau Pastor.. queria. As pessoas da . minha filha ? Maria não respondeu./fríraT y" H-/ / 7 . abundantemente. onde a rapariga o espe/. Nós não precisamos de mais creadas. (jfdfáfá MariaJÍBBHficou petrificada. — Que deseja. O homem. grandes lagrimas rolaram-lhe pelas faces. Poz os olhos no chão.. K A6 o r a i a este mofino contacto d/piedade.. r-. cás^jlecantido d/arrancanwy alguma coifsa sobre *y í /*" a:suásituação"e^lhe r dar&ir*maisconfiança.

rústica e marcial como elle... onde Frau Pastor era uma sombra do marido. que mirava com olhos devassadores a rapariga. — Vamos. O pastor a temia. para tamanha punição ? A professora.CHANAAN /am a lha jéropôr variao queotoag'^ Pouco a pouco 'ella se foi acalmando. dizia o sacerdote com o geito astuto do camponio. e essa mulher. — O h ! Oh! Então o negocio é grave! Que falta commetteu você.. — Vamos. por entre lagrimas. deixemos de comedia. esperou que tudo se explicasse. ainda não me disse porque deixou a casa de Kraus. Frau Pastor. Mas a curiosidade reteve a sua alma de creança. O irmão explicou-lhe o assumpto. algazarra ijti^^ e gritos festivos de creanças soltas [f se foram perdendo pela encosta da montanha«abaixo. temendo a explosão da cunhada. filha. Na casa.. A irmã do pastor. interrompeu o inquérito com uma risada secca. amedrontando-o com as regras religiosas. Era o alegre rumor da liberdade. e pelo instíricto da obediência respondia. uma grande /J. para deixar a sala.. Eu sei bem porque os seus . clamou zombeteira a professora. severa e silenciosa. Fora. — Ora. e ella o tinha submisso. Como posso tomal-a sem saber de tudo? — Não me quizeram mais. ergueu-se por instincto. trocando um olhar com a irmã. a auctoridade da cunhada era decisiva. entrou na sala. fui expulsa. fiel aos seus hábitos de nunca perguntar..

era a perturbadora. Mas era uma compaixão sem agasalho. a inabalada. o maior de todos. o que vem do sentimento sexual. e talvez o coração. a incendiar a irmã do pastor.. regenere-se. Divertiu-se? Porque chora? Temos nós culpa dos seus prazeres? Olhe. Maria lho retribuiu. mulher. Ergueu-se da cadeira o pastor e muito solemne.210 CHANAAN patrões. JâuLkpx -Maria cessou de chorar e jtíMl^/ espantada que alli também todos estivessem loucos.. que devem ser gente honrada. Vá para a sua vida. emquanto a outra. a mesquinha Maria.. a puzeram na estrada. Lembre-se de que todo o peccado tem uma punição. Era o grande ódio. já que entrou n esse caminho. disse : /YrvoTw — Em nossa casa nãol^yyfyytjji^f^o prazer.. Não era ella a mulher incompleta... a amiga do homem? — Oh! minha senhora. aqui é o logar do amor de Deus. medrosa.. a consoladora. com aquella maldita e doce voz. Desencadeiou-se a ira do Sei nhor. a m o rada de Deus. que tudo faz comprehender. O pastor empurrou-a de leve para a porta. inane... Vá.. Fora. Esta é uma casa de respeito. a torre fechada. E ao passo que a rapariga ia deixando a casa. Vá. que mal lhe fiz?. acariciando-a paternalmente. Um olhar de piedade infantil escapava de Frau Pastor. não era para aqui que se devia dirigir. O seu é horrível. a ft 7/ ... lhe inspirasse maior piedade por aquella esvaída sombra de gente.

CHANAAN 241 voz do padre se revestia de um accento cada vez mais delicioso de ternura : . . e na sua febre sentia-se como que apertada. minha. arrastada pelo medo e por um assomo de vergonha../Yrt/>' meiras sombras. Jy^Jr^'Transformava-se a expressão das coüsas. na sua intelligencia confusa. filha.etótófe<ám-se da luz serena da tarde. a montanha... poz-se a caminhar pela que levava a Santa Thereza. Depois. Si não fosse terrível a morada de Deus! Vá.Si este logar não fosse sagrado. preguiçosas. que pena! Como soffrocttnãopoder guardal-aém minha casa. grande in. pobrefilha. a voz do pastor ainda lhe cantava ao ouvido: — Vá. cuidado com os caminhos. Ao chegar abaixo.. deitando-se longas. o desespero do desamparo na matta. filha. e as encostas dos morros. No seu coração innocente. filha. á cruz das estradas. as pri. começou a descer. 14 .. allucinada. • cendio do dia. livres do. Isto aqui é muito solitário. cuidado na descida. os valles apaziguados e.. todas as scenas violentas d'esse dia se misturavam extranhas como n'um pesadelo. emfim.. e o que a impellia para a frente era um vago terror da noite. Maria. Transmontava o sol. suffocada pelos morros e enterrando-se n'elles. correndo. Ficando só. —Vá. vá! E quando Maria se viu no alto da montanha e olhou deslumbrada. a^porta se fechou? e tudo o que era humano alli desappareceu n'um immenso silencio. Era o soffrimento animal n'uma alma rudimentar.

esquecida da sua triste situação.242 CHANAAN como tomadas de somno sobre a relva avelludada e voluptuosamente verde: os pequenos ventos acalmando a febre da terra inflammada . alli. Da t . e aquella hora.. // Os cães R e c e b e r a m ' n'um atroador alarido. que ella escutava. Das chaminés sahia fumaça. não havia ninguém fora. Outra fraqueza a pungia. Aos seus ouvidos subiam vozes humanas. mas o vácuo da fome. mas ÍM3 ella proseguiu pelo terreiro a dentro.. deliciosa.. ergueu-se e desceu rápida para o grupo de casas. ^---^*2^"ando.. arrebatada pela fome. sentindo-se attrahida pelo feixe de forças humanas. com IP j ^ l sua calma de louca. sem o menor pejo. Maria teve o Ímpeto de «erprecipitap-clo alto sobre as casas que estavam a seus pés.. a viagem dos pássaros na limpidez do' céo. a fadiga physiologica da maternidade.. então. que não era só o cançaço da corrida. E. ***** Maria. na opulenta terra de Chanaan. as famílias dos emigrados se reuniam n u m olvido feliz.. como uma musica sussurrante. No fundo do valle Maria viu um núcleo de colônias engastadas na vegetação. a sympathia dos semelhantes. e em torno da mesa esperavam a ceia. dilatados pela claridade crystallina do ar. reunidas n'aquellas vivendas. inoffensivos os animaes. em cada uma das casinhas da matta brasileira. impellida pelo imperioso desejo d & j M j ^ o e * * ^ conchego.. tornando. A miserável sentou-se desalentada sobre a borda do morro com a vista perdida nas habitações. o calor.ahi chegou.

maluca. fazendo coro com os vizinhos.. e ainda continuava mesmo offegante a correr. — Fora.. Na sua carreira chegou até uma pequena matta que o caminho cortava. Correram as mulheres para 1//"^ o interioii M. Maria recuou d^èttddddídfjsem perceber bem o cuo6~ que se passava. a fugitiva como que despertou e ficou intimidada. Assaltaram-na de perguntas..1 primeira morada sahiram para vêr a razão do alarma. raivosos e ululantes : — Maluca. E como no seu enleio a miserável respondesse por disparates. — É com certeza uma maluca. Homens e cães^rperseguiram^lguns naomentoe. maluca. Homens e mulheres chegaram á porta. que se communicou/yj!$//amente. fcffdtos homens pegaram em páos e ' yjr avançaram psópgüa. Ui/rJi****^".. fora. sem saber o que dizer.//tS^«^/' e todos se julgaram em presença de alguma peri. amedrontando-a. ainda mastigando e aborrecidos de ser interrompidos/Ao enJMÍi/ar a gente. Já Maria voltara á estrada. alguém disse : . « gosa doida vagabunda. e das outras casas a gente sahia para o pateo. A claridade da tarde ahi dentro esmo- . Os c#es excitados ladravam furiosamente. n'um grande berreiro. Foi um pânico. / " — Fora.CHANAAN 24. maluca! maluca! A moça fugiu n'uma desabalada corrida. fugindo espavorida para longe d'aquelle ponto.

sem animo para íugir. Augmentavam as sombras.da floresta/ sem animo para entrar./„ J"^. Pela estrada interior iam e vinham borboletas enormes..IA / .. Os caminhos. vendo-se colhida em/pleno deserto pela noite. Das mãos tremulas e despercebidas cahiu-lhe a trouxa de roupa. E o poder de visão redobrava á medida que a sombra surgia mysteriosa nos meandros dçf 4 J wasqui. (. No céo. j f^ ( CHANAAN recia ainda mais. espiou para dentro. Na sua imaginação perturbada sentia a natureza toda agitando-se para suffocal-a. espreguiçando-se sobre os campos. As montanhas... perfilavam-se tenebrosas.. ao clarão indeciso do crepúsculo. ouvidos apurados. como o bafo vaporoso.2í'i /Pu &tic^ ~J2 ! /-*.. EjfgotTada de forças. com medo de penetrar na sombra. nuvens colossaes e tumidas rolavam para o abysmo do horizonte. aterrada. batida... Maria parou. Na várzea.. cojjoo^carpideiras phantasticas da natureza merfaT. subindo ameaçadoras da terra.' As arvores soltas choravam ao vento.. Os pti* . s^^Tn^fg^ f grqi 1 f' pg s^rpmrrsrfflfiajtas. Maria ficou pregada á beira . postada na abertura da floresta.e urna inexplicável e funda attracção por aquelle sombrioe tenebroso mundo a retinhaextatica. e. os seres tomavam ares de monstros.. desamparada. -etí* espreitava o rumor e o curso das coisas. e de olhos dilatados. a mesquinha derreou-se aos pés seculares de uma arvore. até perder os olhos na outra longínqua porta de luz.. n u m vôo captivo e arquejante.. azues e pardas.. . tomada de um calafrio.. impalpavel da ' Terra.

Maria quiz fugir. As montanhas ' /«'-/*. e myriades e myriades d'elles cobriam os troncos das arvores. cançados não ac/ídiam aos Ímpetos do medo e t c y deixavam-na prostrada em uma angustia desesperada. No ar luminoso tudo i^uejU^ retomava a physionomia impassível.( M . 1/ I as estrellas miúdas e successivas principiavam tam. abatida por um grande JYt^^M^ torpor.. deitada ás plantas da arvore. no desenho das coasas 0 -^ / <crer r< transformava"em límpida nitidez. O que havia de hi\ ?T '~*" vago. /^'r^^rtfA Serenavam aquellas primeiras ancias da Natureza.'...(ji4F $t*r* CHANAAN 245 / _meiros pássaros nocturnos gemiam agouros com pios fúnebres. ^sr acalmavaiTKna immobilidade perpetua. /Al rr~~"W arvores.. Qs-pyíHftairrpo. começou a dormir. V / Os prirneiros vagalumes começavam no bojo d a / ^ / w /matta a correr as suas lâmpadas divinas. ao penetrar no mysterio da noite. .s iam-se xnulti-J(^VX^Y ** plicando dentro da floresta. tí*T" ... e o« fogos 0j> JyfâyfjfíJJjfa/ espalhavam ahi uma claridade verde. No alto.^ ^> \ ? Cvf. e insensivelmente bro. Os pyrilampos já não voavam../. pouco a pouco foi vencida pelo somno. de indistincto. como si as raízes se abrissem em pontos *i~ttc4*u>>-u luminosos. e v <Uo jy . A desgraçada. sobre a qual passavam camadas de ondas amarellas. mas os membros . tavam silenciosos e mnumeraveis nos troncos das / . ...^^.. as ar^/>«>vores esparsas na várzea perdiam o aspecto de p ^ phantasmas desvairados.. que faiscavam cravados de diamantes e tqpazios^Era uma illuminação deslumbrante e ^ g n o g y ^ e n t r o da matta tropical."^f""".^ Njoem a illuminar. alaran- /y & w * ~ **• "•* .

a carne da mulher desmaiada. como tocada fde uma morte divina. e assim ella recebeu n u m halo dourado a cercadura triumphal. saphiras. os andrajos desappareçeram n'uma profusão infinita de pedrarias.. fyn :^. Ull'kArt^''^x'dÂ. cabellos se sumiam no montão de fogo innocente E yd&Ç&inj&is vinham mais e mais. e interrompendo a combinação luminosa da matta.. E\os pyrilampos «s* incrustavam-V» nas folhas e aqui.UCt 246 \ sMM****** // CHANAAN jadas e brandamente azues. mesclados com os fc I pontos escuros.. Maria foi cercada pelos pyrilampos que vinham cobrir o pé da arvore em'que adormecera. mãos. jopf'£. violaceose d'ahi a pouco braços. cojno si a flo..o poder d'essa luz o mundo ira da um silencio / ' i(M> religioso. amethystas e as mais pedras jfó4/ J/a^q^h parcellas das cores 4 i y i n a s e eternas. E os pyrilampos desciam em maior quantidade sobre ella. aili e além. parecia partir para uma festa phantastica no céo. como lagrimas dasestrellas. t \ f. Âzzsa esmeraldas..ar*aÜg*r.Por toda a parte a bemfazeja itanquillidade da luz. para um noivado com Deus.•" *i&di rubins. transparente. As figuras das arvores ae-desenhavan^envoltas n'uma phosphorescencia zodiacal./ . . era • J como uma opala encravada no seio verde de uma ÉL esmeralda. dormindo imperturbável. Sobre a cabeça dourada brilhavam reflexos azulados. A sua immqbilidade era absoluta. e a desgraçada. ' . Depois os y&gamntóâ' incontavei^co. collo. vestida defflídfktíwjt^.'/-^^briram-na. não se^ouvia mais o agouro dos pássaros da morte^yTvento que agita e perturba/.

Maria foi emergindo—dosonhorA a s u a innocencia detodo o pec^a^^dWlípexfeita confusão com o Universo / f &/£ acahff ao rebate violento da consciência)^ a / / / „*. abriu os olhos. As estrelf^^/^pu. os Vctó^itóí vão se apa-''''^ gando medrosos e(se\occuftand/)no segredo das b-j selvas. mensageiras da madrugada. Pyrilampos espantados faiscavam relâmpagos de cores. E aves surgiam. e. infatigavel memória lembrou-lhe a agonia. incolor. Um momento. e tudo se esclarecia de outra luz. despida das jóias mysteriosas. Arrancada pelo pavor UA r ^y^Y^^^JZZ^ .-.CHANAAN 247 resta se desmanchasse toda n'uma pulverisação de luz. Ias abandonam o céo. ' O silencio da noite foi perturbado pelas primeiras brisas. Maria IJ^jWJt conheceu-se a si mesma.. a rapariga inquieta ergueu docemente a cabeça. começa o canto dos pássaros. e o ruido começava. for..ff/oUjt— pelo mundo despertado.Jl&rZÁ** lampos.. _yt rado de umjl 44frf$í e recahiu adormecida na face /// dbévf illuminada da Terra. cahindo sobre o corpo de Maria até o sepultarem n uma tumba mágica. Maria pensou que p sonho a levara ao abysmo dou.. que se deslumbraram. capitoso. indecisa. que enche os ouvidos da mulher com o accento de uma felicidade inextinguivel. Abandonada pelos pyri. de todos os galhos da floresta sáe uma nota musical.*M t£o>y~ mando uma luz turva.. emquanto os seúTdèrradeiros lampejos na — «-->!•* matta ^ m f s t ó ^ ^ á ^ p clarão do dia nascente.. sem tardar. e um perfume concentrado durante a noite se dfyffflfâffi. Na ax-'""i vore que agasalha Maria.

já encontrou o sol. ficou mais tímida. que se dirigiu. viajantes tomavam a primeira refeição da manhã. apezar do medo que a tomara. gerado da acabrunhadora humilhação. a cuja temível potência morreu toda a illusão do sonho. n'umapostura . a fartura do homem. E quando chegou aos caminhos descobertos. Maria ficou parada á porta. já por valles repletos de colônias. que lhe engrandeciam a dV^T/ção. que annuncia. passando já por desertos. Em todas as casas começava com o dia o trabalho. creanças corriam nos terreiros limpos.-248 . na densa evaporação dos curraes. para a estalagem. homens rachavam toros de lenha. Maria continuou a subir as montanhas até ao alto de Santa Thereza. que lhe descia d'essa miragem entrevista no espectaculo da noite maravilhosa. A miserável marchou seguidamente duas horas. vacillando. na sua lembrança persistia um clarão.movianrnem roda das vaccas. E foi n'um grande rubor. que lhe recordavam a sua vida de hontem. receiosa de perturbar com o seu ar de vagabunda a serenidade da população activa e silenciosa do logarejo. Na taberna que era o único pouso d'aquellas alturas. e de todas as chaminés aquelle suave e ineffavel fumo da manhã. vultos de mulheres Sfc. # # ' CIIVXAAN dos perigos porventura passados naquelle deserto. E emquanto atravessava a matta. ergueu-se de um salto e partiu correndo. Quando alyattingiu. sem pejo da fome alheia.

— E então como quer você que lhe dê de comer ? Maria fitou-a aterrada. esperando de pé. uma massa repulsiva se movia como uma lesma. Com a voz sumida. A estalajadeira veiu examinar a foragida. a rapariga confessou que nada trazia. ficou embaraçada em responder. como que arrependida. que jálraráttendo. A estalajadeira tornou : — Mas que traz você ahi n'esse embrulho ? A mendiga / ia abrmpara lhe mostrar as roupas. Afinal.CHANAAN 249 de mendiga. insultando-a. menos atarefadá. dizendo : . — Bem. com os olhos seccos e vidrados. A dona da casa. quando de dentro os passageiros gritaram pela dona da casa. n'um embrutecimento de faminta. E Maria teve um confrangido asco. não ousando sentar-se. mas depois. que não tinha pensado n'isso. a comida que lhe iam dar. ^*e quando esta lhe efLjfyíffou que buscava abrigo e / L < ^ t ^ trabalho. . Era a creada do albergue. entre para a cozinha. mas a filha. Na cozinha onde entrou. A joven a convidou a entrar. Maria disse que tinha fome. occupada em servir. l/y^ A moça atravessou o corredor sem olhar para o refeitório. A outra insistiu. deixou-a j^M/da/mente e foi falar /<*> étM z a mãe. a velha perguntou : / — E que dinheiro traz você ? Maria. vendo-a. A velha virou como um corropio. ao lado do grosseiro fogão de barro. veiu á porta inquirir de que necessitava. não reparou n'ella.

Maria passou o dia inteiro a vagar pela povoação. a quem deu um peyy^a 1 daço de P a o e UIf tigela de café. e ella.^V. o extranho phantasma da i miséria ? / £. ligeiros vislumbres de uma sensibilidade menos $ r grosseira. Per- . Ninguém a " queria. ia despertando a curiosidade e dando a impressão de tristeza que apavorava a descuidada gente do logar.250 CHAANAN Os viajantes partiram. A tarde. I A. arrastando-se como um animal empestado. / v^ cheia de fome. alheia. depois do jantar. -• Mergulhada na desgraça. / a população -s^ apresentava^a porta das casas. comeu n'uma fyfâtòtâ desprezível^ //' ^í^jy. que recalcava todos os ^. absorta. dou-lhe comida e dormida dois dias. n u m insç-v tincto de apertada defesa.e por toda a parte aonde chegava.tranquillidade do povoado. repousada e esquecida. No meio da felicidade dos outros. E foi se apoderando da trouxa. ._ lhe falava.lquando o sol baixava. fiyf- t Por esta roupa. deante da com- / rfaric placente apathia da rapariga. E para o meio-dia. A'desgraçada. e a estalajadeira foi á cozinha. Ninguém v—. Depois de examinar o que Maria trazia. era quasi sem pudor que pedia trabalho de casa em casa. Não era ella alli na . mais primitiva. rolava vagarosa. sentiu Maria crescer a sua solidão. . escorraçavam-na. repelliam-na. Mnrin nlnnrn n pniifjef */7 fZ H sendo governada por uma~veihã áíma^TmrisTu^J? dimentar. na conchegada e bo' nançosa vida aldèã.

pela matt. * Alumiada pôr uma candeia de luz mortiça. n'outro monturo de palhas. onde acabava a povoação. NãO"tardou tl^^ 4 » è um vulto entx0tjlfno quarto e ff0f sente-se //. Voltou. Era a velha creada. O bafio do quarto tonteou-a. a dona d'este mostrou-lhe um colchão estendido n'um quarto infecto. a infeliz ficou um instante só. e n'uma vertigem ella cahiu. quiz ir além. Os cabellos despenteados cahiam-lhe sobre o pescoço. desalen^ tada sobre o colchão de palha podre. que começou a devorar. Naquella primeira noite. á luz turva os olhos brilhavam n'um fulgor de loucura. a invasora cl>^y do seu circulo de independência n'aquelle immun- . e foi com um revoltado nojo que viu na tíbia claridade a sua companheira metter a mão esquelética na palha nauseabunda e retirar [d'alli um pedaço de carne. na mesma postura. Mas os olhos da megera se a^í^úiív^ím de ódio contra a rapariga.CHANAAN 251 correu a estrada que corta Santa Thereza e foi até ao fim. de se evadir do raio do calor humano. Sobresaltada deante da megera. " {^cc^r^. — Está ahi a sua cama.a a dentro. que lhe apparecia como uma inimiga. As duas miseráveis não se falaram. mas não teve animo de se afastar d'aquella atmosphera de desespero. mostrando uma magreza de bruxa. Tirou o casaco e ficou em camisa e saia. a moça permaneceu petrificada. que ficava em frente aquelle em que se achava Maria. quando foi a hora de se recolher ao albergue.

livida. espichava a cabeça até junto da outra. sempre alerta. incessantes. Maria.. irrequietos.252 CHANAAN do aposento.^e-4ião podia dormir com inquieto^feceioJTTudo a prendia á vigília. Guinchando. para a estrangular. corriam doidamente. e o quarto. Maria sentiu-se endoidecer de pavor. ora se illuminava em suecessivos relâmpagos. . derrubada por alguma rajada de somno. Pela noite a dentro. e semi-morta sentiu passar sobre a cabeça o vôo tenebroso de um morcego. que continuava a dormir.. passeiavam pelo corpo da velha como sobre um cadáver. que ainda assim era o refugio da ind^ clinavel liberdade. Vencida pela prostração. ratos começaram a surgir no quarto. farejando. A lamparina principiou a se-extinguirferepitando. o medonho quarto. Maria acompanhava o aríar d'aquelle corcovado corpo e o latejar das grossas arterias. via n'um instantâneo pesadelo a velha erguer-se. sem que Maria pudesse encontrar trabalh í . até cahir tudo n'uma profunda escuridão. no maior silencio da casa. o máo cheiro e o terror da bruxa. Correram os dois dias marcados pela estalajadeira.. alongando as mãos de esqueleto. Os ratos largaram a comida e continuaram á sua infatigavel investigação no aposente. acompanhava o ruido aterrador dos ratos. gelada. e no seu colchão comeram os restos de carne que ella deixán». indo e vindo a todos os cantos. ora se escurecia. E quando ia cabeceando. satânica. não tardou muito a tombar dormindo sobre a palha. Despertava convulsa e.

entrando da rüa. E assim viveu alguns dias. e n'um instante a sua miséria tornou-se o ludibrio da gente amparada e farta d'aquelle retiro do mundo. Milkau em viagem para o Porto do Cachoeiro. A-filha. Uma manhã. dpííada-^dl. tanta lfáy/L miséria. • quando viu Maria passar no corredor. teve animo para intervir e Maria ficou na ' hospedaria como creada. que é o alimento da desgraça. 15 i j '• . Não sei d'onde veiu. apathica. Ficou um instante pensat<Vn prCítaando explicar por vãs conjectura? ttivo encontro. appareceu aqui sem um vintém e tanto chorou que a fui deixando . Milkau reconheceu a sua joven companheira do baile de Jacob Müller. onde ia comprar mantimentos. sem pão e sem guarida. e Maria teve um pânico terrível em se vêr de novo obrigada a bater as estradas. em companhia da outra..CHANAAN 253 suas implorações e suas supplicas eram desdenhadas. Apezar da miserável situação em que ella estava.i/yU cohtrar um emprego. tC^Vé^quem era i mulhecqao alia acabny/i dia^. Desatou a chorar. esmagada..ficar. n u m delicioso momento. mas nesse maldito apego á vida. Depois de alguma hesitação. chamou a dona da casa e pergun. e que entrevira primeiro na capella de Jequitibá. almoçava socegadamente no albergue de Santa Thereza.. A dona do albergue intimou-a a deixar a casa. atirando-se aos pés da velha para que a deixasse permanecer alli até en. y Af*^^ > ' —• Ah! ri ir r ri "Hfr é uma vagabunda que recolhi.

