GRAÇA

da Academia

-4

ARANHA
Bratileiru

9

}

rv>ut*« <£&<,

A

y>

7*

&

Chanaan

H. GARNIER
LIVREIRO-ED.ITOR
Rio de Janeiro

l

Chanaan

/<?<*, B4

u£fcfJ*.'y~"-yr

GRAÇA

ARANHA

da Academia

Brasileira

Chanaan

H. GARNIER
L1VREIR0-EDIT0R

Rio de Janeiro

&

&

*

-

.

y^yC H A N A Á N ^

st S

vi
Milkau cavalgava mollemente o cançado cavallo
que alugara para ir do Queimado á cidade do
P o r t o do Cachoeiro, no Espirito-Santo.
Os seus olhos de immigrante pasciam na doce
redondeza do panorama. N'essa região a terra
exprime uma harmonia perfeita no conjunção
das coisas : nem o rio é largo e monstruoso precipitando-se como espantosa torrente, nem a serra ^
se compõe de grandes montanhas, d'essas que enterram a cabeça nas nuvens e fascinam e attráem
como inspiradoras de cultos tenebrosos, convidando á morte como a u m tentador abrigo... O
Santa Maria é um pequeno íilho das alturas,
""TTgeiro~êm seus teasipio^ depois é m b a r ^ á ^ ^ H <
longo trecho por pedras que o encacho
das quaes se livra n ' u m terrível esforçof^tígind'
de dòr, para alcançar afinal a sua vt\o[i\fà(àc s^vy
e alegre. Escapa-se então por entre '(unia flor

.'W

C>Q->

•ifi

***)

tsfjr-

*y?"*£,

«ié~~ *>£<<&*'.

J gada.. Tudo era um *i abandono preguiçoso. / . Os humildes ruídos da natureza contribuíam parfr-trma volu. o próprio /v. Absorto na contemplação. ^ Z que balançava moroso a cabeça. vestidas quente e infinma. A aragem mansa./ ».<lr.'H r ^ ^ ^ m e n t o perturbador que cr^a e destróe. . que parece entregarem-se \f* complacentes áquella risonha e humida loucura.insectos Í\jMf tornavam mais sedativa u Jrjll& a 2j%L. f sol nascente vinha erguendo-se / í j ^ ^ a d o na c a l . Elias por sua vez se alteiam gracipsas... Milkau cahia em longa s c í s m a / ^ f y l ^ con. \xntr-'/yJL rompia-se alli o ruído incessante da vida.^qjiellft-qWnão esteve em repouso absp- é ~ >ew?~ lj*f~ r #~* 'y*U*S4 **/***•. luminosa e calma. o /wwv^ji sussurro do rio. ^fei*ando de '' II*' quando em quando as palpebras pesadas/desce^. cavallo tomar o passo indolente e desencontrado .£#»«.v»-maria da noite f c/l seus raios não tinham amda a 'llj \ *£££* potência de alvoroçar as entranhas da terra soce. '^-Jltm+ *'á***-l .-v J ptuosa sensação df silencio. Milkau deixava o . ''%. inquebrantavel immobilidade das coisas. um arrastar languido por entre a tranquillidade da paizagem. A solidão formada p rio e pelos morros era n'aquelle glorioso momento fc£.//#/*" SLti^^/Asoladora. as vozesinhas dos pequeninos /* ÍJll-f. J ' a rédea cahia frouxa sobre o pescoçòjdo animal. insinua-se vivaz no seio de colunas) torneadas e brandas. o d/***** **CTãiC CHANAAN sem grandeza. Sobre ella não pairava a menor angustia de terror.t "t VtXfAj i&^A longas sobre os olhos viscosos. o movi.

rebento fanado de uma raça que se ia extinguindo na dôr surda e inconsciente das espécies que nunca chegam a uma florescência superior. ff compungia/deante da trefega e ossuda creança -/^P /^* que era essa. 4.. elle mesmo se ^espanta do yr *. as boas.Tt-^/j^ Na frente do immigrante vinha como guia um ' menino.Venho sempre rf quando ha freguez.. palavra que ficava morta no a r / outras. Também choveu tanto estes dias !.^ / .. O pequeno. fluido perturbador que emanaxa^déj seus nervos ~ ff **~ doloridos e máos...y\i CHA^ÍAN luto.. y hojejqtMT sereno^. . deixava-se conduzir pelo seu velho cavallo. fíão viyeu em si mesmo . no turbilhão £MI^Í/^ f>$0jl proferiu accèntos que Sk não percebia. ainda ante-hontem vim. a uma plena expansão da individuali. vens sempre ao Cachoeira? — Ah!. filho de um alugador de animaes no Queimado. Milkau n'esses momentos attentava no menino e . as santas creações do espiritoV do coração' são/geradas nas forças mysteriosas e fecundas do sile%CTOrrj-. mas / desde muito não chegava ninguém da Victoria. — Então. E oviajantel sahia da contemplação. soltava uma . disse o menino como que espantado de ouvir uma voz humana. surgia I /oi JÍál do fundo dos seus pensamentos. esporeava-o e o fazia galopar descompassado e arquejantè. e chamando a * ' si o pequeno : -. muito enfastiado d'aquella viagem e do companheiro. para se o / expandir. Umas vezes.f * dade. resmungava com o animal. 5fedag as eternas.

d rio está escasso.croanea^ Frgtil r r í p n n d f l l . mas é para a freguezia. mas o subdelegado não consente le a gente / tem que se cançar por nada.r>nt.... A paizagem não variava no desenho. como . mostrando os dentes verdes e ponteagudos. nhor sim. Seu Zé Francisco diz que é porque a água está fria.. l l h f 21 ?$n'r* prr>«»pl-nry. carne secca na venda do pae. Milkau fitava com bondade o pequeno guia... Hoje.. — Ahi no Queimado vocês não têm carne? — Ah! nhor sim.i CHAXAAX — De que gostas mais : da tua casa ou da cidade ? — Da cidade.4fttertt^toi4eT-qtte. este sorria agradecido. abrindo os lábios descorados.»~^ — Ah ! nhor não ! — Que fazes então ? — A gente ajuda o pae.. mas tia Rita diz que agora é tempo de lua e a mãe d'agua não deixa o peixe sahir. continuavam a marchar pela estrada a tro.. de madrugadinha vamos para a pescaria levantar a rede.. Só quatro. O melhor é pescar com bombas. As vezes. quando falta. Cambem foi só cocoróca e um pinguinho. a gente bebe mingáo. apenas o sol começava a incendiar o espaço. — Teu serviço em casa de teu pae é só acompanhar os passageiros para o Cachoeira ? cwrtintrou M4Ík*t*-fK>. antes do patrão chegar. estávamos já de volta. Nós comemos peixe.dejj»»i'tuvi" e alegrava a.-seu-.

CHANAAN Üj^ 5 afiada serra . — Mais da metade do caminho. após tratar dos animaes.. O pequeno. avançavam pelo caminho afora. ainda não se avista a fazenda da Samambaia. é noite de peixe.. alinhava-se garboso no i j ^ v velho cavallo.. meu filho ? perguntou ainda o viajante. Milkau acompaq~f.menino apontou para adeante e voltando-se disse ao companheiro : (UAJ^- f"T* **£? ^4. WCj \ animado pela conversa. si a água estiver quente. <«/r'"**^. O pae diz que eu volte já. fincava as pernas de esqueleto e punha f^y^~ o animal n'um trote esperto. O pae disse.. O immigrante compadecido testemunhava n'aquelles nove annos do desgraçado a assombrosa precocidade dos filhos dos miseráveis. — O h ! patrão. hoje é dia de ir com a mãe fazer lenha. n u m a curva da estrada. fugitiva ligação da piedade e da miséria.nbai^ujwtinrnVampntP^sga-acteüiiadj&^gos dois asy!lr*^s\m. deitar a rede. antes da lua apparecer. V» . mas o rosto macillento sepsclarecia com a grande doçura de uma longa resignação de raça.. — T u voltas logo para casa. *** . — Quanto falta para chegarmos. porque hoje. empunhava as rédeas com firZ.. ^^ -J2 <=<•£-&.T?"~ meza. Pgttee. ou queres descançar um pouco? Fica até á tarde. e de lá á cidade é o mesmo que para o Queimado. concertar a rede que a canoa de seu Zé Francisco arrebentou esta madrugada..tempo depois. o *^^v£. e nós vamos á noite.. r t ..

brilhando aos tons dourados da luz ./infecunda para o amor. /frffl extenuada para a «-»• vida. o horizonte se ia estreitando. os pés de mandioca finos. / Lá no alto da collina um casarão pardacento ***" * misturava-se k bruma azul acinzentada do longeJ_ / • £ i á medida que Milkau proseguia.e WjMwn TTi tarados vent 7 ^~ >>^3Terra 3tecemenie--&~grandp eétFe^çrar-era cheio «f0**~*> i j j n minliii dii~i"TiTT^d M * /c/ 7" .c Cl IA NA AN — Estamos na Samambaia. roça de mandioca na baixada. delgados. Os viajantes margeavam ora o cafesal plantado na encosta das collinas. if~A / fítt/ÜBL coloria-^de um verde claro. abrindo*. A terra era cany~ cada e a plantação medíocre. com o sorriso gentil no rosto violaceo. O menino empurrou a cancella ^ com uma das mãos foi /. ia morrer sobre elle. io cafesal jyfyffii o matiz verde-chumbo. A terra morria alli como uma bella mulher ainda moça. Milkau e o seu guia chegaram a uma porteira que fechava a estrada no trecho" em que &Ê* cortava as terras da Samambaia.j ilnb {«iiiiLiims^ne /*•*' entia-se^C^'. traducção da força da seiva. Milkau passou/Jd atraz d'elle uma pancada //* Í5 b . estirando-se n'um esforço. ora a . e parecia que esta. o morro na frente tapava a estrada. uma turva mistura de desfallecimento e de prazer mofino. ao contemplar aquella terra sem forças.JftfJíUft (4tf Wtíj0&Wfr grito agudo. como si lhes faltassem raízes — * * « * * * . oscillavam. exhausta **" e risonha.

cheio de sulcos de carro de boi. na frente. cf $<$$$£ &fflfjfy bojs agi. Da esteada pelo morro acima o terreno era inculto.CHANAAN 7 surda cerrou a estrada. bufando e catando . O caminho barrento. havia muitos annos fechada. com uma côr parda edesegual.** \ insoífridos a herva. jÇ^j^ogo ao penetrar' nas terras da fazenda. esquecidas^^redeas do cavallo e poz-se a mirar */#r^j em volta. Faziam-lhes *-*>r*'-"y\ companhia aves de máu agouro. aqui e alli o bolor sobre as paredes traçava extranhas e disformes visagens. / frente á tysfrflç/fáfáffl iyiWtty casa. apenas cortado pelas picadas que 0jf&va. O casarão. piando como /^'T^^f . fyffifajfy{//etaCd*^ um cheiro de lama e estrume. descrevia/uma curva que /<* ****'. Fora branco.m da estrada e de /M*v>r outras direcções á casa de vivenda. pegajoso e humido. á vista agora. . guardando .^rgou 0 a * ./ ' va ennegrecido.í4y€f/t desbotadas do interior. anuns que trepa. pássaros da morte. abraçava o valle e se approximava da barranca do rio. crescia livre a herva com touceiras de matto rasteiro. uma capella. era grande e / t ^ i ^ M aca/Kapaá^etomffiEK immensa varanda em fi^ãll //bffljZjjr sem j a n e í p j ^ r f p a r a $f$fi se abriam as portasA^-^ . ^i^tíjfpÁ^çf^A.///***** tando com o movimento inquieto das cabeças a /k****""1*! sineta que traziam ao pescoço. f i vam xidlAfmJJ costas de esqueletos. sob a pelle/i^*'***'dos pobres animaes a rija ossadura. coberto de matapasto crescido. Ao lado. mas esta. da varanda descia uma escada de madeira já com falta de degráos e com os corrimãos arrancados.

. apagado para os aspectos da vida *f como o de um idiota. . calça de zuarte. Milkau cumprimentou. velados pelas ' ( divindades enclausuradas. das emoções e sensações^//completo f i//9\ J reduzi//í a uma attitude miserandade autômato.^ Ias. o homem lá no alto correspondeu. branca. ainda assim. com a barba . reconheceu-o e disse' vagarosamente ao companheiro : — Lá está seu coronel Affonso.. o eífgot/amento das s u a s / * / • faculdades. egualados '<£j pela morte e pelo esquecimento.\ mana. talvez bel. erguendo uma perna. erguendo indolente o sombreiro de palha.. Ê Centro 'da egrejinha. / ^ alçava-a sobre a sella n u m gesto de resignaçãoi / . tirando cortezmente o chapéu .j) gava á soleira da/ varanda./vfyí um vulto que che. ^ Toltando-se para a casa. parecia. camisa de chita sem gomma. turvo. de pés nús. ZjJs* O cavalio de Milkau continuava a passo/^/guia j£** bocejava indifferente e. f ^hysionomia /jji triste. á^.^8 CMANAAN I no seu silencio a voz da devoção)./transformada em ignorado e mysterioso relicario de antigas imagens de santos. que por ali* l(y passara./jt^ lezas ingênuas de uma arte primitivaMjwtâfy/fê l/^" J) jffjfmia.//^)<. O dono da fazenda. o olhar./attestaj/d^/ na alvura da tez /*â a pureza da geração. a mesma vida superior envolta na queda í .^ como si elle tivesse consciência de que sobre s i " M recahia o peso do descalabro da raça e da família. muito velho. elle representava a figura hu. jaziam no chão sagrado os túmulos de senhores e de escravos.

J7j/\y . como uma sobrevivência das antigas ^ > moendas. e ao lado a roda onde no tempo do ser. // restos de machinismos espalhados pelo chão. bre a qual um limo verde crescia. E não ha quadro mais doloroso do que a^JÍJé' em que a acção do et***^" ^ m p i x a força da destruição não se limita somente ás tradições e aos inanimados. caldeiras. para se servir Me**' dos apparelhos primitivos que/se harmonisavam f/y**4* com afeição embrutecida do seu espirito./ donára agora em sua decadência.CHANAAN / das coisas. rodas dentadas. so. Havia também dois % tachos em que se mexia a farinha pelo processo ^ \ rudimentar das pás/ Eram de cobre e destoa|' vam do resto da engenhoca. Milkau notou além T — d'isso. Quasi á beira do caminho e^ava a casa do for. mas envolve no descalabro as pessoas. aban./ ' / bos. A O vulto do coronel ficava immovel na soleira dd. abrangendo ainda com os olhos o quadro d'essa triste fazenda. arrastada na ruina geral. fi paralysaJ a*fulmina^fazendo fti—^ d'ellas o eixo central da morte e augmentando a Âgk^a* sensação desoladora de uma melancolia infinita. / -feJ cahindo de prostração em prostração/perdendo ' / todo o polido de uma civilisação artificial. onde se preparava a farinha J/Era um velho M • i barracão coberto de telha carcomida e negra. Dentro-da-casaj estava armada a bolandeira. que o homem. ' Milkau proseguia pela estrada.«=> viço se ralava a mandioca. | $Áfl aflV uma/installação melhor.J/^^ur no. no grande desleixo da casa abandonada. attestando tfft/$ft ///%. . dh£$espessa^ mi-//&**'facroscopica floresta. tu.

instinctivamente. Os cabellos não penteados faziam ponta. coberto de palha cujas línguas se projectavam desordenadas da cumieira. O pequeno guia adeantou-se para a casa.. (%£** 2* Ju ^***-y ^ *pf*&„ mJ^ y*». encostado ao moirão : apenas trajava uma usada calça. presidindo com o olhar pasmado ao desmoronar silencioso d'aquelles restos de cultura.. de um nunca terminado pasmo deante do esplendor e da gloria do mundo. e sob|fe/a pelle resequida de* senhava-se i <fn/<fr^fyjfó de um esqueleto de "9/ ^athleta: sobre o dorso. o pjíl tronco estava nú. No batente da porta sentava-se uma mulata moça. /Õ/iOÍs viajantes Continuavam a aç movensjentro . J" / esperando na lugubre attiiude do inconsciente a I lenta invasão do matto.10 CIIANAAN escada. A-ffy postura era de adoradão rudimentar. circumscrevendo. que n u m a desforra triumphante vinha vindo. crescia uma pennugem branca encaracolada.• d aquella paizagem onde as forças da vida parecia estarem paralysadas e onde tudo tinha a íixidez e a perfeiçâo da immobilidade. quando. elles enfrentaram quasi súbitafnente com um rancho de moradores. Toda ella era a própria indolência. como em moribundo ' cepo de arvore. como movido por longo habito porta do rancho um velho cafuso com os olhos nevoados fitava vagamente o espaço. quebrando o caminho á direita.s coma chifres.S* / u / /A./£ " . v. que subia até ao queixo 7formavy uma rasteira barba. apertando o 0^/*$£homem e jtí'fyfè/d human/s. a. rira um pardieiro armado em cruz.

mirava embasbacado os cavalleiros que se achegavam ao tijupá. em pé. Apenas o / velho <$k&. ao seu lado.. e. donde se dependuravam uma figa de páo e um signo de Salomão. que sem o menor alvoroço o deixava approximar-se. Milkau cumprimentou o grupo. está-se na cidade. como si reflectisse um momento e sentisse despertar em si uma anciã de communicabilidade. — E h ! meu sinhô. Olhe só. um negrinho vestido apenas de um cordão ao pescoço. • f/H* fl*"* QLxxtrangcirn npTt"" a mão callosa e áspera do /<£ velho.l guiça e desalento. A c a W a não se mexeu. descançou-o. insistiu «com Milkau para que se apeasse. cheio de pre. — Não. •*'CHANAAN / rv*H / y 11 camisa suja cahia <p toa sfiiw^^collo descarnado. mostrando as gengivas roxas e desalentadas. Quero chegar cedo. moço. apenasj mudando ^ vagarosamente o olhar.. abandonando o seu cavalloisegurqu_pelo freio o do viajante. A creança se acolheiríTella boquiaberta. obrigado.. com a baba a escor \ j-er dos beiços tumidos. respondendo á saudação J fi **^ — Se apeie.. O guia não esperou mais. que abriu os lábios n'uma rude expressão de riso. Depois o velho. Ld'áqui ao Cachoeira é um instantinho. e j U ^ este ptffiji o~pé em terra l ^ f boceja^ n'uma satisfação de repouso.. e os peitos de muxiba /pendiam molles sobre o ventre. vencendo duas curvas do rio. no rosto do viajante. pulou da sella... ~~~7 .

12 Cl I ANA AN Da porta Milkau via claramente o interior da habitação. formando /-' um quarto. separava um dos cantos da peça. apenasdivisava ao longe um amontoado de ruínas que interrompia a verdura da matta. o â— mobilia^U/ miserável e simples se compunha de <' uma rede cor de urucú armada n u m canto. sinhô moço. — Mora aqui ha muito tempo ? perguntou Milkau. A cobertura era alta no centro e pendia em declive tão rápido para os lados que nas extremidades um homem não podia ficar em pé. E a conversa foi continuando por uma serie de . de outra dobrada em rolo e suspensa n u m gancho. dois banquinhos rasteiros. como um biombo lixo. I m a pequena divisão de palha. molhos de linha de pescar e alguns pobres instrumentos de lavoura. tacteando o espaço. No fundo. Alli perto do Mangarahy. estendia a mão para o outro lado do rio : Não vê um casarão lá no fundo? Foi alli que me fiz homem. onde se viam uma esteira e uma es/ pingarda. na qual uma touça de bananeiras se / ( /multiplicava/ //junto a essa porta Medras negras. j/jy ) que se misturavam a restos de tições apagados.. defunto meu sinhô.. uma esteira estendida no chão de soque. — Fui nascido e creado n'essas bandas. acompanhando o gesto. E. que Deus haja ! O extrangeiro. indicavam a cozinha. um remo. na fazenda do capitão Mattos. a porta abria para uma clareira do matto.

Eu com minha gente vim para cá. Ah! tempo bom de fazenda ! A gente trabalhava junto... Tempo hoje anda triste. e nos poz todos no olho do mundo. sem lances. n i Cd dê fazenda ? Defunto meu sinhô morreu. como todos os humildes e pxi mitivos. os trabalhos e os castigos.. mas de quão intensa e profunda agonia! Contou a velha casa cheia de escravos. véspera de .um pobre drama sem movimento. onde bem quizeram. para essas terras de seu coronel. quem apanhava café apanhava.CHANAAN 13 perguntas de Milkau sobre ávida passada d'aquella região. cafu :as. meus parceiros furaram esse matto grande e cada um levantou casa aqui e acolá. Patrão se mudou com a família para Victoria. mulatas. Governo acabou com as fazendas. E na tosca linguagem balbuciava com a figura em êxtase a sua turva recordação/ _ — Ah! tudo isto. meu sinhô moço. bandão de gente.. Comida sempre havia. tudo de parceria. Tudo debandou. filho d élle foi vivendo até que governo tirou os escravos. de tomar a iniciativa dos assumptos/I contou por phrases gaguejadas a sua triste vida toda ella. e quando era sabbado.. por ter occasião de relembrar os tempos de outr'ora.. se acabou. as festas simples. a trabalhar como boi para viver. onde tem seu emprego. sem variedade. sentindo-se incapaz. quem debulhava milho debulhava.. a comprar de vestir.. Nunca ninguém morreu de pancada. a caçar de comer. ás quaes o velho respondia gostoso. Que importava feitor ?.

.. tem sua casa. E agora? Todos têm uma casa.. sua terra. meu amigo. burrada... E os seus olhos tristes se obscureceram. Não me tirando a graça de Deus. com o desespero do isolamento de agora. A nevoa que os cobria. têm cafesal. — Mas. cavallo e negro. fazenda. a mão estendida fâf.fffy gestos tardos e incertos. arrendada por dez mil reis por anno... u Q> k r' 0 domingo. tornou-se mais densa.. com a melancolia de um mundo desmoronado. com o olhar perdido no vácuo. tambor velho roncava até de madrugada. como que sobrecarregada ftítff.. K assim o antigo escravo ia misturando no tempero travoso da saudade a lembrança dos prazeres de hontem.. qual nada. que está ahi assentada.. só pune por allemâo ... da sua vida congregada. . amparada na domesticidade da fazenda. Hoje em dia tudo aqui é de extrangeiro. ^ ' u m estremecimento. proseguia no seu monólogo : — Vosmecê vae ficar aqui ? D'aqui a um anno está podre de rico.da pesada visão da conquista da terra 'pátria pelos bandos invasores.. você aqui ao menos está no que é seu. é dono de si mesmo. o preto velho. — Qual terra. ah! meu sinhô. Rancho é do marido de minha filha. Todos seus patrícios eu vi chegar sem nada. terra é de seu coronel.CHANAAN ÕL^J*^ f' jC^J Jff/Vm*' A * *. De brasileiro governo tirou tudo. jfy/fó Milkau. com as mãos abanando. governo não faz nada por brasileiro.

