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ARANHA

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H. GARNIER
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Milkau cavalgava mollemente o cançado cavallo
que alugara para ir do Queimado á cidade do
P o r t o do Cachoeiro, no Espirito-Santo.
Os seus olhos de immigrante pasciam na doce
redondeza do panorama. N'essa região a terra
exprime uma harmonia perfeita no conjunção
das coisas : nem o rio é largo e monstruoso precipitando-se como espantosa torrente, nem a serra ^
se compõe de grandes montanhas, d'essas que enterram a cabeça nas nuvens e fascinam e attráem
como inspiradoras de cultos tenebrosos, convidando á morte como a u m tentador abrigo... O
Santa Maria é um pequeno íilho das alturas,
""TTgeiro~êm seus teasipio^ depois é m b a r ^ á ^ ^ H <
longo trecho por pedras que o encacho
das quaes se livra n ' u m terrível esforçof^tígind'
de dòr, para alcançar afinal a sua vt\o[i\fà(àc s^vy
e alegre. Escapa-se então por entre '(unia flor

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/ ». J gada.//#/*" SLti^^/Asoladora.. Milkau deixava o .^qjiellft-qWnão esteve em repouso absp- é ~ >ew?~ lj*f~ r #~* 'y*U*S4 **/***•.'H r ^ ^ ^ m e n t o perturbador que cr^a e destróe. luminosa e calma. cavallo tomar o passo indolente e desencontrado . . f sol nascente vinha erguendo-se / í j ^ ^ a d o na c a l . Sobre ella não pairava a menor angustia de terror. Milkau cahia em longa s c í s m a / ^ f y l ^ con. Tudo era um *i abandono preguiçoso. o /wwv^ji sussurro do rio.v»-maria da noite f c/l seus raios não tinham amda a 'llj \ *£££* potência de alvoroçar as entranhas da terra soce. insinua-se vivaz no seio de colunas) torneadas e brandas. ^ Z que balançava moroso a cabeça.£#»«. vestidas quente e infinma. o próprio /v. J ' a rédea cahia frouxa sobre o pescoçòjdo animal. '^-Jltm+ *'á***-l . inquebrantavel immobilidade das coisas. A aragem mansa. o movi.-v J ptuosa sensação df silencio.. as vozesinhas dos pequeninos /* ÍJll-f. ''%. \xntr-'/yJL rompia-se alli o ruído incessante da vida. A solidão formada p rio e pelos morros era n'aquelle glorioso momento fc£..t "t VtXfAj i&^A longas sobre os olhos viscosos. o d/***** **CTãiC CHANAAN sem grandeza.<lr. ^fei*ando de '' II*' quando em quando as palpebras pesadas/desce^. Absorto na contemplação. que parece entregarem-se \f* complacentes áquella risonha e humida loucura. Os humildes ruídos da natureza contribuíam parfr-trma volu.insectos Í\jMf tornavam mais sedativa u Jrjll& a 2j%L. um arrastar languido por entre a tranquillidade da paizagem. / . Elias por sua vez se alteiam gracipsas.

as santas creações do espiritoV do coração' são/geradas nas forças mysteriosas e fecundas do sile%CTOrrj-. vens sempre ao Cachoeira? — Ah!.y\i CHA^ÍAN luto. surgia I /oi JÍál do fundo dos seus pensamentos. Umas vezes. muito enfastiado d'aquella viagem e do companheiro..^ / .Venho sempre rf quando ha freguez. rebento fanado de uma raça que se ia extinguindo na dôr surda e inconsciente das espécies que nunca chegam a uma florescência superior.f * dade. para se o / expandir. Milkau n'esses momentos attentava no menino e . e chamando a * ' si o pequeno : -. mas / desde muito não chegava ninguém da Victoria.. soltava uma . 4. ff compungia/deante da trefega e ossuda creança -/^P /^* que era essa. resmungava com o animal. y hojejqtMT sereno^. palavra que ficava morta no a r / outras... . — Então.Tt-^/j^ Na frente do immigrante vinha como guia um ' menino. O pequeno. fluido perturbador que emanaxa^déj seus nervos ~ ff **~ doloridos e máos. deixava-se conduzir pelo seu velho cavallo.. Também choveu tanto estes dias !. fíão viyeu em si mesmo .. as boas. 5fedag as eternas. no turbilhão £MI^Í/^ f>$0jl proferiu accèntos que Sk não percebia. a uma plena expansão da individuali. E oviajantel sahia da contemplação. esporeava-o e o fazia galopar descompassado e arquejantè. filho de um alugador de animaes no Queimado. elle mesmo se ^espanta do yr *. ainda ante-hontem vim. disse o menino como que espantado de ouvir uma voz humana.

As vezes.-seu-.. mas tia Rita diz que agora é tempo de lua e a mãe d'agua não deixa o peixe sahir..croanea^ Frgtil r r í p n n d f l l .. O melhor é pescar com bombas. estávamos já de volta.»~^ — Ah ! nhor não ! — Que fazes então ? — A gente ajuda o pae.4fttertt^toi4eT-qtte. l l h f 21 ?$n'r* prr>«»pl-nry. — Ahi no Queimado vocês não têm carne? — Ah! nhor sim. mas é para a freguezia. este sorria agradecido. a gente bebe mingáo. Só quatro. de madrugadinha vamos para a pescaria levantar a rede. nhor sim.r>nt.. Seu Zé Francisco diz que é porque a água está fria.. apenas o sol começava a incendiar o espaço.i CHAXAAX — De que gostas mais : da tua casa ou da cidade ? — Da cidade. continuavam a marchar pela estrada a tro.. Milkau fitava com bondade o pequeno guia. Nós comemos peixe.dejj»»i'tuvi" e alegrava a. carne secca na venda do pae. abrindo os lábios descorados.. mostrando os dentes verdes e ponteagudos. quando falta.. A paizagem não variava no desenho.. — Teu serviço em casa de teu pae é só acompanhar os passageiros para o Cachoeira ? cwrtintrou M4Ík*t*-fK>. antes do patrão chegar. Cambem foi só cocoróca e um pinguinho. mas o subdelegado não consente le a gente / tem que se cançar por nada. Hoje.. d rio está escasso. como .

n u m a curva da estrada. O pequeno. hoje é dia de ir com a mãe fazer lenha. — Mais da metade do caminho. — O h ! patrão. fugitiva ligação da piedade e da miséria. O pae diz que eu volte já.. concertar a rede que a canoa de seu Zé Francisco arrebentou esta madrugada. antes da lua apparecer. empunhava as rédeas com firZ. r t . fincava as pernas de esqueleto e punha f^y^~ o animal n'um trote esperto.nbai^ujwtinrnVampntP^sga-acteüiiadj&^gos dois asy!lr*^s\m. meu filho ? perguntou ainda o viajante. avançavam pelo caminho afora. deitar a rede. mas o rosto macillento sepsclarecia com a grande doçura de uma longa resignação de raça. O immigrante compadecido testemunhava n'aquelles nove annos do desgraçado a assombrosa precocidade dos filhos dos miseráveis.. — T u voltas logo para casa. ou queres descançar um pouco? Fica até á tarde. o *^^v£. e nós vamos á noite..CHANAAN Üj^ 5 afiada serra . si a água estiver quente.tempo depois.. WCj \ animado pela conversa.. O pae disse. e de lá á cidade é o mesmo que para o Queimado.menino apontou para adeante e voltando-se disse ao companheiro : (UAJ^- f"T* **£? ^4. ^^ -J2 <=<•£-&... *** . <«/r'"**^.. Pgttee. — Quanto falta para chegarmos. V» .T?"~ meza. ainda não se avista a fazenda da Samambaia. após tratar dos animaes. é noite de peixe. Milkau acompaq~f. alinhava-se garboso no i j ^ v velho cavallo.. porque hoje.

abrindo*. delgados.JftfJíUft (4tf Wtíj0&Wfr grito agudo.j ilnb {«iiiiLiims^ne /*•*' entia-se^C^'. brilhando aos tons dourados da luz . oscillavam. /frffl extenuada para a «-»• vida. com o sorriso gentil no rosto violaceo. ora a . como si lhes faltassem raízes — * * « * * * . exhausta **" e risonha. ia morrer sobre elle. estirando-se n'um esforço. Milkau e o seu guia chegaram a uma porteira que fechava a estrada no trecho" em que &Ê* cortava as terras da Samambaia. O menino empurrou a cancella ^ com uma das mãos foi /. / Lá no alto da collina um casarão pardacento ***" * misturava-se k bruma azul acinzentada do longeJ_ / • £ i á medida que Milkau proseguia. os pés de mandioca finos. A terra era cany~ cada e a plantação medíocre.e WjMwn TTi tarados vent 7 ^~ >>^3Terra 3tecemenie--&~grandp eétFe^çrar-era cheio «f0**~*> i j j n minliii dii~i"TiTT^d M * /c/ 7" . e parecia que esta. if~A / fítt/ÜBL coloria-^de um verde claro. traducção da força da seiva. o morro na frente tapava a estrada. A terra morria alli como uma bella mulher ainda moça. o horizonte se ia estreitando. roça de mandioca na baixada.c Cl IA NA AN — Estamos na Samambaia. ao contemplar aquella terra sem forças./infecunda para o amor. io cafesal jyfyffii o matiz verde-chumbo. uma turva mistura de desfallecimento e de prazer mofino. Os viajantes margeavam ora o cafesal plantado na encosta das collinas. Milkau passou/Jd atraz d'elle uma pancada //* Í5 b .

O caminho barrento. aqui e alli o bolor sobre as paredes traçava extranhas e disformes visagens. uma capella. com uma côr parda edesegual. coberto de matapasto crescido. apenas cortado pelas picadas que 0jf&va. havia muitos annos fechada. jÇ^j^ogo ao penetrar' nas terras da fazenda. piando como /^'T^^f ./ ' va ennegrecido. Da esteada pelo morro acima o terreno era inculto. esquecidas^^redeas do cavallo e poz-se a mirar */#r^j em volta. f i vam xidlAfmJJ costas de esqueletos. á vista agora. guardando . cf $<$$$£ &fflfjfy bojs agi.CHANAAN 7 surda cerrou a estrada. sob a pelle/i^*'***'dos pobres animaes a rija ossadura. pássaros da morte. Ao lado.m da estrada e de /M*v>r outras direcções á casa de vivenda. pegajoso e humido. O casarão. mas esta. da varanda descia uma escada de madeira já com falta de degráos e com os corrimãos arrancados. era grande e / t ^ i ^ M aca/Kapaá^etomffiEK immensa varanda em fi^ãll //bffljZjjr sem j a n e í p j ^ r f p a r a $f$fi se abriam as portasA^-^ . crescia livre a herva com touceiras de matto rasteiro. descrevia/uma curva que /<* ****'.** \ insoífridos a herva. anuns que trepa. abraçava o valle e se approximava da barranca do rio. cheio de sulcos de carro de boi. / frente á tysfrflç/fáfáffl iyiWtty casa. . bufando e catando .///***** tando com o movimento inquieto das cabeças a /k****""1*! sineta que traziam ao pescoço. ^i^tíjfpÁ^çf^A. na frente.í4y€f/t desbotadas do interior. Faziam-lhes *-*>r*'-"y\ companhia aves de máu agouro. fyffifajfy{//etaCd*^ um cheiro de lama e estrume. Fora branco.^rgou 0 a * .

muito velho. o homem lá no alto correspondeu.\ mana. jaziam no chão sagrado os túmulos de senhores e de escravos. turvo. egualados '<£j pela morte e pelo esquecimento. que por ali* l(y passara. tirando cortezmente o chapéu . camisa de chita sem gomma. apagado para os aspectos da vida *f como o de um idiota..^ Ias. de pés nús.^ como si elle tivesse consciência de que sobre s i " M recahia o peso do descalabro da raça e da família. a mesma vida superior envolta na queda í ./transformada em ignorado e mysterioso relicario de antigas imagens de santos. ZjJs* O cavalio de Milkau continuava a passo/^/guia j£** bocejava indifferente e. erguendo uma perna. . o eífgot/amento das s u a s / * / • faculdades.j) gava á soleira da/ varanda. branca. ainda assim. Milkau cumprimentou.//^)<.. á^. calça de zuarte.. O dono da fazenda. com a barba . reconheceu-o e disse' vagarosamente ao companheiro : — Lá está seu coronel Affonso. Ê Centro 'da egrejinha. erguendo indolente o sombreiro de palha. ^ Toltando-se para a casa. parecia. das emoções e sensações^//completo f i//9\ J reduzi//í a uma attitude miserandade autômato. o olhar. / ^ alçava-a sobre a sella n u m gesto de resignaçãoi / .^8 CMANAAN I no seu silencio a voz da devoção). elle representava a figura hu. velados pelas ' ( divindades enclausuradas. f ^hysionomia /jji triste./jt^ lezas ingênuas de uma arte primitivaMjwtâfy/fê l/^" J) jffjfmia./vfyí um vulto que che./attestaj/d^/ na alvura da tez /*â a pureza da geração. talvez bel.

arrastada na ruina geral. onde se preparava a farinha J/Era um velho M • i barracão coberto de telha carcomida e negra. tu. E não ha quadro mais doloroso do que a^JÍJé' em que a acção do et***^" ^ m p i x a força da destruição não se limita somente ás tradições e aos inanimados. // restos de machinismos espalhados pelo chão. caldeiras. Dentro-da-casaj estava armada a bolandeira. e ao lado a roda onde no tempo do ser. A O vulto do coronel ficava immovel na soleira dd. que o homem. abrangendo ainda com os olhos o quadro d'essa triste fazenda. dh£$espessa^ mi-//&**'facroscopica floresta. aban. Havia também dois % tachos em que se mexia a farinha pelo processo ^ \ rudimentar das pás/ Eram de cobre e destoa|' vam do resto da engenhoca. | $Áfl aflV uma/installação melhor. / -feJ cahindo de prostração em prostração/perdendo ' / todo o polido de uma civilisação artificial. Milkau notou além T — d'isso. no grande desleixo da casa abandonada. ' Milkau proseguia pela estrada. mas envolve no descalabro as pessoas. attestando tfft/$ft ///%.CHANAAN / das coisas. bre a qual um limo verde crescia.J/^^ur no. como uma sobrevivência das antigas ^ > moendas./ ' / bos.«=> viço se ralava a mandioca. .J7j/\y . fi paralysaJ a*fulmina^fazendo fti—^ d'ellas o eixo central da morte e augmentando a Âgk^a* sensação desoladora de uma melancolia infinita. rodas dentadas. Quasi á beira do caminho e^ava a casa do for. para se servir Me**' dos apparelhos primitivos que/se harmonisavam f/y**4* com afeição embrutecida do seu espirito. so./ donára agora em sua decadência.

/Õ/iOÍs viajantes Continuavam a aç movensjentro . J" / esperando na lugubre attiiude do inconsciente a I lenta invasão do matto. encostado ao moirão : apenas trajava uma usada calça. presidindo com o olhar pasmado ao desmoronar silencioso d'aquelles restos de cultura. O pequeno guia adeantou-se para a casa. A-ffy postura era de adoradão rudimentar./£ " . rira um pardieiro armado em cruz.• d aquella paizagem onde as forças da vida parecia estarem paralysadas e onde tudo tinha a íixidez e a perfeiçâo da immobilidade. coberto de palha cujas línguas se projectavam desordenadas da cumieira. v. a. Toda ella era a própria indolência. elles enfrentaram quasi súbitafnente com um rancho de moradores.S* / u / /A. e sob|fe/a pelle resequida de* senhava-se i <fn/<fr^fyjfó de um esqueleto de "9/ ^athleta: sobre o dorso. No batente da porta sentava-se uma mulata moça. de um nunca terminado pasmo deante do esplendor e da gloria do mundo. instinctivamente. Os cabellos não penteados faziam ponta. como em moribundo ' cepo de arvore. quebrando o caminho á direita. apertando o 0^/*$£homem e jtí'fyfè/d human/s. o pjíl tronco estava nú. (%£** 2* Ju ^***-y ^ *pf*&„ mJ^ y*».. como movido por longo habito porta do rancho um velho cafuso com os olhos nevoados fitava vagamente o espaço. que n u m a desforra triumphante vinha vindo.. circumscrevendo. quando.10 CIIANAAN escada.s coma chifres. crescia uma pennugem branca encaracolada. que subia até ao queixo 7formavy uma rasteira barba.

Apenas o / velho <$k&. com a baba a escor \ j-er dos beiços tumidos. respondendo á saudação J fi **^ — Se apeie. mirava embasbacado os cavalleiros que se achegavam ao tijupá. está-se na cidade.. Depois o velho. • f/H* fl*"* QLxxtrangcirn npTt"" a mão callosa e áspera do /<£ velho. Milkau cumprimentou o grupo. — E h ! meu sinhô. insistiu «com Milkau para que se apeasse. cheio de pre.. mostrando as gengivas roxas e desalentadas. Ld'áqui ao Cachoeira é um instantinho. abandonando o seu cavalloisegurqu_pelo freio o do viajante.. donde se dependuravam uma figa de páo e um signo de Salomão.. Olhe só.. ~~~7 . em pé. •*'CHANAAN / rv*H / y 11 camisa suja cahia <p toa sfiiw^^collo descarnado. O guia não esperou mais. ao seu lado. um negrinho vestido apenas de um cordão ao pescoço. Quero chegar cedo. e os peitos de muxiba /pendiam molles sobre o ventre. e. como si reflectisse um momento e sentisse despertar em si uma anciã de communicabilidade. e j U ^ este ptffiji o~pé em terra l ^ f boceja^ n'uma satisfação de repouso. — Não. vencendo duas curvas do rio.. apenasj mudando ^ vagarosamente o olhar. moço. pulou da sella. que abriu os lábios n'uma rude expressão de riso. obrigado. A c a W a não se mexeu. no rosto do viajante. descançou-o. A creança se acolheiríTella boquiaberta..l guiça e desalento. que sem o menor alvoroço o deixava approximar-se.

um remo. E a conversa foi continuando por uma serie de . No fundo. a porta abria para uma clareira do matto. acompanhando o gesto. como um biombo lixo. estendia a mão para o outro lado do rio : Não vê um casarão lá no fundo? Foi alli que me fiz homem. indicavam a cozinha. — Mora aqui ha muito tempo ? perguntou Milkau. I m a pequena divisão de palha. Alli perto do Mangarahy. onde se viam uma esteira e uma es/ pingarda. E. A cobertura era alta no centro e pendia em declive tão rápido para os lados que nas extremidades um homem não podia ficar em pé. o â— mobilia^U/ miserável e simples se compunha de <' uma rede cor de urucú armada n u m canto. j/jy ) que se misturavam a restos de tições apagados. tacteando o espaço. dois banquinhos rasteiros.12 Cl I ANA AN Da porta Milkau via claramente o interior da habitação. molhos de linha de pescar e alguns pobres instrumentos de lavoura. na fazenda do capitão Mattos. de outra dobrada em rolo e suspensa n u m gancho. sinhô moço. apenasdivisava ao longe um amontoado de ruínas que interrompia a verdura da matta.. formando /-' um quarto. defunto meu sinhô. uma esteira estendida no chão de soque. — Fui nascido e creado n'essas bandas. que Deus haja ! O extrangeiro. na qual uma touça de bananeiras se / ( /multiplicava/ //junto a essa porta Medras negras. separava um dos cantos da peça..

de tomar a iniciativa dos assumptos/I contou por phrases gaguejadas a sua triste vida toda ella. Tempo hoje anda triste. filho d élle foi vivendo até que governo tirou os escravos.. Comida sempre havia. Que importava feitor ?. Patrão se mudou com a família para Victoria. para essas terras de seu coronel.. os trabalhos e os castigos. meus parceiros furaram esse matto grande e cada um levantou casa aqui e acolá. a trabalhar como boi para viver. Nunca ninguém morreu de pancada. onde bem quizeram. meu sinhô moço.. mulatas. e quando era sabbado. tudo de parceria. a caçar de comer. por ter occasião de relembrar os tempos de outr'ora.. ás quaes o velho respondia gostoso. onde tem seu emprego. como todos os humildes e pxi mitivos. e nos poz todos no olho do mundo.. as festas simples.. n i Cd dê fazenda ? Defunto meu sinhô morreu. quem apanhava café apanhava. se acabou.. véspera de . Tudo debandou. bandão de gente. Eu com minha gente vim para cá.. quem debulhava milho debulhava. mas de quão intensa e profunda agonia! Contou a velha casa cheia de escravos. sem lances. Governo acabou com as fazendas. sem variedade. cafu :as.CHANAAN 13 perguntas de Milkau sobre ávida passada d'aquella região. sentindo-se incapaz. E na tosca linguagem balbuciava com a figura em êxtase a sua turva recordação/ _ — Ah! tudo isto.um pobre drama sem movimento. a comprar de vestir. Ah! tempo bom de fazenda ! A gente trabalhava junto.

terra é de seu coronel. meu amigo. tem sua casa... — Qual terra. sua terra.CHANAAN ÕL^J*^ f' jC^J Jff/Vm*' A * *.. fazenda... tornou-se mais densa. . jfy/fó Milkau. tambor velho roncava até de madrugada. E agora? Todos têm uma casa. qual nada. com o desespero do isolamento de agora.. governo não faz nada por brasileiro. K assim o antigo escravo ia misturando no tempero travoso da saudade a lembrança dos prazeres de hontem. da sua vida congregada. — Mas. com a melancolia de um mundo desmoronado. cavallo e negro. De brasileiro governo tirou tudo. u Q> k r' 0 domingo. A nevoa que os cobria. com o olhar perdido no vácuo. Não me tirando a graça de Deus. Hoje em dia tudo aqui é de extrangeiro. E os seus olhos tristes se obscureceram. ^ ' u m estremecimento. só pune por allemâo .... você aqui ao menos está no que é seu. ah! meu sinhô. Todos seus patrícios eu vi chegar sem nada.da pesada visão da conquista da terra 'pátria pelos bandos invasores. como que sobrecarregada ftítff. amparada na domesticidade da fazenda. a mão estendida fâf.fffy gestos tardos e incertos. com as mãos abanando. arrendada por dez mil reis por anno. o preto velho.. que está ahi assentada. burrada... é dono de si mesmo.. Rancho é do marido de minha filha. têm cafesal.. proseguia no seu monólogo : — Vosmecê vae ficar aqui ? D'aqui a um anno está podre de rico.

e ess^ ^raço dft/moviméntos oppostos f/ v W d a v á a impressão de que toda a paizagem se áni.ndando a cabeça e resmungando um choro. Milkau recolhia o echo d'aquelle queixume de eterno escravo. A fazenda. O preto abandonou-lhe a mão. 0 velho continuava me. Nada achou./ ' mava e docemente ia desfilando aos olhos do ca$ j . itíféfti-. Milkau /aminhava pela grande luz da manhã. d'aquella mal definida resignação dos esmagados. Lá dentro de si mesmo tfatia-se em vão para encontrar a claridade de um sentimento. N'um gesto contrafeito despediu-se. LjJ O rio descia em direcção contraria á marcha. até á vista. meu velho.. agora de todo inflammada. lá no alto. arrancando-as do torpor para a vida. como si o peso de toda a responsabilidade da situação d'aquella gente cahisse também sobre elle. A <ry figura da filha. > valleiro..dos y viajantes. Os ventos começavam a // fe^Qf soprar mais espertos e como que agitavam as almas [/ dif. Havia alguma coisa de aleijão n'esse protesto. apatetados. e a incapacidade de uma expressão livre e elevada fazia crescer a angustia. Os outros da família ficaram quietos. de uma indolência sinistra. — Adeus. a limpidez de uma palavra consoladora. dava / maior oppressão a tudo. o immigrante notava o . sumia-se no &H*de> .-/"/ do' longínquo horizonte.CHANAAN ^ f 15 Seguiu-se um oppressivo silencio. Milkau sentia um estrangulamento.

mas o sangue em alvoroço saudou a apparição do povoado. estendendo o braço. desconhecidas. // * 'o corpo se lhe agitou e estremeceu nessa anciã de quem penetra na terra desejada. os nervos. recolhiam e reverberavam a luz do sol.J Milkau. como o de fitas mágicas : casas de moradores. A brisa fresca encanava-se pelas duas ordens fronteiras de collinas parallelas ao rio e trazia ao encontro do / /f viajante um mugido sonoro de cascata. também se . tudo ia passando. mas arrastado por uma força incessante que nada deixava repousar.< CUANAAN manso desenrolar do panorama.' recendo. ao sopro da viração.. \~U '. outra/vinham appa-/-*^. como são os caminhos do homem sobre a terra. infinita:^ e incertas. Xa frente o guia. como um / espelho vacillante. 7 as suas águas revoltas. curvava o pescoço e accelerava brioso o passo. relinchava asperamente. l/ ' mordia o freio. Milkau ^Úi ao longe. au/*/ gmentava. despedaçando-se como um louco nas lages. í5 rolar do f j^jL* Santa Maria batendo sobre pedras amontoadas. bui^ / fando. .transformou em vida. e agora. sacidia as crinas. que. respirou sôfrego. gritou-lhe : — Porto do Cachoeira.1A Í. rolando devagar'. uma larga mancha branca. espumantes. comoJjarfdespertando. de narinas escancaradas. a vontade transmittiam um fluido activo ao lerdo animal. homens. ao contacto dos logares próximos á cidade. A estrada iá se alargando. .16 ~ ' . na matta ll^õu^l ainda fumegarite de nevoas. fim das suas jornadas.

Cheia de luz. patrão ? perguntou solicito o guia.' ras casas iam chegando : eram pobres habitações. Os viajantes desceram a rampa e foram ter a uma porteira. que o pequeno. e deitando-se á soleira das cidades. — Onde se apeia. represa #&'"' do fervido rio que se liberta em franjas de prata. da claridade //(W^ ~ e da musica feita dos sons da cachoeira.GHANAAN 17 Então. em plena tíbffà da côr. quem não sabe?./ toda branca.. dominava a povoação apertada entre a montanha e o Santa Maria. Entravam agora mais devagar na cidade. Milkau observou que essas casas eram moradas de gente preta. O maior sobrado da cidade. dando á marcha fatigada . Mirando-as attentamente.// v~ ras os viandantes... e adivinhou-os batidos pela invasão dos brancos. Os cavallos arfavam. /A/T**' Os viajantes continuavam apressados . mas ainda assim procurando os derradeiros e longínquos raios do calor humano. Roberto Schultz. da raça dos antigos escravos.. as primei. escancarou para dar passagem á Milkau. Milkau. Conhece ? — A h ! nhor sim. ^ como soltas na estrada para saudaráíi alviçarei. jjLeeerrdo na*frente. para elles extrangeiras e prohibidas. a cidadesinha tíâ n'aquelle delicioso e rápido ins//r tante/a filha do sol e das águas. — Em casa do Sr. com a sua casaria . o olhar espraiado na paizagem. de uma pequena elevação que ia galgando. Domingo passado levei também um moço para lá.

em instrumentos de lavoura. jante penetrava na loja. como si descessem com medo montanhas pedregosas . apenas guardavam na retina inconsciente a vaga sensação de uma cidadesinha allemã no meio da selva tropical. e Milkau. Tinha quatro portas de frente. Os olhos de Milkau tinham os estre' ^ l ^ k ^ ^ m e c i m e n t o s das passagens \fly!//fé dos pano' ramas contrários . c. despediram-se como bons amigos. /mg u a mio o via^ _ v . abandonados de rédeas. e as mercadorias innumeras davam-lhe uma feição de grandeza e opulencia. Ao espirito do immigrante desceu uma confusa e tênue recordação de outros tempos. o guia pulou lesto do cavallo e ajudou Milkau a se apear. ao entrever essa população toda branca. *y / ' A loja áqüella hora já estava cheia de gente. em vinhos. em fazendas. o menino voltava com os ÍJMJ animaes. O armazém de Roberto Schultz era vasto. foi desviando os h . não possuíam fixidez nem calma para precisar qualquer observação. Alli se negociava em tudo. Chegados a um grande sobrado. como refulgentes chapas de ouro.1SS CIIANAVN uma sensação de movimentos irregulares. em café. e. era um d'esses typos de armazém de colônia. e ao sentir a irradiação do sol batendo sobre as cabeças das creanças. que são uma abreviação de todo o commercio e conservam na profusão e multiplicidade tftJJ das coisas um certo traço de ordem e de harmonia. uma espuma abundante os ensopava. para chegar até ao balcão. iam tropeçando nas pedras soltas da rua.

dobrou vagaroso a carta e poz-se a tamborilar na secretária. noutro tempo ganhava-se algum dinheiro. sim. Dos olhos d'este baixava uma claridade suave. Paulo... Afinal. onde um homem taurino e barbado o recebeu. ora a ler. Vae-se aborrecer. Ahi.. Talvez melhor ftíffft ir para.. uma calma dominadora. onde acharia um emprego com facilidade. o Rio ou S. — Isto aqui é triste e enfadonho. que perturbava o velho negociante. Disseram a Roberto que havia um viajante á sua procura. brancos e tardos allemães. A colônia é um engano . vem com a idéa de ficar aqui ? Milkau affirmou essa resolução. e immediatamente Milkau foi conduzido ao escriptorio. nós estamos abarrotados de pessoal.'para longe do Cachoeira. . afianço-lhe. são os grandes centros de commercio. o senhor deve voltar hoje mesmo. Roberto começou a aconselhal-o i que não se decidisse antes de ver bem as coisas por si. pesados. que elle principiou a ler. todos indecisos. Roberto não o attendia e continuava a arredal-o ^ / com as suas palavras. quiz interromper Milkau. — Então. disse por dizer. Aqui V. / — Na minha opiríião.. O immigrante entregou-lhe uma carta de apresentação. porém agora os negócios não marcham. interrompendo-se de vez em quando para fitar o recemchegado.CHANAAN 19 freguezes alli amontoados em pé. — Mas.. ora a mirar pensativo e aborrecido.

E Roberto não oceultou a j n surpresa de ver l ' .áO CHANAAN em minha casa tenho gente demais. com o cambio. arranje a sua colônia e d'aqui a pouco tempo está rico.. nós nos pagamos em gêneros... / — Ah ! isto é outra coisa. que vou despedir: em nenhuma casa de negocio da colônia o senhor se pôde empregar. temos de hospedal-os.. arranjar é$ eleitores . quando puder. (rtdMi^VJlMMéAji decisivo o viajante. tudo isto nosvae empobrecendo : o que se ganha é uma miséria para esses extraordinários. dar y// festas. por ahi já devem vir os chefes da Yictoria..àgora amável.. — u m "CõTõfTo~n'aqüeíícTTmmigrante tão bem vestido 'úv / para um simples cultivador. E o costume aqui. nós lhe fornecemos tudo de que precisar. continuou o negoI ciante. As eleições não tardam. a nossa casa está ás suas ordens. o que é uma vantagem para o colono. / :— Mas eu não vim com destino ao commercio. ora. ou talvez por isso mesmo. — Como ? Vem com o plano de ir para o café ?. que se vão abrir aos immigrantes. e com / as contribuições da política?. acerescentou baixando ligeiramente o olhar. O juiz commissario mandou pregar o . Olhe. Que vale hoje o commercio com os impostos. Chegou em boa hora para arranjar um excellente prazo nas novas terras do rio Doce.. vá nos mandando café. somos os que sustentamos os partidos do Estado. / vá para o matto. e. jiorque nós aqui.. Não ha nada como a lavoura. ^ apezar de extrangeiros.

Os olhos de Milkau deslumbraram-se á luz da manhã alegre e viva. porém.CHANAAN 21 edital para as medições e arrendamentos. fazendo companhia a um moço chegado ante\ hontem ei também de família importante... é freguez da casa e é do partido. temo» muitos commodos para hospedes. E. como é de uso. chegava montada em sua mula e entre dois alforges suspensos dos ganchos da cangalha.. o agrimensor. O rapaz. Milkau agradeceu os offerecimentos do negociante e j/JÈ dispuntura partir em busca de uma ti*»*** estalagem. elle.. Felicíssimo. É um rapaz alegre. o senhor sabe. jeaara outro reclamou. sorrindo malicioso. Imar'—gmeTlôTho do general barão von Lentz.. o sr. Este quasi ia arrebatado no meio de agrados e cortezias devidas a um futuro freguez.. de viagem para as terras. — Não vale a pena ir para o hotel. êrgueu-se. anda triste e sorumbatico. dirigindo-se á escada do sobrado. Na rua passava uma tropa de burros carregados de canastras de café e repicando campainhas... Depois. está no Porto do Cachoeira. Ah! esses rapazes. A porta da loja uma velha de nariz adunco... Talvez vergonha de ter immigrado.. que sempre nos apparece por cá. Não sei o que será. Aqui fica melhor . . Ambos atravessaram para o outro lado do balcão. de rosto de pergaminho franzido.. o senhor me pôde ser util^tefi. pedindo a Milkau que o acompanhasse.

Milkau sentia-se constrangido por ter encontrado n'aquellas paragens extranhas e remotas um filho de general allemão. um moço. annunciou o dono da casa/Este patrício. devendo chegar á noite. — Pôde continuar o seu trabalho..£iA)ClvdlhA' •21 >h) c/ í.. Roberto deixou os novos immigrantes. Apenas matava o tempo. Mas de par com este súbito enthusiasmo pela expressão esculptural d'aquella joven figura.a conversar sobre coisas vagas. um ser privilegiado na sua pátria. E os dois se puzeram. E emquanto se entretinham. que estava a escrever./projectan»e-6jl de uma cabeça ampla.VNAAN Xo quarto em que entraram Roberto e Milkau. dominando o rosto sem barba cujas linhas eram accentuadas e fortes. — Trago-lhe um companheiro. o que eu estava a fazer não é urgente. que se deseja estabelecer no rio Doce Yoltando-se para Milkau. a natureza. como um evadido do seu próprio e grande mundo. o tempo. roliça como a de um patrício romano. disse Milkau delicadamente. — Não. sobre a viagem. ergueu-se para saudal-os. repetiu-lhe que estivesse como em sua casa e perguntou-lhe pela bagagem.*ul\t f> CII. O outro explicou-lhe que vinha tudo pela canoa. Milkau admirava a mobilidade da physionomia do joven von Lentz e não se cançava de observar o fulgor de seus olhos fulvos. que viera sepultar gi / * .

/ *. continuava quasi em sonho./ mazem e tomavamiá mesa ds^eus togares.CHANAAN \ 23 sem duvida no mysterio das colônias uma parcella de angustia. Milkau lia n'aqueile ajuntamento de allemães o caracter camponez e militar que fundou a obediência e a tenacidade na sua raça e reduziu tudo o que ella podia ter de belleza. Em todas as physionomias d'aquelles homens tão differentes. as paredes. de elevação moral. Quem sabe. de desespero e de desillusão.. não tinham o menor enfeite. o recanto suave do gênio livre ? perguntava a si mesmo Milkau no sussurro regular do almoço. moços de perpetua adolescência J^ffi via-/estampado o pensamento único de cumprir o dever pratico. Onde estava a Allemanha sagrada. pensava que talvez somente se pudesse explicar a incogflita d'essa alma pelas imagens e expressões incertas da vaga e symbolica metaphysica. contemplando o esquadrão de homens lopos. ao regimento de caixeiros que comiam silenciosos.. e re. simplesmente caia. os creados serviam. D'ahi a momentos os dois novos se achavam na grande sala de almoço dos empregados do ar.-»A sala / era desguarnecida. alguns. flectindo sobre a alma allemã.i s . automáticos como soldados.f das. velhos de pelle enrugada. outros. quem sabe si não foram um dia dois espíritos que se encontraram dispa- . de caminhar para a frente no conjuncto harmo^ nico de um só corpo. á monotonia de um precipitado único. a pátria do individualismo.

indicava um moço magro. como hospedes despreoccupados. No quarto resolveram visitar a cidade. sem ancias. e o corpo ahi está hoje socegado. que ^^segue depois de amanhã para o rio Doce. procurando absorver o outro que voava docemente. E quem sabe como foi longo e pertinaz o combate entre as duas forças !. ambicioso. zombando de tudo. sem lucfas. e quando d'ahi a momentos passavam pelo armazém em direcção á rua. — Está aqui exactamente o sr.. continuou Roberto. Findo o almoço. Milkau.. nas regiões plácidas do ideal. de homens e deuses. Felicíssimo.:2i '\. Dizendo isto. gerando puramente. vagarosamente. Roberto os chamou. as figuras da poesia e do sonho.Mas houve um momento em que o demônio da terra venceu o espirito de belleza e de liberdade. uma chata cabeça de bacuráo. baixo e moreno. e pairava sempre no alto. os caixeiros sahiram em ordem. a fim de fazer as medições. acaba de . cpm o rosto talhado em triângulo cheio de marcas de bexigas.. CHANAAN ratados em um mesmo corpo. sem conjuncções torpes. — O sr.. em que os olhos negros scintillavam vivos e seccos. divino alimento d'onde brota essa luz que ainda o illumina na sua lugubre c devastadora marcha sobre a terra. qual uma massa de escravos. cúpido. a devorar os últimos restos do gênio do passado. . Milkau e Lentz iam por ultimo. um servil á matéria.

esperemos. acampamos no porto do Ingá..CHANAAN 25 chegar com o propósito de arrematar um lote de terras.. O negociante cocou a cabeça e disse solemne... Felicíssimo é k que pôde dizer quanto isto é difficil... despachaj mas / . — É só para combinar tudo e quando chegar 'á não haver demora. a occasião é má.. no rio Doce.. o senhor requer um prazo. Dependo/èeqy^l muito do sr. no commercio. e meio confuso respondeu : — Para o campo ?. que está ígora para os lados do Guandu. Eu expliquei-lhe que n'este momento o que ha de melhor é o rio Doce.. Esperemos. e o juiz commissario.. Ainda não sei afinal o que farei na colônia. Sigo amanhã a me encontrar com a turma que está em Santa Thereza. Mas o sr. O negocio é fácil. Roberto. e quando fôr lá pelas onze. como si invocasse o testemunho dos mais : — O sr. Os senhores quando vão? Lentz ficou embaraçado... em murmúrio. — Como não ? acudiu o agrimensor solicito e com um gesto de quem quer abraçar. Felicíssimo perguntou a Milkau o dia da partida. von Lentz prefere uma collocação na cidade. as casas estão cheias.. depois de amanhã bem cedinho nos pomos em marcha.. e que o senhor me "faria o favor de arranjar-lhe um prazo bem situado...

26

CMANAAN

não precisamos d'elle para fazer a medição. Na
sua ausência estou auctorisado a tudo, até mesmo
a entregar os lotes aos colonos que os vão trabalhando... Entre nós as coisas não são feitas com
luxo... Não temos formalidades...Tudo se arranja
e legalisa depois. O que é preciso é pagar logo as
custas...
Milkau o interrompeu para se informar das distancias.
— D'aqui a Santa Thereza quantas léguas ?
— Cinco. E de lá ao rio Doce outras tantas. O
senhor deve ir d'aqui até o alto de Santa Thereza, ahi dormir e no dia seguinte tocar para o rio
Doce.
—_J$ preciso um guia ?
— Não... Estrada sem errada, e batida...
Roberto se offereceu para mandar acompanhar
o immigrante por tropeiros que iam diariamente
para essas bandas. Milkau agradeceu, dispensando o obséquio.
Deixando Roberto, sahiram os três do armazém.
Felicíssimo, que dizia não ter nada a fazer
n"aquellas horas, propoz acompanhar os extrangeiros, dando assim expansão aos instinctos da
sua nativa e tranquilla vadiagem.
Agora, o Porto do Cachoeira abrasado de sol
desvendava-se todo. A cidade era dividida em
duas partes, que uma ponte ligava, mas podia
dizer-se que só á margem esquerda era crescente,

CHANAAN

27
tava

porque do outro lado as habitações se conttm JIL
salteadas e raras. As casas d'aquella banda flí enfileiravam/monotonas em frente ao rio, e nem um
jardim quebrava a austeridade das moradas, nem
um quintal margeava os caminhos, nem uma
arvore sombreava as ruas. Pela primeira vez, porventura, nos tropicoaros habitantes de uma pequena ^ /
cidade, como essa, não conheciam os prazeres do
convívio dos animaes domésticos, nem tinham a
expansiva preoccupação da cultura das plantas e
das flores. Uma esterilidade rigorosa e systematica estampava-se no perfil das casas, que eram
apenas o abrigo de uma população de negociantes. Na rua, Milkau ia adivinhando a explicação
moral d'aquella localidade, e uma impressão de
angustia emanada da branca aridez da cidade o
turbava, pois parecia-lhe que o bafo dos traficantes tinha matado a poesia, a graça d'aquelle
canto excepcional da natureza, onde elles nfájííam
levantado as tendas da especulação. Felicíssimo
ia pressuroso, contando os milagres da fortuna
commercial d'aquella gente. — Este sobrado aqui,
dizia elle, apontando para uma casa esguia e egual
ás outras da rua, é de Frederico Bacher, chefe do
partido da opposição; é o rival e o inimigo de Roberto. Chegou aqui sem nada; hoje, veja como
está rico! E aqui são todos assim, todos têm muito
dinheiro. Póde-se dizer que o commercio do Cachoeira é mais forte do que o da Victoria... Ainda
não se deu um caso de quebra... Estes allemães

áS

Cl I AN A AN

/

têm olho... Si fossem brasileiros, esta^ a tudo arrebentado.
/
E o agrimensor continuava nesse tom, a fazer
o elogio das virtudes/germânicas para o^negocioi,
* sim», economia, »«# facilidade de assimilação, mtm
L/energia no trabalho, d^rtdo, como contraste a ellas,
o* I as qualidades inferiores dos brasileiros, quejjwíse ^
comprazia em proclamar, no gáudio de se mostrar,
aos companheiros de passeio, justo.e superior, e ao
mesmo tempo com propósito lisonjeiro. Para se
dar ar de importância e intimidade com os mora\i-r
dores, elle", de instante a instante, deixava Milkau e
\J'
Lentz na i^ua e penetrava pelos armazéns a dentro,
para trocar uma palavra com o dono da casa. Algumas vezes, conseguia arrastar do fundo das lojas
até á porta os negociantes, com quem á vista dos
novos tomava liberdades, dando-lhes palmadinhas
nas costas, beliscões na barriga e dizendo-lhes injurias por gracejo, ao que os allemães complacentes
sorriam muito rubicundos, murmurando em tom
de desculpa aos outros:— Esse sr. Felicíssimo...
Isto é um diabo...
Os três iam seguindo.assim, despertando pelos
gestos e pelas vozes altas do agrimensor a attenção
da rua, mirados pelos tropeiros que descarregavam
os animaes e pelos freguezes que procuravam as
lojas. Lentz não tinha o menor interesse em correr
de casa em casa, á maneira fastidiosa e vulgar de
Felicíssimo; e então, para se ver livre d'essa $y(']/- li,*
rjfalA. J tMwf enfadonha defa&d passos de porta em porta, '" ,

CM ANA AN

29

propoz que subissem a um dos morros que cercavam e abafavam ao mesmo tempo a cidade, e
de lá desfructassem a vista da região. Os outros,
concordaram e assim foram, guiados por Felicíssimo. Para galgar a montanha mais accessivel, //Ága/éT
tiveram de yfi.4idx além da ponte, por sobre a cachoeira cujos cavos borbotões os ensurdeciam; e os ,y./i / /
passos dos homens iabce—aTponte~dè madeira,
ff
em cima das águas que se Quebravam em baixo, MJo^f
míflam vibrações sonoras,ipoderasas/como si sobre , ^ ;
ellaCasasse o pesado tropel da cavallaria. Do otitro i» ^ ^ c
lado estava a montanha que se puzeram a subir por
uma vereda pedregosa e de cascalho solto, dando
á marcha um movimento irregular e fatigante.
Felicíssimo ia mais lépido na frente, emquanto
y
os outros, não acostumados ao calor/caminhavam
J>
difficilmente, alagados em suor. A proporção
que subiam, morriam as vozes da cachoeira, vinham ao seu encontro o hálito perfumado das plantas montanhezas e o ar leve para acalmar-lhes os
ardores. A principio, dentro do circuito dos morros,
a perspectiva era estreita. Em cima, porém, elles
dominavam a vasta região accidentada, e os olhos
dos extrangeiros tiveram um delicioso instante de
êxtase. O contorno arredondado das montanhas
cobertas de uma relva basta, rente, fulgurante,
nas suas cores matizadas, o rio por entre os valles,
o ar limpido e secco mantendo estável a atmosphera,
a força da claridade desdobrando pelas colunas
o panorama, a abobada celeste de um immenso azu

pt &7 6£.*t«*-»« Cj-fZ

30

CI1ANAAN

cobrindo docemente a terra, todo esse conjuncto
de luz, de côr, de traços dava á paizagem um aspecto total de grandeza e confiança.
Felicissimo era o interprete da região. Como
perfeito sabedor, dava o nome ás coisas e designava os logares. Milkau estava sereno no alto
da montanha. Descobrira a cabeça de um louro
de nympha, e sobre ella, e na barba revolta,
a 1 luz do sol batia, n'uma fulguração de resplendor. Era um varão forte, com uma pelle rosca
y.
/%'ve branda de mulher, e cujos poderosos olhos,
fát**<y? da côr do infinito, absorviam, recolhiam doce£y; v ~a # mente a visão segura do que ia passando. A mo- .
"*r KJ „ cidade ainda persTstuférn não/abandonalflff"íruis' *-*
^y^
na harmonia das linhas tranquillas do seu rosto
tZy&r.
já repousava a calma da madureza que ia chegando.
Felicissimo apontava em torno e ia designando
os pontos do horizonte; os outros lhe acompanha///aí_S £Uyam o s gestos rápidos e, como <ffl$fyhté', não po2^
diam fixar os nomes bárbaros e extranhos que lhes
feriam os ouvidos, mas se interessavam em guardar e accentuar as impressões que lhes vinham da
região. Para o oriente era a terra do Queimado,
cujo caminho se desenrola longo e sinuoso, ora
n'uma planice descampada e risonha, ora por entre
O^ £ rTvêfde de um mattó rara, até'um pequeno grupo
de casas que formam o porto do Mangarahy á
beira do Santa Maria, alli orgulhoso e folgado, com
águas desembaraçadas dos cachoeiras. Para

CHANAAN

31

o norte, para o sul, para o poente, as montanhas
vão crescendo, amontoando-se como massas de pintura. Alli o Guandu, acolá S ta Thereza, duas regiões sombrias, que os colonos vão arrancando do
silencio mysterioso da solidão. Sobre um valle cheio
de sol um fio d'agua cáe longo e transparente como
um grande véo de noiva. Para o poente, o Santa
Maria margea os cafesaes, as casas de lavoura/e
lucta com as lages negras que porfiam em re- /
tel-o.
^
Milkau n'esse panorama aberto lia a historia
simples d'aquella obscura terra. Porto do Cachoeira
era o limite de dois mundos que se tocavam. Um
traduzia, na paizagem triste e esbatida do nascente,
o passado, onde a marca do cançaço se"gravava ,.,i
-ina/-yffiffi' m i n g u í d ^ l Ahi se viam destroçosjffir'-e*a/
de fazendas, casas'abandonadas, senzalas em ruifl «c"
nas, capellas, tudo com o perfume e a sagração^,*/ &&
da morte. A cachoeira é um marco. E para o Am*€>»"•'
outro lado d'ella o conjuncto do panorama se rasgava mais forte, mais tenebroso. Era uma terra
nova, prompta a abrigar a avalanche que vinha.das
regiões frias do outro hemispherio e lhe descia aos
seios quentes e fartos; e alli havia de germinar
o futuro povo que cobriria um dia todo o solo,
e a cachoeira não dividiria mais dois mundos,
duas historias, duas raças que se combatem, uma
com a sua pérfida lascívia, outra com a jetrà temerosa energia, até se confundirem n'um mesmo
grande e fecundante amor...

:\2

CIIANAAN

Elles desceram da m o n t a n h a ; e entravam pela
cidade, quando os armazéns se fechavam para se
reabrirem depois da hora do jantar. N'esse m o mento, via-se pelas ruas um movimento maior
de «jente que deixava as lojas e se recolhia ás
casas.
— Aqui, perguntou Lentz ao agrimensor, quasi
todos são allemães ?
— Sim, poucos brasileiros. N o commercio,
póde-se dizer, não ha nenhum.
— Então, em que se occupam os brasileiros do
Cachoeira? indagou Milkau.
— Os que temos aqui são os do foro, os juizes,
escrivães, meirinhos. Outros são t a m b é m empregados públicos, collector, agente de correio
J
— E professores ? perguntou Lentz.
— Só um, porque a língua que se ensina por
essas mattas é o allemão, e os professores são
allemães, com excepção do da cidade... Padres também não temos, nem egreja, como devem ter
reparado. T a m b é m não ha necessidade, porque
raros são aqui os catholicos, e para os .protestantes ha três pastores nas capellas do L u x e m b u r g o ,
Jequitibá e Altona... Os catholicos do município
são o povo do Queimado do Mangarahy e outros
pontos, onde está hoje a gente antiga da terra.
Felicissimo continuava a dar noticias do logar;
os outros ouviam-no em silencio, e a conversa se
foi assim espreguiçando até chegarem á porta
da casa de Roberto. 0 agrimensor se despediu,

/-?Sentaram-se os dois junto á janella aberta. como era o costume alli. e uma saudade extranha.CHANAAN 33 promettendo voltar no dia seguinte para os acompanhar em novas excursões. este ar./ "/ mando / expressão serena da arte. que. A . /. por motivos d'elle não per^^°u°^ cebidos. N'essa hora ^^Mnf^M^^t excedisCa si mesma. dando-lhes!' /// \j£ a tranquillidade. disse Milkau. rio. emoção ^ffd\ do encontro com o seu recem-che. Depois do jantar. Mas não. »^V! — E por quanto tempo aqui ficaremos ? disse o \yI ar Vil .fpr^â1' gado patrício./ 41 este conjuncto ff^pfH-. Lentz sentia-se esbraseado e abalado pela jy. scismando... segredando-lhes. . . \j — Parece que já vi este quadro em algum 4| logar. na outra margem do. to. Os primeiros IQ &L£^ perfumes dos mattos da redondeza desciam para' sy*JL>o es embalsamar o panorama. é segu"4-0|j ramente a primeira vez que conheço. . o repouso e a fixidez das pinturas. que /d fif⣠j^/ff^Sl como y p * * * 1 ! o almoço.. já tanto o seduzia e tf prendia. explicava o mysterio dos quadros sonhados e nunca vistos. os dois novos subiram ao quarto. e/// o\ que se percebe vae passaF d'aqui a pouco. //§_ incapazes de sahir á rua e de se ji metter ás priJ/\~ meiras horas da noite na fabrica de cerveja. Os dois immigrantes contemplavam em silencio.. Milkau estava fatigado da viagem e do passeio do dia. este torpor instantâneo. calma da tarde immobilisava Ííl4fjttâ. e sombras leves vinham envolvendo o mundo. a nostalgia de illusões que alli se realisavam agora.

e agora espero que este seja o quadro definitivo da minha existência.... fora d'esta paz dolorosa. este será'o meu ultimo movimento na terra. com suas fôrmas grosseiras. E si aqui está a paz. 0 senhor persiste em se dedicar aos negócios ? — Xão sei bem o que faça. Além disso. em torno de mim desejarei uma harmonia infinita. Não me sinto solicitado sinãó por coisas mais simples e approximadas da situação do futuro. e a industria no velho continente. que é uma sepultura para nós?.. penso que o trabalho digno do homem é a lavoura nos paizes novos e férteis como este.. sua posição intermediária na sociedade.. Eu me conservarei na humildade.34 Cl I AN A AN outro n'um bocejo de desalento//o^folharyáj/fyVi preguiçosamente sobre a paizagem.. Penso que si o commercio pôde ser um * / . e tenho a alma do repouso. respondeu Milkau. — Não meço o tempo.... Estou indeciso â irresoluto. — Aqui fico. é a paz que procuro exactamente. porque não sei até quando viverei. — E então por isso que vae para o matto? Não seria melhor ficar aqui no commercio ? — Não. seus estímulos baixos. — Mas nada o agita ? Nada o impellirá para fora d'aqui. Sou um immigrado. Procuro uma vida estável e livre... 0 commercio não me attráe. e o commercio é torturado pela avidez e éambição.

. como em uma grande scisma . o seu rosto / não tinha serenidade. que me não queixarei de ficar só..come não temos família. e. disse ao uya joven „*> companheiro: ' / — Porque não iremos trabalhar no rio Doce ? 0 senhor talvez se achafW ahi mais feliz e mais j^Á-/ independente.. Qti A cidade estava illuminada frouxamente. dando á physionomia uma expressão de rancor t. Milkau apiedou-se d'aquelle silencio afflictivo e. eu talvez me abalançasse a ir trabalhar na lavoura.\ gador que ha em cada homem. poderá partir. que as multiplicavam em seu espelho tre. .*. pois esse é ainda até agora o meu destino. deixando-se levar pelos bons impulsos da sua confiança abundante. f$<f>p.. // monólogo intimo e doloroso./ff enoVauxiliaremos mutuamente.-fc. ityfatffflffl e/não fosse o J o . E si se arrepender. medo do tédio da matta e da morte fla agitação..CHANAAN 35 meio de fortuna e de dar vasão ás ancias de jo. <\ mulo.. com espaços longos de sombra. Podemo/re<juerer \frA mesmo prazo. se prolongava a \ fll w? queixa contra o destino e elle se debatia em vão >' /*£f uy dentro dos muros fechados da sua sorte./ . as linhas estavam perturbadas. mas em outros pontos as luzes da rua e das casas cahiam sobre as águas do rio. \k {Mfffftl Ferdia-se na noite o seu / ° ^ \ olhar. Lentz. faremos uma sociedade . é também umW ' caminho baixo e vil.. Parecia que ^ét^f^aiSMír^^a. jyf. e ^ i n q u i e t a ç ã o . n'um *^ f esforço de ave ferida para pairar nas regiões do seu sonho.

que por or-gulho procurava domar. Esperava que elle reflectisse mais./7oram ditas com muita pureza de coração. Milkau regozijou-se. Em Lentz o que/predispunha a acceitar a ' companhia de Milkau era a indecisão em que estava de se abandonar á vida rude e mesquinha de caixeiro. Pasfo sou a conversar negligentemente sobre outras in *f*^-— Então.. porque sentia os seus instinetos de communicação espraiar-se no convívio d'aquelle rapaz.36 / CII AN A AN //> Estas palavra^jgjjgg? brandas e boas. e cujos desígnios revelavam pelo menos uma alma em aspiração. veremos. murmurou n'uma. que era pouco antes a sua alma. E também se alegrava por si mesmo.. Pelos lábios de Lentz passou um sorriso tão suave como franjas de um lago manso em que rapidamente se transformaram as fúrias de mar revolto. tem-lhe agradado a terra? esta verdura de primavera ? o esplendor do sol ? a vegetação possante ? . era também a seducção intellectual por esse companheiro de acaso.... Eu lhe agradeço muito. Milkau não quiz insistir e delicadamente desviou o avssumpto. Todavia não // a^eAttfQuiz de um modo Jtfyfefárf e imprevisto decid r a sorte do outro immigrante pela sua..tão intelligente.emoção. Porque não?. antes de se determinar a acom/0 panhal-o. que lhe parecia . na perspectiva de ter um fl/j/í /^cortjpanheiro/precisas^/de amparo e conforto no " exiíiò. — Sim.

—'• Oh ! este sol implacável!. logo que cheguei ao paiz.. reflecte em mim por seus •próprios merecimentos tanto encanto.. Antes. estive de passagem em Minas Geraes.. o seu quadro de montanhas. seus chorões curvos. S.. E com um gesto de mão sobre a cabeça.M/ando facilidade..' mas não édérâ. Fora d'ella não sei si o Rheno vale o Santa Maria. Aqui não ha descanço para uma suave matização da côr. — Breve se acostumará. ^ $ f — A Europa tem a tradição. dirigi-me para cá. — A h ! não é esta a primeira vez que vem ao interior do Brasil ? —r Por este lado é a primeira vez.. que. mas eu prefiro os . com suas margens incultas.. Eu já venho de longe e cada vez a admiro mais... sem passado. 3 . Lentz parecia querer arrancar de si a obsessão da luz omnipotente. atalhou Milkau.. ^cAt^ .campos europeus com suas mutações. que nos priva da liberdade de julgamento. o seu colorido mais distincto. João d'el-Rei é uma impressão única. tudo isto é forte e bello. e ha de amar esta natureza até á paixão. Sempre este amarello a nos perseguir..CHANAAN 37 — Sim. — Em que logar de. E foi uma grande viagem para mim.Minas esteve? — No Oeste. sem lendas.. sua água límpida e borbulhante. levando o plano de me estabelecer alli.

.. mas. embalado pelas caricías do somno. I quasi em êxtase como si fosse uma antiga e revivida sensação. e eu a recolhia *. Deixei-me ficar deitado. o que me produziu um doce encantamento. que começou a contar-lhe a sua visita á velha cidade mineira. . todo á escuta da narração de Milkau.apafffrr-f.. O espaço estava cheio de sons..38 CHANAAN >J — Como ? interrogou curioso Lentz. pois parecia que era entendida por uma alma longínqua que se despertava dentro de mim e tomava posse.... a musica dos sinos me era desconhecida na força e na sonoridade que tinha naquella manhã. Como a todo o homem habituado ás grandes cidades modernas. essa musica extranha não me feria. e o seu rumor egual e constante passava imperceptível aos ouvidos de Lentz. A cachoeira mugia sempre. — Logo á primeira madrugada o meu somno de viajante fatigado foi cortado pelo repicar de sinos de muitas egrejas. No Cachoeiro era silencio/a luzdas casais 'Tiy. E sonhava . da noite de verão que é apenas um instantâneo descanço do dia. noemtanto. — Alli me pareceu ter eu penetrado no passado intacto do Brasil. do meu ser. Lentz embebeu-se nas palavras de Milkau. Oh ! Foi uma volta deliciosa aos tempos mortos hoje por toda a parte e que ainda lá prolongam a sua vida. os lampeões da rua espaçadamente ponteavam de luz as sombras da noite diaphana.

Tudo alli tinha um aspecto sacer. faAa^ por pequenas cruzes negras nas paredes A desbotadas. o somno e o esquecimento. N'esse tempo. i que marcavfi no espaço a vida e a morte. um padre sahia á rua acompanhado da multidão cantando rezas. devotas procurando a solidão dos altares... tudo falava de religião. As casas acompanhavam esse tom severo e desprentencioso e eram mar-f ./ _ / erguidas mais pela necessidade da devoção que pelos carinhos da arte. todas ÇUAS/ singelas. a cidade fugia da terra ff-&carregada nas harmonias.. voava para os céos cantando.. Uma cruz negra envolta nas do/ « . as festas religio. tristes. castellos feudaes. O espirito da religião alli localisado dava-lhe o caracter e a significação. a natureza «/***" despertada pela alegria dos sinos se volatilisava e líbrava^è leve no ar.CHANAAN 39 o ar leve da montanha fluctuava como si todo _ elle estivesse impregnado de musica. Na quaresma a irrupção religiosa era ainda mais crescente. que elle definia como um santuário.. E eu sonhava. A edade média se representava no meu sonho : povoados. ás noites.. mosteiros. todos ligados pelas vozes do campanário.\ dotal.. irregular e feio. egrejas freqüentadas quasi todas as horas do dia. . procurando a calma. se deparava de instante em instante com uma egreja. homens e coisas*../ sas preoccupando o povo e divertindo-o durante / o anno inteiro. ouvindo repicar. Dentro do seu recinto montanhoso. A^»^*y Milkau continuava a falar da velha cidade mineira.

os rapazes erguiam a cabeça com altivez para o céo. fazendo coro ás orações começadas pelo padre. acariciada pela brisa fresca das alturas. sobre os quaes iam descrevendo longas e marciaes theorias. A multidão.fâjfyftdo ^f?00W> peito um grande.. ajoelhada debaixo-do céo límpido.. E lá ia a via sacra percorrendo os passos da cidade. cantava musicas suaves e ingênuas. Pelas encostas das montanhas subiam os devotos em romarias piedosas aos santos padroeiros das capellinhas humildes. illuminada pelos raios da" lua. implorava n u m sorriso : misericórdia! Cercada de morros a cidade era guardada ainda por egrejas postadas nas alturas. os dois grupos não se approximavam/^desviavaniyreverentes. e quando chegava aos passos. E si á hora dsfavemariaíum devoto retardatario passando por aquellas montanhas saudava os seminaristas em nome de Christo. Nas tardes deverão. o povo seguia rezando pela rua em um murmúrio $/è. subindo e descendo pelos morros. como de atalaia. ás vezes... na mais completa e bella confusão de classes. fervoroso grito. meia dúzia de tochas accesas. . N'uma devoção alegre e radiante. até se sumirem no horizonte. e era tudo. n'um relâmpago se descobriam.40 //JofZZ y*ÁrV </al /•> l"^ /a4 ' /// CHANAAN bras alvas do sudario. esse cordão negro succedia cruzar com o bando infantil e branco das collegiaes dirigidas por irmãs de caridade. (MilkaÍT recordava) costumava desfilar um cortejo de seminaristas em férias e. oratórios abertos sobre as ruas.

e povoadas dos restos de outr'ora. não deixará de sentir um frêmito de terror. vae aca- . de ouro e de sangue.alli que deviam ser zeladas como relíquias das melhores paginas da historia de uma nação. purificando-a momentaneamente dos vícios em que se vão dissolvendo as outras. nellas viveram sonhadores./-£y tjj&s) cicatrizegfdli^erra ferida que assim maltratada e ' hedionda clama ás gerações de hoje contra a devastação do passado. — Dou-me por muito feliz em ter ido a tempo de vêr tudo isto. O homem moderno.. porque não muito longe esse conjuncto de poesia. reconstruindo no espectaculo d'aquella paragem morta todo o quadro de uma epocha feita de escravidão. f/'v /JA. sulcos abertos e profundos indicavam a passagem ' jL do homem terrível que por alli desentranhou o ouro.. e os habitantes do logar ainda sabem ler nas paredes d'essas casas conservadas. a poesia da liberdade e da grandeza de todo o paiz. limpo de coração. Â""^^agem_gstá toda /Usignalada éúad..CHANAAN U que a solidão da tarde'no deserto tornava solemnc : Para sempre seja louvado ! A cidade ainda falava a outras tradições do a£Lvelho Brasil. Rematou Milkau esse quadro com algumas reflexões.. Ha casas . t por ellas passaram martyres.. Sobre o fjxí terreno accidentado. E essa mistura de fé religiosa e patriótica dá um caracter distincto áquella antiga cidade. de tradição nacional.

de energia que em si contem do que os logares mortos de um paiz que se vae extinguir. Na verdade. a civilisação d'esta-terra está na immigração i <j de europeus/mas é preciso que cada um de nós traga a vontade de governar e dirigir. tenaz. está escripta a nossa grande responsabilidade. — Nas suas palavras mesmas.estdj£eáz. nos espalharemos sobre ella. Falando-lhe com a maior franqueza.. Porto do Cachoeira tem mais significação moral hoje pela força de vida. os meus olhos se projectam para o futuro. nós nos mistu- 7 ^ísXl^f-/ . A velha cidade mineira da sua narração não me interessa.. lenta. é com dòd que sinto estar prestes o desmoronamento d'ax[uella cidade circumdada ^iá*w4zL de colônias extrangeiras. É preciso que a substituição seja tão pura e tão luminosa que sobre ella não caia a amargura e a maldição das destruições. pacifica em seus meios. a religião e as tradições de um povo. E uma nova conquista. E provável que o nosso destino seja transformar de baixo acima este paiz. disse Milkau. Nós renovaremos a nação.. que a&ijrffáfyá lentamente até um dia vencel-a e transformal-a sem piedade. mas terrível em seus projectos de ambição. Nós penetramos na arga-massa / da nação e aVamos amollecendo. a cobriremos com os nossos corpos brancos e a engrandeceremos para a eternidade. —I Mas isto é a lei da vida e o destino fatal d'esse paiz.12 CHANAAN xJAJfaAA^f/J bar. de substituir por outra civilisação toda a cultura. E por ora nós somos apenas um dissolvente i_ / da raça d.

.... / ses differentes. Ha uma tragédia na alma do brasileiro. Toda a lei da creação é crear á própria semelhança...... os homens e as mulheres não se amam com as mesmas palavras. o pae não transmittirá mais ao filho a sua imagem. todos são extranhos. quando elle sente que não se desdobrará mais até ao infinito. vindos de toda a parte trazem na alma a sombra de deu. indivíduos... os longínquos e fundos desejos da personalidade emmudeceram. o futuro não entenderá o passado. Tudo se desagrega.->.. O remodelamento vae sendo demorado..CHANAAN 43 ramos a este povo. as línguas estão baralhadas. Ninguém mais se entende ... a lingua vae morrer. matamos as suas tradições e espalhamos a confusão. os pensamentos não se communicam.. uma civilisação cáe e se transforma no desconhecido.. . os velhos sonhos da raça.. E a tradição se rompeu.

A pátria do homem devia limitar-se a um canto da terra onde não houvesse sombra.. — Quem me dera. onde. d'ahi a momento^ fflkL morria na bocca da matta. A principio a estrada cortava por cima de pequenos morros descobertos.k II — Não vejo nada claro. e então admiraram. que o sol se não apagasse. E os dois caminhavam afastando-se do Porto do Cachoeira na direcção de Santa Thereza. passeavam errantes as sombras das nuvens . Milkau e Lentz. sentia dentro das palpebras. Pouco a pouco elles se recompuzeram. n'uma paizagem accidentada e limpa. sentiram pelos olhos o véo de uma ligeira vertigem. na câmara rubra das pupillas. <$> penetrarem na escuridão repentina e fria. . disse Lentz. fechando os olhos feridos pela luz grandiosa do dia. fuzilar relâmpagos de sol. murmurava então Milkau.. E.