A confiante #meiguice das palavras de Mil. retomada de um inesperado ardor. A dona do albergue. Maria. que tem de ir para a cama. Vendo-o agora. Esta não quer me largar a sopa!. vinha ' arrastada.. porém. desmoralisa uma casa. com immensa vergonha. Milkau n'uma grande afflicção interrompeu o almoço. porque da cozinha a chamaram. Está-se a se lhe arranjar emprego e ainda fica amuada. /^ tendo por sua vez reconhecido/Milkau.. E quando n aquella sala da hospedaria . aqui ninguém a quer... y a estalajadeira entrava empurrando Maria. que. coitadinha. Alguns momentos depois... Essa linguagem atordoou o espirito de Milkau. poz-se ella a chorar. e delicadamente Milkau a desviava dos ponjres íntimos e mais dolo-' rosos.no estado em que está.. Promptamente pediu que chamasse a rapariga.25 í CHANAAN — É sua creada hoje ? — Quall Um trambolho. motejava : — Olhem. e ella acudiu.. /<«". deixando Milkau e Maria a sós. E então breve. O que ella me fa? não é nada em relação ao que eu lhe faço. abria-lhe todos os cantos da sua humilde existência. * J/kau f^decidfiiraKronlar-lhe a suü Hes/raçV Por ve~ 'zes. vejam só. Também era só o que faltava! Aquillc . Não continuou. o que logo a velha fez. espantada da scena.. sem eira nem beira.. C melhor é que se vá para outras bandas. fwe^M. Milkau levarjtou-se commovido e procurou acalmal-a. embaraçava-se vergonhosa.

Maria fl fitáva-^erena.. disse afinal Milkau. abandonado a velha sociedade odiosa e recomeçado a existência na virgindade de um mundo immaculado.. devastadora.CHANAAN 255 Milkau acabou de ouvir a narrativa. e está tão abatida. mergulhan-'" do-se outra vez nos cyclos sombrios do soffrimen/ to. Não tinha elle fugido á maldade humana. — Bem. Era a primeira vez em que na sua vida nova se esbarrava com a Desgraça. si passasse adeante. Passouse longo tempo n'esse silencio triste. > deixasse no caminho a miséria alheia e continuasse no seu embevecimento de felicidade?. com o semblante illuminado. A dôr sa-nrqstuafei com r-^. de resurreição. onde a paz devia ser inalterável ? Porque então o espectro do soffrimento o perseguia ainda alli ? Milkau divagava n'um fundo desespero. E longe. e os sentimentos *y<**fl&:y de Milkau galopavam para o passado. tenho uma colônia onde posso empregal-a..T^íj^ràred$ porém. / ee*»—*n^Era a salvação.(*&**<{ a sua força solemne. d'onde pensara ter-se táffyúado para sempre. Maria sorriu encantada.... de que não agüente afyÍJfrft'^ viagem.. E n u m instante esse encontro lhe $ffâ0Â. todos os longos mezes ' de felicidade. esperando que elle falasse. Vae vêr como não me canço. E uma casa de conhecidos meus no Rio Doce.. Estou prompta para caminhar. Depois. — Abatida? Oh! não. poz-se a scismar.. reflectindo : — Mas o senhor não ia para o Cachoeira ? Por- .... Jy/^/^T Si elle não desse ouvidos.

Milkau explicou mansamente que ella tinha de . Milkau não replicou. — Mas. respondeu Milkau. sem se importar com o que estava tagarelando a velha. isto não vale nada. A roupa foi coisa á parte... pôde tomal-a como quizer. disse elle com meiga decisão. Uma vagabunda. Ella não é minha filha. peço que restitua a roupa que foi o penhor do pagamento..256 CHANAAN que então abandona a sua viagem e volta ao Rio Doce? Por amor de mim? — Ora.. Depois de vêl-a amparada.. — Eis a c l u ' A a i m P o r t a n c i a 'j^4^4^^^f^ / //yji (oJ*' mulher jpdfò p a s m ^ V recolheu as cédulas. A dona do albergue tornou-se fula. a quem Milkau communicou que a rapariga seguia com elle. como si fosse roubada: — Esta é boa... accrescentou Milkau. sem allectaçâo.. meu senhor. A mulher fez uma careta zombeteira : — Oh!. — Diga-me uma coisa : quanto devia pagar esta pobre moça aqui na sua estalagem ? inquiriu Milkau. ' /Ç^ contentissima. Chamaram a estalajadeira. Que bem me importa a mim. e dando o dinheiro : . — Vamos. Amanhã mesmo. — Agora. tornarei ao Cachoeira.. negocio é negocio. 'Oil*' f-ffk foz-seja contar nos dedos e depois pediu um preço exaggerado.

foi alegre conversando com ella. interrompendo a descuidada bemaventurança. Maria seguiua. A'^áí viagem de hoje era ainda um combate contra o soffrimento. e todas as ligeiras feridas da dôr serão curadas por um sopro de bondade. a miséria da sorte da companheira.. Não é que a desavergonhada teve sorte. Milkau recordou-se da sua primeira viagem com Lentz. atravessando n'um êxtase a pomposa região. emquanto elles atravessavam o povoado. risonha. Quando deixaram Santa Thereza e tomaram o caminho do Timbuhy. E aquelle sujeito com uma cara de santo ! Pouca vergonha. preferiu ficar com a quantia e restituir os objectos. afastando as apprehensões de uma irremediável desillusão. e tudo voltaria á doce calma. pensava elle.. o seu espirito tomava outro caminho e confiava qme aquelle doloroso incidente.. fincada na porta. passaria rápido. e a velha.CHANAAN -257 optar entre os vestidos e o dinheiro... para se libertar do Mal. e foi buscal-os. Amanhã. Mas. Isto(^i-4he)novas forças e. de que não necessitava.. esquecendo a tristeza. o fóú amante arrependido virá buscal-a.Q ///*' .. com uma fita azul no cabello. Maria tornará a ser feliz.. A estalajadeira.. Partiram. Milkau festejou n u m sorriso o despertardamulher. faceira. contra o ódio entre os homens. clamava aos vizinhos : — Vejam só. E quando voltou á sala. assim compellida. malcreada.. vinha de roupa mudada. -V //f. resmungando.

montanhas baixas formando massas enormes.riachos. Descendo das regiões férteis. que ç(já. Á medida que se ^j approximavam. tudo n'uma abundância crea •S "*\JZ-^ Ção. despenhadeiros. onde talvez conseguissem agasalho. e urria colônia se lhes deparou no alto da montanha. planícies. Milkau ficou inquieto. plantações. e só elles. Sen/?>**>**" taram-se ás sombras das arvores. Milkau propoz subirem pela vereda que £ levava até lá. Os viajantes foram-se deliciando com o scenario. percebendo que lhes erVimpossivel alcançar o Rio Doce n'aquelle dia. r / A colônia para onde se dirigiam. apezar de tudo.yfcfrppoy a Maria continuassem a caminhar até descobrirem uma colônia onde r/irrflrrfm n n^it/ Andaram mais um pouco. negras. passavam tropas de burros carregados para o Porto do Cachoeira. ora mattas /r W ^"~_folhudas. ti dei^ v » t ü / xavarrí ficar alli.QiJU*** 25si I CHANAAN Debaixo do sol ardente desciam e subiam morros. \pf&t/i**t. Com o avançar da t^irde. era um peque5 no jardim europeu. £r / Maria fez um esforço e foi subindo vagarosamente. oyl passava gente a pé. perfumando /fi* á . descuidados. "Mais tarde começou a fraquear e era com difficuld\de que yj/fâyfjgfâdy1.. '0^^Mh[d^^ddtíJU¥. e durante as primeiras horas Maria marchava lépida. de desenho. escoteiros. passavam viajantes montados. ora. n'um capricho de linhas. ora. áridas. seccas. lírv"*1 como n'uma paizagem extravagante.JíWdfy a uniformidade Í^Vv / das habitações dos immigrantes. casas. e. a beira dos caminhos. .xnbaixo / _ e^tendia-sè^ilma serie de vafles recortados em / / mil aspectos diversos.

Os olhos não se podiam fixar em nenhum porrnenor. morava alli só. Milkau bateu palmas.jiy . Os cães u ^ * ladraram atirando-se sobre a cerca. divina e rara./ do a longa barba branca. patifes ! assim é que se recebem visitas ? Os cães a-afastaram"rosnando. radiante. servindo-os á mesa e obsequiando-os como podia. O homem da colônia deixou os hospedes e foi regar as plantas. gaddy á cancella. tratadas com o carinho de uma horta. Milkau ficou um momento admirando os movimentos expertos e juvenis do ancião. o que o entretinha era cultivar flores. vieram os três para o jardim. falou aos viajantes. E o velho. mostrando no riso uma fila de dentes sãos. uma irradiação espectral. Milkau explicou-lhe o que os levara ahi. que. foi de um só conjuneto de cores desdobradas ao infinito. alisai^ /H. e logo um velho acudiu. A impressão que tiveram. Levou-os o velho para dentro da casa e offereceulhes jantar.. e o velho. as filhas eram casadas e os filhos viviam na vizinhança. checom os os aromas aromas que que yyiinám ene. Penetraram no jardim. uma zona cambjante. ia-lhes contando que era viuvo. Findo o jantar.CHANAAN 259 y/f&fUM*< com ytjipáxh do do jardim. n u m gesto de agasalho fácil e espontâneo. escancarou a porta. o cafesal também o distrahia. havia muitos annos. e depois. que estava em triumphal floração. seguido de Maria. jardim. Entretanto. e da janella apontou as plantações no morro próximo. ate ate que. começou a pas- . socegando-os com alegre auetoridade : — Olá. A vista se lhes extendia farta e satisfeita sobre uma tela mágica.

como flores aladas. e elle daf y ^ transportou éM jfmqf da saudade para a velha **"" / Germania. Maria estava meic/fatigada e inconscientemente apoiou a . Ella parecia nunca ter soffrido/ uma resignação de nômada apagara rapidamente os vestígios da miséria. E um instantâneo olvido encerrou a sua agonia. Recordou-se dos bosques.. Este sentiu^uírxâtlttí. dos jardins. e com os olhos postos n'elle ficava embebida'n'um humilde enlevo. Andaram até onde A. a terra que abandonara. ' . sahindo da morte . J" como espectros: olhos perdidos no vago.. E o jardim lembrou"2-Makau.bmscamante.. das U"^' casas. susbtituida a tragédia da natureza brasileira pela doçura européa trazida nas flores que^peregrinaram até ahi.. E no animo de Milkau amollentado pelo violento encontro da dôr.'y ' seiar pelo jardim. mudos e gr* sonhadores.260 CHANAAN . JL U gelada.(•*$» **"•**"'-ffflrranrejeáéícíÉr. Agora. E foram caminhando XlL?. Milkau julgava-se fora da natureza tropical. absortos. entristecido.f / ^ w ^ torpecendo-os . en. Encerrado alli.ITõ'calor emanado das entranhas' £ * geradoras da mulher infiltrou-se^^aSs^nervos. borboletas voavam sahindo das plantas. abatido apontou no momento do crepúsculo uma ligeira sombra de nostalgia. Quando elles passavam esquecidos. via interrompida a eterna verdura.//" mão no homb/o de Milkau. da gente n u m regosijo de novidade ao calor bemfazejo do sol. Naquella mesma hora era alli a hora da \Jyy primavera.. as plantas cheiravam ainda mais.. Com a queda do dia. Tudo resuscitava. toda era encanto por Milkau.

. Era noite. onde.. Sentaram-se em uma pedra. Era uma representação phantastica. como uma mulher bella e damninha. sfeerguerarrKpara o céo. . até que o dono da ' casa. acompanhava o somno de Maria. aquecendo-o.CHANAAN 261 o jardim ia acabar n u m logar secco.. que se lhe infiltrava.. esterilisando aterra.. á mesa. E já a casa estava em socego e Milkau.. O colono acabara o serviço e veiu ter com os hospedes.. os . Sem raios. onde lhes tinha preparado as camas. sem reverberação. propoz irem dormir. O grande actor foi descendo no espaço sem nuvens. 0 mundo inteiro tinha parado para assistir ao espectaculo. Seguia deliciosamente todo aquelle brando respirar.. Os olhos. sobre a sua superfície as cores ainda continuavam n u m a infinita mutação. depois de mergulharem no tremedal que ficava em baixo.v ' três conversaram sem interesse. o immenso globo ostentava uma succes• siva gradação de cores. no despenhadeiro da montanha. até que afinal eUe-mergulhou no horizonte e a terra tingii>se de sangue e em seus mil nervos agitou-se toda. convidando-os a dé xecolhexdyfi. Dentro. Mostrou a Milkau dois quartos contíguos. e pouco a pouco uma/yíyídd perturbação h\e f/f^ f/^ '< . como uma musica extranha. no seu leito. e acompanharam a morte do sol. sem poder dormir.. cahindo de somno. descampado. como si dentro d'elle um mágico se divertisse em illuminal-o.. uma palmeira se alteava. O resonar leve e regular da mulher lhe vinha aos ouvidos.

.*"+ +«*y< ?t+yy^*r*. e todos se amavam. aj \ bocca secca. poz-se a scismar debruçado sobre a Noite divina. E o seu olhar prescrutava as sombras da immensidade.. e.. Mulher!.. Milkau levantou-se tremulo. as visões lubricaselascivas.. O homem forte ficou envergonhado d'esse momento de loucura.. eralím"suspifo de amante...o y-<n<«v A •*»*. o* »i coração galopando.... % # f r | ^ ^ N ã o era u m V //' /Tfêsonar Hormeclda.. pensava elle..<*... viu-se o ludibrio do desejo e descreu da redempção.Mulher!. " *&** °~<- ou*'«0 alvoroçava o sangue. abrindo a janella. Ej^JSÜ* esta palavra evocadora lhe dilatava..•. a garganta estrangulada. Era noite. 1 E um torpor.. *Só elle era mudo. onde jaziam sepultadas. Mulher! E lá vinham do esquecimento./wrJ*44. Cresceu-lhe o tremor e uma languida molleza o deteve. -Maria continuava a dormir tranquillamente. Aquella/hora lhey• chegavaP do universo inteiro o echo dó Amor.. um espreguiçamento dos músculos o desequilibrou de uma vez e o atirou a uma vertigem de volupra. Z^ZT^^* 262 t. que vos c a n t a i O chéTro o jardim tr^nstornavTãTc^Iiã^rrrMilkau estremeceu outra vez. .. debaixo de cujas camadas sonoras se sente 0 / mysterio do instrumento. Amaldiçôou-se e teve nojo de si. Chegou-se á porta entreaberta do quarto de Maria.fU. J/lJtAftrt^enchendo-os de um goso ... dando-lhe um instante de consciência e um profundo.:vexame.1 os horizontes da fejtringida e quasi apagada sensualidade... sacudido pela volúpia.. Tudo seifiuminava ao poder for- a* ?"/ +< ****&* • * cd*>" . o seu respirar chegava sempre aos ouvidos de Milkau.

sem poder ir além. mergulhou a mão até ao fundo.. O sangue dentro d'elle. os corpos. e nos cabellos de Maria. Deslumbrado pela vertigem.. com os olhos meio cerrados.. fugiu. luminosos como um rio de ouro... Dorme. Socega. mudo e refreiado. Retirou a mão e.. i&fêturados.. Os cabellos d'ella estavam soltos e cahiam sobre ocollo nú. os braços se apertavam enlaçados. via-lhe os cabellos descer pelo corpo abaixo.. aquelles transportes de luxuria. Ficou assim séculos pregado aquelle corpo. se degelou n'um momento e. O soli.* tario também amou. a Noite era outra.Miíkaurecolheu a quentura do corpo feminino. Ella. não. que amornava o aposento. gemiam n u m frenesi de doidos... Voltou á janella. que não era mais o mesmo. n u m frêmito convulso. perguntou : . . E para elle.CHANAAN 263 midavel da sua allucinação. o joven sangue parado pela illusão. Não é nada.Milkau deixou a noite tentadora e entrou no quarto de Maria. não tinha mais aquelles accentos de volúpia. Era serena e bemfazeja como a face de uma ... como em frocos macios e louros. quente e sôfrego. que accordou a rapariga... voltando rapidamente a si. correntios. n'uma arquejante respiração. clamou o corpo da mulher.. — Já são horas de partir? A voz innocente cahiu sobre Milkau como uma rajada de frio... E tudo era uma visão > de amor : as boccas se beijavam com febre. E ficou tremulo. murmurando : — Não.

. Milkau sentiu uma pungente tortura com aquelle sorriso. que a madrugada para o sarar lhe derramou sobre a cabeça.204 CHANAAN irmã. e com o orvalho. mas logo. Ficou longo tempo alli. o velho os acompanhou até á porta do jardim encantado. como se costuma sorrir aos noivos. como o vencedor de si mesmo. humilhado. partiu altivo. arrependido. sorrindoIhes com carinhosa malícia. De manhã. e com a brisa misturou os queixumes da sua agonia sexual. erguendo a cabeça. confundiu as suas lagrimas de solitário. confuso. ao deixarem a casa. Maria retribuiu a saudação sem jfytír o que esta dizia.

vaga. Todo o «prazo» estava cultivado. seismava elle. Não ha desgraça pequena. que o cercava e lhe extendia os braços amorosos. entorpecedora. Não ha soffrimento. E para afugentar a persistente Tristeza. Desapparecêra a coivara. piedade e reparação com o alarido de cem mil boceas.No espirito d'elle íe/fl*^*' uma melancolia teimosa se espraiava infinita. que brotavam n'um indomável viço... o terreno . cobriam como um manto a antiga hediondez do roçado.VIII A passagem da miséria na nova yjdd de Milkau / ' * £ * ' deixara o seu vestígio perturbador. Toda a dôr é immensa. e os pés de café.tempos a colônia tinha um bello e florescente aspecto. tão insignificante que não clame aos que passam. Milkau se\gonsagravf)ainda mais ao trabalho. e agora o pensamento rolava vertiginoso para o desanimo. Já por esses ^ . Não podia esquecer a desgraça de Maria.

formára-se umaattracção. o seu espirito.. uma solda inquebrantavel e que ainda significava a imagem d'essa impulsiva liga entre todos no mundo. Restringido a um circulo de limitada actividade. e todas as suas faculdades de attenção. que ennobrecia o seu destino humano. de imaginação. Milkau era agricultor por instincto. e o outro. que cada dia será crescente.266 CHANAAN semelhava um verdejante parque cercado das arvores immensas da floresta. alliado a outros colonos de egual inclinação. as empregava com desvelo e ardor no trabalho com as próprias mãos. e a humilde casinha dos dois emigrados estava coberta de trepadeiras. sacrifícios de sangue. longe do ódio. em poucos mezes para elle já não havia segredos na floresta brasileira. Um offerecia ao mundo façanhas. simples lavrador. buscava expandir-se n'essa fôrma inicial e selvagem da civilisação. a fronte suada. matanças. devastava as mattas. flores do seu jardim. curvado sobre a enxada. os nervos cança- . luctava com os animaes. Caçava. da lucta fratricida.. E quando. apenas interrompida. fructos da terra. Lentz era o caçador. No mesmo tecto esses dois homens exprimiam duas culturas differentes. e. Milkau trabalhava sempre. sempre retrogrado. Mas. que se abriam em flôresJ dando aquelle jardim alli nos trópicos um perpetuo ar festivo á vivenda. até se tornar universal e indestructivel. entre esses dois interpretes successivos da vida.

um esquecimento devia adormecer-lhe os pensamentos. o continuo testemunhar da desgraça alheia. é preciso haver outra coisa no mundo. mais poderosa. como um forçado ? E a consolação lhe vinha-? Oh! não. como uma mancha na sua visão radiante. e sem insistir em desnudar-lhe o coração..O Amor!. mais vasta emais mysteriosa. Que importa que nos fatiguemos... o perfume e o sabor das coisas ao padecer de Maria ? Como remediar. si alli adeante. mais subtil. Outra coisa mais santa. sarar a morte do sonho. « Não é no trabalho que está a salvação da miséria nem o estimulo para o desalento./para levar-lhe algum conforto. um repouso suave. •Võariao vcgea. emquanto a enxada. mais d/)^W. Ella se retrahia cada dia mais e nem mesmo a elle confiava os passos do seu martyrio. cavava a terra.CHANAAN 267 dos. que ensopemos a terra com o nosso suor. onde Maria se empregara. mais bemfazeja. que cubramos o mundo de flores sahidas das nossas mãos infatigaveis. mais doce.. ao nosso lado.. » Assim pensava Milkau. Que bem fariam a côr. manejada pelos braços inconscientes. vive a Dôr. si todo esse sangue. essas flores. recommendava á gente da casa a maior caridade para a desgraçada.. lá vinha ainda nesses instantes o tormento da piedade. esses fructos não são balsamos para aquella ferida extranha!. pedindo que . Milkau respeitava esse pejo.fôxavw « colônia ». a decepção. emfim ? Também ella não mourejava dia e noite no trabalho.