. — Adeus. A <ry figura da filha. N'um gesto contrafeito despediu-se. agora de todo inflammada.ndando a cabeça e resmungando um choro. Os ventos começavam a // fe^Qf soprar mais espertos e como que agitavam as almas [/ dif. e ess^ ^raço dft/moviméntos oppostos f/ v W d a v á a impressão de que toda a paizagem se áni. O preto abandonou-lhe a mão. até á vista. Milkau recolhia o echo d'aquelle queixume de eterno escravo. e a incapacidade de uma expressão livre e elevada fazia crescer a angustia.-/"/ do' longínquo horizonte. Havia alguma coisa de aleijão n'esse protesto. LjJ O rio descia em direcção contraria á marcha. como si o peso de toda a responsabilidade da situação d'aquella gente cahisse também sobre elle. Milkau /aminhava pela grande luz da manhã. Milkau sentia um estrangulamento. Lá dentro de si mesmo tfatia-se em vão para encontrar a claridade de um sentimento. lá no alto. apatetados. d'aquella mal definida resignação dos esmagados. itíféfti-.. > valleiro. arrancando-as do torpor para a vida. dava / maior oppressão a tudo.dos y viajantes. Nada achou.CHANAAN ^ f 15 Seguiu-se um oppressivo silencio. meu velho. o immigrante notava o . Os outros da família ficaram quietos. A fazenda. de uma indolência sinistra./ ' mava e docemente ia desfilando aos olhos do ca$ j . a limpidez de uma palavra consoladora. sumia-se no &H*de> . 0 velho continuava me.

como são os caminhos do homem sobre a terra. l/ ' mordia o freio. curvava o pescoço e accelerava brioso o passo. infinita:^ e incertas. . Milkau ^Úi ao longe. homens. também se . relinchava asperamente. // * 'o corpo se lhe agitou e estremeceu nessa anciã de quem penetra na terra desejada. a vontade transmittiam um fluido activo ao lerdo animal. como um / espelho vacillante. como o de fitas mágicas : casas de moradores.1A Í. sacidia as crinas. í5 rolar do f j^jL* Santa Maria batendo sobre pedras amontoadas. despedaçando-se como um louco nas lages. A estrada iá se alargando.. fim das suas jornadas. de narinas escancaradas. . espumantes.< CUANAAN manso desenrolar do panorama. uma larga mancha branca. recolhiam e reverberavam a luz do sol. mas o sangue em alvoroço saudou a apparição do povoado. respirou sôfrego. na matta ll^õu^l ainda fumegarite de nevoas. tudo ia passando. e agora. au/*/ gmentava.16 ~ ' .J Milkau. Xa frente o guia. gritou-lhe : — Porto do Cachoeira. A brisa fresca encanava-se pelas duas ordens fronteiras de collinas parallelas ao rio e trazia ao encontro do / /f viajante um mugido sonoro de cascata. rolando devagar'. mas arrastado por uma força incessante que nada deixava repousar. os nervos.' recendo. comoJjarfdespertando. \~U '. bui^ / fando. desconhecidas. que. outra/vinham appa-/-*^.transformou em vida. estendendo o braço. ao sopro da viração. 7 as suas águas revoltas. ao contacto dos logares próximos á cidade.

O maior sobrado da cidade. o olhar espraiado na paizagem.. Conhece ? — A h ! nhor sim. Mirando-as attentamente.// v~ ras os viandantes. a cidadesinha tíâ n'aquelle delicioso e rápido ins//r tante/a filha do sol e das águas. jjLeeerrdo na*frente...' ras casas iam chegando : eram pobres habitações. e deitando-se á soleira das cidades. Os cavallos arfavam. e adivinhou-os batidos pela invasão dos brancos. com a sua casaria .. — Onde se apeia. para elles extrangeiras e prohibidas. Domingo passado levei também um moço para lá. mas ainda assim procurando os derradeiros e longínquos raios do calor humano. Milkau. — Em casa do Sr. dando á marcha fatigada . Milkau observou que essas casas eram moradas de gente preta. Cheia de luz. em plena tíbffà da côr. da claridade //(W^ ~ e da musica feita dos sons da cachoeira. escancarou para dar passagem á Milkau. patrão ? perguntou solicito o guia. ^ como soltas na estrada para saudaráíi alviçarei. Os viajantes desceram a rampa e foram ter a uma porteira. Entravam agora mais devagar na cidade.GHANAAN 17 Então. da raça dos antigos escravos. de uma pequena elevação que ia galgando. dominava a povoação apertada entre a montanha e o Santa Maria./ toda branca. quem não sabe?. as primei. Roberto Schultz. /A/T**' Os viajantes continuavam apressados . represa #&'"' do fervido rio que se liberta em franjas de prata. que o pequeno.

apenas guardavam na retina inconsciente a vaga sensação de uma cidadesinha allemã no meio da selva tropical. o menino voltava com os ÍJMJ animaes. O armazém de Roberto Schultz era vasto. c. ao entrever essa população toda branca.1SS CIIANAVN uma sensação de movimentos irregulares. Chegados a um grande sobrado. em café. /mg u a mio o via^ _ v . e ao sentir a irradiação do sol batendo sobre as cabeças das creanças. era um d'esses typos de armazém de colônia. Os olhos de Milkau tinham os estre' ^ l ^ k ^ ^ m e c i m e n t o s das passagens \fly!//fé dos pano' ramas contrários . que são uma abreviação de todo o commercio e conservam na profusão e multiplicidade tftJJ das coisas um certo traço de ordem e de harmonia. o guia pulou lesto do cavallo e ajudou Milkau a se apear. iam tropeçando nas pedras soltas da rua. Tinha quatro portas de frente. e as mercadorias innumeras davam-lhe uma feição de grandeza e opulencia. Ao espirito do immigrante desceu uma confusa e tênue recordação de outros tempos. para chegar até ao balcão. como si descessem com medo montanhas pedregosas . como refulgentes chapas de ouro. uma espuma abundante os ensopava. em fazendas. despediram-se como bons amigos. não possuíam fixidez nem calma para precisar qualquer observação. *y / ' A loja áqüella hora já estava cheia de gente. em vinhos. jante penetrava na loja. e Milkau. e. em instrumentos de lavoura. Alli se negociava em tudo. abandonados de rédeas. foi desviando os h .

uma calma dominadora. dobrou vagaroso a carta e poz-se a tamborilar na secretária. ora a ler. todos indecisos. Roberto começou a aconselhal-o i que não se decidisse antes de ver bem as coisas por si.'para longe do Cachoeira. disse por dizer. Paulo. ... e immediatamente Milkau foi conduzido ao escriptorio. afianço-lhe. Talvez melhor ftíffft ir para. são os grandes centros de commercio. porém agora os negócios não marcham. — Então. noutro tempo ganhava-se algum dinheiro. Afinal. Ahi. ora a mirar pensativo e aborrecido. — Isto aqui é triste e enfadonho. A colônia é um engano . onde um homem taurino e barbado o recebeu. o senhor deve voltar hoje mesmo. Dos olhos d'este baixava uma claridade suave. nós estamos abarrotados de pessoal. Disseram a Roberto que havia um viajante á sua procura. vem com a idéa de ficar aqui ? Milkau affirmou essa resolução. onde acharia um emprego com facilidade. quiz interromper Milkau. que elle principiou a ler. / — Na minha opiríião. Roberto não o attendia e continuava a arredal-o ^ / com as suas palavras. brancos e tardos allemães. Vae-se aborrecer.. — Mas. sim. pesados.CHANAAN 19 freguezes alli amontoados em pé. que perturbava o velho negociante.. interrompendo-se de vez em quando para fitar o recemchegado. Aqui V.. o Rio ou S. O immigrante entregou-lhe uma carta de apresentação..

que vou despedir: em nenhuma casa de negocio da colônia o senhor se pôde empregar. temos de hospedal-os.. E o costume aqui. arranjar é$ eleitores . jiorque nós aqui. — Como ? Vem com o plano de ir para o café ?. continuou o negoI ciante. / vá para o matto. nós lhe fornecemos tudo de que precisar. quando puder. — u m "CõTõfTo~n'aqüeíícTTmmigrante tão bem vestido 'úv / para um simples cultivador. (rtdMi^VJlMMéAji decisivo o viajante.. As eleições não tardam. dar y// festas. nós nos pagamos em gêneros.. somos os que sustentamos os partidos do Estado. o que é uma vantagem para o colono. com o cambio. e. tudo isto nosvae empobrecendo : o que se ganha é uma miséria para esses extraordinários.. ora. Não ha nada como a lavoura. a nossa casa está ás suas ordens. e com / as contribuições da política?. acerescentou baixando ligeiramente o olhar. / :— Mas eu não vim com destino ao commercio. ^ apezar de extrangeiros. arranje a sua colônia e d'aqui a pouco tempo está rico.áO CHANAAN em minha casa tenho gente demais. / — Ah ! isto é outra coisa..àgora amável. ou talvez por isso mesmo. por ahi já devem vir os chefes da Yictoria.. O juiz commissario mandou pregar o . E Roberto não oceultou a j n surpresa de ver l ' . Que vale hoje o commercio com os impostos. Chegou em boa hora para arranjar um excellente prazo nas novas terras do rio Doce.. Olhe. que se vão abrir aos immigrantes.. vá nos mandando café.

Aqui fica melhor . Na rua passava uma tropa de burros carregados de canastras de café e repicando campainhas. . o sr. Não sei o que será.. elle. sorrindo malicioso. Milkau agradeceu os offerecimentos do negociante e j/JÈ dispuntura partir em busca de uma ti*»*** estalagem. Imar'—gmeTlôTho do general barão von Lentz. como é de uso. Ambos atravessaram para o outro lado do balcão. Felicíssimo. é freguez da casa e é do partido. porém. jeaara outro reclamou.. de rosto de pergaminho franzido. fazendo companhia a um moço chegado ante\ hontem ei também de família importante.. de viagem para as terras.. É um rapaz alegre. chegava montada em sua mula e entre dois alforges suspensos dos ganchos da cangalha. que sempre nos apparece por cá. o senhor me pôde ser util^tefi. dirigindo-se á escada do sobrado. anda triste e sorumbatico... está no Porto do Cachoeira.. O rapaz... Os olhos de Milkau deslumbraram-se á luz da manhã alegre e viva.. E. êrgueu-se. o agrimensor. — Não vale a pena ir para o hotel. Talvez vergonha de ter immigrado. Depois. pedindo a Milkau que o acompanhasse. o senhor sabe. Este quasi ia arrebatado no meio de agrados e cortezias devidas a um futuro freguez. Ah! esses rapazes. A porta da loja uma velha de nariz adunco. temo» muitos commodos para hospedes.CHANAAN 21 edital para as medições e arrendamentos...

como um evadido do seu próprio e grande mundo. um ser privilegiado na sua pátria. disse Milkau delicadamente. um moço. roliça como a de um patrício romano. ergueu-se para saudal-os. que estava a escrever./projectan»e-6jl de uma cabeça ampla.. Milkau admirava a mobilidade da physionomia do joven von Lentz e não se cançava de observar o fulgor de seus olhos fulvos. dominando o rosto sem barba cujas linhas eram accentuadas e fortes. — Pôde continuar o seu trabalho.£iA)ClvdlhA' •21 >h) c/ í.VNAAN Xo quarto em que entraram Roberto e Milkau.a conversar sobre coisas vagas.*ul\t f> CII. o tempo. — Não.. annunciou o dono da casa/Este patrício. que se deseja estabelecer no rio Doce Yoltando-se para Milkau. a natureza. Milkau sentia-se constrangido por ter encontrado n'aquellas paragens extranhas e remotas um filho de general allemão. E os dois se puzeram. E emquanto se entretinham. devendo chegar á noite. Mas de par com este súbito enthusiasmo pela expressão esculptural d'aquella joven figura. que viera sepultar gi / * . sobre a viagem. — Trago-lhe um companheiro. o que eu estava a fazer não é urgente. repetiu-lhe que estivesse como em sua casa e perguntou-lhe pela bagagem. Apenas matava o tempo. O outro explicou-lhe que vinha tudo pela canoa. Roberto deixou os novos immigrantes.

D'ahi a momentos os dois novos se achavam na grande sala de almoço dos empregados do ar. as paredes. velhos de pelle enrugada.. e re. pensava que talvez somente se pudesse explicar a incogflita d'essa alma pelas imagens e expressões incertas da vaga e symbolica metaphysica.CHANAAN \ 23 sem duvida no mysterio das colônias uma parcella de angustia.. flectindo sobre a alma allemã.i s . moços de perpetua adolescência J^ffi via-/estampado o pensamento único de cumprir o dever pratico. de elevação moral. quem sabe si não foram um dia dois espíritos que se encontraram dispa- . o recanto suave do gênio livre ? perguntava a si mesmo Milkau no sussurro regular do almoço. alguns. continuava quasi em sonho.-»A sala / era desguarnecida. não tinham o menor enfeite. automáticos como soldados.f das. outros. / *. Onde estava a Allemanha sagrada. á monotonia de um precipitado único. Quem sabe. ao regimento de caixeiros que comiam silenciosos. de desespero e de desillusão. a pátria do individualismo. de caminhar para a frente no conjuncto harmo^ nico de um só corpo. contemplando o esquadrão de homens lopos./ mazem e tomavamiá mesa ds^eus togares. simplesmente caia. Em todas as physionomias d'aquelles homens tão differentes. os creados serviam. Milkau lia n'aqueile ajuntamento de allemães o caracter camponez e militar que fundou a obediência e a tenacidade na sua raça e reduziu tudo o que ella podia ter de belleza.

vagarosamente.Mas houve um momento em que o demônio da terra venceu o espirito de belleza e de liberdade. nas regiões plácidas do ideal. qual uma massa de escravos. a devorar os últimos restos do gênio do passado. baixo e moreno. uma chata cabeça de bacuráo. cúpido. zombando de tudo. sem conjuncções torpes.. indicava um moço magro. gerando puramente. como hospedes despreoccupados. — O sr. ambicioso.. Findo o almoço. sem ancias.. — Está aqui exactamente o sr. que ^^segue depois de amanhã para o rio Doce. sem lucfas. divino alimento d'onde brota essa luz que ainda o illumina na sua lugubre c devastadora marcha sobre a terra. e o corpo ahi está hoje socegado. um servil á matéria. de homens e deuses. a fim de fazer as medições. acaba de . . Felicíssimo. procurando absorver o outro que voava docemente. E quem sabe como foi longo e pertinaz o combate entre as duas forças !. No quarto resolveram visitar a cidade. os caixeiros sahiram em ordem. Roberto os chamou. Milkau e Lentz iam por ultimo. e pairava sempre no alto. em que os olhos negros scintillavam vivos e seccos. continuou Roberto. Milkau.. Dizendo isto. CHANAAN ratados em um mesmo corpo. as figuras da poesia e do sonho. cpm o rosto talhado em triângulo cheio de marcas de bexigas.:2i '\. e quando d'ahi a momentos passavam pelo armazém em direcção á rua.

.. e o juiz commissario. depois de amanhã bem cedinho nos pomos em marcha. Ainda não sei afinal o que farei na colônia... Os senhores quando vão? Lentz ficou embaraçado. Dependo/èeqy^l muito do sr.CHANAAN 25 chegar com o propósito de arrematar um lote de terras. no commercio. despachaj mas / . Roberto. — É só para combinar tudo e quando chegar 'á não haver demora. e quando fôr lá pelas onze. — Como não ? acudiu o agrimensor solicito e com um gesto de quem quer abraçar. Felicíssimo é k que pôde dizer quanto isto é difficil. e meio confuso respondeu : — Para o campo ?.... von Lentz prefere uma collocação na cidade.. a occasião é má. Esperemos.. que está ígora para os lados do Guandu. Eu expliquei-lhe que n'este momento o que ha de melhor é o rio Doce.. as casas estão cheias. no rio Doce.. o senhor requer um prazo. esperemos. em murmúrio. Mas o sr.. O negocio é fácil.. Sigo amanhã a me encontrar com a turma que está em Santa Thereza. como si invocasse o testemunho dos mais : — O sr. acampamos no porto do Ingá.. O negociante cocou a cabeça e disse solemne. e que o senhor me "faria o favor de arranjar-lhe um prazo bem situado... Felicíssimo perguntou a Milkau o dia da partida.

26

CMANAAN

não precisamos d'elle para fazer a medição. Na
sua ausência estou auctorisado a tudo, até mesmo
a entregar os lotes aos colonos que os vão trabalhando... Entre nós as coisas não são feitas com
luxo... Não temos formalidades...Tudo se arranja
e legalisa depois. O que é preciso é pagar logo as
custas...
Milkau o interrompeu para se informar das distancias.
— D'aqui a Santa Thereza quantas léguas ?
— Cinco. E de lá ao rio Doce outras tantas. O
senhor deve ir d'aqui até o alto de Santa Thereza, ahi dormir e no dia seguinte tocar para o rio
Doce.
—_J$ preciso um guia ?
— Não... Estrada sem errada, e batida...
Roberto se offereceu para mandar acompanhar
o immigrante por tropeiros que iam diariamente
para essas bandas. Milkau agradeceu, dispensando o obséquio.
Deixando Roberto, sahiram os três do armazém.
Felicíssimo, que dizia não ter nada a fazer
n"aquellas horas, propoz acompanhar os extrangeiros, dando assim expansão aos instinctos da
sua nativa e tranquilla vadiagem.
Agora, o Porto do Cachoeira abrasado de sol
desvendava-se todo. A cidade era dividida em
duas partes, que uma ponte ligava, mas podia
dizer-se que só á margem esquerda era crescente,

CHANAAN

27
tava

porque do outro lado as habitações se conttm JIL
salteadas e raras. As casas d'aquella banda flí enfileiravam/monotonas em frente ao rio, e nem um
jardim quebrava a austeridade das moradas, nem
um quintal margeava os caminhos, nem uma
arvore sombreava as ruas. Pela primeira vez, porventura, nos tropicoaros habitantes de uma pequena ^ /
cidade, como essa, não conheciam os prazeres do
convívio dos animaes domésticos, nem tinham a
expansiva preoccupação da cultura das plantas e
das flores. Uma esterilidade rigorosa e systematica estampava-se no perfil das casas, que eram
apenas o abrigo de uma população de negociantes. Na rua, Milkau ia adivinhando a explicação
moral d'aquella localidade, e uma impressão de
angustia emanada da branca aridez da cidade o
turbava, pois parecia-lhe que o bafo dos traficantes tinha matado a poesia, a graça d'aquelle
canto excepcional da natureza, onde elles nfájííam
levantado as tendas da especulação. Felicíssimo
ia pressuroso, contando os milagres da fortuna
commercial d'aquella gente. — Este sobrado aqui,
dizia elle, apontando para uma casa esguia e egual
ás outras da rua, é de Frederico Bacher, chefe do
partido da opposição; é o rival e o inimigo de Roberto. Chegou aqui sem nada; hoje, veja como
está rico! E aqui são todos assim, todos têm muito
dinheiro. Póde-se dizer que o commercio do Cachoeira é mais forte do que o da Victoria... Ainda
não se deu um caso de quebra... Estes allemães

áS

Cl I AN A AN

/

têm olho... Si fossem brasileiros, esta^ a tudo arrebentado.
/
E o agrimensor continuava nesse tom, a fazer
o elogio das virtudes/germânicas para o^negocioi,
* sim», economia, »«# facilidade de assimilação, mtm
L/energia no trabalho, d^rtdo, como contraste a ellas,
o* I as qualidades inferiores dos brasileiros, quejjwíse ^
comprazia em proclamar, no gáudio de se mostrar,
aos companheiros de passeio, justo.e superior, e ao
mesmo tempo com propósito lisonjeiro. Para se
dar ar de importância e intimidade com os mora\i-r
dores, elle", de instante a instante, deixava Milkau e
\J'
Lentz na i^ua e penetrava pelos armazéns a dentro,
para trocar uma palavra com o dono da casa. Algumas vezes, conseguia arrastar do fundo das lojas
até á porta os negociantes, com quem á vista dos
novos tomava liberdades, dando-lhes palmadinhas
nas costas, beliscões na barriga e dizendo-lhes injurias por gracejo, ao que os allemães complacentes
sorriam muito rubicundos, murmurando em tom
de desculpa aos outros:— Esse sr. Felicíssimo...
Isto é um diabo...
Os três iam seguindo.assim, despertando pelos
gestos e pelas vozes altas do agrimensor a attenção
da rua, mirados pelos tropeiros que descarregavam
os animaes e pelos freguezes que procuravam as
lojas. Lentz não tinha o menor interesse em correr
de casa em casa, á maneira fastidiosa e vulgar de
Felicíssimo; e então, para se ver livre d'essa $y(']/- li,*
rjfalA. J tMwf enfadonha defa&d passos de porta em porta, '" ,

CM ANA AN

29

propoz que subissem a um dos morros que cercavam e abafavam ao mesmo tempo a cidade, e
de lá desfructassem a vista da região. Os outros,
concordaram e assim foram, guiados por Felicíssimo. Para galgar a montanha mais accessivel, //Ága/éT
tiveram de yfi.4idx além da ponte, por sobre a cachoeira cujos cavos borbotões os ensurdeciam; e os ,y./i / /
passos dos homens iabce—aTponte~dè madeira,
ff
em cima das águas que se Quebravam em baixo, MJo^f
míflam vibrações sonoras,ipoderasas/como si sobre , ^ ;
ellaCasasse o pesado tropel da cavallaria. Do otitro i» ^ ^ c
lado estava a montanha que se puzeram a subir por
uma vereda pedregosa e de cascalho solto, dando
á marcha um movimento irregular e fatigante.
Felicíssimo ia mais lépido na frente, emquanto
y
os outros, não acostumados ao calor/caminhavam
J>
difficilmente, alagados em suor. A proporção
que subiam, morriam as vozes da cachoeira, vinham ao seu encontro o hálito perfumado das plantas montanhezas e o ar leve para acalmar-lhes os
ardores. A principio, dentro do circuito dos morros,
a perspectiva era estreita. Em cima, porém, elles
dominavam a vasta região accidentada, e os olhos
dos extrangeiros tiveram um delicioso instante de
êxtase. O contorno arredondado das montanhas
cobertas de uma relva basta, rente, fulgurante,
nas suas cores matizadas, o rio por entre os valles,
o ar limpido e secco mantendo estável a atmosphera,
a força da claridade desdobrando pelas colunas
o panorama, a abobada celeste de um immenso azu

pt &7 6£.*t«*-»« Cj-fZ

30

CI1ANAAN

cobrindo docemente a terra, todo esse conjuncto
de luz, de côr, de traços dava á paizagem um aspecto total de grandeza e confiança.
Felicissimo era o interprete da região. Como
perfeito sabedor, dava o nome ás coisas e designava os logares. Milkau estava sereno no alto
da montanha. Descobrira a cabeça de um louro
de nympha, e sobre ella, e na barba revolta,
a 1 luz do sol batia, n'uma fulguração de resplendor. Era um varão forte, com uma pelle rosca
y.
/%'ve branda de mulher, e cujos poderosos olhos,
fát**<y? da côr do infinito, absorviam, recolhiam doce£y; v ~a # mente a visão segura do que ia passando. A mo- .
"*r KJ „ cidade ainda persTstuférn não/abandonalflff"íruis' *-*
^y^
na harmonia das linhas tranquillas do seu rosto
tZy&r.
já repousava a calma da madureza que ia chegando.
Felicissimo apontava em torno e ia designando
os pontos do horizonte; os outros lhe acompanha///aí_S £Uyam o s gestos rápidos e, como <ffl$fyhté', não po2^
diam fixar os nomes bárbaros e extranhos que lhes
feriam os ouvidos, mas se interessavam em guardar e accentuar as impressões que lhes vinham da
região. Para o oriente era a terra do Queimado,
cujo caminho se desenrola longo e sinuoso, ora
n'uma planice descampada e risonha, ora por entre
O^ £ rTvêfde de um mattó rara, até'um pequeno grupo
de casas que formam o porto do Mangarahy á
beira do Santa Maria, alli orgulhoso e folgado, com
águas desembaraçadas dos cachoeiras. Para

CHANAAN

31

o norte, para o sul, para o poente, as montanhas
vão crescendo, amontoando-se como massas de pintura. Alli o Guandu, acolá S ta Thereza, duas regiões sombrias, que os colonos vão arrancando do
silencio mysterioso da solidão. Sobre um valle cheio
de sol um fio d'agua cáe longo e transparente como
um grande véo de noiva. Para o poente, o Santa
Maria margea os cafesaes, as casas de lavoura/e
lucta com as lages negras que porfiam em re- /
tel-o.
^
Milkau n'esse panorama aberto lia a historia
simples d'aquella obscura terra. Porto do Cachoeira
era o limite de dois mundos que se tocavam. Um
traduzia, na paizagem triste e esbatida do nascente,
o passado, onde a marca do cançaço se"gravava ,.,i
-ina/-yffiffi' m i n g u í d ^ l Ahi se viam destroçosjffir'-e*a/
de fazendas, casas'abandonadas, senzalas em ruifl «c"
nas, capellas, tudo com o perfume e a sagração^,*/ &&
da morte. A cachoeira é um marco. E para o Am*€>»"•'
outro lado d'ella o conjuncto do panorama se rasgava mais forte, mais tenebroso. Era uma terra
nova, prompta a abrigar a avalanche que vinha.das
regiões frias do outro hemispherio e lhe descia aos
seios quentes e fartos; e alli havia de germinar
o futuro povo que cobriria um dia todo o solo,
e a cachoeira não dividiria mais dois mundos,
duas historias, duas raças que se combatem, uma
com a sua pérfida lascívia, outra com a jetrà temerosa energia, até se confundirem n'um mesmo
grande e fecundante amor...