E tudo se ergue.a cabeça por cima do immenso chão verde e tre^ } " i ' mulo. Arvores. as -parasitas se enrascam pelos velhos troncos. Uma infinita variedade de arbustos cresce ás plantas dos gigantes verdes. estas de tronco pejado que cinco homens unidos não abarcariam. Dentro. *" antigüidade e a vida. que a rija e bella progenitora. umas erectas. e mettendo «•«J^4"^. \ chão a farta e sombria §oma. que lhe sáe do regaço e mais esplendorosa. Não se sente n'ella sombra de um sacrifício que seria o triumpho e o prêmio da morte. Ha seiva Vlfrff P a r a tudo. e tudo se expande sobre a terra. y . enorme. que é a copa de todas as outras. compondo um conjuncto brutal. ás vezes. Arvores de todos os tamanhos e de todas as feições. *y I arvores e supportam com fácil e poderosa galhardia a filha. umasL^. interrompendo a symetria. entre ellas se curvam e derream até ao 0/. com a graça de um adorno e de um Jjh£$l ^ fà$$$. f^uesquadrão. é uma florasinha miúda. ] . ífííé de membros asperrimos.011 AN A AN • 45 A floresta tropical é o esplendor da força na desordem. dentro do bojo de outra mais ampla e opulenta. aquellas tão leves e esguias erguendo-se para espiar o céo. compacta e atrevida. l1tny\ traçando um raio de sombra para acampar um iJí. quando outras lhes saem ao encontro. Toda aquella vasta flora traduz a . procurando emparelhará^ com as eguaes e desenhar a linha de uma ordem ideal.^ a rnesmo arvores que são mães de. arvores que se alteam. força para a expansão da maior belleza O * / de cada uma.

JQaesr •me*/ commumca/da negrura do verde ao desmaio do / branco a matização completa. triumphal.° s i l e ncio que mora na floresta é tão .. E lá. pela transparência das folhas. que ora avança. enroscando-se pelos braços gigantescos. das flores selvagens.46 CHANAAN 'entretecido no alto pela <éfêè$&fâf basta e densa Co**** das arvores e embaixo pela rede /&$$$(# das v'' . das orchideas. em cada bocca da estrada. das parasitas. com '&•*«*-Ka claridade que é branda.(iíC. tal como o aroma das cathedraes. tão sereno que parece eterno.b r i a g a e adormece fa fMfft. Feito 0* l á^trxj^^ .niosa d'esse perfume.. mas a gradação da sombra.. dos troncos verdes e dos troncos carunchosos. desce uma claridade //{ do<*<discreta. y fortes e indomáveis raizes. Elias são em si vivas e quentes. . as portas da matta formam um circulo longínquo azulado. e nessa fòtât illuminação se desenrola ' dentro do matto o scenario pomposo das cores. profundo.. todo elle se entrelaça.r £ d a m a t t a . dos pássaros. que é acre e tonteante. está a fonte do jfepejW ^ .. dos insectos. Pelasfrestas das arvores. Na volúpia harmoL..r&nita... acalma. dos animaes occultos no segredo da selva. como portas feitas só de luz. emjl/Ú <4. e. ora se afasta. e de uma luz zodiacal e 0é?fâffi\. prendendo-se como por tenazes n'uma grande solidariedade orgânica e viva. aZá/que se volatilisa e se diffunde no immenso todo. da resina que se derrama vagaJ-O / rosa jíek/longo das-arvores. De todo o corpo colossal. se desfyjfrffá um cheiro mysterioso e singular. ****.. das folhas novas e das folhas mortas.

é completo e absoluto na sua perfeita harmonia. A floresta européa 4~/fér. conti-jf . sentindo no corpo o frioelectrico e instantâneo do pavor. voltam-se inquietos. Milkau replicou : — A sensação que aqui recebemos é muito differente da que nos deixa. e os viajantes que caminham..é mais diaphana e passageira. çfá$ contemplação.. a paizagem européa. E. cheios da solidão augusta. sahindo do seu espanto. afinal. a frente. mirando r/atf/ o alto e Mf^. pelo? nervos de todo o matto perpassa um arrepio. / -«***<* f^jT"" A floresta no Brasil. e m si o tédio das coisas eternas. ha no ar uma deslocação fugaz como um relâmpago. transforma-se infique ^ f o r * * — Mas/dfâf espectaculo de uma grandejn brasileira 4 TOnmhrnlifti nWTTÉl interrogou Lentz yV . — Extraordinário ! disse Lentz.j ^ / ^ vozes baixas. dos murmúrios.. Ella tem ^ ^ .tory nuou : <fr — Aqui o espirito é esmagado pela estupenda magestade da natureza. então o jeiro farfalhar d'ellas corta a doce combinação do yfilenfiou. Si por entre as folhas seccas imontoadas no solo se escapa um réptil. é sombria e trágica. /i E.... Nós nos dissolvemos na ^ /. aquelle que se perde na / <>' adoração é o escravo de uma hypnose : a personar ^Lton-lidade $fó<0$ para se difFundir na alma do Todo..7 / ' CHANAAN *~f~j>~ tZr*»~ 4 7 ^ . dos movimentos l^tr f*M+ó rythmicos dos vegetaes.

. esta abundância.... mas que são como esses desenhos de nuvens que alli / ( h^c^^tLA. não comprehendemos o mysterio. e ainda assim é o esforço do europeu. fazem-se sobre isto jogos de palavras. tu sabes bem como se tem vencido aqui a natureza. Lentz exprimiu alto o que ia pensando : — Não é possível haver civilisação neste paiz. os olhos de ambos a se desmancharem de admiração. tal espectaculo nos priva WÇy+rla^ da liberdade de ser.. essa exube'(. como o homem vae triumphando. Nós passamos por aqui em êxtase. — Mas o que se tem feito é quasi nada. E mudos continuavam a caminhar pela estrada coberta. \ f4-/$1*- Um dos erros dos interpretes da historia está n" Ctejuizc/ aristrocratico com que concebem a idéa Me raça.. 'Zr^—^que succede com esta força. — Ora.'/ / rancia. a historia.j: região do assombro. Passado algum tempo. com essa violência.CIIAN \ A N . interrompeu Milkau. Vê. e afinal nos constrange... E1 a civilisação não se fará jamais nas raças inferiores.. ! t / £/ A terra só por si. até hoje soube definir a raça e ainda menos como se distínguen^ umaSfiüas outras..ki-J . MILKAU. esta luz. J£ o/&.. 0^M0á^'é ^ -i a tocarm s a ° ° . O homem brasileiro nãò é um factor do progresso : é um hybrido.K. é um embaraço immenso. Ninguém. porém.

. no emtanto. é a civilisação deslocando-se sem interrupção. £ um tempo na historia em que o semita brilhava -tf^s-Jo em Babylonia e no Egypto. Uns se vão i\\uminando.CIIANAAN 4D vemos no alto..o produeto d'essa o /-/* . o hindu nas margens sagradas do Ganges/ e elles eram a civilisação /< t o d a ! o resto do mundo dfy a nebulosa de que se '/ jjf~não cogitava.. é no encontro das raças adeantadas comas raças virgens.... O papel dos povos superiores é ds&^ instinetivo impulso de desdobramento da cultura. E. n'uma fatal apresentação gradual de grandes trechos da terra.. apparições phantasticas do nada. é junto ao Sena e ao _~ Tâmisa que a cultura se e^goLrlThoje n'uma volu. para que me volto ancioso e interrogante. E.. transfundindo de corpo a corpo. As raças civilisamse pela fusão. que está o repouso conservador. Jamais a África. depois. á sua luz e calor./J /'' pia farta e alquebrada. selvagens./frjírÍÁ0fg outros descem ás tre. qual é a raça privilegiada ^kfijtyf/sò #•*• f~*£ ella fó/d o theatro e o agente da civilisação ? Houve 2 f \ . o milagre do rejuvenescimento da civilisação. indo de grupo a grupo atravez de todas as raças. O que eu vejo n'este vasto panorama da historia...//àw ****Vas. O tempo da África chegará. MILKAU. inVf+tU LENTZ. Até agora não vejo probabilidade da raça negra attingir á civilisação dos brancos.

depois definham e morrem.yX^ rv MILKAU. como a dos mulatos. passada a treva da gestação. O problema social para o progresso de uma yi região/como o Brasil.($(£ uma raça sobre que se possa desenvolver a civilisação. LENTZ. Não acredito que da fusão com espécies radiÀ//>r*e*'u*' calmente incapazes /$. . r s? ^j^-ir A substituição de uma raça não é remédio ao vfêfZy* mal de qualquer civilisação. todos os minutos roto pelo sensualismo. está na substituição de uma raça hybrida. a civilisação será sempre um mysterioso artificio. outras que apenas . Allemanha. civilisação de mulatos. etefnos escravos em revoltas e quedas.50 CHANAAN fusão que. é antes de tudo uma questão complexa. por europeus. Foi assim que a Gallia se tornou França e a Germania. A immigração não é simplesmente para o futuro da região do paiz um caso de simples esthetica. N'esta grande massa da humanidade ha nações que chegam ao maior adeantamento. Eu tenho para mim > / ^ que o progresso se fará n ^ m a ^ ^ ^ ã o constante / / e indefinida. Emquanto não se eliminar a raça que é o producto de tal fusão. que interessa o futuro humano. pela bestialidade e pelo servilismo innato do negro. Será sempre uma cultura inferior. leva mais longe o capital accumulado nas infinitas gerações.

A arte... mas o conjuncto humano.. <ksdnão <M-J pára em sua marcha. é n u m ponto isolado da superfice que se dá a opacidade das trevas. luminoso e doce. Si a verdade estivesse na conclusío contraria. então a humanidade teria retrocedido depois do período do grego. e da renas- . tenebrosa e forte. LENTZ. Como ? Então o contacto dos povos da arte com os selvagens determina um precipitado que excede áquelles na capacidade esthetica ? MILKAU. o* progresso artístico não deixa de ser maior. caminha progredindo/sempre. Quando não ha um trabalho á flor das coisas.CHANAAN 51 esboçam um principio de cultura para desaparecerem immediatamente. os seus desmaios não são mais que períodos de transformações para epochas fecundas e melhores. As vezes. ha uma elaboração subterrânea. das raças. ' e os seus eclipses. segundo varias solicitações do meio e da epocha.. das nações. formado dos povos. mas pelo facto de não florescer certa fôrma de Arte.. e pela fusão um povo ahi se iVrina recapitulando O a civilisação desde o seu porito inicial e preparando-se para levar o progresso mais longe que os povos geradores. pôde diminuir ou augmentar em alguma das suas expressões. E a fatalidade do Universo que se cumpre n'esse todo que é uma parte d'elle. Lentz.

MILKAU. O fim de toda a sua vida não é a ligação vulgar e mesquinha entre os . é a ligação do homem ao homem.CIIANAAN cença. veid descrevendo uma longa parábola da maior escravidão á maior liberdade. da fraternidade. que é o sonho da democracia. aquelle que faz tremer o solo. O homem deve ser forte e querer viver. cada dia ella subjugará o escravo. diminuídas as causas de separação. aquelle que na opulencia de uma poesia mágica cria para si um mundo e o gosa. Milkau. Mas toda a questão está na comprehensão do progresso moral. e que/elle próprio i uma floração da força e da bellezá. / 3 / Não. e aquelle que um dia attinge a consciência de sua personalidade. de toda a liberdade e da própria vida. no fim será o amor. a força é eterna e não desapparecerá. LENTZ. LENTZ. Quando a humanidade partiu do silencio das florestas para o tumulto das cidades. . No principio era a força. Essa civilisação. é uma triste negação de toda a arte. porque até agora a historia não conta epochas tão felizes para a Esculptura e para a Pintura. Todo o alvo humano é o augmento da solidariedade. que se entrega a uma livre expansão dos seus desejos. 11 . esse ét homem e senhor.

a harmonia existirá por momentos. esta é o verdadeiro apoio. /u/ / .. mesmo n um regimen de escravos e de senhores. ' o que tem sua integridade completa e fulgurante. o verdadeiro homem é o que se libertou de todo o soffrimento.. as inspirações da Arte. nasce e cresce na dôr. amor?Viver a vida na egualdade é apodrecer n'um charco. os sonhos e as visões' do poeta. o que elle busca no mundo é realisar as expressões. não pôde haver sociedade sem ordem. como pastor. o rebanho.. e sem a liberdade não ha ordem possível . Oh! mas essa dôr deita gottas de amargura sobre a victoria. para conduzir como chefe.CHANAAN 53 homens.. Mas para ahi chegar.. como calculo sem números ."7 damento da solidariedade são o fim de toda a existência'. LENTZ. que caminho não percorreu o homem!. a busca e a realisação da liberdade como fun..<****~ É /> 1 -*" " * tente e indispensável ao conceito social. tfftfljW cujos nervos não se contraem nap agonia/ o que é sereno $j' e não soffre. Que importar/í a solidariedade e o. A liberdade é como a própria vida. o que é soberano. é apenas um factor preexis. indomáveis energias. as nobres. Xão. A ordem não é / / ^ M S £ £ ~ tíjjt um principio moral. Toda a marcha humana é uma aspiração da liberdade. mas será instável. o que é omnipotente.. o estimulo. /• ^*»'« d" diiifí mmt de uma sociedade. 1/} I"^ / MILKAU..

de soffredores. e não se pôde substituir a sua consciência fecunda pelo império de uma insensibilidade feroz. a atmosphera é irrespirável. que nos mata depois de rios. LENTZ.CHANAAN o que não ama. porque o amor é um desdobramento doloroso da personalidade. nem cultivados. nem ricos. todos se lamentam.entristecer— MILKAU. de satisfação. //?' ^*^*St7 w il sJ 1 IA li I '""^Tzffipfmrfflffl'1 P e n s o 1 u e devemos voltar atraz. Elle é a fonte do amor. como queriam. e nem senhores. o mundo está abalado. purificar-nos do seu veneno. O que nos une solidariamente na humanidade é o sofTrimento. ninguém está satisfeito por estes tempos. nem escravos.. de doentes. Eu vejo na exaltação das tuas palavras que ha em nós uma tristeza diversa deante do quadro da vida dos homens. essa gotta de agonia é bastante para condemnar todo o fundamento da communhão. nem simples têm o seu quinhão de alegria. MILKAU.. No meio de confusas . nem pobres.Omal é universal. mas sempre tristeza e deses pero. E quando n'uma sociedade o indivíduo soffre. da religião e da arte. Ha uma crise em tudo. apagar até aos últimos traços as manchas d'esta civilisação de humildes. o próprio solo é vacillante e tremulo.

vagaroso e divino. E como dentro em mim ar&flr*^ é doce a salvação! LENTZ. vem avançando a medo ' como um ladrão nocturno. E para ahi chegares?.+ homem. uma vez perdida. uma civilisação superior? MILKAU. n'este contacto extranho de sentimentos tão vários. como o próprio tempo... E o futuro.. ella é do tempo e. . e á Allemanha nada mais te prende ? . ytffâtfyjlL-dindo aos homens.CHANAAN 55 aspirações. e lépido então fui buscar o perfume e os alimentos que.H gada e doce da vida ? A religião foi-se. A sombra do passado penetra demasiado na morada do homem moderno e enche-lhe a casa de espectros e visões. Tudo se confunde. Deixei o que era vão. não volta mais. elle . póde-se acaso JnMdlar a harmonia soce./tr-^~ geiro do gesto consolador. mensa. Uma civilisação de guerreiros persiste no meio do surto da alma pacifica do . E á Europa. que o detêm eé perturbam. Mas eu não esperei o seu passo vacillante e tardo : despi a minha roupagem pesada.# **$%. fá mistura e il repelle f'J/ n u m torvelinho de desespero. sociedade.... família. Deixaste pátria. LENTZ...

. Sou de Heidelberg. reside na dupla consciência da continuidade e da indefinidade do progresso. mas/como a maior parte d'elles. E' a obra da imaginação e da memória. 0 que a Europa nos mostra. e eu não preciso/sentar-me sobre as ruinas para amal-o. Não comprehendo como por um acto de vontade se possa trocar Berlim pelo Cachoeira. tinha uma intelliencia subtil e aérea.^0 Crfíeu culto ao que é humano é activo. LENTZ. e de lá guardo as minhas mais longínquas recordações.. Vejo-me ao lado de meu pae. Elle era um professor de collegio. dia e noite ligados.. como fôrma da vida. mas o pudor da audácia ff- . Lentz. indeciso em sua vasta cultura escolar.5(i C MAN A AN MILKAU. era a própria doçura. um d'esses universitários muito instruídos. e as imagens que d'elle conservo no fundo da minha pupilla são de um homem feito de sorrisos suaves e inextinguiveis. como o corpo e a sombra. Mas isto é o incorporeo. De que cidade da Allemanha és tu? MILKAU. é apenas um prolongamento desharmonico das forças de hontem e das solicições do presente. Somente o que'ellas têm de grande no P a s sado. é o invisível.. Meu pae.

entre a . *W Depois de três annos. > Mas em tudo isto havia uma infelicidade funda.. Foi o perfume que guardou no « y / ^ i n t e r i o r dd j&üt alma sem transfundil-o além. e eu amei-a até á sua morte como uma filha tamanhinha e mofina. e por isso todo o seu grande capital de bondade e de amor ficou sepultado no fundo do seu coração. Minha mãe com lagrimas molhava noite e dia as saudades plantadas no seu coração. Ella foi mesquinha de dôr. E n'esse tempo que edade tinhas ? MILKAU. Elle continha e refreiava a imaginação. Eu sahia da universidade e entrava no mundo quando meu pae morria.. e o mundo o ignorou. /-Jr LENTZ. e / /~ d'esse excesso de concentração^^hefveiiAi morte.. Ai sfuas ex-///<J* * pressões nunca transpiraram o sarigue de todo o seu amor humano.CM ANA AN 57 o entorpecia. E então?. Oh! como elle mesmo creava barreiras ao seu espirito ! Os preconceitos chegavam-lhe ao appello da sua timidezlt í/}àf(é /illjftí > $f acariciava/como si fossem numes protéctores. LENTZ. d'essa existência. / ^ que lhe devia ser o amargor da vida.. MILKAU...

LENTZ.. E não te veiu ao encontro uma voz de mulher ? MILKAU. Como estremeço ao lembrar-me de tanta vida. Comecei a ouvir os accentos da minha própria voz..58 CHANAAN recordação e a piedade. Aos dez annos o amor começou em mim. E no emtanto ella fugia de mim . Não.. O que ha em mim de sentimento religioso se desenvolveu então na adoração d'aquillo que eu buscava. Longos tempos se passaram n'essa enganadora caça. os meus brincos. todos os meus estudos. mas. meio êxtase mystico... parti de Heidelberg com a alma cheia de um grande silencio. é ainda esse trecho do caminho da vida que mais me deleita : . os meus sonhos de creança tiveram [Q.a fôrma dos pequenos e intensos martyrios. Em vão? Não sei. essa paixão de infância foi meio doença. Quando volto ao meu passado. como tudo/que nasce prematuro. E nunca amaste a mulher? MILKAU. de tanto amor consumido por uma sombra. $$fi vertiam lagrimas e suavam sangue. bens e males da minha vida eu attribuia só a esta influencia poderosa e mortificadora. LENTZ.

a mula da frente marchava ///aUJ*Ã'lu' enfeitada de fitas de côr..CHANAAN 59 sinto quanto elle é embalsamado pelo amor que ahi passou. E a grande ventura (quem sabe?) foi que sobre essa montanha de fogo formada em minha alma jamais desceu o sorriso. até que outro amor. ^ v^** ao Porto do Cachoeira. os gritos. que lhe embaraçavam os meneios da cabeça. e então eu ascendi. tristes einsondaveis. Os tropeiros em sua maioria eram mais brancos que mulatos. de uns e . pãor me viesse possuir para sempre.. procurando o trilho habitual." Varrida asshxi-QS-jTiimaes. Milkau e o companheiro ap» encostaram-*]*** a beira da estrada... \|hesy(roçavam)ao corpo as brua. o único. porém. immensos.. A morte d'ella veiu habitar d minha existência. apoiando-se nas arvores. v a brandura. como esse perfume que foi a minha purificação da adolescência vem até a mim.. e esse o grande. as pragas. e não me consolei longo tempo. Aos vinte annos estava tudo acabado. cy^s ^JT de animaes. Qs^d^is--aiiTrgrj5~~r»e-*afni«4^i^ Ai <*uma tropa.. ascendi. redobrando a amplidão das vozes sonoras no silencio da matta.. que fffÜi das terras altas em direcção " . as ordens. / E Milkau foi interrompido pelo repique de campainhas que descia pela estrada. a caricia que resfria e que funde. Pouco a pouco estes sons perdiam a doçura melancólica e se confundiam com gritos humanos e tropel.*»*— cas de café e os olrTávarrT~tom os seus olhos de besta.

levando ^ * ^ > X c o m s i g o o seu toiJOfe barulho que quebrava além o somno das coinrw. com excii. Atraz d'e11a ficara um odor acre de café verde.. Amei uma mulher. que pensei ser a creatura sublime.. ou antes questão de consciência. na carne e depois d'isto eu a julgava recompensada e feliz. E nós fomos assim pelo caminho sumptuoso da minha phantasia. e elles/ladeados de arvores sem fim^ornavam com frenesi. já pelos lagos verdes que refrescam as terras. Minha amada conheceu as vibrações infinitas da yolupia. arrastando-a eu após mim. ' LENTZ.pelo imprevisto.. já pela solidão das montanhas de neve.J tação. A tropa passou caminho abaixo. mas um . Os dois amigos caminharam algum tempo calados. a2^twi alli na sombra e-humidade das arvores não se extingue nunca. como respondendo a uma interrogação escripta nos olhos de Milkau). ha muito pouco tempo i^t não pov deria imaginar-me aqui n'esta floresta. já pela cidades traficantes e vis. que humilde ama o soberbo... bel/" Na verdade. minha amada amou no sangue. Questão de amor. ao dialogo1 perpetuo dos themas eternos. de poeira levantada e de lama revolvida. Nós somos governados na vida. que fraca ama o forte. A historia é muito simples (disse Lentz.60 CHANAAN outros eram mfos espontaneamente na lingua de' cada um.. mas uma anciã de confissão e de abandono os estimulava n'aquelle mundo extranho.

cH/ fesso (oh! vergonha!) não pude supportar essa ' pressão collectiva dos meus camaradas. o que ha em mim de acquisição intellectual.pedia á minha família uma \\ *" reparação por aquillo que tinha sido o acto da independência da minha extrema sensibilidade. ou seja a família. O pae de minha amada era um velho general companheiro de ar<\ mas do meu.*»de mim com desdém.que me procurava dissolver ao bafo de sua ternura mórbida. E iri-con.CHANAAN tíl dia «•revoltou<'e a alma da mulher do occidente.. conjuncto de idéas ardegas e acceleradas. nos escrúpulos e temores de minha mãe ../se emancipar d'essa tyrannia pode. ou ffll a raça. Encontrou apoio nos preconceitos» christãos de meu pae. d se libertar do grupo a //v****/ que pertence. O homem levará ainda /. que a longa cobardia dos homens já fez eterna/ n'ella m despertourpara exigir de mim a minha escravidão. j Q ou dtíjl a classe. a minha . entorpeceu a energia de minha attitude. deixando os meus estudos de universidade. e eí$fes. dos indivíduos da minha classe!. no meu grupo social formou-se em torno de m i m uma atmosphera de reprovação : todos se julgavam limpos de consciência para áe afastar. Então fugi. E o que é peior. de escravo. A minha arrogan.. muito tempo./ A***" rosa que. Resisti. foi morto pelo antigo e implacável sentimento. Milkau.f/v /// cia 9» entibiou-~o'que ha em mim de cobarde..lhe annulla a individualidade e lhe traça ' na physionomia as linhas de uma mascara commum e sem distincção própria.

E parti então para a virgindade d'estas selvas. a minha família. era um / fl mundo maior. Viajei longamente até agora. O que mais me ator- . 4meu primeiro desejo foi sahir de Heidelberg e buscar a vida em outra parte.. com o ímpeto def n'cllas'viver/solitario/na exaltação do meu ideal. 0 que (H lU ^ b u s c a v a em troca de tudo o que deixei. sobre elle sonhei. e vivi intensamente o goso do pensamento puro.. ainda virgem e intemerato do contacto lascivo e deprimente d'essa moral christã.tão diverso. e a vida é a acção. Depois da morte de minha mãe.. A minha trajectoria vem de epocha mais remota.. MILKAU O que cada um de nós procura-é. que é o desejo e a razão do meu sangue. porque não actuei sobre elle.. O mar foi para mim a primeira grande sensação da liberdade .62 CHANAAN posição. mas não vivi o mar. como tu.. Também. então vaga e sem objectivo. em troca de bens maiores. ou de um dia as transformar em um império branco. sociedade.. a minha fortuna. Berlim me attrahia / julguei a)fy encontrar uma solução á minha existência. de bens eternos. ^ M J ^ Z / para JqncWc q u / saltando por cima dos secu* ' / los da humildade. renovar a civilisação e produzir um mundo que seja o reino da força radiante e da belleza triumphal.. era um verdadeiro domínio para o homem novo. quer dar a mão aos antigos e. com elles e sob o influxo drelles. civilisação. deixei terra natal.

. n u m a aspiração indefinivel de amor. Vivia vacillante e fugitivo. Mas as minhas scismas eram as mesmas. N'esta epocha a minha não conjEojmiaÇão ao mundo era cada vez maior . minha mãe. e eu sempre me prendia ao passado do meu coração.•>T minhadas pelas ruas. fiosse m a * apoio.. de sonho que sempre me fugiam : a minha tortura era infinita. Minha amada.AÍiifado de V qualquer crença religiosa.. a minha duvida tinha espaços tão illimitados que meu espirito oscillava e se perdia no mundo . pelos bosques calados. Custava-me já resistir a tanto. *f7 a sociedade não me preoccupava.. o que •foL&i^ amo hoje não me tinha chegado. o que eu amara tinha desapparecido. e ellas as minhas saudades. de calma. eram passeios intermináveis. sem interesse na \ida. meu pae.. a mim. o infinito para mim não existia. eternas ca. sem saber (/( &r»/ aonde os meus passos iriam findar. quando tudo me era indeciso e intangível. Nada havia que me jfrfffl/fáfflg /^oi^h^ay á vida. e a consolação '/ não me podia vir do nada. e pelos parques da cidade. buscando no exterior a calma para o espirito.. invocando as três imagens dos que amei e cujos retratos povoavam o meu quarto.. a minha doença moral me parecia irremediável.CHANAAN l« mentava. a minha melancolia acabrunhadora.. . era a consciência de que começava a f/flg^ viver por viver. torturado de um desejo de realidades. Â minha existência $fl /Ç^fr* vagar com os companheiros fortuitos. sem uma idéa moral que .. Vivia naydesillusão. y^(mey^entiíQcrescer dentro de mim yy*~~~'J mesmo.

. procurei realisar a acção pela única fôrma que me parecia positiva na vida. e. isto é. Comprehendi logo que não podia continuar na posição que tinha de critico litterario em um jornal de Berlim .. Não me y '' \*cts restava agora para combater o desespero sinão )**" procurar na mesma -vida a razão que me curasse do mal da morte e fosse um desafogo aos meus novos sentimentos. é porque a vida é mais desejável do que a morte. sem ideal e saturada de sen- A f . faltava-me agora o animo de falar de livros inspirados em uma arte vazia. a que em minha insania eu chamava o acto da vontade.. as lentas agonias e os duros sacrifícios alheios erairi o pasto da minha ^piedade. E o suicídio começou a ^ p no meu pensamento. Não se trata de libertar um só dos martyres. E então tive aquella anciã torturante de resolver de qualquer modo. Todos os soffrimentos extranhos se infiltravam em minha alma. de terminar dj.. desalentado.. Mas a comtemplação da miséria moral em torno de mim susteve aquillo.(Si CHANAAN das idéasedas emoções. Eu soffria. Olhei todas as vias que se podiam abrir deante de mim... $fytyl/#}flp o clarão bemíaze //// 'ov*Í ° ^ a solidariedade ani apontava.. e a Dôr pela sua mão forte e santa me conduziu aos outros homens. é preciso que os se salvem ». Reflecti : « si todos soffrem e se resignam. No estado de espirito em que me achava. pela morte. só tinha inclinação para os que se assemelhavam a mim.. e não é o suicídio uma salvação que deve ser collectiva.. minhas vacillações.

não podia descobrir./n'esteem. O mundo deve ser a morada deliciosa do guerreiro. a um ideal morto para a cívili.. que eu queria e por toda a parte procurava.. . ir á industria. peis não era ' mais escolher entre a vida e a morte.• sação e di qu^To meu novo pensamento ainaa L? 2«* rrrais se afastava.CIIANAAN 155 sualidade. para quem não queria definhar na esterilidade e no egoísmo. MILKAU.. A guerra é uma volta ao passado... é digna. que envolvidos nos mysterios da imprensa exploram os outros homens. Que profissão «ç será a minha n'este quadro do mundo/A política ? / A diplomacia ? A guerra ? * ' ( LENTZ.. Não tinha aonde ir. Porque ella é forte. Convenci-me ainda mais da falsa situação em que estava. Essa uma vida que eu sonhava. Não podia ir ás officinas. para quem buscava o que é eterno. Aquellas duas vidas. a guerra. e sim entre qualquer vida e uma vida. cuja credulidade voluntária é alli como em toda a parte a fôrma de sua cumplicidade na perpetuação do mal sobre a terra. a do político e a do diplomata. E agora para onde ir ? perguntava ^-humilhado...A ' baraço a minha crise prolongava-se. eram vãs para quem não escutava a voz da commodidade ou da ambição. Sim. porque ahi não encontrava 4. fazendo parte do grupo de ignorantes e dogmáticos..

para as minhas scismas longas e indefinidas.insondavel da figura h u m a n a . tratava-se também de uma livre expansão da individualidade. A minha angustia continuava. no enigma / y. ou aquietando-me á serenidade da attitude repousada eternamente no mármore. ou em. outros / perder o^J S . ou agitando-me ao vivo movimento do gesto. A Belleza entrava no meu espirito como "*** um doce sustento. dias inteiros a admirar a limpidez da atmosphera. / / em que me possui da belleza. Não se tratava só de trabalho. onde a arte busca ainda a sua fonte de mysterio e rejuvenescimento. Os panoramas do céo passaram a interessar-me profundamente.„ bebendo-me na poesia infinita da côr. a minha vista se //^-alongou pelo mundo afora e ÍJL vi o esplendor por n toda a parte. Xo momento em que tratei a arte. / m e u espirito des/ cançava e se apoiava para a existência. e a industria nesta velha civilisação é um desfiladeiro apertado de combate no meio da sociedade que ella divide em senhores e escravos. e por entre esses tormentos a minha existência solitaria/ia/se passando na contemplação reconfortante da Arfê.. pois até então a mi.. E então puz-me a viajar longos dias pelas antigas paragens.. Foi pela arte que comecei a amar a natureza. ^jo só tinha os olhos voltados para o meu caso pessoal.. nha attenção ao mundo exterior era vaga e ialyj-cevta.. Ou mirando a linha triumphal da estatuaria. ricos e pobres..66 CHANAAN ainda a atmosphera para a minha independência e o meu amor.

que é um traço de união entre as gentes. immensas. como a própria liber. Vivia mais das impressões da luz sobre o quadro. que dos alimentos da terra.^. e de outras praias brancas.. No inverno os esqueletos das arvores cobrem-se de branco. e esse olvido e^. No outomno o sol abrasa as arvores amarellas. Ú rfieu f->~y*r deslumbramento pela natureza afastava-me de tudo' o que não fosse contemplação. onde se desenrola a vida.. nos lagos e nos campos.CHANAAN 67 os olhos no crystallino do ar. leve j******" /"!• como arminho. ffflff °í//^ outro mar. succedia-me passar longos tempos solitário nas florestas.. farfalhante como areia.. inaccessivel.. mar amigo... que estreita a terra cheia de anfractuosidades. No /y*6*'r tempo d'essa única preoccupaçao reinava em meu C£ /^/j espirito um esquecimento das desgraças do pas. Carregando por toda aparte a minha admiração. Vi o mar. mar que não espanta. dade.^ yj-^me parecia a felicidade pela hypnose com que r/u4/U<^^'JJt adormecia a minha consciência. e desce sobre a terra uma neve abundante.y^—. o mar tenebroso que apavora. n'um êxtase de louco. pelos ares. vadia. . Assim vivi longo ^ T ^ Í(U\ <2~i~& . outros a sonhar na immensidade das cúpulas azues límpidas e infinitas que são o espaço..^s sado ou dos cuidados do futuro. tentador e indomável. a extrahir das coisas a summa da belleza.. que do mina e que é em si mesmo. como uma paizagem phantastica e morta. as quaes são abrigos para os homens. o pequeno mar do sul da Europa unctuoso e doce. e sobre ellas a Morte é uma gloria de ouro..

havia outra existência. j/J-iÁC Hf no estudo e na scisma. Lentz. Depois dos primeiros moI Qj rnentos de prazer e tranquillidade. Hoje. Ao estado de desvario artístico succedia em mim um desejo de mortificação e soffrimento. Concentrado n u m logarejo encravado no coração dos Alpes da Baviera.. d minha cobardia me atormentava infinitamente. Viajava dentro do meu êxtase. forte.. f ..CS CIIANAAN tempo. ' mas os velhos monges tinham como sustento o / consolo da adoração. O meu isolamento era apenas intellectual.. tal foi a nova via por que caminhei. em pleno domínio do sensualismo. tão nobre... uma fôrma de desdém do < ' ^ 4 f e ^ m u n d o ' u m a e x P r e s s a o mesquinha de quem fyfyà doHseu logar na vida. y A pririncipio íí/(jrie/íi íludi \pensando que não C—-. E a consolaçãoynão te vei u ? MILKAU. a vida solitária dos monges. //' LENTZ. que atravessava 'extranho e silencioso o mundo.. e a solidão passou a ser um estado afflictivo. que era como um carro de ouro levado pelos cavallos ardegos da imaginação e transportado pelos caminhos deslumbrantes das regiões plácidas emysteriosas da belleza immortal.. Resuscitar. effão engolphado no meu culto.. evaporar a minha animalidade e dissolvel-a na combustão de um sentimento activo e fecundo.

O ascetismo é como uma ilha solitária que arde no meio do -. como * / L Í i | n a forca de bondade. Nunca mais tornarei á ..9 quando penso no isolamento a que um homem se consagra. uma manhã desci das alturas. Vj^iEYdas brancas e frias pedras verei mais descançar a /yr>* <££*•. affir W*ti "e^lencià^üde minha vida se espalhasse por toda a X4**^**** 0**r. luz rosea do sol.. JrjfTpomo si fosse um fundo de mar setco. marJlhk seus fogos deslumbrantes têm um phan. Então. . mas ' ' ^ as Mtí labaredas afastam d'ella os homens. ///*^' E eu não podia me consumir n'essas chammas. nem sobre 9$/ffifâ$ de gelos tf 0* j ...' sorria. O que eu amava.. penso que é um sacrifício.. ^ / i / J g e l e i r a fumegante. era fazer ' ****£* amar. penetrasse nas mínimas moléculas.// L tastico poder de illuminação sobre o mundo. ligar-me aos espíritos. Qne/^mparavl) e um bem'estar infinito <*•-/ t&> nunca mais me deixou.. de consolo e de immolação! Quando cheguei Jb^ahaxxo era outrjxjiornem. mas também que é uma manifestação de estéril orgulho.r das montanhas glaciaes.CHANAAN r. Aqui nos meus olhos ainda tenho guardado até hoje o ultimo espectaculo .. **. gerar o amor. pois já trazia dentro de mim a porção de humanidade que me conduzia á vida. O amor dentro de mim ^ í . Paizagem solitária e morta. e sobre *** ^"êlla os fragmentos da vida passando carregados ao ttJ*f A0VX0 do v ento gelado. penso sempre no deleite d'esse refugio. Adeus.. dissol^írf-rfver-me no espaço universal e deixar qne/y^Btd.parte. montanhas de si/ Lui^flencio.

emquanto os outros ainda jazem informes na matéria geradora. O principio do amor me sustenta e protege.. o amor os reclamará á vida. No principio era o cháos. MILKAU. tudo representa a victoria e a expansão do guerreiro. quando vi a marcha da humanidade partindo da escravidão inicial. mirrado pasto da t r i s teza... é o crime. a tua figura de homem vae se apagando. e eu verei o teu semblante um dia sem luz. moral hereditária para uma consciência pessoal. Eu sou d'aquelles que foram por elle consolados. massas informes se apresentavam como manchas de nebulosas cobrindo a terra .. Todo o goso humano tem o sabor do sangue. e as personalidades surgiram. . Um dia será a . á meu pen( samento se esclareceu. Mas quando o amor penetrou em ti. ' pouco a pouco/d'esta confusão cósmica os homens se destacararr/. Jjf~ Reflectindo sobre a condição humana. Mas um dia chegará também para estes a hora da creação. Ia terminar o drama intimo do meu espirito e concluir-se a passagem dolorosa de um estado de / .70 CHANAAN LENTZ. começaste a minguar. sem força. sem vida. não ! A vida é a lucta. Não. Tu eras grande quando a tua sombra sinistra de solitário passeava nos Alpes e amedrontava os ursos. pois crear homens é a sua obra.

quanto não matou o bello ipê. a sua historia é a derrota de muitas espécies. LENTZ. olhando a floresta. a victoriado forte. Como é magnífica aquella arvore amarella! MILKAU... Cem combates travou cada arvore d'estas para chegar á sua esplendida florescência. o sol queima-lhe as folhas e elle é o espelho do sol.. Esta matta que atravessamos. e o caminho da civilisação é também pelo sangue e pelo crime... Vê como tudo te desmente.CHANAAN 71 subordinação de tudo a todos para maior liberdade de cada um.. Para viver a vida é preciso / +* J / ' . E' a parábola que descreve a vida. de expansão carnal. O proceíso é o mesmo por toda a parte .. A belleza é assassinaie por isso os homens a adoram mais. Para chegar aquelle esplendor de côr.' LENTZ. de luz. da grande escravidão para a maior individualidade. O ipê. é como uma umbella dourada no meio da nave verde da floresta. o sagrado páo d'arco dos gentios d'esta terra. a belleza de cada uma é o preço da morte de muitas coisas que desde o primeiro contacto da semente poderosa foram destruídas.. é o fructodalucta. O ipê é uma gloria de luz.

astro. Aquelles que cruzam as armas. o conjuncto de seres. quando . néra. sustentado em suas Ínfimas moléculas por uma cohesão de forças. O mundo é uma expressão da harmonia e do amor universal. uma reciproca e incessante permuta. que Ití& trama e o principio vital do mundo orgânico. insecto. j sobre 01 não fructifi^cavam as sementes di arvores e aj(grandes plantas trazidas pelos pássaros e pelos ventos. a vida dos homens ftâftjp. (euvejo' tudo como um só. emfim. MILKAU. Os grandes seres absorvem os pequenos.a terra é como a d'aquellas plantas fdfàfklk pedra. (E apontando para a vegetação no alto de ama rocJia. O cume da montanha era uma lage estéril. planta. Um dia. cooperação jla vida sobre o planeta. é preciso nâo/contrariail. terra. immenso todo. Tudo é subordinação e governo. itffifô-fttfjf. olhando a 77iatta. A natureza inteira. o senhor arrasta o escravo. Sol.CHANAAN ' ir até ao ultimo gráo de energia. o mais forte attráe o mais fraco. de liga eterna.n'um systema de compensação. E<tudo concorre para tudo. trouxeram elles sementes de algas e vegetaes primitivosyM^fJ^J^^jé» mineral da terra •Muito tempo passado. homem. a lei monarchica. E' a lei do mundo. são os mortos.) Na verdade. peixe. o homem a mulher. pássaro. as múltiplas e infinitas fôrmas da matéria no cosmos. de coisas e homens.

para chegarmos á unidade. A historia testemunha que a cultura não é JJ^ksomente a obra do crime e do sangue. surgiu aquillo que nós admiramos: um jardim tropical expandindo-se em luz. Não amaldiçoemos a civilisação que nos veiu no sangue antigo.. entrelaçando-se nos troncos das arvores. é necessário renunciar a toda a auctoridade. mas.ella medraram. A vida humana deve ser também assim. Do muito amor. E preciso não perturbara harmonia dos movimentos e da espontaneidade de todos os seres. emeôr. f/jffi0/ 7*' coacção moral concorrem as alavancas da sympaCf*^thia. protegendo os prünitivos moradores da pedra/que então ousaram crescer. no corpo de suas filhas. mas façamos que este sangue seja cada dia mais amoroso e menos carniceiro. a toda posse. porque — é sobre ella que se fundará o futuro. Que os nossos mais entranhados instinctos da animalidade se *) / / -. da solidariedade infinita e intima. no alto da montanha núa. cada um tem de contribuir côm uma porção de amor. O mal está na força. Deante da obra da civilisação o papel de cada um é egual ao do outro : a acção dos grandes e dos pequenos se confunde no resultado. KAnvà*/\ . espalhando pelo chão a sombra. a todo o governo. em aromas. Os seres são desèguaes. a toda a violência.. que elle engrinalda como uma coroa de triumpho. A obra do passado é ainda veneravel. já encontraram a terra formada pelas algas e sobre .CHANAAN 73 aqftellas sementes primeiro rejeitadas foram de novo para alli carregadas.

Os dois homens fitavam o sol. da dedicação e do amor. para debaixo das montanhas.. que rubro rolava. que se vinha apoderando docemente das coisas.74 CHANAAN transformem no vôo luminoso da piedade. .. Os dois homens fitavam a Morte... 4Ç y£v*fe •jr-^~r j^ji^' Era finda a viagem.

caradas neto uniforme era o de um pombal O seu < na altura silenciosa da montanha. Em suspe círcurfiscrevendo a povoação./ L > i ternura.//] <£&l * eguaes. As p^j^éi/a^ c a ^ . e por onde tóife^r^ <<«^U*4--»^-AíV»*t./ . um parque ra rde assinalado de arvores salteadas. á-~y quándoYLer t o m uma e x p r e s s ã o / ^ ^ ^ « ^ W ^ W jovial. Assim escan. Milkau alegrou-se vendo o seu companheiro de destino e <oJ(saudoi7|om um sorriso de K ." / porta da pequena estaSanta' Thereza. A enfileiravám-'em ordem. como olhosyque^á^^íkssem. levemente expiado pela frescura e subtileza do ar. . Pouco depois. todas . iam juntos pela pequena povoação dddyd£&àa accovdada e radiante na sua ingênua simplicidade.///*''(f~i '-as.r. onde dormira/contemriaj^do a ^ vida plaxjdo a vn que se despertava em ^èrítz^ sahindo por sua vez do qíiarfo. /r de luz .s/r ' / VY . mo'itrnvfin/-se pelas portas abertas e cheias brancas . .

e/todas as artes alli JHB&SMMBÍ na singeleza do seu espontâneo e feliz inicio.. cantarolando . em harmônicos movimentos peneiravam o milho para o fubá. como única machiníí. outras amassavam o trigo e preparavam o pão . um pequeno engenho para mover os grandes^folles de uma forja de ferreiro. Na sua officina. Os dois immigrantes sentiam-se transformados por uma paz intima. mulheres fiavam nos seus quartos. ^ aquella pouca gente se entretinha nos seus humildes officios.j I K T CHANAAN V. grito do vapor e apenas. Emquanto por toda aÀaxXeJ^J na matta espessa/outros se batiam com a terra. swn o pequeno trabalho manual. faz'a rodar com estrepito^^noro. Um alfaiate passava a ferro um panno grosso. I—J . Era um pequeno núcleo industrial da colônia. por uma consoladora esperança. E todo esse / ruído era vivo e abgnetJado. outras.• 'y<-$y76 / ' -. j/or toda a pary o nual. humilde humi e doce. que a água de uma represa bsi. um velho sapa//•^ teiro de longa barba. . todo elle se entretecia sem violenciar^e mesmo o malhar do ferro não • W y W . deante do quadro que lhes mostrava a população. ^^lOT^^vP' " O S d e a 8 u a corrente. que eram a alma da paizagem. Lentz achou-o veneravel como um santo. notando J//o+*i«**3*£ musica ifápfi e alegre fffári/$t/j$f$p vários ////AJO4 ruídos do trabalho. Zllefr yiam todo o povo trabalhando ás portas e rio interior das casas com tranquillidade. e di mãos muito brancas e esguias batia sola. Milkau e Lentz percorriam o logarejo.

balho tinha o seu scenario jjif. são os creadores eTeL*?//* simples' natura(es. — Isto é uma gloria. disse elle./e a creação é n'ellesuma feliz / // satisfação do inconsciente. onde o tra.. em que o mestre da banda de musica de Santa Thereza dava a lição matinal aos seus discípulos.. Milkau também admirava. orgulhoso de ser homem n'aquelle alto de montanha. estes pobres que trabalham mediocremente com /**tf próprias mãos. Mas no fundo assis. n'aquelle rápido retrocesso aos começos do mundo. que conservam toda a frescura da éid vyy alma. que fazem can' tando l&{ p ã o / iand vestes. Ao espirito desmedido e repentista de Lentz esse inesperado -encontro com o Passado parecia a revelação de um mysterio.CIIANAAN t'. e o espectaculo de um trabalho livre e individual nos emb/ílft de prazer.(O*™**' timos a um começo de civilisação. mas como l//4&r®** enxergasse no louvor de Lentz o/espirito negativo LtAooC^ fftffli. interrompendo o silencio em que iam.<f$!fô. é um bello quadro esse que vemos. . (mf&» Havia uma felicidade n'aquelle co^MÀdli de vida primitiva. é o homem que ainda não venceu grande parte das forças da natureza e está ao lado d'ella n'uma postura humilde e servil. observou : //?/* — Realmente. que se não embrutecem no barulho das machinas. ^^fj estes homens que se não mancham nos fumos do '/ carvão. que se bastam a si mesmos. 77 4 destoava do metallico clangor de uma Clarineta.

rando governar o mundo. ^ ^ . merecem ma\sj£ meu amor que essa infinidade de proletários. A poesia quetâMfjfâfâ è o perfume 0** mysterioso do passado.. dirigindo o machinismo engrandecido quasi á altura de um operário. massa da civilisação retroceda a esse antigo período */// Jk> da industria. se vae afund/ndo n'um embruteci/ • mento peior que o do selvagem? replicou Lentz. especialisando e eliminando os homens. Sim. Passaram ainda algum tempo. .. sentindo uma entranhada difficuldade em abandonar aquelle logar. hojèyque tfrjtfyfâ/tffa a transfor-/^ / mou em um instrumemo de movimentos próprios. e é preciso consideral-a pelo seu prisma luminoso como uma aurora. famintos e pavorosos. a machina. — ^ u ^ f v ^ Zfifyfrfj repetia Lentz. servo da machina. e*^) emquanto passeiava ao lado de Milkau. _W. /gral da industria. Nós não podemos fazer que a . cheios de ambições.^ « w . procu. ///fâ&iWfii fflfjbfi de todo o peccado de orgulho. Ao menos estes aqui. para o qual nos votamos J/irtY atemorisados.Qhea^iroipa percepção inte. readquiriu a sua intelligencia. tenho como sagrada toda essa gente. inabalável.M^ -^Mrí*m. Dirigiram os passos para os caminhos que .78 CHANAAN — Mas quem pôde negar que o homem. — Para mim ha uma illusão n'esse sentimento romântico.^ ^ s e libertou. são bons ' e ingênuos e supportam o seu jugo com um sorriso. mas ha também uma poesia mais forte e mais seductora na vida industrial de hoje.

/* como quem parte para o desconhecido.f//*~ / baros e de extranhos alli recebidos com brandura / e carinho. ar. agradados do seu rdsto delicado. tranha n'aquella floresta verde. Mas afinal tiveram de se a r r a n c a r . o **--/ lhoh üdL éed. miravam attentos o serviço que n'ellas se fazia. a sLd. //# [/ '/A principio iam meio apprehensivos e calados. Uma filha da hoteleira (ós/Qevouyaté á bocca do caminho do Timbuhy JSÍkfr/jtom mil perguntasJ d*tíVàfdlbtfJtffiL uns instantes.^ desandado repouso. valles/ / • / • ' florestas. da sua forte e fulva cabel.<*. Lentz via na rapariga uma divindade ex. Elles admirarão^ dCsea^gesto. iwenrubesciam/E em tudo isso se recreiavam mansamente. Milkau e Lentz PÍU sna majch^ passaram jfa V v .<*/ dade meiga como eram os habitantes de Santa Thereza.0 leira. ora subia. mas uma divin. paravam á porta das casas. que os retinham alguns minutos no povoado. e perseguindo comjUusJ olhos de admiração as saudáveis raparigas.T^arou*». Dentro tftíjk se abrigava a multidão de bar. giravam abaixo e acima pelo parque. e partiram como n'um sonho. O panorama largo/ousado^^-fecundo.graça. ribeiros e cascatas. va-J?/ V6~/d TiaÂJ / r a s e u / aspectos!'cheio de montes. A estrada \ por cima dos morros descampados ora descia. sorriam ás creanças. A joven estendeu o braço longo indicandolhés o caminho.ML{ leira. Era um trecho de / uma região poderosa e opulenta da terra brasi. deixando-se ir na inconsciencia d'esses actos espontâneos.CHANAAN 70 abeiravam Santa Thereza. Procuravam as pequenas elevações.

o longo mar. as estrellas. animaes e creanças debaixo das arvores. homens mettidos na sombra fresca dos cafesaes que rodeavam as habitações. E os dois immigrantes. vestida de sol. todas com disposição ' e graça uniformes. outras depenf. que era amimada pelas coisas : sobre o seu collo águas dos rios fazem voltas e outra^hejtgnlaçanj)* cintura desejada. o mar. E as casinhas se succediam por todo o valle. Havia fumo em todas as chaminés. ' ' H/ . mulheres em suas occupações domesticas. de tranquillidade.e abundância. n'uma vertigem de admiração... se precipitam sobre ellá como lagrimas de uma alegria divina. unidos emfim n u m a mesma communhão de esperança e admiração. no silencio dos caminhos. com a espuma dos seus beijos tbJ afag/eternamente o corpo.80 CHANAAN fo/l ///// J/ pelas casas de colonos agricultores. /'/h 7 duradas na encosta d ^ ^ . as flores a perfumam com aroma extranho. ventos suaves lhe penteam e frisam os cabellos verdes. / Ou~£du^t Elles disseram que «lia era formosa com os seus trajes magníficos. os pássaros a celebram. a r puzerarrr^a louvar a Terra de Chanaan. coberta com o manto do voluptuoso e infinito azul. ///*L punham-se a mirar de fora esses retiros encantados de verdura. as quaes êkJ i viam pela primeira vez. abrigadas ' f u r n a s no fdfâfi seio dos morros. sem íi^f^ penetrarem. e.

porque no seu bojo phantastico guarda a riqueza innumeravel. ytó seus olhos suaves e divinos não /i"v*~ distinguem as separações miseráveis. o ^-//fÉwy^ quecimento instantâneo da agonia eterna. homens J p ^ * * Êfl/Lptfttffftfí/fytyl tão meiga e consoladora.. fd suas riquezas f # r.-.. para o orvalho da noite /jr JtLti fria tem o calor da pelle aquecida.. sua porta não se fecha. o ouro puro e a pedra illuminada. e(jhe/^ãrítai^ hymnos +». O h ! poderosa!. //r //*/V. desejo. tribue fó seus dons preciosos fâtffyty d'elles têm V/X. a casa de ouro. Elles disseram que ella era generosa. porque dis . porque um só grão ds^ suas areias fecundas fertilisaria o mundo inteiro e apagaria para sempre a miséria e a fome entre os homens. porque era a mãe abastada. j . " ^ Elles disseram que ella era feliz entre as outras.. '//ê/ /' Elles disseram que ella.. amorosa. o $já seio^C < f / ^ . não têm dono . que a não engeitam por outra.. e/aj. porque fó seus rebanhos fartam d$ suas nações e o fructo dfó suas arvores consola o amargor da existencia. enfraquece o sol com as suas sombras. não deixam as suas vestes protectoras e a recompensam com o gesto perpetuamente infantil e carinhoso. a providencia dos filhos despreoccupados.CIIANAAN 81 Elles disseram que ella era opulenta. sahidos de um peito alegre. não / perturba^f/í j ^ f ambição $ l ritffd orgulho .

82 CHANAAN maternal se abre a todos como um farto' e tepido agasalho. Já traziam cinco horas de Santa Thereza quando dfyfdaram á margem do rio Doce. — Não ha duvida. disse Lentz. preoccupado pelo instincto da hospitalidade. adorando esta sua bella terra. porém.. Mal tiveram tempo de dar uma vista d'olhos pela redondeza.. isso são horas de chegar ? E sem esperar resposta foi ao encontro dos dois allemães.. o agrimensor Felicissimo se lhes dirigiu com o triângulo moreno do seu rosto escancarado n'um grande riso de vida e bondade. — Onde almoçaram? Posso arranjar aqui alguma cousa para entreterem o estômago.. os interrompera.. Felicíssimo. por um pouco ficávamos por esses caminhos. Milkau pensou que era o gênio da raça originaria e senhora d'aquella terra que/lhes deparava. / frei í E os <fd$fâ / ^ / ^ a r a m a contar-lhe com exalfsyrfr tação as suas primeiras impressões. . nvuma alegria estrepitosa e confortante. / / & aiçy .. O h ! esperança nossa! Elles disseram estes e outros louvores e caminharam dentro da luz.. gritou de longe. com as mãos estendidas. isto é mesmo um paraisc. sahindo de um barracão verde alli situado. porque. ajoelhados. — Ah! meu caro.. concordou com enthusiasmo o agrimensor. — Então.

onde o agrimensor tinha o escriptorio. nem uma photographia. Ainda lhe trazemos algumas aqui. Os hospedes agradece- .CHANAAN 83 — Obrigado.h-0J-&~}~4 dade do cearense. comemos alguma coisa que trazíamos e depois no caminho nos fartámos de laranjas no pomar de uma velha colona. de uma singeleza / Aomada. recebendo as laranjas. Thereza.i~»*uc f nha. cujo arranjo não podia ser mais simples : alguns instrumentosjl^j^arrrpojld^isou três grandes livros (§obre uma mesa ao cantp). Veja que belleza de fructa! — 0ft$jL não viram nada. Felicíssimo fazia também d'esse A barracão o seu quarto de dormir. abrira gostoso uma ex/ cepção para os dois extrangeiros. Olhem. élíL. agasalhando-os no barracão do escriptorio. e em tudo! Encaminharam-se para uma meiaguá coberta de zinco. emquanto esperadddm levantar nos lotes as suas Á/Gt/ casas. Felicissimo. respondeu o agrimensor. porque têm muito de que ficar de bocca aberta. não ha Brasil como este. Não estraguem a admiração. porém. apenas um maço de jornaes dsÀ. Nem um livro de leitura. d ^ / M i l k a u . Ao sahirmos de Santa. torio de hospitalMj^ütáf ao funõTÕ"^"pequena cozi. que eram o registro dos prazos arrendados aos colonos. Era espaçoso e arrumado como um d o r r r u ^ / . e na parede um grande mappa dos lotes de terra da região. Ao lado havia outro puxado maior. nem o quadro mais humilde. o desabafo da curiosi./ que era o alojamento destinado aos immigrantes.

/. — De fôrma alguma. travaram conversas nas quaes os immigrantes se foram informando de muitas coisas do logar. não teríamos tempo de ir e voltar com d dia. e deante da planta dependurada elle accrescentou : — Para mim.. O diabo é que está enterrado em plena matta e vão ter muito trabalho para fazer a limpa. seria o numero dez.jtodo assanhado. Uma doce fadiga entorpecia os viajantes e tf0fi/J jr / deitados sobre a relva junto á casa. Felicissimo farejou o tempo. abancados todos no quarto de dormir. lhes disse : — Ande d'ahi. Chegando á porta. Ahi a terra deve ser esplendida. Mas si fazem questão. Milkau. Passaram para o escriptorio. respondeu Lentz. interrogava os ou/ tros. Méfà querendo ceder por / ' delicadeza ao parecer do agrimensor.84 CHANAAN ram ao brasileiro amável e.. E melhor ficar para amanhã. que não disputava primazias nem & vantagens no mundo. até que o agrimensor. em companhia . o que mais lhes conviria.. Preparavam-se para sahir. acceitou o lote V.. reflectiu e ponderou aos companheiros : — D'aqui ao lote dez é um pedaço. E Felicissimo de varinha em punho para apon9/ tar no mappa. Mas olhem que na verdade vale o esforço. sentindo que o sol baixava. com ares de entendido. gente! vamos escolher os lotes.' (Pü proposto/foj&^^ejubilavaHi aquelle dia glorioso ///' com a miragem de um grande e santo labor. .

.. Com os olhos rajados de sangue e os dentes ponteagudos de serra.][ vimento do homem para o homem. que entre elles se destacava. vendo-os passar tão extranhos..CHANAAN l w II 85 do cearense. ficou surprehendido e gritou-lhes : — Então.íÁj^j em coisas coisas vagas vagas ee dipiavam diyílavam oo tio I em fio passar passar preguipregui. era bronzeado. mas essa impressão era xar/.i espantados por terem respondido . Chegados ue foram. caminhavam silenciosos. com o impulso sinistro e reservado que é o primeiro mo. fazendo coro. arrastando-se pela estrada descampada junto á praia do rio.ao~jii£srno \jjl tempo. olhos de um azul de abysmo. muito parecidos como um grupo de irmãos. a umi só f&£ feita da/de todos.. Felicissimo. Vinham vagarosamente. torso hercúleo..//// coso. ouviarfi as historias áles^f scismavam **•. saudaram surdamente e/arara' calados ara (/ interior do armazém/guardar as ferrarnentas. e entreolhando-se rrr. Milkau e Lentz admiravam a robustez d'aquelles homens com pulsos de ferro."' ¥ .^ havia um mulato.. passando sem parar. / satyro maligno. Sónseate. barbas avermelhadas. Tinha a cara mascarada pelas bexigas . camaradas!'o rumo está acabado? — Prompto! disseram. ' ' /'»"*' Um grupo de homens armados de ferramentas de campo apparecia á distancia. e Hc*^ / ( rv t o • •"• (*. usava uma pequena barba anelada e falha e o cabello curto em pé sobre a testa. tomava por vezes a apparencia de um ^ . Percebendo de longe que havia gente nova.

c o n v e r s a . alli tu não apanhavas nada.?%cé0) mostrando a Milkau e a Lentz os bandos de aves que passavam na illuminação do crepúsculo. — Ah! Um bom tiro! exclamou o mulato. seu cadete. disse-lhe a rir Felicissimo.... um ar espiritualisado. No meio da massa indistincta dos companheiros louros e pesados. havia de se ver. Felicissimo apontou para v//Cc^°^a. apezar de recheiar a phrase . Joca. Era só pontaria no da frente.. entre elle e a terra um remoto convívio. Joca ij olhava. replicou o mulato com fanfarrice... cabra. perpetuado no sangue e transmittido de geração em geração ?. Outras vinham ao longe. ouvindo-lhes silenciosos a ///Á / . o cabra brasileiro tinha um ar victorioso. Admirara-se Lentz do modo corrente por que o mulato falava allemão.8C CHANAAN rapidamente a desmanchava um riso fácil e ingênuo. — Qual.. As aves em bando continuavam serenas e soberbas no seu vôo. em allemão.. em longas theorias harmônicas.. seguindo-as pezarosamente. Como o sol sefôpfyAjfflL e as águas do rio /(7/^' sejÀ$$(tf/$j de sangue. Si eu tivesse uma boa arma. Os camaradas applaudiram. Não havia. saboreando com melancolia os effeitos creados em sua imaginação de caçador. na verdade. e si a arma fosse espalhadeira.. — Aposto. Pouco /pouco os homens foram se approximando dos recém-chegados. não ficava um bicho d'aquelles voando.

em que a lingua dos brasileiros dominará no seu paiz. EY dirigindo-se aos trabalhadores allemães. com os olhos abertos e fulgurantes. considerou Milkau. Creia que é um dom natural... não se admire d'esses homens que estão aqui ha um anno ou pouco mais. trabalhado na alma da população por longos . No fundo do pensamento de Lentz houve um pequeno júbilo por essas confirmações da insufficiencia do meio brasileiro para impor uma lingua. não ha povo como o nosso para apprender as línguas alheias. Não sei..CHANAAN 87 de vocábulos brasileiros. perguntou-lhes si falavam a lingua do paiz. E Felicissimo observou a propósito : — Olhe. — Não estará longe o dia. Essa fraqueza não seria a brecha para os futuros destinos germânicos d'aquella magnífica terra? E poz-se a scismar. cuja indole serão os do portuguez. entrada ha mais de trinta annos. Ha gente na colônia.<fffá<fresponderam que não. Não digo que os idiomas extrangeiros não influam sobre o idioma nacional. cujo fundo. É uma vergonha! O que acontece é que os nossos tropeiros e trabalhadores todos falam o allemão. Joca approvou convicto e ajuntou que elle mesmo já falava mais allemão que a sua lingua e arranhava um pouco o polaco e o italiano. mas d'esta mistura resultará ainda uma lingua.. O caso das colônias é um accidente. devido em grande parte á segregação d'ellas no meio da população nativa. que não fala uma palavra de brasileiro.

de cães que o rodeavam ou o precediam. de orelhas ora empinadas. O caçador era seguido por um bando . os cães o acompanhavam ganindo e excitados pelo cheiro de sangue que escorria da caça. Nós seremos os vencidos. que de tudo só t ( c * ^ * * \ apanhou1 a phrase final. viram passar pelo caminho. armado de espingarda e carregando um animal morto.bocca aberta^e lingua de fora. fixado na poesia e transportado para o futuro por uma litteratura que quer viver. "tf*„J* y* exhaustos da caçada. disse Felicissimo. a got- tejar sangue pelas ier\das/00/j^^0l^/j^ fâ/$ft(fá. dirigindo-se a Lentz). — É o vizinho mais perto do barracão. a resfolegar. O caçador /Jltt e caminhava com passo rápido. um velho muito alto e magro.. nervosos. — E um selvagem.88 CHANAAN séculos. todos muito ykití^iláfcardegos. (*. Emquanto a conversação se ia desenrolando mansamente. . ***"^**" trêmulos. ora baixas. (E sorria. — Mora por aqui? interrogou Milkau. queimando o ar <^. \Q_-V — Ah! murmurou Joca lj>éjf penZ. Joca. A prophecia dava-lhe desde já um orgulho de vencedor. Isto agradou a Felicissimo. frio com ardente e inquieta respiração. mas . á beira do rio. si nós / i apanhássemos aquelle bichinho para a panella! 0 caçador passou sem os cumprimentar. „ . olhou com superioridade a massa de seus companheiros allemães. n'uma com^ yM4^!'bustão que os envolvia de ligeiro fumo.

o peixe salgado e a carne secca. vive só com aquelles cachorros.. alegrando-se n'aquella communhão entre as raças . alguns n u m prazer discreto e moroso. que são valentes como feras. passa pela gente como si fossemos cachorros. espreguiçando os . fâjfyfatyfé a facundia jf/cLof***» interminável e molle../ y ^ " ^ rosos entraram todos em casa. sado nos gigantes allemães.CHANAAN 89 nem por isso nos. outros espertos e faladores como Felicissimo e Joca. bocejando outros. prevenindo-o de que podiam ir ceiar. não fala com pessoa alguma que eu saiba. etldrídMftóp e m o . alimentação habitual dos homens do campo nos logares do seu serviço. A comida era simples e pobre. \tfT l ^-&-JfJ^&&£sss!sxpeer-tá fr*y*l*\ gcupiüie-homeiis que u observ^airj^7tóá_ftt±fi=sp **"•*. — Ha de ser algum solitário. quando um dos camaradas se achegou a Felicissimo.. respondeu Joca. — Um arredio. Lentz olhava agora * s duas raças alli reunidas á mesa. ' Os trabalhadores do barracão armaram a mesa das refeições no dormitório dos immigrantes e ahi puzeram-se a ceiar. . e todos se banqueteavam alegremente.do cearense e do mulato lhe <^4AÀ^ trazia a sensação do enjôo de mar. Ergueram-se da relva. No-emtanto. braços uns. admirava o que havia de solido e repou. salva... suppoz Lentz. explicou o agrimensor. Milkau estava solicito com todos.s s nn m muittTV r^mm t ^--nn nn m u t f p --z^~ tfl f Continuavam a tratar da vida singular que levava o caçador.

alguns <$# i/y. — Então somos quasi vizinhos.^Z~A. e mostrando uma calma indolente y^ r^** nos movimentos e nos olhos um longo descanço. porque sou de Heidelberg. fí/ —De que logar é? perguntou Milkau ao trabalhador mais edoso. — De Germersheim.?*** vente mesa commum que cahiaydos tempos como Çf^**" uma relíquia do patriarchado./~^~*>f. I $7/v . a*~^ A sala era alumiada por um lampeão de kerose. mas sufficiente 2»**. para conversar com os seus at*^> ' patrícios. feliz por ter encontrado um conterrâneo. Para Milkau um compatriota era o . outros novos e joviaes. I distinctas. vendo alargar-se o destino da sobrevi. porém. 1/ para que os ríovos colonos pudessem distinguir a ^j' . havia. Além do fundo uniforme da sua própria ''(/ " classe.S}_ ^fitíàffy das bandas do Rheno. Uns C '' já\eram homens maduros e experimentados por 1 ] /Vi** J° n g° s soffrimentos. physionomia de cada trabalhador europeu até então <*)' Vi LJ para elles confundidos demoí uma só massa. ' Entreteve-se Milkau.-l ' pontos uma só feição. ir ne e a luz Àxd turva e indecisa.Comiam mais ou menos egualmente com medo e t^"*^ devagar. mas a sua alegria não passava de JL um gesto tffflftffésfflfflf incompleto como o próprio espirito. em indagar i/obre W logares donde era cac a um /// Cl * r//ffl' Q u a s i todos procediam da Prússia II ^ oriental. da Pomerania. uma longa intimidade l h e s d é r l e m muitos fi. geral^jfii rfr mente fortes. * O trabalhador sorriu.CHANAAN U f**.