Lentz aç. Durante o dia trabalhavam. Falaram da Allemanha. Maria não se queixava. dar-lhes trabalho e augmentar-lhes o custeio da casa. Era um veterano do exercito prussiano cuja / memória estava cheia de lembranças da ultima grande guerra. que os convidou a repousar um pouco. os dois amigos ficaram a conversar corn o velho.' e. N'um d'esses passeios foram até uma colônia. como uma intrusa que lhes ia roubar a tranquillidade.208 CHANAAN velassem por ella e a não desamparassem na próxima crise.* rancor. e era com um passo moroso e incerto que vagavam ás tardes pelas habitações vizinhas. nada havia na colônia capaz de encher-lhe a imaginação. e o velho falava satisfeito . emquanto a família se entretinha nos arranjos domésticos e no trato dos animaes.mra a caça. Os colonos promettiam-lhe tudo. que se approximava. que ainda não tinham visto.interessava^pelos pormenores d'essas historias. Aos antigos tormentos juntavajo desprezo e o ódio dos novos patrões. êü porta estava um ancião. mudos e abysmados nas suas scismas. E ainda assim se agarrava a essas raras migalhas de uma desdenhosa condescendência humana. E também para o com-^panheiro. r/£é^# com J// .^s y o ancião narrou-lhes sem demora traços da sua vida. atormentada pelo medo do doloroso momento. mas na verdade o sentimento d'elles era outro : tratavam a miserável com desdém. ^fiyL$J(^iJfdJt0/a vida de Milkau continuava a ser minada pela tristeza.

. cahira do cavallo e por cima do nr*J**^ peito lhe passara n'um galope o animal de um camarada. a vomitar sangue. Enthusiasmado. levou / os vizinhos para dentro da casa mostrar-lhes v e . como a que ficava do minuto de um Bárbaro no seio da civilisação. desfilavam exércitos.. fora por um acaso colhido na estrada. Escapara de ser fuzilado. / o veterano ergueu-se e. desabavam cargas de cavallaria. varrida em turbilhões heróicos pelo tufão da Conquista.y-yyj\\ . Na sua narrativa imaginosa passavam cidades extranhas. em França. abandonado.. exigira uns cobertores dos moradores da casa onde se acampara. porque uma noite de dezembro. elle ia pagando com a vida. E essa extorsão.. Ainda o apavorava o terror da disciplina. n'um //r^lrx reconhecimento. O velho soldado terminou tjfflllédHt que uma vez. A ess0 jdmpfddddi €& ^^ misturava outros episódios da invasão. além do que era permittido reclamar. estrondeava o tumulto das batalhas. e como.. fazendo parte de uma guarnição. quadros d*?-*"***^ da cultura extrangeira apenas entrevista e que recolhera á retina com essa sensação de deslumbramento maravilhoso. onde o clima quente lhe mantinha a vida. caminhando tropego. a chuva oblíqua da metralha mudava em lama sanguinolenta a miserável e inquieta poeira humana. E sorria como havia muito tempo não lhe era dado. Lentz applaudiu então a Força immortal. Desde então dera baixa e emigrara para o Brazil./ Jb***'\ .. que commandava e era temida.CHANAAN 269 e vaidoso de entreter os jovens.

. Os que se collocam no passado. a guerra... Amemos o sacrifício feito pelo amor humano.27H ' £. a servidão. estampas da guerra.. Dia a dia será reduzido o campo da veneração pelas instituições da Antigüidade. vistas da Prússia. aquelles cujas almas se fazem artificialmente antigas. a arte. o demônio que o agitava. Tudo alli era uma volta ao Passado. disse Lentz : — Que consolo senti indo á casa d'esse velho! Parecia ter penetrado um instante no passado intacto da Prússia. o sangue. com um tom emphatico de superioridade. a alma senhoril. mobílias. o que estimas n'esse passado é exactamente o que elle tem de humilhante e vergonhoso. Em caminho para a colônia. E eu tenho que o estudo das coisas antigas. — E porque não me retemperarei nas fontes da minha raça ? perguntou Lentz. observou Milkau. é um dos sopros mais poderosos para a desordem universal. esses são os verdadeiros . Mas aquelle amor inconsiderado por tudo o que é passado. respondeu Milkau. — Porque? Porque.. tudo o que foi.. / - CHANAAN lhos retratos de reis. — Mas é preciso não amaresdemais essepassado. a sciencia. Tudo era antigo. Amas p ^ f ó ^ espirito de destruição. quadros e lembranças. tudo o que separa e destróe. o prestigio das próprias lettras mortas são outros tantos venenos que acobardam a alma do homem de hoje e dão um encanto crescente ao mysterio da Auctoridade.

ora. o gênio militar. nem religião. Milkau.. A Pátria é pequenina.. a expansão universal. o nosso eu. d'essa grandeza da Pátria ? — Oh! Exactamente o que n'ella venero é a tendência imperial. meu querido Lentz. não é tudo do passado que eu amo. são os pregadores da desordem. Não ha ninguém que fuja da sua atmosphera. nada tem uma fôrma elevada. uma expressão da política.CHANAAN 271 inimigos do gênero humano.. a fibra bellicosa. Sobre ella nada se fundou. a Pátria é uma abstracção transitória e que vae morrer. Immortal! — Não. Nada. sendo patriótico. nem sciencia. uma restricção que é preciso quebrar.. O gênio humano é universal.. quando testemunho numa ostentação das fortes IIf'^*' qualidades humanas da nossa Pátria. absolutamente. — Tu sabes bem. a desordem.. uma limitação para o amor dos homens. uma civilisação particular que nos fala no sangue. mesquinha. A Pátria é o aspecto secundário das coisas. a tenacidade. a somma de nós mesmos multiplicados ao infinito. — E que beneficio resulta d'essa força.. a nossa própria projecção no mundo. a guerra. — Mas que é a Pátria ? A/ / — A Pátria. tu não sabes? E a © / raça. os prophetas do tédio e da morte.. Entraram em casa e durante a noite largo tempo . mas regosijo-me / / / / . interrompeu Lentz... Nem arte. a disciplina.

CHANAAN

debateram essas idéas. No dia seguinte, quando
Jj
Milkau trabalhava solitariOj/^ava-lhe na cabeça a
f/,yf^
discussão da véspera; e sentia um mal estar lembrando-se da viva contrariedade que oppuzera aos
sentimentos do amigo.
— Não ha duvida, pensava elle, penitenciando-se,
é assim por natureza. Quando dois homens se collocam frente a frente, uma instinctiva animalidade
' - - j ^ - surge ddjJdffflyèfó perturbando a sympathia. É o
Qifj''4''querer
innato de subjugar, ou pela força, ou pela
0,
superioridade da intelligencia, ou pela consciência
da própria perfeição. Assim também sou eu; procuro reduzir Lentz a mim,dominal-o até ao fundo
das suas idéas, do seu próprio ser. Oh! orgulho damninho! Quando a própria humildade deixará de
ter no seu mais intimo recesso a desfiguração, o
amargor da vaidade, da soberba, do domínio?
Milkau reconheceu-se inferior ás suas idéas, humilhado por uma força inconsciente. Depois tornava aos mesmos pensamentos. Comprehendia que
no seu companheiro essaexaggeração do amor da
pátria era talvez um symptoma de nostalgia, uma
anciã pela terra das origens. E não é isto uma conseqüência doentia da educação patriótica? Mas,
n'aquelle instante de angustia, quando por sua
vez se examinava mais de perto, |ê\revelayj^a si
mesmo... Fitou o céo immenso, desvelado",de uma
serenidade, de um brilho e de uma firmeza de crystal, e sentiu-se extranho a elle... Admirou ao longe
o corte das montanhas, a negrura da matta, atfronde/

CHANAAN

273

das arvores... Debaixo dos seus pés a terra vermelha, como embebida de sangue, e das plantas tenebrosas o cheiro que tonteia e excita... O morno
socego do universo... E tudo lhe era extranho. Elle
ê o Mundo, elle e tudo mais, a dualidade, a distincção irremediável. « Eu não estou em ti, tu não
estás em mim... Ainda assim eu te amo, mas tu não
és eu.»
.,, -A^ i
N'uma dôr0^/jljl Milkau, devorado de magua, m/v*^"***
combalido, sentiu-se também expatriado... Não
havia entre elle e todas as coisas em volta de si a
subtil intimidade que nos prende eternamente a
ellas, o imperceptível e mysterioso fluido de commuriicação que faz de tudo o mesmo ser... E percebia,
n'um grande desalento, que o conjuncto tropical
do paiz do sol o deixava extatico, errante e incomprehensivel, e que í sua alma emigrava d'alli, incapaz de uma communhão perfeita, de uma infiltração definitiva com a terra...
— Que sou eu então? Que verme, que átomo
miserável, que se não governa, que não pôde amar
o que quer, que se não pôde identificar com todas
as moléculas do mundo ? Que sou eu, onde leis
imperiosas, perversas, me dominam, me vencem
o novo sangue ?
Outros vizinhos vieram algum tempo depois SÊT
estabelecep^ó^Rio Doce, na campina que sahindo
da matta morre sobre as águas. Era uma pequena
família magyar, composta do pae viuvo, duas

274

CHANAAN

filhas e um filho, a que se juntaram outro rapaz
da mesma raça, que era noivo de uma das raparigas, e um cigano. Viviam unidos em uma só communhão de desanimo e de espanto, na casinha feita
de madeira tosca, .com tecto de telhas de páo, incendiada pelo sol nos dias quentes, varada pelo
vento, invadida pela chuva nos dias de tormenta.
Ahi cumpriam o ritual dos costumes pátrios. Sob
a pressão cobarde do isolamento, apegavam-se,
como a um refugio, ás intactas tradições, transportadas dê sangue a sangue e mantidas pelo
temor religioso desde os antepassados. O cigano
partira também, arrastado pelo instincto vagabundo. Na longa travessia, o eterno caminhante da
planicie imaginava-se prisioneiro no vapor, que
lhe parecia uma jaula movediça e endemoninhada. O oceano contemplado da terra attrahia-o
pela irresistível seducção da immensidade. Sobre o
mar elle não sentia mais liberdade moral. O infinito é uma miragem atormentadora, em que se
perde a essência humana... No meio das águas
illimitadas, sitiado pelo perigo, assaltado pelo terror, o espirito, dissolvendo as suas forças vitaes
n'uma desaggregação continua, transforma aquella
attracção impulsiva e illusoria em uma persistente
impressão de assombro e de terror, e a orla de
terra que se lhe escapou ao longe, e/para onde se
volta incessante, recebe os queixumes da saudade.
O homem só é senhor da sua individualidade na
porção de espaçp cujo horizonte^póde medir com

ju.

** W/i*

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bs

275

olhos, naquillo que é finito e limitado...
yjjfc/Passaram ^xft^^tídjatídUtí
os primeiros
tem-yyOtyfa^,
pos, esmagados pela perspectiva do desconhecido, ryyd**™
com a alma em suspensão. Até então não se trabalhara; os homens corriam as vizinhanças, caçavam, vagavam pelos montes e iam aos povoados ; as mulheres viviam no lar. Quando cahia
a sombra, o cigano s&. deitava* sobre a relva, á
beira do rio, e pregava os olhos preguiçosos no
poente, vendo morrer o sol. Aos domingos, a família «s- reunia^na varanda; o velho a um canto,
bonné enterrado até os olhos, cachimbo na bocca, /ir
quilotava repousadamente as longas barbas amaZ^&T
rellas e as rugas da cara; as raparigas e os dois */ ^ - , "
rapazes,como legítimos magyares,ornavam-se com Agfa&t as bellas roupas do seu paiz e vinham faustosos e , ^ * , ^ ^ ^
garridos entregar-se ao grande prazer da sua raça, d^r jwr_
á dansa.
^-* <s
As vezes, Milkau e Lentz nos seus passeios pela ^ S ^ T ^ ^
margem do rio ficavam-se debaixo de alguma y<^ ) •***>*
arvore, assistindo aquellas festas no silencio da ^y>w+* <£*<•
grande solidão. O musico era o cigano com o inse- *jf*~ ""•
paravel violino, sentado ao lado do velho. Dado o &+***• ^
signal, os pares punham-se em ordem,e iniciavam '?*~V*~**
as marchas polacas. A musica tangia á festa.
vr<^ / "
Os seus compassos a principio langorosos iam ga- -Q+VHJ*
nhando movimento e a largos impulsos do som t*.'/^**"
arrastavam os figurantes. Faziam rápidas voltas, « i ^ meias luas harmônicas, enrascavam os braços /*r**~•-**
uns nos outros e balouçavam-se cadenciados, ^*^*^"

276

CHANAAN

como suspensos sobre as notas, formando em sua
graça artística grupos de estatuaria clássica. Ao
findar a contradansa, respiravam satisfacção, espalhando-se-lhes no semblante o orgulho da sua
mestria. Mas o cigano os não deixava socegar,
vibrava o violino, e logo todos sentiam o despertar nervoso da paixão.
e^v**</***,,***,^ .
Com
V íwfcr^
ffâiffr
preso sob o queixo e)fcmpuxügàjl /t,
/ • /yyu-ydCt p n r n m i níiin coni'ii1Wi emquanto a outràyfhanejava o axco^rf^ys/c^Jytyffiiyfâajdfí
TTWfnu.iirnlu.
Os homens, trazendo chapéo dé 'feltro'comlindas plumas, paletot
' *«****" * % calça de velludo e á cinta uma larga faixa de seda
,- carmesim, enlaçavam as raparigas, cujo corpinho

^" £, meio aberto ao collo vestia o busto esbelto, e cuCm~po
j a s saias ornadas de velludo e seda lhes envolviam
9/¥ e>
^ ^^ 'as
fôrmas poderosas. Naquelle espaço estreito, na
varanda quasi debruçada sobre o grande rio selvagem, e extranho aquellas melodias, reuniam-se,
na fraternidade do destino e da arte, as duas raças, a que tem o sentimento innato da musica, e
'/r
a que tem a espontaneidade da dansa. Çdex^^í^/jt
t/
f/rrv^ a
valsa. Os artistas da dansa acompanhavam a
V loucura da rabeca n'um vôo quasi imperceptível e
para deante, para deante, por sua vez no sublime
surto dos" sentidos, improvisavam novas figuras.
Quando estavam no auge do prazer, a mais moça
das raparigas, amparada nos braços do irmão,
deslisava alegre, feliz, com o rosto illuminado,
embevecida, a fitar o musico amado, com avel-

CHANAAN

^

277^VV\^T

ludados e longos olhos, que sorriam primeiro que i V ^
a bocca... E quando a musica ia morrendo, a > \ >, "ç •
outra rapariga, transportada, em êxtase, a cabeça
Ç ^ \ ®*
loura reclinada sobre o hombro do noivo, n'uma
^&'^
vertigem aérea, respirava a pequenos haustos com
a bocca entreaberta, sua bocca vermelha como o
sangue, humida como o orvalho.
A turma de Felicissimo voltara para novas medições. O agrimensor depois do trabalho ia todas
as tardes conversar na colônia de Milkau, e com a
sua vivacidade e alegria entretinha os dois emi- ,
grados, contando episódios dá sua vida aventu- / ^
reira, scenas do Norte, d'esse Ceará trágico em
cuja{areias sedentas e implacáveis se vasam, de
fundeai? na resignação, na dôr, na energia e na es- / •*perança, a alma dos homens... Quando não havia
f
serviço urgente, Joca juntava-se a Lentz e o%-dois
"j
^». embrenhavam'no matto, a caçar. Na conviven'*|
cia com esses sertanejos Milkau apaziguava as an^
cias em que se vinha debatendo o seu espirito. A
\|"
espontaneidade de raça, a coragem e a bondade
ri
d'elles eram novos arrimos para a illusão...
j.
Nenhum incidente perturbava o calmo viver de
Í
immigrantes e trabalhadores, até que uma manhã
%.
o agrimensor e os seus ajudantes, sentados á porta
^
do barracão, viram uma mancha preta passar ve>
lejando magestosa, serena, no céo claro.
^
— Urubu !.. disse Felicissimo.
— Ah! temos carniça por aqui... opinou Joca. /^<*<í^*r,'v
indagando com os olhos atilados o vôo dfíamfyí.
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278

CHANAAN

A grande ave solitária descia vagarosa, boiando
negligente n'um vasto circulo do espaço, como um
barco de velas negras... Logo depois outra subia
.j
no horizonte e não tardou muito que outras mais
^ r H '***
viessem $/ax a limpidez do azul. E d'ahi a pouco
se ia baixando e restringindo a um ponto da matta
aJ *Artl° v o ° dfó idyffidffá infecteis, que os trabalhadores
/
acompanhavam curiosos e divertidos em suas almas infantis.
— Mas... alli, n'aquelle ponto, é a casa do
«bruxo», observou um dos homens, designando
assim a morada do intratável e velho caçador que
habitava aquellas margens do rio.
— Vae vêr que é algum dos cachorros que morreu... Também, que o diabo os leve a todos... praguejou o mulato.
— Que a peste os acabe... Malvados !.. ajuntou
outro.
— E mais o dono.,.
— Qual, para mim não morreu bicho nenhum.
Si fosse, o velho o teria enterrado, como a um filho,
concluiu Felicissimo.
— Sim... e não haveria carniça.
— Quem sabe si não é o velho que está morto ?
conjecturou um trabalhador.
— Homem, é verdade... acudiu um camarada.
Ha dias que o não vejo...
— Quem sabe! também eu... âlyldddtátamoutxos

£'r*/«zr

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°-

CHANAAN

279

— Vamos vêr, seu cadete? propoz Joca ao agrimensor.
E todos se levantaram e seguiram na direcção / o
da morada do caçador. Ao approximar|ÍA-se, ou- '
viram latidos e uivos de cães. Mais perto, quando
descortinaram a casa, viram os cães ladrando, correndo como demônios doidos para os urubus que
teimavam em baixar á terra. As aves negras rasteavam quasi o chão, e quando os cães se arremessavam sobre ellas, erguiam o vôo e iam pousar logo
adeante.
— Vocês não vêm ?.. A carniça é o velho...
gritou n'uma gargalhada alvar um dos homens.
— Que fedor !... Este diabo está podre ha muitos dias, berrou outro.
Instinctivamente, y&fff pararam, como n'um
conselho.
' /'
— Então., seu cadete, que se faz ? perguntou
Joca ao agrimensor.
— Ora !.. vamos a enterrar o velho... Deus lhe
perdoe a alma... Nós lhe cuidaremos do corpo,
disse decisivo o cearense.
Os homens não hesitaram mais, agora inspirados pelo impulso de piedade de Felicissimo, e tó^
dos caminharam para dentro do cercado. Vendoos approximar-se a matilha de cães abandonou os j ,
uwibúe e avançou como uma só massa,atroadora, —-y^^d<*n
furibunda, terrível, contra os homens. Aproveitando a diversão, os m/dm caminhavam no terreiro,e n'uma dansa macapra iam invadindo a ca-Jym • * .

s****-

e^ *%*•*"» °«-r,

280

CHANAAN

sa, n'um riso infernal, espichando voluptuosos as
cabeças petulantes de harpias descabelladas.
Deante do arranco dos cães, os homens fugiram, e
na porteira da cerca os defensores da casa pararam
arreganhando os dentes, uivando, ladrando, as
sangüíneas boccas escancaradas.
— Como podemos afrontar essa canalha?., perguntou um dos trabalhadores, quando já estavam
fora do perigo.
— Joca, vá com outros buscar os ferros para
darmos uma licção aquella cachorrada... ordenou
Felicissimo, saboreando uma vingança.
— Vamos d'ahi, disse Joca, e partiu acompanhado de mais dois.
Os outros ficaram atirando pedras aos cães, que,
estacados na cancella, não se arredavam, furiosos e tremendos. Os urubus, descendòyeTTT^rnaior
numero daflTBfln,.continuavam em cortejo a penetrar na casa. Um horrível e crescente fétido mesmo
á distancia tonteava os homens, dando-lhes ancias
de vomitar.
— Oh ! que demora, resmungava impaciente
Felicissimo, esperando na estrada a volta de Joca.
E ia gritando aos j/Lamea^l:
— Pedra, rapaziada! mão certeira!
Os cães latiam, mostrando os dentes brancos e
afiados... E os urubus continuavam a baixar do
céo... Afinal, pela estrada vieram correndo esbaforidos Joca e os companheiros, carregados de

CHANAAN

281

enxadas, foices e páos. Cada um se armou, e Felicissimo ordenou com enthusiasmo:
— Agora, avança, meu povo!
Os homens resolutos e raivosos precipitaram-se
sobre a cancella, que ao choque dos seus corpos
unidô^espatifou^c., dando-lhes passagem; os cães
não retrocederam e »lançaramrsobre elles, mordendo-os desesperadamente. Os invasores berravam na dôr :
— Mata! mata!
E a páo e foice arremetteramy^i? contra os ani- / / *
maes. N'um momento estavam os Iptmpné todos ^ Çr
rotos, e o sangue lhes corria das feridas. E da peleja,
umas vezes sahia um cão gritando, ganindo, quando
J
uma paulada certeira e furibunda lhe quebrava as > t
pernas, outras eram homens que, debandados, iso- \ £
lados, fugiam pelo terreiro, perseguidos... Estes J J
trataram logo de ss unir^ traçando com os instru. }"mentos um circulo de defesa:
-— Não afrouxem! ordenava Felicissimo.
— Avança! avança!
— Para dentro!... para dentro!...
Recuaram os cães ante a energia do ataque; e,correndo sumiram-se como por encanto. Os homens,
indo-lhes no encalço, penetraram na casa, brandindo as armas... Mas, entontecidos pelo cheiro suffocante, estacaram indecisos e apavorados deante de
um quadro medonho. Dentro, os urubus comiam
um cadáver humano que jazia por terra, o corpo do
solitário e abandonado immigrante. Os olhos ti16.