:\2

CIIANAAN

Elles desceram da m o n t a n h a ; e entravam pela
cidade, quando os armazéns se fechavam para se
reabrirem depois da hora do jantar. N'esse m o mento, via-se pelas ruas um movimento maior
de «jente que deixava as lojas e se recolhia ás
casas.
— Aqui, perguntou Lentz ao agrimensor, quasi
todos são allemães ?
— Sim, poucos brasileiros. N o commercio,
póde-se dizer, não ha nenhum.
— Então, em que se occupam os brasileiros do
Cachoeira? indagou Milkau.
— Os que temos aqui são os do foro, os juizes,
escrivães, meirinhos. Outros são t a m b é m empregados públicos, collector, agente de correio
J
— E professores ? perguntou Lentz.
— Só um, porque a língua que se ensina por
essas mattas é o allemão, e os professores são
allemães, com excepção do da cidade... Padres também não temos, nem egreja, como devem ter
reparado. T a m b é m não ha necessidade, porque
raros são aqui os catholicos, e para os .protestantes ha três pastores nas capellas do L u x e m b u r g o ,
Jequitibá e Altona... Os catholicos do município
são o povo do Queimado do Mangarahy e outros
pontos, onde está hoje a gente antiga da terra.
Felicissimo continuava a dar noticias do logar;
os outros ouviam-no em silencio, e a conversa se
foi assim espreguiçando até chegarem á porta
da casa de Roberto. 0 agrimensor se despediu,

na outra margem do. o repouso e a fixidez das pinturas. este torpor instantâneo. //§_ incapazes de sahir á rua e de se ji metter ás priJ/\~ meiras horas da noite na fabrica de cerveja./ 41 este conjuncto ff^pfH-. por motivos d'elle não per^^°u°^ cebidos. to. a nostalgia de illusões que alli se realisavam agora.. é segu"4-0|j ramente a primeira vez que conheço. \j — Parece que já vi este quadro em algum 4| logar.CHANAAN 33 promettendo voltar no dia seguinte para os acompanhar em novas excursões.. N'essa hora ^^Mnf^M^^t excedisCa si mesma. A . . e/// o\ que se percebe vae passaF d'aqui a pouco. /. como era o costume alli. que /d fif⣠j^/ff^Sl como y p * * * 1 ! o almoço. disse Milkau. Mas não. os dois novos subiram ao quarto. »^V! — E por quanto tempo aqui ficaremos ? disse o \yI ar Vil . e sombras leves vinham envolvendo o mundo. /-?Sentaram-se os dois junto á janella aberta. já tanto o seduzia e tf prendia. que. . Os dois immigrantes contemplavam em silencio. scismando. rio./ "/ mando / expressão serena da arte. este ar. Milkau estava fatigado da viagem e do passeio do dia. Os primeiros IQ &L£^ perfumes dos mattos da redondeza desciam para' sy*JL>o es embalsamar o panorama. Lentz sentia-se esbraseado e abalado pela jy. e uma saudade extranha. emoção ^ffd\ do encontro com o seu recem-che. segredando-lhes. calma da tarde immobilisava Ííl4fjttâ.fpr^â1' gado patrício. . dando-lhes!' /// \j£ a tranquillidade.. Depois do jantar. explicava o mysterio dos quadros sonhados e nunca vistos..

. e a industria no velho continente. 0 senhor persiste em se dedicar aos negócios ? — Xão sei bem o que faça... respondeu Milkau..34 Cl I AN A AN outro n'um bocejo de desalento//o^folharyáj/fyVi preguiçosamente sobre a paizagem. seus estímulos baixos. — Mas nada o agita ? Nada o impellirá para fora d'aqui. e agora espero que este seja o quadro definitivo da minha existência.. Estou indeciso â irresoluto. sua posição intermediária na sociedade. Eu me conservarei na humildade.. e o commercio é torturado pela avidez e éambição. Penso que si o commercio pôde ser um * / . 0 commercio não me attráe.. com suas fôrmas grosseiras. penso que o trabalho digno do homem é a lavoura nos paizes novos e férteis como este... Além disso. — Aqui fico. — E então por isso que vae para o matto? Não seria melhor ficar aqui no commercio ? — Não.. Não me sinto solicitado sinãó por coisas mais simples e approximadas da situação do futuro. — Não meço o tempo. fora d'esta paz dolorosa.. que é uma sepultura para nós?. e tenho a alma do repouso. em torno de mim desejarei uma harmonia infinita. Procuro uma vida estável e livre. é a paz que procuro exactamente. Sou um immigrado. E si aqui está a paz. porque não sei até quando viverei.. este será'o meu ultimo movimento na terra.

e... que me não queixarei de ficar só. mas em outros pontos as luzes da rua e das casas cahiam sobre as águas do rio. E si se arrepender./ . e ^ i n q u i e t a ç ã o . poderá partir. Qti A cidade estava illuminada frouxamente. dando á physionomia uma expressão de rancor t. f$<f>p. com espaços longos de sombra. n'um *^ f esforço de ave ferida para pairar nas regiões do seu sonho. \k {Mfffftl Ferdia-se na noite o seu / ° ^ \ olhar. disse ao uya joven „*> companheiro: ' / — Porque não iremos trabalhar no rio Doce ? 0 senhor talvez se achafW ahi mais feliz e mais j^Á-/ independente. <\ mulo... ..CHANAAN 35 meio de fortuna e de dar vasão ás ancias de jo.*. se prolongava a \ fll w? queixa contra o destino e elle se debatia em vão >' /*£f uy dentro dos muros fechados da sua sorte.. pois esse é ainda até agora o meu destino. ityfatffflffl e/não fosse o J o . // monólogo intimo e doloroso.\ gador que ha em cada homem. as linhas estavam perturbadas. o seu rosto / não tinha serenidade. Milkau apiedou-se d'aquelle silencio afflictivo e.-fc. deixando-se levar pelos bons impulsos da sua confiança abundante. eu talvez me abalançasse a ir trabalhar na lavoura. como em uma grande scisma . Lentz. jyf. medo do tédio da matta e da morte fla agitação.. é também umW ' caminho baixo e vil. Parecia que ^ét^f^aiSMír^^a. que as multiplicavam em seu espelho tre. Podemo/re<juerer \frA mesmo prazo. faremos uma sociedade .come não temos família./ff enoVauxiliaremos mutuamente.

. Pelos lábios de Lentz passou um sorriso tão suave como franjas de um lago manso em que rapidamente se transformaram as fúrias de mar revolto. Em Lentz o que/predispunha a acceitar a ' companhia de Milkau era a indecisão em que estava de se abandonar á vida rude e mesquinha de caixeiro. tem-lhe agradado a terra? esta verdura de primavera ? o esplendor do sol ? a vegetação possante ? . Eu lhe agradeço muito.. murmurou n'uma. — Sim.. Esperava que elle reflectisse mais. Pasfo sou a conversar negligentemente sobre outras in *f*^-— Então. antes de se determinar a acom/0 panhal-o.36 / CII AN A AN //> Estas palavra^jgjjgg? brandas e boas. na perspectiva de ter um fl/j/í /^cortjpanheiro/precisas^/de amparo e conforto no " exiíiò.tão intelligente. porque sentia os seus instinetos de communicação espraiar-se no convívio d'aquelle rapaz. que lhe parecia . Porque não?. E também se alegrava por si mesmo... era também a seducção intellectual por esse companheiro de acaso.. que era pouco antes a sua alma.emoção. Milkau não quiz insistir e delicadamente desviou o avssumpto. veremos. Milkau regozijou-se./7oram ditas com muita pureza de coração. e cujos desígnios revelavam pelo menos uma alma em aspiração. que por or-gulho procurava domar. Todavia não // a^eAttfQuiz de um modo Jtfyfefárf e imprevisto decid r a sorte do outro immigrante pela sua.

que. sem passado. Fora d'ella não sei si o Rheno vale o Santa Maria. estive de passagem em Minas Geraes.. logo que cheguei ao paiz. tudo isto é forte e bello. Eu já venho de longe e cada vez a admiro mais. E foi uma grande viagem para mim. — Breve se acostumará..' mas não édérâ. Antes. Lentz parecia querer arrancar de si a obsessão da luz omnipotente. Aqui não ha descanço para uma suave matização da côr. — Em que logar de. sua água límpida e borbulhante. — A h ! não é esta a primeira vez que vem ao interior do Brasil ? —r Por este lado é a primeira vez..campos europeus com suas mutações.. que nos priva da liberdade de julgamento.. João d'el-Rei é uma impressão única. S. E com um gesto de mão sobre a cabeça. 3 . atalhou Milkau. ^cAt^ .....Minas esteve? — No Oeste.M/ando facilidade. dirigi-me para cá. o seu colorido mais distincto.CHANAAN 37 — Sim.. mas eu prefiro os . reflecte em mim por seus •próprios merecimentos tanto encanto. Sempre este amarello a nos perseguir. com suas margens incultas. sem lendas. levando o plano de me estabelecer alli. ^ $ f — A Europa tem a tradição. e ha de amar esta natureza até á paixão. seus chorões curvos.. —'• Oh ! este sol implacável!. o seu quadro de montanhas..

. a musica dos sinos me era desconhecida na força e na sonoridade que tinha naquella manhã.. e o seu rumor egual e constante passava imperceptível aos ouvidos de Lentz. No Cachoeiro era silencio/a luzdas casais 'Tiy. Como a todo o homem habituado ás grandes cidades modernas.. os lampeões da rua espaçadamente ponteavam de luz as sombras da noite diaphana. todo á escuta da narração de Milkau. — Alli me pareceu ter eu penetrado no passado intacto do Brasil.. essa musica extranha não me feria. Lentz embebeu-se nas palavras de Milkau. E sonhava . do meu ser.38 CHANAAN >J — Como ? interrogou curioso Lentz. .apafffrr-f. Deixei-me ficar deitado. O espaço estava cheio de sons. o que me produziu um doce encantamento. mas.. e eu a recolhia *. que começou a contar-lhe a sua visita á velha cidade mineira.. I quasi em êxtase como si fosse uma antiga e revivida sensação.. noemtanto. A cachoeira mugia sempre. pois parecia que era entendida por uma alma longínqua que se despertava dentro de mim e tomava posse. da noite de verão que é apenas um instantâneo descanço do dia. Oh ! Foi uma volta deliciosa aos tempos mortos hoje por toda a parte e que ainda lá prolongam a sua vida. embalado pelas caricías do somno. — Logo á primeira madrugada o meu somno de viajante fatigado foi cortado pelo repicar de sinos de muitas egrejas.

CHANAAN 39 o ar leve da montanha fluctuava como si todo _ elle estivesse impregnado de musica. voava para os céos cantando. castellos feudaes. o somno e o esquecimento. A^»^*y Milkau continuava a falar da velha cidade mineira./ _ / erguidas mais pela necessidade da devoção que pelos carinhos da arte./ sas preoccupando o povo e divertindo-o durante / o anno inteiro. i que marcavfi no espaço a vida e a morte. Tudo alli tinha um aspecto sacer. O espirito da religião alli localisado dava-lhe o caracter e a significação.. se deparava de instante em instante com uma egreja. irregular e feio. egrejas freqüentadas quasi todas as horas do dia.. E eu sonhava.. que elle definia como um santuário. tudo falava de religião. a natureza «/***" despertada pela alegria dos sinos se volatilisava e líbrava^è leve no ar.. faAa^ por pequenas cruzes negras nas paredes A desbotadas. Dentro do seu recinto montanhoso. todos ligados pelas vozes do campanário. As casas acompanhavam esse tom severo e desprentencioso e eram mar-f . um padre sahia á rua acompanhado da multidão cantando rezas. devotas procurando a solidão dos altares.. Uma cruz negra envolta nas do/ « .. . mosteiros. N'esse tempo. Na quaresma a irrupção religiosa era ainda mais crescente.\ dotal. a cidade fugia da terra ff-&carregada nas harmonias. procurando a calma. as festas religio. tristes. ás noites. ouvindo repicar.. todas ÇUAS/ singelas. homens e coisas*. A edade média se representava no meu sonho : povoados..

o povo seguia rezando pela rua em um murmúrio $/è. implorava n u m sorriso : misericórdia! Cercada de morros a cidade era guardada ainda por egrejas postadas nas alturas. oratórios abertos sobre as ruas. acariciada pela brisa fresca das alturas. na mais completa e bella confusão de classes. ás vezes. fervoroso grito. como de atalaia. A multidão.. ajoelhada debaixo-do céo límpido. meia dúzia de tochas accesas.. fazendo coro ás orações começadas pelo padre. sobre os quaes iam descrevendo longas e marciaes theorias. (MilkaÍT recordava) costumava desfilar um cortejo de seminaristas em férias e.40 //JofZZ y*ÁrV </al /•> l"^ /a4 ' /// CHANAAN bras alvas do sudario. e quando chegava aos passos. os dois grupos não se approximavam/^desviavaniyreverentes. n'um relâmpago se descobriam.fâjfyftdo ^f?00W> peito um grande.. subindo e descendo pelos morros. cantava musicas suaves e ingênuas. E si á hora dsfavemariaíum devoto retardatario passando por aquellas montanhas saudava os seminaristas em nome de Christo. Pelas encostas das montanhas subiam os devotos em romarias piedosas aos santos padroeiros das capellinhas humildes. Nas tardes deverão. e era tudo. illuminada pelos raios da" lua.. . E lá ia a via sacra percorrendo os passos da cidade. os rapazes erguiam a cabeça com altivez para o céo. até se sumirem no horizonte. esse cordão negro succedia cruzar com o bando infantil e branco das collegiaes dirigidas por irmãs de caridade. N'uma devoção alegre e radiante.

t por ellas passaram martyres. Ha casas .. de ouro e de sangue. reconstruindo no espectaculo d'aquella paragem morta todo o quadro de uma epocha feita de escravidão. sulcos abertos e profundos indicavam a passagem ' jL do homem terrível que por alli desentranhou o ouro. e povoadas dos restos de outr'ora. não deixará de sentir um frêmito de terror. porque não muito longe esse conjuncto de poesia.CHANAAN U que a solidão da tarde'no deserto tornava solemnc : Para sempre seja louvado ! A cidade ainda falava a outras tradições do a£Lvelho Brasil./-£y tjj&s) cicatrizegfdli^erra ferida que assim maltratada e ' hedionda clama ás gerações de hoje contra a devastação do passado. limpo de coração.. nellas viveram sonhadores. Sobre o fjxí terreno accidentado. e os habitantes do logar ainda sabem ler nas paredes d'essas casas conservadas. de tradição nacional.. f/'v /JA. vae aca- .. a poesia da liberdade e da grandeza de todo o paiz. Rematou Milkau esse quadro com algumas reflexões.. purificando-a momentaneamente dos vícios em que se vão dissolvendo as outras. Â""^^agem_gstá toda /Usignalada éúad. O homem moderno. — Dou-me por muito feliz em ter ido a tempo de vêr tudo isto.alli que deviam ser zeladas como relíquias das melhores paginas da historia de uma nação. E essa mistura de fé religiosa e patriótica dá um caracter distincto áquella antiga cidade.

Porto do Cachoeira tem mais significação moral hoje pela força de vida.. Falando-lhe com a maior franqueza. Nós penetramos na arga-massa / da nação e aVamos amollecendo. nos espalharemos sobre ella. disse Milkau. que a&ijrffáfyá lentamente até um dia vencel-a e transformal-a sem piedade. de energia que em si contem do que os logares mortos de um paiz que se vae extinguir. tenaz. Nós renovaremos a nação. A velha cidade mineira da sua narração não me interessa. É preciso que a substituição seja tão pura e tão luminosa que sobre ella não caia a amargura e a maldição das destruições. E por ora nós somos apenas um dissolvente i_ / da raça d. os meus olhos se projectam para o futuro.12 CHANAAN xJAJfaAA^f/J bar. mas terrível em seus projectos de ambição. a cobriremos com os nossos corpos brancos e a engrandeceremos para a eternidade.. pacifica em seus meios. está escripta a nossa grande responsabilidade. E uma nova conquista. lenta. a civilisação d'esta-terra está na immigração i <j de europeus/mas é preciso que cada um de nós traga a vontade de governar e dirigir. E provável que o nosso destino seja transformar de baixo acima este paiz. Na verdade. —I Mas isto é a lei da vida e o destino fatal d'esse paiz. nós nos mistu- 7 ^ísXl^f-/ . a religião e as tradições de um povo.estdj£eáz. — Nas suas palavras mesmas.. é com dòd que sinto estar prestes o desmoronamento d'ax[uella cidade circumdada ^iá*w4zL de colônias extrangeiras. de substituir por outra civilisação toda a cultura.

os longínquos e fundos desejos da personalidade emmudeceram. as línguas estão baralhadas. Toda a lei da creação é crear á própria semelhança.. Tudo se desagrega. / ses differentes.... E a tradição se rompeu. os velhos sonhos da raça. O remodelamento vae sendo demorado. vindos de toda a parte trazem na alma a sombra de deu.. a lingua vae morrer.. o pae não transmittirá mais ao filho a sua imagem. quando elle sente que não se desdobrará mais até ao infinito. os homens e as mulheres não se amam com as mesmas palavras. Ninguém mais se entende .. uma civilisação cáe e se transforma no desconhecido. matamos as suas tradições e espalhamos a confusão.. indivíduos. os pensamentos não se communicam.. Ha uma tragédia na alma do brasileiro...->... o futuro não entenderá o passado..... ..CHANAAN 43 ramos a este povo. todos são extranhos.

onde. — Quem me dera. sentiram pelos olhos o véo de uma ligeira vertigem. e então admiraram. n'uma paizagem accidentada e limpa.. Milkau e Lentz. murmurava então Milkau. E os dois caminhavam afastando-se do Porto do Cachoeira na direcção de Santa Thereza. disse Lentz. passeavam errantes as sombras das nuvens .k II — Não vejo nada claro. que o sol se não apagasse. d'ahi a momento^ fflkL morria na bocca da matta. na câmara rubra das pupillas. E. . A pátria do homem devia limitar-se a um canto da terra onde não houvesse sombra. sentia dentro das palpebras. fechando os olhos feridos pela luz grandiosa do dia. <$> penetrarem na escuridão repentina e fria. A principio a estrada cortava por cima de pequenos morros descobertos. Pouco a pouco elles se recompuzeram. fuzilar relâmpagos de sol..