CHANAAN 91 apparecimento Yf/fáffi e inesperado de todo o seu /f/Juy1-** passado. n'essas transformações de physionomia. Todos se voltaram para o emigrado do Rheno. outro. E Milkau pediu ao trabalhador que narrasse ***( essa tradição ignorada pelos que alli estavam. espichou a cabeça para o meio e poz-se á espreita. onde passara a sua mocidade silenciosa.. Um desejo de voltar atraz. emfim. e auzeraa^ ^w^md^% nas caras expressões distinctas. de pagar em amor toda a indifferença que tivera pelas coisas da sua terra. pelo quadro. / ^ddkfy largou o talher grosseiro e descançou os co. que estava á ponta da mesa. — Ah! exclamou ligeiramente pensativo./ / 1 ^r~ da. de um/UW*»»-// mesmo desejo.Então é da terra de Soror Martha! Conheceu o Rochedo da Monja. mas em todos esses movimentos vários. esperando com placidez a narrativa. __*^ emfim. de começar de novo. ae •f#/n%'' j interesse e mesmo de negligencia. havia uma perfeita unidade. de surpresa. Lentz perguntou si isso se ligava a alguma len. todos se moveram a um tempo. Uma incomprehensivel saudade dos seus / primeiros annos $$$^001 um instante. aquella que sá^ de um mesmo pensamento. pelos homens da sua cidade./J ú*^ mastigava. era '/fa£&f\ como um arrependimento de não ter sido nos prin* cipios da vida o homem de hoje. O homem interrogado ficou um segundo atto- . f — Sim./ r tovellos. Tfim..

èdáfitffe Martha se tornou moça. olhando para todos. Na sua linguagem. A menina era de uma deslumbrante belleza. — Desembucha. onde a sua piedade encantava ainda mais que a sua peregrina formosura. Cocava emba~. Sua mulher ficara inconsolavel com a separação e. raçado a cabeça./j/ífl^ji alia contou que no tempo f % das cruzadas um duque. e a viuva. entrou j Ih / »<^ para o convento. que de tempos a tempos ia *-£yz^ <. temendo a morte do esposo. voltou-se para o companheiro allemão com os olhos esgazeados. _ f O allemão afinal se Resolveu. A principio não disse uma palavra. partira ^HA A ^ v a pelejar pela Fé. apenas se casbú. Os outros ^ ç í á i ^ / a m as suas W * ^ attitudes. muito espantado de se ver n'aquella situação saliente. e passado algum tempo nasceu-lhes uma filha. e com Vi pezar os nobres vizinhos. a quem o silencio de um instante perturbava e affligia. Era-lhe único ir irj^juM conforto ver a filha. homem de Deus! E segredo? gritou o cabra. que a queriam ytfjjl esposa dos filhos. Joca. fez voto de que. que se chamou Martha. viram-na crescer.>. o primeiro filho que tivessem seria consagrado ao serviço de Deus.** ~+ ^ — ' ^»- * ^* . sem mais í/triM*/ fimos' fflfâ isolada no castello.a falar. Voltou o duque. si tornasse a vel-o. O duque morreu na outra cruzada.>2 CHANAAN nito e irresoluto em sahir da obscuridade collectiva e anonyma em que até então estivera na mesa. morta para o i JZMX> mundo.

. em vez de maldições. onde o conde ^ / a vae alcançando. encostado ao penhasco. persegue-a. mas foi / impossível. Ç m rochedo\se^pre^e*récolhe ^t^r* no seio de pedra a joven monja. filho de um conde palatino. disfarçado em aldeão. o joven conde bat/ á porta do mosteiro a ^ y para $fyj% á Martha que 4 duqueza estava a /^l~*-«*« morrer. Uma tarde./Martha espavorida/ytíj^^A'põe-se /*y^_ a correr. A freira transviada ///)//(2 toma um caminho que a afasta do castello. Ficou assim dias e dias alli vivendo. e propoz-lhe fugirei e occultarem o seu amor em '' / ^ outras terras. De dentro. Uma vez. Consolação. Des. e v^i/ido pelo desejo formulou o pro. Não v *creditou o tÁ^A» conde na protecção de Deus e teimou em esperar a sahida de Martha. annos. vestida de monja. vinha o echo das supplicas da freira pela salvação da alma de seu malfeitor.//u/*%jecto de raptar a monja. o rapaz0$J$fflde amor^ela freira. descobriu o seu ardil //Q. O moço. A freira partiu logo para a casa de s u a / mãe. e no / ' " ' ' ^ desespero da fuga chega atéjio rio.^>v^ lumbrado. Passaram-se mezes. allucinado. aconteceu-lhe fyfpfypax-se com u m / ^ joven caçador. quando chegaram ao logar mais solitário. e afinal o coração.. O conde acompanhou-a. Vão os dois pela floresta como loucos. /yffa** e silencioso seguiu-a até ao castello.CHANAAN 93 visital-a. Luctou comsigo por esconder a paixão criminosa. sua barba embranquecida ?ft alongou"1Tté aos pes. amolledMd pelas orações da / . e. o conde envelhecia. quando esta atravessava o bosque para uma dessas visitas deC J.

medrosa. Durante a sua ausência as freiras. o tempo não fifytfla corrido.. embevecidas. Abre-se a rocha. e no seu caminho o tempo. abrindo-se em flores o campo mirrado. voltando aos seus labores. Attonita. despediu-se da freira por entre lagrimas de arrependimento. que era de inverno. rezando em êxtase. hcouffirffájtffl? da tentação e elle. onde cantara os-aaais &/&>*'. confessando os perigos da sua . conver" tido. A pobre madre ^0^VM (fât/fjfftyifâr 'éfâtíWfli de allucinação e disse-lhe que ella não se tinha afastado do quarto. ia-se mudando em primavera.. parou a voz na cella e as freiras desprenderam-se do encanto.\Martha/recolheu 2»« abi S£A° s e u aposento. velho e cJieio do espirito divino.(Martha^jâáej na mesma juventude com que entrara. Jurou então consagrar-se ao serviço de Deus. penitente. ouvindo cantar na sua cella uma voz celestial. e.(Marthaícorna)para o mosteiro.. Quando soror Martha sahiu do rochedo. Partiu curvado. no propósito de fundar uma ordem religiosa. entoava os hymnos que Martha lhe ensinava de dentro do rochedo inviolável. e restavaAri & lhe a illusão de ter apenas passado um dia encerrada na pedra. Alli também y Ácr^ty tempo $0 jLpfffiÀlf Arrojou-se a monja aos Á*«v" t p^ s d a superiora. de onde no mesmo momento / * . passaram todo o tempo ajoelhadas aporta. Entrou no convento. ausência. Confusa. e tudo estava como deixara annos antes.bellos louvores a Deus. assistida e alimentada pelos anjos. presas á melodia. parte para o convento..Di CHANAAN * é * t e ^ monja. Para ella.

. cahindo outra vez em silencio. àffitfMxfyfie todos na solidão que era alli. Lentz quiz levantar-lhes o espirito e poz-se a negar bruxas. e que era a sua imagem. que/a substituirá na ausência.. milagres e encantados... pensativos. dizendo : — As bruxas já morre- .. Pouco a pouco cada um se foi erguendo e deixando a sala. Os outros.CHANAAN 95 / 7 * * f*«Vr viu sahir um anjo. Não tardaram a se juntar fora no terreiro. concordaram n'um brando murmúrio. A ceia miJ-se acabando sob a apprehensão *-&//'' vaga que no animo dos trabalhadores deixava a evocação das lendas nataes. voltados para o rio. coxeando sobre assumptos incenõ^pois mais forte que estes havia em cada espirito uma idéa intima.^. mas sem força de abalar as convicções plantadas desde séculos ás fontes d'aquellas almas. /£jty0MfyrtO*í' rãatígÜ&mIffflúfNà Tjtums/intima communhão. á aragem fria da noite. Falou longamente. Sempre se deve andar prevenido. E quando elle acabava. pois ninguém sabe o que lhe está reservado soffrer e vêr. Milkau e Lentz também se chegaram. ' I que era uma faixa phosphorescente e tremula. Os 6-»-?-c// homens 0 deitaram-ha relva. longínqua e poderosa que teimava em se fixar. D'onde menos se espera surge um perigo. A conversa era (tropéga/|^ morna. de que parecia irradiar toda a luz que attenuava a escuridão da noite. E um dos homens foi o interprete de todos quando disse : — Ha muito encantamento neste mundo de Deus.

em que elle combatia invisível pela força mágica do seu chapéo encantado. e depois as suas luctas. as nymphas do Rheno. moço.! Cada um lembrou uma historia da sua localidade originaria. mais límpidas. os gigantes com o seu cortejo de . guarda dos thesouros fabulosos. as porfias com a bruxa Brunhilde. as suas proezas no castello do Nivefliho. em vozes e cantigas.. no serão da terra tropical.96 CHANAAN ram ha muito tempo e ellas sempre foram estas mesmas mulheres que vocês amam —. os homens devem tomar cautela nos seus amores. que foram os -^primeiros geradores da sua raça mestiça. e com que sabor não escutaram as façanhas deSiegfried. vinham mais puras. a derrota do anão"Alberico. Mas agora as lendas volviam ás suas origens... os semi-deuses saxões.de um mundo desconhecido e $t$k lhes suggeriam 'i' a reminiscencia de tantas outras historias euro4. filho de Sigisberto. com o seu caracter immune de contactos extranhos.anões -phantasticos./ péas transmittidas a elles'adulteradas pelos povos brancos. um dos mais velhos não gostou do tom da negação e replicou : — Não diga tal. vencendo a mulher para entregàl-a . chamados pelas evocações dos emigrados. de mulheres. Alli. Os dois brasileiros se interessavanj ardentemente com esses contos que lhes vinham /// ~jr~. seu combate com o gigante. Quantas desgraças não . surgiram.lhes acontecem por se fiarem. rainha da Islândia. os heróes..

até que um dia morre o heróe. ? E a tristeza no castello. Milkau achou esse termo extranho de um bello . divina como um.CHANAAN 97 ao esposo. desmaiou e a fada o transportou para o seu palácio de crystal no fundo das águas azues. morrer enlouqueciam ouvindo os seus cânticos.. que o attinge no único ponto vulnerável do corpo.. fazendo abrir as águas do Rheno para engulirem os ousados que procuravam vêrlhe o semblante mysterioso e que antes de.Q d'agua. Como os outros escarnecessem $/$$-. quem já teve trabalho com cur/ufj pira. até que um dia. vendo a nympha. E com que paixão não ouviram elles tratar da bella Lorelei." sonho palácio de crystal é no seio da onda e para lá. s^^tóé ella. ora bemfazeja. avistando Lorelei sobre o rochedo com a lyra na mão. longe do vosso mundo.atraves.. responde ao som da harpa : « O meu ri. o velho pae louco a pro. » * rf * <$fflc/efál$fcfy0J0/alguns passaram 0^»^-^ a commental-a no circulo'de suas nevoadas idéas. lhe pede/!) -?ít<y restitua. soberana.hL levei o meu amante kj/'•*'' fiel e leal. seduzido pelas suas vozes mágicas.... protegendo os habitantes de sua vizinhança. curar o filho. até que. mesmo diabas ou feiticeiras. // -^-> fffffi fanfarrão : '///wT' t*>. sado par uma lança.. Áy*£"++/i E Joca declarou que não tinha medo de mães .... ora vingativa. — Não se arreceia de mulheres. rt ' symbolo.. Vinha n'essa historia a paixão do conde palatino pela fada..

... y*«(^/con siderou/ como uma d'essas palavras ricas de som dóTdiõrha brasileiro enxertadas no velho tronco da lingua. preparando-se para narrar. eu trouxe da restinga na ponta do laço. que era o vaqueiro da fazenda. que. Qual! currupira é phantasmagoria! E tio Manoel Pereira passava a me contar rodellas e sempre arrematava : — Rapaz! toma tento! Um dia. mas como não soubesse a significação do nome. disse n u m tom familiar ao mulato : — Conte-nos isso. nem a lenda nativa que a elle se prende.. peei o Ventania que... e nós. ria das palavras do velho. frouxo e meio descadeirado. O sol já estava esfriando. Toma tento comtigo ! Moleque que era eu. meu tio..... Os cabras traziam uma fome . Chegados que fomos. lá se foi paraocampo. não foi por estas bandas.. porque eu sou de lá Meu tio Manoel Pereira na fazenda do Pindobal me dizia sempre : — Rapaz. coitado... Joca ! — Ah! respondeu este... Meu cavallo estava esfalfado de cercar um garrote arisco. depois de muito pelejar. quando nos puzemos á mesa. desempenado e de topete. socega com essas viagens noite e dia no matto por causa de rapariga. seus quatro ajudantes..u>'h 98 CMANAAN e raro accento de linguagem . — Eh! meu tio! deixe de abusão para amedrontar gente pavorosa.. foi no Maranhão. que uma vez cunfupira te pega. nós tínhamos acabado de recolher o gado ao curral. Meu tio gritou para pôr a janta.

— « E o Formoso se desculpou disfarçando. dizia a velha nos servindo. Fiquei um tempinho meio desalentado. Eu andava de namoro com a cabocla.para a patuscada.. não me lembrava mais desse ajuntamento marcado para aquella noite.. Mas vae o Manoel Formoso e me diz : — Tu não sabes do baile da Maria Benedicta ?— Oh ! cabeça que era minha. só ouvir o cabra. as bananas não ficaram atraz e nós rematámos a boia com um trago da branca. parece uma fome de Satanaz. Uma vontade de vêr a Chiquinha me assanhou o corpo e me fez espertar. mas a idéa da rapariga me levantou o corpo cançado. com sua cabecinha delicada como de sussurina. Aquella hora as vaccas choravam de cortar coração. Os outros camaradas eram já maduros e casados.....CHANAAN 99 canina. Eu estava derreado como um bode lasso Os outros estavam na mesma conformidade. Ah! meu sangue. não formavam . Depois nos assentámos na soleira da porta em frente ao curral.. que espantava minha tia.. No sabbado passado tinha tratado com a Chiquinha Rosa nos encontrarmos na ramada onde era a festa. fica quieto ! .. lambendo a bezerrada que do outro lado se roçava na cerca. moça espigada como palmeira. — Eh! gente. Te esconjuro ! — O que é certo é que as curimatás voaram para dentro. se via logo que tinha algum negocio estipulado para outra banda. Vamos d'ahi Manoelsinho. — Pois sim.

fpnis pedi uníí pouc7~da sua pommada de cheiro e éé$ / •fcis ffl/lfl? estava na ordem. « Levantei-me em direcção á fonte. vou só.vara guardar no seio e perfumar com o seu cheiro. é só trabalho para os outros. logo ao entrar da lua. « Não me importei com a fala do velho e parti para a fonte. Larga de banho a esta hora que tu apanhas maleitas. tu estás maluco. / tur. enrolei no pescoço o lenço encarnado que tinha comprado a um barqueiro no porto. disse : — Volta cedo que de manhãsinha. O meu lenço branco / estava desde a semana passada com a Chiquinha. /5^ l/ti -* a "Ella havia de me dar no baile. Passei depressa para meu rancho para mudar de roupa. Dei um mergulho e umas parapemadas. Bati na porta de tia BenU». porque filho de meu pae não engeita divertimento. Tio Pereira me vendo de viagem. que me deu um frio nos ossos. — Sim. então já que ninguém me acompanha. nós vamos fazer matalutagem na fazenda da Marambaia. Atirei-me á água. e tio Pereira que me circumdava n'um tudo. preparei-me com camisa e calça alva. <• Não quiz mais conversa com o velho. Depois.— Rapaz. meu tio. Vosmecê pôde ficar socegado que estou de volta a tempo e bato no seu quarto ás» horas.100 CIIANAAN — Bem. E me . Ainda era bem de dia. com intenção de espantar algum jacaré que andasse na vadiação. entrou aralhar. disse meio arrevezado aos cabras molles.

deve estar prevenido do seu. tudo estava bem secco..CHANAAN 101 puz no olho do mundo com passo de ema escabreada. E vosmecê me encha ahi um quarto de restillo e me corte duas toras de fumo de mascar. — Brincar um pouco. Do Pindobal á ramada da Maria Benedicta eram bem umas duas horas de marcha.. e. tudo lhe mandei eu. « Xão sei si foi pela falação do Zé marinheiro que se me escaldou mais o sangue. pinga não falta. estava parado com os olhos tristes de peixe morto. eu senti como tudo a rodar.. atirei-me para o caminho.. Joca. « Dito e feito. Mas a gente não se deve aproveitar dos outros.. só se ouvia um barulho de porcos que focinhavam a terra á cata de minhoca. aonde se bota tão paramemado? perguntou-me o portuguez. o pouco gado magro que havia. esbarrei primeira no negocio de seu Zé marinheiro.. e ainda pude logo dizer ao patrão do negocio : — Eu vou correndo para lá. e as pernas me fraqueando. patrão. — Olha que tem passado por aqui muita rapaziada. Mas tomei sustância em mim e me agüentei valente. — Então.. o coração a querer pular pela bocca. Quando cheguei para furar a ponta. . O sol G. Atravessei todo o campo da nossa fazenda com vista a alcançar a ponta do Guariba. por ordem do Pedro Tupinambá. me lembro como si fosse hoje. A brincadeira deve estar influída. já se sabe. virados para o lado do sol que se sumia.. Olha. na ramada da Maria Benedicta..

A areia estava mais quente ahi dentro que no meio do campo. nada.102 CHANAAN já estava escondido e os vagalumes começavam a correr no ar parado. Continuei a andar. que encurtava a distancia e sahiano campinho. mas perdiam o seu serviço. da bocca da estrada. Pernas para que te quero! A cabeça. por cima das arvores. andei. um grande calor me tomava o corpo. de vez em quando um pica-páo n'um tronco de madeira secca batia as horas da tarde. outro. outro. Só parecia que encontrava o terço acabado e a Chiquinha. Lá no fundo da matta havia uma aberta e me parecia que um vulto caminhava para mim. Não dei importância ao sujeito e disse commigo: — Ha de ser o filho do Zé marinheiro. porque a lua estava esclarecendo tudo. porém. porque o pae não o deixa ir á festa. ouço um assobio fino que vinha de detraz. parecia me estalar dos lados. andei. cortando os ouvidos. do fundo do matto. não estava muito boa. Não havia viva alma. e eu com a pressa de chegar comia poeira que era gosto. onde ficava do outro lado a casa da festa. Outro assobio me passava. que se recolhe.. com seu par fixo para toda a noite. Principiei a cortar por uma picada. De repente. Voltei a cabeça e não vi ninguém. Assumptei de novo. — Que .« de toda a parte se apitava.os lagartos corriam estremecendo o matto. me largando de esperar. Pensei: — É algum camarada que se vae divertir e me chama. e do estômago me subia de vez em quando um enjôo..

reparei bem.. a cabeça me queimava. o coração me batia a galope.CHANAAN 103 bandão de corujas por esta noite. Nós estávamos assim a umas cem braças um do outro. quando o pequeno se sumiu de novo. Outra vez vi o pequeno na minha frente. eparame socegar. tu me' pagas.. o certo é que avancei para o pequeno com raiva de cego— Ah ! seu diabo. bem alto para intimar o cabra : — Olá. — Larga! berrei — O caboclinho com olíios de sangue me encarava — Larga ! — e eu sempre seguro. — Onde se metteu o diabo do pequeno ? — Os assobios iam me rodeiando sempre. Ha de ser agouro. O sangue me fervia.—Tive assim um arrepio de frio. e eu comecei a ficar apavorado com a matinada. amigo. — Armei o páo para cima.que conversa é essa? Você anda me fazendo visagens ? — Não digo nada. Não digo nada. Mas olhei firme para a frente e não vi ninguém.. Mas quando eu me vi. quiz me valer do encontro com o filho do Zé marinheiro. bocca. Fiquei como um . — E elle torna a surgir.. Então gritei com voz de susto. Os assobios de coruja não largavam. porque elle estava perto e vi que não era o filho do portuguez — A modo que não conheço este caboclinho. O caboclinho estava agora a umas dez varas de mim. estava seguro pelos pulsos. Eu resmunguei: — Que faz esse sujeitinho que desapparece de vez em quando? Isto não é coisa boa. para que falaste ? A mattaria toda passou a assobiar como demônio. eu já estava com a cabeça tonta.

Abri bem os olhos. commandados pelo endiabrado. João.. e agora alli zombado por um caturra ! Nós luctámos para baixo.. . o mal encarado! Com o cabo de poucos minutos. os gaviões desciam. eu ouvi um berro de estrondo. tudo tinha desapparecido.. porque outros berros se repetiram. mettia-lhe os pés na canella. uma-feita n'uma vaquejada. a lingua estava secca e dura que nem de papagaio. catitú vinha batendo queixo.. Depois tudo foi cahindo no socego.. para cima: eu dava de cabeça na cara do bicho.104 CHANAAN garroteferroado. gatos bravos miavam. Mas foi peior. os meus pulsos estavam desembaraçados : um grande calor me fervia o corpo .. Com poucas eu estava no chão com o caboclo em cima de mim.. Comecei a tremer de frio. abri os olhos devagarinho.. e eu disse : — Vou morrer.. Eu senti um medo molle e abandonei as forças. Toda a bicharia se agitava no matto e caminhava para nós. ah ! pensei que o malvado me deixava. ouvi cascavel tocar seu chocalho. meu S.. as arvores mesmo* se curvavam me abafando. alua era clara como dia. Avancei para o cabra com mais zanga do que quando me atraquei com o Antônio Pimenta.. e elle sempre duro.. tudo parado. Levei um tempãodesaccordado. os urubus cheiravam minha carniça. um berro de onça. o suor me alagava a roupa.. E os olhos se me fecharam como de morto. Lembrei-me de quanto boi valente deitei por terra. Eu estava afadigado de tanta lucta. sentindo os bichos me rodeando..

Olhei para a frente e a estrada ia acabar longe. vinha como preto bêbado.. cáe aqui.. mas lá vim assim mesmo navegando até á porta do rancho. nem o caboclo. foi para me bater a garrafa. Para tu te veres livre. dá. Levanta d'ahi. Tive medo de novo encontro. Voltei para traz. Joca. Era a voz de meu tio com o Formoso. Nada. a bocca estava grossa. Quiz correr para a ramada da Maria Benedicta. .. cachaça e fumo. eu trazia uma sede de jaboti. o samba devia estar acceso aquella hora. Mas tive então_um grande medo e tratei de abalar d'alli.. todo o meu sangue batia para saltar de dentro. cáe . Puz a excogitar que toda a pendenga que o caboclo me fez. Para espertar não ha melhor que um gole de canna e uma masca. — São horas. versa."logo que o avistes.. muito longe. Leyantei-me de um pulo. . os olhos me ardiam.. Não tive con. cacei. Mas não encontrei nada. caçando minha garrafinha de restillo e as toras de fumo. nem os bichos brabos.. sahi no campo esbarrando com o gado. Elles abriram a tramella e um clarão da madrugada alumiou o quarto.CHANAAN 105 e não vi mais nada. cacei. atirei-me vestido na rede que com meu corpo sacudia como uma canoa no Boqueirão. acolá. cabeça com suas palavras : — Curjfupira te assom. Velho tio Pereira me veiu á.ri bra. E eu vi que n'aquella noite tive trabalho com currupira. Passei a mão em-roda de mim. « Dei por mim quando ouvi falar alto na porta.

cubiçosas do amor hu- ..' um f&j^4 repouso. principio de somno chegava como urryf tyij. Tive vexame de relatar ao velho que era assombração de currupira. Meu tio mandou o Formoso abrir a porta e a janella. do passado encheram-lhes a alma de sombras e saudades.100 . . Elle poz a mão em cima de mim e ed abri os olhos cheios de fogo. O velho segurou no punho da rede que estava balançando. meu corpo tremia dentro como si houvesse uma dansa de todos os meus ossos. resmungou zangado : — Eu não te disse? Apanhaste a maldita. seduzidos pela idéa de '. Do rio Doce e da floresta viIIIi \^m>^[idirn murmúrios W/fiflfop e os colonos em silen'" cio interpretavam esses sons da noite. Felicissimo achou que era tarde e os convidou '^J~ /Jj. mas as forças não acudiam. a M r e c o l h e r ^ . 4 ' CHANAAN Quiz me erguer.$fy— *fl espreguiçaram-se satisfeitos. Os outros levantaram-se bocejando — um •. E meu tio Pereira. tantes aos princípios da sua vida/i as recordações jl . sendo o primeiro a erguer-se do /' chão. Quem te mandou tomar banho cançado e aquella hora ? Não respondi. Ficou como dia. Cada qual remontou por ins//. Depois da narração os colonos ficaram scisl! mando vagamente. sem mais aquella. ou como oity^ L/ dccetitod das mães d'agua.

e não achava agasalho na cama fofa e tranquilla. sem nuvens. tinha a garganta secca. A evocação da terra natal alli no meio da floresta do rio Doce. fazia-o remontar aos quadros da sua vida passada no logar do nascimento. o amor violerrto do sol trazia o vasto campo fendido e cortado em pifWf. Outras vezes. / o deserto árido e triste.. sentia por vezes a pelle a arder. sem poder dormir. é Joca ainda se remexia inquieto. Já no dormitório os trabalhadores resonavam sobre os colchões estendidos no chão-. os montes o apertavam. o sol rubro '/**** ir^^ ' . os desfiladeiros o suffocavam de terror. vários e inconstantes. cuja mobilidade se transmittia á alma plástica dos homens ahi formados. No Espirito-Santo sentia-se Joca em terra alheia.. por toda a parte a sec/cura e com ella a morte. Nos dias claros. e então uma saudade o transportava para a longa planice onde vivera: Llldwa no verão o pasto todo morto. nuvens descem quasi a tocar a terra. c horizonte se confunde com o céu. passando como / uma serpente jjfâfjjlÜll o caminho feito pelo pé do homem ou pelo rasto do animal. Era uma noite em claro que elle passava.CHANAAN 107 mano. sem um fio verde. Nem uma gotta d'água. e sobre e$e. ou como ruidos das vagabundagens tenebrosas dos currupiras'errantes. n'esses campos de Cajapió. quando todos supplicam d chuva. extranha a seus olhos e sentimentos.

como que surgindo subitas*do chão.tormenta no fim do verão. Nem umagotta d'agua para refrescar ao menos a vista. A madrugada estava orvalhada.. esquelético. cando-as. De espaço a espaço passa um boi faminto. as segue. a visão da planície o perseguia. t a .na véspera) accordára depois de uma grande. implacável. perturbado 'i *ij no seu repouso. sedentas. movendo os ossos n'um ruido desencontrado e surdo. era depois das primeiras chuvas sobre r o campo. onde se revolvia agitadamente. E L • £> ' sempre a terra. \ fo**fò!o Jj y //. farejando o ar.. doir .. Um grande tapete de verdura fresca e humida parecia A/v ÀAÀ*'^^ j U > .. as miragens se formam. ^V / fõõúpo recordar-se d'essas emigrações de ani^ / maesi.. /flyi/^^^cyclone.. mas serena. suífo(fêl^. Manadas de gado se apresentam no horizonte. "•• CHANAAN 1/ t •f . Agora.. fazendo evoluções como um exercito em campo aberto.ii das. envolvendo-as.estreitando o circulo visual7 tudo fó encenjfn'um espaço limiXadoJÍ o viajante caminha para ellas. dfó^se afastam inattingiveis. Varas de porcos vão fossando a terra. corroendo as cobras que se estendem lubricas e felizes ao sol.. levantando o pó tranquillo que. '/} as tinge. E assim a mobilidade do céo amenisa a esterilidade fixa da terra. passando n'um turbilhão como um . veloz e fdtyftf como uma ^eQlumna de fogo.108 '% . galopando loucamente. Uma manhã lá no Cajapió^Joca se lembrava como si fora.teveXum arrepio e um Ímpeto para se erguer » do colchão. e elle se erguera de sua rede para vêr o tempo.

Aci / grupe/ brancé . e quando mais tarde o dilúvio se in. jassanarís Ietfés~? V*r•''' * e tímidas./w^mettidos n'agua. fai. e á tarde. perdiam na campina alegre. E em tudo o mesmo milagre dè resurreição. notava-se desfilar. Eram os primeiros lagos. buscava ainda mais longe a região dos eternos lagos.~No-itmdo dos lagos. ^. de expansão e de vida. < / » i 4-.. ia/tr. • terrompia. èra o bando mar.. o gadofsd mostr/../ a outra emigração. Em volta d'elles uma multidão cte aves aquáticas brincavam descuidosas e osten/ tavam as pennas de cores vivas e quentes. a água porfiava em vencel-o. » u -*cial doa vermelho» guarás..inquieto e começa A . ''4i4 nadando.^ . %bt^ji vens cinzentas. levantava o vôo acolá. 5 . Já no meio do inverno a água quasi 7 . Vão lentos e vagarosos. o pasto agora era farto. Vinham/ V// pássaros de toda a parte : perrialtas com o seu bicqu-^ de colher. $$d$fâ na vasta savana verde p o n t o s / ' * claros que eram o refrigerio dos olhos.. -. Massas chuvas continuam.(JyLaproveitando a terra firme..*». *----r:—7~*I ri r\ ' i ' P*1 JH %U ' ' d a s yirgingaygarças. caminhando para os refúgios. quando o céo se/Vestia de nu.CHANAAN 109 ter descido do céo e coberto como um manto mysterioso o campo hontem mirrado. ligeiras elevações da planície. marrecas em algazarra. de rejuvenescimento. Dias inteiros de chuvas.. Os olhos se. multi*'" ' ' does de peixes borbulhavam por encanto. pousava aqui.\*-/ . mas sem recuar. a água serrupre—ccescente vae engolindo o campo. para os tesos.. o gado festejava o rebentar da vida na terra e comia a herva tenra. a do inverno. um bando de marrecas passava grasnando.

largas.. e desfructado deliciosaas ír^rí/^^mente paizagens distinctas de cada espirito e os panoramas longínquos que foram os quadros da infância de cada povo gerador. Em um grande lago manso transformou-se aquillo que fora mezes antes o deserto ardente e fero.. um ou outro ponto apparece como ilha e n'ellas o gado está amontoado. e cujas louras nymphas eram as espumas das próprias águas. Todo o idealismo da raça estava alli. EU/iínha / /' J saboreado as lendas ouvidas aos tropeiros e md a-"^U7 P a r e c i / fluo tinh^ arregaçado o véo que cobria a / alma d'aquelles homens. todo cheio de encantamento. os novos deuses latinos. eÂstM que nascera nas águas do rio. cavalleiros andantes e castellos. yítújíia os quadros recuados no tempo e os quadros novos da epocha medieval. A vida mudara : descançava na cocheira o cavallo e Joca sonhava-se a empurrar a canoa. Sobre elle repousam os grandes nenuphares. como um grande rio sagrado. mantinha-se inalterável. bruxas. reflectindo-se o seu vulto espigado á flor silenciosa das águas. ^ . vogando como pássaros. que foi o centro e o nervo do mundo germânico.i l/J l/r sé- . Milkau n'esse tempo scismava.' ^g*" I CHANAAN apagou o campo. creando phantasiás e mythos. Nas lendas allemãs Milkau via passar o Rheno.emquanto o somno JI o não arrebatava para o esquecimento.110 ã i". as múltiplas plantas aquáticas verdes. penetrando no .

/ ( / c ^ ^ ' mecendOi feliz e socegado n'aquella bemfazeja 'J y /u*** ***** XZ">£&"*~ . as siras santas eram aquellas mesmas fadas do Rheno e os santos os velhos deuses sombrios e batalhadores. Mundo encantado e *u~<u^«mysterioso." ^ ^ r das o encontro dos vários aspectos dos feitiços.. aquelle que tiver fr^^tír' o segredo de ponderar os espíritos. pensava Milkau. e -tr-r~i*<? cada um traduzia os instinctos. d/jbfiÚfp1 de outra. que sacode do torpor tropical as feras ou que protege a natureza. mas de uma alma isolada. que era toda a alma do tro/Q peiro maranhense. conforme a astucia ou *£-—** a força o exigem. E Milkau ia lentamente a d o r . seu perpetuo inimigo. os habi. será aquelle que co.*4ly->nhecer as origens. Milkau sentia n'aquellas legen.+az. do ódio ingenito de uma raça com o amor /.os desejos.f^T*?'*' " dade.. trapi^ortaf-se em mil figuras/'***'*'^^ em creança maligna. em animal ou vegetal.. /^~ as forças eternas da natureza que assombram e cujo symbolo era essa divindade errante que anima as arvores. não só da historia ou da socie. intimidando o homem..T^-^A tos difíerentes dos homens.f>&* d******.. #-— vinga-se e beneficia. esse das almas dos povos ! O verdadeiro *• J V^C~ philosopho.*-*CHANAÀÍiy 111 seu espiritcffici tranoformaraim em divindades barbaras. Ella espanta. Na lenda do cur/upira outro ti mundo se descortinava.. que é a sua encarnaçãoprefe/p ' rida. Alli estavam a matta tenebrosa. de desvendar ^f^^Cvy^ nas cellulas cerebraes as remotas sensações vitaes f****"^ dos povos e que possuir a intuição para distin^ZJrs-fT guir na intelligencia de um homem a dosagem /*~r *p?+ perfeita do extranho precipitado da treva com a y/u * j pureza.

v t* 'Lentz dá esforçava""por dormir ej(jl debatia/inutilmente para afastar os tumultuosos pensamentos que lhe galopavam na cabeça. . que seria a incógnita feliz do amor de todas as outras.miLavan/ deliciosamente até á sua alma. impeliido por uma força d'esse poder mysterioso que animava as moléculas mais intimas de todo aquelle mundo novo. a escravidão se não conheça. ora. pujante que corria para elle. Um desdém pelo mulato. surgindo docemente. Ora. risonha. e o que era scisma da vigília se ia pouco a pouco transformando no puro sonho em que elle entrevia n'um horizonte illuminado. onde a vida fácil. . E Lentz via por toda a parte •sj^~ o homem branco apossando-se resolutamente da terra e expulsando definitivamente o homem moreno que alli se gerara. vi era o rio immenso. As visões accumu/ ^ ladas nos últimos dias de travessia da matta per/ de s i s t i a m em toda a sua força. no meio de homens primitivos. que repovoaria o mundo e sobre a qual se fundaria a cidade aberta e universal. ora. onde a luz se não apague. sentia-se passar pela sombra humida da floresta cuja exuberância e vida se /. E Lentz sorria com orgulho na perspectiva da victoria e do domínio de sua raça. sentia-se esbraseado com o sol que inflammava ffijjjbféÀfy e lhe queimava o sangue. perfumada. em que elle expri- i.112 / CHANAAN noite tropical. uma nova raça. no seio de uma nova terra suave e forte. seja um perpetuo deslumbramento de liberdade e de amor.

turvou-lhe a visão radiosa que a natureza do paiz lhe imprimira no espirito. Ay/^ com sua áspera virgindade de bárbaros.. vift não em pequenas invasões humildes de OfuLíAii^ 'escravos e traficantes..CHANAAN l 113 mia o seu desprezo pela languidez...~ "" nariam como uma vassalla. .. elles os eliminariam com o ferro e com o fogo./tf'4/ dade defendida pelos soldados negros. Elle percebia no seu cérebro exaltado que os allemães íam.. aquellas florestas seriam consagradas aos cultos temerosos das virgens ferozes e louras.. uma massa immensa e preta marchava no céo qual uma nuvem conductora. Tddo **-/ Jelle era agora um sonho de grandeza e triumpho. A Aquellas terras feriam o lar dos batalhadores f/r*'""' eteAos. e ricos.. fé xevigoxa>iJÍ erf&m. e depois se transformava n'uma figura extranha e agigantada. em cohortes infinitas. elles se espalhariam pelo conti. matando os homens lascivos e loucos que . não para lavrar a terra para . Mas no sonho de Lentz. e eternos repousariam para sempre na alegria da luz. ^ recreio do mulato. sobre os exércitos que caminhavam. e poderosos.. ~r yMJjtí dixiam n'uma anciã de posse e de domínio. e senhores. não para mendigar a proprie. alli se fi^j^aram e macularam com suas torpezas //c*r* a terra formosa. fundariam um novo império.<^ nente . eternamente na força da natureza que domi. >aporca^ i m m e n s ^ « ^ m ^ / e numerosas os desembarcariam em tõdo~ o paiz. ffly&yixiam'' y>^l agora em grandes massas. pela fatuidade e fragilidade d'este. Era tudo um recapitular da antiga Germania. sobre as náos que velejavam.

.111 CHANAAN cujos olhos penetrantes desciam do alto. envolvendo as terras e os homens c o m u m a força invencível e magnética. Então (LentZN^yhj) pairar sobre a terra do Brasil a águia negra da Germania. ..

devorou a vegetação das praias. Era a única quebra da immobilidade. A omnipotente amplidão das águas $ engoliu as margens. estremecendo n"um leve arrepio a humida superfície. A cheia domina toda a paizagem.IV Na manhã seguinte. avassallando com singular grandeza o perfil da matta. depois de se fatigar em curvas de réptil por entre os brandos contornos da terra maravilhosa do Espirito-Santo. que. No seu passeio approximaram-se do rio Doce. e agora quasi submersos tingiam n'uma orla verde o cinzento pérola do rio. sobre cujo dorso luzidio e dormente a brisa perpassava volátil. e a tímida linha de . As grandes chuvas dos dias anteriores tinham enchido fartamente o rio. alli se desdobrava a perder de vista. ^ Idas arvores cujos galhos outr'ora pendidos como * /chorões simulavam sorver a água. Milkau e Lentz muito cedo estavam admirando o logar. crivada de clareiras.

. suspensas sob o céo. com que facilidade não a esquecemos. o espalha como um tufão. — Não ha nada./ "reza humana é feita para o goso. por isso mesmo o prazer lhe é mais inherente e imperceptível. sensação extranha e bVils?^. e como um só minuto de descanço não nos dá a illusão da eterna calma! — E que nós somos victimas dos divertimen- . dizia Milkau emquanto andavam..^^..110 CHANAAN montanhas ao longe. como esta tranquillidade. „ cerração o delicioso momento da resurreição das cores esplendidas e n'estas voluptuosamente repastavam o faminto appetite da vista. Quantos elementos..ÊOL. Milkau e Lentz sentiram n'aqueíla 'M. para formar o quadro da vida. Emanadas das águas. Parece-me que attingimos uma região aonde não chegam os gemidos humanos. onde o crepúsculo é um sonho fugaz e a noite cáe como uma cortina negra que iechaftjfâkl^ V ^ r ü X . E hoje me sinto feliz como jamais pensei que o seria. ]$(/%$$/ a natu/.. indistincta. risonha e amável. tudo é Wy vida fácil. e o panorama que se apresenta não é o constante dia de sol pleno. Abre-se uma trégua para o eterno conflicto da luz e dos tons. porém.. jfonydMljto dia. aqui não ha um signal de soffrimento.. fulvo amarello. não estão em nós para afastar a dôr . e a dôr.. E que a felicidade é o esquecimento e a esperança. inundando de um só fff <w*4w&Ç°lorido. a sombra cobre a terra e faz a côr. o espaço e j^/í$54átí|0r íião é a larga e quente paizagem monótona. nevoas densas apagam por instantes o sol.

para martyrisar-nos ao seu sabor. — Mas a vida é mais natural do que a morte... Não é verdade que somos felizes ? Pela linha da praia que a enchente tornava apen as uma vereda Comendo o mattoJEóntinuavam elles o passeio. A nossa superioridade sobre ella. nos acorrenta á vida. está exactamente nessa consciência que é nossa. e n'ella viverei para vêr reconstruída a cidade antiga. as suas fatalidades e nos obriga a tomar o caminho mais seguro para a harmonia geral.CHANAAN 117 tos da natureza. Adormeçamos as tristezas do nosso passado. E hoje. o prazer mais do que o soffrimento. n"este grande scenario.èl/ti^ Ella J^yc^não existe como entidade. que percebe as suas leis. . distinguindo-se pela vontade. E tu emprestas n/ á natureza uma consciência que ^kM. saltando pelos séculos de humilhação.. — A esperança. Muitas vezes tinham de abandonar 7.. aqui situados n'este mundo. já que não podemos apagal-as de todo. forte. se apodera de nós e nos arrebata para o futuro.. e a vida nova se abra-para nós como um sonho realisado. venha renascer aqui. — E eu também vejo aqui a terra immaculada com as suas grandes energias de felicidade. disse Milkau a sorrir. que começa ainda virgem de sacrifícios. tu sabes.. que por esses pérfidos e doces venenos cujos segredos ella possue. que. dominadora. temos de tirar o verdadeiro sentido da nossa excepcional situação.

disse Milkau quando chegaram a um trecho desembaraçado da praia. O que está hoje fora do domínio.. mas o que havia de monótono não fatigava. devemos escolher o local para a nossa casa. abandonados á sensação agradável da fresca manhã e á volúpia das illusões..' venda. desdenhou Lentz.. Não acreditas que o próprio ar que escapa . — Oh! não haverá difficuldade. porque a vastidão das águas. a sua opulencia. que chama a ambição e espraia o instincto da posse. uma ligeira inquietação de vago terror se mistura ao prazer extraordinário de recomeçar a vida pela fundação do domicilio. — Não seria muito mais perfeito que a terra e v J 0 suas fqJfH fossem propriedade de todos. a ambição. — O Estado. E riam com essa gymnastica.. n'«ste deserto. e pelas minhas próprias mãos.118 CHANAAN o caminho e cortar pelas picadas. É antes a venaiidade de tudo.. dentro da vegetação . replicou Milkau. de talhar o nosso pequeno lote. outras passavam aos pulos.. como que alargando o espirito n u m conforto amplo e bemfazejo. de pedra em pedra. — Hoje.#M*i — o que eu vejo é o contrario d'isto. O que é lamentável n esta solemnidade primitiva é a intervenção inútil do Estado. K ^ — Çtyahkjfld mim. amanhã será a preza do homem.. sem '. sem posse? i>> n. Por longo espaço o panorama era immutavel.. que no nosso caso é o agrimensor Felicissimo. eliminava o enfado.

Desde que chegámos.. dos palácios. si me fixar na ' dt<. mais tarde.. será vendido. se estenderá a tudo ?. sinto um perfeito encantamentqjjião é só a natureza que me seduz a q u L ^ u e m e festeja) é também a suave "contemplação do homem'.. que se vae alastrando e que um dia. Ha em todos uma resignação amorosa. — Pois eu... desejarei ir alargando o meu terreno.. . nas cidades suspensas. ficarei sempre alegremente reduzido á situação de um homem humilde entre gente simples. será o mesmo que hoje receber. que signifique fortuna e domínio. não vês a propriedade se tornar cada dia mais collectiva. . não o ampliarei. . ponderou Lentz. Porque só pela riqueza ou pela força nos emanciparemos da servidão. — O meu quinhão de terra..CHANAAN 119 á nossa posse. Todos mostram a sua doçura intima estampada na calma das linhas do rosto. Os naturaes da terra são expan- . ha como um longínquo afastamento da cólera e do ódio. O sentimento da posse morrerá com a desnecessidade. depois de se apossar dos jardins. explicou Milkau. não me abandonarei á ambição. como é hoje a terra? Não será uma nova fôrma da expansão da conquista e da propriedade ? * — Ou melhor. com a suppressão da idéa da defesa pessoal. n'uma grande anciã de acquisição popular. idéa de converter-me em colono. chamar a mim outros trabalhadores e fundar um novo núcleo. dos museus. • que n'elle tinh* f /*> jfflfâ/f #jL5fc-. das estradas.

não haverá conflictos de orgulho e ambição. visto-me n'um pulo. de olvido e de paz. o próprio chefe troca no lar o seu prestigio pela espontaneidade niveladora.120 CHANAAN si vos e alviçareiros da felicidade de que nos parecem os portadores. Todos se purificarão e nós também nos devemos esquecer de nós mesmos e dos nossos járxjinzo^.. —. e viram a cara triangular e interrogativa do agrimensor. que vinha quasi a correr. Os que vieram de longe. eu adivinho o que é todo este paiz— um ninho de bondade. Tivemos pena de accordal-o.que éo feliz gênio da sua raça.. para só pensarmos nos outros e não perturbarmos a serenidade d'esta vida. agarrando com enthusiasmo as duas mãos de Felicissimo. Vendo-os. não se immolarão victimas aos preconceitos abandonados na estrada do exilio. e os meus amigos já tinham azulado. Ha-de haver uma grande união entre todos. esqueceram as suas amarguras. No encalço d'elles uma voz clamava. estão tranquillos e amáveis.. pois havia um s / .. tirando-os da divagação : — Mas então que fugida foi essa ? Para onde se botam ? ^ Voltaram-se. corno si despertassem. disse Mirkau... não ha grandes separações.. — Bom dia. a justiça será perfeita . — Pregaram-me uma peça. que se atirava a elle n'um gesto festivo e bondoso. Accordo. vou procural-os para um dedo de prosa..

nem nada.. seguia impre. — Não acha.//</«•*vista. Felicissimo frimnn i fn ntr. >' ' Crot_ correndo sobre a Terra. e eu lhes mostrarei o numero dez. grande e incandescente massa do sol derretida. A conversa ia-se vàidndo em vozes altas. o' «• rio chammejava em ouro. E nem tomaram café.CHANAAN 121 grande silencio na casa quando sahimos. e fui bem feliz em ter virado para esta banda. farejei aqui e acolá. olhando rapidamente para os lados. semiequencia. melhor desistirmos fi &jfH e aproveitarmos o tempo para um passeio uj ^ mais longo ? — Seja. Voltaremos ao barracão á hora do almoço.o //ddjiéado quadro da manhã M/pe^. farOvxA*' — Estão cançados ? gritou Felicissimo. E Felicissimo. nevoenta.menos. andemos um pouco. Porque não aproveitamos para ver^seso lote de que hontem lhes falei ? — De que lado fica ? perguntou Milkau. aos saltos e trambolhões.. como si fosse toda a <Z//. transformava com violência'. caminhando um a um na estreita beirada. concluía orientado : — Aqui devemos estar no lote vinte.... mais ao . insistiu o agrimensor. /srK<™ZC . puz-me á caça de vocês. Inundado pjflffl/táfytóffl de amarèllo. distrahidos. viemos até aqui. E. E ' -^tu o sol que se desprendia das" nu vens. um kilometro. — Aqui mesmo n'esta direcção. — Pois eu.. 'muiiln pi In i nnurnr. disse Leritz.

que vamos srahir mesmo dentro do lote. Lentz que o seguia. tomando um largo fôlego. não ha a menor sombra de conforto. Agora cortemos por aqui. e quando via este ^ ^ á ^ í l p e l o companheiro. outras era preciso djÁ n 6Q.. — Cuidado ! implorava este a sorrir. — Tudo aqui será uma grande difficuldade. e virou-se para os immigrantes. calado. que não era muito batida nem destocada.ffbos com a mão. E assim foram até que. — Arre! Que brincadeira! Nunca pensei que o rio estivesse tão cheio. recommendou-lhe cautela. As vezes era precipitado.12-2 CHANAAN — Que juizo faz de nós ? perguntou Lentz.// j J\^_ . Algumas vezes tinham de se abaixar para se desviarem dos iii. saltando ligeiro para deante. evitando os tropeços e as poças d'agua.*/ Xí^jtz**n.. não ha estradas. — É por causa do caminho. em frente a um atalho. tudo é agreste e selvagem. de instante em instante : C á direita ! Agüenta! — Com a mão À/jfJjffl/ ° ramo. si tivéssemos vindo por cima. iam vagarosamente. e uma lambada forte e farfalhante batia no. Passando para a ligeira sombra do matto e caminhando pela picada.rosto ou no corpo do vizinho. suspirava bocejando. porque realmente tomámos pelo peior. galhos e dos arbustos. Felicissimo enveredou por este. Oh ! diabo! O agrimensor n"um falso movimento metteu o pé n'agua. á direita.hJjo C/ gritar nara traz. pensava elle. Lentz. largava-o.G4fi. Não é melhor ."" UiYfA. tudo ia bem. O agrimensor divertia-séem yí-aLÍ- /.

a política se mette no meio. limparemos as estradas.. limitam-se á sua casa. os colonos não querem fazer nada. — Imagino que o senhor deve ter muitos aborre cimentos.. onde o caminho já esteja aberto e tudo aparelhado pelos / / outros? Realmente. que loucura dfffax-me n ' e s t a / ^ ^ . Não é verdade ? — Aqui não falta em que trabalhar.. E os seus olhos descançaram em Milkau. que lhe sorria como um bemaventurado. prepararemos o terreno. pontes e tudo mais. . que havemos de abrir caminhos por tudo isto.. que nos recompense. ao penetrarem mais e mais no matto espesso. e. — O h ! descança. cortou o agrimensor. — Que delicioso deserto! dizia-lhe este. E que não se faça! Lá vae uma queixa por intermédio do Roberto ou de qualquer outro figurão ao governador. e matando a solidão. que lhes dê estradas. levantaremos uma habitação risonha. e me enterre ahi n'um armazém de commercio. disse complacente Milkau.CHANAAN 123 que eu desista de fazer esta vida de colono. Em geral. e nós estamos a levar carões todos os dias. ao seu terreno e esperam que o governo se mexa..^ campanha contra a natureza inculta! Não é pxe-' LL&Á/ ferivel toda e qualquer outra vida a esta ? Não é?. respondeu o outro quasi timido.. — E pena que a estrada não seja melhor para gosarmos desembaraçados este passeio. receioso de deixar transparecer o seu desalento. sabe.

A zanga do agrimensor era d'essas que passam á medida que é espraiada n u m desabafo de linguagem. mandando o engenheiro informar a respeito fájj&ffl representação dos colonos sobre uma ponte que está com o madeiramento estragado. Lá vem outra vez segundo barulho. que por sua vez o mandou para cá. muito simples.l-2'i //. Sou um seu creado. com medo das eleições. que mandou para a Victoria. e é preciso fazer a ponte de novo. o inspector não se importou com o que disse o pessoal. Andaram mais um pouco pela picada e sahiram vertical- . Agora mesmo.. que são matreiros. nós pedimos verba e. ao engenheiro. e .. Botam uma pinguela de lado a lado e vão vivendo. a fim de fazer o orçamento das obras. Isto leva ainda um rôr de tempo. tenho um officio do inspector. foram á fonte limpa. Immediatamente depois. os colonos porém. Creio mesmo que já cahiram uns páos .. E a minha vingança é que quando vier o dinheiro. como de costume. o páo vae apodrecendo dia a dia. si a ponte cahir? perguntou inquieto Milkau. será muito pouco. porque o tempo não descança. — Ora.estou me ninando para o governo.. o governador se assanhou logo./ ' CHANAAN — Não faltam amofinações.... — E n'este tempo que recurso têm os moradores. inspector e toda essa recua.. mandou o papel ao inspector. elle tinha esquecido tudo e voltava á sua jovialidade. e Roberto arranjou com elles um « nós abaixo assignados ».

. concordou Milkau.CHANAAN 125 mente a' um caminho mais largo e mais limpo. Depois do roçado./v b r a j f ^ / e calida.X / / mentos.. que era forte e traduzia a fertilidade do solo./ .. j&W*' — Está aqui o lote que lhes recommendo.. porém. Vocês. / ^ T ^ 9 í Ficaram mudos e como ligeiramente apavora^ dos pelo recolhimento das coisas e como si uma sensação de isolamento. accrescentando : — Este lote é muito bom. vejam que terra cada páo de respeito. andando mais uns passos pela nova estrada. impacientou-se por uma resposta. / . o que não é nada. não nego. e ? dissimulando a divagação dós seWoutros pensa. — Estou por tudo.. de separação do mundo os mortificasse por instantes. a difficuldade está na limpa. com as arvores crescidas e todo tapado pela vegetação. Não viam nada de lado a lado : a vereda fora aberta em plena matta e tudo era encerrado n'uma som. e elles acabam isto n'um abrir e fechar de olhos. . em cujo espirito trefego e intempestivo o silencio não tinha abrigo. Os outros olharam um mattagal cinzento. a quem uma onda de illusão sacudia o torpor da instantânea cobardia. disse Lentz arrastado.. É preciso um pouco de trabalho. Oh ! Ha de ser um gosto ! — Aqui estamos bem. Felicissimo. disse ' Felicissimo. fazem um arranjo com a turma.

. e firo menos o que ha de material n'ella do que o seu prestigio religioso e immortal na alma fiumana. adaptando-se ao meio cósmico por uma extraordinária longevidade da espécie. mas virá o dia em que o homem. — Eu. atacando aTerra. ha de sempre destruir a vida para crear a vida. CVi^A^y^ rto> t*+. Sinto dolorosamente que. O agrimensor olhou a arvore. — Faz pena. preferiria um lote onde não fosse preciso esse sacrifício. respondeu Felicissimo. E depois.. de arrancar do seu seio pela força e pela violência a nossa alimentação. E Milkau disse com a calma da resignação : — Comprehendo bem que é ainda a nossa contingência essa necessidade de ferir a Terra. — Não ha nenhum. e então dispensará para subsistir o sa«/crificio dos animaes e das d/fyff. levado pelo mesmo sentimento. notou Lentz a sorrir com ar de triumpho. receberá a força orgânica da sua própria e pacifica harmonia com o ambiente.íw+***- l—J . botar tudo isto abaixo...Por ora nos conformaremos com este momento de transição.126 CHANAAN E apoiou-se negligentemente a uma sucopira. acudiu Milkau.. Nós a eliminariamos.\>í. como succede com os vegetaes. por mim. para nos expandirmos. que alma tem esta arvore ? E que tivesse.offendo a fonte da nossa própria vida. disse compassivo. — 0 homem. Emquanto os outros se batiam em ^ptAtevrad..

como /s u l t i m / s $ 0 f ô « .. no seu amor ingênuo á natureza. tro da matta penetrava o vento da manhã e nas y \ .1++& Os immigrantes concordaram de bom grado em j ^ . Na estrada </4<r/ " ? ^" falavam alto. ahi está á vista o estirão d'agua. e. ^ A aw— Então. como as queixas surdas dos mo-1—«t^^i^j-A^ ribundos. — Hão de ver. commentou Milkau n'uma irradiação de intimo bem estar. — Sem duvida : é só desbastar o matto. á beira da estrada. que jv*. e com a mão meiga lhesjfestejava . levantando um V* murmúrio baixo. mirava as velhas arvores.. espantando os pássaros dormentes e c ^ J^ \ sacudindo do voluptuoso lethargo os calangos. *Z.CHANAAN 127 Felicíssimo. E hoje mesmo voltaremos com os homens para a medição. além disto. folhas passava brandamente. E agora toquemos para o barracão. que decidem ? perguntou aos outros o *<*?' / / agrimensor. estabelecendo terreno indicado. — E vê-se bem o rio ? indagou Lentz.. Vien-Z^AM. porque esta situação é admirável para o café. — Fazem muito bem. são horas do almoço. *<^* A^~ * t~ sy**w/y y . Puzeram-se a caminho. é muita commoda aqui. humilde. alvoroçados com os vários sentimentos que os trabalhavam.. que se escoava de ^rtodas as arvores.os troncos. dadas ás victimas no momento do sacrifício. — Será uma delicia uma casinha n'este bello logar.

Chegados ao barracão.12S CHANAAN se escapuliam pelas folhas seccas. Isto feito. pois ainda não puzeram nada no alforge. os seus innumeros funccionarios. As folhas dos requerimentos eram formulas impressas. Este furtou instinctivamente o corpo como para não ser esmagado pelo gesto da intimidade. á semelhança dos outros que já tinham sido concedidos.escolhido. E eis como. ao mesmo tempo. n'uma musica de chocalho. afinal. disse Felicissimo passando a mão espreguiçada no hombro de Lentz. pensava Milkau. Felicissimo punha e dispunha das terras a distribuir. molhando úma penna em tinta &JU*^ encarnada.se concentra nas mãos reduzidas de um humilde agrimensor. que já vae ficando tarde e vocês devem estar dando horas. os dois companheiros entregaram a petição assignada. Os trabalhadores já rodeiavam a mesa prepa- ^ 1 ^ ^ ^ . em frente ao grande mappa dos terre[ nos. o agrimensor mostrou-lhes a posição do prazo *« A. foram logo para o escriptorio. e. com f l^t/iS™^'/ ás suas repartições publica/. — Vamos á boia. pagaram as custas da medição e da planta. ^ V &i&&*y&€sr+y • fu*~ **' . e foi esta a única formalidade para a entrega do prazo. pois. e ahi. graças á condescendência do chefe. e em uma d'ellas Milkau teve de encher i com as indicações especiaesde identidade os pontos em claro. que de facto é o senhor absoluto d'esses bens públicos. continuando nos mesmos elogios. marcou o lote com uma cruz. toda a complicada engrenagem do Estado.

Felicissimo passou a entristecer. d'onde o semblante do chefe carregado de sombras os expellia mais depressa.CHANAAN 129 rada pobremente para o almoço. — Vamos! aviem-se. habituados a essa afflicção intima do agrimensor. os homens da turma. no caminho. uma súbita preoccupação_£8 apossoü^aelle. Uma alegre algazarra se formou. Milkau cortezmente procurou con- . Para o fim. Mal acabou o almoço. E á voz de commando a alma obediente dos homens serenou e todos em ordem terminaram a ablução. mas alvar e gostosamente. Depois armaram-se com os instrumentos e ferramentas e puzeram-se em marcha na frente. quando os outros entraram na sala. não poude resistir e cahiu n u m a scisma profunda. arrastava-o no meio de amáveis insultos. bufando. No terreiro cercaram um barril d'agua. O boccal do barril era pequeno para tanta gente. que refreiava a expansão. Isto espalhava na mesa uma leve melancolia. esfregando depois as caras com estrepito. Por vezes. e os homens rindo disputavam entre si a precedência. cada qual esmurrava o companheiro. e por mais queluctasse para disfarçar. e que era o prenuncio das medições dos leites. A refeição a principio correu ruidosa : todos estavam expansivos pela fome e pelo começo da familiaridade. Felicissimo com os novos colonos ia atraz. rindo sem saber de que. gritou Felicissimo. retiraram-se do barracão. em que mergulharam as mãos.

130 CHANAAN versar com o agrimensor. Então seguiam em silencio. em que Felicissimo deu voz de alta. Houve um momento. Depois de algum tempo. . / medições emquanto o diabo esfrega r/olho por- / Q. Pediu J|KM cavalloto om fôrma de t r / que um homem lhe apresentou rápido.' o t r V A ^ • ~~ *-***: . ruminando os seus pensamentos. e re aquelle passou o agrimensor a atarrachar o instrumento. soturno. — E aqui que temos de abrir o rumo.jb í **** / %2tl ' ÓZs-c frjb* y*^~ ^T^ JÇ^ o*».+ h* . quo sram^balisas pintadas / / / em zona. Hoje fazemos U >. yfc-*» *** % »* f ^ * < 1 * 9 y%. mal respondendo ás perguntas.? brancas e encarnadas. Havia uma calma grave em todos. e o moço cearense entregava-se á sua tarefa com extrema attenção. que recebeu em suas mãos com febril anciedade. / Os trabalhadores começaram a desatrelar os instrumentos e os seus apetrechos accessorios. Isto é v theodolito. Estupenda invenção! Dispensa grande trabalho para levantar as plantas. e foi com certa sofreguidão que viu abrir-se uma caixa e d'ella ^ r e t i r a r um instrumento. ^ „ S í£. disse com solemnidade : — Não sei si os senhores conhecem. / W "& 11 *V*-. Todos pararam mecanicamente. O X agrimensor os acompanhava com uma compenetração religiosa. abrasados pelo calor do sol. E virando-se para Milkau e Lentz. depois de andarem bastante. que. que mesmo no matto coberto era abafadiço. se mettia comsigo. toISÜS?" 1 0 " P o s i Ç a o c o m ° s e u fftffflífofri e ordenou a três trabalhadores que seguissem pela frente da G*) f—J estrada com ds marcoo.

no chão os pés queimavam.CHANAAN lál que. atado em sua angustia. Cada um o temia e instinctivamente se ia afastando do apparelho perturbador. f//~r O sol esquentava. Elle tem hoje o . um suor frio e extenuante alagava o agrimensor. como sabem. a ponto de insultar e espancar os seus homens. torcendo-as ora de mais. tornava a ageital-o. abaixava-se. espiava outra vez e sempre o mesmo resultado negativo. O tempo ia correndo.. sempre com insuccesso.. Em roda faziam um timido silencio os trabalhadores. ora de menos. Já o tomava a angustia de não acertar. .7 ainda mais solemne e entregou-se todo ao instrumento. com medo de algum desabafo. erguiase para espiar por cima. — Ah! disse aos hospedes. mirava na objectiva. E só n'elle/ Felicissimo se transformava. ^ para quem dkjí preparava a scena da sabedoria. é a combinação do nivel e da altura: toma-se um angulo horizontal e um angulo vertical ao mesmo tempo. O agrimensor calou-se ^nrt*«*«. Grande invento! Sem elle não sei como me arranjaria! Os novos colonos conheceram pasmos um novo Felicissimoiy não sorriram.. e para Felicissimo. ora abandonava o apparelho e ia miral-o de longe. voltava a rectificar as lentes. mas ora teimava em seus movimentos. parecia interminável. Voltava ao instrumento. sem resolver-se a medição.. E a afflicção do agrimensor n'aquelle dia redobrava á vista de Milkau e Lentz. que conheciam esse momento terrível do theodolito.

afastando o páo da linha.. Uma grande tristeza se apoderou d'elle.. Almoçámos bem. Voltou ao instrumento. Com certeza foi quebrado por algum d'esses miseráveis. . E. evitando maiores conseqüências da cólera do chefe.. e em casa mais á vontade o desarma para vêr. N'este tempo os homens das balisas estavam fatigados e começavam negligentes a oscillar os marcos. — Sim. e agora definhava no desespero de conseguir qualquer observação. mas a anciã e a vergonha do insuccesso não davam forças á sua ira. murcho. Mas para não perdermos tempo. Deixe para amanhã com a fresca. Com certeza ha alguma coisa ahi dentro. tínhamos andado antes. depois. disse-lhe : — E melhor deixarmos isto para amanhã. o senhor está fatigado. enfraqueciam-no. Felicissimo arremessou-se ao primeiro : — Oh! seu ordinário. que agradeciam com os olhos a presença dos novos. é melhor.. eu logo vi que era você que não me deixava pôr em ordem o theodolito. si .132 CHANAAN diabo no corpo: não consigo vêr nada. quem sabe? O theodolito pôde estar quebrado. Hoje está muito quente. 'cww E c o a v a raivoso o grupo dos trabalhadores. Milkau com pena.^ O homem «e desculpo u-f dizendo que arreiára o marco quando o chefe já não estava no apparelho. tornavam-no gago. Felicissimo ficou colérico. Ao contrario.

apagando os traços da agonia scientifica. Cumpria-se a velha e costumada comedia do theodolito. A medida que o theodolito ia desapparecendo na caixa. — Estes mulatos. Faltava.. E um systema atrazado e de que não gosto. disfarçou. apontando desdenhoso para o instrumento. a alma de Felicissimo se ia libertando da angustia. o apparelho está quebrado. que sobre elle exercia uma influencia satânica. E como o agrimensor se approximasse d'elles. Os trabalhadores ráj&taa^fcss todos com ar in. — Guarde isto. em mais de duzentas medições.. lhe alterava o caracter. Elles sabiam bem que o agrimensor. e o seu jovial humor o retomava francamente. As medidas foram tomadas na fachada da frente do terreno e nos fundos dentro da matta: postes fincados nos quatro ângulos assignalavam o lote adquirido pelos dois immigrantes. s . abrir o s .. alteando a voz. porém. ordenou Felicissimo a um homem. desinteressado do theodolito. dizia em aparte Lentz a Milkau. mas emfim. um pouco sarcástico : — Vamos á fita! A medição fez-se como sempre.tf1/ telligente. o punha fora de si e era causa d'esse terror cujos prenuncios lhe sombreavam o espirito desde o fim do almoço. o allemão parou.CHANAAN 133 fizéssemos a medição com a fita?. — Com certeza. não ha remédio.. não conseguira trabalhar com o maldito instrumento.

Nós tomamos a responsabilidade de abrir novo rumo. O agrimensor bondoso e serviçal acquiesceu. a principio « W iam escolhendo. O machado cantava com energia no âmago dos troncos. n'um compasso vagaroso. dos outros..L1-Í "rrvotfáy CHANAAN rumo que separasse de lado a lado este quinhão de terra. ainda receiosos de ^ yJMp^x/n^r ú^J trabalho. Milkau dirigiu-se a Felicissimo e perguntou-lhe si podia contractar com os homens esse serviço para aquella hora mesma. O ferro não descançava nos braços sempre em movimento. Momentos depois. O rumo ia sahindo acanhado e torto. si este não sahir de accordo com a planta. Mas quando miraram o serviço feito. disse Milkau. ladeando quando se encontravam com uma arvore mais robusta. uma fúria hysterica de destruição. Ouvia-se cahir o machadodes- . — Não seja essa a duvida. e em pouco tempo estavam completamente alheios a tudo e entregues á sua vertigem malvada. e derrubadores em grupo combatiam ao mesmo tempo uma pobre arvore. O cearense objectou que a planta não estava tirada. os pequenos arbustos. os marcos estão collocados e o rumo irá sendo aberto com as balisas e medidas rigorosas. para cortar. os trabalhadores estavam a derrubar o matto. e Milkau *» entendeu^com os homens. Havia uma raiva. os homens como que despertaram da sua instinctiva preguiça e estimulados á vista dos extranhos se atiraram duramente á derrubada.

Em outros momentos j . A pequena fadiga fazia bem aos seus membros hercúleos. e das / / / ? boccas rudes deixavam sahir os velhos cantos amados. energias do seu ser humano. e adeus. campo. serenavam. Os allemães instinctivamente o imitaram e cada um em sua própria lingua cantava versos bebidos na fonte natal. O mulato maranhense dizia as saudades do seu coração. tudo o que mais amava com as intimas. Era o grande acontecimento.distrahiam-se. e a alegria' se lhes espraiava nos rostos congestos. e no impulso furibundo o ferro penetrava tanto que. Não mais roncavam com a anciã dos primeiros movimentos. agora harmônicos e regulares. cravando mecanicamente o machado nas arvores. Algum dia te verei.CHANAAN 135 locando o ar e arrancando um ronco forte dos robustos peitos dos devastadores. agora. E cantava n'um tom que era um longo soluço : ///óCLeal-i ^J r //J7 u 4k Adeus. o drama da sua vida esse abandono da terra natal. E elle o cantava sem attender a ninguém. Adeus. o golpe era tirado bem do chão. redobravam de ardor. matto. Iam para adeante. o suor lhes escorria. casa onde morei! Já que é forçoso partir. Quando estes encontravam um páo mais duro. paxá J(éffifá0$\° homem tinha de fazer um esforço desesperado. Joca fora o primeiro a soltar a voz. habituados ao exercício.