282

CHANAAN

nham sido devorados e as cavidades immensas e
rubras escancaravam-lhe a testa. Allucinados em
CK-y
seu goso satânico, osfflddMjd, sem dar fé dfáUaessaJ,
/^/^<^**^continuavam a picar, a comer, avidamente, embebidos. Os cães, esquecidos d'elles, faziam frente
aos invasores.
— Chô! Chô, canalha, atrôou um grito de Joca,
desesperado de nojo.
E n'um impeto de compaixão avançou para o
cadáver para livral-o dos urubus. Agarrando-o
pelas canellas e pelas roupas, os cães o detiveram... Os camaradas acudiram promptos em sua
defesa. Deante do alarido da lucta, os urubus esbordoados largaram a preza e, abrindo as azas,
espalhando com o vôo ainda mais o fedor, incapazes de se afastarem d'aquella nauseabunda
atmosphera, pousaram morosos, pesados, nas traves
lífdvi
^ a c a s a > n "hi ac p o s t a / á ^ fúnebres, medo//
nhos, como testemunhas do combate dos homens e
dos cães... Quando Joca conseguiu tocar o cadáver, recrudesceu o furor das feras. Não temiam
mais os ferros e os cacetes e atacavam os inimigos, que se apossavam do amo... Foi um desvario:
homens e animaes ty batíam""corpo a corpo, se
f e r i a r r v ^ - despedaçavam,-»como n'um combate
de doidos... Os homens estavam estraçalhados e
sobre as pernas nuas e brancas de muitos d'elles
corria um sahgúé^0tihif... Guinchando, os cães
IJf^mB
morriam,estorcendo-se como possessos e atirandose sobre o cadáver do velho. Depois de muito tempo

. " — Não! gritou zangado Felicissimo. É\ enxotando' as aves. não/conseguiu. Correu outro homem em seu soccorro e com um certeiro e violento golpe de foice cortou o pescoço do animal.. alguns ftomcnf puderam apossar-se do corpo e o foram carregando para fora. Em revoada.CHANAAN^'' 283 de lucta. doloridos. de membros esparsos. Pega enxada! E o cearense agarrou . obedeceram.. Era só o que faltava. que os trabalhadores Jy/^^rt. O cão cada vez mais se enterrava pelas suas carnes a dentro. Não! Havemos de enterrar o pobre velho. — Mais funda! f< •*ty v+vfa>y£"*y . mutilados. picando-o com o ferro e tentando arrancal-o com as mãos. emquanto os companheiros os defendiam n'um esforçado arrojo.. Um d'elles cravou as prezas na coxa de ui homem com tal fúria que este. não esmoreceram / mais allucinados investiam.. começou a cavar a co mnlmrurando. seus miseráveis !. O terreiro fic#íf Uo^ alastrado de corpos decepados.m n'uma d'ellas e. Os que ainda restavam. Os homens maltratados. os urubus . deitaram no chão o velho. mas eram logo mortos.. j^Teram assanhados para o terreiro. O resto dos cães ainda arremettiam contra elles. avançando JoÚliC/ impávidos rfffd o cadáver. extenuados já lhes queriam abandonar... a cabeça ficou segura na carne da victima e das artérias „ rotas jorrava o sangue^/ J^a^i/uu>^ Não havia mais cães a matar.

que estaes no Céo. quando os trabalhadores da turma de Felicissimo se reuniram aporta do barracão. ouviram na matta um clamor.. acabrunhados em face da morte. quebrando o silencio bemfazejo. encheram a cova de terra. os urubus o desenterrariam... Faz dó vêr uma pobre creatura de Deus desamparada.. E Joca explicou: — Lá vão as almas dos cachorros. melancólicos. Depois. feitas catilús para desenterrar e resuscitar o velho demônio.. todos se recolhem medrosos. A' medida que o cadáver ia sendo coberto. rezaram. As linhas definitivas dos objectosae-infundíamos monta- . N'aquella noite..284 l//uJ« CHANAAN Assim. tristes. que só agora se lhes revelava. pensando nos cães encantados. Felicissimo ajoelhou-se e rezou:— Padre nosso.. a paizagem perdera o seu contorno exacto e regular. Ao amanhecer de um^dia'de nevoeiro. mudos. quando o catitú matraca no matto.. Em breve a cova ficou prompta e «-abafa enterraram o immigrante caçador. comido por estes sujos.. uma roncaria aterradora. remontavam os idtídyf um aum ás alturas secretas. sem ninguém n'este mundo. Era uma vara de queixadas que passava... Nas noites de tempestade ainda hoje. Formava-se assim um novo mytho no Rio Doce.. Dominados por uma compaixão súbita e extranha os homens rudes ajoelha/am-se e de chapéo na mão.

Estremecia n u m goso manso. para a cabana. a cabelleira das arvores fumegava. e extendendo o focinho. beijava o ar. o rio sem horizonte. como uma grande pasta cinzenta. vaporosa. abaixava-se. arregaçando os beiços. vinha distrahil-o d'aquella postura de curiosidade humilde. a cuja porta os seus tt^^° donos. ligeiramente azulada. arqueava-se. Não mais encontrava a nevoa. e acariciava n'um frio electrico o fád pello ralo e //r^ falhado.-I u. ligava ^ ' ao céo baixo e denso./ mente/dissipanarf/O sol não tardou a vir. e a na-™*'//''/etAsito. movia-se. O desenho «S^pagára^a bruma mascarava os perfis das coisas e o colorido surgia com a sombra n u m a sublime desforra. E sobre a campina esverdeada. affagava a herva. tureza se^sacudift/a nevoa fugiUjOcéoTeespannou «. com interesse. levada pela brisa. erguia-se e ^ / / l e n t a //'/. o miravam ^•«f^**-*. A mancha gp-sk? movei sobre a planicie{sej^efiniu)no perfil de um pobre cavallo que passeiava na verdura os seus olhos de velhice e fadiga. que fugira para os montes. como si fosse o imperceptível véo que envolvesse alguma deusa errante e retardada.—f e se dilatou "em maravilhosa limpidez. Por toda a parte manchas esplendidas se ostentavam. py^f (li& *" èMÁid a sua attenção de cavallo experimentado í^*****'* iffily fifMMjyâ. / / / O . A neblina leve. sensual e grato. os novos colonos magyares. Um raio . tristes e longos. veloz. aa. com os tumidos e negros beiços.CHANAAN 285 nhas enterravam as cabeças nas nuvens. uma d'essas manchas. sem limite. triturando-a com fastio e desanimo. De passada.

E os dois st. ennegrecidos. xÈUtâdffâfr rte do iiQoadw. seguiramZènt 2eíá4 ffl) <t™ com eítê para o roçado..y viram chegaxléfti o grupo dos vizinhos. O animal entregou-lhe a cabeça n'uma mistura de abandono e tédio. elles vão trabalhar. desamarrando o cavallo. Da matta carbonisada ainda resistiam de pé alguns troncos despojados.o dorso da terra. porém. O rapaz passou-lhe o cabresto e ^r levou"'ao poste fronteiro á casa. C-JUrfc ei* i+t**&> — Ainda bem.280 CHANAAN de sol.n . Chegaram ao aceiro $ $ / / aberto como uma 11'/ ) larga ferida sobre. irresoluta. caminhou para o cavallo. n iijripimbwu os outros. fazia-me dó vêr esta gente apathica. yfdfi o grupo » «w^ afastar-se vagarosamente. passeiando aquella hoi i. Milkau < e Lentz. Um dos jovens magyares. ruBiaeí/ — Mas para que trazem elles quasi arrastado aquelle cavallo ? perguntou Lentz. ' .filhos armaram-se das ferramentas de lavourá^Tcigano. Os colonos tinham resolvido principiar n'aquelle dia a plantação do i W prazo. Os . As xapaxigaS/â/fâfiffij/lffli (J tf-ij em casa cheias de instinctivo pavor. HtítL. era um sulco de alguns metros de largura. Meiguices da natureza. onde o amarrou. descera a brincar-lhe nos olhos e incendiava-lhe a pupilla. afastaram^um pouco e ficaram a . disse Milkau. que. e o velho deu ordem de partir $ para a queimada. sahindo de sua modorra e apenas armado de um chicote. circumdando a queimada. levando uma corda.

acompanhando os movimentos do grupo. N'aquelle sacrifício cumpria-se uma missão sagrada: ligavase á nova terra o nervo da tradição da terra antiga.sacrificaram aos deuses o velho companheiro de peregrinação nos brancos steppes. como para se libertar do flagello que lhe vinha do alto. E desapiedadamente. O velho. e no solo europeu renunciaram á vida errante dos pastores. Os saas-—• J\" membros se^extorciam. como arrancando-se de si mes. Continuava o grupo a caminhar. cujas raizes se entendem até ao fundo da alma das raças. abaixou-se. O velho colono segurou o animal pelo cabresto e / collocou-^io meio da valia. assim. E. conduzia a victima.n u m sibillo. O pae puxou o cavallo para a frente. Estirou o cavallo o pescoço para a frente.CHANAAN 287 distancia. puxavam-no para deante. a immolação ficou sempre no espirito dos descendentes como um dever. e a primeira vergastada. para lavrar o campo e buscar na cultura a satisfacção da vida.//»~ mo. pinoteou assustado. alongou-se. levando-o ao furor do açoite. seguida do cigano. em cujo rosto se recompunha a antiga expres- . cortando o ar. como um sacerdote. Os filhos puzeram-se de lado. n'um recolhimento religioso. De chicote em punho. Quando os antepassados tartaros desceram do planalto asiático. confrangidos sob a dôr /1**immensa. encostando quasi o ventre á terra. cahiu em cheio sobre o animal. Este. Novas lambadas W0$y 1/'' arremessadas por mão vigorosa. o cigano seguia atraz.

Cavos gemidos resoavam no peito da besta. que. Estonteou-o uma vertigem. O cigano mais terrível. pernas tropegas. e dajÀk garganta afinada irrompeu jdtídtâfdsonoxo. E o relho soava. n'um retrocesso harmônico e rápido. Mofino de dôr.288 CHANAAN são infernal e terrível dos antepassados. h 4L* " \ O ^ ^ * . emquanto o martyr ia lento. causava uma dôr fina. immobilisados. como torneiras de sangue. O chicote vibrava incessante. e a vista e o cheiro do sangue excitavam ainda mais a energia do flagellador.vabriagí mais fundos. E no seu olhar jMÊtàffl ' jade moribundo se traduziam os humildes protestos e os tímidos appellos de misericórdia. Os sulcos na 4n\~l carne se. fO chicote cruel e rápido marcava o compasso d'esse rythmo extranho. O ar leve e frio. o sangue escorria / frouxo. o canto de guerra dos velhos tartaros. O contagio do furor & anoderou">alos outros. regando a terra. assistiam/ao sacrifício. Veiu-lhe uma hysterica insensibilidade. Gottas vermelhas respingavam sobre a descoberta cabeça do velho m a •=*-• ^ §y a r ' d e u m a brancura de açucena. as suas pontas dè ferro cortavam o lombo do animal. seXdilatavam em languido goso. aguda. Os outros assistiam mudos á cerimonia. o cavallo proseguia arrastado. mais feroz. transfigurava-se. uma rudimentaranesthesia. produzido pelo singular efteito da paixão sanguinária. de pescoço estirado. uma assassina obsessão. As ss»s narinas y ^ u . penetrando nos fios dé carne viva. esvaindo-se pelas veias abertas. mas o açoite não parou. acerba.

Era a rejeição do sacrifício. como n'uma verônica. n'um coro infernal. A nova Terra juntava a sua contribuição aos límpidos ideaes dos novos homens.c*. embriagados pouco a pouco pelas phrases da musica. lisa. escorregadia como uma couraça. / via no ar..CHANAAN 289 E. resfo. que sorvido pelo sol se evaporava e dissol. tornava o seio da terra impenetrável ao sangue. Cessaram as vozes./ em torno do cadáver. Arquejante. A camada de argilla. morria vagarosamente. era a infinita tortura que o acompanharia além da própria morte.. legando n'um espaçado estertor. Poças e fios vermelhos manchavam o sulco. e no solo. lugubre. Nas suas pupillas de moribundo s^Tphotographararrfrf um derradeiro clarão as physionomias dos algozes. pela suggestão do rito. pelo odor de carne sangrenta. que se lhe guardara no interior dos olhos. 17 . — . impressa em sangue.loucos. E esta imagem medonha. o canto que feria asperamente o ar. como um peso inerte. Os homens seVagruparam **< .. e era o echo da melodia satânica da morte. exhausto. e afinal'se prostroi/f sobre a terra. O cavallo deu mais alguns passos. cambaleando como umallucinado. ficou estampada a imagem do seu corpo. o repudio da ' immolação. acompanhavam o canto. O açoite inexorável ainda o levantou uma vez. rompendo a cruenta tradição do passado. presidindo á dolorosa decomposição da sua carne de martyr. fogoso.Proseguia sem interrupção.*} /. cahira de lado. rezando como phantasmas . O animal.

a fecundação pelo sangue. cedendo tão somente ás brandas violências do amor?. e para que a tortura.290 CHANAAN — E para que? dizia Milkau comrriovido até ás lagrimas.. lhes daria os seus fructos. si Ella. risonhae alegre. como uma rapariga bella e fresca. .

que dia e noite ameaçavam despedil-a. acontecia. Maria. que já desde a véspera vinha soffrendo.. lho não flillldífl ffMt das mãos entorpecidas ylffffULcCras deixava cahir frouxa a enxada. para se furtarem ao incommodo do tratamento.' ce da crise.IX E o que tinha de acontecer./" ATt*^ ' . porém.. <*-—/ A dôr fora viva e passageira: e logo que a rapariga voltou u a si. /. assaltada por um grande terror. o corpo se lhe retorceu todo e o rosto desmaiado se desfiguro^ n'uma contorsão medonha.y l meiro movimento foi dV /se\recolhei^ á li o seu pni n n nhritrn H n m p c t i r n pencrar n rlpçpnlncasa e ahi. No meio do cafesal que estava a limpar. medo de affrontar a ira dos patrões. Teve. Cahiu pesada no chão. Resistiu e continuou a labutar debaixo dos pés de café. es'perar ô~dèsenla. e as pernas trope. O traba. no silencio do dia.. sósinha. no abrigo doméstico. como de uma violenta punhalada. sentiu repentinamente uma dôr aguda nas entranhas.

abandonou o serviço e. E ella combalida deixou-se pender sobre a terra. Ahi. Maria -$• amparava^ apertando-se com as mãos para suffocar o soffrimento extranho e vergonhoso que sentia. de aviltamento e seguramente em uma expulsão immediata d'aquelle lar desagasalhado. tinha ímpetos de gritar.292 CHANAAN gas. como si lhe dilacerasse o ventre. esforçando/fe por trabalhar. volumosas. Nos intervallos erguia-se. e a desgraçada. mas ainda assim um lar. esgalhando-se pelo chão. Tomada de medo. alagada em suor frio. os olhos indifferentes se entendiam sobre o campo e recolhiam a pom- . O aroma forte invadiu-lhe a cabeça. deixou o cafesal e gfe aventurou-para o lado do rio. No vão das dores. Maria sentouse debaixo d'uma d'essas arvores que n'aquella epocha estavam em flor. no terreno inculto e bravio. As dores inexoráveis proseguiam amiudadas. não se sustinham firmes. espantava-se dos seus inconscientes desabafos e tremia de pavor. clamando soccorro. sem mais esperança. as únicas arvores que havia eram esparsos cajueiros muito derreiados. mas logo era derrubada exhausta. Sabia bem que qualquer auxilio dos amos importaria em um augmento de tortura. viu chegada a hora da maternidade. afastando-se o mais possível da casa. De espaço a espaço a mesma dôr voltava. e contra toda a vontade gemia alto.desbastando o matto tecido ao cafesal. onde era mais deserto. pensando que a viriam acudir. Quando serenava. As vezes.

. Sempre as mesmas dores. os dentes batiam de frio nervoso. Tudo n'ella era desordem. Rasgavam-se-lhe as entranhas. a dôr Q fi» interrompeu de novo e o suor frio banhou-lhe o corpo. que vinha ao longe focinhando e escavando aterra. que jazia desfallecido e inerte.. E de repente sentiu-se mais desfallecida. O h ! peior que a morte. acabando n'um grito soluçidiái IJoàOf que se perdia n u m longo espasmo. dilatando-se á força. como estrangulada gargalhada hysterica. repugnante. Os porcos pouco a* pouco se iam approximando. sacudindo-a violentamente. o vestido arrebentando deixava vêr o colo nú e arquejante. o /' corpo lhe tremia convulso. Soffria muito.. A morte devia ser assim. Nada se movia alli na solidão. cahiam ennovellados sobre o rosto.. as mãos roseas cerravam-se como molas de ferro. a não ser uma manada de porcos. e^torcendo-se na agonia.. as faces tumidas estalavam de sangue.. Maria . abafadas. parecendo que se ia desmanchando n'uma humidade viscosa. &/ /eus gritos eram finos e estridentes e ás vezes resoavam asperamente.CHANAAN 293 posa phosphorescencia do rio faiscante. alheia a si mesma.. desprendendo-se... <)lovas dores vieram. Maria gemia livremente. e a miserável. até que arrancos lancinantes o agitaram outra vez.. os cabellos. Depois. ii entretinha^em acompanhar-lhes a morosa viagem.. agora mais miúdas. mais cortantes. quasi surdas.. dando-lhe andas de apertar alguma coisa contra si.

Uma vertigem turbou-lhe a visão. grito agudo.. Um vagido de creança Çjy^t^yjf yditifyflyyfd ffo roncos dos animaes. largando a arvore. E os animaes sedentos se enchafurdavam. queria afugental-os. chegando mesmo alguns *mais atrevidos./ J/f # ... mas as dores a retomavam. Um novo gemido sahiu do peito de Maria. longe da Terra. débil. enfraqueceu-lhe OS o u v !-eyJT rá° s > e n 'uma / ^ r j ^ f de bem estar parecia deliciosamente suspensa nos ares. attrahidos pelo cheiro que d'ahi ffv #/^yltídiíava. Subitamente. e só podia gemer estrebuchando n'uma Icvvrh. yjpyyd olhos desvairados não viam mais nada. guinchando. Maria. estrei/ ^i/i / tando-a com os níveos báços nús e mordia o ' tronco.^ez u m cançado gesto para apanhar o filho.espantados. yyyj que a cercavam. mas. remexendo as folhas seccas do cajueiro.. longe do soffrimento.. ouvindo no arfar dos porcos o resfolegar longínquo e adormecedor do mar.. que a estimulava 'fíáv^o extranhamente. Nos ouvividos entrava-lhe o resfolegar roufenho dos porcos. a lamber afoitamente o chão. 4-*\. despertando-a em sobresalto. imperiosas.. ameaçadores. i exangue. o braço morreu-lhe sobre o corpo.. nem mesmo tinha forças para um / . horrorisada. .. ella cahiu extenuada... mais vorazes.. atropelando-se no sangue que corria. Em torno fungavam os porcos. A mulher e^m. E ella (sè\agarrav/já arvore. mistura de/soffrimento e de^oso...294 CHANAAN abraçou-se ao tronco deitado do cajueiro. Os porcos/se\afastarar^i... /ngvl. E os porcos persistiam sinistros. cravando-lhe os dentes^desespexadayaá^w/ £/ Zs convulsivamenje.

quando Roberto e^*»«* /< . e Maria mergulhou afundada em outra vertigem. antes da audiência. Depois. alluci. y/^^j^f* !„*****. os proprieta. Devoravam tudo. hirta... escrivão Pantoja . Quando esta abriu os olhos.. Maria estava na cadeia do Cachoeira. sm*^^*" os ricos negociantes. sentindo-a socegada.jf nada. e yyndo a espantosa scena. sorveram o sangue e na excitação da voracidade arremessaram-se á creança. que vagia estrangulada'. mirou attonita f*. Brederodes percorria ' j~Lj.. * com .. A população germânica m^d/pj^/^^f m a noticia do crime. <átí//$$(. viu o filho aos trambolhões. fknjAlfado pelos ///éíòàfi*"porcos. e os sustentaculos da colônia./ | a creança. a dôr cessou. Itapecurú/$0^despachava7âutos com o /& /0<T'.** / t r *^ rios unidos tá agitaram^para a vingança e o exem.. filha dos patrões.jfsèm dddyy indagar retrocedeu á casa.0/-** do dr.CHANAAN 295 Jjf i e ella. os pastores. sôfregos.. que ás primeiras dentadas soltou um grito forte. em busca de Maria. quando um grande vácuo se lhe fez de todo nas entranhas. f -£~ Á.. / o dr. uns jornaes políticos da capital. deu um lü fa* salto ^fditfè e pondo-se de pé. que fugiam pelo campo afora. despertando a mãe. tremendos .jfc/~~ pio. espalhados no chão. chegava nesse instante. 'Í0- Dois dias depois. se precipitarairrsobre os resíduos sangrentos. livida. mei/consciente. se contorceu. ^yfyfflÊàfy tándo n'uma espontânea e communicátiva mal que a creada tinha matado o filho. Os porcos. ojkz. Uma manhã.

n'uma conversa. Assim. que também.costume? Ou. pensava o juiz.. — Senhor doutor.290 CHANAAN Schultz. E o magistrado ficou abatido. senão apressava.. o senhor manda. cheio de curiosidade.. não era cobrança. anniquilado. Não é.. deante de gente. Que será? pensava o juiz de 4Z. vem exigir o paga^jll/jLt-^ mento da minha conta? — Aqui. Entretiveram-se algum tempo sem pretexto.%^-ft-' direito. doutor Brederodes ? O promotor resmungou. que proseguia-^fa^rancos. entrou solemne..... — Depende.. Itapecurú presentia que Roberto tinha o que lhe communicar em reserva. — Seja bemvindo a esta casa. Algum despacho. m .j muito macio e delicado. o que me traz aqui. — Não. Não. que vem pedir. como de £» *****.. £</ . sorrindo estúpido e sem L*ty%5 propósito aos outros. Ha de ser a conta. Com esse ar de importância. quem sabe. Si fôr de direito. saudou-o com servilismo o juiz de direito. Não. vestido como nos domingos. / Itapecurú respirou. Não se atrevia a chamar o allemão em particular e demorava com geito o escrivão. longe ^m/T^y do assumpto.. não pede. Aqui estamos todos para servil-o. — Oh! meu bom amigo.. disse por fim Roberto já maéI -í I fado. não é para uma questão de autos. sacudindo os hombros. Itapecurú. O allemão cumprimentou a todos corn uma palavra amável para cada um. ficou nervoso. sinão não estaria tão grave... não era a conta.