Ha seiva Vlfrff P a r a tudo. umas erectas. enorme. l1tny\ traçando um raio de sombra para acampar um iJí. f^uesquadrão. y . Uma infinita variedade de arbustos cresce ás plantas dos gigantes verdes. \ chão a farta e sombria §oma. aquellas tão leves e esguias erguendo-se para espiar o céo. interrompendo a symetria. e mettendo «•«J^4"^. que lhe sáe do regaço e mais esplendorosa. dentro do bojo de outra mais ampla e opulenta. ] . Toda aquella vasta flora traduz a . compondo um conjuncto brutal. que a rija e bella progenitora. Não se sente n'ella sombra de um sacrifício que seria o triumpho e o prêmio da morte.a cabeça por cima do immenso chão verde e tre^ } " i ' mulo.^ a rnesmo arvores que são mães de. Arvores de todos os tamanhos e de todas as feições. estas de tronco pejado que cinco homens unidos não abarcariam. procurando emparelhará^ com as eguaes e desenhar a linha de uma ordem ideal. as -parasitas se enrascam pelos velhos troncos.011 AN A AN • 45 A floresta tropical é o esplendor da força na desordem. ífííé de membros asperrimos. entre ellas se curvam e derream até ao 0/. *y I arvores e supportam com fácil e poderosa galhardia a filha. E tudo se ergue. umasL^. Dentro. *" antigüidade e a vida. e tudo se expande sobre a terra. força para a expansão da maior belleza O * / de cada uma. compacta e atrevida. é uma florasinha miúda. Arvores. com a graça de um adorno e de um Jjh£$l ^ fà$$$. que é a copa de todas as outras. ás vezes. quando outras lhes saem ao encontro. arvores que se alteam.

dos insectos. as portas da matta formam um circulo longínquo azulado. em cada bocca da estrada. enroscando-se pelos braços gigantescos. acalma. está a fonte do jfepejW ^ . se desfyjfrffá um cheiro mysterioso e singular. que é acre e tonteante.. que ora avança. e. das flores selvagens. Feito 0* l á^trxj^^ . como portas feitas só de luz.. dos troncos verdes e dos troncos carunchosos. ****. Pelasfrestas das arvores...niosa d'esse perfume. Na volúpia harmoL.(iíC. e nessa fòtât illuminação se desenrola ' dentro do matto o scenario pomposo das cores. pela transparência das folhas. prendendo-se como por tenazes n'uma grande solidariedade orgânica e viva.° s i l e ncio que mora na floresta é tão . emjl/Ú <4.r £ d a m a t t a ... com '&•*«*-Ka claridade que é branda. JQaesr •me*/ commumca/da negrura do verde ao desmaio do / branco a matização completa. da resina que se derrama vagaJ-O / rosa jíek/longo das-arvores. mas a gradação da sombra.b r i a g a e adormece fa fMfft. das parasitas. dos animaes occultos no segredo da selva. tão sereno que parece eterno. triumphal... y fortes e indomáveis raizes. todo elle se entrelaça. e de uma luz zodiacal e 0é?fâffi\. desce uma claridade //{ do<*<discreta. ora se afasta. De todo o corpo colossal. das folhas novas e das folhas mortas. . E lá. profundo. tal como o aroma das cathedraes. dos pássaros.r&nita.. das orchideas. aZá/que se volatilisa e se diffunde no immenso todo.46 CHANAAN 'entretecido no alto pela <éfêè$&fâf basta e densa Co**** das arvores e embaixo pela rede /&$$$(# das v'' . Elias são em si vivas e quentes.

sahindo do seu espanto. então o jeiro farfalhar d'ellas corta a doce combinação do yfilenfiou.. voltam-se inquietos. Nós nos dissolvemos na ^ /. mirando r/atf/ o alto e Mf^. aquelle que se perde na / <>' adoração é o escravo de uma hypnose : a personar ^Lton-lidade $fó<0$ para se difFundir na alma do Todo.7 / ' CHANAAN *~f~j>~ tZr*»~ 4 7 ^ . — Extraordinário ! disse Lentz.j ^ / ^ vozes baixas. a frente. conti-jf .é mais diaphana e passageira. afinal. a paizagem européa. e m si o tédio das coisas eternas. pelo? nervos de todo o matto perpassa um arrepio.. e os viajantes que caminham. é completo e absoluto na sua perfeita harmonia.. dos murmúrios. /i E. dos movimentos l^tr f*M+ó rythmicos dos vegetaes. Ella tem ^ ^ . A floresta européa 4~/fér.. Si por entre as folhas seccas imontoadas no solo se escapa um réptil. cheios da solidão augusta. çfá$ contemplação. ha no ar uma deslocação fugaz como um relâmpago. é sombria e trágica. transforma-se infique ^ f o r * * — Mas/dfâf espectaculo de uma grandejn brasileira 4 TOnmhrnlifti nWTTÉl interrogou Lentz yV .. sentindo no corpo o frioelectrico e instantâneo do pavor. Milkau replicou : — A sensação que aqui recebemos é muito differente da que nos deixa. / -«***<* f^jT"" A floresta no Brasil.tory nuou : <fr — Aqui o espirito é esmagado pela estupenda magestade da natureza. E...

esta abundância. com essa violência. ! t / £/ A terra só por si. esta luz.. é um embaraço immenso. — Mas o que se tem feito é quasi nada. O homem brasileiro nãò é um factor do progresso : é um hybrido.. essa exube'(.. tal espectaculo nos priva WÇy+rla^ da liberdade de ser. 0^M0á^'é ^ -i a tocarm s a ° ° . Vê....CIIAN \ A N ..'/ / rancia. a historia. tu sabes bem como se tem vencido aqui a natureza..K..j: região do assombro. Passado algum tempo. J£ o/&. E1 a civilisação não se fará jamais nas raças inferiores.ki-J . os olhos de ambos a se desmancharem de admiração.. E mudos continuavam a caminhar pela estrada coberta. MILKAU. como o homem vae triumphando. Lentz exprimiu alto o que ia pensando : — Não é possível haver civilisação neste paiz. interrompeu Milkau. \ f4-/$1*- Um dos erros dos interpretes da historia está n" Ctejuizc/ aristrocratico com que concebem a idéa Me raça. mas que são como esses desenhos de nuvens que alli / ( h^c^^tLA. não comprehendemos o mysterio. 'Zr^—^que succede com esta força. fazem-se sobre isto jogos de palavras. Nós passamos por aqui em êxtase. Ninguém. e ainda assim é o esforço do europeu.. e afinal nos constrange. — Ora. até hoje soube definir a raça e ainda menos como se distínguen^ umaSfiüas outras. porém.

apparições phantasticas do nada. é a civilisação deslocando-se sem interrupção.. £ um tempo na historia em que o semita brilhava -tf^s-Jo em Babylonia e no Egypto. no emtanto. n'uma fatal apresentação gradual de grandes trechos da terra. é no encontro das raças adeantadas comas raças virgens../frjírÍÁ0fg outros descem ás tre. E.. E.. indo de grupo a grupo atravez de todas as raças. Até agora não vejo probabilidade da raça negra attingir á civilisação dos brancos... á sua luz e calor. depois. O que eu vejo n'este vasto panorama da historia.CIIANAAN 4D vemos no alto.. qual é a raça privilegiada ^kfijtyf/sò #•*• f~*£ ella fó/d o theatro e o agente da civilisação ? Houve 2 f \ . Jamais a África.//àw ****Vas. MILKAU.. selvagens. para que me volto ancioso e interrogante. inVf+tU LENTZ.. O tempo da África chegará. o milagre do rejuvenescimento da civilisação. o hindu nas margens sagradas do Ganges/ e elles eram a civilisação /< t o d a ! o resto do mundo dfy a nebulosa de que se '/ jjf~não cogitava.. As raças civilisamse pela fusão. O papel dos povos superiores é ds&^ instinetivo impulso de desdobramento da cultura. é junto ao Sena e ao _~ Tâmisa que a cultura se e^goLrlThoje n'uma volu. transfundindo de corpo a corpo. que está o repouso conservador.o produeto d'essa o /-/* . Uns se vão i\\uminando./J /'' pia farta e alquebrada.

que interessa o futuro humano. todos os minutos roto pelo sensualismo. Eu tenho para mim > / ^ que o progresso se fará n ^ m a ^ ^ ^ ã o constante / / e indefinida. é antes de tudo uma questão complexa. como a dos mulatos. Não acredito que da fusão com espécies radiÀ//>r*e*'u*' calmente incapazes /$. O problema social para o progresso de uma yi região/como o Brasil. leva mais longe o capital accumulado nas infinitas gerações. Emquanto não se eliminar a raça que é o producto de tal fusão. LENTZ. outras que apenas .($(£ uma raça sobre que se possa desenvolver a civilisação. pela bestialidade e pelo servilismo innato do negro. r s? ^j^-ir A substituição de uma raça não é remédio ao vfêfZy* mal de qualquer civilisação. Foi assim que a Gallia se tornou França e a Germania. . a civilisação será sempre um mysterioso artificio. passada a treva da gestação. depois definham e morrem. está na substituição de uma raça hybrida.50 CHANAAN fusão que. A immigração não é simplesmente para o futuro da região do paiz um caso de simples esthetica. civilisação de mulatos. etefnos escravos em revoltas e quedas. N'esta grande massa da humanidade ha nações que chegam ao maior adeantamento.yX^ rv MILKAU. Allemanha. Será sempre uma cultura inferior. por europeus.

mas o conjuncto humano. A arte. Como ? Então o contacto dos povos da arte com os selvagens determina um precipitado que excede áquelles na capacidade esthetica ? MILKAU.. é n u m ponto isolado da superfice que se dá a opacidade das trevas.. das nações. <ksdnão <M-J pára em sua marcha. e pela fusão um povo ahi se iVrina recapitulando O a civilisação desde o seu porito inicial e preparando-se para levar o progresso mais longe que os povos geradores. pôde diminuir ou augmentar em alguma das suas expressões. As vezes. LENTZ.CHANAAN 51 esboçam um principio de cultura para desaparecerem immediatamente. das raças. caminha progredindo/sempre. Lentz. mas pelo facto de não florescer certa fôrma de Arte.. então a humanidade teria retrocedido depois do período do grego. e da renas- . formado dos povos. os seus desmaios não são mais que períodos de transformações para epochas fecundas e melhores.. segundo varias solicitações do meio e da epocha. ha uma elaboração subterrânea. E a fatalidade do Universo que se cumpre n'esse todo que é uma parte d'elle. Quando não ha um trabalho á flor das coisas. ' e os seus eclipses. Si a verdade estivesse na conclusío contraria. tenebrosa e forte. luminoso e doce. o* progresso artístico não deixa de ser maior..

porque até agora a historia não conta epochas tão felizes para a Esculptura e para a Pintura. e que/elle próprio i uma floração da força e da bellezá. a força é eterna e não desapparecerá. veid descrevendo uma longa parábola da maior escravidão á maior liberdade. esse ét homem e senhor. LENTZ. da fraternidade. . de toda a liberdade e da própria vida. aquelle que na opulencia de uma poesia mágica cria para si um mundo e o gosa. é a ligação do homem ao homem. MILKAU. O fim de toda a sua vida não é a ligação vulgar e mesquinha entre os . é uma triste negação de toda a arte. Todo o alvo humano é o augmento da solidariedade.CIIANAAN cença. e aquelle que um dia attinge a consciência de sua personalidade. Essa civilisação. cada dia ella subjugará o escravo. que se entrega a uma livre expansão dos seus desejos. diminuídas as causas de separação. no fim será o amor. Quando a humanidade partiu do silencio das florestas para o tumulto das cidades. que é o sonho da democracia. / 3 / Não. No principio era a força. Milkau. LENTZ. O homem deve ser forte e querer viver. Mas toda a questão está na comprehensão do progresso moral. 11 . aquelle que faz tremer o solo.

mas será instável.. Oh! mas essa dôr deita gottas de amargura sobre a victoria.. esta é o verdadeiro apoio. a busca e a realisação da liberdade como fun. A ordem não é / / ^ M S £ £ ~ tíjjt um principio moral.. /u/ / . as inspirações da Arte. Mas para ahi chegar. as nobres.. é apenas um factor preexis. para conduzir como chefe. amor?Viver a vida na egualdade é apodrecer n'um charco. 1/} I"^ / MILKAU. Xão.. Que importar/í a solidariedade e o.. LENTZ. A liberdade é como a própria vida.. que caminho não percorreu o homem!."7 damento da solidariedade são o fim de toda a existência'. nasce e cresce na dôr. não pôde haver sociedade sem ordem. o estimulo.. o que é omnipotente.CHANAAN 53 homens. tfftfljW cujos nervos não se contraem nap agonia/ o que é sereno $j' e não soffre. a harmonia existirá por momentos. /• ^*»'« d" diiifí mmt de uma sociedade. o rebanho. ' o que tem sua integridade completa e fulgurante.<****~ É /> 1 -*" " * tente e indispensável ao conceito social. e sem a liberdade não ha ordem possível . os sonhos e as visões' do poeta. como pastor. como calculo sem números . o que elle busca no mundo é realisar as expressões. mesmo n um regimen de escravos e de senhores. Toda a marcha humana é uma aspiração da liberdade. o verdadeiro homem é o que se libertou de todo o soffrimento. indomáveis energias. o que é soberano.

purificar-nos do seu veneno. nem ricos. mas sempre tristeza e deses pero. o mundo está abalado. todos se lamentam. //?' ^*^*St7 w il sJ 1 IA li I '""^Tzffipfmrfflffl'1 P e n s o 1 u e devemos voltar atraz. ninguém está satisfeito por estes tempos.entristecer— MILKAU. e não se pôde substituir a sua consciência fecunda pelo império de uma insensibilidade feroz. E quando n'uma sociedade o indivíduo soffre. nem escravos. a atmosphera é irrespirável. nem simples têm o seu quinhão de alegria. nem pobres. e nem senhores. da religião e da arte. como queriam. de satisfação. porque o amor é um desdobramento doloroso da personalidade. Elle é a fonte do amor. O que nos une solidariamente na humanidade é o sofTrimento. Ha uma crise em tudo. Eu vejo na exaltação das tuas palavras que ha em nós uma tristeza diversa deante do quadro da vida dos homens.. MILKAU. de soffredores. essa gotta de agonia é bastante para condemnar todo o fundamento da communhão.Omal é universal. No meio de confusas . o próprio solo é vacillante e tremulo. nem cultivados. apagar até aos últimos traços as manchas d'esta civilisação de humildes. de doentes. que nos mata depois de rios. LENTZ..CHANAAN o que não ama.

E o futuro..# **$%. E á Europa.. e á Allemanha nada mais te prende ? . n'este contacto extranho de sentimentos tão vários. póde-se acaso JnMdlar a harmonia soce.. Tudo se confunde. elle . Deixaste pátria. Mas eu não esperei o seu passo vacillante e tardo : despi a minha roupagem pesada. mensa. e lépido então fui buscar o perfume e os alimentos que.CHANAAN 55 aspirações. uma vez perdida. LENTZ... E para ahi chegares?../tr-^~ geiro do gesto consolador. fá mistura e il repelle f'J/ n u m torvelinho de desespero. que o detêm eé perturbam. família. ella é do tempo e. vagaroso e divino.+ homem.. . ytffâtfyjlL-dindo aos homens..H gada e doce da vida ? A religião foi-se. A sombra do passado penetra demasiado na morada do homem moderno e enche-lhe a casa de espectros e visões. Deixei o que era vão. E como dentro em mim ar&flr*^ é doce a salvação! LENTZ. vem avançando a medo ' como um ladrão nocturno. Uma civilisação de guerreiros persiste no meio do surto da alma pacifica do . como o próprio tempo. uma civilisação superior? MILKAU. sociedade. não volta mais.

mas/como a maior parte d'elles. um d'esses universitários muito instruídos. Lentz. é o invisível. e eu não preciso/sentar-me sobre as ruinas para amal-o. Meu pae. Não comprehendo como por um acto de vontade se possa trocar Berlim pelo Cachoeira. reside na dupla consciência da continuidade e da indefinidade do progresso. 0 que a Europa nos mostra. como o corpo e a sombra.^0 Crfíeu culto ao que é humano é activo. indeciso em sua vasta cultura escolar. LENTZ... e as imagens que d'elle conservo no fundo da minha pupilla são de um homem feito de sorrisos suaves e inextinguiveis. De que cidade da Allemanha és tu? MILKAU. tinha uma intelliencia subtil e aérea. era a própria doçura.. como fôrma da vida. Vejo-me ao lado de meu pae. Mas isto é o incorporeo. e de lá guardo as minhas mais longínquas recordações.5(i C MAN A AN MILKAU. Sou de Heidelberg. mas o pudor da audácia ff- . dia e noite ligados. Elle era um professor de collegio. Somente o que'ellas têm de grande no P a s sado.. E' a obra da imaginação e da memória. é apenas um prolongamento desharmonico das forças de hontem e das solicições do presente.

Eu sahia da universidade e entrava no mundo quando meu pae morria. Ella foi mesquinha de dôr. MILKAU. Ai sfuas ex-///<J* * pressões nunca transpiraram o sarigue de todo o seu amor humano.CM ANA AN 57 o entorpecia. e o mundo o ignorou. /-Jr LENTZ. d'essa existência. E então?. e eu amei-a até á sua morte como uma filha tamanhinha e mofina. Elle continha e refreiava a imaginação. Foi o perfume que guardou no « y / ^ i n t e r i o r dd j&üt alma sem transfundil-o além.. / ^ que lhe devia ser o amargor da vida. entre a . Minha mãe com lagrimas molhava noite e dia as saudades plantadas no seu coração.. e por isso todo o seu grande capital de bondade e de amor ficou sepultado no fundo do seu coração. *W Depois de três annos.. E n'esse tempo que edade tinhas ? MILKAU. Oh! como elle mesmo creava barreiras ao seu espirito ! Os preconceitos chegavam-lhe ao appello da sua timidezlt í/}àf(é /illjftí > $f acariciava/como si fossem numes protéctores. LENTZ... > Mas em tudo isto havia uma infelicidade funda. e / /~ d'esse excesso de concentração^^hefveiiAi morte..

Não. de tanto amor consumido por uma sombra. LENTZ. Aos dez annos o amor começou em mim. Como estremeço ao lembrar-me de tanta vida. os meus brincos. Quando volto ao meu passado.. é ainda esse trecho do caminho da vida que mais me deleita : . Longos tempos se passaram n'essa enganadora caça. essa paixão de infância foi meio doença.. E nunca amaste a mulher? MILKAU. Comecei a ouvir os accentos da minha própria voz.... $$fi vertiam lagrimas e suavam sangue. como tudo/que nasce prematuro. E não te veiu ao encontro uma voz de mulher ? MILKAU. LENTZ. bens e males da minha vida eu attribuia só a esta influencia poderosa e mortificadora.58 CHANAAN recordação e a piedade. parti de Heidelberg com a alma cheia de um grande silencio. mas. os meus sonhos de creança tiveram [Q. Em vão? Não sei. meio êxtase mystico. E no emtanto ella fugia de mim . todos os meus estudos. O que ha em mim de sentimento religioso se desenvolveu então na adoração d'aquillo que eu buscava.a fôrma dos pequenos e intensos martyrios.

as pragas. e não me consolei longo tempo." Varrida asshxi-QS-jTiimaes. Os tropeiros em sua maioria eram mais brancos que mulatos. e então eu ascendi.*»*— cas de café e os olrTávarrT~tom os seus olhos de besta. o único. a caricia que resfria e que funde. que lhe embaraçavam os meneios da cabeça. / E Milkau foi interrompido pelo repique de campainhas que descia pela estrada. porém... \|hesy(roçavam)ao corpo as brua. Aos vinte annos estava tudo acabado.. como esse perfume que foi a minha purificação da adolescência vem até a mim. Milkau e o companheiro ap» encostaram-*]*** a beira da estrada. E a grande ventura (quem sabe?) foi que sobre essa montanha de fogo formada em minha alma jamais desceu o sorriso.. que fffÜi das terras altas em direcção " . até que outro amor. immensos. e esse o grande. tristes einsondaveis. a mula da frente marchava ///aUJ*Ã'lu' enfeitada de fitas de côr.. A morte d'ella veiu habitar d minha existência. v a brandura... cy^s ^JT de animaes. pãor me viesse possuir para sempre. Pouco a pouco estes sons perdiam a doçura melancólica e se confundiam com gritos humanos e tropel.CHANAAN 59 sinto quanto elle é embalsamado pelo amor que ahi passou. os gritos.. apoiando-se nas arvores. Qs^d^is--aiiTrgrj5~~r»e-*afni«4^i^ Ai <*uma tropa. de uns e . as ordens. procurando o trilho habitual. ^ v^** ao Porto do Cachoeira. redobrando a amplidão das vozes sonoras no silencio da matta. ascendi.

. levando ^ * ^ > X c o m s i g o o seu toiJOfe barulho que quebrava além o somno das coinrw.60 CHANAAN outros eram mfos espontaneamente na lingua de' cada um. já pela cidades traficantes e vis. E nós fomos assim pelo caminho sumptuoso da minha phantasia... Questão de amor. que pensei ser a creatura sublime. Atraz d'e11a ficara um odor acre de café verde. ha muito pouco tempo i^t não pov deria imaginar-me aqui n'esta floresta. ou antes questão de consciência.J tação.. Nós somos governados na vida. de poeira levantada e de lama revolvida. mas uma anciã de confissão e de abandono os estimulava n'aquelle mundo extranho. Os dois amigos caminharam algum tempo calados. mas um . ' LENTZ. A historia é muito simples (disse Lentz. já pelos lagos verdes que refrescam as terras. ao dialogo1 perpetuo dos themas eternos. que humilde ama o soberbo. Minha amada conheceu as vibrações infinitas da yolupia. a2^twi alli na sombra e-humidade das arvores não se extingue nunca. com excii.pelo imprevisto. minha amada amou no sangue. A tropa passou caminho abaixo. já pela solidão das montanhas de neve. que fraca ama o forte. arrastando-a eu após mim. bel/" Na verdade. Amei uma mulher.. e elles/ladeados de arvores sem fim^ornavam com frenesi. como respondendo a uma interrogação escripta nos olhos de Milkau).. na carne e depois d'isto eu a julgava recompensada e feliz.

de escravo. E iri-con. conjuncto de idéas ardegas e acceleradas. no meu grupo social formou-se em torno de m i m uma atmosphera de reprovação : todos se julgavam limpos de consciência para áe afastar. A minha arrogan..lhe annulla a individualidade e lhe traça ' na physionomia as linhas de uma mascara commum e sem distincção própria. a minha .. que a longa cobardia dos homens já fez eterna/ n'ella m despertourpara exigir de mim a minha escravidão.que me procurava dissolver ao bafo de sua ternura mórbida. ou seja a família. Milkau. o que ha em mim de acquisição intellectual./ A***" rosa que. nos escrúpulos e temores de minha mãe . Encontrou apoio nos preconceitos» christãos de meu pae.*»de mim com desdém. d se libertar do grupo a //v****/ que pertence. entorpeceu a energia de minha attitude. e eí$fes..CHANAAN tíl dia «•revoltou<'e a alma da mulher do occidente. Resisti. E o que é peior. j Q ou dtíjl a classe. O homem levará ainda /. O pae de minha amada era um velho general companheiro de ar<\ mas do meu./se emancipar d'essa tyrannia pode. foi morto pelo antigo e implacável sentimento. muito tempo. ou ffll a raça. dos indivíduos da minha classe!. deixando os meus estudos de universidade. Então fugi..cH/ fesso (oh! vergonha!) não pude supportar essa ' pressão collectiva dos meus camaradas.f/v /// cia 9» entibiou-~o'que ha em mim de cobarde.pedia á minha família uma \\ *" reparação por aquillo que tinha sido o acto da independência da minha extrema sensibilidade.

como tu.62 CHANAAN posição. com elles e sob o influxo drelles. E parti então para a virgindade d'estas selvas.. O que mais me ator- . e a vida é a acção. quer dar a mão aos antigos e... Berlim me attrahia / julguei a)fy encontrar uma solução á minha existência. porque não actuei sobre elle. deixei terra natal. renovar a civilisação e produzir um mundo que seja o reino da força radiante e da belleza triumphal. que é o desejo e a razão do meu sangue. ^ M J ^ Z / para JqncWc q u / saltando por cima dos secu* ' / los da humildade.. civilisação. ainda virgem e intemerato do contacto lascivo e deprimente d'essa moral christã. Depois da morte de minha mãe. a minha família. sociedade. Também..tão diverso. 4meu primeiro desejo foi sahir de Heidelberg e buscar a vida em outra parte. A minha trajectoria vem de epocha mais remota. ou de um dia as transformar em um império branco. a minha fortuna. sobre elle sonhei. MILKAU O que cada um de nós procura-é. O mar foi para mim a primeira grande sensação da liberdade . com o ímpeto def n'cllas'viver/solitario/na exaltação do meu ideal. 0 que (H lU ^ b u s c a v a em troca de tudo o que deixei... Viajei longamente até agora. então vaga e sem objectivo. de bens eternos. era um / fl mundo maior.. mas não vivi o mar. e vivi intensamente o goso do pensamento puro. em troca de bens maiores. era um verdadeiro domínio para o homem novo.

torturado de um desejo de realidades. a minha melancolia acabrunhadora. e eu sempre me prendia ao passado do meu coração.•>T minhadas pelas ruas. e a consolação '/ não me podia vir do nada.AÍiifado de V qualquer crença religiosa. eternas ca. minha mãe. Mas as minhas scismas eram as mesmas. e pelos parques da cidade. y^(mey^entiíQcrescer dentro de mim yy*~~~'J mesmo. eram passeios intermináveis. a minha doença moral me parecia irremediável.CHANAAN l« mentava. sem uma idéa moral que . quando tudo me era indeciso e intangível. de sonho que sempre me fugiam : a minha tortura era infinita. Vivia vacillante e fugitivo. e ellas as minhas saudades. de calma.. o infinito para mim não existia.. era a consciência de que começava a f/flg^ viver por viver. n u m a aspiração indefinivel de amor. *f7 a sociedade não me preoccupava.. Nada havia que me jfrfffl/fáfflg /^oi^h^ay á vida. buscando no exterior a calma para o espirito... sem interesse na \ida. invocando as três imagens dos que amei e cujos retratos povoavam o meu quarto. fiosse m a * apoio. o que •foL&i^ amo hoje não me tinha chegado. Minha amada. Custava-me já resistir a tanto. sem saber (/( &r»/ aonde os meus passos iriam findar.. N'esta epocha a minha não conjEojmiaÇão ao mundo era cada vez maior .. a mim. .. Vivia naydesillusão. meu pae. Â minha existência $fl /Ç^fr* vagar com os companheiros fortuitos. pelos bosques calados. o que eu amara tinha desapparecido.. a minha duvida tinha espaços tão illimitados que meu espirito oscillava e se perdia no mundo .

desalentado. E então tive aquella anciã torturante de resolver de qualquer modo. Mas a comtemplação da miséria moral em torno de mim susteve aquillo. Todos os soffrimentos extranhos se infiltravam em minha alma. e a Dôr pela sua mão forte e santa me conduziu aos outros homens.. isto é. e não é o suicídio uma salvação que deve ser collectiva... Não me y '' \*cts restava agora para combater o desespero sinão )**" procurar na mesma -vida a razão que me curasse do mal da morte e fosse um desafogo aos meus novos sentimentos.... faltava-me agora o animo de falar de livros inspirados em uma arte vazia. Eu soffria. procurei realisar a acção pela única fôrma que me parecia positiva na vida. e. a que em minha insania eu chamava o acto da vontade. $fytyl/#}flp o clarão bemíaze //// 'ov*Í ° ^ a solidariedade ani apontava. E o suicídio começou a ^ p no meu pensamento. é preciso que os se salvem »... No estado de espirito em que me achava. sem ideal e saturada de sen- A f .(Si CHANAAN das idéasedas emoções.. minhas vacillações. Reflecti : « si todos soffrem e se resignam. Olhei todas as vias que se podiam abrir deante de mim. só tinha inclinação para os que se assemelhavam a mim. as lentas agonias e os duros sacrifícios alheios erairi o pasto da minha ^piedade. é porque a vida é mais desejável do que a morte. Não se trata de libertar um só dos martyres. Comprehendi logo que não podia continuar na posição que tinha de critico litterario em um jornal de Berlim . pela morte.. de terminar dj.

para quem não queria definhar na esterilidade e no egoísmo..CIIANAAN 155 sualidade. Porque ella é forte.. não podia descobrir. Convenci-me ainda mais da falsa situação em que estava. ir á industria. é digna. que envolvidos nos mysterios da imprensa exploram os outros homens. Aquellas duas vidas. a do político e a do diplomata.. Não tinha aonde ir. para quem buscava o que é eterno. que eu queria e por toda a parte procurava. Sim. fazendo parte do grupo de ignorantes e dogmáticos. E agora para onde ir ? perguntava ^-humilhado. MILKAU. Essa uma vida que eu sonhava./n'esteem. Que profissão «ç será a minha n'este quadro do mundo/A política ? / A diplomacia ? A guerra ? * ' ( LENTZ... peis não era ' mais escolher entre a vida e a morte.. porque ahi não encontrava 4.. Não podia ir ás officinas. A guerra é uma volta ao passado. O mundo deve ser a morada deliciosa do guerreiro. eram vãs para quem não escutava a voz da commodidade ou da ambição.• sação e di qu^To meu novo pensamento ainaa L? 2«* rrrais se afastava.A ' baraço a minha crise prolongava-se. a guerra... e sim entre qualquer vida e uma vida. cuja credulidade voluntária é alli como em toda a parte a fôrma de sua cumplicidade na perpetuação do mal sobre a terra. . a um ideal morto para a cívili.