— . Joca se expandia ém gritos voluptuosos.y . » (os velhos allemães bebem mais um. Elias cantavam em coro. noch ein. que se casavam no ar n'uma 'união extranha. e ruidosos : .. 'dl&g^ed. $**~ os immigrantes sonhavam-W pela suggestão das t r^~.. Os echos recolhiam as rimas singulares das duas raças. dléMàMa' embebido na contemplaçãolcorrer y\. Perpassava na cadência e no pensarríento da estrophe o frêmito da lux-uria meiga e jj-----^ . i r i 1 ' doce de toda a sua raça. e dos seus labi<*§ inconscientes sahiam versqp de outro caracter : Vi o teu rasto na areia E puz-me a considerar : Que encantos não tem teu corpo. /reunido^ aa beb L Jt'I « Die alten Deutsche t: fen noch ein. os immigrantes sonhava beber.' qju /cantigas. e os versos que diziam eram echos das tabernas do paiz germânico. em plena selva tropical. fií . Si o teu rasto faz chorar! Jb e***rüjj'*''N'esta imagem tão ijina-e-tã-e---mpEtior de um sentimento animal. Noch.«(\ / -Miifetba-iJStavia uns diasjno alojamento dos immigrantes.l-M CHANAAN abandonava esse queixume. noch ein. e por um momento alli mesmo.. A esta solitária voz brasileira se juntavam os accentos fortes e musicaes das vozes allemãs. A derrubada do rumo proseguia mais activa V. Teu rasto faz chorar..<fQI/ e mais alegre. mais um).

Sentia que um pouco da belleza O e do esplendor da terra ia morrer. passando indiffcír^y ferente sem ouvir o gemido do mar rasgado. quando se chegou a Lentz.^^" p*^ monia eterna do universo. Pouco depois. Mas. n'uma subor/y^t^t^. ' '^T^y. y»**r«M£tTudo vive.CHANAAN 137 o tempo-. N'um dos ângulos da matta lançaram fogo á primeira moita. ainda assim. uma alma na har. tudo tem uma voz. no pó que pisa. dinação indiscutível e indefinida. i Uma piedade indefinida deante do sacrifício da matta o entorpecera. fatal portador da morte a integridade da fôrma.-L-U. o estremecimento do ar tj» . Comprehendia a fata-^l^S?Z lidade do seu destino e resignava-se. architectada pelo seu coração em longo sonho. na mulher que elle ama./ / y n i d o s ^ * todos penetraram na floresta com um recolhimento sacerdotal..**• cortado. uma fumaça grossa se desprendia do .. Milkau perdoava ao homem. os homens fftfflfy reu. a A ^T '• queixa da floresta ardente. l/-«/r~-#^ Amanhecia. I rápidas. de quem vae cumprir os ritos de cultos infernaes. /^.(gn 'OÃÕHse decidida começar essa vida. e disse ^*~ *£«*_ resolutamente: 'TL--»**' t u — Temos de queimar o matto.Í^~«A'-*" panheiro. E em roda d'elle a vida em tudo : na terra gera. {/' dora. que lhes pareceu mais resequidi Antes que a labareda . ^ -T^ A idéa do fogo chammejou no espirito do com. apontasse para o alto as línguas ardentes. por toda a parte destruindo como um r^^. á necessidade.„•£$»«-. E Milkau vibrava_^__ !?<yZf com a recordação de todo o soffrimento que o AM^4^* I homem tem causado no mundo. rubras.

13S CHANAAN fundo da toiça. suspendia-se no ar leve da floresta. faziam *. tí/k-c*. atiçando as c h a m m a s . Estas estremeciam n'um delicioso espasmovPá ' " ú L j .f ^ ^ ° r " Toda a ramagem da base foi ardendo. Çf fogo sé erguêra-e lambia n u m a caricia satanicjuos troncos das ar. .***^yy. ^ a* ©»*>».quente do fogo. e estendendo os braços umas <"jj£" */i A ás outras espalhavam p o r toda a parte a voragem ÁÜl-e-v /y--^° i n c e n d i o . e as /. Os homens olhavam-se a t t o n i t o s ^ ..**. resinas que se derretiam estrepitosas.chavam.„„„ procuravam „„„ „<. ^ . que lhe seguia no encalço.-4. Alguns se ^^Jfjtsam fí*/y~0i Z\ tf qv*td>/)+*£+' v . fugindo á perseguição das columnas que mar.•afc parasitas como rastilho de pólvora levavam as' /é&^y*' chammas á copa. deante do clamor geral das victimas.AJ nhos dependurados arderam. Línguas de <#" * C V T V ."e.?*. e um piar choroso ^"'j entrou no coro como nota sryyft. e a fumaça augmentando entupia 'ff+l "i l^yr— f*. fogo r„n . Pelos cimos da matta m escapavam aves t£Z* Lry*^ espantadas. Pelas abertas do matto corriam os animaes destocados pelo furor das chammas.££< f't*d> a m u s ' c a desesperada de uma immensa e aterra.t / r w _ de arvores q u e cahiam. vagando na direccão dos caminhos como pastosas nuvens. Pesados galhos <*? rfg.„•„„„.<-.&*••' /*~y /^ lavam.t o c ^ a s monstruosas. Uma araponga feria X < ^ rr / ACOVO ar com um grito metaTlico e cruciante.. remontando ás alturas n'um vôo deses.„„.as veredas e arremessava para a frente o bafo syf^h y~y. g^' dora fuzilaria.i „„ Recuavam. Muitas ^*$r " ^ 7*P arvores estavam contaminadas. ~ l**M l*l.t/A+f viperinas attingil-os.yf l/ v< ^ ei^ ^ perado. ardiam como **». e triste.yvores. pairando sobre o fumo. Começara a queima. O vento penetrava pelos claros abertos %*%% 4j^ < >.íL vr*-.*» * T * ^ . Os ni. troncos verdes q u e esta./ «tfie esfusiava. D„ „ „ .

Ouviram-se succesrvas e ^<> medonhas descargas de um tiroteio. agora. atacavam-no a machado. E afogüeados. outros cahiam inertes na fornalha.elles. ennegrecidos. aquecida até ao seio. a columna./n . Ahi abriram rápido o sulco protector. não podendo vencel-as.. A nevrose do pavor.como um ser animado. ^»arrojavairr"eontra os páos comodenodo de gigantes. os homens viam amarellecer a folhagem verde que era a carne. Do lado da praia o trabalho foi fácil. si encontravam o embaraço de algum tronco. E feros e duros atiravam-se á enxada para cavar o aceiro. o terreno estava desbastado e limpo. que eram a "* ossadura do monstro. repararam que a devastação tetrica lhes C*/r ** ameaçava a vida e era invencível pelo matto a dentro. tinham recorrido ao fogo. O fogo não tardou a penetrar n'um pequeno taquaral.jg^ os troncos firmes. com raiva. quando a . quasi pelas terras alheias. Surpresos. com febre.CHANAAN 139 do perigo. até que o fogo se approximou. centuplicou-lhes as forças. continuava a queda dos galhos. Do outro lado. Mas o fogo avançava sobre . erectos. Os pygmeus que se não mediam com as arvores e que. cavaram a trincheira pelo rumo. O aceiro foi sendo aberto.///***£ tonitos. nos limites da área do lote. sôfrega por saciar o appetite. Sobre a terra queimada na superfície. a lucta foi tremenda. no meio da floresta. e feno der. at. com anciã.. ^//>)rfp/ndo-lhes o prazer. e.avançava solemne. sob o aguilhão da defesa própria. N'um alvoroço de alegria.

A cem metros de separação. até chegar ao aceiro. que se erguiam á margem. os colonos cavavam sempre. os estampidos redobravam x as labaredas esguichavam. deante do^^spafd-aberto e intransitável. o fogo desafogou-se. < Os colonos e trabalhadores semi-mortos voltavam á casa.140 CHANAAN taboca estalava nas chammas. ^ t . logo que se reconheceram senhoresdo perigo. Já os homens n'um esforço immenso se tinham adeantado. .^ £ v / d e t i v e r a m e^^se/espalharaqojpara a direita e para a *u—/ esquerda. incendiado. IIJd(yr*y foi veredeando por um atalho. As chammas s a abeiraram""aa valia e. e lépido. da varanda do barracão. satisfação a matta esbraseada se estorcer nas agonias do incêndio. e os outros miravam n'uma diabólica. Milkau chamava na sua imaginação a vinda dos tempos sem violência. A' noite. emquanto a fogueira circumdava n'um abraço a moita de bambus. continuando a sua obra. e célere. dè Ml . O fumo crescia e subia ao ar rubro. i^r/Jíendo os arbustos. invencíveis sacrificadores da terra. quando as estrellas em rythmo moroso parecia caminharem no céo. Farto de devorar a carne dura do /// bambual.

creança que amara quando ella . Ahi se viam pessoas da família.A felicidade de Milkau era perfeita. quasi filha. e deixado que a simplicidade do coração o retorpasse e inspirasse. essa mãe. e a mulher. A sua pequena habitação. Tinha limitado o inquieto desejo. o pae illuminado por um sorriso de martyr. do domínio e do orgulho. ou uma pequena consolação da volúpia. Trabalhava mansamente no quinhão de terra que occupava. como veladores Penates que o homem transporta nas suas migrações sobre a terra. erguida no silencio damatta. Apenas. era humilde como as outras dos colonos . apagado do jfe« espirito as manchas da ambição. nada existia alli que fosse a traição de um gosto refinado. Estava povoado de retratos. d^veneração e de saudade. quebrando a uniforme monotonia rústica. o quarto de dormir de Milkau impressionava como uma capella ardente de amor. com grandes olhos de dôr e supplica perenne.

f/j Q) çfy / o m essas imagens sq& Milkau vivia na e ^ ^ . ^ ^ Fnuicn a pougy'. mas pelo que aspirava fazer. dentro d'esse quadro(jJjie/sonw/^ > ' como uma deslumbranter_e§urreição. O trabalho pelas próprias mãos (|hej\davAa sensação positiva <*da sua dignidade humana!"ps<Jeus olhos procuravam em torno o mundo para onde elle -m queria l t dirigir/n'um forte desejo de affeição. Vendo-o assim attento. " " I I derêsígnação. d ^ # # # f p uma armadurajnvencivel. Milkau èejéspraiavgpem relações et-J ^ com o grupo colonial do ria DoceT Achava um ' encanto em conviver com essa gente primitiva. /g/fa./se f 7JJfò6l y mava»com todas as lições que lhe davam os a n t i g o s ^ ^ cy e experientes colonos sobre aslcoisas da lavoura. Éll^ jMl j I ^ fee]7entia^amparado por um fluT3o~~dTr"e"spérança. não pelo que tinha feito. e que ia se deixando infiltrar da sua cordura e meiguice. transfigurando-se para morrer. OsÁ(fi/ffl/ eram retratos das grandes /// w figuras humanas. /cntindo s/ ' feliz e engrandecido. con or £~ ffifáffltâffjem orgulho de intelligencia. mais lhe queriam os cam<~ ponios.142 CHANAAN c ~f. q^tdfíÇ não atemorisava com a sua educa-p^mm ção. E ávida.passara deante dos $ffi olhos. ~ * t o perpetua £ o m m u n h ea oque ffâtifc dá a alegria enche oreligiosa. soffredores. e/em sua presença tinham instinctivamente j T uma artitude cheia de sympathia e respeito. que. vazio do que isolamento. Milkau Jj estava destinado a ser pouco i pouco a figura cen- . que o recebia sem desconfiança. poetas. emanado do amor e das lem>#<áá»M&-!?ranÇas' ° envolvia. amorosos.

como a terra bebe imperceptivelmente as finas gottas do orvalho até ficar saciada. Outras ve?es caçava. paralysado. A vida que tomara. na tarde da sua chegada. jiójê!^ áo seducções do camarada. Para se distrahir. sem reparo. Sempre calado. desdenhando qualquer conversa..Í^Lentz/vivia^ triste n'um intimo e reservado desespero. <r CHANAAN y ^ ^ ! 143 trai d'aquella região. enérgico. e a bondade do sentimento entorpecia-lhe as maldades grandiosas do seu idealismo. os colonos iam absorvendo o seu inuriortaj/prestigio. o apóstolo da energia. e dar um pouco de fadiga aos nervos. Ao contrario do seu companheiro.< ^w/*^*'/<*"**" . caminhando na doce sombra de Milkau. Ficara alli ao lado de Milkau. como -um verdadeiro homem. defronte do barracão. o velho allemão ágil. se completava na contradicção. e sentia uma expansão de alegria quando atravessava solitário as montanhas em silencio £/ sobre ellas dava grandeza aos seus sonhos devida. cercado da sua >. incapaz de abandonal-o. o creador da força. elle. . Era então que lhe succedia encontrar no matto o vizinho taciturno que passara. extenuando-see acalmando-se. que eram o estimulo para a agitação do seu pensamento.. Lentz se encarregava-das viagens. E assim inactivo. e. Jaw"0 . seguia qual uma visão primitiva.n um esforço tenaz e porfiado. das compras da casa. torturando-o essa pungente agonia de praticar a existência condemnada pela idéa. O caracter fraco trahia a audácia do sonhador. era para elle uma grande humilhação.

todos se preparavam para essa diversão. e querer s . a terra intumescida parecia. resolveu ir ao Jequitibá. n'aquelle instante de exaltação e vertigem. levavam-no a desejar attingir a eternidade e dissolver-se no infinito. Uma tarde. O novo pastor celebrava o seu primeiro serviço religioso com o<êoncurso dos pastores de Altona e Luxemburgo. de orelhas cahidas. marchando sempre por um caminho de montanhas. farejando o chão. alevantar-para o ceo. formando caravanas. iam pelo caminho encontrando colonos a pé ou montados. Lentz voltava de Santa Theresa. plácidas e vastas do infinito. cujos cães o festejavam aos saltos ou iam á sua frente. dia Estava elle todo possuído ddy^f espirito da ascensão e sua alma escalara também as regiões silenciosas. n'um soberbo movimento de força e desespero. os dois amigos partiram. trazendo a noticia deque no dia immediato haveria uma festa em Jequitibá. á hora 3o amanhecer.144 CHANAAN ardega matilha. que se queria identificar com os hábitos da nova sociedade a que se consagrava. Milkau. sahir de si mesma. que ainda viviam em Milkau. Raras vezes a paizagem transmittira a Milkau uma emoção maior do que n'aquelles terrenos altos. Em Santa Theresa e nas casas de colonos por onde Lentz passara. Sob a transparência crystallina do firmamento. para o espaço. E também as essências mysticas. E na madrugada seguinte. Quando já se avizinhavam do Jequitibá. Famílias e grupos ininter- .

via-se a subida dos pygmeus. como ondas regulares. ra. era como uma presa arrastada vagarosamente por um formigueiro. Pela encosta do morro que vae ter á «apella.'* os olhos dl<úhu abxan-Af\f^ giam todo o panorama claro.JJ XÜff pelarem. Quanto mais perto da egreja. rodeiada pela """ " multidão que fervilhava. que ondeava. Em certos pontos havia /*-/-necessidade de dexWjfffíh o passo para não se atro.-—"r'1^" diantes. 9^ Estál ficava-lhes a frente. tr* ' ^ *ij> descortinaram a capella do Jequitibá. ^ ?>/**/ «^/"/~ <n~ Acharam-sè]4ãpei«í base da coluna. era com uma alegria de recemchegados que se saudavam mutuamente^Alguns passavam a galope. pois havia muitos mezes que não se abria a> capella. brandas e fixas de um oceano manso. segui jfâfitykhubiam por uns degraus de madeira fir dos rra terra e que muito espaçados chegavam! ( CJ&iV / . Qa dois amigoof^epois de algumas Jioras de viagem. e tomavam / j ó ^ r y t h m i c a marcha de <f/rij procissão. a capella branca. excitados pela fresca da manhã e pela esperança do prazer em sociedade. e. ao saturem de um caminho? coberto. e os colonos não se reuniam desde essa epocha. então era de vêr a carreira folgazã de toda a gente pelos caminhos. parecia borbulhar de dentro da ^g^_<-*-"" terra. e esse araou/communicando-s%aos outros. Ao longe. Todos vjateuq. mais a multidão se engrossava.CHANAAN 145 ruptos enchiam as estradas. desemboccando (Jy*»»**^' alli de toda a parte. feito de uma dourada luz e de pequenas elevações. A multidão.

O vestido largo. A medida que galgavam. o chapéo de velludo. e n'ella a massa de gente se remexia. O cimo. o que m//p jffàM/jjffl. as crinolinas. esguio. as rendas. — Só isto paga a viagem. amarrar os animaes nas estacas. U m vozear confuso enchia os ares e turbava Milkau e Lentz. apear-se e . formava | uma esplanada. uma entrevista nas serras do EspiritoSanto.1 iü CHANAAN até ao alto. Cada uma das mulheres ainda tinha o seu *. passando-lhes o L # * / V ^ ^ embornal. em mirar o povo. encolhida como pergaminho. conservadas^ religiosamente em trajes que se não acabavam '„ mais. que era no fim da egrejinha. emqüanto a capella se não abria. disse Lentz gra- . e a sua ~ Sj pelle era amarella. vestido segundo o uso do momento em que deixá*Y ra o paiz. e entretiveram-se. já tão descançados e entorpecidos na solidão bonançosa < Mas logo se habituaram. iam vendo viajantes que" chegavam em bestas. davam-se. ou a combinação phantasista de um baile de mascaras. a capella. yf Era u m / grande jfcase/ de colonos da região. uma^ b mistura de modas de muitas epochas. de cintura curta e babados. as toucas de seda. á casa do pastor. o corpinho fino. trajes aldeãos. acotovellando-se. ç ' outros ainda ^sag:louros e jovens. / Alguns estavam alli havia trinta annos. trajes de cidade. Trajavam as suas melhores roupas. como si fosse uma revista retrospectiva de modas. onde fotexÁ. o casaco severo.. os simples pannos brancos envolvendo a cabeça.

primentou de longe. que desde algum tempo tinha deixado o rio Doce con^>». amenisava o odor forte das multidões. / . E está ficando quente.. /CJ*&H4 — Até os velhos. guardadas longo tempo nos fao/AcÁ^^ bahús. $(l0fl/jli$0fi. por essas m o n t a n h ^ & u feitadtâi sombra de aif/y^r£ü=l guma arvore? /<§/' /JPã »*«*'""* 9 . — A alegria dos velhos é um mandamento para/ ^ / } . /s$*' paletot pontas de lenço sahiam espalmadas. .^ t*£ê~ mensor estava com um cravo ao peito e do bolso do f\£. O agri.* c^L .****-felicidade d'este povo. Que^DâgJmportaalmissa fl/£*'/**' do pastor ? Vamos espaí^jjP-fiirVda festa. depois de Jtrt'e£*'' algum tempo. já vimos o Jnelhor. a vida. o cheiro das /rr^v^**" flores que as raparigas traziam ao cabello e das e>li>my^ roupas domingueiras. *• « • « O povo continuava no seu borborinho tumultuoso p>rr^ *y*r e alegre. tinuando as medições para outras bandas. com uma barretada e um riso Q^. acompanhando as observações que o amigo fazia sobre d^ f/f ddxisüífk das vestes. disse Lentz. Misturado com o aroma da terra. í ^ . Cum•»**••-.. para 9 ^ Cr*~assistirmos á sahida d^Sôvo. concordou Milkau.^**-^ desdentado.. um perito poderia fixar pelos vestuários a epocha de cada migração. Mas também admiremos a usÁs. e ao longe descobriu Felicissimo. j0> ^~^*-^ — Ora. Milkau mirava para todos os lados. — É verdade. em voz baixa.CHANAAN 147 cejando. darlio um passeio -fai. Joca e o grupo C L ^ de trabalhadores da commissão de terras.

no começo da ladeira do morro. Quando . — Ella é veneravel como toda e qualquer outra. — e a vida. seja do que fôr. é inattingivel á medida que caminhamos. três homens chegavam. Para destruil-o é preciso que o homem explique o universo . de um deus ou de uma abstracção. e o culto. não eiLgoifà o mundo dos pheno/ menos.. divina. Elle é a expressão da nossa emoção immorredoura. — Mas. é inseparável do homem. além. por mais que se alar' j /-^Lgue e avance.148 CHANAAN — Não . E o homem viverá sem terror. — Haverá um tempo em que o homem ha de enterrar com os antepassados o culto que elles nos legaram. A marcha da sciencia no nosso espirito é como a nossa na planície do deserto : o horizonte foge sempre. e o conhecimento. Além. hesitando si devia responder. ha sempre o desconhecido e o cultoqueoidealisa. Milkau fitou muito calmo o amigo. Afinal disse : — O espirito religioso é irreductivel. do nosso eterno pasmo no universo ou a exaltação do nosso amor. que subiam arquejantes. como a que divinisa a sociedade humana. elles podiam se divertir de outra fôrma. Tudo será esquecido. Essa religião. Nós nos divertiremos vendo divertiros outros. Defronte d'elles. esporeando com força os animaes. fiquemos aqui e acompanhemos esta boa gente. Esteve um instante calado. francamente. e é sempre uma força salutar..

Todos olhavam as portas cerradas da capella. moreno e imberbe. mais afastados. Milkau reparou n'elles e rtóou que/Y//v/*'rí eram os mais bem vestidos de todos. O sol já esquentava muito. esperava solemne. os cumprimentos. silencioso. se acercaram d'elles/muito prazenteiros. Dois ou três homens da cidade. praguejando contra o habito de os deixarem de fora. empertigado. Os homens tiravam o chapéo. Olhavam os colonos como uma massa amorpha e subordinada. i&eaquant»/o terceira^" jdffh no ^ s ^ r o s t o claro. Um dos v i z i n h o ^ í i i ^ ^ é ^ s e r e m as auctoridades do Ca.//r/ir>->Com effeito. com uma moldura de [fd/*****1. era o triumvirato judiciário da comarca. de monoculo escuro e costelletas. os cumprimentos se propagavam e d'ahi só se viam as cabeças abaixando-se na direcção dos magistrados. rompendo a agglomeração. lhes tiraram o chapéu. O mais velho J+cy era um sujeito de cabeça grande. Lentz 7^1'A' teve curiosidade de saber quem eram. e sob os seus ardores a impaciência crescia. muito reverentes e pressurosos de se recommendar.CHANAAN 149 se apearam. percebia-se que sentiam a consciência de uma posição superior. Darba castanha. limpavam o suor e muitos cobriam a cabeça 'y/)M^\ / /? 1 . Por contagio e por instinctivo signal de respeito dos humildes colonos. meio barrigudo. que correspondiam desdenhosos. muito fi joven. um ar de fadiga e preguiça. o outro. outros. e o velho de monoculo. Fitando-os.

os animaes bufavam. Milkau ^ j í y ^ d W . dizia em surdina Lentz ao camarada. n'um movimento inconsciente de quem ia forçal-as. O tom protestante é plebeu. com um aceno de cabeça. A multidão se impellia lentamente para as portas. empurrando para traz. de madeira não envernizada. Mas estacava. como sempre. e foi uma invasão alvoroçada na capella sombria e íresca! Milkau e Lentz conseguiram logar n'um dos A bancos de madeira. mil vezes uma egreja catholica.150 CHANAAN com o lenço. A porta afinal se abriu. Não havia a menor pretenção de enfeite. Abafava-se^* murmurava-se. ao fundo uma cruz preta com um sudario branco pendente. para adeante. Alguns se esgueiravam para as escassas sombras das paredes. o púlpito baixo. zumbindo. na brancura das paredes estavam inscriptos versículos da biblia. emquanto mulheres velhas agitavam as saias. no centro. e espalhando o calor de corpo a corpo. com a sua pompa. as suas cerimonias de finas expressões symbolicas. — Muito triste. um grupo para se proteger do sol apertava-se debaixo de um misero arbusto. que bem se casava com a simy plicidade externa. muito nú. e ahi tò/dutáados observaram a iMôtih*. As moças atavam também o seu ao pescoço. .singeleza do interior. refrescando-se com estrepito. triturando surdamente o milho. inesthetico. espanavam-se com os rabos. e ornado de listas alvas cheias de palavras santas em negro.

perdendo a própria essência na mais copiosa e allucinadora emoção. Milkau vi/brava. Ha muito tempo que não ando por estes lados. ^ —Ainda o não viu ? perguntava uma velha. infinitas. como murmúrios de piano e de flauta. Não fomos nós que encommendámos um pastor a Roberto ? Seja como fôr.. Que conjuncto de sensações não se accumularam desde as remotas almas pro- (Jf' / / y*J. que se esforçavam por conter. mas que se percebia nos bocejos.CHANAAN 151 Em volta d'elles outras conversas proseguiam em voz baixa. Parece uma pessoa. — Também si não fosse. respondia outra. .. Não tardou. chamando todos á respeitosa continência. para que lhe darmos o nosso dinheiro ? — Ah! isso você sabe. alludindo ao novo pastor. A musicaenchialí^S** alma capaz de sentir os mais intangíveis e deliciosos segredos do som e de se transportar além de si mesma. porém. — Não. temos de o agüentar. nos movimentos de pernas e de braços. recomeçava a impaciência.muito de bem. E onde você o viu? — No armazém de Jacob Müller. seguidos de um acompanhamento mysterioso de vozes múltiplas. A musica» infiltrávamos nervos dos ouvintes e Gs i amansavOmollemente. A multidão st apaziguou^ o instrumento continuou a cantar os solos. que um accorde de harmonium soasse. Musica!. outro dia. Depois do descanço do primeiro momento á sombra. não ha remédio sinão darmos.

trabalhando.. ou era aquella mulher a sua visão realisada ? Parecia-lhe ..que Milkau amou.. entoava hymnos. carregando as vibrações recolhidas em cada cellula. debaixo.. carregado nas harmonias. laia Milkau. não percebia mais as fronteiras do sonho e da realidade. Um sonho dentro de um sonho . que parecia entretida em vêl-o dormitar. E Milkau. Milkau ficou indeciso um instante. tomado pela saudade. elle..152 CHANAAN genitoras. Musica também lá em Heidelberg : uma melodia phantastica. lentas. na terra antiga. escrevia poemas sagrados.. Continuava o sonho. porque escrever é cantar com a penna. dolorosas. Milkau teve um ligeiro sobresalto e despertou. Os olhos d'ella embebem-se na Biblia e sobre esta os seus cabellos caem n'uma chuva de ouro. E emquanto o órgão no alto da capella cantava. ^ y £ . Os seus olhos meio attonitos descançaram em uma joven.. Musica! Cessou o órgão na capella do Jequitibá. Elle vê uma figura de mulher. que entra na sombra silenciosa e brandamente vae sentar-se. 1^1 recolhida. no passado. 4. angélica. das harmonias. Musica! Canta a mulher ^.. como uma benção e uma luz do céu illuminando o livro santo. emquanto ella.. até emfim formar-se no homem a derradeira das suas almas. afinando o mundo dos nervos. lf 0 J 0 fyp0f de um templo. Era n'uma egreja de Heidelberg. ^gEâ-de olhos cerrados. Tudo se/confundia extranhamente. a alma musical!. mystica e crente. enche a egreja. á sua vida primeira.. que rios de sangue não correram de pães a filhos. longamente.

Subia ao púlpito o novo pastor. que sempre entendeu como uma religião secca e simples. violentos e radicaes. e voltaram-lhe á memória as observações de Lentz sobre o protestantismo. n u m gesto de recolhimento de ave mansa. pelas phrases. Milkau reconheceu n'elle um camponez. e. com a mesma suave e meiga expressão. a gente do norte inculta. o pastor ia desenvolvendo o seu allemão religioso. ~se revoltára^naturalmente contra os civilisados.CHANAAN 153 já ter visto em outra vida aquella mesma cabeça de macios e crespos cabellos de infante. que lhe cahia sobre o casaco preto. nos quaes o catholicismo se desenrola como um successor natural do paganismo. cujos melhores interpretes eram homens rudes. pela côr vermelha do áspero rbsto. com uma barba fulva. pelo accento da voz. em rico contraste. Era um homem alto. moveu-se. aquella que mais se liga ao judaísmo pela austeridade. Pelas mãos callejadas. curvando o pescoço devagarinho sobre o peito. O seu primeiro contacto com os colonos era uma crise. E ella o olhava l/ vagamente distrahida^tí quando reparou que era / \ ' ^ examinada. cercado pela curiosidade do povo. independente. 9. . pelo rigor excessivo de seu monotheismo. Na scisão da Egreja cada uma parte ficara com a rfaasdi Jt#lCy'p? dos espíritos que lhe era própria e peculiar. barbara. em vez de continuar desembaraçado o sermão. uma religião rústica. elegante e pomposo. N'uma toada humilde e timida. astuto.

.. procurando com vão esforço esquentar-se. Ao lado de Milkau um homem explicava a uma mulher que bisbilhotava a respeito de duas outras que se viam no coro da capella : — Aquella mais magra e morena. mas me parece muito boa pessoa. Outro dia vim preparar a horta... E a mulher do novo pastor. volveu concentrado e hypocrita á sua Biblia.se preoccupavarm)com o pregador *«• e sua família.154 os-/ CHANAAN elle se detinha a examinar o povo.. que lhe fazem ? O colono não respondeu.. Agora se pôde vêr. e muitas vezes parava distrahido. — Pobre! Então. vê outro. a reflectir sobre si e os seus embaraços. — Tem cara de judia. — E de onde as conhece? — D'aqui mesmo. — Ah ! E a outra é que é a irmã d'elle ? — Quem vê um. creio que o pastor tem gosto pelas plantas.... Os ouvintes desinleressavain^Ê_da--atrapalhada e vagarosa predica e. pareceu-me uma alma penada em casa. A cara não engana. Na tribuna o pastor ia rolando o sermão. A irmã feej^nteressa)por tudo.. porque vendo que as suas palavras eram recolhidas por outros ouvidos da vizinhança. tentando . — Sim. que estava toda abandonada. outras ia tropeçando para adeante. — E Frau Pastür? — Não sei.

Do outro lado. a fazer signaes de impaciência.-seespreguiçava^Tio banco. cahia logo.r -n. ora limpava o monoculo que. que seguia complacente^ /ao agrimensor. cocando a barba por desfastio.t < ^ £ ^ 1. que era o juiz de direito. ao juiz de direito. A sua voz logo esmorecia e cahia na morna toada. enxugando a testa que se franzia em grandes rugas. o juiz municipal. sacudia bdftf a cabeça ^jf" n um gesto de contrafeita resignação. e enfrentavam solemnes f a multidão . estirando as pernas. Sentaram-se os três juntos n'um banco. ora tirava o lenço. ao lado do púlpito. e de la. suando muito. O cearense arregalava os olhos para os n j / seus amigos do rio Doce. sorria benevola e cavalheirosamente. Lentz não poude deixar de murmurar com um certo desdém a Milkau. bios cerrados. — Que macaco! — O grupo dos magistrados também não estava resignado ao enfado da cerimonia.CHANAAN 155 vociferar e clamar a religião. não se cançava de gesticular. o mais velho. obrigando-o a repetir indefinidamente os movimentos. mal assestado ao olho direito. em frente a Milkau. pondo machinal o monoculo para melhor entender. e em caretas successivas transformava a sua movei physionomia. e este.^» > -^ ^ ¥Ê^y . estava Felicissimo. agitava a perna. n'um grande abandono. a<f> seu lado o /"rpromotor crispava as mãos. aborrecido. _ /? K ^ „ti. fitando com desprezo e rancor o pastor e os colonos. muito nervoso. o terceiro. e bocejando. ás vezes. murmurava alguma coisa.

sem a menor vibração intima. concentravam-se recolhidos ao livro de orações. tinha uma voz rouca. ed'ahi a pouco homens e mulheres montavam. vendo o povo retirar-se em ordem. muito grande e de olhos meigos. não se moviam . até que o novo pastor terminou a predica. como uma represa de água escura que se tivesse aberto sobre . E o tédio envolvia a capella. que se ia apagando J ermpiaafto o pastor de Altona. Os três pastores se reuniranvrio fundo da egreja e leram successivamente os psalmos. descendo toda a massa de gente pelo morro abaixo.156 li CHANAAN Os allemães. lentamente. Fora. sem um pensamento. a musica foi suspensa um instante. No meio dos dois o novo pastor de Jequitibá. tinha uma attitude de gigante tímido. para recomeçar um coro a que o povo respondia. Em breve acabou o serviço religioso. espraiava o seu ar desabusado e insolente. os embornaes vazios embrulhados e escondidos debaixo da sella. ou de olhos fechados voltavam-se para o abysmo vazio do seu espirito. O velho pastor de Luxemburgo. todos ficaram deslumbrados com o sol e se apressaram-*em partir. tangido pela musica. que elles miravam absortos e suspensos. cheios de respeito. os pastores sentaramse. Os burros foram desamarrados. levando cada um o echo longínquo dos cantos. com a cara toda raspada e de óculos. com uma barba muito curta e dura. e a musica do órgão. as vozes das cantoras vieram n u m a desabafada desforra levantar os ânimos.

Em baixo. as grandes gargalhadas e gritos festivos rebentavam das mil boccas da multidão. com receio de um perigoso atropelo. onde ha um grande baile á noite.CHANAAN 157 a verdura da paizagem. onde costumava passar o domingo. que lhe falava de cima de um burro. matando a tranquillidade da região silenciosa. E a grande vozeria de commentarios. respondeu Milkau. « /**!L na cruz das estradas. Escorregando vagarosamente.. levando nas mãos as bolinas ou os chinellos. Era Felicíssimo. ou as tabernas próximas. . naturalmente. ninguém se apressava. emquanto os homens se descalçavam. — Irem á casa de Jacob Müller.^ ditando. interrompendo. Jyf*-*' as mulheres arregaçavam as saias de cima por economia. — Pois eu lhes proporia — O que? perguntou Lentz. o povo começou a debandar. sentindo um toque no hombro. Ha quanto tempo não nos avistamos ! E para onde se botam agora ? — Para a casa. de galhofas. e cobriam com ellas as cabeças.. galopando na estrada fl'*\ ' e envoltos na poeira. Milkau e o companheiro vinham-se também arras. partilhando da alegria e esquecidos de si para \ r ^ 7 se misturarem na communhão alli formada pelo '^'"v acaso e pelo impulso communicativo. outros corriam mesmo a pé. Milkau voltou-se. — Bons olhos os vejam. A**A ' alguns tomavam a deanteira. E a gente ia-se escoando pelos caminhos. e já agora de dia começa o pagode. procurando as suas casas.

mando guardar três logares na mesa para nós. É verdade que estou montado.. depois torna a subir e. vae descendo.. respondendo. Aqui na colônia não ha convites. Ora. vou na frente. que não tem historia nem ma/Jadas. Em se sabendo que ha uma festa. eu vou indo. vocês têm um pequeno pouso com uma venda. Temos muito que desenferrujar.. . Então não sabe? 0 sujeito arranja a festa com olho de fornecer a comida. e vão seguindo sem se desviar. tomem á direita. não engeita. vender muita cerveja e tudo mais. — Que negocio ? interrogou Milkau..... Mas não ha difficuldade. fts Os dois amigos se consultaram^om o olhar. Não ha confusão: a casa está em festa e vocês a reconhecem logo... meio indecisos. quando chega no alto.. E apontava com a mão livre a lingua. — Assim é que eu gosto da rapaziada. Bem. Quando toparem um sobrado branco com um terreiro. iremos.. passem pela frente. a gente não tem mais que se apresentar. e não podemos ir juntos.. vamos d'ahi. mas Lentz não demorou em responder : — Pois sim. o caminho é este da esquerda. porque isso também faz parte do negocio. — Que negocio ? repetiu o agrimensor.158 Ç-// CHANAAN — Mas não tivemos convite — Oh! isto é uma conversa... é ahi. Depois. Falou-se em patuscada. disse radiante o agrimensor.

bem arrumada e com duas portas largas. Os outros executaram as indicações do cearense e foram andando apressados pela estrada. e alguns tomavam cachaça. . concordou Milkau. — Podemo-nos demorar aqui um pouco. Si não estás morto. No alto estava realmente a venda. — Não. espantando os colonos com os berros e a correria. uma grande latada corria pelo oitão da casa e na sombra larga debaixo do caramanchão/sentadas ás mesas toscas.CHANAAN 159 tomado de uma repentina excitação. Dentro. A dona da casa e uma filha. cerveja fabricada no Cachoeira. freguezes. e fazer a caminhada mais á vontade. « Até logo ! » Picou o burro com vehemencia. moça e loura. Jjj/yfyjti($ almoçavam e eram attendidas pelo dono da casa. os allemães bebiam. encostados ao balcão. continuemos. todos alegres. Fora. gritou para a frente. passou a fazer tregeitos inconsiderados com a cabeça. onde já se agglomeravam muitas pessoas... formando grupos differentes. e ^ for^rVum galope. e entre todos se trocavam saudações e offerecimentos amáveis de bebida. algumas mulheres de varias edades se agruparam aos homens. fatigado do sol. em geral. serviam lestes os. — Como esta sombra convida a descançar! disse Lentz. A taberna era limpa. a rir muito. deu-lhe chicotadas. de um louro lavado em que uma rosa traduzia a eterna faceirice da mulher.

de expansão jovial. a natureza readr . ^J'*^' No caminho. que não ygP* «*/-«* vale a pena mais nos pouparmos. I t /rLf ±T' * ' mesmo de cima. em ' 4ríy.. ^ rumo da casa da festa. estávamos a nos eigotiar^ponde/£-/» r*^ rou Milkau. e á beira o sobrado onde se percebia. disse Lentz. uma vez em casa. Isto %(/-*?#> lhes tFansmittiu também o desejo de correr. E quando chegaram á i t v r^. C '. isto agora vae depressa. o movimento de uma reunião. vez de repousar.?ét£-i — Apertemos o passo.E correram também. mas é que. — Não foi isso o que me fez parar.f+* perder na alegria do ar na vertigem da des*/**'%*' c ^ a .. de se JíJuefi. • ^ t^OL — Ora esta. mas d'ahi a pouco pa/»*'*'/" raram e sorriram vexados da incohsciencia que os ^ .:Z~. * yr'**£i — Sim.160 CHANAAN porque receio. viram muita gente que tomava Z.Jy/ct»* . propoz Lentz. alacres dos vestidos das muy yji4. ^ tomara. Afinal. não« tornar a sahir por este sol! E lá se foram. onde o verde das folhas f' entrançadas nas grades formava quadro para ^y/„*se. as cores simples. —^-d'agua veloz. *„ 0 **$*'. rríj~ lombada de um morro. quando lá está o J+ y^vor*^nosso refugio.^ * w t ' ' 4 ' dffáhfaA do seu espirito. UHt f "' -y— I ^ _ /frt* . e contente com este rejuvenes. avistaram em baixo d fio * W /*xz+. é só descer. deitando um olhar de cobiça ao caramanchão ruidoso. desconhecendo-se n'aquelle arranco 4/A*-/-1.iéM^. estávamos a imitar. gritando de júbilo e levados peja_excitação de chegar sem demora. ^y^-*^E ao lado d'elles passavam rapazes e raparigas ^"a correr pelo morro abaixo. lheres.

como esteve em mim até agora amordaçada ! Ergueu a cabeça n'um gesto de desafogo. e até pelos caixeiros da cidade.. . Era um sobrado branco. por moradores d*e longe. . da agitação . Os seus olhos azues estavam radiantes de paz e calma. O sobrado ficava destacado das grandes massas de arvores e di folhagem que vestiam as pedras dos morros. pensava elle. coitada. no fundo de um valle e á margem de um endiabrado ribeiro. Também.. Muitos a pé ou montados vinham da capella do Jequitibá. sacudindo a barba de ouro. Ao chegareiritao terreiro da casa J á as vozes da \ pj pr*K festa vinham ao^encontro faff d ^ ^ r ^ ^ ^ ^ e > +££& elles foram entrando no meio do ruido. Lxoda^Mio terreno estava limpo de plantação. que se ia reunindo. outros de Santa Theresa. e foi com o passo cheio de magestade e de graça simples que baixou da montanha. e outros do Cachoeiro. e era um dos maiores pontos do commercio do^nterior da colônia. e aos domingos um dos mais procurados pelos habitantes do logar. e havia um pequeno campo de relva tenra e fresca que brilhava ao sol. A casa tinha uma bella situação no centro de varias estradas.CHANAAN 161 quiriu os «eus direitos. que descia em tropel infindo do morro para o Santa Maria. Nas cercanias da casa de Jacob Müller a paizagem tinha o realce e a vida communicada pelo movimento da gente.

Outros entravam e sahiam do armazém. levado pelo rompante. Acharam-no emfim em um banco. atordoando a gente. O estrondo dos pés que dansavam no sobrado. lá se foi. A gente movia-se muito. em apostas brincalhonas. debaixo de uma laranjeira. obrigado. em frente á casa. echoando no vasto armazém. corria para elles. — Vamos à um copo de cerveja. arranjemos antes um logar aqui á sombra. — Não. /« E Felicissimo. e o som langoroso de um realejo incessante desciam do alto. disse Milkau. porque precisamos de descançar./spantados da effusão do agri/ ^ mensor. yf'/'' para lhe dar uma explicação da recusa. com a voz rouca e a gesticulação de embriagados. rapa-zes corriam pelo campo em mangas de camisa. uma pequenada vadia se espalhava guinchandò pelo terreiro. Bandos de moças de branco passavam de mãos dadas. quando a tarde começava a refrescar e a luz a esmorecer. ^_^ O agrimensor ficou meio amuado : — Ora bolas! < ^ fffc-V E os_largou Jbruocamerrte. Qs <»utroc. Milkau acompanhou-o. como um bando desesperado de mairacas. venham. arrasI tf* tando-os. mas o outro.162 CHANAAN dos allemães á sombra da varanda. — Venham. perguntavam para onde os levava. mettendo-se pelos grupos e entrando no armazeiTL Milkau desistiu ^ de seguil-o e Vjf#/ou a Lentz/^rocuraflfâ^ambos um logar para descançareaa. E nas janellas muitas . meus amigos. gritando. cantarolando.

^ d'isso.. Começo a ter fome também. a contem. que parecia também mover-se toda. interrompeu Lentz. porque eu estou que não me posso mexer. de lenço ao pescoço. O que é preciso é marcar os logares desde já.. arrebatada pela. respondeu Milkau. em mangas "'""^ de camisa."••-/'£ '*•_.CHANAAN 103 pessoas com ar indifferente se debruçavam para o terreiro. — Mas elle ha de voltar. E atraz. nas salas. Era Joca que. — Seu chefe. plar satisfeito o prazer alheio. já é coragem.. concluiu confiante .. olhando a agitação em volta. abrindo-" a bocca em que se apertavam os dentes dortadesj i-tu*«*o$ epa-seiral * — En-tão vieram divertir-se um pouco? Sim. as mesas já estão apinhadas para a hora do jantar. vinha saudal-o. e fitando pasmadamente a paizagem... viu um rosto amigo ^. senhores. — Lá isso não.. que do rio Doce aqui é um estirão! — Sahimos de madrugada e fizemos a viagem sem grande fadiga.<*'(' que se approximava. por cima das cabeças desta gente: vejam que povo está alli agarrado ao balcão. que se tinha conservado mudo. parece urubu cercando carniça. referiu Lentz. e um cinturão de couro segurando a calça. — O que não falta é comida. Milkau.celeridade do regato. mas sumiu-se de nós c se esqueceu de nos /Ldizer o que arranjou. Se e n c a r r e g o u . Olhem só lá para dentro do armazém. <.

amigo. De um lado para outro. uma grade de arame protegia esse !-[.. E como vão lá no prazo? Já sei que a casa está bonitinha. que. — No roçado que fizemos? — Sim. . ao lado da casa. disse em sobresalto o mulato. caminhando lentamente e como por um velho habito. quando havia festa. estes dias nós descemos ao Cachoeira.... que era o logar destinado para seccar o café comprado por JacobMüller. a fazer medição. e n*aquella vida extranha que levava. Nos dias de semana. **^£3P* músicos da philarmonica do Cachoeira H«^^njiana chogandn iw i r n à l ) e todas as vistas se voltavam para elles. e você. e estou certo de que temos tudo arranjado. se dirigia para um pateo ladrilhado de cimento. lá vem a banda.. Um grande reboliço §ej|fe^)no povo e repentinamente todos se foram approximando da banda.„ j .. invasão dos animaes e da creançada. que fim levou? — Rolando. E o cafesal?. a grade era retirada. Joca. — Plantado. para folgar um pouco. Por um instante uma ligeira sobrexcitação coloriu as faces de Lentz que tremia em pensar no vago da distancia ainda á sua frente. Isto é. — E quando beberemos d'esse café ? A resposta foi um gesto largo de mão. pateo Jfc. Aos / domingos. agora lá para o Guandu. indicando o tempo remoto.164 CHANAAN Milkau. — Ah! agora a coisa vae ser mais animada. olhando alvoroçado para o fundo.

d'esses que são amados da alegria e em quem «üa> não encontra fótf0ty'para reinar livrernerite^_^^ _ _ . Joca. o mulato começou a dar vivas á banda do Cachoeira. Joca deixou Milkau e foi se postar ao lado dos músicos. &*fájfii /ffllff cJt**s ofc *M . dansavam descompassados. a força do sol. Wm alarido de gargalhadas e acclamações. etòdos automaticamente tiraram o chapéo. liso^lavado. minha gente. agradecendo.na ¥iYjim Os homens da musica sorriam. Vamos á gaita ! E.. Foi um delírio para o maranhense. acompanhando a banda. para entreter o povo lá em cima.. O velho Martinho já está com o braço morto de tocar realejo. enthusiasmado. rubros de vexame.«Todos se divertiam. Os músicos installaram-se n'um dos ângulos do pateo largo. que começou"' a dar outros vivas ao « povo do Cachoeiro ». que recebia em seu lagedo. ia repetindo os compassos. perseguia um bando de ra- / ÍC^r** /*&* Q. a Jacob Müller».CHANAAN 165 e todos tinham a liberdade de penetrar na área. gesticulavam. com os olhos accesos e as narinas arregaçadas. contente. N'um momento ficou coalhado da gente simples e fácil de contentar. cantando marcialmente. alguns dos quaes eram seus conhecidos e camaradas. '« á união da rapaziada. vocês hoje estavam com preguiça de desunhar! A rapaziada aqui já andava impaciente.— Collocadas as estantes(os musicos(sentaram-sg)e começaram a tocar uma marcha de que^ãaXqual. — Então.ar^affiirHifcfHi . para irradial-a.

166 CHANAAN parigas louras. e dava algum lucro ao armazém. persuasivamente. A creançada agora l-girava doidamente. As creanças invadiam o terreiro. entrou no terreiro para . com uma longa sobrecasaca preta e surrada. ajuda-me.de camisa. a^ípareceu no pateo. porque a miragem d'esse copo afastava o homem d'áhi./ outras jhejfpuxavanf) levemente a barba. ^ lç . de óculos azues e uma cara te genipapo murcho. formando o quadro do pateo. Limpa o terreiro! Arreda! Vocês têm baile á noite. . e deu o signal de uma quadrilha.de cachimbo ao queixo.applicavam-lhe palmadas nas costas. arrastavam as vozes. que fugiam rindo. Olha. Era o argumento irresistível e proveitoso. O logar ficou limpo da gente grande. depois de se entender com o mestre da banda. todo de branco k em mangas. A musica acabou a marcha. Um velho alto.. que riam destemperadamente. w com / . a rodar. / um grande chapéo de palha na cabeça. vae tomar um copo lá dentro. E depois. como si fosse movida por um pé de vento. e. elle respondia aos soccos. Tberrando: — A festa é das creanças. n u m fingido susto. dando ordens. vindo em grupo. h. O dono da casa. fazendo mesuras ás mulheres. meu velho. que tenho de attender á freguezia. coradas. Alguns velhos jáébrios. principiou a falar. abrindo espaço aos empurrões. virava-se para os mais teimosos : — Anda. que se enfileirou aos lados. Algumas velhas. a rodar.

g/ O mestre awesignavafe Augusta Feltz. e começou depois a distribuir os pares. » « Hermann e Sofia ». com os seus doze annos.„*_.CHANAAN 167 dirigir o baile infantil. . — Como? Com quem? — Com Augusta Feltz. Que é que tem? Cada um escolhe a que deseja. . professor.. — Mas não é possível : você tão miúdo e ella tão crescida. » As vezes. replicava o velho.(se^tigayaní)da attenção. « Alberto e Emma.. Das pessoas grandes. / e s e . — Mas eu estou compromettido. muitas ficavam entretidas. e a musica rompia a dansa. sem confusão. O homem mandou que os pequenos se ordenassem pelos sexos. de canellas compridas e olhos mansos de veada.. acompanhando a festa das creanças. No circulo as mães intervinham. — Deixe. lá ia para a fôrma. que a levava de braço. de modo que tudo corria em ordem. inclinando o pescoço para o cavalleiro. porém. outras. um dos pequenos recalcitrava contra o arranjo. « Guilherme e Ida. Afinal o professor conseguia arranjar as quadrilhas. fitando-a muito ancho. acompanhadas por outras vozes de mulheres. p u n h a d a passeiar pelo arraíaíTindo á beira t^^-J do rio. sr. Os pequenos estavam exercitados. Professor. deitando-se na relva para verem passar a . chamando cada creança pelo seu nome.. Foi um instante de socego. tremendo-lhe as mandibulas molles.

move os homens? Que queremos mais? Approximaram-se do baile das creanças.. solto sobre a face do mundo. matar o ódio. — Era isto o que eu procurava. quando passeiavam pelo terreiro ao rythrno da musica.. de braço como noivos. é a calma. estridentes. Agora havia uma grande roda dos dansantes. que ora célere. e olhando a scena.para morrer n'um espasmo de maldade. — Mas. a reunião alli na estação do Cajá dava a sensação do esquecimento e da alegria. Era isto que eu procurava. e que emfim achei. ora vagarosa. e . que proseguia vivo e animado. é uma existência vazia e inútil. iam ga peréefido pelo matto a dentro. / "*• — E não é o amor a acção por excellencia? E não é elle a força que aqui na colônia. ia se movendo aos cantos infantis. no menor movimento. e estrebuxandd. Viver no meio de gente simples. observava Lentz traçando no rosto um gesto de desdém. que na illusão instantânea os transportavam á terra abandonada. Aqui ao menos é a serenidade.168 *~J7J£ ^YÍ-f '**^ CHANAAN agua . devastando-a nos seus impulsos de loucura. no canto do universo. Milkay a Lentz. alguns. Compara este povo com os homens de outras terras. dizia.. e outros $& reuniam—A1 ao balcão a beber e a cantar as velhas estrophes do prazer e do convívio humano.. fy tíJjfdflisXo é a estagnação. é a alegria. onde cada um parece possuído do espirito do demônio. partilhar com ella o seu doce esquecimento da dôr. Em tudo. no mais pequeno gesto.

de olhos tapados./ roda das creanças. A aragem refrescava o tempo. Já aquella hora o sol esfriando transformava magicamente o panorama. propoz Milkau. E quando a meninada estava muito entretida. . — E Felicissimo que não nos procurou mais? lembrou Milkau. e marando por toda a parte.. Uma immensa risada dos grandes o recebeu. 10 IM. fio meio da algazarra geral. e beiços e faces pintados de vermelhão. ia dizendo Lentz. Creio que desconfiou comnosco. e_d'ahi a pouco.<>.• . que parecia surgir pouco a pouco do seio secreto das coisas e » expandii"rnais livre á superfície luminosa.. passando de grupo em grupo. se mettiá na a . afastando-se do circulo.. a divertil-as. imitando animaes.L#Á<yh*/r^ .r. graduando a côr. accedeu Lentz. 7 jxut*' \ — Mas onde se metteu o agrimensor?.. um sujeito mascarado saltou no pateo.CHANAAN 169 desafinados. — E verdade. disfarçado em palhaço maltrapilho. — E tempo. abrindo o circulo. 0 palhaço começou a cabriolar.t lhes nos cabellos n u m leve arrepio que lhes descia da nuca. — Vamos procural-o. fòfS0j{endo-as com a sua doce Jygsrv*gt*<perfídia. a gritar. A^paz da Jâlde avançando subtil reinava sobre as gentes. com o amigo pelo braço. brincando. e os meninos pararam a dansa meio espantados. Onde ^ se metteu elle?. besuntada de alvaide a cara. mesmo porque já podíamos ir jantando. passando volátil pelas cabeças louras das mulheres.

Tudo em vão. desistiram de procurar Felicissimo no arraial e «e encaminharam-^* para a casa. a rapariga.o que bebiam. tão idiota. Debaixo de uma carregada sombra. Com a presença dos extranhos. indagando . dando volta por traz da casa... $mu£ou os perturbadores. Procuraram o agrimensor pelo terreiro.. concluiu Lentz.. — E não se perdia um camarada. Milkau. desviando delicadamente alguns colonos pesados e oscillantes.. Foram até á margem do regato. Áfywflfâflt até á beira das estradas. há'esperança de achar o cearense. chegou-se a ella. O balcão continuava sempre cercado. Uma caminhada inútil.. Éyéntraram no matto. cantava-se. cochichando. perguntando-üas. Os dois amigos lançaram uma vista d'olhos pelo armazém e não viram o agrimensor. Também porque não lhe acceitámos o copo de cerveja?. enfadonha. fezlhes um gesto. descançava.170 // / W*- CHANAAN — Hoje elle está mysterioso comnosco. Não custava nada uma amabilidade. ^ Quando tornaram á clareira. e n'uma lingua arrastada. um par amoroso. disfarçando a remexer nos gravetos esparsos no chão. — O h ! Também vaes logo aos extremos. o joven abaixou a cabeça enleiado. porém. percebendo-os indecisos. A mulher de Jacob. e ( ^ ^ ^ ^ Y ç y k m j W a ^ g ^ ande /* avistavam grupos de gente. bebia-se largamente.. com seus olhos serenos e francos. n'uma tranquillidade altiva..

uns com pratos na mão tomavam caldos. e meio amuado não se importou mais comnosco. A mesa muita gente sentada comia avidamente. mastigavam com uma fome voraz e com os olhos injectados. agarrando lingüiças. — Aqui! Aqui! Os outros foram rompendo caminho e tomaram os seus logares. de vinagre e pimenta excitava a multidão e entretinha a sua voracidade. respondeu Lentz.. Em pé. Foi você exactamente que nos deixou. Um cheiro de alho. — Até que afinal vocês resolveram vir. Felicissimo estava n u m a cabeceira da mesa com dois logares vazios de cada lado. De facto.. Viram passarinho verde ? — Ora.. — Não me conte historias.. e falou-lhe dos logares encommendados para três. patife. e quando avistou os companheiros chamou-os n'um sobresalto. no sobrado. que sem nenhum conhecimento temos andado vagando ámatraca. fatias de pão. e outros.CHANAAN 171 de Felicissimo.. emquanto a sala da frente se achava quasi deserta. A mulher aconselhou-os a subir á sala do fundo onde se servia o jantar. a sala do fundo estava n'um grande borborinho. pois tão entretidos andavam. Imagino quantas amizades não tem por ahi. fixos. Pensei que não quizessem saber de mim hoje.. com quanta . e apenas com algumas pessoas á janella vendo o baile das creanças. pois talvez ahi o encontrassem. não mude os papeis. n'um espasmo de satisfacção bestial.

Depois. — Vá pregar n'outra freguezia. cortou Lentz. com um 0 ' y^XA***'/ C«*w mfo' yt£r. V. que lá na sua lingua procura misturar-se á alegria d'esta gente. piscando os olhos para o companheiro. uma rapariga attendeu.. — O peior. postando-se em frente ao cearense. Em pé. arrastando a voz : — Qual. nada de segredos. seu maganão. não me conte rodellas. camarada. — O h ! é verdade. O allemão enrubesceu. '^Tvunl — O nosso interesse é y^/t^^Â^o^^f alegna\ m 'c$ *' d'este povo. meu amigo.. elle resolveu-se a falar.. — Lentz não se preoccupa com isto. é que com esta discussão nós vamos ficando sem jantar. e não sabia como replicar. A creada desappareceu rapidamente. então você mesmo. para estes dois amigos. berrava chamando os creados. enleiada. erguendo-se apoiado nas mãos. á espera de uma ordem. quizesse partir. Afinal. comecemos por um caldo de hervas.. Felicissimo olhou-o com os olhos miúdos. meu amor. você traga jantar egual ao que me tem trazido. y~. gritou o agrimensor. que quer mais sinão. você..172 CHANAAN rapariga não tem falado!.. Milkau veiuemsoccorro. com uma cara ffflfa de um riso complacente e velhaco. cahidos e vagos. e depois como a allemã. comprehender a sua vida e felici.A. — Meu bem.A ^ é * ^ ^ * " -j . Vamos lá. Felicissimo mirou-a com malícia.» dade.

recusavam a comida ordinária. e os cumprimentaram com gestos de cabeça. acenando com a garrafa. Milkau agradecia com outro gesto. reconheceram os antigos hospedes nos novos colonos. Felicissimo estalou a lingua. atirando-lhe os olhos. melancolicamente. Dos seus logares offereciam-lhes vinho. o agrimensor exhibia-se por 10. Felicissimo bebia sempre com grande alarde. eu não fiz: beberei todas seis.CHANAAN 173 movimento airoso como um passo de dansa. — Nós não tomamos tanto. de que se serviam bebendo o vinho do Rheno. Puxou o copo de cerveja e bebeu. bateu na mesa. e sem saber o que dizia. e o grupo continuava a beber indifferente e desdenhoso do resto da gente. e tanto barulho fazia que não tardou muito sobre elle se voltasse a curiosidade geral. e pediam aves em conserva. . mais \}em<>dU*^r trajados que os camponios. pedindo que lhe trouxessem outras seis. n'uma expressão amável. Alguns d'estes rapazes que eram da casa de Roberto. Milkau e Lent^ começaram a jantar dos pratos rústicos. — Ah ! esta vida ! esta vida ! murmurava o agrimensor. que a seguiram como servos amorosos. Olhou a garrafa queesvaziára. que serviam no meio de algazarra e de >A_ desordem. — Si vocês fizeram voto. Alguny ^caixeiros da cidade. Excitado por essa attenção. objectou Milkau.

versos d'essa toada sertaneja que lhe falava tão intimamente.// realejc/6ue . protegendo-o contra Jacob. berreiro descommunal. augmentado pelos repiques nos'copos e nos pratos/e/fi/som estridente de um ni £. Muitos não o entendiam. os rapazes da cidade o deprimiam com applausos irônicos. com phrases insultuosas. O agrimensor ordenou por sua conta mais cerveja. trepado na cadeira.-^noços e mulheres. tomou Felicissimo pelo braço. continuando a gritarja. Os camponezes o admiravam n'uma alegria infantil. cantava. Produzia-se um .. .174 CHANAAN todas as fôrmas. de copo em punho. e outros o cercaram. que* / rendo conter a matinada. que mandava distribuir em torno. O dono da casa. violentos e ferozes. na desattenção. dansava. para forçal-o a descer da cadeira.exà tangido n'um impulso frenético / . mas que ao seu lado eram retomadas com brio. feito de vozes de velhos. na desordem. que estropeava. mas a cadência dos versos os enternecia e era com amor que pediam ao cearense que não parasse. e na confusão. destacando-se apenas os agudos. ditas no meio de risadas. A estes o agrimensor respondia improvisando versos em portuguez. pelos colonos. Disputava-se cada garrafa das mãos das creadas. que foi expulso da sala aos empurrões. cantando canções allemãs. levantando brindes. o liquido se espalhava pela mesa . para acompanhar as canções^cujas notas graves eram abafadas no barulho. A * _ y com enthusiasmo. Este variava o seu repertório. O agrimensor o repelliu.

com os olhos pregados no es/ ' paço. Os que yfÃJ* ainda tinham consciência. intimidadas pêlo silencio que ellas mesmas faziam. a desfructar o resto da tarde no terreiro. / S r ^ Milkau e Lentz julgaram-se no meio de doidos. E n*esse ins/ tante in4eciso. encostavam/ *.Y17*^}^ rense. E de então em deante estas palavras serviam dis. perseguidos pela vaia dos que / ficavam. ^ ' ' . sem)odera-v/)furtivamente do domi. l' hf C'lr /r ( ' .. não arreda. E os dois foram-se esgueirando jy -&L da sala. cabeceando de somno. que se fitavam com expressões varias de desdém e **^" j dj/divertimento. Milkau temendo pelo agrimensor. propoz-lhe sahirem um pouco.«f**-*5. No terreiro as creanças-fafigadas estavam serenas.*.. Fora./ nio da várzea abandonada pelo sol. de idyllios^ L^T**"^*? campesinos casados com aquelle estribilho do cea.CHANAAN 175 dos copos entornados na sofreguidão da conquista.* *"* ** '^ >VU0S*. E os allemães embriagados o acompanhavam n'um berreiro. — D'aqui não arredo. e as -mais pequenas. intermediário. o vento qf*TWCrilTjiMifc. Xy*-" . — Não arreda. j{/•xy*™rf/t e todos se sentiam sob um encanto mysterioso de •"*-».. a lua vinha rompendo e a claridade que d'ella descia. gritava elle. sem cólera. riam gostosamente da ira dos outros e mais que tudo do effeito dos pro prios cantos cheios de versos de amor. "-—' ./ paratadamente de kjjdbúkd a cada canção.^ .^ j m .moíjolvenéo^é na contemplação. i . de repouso./ saudade.

E mais tarde. os grandes. e a luz xfyÇjyíjfo/e quente que sahia das janellas e das portas. Agora é que se podia vêr a variedade de <^<*^«-- p^yHi^J^-u UCm- . ' tes. Os dois amigos caminharam até ao rio. como esfriasse. • ella estava illuminada. e s t i m u l a n t e ^ ^ f f i V I i Não oc pass^-muifô^a^^-ciffiffvfue 0 baile [ v**** ' entxOáigf em plena animação. Quando a descobriram. erü^çadas umas ás outras. Alli.. os pares se compunham de rapari(/$*' gas. até pux. onde na sala da frente se começava a dansar. a musica tocava uma valsa arrastada e langorosa. e pouca gente dansaya. Subiram ao / sobrado. e todos se divertiam alegremente. que. o' ' / torpor/ dos rapazes. fora mais illuminada. volveram á casa da festa. Os músicos recolhiam os instrumentos e vinham vagarosos jantar.. e ouvissem de novo a musica. pois muitos ainda do mantinha-m/á mesa ou se postavam en^ Jj costados ás portas e^ janellas. Detiveram-se e sentaram nas pedras. Em geral. depois que L ^ " * ' a noite avançara.176 CHANAAN se ás mães sentadas no chão. descuidosos por algum tempo. ^j I ou /recolhido ao salão do baile. No terreiro já não havia quasi ninguém : as creanças tinham debandado. doavam proL^i-Í*'^* vocadreâs sacudindo com os seus movimentos. haviam partido para as colônias. abria um cir/v r "^" ** ~ culo de fogo em phosphorescencia. A sala. dentro da claridade mansa e leitosa do luar. e o foram margeando. a musica não cessava de tocar. tímidosjjd negligen. i ili s.

com as'mulheres. uma joven de flexível graça. creadas e todos reunidos n'uma grande promiscuidade. — A h ! E preciso conhecel-a para saber que não é só no baile. na serie de pares de uma marcha polaca. Martin Fidel. voluptuosos. passou. Parece que não cança de levantar aquella cabecinha....CHANAAN 177 gente agglomerada na casa de Jacob. tropeiros. é um dos negociantes mais ricos da cidade. desengonçadas ou morosas. não vê? E um colono e filho de colono no Jequitibá. de movimentos ondulantes. acompanhava a festa. Amanhã estará trabalhando com o mesmo ar — Naturalmente é uma colona. distinguindo-se do resto das outras raparigas. de nariz grande. Deante de Milkau que. é em tudo assim. caixeiros da cidade. a família está toda aqui. — Pois admira.. sentado a uma janella aberta. é creada no Cachoeira. Não conhece? — Não. que estava ao lado de Milkau. rrfrriiiiir n~ rlin i r » . A mulher já -é velha como elle. — Não. Alli estavam negociantes do Cachoeira.. Um homem de tosca figura. lavradores. arrastadas com estrepito pelos seus pares. — Realmente. O pae ./ r i m r— Não ha nenhuma que seja capaz de chegar a Luiza Wolf.. e o patrão d'ella é aquelle mesmo que é o seu par. Ah! lá vae ella ao braço d'aquelle mocinho alto. é muito graciosa. sem separação de classes.

como vê. executando variadas figuras. Os dansantes continuavam no compasso marcial da polaca. velhos fumavam o seu cachimbo.178 §KANAAN d'elle também está dansando. o par é a creada. é aquelle baixo.refrescaríy». (drAddjMfà as mulheres amar'TC i s raVám lenços ao pescoço.) £/ Milkau estava só. batendo fortemente os pés no assoalho.seu informante tinha-o ijli. i ^i^^xamente^de eharuto^ú* cachimbo ao queixo jljl Yj chapéo na cabeça. arrastando-se com esforço. Quando^ícon^adansãAparava)os pares se voltavam-Vèn'um mesmo instante. cõTfío por uma combinação mágica. procurando os bancos encostados ás paredes das salas ou aos cantos das janellas. por causa do suor que . enorme. farto de lhe relatar coisas da colo- í . resmungando conversas y o*. faziam um barulho secco. para se reunirem depois de differentes voltas. abraçados.. o . e todos livres » movianrragarosamente. ora fazendo evoluções de homens e mulheres.. uma desenxabida. > 'Y. gorducho'. dentro de sapatos grossos ferrados. que^iominava as vozes dos instrumentos. separados.. ora desenhando meias luas. Os movimentos eram tardos e pesados . Muitos sahiam até ao terreiro para §&. barbado e de chapéo na cabeça. í \jfr lhes escorria da fronte. namorados passeiavamalli.no es^g^ro.à 1? abandonado. marchando frente a frente. ora separando-se em alas.