senhor doutor? Julga V S. ' ' . accrescentou Itapecurú. que eu seria capaz de faljar á Justiça sinão de coisas (. acudiu Pantoja. — Ah! Então..y res jilwi uma fraqueza de coração pela sorte da L/ú ré. interrogou abelhudo o « maracajá ». que enrubesceu com a ' impertinente familiaridade... acariciando / o hombro do promotor. — Mas de que se trata?. não ha du/ . considerou o Juiz de direito. — Nem a mim. e a dignidade dos allemães exige uma licção severa.. eu venho aqui. ' — Oh! impossível. disse gravemente Itapecurú. e. — Meus senhores.. Havemos de examinar tudo com o cuidado que sempre empregamos em nossa missão. — O que nós receiamos é que algum dos senho. — Está claro. E em que termos está o processo. pedir a punição d'essa miserável que matou o filho. que o desarmou do monoculo. O crime é horrível. em nome da colônia. fitando o escrivão. Já expedi os mandados para a formação da culpa. Brederodes deu hontem a denuncia. sorrindo./ sérias ? perguntou o* allemão. capitão. que aqui não falta Justiça. Nós somos amigos velhos e nunca o senhor me pediu nada desarrazoado. A Justiça tem os olhos vendados. capitão? — O dr./ 17.CHANAAN 297 — Como. — A colônia sabe. espraiando as bochechas n'um riso grotesco... doutor e caro collega..

empenhando-nos para não haver andamento no processo.. — Mas como podiam os senhores abafar o crime? perguntou Brederodes seccamente. si nós passássemos a mão por cima. — Doutor Brederodes. O senhor. — E' muita petulância. observou Roberto... — Não denunciando.. arriscou o allemão. os precedentes.. E. si ficasse impune o delicto.298 ta '/ CHANAAN vida sobre a criminalidade da accusada ? pergunton' Itapecurú ao promotor.. Eu não digo... comprehende.. — Ah! — Sim. que o senhor Roberto e os seus patrícios nos têm aqui como seus creados? E Brederodes deu um violento murro na mesa.. que affirmam ter ella lançado a creança aos porcos. — Senhor doutor. Uma perdida... não prendendo. quasi esbor- . Os outros queriam evitar o desabafo do joven promotor. capitão.... que viu os autos? Brederodes não respondeu e continuou de lado a folhear os jornaes... Mas não ha de ser aqui que pegarão esses máos exemplos. S. que seria da moralidade das famílias dos colonos para o futuro?. V S. O filho lhe seria um trambolho. Imagine V. Este continuava a vociferar.. — Não pôde haver duvida. depois.... Ha testemunhas de vista....

fez-se de fina. creados. collega. Muito boa! — A nossa moralidade.. E' boa! — Mas não ha inconveniente. mas agora liquidaremos contas. Vem aqui á casa do juiz de direito um bolas qualquer. — O que elles querem é exactamente justiça! — Tartufos... — Si ha? Oh! esta miserável. porque enriqueceu furtando o nosso dinheiro.. hypocrisia. á& alvoroçam^todos para reclamar justiça.CHANAAN 299 doando o negociante. que procurava com um riso cobarde amparar a fúria do brasileiro.. que o povo. miseráveis. a mesma. que se apossam de nossas terras e enriquecem! — Então V. de pudica commigo... S. — Qual povo.. Aproveitarei a occasião para .. Qual povo!. Como viram uma das filhas apanhada com a bocca na botija.. Extrangeiros... replicou Brederodes... — Sim. mandões de aldeia. creio.... Que colônia?.. para desviar a questão. e como não ha remédio algum.. teve forcas de dizer o > allemão. Exigir que se cumpra a lei. exigir em nome da colônia.. e ahi está o que ella era. A moralidade de salteadores... conheço-a bem. m o t e j a m ! ^ ^ * ^ ^ — E' aquella ? perguntou)6maracajá}i Sá// ' d— Sim.. pensa que não ha crime no caso ? interrogou Pantoja... Ladrões. — Moralidade? Fingimento. qual nada..

quando ficararhN i sós. Que damnado!.. O allemão não dizia nada. quando. sou liberal. sahiu olhando com raiva a figura ffijfa edesmoralisada de Roberto. São simples revolucionários. Não sou o promotor? Exigências commigo? Não. Eu também admiro os direitos do homem.300 levar esse processo até ao* fim. mal apertando a mão de Itapecurú. isso não. — Tem graça! disse Pantoja. j/afybflf/fâjado pela cólera. Havemos de vêr. — É verdade. Não era alli que havia de confessar os seus rancores. Pensam que o progresso é a revolução. $H*#" o- CHANAAN . Nós gostamos muito de bolir com elle para vêl-o se. mas como magistrado sei dar a cada um o que é s^u.. Itapecurú.. Para mim todas estas allemãs matam os filhos. é a falta de attenção com os elementos conservadores do paiz. que ainda o quiz demorar. Este facto não é o único.. desmascarar toda esta corja d aqui. — Lá se vae batendo com as mãos. balançando o monoculo. falando sósinho. — O defeito principal dos moços de hoje.queimarr^ajuntou por disfarce Itapecurú. rapaziadas. fdfffderou o dr. querendo illudir a impressão deixada pelos desmandos da ira do promotor. Suum cuique tribuere.... que ia acompanhando da janella a marcha de Brederodes na rua. Pegou no chapéo e. commentava o escrivão. Não poude mais vociferar.

fez-lhe uma grande cortezia e foi sahindo. O juiz de direito suspendeu o discurso.CHANAAN 301 — E' o habito da justiça. que têm o / /^.... levantou-se.. já principiando a enfadar-se. Que pôde fazer uma sociedade sem ordem ? E a base.. Itapecurú sorriu da incapacidade do mudo auditório e continuou : — Onde está o elemento ? Nos senhores negociantes.y ^ colônia. Para elles a política é só destruir e botar abaixo. ia dizendo Itapecurú. seu doutor. impaciente. já venho. ainda mais que tudo aborrecido por ficar só. Pantoja acompanhou-o com passo sorrateiro. a justiça para todos. emfim. Os senhores jacobinos não comprehendem este principio admirável. — Oh! seu escrivão! E os nossos autos ? interrogou afflicto o juiz de direito. — Sim. — Bem.! que perder. Roberto. E não é maltratando-as. cortou o escrivão. Posso responder á colônia que não ha meio da criminosa escapar ? — A colônia sabe que pelas minhas theorias. onde Mifijdfo este salutar elemento? //<fr é"*"" Ninguém respondeu. Pois é pena. nos colonos estabelecidos. sem ouvinte. nas classes respeitáveis. E' preciso termos sempre em vista o elemento conservador do paiz. — Espere um pouco. Mas Roberto não esperou o resto. velhos e jovens.. retrucou o escri- . nos proprietários. que se /em /V*r*'' uma perfeita organisação social. aqui na . Por exemplo.

— E que tal o promotorzinho! disse na rua Roberto ao «maracajá».. sabe. e quando se trata de^castigar um insolente. os jacobinos. Não é ? — Que vá para o inferno! — Sim. — Então escreva. Que não faço pelo partido? Mas.. E não vá o governador não attender. — E o tal processo ? interrompeu Roberto... quinhentos votos só aqui nesta colônia.. — Maluco ? Canalha! vou já escrever para o Cachoeira armando-lhe a cama. Veja... Porque. Olhe.... O diabo é que esses jacobinos são muito fortes.. tem razão.. Todos se protegem.. foi esgueirando ao lado do allemão.102 CHANAAN vão sem se voltar. Basta a remoção.. a remoção do Brederodes... gaguejou o escrivão... — Donnerwetter ! praguejou o allemão. pedindo.. ha muito pedido do . Posso contar? — Oh! commigo o senhor sempre conta. — E.. em segredo... para o inferno. pelo menos. embaraçado. — Maluco. mudando de assumpto.. Muito entre nós.. repetiu o outro machinal e pensativo... — Tem razão. E «e.. E.. E logo proseguiu na lingua do paiz : — E boa! Os senhores querem o nosso auxilio nas eleições. que vive a g^insultar<Togemcom o corpo!.... eu mesmo vou escrever ao governador.... Uma irmandade. segredo.

como fez o sr. Realmente.. gritarão.. Os )s jacobinos de quem o senhor fala tanto. batendo com alarde no bolso da calça.. para que se calem — Pôde ficar tranquillo. — E' verdade.. E eu. — E o promotor? — Não viu ? Com a idéa de se vingar dos colonos. Além d'isso.CHANAAN 303 centro. — Não faça caso. A colônia não pôde abafar. — Quanto ao juiz municipal. é um senhor cheio de maisadas. Pantoja sorriu.. Benevides. E' meu... Brederodes. comprehendo. ' É muito sério. O juiz de direito. — Ah! a política! — . por toda a partejQs nossos patrícios haviam de dfj desmoralisar/Nada. continuou o escrivão. — Sim. posso dizer. é preciso um exemplo.. Dá-se um berro com elle. esse seu . é nosso. acompanhando o gesto. perseguirá a tal sujeita até ás ultimas.. esse... E depois.. Um imbecil. e tudo vae direito.. proclamou o negociante. nas outras colônias. c / / esse doutor Maciel. é um caso monstruoso. Que se diria? Que as allemãs do Cachoeira são umas perdidas e atiram os filhos aos porcos.. e mesmo por tolices pessoaes. E' cabeçudo.. que respondo pelo resultado d'esse negocio. coitado! já se sabe.. temos o Itapecurú e as testemunhas... em Itapemirim.

que móe a mandioca.. resto do antigo povoado. E' para a caixa do partido. Mas logo o « maracajá » voltou sobre os passos e gritou para o outro: — Ia-me passando.. perfeito. — Sim. . adeus. depois de condemtyfc llk ^"Z/ . que eram / ^ guardas '<? * effectivos dos detidos. O carcereiro ahi raramente yF I apparecia* tinham-lhe dado. Depois. As c j ' l-— paredes eram negras e as grades enferrujadas da janella quasi soltas dentro dos buracos da cravação. de cem mil reis... não esqueça a carta. em que ^ t ó # H # M ^ . Pantoja e o allemão se separaram. Não é para mim.304 CHANAAN creado. Entre presos e solda/«/*^t~ dos havia a mais relaxada camaradagem. hoje. baixou a voz : — Tenho precisão urgente.. ninguém discrepa. approximando-se. — Appareça. — Muito obrigado.. A cadeia do Porto do Cachoeira. Os accu**** sados passavam n'essa casa apenas como por uma estação durante o processo.. o emprego para remunerar serviços eleitoraes. era tal. Um corredor dividia a casa ao meio : de LÍj um lado fal a prisão e do outro o alojamento hdos dois únicos soldados. J vez a mais velha e a peior habitação da cidade. seguindo direcções diversas. Bom. já existente antes da colonisação. ajuntou pressuroso. concluiu com jactancia o cabra.. como é o habito no C^j paiz.

entrevisto tão bello no nevoeiro da vertigem. eram remettidos para as prisões da capital. de! jtífy. ^ de Maria. Trazia-lhe a / memória o quadro medonho. e apenas de longe em longe lhe vinham/vislumbres da exa../ cta noção do que tinha acontecido..-lhe o momento doloroso zm/flC/Oín*. se exaltava.^/^TOL' . acobardada. em /"*^ supplicas. dormindo sobre estrados de madeira.. vergonha.. mais calma. ao frio. e pela " '' crystallina claridade da sua alma desannuviada. por instincto de bondade.CHANAAN 305 nados. desprezo de si mesmo. era vida.ÁfcáL^ prehendeu logo. Com. em choros. até que de novo o torpor ' bemfazejo lhe arrebatava a consciência... á humidade e n'uma incrível immundicie ! Maria não comprehendia bem porque a prendiam. e AMÊ^ ainda assim fraca. que atraz d'essa accusação havia um drama. quasi a morrer. um tecido de cobardia. n'uma promiscuidade animal. A inrelligencia n'ella adormecera.. sem roupas.. de estupidez. E teve pejo de ser homem.. E ella . Mas o que soffriam esses miseráveis quasi sem alimento. tíld^fjf. de vingança. o lll'(/tiyu seu maior tormento era a desesperada anciã por seu filho. tão fértil nos humanos. /l/fz%t!L Tfítf JM0WI01 Milkau fy#0L da sorte .*. quando. que o divino sonho se desmancha ao sopro da mal. e de tudo o que . que os seus olhos uma vez tiveram a suprema agonia de vêr. E foi um rugido no seu coração. ^/debatia em gemidos de horror.*H../ / soffrenjjfesmagada pelo temeroso peso do mundo. Em « outros intervallos.

replicou seccamente Lentz. Na tarde desse mesmo dia.. esperando uma resposta...306 r CHANAAN dade. — Todo o homem está em causa. devo correr para o seu lado..... No dia seguinte. Milkau disse a Lentz: — Vou ao Cachoeiro por algum tempo. quando ha um soffrimento no Universo. — Não comprehendo.Tudo o que julgara como o doce convívio da bondade... a cidadesinha não tinha mais para elle o encanto d'aquella primeira manhã. — E que te leva lá? perguntou o amigo. A tristeza que . — Quem sabe da verdade ? — E quando não fosse innocente. como é o teu. E partiu j^r. a nossa colônia? — E meu dever. em que a saudara como filha do sol e das águas. esse soccorro.... parece-me. — E por isso me deixas ?. chegando ao Cachoeiro... — Não comprehendes ? respondeu Milkau com calma. do esquecimento e da paz não era sinão o baixo connubio de todas as vilezas sociaes. Abandonas os nossos interesses. escarneceu Lentz. Então não vês que essa desgraçada é uma victima? E desde que eu a tenho por tal.. o seu crime não seria antes a culpa dos que a repelliram e a levaram ao desespero ? — Mas tu não estás em causa. — A sympathia pelo destino d'essa infeliz rapariga.

Sobre as ruas barrentas. feitas ás pressas. colossaes. Tudo o que era natureza tinha o aspecto sinistro. dirigia-se.CHANAAN 307 trazia. q[ E. desolador. quebrando-se nas pedras negras. O rio. Milkau pediu permissão'para falar á p r i . tremulo. fervilhava o seu cachão ^ monótono. como para um povo apenas acampado sobre a terra. informes. e de ouvir a lugubre confissão do crime. A porta. impellido por im. er• guiam-se.. com receio de se vêr n'um instante desilludido sobre a innocencia d'ella. a gente grosseira e rude mostrava o ar embrutecido. o povoado parecia-lhe abafado e condemnado a uma irremediável angt^ja.' . na embryonaria e abor' f" tada cidade. olhando para o rio. e o que era humano. á cadeia. trágico. dolorosamente nús. fffjfiff/fí w**" 0t' n a s n n n a s inconscientes figuras deformadas de . viam-se estampadas a esterilidade e a aridez. de farda desabotoada. /**" seres monstruosos. agitado. Eram pequenos sobrados. mesquinho e ridículo.Todavia hesitava. sem arte. O único desejo de Milkau era estar immediatamente com Maria. petos confusos e irresistíveis. verdadeiros aleijões. Apertado entre duas linhas de morros. O sol infernal castigava sem piedade as habitaçS^s e sobre as rochas abrasadas. quasi sem água. vestido de soldado. um mulato moço. descalçadas. torturado pela ávida cobiça. E ahi.. desarmado/era o guarda da / j prisão. casas deseguaes. m communicava / a paizagem e toda a antiga maravilha d'esta se desfazia mysteriosamente.

de seductor. apprehensivo. Maria recebeu d'aquellas mãos e d'aquella voz um fluido de ternura extranha e de bondade nunca s^n^?da. qu cama. uma face livida. Ia por 4- " ^ <• ^ \ \. tacte# ando-lhe levemente a cabeça.^ ^ Ella curvava humilhada a cabeça.• • não é? disse Milkau. tremia . curvada _ como para lhe recolher toda a caricia. ' e nenhum dos dois por algum tempo disse uma palavra. depois. ^ sioneira. O homem. A compaixão foi crescendo em Milkau ao aspecto miserável da mulher. Milkau não espercKl^que ella falasse. l/flW*"%— Soffres jfòj<f>.8llo3 oo orguilrii o pnwir>ci .v 308 CHANAAN . quéjJ&Bíp' jr\J/* prolongado indefinidamente. mostrou-lhe d'alli. tinha-se apagado. . sem mesmo a*levantar da soleira da porta. 011a. muito branca. com a mão preguiçosa. muito assustada com a apparição. E nos lábios da desIfrtJf^ graçada chegou a abotoar um sorriso. Foi um goso subtil. de docemente feminino. O que fora n'esta de gracioso. sem olhar o "\\ n -/ homem. o corredor da casa e apontou-lhe o quarto onde ella estava. que ella. d'onde espiavam scintillantes olhos em que dansava a loucura. sorriso u/)^ infantil e humilde. e só restava uma triste carcassa.(õ^tou implorando misericórdia. Enixe». Milkau entrou.

Não eras tu. que o não deixava premeditar nas palavras e nos gestos.. como um ninho dou* rado.. ao poder mysterioso da bondade.. p sobre os joelhos d'elle descançou muda.. Mas isto vae acabar. Não é? são os mais culpados. Eu sei.CHANAAN 309 deante arrebatado pela sympathia. continuava Milkau. Estás tão fraquinha.../ > " * ' nimava.. As lagrimas seçcaramMhe instantaneamente. /^^ÊL Terás ainda tanta felicidade n'este mundo.. Milkau proseguia.. wk deixou affagar os cabellos tecidos. bem sei.. Não te abandono. Abandonada.... -fcai*..< e direi aos outros que a culpa não é tua.. Não. Tu sahirás d'aqui.. Haverá piedade da tua sorte. que levantar alli o espectro do crime ? E éÕffi se rea. -arrastado pela deliciosa anciã de confortar : — Foi n'um momento de allucinação. Instinctivamente hesitava em accusal-a. sentia sobre o corpo a morna humidade das lagrimas/^ //l^ ym****-1 — E preciso cuidarès de ti. e doente. ia surgindo a sua consciência ^^mf^^Âj^f'//Ê'gyyny*'~ j — Olha.. e pouco a pouco. á medida que falava..... yym não lhe via a face voltada Ht^.iJ%a«i para o chão.... Sim. Elles te perdoarão. E ainda a felicidade. mas.. dddil l/(y^~ inerte. confessando a sua terrível falta./JJn to... Era a loucura em ti. /Asubmissa.. J/aÊ. — Soffres. Para . Erguer o espirito.. forão elles os responsáveis. . Porque. fe/r Maria estremeceu. isto vae acabar.Jf<*. a fronte.. Tanta! H/fJ^f E sentou-se na uVjya' cadeira que havia no quar..edfA/ emmaranhados e seccos. puxando para si a cabeça de Maria.

Assassina. murmurou arquejante. ora crispadas se torciam juntas n u m aperto.. recuou para o fundo do estrado. sim. A miserável ergueu a cabeça ef^qlhandá/firme. — Desgraçada! Que te resta. Não me lembro bem. disse Milkau. .. meu filho. Arrancaram-no de mim para o devorar. tu.. — Eu? — Tu. Elles não te perdoam.... // CHANAAN perdida. — Não.. E com o gesto incerto o expellia da sua vista...... — Não. ' — Sim. Meu Deus! E as mãos. — Vae. Eu fico para «-salvar<affirmou Milkau obstinado.... emmudecéjdjl Agora era ella que falava... Milkau H^ÀMp se perdia desvai radamente. vae. Elles te pedirão conta de teu próprio filho.. querendo attrahil-a..310 '-/ ç . não. Não tenhas medo... aterrada.. vae.. é horrível! E os seus olhos pungentes e frios atravessavam os de Milkau.. si me repelles. — Não. confuso. N'um impulso frenético de arrancara confissão de tudo saber. que.. Oh! meu Deus. vae. ora. Não. — Meu filho... não quizeste (desgraçada que foste!) vêr o teu filho soffrer..... espantado.... pesadas.... comprimiam como tenazes a cabeça. Meu filho. — Que tu mataste.... como tu.. — Não... — Eu me compadeço de ti...

. anniquilado. Devo ficar. que não eras tu quando mataste teu filho. tomado de uma tristeza infinita.. A rapariga esperava submissa. mas apenas pairou um momento livre e logo cahiu vencido. quando te viste desamparada. insistia Milkau. disse com uma voz imperceptível.. eu te peço por tudo que amas : dize-me que' estavas louca.. disseste.. Calou-se pensativo..... — Maria. deixe-me.% Maria ficou acobardada. 0 seu ^ C& espirito frágil debateu-se ainda para luctar... Vergonha...CHANAAN 311 — Assassina ! Meu filho ! Oh! Porque me vem perseguir na minha miséria? O h ! Deixe-me.. murmurava suffocada a pobre. Has de me dizer tudo. recomeçou elle com uma voz f]$/Ju Í0í. — Deixe-me.. Deixe-me. Dize-me. aós pés do dominador. É para o teu bem... perseguida ? Porque ? Não confiavas em mim ? — Tinha medo. — Porque não me chamaste em teu soccorro. .. quero... — Natureza humana! Vergonha. e humilhado m arrependia^do seu transporte inconsciente. Fico.. — Vergonha! E por isso. — Quero saber.... sentindo a enexgiiy ddd HJ ^ cisão com que foram ditas essas palavras. — Não. A cólera de Milkau abrandara em presença d'esse desespero.. E ..

— E depois? — Ouvi ao meu lado a vozinha d'elle. . (íurvóu-se outra vez so•. Estes fragmentos de phrases eram bastante para aclarar o espirito de Milkau..£ e mou. elles o carregaram... um roncar de porcos em roda de nós.. Elles te accusam... — Quando foi.. miserável... — Vem ! Escuta ! A essa voz. j^. Pensei estar morrendo.. responde...... p bre os joelhos d'ellef i fsf^í na infecta e tenebrosa ^í?"'prisão. — Mas. -ti— E os porcos. Depois.. Chorava ! Meu Deus! Depois.. carinhoso e terno.. teu filhinho?. comendo.. e a espantosa scena se lhe representou exacta na imaginação 1 aguçada pela sympathia. e foram. dócil e abandonada.. Uma vertigem te derrubou. E então. Ella obedeceu. illuminado de todüj /oV^... os dois desgraçados foram recompondo tudo lugubremente : — T u te sentiste desfallecer.... eeu não matei ninguém. Anda. egues.. chamou-a a si... — E quem matou ?. ella se approxi.. cheia de meiguice. Pensei estar tão longe. m fjfc*0fc 0..312 CHANAAN por isso mataste teu filhinho. supplicou angustiado Milkau... gritou n'um feliz.... comendo.. fy/ ' — Nao nt Elles são máos..

— Meu filho! — Perguntaram-te por elle. pxfsioneixaf. O sangue corria... amaldiçoada...... 7>*4Y-cSY?e* .. IS irdi qeixflvajn 18" _^_.. -j^encaim^Y -*£5~' tava-*em sondar essa alma primitiva........ — Chorava aos teus pés. Que me resta ? — A innocencia.. * • * * . Fazia-1. lia a/m lei. á doçura do amigo. rica d | 4 * emoção e de bemaventurada ingenuidade.. ficava17***»-^?#k deliciosamente esquecida do próprio infoFfunio| / ^ u T'r> Por sua vez.. elle. Desde aquelle momento á vida de Milkau Jfs\ transformoii... "• — E agora. presa á voz. $yóÚL L/ fala... [desgraçada... Todas as forças do seu cc ração votou-as á defesa e salvação de Maria. Não te escutaram. nos dentes dos porcos.. vendo-a diariamente. .. Accusaram-te. px sioiiei daãd de entr IU1Í [aria / chegou a se *1? sentir feliz na sua misérjr Longos momentos ha ")^f via em que. prenderam-te...... — E os porcos. — Arrebataram-na.de ndvo. r ao desamt imju<flad is-v isit. aos pedaços.CHANAAN 313 — Vieram. — A creança. Fala. — Meu filho! — Tu despertaste e viste ao longe teu filho ensangüentado. a creança. Nàfl^-^^jSb..