66 CHANAAN ainda a atmosphera para a minha independência e o meu amor. ou em. E então puz-me a viajar longos dias pelas antigas paragens. e por entre esses tormentos a minha existência solitaria/ia/se passando na contemplação reconfortante da Arfê. / / em que me possui da belleza. Foi pela arte que comecei a amar a natureza. Os panoramas do céo passaram a interessar-me profundamente. Ou mirando a linha triumphal da estatuaria. a minha vista se //^-alongou pelo mundo afora e ÍJL vi o esplendor por n toda a parte.. / m e u espirito des/ cançava e se apoiava para a existência. ou aquietando-me á serenidade da attitude repousada eternamente no mármore.. outros / perder o^J S .. ou agitando-me ao vivo movimento do gesto.insondavel da figura h u m a n a . no enigma / y. pois até então a mi. dias inteiros a admirar a limpidez da atmosphera. para as minhas scismas longas e indefinidas. ricos e pobres. e a industria nesta velha civilisação é um desfiladeiro apertado de combate no meio da sociedade que ella divide em senhores e escravos. tratava-se também de uma livre expansão da individualidade. Não se tratava só de trabalho. A Belleza entrava no meu espirito como "*** um doce sustento. onde a arte busca ainda a sua fonte de mysterio e rejuvenescimento... ^jo só tinha os olhos voltados para o meu caso pessoal. nha attenção ao mundo exterior era vaga e ialyj-cevta. Xo momento em que tratei a arte.. A minha angustia continuava.„ bebendo-me na poesia infinita da côr.

. Carregando por toda aparte a minha admiração. immensas. tentador e indomável. que estreita a terra cheia de anfractuosidades. onde se desenrola a vida.CHANAAN 67 os olhos no crystallino do ar. e desce sobre a terra uma neve abundante. que dos alimentos da terra. o mar tenebroso que apavora.. n'um êxtase de louco.^. e de outras praias brancas. pelos ares. No inverno os esqueletos das arvores cobrem-se de branco. No /y*6*'r tempo d'essa única preoccupaçao reinava em meu C£ /^/j espirito um esquecimento das desgraças do pas. mar que não espanta.^s sado ou dos cuidados do futuro.. leve j******" /"!• como arminho.y^—.. Ú rfieu f->~y*r deslumbramento pela natureza afastava-me de tudo' o que não fosse contemplação.. farfalhante como areia. Assim vivi longo ^ T ^ Í(U\ <2~i~& .. outros a sonhar na immensidade das cúpulas azues límpidas e infinitas que são o espaço. inaccessivel. ffflff °í//^ outro mar. Vivia mais das impressões da luz sobre o quadro.^ yj-^me parecia a felicidade pela hypnose com que r/u4/U<^^'JJt adormecia a minha consciência. dade. a extrahir das coisas a summa da belleza. que do mina e que é em si mesmo. como a própria liber. o pequeno mar do sul da Europa unctuoso e doce. . nos lagos e nos campos. Vi o mar. como uma paizagem phantastica e morta... as quaes são abrigos para os homens. e sobre ellas a Morte é uma gloria de ouro.. vadia. mar amigo. e esse olvido e^. No outomno o sol abrasa as arvores amarellas. succedia-me passar longos tempos solitário nas florestas.. que é um traço de união entre as gentes.

CS CIIANAAN tempo. E a consolaçãoynão te vei u ? MILKAU. effão engolphado no meu culto. Hoje.. que era como um carro de ouro levado pelos cavallos ardegos da imaginação e transportado pelos caminhos deslumbrantes das regiões plácidas emysteriosas da belleza immortal. Concentrado n u m logarejo encravado no coração dos Alpes da Baviera..... tal foi a nova via por que caminhei.. f . Depois dos primeiros moI Qj rnentos de prazer e tranquillidade. //' LENTZ. a vida solitária dos monges. O meu isolamento era apenas intellectual. evaporar a minha animalidade e dissolvel-a na combustão de um sentimento activo e fecundo. Ao estado de desvario artístico succedia em mim um desejo de mortificação e soffrimento. ' mas os velhos monges tinham como sustento o / consolo da adoração. forte.. Lentz. havia outra existência. uma fôrma de desdém do < ' ^ 4 f e ^ m u n d o ' u m a e x P r e s s a o mesquinha de quem fyfyà doHseu logar na vida. que atravessava 'extranho e silencioso o mundo. j/J-iÁC Hf no estudo e na scisma. d minha cobardia me atormentava infinitamente. tão nobre.. Viajava dentro do meu êxtase.. em pleno domínio do sensualismo. e a solidão passou a ser um estado afflictivo. Resuscitar. y A pririncipio íí/(jrie/íi íludi \pensando que não C—-.

r das montanhas glaciaes. Paizagem solitária e morta. Aqui nos meus olhos ainda tenho guardado até hoje o ultimo espectaculo . ligar-me aos espíritos. ///*^' E eu não podia me consumir n'essas chammas. mas ' ' ^ as Mtí labaredas afastam d'ella os homens.parte. montanhas de si/ Lui^flencio. uma manhã desci das alturas.. luz rosea do sol.CHANAAN r.. de consolo e de immolação! Quando cheguei Jb^ahaxxo era outrjxjiornem. O amor dentro de mim ^ í . O que eu amava..9 quando penso no isolamento a que um homem se consagra. JrjfTpomo si fosse um fundo de mar setco. penso que é um sacrifício.... como * / L Í i | n a forca de bondade. . penso sempre no deleite d'esse refugio.// L tastico poder de illuminação sobre o mundo. dissol^írf-rfver-me no espaço universal e deixar qne/y^Btd. Qne/^mparavl) e um bem'estar infinito <*•-/ t&> nunca mais me deixou.. penetrasse nas mínimas moléculas. mas também que é uma manifestação de estéril orgulho. Adeus. O ascetismo é como uma ilha solitária que arde no meio do -. nem sobre 9$/ffifâ$ de gelos tf 0* j . e sobre *** ^"êlla os fragmentos da vida passando carregados ao ttJ*f A0VX0 do v ento gelado. ^ / i / J g e l e i r a fumegante. Nunca mais tornarei á . **.. affir W*ti "e^lencià^üde minha vida se espalhasse por toda a X4**^**** 0**r. marJlhk seus fogos deslumbrantes têm um phan. gerar o amor. pois já trazia dentro de mim a porção de humanidade que me conduzia á vida.. Vj^iEYdas brancas e frias pedras verei mais descançar a /yr>* <££*•. Então.' sorria. era fazer ' ****£* amar.

70 CHANAAN LENTZ.. No principio era o cháos. Todo o goso humano tem o sabor do sangue. Jjf~ Reflectindo sobre a condição humana.. Mas um dia chegará também para estes a hora da creação. . O principio do amor me sustenta e protege. Um dia será a . Tu eras grande quando a tua sombra sinistra de solitário passeava nos Alpes e amedrontava os ursos. e as personalidades surgiram. a tua figura de homem vae se apagando. sem força. não ! A vida é a lucta.. quando vi a marcha da humanidade partindo da escravidão inicial. Ia terminar o drama intimo do meu espirito e concluir-se a passagem dolorosa de um estado de / . Mas quando o amor penetrou em ti. MILKAU. começaste a minguar. á meu pen( samento se esclareceu. massas informes se apresentavam como manchas de nebulosas cobrindo a terra . moral hereditária para uma consciência pessoal. tudo representa a victoria e a expansão do guerreiro. é o crime. sem vida. ' pouco a pouco/d'esta confusão cósmica os homens se destacararr/. o amor os reclamará á vida. e eu verei o teu semblante um dia sem luz. mirrado pasto da t r i s teza.. pois crear homens é a sua obra. Eu sou d'aquelles que foram por elle consolados. emquanto os outros ainda jazem informes na matéria geradora. Não.

e o caminho da civilisação é também pelo sangue e pelo crime. o sol queima-lhe as folhas e elle é o espelho do sol. Para chegar aquelle esplendor de côr. da grande escravidão para a maior individualidade. Para viver a vida é preciso / +* J / ' .CHANAAN 71 subordinação de tudo a todos para maior liberdade de cada um. Vê como tudo te desmente. quanto não matou o bello ipê. é como uma umbella dourada no meio da nave verde da floresta. O proceíso é o mesmo por toda a parte . LENTZ. A belleza é assassinaie por isso os homens a adoram mais. E' a parábola que descreve a vida. o sagrado páo d'arco dos gentios d'esta terra.. é o fructodalucta. a belleza de cada uma é o preço da morte de muitas coisas que desde o primeiro contacto da semente poderosa foram destruídas. de expansão carnal..' LENTZ. O ipê é uma gloria de luz.. Esta matta que atravessamos.. a sua historia é a derrota de muitas espécies. Como é magnífica aquella arvore amarella! MILKAU.. a victoriado forte.. de luz. Cem combates travou cada arvore d'estas para chegar á sua esplendida florescência. olhando a floresta. O ipê...

peixe. uma reciproca e incessante permuta. são os mortos.CHANAAN ' ir até ao ultimo gráo de energia. que Ití& trama e o principio vital do mundo orgânico. quando . itffifô-fttfjf. Aquelles que cruzam as armas. de liga eterna. cooperação jla vida sobre o planeta. trouxeram elles sementes de algas e vegetaes primitivosyM^fJ^J^^jé» mineral da terra •Muito tempo passado. A natureza inteira. emfim. homem. néra. Sol.n'um systema de compensação. planta.) Na verdade. E<tudo concorre para tudo. é preciso nâo/contrariail. astro. (euvejo' tudo como um só. terra. a lei monarchica. O mundo é uma expressão da harmonia e do amor universal. o homem a mulher. MILKAU. pássaro. insecto. Os grandes seres absorvem os pequenos. E' a lei do mundo. Tudo é subordinação e governo. o conjuncto de seres. Um dia. de coisas e homens. o senhor arrasta o escravo. (E apontando para a vegetação no alto de ama rocJia. a vida dos homens ftâftjp.a terra é como a d'aquellas plantas fdfàfklk pedra. olhando a 77iatta. O cume da montanha era uma lage estéril. immenso todo. j sobre 01 não fructifi^cavam as sementes di arvores e aj(grandes plantas trazidas pelos pássaros e pelos ventos. sustentado em suas Ínfimas moléculas por uma cohesão de forças. as múltiplas e infinitas fôrmas da matéria no cosmos. o mais forte attráe o mais fraco.

porque — é sobre ella que se fundará o futuro. entrelaçando-se nos troncos das arvores. Que os nossos mais entranhados instinctos da animalidade se *) / / -. a toda a violência.. mas. no alto da montanha núa. mas façamos que este sangue seja cada dia mais amoroso e menos carniceiro. é necessário renunciar a toda a auctoridade. no corpo de suas filhas.ella medraram. já encontraram a terra formada pelas algas e sobre . para chegarmos á unidade. Do muito amor. E preciso não perturbara harmonia dos movimentos e da espontaneidade de todos os seres.. Não amaldiçoemos a civilisação que nos veiu no sangue antigo. protegendo os prünitivos moradores da pedra/que então ousaram crescer. a todo o governo. surgiu aquillo que nós admiramos: um jardim tropical expandindo-se em luz. A historia testemunha que a cultura não é JJ^ksomente a obra do crime e do sangue. espalhando pelo chão a sombra. KAnvà*/\ . O mal está na força. A vida humana deve ser também assim.CHANAAN 73 aqftellas sementes primeiro rejeitadas foram de novo para alli carregadas. Deante da obra da civilisação o papel de cada um é egual ao do outro : a acção dos grandes e dos pequenos se confunde no resultado. Os seres são desèguaes. A obra do passado é ainda veneravel. que elle engrinalda como uma coroa de triumpho. emeôr. f/jffi0/ 7*' coacção moral concorrem as alavancas da sympaCf*^thia. em aromas. da solidariedade infinita e intima. cada um tem de contribuir côm uma porção de amor. a toda posse.

Os dois homens fitavam o sol... Os dois homens fitavam a Morte.. da dedicação e do amor. . 4Ç y£v*fe •jr-^~r j^ji^' Era finda a viagem. que se vinha apoderando docemente das coisas.. para debaixo das montanhas.74 CHANAAN transformem no vôo luminoso da piedade. que rubro rolava.

/ L > i ternura. As p^j^éi/a^ c a ^ . Milkau alegrou-se vendo o seu companheiro de destino e <oJ(saudoi7|om um sorriso de K . como olhosyque^á^^íkssem. Em suspe círcurfiscrevendo a povoação. á-~y quándoYLer t o m uma e x p r e s s ã o / ^ ^ ^ « ^ W ^ W jovial. mo'itrnvfin/-se pelas portas abertas e cheias brancas .///*''(f~i '-as.r. A enfileiravám-'em ordem. onde dormira/contemriaj^do a ^ vida plaxjdo a vn que se despertava em ^èrítz^ sahindo por sua vez do qíiarfo. e por onde tóife^r^ <<«^U*4--»^-AíV»*t. um parque ra rde assinalado de arvores salteadas. . levemente expiado pela frescura e subtileza do ar. /r de luz .s/r ' / VY ./ . ." / porta da pequena estaSanta' Thereza. Assim escan. caradas neto uniforme era o de um pombal O seu < na altura silenciosa da montanha. Pouco depois. todas .//] <£&l * eguaes. iam juntos pela pequena povoação dddyd£&àa accovdada e radiante na sua ingênua simplicidade.

deante do quadro que lhes mostrava a população. outras amassavam o trigo e preparavam o pão . faz'a rodar com estrepito^^noro. todo elle se entretecia sem violenciar^e mesmo o malhar do ferro não • W y W . como única machiníí. Na sua officina. Um alfaiate passava a ferro um panno grosso. E todo esse / ruído era vivo e abgnetJado. Milkau e Lentz percorriam o logarejo. que a água de uma represa bsi. notando J//o+*i«**3*£ musica ifápfi e alegre fffári/$t/j$f$p vários ////AJO4 ruídos do trabalho. e di mãos muito brancas e esguias batia sola. grito do vapor e apenas.• 'y<-$y76 / ' -. swn o pequeno trabalho manual. . cantarolando . ^ aquella pouca gente se entretinha nos seus humildes officios. que eram a alma da paizagem. outras. Zllefr yiam todo o povo trabalhando ás portas e rio interior das casas com tranquillidade. em harmônicos movimentos peneiravam o milho para o fubá. Emquanto por toda aÀaxXeJ^J na matta espessa/outros se batiam com a terra. um velho sapa//•^ teiro de longa barba. Era um pequeno núcleo industrial da colônia. um pequeno engenho para mover os grandes^folles de uma forja de ferreiro. humilde humi e doce. por uma consoladora esperança. Os dois immigrantes sentiam-se transformados por uma paz intima. Lentz achou-o veneravel como um santo. mulheres fiavam nos seus quartos. I—J . j/or toda a pary o nual.j I K T CHANAAN V. ^^lOT^^vP' " O S d e a 8 u a corrente. e/todas as artes alli JHB&SMMBÍ na singeleza do seu espontâneo e feliz inicio..

/e a creação é n'ellesuma feliz / // satisfação do inconsciente. e o espectaculo de um trabalho livre e individual nos emb/ílft de prazer. que se não embrutecem no barulho das machinas. balho tinha o seu scenario jjif. onde o tra. é o homem que ainda não venceu grande parte das forças da natureza e está ao lado d'ella n'uma postura humilde e servil.. orgulhoso de ser homem n'aquelle alto de montanha. em que o mestre da banda de musica de Santa Thereza dava a lição matinal aos seus discípulos. disse elle. estes pobres que trabalham mediocremente com /**tf próprias mãos. que conservam toda a frescura da éid vyy alma.<f$!fô. que fazem can' tando l&{ p ã o / iand vestes. Ao espirito desmedido e repentista de Lentz esse inesperado -encontro com o Passado parecia a revelação de um mysterio.. que se bastam a si mesmos. . observou : //?/* — Realmente. — Isto é uma gloria. Milkau também admirava. n'aquelle rápido retrocesso aos começos do mundo.(O*™**' timos a um começo de civilisação. mas como l//4&r®** enxergasse no louvor de Lentz o/espirito negativo LtAooC^ fftffli. 77 4 destoava do metallico clangor de uma Clarineta. (mf&» Havia uma felicidade n'aquelle co^MÀdli de vida primitiva. interrompendo o silencio em que iam. são os creadores eTeL*?//* simples' natura(es. Mas no fundo assis. ^^fj estes homens que se não mancham nos fumos do '/ carvão.CIIANAAN t'. é um bello quadro esse que vemos.

78 CHANAAN — Mas quem pôde negar que o homem. sentindo uma entranhada difficuldade em abandonar aquelle logar.. cheios de ambições. são bons ' e ingênuos e supportam o seu jugo com um sorriso. servo da machina. a machina. para o qual nos votamos J/irtY atemorisados. dirigindo o machinismo engrandecido quasi á altura de um operário. Ao menos estes aqui. se vae afund/ndo n'um embruteci/ • mento peior que o do selvagem? replicou Lentz. merecem ma\sj£ meu amor que essa infinidade de proletários. tenho como sagrada toda essa gente. — Para mim ha uma illusão n'esse sentimento romântico. e*^) emquanto passeiava ao lado de Milkau. Dirigiram os passos para os caminhos que . massa da civilisação retroceda a esse antigo período */// Jk> da industria.^ « w . ^ ^ . A poesia quetâMfjfâfâ è o perfume 0** mysterioso do passado. /gral da industria. mas ha também uma poesia mais forte e mais seductora na vida industrial de hoje. Passaram ainda algum tempo. e é preciso consideral-a pelo seu prisma luminoso como uma aurora. inabalável. — ^ u ^ f v ^ Zfifyfrfj repetia Lentz. .^ ^ s e libertou. hojèyque tfrjtfyfâ/tffa a transfor-/^ / mou em um instrumemo de movimentos próprios. Sim. Nós não podemos fazer que a .M^ -^Mrí*m.. procu. rando governar o mundo.Qhea^iroipa percepção inte. readquiriu a sua intelligencia. ///fâ&iWfii fflfjbfi de todo o peccado de orgulho. especialisando e eliminando os homens. famintos e pavorosos. _W.

da sua forte e fulva cabel. va-J?/ V6~/d TiaÂJ / r a s e u / aspectos!'cheio de montes. que os retinham alguns minutos no povoado. deixando-se ir na inconsciencia d'esses actos espontâneos. O panorama largo/ousado^^-fecundo.<*. ar. paravam á porta das casas. Milkau e Lentz PÍU sna majch^ passaram jfa V v .^ desandado repouso. e partiram como n'um sonho. miravam attentos o serviço que n'ellas se fazia. a sLd. /* como quem parte para o desconhecido. ribeiros e cascatas. A joven estendeu o braço longo indicandolhés o caminho. e perseguindo comjUusJ olhos de admiração as saudáveis raparigas. Procuravam as pequenas elevações. Elles admirarão^ dCsea^gesto.CHANAAN 70 abeiravam Santa Thereza. Uma filha da hoteleira (ós/Qevouyaté á bocca do caminho do Timbuhy JSÍkfr/jtom mil perguntasJ d*tíVàfdlbtfJtffiL uns instantes. giravam abaixo e acima pelo parque. sorriam ás creanças. iwenrubesciam/E em tudo isso se recreiavam mansamente. agradados do seu rdsto delicado. mas uma divin.T^arou*».0 leira. Era um trecho de / uma região poderosa e opulenta da terra brasi. Lentz via na rapariga uma divindade ex. Dentro tftíjk se abrigava a multidão de bar.<*/ dade meiga como eram os habitantes de Santa Thereza.f//*~ / baros e de extranhos alli recebidos com brandura / e carinho. valles/ / • / • ' florestas.graça. ora subia. Mas afinal tiveram de se a r r a n c a r . o **--/ lhoh üdL éed. tranha n'aquella floresta verde. //# [/ '/A principio iam meio apprehensivos e calados.ML{ leira. A estrada \ por cima dos morros descampados ora descia.

no silencio dos caminhos. coberta com o manto do voluptuoso e infinito azul. com a espuma dos seus beijos tbJ afag/eternamente o corpo. o longo mar. as flores a perfumam com aroma extranho. abrigadas ' f u r n a s no fdfâfi seio dos morros.e abundância. as quaes êkJ i viam pela primeira vez. n'uma vertigem de admiração. as estrellas. sem íi^f^ penetrarem. que era amimada pelas coisas : sobre o seu collo águas dos rios fazem voltas e outra^hejtgnlaçanj)* cintura desejada.. outras depenf. a r puzerarrr^a louvar a Terra de Chanaan. se precipitam sobre ellá como lagrimas de uma alegria divina. todas com disposição ' e graça uniformes. ///*L punham-se a mirar de fora esses retiros encantados de verdura. Havia fumo em todas as chaminés. e. homens mettidos na sombra fresca dos cafesaes que rodeavam as habitações. /'/h 7 duradas na encosta d ^ ^ . de tranquillidade. os pássaros a celebram.. ventos suaves lhe penteam e frisam os cabellos verdes. / Ou~£du^t Elles disseram que «lia era formosa com os seus trajes magníficos. animaes e creanças debaixo das arvores. E os dois immigrantes. unidos emfim n u m a mesma communhão de esperança e admiração. ' ' H/ . mulheres em suas occupações domesticas. o mar.80 CHANAAN fo/l ///// J/ pelas casas de colonos agricultores. E as casinhas se succediam por todo o valle. vestida de sol.