MilkauJentãcVtáj^ á vizinha. Também da sua parte ella não deixou de acompanhar a furto o vizinho e. meigos e infinitos "~~^j sobre os -quaes via boiar imagens doloridas que —.o busto erguido. I J^T^ era a expressão da bocca. Alguns minutos depois. . tocou de novo a musica uma valsa. no mesmo banco. tinha um ar fatigado e sentava-se n'um pesado abandono. volátil. entoadas. entravam n'um grande alvoroço. plácida e innocente. talvez longas demais. e o amigo pensou que.' mas humida e bondosa. era o cabello louroJfôfo. o porteesa gracioso.'"* seriam a vida e o amor da "rapariga/Esta respirava f *.& offegante. Estavam alli. sentaram-se duas mulheres* ^ f u m a dr*il$>c»xeconheQ$bs!tto. /^jg JffflYOyH^Ut» -é.# y W ^ ~ ' leza. ás y//<?&/ vezes. Felicissimo não sahia da sala Q de jantar. o mirava nos ^ olhos. aquelles mesmos olhos. Ày*i<y<f''\ 4A . fatigado d'aquellas simples e monótonas dansas. a descançar bem perto . as vozes d'elles. De vez em quando. becas de galgo. z—^~ porém de um contorno fartoJe as mãos brancas. ao menor ' silencio da musica. Mas o queuuiaTÍffrfta de superiort^*"* ^ era a fronte aberta.CHANAAN 179 nia. estivesse no terreiro passeiando solitário. . a mesma que na capella o fitara durante o seu somno. uma distincção maior do que era commum J*t4*>' nos colonos . sahiam%os braços como ca-. dxlixfJb . da sua bocca descorada. 10$k£$0faí certa b e l . Lentz desde muito tempo não apparecia na sala.com certa ousadia. onde com amigos allemães continuava / *~ a cantar e f beber./ drolltb. e quasi todos foram dansar. Junto de Milkau. alegres.

que traduz a musica do cérebro. voltando-se para a amiga. e como que rasgava um tênue véo para mostrar a deliciosa paizagem da sua alma. que é uma das melhores na valsa. E como em toda a voz humana. ajs*</ e com gesto de carinho quasi maternal. tomou pelo pulso a outra moça. arrastando-a para a dansa. pela voz. sonoro.. o accentp da sua era uma revelação da personalidade intima.. disse radiante e rápido : .. Mas ninguém me acredita. confessando que não sabia dansar. si quer um par. A voz d'ella era um canto intimo. pois não me sinto bem. pegou na mão da outra rapariga. aqui tem esta minha amiga. Um rapaz ae approximouj e sem dizer uma p a lavra. E sorriu levemente. E a sua interlocutora : — É o que me acontece pretextar. Vejam só.rapariga. percebem-se as qualidades secretas de cada espirito. como habituada aquellas maneiras da amiga. Mr rntão^silifrrrorin r tmnf^iill? Respondeu promptamente: — Não: não posso. mas. Milkau ficou meio confuso e desculpou-se. quando não me sinto bem. conhece-se a nobreza ou a grosseria da raça ou do grupo moral a que pertencemos. se érgueu-e.. <0L. á moda do logar. que se deixou acariciar negligentemente.180 CHANAAN Não dansa ? (Ju-4j?'' Ella não se intimidou ouvindo-a vaq&^Mliii.

Lembro-me de tel-a visto na capella do Jequitibá. — Já vejo que converso com uma grande preguiçosa. Não quero me separar de ti. recordo-me bem de que não estávamos muito longe um do outro.. Não é por preguiça seria para esquecer tantos aborrecimentos que iJdesejaria um grande somno... sentia um bem esta-" immenso.. e o somno me veiu como um arrebatamento feliz.. E verdade. — Por aqui mesmo. Maria disse a Milkau : — Não lhe parece tão boasinha ? E filha de um colono do Luxemburgo.... " li t~.. — Eu ? Nunca. E o pastor não o divertia... i — Sim. ha muito /empo não nos viamos. que ás vezes seria melhor passar a vida a dormh. Neste banco ou na janella. referiu Milkau. Quando a joven partiu arrebatada pelo par. — Por signal que eu dormi. não é verdade ? — Não sei. onde me esperas?. Tenho tanto que te dizer... Maria enrubesceu.CHANAAN 181 — Maria.. replicou meio confiada e intima.. mas immediatamente retomou o fio da conversa. e hoje tem sido um regalo — Oh! desde manhã andamos n'esta roda viva.. Ao contrario. — Deixe lá.' '' . — Fazia um calor terrível.. volveu com vivacidade a rapariga..

— Como é bello dansar! Com a sua mão fina fazia um aceno affavel ás amigas que passavam. Levantou-se. que também ao seu lado não sentia o menor constrangimento e se exprimia sem emba. as cadeiras alli estão desoccupadas. — Eu sabia. — Tu vês. amor. — Talvez. quando estás que não podes ? Não. não me mexi d'aqui á tua espera. observou Milkau.* raço. observou Milkau. allucinadas no movimento aéreo da valsa. Ella não respondeu e ligeiramente abaixou os olhos. sentar-se á janella. como a um velho conhecido. disse Maria á amiga. os pares se desfizeram e cada um dos dansantes tomou direcção diversa. mudou de assumpto. fosse preferível. e as moças correram sôfregas para .. descança um pouco.182 CHANAAN Acabou a phrase com uma voz sumida e vagarosa. E agora queres dar um passeio ou preferes ficar aqui ? perguntou a outra arquejando' de cançaço e sentando-se instinctivamente : — Oh ! meu Deus ! Passeiar. C_J — Aborrecimentos? Imagino a que «)isas ' simples dá este triste nome. Milkau ia achando prazer em se entreter «om a rapariga. para sua companheira. quando logo depois os ergueu. Vamos para lá : o ar fresco lhe dará forças. Quando a musica parou.

Milkau sahiu para vêr de que se tratava. puro. o agrimensor insiste. 0 primeiro olhar d'elles foi para o quadro de fora. ensaia alguns passos. meio assustada por um grande barulho de vozes. e pouco tempo depois voltou. livre. Todavia.? perguntou Maria. rijo. — E afinal. que elles ignoram. e o grande f ampo dzsí. T/fâúindo que uma grande ^A*//** rixa se travava alli. Maria e a companheira ' 'não estavam tranquillas.Jví> CHANAAN [\r*f- ' | v« 18g as cadeiras indicadas. transparente. receiosas de perdel-as. Todos se precipitaram para indagar &fc que se passava. sem estrellas e desmaiado ia se transformando em um pavimento de crystal. se desmanchavam no horizonte. que vinha da sala de jantar para o logar do baile. os rapazes protestam contra a innovação.. \ . um vento manso balançava os ramos. a torrente rolava borbulhando. — Não é nada. 0 verde das arvores se adoçaVa á luz diamantina. as nuvens. Havia grande discussão. descendo no céu. quer forçar os músicos a tocaram. assobia. — Que é isto ? interrogou Maria. Os músicos não sabem como executal-as. mas tudo cortado por atroadoras e ^tf/]Mf///^ -7^w*2! dfy gargalhadas. O agrimensor Felicissimo entende que já basta d'estas dansas extrangeiras e que jgora se deve passar ás dansas brasileiras. Toda a terra estava inundada de umiluar branco.. em vozes altas _ / e agudas. e d'estes as sombras ainda longas dansavam inquietas.

erguendo e abaixando os braços. músicos. n'um borborinho de risadas. J_ ram para os seus logares. meu povo! /JZhltÀt*-. Mas nenhum som produziam as suas mãos dormentes. achando aquillo estúpido e gro- . C W De facto. ninguém se movia mais na sala. tíremeduára. cambaleando. andámen„ < * * * ***** ^ 2 to. e a gente anciosa correu ^ .voluptuosa. Riam em torno.^ para a sala. r^.E.. medonhos. começj/tjfyfL a tocar uma peça arrastada eM^ . no meio da casa. Felicissimo. e jamais um gesto se casava com o compasso da musica. e « j ^ cio de espera. os músicos vie•. arrastava a perna. quasi todos estavam sentados. acocorava-se. e veremos alguma dansa da terra. Junto r*?"^"*"^ aos aos músicos. ensaiava ' estalar os dedos como castanholas. com ty*-^ ^ os olhos tortos e compridos. agoxWitf ^ ^ t ^ ^ ^ a f i n a d a . Alguém perguntou ao agrimensor o yyy. rencissimo Felicissimo cantarolava cantarolava oo anaamen-/^. ^ f ^ f M W ^ ^ J* / » ^ ^ ^ e > € ^ ^ í ^ # I ^ M j 3 g ^ expe*+*" ^ ^ compJLssísMxx^tnJlndÀ/o^me^nòs gís d^da^síf q«ae '"'* r *' +. / C . *%*y*c*-o^ livre para a dansa. «^vT seguir um bom logar. Depois d'este accordo. Rodava sobre si mesmo. ftffâffl /uccedeu um silení^. desengraçados. e o dansarino só. sahiu para o meio ^"^jtjtft-^da sa^a> gritando com voz difficil : Í ^ J * — E o chorado. $if fáfLyju.t^^1 que ia elle dansar. fazia tregeitos desconnexos. poftyj/í/rffôfyjf oxchestxa. para con .184 CHANAAN — Afinal parece que Felicissimo vencerá. A musica suspirava gemidos languidos. w ^ * ^ " e muitos amontoados ás portas e janellas.

Arrebatado pela musica que lhe falava ás mais remotas e immorredouras essências da vida. Elle -deixou-se prender. Joca pulou na sala e principiou a dansar.. • altiva e extraordinária alegria. agradecendo-lhes com o / enternecido/olhar de bêbado manso. Foi uma barafunda. a bocca entreaberta. como um fauno f/ll antigo. o seu corpo se arrojou rápido. ~ livrando a cabeça. Felicissimo deu KJ mais algumas voltas. /-éy^***'" Durante algum tempo ninguém se moveu e a 9<^ri. . de repente. todos gritavam de susto. a musica continuava. com medo de alguma queda desastrada. o mulato se transportaya)para a longe de si mesmo e se transrlgTrnrvjíf n'uma 4. com os dentes em serra. A sua alma nativa esquecia por um momento essa dolorosa expatriação na própria terra. uns fugiam abandonando os logares. sorria. Todo o seu corpo se agitava n'um só rythmo .-/. violento contra a parede. como n'uma gui. Mas.fz0 A rosos compassos. e afinal. mas os lè^i vizinhos o sustiveram na f/f* cadeira. e cahiu J^r/á/á^ e pesado n'uma -w-J^Z cadeira vazia. por prazer.í*' musica didi^dM^. e o inutilisava inteiramente. Por enthusiasmo.. os cabellos i» agitavam livriuricnlij ou / U . solitária nos seus largos e cho. O agrimensor apoiou-se com a mão á parede. Felicissimo ainda tentou erA guer-se. a cabeça erguida • tomava uma expressão de prazer illimitado. A embriaguez do agrimensor era completa.'*' nada de navio. entre gente de outros mundos. outros riam do espectaculo.CHANAAN 185 tesco.

era vibração. N'esse momento a orchestra podia parar. paravam. Joca não perceberia a falta dos instrumentos. vinha languido. Depois. ora espalmadas no ar. A scena continuou algum tempo com esse único *-. mas que se adivinhava febril. espraiando-se na velha dansa da raça. Umas vezes. estalando castanholas. erguia-se n'um salto de tigre. como a dansa de um beija-flor.1S6 CHANAAN empinados e eriçados. querendo arrebatal-a n'uma volúpia contida. agitava-se todoy . ora baixas. corria pela sala saracoteando o corpo. sacudindo os membros n'uma dansa desenfreiada. outras. com os braços abertos. que dava a illusão de um instantâneo repouso em pleno espaço. imperceptível. ou molles cahindo sobre a fronte. e achegava-se a alguma mulher. querer voar. ébrio de musica. rápido. ás vezes. quasi de rastos. obedecendo ao compasso da musica. quasi pairando no ar. com os pés juntos n'um passo miúdo e repinicado.Hy ^P^y . perfilado nas pontas dos pés. suspenso. fazer um silencio que desequilibrasse tudo. ora unidas. no seu corpo triumphal. elle parecia. as mãos. n'uma ^rbjfação '^/e*** de todos os nervos. no impulso da sua alma. e nesse gesto. na sua alegria rara. retomava a sua doidice. era musica. pois todo elle. de cabeça inclinada e olhos compridos. como n*um grande ataque satânico. requebrado. vivendo. tremulo. os pés voavam no assoalho e. vertiginosa. todo elle era movimento. sahindo dos braços retesados.

. Maria estremeceu ouvindo o canto de amor. ////'*' f" '' tà*\ Na sala<^^pares/roavarrí n um frenesi.jJKff^0ff *y^fJM^I0^lfl a amiga de Maria. de remexerse ao rythmo d'aquella dansa. Todos tinham curiosidade e nada mais. clara. ninguém sentiu o Ímpeto de sacudir-se. uma raça toda extincta ^jtí^f/j^f n fi^W&fyfflr^ Jmlfy. toda entregue á paixão. fitando com os . N'uma das janellas um pax IfáYJfftflLava. fluente como um rio. emquanto outra musica.ff/lJ+tf**" cido de dansar. que correspondesse aos seus movimentos. das mulheres negras. assim o • yUJLS ultimo interprete das dansas nacionaes foi cedendo J. declamou como na velha bailada : — Ob ich dich liebe ? Frage den Stern. O peito offegava. Desolado. vae derreiando o corpo combalido. e sem saber o que fazia. tomado de uma repentina tristeza. com a flexibilidade vigorosa do páo d'arco.. Era a valsa aiJi t i lema. esque.CHANAAN 187 personagem. /Z^tèr^/ei outra dansa. pouco a pouco foi cançando. larga. de uma saudade das suas companheiras de mocidade.. que sentiam como elle. Havia jaaki luar Í W W 4 * « / fora. Um momento a rapariga alteou a voz.. Joca procurou um par. invadia o scenario. infindável e sus^ surrante palestra. Ninguém veiu. as sombras minguando se resumiam mais fixas.. as pernas morenas não se retesavam com a mesma energia de pouco antes.. «^ 'f^ o terreno aos vencedores. e. uma mulher que acudisse aos seus appellos. E como o derradeiro sobrevivente de. Era uma longa.

foi procurar Lentz. apontou a lua... Acabara a dansa e era a hora da separação. Hfefcjmaginou a solidão de um mundo sem vida. E para quantos não jpomeçára o isolamento. gritou Lentz. A moça despediu-se de Milkau. essa terra deserta. Sua vida triste.. sem uma companheira. entre vários colonos. ** viçosa e feliz. Pensou na sua própria vida. como de um antigo conhecido. envolto como n'um véo intangível que o não deixava sahir para o mundo nem permittia que o mundo viesse a elle. principio da morte. ao ar livre. toda a vida se acabaria. subiu ao astro morto.. um grande silencio reinaria nestes mesmos cantos cheios de movimento e de alegria. peior que o eterno frio. p f e f l ^ f o u (f[&u< que algum dia também. recebendo jovial o com- . n'esta solidão enaque ia passando a existência.. já recomposto d'aquelle instantâneo desfallecimento. no terreiro. dizendo com uma voz sumida e tremula : — Que tristeza. encontrando-o. Milkau. que no dia seguinte se tornaria a vêr. lá ! j O pensamento de Milkau. marchando como um cadáver phantastico na estrada do infinito. no seu destino. sua vida casta e mysfica. aqui nesta Terra radiante. — Oh ! pensei que fosses o ultimo a deixar esta casa. e uma immensa tristeza. Por sua vez. como obedecendo 1 a um chamado extranho. Um velho7chegcmi#á janella onde estava Maria^ chamou-a.188 CHANAAN olhos ardentes o céo..

«Z***»*'.. amigos. — Um cemitério ! respondeu Milkau.. disse Milkau. Não ha em Chanaan logar para a morte. — Bem. que os enlaça e domina na força do seu triumpho. vendo os outros alegres e te quiz )>' dar~a liberdade de também te divertires ao teu modo. por um grande cafesal bello em sua 0 íf}utviçosa negrura. Não sabia que eras tão grande apaixonado de festas. — Aqui estive a conversar sobre a Allemanha com estes amigos. gestosa. E falámos também de outra Allemanha que ha de vir. não apagam nem dão sombra sobre a Vida. —' / f P . E accrescentou : — Vê tu. s t T a m " m e. escassos e raros na fralda da montanha. — Que é isto? perguntou Lentz. £j I .CHANAAN 189 panheiro. Até um dia ! . no futuro. na encosta de uma montanha ma. Não é verdade. mas agora cuidemos de ir para casa. camaradas ? / / / ^ K^ ty"$tflftf /ppl au dirarr>la prophecia. — A caminho ! Adeus. A terra dá o menos possível aos túmulos: elles. começaram a ver cruzes pretas e pedras brancas por entre os pés de café. < v iA Bateram durante horas e horasA mesma estrada / j* * '^ de manhã perdorrida. \ffôjfncfyfâfap£$$£/$ f/jf* jèfâfffifa.

Vivia-se tranquillamente. no barracão da Victoria. não conhecera o pae. de cC" um pequeno clarão dentroyíi. antigo colono estabelecido no Jequitibá. jfóytâ/yjflfk da sua /»*•»*•-vida. Filha de immigrantes. e ella guardava recordação d'esse dia do baile como de uma festa tranquilla para a sua alma. Muito das palavras do desconhecido se impregnara no seu espirito. Nascera na colônia. na mesma casa onde ainda vivia. as creanças crês/ IP- . e um neto que nascera um anno antes de Maria. morto ao chegar ao Brasil. ^* vC/ A historia de Maria Perutz era simples como a miséria.VI Maria não podia esquecer os fugitivos momentos do seu encontro com Milkau. longe do Porto do Cachoeira. a mãe viuva e quasi mendiga ^ empregárar"como criada na casa do velho Augusto Kraus. A « colônia » 0JL prospersí i os outros habitantes eram o filho ca^ ^ j s a d o .

na completa felicidade é adaptar-se definitivamente ao Universo. o seu lar era aquelle em que fora recolhida. para elle cantava coisas cujo sentido não entendia bem. Ignorando a própria historia. por muitos annos viveu como inconsciente. um anceio de tornar á > sua terra. vigiando o gado. amores fabulosos. de quem ella. depois da ceia. o facto devia ter acontecido na sua remota infância. e com o qual mesmo se confundia n'uma grande innocencia. ^^fjò se separavam á /<J noite. de rever essas montanhas da Silesia. e o velho Augusto. paizagens extranhas. Nesse . á alma cançada e saudosa do colono. s^entretinha^em encher as almas dos meninos de recordações da sua vida. O grande amigo de Maria era o velho. como o sol. mas que falavam. se punha a fumar. cuidava como de uma creança. Com elle conversava longo tempo. A sua família.CHANAAN 191 ciam como irmãos. não lhe deixando traço na memória. como vive a arvore. e já moça. viver por viver. de coisas longínquas da pátria gerrnanica. Sentir a vida é soffrer. Esquecera Maria a morte da mãe. crescida. scismando. de que se não distinguia.onde dormira quando pequeno. quando o ancião vinha para / o meio do terreiro ^Iff^f sentado n u m tronco / / ^ ^ secco de arvore. tendo quasi chegado ao extremo da curva desse circulo em que as edades se tocam. lendários. a consciência só é despertada pela Dôr. passando a existência sem perceber o mundo. Viver puramente. O ///' ' sonho era sempre o mesmo.

Uma noite. Maria foi amante ' do joven Moritz Kraus. Maria sahia a buscar o velho. Mas ainda. Depois da morte do velho a situação de Maria na família foi se modificando. que assim se chamava a nora. As mulheres. e foi a ultima. já a ambição dos colonos. para vêr rfVBCrfV* a s velhas estrellas. como perdidas das companheiras. desceram do céu.. donos da temerosos que da convivência do filho jfylíféfl Jláo casa. até que na epocha da sua' migração. E assim. n'este outro mundo. despertando-o de mansinho/Énfiava-lhe o braço. a rapariga achou-o derrubado..7w <<•^ 192 CHANAAN O tempo conhecia pelos nomes as solitárias estrellas. apezar de to•.j/amJlrA das as preoccupações tomadas. Já a tristeza entrando no seu espirito lhe revelava o desencanto da existência. Emma. arrastava-o brandamente até ao quarto e o deitava na cama fofa. farta como um paiol de algodão. ao balanço do mar. de v. e elle as saudava pelos nomes. rapariga resultasse alguma ligação de amor. até que adormecia tranquillo como um pássaro. lhe 11 1 traçava a separação entre mfo. _„ ^^ n'umi?ejit¥eftescime«í© infantil. Elle as viu sempre an» &ud marcha de força^•Áà./jS d ° s n-° c a m p o azul. como . de bruços no chão e gelado. e Maria scroccupavam"em arranjar os leitos. Augusto Kraus 9 sentava"ao ar > livre.ez em quando. baixaram ás águas para desapparecerem uma noite e serem trocadas por outras. lá vinham algumas das antigas conhecidas." i quando a tarefa se concluía e as duas voltavam ao silencio. Estes amores eram. Mas.

. O seu abandono foi completo .v L Z ^ 3 jado casamento. que os levava a afastar Maria. e no d//dft de cortar uma ///*****£• simples inclinação.CHANAAN 193 em geral. que não existe entre os colonos. que a convivência tornara inevitável e levara ao maior compromisso. era apenas o interesse. que lhe parecia entrar gostoso nos planos yrnAkt*r dos pães. os planos da família ? Para o rapaz aquella ligação fora uma simples conse- . a avidez de incorporar o filho á fa*§ milia Schenker. sem suspeitarem do ponto a que tinham chegado as relações entre ^_* Moritz e a creada. Assim. não tevê meio de communicar com Moritz nem animo de exigir o casamento. com os seus desejos e ambições. que poderia ser lançada de um momento para outro na estrada ? Como •'" poderia embaraçar com a sua pessoa. uma pobre creada. JC^od** Maria viu com grande pasmo a docilidade do *«ÁC«*/-amante. os pães. Queriam que o filho se casasse com Emilia Schenker. Que era ella sinão uma miserável. quasi todos da mesma origem. Não era a distincção de classes. uma das mais ricas moças do logar. deliberaram mandar o filho para outra colônia./( tual. Assim esperava Maria. de Moritz. os amores da colônia e deviam acabar por um casamento. longe do Jequitibá. onde o alugaram como trabalhador. Mas a cupida ambição dos já então velhos Kraus não permittijp que as coisas seguissem o curso habi.iy esperando esquecesse o amovf/ffl^ffl/ftffl^-# ^#££ ijjpyJL o espirito dos Schenker para annuir ao dese.

fora apenas uma conclusão animal. e ella(osjüesapertav*)n'um gesto de / desafogo. os olhos semicerrados se perdiam no azul do infinito e tudo.^ t I tavi/fddtífo e satisfeito a esposal-a.. mais inquieta com a fatalidade da sua sorte. retendo uma immensa vontade de chorar. Este. ouvia phrases e juramentos de amores alheios./ tomava. Um grande desanimo a . e. elle sVprest ' ( . e de vez em quando. parecia balouçar como em alto mar. alvoroçou-se.194 CHANAAN quencia da vida em companhia de uma rapariga . alegria dos-ou-tres-. céos. Maria já não era a mesma galharda e resistente serva. cada hora mais abandonada./ tumescidos. esquecia-se da tarefa. —fraqueza yfyyfffip . os cabellos amarellos se £*?»*• f misturavam K relva vecdej-es-^seios arfavam in^t—. Indo ás festas da colônia. Quando no cafesal lhe vi/ nham subitamente esses momentos de cançaço. porém. deitava-se ao sol n'um / completo abajádono. y/tí _ Íf0t^/fHtfft a a S o n i a . a bocca se humèdeeía. reprimindo os sobresaltos.subiam náuseas. !IJ°^^*tyyL)0íftfÍL só do desalento moral mas também da mysteriosa perturbação do organismo. fl <2oul ' Pouco a pouco. teve a dolorosa proy[/<x vação de se confundir f. que lhe enchiam os ouvidos. não foi á capella nem ao baile de Jacob Müller. —tinha tonteiras e tudo se lhe turvava nos olhos. e Maria. e desde que lhe acenavam com outra mulher rica. um grande suor fria.E P o r i s s o n ã o esque- ... pensando encontrar-se com Moritz. inundava-lhe a fronte e á garganta I<VK—/ lhe . terra.

As palavras d'elle. mas teimava em reproduzir de / memória aquelles momentos. E sabia que tudo tinha passado como o rasto do pássaro no ar . E desdenhoso entregou-o papel. e como. tome conhecimento d'isto.^ / ( 1 — Você se chama Franz Kraus ? pergunto*! o tS^i^lA' v-mulato de cima. Uma manhã. vivendo em si mesma como hypnotisada. a que pouco A pouco / ^"" a turvada imaginação e a frágil lembrança. outra sensação. ?>o outra. então. sem significação.. eram ainda assim repassadas de uma infinita brandura. f*\j „ O colono disse que sim. vazias mesmo. o dono da casa ia partir para o cafesal próximo da habitação. quando um mulato.CHANAAN 195 cia a sua conversa com Milkau.da montaria.tj-f W timento. apezar de estar no Brasil havia trinta annos. cflÇ^^-n^* n™~JwwH I^^^J^ . mais forte. E no led desespero. ella se apegava a essa lembrança/como a um trecho de verdura no deserto immenso. Quem era elle ? Quando o veria mais?.. no ièrj. desdobrando uma Q° ^ ^ -folha de papel. que t-jfáfa-skcbaiag-. n'uma doce conspiração. ficou embaraçado. aba. em funda agonia. que era a sua nova existência. tudo ' pervertendo. mais l expressiva. que cahia sobre ella como um refrigerio para sua anciã. Kraus olhou o escripto. . . iam doando / L ^ ^ / outro relevo. não sabia ler o portuguez. •~fc&/"9 — Pois.•/-rosamente. desolador.... montado n'uma besta. se approximou d'elle vaga. sem alcance.

São três juizes.y //Lr <*•» / . que sou o official do juizo.. Prepare do que comer.. O colono.. Não lhe deixo contra-fé. não tenho mais conversa. adeus . Não era assim o nome d'elle? A audiência é amanhã. que também se conta. com o chapéo a rolar nas duas mãos.. j $ $ ^ o mulato. Ia replicar meio encolerisado. Kraus estava pregado no mesmo logar. voltouse para a casa. e solemne lá se foi n'um chouto pelo caminho. porque de nada lhe serve. Picou o burro. mais essa massada. ouvindo falar em Justiça. ao meiodia.. Antes de passar a cancella. o escrivão e eu.e do melhor.. A Justiça pernoita em sua casa. quando o mulato continuou : — Pois fique sabendo que isto é um mandado da justiça. Não esconda nada. tirou o chapéu submisso. Que é? — Também vocês vivem aqui na terra a vida inteira e estão sempre na mesma. / CHANAAN . Era só o que faltava. e ficou como fulminado.. Ouviu ? Bom... Venho por aqui furando este mundo... aqui. O meirinho gritou: m*^" i ft " . E os quartos. e de casa em casa sempre a mesma coisa : ninguém sabe a nossa lingua.. E um mandado do senhor juiz municipal para que vosmecê dê a inventario os bens de seu pae. "* .. f. Que raça ! O colono ficou aturdido com aquelle tom insolente. — Ah ! Prepare tudo para se arrolar. sinão cadeia. Augusto Kraus..196 — Não posso ler.

xemexédifé velhos ba. Comprehendendo isso. Maria tentou confortal-os. Franz animou-se. Apenas. vestido como nos domingos. também vestidas .CHANAAN 197 — Comida e dormida para cinco. espreitando a chegada dos magistrados. todos se confrangiam. cada qual. arrancou-lhe palavra por palavra a narrativa da intimação. A lei e o direito tinham alli um prestigio inquietador. e o colono ficou por algum f//^^fiu tempo na mesma postura. ambos ficaram mudos o dia inteiro. um terror como si tivesse havido alli uma visitada morte. tirando-lhe as energias para distrahir os patrões. Veja lá ! Desappareceu. Entrou em casa. <y) nome mágico da / „ Justiça . As mulheres. . arrumavajfTa casa. preparava'*». Kraus. Franz Kraus não teve mais animo de ir para o trabalho.o pão negro dos . _ seguinte e o interesse que/deviam empregar para yj A recebel-os do melhor modo.QarfrteTnrya.«/£*/ começou a arranjar a hospedagem. colonos. querendo apoiar-se no outro. Na colônia. quando se falava '*"*' em tribunaes e processos. As mulheres / ' •>íwatavam-^allinhas. quando foi a tarde. como succede nos dias de desgraça. Na manhã seguinte. Depois. Maria lembrou os hospedes do dia . que o viu em tão extranho abatimento. A mulher./i'<í***/-J'*r hús esquecidos nos quartos. Tudo se fazia debaixo * de conselho. a « colônia » estava ordenada. poz-se inquieto a andar no terreiro. mas o terror dos outros. todos conchegando-se n'uma desfallecida cobardia. e auxiliado por Emma e d creada /£. fazia ainda augmentar a própria tristeza d'ella.

disse o juiz de direito.. segundo o costume.. eu e o collega. Os magistrados montavam excellentes bestas que. são maiores. mas nós dois.. não se arredavam do trabalho na cozinha. que nada temos com isto. recordando nas linhas e na expressão inquieta. espreguiçando-se. veiu por obrigação. — Perdão. adaptando a luneta azul aos olhos. a cara de gato . Todos. côr de azeitona. procurando fitar com o monoculo o promotor. Um dos juises largou-lhe o animal .198 yT CHANAAN com os seus melhores fatos. atalhou com um riso de escarneo um mulato velho. solicito em ajudal-os a apeapagi n ijis âWnaes. Era mais de meio-dia quando a Justiça entrou senhorilmente na colônia.. — Mas aqui não ha disto. eram empreitadas pelos negociantes ricos do Cachoeiro/O colonoXçon^eu) a recebel-os. batendo no chão ruidosamente com os pés. — Ah ! é verdade. Ainda o sr. sempre a gente se diverte. — Estou morto! disse o juiz municipal. meu doutor. e só pelo passeio ! Emfim.. — Uma estafa I Quatro horas de viagem.. de chapéo na mão. curador de orphãos. os outros da comitiva amarraram os seus nas arvores e todos espararam com o chicote a poeira das botas.. então não terei occasião de funccionar ? perguntou vivamente o promotor.. sr.

E todos passeiavam pela sala com estrepito. Kraus correu á sala atarantado. Era o escrivão. . de onde vinha um capitoso cheiro de comida. como si já tivesse commettido o primeiro delicto. ou praguejando. para logo voltar com uma garrafa e um cálice. senhores. ou farejando para dentro. — Não haverá alguma por ahi ? Ouvindo tanto rumor. — Mas. A casa é nossa em nome da lei. O colono sumiu-se. disse o juiz de direito.. encaminhando-se para dentro. — Moça bonita que saia ! gritou rindo o promotor. batendo com o chicote nos moveis. e poz-se como um creado á espera das ordens. — Mas onde está esse inventariante imbecil ? perguntou com arrogância o promotor. — Não ha mais copos n'esta casa ? perguntou com desprezo o escrivão. ou rindo das pobres estampas nas paredes. — O sandeu fica todo este tempo a arranjar os animaes e nos deixa aqui ao Deus dará.CHANAAN 199 maracajá. Mas que seja do bom. como era a sua alcunha. explicou o escrivão. entremos. — Traga paraty ! ordenou o escrivão.. — Delicioso esse tempero! Promette! exclamou o juiz de direito.

escrivão.. E. como mais graduado. uma consulta. Esses diabos de colonos a primeira coisa que aprendem aqui na terra é a conhecer paraty. — Sr. disse Brederodes. o meirinho esperava a sua vez. — Sr.200 CHANAAN O colono tornou ao inferior e depois reappareceu. meio desconfiado. seu fracalhão. e poz em cima da mesa quatro copos. balbuciando desculpas. Segurou a garrafa. o mulato chegou-se á mesa com o braço estendido. doutor. contente. serviu no cálice ao juiz de direito. — Você quer ? — Muito pouco. continuou o promotor na distribuição. Itapecurú.. dr. o sr. E foi distribuindo a cachaça nos copos. meus senhores ! propoz o promotor. . — Meus senhores... — Vamos a isto. Brederodes. -— Tome lá.. para clarear as idéas. Rindo.. — Dr. Os outros riram sem responder á pergunta. em pé. me affronta com esse copo quasi cheio. um nada. uma consulta de direito. — Mas. estalando os beiços : — E bom. o « maracajá » começou a beber. O official de justiça pôde beber antes da audiência ? Na porta.

como é isto ? Só duas camas e somos quatro ! observou inquieto o promotor. E empur- . com medo que esta lhe escapasse. ' — Não ha risco ! De um trago engoliu a aguardente.CHANAAN jl/ 201 — Vá lá ! depois py esqueça^e tocar a campai-/*) nha. y* O juiz municipal apalpou éfdi'Ifflf0. Faça favor de vêr isto. O melhor é deixarmos essas nossas cerimonias. é o nosso mordomo.. tomarmos conta da casa. Uma onda de sangue íhe yj'} ennegrecep o rosto. disse o dr. escrivão. os olhos cheios d'agua tingi.HS-J ram-se-lhé de vermelho. o quarto é este. Indicou os aposentos. todos o seguiram e ii viram-^em um quarto com duas camas altas. o homem tinha tudo preparado. O sr. Aqui ao lado ha outro quarto. Não sahiremos d'aqui. e temos processo nullo. ae grandes colchões de palha farfalhantes e commodos.44. porque si formos esperar que esta gente se mova. Itapecurú.. um dos //<)&&*leitos : ~£*<d*nt*^ Ah! que somno divino aqui! à& Mas. / olhando pelo monoculo ^ subalterno. — Este sujeito não nos dá almoço ? Olhe que já é tarde. Quando voltou. sr. si querem lavar as mãos. disse : — Vamos almoçar. Olhem. estamos convidados. . procurando o colono. /<*" O escrivão entrou pela habitação a dentro.

— Até o sr. veja as chinellas. — Nós hoje não sahiremos d'aqui. Única mulher no meio d'esses homens.... Caça extranha. meio nervoso. beberam cerveja em quantidade. disse afoitamente o promotor. — Socega. Souza Itapecurú. onde o almoço os esperava.*J — Oh ! lá !. Não é nenhuma asneira.* como si estivessem em suas fazendas. e. Maria. entrou com. Os collegas do juiz de direito o imitaram. Pois bem. entraram radiantes na sala. O official de justiça obedeceu. meijl perturbada. dando-lhe de manso uma palmada nas costas. o café. foi depondo as chicaras de café defronte de cada hospede. que estivera todo o tempo na cozinha. a sorrir intencionalmente. dr. vou me pôr á vontade.ella ficou vexadissimae rubra. sentindo por instincto a crueza e J^iíVj^dytó^ dos olhares excitados e cobiçosos. não é exacto ? inquiriu o juiz de direito. e logo depois todos três.. Maria..202 CHANAAN rando a porta de communicação. y-. observou sorrindo o juiz municipal. Comeram com appetite as comidas da colônia. Brederodes. mudados de roupa. só no fim do almoço. notou o escrivão. enfiando" os olhos nos olhos da rapariga. O dono da casa e o official de justiça serviam a refeição. dirigindo-se ao juiz de direito. o escrivão mostrou-o.. lavados e refrescados. Elles agradeciam. li/. que de •//U (W Ar^y^ y*«~ "— T / • «• ^'~y i^^1£^t^ A . Manoel.

e elle sentiu impe//i^1**'tos de se apossar da mulher. Procurou a melhor luz. o papel de margem dobrada. que abriu em pagina marcada.CHANAAN 203 ?! monoculo na mão ficou atrapalhado. debruçado sobre.•* —r Bem.. sentou-se e principiou. V S. e com ar fatigado e distante começou â acompanhar o serviço do escrivão. como si o convidassem á mais enfadonha das % tarefas.. Vamos lá. desappareceu n'um andar incerto e balanceado. a lançar os termos do processo/ Paulo Maciel tomou um logar á cabeceira da mesa. Brederodes ficou pensativo. puzeram-se a fumar descançados. entendeu o escrivão espertal-a. Nos seus olhos turvos passavam miragens de ^/AdÜtd. e quando um grande torpor ia dominando a companhia. E. com um sorriso parvo enchendo-lhe a cara. dr. ... O « maracajá » poz os óculos e armou-os na testa. não manda abrir a audiência? O dr^-Paulo Maciel espreguiçou-se bocejando. — O h ! é só para vêr. de onde elle tirou utensílios para escrever e um formulário. '' £2*"*// Depois do almoço. finda a tarefa. seu Pantoja. • — Pois sim. çmquanto arranjava a mesa para o seryiço. emquanto os outros commentavam. dizendo ao juiz municipal : — Sr. está prompto o termo. O official de justiça apresentou-lhe um bahúsinho. divertindo-se com a scena.. E a pobre moça.

. dr. esses gritos estridentes. avolumando-se no silencio total. então abra a audiência. Quando declarou que o pae era morto havia quatro annos. que entrou na sala. E passou para o quarto. vá tomando as declarações. Ordenaram que se approximasse. Paulo Maciel. confuso e medroso. nem á fazenda nacional. Este. dr. desfructando-os como si já fossem d'elle..204 CHANAAN — Sim senhor. o escrivão resmungou : — Vejam só.. O seu olhar não retinha da scena sinão uma vaga impressão. ordenou o juiz municipal ao meirinho.. e fizeram-lhe perguntas a que éüi respondia com voz apagada e tremula. » Depois foi apregoado o dono da casa.. na grande calmaria do mundo.. Sob a força do sol ardente... começara por desconhecer sua própria casa transformada em tribunal. foi até á porta e começou a badalar. aterravam os moradores da « colônia. de campainha em punho. sem dar contas á justiça. desinteressado. governada por aquelles homens que se tinham apoderado d'ella. e onde élle parecia extranho e prisioneiro. juiz municipal. juiz municipal. Este heróe aqui na posse dos bens. clamando com voz fanhosa : — Audiência do sr. levantou-se e disse ao escrivão : — Seu Pantoja. passeiando na frente da casa. onde os collegas fuma- . Audiência do sr.

somno.jdespediy o dono da casa.. cochilava o meirinho. mas eu sou ma/ caco velho..j ^ Duas horas levou o escrivão a trabalhar no inventario. que se fechavam logo. Na sala. com que ainda mais amedrontava o allemão. deixando apenas em claro as assignaturas do juiz e dos avaliadores que elle dava como presentes. sentado n'uma cadeira. * %&r<>y .CHANAAN 205 vam tranquillos e preguiçosos. Tirou o paletot e deitou-se como elles. onde tudo 0 êfáffifáfáffa' n'um grande y^/»****'socego.. O processo foi-se fazendo com estes dois únicos personagens . São as penas da sonegação.. e que eram seus homens de palha. . ou do cafesal. Acabado o serviço. Vocês são finos. Penas terríveis! Assim envolvia as suas ameaças nas dobras de termos technicos.yy . abrindo de tempos a tempos os olhos fftpéfff de f/i/C^fjjj. do quarto não vinha " *****'*** mais o som da conversa : apenas um roncar monótono e regular de alguém a dormir enchia a casa. ím de se haver áéy com a justiça. que assignou tudo quanto elle mandou. Pantoja atormentava o colono com perguntas e de vez em quando & interrompia-para ameaçal-o : — Se você me occultar qualquer coisa aqui da casa ou das terras.. n'uma costumada fraude que lhe rendia mais custas. estirados na cama. sem receber a menor explicação/áenmyPantoja tirou os óculos. junto á janella. proseguindo á sua discreção...

mas. . Venha v.. E cousa pouca. repetia alto os nomes das pessoas a intimar : — Viuva Schultz. doutor! • e ^ " ^ ^ 6 * * " i Maciel asespantou^com a voz)ao subalterno. vae deL* pressa quj. sr. comendo os espólios á rftnv* tripa forra.é um gosto. *"^ — Ah ! o sr. meu doutor. como si quizesse suster aquelles appetites do escrivão. sorrateiro.. seu Pantoja. s. Havendo milho. e em mangas de camisa e chinellos veiu á mesa da audiência assignar os mandados.ponha*se em campo. tudo o que cáe na rede é peixe. . veiu ao quarto em que estava o juiz municipal. assignar os mandados para se fazerem amanhã esses inventários aqui mesmo.. — Seu P?ntoja. Não sendo coisa grande. que não fazem inventario ha muito tempo. ? Já acabou? e <fiy r — T a l o . E aqui ha bastante. Tenho pramptos alguns mandados para intimar uns colonos d'esta vizinhança. seuPantoja.. E lendo os papeis.206 CHANAAN e manso..ordenou o escrivão ao official. Afinal. sem nos da^ satisfacção. — Ora.jfpf Svdyr 0ftáo sobre elle IfltftfjffltyÁjfô com os olhos endiabrados e sinistros. meu doutor. disse o juiz municipal.. levantou-se. póde-se vêr o que rende no fim da festa. não nos adeanta. — Não. — Neves. condescendente e resignado. — Prompto. é melhor deixar essa pobre gente em paz.. . e quando se sabe expremer a mandioca...

. — Tenho pena. Brederodes.. : . Hff Os dois outros abriram os olhos. seu capitão. — As qrdens.. meu* senhores.f0frfâjfffâf#U y> r ^ aposento uma luz branda. .CHANAAN 207 Viuva Koelner. — D'esta pobre gente. Com este bello dia. como os vigários.. amortecida no verde da Tfftftfifá*^ folhagem das arvores que envolviam a casa. tudo é perto. O meirihho metteu os mandados no bolso e foi sellar o burro. Otto Bergweg. Para amanhã ás nove horas. voltando ao quarto onde descançavam ostollegas. sr. d'estes miseráveis. devemos sempre fazer as nossas desobrigas. — Que boasomneca. no seu caso. ia dizendo o juiz municipal. Maciel que se consegue isto.. O sr. Com poucas estou de volta. não sahiria das « colônias. doutor! disse Maciel ao juiz de direito. aqui. Esta é a nossa religião. deitados! Ora.. * — Muito bem. Olhe. dr. bem sabe o trabalho que tivemos para arranjar esta pequena excursão.. — De que. E voltando-se para o promotor : —Você tem-se fartado de dormir ! — Para que serve o colono sinão para isso ? Para sustentar e regalar a Justiça. Maciel.. doutor ? interrogou vivamente o escrivão. — JJrçá^ que malandrice! disse o juiz municipal. Mas não é com o dr. vamos passeiar! E abrij^ as \v*Xte. si fosse eu o juiz dos inventários.

— Perdão. Itapecurú. assestando o monoculo. \\ Todos triumphantes escarneciam do juiz municipal. dr. juiz de direito? Itapecurú.2UN CHANAAN — Na miséria anda a Justiça. colono £ anda fino. dr. com- . os velhos.. Não é. Vão lá saber a minha fama. dividindo o cabello ralo. voltou-se gravemente. ia de porta em porta em nome da lei. protestou Brederodes com interesse. Capitão Pantoja. Ah! todos prosperámos no foro. não me envolva na V" classe dos românticos. Não deixei um só por fazer. O sr. nós. que de pé se penteava.. eu movia a machina. Commigo. quando me constava que havia um fallecimento.. Qy Havia n'essas palavras um prazer refinado de«r ^ misturar-. mirando \ os collegas dominados pelo olhar felino do escrivão. Fui o terror dos inventários. acudindo á interpellação e. deve ter pena é de si. da sua família e dos seus patrícios. . Paulo Maciel m~ viu^assim excluído d'aquella *Nk communhão e ficou meio desdenhoso. e nos seus risos entravam suas almas. $"" 'que era o chefe político do logar.. metteu-se entre os discutidores. e trinta dias depois o mandado fazia mexer os recalcitrantes. sr. aqui o capitão sabe. Estes moços de hoje se dão outros ares. tomava nota.tuirny camaradagem com o subalterno. é por essa falta de espirito pratico que o paiz vae mal. Nós somos de outra escola. — A quem pergunta! Fui juiz municipal doze annos na Bahia.

fructos ^Í^C***^ novos ou sazonados. muito penteado.. oti^'^jperdendo a força em se estampar demorado na i^f^^-. um era o riso tumultuoso. interrompeu o pro12 . amarellos e vermelhos. encurralados na cozinha. e a tarde era tZ^. o juiz de direito que não os acompanhava em tamanho desalinho. de Itapecurú.. que lhe tapava a calva.CHANAAN 209 pondo um conjuncto extravagante. o do $$jft> // -T ^ era o riso silencioso. so desleixo. tudo nos encanta. physionomia. O escrivão conservava yi a sobrecasaca de alpaca preta. contra a immigração! — Então. com um gorro de velludo na cabeça. Nada falta aqui.. Os colonos. ^df^mdterras cultivadas por brasileiros.*^/^amena. A Justiça reinava livremente na casa £V*^ e no pomar. O sol já ia fraco. notou Paulo Maciel: — È admirável a ordem e o asseio desta colônia. sem energia para o ruído. pela sua theoria. abandono. outro era o riso f/Arlvf canino. appareciam. cortante de Brederodes. alvar. E ainda se fala. e «•«.. tudo prospera. Deram algumas voltas. já muito russa/jfo. Que di&exenç^È. De chinellos. e em mangas de camisa os jovens magistrados fartavam-se do bello ar da tarde. puzeram^a *JW^' passeiar vagarosos. e quando estavam debaixo do laranjal car. ^» "/^**/ Vieram todos para o terreiro. ia com um paletot de palha de seda. examinando do sitio. rápido. e com a relaxação a tristeza e a miséria.y&i *»'•**• regado de fructos.I bria a cabeça com uma espécie de solidéo de lã. não*' «J^ ' . engravatado.

estudo-lhe todos os hábitos. e eu concluo sem medo de çrrar quaes os f?«**0. Olhe.. meu amigo. E que se pôde fazer sem analyse? E o destino da Hespanha : cahiu em nome da philosophia. uxjtí ^f0fffi/f> P o r exemplo. — Como. basta Ig. — Ah! Tenho confiança nos novos povos formados n'esta escola. — Terra de analyse. Não ha duvida que falta ao brasileiro o espirito de anaiyse. Não pensa assim. — O doutore terrível. não . commentou o escrivão. para mim era indiferente que o paiz fosse entregue aos extrangeiros que soubessem aprecial-o mais do que nós. classifico-o.210 CHANAAN motor.Então os Estados-Unidos. disse Maciel trocando um olhar com o promotor. como se diz na velha escolastica. Terra invencível. eu sou um fanático da analyse.. o que esse homem j ^ v í ^ ^ c o m e . devemos entregar tudo aos allemães ? — Apoiado.. confirmou este. doutor ? gritou o juiz municipal. — Sim.E quando digo brasileiro. Ah! Porque uma-vez apanhado.//'sentimentos psychologicos do meu examinado. dr.. não preciso saber das suas idéas.. E' a conseqüência do que diz o dr.. Não podia entrar em conc. Quando vejo um indivíduo. Maciel. refiro-me a todos nós. Itapecurú ? O juiz de direito tomou um ar solemne : — Sim e não. E' meu.urrencia com um povo analytico. Quando estive em França.

E a sua loucura era tão grande que pagavam pela lingua... Não. questão). educados na sciencia positiva. como vê.. Um sujeito. que devemos ceder o passo ao mais forte. Idiotas! Veja hoje essa gente nova. analysando os impostos. Fala-se em Lamartine.o~ ***** *$• " •ytj . — E depois ? — Matei-o. e até patrício nosso. Até certo ponto convenho. E a d'estes de agora nem na praça da Concórdia. É uma fatalidade. Maciel. O Brasil. com o sr. que alli estão dissecando o orçamento.. dr.. — E que respondeu ? — Pepsa que embatuquei ? disse com o seu riso volumoso o magistrado.. Quando falavam aqui dentro (estávamos no Palais Bourbon) a voz d'elles era ouvida no mundo inteiro. Ahi é que está tudo. cheios do espirito de analyse. nada de serio. Vae vêr. morre poxjyLsse mesmo espirito de xheto-/yT . Não íjj^ Cdolhe você como eíles dizem.. de Lamartine. fôrma. Não reparemos na yj. Só rhetorica.CHANAAN 211 deixei de ir ao parlamento e admirei os jovens espíritos. me disse uma vez em Pariz : veja os seus oradores de hoje.. (voltando á nossa HQ^^JO. Ao mais ditoso cedo o ingresso. / f{ como diz o poeta. olhemos jfd^d. ' E Itapecurú arrependeu-se profundamente de ter 'dito isto.. porque leu nos olhos de Pantoja a sua \ . respondi eu. rica. não ha inferioridade. mas sim o que elles ' J/^t^>«*/dizem. antigamente esses homens falavam por falar.. Anões! Lembre-se de Berryer. rapazes quasi imberbes.

— Sim. com a nossa marinha insignificante. Pantoja. remendar o pensamento. mandar a sua esquadra bloquear os nossos portos. sim. Teve um frio de medo equiz. que com o nosso exercito diminuto. Mas o escrivão não lhe deu logar e acudiu rancoroso : — Admira-me ouvir de dois magistrados uma tal linguagem. — E que fazemâvocês para se oppôrem? Pensa você. rangeu os dentes. disse. Patriotismo vae-se vêr em breve. não duvide dos meus sentimentos patrióticos.212 CHANAAN condemnação. não ha mais nada. Brederodes.gaguejando. Os senhores podem querer entregar a pátria ao extrangeiro. meus doutores. Quem applaudiu mais do que eu a resposta do Marechal ? A bala. mas emquanto houver um mulato que ame este Brasil. é preciso desmascarar os patriotas de barriga. estampando-se-lhe na cara um sorriso tenebroso. escute. as coisas não vão tão simples. Não ha mais patriotismo. podemos $ $ / $ $ • a a l S u e m ? . — Mas/ capitão. — E não ha de tardar muito o momento. — Quando esse imperador da Allemanha que você admira tanto. replicou Brederodes. á bala quando elles vierem. podem vendel-a. obtemperou o juiz de direito com uma voz de melliflua cobardia. que é seu. disse o promotor. soturno. E o pardo cerrou os punhos. meu capitão. — E quando é esse famoso momento ? perguntou calmo e desdenhoso Maciel.

cortez e lisonjeiro. meu caro ? — E' verdade.. Itapepurú. Um grande incêndio que ha de espantar o mundo! — Sei d'isto.. concluiu gracejando Maciel... Nada mais.. o juiz de direito. O nosso combate será com os europeus.. — Como.nar um paiz quando o povo não quer. capitão/ perguntou. dõ Norte. rindo. 7 . r — Ninguém pôde dom. Meu doutor. — . com uma caixa de phosphoros se liquida um exercito e toda essa canalha européa. Tocando fogo nas casas... Como elles mesmos dizem.CHANAAN 213 Brederodes deu urna gargalhada e disse victorioso : — E os Estados-Unldos. que lucro teríamos n'essa intervenção ÍPassariamos de um senhor para outro. — E a doutrina de Monroe? A^America para os americanos. observou irônico o juiz municipal. A Polônia e o Transvaal também promettiam tanto. Depois.. interveiu o escrivão. esperando com ar admirativo a resposta. — De toda a parte. — Como ? respondeu o escrivão com uma satisfacção sinistra. ajuntou também. no matto. E a grande America cruzaria os braços? — Não sei até que ponto se metteriam n'isto os Esfádos-Unidos. nas cidades..

O Brasil é e tem sido sempre colônia. Diga-me você : onde está a nossa independência financeira? Qual é a verdadeira moeda que nos domina? Onde o nosso ouro ? Para que serve o nosso miserável papel sinão para comprar a libra ingleza ? Onde está a nossa fortuna publica? O."* • — Capitão.%. os Boers são uns mArayeís tjue têm. As rendas das alfândegas nas mãos dos inglezes . disse fora de ei Brederodes. » — Por quem ? interrompeu Brederodes.pouco que temos. disse interessado o juiz de direito'.. o que perder. vapores não temos.. o juiz municipal». mas. doutor. mas a continuar esta . eu desejaria poder salvar o nosso patrimônio moral. Você »ão me acredita. O senhor è dos nossos. .. e isto decide o povo. ** O escrivão encolheu os hombros c«m de^pre^fe.21 í CHANAAN ' . gesticulando com a luneta. hypothecado. a nossa lingua enffim. Escute. O nosso regimem não é Hvre : somos um povo protegido. Ouça. não. É ou não o regimen colonial com o nome disfarçado de nação livre?. não duvide dos meus sentimentos. Alli ha mais amor ao dinheiro. homem. — Os senhores falam em independência. cáustico. — Espere. estradas de ferro também não. felizmente. *'* • • — Os Polacos «rarh aristocratas e por isso indignos.. Os brasileiros. Não temos nada a perder.eu não a vejo. intellectual. *v . dó que á honra. ás minas.. observou. tudo do extrangeiró. — Bravo. então.

— Você é um cynico. esta torpeza a que chegámos. deixe de ser malcreado. Dizem.. fatigados de l impedir que outros se apossem de nós.CHANAAN 215 miséria. E. insultou-o Brederodes. disse seccamente Maciel. Itapecurú temeu um conflicto.. Qcollega sabe que em questões d'esta ordem não 1 convém falar sem toda a segurança. emquanto houver miseráveis como você. pallido. E a sua cobardia . com os lábios a tremer. — Menino. O oujra enrubesceu. é melhor que viesse de uma vez para cá um caixeiro de Rothschild para governar as fortunas. é porque aproveitamos da 1 disputa entre as nações fortes. elles nos *-^ccrrrerão. . retomando o seu geito.. e um corais nel allemão para endireitar isto. repetiu frio e insistente. mas um dia.. como fizeram a Cuba.. Isto reconheço. O escrivão saboreou a disputa. Temos sobre o continente projectada a sombra dos Estados I Unidos. — Dii^m quea Allemanha tem planos. e obedecendo a uma excita£ão4ula. nias 'Paulo Maciel sorriu logo com superioridade : — Descomponha-me como quizer. o que você não'pôde negar/i a evidencia dos factos. Itapecurú. proseguiu atrevido : — Colônia. menino. Colônia somos nós e/seremos. Houve um pequeno silencio. commentou fofundamente o dr.. continuou : — Si na verdade não entrámos ainda na orbita de um grande povo.

— Eaté se aproveitam dos votos do extrangeiro. — O negocio não é para manifesto. São . de politicagem. que faz a tudo isto ? perguntou Brederodes.216 CHANAAN solemne punha uma certa brandura na discussão. nem para eleições. cuida de eleições. O próprio Imperador paga do seu bolsinho missionários e professores no Rio Grande e em Santa Catharina. — Mas esses allemães não fazem nada. varrer. é essa mania eleitoral : por causa de partidos deixa-se naufragar o paiz. replicou Brederodes. tomando a serio o que dizia Maciel. capitão. disse o escrivão. Isto é coisa á parte. Porque esses allemães não serão nunca brasileiros. E elle mesmo respondeu : — Cruza os braços. coisa do interesse dos partidos. — Eis o que nos prejudica.. Porque não faiem os senhores um manifesto ? propoz o juiz municipal. e são os melhores eleitores aqui do capitão Pantoja. -> ••r O escrivão ficou embaraçado no seu dfi^plo sentimento de chefe de partido na localidade e de nativista. — Pôde affirmar sem medo. — E o governo. dos amigos. que estamos sendo cercados pela cobiça dos Allemães. accrescentou Paulo Maciel. respondeu o escrivão. Nós precisamos. — As eleições vêm ahi. esquecendo-se de que o povo soffre e o extrangeiro só tem a ganhar com a nossa miséria.. esta corja que se apossa do poder p a r a $ enriquectr.

nativista sempre... Sul America. foi-se afastando na direcção da casa. descuidado. Abala! Paulo Maciel parecia desinteressar-se da discussão e.. Brederodes deu uma risada.. escarnecendo : — Está ahi o perigo. fogo no extrangeiro. Capitão. Foi uma tentativa falha de nacionalidade. até um dia se despejarem sobre nós e avassallarem o paiz. Um rebanho de carneiros. tirando de passagem folhas das laranjeiras que ia aspifando. mettem-se em nossa casa muito quietinhos.. nós nos aproveitamos d'elles.. Todo este continente está destinado ao pasto das feras. T^do vae acabar e se transformar. nervoso. do seu dinheiro. a descuidada inércia.. do seu numero.. e elles vão na sombra engrossando..... Mas não haverá uma salvação.. deite de conversa. como nos opporemos a que elles venham?. Ser ou não ser umâ nação. Maciel pensava : — E o debate diário da vida brasileira.. Os Allemães são.. não haverá um deus ou uma força que 13 . Os companheiros o seguiam.. a nativa fraqueza. empenhados no assumpto.. obedientes.... Ridículo.. Que podemos fazer para resistir aos lobos ? Com a bondade ingenita da raça. Ai dos fracos!. Momento doloroso em que se joga o destino de um povo.CHANAAN 217 muito respeitadores e mansos.. Paciencki. por esses respondo eu.. uns velhacos. Pobre Brasil!.. E que nos adeantam os Estados-Unidos? Será sempre um senhor.

A pobre. porém. pôde ser que seja melhor. parecia fria e indifferente ás phrases atrevidas... mas amável.... Caminhando.quasi a esphacelar T se.. temido pela sua influencia política.. nossa. — O meu nacionalismo. emquanto as estrellas vinham se abrindo numerosas e infinitas. e está acabado...... D'ahi.. boa. Emfim. Acabado o jantar. A Terra prosperará.. mais policia.fraca.. degradada si quizerem.. Sahindo do seu esconderijo. e^tó p u z e r a m / a s / ^ ^ ! cadeiras do lado de fora da casa eyi entretiveram-A' a conversar pela noite a dentro. tj da Justiça. onde eram esperados para jantar.. Maria rodava pela sala.. sim.. Ah ! nunca transigi..já devolta das intimações. Vale a pena? E o mundo é só isso? Vale a pena viver para ter mais policia? E a lingua? £ raça. Melhor administração. com que a cobriam os sujeitos .. é antigo. e é só..ajudava o serviço. Puzeram-se á mesa. Temos o que merecemos. vá lá.. Mea culpa... O juiz de direito não desanimava em desmanchar qualquer impressão sobre a sua falta de patriotismo que porventura ficasse' no espirito de Pantoja.. porque é nossa.. capitão.. esta associação. .. apezar de tudo. sempre perseguida pelos homens. Oh ! muito nossa. mesquinha. e o meirinho..218 Y //fP /( CHANAAN paralyse o raio armado contra nós ?.. assim chegaram á casa. e amada. immoraes. Desde a Academia fui um exaltado em questões de patriotismo. e voltava ao assumpto..

creio que hoje. como o sr. estudantes.CHANAAN 219 — Mas isso foi n'outro tempo. os Gurupis. sentem desgosto de ser brasileiros. Não nego que a Europa tenha alguma coisa de bom. os Itabaianas.. redobrou o meu nativismo. Foi um movimento geral. Não dou tréguas ao extrangeiro. Os meus sentimentos nacionaes. Aqui para nós. sou até jacobino. Aquelles que. E só. Não é debalde que me chamo Itapecurú.. E a marca nativista que trago da Academia.. — Quando Gonçalves Dias e Alencar deram o grito de alarma pelo Brasil. tive orgulho d'este Brasil e voltei ao meu furor. Eu me chamava Manoel Antônio de Souza. E salutar. com a edade. vendo a deê&dencia da Europa. respondeu empenhado Itapecurú pondo o monoculo. respondemos ao nosso modo.. mas.. — Hoje. Accrescentei Itapecurú. nós. Souza cheirava a galego. estavam enfraquecendo. — Nunca abandonaria minha pátria. pelo caboclo.. objectou Maciel. Quawdfci mais tarde a palestra esmoreceüyoj uiz de direito disse aos companheiros : — Meus senhores. Manoel Antônio de Souza Itapecurú.. devem dar uma vista d'olhos ao velho mundo. não sahiria de lá. creia. si pudesse. ia interrompendo Maciel por brincadeira. confesso. e d'ahi os Tupinambás. que propõem para matar o jy jjJJ/ . — Mas divertiu-se bem na Europa. Cada um tomou um nome indígena. — Como assim ? inquiriu Brederodes. e aom certeza...

que tem feito ? — Sim. que não larga a grammatica allemã ? . havemos de rir muito. disse o promotor. Eu podia contar impagáveis. escarneceu o escrivão. Presumpção não lhe falta. disse Itapecurú. no fim de dftij}.insinuou Itapecurú. accentuando a phrase com vistas ao escrivão Pantoja. maldizer de tudo o que é nosso. logo que Maciel partiu. Os outros. desembuche para vermos o que tem tão escondido. esse.. para os jornaes. — E'verdade. — O que elle sabe é descompôr o Brasil. — E uma pena. Si um dia escrever para a Capital. mas. ao contrario dos companheiros. nem por ser brasileiro. disse o dr.. — Pôde ser que quando isto fôr da Allemanha. receba o dobro dos seus patrões. — Não conte commigo. Estou cançado e vou deitar-me. era mais feliz quando o deixavam só com os seus pensamentos. fede. entraram a detrahil-o. Boa noite . não dá para nada. accrescentou Brederodes.22U Í^^/l/1 '"/ CHANAAN tempo ? Vamos a uma partida de manilha ? Paulo Maciel não temia o tempo e. Uma coisa affirmo : nada sabe do officio. eu os espero no quarto. Será bonito e asseiado. Itapecurú. doutor. que ajuntou por sua vez : — Mas o dinheirinho no fim "do mez não se engeita. — Também pouco se perde.

Não tardou o <ffly$tyà*-fà*. desaíío-o para uma bisca. Brederodes. acquiesceu Pantoja por entre baforadas da fumaça de cigarro. Não vejo geito. e que acompanhava por divertimento. com aquelle vago receio do tédio. está se preparando para nos governar. Neves! — Prompto. disse pressuroso o juiz de direito. até que o promotor. — Pois sim. que tanto o perseguia. ficando só. não querendo desistir de jogar. deitado na relva. O juiz de direito trazia sempre um baralho de cartas na mala para essas excursões judiciarias em que nada tinha a fazer. Os três jogaram algum tempo. e ergueu-se meio atordoado. O official de justiça estava a cochilar. passeiava nervoso. doutor. O promotor deu-lhe uma ordem que elle partiu a cumprir. agitado de desejos lubricos. seu doutor. Riram e ergueram-se para jogar. Só si V S. quando o viu ainda de longe. — Qual! seu doutor.tÍÇ£r t*WÁAff-*TU> f — Então ? perguntou o promotor. respondeu Brederodes. capitão. visse .CHANAAN 221 — Sim.abandonou o seu logar. — N'este caso. aguente-se para uma sova. — Como assim ? — A bicha é arisca como quê. pretextando cançaço. Brederodes no terreiro chamava em voz baixa o meirinho : — Neves.

sensuaés. Ainda que tudo isto aqui arrebente. Deixe estar. Este ficou só. Ahi o seu companheiro.. seguiu pela casa a dentro. Elle deitou-se de manso e poz-se á espera de que a noite avançasse. não reparou como já vae bem adeantada ? Brederodes ficou colérico. e um pouco acalmado no seu furor. Ao dar com alguma porta.. Brederodes resolveu vir para o quarto. ruminando vinganças. punha-se á escuta.reconhecia Ustn-o Jèu^i*'"'^* <**y*~ frf . e os olhos na noite escura brilharam felinos e máos. ^ m i e era o escrivão. como si ainda tivesse o que perder. Uma fluxão de sangue subiu-lhe á cabeça. Levantóu-sê sorrateiro e. n'uma meia allucinação. por um movimento. — Ella me paga. V S. rangeu os dentes. tinham-se resignado a deixar o baralho e estavam deitados nos quartos. fugindo ao desabafo do promotor. mortos de somno.. Vou vèr si ainda dou uma volta no caso. resonava.. FyJié» de esperar.. os colonos não davam signal de vida. e quando na volta do corredor o clarão se acabou. ás apalpadellas foi tacteando as paredes.\ apenas alumiado pela frouxa luz de um candieiro de azeite que estava na sala.. Nem me respondeu. E desappareceu na direcção da casa. Corja de allemães ! — V S.. e n a * nente nevrotica pasfâlvam perturbadoras miragens .. o ^ridii meirinho não voltara. Os dois parceiros. um signal qualquer. para vêr si.222 CHANAAN o nojo com que me olhou. Na casa tudo se aquietara. (b teu sanguf voltava ae*/ímpetos dd deseW. não se zangue.

dr. — Sr. Tentou abrir a porta. S. V. De dentro ouviu um rumor de alguém que acordara... « Miserável » pensou. rodeiados de creanças.• / ê i-0 /cobrif. Outra porta estava em frente. E com esta esperança passouadeante nas trevas.CHANAAN *~ ~ * \ 223 o quarto de MaúayfÁJ um momento deum^des.. No dia seguinte. o meirinho annunciáVa ao toque de campainha a audiência dos inventários dos vizinhos de Kraus. Isto naturalmente é o quarto dos velhos. Na sala o juiz municipal e o escrivão estavam no seu posto.. esperando ser chamados. Poz a mão no trinco. Brederodes. seguiam atemorisados a scena. ás neve da manhã. á mesa. n'um instincto salvador que lhe fazia adivinhar no escuro o caminho do quarto.. — Pôde ser que não seja aqui. nada. encostados á parede. com raiva o promotor.. o promotor e o juiz de direito á janella conversavam. voltados para dentro.. em pé. e uma voz assustada de velha perguntar : — Quem é ? Es tu. mas um vago vislumbre da consciência da sua falsa posição tolheu-lhe o movimento. tem de funeciona &/ . Mas'esta estava ' / fechada á chave. Maria? Brederodes recuou para o corredor e deixando a porta aberta deslisou nas pontas dos pés. Escutou . Brederodes palpitou alvoroçado. Um impulso de arrombar a porta tomou-o. a tramela levantou-se e com a pressão^ajDortaJabriuíe^rangendo. duas mulheres e um homem.

sabe que é depois.. — Ha quanto tempo seu marido é morto? perguntou o escrivão.. no fim do negocio. disse o escrivão. Ha uns desvalidos que precisam da protecção legal de V. Pondo o chapéo. Depois de alguma hesitação. se approximou. que se precisa da sua benção. Em seguida. assestou o monoculo nos intimados e sahiu magestoso. vou dar um giro ahi fora. uma camponeza alta. motejando. '>— V S.S. Todos comerão do bolo. iniciando o interrogatório deante da apathia do juiz municipal. — Bem. n'este caso. passou a tomar as primeiras declarações da viuva. que triste e subjugada por aquelle apparato judiciário.. como nada tenho a fazer. ia respondendo documente a . Itapecurú. aqui todos herdam sem a menor cerimonia.. — Sempre o mesmo. n'um sorriso idiota.. ainda moça. seguido pelo riso zombador dos que ficavam. — Viuva Schultz! chamou Pantoja. Juro. O promotor teve um risosinho de satisfacção e veiu sentar-se á mesa.. — Ha dois annos. emquanto os senhores preparam o prato. — Não é possível arranjar alguma fatia para mim n'esta festa ? perguntou o dr. Isto vae acabar.. Ninguém cumpre a lei.2->'i V CHANAAN como curador de orphãos nos três inventários.

sinão temos conversa no Cachoeiro. pôde ser que tenha mais ou menos. — Quantos pés de café tem a sua colônia ? — Quinhentos. eu arredondo a cifra.... A mulher ia se retirando. E calado.CHANAAN 225 tudo.que.. — Só? Não minta. despreoccupados da audiência. /// Depois de algum tempo. e um immenso pejo a assaltava. para receber os seus papeis. Que desembaraço! Ainda não lhe disse o principal.. eu plantei uns cem n'estes dois annos.sem nadadizer áinteressada. segundo o seu velho processo de tudo //• fazer elle mesmo e/augmentarijiy descaradamente y . sommou13.. não contei um por um. meu defunto marido avaliava em quatrocentos. N'üm papel escreveu varias parcellas. escreveu : — Mil e quinhentos pés de café. no meu cartório. observou com accento escarninho o « maracajá ». radiante de allivio. . A mulher a cada passo soffria descomposturas insolentes de Pantoja.i o valor dos bens pára accrescer os seus lucros. levantaram-se e foram entretidos para a janella. — Bem. disse á colona : — Agora pôde ir. D'aqui a duas semanas appareça no Cachoeira.. — Espere lá !.além de tudo. não sabia ler o portuguez. senhor. — Mas... Continuava Pantoja a lançar os termos do inventario. O juiz municipal e o promotor.

veiu sentar-se no seu logar e se interessou um pouco por esse grupo. A mulher. aqui não se faz esmola. com um ar apatetado e longínquo. vestida de luto.... passou a se occupar da ultima intimada.. sahiu cabisbaixa da sala da audiência. o ar da miséria. . Meu senhor! — Não tem meu senhor nem nada.22G *7 CHANAAN as resmungando e disse comsigo afinal : — Cento e oitenta mil reis. — Está direito. Ouviu? — Trezentos mil reis !. que esperava a sua vez de ser apregoado. e dê-se por muito feliz.. Pantoja chamou o colono. olhe leve comsigo o dinheiro das custas. muito baixa e ainda joven. porque não houve demanda. é que havia de ser bonito. tem de se haver commigo.. Trezentos mil reis. E depois de repetir com elle a mesma cousa. cançado de estar em pé. Paulo Maciel. Nada de conversa e bico calado. — E viuva ha pouco tempo ? perguntou elle.. Si tivesse de metter um advogado. A colona lançou olhos de supplica para os dois magistrados.. esmagada. Si eu souber que vosmecê andou batendo a bocca pelo mundo. Sem um apoio. que continuavam indifferentes a sua palestra. cuja cabeça dourada se realçava radiante por entre a pretidão das roupas da mãe. Trezentos mil reis !. Trezentos mil reis. s? approximou*TJma filha de cinco annos lhe (seguravayb vestido e ella carregava ao collo outra.

que já vinha doente do peito. no fundo de todos elles temido. A colona... afinal... — Como é isto ? disse tremulo o escrivão. Não é verdade ? — Apenas houve tempo de levantar a casa. disse Pantoja. Brederodçs .. Não se plantou nada. considerava como uma invasão dos seus privilégios. A mulher ficou pensativa sem responder. V S. — E triste! E como vive você ? inquiriu compassivo. — Naturalmente tem algum amigo que substitue o defunto. habituado a fazer tudo. disse : — Estou em trato para vender a minha casa e vou me empregar como creada em outra colônia.. Que diz a isto. Paulo Maciel. respondeu a moça.. seu Pantoja. fazer o roçado para a plantação. fingiu não ouvir.. não durou muito. para evitar uma discussão com o subalterno. não ha inventario a fazer. esta é muito boa. Meu marido. — No fim de contas..CHANAAN 227 — Dois mezes. para se vingar do interesse do juiz... — E desde quando está no Brasil? — Ha um anno apenas. o que elle. E melhor mandal-a embora. — Estavam principiando a vida. tem competência para dispensar na lei ? Ora. dr. opinou Maciel...

pérfida... de fluido nervoso.o desenrolar de uma lucta cornos seus collegas. Juiz municipal. era dispensar o inventario-. com esse escrivão chefe político. Os juizes passam e os escrivães ficam. — Está bom. lucta inglória em que elle não se queria estragar.. i. é o principal interessado.. E si o senhor não quer fazer ex-officio. não precisava de consumir !... distincta descortinou-lhe. seu subordinado legal. envolvendo-a n'um clarão de bondade.. dr. Mas para isso. cheguemos a um accordo. e a intelligencia fina... apossando-se da situação que o superior lhe abandonava. — Não concordo na dispensa do inventario. Inventario é inventario. Façase apenas um arrolamento summario dos bens.-228 •ÍA l-J CHANAAN V S. em vez de um inventario formal.. mandão da localidade. respondeu o escrivão. O seu sentimento era suspender. sr. prender este escrivão insolente.. que somma de energia. Paulo Maciel ficou sem saber o que dizer deante de taes attitudes. Trata-se de orphãos. aqui está o formulário official e / . — Isto é uma novidade para illudir a lei. . dr. não me mostra esses arrolamentos. Pantoja mediu-o triumphante. eu requeiro. era ainda por cima dar dinheiro do seu bolso á desgraçada e mandal-a embora. acudiu vivamente o promotor. propoz com uma voz fatigada. Valeria a pena ? As suas poucas forças o trahiram.