. *~—N Na cidade.. á mulher que! y/f ' lhe matara o filho. engulidos pela treva insondavel... as mais indignas conjecturas..J çados pelos ventos. Todos o evitavam. IJ^Kíiu ^acompanhavam d/M extranha conducta. Forma/' ram-se alli. balan. Acreditou-se que era elle o amante de Maria. I . e a sua vida de peregrino no mundo. sumir. erravam nas pequenas cidades do Rheno e resuscitavam lendas. sempre atraz. a passarem sinistros para se \ mergulhar. E ella./a principio com curiosidade.314 CHANAAN conversas. como sombra. e I um ódio collectivo não poupava d homem. onde ha fome. Ora. nas grandes cidades tumultuosas sem piedade. Outras vezes.. ^ E ainda no mar glacial... sem saber porque. Ora.. arrastados pelas tempestades. que se fíl dd' * J r a v a a m < ^ a ' talvez como cúmplice. era tratado com desdém.. não contava. seu correspondente para os fornecimentos da colônia. esclarecido vagamente . lia-lhe ijy poemas. de que ella não percebia bem o sentido. no mar.. como se formariam em qualquer parte do mundo. Milkau começou a ser notado. fydt 6n_ m a s a c u j a mysteriosa musica ^ f e t ó ^ c h o r a n d o ~fom&c*y» perdidamente.. e brancos navios avolumados na phos\ phorescencia da noite. em casa de Roberto Schultz. Ora.\ pela lua. Tudo ella ouvia com sofreguidão. 1 f bifa 4"*rgV . Ora. narrava-lhe sempre as suas viagens.. vj. depois com rancor.. sempre o seguindo. acompanhando fielmente os casos por elle praticados ou conhecidos. subiam aos Alpes gelados e guardavam nas pupüjas as cores maravilhosas do sol a morrer.

e na boccauhe\morri/Jüm nenu. irticipava do preconceito da cidade. na sua superioridade axno-df/f**^ rasa. mudo. para o Juizo. compadecido. ^ W ^ ///Wb*re\ transfigurada.a ser o inimigo commum. passeiava solitário pelos arredores do po-' voado. gelado. De volta de uma d'essas caladas excursões. Ao longe ella se foi perdendo.» alojou-^ho mesmo hotel em que ffdwf Milkau. e á claridade do dia a sua lividez era cadaverica.<a-~ phar branco. • soldados. que passava. não procurou detel-o.. entraram uma manhã na cidade e viram um movimento desacostumado na rua principal. As portas das lojas e nas calçadas a gente do logar e os tropeiros e colonos do centro seguiam pasmados um grupo. Milkau abandonou Felicissimo e . ladeada dos dois . Era Maria. jfê. a isso. Dias depois Felicissimo chegou ao Cachoeira e . na sua força. repellido pelos jtuiyMy quando não ia á cadeia..resignou.. apagando-se. Depois da primeira audiência seguiram-se outras.. humido. /y/fl/t/id**/ O cearense. Milkau commovido...p>*h CHANAAN 315 fMíylMtí. e. os olhos postos no chão tinham grinaldas roxas. que ia responder ao processo. O agrimensor. E assim. era o companheiro de Milkau nos )asseios e com inquietação amiga observava-lhe os silêncios profundos. deixou passar aquella visão que lhe parecia o phantasma da Innocencia levada para o martyrio.** precipitouTno encalço. . com a sua Índole franca e bondosa..

com uma inútil cordura..imaginava"no deserto. pela superioridade moral. — Que foi? perguntou Milkau interessado. dirigindo desprevenido e intelligente o processo. de raça. Apenas via um ser egual. muitas vezes. As testemunhas depunham contestes contra Maria. O pequenino Fritz. que tratava sempre com sympathia e ás vezes com respeito. ffJe/J^J encontrou Felicissimo muito sobresaltado. pela sadia intelligencia. Quando estava deante de outro homem. esse homem lhe inspirava tal sentimento. Não era seguramente a posição do magistrado que o attrahia.Cachoeira $7/fôí ffcdzfijtfftjfàt sem alteração para ú****''4' Milkau. A trama estava bem tecida e fatalmente a accusada não poderia rompel-a. Maciel s* entretinha^muito á vontade com elle. quando. — Uma desgraça. Os dias d'essa acabrunhadora vida no Porto do m . — Que desgraça! que desgraça! foi lhe dizendo abrupto o cearense. Por seu lado. Milkau 9*. o filhi- . <Myi$ftf voltando da cadeia.. de fortuna. depois de acabado o trabalho.316 CHANAAN a que Milkau não faltava. o seu espirito eliminava todas as separações que vêm da sociedade e instinctivamente não conhecia as vãs distincções de posição. Milkau achava o juiz municipal uma esplendida natureza e o ia estimando. pelo soffrimento augusto. uma tarde. A persistência de Milkau tornava-o um familiar das audiências e.. '. Pedro Maciel era o juiz da instrucção. de família.

Este tinha o ar trágico de um satyro em dôr. o esmagamento tinha sido no thorax. E atraz d'elle uma voz lhe pediu : — Veja se dá um remédio para a salvação. e o cabra sentia-se 18. mais abaixo. de animal.. Fui chamar o medico. e volto para lá. Os pães lh'a confiavam a passeio. A noticia se tinha espalhado e muita gente apiedada viera agglomerar-se ahi.vinha á cidade. Em casa d'elles. O pae vagava a tremer pela sala. não duvidando da morte. parecia não lhes caberem mais. devorando-a com os olhos.. confusa. — Pobre creança! gemeu Milkau. n'uma dôr sombria. a creança morria. deitada em uma mesa. O pequeno Fritz agitava de vez em quando os bracinhos. A mãe ainda joven debruçava-se sobre ella. atordoado com o desastre.CHANAAN 317 nho de Otto Bauer acaba de ser esmagado por um barril de vinho no armazém do pae. a casa estava em alvoroço. Milkau voltou-se e fitou Joca. Pelos cantos da boquinha escarlate sahiam espumas de sangue. A cabeça estava intacta. A creança era o carinho do tropeiro quando eààe. Quando chegaram. de tão dilatadas. apontou Felicissimo. — Vamos. — Que horror! Pobresinho! E onde está? — Alli. Os olhos azues « r arregalavam" desmedidos e as pupillas immensas. . Ouviam-se lamentos e choros em roda. invadindo com a familiaridade da compaixão o aposento onde. entregavam-na aos seus desvelos quasi maternaes. estrebuxando.

Viu o que estava praticado e. a vida só nos olhinhos limpos e de uma scintillação . Pouco a pouco o silencio em que estavam e a fadiga do coração foi ddvfwdifHfid e adormecendo a quasi todos. desenhava'fugitivamente o vulto de uma velhinha. de uma transparência vitrea. quasi extincta. morreu o pequeno Fritz. a bisavó do pequenino.. Milkau ficou sensibilisado. de uma cabelleira farta . baro molhada de lagrimas. muito silenciosos. E. fez com auxilio do tropeiro alguns curaf^ tivos. sinistra. quando o trazia nos braços de loja em loja ou quando lhe dava.318 CHANAAN desvanecido.. O medico não tardou. Na vigília da noite eram todos os que guardavam o cadaverzinho. Não ha mais nada. A mãe de Fritz também fechou os yy oLl/ja. tomando uma expressão socegada e feliz. Era uma bella mulher. Depois. IJ^yr 7. feliz. De fora $$fjd pelas janel-tu. olhos e o somno lhe foi vitelo ao tempo que a respiração offegante moderava e as cores ruIIjiji b r a s das faces inchadas se iam dddddndo até uma </&s"r*JU' pallidez absoluta. a physionomia serenou.divagando em scismas. a mão na rua para ir ensaiando os passinhos vacillantes.. e/sem a menor espef ^ I rança..-u> Ias abertas o doloroso mugido da cachoeira.. incorporea. » vendo aquella face de homem primitivo e barf I /. jtAíy frouxa claridade das velas mortuarias éa.. sacudindo a cabeça. murmurou : — Era o que se podia fazer.. com o cuidado de uma ama. nas tenebrosas torturas da meningite.

..CHANAAN 319 e negra. E' a dôr deante do inacabado. E os que morrem sem ter vivido. os que foram apenas esboços da existência. fffjfyijp uma pungente dd^J/Ke^ tortura vendo essa mãe bonita e moça dormindo a sorrir.// dj/jjídhfdMfo os outros.. dos templos onde passara e onde sempre os altares d'Ella attrahiam mais os corações das gentes.. illuminada por uma lâmpada. família catholica «agdapanlava. E. Tudo n'ella //*&«*-„ exprimia saúde e força. uma hospeda extranha e importuna. que ia insensivelmentetí/J f//^ íÁdddyabsorvendo todos os outros?.. yztTl formidade entre o gênero humano e a mulher. exaltar as deusas. ¥~- /tW^" . ™ u oda a noite passou Milkau a confortar a família. Não viver...íembrava-se das cathedraes. .. ficavam ffll **/Tj quasi desertos.y. presidia a morte.. fUvédmr^ii. com um perfil delicado e fino. as santas. Os que ainda l*df* /&w alerta a contemplavam. voltada para o filho morto. do que nos ia completar.. de muito longe. mesmo os'do Christo. não vinha acaso de longe. E porque ? Talvez pela maior con.A.. No canto da sala uma imagem de Nossa Senhora. e a dôr IM \jdfcfflmyy $$fd como como y y y. scismava : — E' dolorosa ainda mais do que as outras a morte de uma creança.. Elle estava também esmagado e abatido. E Milkau reflectia deante do admirável symbolojXiínhaa impressão de que todo o culto se ia restringindo em torno da Virgem Maria. não estava agora em plena culminância no culto de Maria. E CL^T essa tendência universal para divinisar. quando olhava o mortosinho. do apenas ensaiado..

. puxava o prestito. Foi um luto geral na povoação espantada com a catastrophe : às escolas «ç fecharam-^e grupos de meninos vestidos de branco se enfileiraram. nós também morremos um pouco n'ella.s auctondades brasileiras ssaasaj». em que o povo vinha sorumbatico e lugubre.320 CHANAAN deixam-nos uma piedade torturante. Toda a gente da cidade. Quando morre uma creança. em viagem para o céo. Quando deixou a rua á margem do rio. ~^ A manhã era límpida. excepto Bre. ruido e musica alegre. No outro dia foi o enterro.I /(z^r^fj derodes. estava Joca. ruidosa. lavada e azul. mesmo os inimigos e competidores do l//' ~fé/T. que carregavam o esquife. Uma banda ' de musica alegre. participava de um mesmo pezar. a m i r a r a / Z i£ j —/ Wyddjdo o seu amado menino vestido de m a r i / ZT^ nheiro e embarcado como n u m brinco infantil n'aquella gondolasinha dourada e vermelha. n'uma espontânea unidade de sentimentos. porque ahi morre uma illusão nossa. 1 u e t r a z i a m flôres^jtó^ídy^íd^ coj / Jf. desenroi lando-se pela rua principal do povoado.P a e ^ e Fritz.. o enterro . que não perdoava^ao extrangeiro nem// ira/t* /mesmo nad^s^raça/Eji maTcha iã^n^ssaTnistura de amargura. Entre os \ /«. os armazéns também-cessaram o trabalho e de todas as casas e lojas vinha gente encorporar-se ao enterro. tornando a tristeza collectiva. como nos enterros de anjos. alongando o cortejo.

á prisão chegou primeiro matinal e alviçareira a musica... cavernosas... ia vendo o enterro do próprio filho. attraJ/IH^if^ hida !>(/>/JJjifóf. e Maria.. mas tão persistentes. ia ouvindo. na sua sensibilidade desvairada. tomado de uma compaixão infinita. Ella ouvia agora. a bocca •' cerrada. unida *&*" na piedade como no ódio. Os mais.. E despercebida.. Da multidão.. apavorados e rancorosos. desviavam-se da figura n infernal da desgraçada. A colônia passava. tão terríveis que dominavam os cantos dos instrumentos. ficara hirta. n u m a contorsão. veiu á grade e il poz-^a mirar. levado pela musica macabra do resfolegar dos porcos. Com • o rosto descomposto. só Milkau olhava para ella. que tudo ignorava. os cabellos pendentes. . Lá... Ainda alli na morte passava o triumpho. confundidas na harmonia dos sons.... o seu olhar de allucinada sahia violento "%•' pelas grades da prisão e repousava ardente no morto.. què ficava perto do cemitério. a victoria da força e da felicidade... Vinham de longe. E Maria. agarrada ás grades. outras vozes abafadas. O yjfjn enterro dmlU.CHANAAN 321 tomou a direcção da cadeia. do desconhecido.. y/J / noe/ sentiu uma íifyf-í claridade n'alma com aquellas 11/ **** caricias do som ímmortal. títiM marcial e solemne. Maria If-jy^" t espreitava..

tinham o perfume da liberdade. disse o magistrado. — Como ? Está convencido da culpa de Maria Perutz ? perguntou Milkau inquieto. Apenas lhe explicdjque. pelos depoi0_/ . dignas de homens. que se sentia separado /de todos d'aquella terra. fora elle tão feliz e fecundo. esses momentos eram sagrados. Ad^ttt^cúj ifcara Maciel. e jamais. logo que se encerraram no escriptorio. depois que o doce veneno da duvida lhe corrompera a alma. depois das audiências do processo. a amizade se ia formando entre elles. agora. — Meu amigo. sjgdaaatast». arrastava Milkau diariamente á sua casa e em longas e nobres palestras. respondendo a uma pergunta de Milkau.X Paulo Maciel. — Não vejo meio de evitar um máo desenlace ao processo. não estou convencido de coisa alguma.

encontra no nosso systema de justiça. O processo é feito de tal maneira que tudo vae em perigo. Que exprimem as minhas sentenças sobre a verdade dos factos ? Nada. foram industriadas para essa desgraçada -conclusão...CHANAAN 323 mentos. interrompeu Milkau. a pronuncia é fatal. que sou juiz. E si esse homem é um potentado. — Um paiz sem justiça não é um paiz habitavel.. — No mundo inteiro a justiça é uma illusão. não ha lei. ha n'elles tal tecido de mentiras que tenho de capitular E' de desesperar. cortou Milkau. é uma agglomeração de bárbaros... e ninguém está garantido.. — Mas as testemunhas. si aqui um homem entender m apossaria propriedade de outro.. concluiu. vêm insinuadas. f — A quem o diz ? E' sempre assim entre nós : não ha um processo em que se possa fazer justiça. Nem eu mesmo. .. pela prova dada. Não pense que não desejaria reagir.. Digo-lhe isto eu. è a condemnação. — Mas no Brasil a situação é ainda peior. continuava. Olhe. no modo por que se faz o processo. apoio para a sua intenção.. affirmou Maciel no seu pendor para generalisar. porque não se trata de raros eclypses de justiça. quando recebo uns autos. não é ? — E' horrível!. ninguém o pôde embaraçar. Mas é inútil. — No Brasil.

mudando de ponto de vista. de desabafo. si aqui dentro estamos na desordem e no desespero? O que se dá no paiz é uma verdadeira crise do caracter. Os urubus ahi vêm. Não ha uma virtude fundamental. assegurou Milkau. que chamamos nação. explicou Milkau. mas hoje está tudo acabado. da Europa. E' um cadáver que se decompõe este pobre Brasil.. ficou pensativo... ouvindo o joven magistrado que proseguia n u m impulso de confissão. não ha um fundo moral commum. que é a mais rudimentar e instinctiva.. Onde está. — SiVn. dos Estados Unidos. meu amigo.324 CHANAAN Milkau. repito. Posso accrescentar mesmo : não ha dois brasileiras eguaes. Como poderemos nós subsistir desta fôrma em que vamos ? Onde a base moral para mantermos a nossa independência no exterior. — De onde ? — De toda a parte.. aqui já houve.. não é" nada. — Isso.. Aqui. a nossa virtude social ? Nem mesmo a bravura. nós a temos com equilíbrio e constância. sobre cada um de nós seria futil erguer o quadro de virtudes e defeitos da communhão. — Um caracter de raça. — Não creio.talvez uma apparencia de liberdade e de justiça. A valentia aqui é um .. e de um modo superior. a raça não se distingue pela persistência de uma virtude conservadora. E' a conquista. — Virão. sem dizer nada.

Note que os poucos patriotas que temos.. Collectivamente.expressão d'uma larga e generosa philosophia. replicou a este n'um tom mais decisivo e Vibrante : — Tem razão. proseguiu depois Maciel. Veja as nossas guerras.. são ainda homens de ódios.. /Milkau. não que seja a ^. ponderou Milkau.. O juiz reflectiu e. ha\um cosmopolismo dissolvente. 'í.. E a falta de homogeneidade será talvez a maior causa deste desequilíbrio. desbruçando-se um pouco sobre a mesa. mas simples symptoma de inércia moral. emfim logicamente selvagens. inutild o s y t e máos!. ve tempo em que se proclamava r a nossa ade. voltado para Milkau. de sangue. de ita cobardia nos enchem a lembrança!. indicio da perda precoce de um sentimento que se devia casar com o estado atrazado de nossa cultura. / Calou-se./ CHANAAN 325 nes pulso nervoso. No Brasil a grande massa da população não tem esse sentimento. a nossa bondade. tão hystericamente./que ha profunda disparidade entre as varias camadas da população. interessado n'esta analyse franca de Maciel. desta instabilidade. fitava-o com immensa sympathia. O aspecto da sociedade brasileira é uma singular physionomia de E 19 . — Não ha duvida. — Repare o que se passa com o patriotismo. como familP' somos tão máos.. aqui. como levado a tristes recordações. compadecido das torturas d'aquella alma ' de brasileiro.

. os militares. da idealisação das massas incultas.326 CHANAAN decrepitude e de infantilidade. invadia o aposento. encheu-lhe os ouvidos de louvores á natureza. e do eáfgommento â/> I I raças acabadas. sem se mover do seu logar. Milkau. E Maciel voltou-se: f . gentes. são os funccionarios. que se pôde esperar dos sentimentos. r é um mixto doloroso de selvageria dospovos q$ç •d H. Si a sociedade é urna obra de suggestão. e seu apego ás posições e ao ganho? E não é só o governo.despontam para o mundo. mansa e suave.. e poz-se a mirar absorto e vago a cachoeira. Levantou-se muito nervoso. Ha uma confusão geral. sociedade e não encontram resistência \ de nenhuma instituição. horrivelmente deformados. ao ideal. tudo n u m declive em que se vão resvalando. quando a imaginação d'ellas é deslumbrada pejlo espectaculo da mais desbragada perversão <ljgs governantes ? Que reacções sobre cérebros obscuros não provocará o desamor d'esses conductores das. o clero. A decadência a. E'a magistratura subserviente e apparelhada para explorar os restos da fortuna priva-la. ás coisas superiores. A correntes da immoralidade vagueam sobvda. Uma tal nação está pxcÇ \ rada para receber o peior dos males que pôde cahir sobre o mundo: a geração dos governos arbitrários e despoticos. abriu a janella que dava para o rio. emquanto a claridade da tarde.

não sei. disse elle. A peste se apodera do corpo miserável da nação. tudo . E por quanto tempo. Maciel (seNcontevj com esforço.. procurando perpétuas e incessantes combinações de ser. Parou. tudo se mostra grandioso ou ridículo.. Por outro lado. Ou melhor. E quando ia seijdo arrebatado pela expansão dos seus mais Íntimos anceios. tando com os olhos vermelhos e humidos o extrangeiro. — Não quero diminuir. e como resumindo todas as suas decepções e anhelos. murmurou n'um desalento : — O meu desejo é largar tudo isto. e com os meus ir viver tranquillo n'um canto da Europa. terrível e formidável.. ao menos até passar a crise. abandonar o paiz. é também um pouco uma questão de perspectiva. A família vae sendo demolida pela força imperiosa dos vícios. esse terror que nos vem dos acontecimentos presentes. O clima.... A Europa! Sim. campos desertos d'aquelle coração. a exactidão dos seus conceitos.. ficou repentinamente mudo. A Europa. Mas lembre-se de que não ha sociedade sem abalos.. temos a benignidadedacalmaeatranquillidade da família.CHANAAN 327 — Ainda é uma vantagem viver-se na roça nesta hora tenebrosa.... e as palavras cahiam frescas e consoladoras sobre os.. que não ha nada fixo e eterno : tudo vae de passagem. Milkau falou-lhe com brandura. Quando estamos dentro d'elles. expatriar-me. tudo está sempre em crise. Ao menos.

de dominados contra dominadores. E Maciel também sorriu. Todas as revoluções da historia brasileira têm a significação de uma lucta de classe. desde dois séculos estes luctavam por vencer aquelles. e não podia ser de outro modo. si a forte e imperiosa sensualidade dos conquistadores não se encarregasse de demolir os muros da separaç ã o ^ não formasse essa raça intermediária de mes- . Deixa que lhe /aça uma imagem ? E' assim como si estivéssemos no mar. mas aqui se passa uma verdadeira tormenta. \e nós começamos a louval-os. porém depois que o atravessamos e o olhamos de longe. sob a fôrma de senhores e escravos. w ^ . Desde o principio houve vencedores e vencidos. Do que tenho observado e adivinhado um pouco. O povo brasileiro foi por longos annos apenas uma expressão nominal de um conjuncto de raças e castas separadas. parecem normaes e suaves. tornando-se subitamente jovial. festejando a metaphora. no meio das ondas e dos ventos : o espectaculo do oceano enche-nos a alma de terror.. — E' natural. mas no futuro elles minguam á força de distancia. replicou. é "ella conseqüência da primitiva formação do paiz.. E isso se manteria assim por muitos séculos. yid^r 328 JAAN CHANAAN í parece ir acabarn'umadesâggregaçãoirremediável. as ondulações das vagas são como um leve sorriso... — Muito bem. como uma engenhosa e \ admirável expressão dos melhores tempos\ que são sempre os passados..

a revolta não foi mais do que a desforra dos opprimidos. que se conformando melhor com a natureza.. que fundaram desde logo instituições destinadas a permanecer algum tempo.. Os que tendem a nos governar. •— Bravo! applaudiu Maciel.. O Brasil é.. e que. e sendo a expressão das qualidades médias de todos.. afflrmou Milkau. d'elles. e depois. pela sua própria força de gravidade. n'uma harmonia momentânea com os instinctos psychologicos que as crearam.. Era preciso esse choque do inconsciente para se fazer o que se buscava desde séculos por outros meios : a nacionalidade. Perfeito. são desse mesmo typo de mulatos.. e que nos governam com melhor acceitação e êxito. com o ambiente physico..CHANAAN 329 ticos e mulatos. também gracejando.. foi ganhando os pontos de defesa dos seus oppressores.. commentou o juiz. que é o laço. Era preciso formar-se do conflicto de nossas espécies humanas um typo de mestiço. ^/ Paulo Maciel 0 deteveriam momento. . augmentando cada dia. a liga nacional. — Vejo bem que é isso mesmo. Reparemos que Pantoja não é um caso isolado. Equando o exercito deixou de ser uma casta de brancos e passou a ser dominado pelos mestiços. emfim. fosse o vencedor e eliminasse os extremos geradores. Está ahi a explicação do triumpho e do prestigio do nosso " Maracajá *' — É o representativo.