'//ê/ /' Elles disseram que ella. //r //*/V.CIIANAAN 81 Elles disseram que ella era opulenta. j . sua porta não se fecha. tribue fó seus dons preciosos fâtffyty d'elles têm V/X. não têm dono .. e/aj. enfraquece o sol com as suas sombras. o $já seio^C < f / ^ . porque um só grão ds^ suas areias fecundas fertilisaria o mundo inteiro e apagaria para sempre a miséria e a fome entre os homens. a providencia dos filhos despreoccupados.. para o orvalho da noite /jr JtLti fria tem o calor da pelle aquecida. porque era a mãe abastada. O h ! poderosa!. não / perturba^f/í j ^ f ambição $ l ritffd orgulho .. sahidos de um peito alegre. a casa de ouro. o ouro puro e a pedra illuminada.. amorosa..-. porque fó seus rebanhos fartam d$ suas nações e o fructo dfó suas arvores consola o amargor da existencia. fd suas riquezas f # r. não deixam as suas vestes protectoras e a recompensam com o gesto perpetuamente infantil e carinhoso.. ytó seus olhos suaves e divinos não /i"v*~ distinguem as separações miseráveis. desejo. homens J p ^ * * Êfl/Lptfttffftfí/fytyl tão meiga e consoladora. que a não engeitam por outra. porque no seu bojo phantastico guarda a riqueza innumeravel. o ^-//fÉwy^ quecimento instantâneo da agonia eterna. porque dis . e(jhe/^ãrítai^ hymnos +». " ^ Elles disseram que ella era feliz entre as outras. Elles disseram que ella era generosa.

/ / & aiçy . por um pouco ficávamos por esses caminhos. com as mãos estendidas.. isto é mesmo um paraisc.. porém. Felicíssimo. — Não ha duvida.82 CHANAAN maternal se abre a todos como um farto' e tepido agasalho.. os interrompera. Milkau pensou que era o gênio da raça originaria e senhora d'aquella terra que/lhes deparava. — Ah! meu caro. disse Lentz.. adorando esta sua bella terra. Mal tiveram tempo de dar uma vista d'olhos pela redondeza. / frei í E os <fd$fâ / ^ / ^ a r a m a contar-lhe com exalfsyrfr tação as suas primeiras impressões. o agrimensor Felicissimo se lhes dirigiu com o triângulo moreno do seu rosto escancarado n'um grande riso de vida e bondade. ajoelhados. porque.. — Onde almoçaram? Posso arranjar aqui alguma cousa para entreterem o estômago.. O h ! esperança nossa! Elles disseram estes e outros louvores e caminharam dentro da luz. sahindo de um barracão verde alli situado.. gritou de longe. — Então. isso são horas de chegar ? E sem esperar resposta foi ao encontro dos dois allemães. Já traziam cinco horas de Santa Thereza quando dfyfdaram á margem do rio Doce. . preoccupado pelo instincto da hospitalidade.. concordou com enthusiasmo o agrimensor. nvuma alegria estrepitosa e confortante.

não ha Brasil como este. o desabafo da curiosi. Felicíssimo fazia também d'esse A barracão o seu quarto de dormir. recebendo as laranjas. que eram o registro dos prazos arrendados aos colonos. Felicissimo. cujo arranjo não podia ser mais simples : alguns instrumentosjl^j^arrrpojld^isou três grandes livros (§obre uma mesa ao cantp). de uma singeleza / Aomada. Veja que belleza de fructa! — 0ft$jL não viram nada. Olhem. Ao sahirmos de Santa.h-0J-&~}~4 dade do cearense. e em tudo! Encaminharam-se para uma meiaguá coberta de zinco. d ^ / M i l k a u . Ainda lhe trazemos algumas aqui.i~»*uc f nha. emquanto esperadddm levantar nos lotes as suas Á/Gt/ casas. Os hospedes agradece- . e na parede um grande mappa dos lotes de terra da região. respondeu o agrimensor. porém. nem uma photographia. comemos alguma coisa que trazíamos e depois no caminho nos fartámos de laranjas no pomar de uma velha colona. élíL. porque têm muito de que ficar de bocca aberta.CHANAAN 83 — Obrigado. agasalhando-os no barracão do escriptorio. apenas um maço de jornaes dsÀ. Ao lado havia outro puxado maior. nem o quadro mais humilde. abrira gostoso uma ex/ cepção para os dois extrangeiros. Nem um livro de leitura. Era espaçoso e arrumado como um d o r r r u ^ / ./ que era o alojamento destinado aos immigrantes. Thereza. onde o agrimensor tinha o escriptorio. torio de hospitalMj^ütáf ao funõTÕ"^"pequena cozi. Não estraguem a admiração.

Uma doce fadiga entorpecia os viajantes e tf0fi/J jr / deitados sobre a relva junto á casa. Mas olhem que na verdade vale o esforço. acceitou o lote V. Felicissimo farejou o tempo. em companhia . respondeu Lentz.. com ares de entendido. e deante da planta dependurada elle accrescentou : — Para mim. Ahi a terra deve ser esplendida. que não disputava primazias nem & vantagens no mundo. Preparavam-se para sahir. até que o agrimensor. abancados todos no quarto de dormir. Passaram para o escriptorio. O diabo é que está enterrado em plena matta e vão ter muito trabalho para fazer a limpa. gente! vamos escolher os lotes. travaram conversas nas quaes os immigrantes se foram informando de muitas coisas do logar. Mas si fazem questão. E Felicissimo de varinha em punho para apon9/ tar no mappa. seria o numero dez..' (Pü proposto/foj&^^ejubilavaHi aquelle dia glorioso ///' com a miragem de um grande e santo labor. sentindo que o sol baixava. não teríamos tempo de ir e voltar com d dia. o que mais lhes conviria. Chegando á porta. Milkau. — De fôrma alguma... E melhor ficar para amanhã.84 CHANAAN ram ao brasileiro amável e. interrogava os ou/ tros.jtodo assanhado. Méfà querendo ceder por / ' delicadeza ao parecer do agrimensor. reflectiu e ponderou aos companheiros : — D'aqui ao lote dez é um pedaço./. lhes disse : — Ande d'ahi. .

^ havia um mulato.ao~jii£srno \jjl tempo. muito parecidos como um grupo de irmãos. Vinham vagarosamente. tomava por vezes a apparencia de um ^ ... Sónseate. ' ' /'»"*' Um grupo de homens armados de ferramentas de campo apparecia á distancia. torso hercúleo.. Percebendo de longe que havia gente nova. ouviarfi as historias áles^f scismavam **•.íÁj^j em coisas coisas vagas vagas ee dipiavam diyílavam oo tio I em fio passar passar preguipregui..//// coso. camaradas!'o rumo está acabado? — Prompto! disseram. arrastando-se pela estrada descampada junto á praia do rio. olhos de um azul de abysmo. / satyro maligno. a umi só f&£ feita da/de todos.][ vimento do homem para o homem. e entreolhando-se rrr.i espantados por terem respondido . barbas avermelhadas. era bronzeado. vendo-os passar tão extranhos."' ¥ . com o impulso sinistro e reservado que é o primeiro mo.CHANAAN l w II 85 do cearense.. Tinha a cara mascarada pelas bexigas . Com os olhos rajados de sangue e os dentes ponteagudos de serra. passando sem parar. caminhavam silenciosos. fazendo coro. usava uma pequena barba anelada e falha e o cabello curto em pé sobre a testa. Chegados ue foram. Felicissimo. que entre elles se destacava. mas essa impressão era xar/. ficou surprehendido e gritou-lhes : — Então.. Milkau e Lentz admiravam a robustez d'aquelles homens com pulsos de ferro. saudaram surdamente e/arara' calados ara (/ interior do armazém/guardar as ferrarnentas. e Hc*^ / ( rv t o • •"• (*.

Si eu tivesse uma boa arma. perpetuado no sangue e transmittido de geração em geração ?. — Aposto. não ficava um bicho d'aquelles voando. c o n v e r s a . Joca. entre elle e a terra um remoto convívio. saboreando com melancolia os effeitos creados em sua imaginação de caçador.. disse-lhe a rir Felicissimo. As aves em bando continuavam serenas e soberbas no seu vôo. Como o sol sefôpfyAjfflL e as águas do rio /(7/^' sejÀ$$(tf/$j de sangue. seguindo-as pezarosamente. seu cadete. Joca ij olhava. apezar de recheiar a phrase . Era só pontaria no da frente.. No meio da massa indistincta dos companheiros louros e pesados..?%cé0) mostrando a Milkau e a Lentz os bandos de aves que passavam na illuminação do crepúsculo. Os camaradas applaudiram.. ouvindo-lhes silenciosos a ///Á / . Felicissimo apontou para v//Cc^°^a.. Outras vinham ao longe.. — Qual. alli tu não apanhavas nada. Pouco /pouco os homens foram se approximando dos recém-chegados... cabra. o cabra brasileiro tinha um ar victorioso. havia de se ver. e si a arma fosse espalhadeira.. Admirara-se Lentz do modo corrente por que o mulato falava allemão. — Ah! Um bom tiro! exclamou o mulato. replicou o mulato com fanfarrice. em longas theorias harmônicas. um ar espiritualisado.. Não havia.8C CHANAAN rapidamente a desmanchava um riso fácil e ingênuo. em allemão. na verdade.

não ha povo como o nosso para apprender as línguas alheias.. cuja indole serão os do portuguez.. — Não estará longe o dia. devido em grande parte á segregação d'ellas no meio da população nativa. Ha gente na colônia. mas d'esta mistura resultará ainda uma lingua. Não digo que os idiomas extrangeiros não influam sobre o idioma nacional. É uma vergonha! O que acontece é que os nossos tropeiros e trabalhadores todos falam o allemão.CHANAAN 87 de vocábulos brasileiros. Creia que é um dom natural. Essa fraqueza não seria a brecha para os futuros destinos germânicos d'aquella magnífica terra? E poz-se a scismar. cujo fundo. entrada ha mais de trinta annos.. em que a lingua dos brasileiros dominará no seu paiz. considerou Milkau. não se admire d'esses homens que estão aqui ha um anno ou pouco mais. EY dirigindo-se aos trabalhadores allemães.. que não fala uma palavra de brasileiro. O caso das colônias é um accidente. Não sei. trabalhado na alma da população por longos . perguntou-lhes si falavam a lingua do paiz. com os olhos abertos e fulgurantes. Joca approvou convicto e ajuntou que elle mesmo já falava mais allemão que a sua lingua e arranhava um pouco o polaco e o italiano. E Felicissimo observou a propósito : — Olhe. No fundo do pensamento de Lentz houve um pequeno júbilo por essas confirmações da insufficiencia do meio brasileiro para impor uma lingua.<fffá<fresponderam que não.

todos muito ykití^iláfcardegos. disse Felicissimo. n'uma com^ yM4^!'bustão que os envolvia de ligeiro fumo. Nós seremos os vencidos. um velho muito alto e magro. os cães o acompanhavam ganindo e excitados pelo cheiro de sangue que escorria da caça. Isto agradou a Felicissimo. \Q_-V — Ah! murmurou Joca lj>éjf penZ. mas . (*. viram passar pelo caminho. si nós / i apanhássemos aquelle bichinho para a panella! 0 caçador passou sem os cumprimentar. O caçador era seguido por um bando .88 CHANAAN séculos. a got- tejar sangue pelas ier\das/00/j^^0l^/j^ fâ/$ft(fá.. Joca. que de tudo só t ( c * ^ * * \ apanhou1 a phrase final. de orelhas ora empinadas. — E um selvagem. „ . A prophecia dava-lhe desde já um orgulho de vencedor. frio com ardente e inquieta respiração. (E sorria. armado de espingarda e carregando um animal morto. — É o vizinho mais perto do barracão. a resfolegar. ora baixas. O caçador /Jltt e caminhava com passo rápido. á beira do rio. — Mora por aqui? interrogou Milkau. . ***"^**" trêmulos. nervosos.bocca aberta^e lingua de fora. fixado na poesia e transportado para o futuro por uma litteratura que quer viver. "tf*„J* y* exhaustos da caçada. Emquanto a conversação se ia desenrolando mansamente. queimando o ar <^. olhou com superioridade a massa de seus companheiros allemães. de cães que o rodeavam ou o precediam. dirigindo-se a Lentz).

outros espertos e faladores como Felicissimo e Joca. Lentz olhava agora * s duas raças alli reunidas á mesa. fâjfyfatyfé a facundia jf/cLof***» interminável e molle. — Ha de ser algum solitário. alimentação habitual dos homens do campo nos logares do seu serviço. Ergueram-se da relva. vive só com aquelles cachorros.. Milkau estava solicito com todos.s s nn m muittTV r^mm t ^--nn nn m u t f p --z^~ tfl f Continuavam a tratar da vida singular que levava o caçador. quando um dos camaradas se achegou a Felicissimo. alguns n u m prazer discreto e moroso. salva. admirava o que havia de solido e repou. . que são valentes como feras.. respondeu Joca.. — Um arredio. passa pela gente como si fossemos cachorros. e todos se banqueteavam alegremente. explicou o agrimensor. prevenindo-o de que podiam ir ceiar. etldrídMftóp e m o . bocejando outros.do cearense e do mulato lhe <^4AÀ^ trazia a sensação do enjôo de mar... não fala com pessoa alguma que eu saiba. A comida era simples e pobre. ' Os trabalhadores do barracão armaram a mesa das refeições no dormitório dos immigrantes e ahi puzeram-se a ceiar. alegrando-se n'aquella communhão entre as raças . sado nos gigantes allemães./ y ^ " ^ rosos entraram todos em casa. \tfT l ^-&-JfJ^&&£sss!sxpeer-tá fr*y*l*\ gcupiüie-homeiis que u observ^airj^7tóá_ftt±fi=sp **"•*. espreguiçando os . No-emtanto. suppoz Lentz.CHANAAN 89 nem por isso nos. o peixe salgado e a carne secca. braços uns.

a*~^ A sala era alumiada por um lampeão de kerose. uma longa intimidade l h e s d é r l e m muitos fi. geral^jfii rfr mente fortes. Além do fundo uniforme da sua própria ''(/ " classe. Para Milkau um compatriota era o . mas a sua alegria não passava de JL um gesto tffflftffésfflfflf incompleto como o próprio espirito. e mostrando uma calma indolente y^ r^** nos movimentos e nos olhos um longo descanço. vendo alargar-se o destino da sobrevi. em indagar i/obre W logares donde era cac a um /// Cl * r//ffl' Q u a s i todos procediam da Prússia II ^ oriental. mas sufficiente 2»**.S}_ ^fitíàffy das bandas do Rheno. ir ne e a luz Àxd turva e indecisa.^Z~A. para conversar com os seus at*^> ' patrícios. ' Entreteve-se Milkau. fí/ —De que logar é? perguntou Milkau ao trabalhador mais edoso.?*** vente mesa commum que cahiaydos tempos como Çf^**" uma relíquia do patriarchado. havia. outros novos e joviaes. da Pomerania.-l ' pontos uma só feição. alguns <$# i/y. I $7/v . I distinctas. — Então somos quasi vizinhos.CHANAAN U f**. porque sou de Heidelberg. porém. feliz por ter encontrado um conterrâneo. * O trabalhador sorriu. 1/ para que os ríovos colonos pudessem distinguir a ^j' . Uns C '' já\eram homens maduros e experimentados por 1 ] /Vi** J° n g° s soffrimentos.Comiam mais ou menos egualmente com medo e t^"*^ devagar. — De Germersheim. physionomia de cada trabalhador europeu até então <*)' Vi LJ para elles confundidos demoí uma só massa./~^~*>f.

esperando com placidez a narrativa. ae •f#/n%'' j interesse e mesmo de negligencia.CHANAAN 91 apparecimento Yf/fáffi e inesperado de todo o seu /f/Juy1-** passado. f — Sim. outro. e auzeraa^ ^w^md^% nas caras expressões distinctas. emfim. todos se moveram a um tempo. Todos se voltaram para o emigrado do Rheno. Lentz perguntou si isso se ligava a alguma len. havia uma perfeita unidade./J ú*^ mastigava.. pelos homens da sua cidade. O homem interrogado ficou um segundo atto- . de surpresa.Então é da terra de Soror Martha! Conheceu o Rochedo da Monja. pelo quadro./ / 1 ^r~ da. Uma incomprehensivel saudade dos seus / primeiros annos $$$^001 um instante. n'essas transformações de physionomia. de um/UW*»»-// mesmo desejo. __*^ emfim. que estava á ponta da mesa. E Milkau pediu ao trabalhador que narrasse ***( essa tradição ignorada pelos que alli estavam. espichou a cabeça para o meio e poz-se á espreita. de pagar em amor toda a indifferença que tivera pelas coisas da sua terra. mas em todos esses movimentos vários./ r tovellos. era '/fa£&f\ como um arrependimento de não ter sido nos prin* cipios da vida o homem de hoje. Tfim. onde passara a sua mocidade silenciosa. — Ah! exclamou ligeiramente pensativo. de começar de novo. aquella que sá^ de um mesmo pensamento.. Um desejo de voltar atraz. / ^ddkfy largou o talher grosseiro e descançou os co.

a falar. muito espantado de se ver n'aquella situação saliente. voltou-se para o companheiro allemão com os olhos esgazeados. entrou j Ih / »<^ para o convento. onde a sua piedade encantava ainda mais que a sua peregrina formosura. si tornasse a vel-o. e com Vi pezar os nobres vizinhos. Cocava emba~. Joca. Sua mulher ficara inconsolavel com a separação e. — Desembucha. apenas se casbú. morta para o i JZMX> mundo. o primeiro filho que tivessem seria consagrado ao serviço de Deus. O duque morreu na outra cruzada. Os outros ^ ç í á i ^ / a m as suas W * ^ attitudes. que a queriam ytfjjl esposa dos filhos. olhando para todos. A principio não disse uma palavra. Na sua linguagem. raçado a cabeça. que se chamou Martha.>./j/ífl^ji alia contou que no tempo f % das cruzadas um duque. A menina era de uma deslumbrante belleza.** ~+ ^ — ' ^»- * ^* . a quem o silencio de um instante perturbava e affligia. que de tempos a tempos ia *-£yz^ <. partira ^HA A ^ v a pelejar pela Fé. Voltou o duque. e a viuva. e passado algum tempo nasceu-lhes uma filha. homem de Deus! E segredo? gritou o cabra. Era-lhe único ir irj^juM conforto ver a filha.>2 CHANAAN nito e irresoluto em sahir da obscuridade collectiva e anonyma em que até então estivera na mesa. èdáfitffe Martha se tornou moça. fez voto de que. viram-na crescer. _ f O allemão afinal se Resolveu. sem mais í/triM*/ fimos' fflfâ isolada no castello. temendo a morte do esposo.

persegue-a.CHANAAN 93 visital-a./Martha espavorida/ytíj^^A'põe-se /*y^_ a correr. amolledMd pelas orações da / . Uma vez. Luctou comsigo por esconder a paixão criminosa. A freira transviada ///)//(2 toma um caminho que a afasta do castello. Ç m rochedo\se^pre^e*récolhe ^t^r* no seio de pedra a joven monja. Ficou assim dias e dias alli vivendo. allucinado. Não v *creditou o tÁ^A» conde na protecção de Deus e teimou em esperar a sahida de Martha. vestida de monja. Uma tarde. quando esta atravessava o bosque para uma dessas visitas deC J. e v^i/ido pelo desejo formulou o pro. Des. mas foi / impossível. annos. O moço. e no / ' " ' ' ^ desespero da fuga chega atéjio rio.. Vão os dois pela floresta como loucos. disfarçado em aldeão. /yffa** e silencioso seguiu-a até ao castello.. vinha o echo das supplicas da freira pela salvação da alma de seu malfeitor. De dentro. quando chegaram ao logar mais solitário. em vez de maldições. o rapaz0$J$fflde amor^ela freira.//u/*%jecto de raptar a monja. aconteceu-lhe fyfpfypax-se com u m / ^ joven caçador. sua barba embranquecida ?ft alongou"1Tté aos pes. e propoz-lhe fugirei e occultarem o seu amor em '' / ^ outras terras. e. A freira partiu logo para a casa de s u a / mãe. descobriu o seu ardil //Q. encostado ao penhasco. O conde acompanhou-a. o conde envelhecia. filho de um conde palatino. Consolação. onde o conde ^ / a vae alcançando.^>v^ lumbrado. e afinal o coração. Passaram-se mezes. o joven conde bat/ á porta do mosteiro a ^ y para $fyj% á Martha que 4 duqueza estava a /^l~*-«*« morrer.