V S... E voltando-se para a colona : — Vá. ia dizendo o juiz municipal.. seu Maciel..CHANAAN 229 — Homem. não venderá a casa nem o roçado.. colérico e intratável. — Venda a casa. E o inventario foi feito como os outros. eu prendo os papeis.. Deu uma risada secca. — Primeiro a Justiça. Lagrimas!. — Deixemos de scenas. atalhou o escrivão.. No fim. — Sim. á mulher moça não falta dinheiro. Todas ellas choram. Si não quizer nos pagar. É pouco? — As custas são o azeite da machina do foro. não entende d'isto.... quando o escrivão intimou a colona a que lhe desse duzentos mil reis..... disse o promotor... Que mal ha em fazer-se o inventario ? — Que mal?. dividas da moléstia e depois trabalhar para outras novas. obrigar esta pobre mulher a pagar mais custas. meu senhor.... vou vender o que tenho para pagar as dividas de meu marido. mas a mim ninguém me embaça. Atordoada como uma . é rapaz.. e agora vamos vêr. com as mesmas extorsões e violências. — Capitão Pantoja. deixe de luxos. veiu hontem ao mundo. esta começou a chorar. — Deixe o caso commigo. objectou alegremente Pantoja. Era só o que faltava. — Mas não posso arranjar tanto dinheiro. Querem obrigar a Justiça a trabalhar de graça.

. — Que é ? interrogou inquieto o colono. que o fitou espantado da intimidade. ajudados pelo meirinho e pelo dono da casa. O dia era abafadiço e dominado pelo sol. dizendo-lhe zombeteiro : — Vá. capitão. como para cahir. não se espante.230 CHANAAN somnambula. camarada.. Advogados... apontando o colono : — Ainda não' tive a minha conversa aqui com o amigo. penhoras. Você pôde. arrastando os filhos. os animaes estavam sellados para a partida. O escrivão empurrou-o de manso... Pantoja chegou-se ao grupo e disse ao promotor. na garganta a voz morreulhe n'um espasmo. que mantinha sempre com a luz poderosa um grande silencio... — As nossas custas. Uma vertigem o ia tomando. o senhor é de força.. O homem vacillou. Depois do almoço. meu amigo.. a colona sahiu. Os juizes vieram para montar. demandas.. Sob aquella pressão. Quatrocentos mil réis.. vá buscar. mas ainda falta alguma coisa. Olhe que o negocio podia ser peior.. — Bravo. observou lisonjeiro o juiz de direito. accrescentou n'um gesto de irônica cortezia : — Muito obrigado pela hospedagem. Está me cheirando mal o fiado. E batendo rio hombro de Franz Kraus. o colono foi caminhando automaticamente para a casa. E por isso dê-nos logo. amigo.

as faces inchadas e rubras. o colono via com os olhos desvairados a Justiça sumir-se na estrada. F i quemos bons amigos. olhou-o com um grande nojo. Procure os papeis no cartório. Tinha os olhos vermelhos. murmurou olhando ^ e d r o s o para os lados : — Ladrões! //&r*/~ i^*'*' . no fim do mez. está chovendo na sua roça. de chapéo na mão. Em pé. no meio do terreiro. E quando Ella desappareceu e tudo voltou ao socego profundo. disse Itapecurú a Paulo Maciel. Depois de alguma demora.. — Muito bem. Subitamente. . — Parabéns. Agora" tudo está em ordem. n u m a raiva immensa e cobarde. respondeu o escrivão. E montou. A cavalgada partiu.. appareçeu o velho Kraus. estimulado. Chorara. Pantoja recebeu o dinheiro e contou. mudo e abatido.. ficou elle longo tempo com a vista jpjffààfy na mesma direcção. que os ia impacientando.• CHANAAN 231 — Ainda não viram nada. O colono olhava-o. O juiz municipal. sem dar-lhe resposta.. a cabeça ao sol.

e sem poder dormir noites e noites na afflictiva anciã de querer salvar-se da deshonra... nos serviços domésticos. fraca. de uma immensa e mofina vergonha. preza de um grande temor. desconhecida e forte.VII y/y // A'l^-'de Continuava Maria na colônia de Franz Kraus no seu mesquinho penar. cobarde. e ella $é deixavá ficar na colônia e na vida. Desesperada da volta de Moritz. sem preoccupações alheias. definhava languidamente. Assaltavaa muitas vezes um desespero de fugir. de ir para longe. no mesmo ruminar desespero e de agonia. . e queria morrer. as forças não lhe acudiam para qualquer resolução. vivia como uma louca. vigiada pelos olhos cúpidos e inquisidores dos velhos. Mas. Outras vezes. esperar que das próprias entranhas lhe viesse a salvação e o consolo do futuro.. volteando apatetada pela casa. que o tempo indifferente e implacável trazia cada vez mais á flor..

n'um cons. que se quebrou. processos. sem um movimento de revolta. sentiam um ódio surdo contra ella. A todo o momento eram ralhos e insultos. subjugados pelo /píffiító e crescente jljcc*^ "-> terror que lhes deixara a visita da Justiça. diziam inconsolaveis. deixasse cahir um prato. Não se conversava mais. em cochichos de vingança ou em planos para "se verem livres de Maria. E d'este w** modo. como uma manhã. Assim viveram algum tempo esses desgraçados. com o ar transfigurado que lhe punha a } amargurada maternidade. Maria. tudo fora tarde. tomada de um suor frio. Mas as suas cabeças não eram inventivas. que é o único encanto d'esta. a velha Emma enfureceu-se e começou a insultal-a . a vida n'aquella colônia era uma tortura para todos. mais a indifferença pela existência. E. e vendo-a mover-se pela casa. nem mesmo para a maldade . Viam desfeito o casamento do filho com a herdeira dos Schenker. n'um passo tropego. erguida alli como um estorvo ao desafogo da ambição d'elles.(( lavei.CHANAAN 233 Os velhos não tinham mais illusão sobre o estado da rapariga. aoDravam-ine os rraDainos. e é&T ~ com desespero nevrotico dúé^viam a misera inaba. E agora passavam os dias muito unidos. ficavam irresolutos. não havia mais o esquecimento do tempo. com as mãos tremulas. já fatigada de trabalhar.fl/Qtante gesto de somnambula. eram exigen- quasi comida. com medo de .

e foi debaixo de maldições. sem hesitação. berrava Emma. n u m a ameaça de morte : — Fora. A rapariga obedeceu automaticamente.. canalha. Sáe. levada pelo impulso das ordens violentas. Fora.2. rangendo os dentes. agarrou uma acha de lenha e brandiu-a.. Cf Maria correu ao quarto. querendo se refugiar. e ordenou-lhe : — Parte. Franz estacotLili.... A excitação dos velhos. avançou colérico para Maria que. Vae-te d'aqui. Por entre a folhagem verde. livida.. Maria sahiu para o terreiro e. ordinária. para o desconhecido. collou-se á parede. ia recuando. offegante. de súbita que fora. communicado do mesmo furor. e transbordando-se-lhe o ódio. — Fora e já....14 /í*- CHANAAN n um berreiro. caminhava firme. Franz correu á cozinha. peste.. Emma segurou a moça pelo braço. E foi então que Emma gritou : — Miserável. Carrega teus trapos. uma baba viscosa a escorrer-lhe da bocca contorcida... O marido.. intimidada. de pragas rancorosas. suja.. protegendo o ventre com as mãos. Sáe.mui i h l h . que a misera entrouxou algumas roupas. a rapariga.. o velho alcançou-a e com violento empurrão impediu-a de fechar a porta.. que apertou com violência. Vae-te embora. possessa. não deixava de prolongar-se. fugindo atordoada do alarido. os diúi cabellos descobertos iam espa- ...

. entrar sem rancor. n u m a insondavel^sj^áção.. reconheceu. que lhe entorpecia os passos e flra despertava a consciência. miserável. o jardim... um cafesal verde. E foi caminhando. desmanchar com o sorriso o pesadelo monstruoso.. //fofam . a voz de Emma : — Vae. inconsciente e desvairada. tudo era apanhado pela sua aguçada retina.. E na memória os quadros da sua vida desde a infância.. Tudo cortado.CHANAAN 2.. cuja razão não percebia bem. Vae..Tudo acabado. quando se dispunha a retroceder.. um reflexo-de sol. sem dar fé da sua direcção. seguia-lhe no encalço. perdição de minha casa... Sim.. Não dizia $A palavra. não mumurava uma queixa. Quiz tornar á casa..15 lhando o fogo do sol... Via-se expulsa da Velha casa que lhe fora o lar. até que lhe chegou a fadiga da energia em que se mantinham os nervos. sem explicação. e os olhos grandes e limpos tinham o lustre crystallino e secco dos frios espelhos... voltar! Mas.Uma arvore cortada.. Sob a grande e funda emoção as idéas tinham-se congelado JtíÁ^y^l a sua visão dilatada ia notando e retendo os pequenos incidentes da paizagem.. um animal que se movia no fundo negro da matta. Atraz. trazendo-lhe uma sensação de desanimo. um fio d'agua.. Era uma estatua marchando. Maldita! Maria andou algum tempo.n'um impefo de cólera. como um latido de cão. que des- j/p /. voltar. o mundo !.

imaginando poder tão simplesmente restabelecer o que estava extincto. Na pequena alma de mulher rústica e simples de Maria. não o tornara a vêr. e os dois pequenos edifícios de atalaia davam maior tristeza á solidão. houve um rebate de esperança. QdamÂ/pt depois de duas horas de marcha. 1 fl/tí^<~tffá}/fâdy(/yffl/0i appello de salvaçãoj^è* ** "/**' yfyyyy o pastor de Jequitibá. . o sacrifício. porque a falta absoluta de outro apoio no mundo lhe ídcJéphUft. Desde aquella manhã da missa. Mas foi instantânea a hesitação. começou a /f~. Parada. a rapariga avistou a egreja e a morada do pastor. pois um grande pejo a afastava das /. A paizagem era limpa. povoando de gente. cio da estrada.236 CHANAAN vairava. . um sobresalto de terror^he^acudiiAo corpo. e com a saudade ia enchendo.• casas conhecidas. chorava. ^ agital-a.. ^*?^~w. mas da sua d _ ' tímida e doce figura de camponio lhe ficará uma / agradável impressão.. os olhos embebidos no / próprio corpo. uma extranha / ^ZZrv^-mtrepidez. &icaminhou-se^ara os logares mais invios.Começou a subir. E á proporção que Maria subia. recordava-se da ultima festa da colônia. . um abrigo n'aquelle deserto. dando-lhe animo para prag^guir no silen/ ' ^. com a cabeça pendida sobre o seio. que ella seguiu confiadamente. Lembravam habitações humanas perdidas no deserto. lembravam o isolamento. o abandono. c*v Uma vaga inquietação de não pyiiídnjxax um ( 'i pouso.

e n'um impulso nervoso tocou a campai/ ' nha. de vida.. o que era a ' paixão do novo pastor. o vazio descampado das montanhas e dos valles calados. Ella recompunha também os instantes em que vira Milkau e. uma mulher de preto no fundo. desfallecida um y/Jsr*W*^\ instante.. deu-lhe um tremor. o terror do recolhimento d'aquella casa aHi£<fou-h\e as for. mas o medo *>da solidão. Passou adeante e em face da porta fechada da casa tremeu mais. c . levada por essa corrente de evocações. emquanto elle dormia. jlJL (£dduâ6 chegouao alto viu a terra em roda dajifí1 casa. e a voz infantil.. veiu-lhe um novo esforço /( . Alagada em suor frio. j . cabeças alvas de creanças movendo-se ibelhuda/ pa£a ella. A de valor. Depois.. e viu uma sala escura.. talhada e preparada para jardim./yfy versai. Maria passou cabisbaixa. ia scismando com a musica do harmonium que soava na capeljinha.. Era ahi a escola regida pela irmã do padre. na parede uma cruz negra envolta no sudario. que xeúniu di^filtí^ n'aquelle repouso uni. De uma porta aberta vinham vozes de creanças soletrando. atí/ou ao chão a trouxa de roupa e se * jy apoioji á parede. monótonas -— f£»0 e cantantes.<y tra. mais forte e estridente. sinis. ' / A mulher do pastor acudiu á porta.CHANAAN 237 de vozes e gestos.///l*"r' 1 ças. Olhou de soslaio. que proseguia desarticulada. Maria quiz fugir. infatigavel. da montanha deserta. assustada w****™ Mí rt/t*~** —i yr~* ' zS£sâj&&*>A**^ . de movimento.~De dentro nenhum outro rumor ffffa P a r a aDafar a v o z da c r e _ anca na escola.

achando extranho o pedido. "{y^y ^ sempre com a sua voz macia. K A6 o r a i a este mofino contacto d/piedade... Afinal. Poz os olhos no chão. tinha uma voz de uma doçura inesperada c que se não casava com o seu porte rústico. uma colônia.respondeu soluçando a miserável. / — Você não tem uma casa... minha filha ? Maria não respondeu. Frau Pastor se approximoú^ / bateu-lhe no hombro : ** — . abundantemente. grandes lagrimas rolaram-lhe pelas faces. interveiu com meiguice Frau Pastor... rava... cás^jlecantido d/arrancanwy alguma coifsa sobre *y í /*" a:suásituação"e^lhe r dar&ir*maisconfiança. — Vamos.. ^7w/£»*^ O pastor fftydA confuso. jjj^Velle. Depois. que lhe aconteceu?.238 CHANAAN pelo barulho. depois de confusas explicações. jtfl erecto como u m T ^ l a d o e vestido como um jardineiro. onde a rapariga o espe/. com uma expressão de espanto que ainda mais atemorisou Maria. que lhe sahia do ^ÍP^ ^ * ^ ^ e Í í o d e touro como um balido deovelha.. que veiu logo á sala. entrou esta para falar ao pastor. muito vermelha e tremula. eu.? ./fríraT y" H-/ / 7 . — Eu. Nós não precisamos de mais creadas. um agasalho... r-. — Que deseja. • « Que lhe aconteceu ? Perdeu seu emprego ? * (bjjjü. As pessoas da . __ « -/ ' mSna^0ff0f. (jfdfáfá MariaJÍBBHficou petrificada. queria. Maria f ^ fjT ch/rava sem pejo.. Jh véi-e. O homem..

dizia o sacerdote com o geito astuto do camponio. severa e silenciosa. ainda não me disse porque deixou a casa de Kraus. esperou que tudo se explicasse. trocando um olhar com a irmã. onde Frau Pastor era uma sombra do marido. Frau Pastor. ergueu-se por instincto.. e ella o tinha submisso. — O h ! Oh! Então o negocio é grave! Que falta commetteu você. O irmão explicou-lhe o assumpto. — Vamos. A irmã do pastor. entrou na sala. temendo a explosão da cunhada. uma grande /J.. amedrontando-o com as regras religiosas. a auctoridade da cunhada era decisiva. Era o alegre rumor da liberdade. clamou zombeteira a professora. que mirava com olhos devassadores a rapariga. rústica e marcial como elle. fiel aos seus hábitos de nunca perguntar. O pastor a temia.. por entre lagrimas.. Fora. e pelo instíricto da obediência respondia. filha. para deixar a sala. — Ora.. Na casa. Eu sei bem porque os seus .CHANAAN /am a lha jéropôr variao queotoag'^ Pouco a pouco 'ella se foi acalmando. algazarra ijti^^ e gritos festivos de creanças soltas [f se foram perdendo pela encosta da montanha«abaixo.. fui expulsa. deixemos de comedia. Mas a curiosidade reteve a sua alma de creança. para tamanha punição ? A professora. — Vamos. interrompeu o inquérito com uma risada secca. Como posso tomal-a sem saber de tudo? — Não me quizeram mais. e essa mulher.

não era para aqui que se devia dirigir. a consoladora. a incendiar a irmã do pastor.. Desencadeiou-se a ira do Sei nhor. Vá. a amiga do homem? — Oh! minha senhora.. a torre fechada. com aquella maldita e doce voz. aqui é o logar do amor de Deus.. Mas era uma compaixão sem agasalho.210 CHANAAN patrões. regenere-se. a ft 7/ ... medrosa. mulher. que devem ser gente honrada. Divertiu-se? Porque chora? Temos nós culpa dos seus prazeres? Olhe. JâuLkpx -Maria cessou de chorar e jtíMl^/ espantada que alli também todos estivessem loucos... inane. Vá para a sua vida. disse : /YrvoTw — Em nossa casa nãol^yyfyytjji^f^o prazer. e talvez o coração.. a mesquinha Maria. já que entrou n esse caminho. o que vem do sentimento sexual. E ao passo que a rapariga ia deixando a casa. Um olhar de piedade infantil escapava de Frau Pastor. Não era ella a mulher incompleta. a puzeram na estrada. Ergueu-se da cadeira o pastor e muito solemne. o maior de todos. O seu é horrível. Era o grande ódio. Lembre-se de que todo o peccado tem uma punição... lhe inspirasse maior piedade por aquella esvaída sombra de gente. a m o rada de Deus. Esta é uma casa de respeito. a inabalada. Fora.. O pastor empurrou-a de leve para a porta.. Maria lho retribuiu. que tudo faz comprehender. acariciando-a paternalmente. Vá. era a perturbadora. emquanto a outra. que mal lhe fiz?.

cuidado na descida. emfim. e na sua febre sentia-se como que apertada. Si não fosse terrível a morada de Deus! Vá. vá! E quando Maria se viu no alto da montanha e olhou deslumbrada. pobrefilha. o desespero do desamparo na matta. filha. Ficando só. as pri. suffocada pelos morros e enterrando-se n'elles. Isto aqui é muito solitário. correndo. começou a descer. filha.Si este logar não fosse sagrado. • cendio do dia.etótófe<ám-se da luz serena da tarde. e o que a impellia para a frente era um vago terror da noite.. . grande in. preguiçosas. 14 . Maria. arrastada pelo medo e por um assomo de vergonha. filha.CHANAAN 241 voz do padre se revestia de um accento cada vez mais delicioso de ternura : ... livres do. a^porta se fechou? e tudo o que era humano alli desappareceu n'um immenso silencio. Era o soffrimento animal n'uma alma rudimentar./Yrt/>' meiras sombras.. Jy^Jr^'Transformava-se a expressão das coüsas. minha. deitando-se longas. Transmontava o sol.. todas as scenas violentas d'esse dia se misturavam extranhas como n'um pesadelo. que pena! Como soffrocttnãopoder guardal-aém minha casa. poz-se a caminhar pela que levava a Santa Thereza. No seu coração innocente. á cruz das estradas. os valles apaziguados e. allucinada.. Ao chegar abaixo. Depois. a montanha. e as encostas dos morros. cuidado com os caminhos.. —Vá. a voz do pastor ainda lhe cantava ao ouvido: — Vá. na sua intelligencia confusa.

. dilatados pela claridade crystallina do ar. a sympathia dos semelhantes. deliciosa. a viagem dos pássaros na limpidez do' céo.. sentindo-se attrahida pelo feixe de forças humanas. em cada uma das casinhas da matta brasileira. impellida pelo imperioso desejo d & j M j ^ o e * * ^ conchego. então. E.. inoffensivos os animaes. Da t . arrebatada pela fome. as famílias dos emigrados se reuniam n u m olvido feliz. na opulenta terra de Chanaan. com IP j ^ l sua calma de louca. A miserável sentou-se desalentada sobre a borda do morro com a vista perdida nas habitações. mas o vácuo da fome. que não era só o cançaço da corrida. e aquella hora. Das chaminés sahia fumaça. ^---^*2^"ando. ergueu-se e desceu rápida para o grupo de casas.. mas ÍM3 ella proseguiu pelo terreiro a dentro.ahi chegou. No fundo do valle Maria viu um núcleo de colônias engastadas na vegetação. Aos seus ouvidos subiam vozes humanas. alli. que ella escutava. ***** Maria.. Maria teve o Ímpeto de «erprecipitap-clo alto sobre as casas que estavam a seus pés. não havia ninguém fora..242 CHANAAN como tomadas de somno sobre a relva avelludada e voluptuosamente verde: os pequenos ventos acalmando a febre da terra inflammada .. como uma musica sussurrante. esquecida da sua triste situação. Outra fraqueza a pungia. a fadiga physiologica da maternidade. sem o menor pejo. tornando. o calor. reunidas n'aquellas vivendas.. e em torno da mesa esperavam a ceia. // Os cães R e c e b e r a m ' n'um atroador alarido.

maluca. Na sua carreira chegou até uma pequena matta que o caminho cortava. fora. Correram as mulheres para 1//"^ o interioii M. maluca! maluca! A moça fugiu n'uma desabalada corrida. Os c#es excitados ladravam furiosamente. Foi um pânico. Homens e mulheres chegaram á porta. « gosa doida vagabunda.. Homens e cães^rperseguiram^lguns naomentoe. n'um grande berreiro. sem saber o que dizer. Assaltaram-na de perguntas. amedrontando-a. — É com certeza uma maluca.1 primeira morada sahiram para vêr a razão do alarma. Maria recuou d^èttddddídfjsem perceber bem o cuo6~ que se passava. que se communicou/yj!$//amente. maluca. raivosos e ululantes : — Maluca. / " — Fora. fcffdtos homens pegaram em páos e ' yjr avançaram psópgüa. alguém disse : . fazendo coro com os vizinhos. e das outras casas a gente sahia para o pateo.. A claridade da tarde ahi dentro esmo- ..//tS^«^/' e todos se julgaram em presença de alguma peri.. fugindo espavorida para longe d'aquelle ponto. e ainda continuava mesmo offegante a correr. Já Maria voltara á estrada. E como no seu enleio a miserável respondesse por disparates. Ui/rJi****^". a fugitiva como que despertou e ficou intimidada.CHANAAN 24. — Fora. ainda mastigando e aborrecidos de ser interrompidos/Ao enJMÍi/ar a gente.

' As arvores soltas choravam ao vento. aterrada. a mesquinha derreou-se aos pés seculares de uma arvore. Na várzea. Das mãos tremulas e despercebidas cahiu-lhe a trouxa de roupa.. impalpavel da ' Terra. E o poder de visão redobrava á medida que a sombra surgia mysteriosa nos meandros dçf 4 J wasqui.. ao clarão indeciso do crepúsculo. perfilavam-se tenebrosas. Os pti* . batida. Maria ficou pregada á beira .da floresta/ sem animo para entrar. Augmentavam as sombras. (. Os caminhos. os seres tomavam ares de monstros. subindo ameaçadoras da terra.. -etí* espreitava o rumor e o curso das coisas.. como o bafo vaporoso.e urna inexplicável e funda attracção por aquelle sombrioe tenebroso mundo a retinhaextatica.. ouvidos apurados.. com medo de penetrar na sombra./„ J"^. As montanhas. e de olhos dilatados. e.. azues e pardas. desamparada. Na sua imaginação perturbada sentia a natureza toda agitando-se para suffocal-a. cojjoo^carpideiras phantasticas da natureza merfaT. sem animo para íugir. Pela estrada interior iam e vinham borboletas enormes. até perder os olhos na outra longínqua porta de luz. n u m vôo captivo e arquejante. .. Maria parou. j f^ ( CHANAAN recia ainda mais. nuvens colossaes e tumidas rolavam para o abysmo do horizonte.IA / .. espreguiçando-se sobre os campos. postada na abertura da floresta.2í'i /Pu &tic^ ~J2 ! /-*.. tomada de um calafrio. No céo.. EjfgotTada de forças... espiou para dentro.. vendo-se colhida em/pleno deserto pela noite.. s^^Tn^fg^ f grqi 1 f' pg s^rpmrrsrfflfiajtas.

abatida por um grande JYt^^M^ torpor. e o« fogos 0j> JyfâyfjfíJJjfa/ espalhavam ahi uma claridade verde.^ ^> \ ? Cvf.. sobre a qual passavam camadas de ondas amarellas. /^'r^^rtfA Serenavam aquellas primeiras ancias da Natureza. /Al rr~~"W arvores. A desgraçada.. como si as raízes se abrissem em pontos *i~ttc4*u>>-u luminosos.. e myriades e myriades d'elles cobriam os troncos das arvores. .^ Njoem a illuminar.. alaran- /y & w * ~ **• "•* ./.. O que havia de hi\ ?T '~*" vago. No ar luminoso tudo i^uejU^ retomava a physionomia impassível.s iam-se xnulti-J(^VX^Y ** plicando dentro da floresta.'. que faiscavam cravados de diamantes e tqpazios^Era uma illuminação deslumbrante e ^ g n o g y ^ e n t r o da matta tropical. e v <Uo jy . no desenho das coasas 0 -^ / <crer r< transformava"em límpida nitidez. cançados não ac/ídiam aos Ímpetos do medo e t c y deixavam-na prostrada em uma angustia desesperada.."^f""". deitada ás plantas da arvore.. começou a dormir.. Maria quiz fugir.( M . e insensivelmente bro. tavam silenciosos e mnumeraveis nos troncos das / . ao penetrar no mysterio da noite.. 1/ I as estrellas miúdas e successivas principiavam tam. as ar^/>«>vores esparsas na várzea perdiam o aspecto de p ^ phantasmas desvairados.. mas os membros . No alto. V / Os prirneiros vagalumes começavam no bojo d a / ^ / w /matta a correr as suas lâmpadas divinas. tí*T" . ^sr acalmavaiTKna immobilidade perpetua. de indistincto.(ji4F $t*r* CHANAAN 245 / _meiros pássaros nocturnos gemiam agouros com pios fúnebres.^^.. pouco a pouco foi vencida pelo somno. Qs-pyíHftairrpo. As montanhas ' /«'-/*. . Os pyrilampos já não voavam.

. vestida defflídfktíwjt^. Sobre a cabeça dourada brilhavam reflexos azulados./ . cojno si a flo. jopf'£. como tocada fde uma morte divina. Âzzsa esmeraldas. a carne da mulher desmaiada. saphiras. t \ f. parecia partir para uma festa phantastica no céo. E\os pyrilampos «s* incrustavam-V» nas folhas e aqui. e interrompendo a combinação luminosa da matta.•" *i&di rubins. mãos.. transparente.. era • J como uma opala encravada no seio verde de uma ÉL esmeralda.. os andrajos desappareçeram n'uma profusão infinita de pedrarias. Ull'kArt^''^x'dÂ. cabellos se sumiam no montão de fogo innocente E yd&Ç&inj&is vinham mais e mais. não se^ouvia mais o agouro dos pássaros da morte^yTvento que agita e perturba/. violaceose d'ahi a pouco braços. A sua immqbilidade era absoluta. mesclados com os fc I pontos escuros. como lagrimas dasestrellas. Depois os y&gamntóâ' incontavei^co.'/-^^briram-na.. .Por toda a parte a bemfazeja itanquillidade da luz.UCt 246 \ sMM****** // CHANAAN jadas e brandamente azues. e assim ella recebeu n u m halo dourado a cercadura triumphal. aili e além. collo. para um noivado com Deus. ' .ar*aÜg*r. E os pyrilampos desciam em maior quantidade sobre ella.o poder d'essa luz o mundo ira da um silencio / ' i(M> religioso. As figuras das arvores ae-desenhavan^envoltas n'uma phosphorescencia zodiacal. e a desgraçada. Maria foi cercada pelos pyrilampos que vinham cobrir o pé da arvore em'que adormecera. fyn :^. amethystas e as mais pedras jfó4/ J/a^q^h parcellas das cores 4 i y i n a s e eternas. dormindo imperturbável.

Pyrilampos espantados faiscavam relâmpagos de cores. e. começa o canto dos pássaros. despida das jóias mysteriosas. for. e tudo se esclarecia de outra luz.. Ias abandonam o céo.. e um perfume concentrado durante a noite se dfyffflfâffi.Jl&rZÁ** lampos. de todos os galhos da floresta sáe uma nota musical.. Maria IJ^jWJt conheceu-se a si mesma.CHANAAN 247 resta se desmanchasse toda n'uma pulverisação de luz. _yt rado de umjl 44frf$í e recahiu adormecida na face /// dbévf illuminada da Terra. ' O silencio da noite foi perturbado pelas primeiras brisas. os Vctó^itóí vão se apa-''''^ gando medrosos e(se\occuftand/)no segredo das b-j selvas.*M t£o>y~ mando uma luz turva. Na ax-'""i vore que agasalha Maria.. indecisa. abriu os olhos. infatigavel memória lembrou-lhe a agonia. Maria foi emergindo—dosonhorA a s u a innocencia detodo o pec^a^^dWlípexfeita confusão com o Universo / f &/£ acahff ao rebate violento da consciência)^ a / / / „*. cahindo sobre o corpo de Maria até o sepultarem n uma tumba mágica.. incolor. e o ruido começava. Um momento. a rapariga inquieta ergueu docemente a cabeça. As estrelf^^/^pu.ff/oUjt— pelo mundo despertado. emquanto os seúTdèrradeiros lampejos na — «-->!•* matta ^ m f s t ó ^ ^ á ^ p clarão do dia nascente. Abandonada pelos pyri.. E aves surgiam. mensageiras da madrugada. Arrancada pelo pavor UA r ^y^Y^^^JZZ^ . que se deslumbraram.-. sem tardar. que enche os ouvidos da mulher com o accento de uma felicidade inextinguivel. Maria pensou que p sonho a levara ao abysmo dou. capitoso.

creanças corriam nos terreiros limpos. na sua lembrança persistia um clarão. vacillando.movianrnem roda das vaccas. Quando alyattingiu. ergueu-se de um salto e partiu correndo.-248 . já por valles repletos de colônias. # # ' CIIVXAAN dos perigos porventura passados naquelle deserto. que se dirigiu. ficou mais tímida. para a estalagem. E quando chegou aos caminhos descobertos. a fartura do homem. que lhe engrandeciam a dV^T/ção. E foi n'um grande rubor. a cuja temível potência morreu toda a illusão do sonho. homens rachavam toros de lenha. Na taberna que era o único pouso d'aquellas alturas. que lhe recordavam a sua vida de hontem. vultos de mulheres Sfc. sem pejo da fome alheia. n'umapostura . passando já por desertos. que annuncia. na densa evaporação dos curraes. Maria ficou parada á porta. receiosa de perturbar com o seu ar de vagabunda a serenidade da população activa e silenciosa do logarejo. que lhe descia d'essa miragem entrevista no espectaculo da noite maravilhosa. Em todas as casas começava com o dia o trabalho. A miserável marchou seguidamente duas horas. já encontrou o sol. viajantes tomavam a primeira refeição da manhã. E emquanto atravessava a matta. Maria continuou a subir as montanhas até ao alto de Santa Thereza. gerado da acabrunhadora humilhação. apezar do medo que a tomara. e de todas as chaminés aquelle suave e ineffavel fumo da manhã.

como que arrependida. que não tinha pensado n'isso. não reparou n'ella. deixou-a j^M/da/mente e foi falar /<*> étM z a mãe. menos atarefadá. não ousando sentar-se.CHANAAN 249 de mendiga. A velha virou como um corropio. . com os olhos seccos e vidrados. A estalajadeira tornou : — Mas que traz você ahi n'esse embrulho ? A mendiga / ia abrmpara lhe mostrar as roupas. a comida que lhe iam dar. l/y^ A moça atravessou o corredor sem olhar para o refeitório. Era a creada do albergue. E Maria teve um confrangido asco. ^*e quando esta lhe efLjfyíffou que buscava abrigo e / L < ^ t ^ trabalho. Afinal. que jálraráttendo. Maria disse que tinha fome. veiu á porta inquirir de que necessitava. A dona da casa. vendo-a. ao lado do grosseiro fogão de barro. entre para a cozinha. esperando de pé. uma massa repulsiva se movia como uma lesma. A joven a convidou a entrar. A outra insistiu. Na cozinha onde entrou. mas depois. occupada em servir. a velha perguntou : / — E que dinheiro traz você ? Maria. A estalajadeira veiu examinar a foragida. dizendo : . mas a filha. Com a voz sumida. insultando-a. a rapariga confessou que nada trazia. ficou embaraçada em responder. n'um embrutecimento de faminta. — Bem. — E então como quer você que lhe dê de comer ? Maria fitou-a aterrada. quando de dentro os passageiros gritaram pela dona da casa.

arrastando-se como um animal empestado. escorraçavam-na._ lhe falava. / v^ cheia de fome.250 CHAANAN Os viajantes partiram. -• Mergulhada na desgraça.e por toda a parte aonde chegava. comeu n'uma fyfâtòtâ desprezível^ //' ^í^jy. mais primitiva.^V. Ninguém v—. o extranho phantasma da i miséria ? / £. absorta. deante da com- / rfaric placente apathia da rapariga.lquando o sol baixava. ligeiros vislumbres de uma sensibilidade menos $ r grosseira. No meio da felicidade dos outros. repousada e esquecida. Ninguém a " queria. Per- . e a estalajadeira foi á cozinha.tranquillidade do povoado. Mnrin nlnnrn n pniifjef */7 fZ H sendo governada por uma~veihã áíma^TmrisTu^J? dimentar. Maria passou o dia inteiro a vagar pela povoação. Depois de examinar o que Maria trazia. n u m insç-v tincto de apertada defesa. alheia. era quasi sem pudor que pedia trabalho de casa em casa. I A. Não era ella alli na . E foi se apoderando da trouxa. na conchegada e bo' nançosa vida aldèã. fiyf- t Por esta roupa. ia despertando a curiosidade e dando a impressão de tristeza que apavorava a descuidada gente do logar. E para o meio-dia. e ella. A'desgraçada. sentiu Maria crescer a sua solidão. depois do jantar. / a população -s^ apresentava^a porta das casas. repelliam-na. A tarde. . que recalcava todos os ^. dou-lhe comida e dormida dois dias. . rolava vagarosa. a quem deu um peyy^a 1 daço de P a o e UIf tigela de café.

pela matt. a invasora cl>^y do seu circulo de independência n'aquelle immun- . Os cabellos despenteados cahiam-lhe sobre o pescoço. Voltou.a a dentro. á luz turva os olhos brilhavam n'um fulgor de loucura. * Alumiada pôr uma candeia de luz mortiça. Era a velha creada. que ficava em frente aquelle em que se achava Maria. O bafio do quarto tonteou-a. " {^cc^r^. desalen^ tada sobre o colchão de palha podre. a moça permaneceu petrificada. que lhe apparecia como uma inimiga. e n'uma vertigem ella cahiu. onde acabava a povoação. Tirou o casaco e ficou em camisa e saia. NãO"tardou tl^^ 4 » è um vulto entx0tjlfno quarto e ff0f sente-se //. Naquella primeira noite. a dona d'este mostrou-lhe um colchão estendido n'um quarto infecto.CHANAAN 251 correu a estrada que corta Santa Thereza e foi até ao fim. Sobresaltada deante da megera. mostrando uma magreza de bruxa. As duas miseráveis não se falaram. de se evadir do raio do calor humano. que começou a devorar. na mesma postura. e foi com um revoltado nojo que viu na tíbia claridade a sua companheira metter a mão esquelética na palha nauseabunda e retirar [d'alli um pedaço de carne. quando foi a hora de se recolher ao albergue. — Está ahi a sua cama. mas não teve animo de se afastar d'aquella atmosphera de desespero. Mas os olhos da megera se a^í^úiív^ím de ódio contra a rapariga. a infeliz ficou um instante só. n'outro monturo de palhas. quiz ir além.

via n'um instantâneo pesadelo a velha erguer-se. sempre alerta. indo e vindo a todos os cantos. gelada.. passeiavam pelo corpo da velha como sobre um cadáver. no maior silencio da casa. o medonho quarto. Maria acompanhava o aríar d'aquelle corcovado corpo e o latejar das grossas arterias. livida. Maria.. farejando. para a estrangular. Pela noite a dentro. até cahir tudo n'uma profunda escuridão. espichava a cabeça até junto da outra. acompanhava o ruido aterrador dos ratos. Maria sentiu-se endoidecer de pavor. satânica. E quando ia cabeceando. o máo cheiro e o terror da bruxa. e no seu colchão comeram os restos de carne que ella deixán». Correram os dois dias marcados pela estalajadeira. sem que Maria pudesse encontrar trabalh í .. . ora se escurecia. Os ratos largaram a comida e continuaram á sua infatigavel investigação no aposente. A lamparina principiou a se-extinguirferepitando. ratos começaram a surgir no quarto. e o quarto. irrequietos. que continuava a dormir. Vencida pela prostração. que ainda assim era o refugio da ind^ clinavel liberdade. Guinchando. ora se illuminava em suecessivos relâmpagos. e semi-morta sentiu passar sobre a cabeça o vôo tenebroso de um morcego. corriam doidamente. derrubada por alguma rajada de somno.^e-4ião podia dormir com inquieto^feceioJTTudo a prendia á vigília. incessantes. não tardou muito a tombar dormindo sobre a palha. Despertava convulsa e.252 CHANAAN do aposento. alongando as mãos de esqueleto.

teve animo para intervir e Maria ficou na ' hospedaria como creada. entrando da rüa. onde ia comprar mantimentos. que é o alimento da desgraça. em companhia da outra.CHANAAN 253 suas implorações e suas supplicas eram desdenhadas. A-filha. Ficou um instante pensat<Vn prCítaando explicar por vãs conjectura? ttivo encontro. n u m delicioso momento. Milkau reconheceu a sua joven companheira do baile de Jacob Müller. atirando-se aos pés da velha para que a deixasse permanecer alli até en.. E assim viveu alguns dias.i/yU cohtrar um emprego. almoçava socegadamente no albergue de Santa Thereza.ficar. tC^Vé^quem era i mulhecqao alia acabny/i dia^. appareceu aqui sem um vintém e tanto chorou que a fui deixando . Depois de alguma hesitação. e Maria teve um pânico terrível em se vêr de novo obrigada a bater as estradas. • quando viu Maria passar no corredor. Desatou a chorar. y Af*^^ > ' —• Ah! ri ir r ri "Hfr é uma vagabunda que recolhi. e que entrevira primeiro na capella de Jequitibá. Milkau em viagem para o Porto do Cachoeiro. sem pão e sem guarida. A dona do albergue intimou-a a deixar a casa. Não sei d'onde veiu. mas nesse maldito apego á vida. e n'um instante a sua miséria tornou-se o ludibrio da gente amparada e farta d'aquelle retiro do mundo.. Uma manhã. Apezar da miserável situação em que ella estava. 15 i j '• . dpííada-^dl.. chamou a dona da casa e pergun. tanta lfáy/L miséria. apathica. esmagada.

vejam só. y a estalajadeira entrava empurrando Maria. /<«"..25 í CHANAAN — É sua creada hoje ? — Quall Um trambolho. /^ tendo por sua vez reconhecido/Milkau. embaraçava-se vergonhosa. Milkau n'uma grande afflicção interrompeu o almoço..no estado em que está. Também era só o que faltava! Aquillc . Milkau levarjtou-se commovido e procurou acalmal-a... desmoralisa uma casa. sem eira nem beira. retomada de um inesperado ardor. o que logo a velha fez. Não continuou.. abria-lhe todos os cantos da sua humilde existência. deixando Milkau e Maria a sós. E então breve.. espantada da scena. A confiante #meiguice das palavras de Mil. Promptamente pediu que chamasse a rapariga. porém. e delicadamente Milkau a desviava dos ponjres íntimos e mais dolo-' rosos. coitadinha. O que ella me fa? não é nada em relação ao que eu lhe faço.... A dona do albergue. C melhor é que se vá para outras bandas. fwe^M. porque da cozinha a chamaram. com immensa vergonha. Essa linguagem atordoou o espirito de Milkau. e ella acudiu. poz-se ella a chorar. * J/kau f^decidfiiraKronlar-lhe a suü Hes/raçV Por ve~ 'zes. E quando n aquella sala da hospedaria . Maria. Vendo-o agora. que tem de ir para a cama. Alguns momentos depois. que.. vinha ' arrastada. aqui ninguém a quer. Esta não quer me largar a sopa!. motejava : — Olhem. Está-se a se lhe arranjar emprego e ainda fica amuada.

Passouse longo tempo n'esse silencio triste. Vae vêr como não me canço. onde a paz devia ser inalterável ? Porque então o espectro do soffrimento o perseguia ainda alli ? Milkau divagava n'um fundo desespero. com o semblante illuminado. reflectindo : — Mas o senhor não ia para o Cachoeira ? Por- . devastadora.. disse afinal Milkau. > deixasse no caminho a miséria alheia e continuasse no seu embevecimento de felicidade?. Era a primeira vez em que na sua vida nova se esbarrava com a Desgraça.. Maria sorriu encantada... E n u m instante esse encontro lhe $ffâ0Â. Depois. mergulhan-'" do-se outra vez nos cyclos sombrios do soffrimen/ to.(*&**<{ a sua força solemne. poz-se a scismar.. Jy/^/^T Si elle não desse ouvidos.. d'onde pensara ter-se táffyúado para sempre... abandonado a velha sociedade odiosa e recomeçado a existência na virgindade de um mundo immaculado. todos os longos mezes ' de felicidade. — Abatida? Oh! não. — Bem. A dôr sa-nrqstuafei com r-^. de resurreição. e está tão abatida. Maria fl fitáva-^erena. si passasse adeante. de que não agüente afyÍJfrft'^ viagem.T^íj^ràred$ porém. E uma casa de conhecidos meus no Rio Doce.... Estou prompta para caminhar.. e os sentimentos *y<**fl&:y de Milkau galopavam para o passado. esperando que elle falasse. E longe. Não tinha elle fugido á maldade humana. / ee*»—*n^Era a salvação. tenho uma colônia onde posso empregal-a.CHANAAN 255 Milkau acabou de ouvir a narrativa.

Uma vagabunda. a quem Milkau communicou que a rapariga seguia com elle. sem se importar com o que estava tagarelando a velha. Depois de vêl-a amparada. accrescentou Milkau. Amanhã mesmo. A dona do albergue tornou-se fula.. — Vamos. — Agora. Que bem me importa a mim. Chamaram a estalajadeira.. disse elle com meiga decisão.. 'Oil*' f-ffk foz-seja contar nos dedos e depois pediu um preço exaggerado. peço que restitua a roupa que foi o penhor do pagamento. respondeu Milkau. — Diga-me uma coisa : quanto devia pagar esta pobre moça aqui na sua estalagem ? inquiriu Milkau. A roupa foi coisa á parte. ' /Ç^ contentissima.256 CHANAAN que então abandona a sua viagem e volta ao Rio Doce? Por amor de mim? — Ora. como si fosse roubada: — Esta é boa.. tornarei ao Cachoeira. Milkau explicou mansamente que ella tinha de ... Ella não é minha filha. e dando o dinheiro : . — Mas. — Eis a c l u ' A a i m P o r t a n c i a 'j^4^4^^^f^ / //yji (oJ*' mulher jpdfò p a s m ^ V recolheu as cédulas... isto não vale nada. negocio é negocio. sem allectaçâo. Milkau não replicou. pôde tomal-a como quizer.. A mulher fez uma careta zombeteira : — Oh!. meu senhor.

. Amanhã. emquanto elles atravessavam o povoado.. clamava aos vizinhos : — Vejam só. afastando as apprehensões de uma irremediável desillusão. E aquelle sujeito com uma cara de santo ! Pouca vergonha. esquecendo a tristeza. fincada na porta.. pensava elle. o seu espirito tomava outro caminho e confiava qme aquelle doloroso incidente. foi alegre conversando com ella. Maria tornará a ser feliz. o fóú amante arrependido virá buscal-a. interrompendo a descuidada bemaventurança. -V //f. Não é que a desavergonhada teve sorte. A estalajadeira. e tudo voltaria á doce calma. Quando deixaram Santa Thereza e tomaram o caminho do Timbuhy. vinha de roupa mudada. a miséria da sorte da companheira. e todas as ligeiras feridas da dôr serão curadas por um sopro de bondade.. contra o ódio entre os homens. assim compellida. malcreada. Milkau recordou-se da sua primeira viagem com Lentz. e a velha. A'^áí viagem de hoje era ainda um combate contra o soffrimento.. resmungando. de que não necessitava. E quando voltou á sala. Milkau festejou n u m sorriso o despertardamulher. preferiu ficar com a quantia e restituir os objectos. Maria seguiua. e foi buscal-os. Partiram.... para se libertar do Mal. passaria rápido. Mas. faceira.. atravessando n'um êxtase a pomposa região. Isto(^i-4he)novas forças e. com uma fita azul no cabello. risonha.CHANAAN -257 optar entre os vestidos e o dinheiro.Q ///*' ..

Milkau ficou inquieto. que ç(já. a beira dos caminhos. áridas. lírv"*1 como n'uma paizagem extravagante. Á medida que se ^j approximavam. percebendo que lhes erVimpossivel alcançar o Rio Doce n'aquelle dia.yfcfrppoy a Maria continuassem a caminhar até descobrirem uma colônia onde r/irrflrrfm n n^it/ Andaram mais um pouco.xnbaixo / _ e^tendia-sè^ilma serie de vafles recortados em / / mil aspectos diversos. e só elles. de desenho. Os viajantes foram-se deliciando com o scenario. perfumando /fi* á .. e. e urria colônia se lhes deparou no alto da montanha. era um peque5 no jardim europeu. escoteiros. ora. plantações. ora. Sen/?>**>**" taram-se ás sombras das arvores. Descendo das regiões férteis. casas. montanhas baixas formando massas enormes. Milkau propoz subirem pela vereda que £ levava até lá. apezar de tudo. seccas. r / A colônia para onde se dirigiam. despenhadeiros. £r / Maria fez um esforço e foi subindo vagarosamente.QiJU*** 25si I CHANAAN Debaixo do sol ardente desciam e subiam morros. passavam viajantes montados.JíWdfy a uniformidade Í^Vv / das habitações dos immigrantes. . e durante as primeiras horas Maria marchava lépida. n'um capricho de linhas. ti dei^ v » t ü / xavarrí ficar alli. tudo n'uma abundância crea •S "*\JZ-^ Ção. '0^^Mh[d^^ddtíJU¥. descuidados. planícies. \pf&t/i**t.riachos. onde talvez conseguissem agasalho. ora mattas /r W ^"~_folhudas. negras. passavam tropas de burros carregados para o Porto do Cachoeira. "Mais tarde começou a fraquear e era com difficuld\de que yj/fâyfjgfâdy1. Com o avançar da t^irde. oyl passava gente a pé.

Milkau explicou-lhe o que os levara ahi. ia-lhes contando que era viuvo. Os olhos não se podiam fixar em nenhum porrnenor. Levou-os o velho para dentro da casa e offereceulhes jantar. morava alli só. checom os os aromas aromas que que yyiinám ene. falou aos viajantes. e o velho. começou a pas- . alisai^ /H.jiy . A vista se lhes extendia farta e satisfeita sobre uma tela mágica. que. e da janella apontou as plantações no morro próximo. Findo o jantar.CHANAAN 259 y/f&fUM*< com ytjipáxh do do jardim. Entretanto. havia muitos annos. mostrando no riso uma fila de dentes sãos. ate ate que. seguido de Maria. Milkau ficou um momento admirando os movimentos expertos e juvenis do ancião. as filhas eram casadas e os filhos viviam na vizinhança. Os cães u ^ * ladraram atirando-se sobre a cerca. A impressão que tiveram. patifes ! assim é que se recebem visitas ? Os cães a-afastaram"rosnando. tratadas com o carinho de uma horta. socegando-os com alegre auetoridade : — Olá. o que o entretinha era cultivar flores. vieram os três para o jardim. n u m gesto de agasalho fácil e espontâneo. o cafesal também o distrahia.. divina e rara. e logo um velho acudiu. gaddy á cancella./ do a longa barba branca. E o velho. uma irradiação espectral. Penetraram no jardim. servindo-os á mesa e obsequiando-os como podia. foi de um só conjuneto de cores desdobradas ao infinito. que estava em triumphal floração. Milkau bateu palmas. escancarou a porta. uma zona cambjante. e depois. radiante. jardim. O homem da colônia deixou os hospedes e foi regar as plantas.

Recordou-se dos bosques. borboletas voavam sahindo das plantas. Com a queda do dia. abatido apontou no momento do crepúsculo uma ligeira sombra de nostalgia.. E no animo de Milkau amollentado pelo violento encontro da dôr..'y ' seiar pelo jardim. sahindo da morte . e com os olhos postos n'elle ficava embebida'n'um humilde enlevo. mudos e gr* sonhadores. e elle daf y ^ transportou éM jfmqf da saudade para a velha **"" / Germania. via interrompida a eterna verdura. a terra que abandonara.//" mão no homb/o de Milkau. das U"^' casas. Maria estava meic/fatigada e inconscientemente apoiou a . Andaram até onde A. E foram caminhando XlL?. as plantas cheiravam ainda mais. entristecido. absortos. Agora. dos jardins. en. susbtituida a tragédia da natureza brasileira pela doçura européa trazida nas flores que^peregrinaram até ahi. Este sentiu^uírxâtlttí.. E o jardim lembrou"2-Makau. Naquella mesma hora era alli a hora da \Jyy primavera. Encerrado alli. como flores aladas.f / ^ w ^ torpecendo-os . da gente n u m regosijo de novidade ao calor bemfazejo do sol.260 CHANAAN . toda era encanto por Milkau.(•*$» **"•**"'-ffflrranrejeáéícíÉr.ITõ'calor emanado das entranhas' £ * geradoras da mulher infiltrou-se^^aSs^nervos. Quando elles passavam esquecidos.. ' ... Milkau julgava-se fora da natureza tropical. E um instantâneo olvido encerrou a sua agonia. Ella parecia nunca ter soffrido/ uma resignação de nômada apagara rapidamente os vestígios da miséria.bmscamante. J" como espectros: olhos perdidos no vago. JL U gelada. Tudo resuscitava.

sobre a sua superfície as cores ainda continuavam n u m a infinita mutação. como uma musica extranha. convidando-os a dé xecolhexdyfi.v ' três conversaram sem interesse. esterilisando aterra. depois de mergulharem no tremedal que ficava em baixo. sfeerguerarrKpara o céo. E já a casa estava em socego e Milkau. sem reverberação. Era noite. Dentro. e pouco a pouco uma/yíyídd perturbação h\e f/f^ f/^ '< . acompanhava o somno de Maria. Os olhos. como si dentro d'elle um mágico se divertisse em illuminal-o. que se lhe infiltrava. no seu leito. Sentaram-se em uma pedra. no despenhadeiro da montanha. O colono acabara o serviço e veiu ter com os hospedes. onde lhes tinha preparado as camas. Era uma representação phantastica. .CHANAAN 261 o jardim ia acabar n u m logar secco. o immenso globo ostentava uma succes• siva gradação de cores. uma palmeira se alteava. até que afinal eUe-mergulhou no horizonte e a terra tingii>se de sangue e em seus mil nervos agitou-se toda. O grande actor foi descendo no espaço sem nuvens. aquecendo-o... Seguia deliciosamente todo aquelle brando respirar. 0 mundo inteiro tinha parado para assistir ao espectaculo. e acompanharam a morte do sol. como uma mulher bella e damninha... Sem raios.. onde. á mesa... até que o dono da ' casa. propoz irem dormir. sem poder dormir.. os . cahindo de somno. O resonar leve e regular da mulher lhe vinha aos ouvidos. descampado. Mostrou a Milkau dois quartos contíguos...

. Mulher! E lá vinham do esquecimento. aj \ bocca secca. a garganta estrangulada..... O homem forte ficou envergonhado d'esse momento de loucura. E o seu olhar prescrutava as sombras da immensidade. J/lJtAftrt^enchendo-os de um goso .... o seu respirar chegava sempre aos ouvidos de Milkau. Era noite. Tudo seifiuminava ao poder for- a* ?"/ +< ****&* • * cd*>" .. onde jaziam sepultadas. dando-lhe um instante de consciência e um profundo.... . % # f r | ^ ^ N ã o era u m V //' /Tfêsonar Hormeclda...o y-<n<«v A •*»*.Mulher!. " *&** °~<- ou*'«0 alvoroçava o sangue. abrindo a janella. viu-se o ludibrio do desejo e descreu da redempção....<*. Ej^JSÜ* esta palavra evocadora lhe dilatava. Z^ZT^^* 262 t.. eralím"suspifo de amante.fU.. -Maria continuava a dormir tranquillamente..*"+ +«*y< ?t+yy^*r*.. Amaldiçôou-se e teve nojo de si. debaixo de cujas camadas sonoras se sente 0 / mysterio do instrumento. que vos c a n t a i O chéTro o jardim tr^nstornavTãTc^Iiã^rrrMilkau estremeceu outra vez. e todos se amavam. 1 E um torpor. sacudido pela volúpia. pensava elle. as visões lubricaselascivas. um espreguiçamento dos músculos o desequilibrou de uma vez e o atirou a uma vertigem de volupra.:vexame.. Cresceu-lhe o tremor e uma languida molleza o deteve. e. *Só elle era mudo.1 os horizontes da fejtringida e quasi apagada sensualidade. Aquella/hora lhey• chegavaP do universo inteiro o echo dó Amor./wrJ*44.. poz-se a scismar debruçado sobre a Noite divina. Milkau levantou-se tremulo. o* »i coração galopando. Mulher!. Chegou-se á porta entreaberta do quarto de Maria..•.

mudo e refreiado. O sangue dentro d'elle. o joven sangue parado pela illusão.... gemiam n u m frenesi de doidos. Era serena e bemfazeja como a face de uma .. não tinha mais aquelles accentos de volúpia. não. quente e sôfrego. perguntou : . . se degelou n'um momento e.. e nos cabellos de Maria. Socega.Milkau deixou a noite tentadora e entrou no quarto de Maria.. mergulhou a mão até ao fundo. E tudo era uma visão > de amor : as boccas se beijavam com febre. os corpos. E para elle.* tario também amou.Miíkaurecolheu a quentura do corpo feminino. via-lhe os cabellos descer pelo corpo abaixo. Dorme. E ficou tremulo. clamou o corpo da mulher.. com os olhos meio cerrados. os braços se apertavam enlaçados. i&fêturados. que amornava o aposento. aquelles transportes de luxuria.. Voltou á janella. O soli. correntios. como em frocos macios e louros. Ella.. Deslumbrado pela vertigem.... n u m frêmito convulso.. que accordou a rapariga.CHANAAN 263 midavel da sua allucinação. sem poder ir além. Os cabellos d'ella estavam soltos e cahiam sobre ocollo nú. Ficou assim séculos pregado aquelle corpo. fugiu. luminosos como um rio de ouro.. — Já são horas de partir? A voz innocente cahiu sobre Milkau como uma rajada de frio. Não é nada.. voltando rapidamente a si. n'uma arquejante respiração. murmurando : — Não. que não era mais o mesmo. a Noite era outra. Retirou a mão e...

humilhado. .204 CHANAAN irmã. mas logo. Maria retribuiu a saudação sem jfytír o que esta dizia. partiu altivo. e com o orvalho. ao deixarem a casa. como se costuma sorrir aos noivos. Milkau sentiu uma pungente tortura com aquelle sorriso. e com a brisa misturou os queixumes da sua agonia sexual. Ficou longo tempo alli. o velho os acompanhou até á porta do jardim encantado. arrependido. como o vencedor de si mesmo. confundiu as suas lagrimas de solitário. erguendo a cabeça. sorrindoIhes com carinhosa malícia. que a madrugada para o sarar lhe derramou sobre a cabeça. confuso. De manhã.

Toda a dôr é immensa.VIII A passagem da miséria na nova yjdd de Milkau / ' * £ * ' deixara o seu vestígio perturbador. seismava elle. E para afugentar a persistente Tristeza. vaga. Desapparecêra a coivara. e agora o pensamento rolava vertiginoso para o desanimo.tempos a colônia tinha um bello e florescente aspecto. Milkau se\gonsagravf)ainda mais ao trabalho.. Não ha desgraça pequena. entorpecedora. que o cercava e lhe extendia os braços amorosos. que brotavam n'um indomável viço. tão insignificante que não clame aos que passam. o terreno . Não podia esquecer a desgraça de Maria. e os pés de café.No espirito d'elle íe/fl*^*' uma melancolia teimosa se espraiava infinita. cobriam como um manto a antiga hediondez do roçado. Todo o «prazo» estava cultivado.. Já por esses ^ . Não ha soffrimento. piedade e reparação com o alarido de cem mil boceas.

Milkau trabalhava sempre. buscava expandir-se n'essa fôrma inicial e selvagem da civilisação. os nervos cança- ... as empregava com desvelo e ardor no trabalho com as próprias mãos.266 CHANAAN semelhava um verdejante parque cercado das arvores immensas da floresta. Mas. apenas interrompida. E quando. e a humilde casinha dos dois emigrados estava coberta de trepadeiras. e. luctava com os animaes. de imaginação. sacrifícios de sangue. devastava as mattas. formára-se umaattracção. que se abriam em flôresJ dando aquelle jardim alli nos trópicos um perpetuo ar festivo á vivenda. simples lavrador. matanças. fructos da terra. longe do ódio. a fronte suada. e o outro. entre esses dois interpretes successivos da vida. Restringido a um circulo de limitada actividade. flores do seu jardim. No mesmo tecto esses dois homens exprimiam duas culturas differentes. Milkau era agricultor por instincto. da lucta fratricida. que ennobrecia o seu destino humano. Lentz era o caçador. que cada dia será crescente. o seu espirito. até se tornar universal e indestructivel. em poucos mezes para elle já não havia segredos na floresta brasileira. uma solda inquebrantavel e que ainda significava a imagem d'essa impulsiva liga entre todos no mundo. e todas as suas faculdades de attenção. Um offerecia ao mundo façanhas. sempre retrogrado. alliado a outros colonos de egual inclinação. curvado sobre a enxada. Caçava.

mais vasta emais mysteriosa.. Que importa que nos fatiguemos.O Amor!. essas flores. emquanto a enxada. •Võariao vcgea. Que bem fariam a côr. que cubramos o mundo de flores sahidas das nossas mãos infatigaveis. lá vinha ainda nesses instantes o tormento da piedade.. Ella se retrahia cada dia mais e nem mesmo a elle confiava os passos do seu martyrio. pedindo que . Milkau respeitava esse pejo. como um forçado ? E a consolação lhe vinha-? Oh! não. sarar a morte do sonho. como uma mancha na sua visão radiante.. mais doce. ao nosso lado. a decepção. um esquecimento devia adormecer-lhe os pensamentos. emfim ? Também ella não mourejava dia e noite no trabalho. manejada pelos braços inconscientes. mais d/)^W. o perfume e o sabor das coisas ao padecer de Maria ? Como remediar.. si todo esse sangue. é preciso haver outra coisa no mundo. si alli adeante.. recommendava á gente da casa a maior caridade para a desgraçada. e sem insistir em desnudar-lhe o coração. Outra coisa mais santa..fôxavw « colônia ». esses fructos não são balsamos para aquella ferida extranha!. vive a Dôr. mais bemfazeja. « Não é no trabalho que está a salvação da miséria nem o estimulo para o desalento. » Assim pensava Milkau. mais subtil. que ensopemos a terra com o nosso suor. mais poderosa. onde Maria se empregara. o continuo testemunhar da desgraça alheia.CHANAAN 267 dos. cavava a terra./para levar-lhe algum conforto. um repouso suave.

mas na verdade o sentimento d'elles era outro : tratavam a miserável com desdém. Aos antigos tormentos juntavajo desprezo e o ódio dos novos patrões.' e. Lentz aç. Durante o dia trabalhavam. que os convidou a repousar um pouco. os dois amigos ficaram a conversar corn o velho. r/£é^# com J// . que ainda não tinham visto. Maria não se queixava. Era um veterano do exercito prussiano cuja / memória estava cheia de lembranças da ultima grande guerra. E também para o com-^panheiro. Os colonos promettiam-lhe tudo.208 CHANAAN velassem por ella e a não desamparassem na próxima crise. atormentada pelo medo do doloroso momento. êü porta estava um ancião. nada havia na colônia capaz de encher-lhe a imaginação.interessava^pelos pormenores d'essas historias. dar-lhes trabalho e augmentar-lhes o custeio da casa. e era com um passo moroso e incerto que vagavam ás tardes pelas habitações vizinhas.mra a caça. mudos e abysmados nas suas scismas. como uma intrusa que lhes ia roubar a tranquillidade. emquanto a família se entretinha nos arranjos domésticos e no trato dos animaes. que se approximava. ^fiyL$J(^iJfdJt0/a vida de Milkau continuava a ser minada pela tristeza. E ainda assim se agarrava a essas raras migalhas de uma desdenhosa condescendência humana. Falaram da Allemanha.^s y o ancião narrou-lhes sem demora traços da sua vida. N'um d'esses passeios foram até uma colônia.* rancor. e o velho falava satisfeito .