Brederodes. Não são os donos da terra?. tangido pelo escrivão. A crise da cultura aqui é motivada pela divergência dos estados de civilisação das varias classes do povo.. Si eu tivesse algumas gottas de sangue africano. Tinha razão ? Faltava-lhe a gotta de sangue negro para que tudo n'elle se equilibrasse ? — Vê.. emquanto aquelle joven de uma intelligencia mais fina... de uma sensibilidade maior e mais distincta.. Pantoja. com certeza não estaria aqui a lamentar:?: O equilíbrio com o paiz seria então definitivo. toda a trama da historia é um processo de fusão : só as raças estacionadas. E preciso um pouco mais de identificação. meu amigo.330 CHANAAN emquanto olhava para as mãos brancas e longas.. vencido pelos outros. isto . representou-se no espirito de Milkau como um resumo bem claro de todo o paiz. O pequeno mundo da colônia. Isto não se pôde concluir dos meus pensamentos. Não ha raças capazes ou incapazes de civilisação.. continuou com um sorriso irônico : — Não ha duvida.. Porque não nasci mulato?. sahiam fatalmente do núcleo da fusão das raças... estes não marcham firmes e seguros?.. era anniquilado. — Oh! não. Todos os nacionaes que alli dominavam. E' fatal.. não ha salvação possível para o nosso caso. disse Maciel negligentemente ... é uma incapacidade de raça para a civilisação. como dolorosamente já se está fazendo.

fique certo. cobiçosas de felicidade. Como vós. porque já houve o toque divino da fusão creadora. E Milkau disse ao brasileiro : — Essa Europa.CHANAAN 331 é. porque nada passa inutilmente na terra. sejam brancas ou negras. a epocha dos mulatos passará. nem a aspereza dos cabellos. E no futuro remoto. E no Brasil. as que se não fundem com outras. — O paiz será branco em breve. acceitando com reconhecimento o patrimônio dos seus predecessores mestiços. a civilisação não teria caminhado no mundo. de vida. ella está no/ . para voltar a edade dos novos brancos vindos da recente invasão. a cultura se fará regularmente sobre esse mesmo fundo de população mestiça. de cultura. para onde d'aqui se voltam os vossos longos olhos de sonhadores e moribundos.. Nada mais pôde embaraçar o seu vôo.. nem a côr da pelle. Não a temaes nem a invejeis. Si não tivesse havido a fatal mistura de povos mais adeantados com populações atrazadas. pela força inútil dos seus exércitos. as vossas cançadas almas. essa Europa também soffre do mal que desaggrega e mata. suspirou Maciel. se mantém no estado selvagem. pelo lustre perigoso do seu gênio. quando fôr conquistado pelas armas da Europa. Não vos deixeis deslumbrar pela e^haustapompa da sua civilisação. de arte. que terão edificado alguma coisa.

quando ao vosso lado sempre alguém morre de fome. E' uma sociedade que acaba. As . e nem pratica a maravilhosa justiça que vae chegar amanhã para dar a todos o que é de todos. os governantes armam homens contra homens e entretêm-lhes os ances/ traes appetites de lobos com a pilhagem de outras Io nações. sem cuidar dos que vêm surgindo após.. Tudo/que se apresenta á flor da vida não ' corresponde mais aos fundamentos da Vida. não exprimem o novo direito. não é o sonhado mundo que se renova todos os dias.332 CHANAAN desespero. Está vacillante. são o escudo perturbador do governo e da riqueza. nascidas de fontes impuras para matar a liberdade fecunda. toda a humanidade parece sem raizes na terra.. P o r í ^ f leis os povos chegaram a / W ^ esse excesso de grandeza que é o primeiro toque da decadência.. sempre bello.. n'esse momento indeciso em que não teme mais a justiça vingadora e posthuma. como si estivesse para morrer. Por ellas tudo se baralha.destruição... passando. consumida de ódio. E ainda para manter taes ruinas. e quem diz auctoridade diz posse. Não ha calma para a consciência. diz servidão e fjj***'.. O espirito que morreu. não ha tranquillidade no goso.. devorada de separações. As leis. ainda anima debilmente o mundo. Ainda alli se combate a velha e tremenda batalha entre senhores e escravos. sempre joven. inquieta. que amedrontava no passado os espíritos. « Nada corresponde ao Tempo.

pois como a essas figuras carbonisadas desentranhadas da terra do passado.. . a poesia volta-se para o passado e a sua lingua subtil. caia nas mãos dos que julgam taes instituições como instrumentos do mal. não é a lamina poderosa e refulgente onde se reflecte a imagem dos novos homens. Que o exercito. da arte.. A arte não exprime a vida. como o bafo sagrado das divindades do futuro. mórbido e pérfido.. o sopro bemfazejo que tudo invade. fina e mesquinha. tudo vence. passa o veneno sensual. que vos não pôde escravisar. ella se despedaçará. Os povos abandonaram a religião e conservam os templos e o sacerdócio.. da intelligencia.. Não longe. antes que se erga contra vós. — E' um grande mal. Não a temaes. E por tudo isto que eiilanguesce e definha. da industria. disse involuntariamente Maciel. a universidade e tudo mais que deva finar. a magistratura. o parlamento. os seus exércitos não se poderão mover. n'uma voz imperceptível. — É o primeiro passo e um grande bem. do ódio e do amor e de mil outras potências ainda incógnitas.. o governo. crea19. mysteriosas e santas. nem a alma do momento. um sopro de vento os reduzirá a pó.. e que são as forças redemptoras da sciencia. E já as posições vão sendo tomadas insensivelmente pelos que as desprezam. tirando a força ao homem e a bondade ao leite da mulher. sem seiva nem vigor.. a diplomacia.CHANAAN 333 raças deixaram de ser guerreiras e ainda se armam.

as mesmas transformações e... onde. Então os exércitos não marcharão... E. Já ninguém aqui se entende.. n'essa esperança luminosa e feiticeira.. porque aquellas forças da resurreicão se communicam invisíveis entre os > homens do nosso grupo de cultura.. e esta . serão tão fugazes e passageiras que não devemos d'ellas cogitar. Quando Milkau partiu. O domínio do vencedor d'essas luctas inferiores será instantâneo. entrou o Brasil para soffrer comnosco os mesmos sacrifícios. este amor de mulher que me conforta. — Si taes conseqüências resultarem. scismava em tudo o que acabava de entrever deliciosamente. grosseiras ou ridículas. destacando-se da nebulosa inicial. — Não será a conquista fatal do paiz. n'esse mundo a transfigurar-se. as atribulações do momento venciam-no — Tudo desmorona em torno de mim.. e não tarda que eu mesmo seja extranho a tudo e nada mais sinta de commum com aquelles que são os homens de minha terra. sonhar os mesmos sonhos. mais funda que apparente. onde isto primeiro se dér ? arriscou o joven brasileiro. apesar do deslumbramento da visão.. O que me resta é ainda este socego da família. e conduzem ao mesmo resultado n'este systema planetário. n'uma semelhança de destino. o juiz. ficando só.iSA CHANAAN ções. n'essas ancias para novas e mais bellas expressões da vida.

.pÀe d Àpapmnd a figura em desordem de ffl/ffl ujpa/^rearíça.^c*"-*''* dados. A pallidez brasileira. afflicta e estupefacta.^AT mora esquecido de suas devastadoras angustias e^y^ débeis revoltas. /'/Jt/nÂ* wh. arrancando o marido das scismas em que estava. dilatava-lhe os olhos negros e faiscantes. / * * T £ . uma doce e infinda conversação. a mulher de Paulo Maciel entrou ahi discretamente. abafada : %*yd& — Mamãe! <*/*&Esta. Maciel. tre. doentia e diaphana. /rf^oeé/ E tudofoiumatfétídfAl casta e subtil. ^^x**^'fi***i . éter.lffry*s. e pela testa corria um suor gelado. A noite vinha vindo.olhando-a sem vêr. como em fios de brando e macio cabello de mulher. as faces vivas e accesas. oc**<+*l* — Gloria! Gloria! murmurou. magra e ainda muito joven. recolheu-lhe anciosa o corpinho. Sentou-se no seu logar de retiro e d'ahi.ímÍM^í 4nf4iM4d^^A%AWs^> V^ r e g #í/TW/#/W W *** ° rndüâ inyap. emquanto lá fora tudo vae desabando. foi-se reclinando suavemente ddM elle. como tinha por habito todos os dias antes do jantar. os cabellos vinham deban. mia-lhe o narizinho. Vibrando. Não ouvindo mais rumor de conversa no escriptorio do marido. e sem de. .fff d** "finamente fascinado por ella.CHANAAN 335 creança que nos rejuvenesce. Era esbelta. . foi em sussurro entretecendo com a companheira. Cahiu J^y^u^ nos braços da senhora. Tyldlziy. avançando e estendendo-lhes em silencio os braços cheios de ternura mysteriosa. acalmou-se.

Esta palavra foi dita varonilmente e trouxe lagrimas á mulher. Paulo Maciel. a moça segurava a menina pela cabeça. Algumas mulheres do bando ///$YJ//A****r /avam com mãos descarnadas apossar-se das jóia* da menina. / pedindo esmola. reconstituindo com largos gestos e grandes vozes. beijou a creança. — Soceguem. partiram desvairadas para a casa.£*. enterrou mais a cabeça no collo onde se agasalhára. beijando-lhe freqüentemente os amortecidos olhos de somnambula. Si não fosse a intervenção de dois homens que passavam. e tomando-lhe umas das mãos. Mal puderam escapar. e uma mais ousada beijou-lhe o rostoi "Femquanto forçava por tirar-lhe a pulseira.*_ . no meio de imprecações de fúria. *"'/! r*~¥> %-'~r~£r«é r± 1 •*^*fr í V'-? ^ . a creança. A criada defendera Gloria. tentou disfarçar o acontecimento. para diminuir nesta o natural e invencível horror aos pobres. dm/ÂdJ^dví coxneçou a expli'itfiu*/ car a angustia da menina. correndo n'uma gargalhada de triumpho.336 CHANAAN O marido achegou-se a ella. quasi n'uma algazarra. o filho arrancou-lhe o laço de fita. sorrindo d'aquelles sustos. a lucta não se terminaria logo. Durante a narração. repellindo o grupo com o chapéo de sol. um episódio da rua. como uma reacção de alento. mas á sua energia tonta correspondera uma vozeria desbragada. e Gloria. Passeavam ambas. A creança encarou-o indecisa. quando 1L uns immigrantes mendigos-ac acercararrrj]J«lki. N'este momento entrou no 'ft ccrn> aposento a criada.

Êr^Zfei ^ J. Vxojldfifji^i distrahil-a e desviar para coisas alegres e diversas a sua attenção. que foram então arquejantes. rudimentar. ás idéas lhes fugiam. fitou os outros com um sorriso leve. A grande calma do crepúsculo aquietava-lhes. inconsciente. mais outro.CHANAAN 337 O medo lhe. succedendo uma modorra interrompida de instante e instante pelo crispar de suas garrasinhas aferradas aos pulsos da senhora. maternalmente. a sua voz. davj^lo justo sentimento do real. scismavam. Moveu os lábios como quem ia falar. — Tenho medo. que traduzia uma mansa agonia. Levantou a cabeça. M-^~ IjJ Cj m dT ' . a quem não sobrava regaço para occultal-a. que tentava inutilmente adormecel-a. e abrigal-a mais e envolvel-a com os braços.. Os éidd sentidos sahiam do pesadelo n'uma dolorida expressão de susto e de fadiga. A invenção djdf éMM0f( não foi feliz e fértil naquelle momento. perdidamente.. a indizivel tristeza das almas rudes. outro. primitivas ou infantis. e os dois esperaram. pois já aos cinco annos uma precoce e mórbida phantasia era-lhe doença d'alma. e tornava vãs as palavras. um soluço hysterico. elles paravam. e só a menina de vez em quando tremia. e apenas como recurso lançavam-se ao argumento que nunca tráe. como num remanso. beijos. em súbita transformação de allivio. mamãe! Depois. segurando-se á senhora. as perturbações. melancólico. £U.

. Quedou-se um momento calada. você me carregava. Maciel que estava a ler. Mas.. longe. como que irresistivelmente: — Ah! que frio fazia lá. T— Sim.Você se lembra quando a gente não tinha que comer e ia pedindo dinheiro ? Você me beliscava para eu chorar e me empurrava dentro das lojas para pedir comida. hein.. voltada para a janella. Os ^MdM scisma/ vam. papae me dava tanto.. e.. ficou aterrada.. ha muito tempo. que tolices são essas? Não fales n'isso. em êxtase. não cáe neve. disse Maciel. Aqui' não se treme. mas do pouco que comprehendeu. A sua physionomia transfigurava-se com essa jyy recordação. Você se lembra d'aquelle chapéo que você tirou do menino na rua e me deu? Ih! correram atraz de nós. mamãe! murmurou Gloria. d'ahi a pouco.338 CHANAAN — Ah! nós também fomos como elles. dormíamos na rua. n'outra terra. e enfiou olhos agudos na menina. mamãe ? Mas nós nos escondemos n'aquella casa 0rr** . quando eu não podia mais.. yyl^f 0t^ypaxecia yf/ojlj dias passados. brandamente. mamãe. obedecendo á intimação. — Gloria.. mamãe?. Porque. não foi. ' . Nós andávamos na rua toda a hora. deixou cahir o livro. Ouviu-se um grande suspiro. A menina moveu para elle o rosto. A mulher de Maciel a principio não percebeu toda a extensão d'aquelle pensamento.

porém^pouco se /*/**r demorou em admiral-a.. Você não apanha. a figura e as palavras de Gloria. que resurgia em meio da felicidade. Eu não tinha boneca. não tinha dinheiro.. como agora.. Tinha uma pulseira que aquelle moço 11 .. Gloria! teve a moça forças de exclamar.. boa para mim. Não é. ^pff!^ Paulo Maciel levantou-se convulso..CHANAAN 339 escura. que tirou precipitadamente do armário. tomou/aVao collo e mostrou-lhe uma estampa. E posou Gloria no 0"*/™"' cnao com a gravura. — Gloria. A creança.. A criada tardava em trazer a lâmpada. á sombra que abafava os últimos clarões da luz. E ainda assim. não chore. No completo repouso da casa. Me dá. não tintia criada. Não era? Você não/ tinha vestido bonito. Voltaria á realidade o seu espirito desannuviado das nevoas que ° 1/ / edjjfham} pensou Maciel. mamãe. papae ? — Dou. como a imagem e a voz de um passado horrível. Você tem tanto dinheiro... tinham ares de monstros. não tinha anel!.. Ella pagou-lhe com um beijo. si não disseres mais tolices. e eu fiquei com o chapéo bonito. Maciel gosava um absurdo e requintado prazer intellectual n'aquellas tenebrosas visões da creança. — Você não era assim. nem cama! Andava suja. — Que bonito! Não se conteve a creança. voltou á senhora que es^ tava a chorar : —JVlamãe. papae ? Fazia-se escuro.

. Emilia. amanhã. n'um grande . quando papae foi preso pelos soldados. Me dava dinheiro.340 CHANAAN deu. hein mamãe!.. A pobre moça desalentada parecia vêr lagrimas no rosto do marido... Papae voltou. P a pae. — Mamãe também mordeu na rua a mão da menina para tirar o anel. Pensa que eu não vi? Agora a gente não tira mais de ninguém. Eu vi. Agarrados um ao outro. a Dulce. mas eu queria era meu papae. você disse que elle era tonto.. — O moço dormiu lá.. sim ? Murmurando umas desculpas. Papae ficou zangado. De repente.. A sua caridade amorosa colhia os fructos amargos de Chanaan. A mulher de Paulo Maciel abraçou-se / elle como a um rochedo.. — Emilia. fulminados pela sensação. aquella mulher contou tudo. Havia dois annos. Paulo avançou esbotf-J çando no espaço gestos inúteis para tapar aquella bocca maldita e innocente. a criada penetrou no gabinete trazendo um candieiro acceso. você apanhou muito... Levantando os braços n'um immenso esforço de Y I n ( quem suspende algemas. dizia que eu era filha d'elle. gritou Gloria.. partindo no seu encalço... cadê o homem que você quiz matar com aquella faca?.. voltou-se para a senhora : — Amanhã vou passear com o vestido côr de rosa ? Levo a boneca maior. olhavam correr a creança.

agora.. E. como um castigo. das cellulas obscuras e implacáveis d'ella. uma existência de outros. surgia-lhes.. um passado alheio. tinham aberto o coração aquella filha de uns immigrantes hespanhóes. .CHANAAN 3'il desespero de infecundidade.

XI

A

•>/

I

Lentz vagava nas desertas margens do Rio Doce;
seu espirito, atormentado pela solidão, retrase comprimido deante da serenidade desesperadora da terra. Sobre elle o céo cavado e longínquo/
desdobrava-se sereno e luminoso, o sol abrasava
um mundo parado e morte;. Ia errante e perdido,
embebidos os olhos no que alli era a única vida,
nas águas vagarosas, desusando como alma expirante. A implacável belleza do silencio o exaltava,
e elle passava amaldiçoando a ímpassibilidade do
universo, que não.yestremecia nem se agitava fecundo aos seus pés sobrehumanos. Na conspiração da calma, da solidão, da luz, do esplendor, do
infinito, o espirito do homem delirava. E nesse delírio a memória apagava-lhe as origens da existência,
o passado não tinha sido ; e tudo, fôrmas deliciosas das coisas, água, que ainda se movia, arvores
silentes e concentradas, céos, sol, montes, nuvens,
l

CHANAAN

343

tudo era a expressão de vidas que se extinguiram, de seres que se agitaram cheios de alma, e
,
preparavam extaticos o leito admiravej para o l'-p~* \
pertar do primeiro homem. E a nova existen- '
cia das novas fôrmas ia começar...
ÍIM
.
se abriam seus olhos sem passado, virgens e pri— ^ ^ T * " ^
mitivos; mas o tédio de se vêr único, errante, desa- •2e^*y*
lentava-o, e immortal, e infinito, mergulhava o espirito no tempo immemorial, e tremia de tristeza.
E assim na região do silencio as ancias da creação
agitaram o homem forte. O principio da vida, o
impeto de repetir-se eternamente erguia-se n'elle,
supplice e imperioso. Lentz quiz que as suas forças
intimas e essenciaes, desaggregando-sej se fracciol
nassem em parcellas imponderáveis e invisíveis,
como partículas de luz, n u m a mysteriosa fecundação do Nada. Anceado, inquieto, doloroso, delirava... e uma illusão perversa descortinava a sua
imagem multiplicada em myriades de corpos formosos e serenos, como a geração de um deus.
Deliciou-se extasiado nos olhos da sua raça> nos
cabellos, nos membros e traços de gloria, em que
cada um resumia a belleza e a força do universo...
E tudo era bello, e tudo era bom, porque tudo era
elle.
Depois, não tardou a chegar-lhe a invencível monotonia de se vêr a si, a si indefinidamente. No desespero, quiz voltar ao increado, extinguir tudo, e
gerar novos seres, que não fossem a sua imagem,

yfr
344

•y
CHANAAN

que não fossem divinos, que gemessem, que morressem e fossem humanos. O creador luctou com o
sett espirito e o espirito, como uma força diabólica,
indestructivel, venceu-o, creando sempre a mesma
expressão, sempre elle só. Elle... E as fôrmas que
sahiam da força solitária e desdenhosa, acompanhavam-no eternas e fataes. Lentz horrorisava-se
de se vêr a si mesmo, n'uma multiplicação infernal. Do alto da montanha, aonde chegara, precipitou-se, fugindo da multidão de phantasmas que o
perseguiam amorosos e escravos e que eram elle,
sempre elle... Approximou-se do rio, voou sobre
este n'um impulso de salvação, n u m desejo extranho de anniquilamento, de allivio... e parou.
Sobre o crystal das águas a sua imagem o espreitava para^seguiráin<ia na morte.
E o delírio se repetia<-sob mil terríveis combinações, nos dias serenos que abrasavam a alma frágil
e desvairada do solitário. E quando, nas noites
socegadas, os tormentos da nova vida sobrehumana não o mortificavam, elle penetrava na solidão infecunda do espirito e errava pelo deserto
ululando, amesquinhado e cobarde. Implorava a
companhia tenebrosa do vento, e o vento se calava
aquella invocação satânica; com os olhos ardentes
e devoradores, buscava, em vão, reanimar as coisas que adormeciam. A lua voltava .para elle a
sua livida face de cadáver
Um movimento de piedade trouxe Milkau á