Entrou no convento. parte para o convento.(Marthaícorna)para o mosteiro. Partiu curvado. Attonita. despediu-se da freira por entre lagrimas de arrependimento. Abre-se a rocha. conver" tido. confessando os perigos da sua . Alli também y Ácr^ty tempo $0 jLpfffiÀlf Arrojou-se a monja aos Á*«v" t p^ s d a superiora. Confusa. e restavaAri & lhe a illusão de ter apenas passado um dia encerrada na pedra. velho e cJieio do espirito divino. voltando aos seus labores. e no seu caminho o tempo. Durante a sua ausência as freiras. parou a voz na cella e as freiras desprenderam-se do encanto. medrosa. Jurou então consagrar-se ao serviço de Deus. rezando em êxtase. no propósito de fundar uma ordem religiosa. Para ella. A pobre madre ^0^VM (fât/fjfftyifâr 'éfâtíWfli de allucinação e disse-lhe que ella não se tinha afastado do quarto. de onde no mesmo momento / * . e.(Martha^jâáej na mesma juventude com que entrara. abrindo-se em flores o campo mirrado. que era de inverno. o tempo não fifytfla corrido. onde cantara os-aaais &/&>*'. e tudo estava como deixara annos antes. assistida e alimentada pelos anjos.. ia-se mudando em primavera.\Martha/recolheu 2»« abi S£A° s e u aposento. embevecidas.bellos louvores a Deus.... Quando soror Martha sahiu do rochedo. penitente. hcouffirffájtffl? da tentação e elle. passaram todo o tempo ajoelhadas aporta. presas á melodia. entoava os hymnos que Martha lhe ensinava de dentro do rochedo inviolável.Di CHANAAN * é * t e ^ monja. ausência. ouvindo cantar na sua cella uma voz celestial.

pensativos. E quando elle acabava. pois ninguém sabe o que lhe está reservado soffrer e vêr. cahindo outra vez em silencio. e que era a sua imagem.^. àffitfMxfyfie todos na solidão que era alli. /£jty0MfyrtO*í' rãatígÜ&mIffflúfNà Tjtums/intima communhão. Pouco a pouco cada um se foi erguendo e deixando a sala. A ceia miJ-se acabando sob a apprehensão *-&//'' vaga que no animo dos trabalhadores deixava a evocação das lendas nataes. ' I que era uma faixa phosphorescente e tremula. Os 6-»-?-c// homens 0 deitaram-ha relva. dizendo : — As bruxas já morre- . milagres e encantados. Os outros. mas sem força de abalar as convicções plantadas desde séculos ás fontes d'aquellas almas. coxeando sobre assumptos incenõ^pois mais forte que estes havia em cada espirito uma idéa intima. Lentz quiz levantar-lhes o espirito e poz-se a negar bruxas. de que parecia irradiar toda a luz que attenuava a escuridão da noite.. concordaram n'um brando murmúrio. longínqua e poderosa que teimava em se fixar. E um dos homens foi o interprete de todos quando disse : — Ha muito encantamento neste mundo de Deus.. Milkau e Lentz também se chegaram.. D'onde menos se espera surge um perigo. voltados para o rio. Não tardaram a se juntar fora no terreiro. que/a substituirá na ausência. Sempre se deve andar prevenido. A conversa era (tropéga/|^ morna. á aragem fria da noite.CHANAAN 95 / 7 * * f*«Vr viu sahir um anjo... Falou longamente.

em que elle combatia invisível pela força mágica do seu chapéo encantado. rainha da Islândia. Mas agora as lendas volviam ás suas origens. as porfias com a bruxa Brunhilde. vencendo a mulher para entregàl-a . e depois as suas luctas. chamados pelas evocações dos emigrados.lhes acontecem por se fiarem.96 CHANAAN ram ha muito tempo e ellas sempre foram estas mesmas mulheres que vocês amam —. um dos mais velhos não gostou do tom da negação e replicou : — Não diga tal. que foram os -^primeiros geradores da sua raça mestiça..de um mundo desconhecido e $t$k lhes suggeriam 'i' a reminiscencia de tantas outras historias euro4.! Cada um lembrou uma historia da sua localidade originaria. os gigantes com o seu cortejo de . seu combate com o gigante. as nymphas do Rheno.. filho de Sigisberto. moço. Os dois brasileiros se interessavanj ardentemente com esses contos que lhes vinham /// ~jr~. Alli. e com que sabor não escutaram as façanhas deSiegfried. surgiram.. guarda dos thesouros fabulosos./ péas transmittidas a elles'adulteradas pelos povos brancos. no serão da terra tropical. com o seu caracter immune de contactos extranhos. os homens devem tomar cautela nos seus amores. em vozes e cantigas. as suas proezas no castello do Nivefliho. Quantas desgraças não .anões -phantasticos. os heróes. de mulheres.. vinham mais puras. os semi-deuses saxões. mais límpidas. a derrota do anão"Alberico.

vendo a nympha. o velho pae louco a pro. Como os outros escarnecessem $/$$-. Áy*£"++/i E Joca declarou que não tinha medo de mães .. mesmo diabas ou feiticeiras.Q d'agua. lhe pede/!) -?ít<y restitua." sonho palácio de crystal é no seio da onda e para lá. protegendo os habitantes de sua vizinhança... ora bemfazeja..atraves. longe do vosso mundo. ora vingativa. divina como um. responde ao som da harpa : « O meu ri.. Vinha n'essa historia a paixão do conde palatino pela fada. curar o filho. até que um dia morre o heróe. » * rf * <$fflc/efál$fcfy0J0/alguns passaram 0^»^-^ a commental-a no circulo'de suas nevoadas idéas. E com que paixão não ouviram elles tratar da bella Lorelei... Milkau achou esse termo extranho de um bello . quem já teve trabalho com cur/ufj pira. soberana. até que um dia... sado par uma lança.hL levei o meu amante kj/'•*'' fiel e leal. // -^-> fffffi fanfarrão : '///wT' t*>. s^^tóé ella.. até que. ? E a tristeza no castello. — Não se arreceia de mulheres. que o attinge no único ponto vulnerável do corpo. desmaiou e a fada o transportou para o seu palácio de crystal no fundo das águas azues.. seduzido pelas suas vozes mágicas. morrer enlouqueciam ouvindo os seus cânticos. fazendo abrir as águas do Rheno para engulirem os ousados que procuravam vêrlhe o semblante mysterioso e que antes de. avistando Lorelei sobre o rochedo com a lyra na mão. rt ' symbolo.CHANAAN 97 ao esposo..

não foi por estas bandas. mas como não soubesse a significação do nome. desempenado e de topete. Meu tio gritou para pôr a janta. frouxo e meio descadeirado... foi no Maranhão. nem a lenda nativa que a elle se prende. nós tínhamos acabado de recolher o gado ao curral.u>'h 98 CMANAAN e raro accento de linguagem .... Toma tento comtigo ! Moleque que era eu. meu tio. Os cabras traziam uma fome . y*«(^/con siderou/ como uma d'essas palavras ricas de som dóTdiõrha brasileiro enxertadas no velho tronco da lingua. lá se foi paraocampo. — Eh! meu tio! deixe de abusão para amedrontar gente pavorosa... que era o vaqueiro da fazenda. depois de muito pelejar.. quando nos puzemos á mesa. e nós. ria das palavras do velho.. Chegados que fomos... peei o Ventania que. eu trouxe da restinga na ponta do laço. socega com essas viagens noite e dia no matto por causa de rapariga... que. Qual! currupira é phantasmagoria! E tio Manoel Pereira passava a me contar rodellas e sempre arrematava : — Rapaz! toma tento! Um dia. Meu cavallo estava esfalfado de cercar um garrote arisco.. O sol já estava esfriando. disse n u m tom familiar ao mulato : — Conte-nos isso. coitado. que uma vez cunfupira te pega.. Joca ! — Ah! respondeu este.. porque eu sou de lá Meu tio Manoel Pereira na fazenda do Pindobal me dizia sempre : — Rapaz. seus quatro ajudantes.. preparando-se para narrar.

lambendo a bezerrada que do outro lado se roçava na cerca.. não me lembrava mais desse ajuntamento marcado para aquella noite. Eu andava de namoro com a cabocla. Uma vontade de vêr a Chiquinha me assanhou o corpo e me fez espertar. Te esconjuro ! — O que é certo é que as curimatás voaram para dentro. não formavam . — Pois sim. mas a idéa da rapariga me levantou o corpo cançado.CHANAAN 99 canina. que espantava minha tia. Vamos d'ahi Manoelsinho.. com sua cabecinha delicada como de sussurina. — Eh! gente.para a patuscada. No sabbado passado tinha tratado com a Chiquinha Rosa nos encontrarmos na ramada onde era a festa..... Depois nos assentámos na soleira da porta em frente ao curral. Eu estava derreado como um bode lasso Os outros estavam na mesma conformidade. as bananas não ficaram atraz e nós rematámos a boia com um trago da branca. parece uma fome de Satanaz. Aquella hora as vaccas choravam de cortar coração. Fiquei um tempinho meio desalentado.. fica quieto ! . moça espigada como palmeira.. dizia a velha nos servindo.. só ouvir o cabra. Os outros camaradas eram já maduros e casados. — « E o Formoso se desculpou disfarçando. Ah! meu sangue. Mas vae o Manoel Formoso e me diz : — Tu não sabes do baile da Maria Benedicta ?— Oh ! cabeça que era minha. se via logo que tinha algum negocio estipulado para outra banda.

E me . fpnis pedi uníí pouc7~da sua pommada de cheiro e éé$ / •fcis ffl/lfl? estava na ordem. Tio Pereira me vendo de viagem. / tur.— Rapaz. Depois. enrolei no pescoço o lenço encarnado que tinha comprado a um barqueiro no porto. com intenção de espantar algum jacaré que andasse na vadiação. que me deu um frio nos ossos.100 CIIANAAN — Bem. Vosmecê pôde ficar socegado que estou de volta a tempo e bato no seu quarto ás» horas. e tio Pereira que me circumdava n'um tudo. logo ao entrar da lua. Dei um mergulho e umas parapemadas. entrou aralhar. preparei-me com camisa e calça alva. meu tio. O meu lenço branco / estava desde a semana passada com a Chiquinha. então já que ninguém me acompanha. tu estás maluco. — Sim. <• Não quiz mais conversa com o velho. é só trabalho para os outros. « Levantei-me em direcção á fonte. Atirei-me á água. nós vamos fazer matalutagem na fazenda da Marambaia. disse meio arrevezado aos cabras molles. Passei depressa para meu rancho para mudar de roupa. disse : — Volta cedo que de manhãsinha. Bati na porta de tia BenU». porque filho de meu pae não engeita divertimento. /5^ l/ti -* a "Ella havia de me dar no baile. « Não me importei com a fala do velho e parti para a fonte.vara guardar no seio e perfumar com o seu cheiro. Ainda era bem de dia. Larga de banho a esta hora que tu apanhas maleitas. vou só.

A brincadeira deve estar influída. O sol G. . na ramada da Maria Benedicta. Atravessei todo o campo da nossa fazenda com vista a alcançar a ponta do Guariba. e as pernas me fraqueando.. Do Pindobal á ramada da Maria Benedicta eram bem umas duas horas de marcha. o coração a querer pular pela bocca... estava parado com os olhos tristes de peixe morto.. atirei-me para o caminho. — Brincar um pouco. só se ouvia um barulho de porcos que focinhavam a terra á cata de minhoca.CHANAAN 101 puz no olho do mundo com passo de ema escabreada. deve estar prevenido do seu. eu senti como tudo a rodar. pinga não falta. tudo lhe mandei eu. Joca. E vosmecê me encha ahi um quarto de restillo e me corte duas toras de fumo de mascar. patrão. virados para o lado do sol que se sumia. Mas tomei sustância em mim e me agüentei valente. já se sabe.. tudo estava bem secco.. me lembro como si fosse hoje. — Olha que tem passado por aqui muita rapaziada. aonde se bota tão paramemado? perguntou-me o portuguez. Mas a gente não se deve aproveitar dos outros.. « Xão sei si foi pela falação do Zé marinheiro que se me escaldou mais o sangue.. por ordem do Pedro Tupinambá. o pouco gado magro que havia. Quando cheguei para furar a ponta. — Então.. e ainda pude logo dizer ao patrão do negocio : — Eu vou correndo para lá. esbarrei primeira no negocio de seu Zé marinheiro. « Dito e feito. Olha. e.

Voltei a cabeça e não vi ninguém.« de toda a parte se apitava. andei. não estava muito boa. outro. nada. Assumptei de novo. Não dei importância ao sujeito e disse commigo: — Ha de ser o filho do Zé marinheiro.. — Que .102 CHANAAN já estava escondido e os vagalumes começavam a correr no ar parado. da bocca da estrada. de vez em quando um pica-páo n'um tronco de madeira secca batia as horas da tarde. Não havia viva alma. por cima das arvores. A areia estava mais quente ahi dentro que no meio do campo.os lagartos corriam estremecendo o matto. mas perdiam o seu serviço. do fundo do matto. e do estômago me subia de vez em quando um enjôo. parecia me estalar dos lados. Pensei: — É algum camarada que se vae divertir e me chama. porém. um grande calor me tomava o corpo. me largando de esperar. De repente. Continuei a andar. Só parecia que encontrava o terço acabado e a Chiquinha. outro. onde ficava do outro lado a casa da festa. Pernas para que te quero! A cabeça. e eu com a pressa de chegar comia poeira que era gosto. que se recolhe. porque a lua estava esclarecendo tudo. porque o pae não o deixa ir á festa. com seu par fixo para toda a noite. andei. Lá no fundo da matta havia uma aberta e me parecia que um vulto caminhava para mim.. Principiei a cortar por uma picada. cortando os ouvidos. ouço um assobio fino que vinha de detraz. que encurtava a distancia e sahiano campinho. Outro assobio me passava.

CHANAAN 103 bandão de corujas por esta noite. para que falaste ? A mattaria toda passou a assobiar como demônio. — Larga! berrei — O caboclinho com olíios de sangue me encarava — Larga ! — e eu sempre seguro. Ha de ser agouro. eu já estava com a cabeça tonta. porque elle estava perto e vi que não era o filho do portuguez — A modo que não conheço este caboclinho. — E elle torna a surgir. bem alto para intimar o cabra : — Olá. eparame socegar. O sangue me fervia. Não digo nada. — Armei o páo para cima. a cabeça me queimava.—Tive assim um arrepio de frio. quiz me valer do encontro com o filho do Zé marinheiro. o coração me batia a galope. — Onde se metteu o diabo do pequeno ? — Os assobios iam me rodeiando sempre. Mas quando eu me vi.que conversa é essa? Você anda me fazendo visagens ? — Não digo nada. Eu resmunguei: — Que faz esse sujeitinho que desapparece de vez em quando? Isto não é coisa boa. Então gritei com voz de susto. Outra vez vi o pequeno na minha frente. Os assobios de coruja não largavam.. Mas olhei firme para a frente e não vi ninguém. bocca.. tu me' pagas. quando o pequeno se sumiu de novo. Fiquei como um .. amigo. e eu comecei a ficar apavorado com a matinada. reparei bem. O caboclinho estava agora a umas dez varas de mim. o certo é que avancei para o pequeno com raiva de cego— Ah ! seu diabo. Nós estávamos assim a umas cem braças um do outro. estava seguro pelos pulsos..

e elle sempre duro. eu ouvi um berro de estrondo. para cima: eu dava de cabeça na cara do bicho. o mal encarado! Com o cabo de poucos minutos.. uma-feita n'uma vaquejada. o suor me alagava a roupa. tudo parado.. Mas foi peior.104 CHANAAN garroteferroado.. commandados pelo endiabrado... João... a lingua estava secca e dura que nem de papagaio. um berro de onça. Eu senti um medo molle e abandonei as forças.. e eu disse : — Vou morrer. abri os olhos devagarinho. os urubus cheiravam minha carniça.. Comecei a tremer de frio. gatos bravos miavam.. E os olhos se me fecharam como de morto. ah ! pensei que o malvado me deixava. Abri bem os olhos. Eu estava afadigado de tanta lucta. e agora alli zombado por um caturra ! Nós luctámos para baixo. catitú vinha batendo queixo. os gaviões desciam. os meus pulsos estavam desembaraçados : um grande calor me fervia o corpo . Com poucas eu estava no chão com o caboclo em cima de mim. as arvores mesmo* se curvavam me abafando. Avancei para o cabra com mais zanga do que quando me atraquei com o Antônio Pimenta.. ouvi cascavel tocar seu chocalho. alua era clara como dia... . Toda a bicharia se agitava no matto e caminhava para nós. Levei um tempãodesaccordado. porque outros berros se repetiram. sentindo os bichos me rodeando. mettia-lhe os pés na canella.. Depois tudo foi cahindo no socego. Lembrei-me de quanto boi valente deitei por terra. tudo tinha desapparecido. meu S.

foi para me bater a garrafa."logo que o avistes. Voltei para traz. muito longe. Passei a mão em-roda de mim. — São horas. mas lá vim assim mesmo navegando até á porta do rancho.CHANAAN 105 e não vi mais nada.. Mas tive então_um grande medo e tratei de abalar d'alli. « Dei por mim quando ouvi falar alto na porta. cáe aqui. caçando minha garrafinha de restillo e as toras de fumo. cacei. cáe . Tive medo de novo encontro. eu trazia uma sede de jaboti. Para espertar não ha melhor que um gole de canna e uma masca.. Levanta d'ahi.. cacei.. todo o meu sangue batia para saltar de dentro. cabeça com suas palavras : — Curjfupira te assom. Velho tio Pereira me veiu á. Nada. nem os bichos brabos. .ri bra. cachaça e fumo. dá. o samba devia estar acceso aquella hora. sahi no campo esbarrando com o gado. . os olhos me ardiam. atirei-me vestido na rede que com meu corpo sacudia como uma canoa no Boqueirão.. acolá.. Mas não encontrei nada. Leyantei-me de um pulo. Não tive con. Olhei para a frente e a estrada ia acabar longe. versa. Elles abriram a tramella e um clarão da madrugada alumiou o quarto. vinha como preto bêbado.. Era a voz de meu tio com o Formoso. a bocca estava grossa. Joca. Puz a excogitar que toda a pendenga que o caboclo me fez. Para tu te veres livre. E eu vi que n'aquella noite tive trabalho com currupira. Quiz correr para a ramada da Maria Benedicta. nem o caboclo.

Ficou como dia. 4 ' CHANAAN Quiz me erguer. Elle poz a mão em cima de mim e ed abri os olhos cheios de fogo. sendo o primeiro a erguer-se do /' chão. O velho segurou no punho da rede que estava balançando. Depois da narração os colonos ficaram scisl! mando vagamente. Tive vexame de relatar ao velho que era assombração de currupira. Cada qual remontou por ins//. . tantes aos princípios da sua vida/i as recordações jl . do passado encheram-lhes a alma de sombras e saudades. Do rio Doce e da floresta viIIIi \^m>^[idirn murmúrios W/fiflfop e os colonos em silen'" cio interpretavam esses sons da noite.' um f&j^4 repouso. principio de somno chegava como urryf tyij. Quem te mandou tomar banho cançado e aquella hora ? Não respondi. meu corpo tremia dentro como si houvesse uma dansa de todos os meus ossos. Os outros levantaram-se bocejando — um •.. ou como oity^ L/ dccetitod das mães d'agua. Felicissimo achou que era tarde e os convidou '^J~ /Jj. mas as forças não acudiam. resmungou zangado : — Eu não te disse? Apanhaste a maldita. sem mais aquella. seduzidos pela idéa de '. E meu tio Pereira.100 .$fy— *fl espreguiçaram-se satisfeitos. Meu tio mandou o Formoso abrir a porta e a janella. cubiçosas do amor hu- . a M r e c o l h e r ^ .

extranha a seus olhos e sentimentos. quando todos supplicam d chuva. os desfiladeiros o suffocavam de terror. / o deserto árido e triste. Já no dormitório os trabalhadores resonavam sobre os colchões estendidos no chão-. fazia-o remontar aos quadros da sua vida passada no logar do nascimento. e sobre e$e. nuvens descem quasi a tocar a terra. vários e inconstantes.. e então uma saudade o transportava para a longa planice onde vivera: Llldwa no verão o pasto todo morto.CHANAAN 107 mano. por toda a parte a sec/cura e com ella a morte. sem um fio verde. passando como / uma serpente jjfâfjjlÜll o caminho feito pelo pé do homem ou pelo rasto do animal. sem nuvens. é Joca ainda se remexia inquieto. os montes o apertavam. Nos dias claros. Era uma noite em claro que elle passava. e não achava agasalho na cama fofa e tranquilla. sem poder dormir. n'esses campos de Cajapió. ou como ruidos das vagabundagens tenebrosas dos currupiras'errantes. Nem uma gotta d'água. o amor violerrto do sol trazia o vasto campo fendido e cortado em pifWf. A evocação da terra natal alli no meio da floresta do rio Doce. cuja mobilidade se transmittia á alma plástica dos homens ahi formados. Outras vezes. tinha a garganta secca. No Espirito-Santo sentia-se Joca em terra alheia.. sentia por vezes a pelle a arder. c horizonte se confunde com o céu. o sol rubro '/**** ir^^ ' .

as segue. perturbado 'i *ij no seu repouso.ii das.. veloz e fdtyftf como uma ^eQlumna de fogo. envolvendo-as. ^V / fõõúpo recordar-se d'essas emigrações de ani^ / maesi. suífo(fêl^. E L • £> ' sempre a terra. Uma manhã lá no Cajapió^Joca se lembrava como si fora.teveXum arrepio e um Ímpeto para se erguer » do colchão. esquelético.. a visão da planície o perseguia. doir .. fazendo evoluções como um exercito em campo aberto. farejando o ar. as miragens se formam. Nem umagotta d'agua para refrescar ao menos a vista.. onde se revolvia agitadamente. De espaço a espaço passa um boi faminto. cando-as. corroendo as cobras que se estendem lubricas e felizes ao sol. dfó^se afastam inattingiveis. \ fo**fò!o Jj y //. como que surgindo subitas*do chão.108 '% . Manadas de gado se apresentam no horizonte. movendo os ossos n'um ruido desencontrado e surdo.. era depois das primeiras chuvas sobre r o campo. e elle se erguera de sua rede para vêr o tempo. mas serena. Varas de porcos vão fossando a terra. A madrugada estava orvalhada.tormenta no fim do verão. E assim a mobilidade do céo amenisa a esterilidade fixa da terra. "•• CHANAAN 1/ t •f . levantando o pó tranquillo que. galopando loucamente.estreitando o circulo visual7 tudo fó encenjfn'um espaço limiXadoJÍ o viajante caminha para ellas.na véspera) accordára depois de uma grande. passando n'um turbilhão como um . t a .. implacável. Agora... Um grande tapete de verdura fresca e humida parecia A/v ÀAÀ*'^^ j U > . '/} as tinge. sedentas. /flyi/^^^cyclone.