. Desde então dera baixa e emigrara para o Brazil. além do que era permittido reclamar. quadros d*?-*"***^ da cultura extrangeira apenas entrevista e que recolhera á retina com essa sensação de deslumbramento maravilhoso. Na sua narrativa imaginosa passavam cidades extranhas. onde o clima quente lhe mantinha a vida. e como. abandonado../ Jb***'\ . Lentz applaudiu então a Força immortal. caminhando tropego. Enthusiasmado. a vomitar sangue. elle ia pagando com a vida.CHANAAN 269 e vaidoso de entreter os jovens. varrida em turbilhões heróicos pelo tufão da Conquista. Ainda o apavorava o terror da disciplina. porque uma noite de dezembro.. n'um //r^lrx reconhecimento. Escapara de ser fuzilado. fora por um acaso colhido na estrada. em França. levou / os vizinhos para dentro da casa mostrar-lhes v e . / o veterano ergueu-se e.y-yyj\\ . que commandava e era temida. exigira uns cobertores dos moradores da casa onde se acampara. desabavam cargas de cavallaria.. A ess0 jdmpfddddi €& ^^ misturava outros episódios da invasão. desfilavam exércitos. fazendo parte de uma guarnição.. cahira do cavallo e por cima do nr*J**^ peito lhe passara n'um galope o animal de um camarada. E sorria como havia muito tempo não lhe era dado. E essa extorsão. a chuva oblíqua da metralha mudava em lama sanguinolenta a miserável e inquieta poeira humana. como a que ficava do minuto de um Bárbaro no seio da civilisação. O velho soldado terminou tjfflllédHt que uma vez.. estrondeava o tumulto das batalhas.

Tudo alli era uma volta ao Passado.. tudo o que separa e destróe. Mas aquelle amor inconsiderado por tudo o que é passado.27H ' £. a alma senhoril. aquelles cujas almas se fazem artificialmente antigas. esses são os verdadeiros . o que estimas n'esse passado é exactamente o que elle tem de humilhante e vergonhoso. / - CHANAAN lhos retratos de reis. com um tom emphatico de superioridade. — Mas é preciso não amaresdemais essepassado. mobílias. Em caminho para a colônia. o sangue. E eu tenho que o estudo das coisas antigas.. disse Lentz : — Que consolo senti indo á casa d'esse velho! Parecia ter penetrado um instante no passado intacto da Prússia. — E porque não me retemperarei nas fontes da minha raça ? perguntou Lentz. Amemos o sacrifício feito pelo amor humano. Os que se collocam no passado. a servidão. quadros e lembranças. a sciencia.. vistas da Prússia. estampas da guerra. respondeu Milkau. Tudo era antigo.... é um dos sopros mais poderosos para a desordem universal. a guerra. a arte. observou Milkau. Dia a dia será reduzido o campo da veneração pelas instituições da Antigüidade. o prestigio das próprias lettras mortas são outros tantos venenos que acobardam a alma do homem de hoje e dão um encanto crescente ao mysterio da Auctoridade. Amas p ^ f ó ^ espirito de destruição. — Porque? Porque. o demônio que o agitava. tudo o que foi.

CHANAAN 271 inimigos do gênero humano. a desordem. — Tu sabes bem.. o gênio militar. interrompeu Lentz. o nosso eu. — E que beneficio resulta d'essa força. não é tudo do passado que eu amo. — Mas que é a Pátria ? A/ / — A Pátria. nem religião. a guerra. a Pátria é uma abstracção transitória e que vae morrer. são os pregadores da desordem. meu querido Lentz. O gênio humano é universal. A Pátria é o aspecto secundário das coisas. Entraram em casa e durante a noite largo tempo .. a disciplina. uma civilisação particular que nos fala no sangue. Immortal! — Não... d'essa grandeza da Pátria ? — Oh! Exactamente o que n'ella venero é a tendência imperial.. uma expressão da política. uma limitação para o amor dos homens. Sobre ella nada se fundou. ora. a tenacidade. os prophetas do tédio e da morte. a nossa própria projecção no mundo.. A Pátria é pequenina. nada tem uma fôrma elevada.. Milkau. a expansão universal. a somma de nós mesmos multiplicados ao infinito. absolutamente. a fibra bellicosa. mas regosijo-me / / / / .. nem sciencia. Nada.. Nem arte. tu não sabes? E a © / raça.. sendo patriótico. mesquinha. Não ha ninguém que fuja da sua atmosphera. quando testemunho numa ostentação das fortes IIf'^*' qualidades humanas da nossa Pátria. uma restricção que é preciso quebrar.

CHANAAN

debateram essas idéas. No dia seguinte, quando
Jj
Milkau trabalhava solitariOj/^ava-lhe na cabeça a
f/,yf^
discussão da véspera; e sentia um mal estar lembrando-se da viva contrariedade que oppuzera aos
sentimentos do amigo.
— Não ha duvida, pensava elle, penitenciando-se,
é assim por natureza. Quando dois homens se collocam frente a frente, uma instinctiva animalidade
' - - j ^ - surge ddjJdffflyèfó perturbando a sympathia. É o
Qifj''4''querer
innato de subjugar, ou pela força, ou pela
0,
superioridade da intelligencia, ou pela consciência
da própria perfeição. Assim também sou eu; procuro reduzir Lentz a mim,dominal-o até ao fundo
das suas idéas, do seu próprio ser. Oh! orgulho damninho! Quando a própria humildade deixará de
ter no seu mais intimo recesso a desfiguração, o
amargor da vaidade, da soberba, do domínio?
Milkau reconheceu-se inferior ás suas idéas, humilhado por uma força inconsciente. Depois tornava aos mesmos pensamentos. Comprehendia que
no seu companheiro essaexaggeração do amor da
pátria era talvez um symptoma de nostalgia, uma
anciã pela terra das origens. E não é isto uma conseqüência doentia da educação patriótica? Mas,
n'aquelle instante de angustia, quando por sua
vez se examinava mais de perto, |ê\revelayj^a si
mesmo... Fitou o céo immenso, desvelado",de uma
serenidade, de um brilho e de uma firmeza de crystal, e sentiu-se extranho a elle... Admirou ao longe
o corte das montanhas, a negrura da matta, atfronde/

CHANAAN

273

das arvores... Debaixo dos seus pés a terra vermelha, como embebida de sangue, e das plantas tenebrosas o cheiro que tonteia e excita... O morno
socego do universo... E tudo lhe era extranho. Elle
ê o Mundo, elle e tudo mais, a dualidade, a distincção irremediável. « Eu não estou em ti, tu não
estás em mim... Ainda assim eu te amo, mas tu não
és eu.»
.,, -A^ i
N'uma dôr0^/jljl Milkau, devorado de magua, m/v*^"***
combalido, sentiu-se também expatriado... Não
havia entre elle e todas as coisas em volta de si a
subtil intimidade que nos prende eternamente a
ellas, o imperceptível e mysterioso fluido de commuriicação que faz de tudo o mesmo ser... E percebia,
n'um grande desalento, que o conjuncto tropical
do paiz do sol o deixava extatico, errante e incomprehensivel, e que í sua alma emigrava d'alli, incapaz de uma communhão perfeita, de uma infiltração definitiva com a terra...
— Que sou eu então? Que verme, que átomo
miserável, que se não governa, que não pôde amar
o que quer, que se não pôde identificar com todas
as moléculas do mundo ? Que sou eu, onde leis
imperiosas, perversas, me dominam, me vencem
o novo sangue ?
Outros vizinhos vieram algum tempo depois SÊT
estabelecep^ó^Rio Doce, na campina que sahindo
da matta morre sobre as águas. Era uma pequena
família magyar, composta do pae viuvo, duas

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CHANAAN

filhas e um filho, a que se juntaram outro rapaz
da mesma raça, que era noivo de uma das raparigas, e um cigano. Viviam unidos em uma só communhão de desanimo e de espanto, na casinha feita
de madeira tosca, .com tecto de telhas de páo, incendiada pelo sol nos dias quentes, varada pelo
vento, invadida pela chuva nos dias de tormenta.
Ahi cumpriam o ritual dos costumes pátrios. Sob
a pressão cobarde do isolamento, apegavam-se,
como a um refugio, ás intactas tradições, transportadas dê sangue a sangue e mantidas pelo
temor religioso desde os antepassados. O cigano
partira também, arrastado pelo instincto vagabundo. Na longa travessia, o eterno caminhante da
planicie imaginava-se prisioneiro no vapor, que
lhe parecia uma jaula movediça e endemoninhada. O oceano contemplado da terra attrahia-o
pela irresistível seducção da immensidade. Sobre o
mar elle não sentia mais liberdade moral. O infinito é uma miragem atormentadora, em que se
perde a essência humana... No meio das águas
illimitadas, sitiado pelo perigo, assaltado pelo terror, o espirito, dissolvendo as suas forças vitaes
n'uma desaggregação continua, transforma aquella
attracção impulsiva e illusoria em uma persistente
impressão de assombro e de terror, e a orla de
terra que se lhe escapou ao longe, e/para onde se
volta incessante, recebe os queixumes da saudade.
O homem só é senhor da sua individualidade na
porção de espaçp cujo horizonte^póde medir com

ju.

** W/i*

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bs

275

olhos, naquillo que é finito e limitado...
yjjfc/Passaram ^xft^^tídjatídUtí
os primeiros
tem-yyOtyfa^,
pos, esmagados pela perspectiva do desconhecido, ryyd**™
com a alma em suspensão. Até então não se trabalhara; os homens corriam as vizinhanças, caçavam, vagavam pelos montes e iam aos povoados ; as mulheres viviam no lar. Quando cahia
a sombra, o cigano s&. deitava* sobre a relva, á
beira do rio, e pregava os olhos preguiçosos no
poente, vendo morrer o sol. Aos domingos, a família «s- reunia^na varanda; o velho a um canto,
bonné enterrado até os olhos, cachimbo na bocca, /ir
quilotava repousadamente as longas barbas amaZ^&T
rellas e as rugas da cara; as raparigas e os dois */ ^ - , "
rapazes,como legítimos magyares,ornavam-se com Agfa&t as bellas roupas do seu paiz e vinham faustosos e , ^ * , ^ ^ ^
garridos entregar-se ao grande prazer da sua raça, d^r jwr_
á dansa.
^-* <s
As vezes, Milkau e Lentz nos seus passeios pela ^ S ^ T ^ ^
margem do rio ficavam-se debaixo de alguma y<^ ) •***>*
arvore, assistindo aquellas festas no silencio da ^y>w+* <£*<•
grande solidão. O musico era o cigano com o inse- *jf*~ ""•
paravel violino, sentado ao lado do velho. Dado o &+***• ^
signal, os pares punham-se em ordem,e iniciavam '?*~V*~**
as marchas polacas. A musica tangia á festa.
vr<^ / "
Os seus compassos a principio langorosos iam ga- -Q+VHJ*
nhando movimento e a largos impulsos do som t*.'/^**"
arrastavam os figurantes. Faziam rápidas voltas, « i ^ meias luas harmônicas, enrascavam os braços /*r**~•-**
uns nos outros e balouçavam-se cadenciados, ^*^*^"

276

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como suspensos sobre as notas, formando em sua
graça artística grupos de estatuaria clássica. Ao
findar a contradansa, respiravam satisfacção, espalhando-se-lhes no semblante o orgulho da sua
mestria. Mas o cigano os não deixava socegar,
vibrava o violino, e logo todos sentiam o despertar nervoso da paixão.
e^v**</***,,***,^ .
Com
V íwfcr^
ffâiffr
preso sob o queixo e)fcmpuxügàjl /t,
/ • /yyu-ydCt p n r n m i níiin coni'ii1Wi emquanto a outràyfhanejava o axco^rf^ys/c^Jytyffiiyfâajdfí
TTWfnu.iirnlu.
Os homens, trazendo chapéo dé 'feltro'comlindas plumas, paletot
' *«****" * % calça de velludo e á cinta uma larga faixa de seda
,- carmesim, enlaçavam as raparigas, cujo corpinho

^" £, meio aberto ao collo vestia o busto esbelto, e cuCm~po
j a s saias ornadas de velludo e seda lhes envolviam
9/¥ e>
^ ^^ 'as
fôrmas poderosas. Naquelle espaço estreito, na
varanda quasi debruçada sobre o grande rio selvagem, e extranho aquellas melodias, reuniam-se,
na fraternidade do destino e da arte, as duas raças, a que tem o sentimento innato da musica, e
'/r
a que tem a espontaneidade da dansa. Çdex^^í^/jt
t/
f/rrv^ a
valsa. Os artistas da dansa acompanhavam a
V loucura da rabeca n'um vôo quasi imperceptível e
para deante, para deante, por sua vez no sublime
surto dos" sentidos, improvisavam novas figuras.
Quando estavam no auge do prazer, a mais moça
das raparigas, amparada nos braços do irmão,
deslisava alegre, feliz, com o rosto illuminado,
embevecida, a fitar o musico amado, com avel-

CHANAAN

^

277^VV\^T

ludados e longos olhos, que sorriam primeiro que i V ^
a bocca... E quando a musica ia morrendo, a > \ >, "ç •
outra rapariga, transportada, em êxtase, a cabeça
Ç ^ \ ®*
loura reclinada sobre o hombro do noivo, n'uma
^&'^
vertigem aérea, respirava a pequenos haustos com
a bocca entreaberta, sua bocca vermelha como o
sangue, humida como o orvalho.
A turma de Felicissimo voltara para novas medições. O agrimensor depois do trabalho ia todas
as tardes conversar na colônia de Milkau, e com a
sua vivacidade e alegria entretinha os dois emi- ,
grados, contando episódios dá sua vida aventu- / ^
reira, scenas do Norte, d'esse Ceará trágico em
cuja{areias sedentas e implacáveis se vasam, de
fundeai? na resignação, na dôr, na energia e na es- / •*perança, a alma dos homens... Quando não havia
f
serviço urgente, Joca juntava-se a Lentz e o%-dois
"j
^». embrenhavam'no matto, a caçar. Na conviven'*|
cia com esses sertanejos Milkau apaziguava as an^
cias em que se vinha debatendo o seu espirito. A
\|"
espontaneidade de raça, a coragem e a bondade
ri
d'elles eram novos arrimos para a illusão...
j.
Nenhum incidente perturbava o calmo viver de
Í
immigrantes e trabalhadores, até que uma manhã
%.
o agrimensor e os seus ajudantes, sentados á porta
^
do barracão, viram uma mancha preta passar ve>
lejando magestosa, serena, no céo claro.
^
— Urubu !.. disse Felicissimo.
— Ah! temos carniça por aqui... opinou Joca. /^<*<í^*r,'v
indagando com os olhos atilados o vôo dfíamfyí.
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278

CHANAAN

A grande ave solitária descia vagarosa, boiando
negligente n'um vasto circulo do espaço, como um
barco de velas negras... Logo depois outra subia
.j
no horizonte e não tardou muito que outras mais
^ r H '***
viessem $/ax a limpidez do azul. E d'ahi a pouco
se ia baixando e restringindo a um ponto da matta
aJ *Artl° v o ° dfó idyffidffá infecteis, que os trabalhadores
/
acompanhavam curiosos e divertidos em suas almas infantis.
— Mas... alli, n'aquelle ponto, é a casa do
«bruxo», observou um dos homens, designando
assim a morada do intratável e velho caçador que
habitava aquellas margens do rio.
— Vae vêr que é algum dos cachorros que morreu... Também, que o diabo os leve a todos... praguejou o mulato.
— Que a peste os acabe... Malvados !.. ajuntou
outro.
— E mais o dono.,.
— Qual, para mim não morreu bicho nenhum.
Si fosse, o velho o teria enterrado, como a um filho,
concluiu Felicissimo.
— Sim... e não haveria carniça.
— Quem sabe si não é o velho que está morto ?
conjecturou um trabalhador.
— Homem, é verdade... acudiu um camarada.
Ha dias que o não vejo...
— Quem sabe! também eu... âlyldddtátamoutxos

£'r*/«zr

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°-

CHANAAN

279

— Vamos vêr, seu cadete? propoz Joca ao agrimensor.
E todos se levantaram e seguiram na direcção / o
da morada do caçador. Ao approximar|ÍA-se, ou- '
viram latidos e uivos de cães. Mais perto, quando
descortinaram a casa, viram os cães ladrando, correndo como demônios doidos para os urubus que
teimavam em baixar á terra. As aves negras rasteavam quasi o chão, e quando os cães se arremessavam sobre ellas, erguiam o vôo e iam pousar logo
adeante.
— Vocês não vêm ?.. A carniça é o velho...
gritou n'uma gargalhada alvar um dos homens.
— Que fedor !... Este diabo está podre ha muitos dias, berrou outro.
Instinctivamente, y&fff pararam, como n'um
conselho.
' /'
— Então., seu cadete, que se faz ? perguntou
Joca ao agrimensor.
— Ora !.. vamos a enterrar o velho... Deus lhe
perdoe a alma... Nós lhe cuidaremos do corpo,
disse decisivo o cearense.
Os homens não hesitaram mais, agora inspirados pelo impulso de piedade de Felicissimo, e tó^
dos caminharam para dentro do cercado. Vendoos approximar-se a matilha de cães abandonou os j ,
uwibúe e avançou como uma só massa,atroadora, —-y^^d<*n
furibunda, terrível, contra os homens. Aproveitando a diversão, os m/dm caminhavam no terreiro,e n'uma dansa macapra iam invadindo a ca-Jym • * .

s****-

e^ *%*•*"» °«-r,

280

CHANAAN

sa, n'um riso infernal, espichando voluptuosos as
cabeças petulantes de harpias descabelladas.
Deante do arranco dos cães, os homens fugiram, e
na porteira da cerca os defensores da casa pararam
arreganhando os dentes, uivando, ladrando, as
sangüíneas boccas escancaradas.
— Como podemos afrontar essa canalha?., perguntou um dos trabalhadores, quando já estavam
fora do perigo.
— Joca, vá com outros buscar os ferros para
darmos uma licção aquella cachorrada... ordenou
Felicissimo, saboreando uma vingança.
— Vamos d'ahi, disse Joca, e partiu acompanhado de mais dois.
Os outros ficaram atirando pedras aos cães, que,
estacados na cancella, não se arredavam, furiosos e tremendos. Os urubus, descendòyeTTT^rnaior
numero daflTBfln,.continuavam em cortejo a penetrar na casa. Um horrível e crescente fétido mesmo
á distancia tonteava os homens, dando-lhes ancias
de vomitar.
— Oh ! que demora, resmungava impaciente
Felicissimo, esperando na estrada a volta de Joca.
E ia gritando aos j/Lamea^l:
— Pedra, rapaziada! mão certeira!
Os cães latiam, mostrando os dentes brancos e
afiados... E os urubus continuavam a baixar do
céo... Afinal, pela estrada vieram correndo esbaforidos Joca e os companheiros, carregados de

CHANAAN

281

enxadas, foices e páos. Cada um se armou, e Felicissimo ordenou com enthusiasmo:
— Agora, avança, meu povo!
Os homens resolutos e raivosos precipitaram-se
sobre a cancella, que ao choque dos seus corpos
unidô^espatifou^c., dando-lhes passagem; os cães
não retrocederam e »lançaramrsobre elles, mordendo-os desesperadamente. Os invasores berravam na dôr :
— Mata! mata!
E a páo e foice arremetteramy^i? contra os ani- / / *
maes. N'um momento estavam os Iptmpné todos ^ Çr
rotos, e o sangue lhes corria das feridas. E da peleja,
umas vezes sahia um cão gritando, ganindo, quando
J
uma paulada certeira e furibunda lhe quebrava as > t
pernas, outras eram homens que, debandados, iso- \ £
lados, fugiam pelo terreiro, perseguidos... Estes J J
trataram logo de ss unir^ traçando com os instru. }"mentos um circulo de defesa:
-— Não afrouxem! ordenava Felicissimo.
— Avança! avança!
— Para dentro!... para dentro!...
Recuaram os cães ante a energia do ataque; e,correndo sumiram-se como por encanto. Os homens,
indo-lhes no encalço, penetraram na casa, brandindo as armas... Mas, entontecidos pelo cheiro suffocante, estacaram indecisos e apavorados deante de
um quadro medonho. Dentro, os urubus comiam
um cadáver humano que jazia por terra, o corpo do
solitário e abandonado immigrante. Os olhos ti16.

282

CHANAAN

nham sido devorados e as cavidades immensas e
rubras escancaravam-lhe a testa. Allucinados em
CK-y
seu goso satânico, osfflddMjd, sem dar fé dfáUaessaJ,
/^/^<^**^continuavam a picar, a comer, avidamente, embebidos. Os cães, esquecidos d'elles, faziam frente
aos invasores.
— Chô! Chô, canalha, atrôou um grito de Joca,
desesperado de nojo.
E n'um impeto de compaixão avançou para o
cadáver para livral-o dos urubus. Agarrando-o
pelas canellas e pelas roupas, os cães o detiveram... Os camaradas acudiram promptos em sua
defesa. Deante do alarido da lucta, os urubus esbordoados largaram a preza e, abrindo as azas,
espalhando com o vôo ainda mais o fedor, incapazes de se afastarem d'aquella nauseabunda
atmosphera, pousaram morosos, pesados, nas traves
lífdvi
^ a c a s a > n "hi ac p o s t a / á ^ fúnebres, medo//
nhos, como testemunhas do combate dos homens e
dos cães... Quando Joca conseguiu tocar o cadáver, recrudesceu o furor das feras. Não temiam
mais os ferros e os cacetes e atacavam os inimigos, que se apossavam do amo... Foi um desvario:
homens e animaes ty batíam""corpo a corpo, se
f e r i a r r v ^ - despedaçavam,-»como n'um combate
de doidos... Os homens estavam estraçalhados e
sobre as pernas nuas e brancas de muitos d'elles
corria um sahgúé^0tihif... Guinchando, os cães
IJf^mB
morriam,estorcendo-se como possessos e atirandose sobre o cadáver do velho. Depois de muito tempo

alguns ftomcnf puderam apossar-se do corpo e o foram carregando para fora..CHANAAN^'' 283 de lucta.m n'uma d'ellas e. a cabeça ficou segura na carne da victima e das artérias „ rotas jorrava o sangue^/ J^a^i/uu>^ Não havia mais cães a matar... não esmoreceram / mais allucinados investiam. Os que ainda restavam. É\ enxotando' as aves. — Mais funda! f< •*ty v+vfa>y£"*y . de membros esparsos. Os homens maltratados. que os trabalhadores Jy/^^rt. picando-o com o ferro e tentando arrancal-o com as mãos. Não! Havemos de enterrar o pobre velho. doloridos. não/conseguiu. deitaram no chão o velho. Um d'elles cravou as prezas na coxa de ui homem com tal fúria que este. extenuados já lhes queriam abandonar. obedeceram. O cão cada vez mais se enterrava pelas suas carnes a dentro. avançando JoÚliC/ impávidos rfffd o cadáver. mas eram logo mortos. j^Teram assanhados para o terreiro.. O terreiro fic#íf Uo^ alastrado de corpos decepados. os urubus .. Pega enxada! E o cearense agarrou . começou a cavar a co mnlmrurando.. " — Não! gritou zangado Felicissimo. Em revoada. Correu outro homem em seu soccorro e com um certeiro e violento golpe de foice cortou o pescoço do animal... mutilados. O resto dos cães ainda arremettiam contra elles. Era só o que faltava. emquanto os companheiros os defendiam n'um esforçado arrojo. seus miseráveis !.

.. encheram a cova de terra.. uma roncaria aterradora. todos se recolhem medrosos. Depois.. pensando nos cães encantados. As linhas definitivas dos objectosae-infundíamos monta- . A' medida que o cadáver ia sendo coberto.. que estaes no Céo. quando o catitú matraca no matto. a paizagem perdera o seu contorno exacto e regular. Nas noites de tempestade ainda hoje. remontavam os idtídyf um aum ás alturas secretas.. quando os trabalhadores da turma de Felicissimo se reuniram aporta do barracão. Felicissimo ajoelhou-se e rezou:— Padre nosso. Faz dó vêr uma pobre creatura de Deus desamparada. ouviram na matta um clamor. feitas catilús para desenterrar e resuscitar o velho demônio. N'aquella noite. Dominados por uma compaixão súbita e extranha os homens rudes ajoelha/am-se e de chapéo na mão. Formava-se assim um novo mytho no Rio Doce. E Joca explicou: — Lá vão as almas dos cachorros.. sem ninguém n'este mundo.. Era uma vara de queixadas que passava. rezaram. tristes. quebrando o silencio bemfazejo. que só agora se lhes revelava. Em breve a cova ficou prompta e «-abafa enterraram o immigrante caçador.. mudos..284 l//uJ« CHANAAN Assim. Ao amanhecer de um^dia'de nevoeiro.. acabrunhados em face da morte. comido por estes sujos. os urubus o desenterrariam.. melancólicos.

a cabelleira das arvores fumegava. como si fosse o imperceptível véo que envolvesse alguma deusa errante e retardada. com interesse./ mente/dissipanarf/O sol não tardou a vir. a cuja porta os seus tt^^° donos. beijava o ar. O desenho «S^pagára^a bruma mascarava os perfis das coisas e o colorido surgia com a sombra n u m a sublime desforra. Por toda a parte manchas esplendidas se ostentavam. A neblina leve. o miravam ^•«f^**-*. aa. sem limite. ligava ^ ' ao céo baixo e denso. abaixava-se. e a na-™*'//''/etAsito. arqueava-se. levada pela brisa. com os tumidos e negros beiços. vaporosa. affagava a herva. uma d'essas manchas. veloz. tureza se^sacudift/a nevoa fugiUjOcéoTeespannou «. sensual e grato. tristes e longos. os novos colonos magyares. ligeiramente azulada. Estremecia n u m goso manso. movia-se. vinha distrahil-o d'aquella postura de curiosidade humilde. e extendendo o focinho.-I u. e acariciava n'um frio electrico o fád pello ralo e //r^ falhado. como uma grande pasta cinzenta.CHANAAN 285 nhas enterravam as cabeças nas nuvens.—f e se dilatou "em maravilhosa limpidez. A mancha gp-sk? movei sobre a planicie{sej^efiniu)no perfil de um pobre cavallo que passeiava na verdura os seus olhos de velhice e fadiga. / / / O . arregaçando os beiços. triturando-a com fastio e desanimo. De passada. para a cabana. erguia-se e ^ / / l e n t a //'/. Não mais encontrava a nevoa. que fugira para os montes. Um raio . py^f (li& *" èMÁid a sua attenção de cavallo experimentado í^*****'* iffily fifMMjyâ. E sobre a campina esverdeada. o rio sem horizonte.

caminhou para o cavallo. era um sulco de alguns metros de largura.n . O animal entregou-lhe a cabeça n'uma mistura de abandono e tédio. levando uma corda. xÈUtâdffâfr rte do iiQoadw.280 CHANAAN de sol. O rapaz passou-lhe o cabresto e ^r levou"'ao poste fronteiro á casa. sahindo de sua modorra e apenas armado de um chicote. elles vão trabalhar. E os dois st. passeiando aquella hoi i. afastaram^um pouco e ficaram a . As xapaxigaS/â/fâfiffij/lffli (J tf-ij em casa cheias de instinctivo pavor. que.filhos armaram-se das ferramentas de lavourá^Tcigano. disse Milkau. desamarrando o cavallo. Milkau < e Lentz.. Os . n iijripimbwu os outros. HtítL. seguiramZènt 2eíá4 ffl) <t™ com eítê para o roçado. e o velho deu ordem de partir $ para a queimada.y viram chegaxléfti o grupo dos vizinhos. fazia-me dó vêr esta gente apathica. ruBiaeí/ — Mas para que trazem elles quasi arrastado aquelle cavallo ? perguntou Lentz. circumdando a queimada. irresoluta. Chegaram ao aceiro $ $ / / aberto como uma 11'/ ) larga ferida sobre. Meiguices da natureza. Da matta carbonisada ainda resistiam de pé alguns troncos despojados. descera a brincar-lhe nos olhos e incendiava-lhe a pupilla. porém. onde o amarrou. Um dos jovens magyares. ' .o dorso da terra. ennegrecidos. yfdfi o grupo » «w^ afastar-se vagarosamente. Os colonos tinham resolvido principiar n'aquelle dia a plantação do i W prazo. C-JUrfc ei* i+t**&> — Ainda bem.

como um sacerdote. para lavrar o campo e buscar na cultura a satisfacção da vida. como arrancando-se de si mes. seguida do cigano. acompanhando os movimentos do grupo. levando-o ao furor do açoite. abaixou-se. Novas lambadas W0$y 1/'' arremessadas por mão vigorosa. e no solo europeu renunciaram á vida errante dos pastores. Os filhos puzeram-se de lado. O pae puxou o cavallo para a frente. como para se libertar do flagello que lhe vinha do alto.sacrificaram aos deuses o velho companheiro de peregrinação nos brancos steppes. em cujo rosto se recompunha a antiga expres- . Os saas-—• J\" membros se^extorciam. puxavam-no para deante. cahiu em cheio sobre o animal. encostando quasi o ventre á terra.n u m sibillo. N'aquelle sacrifício cumpria-se uma missão sagrada: ligavase á nova terra o nervo da tradição da terra antiga. cujas raizes se entendem até ao fundo da alma das raças. e a primeira vergastada. cortando o ar. O velho. E desapiedadamente. Continuava o grupo a caminhar. confrangidos sob a dôr /1**immensa. O velho colono segurou o animal pelo cabresto e / collocou-^io meio da valia. a immolação ficou sempre no espirito dos descendentes como um dever. Quando os antepassados tartaros desceram do planalto asiático. Este.CHANAAN 287 distancia. E.//»~ mo. De chicote em punho. alongou-se. assim. Estirou o cavallo o pescoço para a frente. conduzia a victima. o cigano seguia atraz. n'um recolhimento religioso. pinoteou assustado.

uma rudimentaranesthesia. Gottas vermelhas respingavam sobre a descoberta cabeça do velho m a •=*-• ^ §y a r ' d e u m a brancura de açucena. as suas pontas dè ferro cortavam o lombo do animal. O chicote vibrava incessante.288 CHANAAN são infernal e terrível dos antepassados. mas o açoite não parou. o cavallo proseguia arrastado. seXdilatavam em languido goso. O ar leve e frio. O contagio do furor & anoderou">alos outros. produzido pelo singular efteito da paixão sanguinária. emquanto o martyr ia lento. aguda. transfigurava-se. Veiu-lhe uma hysterica insensibilidade. Estonteou-o uma vertigem. immobilisados. causava uma dôr fina. As ss»s narinas y ^ u . de pescoço estirado. h 4L* " \ O ^ ^ * . O cigano mais terrível. penetrando nos fios dé carne viva. pernas tropegas. e dajÀk garganta afinada irrompeu jdtídtâfdsonoxo. Os outros assistiam mudos á cerimonia. Cavos gemidos resoavam no peito da besta. E o relho soava. o canto de guerra dos velhos tartaros. acerba. E no seu olhar jMÊtàffl ' jade moribundo se traduziam os humildes protestos e os tímidos appellos de misericórdia. esvaindo-se pelas veias abertas. uma assassina obsessão. Mofino de dôr. e a vista e o cheiro do sangue excitavam ainda mais a energia do flagellador. como torneiras de sangue. Os sulcos na 4n\~l carne se. assistiam/ao sacrifício. o sangue escorria / frouxo. que. regando a terra. n'um retrocesso harmônico e rápido.vabriagí mais fundos. fO chicote cruel e rápido marcava o compasso d'esse rythmo extranho. mais feroz.

O açoite inexorável ainda o levantou uma vez. cahira de lado. como um peso inerte. acompanhavam o canto. / via no ar.*} /./ em torno do cadáver. E esta imagem medonha. O animal. 17 . como n'uma verônica. que se lhe guardara no interior dos olhos. pela suggestão do rito. A nova Terra juntava a sua contribuição aos límpidos ideaes dos novos homens. que sorvido pelo sol se evaporava e dissol. fogoso. lugubre. Cessaram as vozes. cambaleando como umallucinado. morria vagarosamente. e afinal'se prostroi/f sobre a terra.. rezando como phantasmas . Arquejante.. O cavallo deu mais alguns passos. A camada de argilla. resfo.. o repudio da ' immolação.loucos. rompendo a cruenta tradição do passado. pelo odor de carne sangrenta. lisa. Era a rejeição do sacrifício. legando n'um espaçado estertor. o canto que feria asperamente o ar.CHANAAN 289 E. Nas suas pupillas de moribundo s^Tphotographararrfrf um derradeiro clarão as physionomias dos algozes. embriagados pouco a pouco pelas phrases da musica.c*.Proseguia sem interrupção. Poças e fios vermelhos manchavam o sulco. ficou estampada a imagem do seu corpo. era a infinita tortura que o acompanharia além da própria morte. e era o echo da melodia satânica da morte. e no solo. impressa em sangue. presidindo á dolorosa decomposição da sua carne de martyr. Os homens seVagruparam **< . exhausto. tornava o seio da terra impenetrável ao sangue. n'um coro infernal. escorregadia como uma couraça. — .

. a fecundação pelo sangue. como uma rapariga bella e fresca. lhes daria os seus fructos. si Ella.290 CHANAAN — E para que? dizia Milkau comrriovido até ás lagrimas.. risonhae alegre. cedendo tão somente ás brandas violências do amor?. e para que a tortura.

' ce da crise. que dia e noite ameaçavam despedil-a. /. que já desde a véspera vinha soffrendo. no silencio do dia. no abrigo doméstico. Resistiu e continuou a labutar debaixo dos pés de café. No meio do cafesal que estava a limpar. sentiu repentinamente uma dôr aguda nas entranhas. acontecia.IX E o que tinha de acontecer. o corpo se lhe retorceu todo e o rosto desmaiado se desfiguro^ n'uma contorsão medonha./" ATt*^ ' . Teve.. porém. como de uma violenta punhalada. para se furtarem ao incommodo do tratamento. medo de affrontar a ira dos patrões... O traba. sósinha. Maria. <*-—/ A dôr fora viva e passageira: e logo que a rapariga voltou u a si. e as pernas trope. Cahiu pesada no chão. lho não flillldífl ffMt das mãos entorpecidas ylffffULcCras deixava cahir frouxa a enxada.y l meiro movimento foi dV /se\recolhei^ á li o seu pni n n nhritrn H n m p c t i r n pencrar n rlpçpnlncasa e ahi. es'perar ô~dèsenla. assaltada por um grande terror.

não se sustinham firmes. esforçando/fe por trabalhar. clamando soccorro. Maria -$• amparava^ apertando-se com as mãos para suffocar o soffrimento extranho e vergonhoso que sentia.desbastando o matto tecido ao cafesal. mas ainda assim um lar. As dores inexoráveis proseguiam amiudadas. volumosas. afastando-se o mais possível da casa. Tomada de medo. onde era mais deserto. abandonou o serviço e. alagada em suor frio. os olhos indifferentes se entendiam sobre o campo e recolhiam a pom- . De espaço a espaço a mesma dôr voltava. Quando serenava. deixou o cafesal e gfe aventurou-para o lado do rio. no terreno inculto e bravio. sem mais esperança. Sabia bem que qualquer auxilio dos amos importaria em um augmento de tortura. as únicas arvores que havia eram esparsos cajueiros muito derreiados. esgalhando-se pelo chão. tinha ímpetos de gritar. No vão das dores. As vezes. espantava-se dos seus inconscientes desabafos e tremia de pavor. viu chegada a hora da maternidade. e contra toda a vontade gemia alto. E ella combalida deixou-se pender sobre a terra. pensando que a viriam acudir. mas logo era derrubada exhausta. de aviltamento e seguramente em uma expulsão immediata d'aquelle lar desagasalhado. e a desgraçada.292 CHANAAN gas. como si lhe dilacerasse o ventre. O aroma forte invadiu-lhe a cabeça. Maria sentouse debaixo d'uma d'essas arvores que n'aquella epocha estavam em flor. Ahi. Nos intervallos erguia-se.

parecendo que se ia desmanchando n'uma humidade viscosa.. cahiam ennovellados sobre o rosto. agora mais miúdas. quasi surdas. as mãos roseas cerravam-se como molas de ferro. desprendendo-se. que jazia desfallecido e inerte.. o vestido arrebentando deixava vêr o colo nú e arquejante. Maria .. Tudo n'ella era desordem. a não ser uma manada de porcos. alheia a si mesma. e^torcendo-se na agonia. O h ! peior que a morte. acabando n'um grito soluçidiái IJoàOf que se perdia n u m longo espasmo.... os dentes batiam de frio nervoso. Sempre as mesmas dores. os cabellos.. <)lovas dores vieram. Soffria muito.. e a miserável. A morte devia ser assim. &/ /eus gritos eram finos e estridentes e ás vezes resoavam asperamente. repugnante. dilatando-se á força. como estrangulada gargalhada hysterica. a dôr Q fi» interrompeu de novo e o suor frio banhou-lhe o corpo. sacudindo-a violentamente. até que arrancos lancinantes o agitaram outra vez. abafadas. ii entretinha^em acompanhar-lhes a morosa viagem... Os porcos pouco a* pouco se iam approximando.CHANAAN 293 posa phosphorescencia do rio faiscante. Depois. as faces tumidas estalavam de sangue. Rasgavam-se-lhe as entranhas. Nada se movia alli na solidão.. dando-lhe andas de apertar alguma coisa contra si. Maria gemia livremente. E de repente sentiu-se mais desfallecida. mais cortantes. que vinha ao longe focinhando e escavando aterra.. o /' corpo lhe tremia convulso.

largando a arvore. Subitamente... remexendo as folhas seccas do cajueiro. mais vorazes. despertando-a em sobresalto. E os animaes sedentos se enchafurdavam. i exangue. estrei/ ^i/i / tando-a com os níveos báços nús e mordia o ' tronco. E os porcos persistiam sinistros. Uma vertigem turbou-lhe a visão. o braço morreu-lhe sobre o corpo. cravando-lhe os dentes^desespexadayaá^w/ £/ Zs convulsivamenje.. horrorisada..^ez u m cançado gesto para apanhar o filho. Maria. longe do soffrimento.. débil./ J/f # ... ella cahiu extenuada. E ella (sè\agarrav/já arvore. Os porcos/se\afastarar^i. yyyj que a cercavam. e só podia gemer estrebuchando n'uma Icvvrh.. atropelando-se no sangue que corria. Nos ouvividos entrava-lhe o resfolegar roufenho dos porcos.. Um novo gemido sahiu do peito de Maria. 4-*\. attrahidos pelo cheiro que d'ahi ffv #/^yltídiíava. que a estimulava 'fíáv^o extranhamente.. grito agudo. queria afugental-os.294 CHANAAN abraçou-se ao tronco deitado do cajueiro. Um vagido de creança Çjy^t^yjf yditifyflyyfd ffo roncos dos animaes. yjpyyd olhos desvairados não viam mais nada... /ngvl.. mas as dores a retomavam.. Em torno fungavam os porcos. a lamber afoitamente o chão.. mistura de/soffrimento e de^oso. nem mesmo tinha forças para um / . ameaçadores. A mulher e^m.espantados. guinchando. enfraqueceu-lhe OS o u v !-eyJT rá° s > e n 'uma / ^ r j ^ f de bem estar parecia deliciosamente suspensa nos ares. . mas. imperiosas. ouvindo no arfar dos porcos o resfolegar longínquo e adormecedor do mar. longe da Terra.. chegando mesmo alguns *mais atrevidos.

mirou attonita f*. ojkz. em busca de Maria. viu o filho aos trambolhões. <átí//$$(. a dôr cessou.0/-** do dr.jfc/~~ pio.** / t r *^ rios unidos tá agitaram^para a vingança e o exem. / o dr. e os sustentaculos da colônia.jfsèm dddyy indagar retrocedeu á casa. filha dos patrões. tremendos . escrivão Pantoja . e Maria mergulhou afundada em outra vertigem. sm*^^*" os ricos negociantes. Quando esta abriu os olhos. sôfregos... 'Í0- Dois dias depois. se precipitarairrsobre os resíduos sangrentos. hirta. * com .. A população germânica m^d/pj^/^^f m a noticia do crime. uns jornaes políticos da capital. livida. se contorceu. que vagia estrangulada'. sentindo-a socegada. Itapecurú/$0^despachava7âutos com o /& /0<T'. Brederodes percorria ' j~Lj. que ás primeiras dentadas soltou um grito forte.. mei/consciente. despertando a mãe. os pastores. que fugiam pelo campo afora. e yyndo a espantosa scena. chegava nesse instante.. Uma manhã. y/^^j^f* !„*****. f -£~ Á. Depois. fknjAlfado pelos ///éíòàfi*"porcos../ | a creança. deu um lü fa* salto ^fditfè e pondo-se de pé. quando Roberto e^*»«* /< . sorveram o sangue e na excitação da voracidade arremessaram-se á creança. Os porcos. Maria estava na cadeia do Cachoeira.. ^yfyfflÊàfy tándo n'uma espontânea e communicátiva mal que a creada tinha matado o filho.jf nada.. quando um grande vácuo se lhe fez de todo nas entranhas. espalhados no chão. alluci. os proprieta. Devoravam tudo. antes da audiência.CHANAAN 295 Jjf i e ella.

longe ^m/T^y do assumpto. — Senhor doutor. que vem pedir.. — Oh! meu bom amigo. sinão não estaria tão grave. £</ . Itapecurú presentia que Roberto tinha o que lhe communicar em reserva.%^-ft-' direito. não era cobrança. não pede.. Ha de ser a conta.. ficou nervoso.... disse por fim Roberto já maéI -í I fado. Não se atrevia a chamar o allemão em particular e demorava com geito o escrivão.. Entretiveram-se algum tempo sem pretexto. — Seja bemvindo a esta casa. quem sabe. Não.. — Depende. pensava o juiz. o senhor manda. Com esse ar de importância. o que me traz aqui..290 CHANAAN Schultz.j muito macio e delicado. Assim. Não é. não é para uma questão de autos.. entrou solemne. doutor Brederodes ? O promotor resmungou. que também. — Não. Que será? pensava o juiz de 4Z..costume? Ou. deante de gente. n'uma conversa.. E o magistrado ficou abatido. senão apressava. Si fôr de direito. sacudindo os hombros.. Aqui estamos todos para servil-o. Itapecurú. vestido como nos domingos.. que proseguia-^fa^rancos. / Itapecurú respirou. O allemão cumprimentou a todos corn uma palavra amável para cada um. sorrindo estúpido e sem L*ty%5 propósito aos outros. Não. como de £» *****. saudou-o com servilismo o juiz de direito. não era a conta. anniquilado. cheio de curiosidade. m . Algum despacho. vem exigir o paga^jll/jLt-^ mento da minha conta? — Aqui.

que enrubesceu com a ' impertinente familiaridade. — Mas de que se trata?. fitando o escrivão.. em nome da colônia. — O que nós receiamos é que algum dos senho. Nós somos amigos velhos e nunca o senhor me pediu nada desarrazoado. Brederodes deu hontem a denuncia. Já expedi os mandados para a formação da culpa. — A colônia sabe. capitão? — O dr. não ha du/ . O crime é horrível.. que aqui não falta Justiça. e a dignidade dos allemães exige uma licção severa.y res jilwi uma fraqueza de coração pela sorte da L/ú ré./ 17. espraiando as bochechas n'um riso grotesco. e. acariciando / o hombro do promotor. pedir a punição d'essa miserável que matou o filho.CHANAAN 297 — Como. E em que termos está o processo. ' ' . disse gravemente Itapecurú.. A Justiça tem os olhos vendados. eu venho aqui./ sérias ? perguntou o* allemão. doutor e caro collega.. capitão. interrogou abelhudo o « maracajá ». acudiu Pantoja. que eu seria capaz de faljar á Justiça sinão de coisas (. considerou o Juiz de direito. sorrindo. — Ah! Então. que o desarmou do monoculo. — Está claro..... — Nem a mim. Havemos de examinar tudo com o cuidado que sempre empregamos em nossa missão. — Meus senhores. accrescentou Itapecurú. ' — Oh! impossível. senhor doutor? Julga V S.

— Não denunciando.... capitão. Mas não ha de ser aqui que pegarão esses máos exemplos.. — Não pôde haver duvida. — Ah! — Sim.... Eu não digo. si ficasse impune o delicto. Este continuava a vociferar.... — Doutor Brederodes. V S. Uma perdida.. não prendendo. — Senhor doutor. E.298 ta '/ CHANAAN vida sobre a criminalidade da accusada ? pergunton' Itapecurú ao promotor. empenhando-nos para não haver andamento no processo.. que viu os autos? Brederodes não respondeu e continuou de lado a folhear os jornaes.. que affirmam ter ella lançado a creança aos porcos. arriscou o allemão. observou Roberto.. Imagine V.. que seria da moralidade das famílias dos colonos para o futuro?.. depois.. O senhor.. S.. Os outros queriam evitar o desabafo do joven promotor. comprehende. Ha testemunhas de vista.. quasi esbor- . que o senhor Roberto e os seus patrícios nos têm aqui como seus creados? E Brederodes deu um violento murro na mesa.. si nós passássemos a mão por cima.. os precedentes. O filho lhe seria um trambolho. — Mas como podiam os senhores abafar o crime? perguntou Brederodes seccamente.. — E' muita petulância..

mandões de aldeia.. S. teve forcas de dizer o > allemão. A moralidade de salteadores.. porque enriqueceu furtando o nosso dinheiro.. m o t e j a m ! ^ ^ * ^ ^ — E' aquella ? perguntou)6maracajá}i Sá// ' d— Sim.. qual nada.. — Si ha? Oh! esta miserável.. exigir em nome da colônia. de pudica commigo. conheço-a bem. Vem aqui á casa do juiz de direito um bolas qualquer.. que o povo. mas agora liquidaremos contas.. Que colônia?. Exigir que se cumpra a lei. — O que elles querem é exactamente justiça! — Tartufos. E' boa! — Mas não ha inconveniente. — Qual povo... Aproveitarei a occasião para . replicou Brederodes. hypocrisia. que procurava com um riso cobarde amparar a fúria do brasileiro. e ahi está o que ella era.. para desviar a questão.. fez-se de fina.. e como não ha remédio algum. collega. a mesma. Muito boa! — A nossa moralidade.CHANAAN 299 doando o negociante. creados. Qual povo!.. Como viram uma das filhas apanhada com a bocca na botija. Ladrões. creio. pensa que não ha crime no caso ? interrogou Pantoja. — Sim.... miseráveis. que se apossam de nossas terras e enriquecem! — Então V... — Moralidade? Fingimento.. Extrangeiros.. á& alvoroçam^todos para reclamar justiça......

Eu também admiro os direitos do homem.. Nós gostamos muito de bolir com elle para vêl-o se. mas como magistrado sei dar a cada um o que é s^u. — Lá se vae batendo com as mãos. Havemos de vêr.. mal apertando a mão de Itapecurú.. — É verdade. desmascarar toda esta corja d aqui. O allemão não dizia nada. Suum cuique tribuere. Não era alli que havia de confessar os seus rancores. sahiu olhando com raiva a figura ffijfa edesmoralisada de Roberto. Este facto não é o único.300 levar esse processo até ao* fim. Itapecurú. isso não. Para mim todas estas allemãs matam os filhos. São simples revolucionários. rapaziadas. $H*#" o- CHANAAN . que ainda o quiz demorar. — Tem graça! disse Pantoja. commentava o escrivão.. balançando o monoculo. Que damnado!.. Não sou o promotor? Exigências commigo? Não. Pensam que o progresso é a revolução. j/afybflf/fâjado pela cólera. quando. sou liberal.. Pegou no chapéo e. é a falta de attenção com os elementos conservadores do paiz.. que ia acompanhando da janella a marcha de Brederodes na rua. falando sósinho. — O defeito principal dos moços de hoje. querendo illudir a impressão deixada pelos desmandos da ira do promotor. fdfffderou o dr. quando ficararhN i sós. Não poude mais vociferar.queimarr^ajuntou por disfarce Itapecurú.

. Itapecurú sorriu da incapacidade do mudo auditório e continuou : — Onde está o elemento ? Nos senhores negociantes. fez-lhe uma grande cortezia e foi sahindo. Pantoja acompanhou-o com passo sorrateiro.y ^ colônia. E' preciso termos sempre em vista o elemento conservador do paiz. — Oh! seu escrivão! E os nossos autos ? interrogou afflicto o juiz de direito. levantou-se. nos proprietários. Que pôde fazer uma sociedade sem ordem ? E a base. aqui na . ainda mais que tudo aborrecido por ficar só. nos colonos estabelecidos. já venho. — Sim.! que perder. Para elles a política é só destruir e botar abaixo. Os senhores jacobinos não comprehendem este principio admirável. que têm o / /^. velhos e jovens.. Por exemplo.. Mas Roberto não esperou o resto. já principiando a enfadar-se. onde Mifijdfo este salutar elemento? //<fr é"*"" Ninguém respondeu. O juiz de direito suspendeu o discurso. retrucou o escri- . — Bem. ia dizendo Itapecurú. a justiça para todos.. E não é maltratando-as. emfim. cortou o escrivão. — Espere um pouco. Posso responder á colônia que não ha meio da criminosa escapar ? — A colônia sabe que pelas minhas theorias... impaciente. Pois é pena. Roberto. que se /em /V*r*'' uma perfeita organisação social. nas classes respeitáveis.CHANAAN 301 — E' o habito da justiça. seu doutor. sem ouvinte.

. eu mesmo vou escrever ao governador. os jacobinos. — Donnerwetter ! praguejou o allemão. E logo proseguiu na lingua do paiz : — E boa! Os senhores querem o nosso auxilio nas eleições. E «e. pelo menos... a remoção do Brederodes... Posso contar? — Oh! commigo o senhor sempre conta..102 CHANAAN vão sem se voltar. que vive a g^insultar<Togemcom o corpo!. — Então escreva. — E o tal processo ? interrompeu Roberto.. Porque.. E não vá o governador não attender. em segredo.. tem razão.. e quando se trata de^castigar um insolente. — Tem razão. gaguejou o escrivão.. — Maluco ? Canalha! vou já escrever para o Cachoeira armando-lhe a cama. segredo.. Todos se protegem... — Maluco.. Basta a remoção. embaraçado. Que não faço pelo partido? Mas. O diabo é que esses jacobinos são muito fortes. — E. Muito entre nós.. para o inferno... Uma irmandade. sabe..... mudando de assumpto... pedindo. ha muito pedido do . Olhe.. repetiu o outro machinal e pensativo. quinhentos votos só aqui nesta colônia.... E. — E que tal o promotorzinho! disse na rua Roberto ao «maracajá».... Não é ? — Que vá para o inferno! — Sim. Veja. foi esgueirando ao lado do allemão....

. nas outras colônias. — Não faça caso... — E' verdade. — Quanto ao juiz municipal. em Itapemirim. Os )s jacobinos de quem o senhor fala tanto. A colônia não pôde abafar.. é um senhor cheio de maisadas. posso dizer.. — E o promotor? — Não viu ? Com a idéa de se vingar dos colonos. para que se calem — Pôde ficar tranquillo.. é um caso monstruoso.. E' meu. — Sim. perseguirá a tal sujeita até ás ultimas. Além d'isso... Brederodes. E eu. proclamou o negociante. Dá-se um berro com elle. Benevides.. batendo com alarde no bolso da calça.. Um imbecil. O juiz de direito. por toda a partejQs nossos patrícios haviam de dfj desmoralisar/Nada. é preciso um exemplo.. é nosso. — Ah! a política! — . acompanhando o gesto.. que respondo pelo resultado d'esse negocio. Realmente.. continuou o escrivão. e tudo vae direito.. E' cabeçudo. Que se diria? Que as allemãs do Cachoeira são umas perdidas e atiram os filhos aos porcos. comprehendo. gritarão. como fez o sr... ' É muito sério. E depois. Pantoja sorriu. esse seu . esse. temos o Itapecurú e as testemunhas.CHANAAN 303 centro.. e mesmo por tolices pessoaes. c / / esse doutor Maciel. coitado! já se sabe.

o emprego para remunerar serviços eleitoraes. Mas logo o « maracajá » voltou sobre os passos e gritou para o outro: — Ia-me passando. Não é para mim. seguindo direcções diversas. em que ^ t ó # H # M ^ . Depois. Entre presos e solda/«/*^t~ dos havia a mais relaxada camaradagem. que eram / ^ guardas '<? * effectivos dos detidos. de cem mil reis. hoje. ajuntou pressuroso. O carcereiro ahi raramente yF I apparecia* tinham-lhe dado. Bom.304 CHANAAN creado.. Um corredor dividia a casa ao meio : de LÍj um lado fal a prisão e do outro o alojamento hdos dois únicos soldados. J vez a mais velha e a peior habitação da cidade. adeus. — Sim. não esqueça a carta. E' para a caixa do partido. resto do antigo povoado.. era tal. As c j ' l-— paredes eram negras e as grades enferrujadas da janella quasi soltas dentro dos buracos da cravação. baixou a voz : — Tenho precisão urgente.. já existente antes da colonisação.. — Appareça.. . que móe a mandioca. Pantoja e o allemão se separaram. depois de condemtyfc llk ^"Z/ .. como é o habito no C^j paiz. A cadeia do Porto do Cachoeira. perfeito... ninguém discrepa. Os accu**** sados passavam n'essa casa apenas como por uma estação durante o processo. concluiu com jactancia o cabra. approximando-se. — Muito obrigado.

/ cta noção do que tinha acontecido.. de vingança. se exaltava.. Em « outros intervallos. E ella . que o divino sonho se desmancha ao sopro da mal. /l/fz%t!L Tfítf JM0WI01 Milkau fy#0L da sorte . ao frio. n'uma promiscuidade animal. Trazia-lhe a / memória o quadro medonho. até que de novo o torpor ' bemfazejo lhe arrebatava a consciência. Com.*H.^/^TOL' . E foi um rugido no seu coração. por instincto de bondade. era vida. e apenas de longe em longe lhe vinham/vislumbres da exa. ^/debatia em gemidos de horror. que os seus olhos uma vez tiveram a suprema agonia de vêr./ / soffrenjjfesmagada pelo temeroso peso do mundo..*. Mas o que soffriam esses miseráveis quasi sem alimento. e de tudo o que . tão fértil nos humanos. um tecido de cobardia. em /"*^ supplicas. A inrelligencia n'ella adormecera. que atraz d'essa accusação havia um drama.. quando. eram remettidos para as prisões da capital. desprezo de si mesmo. ^ de Maria. E teve pejo de ser homem. mais calma. vergonha. dormindo sobre estrados de madeira.-lhe o momento doloroso zm/flC/Oín*. de! jtífy....CHANAAN 305 nados. o lll'(/tiyu seu maior tormento era a desesperada anciã por seu filho. entrevisto tão bello no nevoeiro da vertigem. em choros.. quasi a morrer.ÁfcáL^ prehendeu logo. acobardada. e AMÊ^ ainda assim fraca. tíld^fjf.. de estupidez. sem roupas. á humidade e n'uma incrível immundicie ! Maria não comprehendia bem porque a prendiam.. e pela " '' crystallina claridade da sua alma desannuviada.

Tudo o que julgara como o doce convívio da bondade. parece-me. do esquecimento e da paz não era sinão o baixo connubio de todas as vilezas sociaes.. Na tarde desse mesmo dia. esperando uma resposta. Abandonas os nossos interesses.. devo correr para o seu lado. a cidadesinha não tinha mais para elle o encanto d'aquella primeira manhã.. — Quem sabe da verdade ? — E quando não fosse innocente. escarneceu Lentz. o seu crime não seria antes a culpa dos que a repelliram e a levaram ao desespero ? — Mas tu não estás em causa.306 r CHANAAN dade. replicou seccamente Lentz.. Milkau disse a Lentz: — Vou ao Cachoeiro por algum tempo.. E partiu j^r. como é o teu.. a nossa colônia? — E meu dever. A tristeza que . — E por isso me deixas ?. — Não comprehendes ? respondeu Milkau com calma. em que a saudara como filha do sol e das águas. chegando ao Cachoeiro...... — E que te leva lá? perguntou o amigo.. — Não comprehendo.. esse soccorro.. — A sympathia pelo destino d'essa infeliz rapariga. Então não vês que essa desgraçada é uma victima? E desde que eu a tenho por tal. No dia seguinte. quando ha um soffrimento no Universo. — Todo o homem está em causa..

fffjfiff/fí w**" 0t' n a s n n n a s inconscientes figuras deformadas de . quasi sem água. torturado pela ávida cobiça. mesquinho e ridículo. vestido de soldado. informes. /**" seres monstruosos. petos confusos e irresistíveis.CHANAAN 307 trazia. olhando para o rio. O único desejo de Milkau era estar immediatamente com Maria. á cadeia. Apertado entre duas linhas de morros. como para um povo apenas acampado sobre a terra. o povoado parecia-lhe abafado e condemnado a uma irremediável angt^ja. impellido por im.' . trágico. O sol infernal castigava sem piedade as habitaçS^s e sobre as rochas abrasadas. sem arte. feitas ás pressas. Sobre as ruas barrentas. agitado. a gente grosseira e rude mostrava o ar embrutecido. m communicava / a paizagem e toda a antiga maravilha d'esta se desfazia mysteriosamente. Milkau pediu permissão'para falar á p r i . Eram pequenos sobrados. na embryonaria e abor' f" tada cidade. A porta. quebrando-se nas pedras negras.. dolorosamente nús. casas deseguaes. um mulato moço.. O rio. colossaes. fervilhava o seu cachão ^ monótono. dirigia-se. descalçadas. e de ouvir a lugubre confissão do crime. tremulo. de farda desabotoada. E ahi. desolador. er• guiam-se.Todavia hesitava. Tudo o que era natureza tinha o aspecto sinistro. q[ E. e o que era humano. viam-se estampadas a esterilidade e a aridez. desarmado/era o guarda da / j prisão. verdadeiros aleijões. com receio de se vêr n'um instante desilludido sobre a innocencia d'ella.

tacte# ando-lhe levemente a cabeça.• • não é? disse Milkau. 011a. com a mão preguiçosa. . O que fora n'esta de gracioso. qu cama. apprehensivo. muito assustada com a apparição. curvada _ como para lhe recolher toda a caricia. Milkau não espercKl^que ella falasse. sorriso u/)^ infantil e humilde. de seductor. sem olhar o "\\ n -/ homem. Maria recebeu d'aquellas mãos e d'aquella voz um fluido de ternura extranha e de bondade nunca s^n^?da. ' e nenhum dos dois por algum tempo disse uma palavra. o corredor da casa e apontou-lhe o quarto onde ella estava. de docemente feminino. depois.8llo3 oo orguilrii o pnwir>ci . muito branca.^ ^ Ella curvava humilhada a cabeça. tinha-se apagado. l/flW*"%— Soffres jfòj<f>. e só restava uma triste carcassa. quéjJ&Bíp' jr\J/* prolongado indefinidamente. d'onde espiavam scintillantes olhos em que dansava a loucura. O homem. sem mesmo a*levantar da soleira da porta. ^ sioneira. Ia por 4- " ^ <• ^ \ \. A compaixão foi crescendo em Milkau ao aspecto miserável da mulher. Enixe». E nos lábios da desIfrtJf^ graçada chegou a abotoar um sorriso. que ella. Milkau entrou. Foi um goso subtil.v 308 CHANAAN . uma face livida. mostrou-lhe d'alli.(õ^tou implorando misericórdia. tremia .

wk deixou affagar os cabellos tecidos. Abandonada.. ia surgindo a sua consciência ^^mf^^Âj^f'//Ê'gyyny*'~ j — Olha. forão elles os responsáveis.. — Soffres. Mas isto vae acabar. Milkau proseguia... confessando a sua terrível falta. mas. á medida que falava. Tu sahirás d'aqui.. continuava Milkau.. -arrastado pela deliciosa anciã de confortar : — Foi n'um momento de allucinação. Era a loucura em ti. Elles te perdoarão. Estás tão fraquinha. que o não deixava premeditar nas palavras e nos gestos. e doente. puxando para si a cabeça de Maria.. que levantar alli o espectro do crime ? E éÕffi se rea...edfA/ emmaranhados e seccos..CHANAAN 309 deante arrebatado pela sympathia.... Não.. Haverá piedade da tua sorte. J/aÊ... -fcai*. a fronte. .. Não te abandono.. yym não lhe via a face voltada Ht^. ao poder mysterioso da bondade.iJ%a«i para o chão./JJn to.. e pouco a pouco.. p sobre os joelhos d'elle descançou muda. Tanta! H/fJ^f E sentou-se na uVjya' cadeira que havia no quar.. /Asubmissa. bem sei. Eu sei. fe/r Maria estremeceu. E ainda a felicidade. Instinctivamente hesitava em accusal-a. isto vae acabar. Sim.. como um ninho dou* rado.. Porque. As lagrimas seçcaramMhe instantaneamente... Erguer o espirito. /^^ÊL Terás ainda tanta felicidade n'este mundo./ > " * ' nimava.. sentia sobre o corpo a morna humidade das lagrimas/^ //l^ ym****-1 — E preciso cuidarès de ti...Jf<*. Não é? são os mais culpados.. Para .< e direi aos outros que a culpa não é tua.. dddil l/(y^~ inerte.. Não eras tu.

. Assassina... ora crispadas se torciam juntas n u m aperto. aterrada... emmudecéjdjl Agora era ella que falava. Arrancaram-no de mim para o devorar.... espantado.. — Meu filho... não quizeste (desgraçada que foste!) vêr o teu filho soffrer. si me repelles... comprimiam como tenazes a cabeça.... Oh! meu Deus.. — Que tu mataste... confuso. meu filho.. vae... N'um impulso frenético de arrancara confissão de tudo saber. vae. . — Eu me compadeço de ti. Meu Deus! E as mãos.... Elles te pedirão conta de teu próprio filho. Não tenhas medo.. pesadas. disse Milkau.. vae.. — Não.... — Não. Não me lembro bem... // CHANAAN perdida. sim. recuou para o fundo do estrado. Eu fico para «-salvar<affirmou Milkau obstinado. ' — Sim. E com o gesto incerto o expellia da sua vista.. querendo attrahil-a.. não. Milkau H^ÀMp se perdia desvai radamente. que. ora. — Vae. tu. Elles não te perdoam. — Não. A miserável ergueu a cabeça ef^qlhandá/firme... é horrível! E os seus olhos pungentes e frios atravessavam os de Milkau.. murmurou arquejante.310 '-/ ç . — Desgraçada! Que te resta.. — Eu? — Tu.. Meu filho. Não... — Não.... como tu.

.. quero. É para o teu bem... Deixe-me.. Vergonha.. Calou-se pensativo..... murmurava suffocada a pobre. perseguida ? Porque ? Não confiavas em mim ? — Tinha medo. Dize-me. eu te peço por tudo que amas : dize-me que' estavas louca. disse com uma voz imperceptível. A cólera de Milkau abrandara em presença d'esse desespero. disseste.. — Maria. . deixe-me..% Maria ficou acobardada. Devo ficar...... sentindo a enexgiiy ddd HJ ^ cisão com que foram ditas essas palavras.. Fico. insistia Milkau. tomado de uma tristeza infinita.. anniquilado. que não eras tu quando mataste teu filho. — Não.. — Quero saber. — Vergonha! E por isso.. — Porque não me chamaste em teu soccorro. quando te viste desamparada. 0 seu ^ C& espirito frágil debateu-se ainda para luctar.. E . Has de me dizer tudo. e humilhado m arrependia^do seu transporte inconsciente..CHANAAN 311 — Assassina ! Meu filho ! Oh! Porque me vem perseguir na minha miséria? O h ! Deixe-me.. mas apenas pairou um momento livre e logo cahiu vencido. — Deixe-me... — Natureza humana! Vergonha. A rapariga esperava submissa. recomeçou elle com uma voz f]$/Ju Í0í. aós pés do dominador.

Depois. comendo.. -ti— E os porcos. p bre os joelhos d'ellef i fsf^í na infecta e tenebrosa ^í?"'prisão. Ella obedeceu. illuminado de todüj /oV^. chamou-a a si...£ e mou... egues... dócil e abandonada. m fjfc*0fc 0... Chorava ! Meu Deus! Depois. ella se approxi.. e a espantosa scena se lhe representou exacta na imaginação 1 aguçada pela sympathia. Uma vertigem te derrubou. gritou n'um feliz. — E quem matou ?.. carinhoso e terno. um roncar de porcos em roda de nós. j^.. (íurvóu-se outra vez so•. — E depois? — Ouvi ao meu lado a vozinha d'elle. . eeu não matei ninguém. teu filhinho?.. cheia de meiguice. Anda.... responde... E então... os dois desgraçados foram recompondo tudo lugubremente : — T u te sentiste desfallecer.. — Quando foi.. Pensei estar morrendo.... — Vem ! Escuta ! A essa voz.. e foram. fy/ ' — Nao nt Elles são máos...... — Mas.. Elles te accusam..312 CHANAAN por isso mataste teu filhinho. elles o carregaram.. comendo. Estes fragmentos de phrases eram bastante para aclarar o espirito de Milkau. miserável. Pensei estar tão longe.... supplicou angustiado Milkau.

de ndvo. — Meu filho! — Tu despertaste e viste ao longe teu filho ensangüentado.... O sangue corria. $yóÚL L/ fala.. nos dentes dos porcos.. elle.. Fala. Todas as forças do seu cc ração votou-as á defesa e salvação de Maria. px sioiiei daãd de entr IU1Í [aria / chegou a se *1? sentir feliz na sua misérjr Longos momentos ha ")^f via em que. presa á voz.. pxfsioneixaf.. ficava17***»-^?#k deliciosamente esquecida do próprio infoFfunio| / ^ u T'r> Por sua vez.. — Arrebataram-na... lia a/m lei. prenderam-te. * • * * . Que me resta ? — A innocencia... -j^encaim^Y -*£5~' tava-*em sondar essa alma primitiva.. — Chorava aos teus pés.. — Meu filho! — Perguntaram-te por elle.. amaldiçoada. 7>*4Y-cSY?e* .. Desde aquelle momento á vida de Milkau Jfs\ transformoii... IS irdi qeixflvajn 18" _^_. a creança.. — E os porcos... á doçura do amigo........ vendo-a diariamente. Accusaram-te.. aos pedaços.. . Fazia-1. r ao desamt imju<flad is-v isit. Não te escutaram. Nàfl^-^^jSb..CHANAAN 313 — Vieram. rica d | 4 * emoção e de bemaventurada ingenuidade. — A creança.. [desgraçada. "• — E agora.

balan. e I um ódio collectivo não poupava d homem.. acompanhando fielmente os casos por elle praticados ou conhecidos. vj. engulidos pela treva insondavel. seu correspondente para os fornecimentos da colônia.. no mar. fydt 6n_ m a s a c u j a mysteriosa musica ^ f e t ó ^ c h o r a n d o ~fom&c*y» perdidamente.. ^ E ainda no mar glacial. Tudo ella ouvia com sofreguidão.. 1 f bifa 4"*rgV . Ora. Ora. esclarecido vagamente . IJ^Kíiu ^acompanhavam d/M extranha conducta.. lia-lhe ijy poemas. erravam nas pequenas cidades do Rheno e resuscitavam lendas.. a passarem sinistros para se \ mergulhar. que se fíl dd' * J r a v a a m < ^ a ' talvez como cúmplice.J çados pelos ventos. narrava-lhe sempre as suas viagens. onde ha fome.314 CHANAAN conversas. Milkau começou a ser notado. as mais indignas conjecturas. depois com rancor.. nas grandes cidades tumultuosas sem piedade... arrastados pelas tempestades.. não contava. sem saber porque. era tratado com desdém. á mulher que! y/f ' lhe matara o filho. e a sua vida de peregrino no mundo. sempre atraz. *~—N Na cidade.. como se formariam em qualquer parte do mundo. de que ella não percebia bem o sentido.\ pela lua. Forma/' ram-se alli./a principio com curiosidade. I . e brancos navios avolumados na phos\ phorescencia da noite. Ora. subiam aos Alpes gelados e guardavam nas pupüjas as cores maravilhosas do sol a morrer. Acreditou-se que era elle o amante de Maria.. Ora. como sombra. E ella. Todos o evitavam. em casa de Roberto Schultz. sumir.. Outras vezes. sempre o seguindo..