CHANAAN

colônia. Durante todo aquelle tempo, não esque-,
cera o seu companheiro de destino. E, <djM^tí
n/l)üfoè/uma parada no processo, /wjí ao Rio Doce.
Era ainda madrugada quando entrou no prazo, e
logo no jardim abandonado, invadido pelo matto,
que não perdoa e está sempre attento ao descuido
do homem, Milkau adivinhou tudo. A casa estava
aberta, e derrubado no chão adormecia pesado o
corpo de Lentz.
Permaneceram juntos na colônia até o dia seguinte. O contacto de Milkau alevantava e restabelecia o espirito do infeliz. E agora, n'um incommensuravel pavor da solidão, este se ia deixando governar pelo instincto da ligação universal, e prendia-se
n'úma affeição entranhada e decidida a Milkau,
que o chamava ao Cachoeira, á defesa e ao consolo do soffrimento. Um raio da luz que irrompia
do martyrio de Maria, chegou a Lentz que, obfiecendo ao poder do inconsciente, contra que tanto
luctára, curvou a cabeça e seguiu o amigo.
Na estrada, quando tudo se animava á passagem
d'elles, e ventos, e pássaros, e arvores cantavam
em volta, Lentz, recapitulando a curta historia da
sua desillusão, dizia comsigo :
— Ah! como tenho saudades dos meus sonhos t t
/
de audácia, dos meus desejos e ambições... E tudo
isto que eu e elle ambicionávamos fazer, é nada.
Encontrámos no nosso caminho a Dôr mesquinha
e poderosa, e ella nos guia e nos transforma...
— Toda a maldade n'elle era obra da imagina-

isuf

346

CHANAAN

ção, reflectia Milkau, acompanhando-o com o carinho dos olhos. Mas não é a idéa que governa o
homem, é o sentimento. A nossa força individual
não é nada em comparação á força accumulada na
vida. Que pôde um só contra a corrente imperiosa
e dominadora, formada pelas primeiras lagrimas,
descendo das origens do mundo, avolumando-se,
tudo arrastando, tudo vencendo, até que um dia
seja um perenne preamar de bondade e de doçura ?
Que pôde o homem, insignificante e inútil, erguer
para desviar o curso, o Ímpeto da piedade e da
sympathia ?
Chegando ao Cachoeira, foram logo á cadeia.
Durante a ausência de Milkau, tinha conhecido
Maria uma nova tortura, a que sáe das perseguições da sensualidade. Com a sua brancura, com a
v <>yk^extranheza da sua raça, ella yffi$fflj)w de algum
« j ^ í ^ ^ í e m p o 00$$&
os soldados negras. A princi' //ff/'' pio, o aspecto severo da desgraça os aiastaxa,dá\ fffach* /djV/ndo-a n'um circulo de respeito e de protecção;
[//
imperceptivelmente, porém, a convivência e a fami|
liaridade foram permittindo que n'elles se erguesse
o desenfreiado desejo. Procuraram seduzil-a, communicando-lhe por instincto a lubricidade; mas
l
quando a viram insensível e obstinada nas suas
.
recusas, fugindo ao velho costume da prisão, onde
as mulheres encarceradas eram amantes dos guardas, se enfurecerar/ije empregaram para vencel-a
o medo, a força e a crueldade. Md/uas noites eram
agitadas, escapando ella sempre de ser violada

Ã

CHANAAN

347

pelos soldados assanhados e bêbados. Debatia-se
nas mãos d'elles, e salvava-se, ou pela disputa sensual da posse, que entre os dois pretos se formava,
ou pelo alarido levantado, deante do qual se recolhiam cobardes e espavoridos. E os dias, que lhe
concediam, eram para vingar as luctas da noite,
obrigando-a a trabalhar para elles como uma escrava, dando-lhe pancadas, negando-lhe alimento.
E Milkau, agora,na frouxa luz da prisão, notava,
surprehendido, quão terrível fora a devastação da
miséria no corpo da rapariga. Não se enganava
elle sobre a exacta situação da pobre victima, por
mais que esta lhe sorrisse, mostrando-lhe vislumbres de esperança e traços de resignação, que- ,>ê
rendo com esforço dfjji-tí a historia do seu mar- y/yfj&fa*'"
tyrio escripta indelevelmente nos olhos famintos, " ***
no rosto murcho, nas mãos de esqueleto e no peito
mirrado.
Milkau teve a impetuosa anciã de
arrebatal-a d'alli e carregai-a afoitamente para
longe, muito longe, e pôl-a onde as feras não fossem homens...
Durante o tempo que ahi passaram, Lentz ficou
silencioso. Pela primeira vez se via n u m cárcere,
misturando-se com criminosos e reprobos. A sua
velha alma aristocrática estremecia de repugrtancia, e o espirito de sonhador soberano e forte, que
não se lhe tinha extinguido de vez, extranhava o
iy,
contacto da miséria, revoltava-se por se fffiffftx
jyjtdt/^r^i
da molleza, da piedade, ardendo em remontar ás
alturas do silencio e do império. Mas era tarde : a

348

CHANAAN

garra da compaixão o prendia ao mundo, que elle
também assim fecundava com o seu quinhão de
soffrimento.
Na rua, quando sahiram da cadeia, Milkau
ouviu, como um echo do seu próprio coração, estes
murmúrios:'
— Pobre mulher! Como é triste a vida!
Era o novo Lentz que falava.
Commovidos e angustiados, os dois amigos separaram-se. Emquanto o outro voltava a se recolher ao repugnante albergue do Cachoeira, Milkau
seguia sem propósito, vagando, para as bandas
do Queimado, a região abandonada onde fora a
antiga cultura do logar, e que atravessara no dia
de esperança em que chegou á colônia.
Entrou na velha terra exhausta e morta. Ainda
no chão, que pisava, estavam os marcos deixados
pela geração extincta e vencida... U m dia, tudo o
que fora vida já por alli transitara... E agora, restos
disformes de habitações humanas m sustinham-*^petrificados, dolorosos e nús, e trepadeiras mesquinhas e bravas se- esforçavam^por cobrir-lhes o
pejo de ruinas mutiladas. Nas colunas baixas e
humildes da redondeza, destroços de pedras mirava!^ com suas caladas mascaras de monstros a
grande Terra em frente, as altas e viçosas montanhas, onde se fartava a força dos invasores...
Perdido no largo e desdobrado espaço, o Santa Maria, desembaraçado das pedras que antes o faziam
vibrar alegre e vivaz, passava vagindo mofino e

e a minha frivola existência foi a lúgubre ' marcha do inconsciente risonho por um caminho de dores. ruminando preguiçosas. e outras de pé.CHANAAN 349 lento. uma moita de arvores extinguia-se mansamente. Milkau scismava: < Não. O sol impaciente ^j^J^fí/^jL-Âãtí ' fc rf fc r a mergulhar nos braços verdejantes e opulentos •íU«f<*-*c' da Terra futura e mostrava ao Passado a outra u face roxa... cabras aconchegadas aos filhos ae roçavam nos oitões das ruinas. se vestiam de purpura e ouro. fria e morta. a força do meu pensamento. Elias vinham de outr'ora e ainda eram a derradeira vida que alli restava. N'um canto da planície. como si foras um insondavel e voluptuoso abysmo. Cadáveres de arvores derrubadas se desmanchavamrEm pó... Aquella hora. no theatro da Agonia../ figuração gloriosa. Tudo era languido. a razão da minha energia. eu não te fujo. e elle afastava de mim os 20 . n'uma trans. e vazio.' tocadas pela morte. e descampado. Pas' .. e deserto... No silencio dos ventos. Sobre ti me reclino. a morte ama a vida.[ saros no céo desmaiado buscavam o pouso da noite./ u .. e estendo-te os braços n'esse doloroso e invencível amor. doce Tristeza! Tu és a reveladora do meu ser. com que o sonho ama o passado. tu me attráes.. sol moribundo \yj%o meu rosto se estampava-o riso continuo e fatigante. Antes de •*£ conhecer-^-perfida illusão (me\entorpecif) os <x -7 sentidos. N'esse momento eu ainda te não buscava.

Milkau caminhou ainda illuminado pelos últimos c] arões da luz. A aragem «fccalárar/?''Õ débil vagido da cachoeira ia-se perdendo para sempre. E' a liga intensa da solidariedade universal. n'uma postura de resignação e silencio./ / CHANAAN homens. Tristeza. E como desde logo amei a nobreza do teu gesto! O h ! Melancolia! minha alma é a morada tranquilla onde reinas docemente. por ti. que és o guia do soffrimento humano. e nos explica a nossa fraqueza nativa. « Tristeza! tu me fazes ir até ao fundo das remotas raizes do meu espirito. porque une os homens. faço da dôr universal . çe extinguiu} e então soou para mim a a hora da paz e da calma. Tu te sentaste á minha porta. N o céo não passavam mais os bandos das aves. de cançada. porque é a fonte do nosso desenvolvimento. Entraste. não estavas longe. a força da arte. a dôr é bella. A dôr é religiosa. Mas tu. porque nos*aperfeiçôa. O sol resvalara de todo do fundo do horizonte. para quem a eterna alegria é morte. E Milkau scismava : « A dôr é boa. A dôr é fecunda.350 fa .. E como esperaste ! Um dia a alegria. a perenne creadora da poesia.. porque faz despertar em nós uma consciência perdida. por ti. Por ti comprehendo a agonia da vida.

dá-me a tua serenidade. . não me desampares.... oh! bemfazeja! aos outros homens. Tristeza.. Curva-te sobre mim...... a tua séria e nobre figura.. .Tristeza salutar! Melancolia. envolve-me com o teu véo protector.. Não deixes que o meu espirito seja a preza da vã alegria.. Que o meu rosto não mais se desfigure pelas visagens do riso cançado e matador. Conduze-me..CHANAAN 351 a minha própria dôr.

. Nas torturas do pesadelo. recolhendo e enfeixando com energia as suas forças mais intensas. estiradas. A sua mão agora branda e languidatacteava incerta para se certificar da súbita e extranha apparição do amigo. baixo e com firmeza. sacudindo o morno carinho.. disse-lhe elle. que entrava 'pela porta da rua. sou eu. conduzindo-a para a noite e para a liberdade: .. A -prisioneira j ^ ^ f a d a quiz recuar. E gestos infantis e leves roçavam pela barba de Milkau n u m a inconsciente caricia.. Milkau tomou-lhe as mãos com império e passou com ella sereno/ forte ao lado da sentinella. Obedecendo. afastou de si o rosto que se inclinara sobre ella. como uma figura tosca e archaica. repetiu Milkau. a claridade da noite. — Vamos! Levanta-te. Ella abriu os olhos e ficou deslumbrada. e com as mãos hirtas. — Maria... No corredor.. Maria ergueu-se . aberta como de costume. parecia-lhe que beiços^rôxos..XII *4dix0t V»/ i — Maria! A desgraçada estremeceu. sedentos eviscosos lhe buscavam os lábios. e pela mão de Milkau foi seguindo pela casa meio escura. deixava vêr o corpo de um Ldf soldado/ negro/ dormindo n'uma postura pesada / b r u t i .

O silencio inquietador enchia-lhe o espirito do antigo pavor que se não extingue nunca. por tanto t e m p o ^ r ^ í / / i d o s . que parecia ser a cada instante tMfe^amente in. Vamos. n'um desfallecido collapso. E depois tudo voltava ao socego ameaçador.. a scintillação das estreitas. ella vacillou e veiu s« apoiar^nos braços de Milkau. em outra parte... Enlaçados. a largueza. que Milkau ia fallando: / — Fujamos para sempre de tudo o que te persegue.. Vem. a immensidade do espaço davam á fugitiva uma deliciosa vertigem.. e ladrando scarremessavantem vão contra elles. cães somnolentos despertavam com o passar dos vultos. como a água sobre a terra. que a foi arrastando vagarosamente.m'"?r^ terrompido pelas vozes da perseguição surgindo das casas accordadas..CHANAAN 353 Fora. espiando com os olhos immensos e dila. Iam morosos. Uma ou outra vez. Dobraram de cautela... e os pés. Era no ouvido d'eíla. Mas só lhes chegava o chiar monótono e eterno da cachoeira.. Repousemos depais na perpetua alegria. £-// vacillantes.. aos outros homens.. . o ar subtil e frio que lhe penetrava nas carnes somnolentas e tepidas. Lr' . caminhavam pela cidade calada e adormecida. tados pela treva. assustadiça e . / ^ / ^ ^ ' tropeçavam nas pedras soltas da rua.. onde a bondade corra espontânea e abundsrhte. as fôrmas f i a d a s e sinistras do Ijaet&v mundo. os passos d'ella eram . e. Subamos aquellas montanhas de esperança. vamos além.. corre. o céo crystallino. / niodrrW.

perdiam elles de instante a instante a vista do Cachoeira. nada mais viram . levantando alli uma phosphorescencia vaga de nebulosa. e agora sen1. d'onde vinha o clamor do mysterio e do soffrimento das arvores castigadas. cortava. corcundas ealeijões. e docemente illuminada pelos reflexos <ftv/ / . gigantescos. fazendo-as gemer rumot rosamente. galgavam a montanha. creada pelo terror. receio de despertal-a. L Are/' Iam inquietos. tepidos e brandos. Subindo.354 CHANAAN Deixaram a cidade. em baixo aos seus pés. que agora sé prendiam aos de Milkau. parado e morto. subiram ainda e entraram no bojo da matta... Os braços de Maria se retesaram de novo e apertaram os de Milkau. onde as collinas baixas semelhavam corpos deitados de heróes antigos e mutilados. colossaes. sobre que passava a luz exhausta da noite humida. coberto pelo manto cinzento e vaporoso da bruma. No vão das trevasiXde espaço a espaço. Havia um rumor continuo eafflictivode vento máo nas folhas da grande massa. e do jorro de luz^/l _^___f—----se^brmã\'a dentro dáfloresta uma columna ale< *"* / vantada do chão para o céo. lépidos e ra-^ diantes.. IJ -UXJ&SIJ-J ftmjf frest^ <^r claridade/descjir. como um gladio fumegante. afundando os olhos na infindai^l negrura... E o vento implacável ia passando. so fôra^f 0 dos braços de Maria.. atravessando o tecto ondeante. Depois.. a várzea do Queimado. Um trecho do Santa Maria.. sem fôrma ainda imaginada. A rigidez fria. E debaixo d'esse manto se desenhavam seres phantasticos.

acorrentado no fundo do cavado e fragoso valle..... arrastando-se unidos. Subiram. recolhendo nessa voz acariciadora o canto mágico dos seus esponsaes com a ventura. aquecendo-lhe o rosto com o seu hálito offegante.. Ella é da Terra.. E este se ia estreitando. outro mundo. como uma zoada infernal. escalavam a subida. E' a felicidade. e ahi. mais inclinada sobre elle. O caminho deixou a matta sombria e sahiu pelas alturas descobertas. Quando vier a luz. Assim espantava o terror. fatigada e de pés maltratados. Subiam lentos. vinham os urros do Santa Maria.. voando. e havemos de achal-a. e es. puxava com esforço o braço de Milkau. Era pedregoso. O passo da fuga moderou. encontraremos outros homens. Maria quasi não caminhava. A estrada tomava sempre pela beira de precipícios cada vez mais difficeis de vencer... escasso. Milkau não mais falava. Vem.. caminhavam velozes. e as ribas mais angustas pareciam se terminar-f confundidas . vem.. voando. e Maria já se animava.. margeando o despenhadeiro.CHANAAN 355 das arvores espectraes. Cautelosos e arquejantes. Milkau repetia no ouvido da companheira o seu appello de seducção. Estreitados um ao outro.seus olhos mergulhavam no abysmo e 3» perdiam^fascinados na toalha branca e espumosa do rio. — E' a felicidade que te prometto... aspirando o aroma capitoso e perturbador que se desprendia das flores nõcturnas. e aos fugitivos.

. e com um sorriso diabólico. doidos. beijando-a febril^se* e ferozmente: Também ella i » apertavaTcom fúria <& j&b) n-lim accordar violento das suas entranhas.. Milkau desanimou... Elle olhou-a cornos olhos desvairados. Milkau ergueu-se.. para a morte. e o « A. o retinham.^ *W*.. fjH^^fljl n u m assommo de pavor. A tentação satânica da morte era mais poderosa.. 4 t t L . rolaram por terra confundicfòs>batendo-se. y y morte... De um salto. vendo-se perdido n'aquelle recôncavo tenebroso. (jè^tbajjaj$è7$£ca£avj$ di rr/ U ' . / . os dois desgraçados luctaram longamente. Pregados assim n'efisa postura. avançou alegre . sobre rochedos escarpados e negros. agarrou-a pela cintura. e logo estacou../ corpo frio. mas a força d'elle que a queria levar para a' morte.. . Só.luctando... allucinados.. O Santa Maria urrava soturno e medonho. alquebrado.. arrastando-o para a encosta da montanha. feroz e resoluto. Maria. teve de ceder á d'ella. debatendo-se nas mãos ^A^ fortes do homem. ^ ( ^ ^ j £ . mais nada. só.. recobrou urna extranha tW energia e tentou retel-o.. gaguejou estrangulado: l I Jpy — Não ha mais nada. Percorria-lhe os membros um suor gelado. n aquella solidão de pedra. ^^J^y%* \\r^j^**rAaxia resistia com fúria. enlaçando-se como cornentes a uma arvore.356 CHANAAN no horizonte.-/ 0 i .. a -\^f/ . diddjéntíúik para o abysmo. e arrebatando a mulher do chão..e infernal para o abysmo. Os braços d'ella. Qp calor da mulher/já/utiWolvidado jftorooHDncrvw incendiava-o/ e no combate alie 4L estreitava cor vehemenci^(I com ardor.

„ coniuso.CHANAAN 357 que os prendia á vida. Não pares. seguiu-a. e pasmaram a vista nos livres descampados por onde descia a estrada.. reanimando-se. confundia"com os céos.. corriam. vibrando como / ^ / ^ i w a modulação de um hymno. Adeante. E as duas sombras. Eu vejo. duivc. e agora elles se precipitavam •% numa campina suavemente esclarecida pela noite maravilhosa e límpida... — Chanaan! Chanaan!. supplicava elle em <yr~~ t~*r*>.^ Mas o horizonte na planice sa estendia^pelo seio da noite e n&. N'um momento.. e dos seus braços esvaídos dklyyjdfâffl/dr^ü-^ Maria.. sentindo-se em liber. Começava a sentir a angustiada sensação de uma corrida no Infinito. enormes. a vista da planície /vftw**dilatada e bemfazeja.. / que aos seus pés medrosos e vivos se tornava ^ macia e segura.L ^ n^r^> L*^ .L -J ^J^^ã^lfr/Mf^/j.///</? dade. na obscuridade da treva. galgaram o alto da montanha. deitoúN(a correr veloz pela vereda de pedra.. '"•'* — Adeante. iam desfilando sinistras e rápidas pela aresta da barranca. o abysmo negro e assombroso passava como o tormento de uma vertigem.. Chanaan! Chanaan! .. anniquilado..... espavorida. Atraz . de si... E Milkau fraqueou por fim. Milkau não sabia para onde o impulso os levava : era o desconhecido que os attrahia com a poderosa e magnética força da Illusão. Milkau. os ruidos desesperados e attrahentes do rio morriam atraz. A agonia . ouvia fflyf a voz^ée Milkau. Corriam... cahiu n um "rápido marasmo. J^t^fivida.

..... transmudada pelo mysterioso poder do Sonho.. Animada. sem \0 poder j / / ^ i . corriam. a Mulher enchia de novas carnes o seu esqueleto de prisioneira e martyr. e nada lhe apparecia.358 CHANAAN pensamento.. alcança/.. os olhos iam illuminando o caminho. Corriam. n'um soffrimento devôrador. corriam. Cb/anaan! Chanaan! pedia elle no coração. inflammando-as. novo sangue batia-lhe victorioso nas artérias. adeante.. / é . E Milkau. sumida na nevoa incommensuravel. A figura phantastica sempre.... para/fim do seu martyrio.. e mysterio... e a terra do Amor mergulhada.. // n'aquella busca vã e fatigante. fatigadps de voar. jamais lhe a^parecia a terra desejada.. E tudo era immutavel na noite. Corriam. Nunca! yd. corriam. que cobriam e beneficiavam o mundo. e Milkau en no hbfmfld jflf° f ° c o d'essa gloriosa luz. ia vendo que tudo era o mesmo. que seguia amando... Corriam. os cabellos cresciam-lhe milagrosos como florestas douradas deitando ramagens... horas e horas. E nunca.. e temendo dissolver com a sua voz / mortal a dourada fôrma da Illusão. . E o mundo parecia sem fim..[ mais. corriam. e nada variava. veloz e intangível.... elle atraz anceado. Corriam.. pedindo á noite que lhe revelasse a estrada da Promissão.. Apenas na sua frente uma visão deliciosa: era a transfiguração de Maria. E tudo era silencio.. acompanhava em amargurado êxtase a sombra que o arrebatava.

nós que viemos do mal originário. e esclareceu a várzea.. Aquelle que vive o Ideal contráe um empréstimo com a Eterni• dade. A terra da Promissão. O que seduz na vida. e Maria volveu outra xez para Milkau a primitiva face moribunda.. Paremos aqui e esperemos que ella venha vindo no sangue das gerações redimidas. Ainda não despontou á Vida. desdobraremos infinitamente a ¥*k<V v w v c _V ./emní mesmos. Nós nos prolongaremos. como n'um. é o sentimento da perpetuidade. Vendo-a assim. Sejamos fieis á doce illusão da Miragem. na miseranda realidade. os mesmos olhos pisados.. que tudo era deserto... Não corras.. que é a Violência.indefini/o ponto de transição.. que os novos homens ainda alli não tinham surgido. Milkau festejou n'um frêmito de esperança a deliciosa transição. o mundo cançava de ser egual. que eu te ia mos/ trar e que também anceoso buscava. Purifiquemos os nossos corpos... a somma de todos nós... Chanaan ia revelar-se!. — Não te cances em vão. a mesma bocca murcha. A nova luzsemmysterio chegou. Não desesperes. / q u e ' s e fará a passagem dolorosa do soffrimento. Ao contacto humano ella parou.CHANAAN 359 A noite enganadora recolhia-se... H &y inútil. Cada um de nós. Elle disse : . Emfim. Com as suas mãos desesperançadas.. a mesma figura de martyr.. não a vejo mais. ^ é-qu& somos a força creadora da utopia. Milkau viu que tudo era vazio. tocou a Visão que o arrastara..

esperando a hora da resurreição. onde depositaremos tudo o que é puro. si isto tem de acabar . não nos separemos para sempre um do outro nesta attitude de rancor.12.. Os meus olhos não attingem os limites inabordaveis do Infinito. I). — Typ. todos os sacrifícios.. « Tudo o que vês. (. todas as revoltas... rue cies Saint-Pères. E essas expressões desesperadas.para se repetir em outra parte o cyclo da existência. todos os martyrios são fôrmas ^errantes da Liberdade. Eu não sei si tudo o que é vida tem um rythmo eterno. Eu te supplico. Mas. a ti e á tua ainda innumeravel geração. todas as agonias. indestructivel. Todo o mal está na Força e só o Amor pôde conduzir os homens.1901.. na alma dos descendentes. muito longe. dissolver-nos na estrada dos céos.... . ou si é informe e transitório. ou si um dia nos extinguirmos com a ultima onda de calor. reconciliemo-nos antes de chegar ao instante da Morte. eu te digo. li. Paris.. abandonemos os nossos ódios destruidores. que venha do seio< maternal da T e r r a . passam no curso dos tempos. a minha visão se confina em volta de ti.360 • CHANAAN nossa personalidade. ou si tivermos de aee despedaçar^ com ella no Universo.. Façamos d'ella o vaso sagrado da nossa ternura. iremos viver longe. morrem passageiramente. suavemente. 322.. angustiosas. e santo.AKNIER.. Apr proximemo-nos uns dos outros. desaggregar-nbs. e divino.

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