De volta de uma d'essas caladas excursões. humido. gelado. Milkau abandonou Felicissimo e . passeiava solitário pelos arredores do po-' voado. ladeada dos dois . com a sua Índole franca e bondosa...» alojou-^ho mesmo hotel em que ffdwf Milkau. Dias depois Felicissimo chegou ao Cachoeira e . deixou passar aquella visão que lhe parecia o phantasma da Innocencia levada para o martyrio. era o companheiro de Milkau nos )asseios e com inquietação amiga observava-lhe os silêncios profundos. irticipava do preconceito da cidade. para o Juizo.<a-~ phar branco. que ia responder ao processo. e.resignou. a isso. E assim. O agrimensor. mudo. As portas das lojas e nas calçadas a gente do logar e os tropeiros e colonos do centro seguiam pasmados um grupo.p>*h CHANAAN 315 fMíylMtí. compadecido.. não procurou detel-o. e na boccauhe\morri/Jüm nenu. na sua força. jfê... .** precipitouTno encalço.. entraram uma manhã na cidade e viram um movimento desacostumado na rua principal.. Milkau commovido. Ao longe ella se foi perdendo.a ser o inimigo commum. ^ W ^ ///Wb*re\ transfigurada. apagando-se. na sua superioridade axno-df/f**^ rasa. • soldados. os olhos postos no chão tinham grinaldas roxas. Era Maria. /y/fl/t/id**/ O cearense. repellido pelos jtuiyMy quando não ia á cadeia. e á claridade do dia a sua lividez era cadaverica. Depois da primeira audiência seguiram-se outras. que passava.

. Maciel s* entretinha^muito á vontade com elle. A trama estava bem tecida e fatalmente a accusada não poderia rompel-a. pelo soffrimento augusto. o seu espirito eliminava todas as separações que vêm da sociedade e instinctivamente não conhecia as vãs distincções de posição. Apenas via um ser egual. uma tarde. de fortuna. Não era seguramente a posição do magistrado que o attrahia. depois de acabado o trabalho. <Myi$ftf voltando da cadeia. quando. — Que desgraça! que desgraça! foi lhe dizendo abrupto o cearense.316 CHANAAN a que Milkau não faltava. dirigindo desprevenido e intelligente o processo. de raça. Os dias d'essa acabrunhadora vida no Porto do m . Por seu lado. com uma inútil cordura. que tratava sempre com sympathia e ás vezes com respeito.. pela superioridade moral. Quando estava deante de outro homem. ffJe/J^J encontrou Felicissimo muito sobresaltado. O pequenino Fritz. — Que foi? perguntou Milkau interessado.Cachoeira $7/fôí ffcdzfijtfftjfàt sem alteração para ú****''4' Milkau. Milkau 9*. As testemunhas depunham contestes contra Maria. Milkau achava o juiz municipal uma esplendida natureza e o ia estimando. muitas vezes.imaginava"no deserto. pela sadia intelligencia. Pedro Maciel era o juiz da instrucção. de família.. A persistência de Milkau tornava-o um familiar das audiências e. o filhi- . '. — Uma desgraça. esse homem lhe inspirava tal sentimento.

— Pobre creança! gemeu Milkau. O pequeno Fritz agitava de vez em quando os bracinhos. n'uma dôr sombria. Pelos cantos da boquinha escarlate sahiam espumas de sangue. entregavam-na aos seus desvelos quasi maternaes. devorando-a com os olhos. Quando chegaram. — Que horror! Pobresinho! E onde está? — Alli. não duvidando da morte.. a casa estava em alvoroço. atordoado com o desastre. o esmagamento tinha sido no thorax. Milkau voltou-se e fitou Joca. deitada em uma mesa. A creança era o carinho do tropeiro quando eààe. mais abaixo. invadindo com a familiaridade da compaixão o aposento onde.CHANAAN 317 nho de Otto Bauer acaba de ser esmagado por um barril de vinho no armazém do pae.. Ouviam-se lamentos e choros em roda. Este tinha o ar trágico de um satyro em dôr. e o cabra sentia-se 18. a creança morria. e volto para lá. Os pães lh'a confiavam a passeio. O pae vagava a tremer pela sala. Em casa d'elles. A mãe ainda joven debruçava-se sobre ella. Fui chamar o medico. confusa. de tão dilatadas. E atraz d'elle uma voz lhe pediu : — Veja se dá um remédio para a salvação. A cabeça estava intacta. apontou Felicissimo.vinha á cidade. Os olhos azues « r arregalavam" desmedidos e as pupillas immensas. — Vamos. estrebuxando. A noticia se tinha espalhado e muita gente apiedada viera agglomerar-se ahi. de animal. parecia não lhes caberem mais. .

quando o trazia nos braços de loja em loja ou quando lhe dava. fez com auxilio do tropeiro alguns curaf^ tivos. muito silenciosos. olhos e o somno lhe foi vitelo ao tempo que a respiração offegante moderava e as cores ruIIjiji b r a s das faces inchadas se iam dddddndo até uma </&s"r*JU' pallidez absoluta. O medico não tardou. feliz.divagando em scismas.318 CHANAAN desvanecido. morreu o pequeno Fritz. sacudindo a cabeça. Na vigília da noite eram todos os que guardavam o cadaverzinho. de uma cabelleira farta . a physionomia serenou. incorporea. a vida só nos olhinhos limpos e de uma scintillação . a mão na rua para ir ensaiando os passinhos vacillantes. jtAíy frouxa claridade das velas mortuarias éa. e/sem a menor espef ^ I rança. Era uma bella mulher. Milkau ficou sensibilisado. IJ^yr 7. desenhava'fugitivamente o vulto de uma velhinha. tomando uma expressão socegada e feliz. nas tenebrosas torturas da meningite. De fora $$fjd pelas janel-tu. Viu o que estava praticado e.... Não ha mais nada.-u> Ias abertas o doloroso mugido da cachoeira.. A mãe de Fritz também fechou os yy oLl/ja. quasi extincta. Depois. E. a bisavó do pequenino... murmurou : — Era o que se podia fazer. com o cuidado de uma ama. de uma transparência vitrea. » vendo aquella face de homem primitivo e barf I /.. Pouco a pouco o silencio em que estavam e a fadiga do coração foi ddvfwdifHfid e adormecendo a quasi todos. sinistra. baro molhada de lagrimas.

scismava : — E' dolorosa ainda mais do que as outras a morte de uma creança. e a dôr IM \jdfcfflmyy $$fd como como y y y. ¥~- /tW^" . Não viver. E CL^T essa tendência universal para divinisar... Os que ainda l*df* /&w alerta a contemplavam.. Elle estava também esmagado e abatido. E.y. E os que morrem sem ter vivido. quando olhava o mortosinho.. família catholica «agdapanlava.. dos templos onde passara e onde sempre os altares d'Ella attrahiam mais os corações das gentes.íembrava-se das cathedraes.// dj/jjídhfdMfo os outros. os que foram apenas esboços da existência. exaltar as deusas. mesmo os'do Christo.... yztTl formidade entre o gênero humano e a mulher. illuminada por uma lâmpada.. fUvédmr^ii.. uma hospeda extranha e importuna. de muito longe. que ia insensivelmentetí/J f//^ íÁdddyabsorvendo todos os outros?. Tudo n'ella //*&«*-„ exprimia saúde e força. E Milkau reflectia deante do admirável symbolojXiínhaa impressão de que todo o culto se ia restringindo em torno da Virgem Maria. fffjfyijp uma pungente dd^J/Ke^ tortura vendo essa mãe bonita e moça dormindo a sorrir.. presidia a morte. voltada para o filho morto. não vinha acaso de longe. as santas. do que nos ia completar. E porque ? Talvez pela maior con. com um perfil delicado e fino.. não estava agora em plena culminância no culto de Maria. do apenas ensaiado.CHANAAN 319 e negra. E' a dôr deante do inacabado.A.. No canto da sala uma imagem de Nossa Senhora. . ™ u oda a noite passou Milkau a confortar a família. ficavam ffll **/Tj quasi desertos.

tornando a tristeza collectiva.320 CHANAAN deixam-nos uma piedade torturante. desenroi lando-se pela rua principal do povoado.I /(z^r^fj derodes. No outro dia foi o enterro. Quando morre uma creança. 1 u e t r a z i a m flôres^jtó^ídy^íd^ coj / Jf. que carregavam o esquife. como nos enterros de anjos. alongando o cortejo. o enterro .. a m i r a r a / Z i£ j —/ Wyddjdo o seu amado menino vestido de m a r i / ZT^ nheiro e embarcado como n u m brinco infantil n'aquella gondolasinha dourada e vermelha. que não perdoava^ao extrangeiro nem// ira/t* /mesmo nad^s^raça/Eji maTcha iã^n^ssaTnistura de amargura. n'uma espontânea unidade de sentimentos.P a e ^ e Fritz. em viagem para o céo. Uma banda ' de musica alegre. nós também morremos um pouco n'ella. ~^ A manhã era límpida. mesmo os inimigos e competidores do l//' ~fé/T. excepto Bre. Entre os \ /«. lavada e azul. estava Joca. Quando deixou a rua á margem do rio.s auctondades brasileiras ssaasaj». os armazéns também-cessaram o trabalho e de todas as casas e lojas vinha gente encorporar-se ao enterro. porque ahi morre uma illusão nossa. em que o povo vinha sorumbatico e lugubre. ruidosa. participava de um mesmo pezar. Toda a gente da cidade.. ruido e musica alegre. puxava o prestito. Foi um luto geral na povoação espantada com a catastrophe : às escolas «ç fecharam-^e grupos de meninos vestidos de branco se enfileiraram.

Com • o rosto descomposto. E Maria. n u m a contorsão. que tudo ignorava.. unida *&*" na piedade como no ódio... attraJ/IH^if^ hida !>(/>/JJjifóf.. o seu olhar de allucinada sahia violento "%•' pelas grades da prisão e repousava ardente no morto. ia vendo o enterro do próprio filho.. outras vozes abafadas. Lá. levado pela musica macabra do resfolegar dos porcos.CHANAAN 321 tomou a direcção da cadeia.. agarrada ás grades. tomado de uma compaixão infinita... tão terríveis que dominavam os cantos dos instrumentos... na sua sensibilidade desvairada. ficara hirta. confundidas na harmonia dos sons.. veiu á grade e il poz-^a mirar. e Maria. ia ouvindo. y/J / noe/ sentiu uma íifyf-í claridade n'alma com aquellas 11/ **** caricias do som ímmortal.. què ficava perto do cemitério. do desconhecido. Da multidão. a victoria da força e da felicidade. a bocca •' cerrada. Vinham de longe. só Milkau olhava para ella. apavorados e rancorosos. cavernosas. Ella ouvia agora. desviavam-se da figura n infernal da desgraçada. mas tão persistentes.. A colônia passava. . Os mais.. Maria If-jy^" t espreitava. Ainda alli na morte passava o triumpho. títiM marcial e solemne. os cabellos pendentes.... E despercebida. á prisão chegou primeiro matinal e alviçareira a musica. O yjfjn enterro dmlU..

e jamais. a amizade se ia formando entre elles. agora. Ad^ttt^cúj ifcara Maciel. Apenas lhe explicdjque. depois que o doce veneno da duvida lhe corrompera a alma. tinham o perfume da liberdade. — Não vejo meio de evitar um máo desenlace ao processo. esses momentos eram sagrados. não estou convencido de coisa alguma. respondendo a uma pergunta de Milkau. dignas de homens. pelos depoi0_/ . fora elle tão feliz e fecundo. depois das audiências do processo. disse o magistrado. que se sentia separado /de todos d'aquella terra. logo que se encerraram no escriptorio. — Meu amigo. — Como ? Está convencido da culpa de Maria Perutz ? perguntou Milkau inquieto. arrastava Milkau diariamente á sua casa e em longas e nobres palestras.X Paulo Maciel. sjgdaaatast».

— No mundo inteiro a justiça é uma illusão.. quando recebo uns autos... Que exprimem as minhas sentenças sobre a verdade dos factos ? Nada. — No Brasil... vêm insinuadas. ha n'elles tal tecido de mentiras que tenho de capitular E' de desesperar.CHANAAN 323 mentos. f — A quem o diz ? E' sempre assim entre nós : não ha um processo em que se possa fazer justiça. Nem eu mesmo. encontra no nosso systema de justiça. interrompeu Milkau. é uma agglomeração de bárbaros.. ninguém o pôde embaraçar. concluiu. foram industriadas para essa desgraçada -conclusão. a pronuncia é fatal. è a condemnação.. O processo é feito de tal maneira que tudo vae em perigo. e ninguém está garantido. — Mas no Brasil a situação é ainda peior. affirmou Maciel no seu pendor para generalisar. que sou juiz. Olhe. não ha lei. cortou Milkau. — Mas as testemunhas.. no modo por que se faz o processo. . Não pense que não desejaria reagir. porque não se trata de raros eclypses de justiça. pela prova dada. não é ? — E' horrível!. apoio para a sua intenção. Mas é inútil. continuava. Digo-lhe isto eu. E si esse homem é um potentado.. — Um paiz sem justiça não é um paiz habitavel. si aqui um homem entender m apossaria propriedade de outro..

não ha um fundo moral commum. Posso accrescentar mesmo : não ha dois brasileiras eguaes. ficou pensativo. meu amigo.. Os urubus ahi vêm. mudando de ponto de vista. dos Estados Unidos. Onde está. de desabafo. que é a mais rudimentar e instinctiva. da Europa. ouvindo o joven magistrado que proseguia n u m impulso de confissão... mas hoje está tudo acabado. nós a temos com equilíbrio e constância. assegurou Milkau. explicou Milkau. que chamamos nação. e de um modo superior. A valentia aqui é um . repito.324 CHANAAN Milkau. E' a conquista. si aqui dentro estamos na desordem e no desespero? O que se dá no paiz é uma verdadeira crise do caracter. a nossa virtude social ? Nem mesmo a bravura. — Virão... — SiVn. sem dizer nada. — Isso. sobre cada um de nós seria futil erguer o quadro de virtudes e defeitos da communhão.. Como poderemos nós subsistir desta fôrma em que vamos ? Onde a base moral para mantermos a nossa independência no exterior.. E' um cadáver que se decompõe este pobre Brasil.. aqui já houve. — De onde ? — De toda a parte. não é" nada. a raça não se distingue pela persistência de uma virtude conservadora. Não ha uma virtude fundamental.talvez uma apparencia de liberdade e de justiça. — Não creio. — Um caracter de raça. Aqui.

proseguiu depois Maciel.. O aspecto da sociedade brasileira é uma singular physionomia de E 19 . tão hystericamente. de sangue. replicou a este n'um tom mais decisivo e Vibrante : — Tem razão. desta instabilidade. são ainda homens de ódios. No Brasil a grande massa da população não tem esse sentimento. emfim logicamente selvagens. mas simples symptoma de inércia moral. fitava-o com immensa sympathia.expressão d'uma larga e generosa philosophia. ve tempo em que se proclamava r a nossa ade.. aqui. voltado para Milkau. ha\um cosmopolismo dissolvente. — Não ha duvida. — Repare o que se passa com o patriotismo. desbruçando-se um pouco sobre a mesa.. como levado a tristes recordações. ponderou Milkau. inutild o s y t e máos!.. interessado n'esta analyse franca de Maciel. de ita cobardia nos enchem a lembrança!. 'í. não que seja a ^. Note que os poucos patriotas que temos.. compadecido das torturas d'aquella alma ' de brasileiro. E a falta de homogeneidade será talvez a maior causa deste desequilíbrio. Veja as nossas guerras.. /Milkau. a nossa bondade. O juiz reflectiu e./que ha profunda disparidade entre as varias camadas da população. Collectivamente. / Calou-se./ CHANAAN 325 nes pulso nervoso. como familP' somos tão máos. indicio da perda precoce de um sentimento que se devia casar com o estado atrazado de nossa cultura.

são os funccionarios. quando a imaginação d'ellas é deslumbrada pejlo espectaculo da mais desbragada perversão <ljgs governantes ? Que reacções sobre cérebros obscuros não provocará o desamor d'esses conductores das. ás coisas superiores. Ha uma confusão geral. os militares.. da idealisação das massas incultas. E Maciel voltou-se: f . r é um mixto doloroso de selvageria dospovos q$ç •d H. gentes. encheu-lhe os ouvidos de louvores á natureza. horrivelmente deformados. Uma tal nação está pxcÇ \ rada para receber o peior dos males que pôde cahir sobre o mundo: a geração dos governos arbitrários e despoticos. Si a sociedade é urna obra de suggestão. sociedade e não encontram resistência \ de nenhuma instituição. Levantou-se muito nervoso. e seu apego ás posições e ao ganho? E não é só o governo.despontam para o mundo. Milkau. invadia o aposento. emquanto a claridade da tarde.326 CHANAAN decrepitude e de infantilidade. sem se mover do seu logar. tudo n u m declive em que se vão resvalando. ao ideal. o clero. mansa e suave. abriu a janella que dava para o rio. e do eáfgommento â/> I I raças acabadas. A decadência a. E'a magistratura subserviente e apparelhada para explorar os restos da fortuna priva-la. que se pôde esperar dos sentimentos. A correntes da immoralidade vagueam sobvda.. e poz-se a mirar absorto e vago a cachoeira.

ficou repentinamente mudo.. e com os meus ir viver tranquillo n'um canto da Europa. terrível e formidável. A Europa.. Ou melhor. não sei.. disse elle. temos a benignidadedacalmaeatranquillidade da família. expatriar-me. que não ha nada fixo e eterno : tudo vae de passagem. Milkau falou-lhe com brandura. tudo . a exactidão dos seus conceitos. Por outro lado. murmurou n'um desalento : — O meu desejo é largar tudo isto. Maciel (seNcontevj com esforço. O clima. — Não quero diminuir. Parou. tudo se mostra grandioso ou ridículo.CHANAAN 327 — Ainda é uma vantagem viver-se na roça nesta hora tenebrosa. ao menos até passar a crise. campos desertos d'aquelle coração. esse terror que nos vem dos acontecimentos presentes. Quando estamos dentro d'elles.. A Europa! Sim... tando com os olhos vermelhos e humidos o extrangeiro.. Mas lembre-se de que não ha sociedade sem abalos. e as palavras cahiam frescas e consoladoras sobre os. tudo está sempre em crise. A peste se apodera do corpo miserável da nação.. A família vae sendo demolida pela força imperiosa dos vícios.. E quando ia seijdo arrebatado pela expansão dos seus mais Íntimos anceios. Ao menos.. e como resumindo todas as suas decepções e anhelos. E por quanto tempo. é também um pouco uma questão de perspectiva.. abandonar o paiz.. procurando perpétuas e incessantes combinações de ser.

as ondulações das vagas são como um leve sorriso. si a forte e imperiosa sensualidade dos conquistadores não se encarregasse de demolir os muros da separaç ã o ^ não formasse essa raça intermediária de mes- . O povo brasileiro foi por longos annos apenas uma expressão nominal de um conjuncto de raças e castas separadas. Deixa que lhe /aça uma imagem ? E' assim como si estivéssemos no mar. Desde o principio houve vencedores e vencidos. tornando-se subitamente jovial. — E' natural. Do que tenho observado e adivinhado um pouco. mas aqui se passa uma verdadeira tormenta. e não podia ser de outro modo. E Maciel também sorriu. \e nós começamos a louval-os. como uma engenhosa e \ admirável expressão dos melhores tempos\ que são sempre os passados. E isso se manteria assim por muitos séculos. w ^ . Todas as revoluções da historia brasileira têm a significação de uma lucta de classe. yid^r 328 JAAN CHANAAN í parece ir acabarn'umadesâggregaçãoirremediável. mas no futuro elles minguam á força de distancia. — Muito bem. de dominados contra dominadores.. é "ella conseqüência da primitiva formação do paiz. replicou.. sob a fôrma de senhores e escravos. desde dois séculos estes luctavam por vencer aquelles. no meio das ondas e dos ventos : o espectaculo do oceano enche-nos a alma de terror. parecem normaes e suaves.. porém depois que o atravessamos e o olhamos de longe... festejando a metaphora.

. Era preciso formar-se do conflicto de nossas espécies humanas um typo de mestiço.. emfim. que se conformando melhor com a natureza. e que nos governam com melhor acceitação e êxito. ^/ Paulo Maciel 0 deteveriam momento. afflrmou Milkau. Equando o exercito deixou de ser uma casta de brancos e passou a ser dominado pelos mestiços.. e que. fosse o vencedor e eliminasse os extremos geradores.. Os que tendem a nos governar.. pela sua própria força de gravidade. que é o laço. n'uma harmonia momentânea com os instinctos psychologicos que as crearam.. — Vejo bem que é isso mesmo. d'elles. •— Bravo! applaudiu Maciel. .CHANAAN 329 ticos e mulatos. e depois. também gracejando. Reparemos que Pantoja não é um caso isolado. Perfeito.. O Brasil é. que fundaram desde logo instituições destinadas a permanecer algum tempo. são desse mesmo typo de mulatos.. Era preciso esse choque do inconsciente para se fazer o que se buscava desde séculos por outros meios : a nacionalidade. foi ganhando os pontos de defesa dos seus oppressores.. com o ambiente physico. a liga nacional. a revolta não foi mais do que a desforra dos opprimidos. e sendo a expressão das qualidades médias de todos. commentou o juiz. augmentando cada dia. Está ahi a explicação do triumpho e do prestigio do nosso " Maracajá *' — É o representativo..

Todos os nacionaes que alli dominavam. disse Maciel negligentemente . não ha salvação possível para o nosso caso.... E' fatal. tangido pelo escrivão. meu amigo.. Tinha razão ? Faltava-lhe a gotta de sangue negro para que tudo n'elle se equilibrasse ? — Vê. Isto não se pôde concluir dos meus pensamentos.. isto . continuou com um sorriso irônico : — Não ha duvida.. é uma incapacidade de raça para a civilisação. Pantoja.. com certeza não estaria aqui a lamentar:?: O equilíbrio com o paiz seria então definitivo. Não são os donos da terra?. — Oh! não. representou-se no espirito de Milkau como um resumo bem claro de todo o paiz. E preciso um pouco mais de identificação. Não ha raças capazes ou incapazes de civilisação. de uma sensibilidade maior e mais distincta... vencido pelos outros. emquanto aquelle joven de uma intelligencia mais fina. Brederodes... sahiam fatalmente do núcleo da fusão das raças. estes não marcham firmes e seguros?. Porque não nasci mulato?... Si eu tivesse algumas gottas de sangue africano. era anniquilado.. toda a trama da historia é um processo de fusão : só as raças estacionadas.330 CHANAAN emquanto olhava para as mãos brancas e longas. A crise da cultura aqui é motivada pela divergência dos estados de civilisação das varias classes do povo. O pequeno mundo da colônia. como dolorosamente já se está fazendo.

de vida. Não vos deixeis deslumbrar pela e^haustapompa da sua civilisação. se mantém no estado selvagem. as que se não fundem com outras. quando fôr conquistado pelas armas da Europa. nem a côr da pelle. essa Europa também soffre do mal que desaggrega e mata. as vossas cançadas almas. fique certo. de arte. pela força inútil dos seus exércitos. sejam brancas ou negras. de cultura. a civilisação não teria caminhado no mundo. a cultura se fará regularmente sobre esse mesmo fundo de população mestiça.CHANAAN 331 é. para voltar a edade dos novos brancos vindos da recente invasão.. Como vós. suspirou Maciel. E no Brasil. Si não tivesse havido a fatal mistura de povos mais adeantados com populações atrazadas. para onde d'aqui se voltam os vossos longos olhos de sonhadores e moribundos. que terão edificado alguma coisa. — O paiz será branco em breve. E Milkau disse ao brasileiro : — Essa Europa. Nada mais pôde embaraçar o seu vôo. a epocha dos mulatos passará. acceitando com reconhecimento o patrimônio dos seus predecessores mestiços. Não a temaes nem a invejeis. cobiçosas de felicidade. E no futuro remoto. porque já houve o toque divino da fusão creadora. pelo lustre perigoso do seu gênio. ella está no/ . nem a aspereza dos cabellos. porque nada passa inutilmente na terra..

destruição. E' uma sociedade que acaba. ainda anima debilmente o mundo. não é o sonhado mundo que se renova todos os dias. inquieta. e nem pratica a maravilhosa justiça que vae chegar amanhã para dar a todos o que é de todos. « Nada corresponde ao Tempo. As .. Não ha calma para a consciência. que amedrontava no passado os espíritos. os governantes armam homens contra homens e entretêm-lhes os ances/ traes appetites de lobos com a pilhagem de outras Io nações. Está vacillante.. são o escudo perturbador do governo e da riqueza.. As leis. diz servidão e fjj***'. como si estivesse para morrer.. quando ao vosso lado sempre alguém morre de fome. devorada de separações. toda a humanidade parece sem raizes na terra.332 CHANAAN desespero.. Por ellas tudo se baralha. P o r í ^ f leis os povos chegaram a / W ^ esse excesso de grandeza que é o primeiro toque da decadência. O espirito que morreu. sem cuidar dos que vêm surgindo após. sempre bello.. n'esse momento indeciso em que não teme mais a justiça vingadora e posthuma. não exprimem o novo direito. sempre joven. Tudo/que se apresenta á flor da vida não ' corresponde mais aos fundamentos da Vida.. consumida de ódio. não ha tranquillidade no goso. e quem diz auctoridade diz posse.. E ainda para manter taes ruinas. passando. Ainda alli se combate a velha e tremenda batalha entre senhores e escravos. nascidas de fontes impuras para matar a liberdade fecunda.

disse involuntariamente Maciel. caia nas mãos dos que julgam taes instituições como instrumentos do mal. passa o veneno sensual. do ódio e do amor e de mil outras potências ainda incógnitas. — É o primeiro passo e um grande bem.. mysteriosas e santas.. Os povos abandonaram a religião e conservam os templos e o sacerdócio. e que são as forças redemptoras da sciencia. a poesia volta-se para o passado e a sua lingua subtil. não é a lamina poderosa e refulgente onde se reflecte a imagem dos novos homens. sem seiva nem vigor. Não a temaes. E por tudo isto que eiilanguesce e definha. n'uma voz imperceptível. Que o exercito.. os seus exércitos não se poderão mover. da intelligencia. . mórbido e pérfido. que vos não pôde escravisar. tirando a força ao homem e a bondade ao leite da mulher. um sopro de vento os reduzirá a pó. antes que se erga contra vós. Não longe. tudo vence. A arte não exprime a vida. fina e mesquinha. crea19.CHANAAN 333 raças deixaram de ser guerreiras e ainda se armam. ella se despedaçará... — E' um grande mal. o parlamento.. o sopro bemfazejo que tudo invade. a magistratura. o governo. E já as posições vão sendo tomadas insensivelmente pelos que as desprezam. da industria.. como o bafo sagrado das divindades do futuro. a universidade e tudo mais que deva finar. nem a alma do momento.. da arte. a diplomacia. pois como a essas figuras carbonisadas desentranhadas da terra do passado.

onde isto primeiro se dér ? arriscou o joven brasileiro. o juiz. Então os exércitos não marcharão. entrou o Brasil para soffrer comnosco os mesmos sacrifícios.. O domínio do vencedor d'essas luctas inferiores será instantâneo. onde... grosseiras ou ridículas... e não tarda que eu mesmo seja extranho a tudo e nada mais sinta de commum com aquelles que são os homens de minha terra. mais funda que apparente.iSA CHANAAN ções. destacando-se da nebulosa inicial. n'essas ancias para novas e mais bellas expressões da vida. Quando Milkau partiu. ficando só. este amor de mulher que me conforta. Já ninguém aqui se entende.. n'uma semelhança de destino. — Si taes conseqüências resultarem. sonhar os mesmos sonhos. e esta .. porque aquellas forças da resurreicão se communicam invisíveis entre os > homens do nosso grupo de cultura. e conduzem ao mesmo resultado n'este systema planetário. O que me resta é ainda este socego da família. n'essa esperança luminosa e feiticeira... serão tão fugazes e passageiras que não devemos d'ellas cogitar. n'esse mundo a transfigurar-se. E. scismava em tudo o que acabava de entrever deliciosamente. as atribulações do momento venciam-no — Tudo desmorona em torno de mim. apesar do deslumbramento da visão. as mesmas transformações e. — Não será a conquista fatal do paiz.

A noite vinha vindo. Maciel. e pela testa corria um suor gelado. a mulher de Paulo Maciel entrou ahi discretamente. mia-lhe o narizinho. Cahiu J^y^u^ nos braços da senhora. como em fios de brando e macio cabello de mulher. Vibrando.ímÍM^í 4nf4iM4d^^A%AWs^> V^ r e g #í/TW/#/W W *** ° rndüâ inyap. foi em sussurro entretecendo com a companheira. as faces vivas e accesas.CHANAAN 335 creança que nos rejuvenesce. avançando e estendendo-lhes em silencio os braços cheios de ternura mysteriosa. éter. os cabellos vinham deban.^AT mora esquecido de suas devastadoras angustias e^y^ débeis revoltas. A pallidez brasileira. magra e ainda muito joven. doentia e diaphana. Sentou-se no seu logar de retiro e d'ahi. foi-se reclinando suavemente ddM elle. oc**<+*l* — Gloria! Gloria! murmurou.^c*"-*''* dados. / * * T £ . . abafada : %*yd& — Mamãe! <*/*&Esta. afflicta e estupefacta. emquanto lá fora tudo vae desabando. /'/Jt/nÂ* wh.. acalmou-se. arrancando o marido das scismas em que estava. Não ouvindo mais rumor de conversa no escriptorio do marido. como tinha por habito todos os dias antes do jantar. ^^x**^'fi***i . dilatava-lhe os olhos negros e faiscantes. Tyldlziy. .lffry*s. /rf^oeé/ E tudofoiumatfétídfAl casta e subtil.fff d** "finamente fascinado por ella. recolheu-lhe anciosa o corpinho.pÀe d Àpapmnd a figura em desordem de ffl/ffl ujpa/^rearíça. Era esbelta. tre. uma doce e infinda conversação.olhando-a sem vêr. e sem de.

*_ .£*. dm/ÂdJ^dví coxneçou a expli'itfiu*/ car a angustia da menina. quasi n'uma algazarra. e tomando-lhe umas das mãos. a moça segurava a menina pela cabeça. no meio de imprecações de fúria. Paulo Maciel. — Soceguem. beijando-lhe freqüentemente os amortecidos olhos de somnambula. / pedindo esmola. N'este momento entrou no 'ft ccrn> aposento a criada. Passeavam ambas. e Gloria. a lucta não se terminaria logo. Esta palavra foi dita varonilmente e trouxe lagrimas á mulher. enterrou mais a cabeça no collo onde se agasalhára. A criada defendera Gloria. o filho arrancou-lhe o laço de fita. partiram desvairadas para a casa. tentou disfarçar o acontecimento. como uma reacção de alento. a creança. beijou a creança. e uma mais ousada beijou-lhe o rostoi "Femquanto forçava por tirar-lhe a pulseira.336 CHANAAN O marido achegou-se a ella. *"'/! r*~¥> %-'~r~£r«é r± 1 •*^*fr í V'-? ^ . reconstituindo com largos gestos e grandes vozes. correndo n'uma gargalhada de triumpho. Durante a narração. um episódio da rua. A creança encarou-o indecisa. mas á sua energia tonta correspondera uma vozeria desbragada. sorrindo d'aquelles sustos. para diminuir nesta o natural e invencível horror aos pobres. quando 1L uns immigrantes mendigos-ac acercararrrj]J«lki. Algumas mulheres do bando ///$YJ//A****r /avam com mãos descarnadas apossar-se das jóia* da menina. Si não fosse a intervenção de dois homens que passavam. Mal puderam escapar. repellindo o grupo com o chapéo de sol.

. Levantou a cabeça. segurando-se á senhora. mais outro. a quem não sobrava regaço para occultal-a. como num remanso. melancólico. e os dois esperaram. que foram então arquejantes. as perturbações. £U. scismavam. que traduzia uma mansa agonia. M-^~ IjJ Cj m dT ' . pois já aos cinco annos uma precoce e mórbida phantasia era-lhe doença d'alma. e abrigal-a mais e envolvel-a com os braços. Êr^Zfei ^ J. A grande calma do crepúsculo aquietava-lhes. em súbita transformação de allivio. e tornava vãs as palavras. ás idéas lhes fugiam.. fitou os outros com um sorriso leve. a sua voz. succedendo uma modorra interrompida de instante e instante pelo crispar de suas garrasinhas aferradas aos pulsos da senhora. Os éidd sentidos sahiam do pesadelo n'uma dolorida expressão de susto e de fadiga. rudimentar. inconsciente. maternalmente. e só a menina de vez em quando tremia. beijos. Vxojldfifji^i distrahil-a e desviar para coisas alegres e diversas a sua attenção.CHANAAN 337 O medo lhe. mamãe! Depois. Moveu os lábios como quem ia falar. primitivas ou infantis. elles paravam. davj^lo justo sentimento do real. A invenção djdf éMM0f( não foi feliz e fértil naquelle momento. a indizivel tristeza das almas rudes. — Tenho medo. um soluço hysterico. e apenas como recurso lançavam-se ao argumento que nunca tráe. que tentava inutilmente adormecel-a. perdidamente. outro.

Ouviu-se um grande suspiro. A mulher de Maciel a principio não percebeu toda a extensão d'aquelle pensamento. não foi.. T— Sim. quando eu não podia mais. mamãe. não cáe neve.. voltada para a janella. você me carregava.. mamãe?. Quedou-se um momento calada. e enfiou olhos agudos na menina. e. obedecendo á intimação. — Gloria.. mas do pouco que comprehendeu. papae me dava tanto.338 CHANAAN — Ah! nós também fomos como elles. Nós andávamos na rua toda a hora. Maciel que estava a ler. ha muito tempo. A menina moveu para elle o rosto. brandamente. yyl^f 0t^ypaxecia yf/ojlj dias passados.. d'ahi a pouco. como que irresistivelmente: — Ah! que frio fazia lá. Mas. ' .. Você se lembra d'aquelle chapéo que você tirou do menino na rua e me deu? Ih! correram atraz de nós. longe. dormíamos na rua. que tolices são essas? Não fales n'isso.Você se lembra quando a gente não tinha que comer e ia pedindo dinheiro ? Você me beliscava para eu chorar e me empurrava dentro das lojas para pedir comida. deixou cahir o livro. hein. em êxtase. ficou aterrada. n'outra terra. A sua physionomia transfigurava-se com essa jyy recordação.. Aqui' não se treme. mamãe! murmurou Gloria.. Porque. Os ^MdM scisma/ vam. disse Maciel. mamãe ? Mas nós nos escondemos n'aquella casa 0rr** .

não tintia criada. si não disseres mais tolices. nem cama! Andava suja. como agora. como a imagem e a voz de um passado horrível. — Que bonito! Não se conteve a creança. não tinha dinheiro. Maciel gosava um absurdo e requintado prazer intellectual n'aquellas tenebrosas visões da creança. Gloria! teve a moça forças de exclamar. boa para mim. Eu não tinha boneca. Não era? Você não/ tinha vestido bonito. tomou/aVao collo e mostrou-lhe uma estampa. Voltaria á realidade o seu espirito desannuviado das nevoas que ° 1/ / edjjfham} pensou Maciel. mamãe. á sombra que abafava os últimos clarões da luz. que resurgia em meio da felicidade. Me dá... tinham ares de monstros.. a figura e as palavras de Gloria... E posou Gloria no 0"*/™"' cnao com a gravura. que tirou precipitadamente do armário. E ainda assim. e eu fiquei com o chapéo bonito. Você tem tanto dinheiro..CHANAAN 339 escura. papae ? — Dou. — Gloria. A criada tardava em trazer a lâmpada. voltou á senhora que es^ tava a chorar : —JVlamãe. Tinha uma pulseira que aquelle moço 11 . — Você não era assim. Não é. porém^pouco se /*/**r demorou em admiral-a. Ella pagou-lhe com um beijo. papae ? Fazia-se escuro... ^pff!^ Paulo Maciel levantou-se convulso. não chore. No completo repouso da casa. A creança... Você não apanha. não tinha anel!.

Me dava dinheiro. hein mamãe!.. Pensa que eu não vi? Agora a gente não tira mais de ninguém. A sua caridade amorosa colhia os fructos amargos de Chanaan. voltou-se para a senhora : — Amanhã vou passear com o vestido côr de rosa ? Levo a boneca maior. Papae ficou zangado.. Emilia.340 CHANAAN deu. você disse que elle era tonto..... A mulher de Paulo Maciel abraçou-se / elle como a um rochedo. Eu vi. gritou Gloria. n'um grande . a criada penetrou no gabinete trazendo um candieiro acceso. — Emilia. a Dulce. Havia dois annos. fulminados pela sensação. Levantando os braços n'um immenso esforço de Y I n ( quem suspende algemas. dizia que eu era filha d'elle. partindo no seu encalço. amanhã. Papae voltou. sim ? Murmurando umas desculpas.. De repente. mas eu queria era meu papae... cadê o homem que você quiz matar com aquella faca?. aquella mulher contou tudo.. olhavam correr a creança.. A pobre moça desalentada parecia vêr lagrimas no rosto do marido. você apanhou muito. quando papae foi preso pelos soldados. P a pae. — O moço dormiu lá. Paulo avançou esbotf-J çando no espaço gestos inúteis para tapar aquella bocca maldita e innocente.. — Mamãe também mordeu na rua a mão da menina para tirar o anel... Agarrados um ao outro.

. um passado alheio. agora. . uma existência de outros. E. tinham aberto o coração aquella filha de uns immigrantes hespanhóes. das cellulas obscuras e implacáveis d'ella. surgia-lhes. como um castigo..CHANAAN 3'il desespero de infecundidade.

XI

A

•>/

I

Lentz vagava nas desertas margens do Rio Doce;
seu espirito, atormentado pela solidão, retrase comprimido deante da serenidade desesperadora da terra. Sobre elle o céo cavado e longínquo/
desdobrava-se sereno e luminoso, o sol abrasava
um mundo parado e morte;. Ia errante e perdido,
embebidos os olhos no que alli era a única vida,
nas águas vagarosas, desusando como alma expirante. A implacável belleza do silencio o exaltava,
e elle passava amaldiçoando a ímpassibilidade do
universo, que não.yestremecia nem se agitava fecundo aos seus pés sobrehumanos. Na conspiração da calma, da solidão, da luz, do esplendor, do
infinito, o espirito do homem delirava. E nesse delírio a memória apagava-lhe as origens da existência,
o passado não tinha sido ; e tudo, fôrmas deliciosas das coisas, água, que ainda se movia, arvores
silentes e concentradas, céos, sol, montes, nuvens,
l

CHANAAN

343

tudo era a expressão de vidas que se extinguiram, de seres que se agitaram cheios de alma, e
,
preparavam extaticos o leito admiravej para o l'-p~* \
pertar do primeiro homem. E a nova existen- '
cia das novas fôrmas ia começar...
ÍIM
.
se abriam seus olhos sem passado, virgens e pri— ^ ^ T * " ^
mitivos; mas o tédio de se vêr único, errante, desa- •2e^*y*
lentava-o, e immortal, e infinito, mergulhava o espirito no tempo immemorial, e tremia de tristeza.
E assim na região do silencio as ancias da creação
agitaram o homem forte. O principio da vida, o
impeto de repetir-se eternamente erguia-se n'elle,
supplice e imperioso. Lentz quiz que as suas forças
intimas e essenciaes, desaggregando-sej se fracciol
nassem em parcellas imponderáveis e invisíveis,
como partículas de luz, n u m a mysteriosa fecundação do Nada. Anceado, inquieto, doloroso, delirava... e uma illusão perversa descortinava a sua
imagem multiplicada em myriades de corpos formosos e serenos, como a geração de um deus.
Deliciou-se extasiado nos olhos da sua raça> nos
cabellos, nos membros e traços de gloria, em que
cada um resumia a belleza e a força do universo...
E tudo era bello, e tudo era bom, porque tudo era
elle.
Depois, não tardou a chegar-lhe a invencível monotonia de se vêr a si, a si indefinidamente. No desespero, quiz voltar ao increado, extinguir tudo, e
gerar novos seres, que não fossem a sua imagem,

yfr
344

•y
CHANAAN

que não fossem divinos, que gemessem, que morressem e fossem humanos. O creador luctou com o
sett espirito e o espirito, como uma força diabólica,
indestructivel, venceu-o, creando sempre a mesma
expressão, sempre elle só. Elle... E as fôrmas que
sahiam da força solitária e desdenhosa, acompanhavam-no eternas e fataes. Lentz horrorisava-se
de se vêr a si mesmo, n'uma multiplicação infernal. Do alto da montanha, aonde chegara, precipitou-se, fugindo da multidão de phantasmas que o
perseguiam amorosos e escravos e que eram elle,
sempre elle... Approximou-se do rio, voou sobre
este n'um impulso de salvação, n u m desejo extranho de anniquilamento, de allivio... e parou.
Sobre o crystal das águas a sua imagem o espreitava para^seguiráin<ia na morte.
E o delírio se repetia<-sob mil terríveis combinações, nos dias serenos que abrasavam a alma frágil
e desvairada do solitário. E quando, nas noites
socegadas, os tormentos da nova vida sobrehumana não o mortificavam, elle penetrava na solidão infecunda do espirito e errava pelo deserto
ululando, amesquinhado e cobarde. Implorava a
companhia tenebrosa do vento, e o vento se calava
aquella invocação satânica; com os olhos ardentes
e devoradores, buscava, em vão, reanimar as coisas que adormeciam. A lua voltava .para elle a
sua livida face de cadáver
Um movimento de piedade trouxe Milkau á

CHANAAN

colônia. Durante todo aquelle tempo, não esque-,
cera o seu companheiro de destino. E, <djM^tí
n/l)üfoè/uma parada no processo, /wjí ao Rio Doce.
Era ainda madrugada quando entrou no prazo, e
logo no jardim abandonado, invadido pelo matto,
que não perdoa e está sempre attento ao descuido
do homem, Milkau adivinhou tudo. A casa estava
aberta, e derrubado no chão adormecia pesado o
corpo de Lentz.
Permaneceram juntos na colônia até o dia seguinte. O contacto de Milkau alevantava e restabelecia o espirito do infeliz. E agora, n'um incommensuravel pavor da solidão, este se ia deixando governar pelo instincto da ligação universal, e prendia-se
n'úma affeição entranhada e decidida a Milkau,
que o chamava ao Cachoeira, á defesa e ao consolo do soffrimento. Um raio da luz que irrompia
do martyrio de Maria, chegou a Lentz que, obfiecendo ao poder do inconsciente, contra que tanto
luctára, curvou a cabeça e seguiu o amigo.
Na estrada, quando tudo se animava á passagem
d'elles, e ventos, e pássaros, e arvores cantavam
em volta, Lentz, recapitulando a curta historia da
sua desillusão, dizia comsigo :
— Ah! como tenho saudades dos meus sonhos t t
/
de audácia, dos meus desejos e ambições... E tudo
isto que eu e elle ambicionávamos fazer, é nada.
Encontrámos no nosso caminho a Dôr mesquinha
e poderosa, e ella nos guia e nos transforma...
— Toda a maldade n'elle era obra da imagina-

isuf

346

CHANAAN

ção, reflectia Milkau, acompanhando-o com o carinho dos olhos. Mas não é a idéa que governa o
homem, é o sentimento. A nossa força individual
não é nada em comparação á força accumulada na
vida. Que pôde um só contra a corrente imperiosa
e dominadora, formada pelas primeiras lagrimas,
descendo das origens do mundo, avolumando-se,
tudo arrastando, tudo vencendo, até que um dia
seja um perenne preamar de bondade e de doçura ?
Que pôde o homem, insignificante e inútil, erguer
para desviar o curso, o Ímpeto da piedade e da
sympathia ?
Chegando ao Cachoeira, foram logo á cadeia.
Durante a ausência de Milkau, tinha conhecido
Maria uma nova tortura, a que sáe das perseguições da sensualidade. Com a sua brancura, com a
v <>yk^extranheza da sua raça, ella yffi$fflj)w de algum
« j ^ í ^ ^ í e m p o 00$$&
os soldados negras. A princi' //ff/'' pio, o aspecto severo da desgraça os aiastaxa,dá\ fffach* /djV/ndo-a n'um circulo de respeito e de protecção;
[//
imperceptivelmente, porém, a convivência e a fami|
liaridade foram permittindo que n'elles se erguesse
o desenfreiado desejo. Procuraram seduzil-a, communicando-lhe por instincto a lubricidade; mas
l
quando a viram insensível e obstinada nas suas
.
recusas, fugindo ao velho costume da prisão, onde
as mulheres encarceradas eram amantes dos guardas, se enfurecerar/ije empregaram para vencel-a
o medo, a força e a crueldade. Md/uas noites eram
agitadas, escapando ella sempre de ser violada

Ã

CHANAAN

347

pelos soldados assanhados e bêbados. Debatia-se
nas mãos d'elles, e salvava-se, ou pela disputa sensual da posse, que entre os dois pretos se formava,
ou pelo alarido levantado, deante do qual se recolhiam cobardes e espavoridos. E os dias, que lhe
concediam, eram para vingar as luctas da noite,
obrigando-a a trabalhar para elles como uma escrava, dando-lhe pancadas, negando-lhe alimento.
E Milkau, agora,na frouxa luz da prisão, notava,
surprehendido, quão terrível fora a devastação da
miséria no corpo da rapariga. Não se enganava
elle sobre a exacta situação da pobre victima, por
mais que esta lhe sorrisse, mostrando-lhe vislumbres de esperança e traços de resignação, que- ,>ê
rendo com esforço dfjji-tí a historia do seu mar- y/yfj&fa*'"
tyrio escripta indelevelmente nos olhos famintos, " ***
no rosto murcho, nas mãos de esqueleto e no peito
mirrado.
Milkau teve a impetuosa anciã de
arrebatal-a d'alli e carregai-a afoitamente para
longe, muito longe, e pôl-a onde as feras não fossem homens...
Durante o tempo que ahi passaram, Lentz ficou
silencioso. Pela primeira vez se via n u m cárcere,
misturando-se com criminosos e reprobos. A sua
velha alma aristocrática estremecia de repugrtancia, e o espirito de sonhador soberano e forte, que
não se lhe tinha extinguido de vez, extranhava o
iy,
contacto da miséria, revoltava-se por se fffiffftx
jyjtdt/^r^i
da molleza, da piedade, ardendo em remontar ás
alturas do silencio e do império. Mas era tarde : a

348

CHANAAN

garra da compaixão o prendia ao mundo, que elle
também assim fecundava com o seu quinhão de
soffrimento.
Na rua, quando sahiram da cadeia, Milkau
ouviu, como um echo do seu próprio coração, estes
murmúrios:'
— Pobre mulher! Como é triste a vida!
Era o novo Lentz que falava.
Commovidos e angustiados, os dois amigos separaram-se. Emquanto o outro voltava a se recolher ao repugnante albergue do Cachoeira, Milkau
seguia sem propósito, vagando, para as bandas
do Queimado, a região abandonada onde fora a
antiga cultura do logar, e que atravessara no dia
de esperança em que chegou á colônia.
Entrou na velha terra exhausta e morta. Ainda
no chão, que pisava, estavam os marcos deixados
pela geração extincta e vencida... U m dia, tudo o
que fora vida já por alli transitara... E agora, restos
disformes de habitações humanas m sustinham-*^petrificados, dolorosos e nús, e trepadeiras mesquinhas e bravas se- esforçavam^por cobrir-lhes o
pejo de ruinas mutiladas. Nas colunas baixas e
humildes da redondeza, destroços de pedras mirava!^ com suas caladas mascaras de monstros a
grande Terra em frente, as altas e viçosas montanhas, onde se fartava a força dos invasores...
Perdido no largo e desdobrado espaço, o Santa Maria, desembaraçado das pedras que antes o faziam
vibrar alegre e vivaz, passava vagindo mofino e

Antes de •*£ conhecer-^-perfida illusão (me\entorpecif) os <x -7 sentidos. Tudo era languido. N'esse momento eu ainda te não buscava. fria e morta. sol moribundo \yj%o meu rosto se estampava-o riso continuo e fatigante. tu me attráes. No silencio dos ventos.CHANAAN 349 lento.. e vazio. a força do meu pensamento... N'um canto da planície. eu não te fujo. se vestiam de purpura e ouro. Pas' . a razão da minha energia. e estendo-te os braços n'esse doloroso e invencível amor. como si foras um insondavel e voluptuoso abysmo. ruminando preguiçosas./ figuração gloriosa. uma moita de arvores extinguia-se mansamente. e outras de pé.. Aquella hora.. Sobre ti me reclino. Cadáveres de arvores derrubadas se desmanchavamrEm pó. e elle afastava de mim os 20 . a morte ama a vida. e deserto. Milkau scismava: < Não.' tocadas pela morte. e descampado.. O sol impaciente ^j^J^fí/^jL-Âãtí ' fc rf fc r a mergulhar nos braços verdejantes e opulentos •íU«f<*-*c' da Terra futura e mostrava ao Passado a outra u face roxa. n'uma trans. no theatro da Agonia../ u .. doce Tristeza! Tu és a reveladora do meu ser.[ saros no céo desmaiado buscavam o pouso da noite. com que o sonho ama o passado.. Elias vinham de outr'ora e ainda eram a derradeira vida que alli restava. cabras aconchegadas aos filhos ae roçavam nos oitões das ruinas. e a minha frivola existência foi a lúgubre ' marcha do inconsciente risonho por um caminho de dores..

não estavas longe. e nos explica a nossa fraqueza nativa. porque une os homens. porque faz despertar em nós uma consciência perdida. A aragem «fccalárar/?''Õ débil vagido da cachoeira ia-se perdendo para sempre. çe extinguiu} e então soou para mim a a hora da paz e da calma.. Entraste. A dôr é religiosa.350 fa . Por ti comprehendo a agonia da vida. faço da dôr universal . E como esperaste ! Um dia a alegria.. O sol resvalara de todo do fundo do horizonte. E Milkau scismava : « A dôr é boa. a força da arte. E como desde logo amei a nobreza do teu gesto! O h ! Melancolia! minha alma é a morada tranquilla onde reinas docemente. N o céo não passavam mais os bandos das aves. Milkau caminhou ainda illuminado pelos últimos c] arões da luz. por ti. por ti. para quem a eterna alegria é morte. n'uma postura de resignação e silencio. Mas tu. a dôr é bella. « Tristeza! tu me fazes ir até ao fundo das remotas raizes do meu espirito. E' a liga intensa da solidariedade universal. porque é a fonte do nosso desenvolvimento. Tristeza. porque nos*aperfeiçôa. A dôr é fecunda. a perenne creadora da poesia. Tu te sentaste á minha porta. que és o guia do soffrimento humano. de cançada./ / CHANAAN homens.

Curva-te sobre mim.. Que o meu rosto não mais se desfigure pelas visagens do riso cançado e matador. Conduze-me.. oh! bemfazeja! aos outros homens.... Tristeza. a tua séria e nobre figura. não me desampares. . Não deixes que o meu espirito seja a preza da vã alegria... envolve-me com o teu véo protector..Tristeza salutar! Melancolia... dá-me a tua serenidade..CHANAAN 351 a minha própria dôr. ...

Ella abriu os olhos e ficou deslumbrada. Milkau tomou-lhe as mãos com império e passou com ella sereno/ forte ao lado da sentinella. — Maria..XII *4dix0t V»/ i — Maria! A desgraçada estremeceu. Nas torturas do pesadelo. sacudindo o morno carinho... deixava vêr o corpo de um Ldf soldado/ negro/ dormindo n'uma postura pesada / b r u t i . a claridade da noite. E gestos infantis e leves roçavam pela barba de Milkau n u m a inconsciente caricia. e pela mão de Milkau foi seguindo pela casa meio escura. e com as mãos hirtas. sou eu. — Vamos! Levanta-te. recolhendo e enfeixando com energia as suas forças mais intensas. que entrava 'pela porta da rua. Obedecendo. A -prisioneira j ^ ^ f a d a quiz recuar. repetiu Milkau... estiradas. afastou de si o rosto que se inclinara sobre ella. disse-lhe elle... baixo e com firmeza. sedentos eviscosos lhe buscavam os lábios. A sua mão agora branda e languidatacteava incerta para se certificar da súbita e extranha apparição do amigo.. parecia-lhe que beiços^rôxos. conduzindo-a para a noite e para a liberdade: . como uma figura tosca e archaica. aberta como de costume. No corredor. Maria ergueu-se .

/ niodrrW. onde a bondade corra espontânea e abundsrhte. Iam morosos.CHANAAN 353 Fora. a immensidade do espaço davam á fugitiva uma deliciosa vertigem... / ^ / ^ ^ ' tropeçavam nas pedras soltas da rua.. £-// vacillantes. e ladrando scarremessavantem vão contra elles. Enlaçados. os passos d'ella eram .m'"?r^ terrompido pelas vozes da perseguição surgindo das casas accordadas. como a água sobre a terra... o céo crystallino. caminhavam pela cidade calada e adormecida.. e os pés. a scintillação das estreitas. Vem. o ar subtil e frio que lhe penetrava nas carnes somnolentas e tepidas.. que a foi arrastando vagarosamente. ella vacillou e veiu s« apoiar^nos braços de Milkau. que Milkau ia fallando: / — Fujamos para sempre de tudo o que te persegue.. Vamos. em outra parte. Repousemos depais na perpetua alegria. Subamos aquellas montanhas de esperança. Era no ouvido d'eíla.. e.. por tanto t e m p o ^ r ^ í / / i d o s . que parecia ser a cada instante tMfe^amente in.. cães somnolentos despertavam com o passar dos vultos. corre. Uma ou outra vez. aos outros homens. espiando com os olhos immensos e dila. a largueza.. tados pela treva. Lr' . Mas só lhes chegava o chiar monótono e eterno da cachoeira.. . n'um desfallecido collapso. E depois tudo voltava ao socego ameaçador. assustadiça e . Dobraram de cautela. O silencio inquietador enchia-lhe o espirito do antigo pavor que se não extingue nunca. vamos além. as fôrmas f i a d a s e sinistras do Ijaet&v mundo.

afundando os olhos na infindai^l negrura. que agora sé prendiam aos de Milkau. como um gladio fumegante. tepidos e brandos. receio de despertal-a. onde as collinas baixas semelhavam corpos deitados de heróes antigos e mutilados. Subindo. nada mais viram ... atravessando o tecto ondeante. so fôra^f 0 dos braços de Maria. em baixo aos seus pés. parado e morto... coberto pelo manto cinzento e vaporoso da bruma. d'onde vinha o clamor do mysterio e do soffrimento das arvores castigadas. e docemente illuminada pelos reflexos <ftv/ / . sem fôrma ainda imaginada. galgavam a montanha. corcundas ealeijões. e do jorro de luz^/l _^___f—----se^brmã\'a dentro dáfloresta uma columna ale< *"* / vantada do chão para o céo. Depois. perdiam elles de instante a instante a vista do Cachoeira. creada pelo terror. A rigidez fria. sobre que passava a luz exhausta da noite humida. Os braços de Maria se retesaram de novo e apertaram os de Milkau. E debaixo d'esse manto se desenhavam seres phantasticos.. Um trecho do Santa Maria. fazendo-as gemer rumot rosamente.. subiram ainda e entraram no bojo da matta. Havia um rumor continuo eafflictivode vento máo nas folhas da grande massa. cortava.354 CHANAAN Deixaram a cidade. gigantescos. colossaes. lépidos e ra-^ diantes. L Are/' Iam inquietos. IJ -UXJ&SIJ-J ftmjf frest^ <^r claridade/descjir... e agora sen1. No vão das trevasiXde espaço a espaço. levantando alli uma phosphorescencia vaga de nebulosa. a várzea do Queimado. E o vento implacável ia passando.

E este se ia estreitando.. fatigada e de pés maltratados. A estrada tomava sempre pela beira de precipícios cada vez mais difficeis de vencer. e as ribas mais angustas pareciam se terminar-f confundidas . e havemos de achal-a. Vem. Quando vier a luz.. O passo da fuga moderou. aspirando o aroma capitoso e perturbador que se desprendia das flores nõcturnas. Subiram. Ella é da Terra. Maria quasi não caminhava... mais inclinada sobre elle.. outro mundo. vinham os urros do Santa Maria. Era pedregoso. Assim espantava o terror.. aquecendo-lhe o rosto com o seu hálito offegante. recolhendo nessa voz acariciadora o canto mágico dos seus esponsaes com a ventura.. vem. Cautelosos e arquejantes.. Subiam lentos. E' a felicidade. como uma zoada infernal. Estreitados um ao outro. voando.. e ahi. O caminho deixou a matta sombria e sahiu pelas alturas descobertas. — E' a felicidade que te prometto.. margeando o despenhadeiro. caminhavam velozes. escalavam a subida.CHANAAN 355 das arvores espectraes. e aos fugitivos.seus olhos mergulhavam no abysmo e 3» perdiam^fascinados na toalha branca e espumosa do rio. encontraremos outros homens. arrastando-se unidos. Milkau não mais falava.. e es. voando. Milkau repetia no ouvido da companheira o seu appello de seducção.. escasso. acorrentado no fundo do cavado e fragoso valle. puxava com esforço o braço de Milkau... e Maria já se animava.

vendo-se perdido n'aquelle recôncavo tenebroso. O Santa Maria urrava soturno e medonho. beijando-a febril^se* e ferozmente: Também ella i » apertavaTcom fúria <& j&b) n-lim accordar violento das suas entranhas. fjH^^fljl n u m assommo de pavor. e logo estacou. rolaram por terra confundicfòs>batendo-se. diddjéntíúik para o abysmo.356 CHANAAN no horizonte. alquebrado..... enlaçando-se como cornentes a uma arvore. . o retinham. Só. avançou alegre . (jè^tbajjaj$è7$£ca£avj$ di rr/ U ' .^ *W*. para a morte. De um salto.. recobrou urna extranha tW energia e tentou retel-o....-/ 0 i . Percorria-lhe os membros um suor gelado.. debatendo-se nas mãos ^A^ fortes do homem. allucinados. Milkau desanimou.. ^ ( ^ ^ j £ . Pregados assim n'efisa postura. agarrou-a pela cintura. y y morte. Elle olhou-a cornos olhos desvairados. Maria..luctando.. sobre rochedos escarpados e negros. doidos... n aquella solidão de pedra. 4 t t L . e arrebatando a mulher do chão. teve de ceder á d'ella. ^^J^y%* \\r^j^**rAaxia resistia com fúria.../ corpo frio. mais nada. / . gaguejou estrangulado: l I Jpy — Não ha mais nada.e infernal para o abysmo. Milkau ergueu-se. e o « A. os dois desgraçados luctaram longamente. e com um sorriso diabólico. A tentação satânica da morte era mais poderosa.. Qp calor da mulher/já/utiWolvidado jftorooHDncrvw incendiava-o/ e no combate alie 4L estreitava cor vehemenci^(I com ardor.. arrastando-o para a encosta da montanha. Os braços d'ella. mas a força d'elle que a queria levar para a' morte. feroz e resoluto. a -\^f/ . só..

Corriam.. ouvia fflyf a voz^ée Milkau. Eu vejo. N'um momento. na obscuridade da treva. o abysmo negro e assombroso passava como o tormento de uma vertigem.. Milkau não sabia para onde o impulso os levava : era o desconhecido que os attrahia com a poderosa e magnética força da Illusão... E Milkau fraqueou por fim.. iam desfilando sinistras e rápidas pela aresta da barranca. — Chanaan! Chanaan!. Milkau. Começava a sentir a angustiada sensação de uma corrida no Infinito. Adeante.. galgaram o alto da montanha.L -J ^J^^ã^lfr/Mf^/j. cahiu n um "rápido marasmo.^ Mas o horizonte na planice sa estendia^pelo seio da noite e n&. e pasmaram a vista nos livres descampados por onde descia a estrada. '"•'* — Adeante. os ruidos desesperados e attrahentes do rio morriam atraz. J^t^fivida... e dos seus braços esvaídos dklyyjdfâffl/dr^ü-^ Maria. e agora elles se precipitavam •% numa campina suavemente esclarecida pela noite maravilhosa e límpida. a vista da planície /vftw**dilatada e bemfazeja. reanimando-se.. deitoúN(a correr veloz pela vereda de pedra.L ^ n^r^> L*^ . duivc. sentindo-se em liber. E as duas sombras. supplicava elle em <yr~~ t~*r*>.. anniquilado. de si. enormes. vibrando como / ^ / ^ i w a modulação de um hymno.. / que aos seus pés medrosos e vivos se tornava ^ macia e segura.. corriam...CHANAAN 357 que os prendia á vida. Chanaan! Chanaan! . espavorida.///</? dade.. seguiu-a.. Atraz ... Não pares. A agonia . confundia"com os céos. „ coniuso.

358 CHANAAN pensamento.. Corriam.... n'um soffrimento devôrador.. E nunca.. / é .. Nunca! yd.. sem \0 poder j / / ^ i . novo sangue batia-lhe victorioso nas artérias. horas e horas.. adeante. os cabellos cresciam-lhe milagrosos como florestas douradas deitando ramagens.. e temendo dissolver com a sua voz / mortal a dourada fôrma da Illusão.. ia vendo que tudo era o mesmo. E tudo era immutavel na noite. Apenas na sua frente uma visão deliciosa: era a transfiguração de Maria... e Milkau en no hbfmfld jflf° f ° c o d'essa gloriosa luz.. corriam. Animada. que seguia amando. e nada variava. // n'aquella busca vã e fatigante.. .. elle atraz anceado.... veloz e intangível. Corriam.. pedindo á noite que lhe revelasse a estrada da Promissão.. A figura phantastica sempre. jamais lhe a^parecia a terra desejada. sumida na nevoa incommensuravel... transmudada pelo mysterioso poder do Sonho.. e mysterio. corriam.. alcança/. Corriam.. corriam. E o mundo parecia sem fim. fatigadps de voar. para/fim do seu martyrio. Cb/anaan! Chanaan! pedia elle no coração. que cobriam e beneficiavam o mundo. E Milkau.. Corriam.. os olhos iam illuminando o caminho. a Mulher enchia de novas carnes o seu esqueleto de prisioneira e martyr. e nada lhe apparecia. acompanhava em amargurado êxtase a sombra que o arrebatava. e a terra do Amor mergulhada. E tudo era silencio.. corriam.[ mais. inflammando-as.

. e esclareceu a várzea.. a somma de todos nós.. desdobraremos infinitamente a ¥*k<V v w v c _V . Cada um de nós.. a mesma bocca murcha. Não desesperes.. Nós nos prolongaremos.CHANAAN 359 A noite enganadora recolhia-se. Emfim. os mesmos olhos pisados. Elle disse : . Não corras.. A nova luzsemmysterio chegou. — Não te cances em vão. que os novos homens ainda alli não tinham surgido.. Vendo-a assim. Milkau festejou n'um frêmito de esperança a deliciosa transição. Chanaan ia revelar-se!.. Milkau viu que tudo era vazio. a mesma figura de martyr.. Com as suas mãos desesperançadas. H &y inútil.. nós que viemos do mal originário. como n'um.. Aquelle que vive o Ideal contráe um empréstimo com a Eterni• dade. não a vejo mais. Sejamos fieis á doce illusão da Miragem.. Ainda não despontou á Vida. e Maria volveu outra xez para Milkau a primitiva face moribunda... é o sentimento da perpetuidade.. que eu te ia mos/ trar e que também anceoso buscava. o mundo cançava de ser egual. A terra da Promissão.indefini/o ponto de transição. que tudo era deserto. / q u e ' s e fará a passagem dolorosa do soffrimento. Purifiquemos os nossos corpos. Paremos aqui e esperemos que ella venha vindo no sangue das gerações redimidas. Ao contacto humano ella parou. na miseranda realidade. O que seduz na vida./emní mesmos. tocou a Visão que o arrastara. que é a Violência.. ^ é-qu& somos a força creadora da utopia.

.12. reconciliemo-nos antes de chegar ao instante da Morte. Façamos d'ella o vaso sagrado da nossa ternura. indestructivel... I). todos os sacrifícios.. abandonemos os nossos ódios destruidores.. Paris. iremos viver longe. ou si é informe e transitório. na alma dos descendentes.. « Tudo o que vês. que venha do seio< maternal da T e r r a .para se repetir em outra parte o cyclo da existência. li. Todo o mal está na Força e só o Amor pôde conduzir os homens. e santo. ou si um dia nos extinguirmos com a ultima onda de calor. Eu não sei si tudo o que é vida tem um rythmo eterno. morrem passageiramente. todas as revoltas. onde depositaremos tudo o que é puro. passam no curso dos tempos. todos os martyrios são fôrmas ^errantes da Liberdade. muito longe. angustiosas. eu te digo. (.1901. 322. Os meus olhos não attingem os limites inabordaveis do Infinito.. dissolver-nos na estrada dos céos.. não nos separemos para sempre um do outro nesta attitude de rancor. .... a ti e á tua ainda innumeravel geração. e divino. esperando a hora da resurreição. ou si tivermos de aee despedaçar^ com ella no Universo. si isto tem de acabar . Eu te supplico.. desaggregar-nbs.360 • CHANAAN nossa personalidade. suavemente.AKNIER. — Typ. Mas. E essas expressões desesperadas. Apr proximemo-nos uns dos outros. todas as agonias. a minha visão se confina em volta de ti. rue cies Saint-Pères.

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