.. marrecas em algazarra. pousava aqui./ a outra emigração. de rejuvenescimento. ^. perdiam na campina alegre. um bando de marrecas passava grasnando. o gadofsd mostr/. levantava o vôo acolá. Em volta d'elles uma multidão cte aves aquáticas brincavam descuidosas e osten/ tavam as pennas de cores vivas e quentes..(JyLaproveitando a terra firme.inquieto e começa A . » u -*cial doa vermelho» guarás. ''4i4 nadando. de expansão e de vida. Vão lentos e vagarosos. Aci / grupe/ brancé . o pasto agora era farto.*». %bt^ji vens cinzentas. e quando mais tarde o dilúvio se in. E em tudo o mesmo milagre dè resurreição.. ia/tr. Eram os primeiros lagos. buscava ainda mais longe a região dos eternos lagos. a água serrupre—ccescente vae engolindo o campo. 5 . Dias inteiros de chuvas.~No-itmdo dos lagos. a do inverno. Massas chuvas continuam. ligeiras elevações da planície. Os olhos se... -./w^mettidos n'agua. quando o céo se/Vestia de nu. • terrompia. jassanarís Ietfés~? V*r•''' * e tímidas. e á tarde. èra o bando mar. caminhando para os refúgios.. $$d$fâ na vasta savana verde p o n t o s / ' * claros que eram o refrigerio dos olhos. < / » i 4-. multi*'" ' ' does de peixes borbulhavam por encanto.CHANAAN 109 ter descido do céo e coberto como um manto mysterioso o campo hontem mirrado. notava-se desfilar. fai. o gado festejava o rebentar da vida na terra e comia a herva tenra.\*-/ . Vinham/ V// pássaros de toda a parte : perrialtas com o seu bicqu-^ de colher. para os tesos. Já no meio do inverno a água quasi 7 . *----r:—7~*I ri r\ ' i ' P*1 JH %U ' ' d a s yirgingaygarças.^ .. mas sem recuar. a água porfiava em vencel-o.

como um grande rio sagrado. que foi o centro e o nervo do mundo germânico. Sobre elle repousam os grandes nenuphares.emquanto o somno JI o não arrebatava para o esquecimento. eÂstM que nascera nas águas do rio. e desfructado deliciosaas ír^rí/^^mente paizagens distinctas de cada espirito e os panoramas longínquos que foram os quadros da infância de cada povo gerador. Todo o idealismo da raça estava alli. mantinha-se inalterável. Em um grande lago manso transformou-se aquillo que fora mezes antes o deserto ardente e fero.. as múltiplas plantas aquáticas verdes. Milkau n'esse tempo scismava. reflectindo-se o seu vulto espigado á flor silenciosa das águas. ^ . vogando como pássaros.i l/J l/r sé- . EU/iínha / /' J saboreado as lendas ouvidas aos tropeiros e md a-"^U7 P a r e c i / fluo tinh^ arregaçado o véo que cobria a / alma d'aquelles homens. todo cheio de encantamento. yítújíia os quadros recuados no tempo e os quadros novos da epocha medieval. A vida mudara : descançava na cocheira o cavallo e Joca sonhava-se a empurrar a canoa. os novos deuses latinos.' ^g*" I CHANAAN apagou o campo.. um ou outro ponto apparece como ilha e n'ellas o gado está amontoado. e cujas louras nymphas eram as espumas das próprias águas. largas. Nas lendas allemãs Milkau via passar o Rheno. bruxas. cavalleiros andantes e castellos.110 ã i". penetrando no . creando phantasiás e mythos.

f^T*?'*' " dade. esse das almas dos povos ! O verdadeiro *• J V^C~ philosopho. #-— vinga-se e beneficia. seu perpetuo inimigo..os desejos. conforme a astucia ou *£-—** a força o exigem. pensava Milkau.. não só da historia ou da socie. as siras santas eram aquellas mesmas fadas do Rheno e os santos os velhos deuses sombrios e batalhadores. Mundo encantado e *u~<u^«mysterioso. será aquelle que co..+az. que é a sua encarnaçãoprefe/p ' rida.*4ly->nhecer as origens.. Ella espanta. mas de uma alma isolada. E Milkau ia lentamente a d o r . do ódio ingenito de uma raça com o amor /./ ( / c ^ ^ ' mecendOi feliz e socegado n'aquella bemfazeja 'J y /u*** ***** XZ">£&"*~ . de desvendar ^f^^Cvy^ nas cellulas cerebraes as remotas sensações vitaes f****"^ dos povos e que possuir a intuição para distin^ZJrs-fT guir na intelligencia de um homem a dosagem /*~r *p?+ perfeita do extranho precipitado da treva com a y/u * j pureza.T^-^A tos difíerentes dos homens. aquelle que tiver fr^^tír' o segredo de ponderar os espíritos." ^ ^ r das o encontro dos vários aspectos dos feitiços. Alli estavam a matta tenebrosa. que sacode do torpor tropical as feras ou que protege a natureza. intimidando o homem. d/jbfiÚfp1 de outra.. e -tr-r~i*<? cada um traduzia os instinctos. trapi^ortaf-se em mil figuras/'***'*'^^ em creança maligna. Na lenda do cur/upira outro ti mundo se descortinava.f>&* d******. /^~ as forças eternas da natureza que assombram e cujo symbolo era essa divindade errante que anima as arvores. Milkau sentia n'aquellas legen.. os habi.*-*CHANAÀÍiy 111 seu espiritcffici tranoformaraim em divindades barbaras. em animal ou vegetal. que era toda a alma do tro/Q peiro maranhense.

impeliido por uma força d'esse poder mysterioso que animava as moléculas mais intimas de todo aquelle mundo novo. pujante que corria para elle. que repovoaria o mundo e sobre a qual se fundaria a cidade aberta e universal. E Lentz sorria com orgulho na perspectiva da victoria e do domínio de sua raça. no seio de uma nova terra suave e forte. sentia-se esbraseado com o sol que inflammava ffijjjbféÀfy e lhe queimava o sangue. vi era o rio immenso. onde a vida fácil. risonha. perfumada. que seria a incógnita feliz do amor de todas as outras.miLavan/ deliciosamente até á sua alma.112 / CHANAAN noite tropical. Ora. sentia-se passar pela sombra humida da floresta cuja exuberância e vida se /. . seja um perpetuo deslumbramento de liberdade e de amor. E Lentz via por toda a parte •sj^~ o homem branco apossando-se resolutamente da terra e expulsando definitivamente o homem moreno que alli se gerara. ora. a escravidão se não conheça. em que elle expri- i. e o que era scisma da vigília se ia pouco a pouco transformando no puro sonho em que elle entrevia n'um horizonte illuminado. Um desdém pelo mulato. surgindo docemente. no meio de homens primitivos. . As visões accumu/ ^ ladas nos últimos dias de travessia da matta per/ de s i s t i a m em toda a sua força. ora.v t* 'Lentz dá esforçava""por dormir ej(jl debatia/inutilmente para afastar os tumultuosos pensamentos que lhe galopavam na cabeça. onde a luz se não apague. uma nova raça.

<^ nente . e eternos repousariam para sempre na alegria da luz. ^ recreio do mulato. e poderosos. eternamente na força da natureza que domi. sobre as náos que velejavam. ffly&yixiam'' y>^l agora em grandes massas. uma massa immensa e preta marchava no céo qual uma nuvem conductora. matando os homens lascivos e loucos que . Tddo **-/ Jelle era agora um sonho de grandeza e triumpho. Elle percebia no seu cérebro exaltado que os allemães íam. e depois se transformava n'uma figura extranha e agigantada. elles os eliminariam com o ferro e com o fogo. alli se fi^j^aram e macularam com suas torpezas //c*r* a terra formosa. ~r yMJjtí dixiam n'uma anciã de posse e de domínio.. >aporca^ i m m e n s ^ « ^ m ^ / e numerosas os desembarcariam em tõdo~ o paiz. Mas no sonho de Lentz.... Era tudo um recapitular da antiga Germania.. elles se espalhariam pelo conti. não para mendigar a proprie. não para lavrar a terra para . A Aquellas terras feriam o lar dos batalhadores f/r*'""' eteAos. aquellas florestas seriam consagradas aos cultos temerosos das virgens ferozes e louras.~ "" nariam como uma vassalla. sobre os exércitos que caminhavam./tf'4/ dade defendida pelos soldados negros. Ay/^ com sua áspera virgindade de bárbaros. .. fé xevigoxa>iJÍ erf&m. turvou-lhe a visão radiosa que a natureza do paiz lhe imprimira no espirito.. pela fatuidade e fragilidade d'este..CHANAAN l 113 mia o seu desprezo pela languidez. em cohortes infinitas. vift não em pequenas invasões humildes de OfuLíAii^ 'escravos e traficantes.. e ricos. e senhores. fundariam um novo império.

. Então (LentZN^yhj) pairar sobre a terra do Brasil a águia negra da Germania. envolvendo as terras e os homens c o m u m a força invencível e magnética..111 CHANAAN cujos olhos penetrantes desciam do alto..

avassallando com singular grandeza o perfil da matta. ^ Idas arvores cujos galhos outr'ora pendidos como * /chorões simulavam sorver a água. Milkau e Lentz muito cedo estavam admirando o logar. estremecendo n"um leve arrepio a humida superfície. A cheia domina toda a paizagem. devorou a vegetação das praias. e agora quasi submersos tingiam n'uma orla verde o cinzento pérola do rio. depois de se fatigar em curvas de réptil por entre os brandos contornos da terra maravilhosa do Espirito-Santo. No seu passeio approximaram-se do rio Doce.IV Na manhã seguinte. Era a única quebra da immobilidade. crivada de clareiras. que. sobre cujo dorso luzidio e dormente a brisa perpassava volátil. e a tímida linha de . As grandes chuvas dos dias anteriores tinham enchido fartamente o rio. A omnipotente amplidão das águas $ engoliu as margens. alli se desdobrava a perder de vista.

nevoas densas apagam por instantes o sol.. E que a felicidade é o esquecimento e a esperança.^^. aqui não ha um signal de soffrimento. indistincta.. Quantos elementos. o espalha como um tufão. para formar o quadro da vida. inundando de um só fff <w*4w&Ç°lorido. porém.. sensação extranha e bVils?^.. ]$(/%$$/ a natu/. fulvo amarello. E hoje me sinto feliz como jamais pensei que o seria.. a sombra cobre a terra e faz a côr. Milkau e Lentz sentiram n'aqueíla 'M. Parece-me que attingimos uma região aonde não chegam os gemidos humanos.ÊOL. tudo é Wy vida fácil. Abre-se uma trégua para o eterno conflicto da luz e dos tons../ "reza humana é feita para o goso. com que facilidade não a esquecemos. Emanadas das águas. risonha e amável. e como um só minuto de descanço não nos dá a illusão da eterna calma! — E que nós somos victimas dos divertimen- . suspensas sob o céo. como esta tranquillidade. — Não ha nada. „ cerração o delicioso momento da resurreição das cores esplendidas e n'estas voluptuosamente repastavam o faminto appetite da vista.. não estão em nós para afastar a dôr .110 CHANAAN montanhas ao longe. e a dôr. o espaço e j^/í$54átí|0r íião é a larga e quente paizagem monótona. onde o crepúsculo é um sonho fugaz e a noite cáe como uma cortina negra que iechaftjfâkl^ V ^ r ü X .. jfonydMljto dia. dizia Milkau emquanto andavam. e o panorama que se apresenta não é o constante dia de sol pleno. por isso mesmo o prazer lhe é mais inherente e imperceptível.

que por esses pérfidos e doces venenos cujos segredos ella possue.. — A esperança..CHANAAN 117 tos da natureza. n"este grande scenario. já que não podemos apagal-as de todo. para martyrisar-nos ao seu sabor. distinguindo-se pela vontade. A nossa superioridade sobre ella. saltando pelos séculos de humilhação. forte. o prazer mais do que o soffrimento. — E eu também vejo aqui a terra immaculada com as suas grandes energias de felicidade. e n'ella viverei para vêr reconstruída a cidade antiga. nos acorrenta á vida. que começa ainda virgem de sacrifícios. as suas fatalidades e nos obriga a tomar o caminho mais seguro para a harmonia geral. disse Milkau a sorrir.èl/ti^ Ella J^yc^não existe como entidade. — Mas a vida é mais natural do que a morte. E tu emprestas n/ á natureza uma consciência que ^kM. e a vida nova se abra-para nós como um sonho realisado. Adormeçamos as tristezas do nosso passado. dominadora. que percebe as suas leis. temos de tirar o verdadeiro sentido da nossa excepcional situação. Muitas vezes tinham de abandonar 7.. venha renascer aqui.. está exactamente nessa consciência que é nossa. se apodera de nós e nos arrebata para o futuro. aqui situados n'este mundo.. . Não é verdade que somos felizes ? Pela linha da praia que a enchente tornava apen as uma vereda Comendo o mattoJEóntinuavam elles o passeio.. tu sabes. que. E hoje.

. sem '. outras passavam aos pulos. disse Milkau quando chegaram a um trecho desembaraçado da praia. — Hoje. amanhã será a preza do homem. que no nosso caso é o agrimensor Felicissimo. de pedra em pedra. K ^ — Çtyahkjfld mim. abandonados á sensação agradável da fresca manhã e á volúpia das illusões. de talhar o nosso pequeno lote. O que está hoje fora do domínio. — Oh! não haverá difficuldade. a sua opulencia. replicou Milkau. dentro da vegetação .. e pelas minhas próprias mãos. a ambição. É antes a venaiidade de tudo.. E riam com essa gymnastica. como que alargando o espirito n u m conforto amplo e bemfazejo. eliminava o enfado.. mas o que havia de monótono não fatigava. porque a vastidão das águas. Não acreditas que o próprio ar que escapa . que chama a ambição e espraia o instincto da posse. n'«ste deserto. — O Estado. uma ligeira inquietação de vago terror se mistura ao prazer extraordinário de recomeçar a vida pela fundação do domicilio. devemos escolher o local para a nossa casa. sem posse? i>> n..#M*i — o que eu vejo é o contrario d'isto..118 CHANAAN o caminho e cortar pelas picadas. — Não seria muito mais perfeito que a terra e v J 0 suas fqJfH fossem propriedade de todos. desdenhou Lentz. O que é lamentável n esta solemnidade primitiva é a intervenção inútil do Estado.' venda... Por longo espaço o panorama era immutavel.

CHANAAN 119 á nossa posse. não vês a propriedade se tornar cada dia mais collectiva. Todos mostram a sua doçura intima estampada na calma das linhas do rosto... se estenderá a tudo ?. chamar a mim outros trabalhadores e fundar um novo núcleo. . Os naturaes da terra são expan- . com a suppressão da idéa da defesa pessoal. não o ampliarei.. . Porque só pela riqueza ou pela força nos emanciparemos da servidão. desejarei ir alargando o meu terreno... nas cidades suspensas. ponderou Lentz. dos museus. sinto um perfeito encantamentqjjião é só a natureza que me seduz a q u L ^ u e m e festeja) é também a suave "contemplação do homem'. que signifique fortuna e domínio. das estradas. n'uma grande anciã de acquisição popular. mais tarde. . explicou Milkau. — O meu quinhão de terra. ficarei sempre alegremente reduzido á situação de um homem humilde entre gente simples. não me abandonarei á ambição. que se vae alastrando e que um dia. Desde que chegámos. dos palácios. Ha em todos uma resignação amorosa. O sentimento da posse morrerá com a desnecessidade. será vendido.. idéa de converter-me em colono. — Pois eu. depois de se apossar dos jardins. como é hoje a terra? Não será uma nova fôrma da expansão da conquista e da propriedade ? * — Ou melhor. ha como um longínquo afastamento da cólera e do ódio. si me fixar na ' dt<. • que n'elle tinh* f /*> jfflfâ/f #jL5fc-. será o mesmo que hoje receber..

. Ha-de haver uma grande união entre todos.. corno si despertassem. estão tranquillos e amáveis. o próprio chefe troca no lar o seu prestigio pela espontaneidade niveladora. não ha grandes separações. a justiça será perfeita . vou procural-os para um dedo de prosa. agarrando com enthusiasmo as duas mãos de Felicissimo. Tivemos pena de accordal-o. eu adivinho o que é todo este paiz— um ninho de bondade. que se atirava a elle n'um gesto festivo e bondoso. não haverá conflictos de orgulho e ambição. — Bom dia. —. para só pensarmos nos outros e não perturbarmos a serenidade d'esta vida. visto-me n'um pulo. Vendo-os. e viram a cara triangular e interrogativa do agrimensor..120 CHANAAN si vos e alviçareiros da felicidade de que nos parecem os portadores. Os que vieram de longe. não se immolarão victimas aos preconceitos abandonados na estrada do exilio. No encalço d'elles uma voz clamava.que éo feliz gênio da sua raça. de olvido e de paz.. disse Mirkau. tirando-os da divagação : — Mas então que fugida foi essa ? Para onde se botam ? ^ Voltaram-se. que vinha quasi a correr. — Pregaram-me uma peça.. esqueceram as suas amarguras. Accordo. pois havia um s / .... e os meus amigos já tinham azulado. Todos se purificarão e nós também nos devemos esquecer de nós mesmos e dos nossos járxjinzo^.

seguia impre. aos saltos e trambolhões.. — Aqui mesmo n'esta direcção. >' ' Crot_ correndo sobre a Terra. o' «• rio chammejava em ouro. Inundado pjflffl/táfytóffl de amarèllo.CHANAAN 121 grande silencio na casa quando sahimos. olhando rapidamente para os lados. insistiu o agrimensor. farOvxA*' — Estão cançados ? gritou Felicissimo. Voltaremos ao barracão á hora do almoço. — Não acha. E Felicissimo. e eu lhes mostrarei o numero dez. — Pois eu.. distrahidos. Felicissimo frimnn i fn ntr.. nem nada.. E ' -^tu o sol que se desprendia das" nu vens. E. puz-me á caça de vocês. A conversa ia-se vàidndo em vozes altas. um kilometro. farejei aqui e acolá.. concluía orientado : — Aqui devemos estar no lote vinte. e fui bem feliz em ter virado para esta banda.menos. como si fosse toda a <Z//. 'muiiln pi In i nnurnr. semiequencia. grande e incandescente massa do sol derretida. caminhando um a um na estreita beirada. E nem tomaram café. viemos até aqui.//</«•*vista. andemos um pouco. transformava com violência'. nevoenta.o //ddjiéado quadro da manhã M/pe^. melhor desistirmos fi &jfH e aproveitarmos o tempo para um passeio uj ^ mais longo ? — Seja. /srK<™ZC .. disse Leritz. Porque não aproveitamos para ver^seso lote de que hontem lhes falei ? — De que lado fica ? perguntou Milkau. mais ao .

galhos e dos arbustos. — Cuidado ! implorava este a sorrir.G4fi. tudo é agreste e selvagem.ffbos com a mão. Oh ! diabo! O agrimensor n"um falso movimento metteu o pé n'agua. Lentz. não ha a menor sombra de conforto. porque realmente tomámos pelo peior. calado. — Tudo aqui será uma grande difficuldade. si tivéssemos vindo por cima. outras era preciso djÁ n 6Q. tomando um largo fôlego. que não era muito batida nem destocada. O agrimensor divertia-séem yí-aLÍ- /. não ha estradas. de instante em instante : C á direita ! Agüenta! — Com a mão À/jfJjffl/ ° ramo. tudo ia bem.. iam vagarosamente. — Arre! Que brincadeira! Nunca pensei que o rio estivesse tão cheio. E assim foram até que. Agora cortemos por aqui. e virou-se para os immigrantes. Lentz que o seguia. — É por causa do caminho. e quando via este ^ ^ á ^ í l p e l o companheiro. em frente a um atalho. evitando os tropeços e as poças d'agua."" UiYfA..hJjo C/ gritar nara traz. largava-o.rosto ou no corpo do vizinho. As vezes era precipitado. á direita. Felicissimo enveredou por este.12-2 CHANAAN — Que juizo faz de nós ? perguntou Lentz. Não é melhor . Algumas vezes tinham de se abaixar para se desviarem dos iii. suspirava bocejando. que vamos srahir mesmo dentro do lote. e uma lambada forte e farfalhante batia no.*/ Xí^jtz**n.// j J\^_ . recommendou-lhe cautela. pensava elle. saltando ligeiro para deante. Passando para a ligeira sombra do matto e caminhando pela picada.

. que loucura dfffax-me n ' e s t a / ^ ^ . disse complacente Milkau. e matando a solidão... Em geral. — E pena que a estrada não seja melhor para gosarmos desembaraçados este passeio. receioso de deixar transparecer o seu desalento.^ campanha contra a natureza inculta! Não é pxe-' LL&Á/ ferivel toda e qualquer outra vida a esta ? Não é?. limparemos as estradas. que lhe sorria como um bemaventurado.. . ao seu terreno e esperam que o governo se mexa. levantaremos uma habitação risonha. que havemos de abrir caminhos por tudo isto. sabe. e. os colonos não querem fazer nada... limitam-se á sua casa. E os seus olhos descançaram em Milkau.CHANAAN 123 que eu desista de fazer esta vida de colono. — Que delicioso deserto! dizia-lhe este. respondeu o outro quasi timido. — O h ! descança. cortou o agrimensor. — Imagino que o senhor deve ter muitos aborre cimentos. e nós estamos a levar carões todos os dias. E que não se faça! Lá vae uma queixa por intermédio do Roberto ou de qualquer outro figurão ao governador. a política se mette no meio. Não é verdade ? — Aqui não falta em que trabalhar. que lhes dê estradas. onde o caminho já esteja aberto e tudo aparelhado pelos / / outros? Realmente. pontes e tudo mais. que nos recompense. prepararemos o terreno. ao penetrarem mais e mais no matto espesso. e me enterre ahi n'um armazém de commercio.

e é preciso fazer a ponte de novo. o páo vae apodrecendo dia a dia.l-2'i //. Sou um seu creado. — Ora.. — E n'este tempo que recurso têm os moradores. o inspector não se importou com o que disse o pessoal. tenho um officio do inspector. que são matreiros.. que por sua vez o mandou para cá. os colonos porém.. inspector e toda essa recua. o governador se assanhou logo./ ' CHANAAN — Não faltam amofinações. Andaram mais um pouco pela picada e sahiram vertical- . A zanga do agrimensor era d'essas que passam á medida que é espraiada n u m desabafo de linguagem. a fim de fazer o orçamento das obras..estou me ninando para o governo. mandando o engenheiro informar a respeito fájj&ffl representação dos colonos sobre uma ponte que está com o madeiramento estragado. Creio mesmo que já cahiram uns páos . mandou o papel ao inspector. e . muito simples. elle tinha esquecido tudo e voltava á sua jovialidade. será muito pouco. porque o tempo não descança. Isto leva ainda um rôr de tempo. ao engenheiro... com medo das eleições. si a ponte cahir? perguntou inquieto Milkau. foram á fonte limpa.. e Roberto arranjou com elles um « nós abaixo assignados ». Immediatamente depois. como de costume. Lá vem outra vez segundo barulho. Botam uma pinguela de lado a lado e vão vivendo.. nós pedimos verba e. E a minha vingança é que quando vier o dinheiro. que mandou para a Victoria. Agora mesmo.

. fazem um arranjo com a turma./ .. Vocês. impacientou-se por uma resposta.. Os outros olharam um mattagal cinzento. j&W*' — Está aqui o lote que lhes recommendo. não nego.. É preciso um pouco de trabalho. o que não é nada. disse ' Felicissimo.. de separação do mundo os mortificasse por instantes. com as arvores crescidas e todo tapado pela vegetação. e elles acabam isto n'um abrir e fechar de olhos.. disse Lentz arrastado. a quem uma onda de illusão sacudia o torpor da instantânea cobardia. em cujo espirito trefego e intempestivo o silencio não tinha abrigo. andando mais uns passos pela nova estrada. . concordou Milkau. a difficuldade está na limpa. Não viam nada de lado a lado : a vereda fora aberta em plena matta e tudo era encerrado n'uma som. vejam que terra cada páo de respeito. — Estou por tudo. / ^ T ^ 9 í Ficaram mudos e como ligeiramente apavora^ dos pelo recolhimento das coisas e como si uma sensação de isolamento. Felicissimo. Depois do roçado. e ? dissimulando a divagação dós seWoutros pensa. / ./v b r a j f ^ / e calida. porém. Oh ! Ha de ser um gosto ! — Aqui estamos bem. que era forte e traduzia a fertilidade do solo. accrescentando : — Este lote é muito bom.CHANAAN 125 mente a' um caminho mais largo e mais limpo.X / / mentos.

e então dispensará para subsistir o sa«/crificio dos animaes e das d/fyff. disse compassivo.. Nós a eliminariamos. atacando aTerra. CVi^A^y^ rto> t*+.. de arrancar do seu seio pela força e pela violência a nossa alimentação. acudiu Milkau. ha de sempre destruir a vida para crear a vida. e firo menos o que ha de material n'ella do que o seu prestigio religioso e immortal na alma fiumana. adaptando-se ao meio cósmico por uma extraordinária longevidade da espécie. E Milkau disse com a calma da resignação : — Comprehendo bem que é ainda a nossa contingência essa necessidade de ferir a Terra..\>í. — Faz pena.offendo a fonte da nossa própria vida. mas virá o dia em que o homem. como succede com os vegetaes.126 CHANAAN E apoiou-se negligentemente a uma sucopira.Por ora nos conformaremos com este momento de transição. levado pelo mesmo sentimento. preferiria um lote onde não fosse preciso esse sacrifício. — Eu.íw+***- l—J . — 0 homem. respondeu Felicissimo. Sinto dolorosamente que. receberá a força orgânica da sua própria e pacifica harmonia com o ambiente. por mim.. O agrimensor olhou a arvore. botar tudo isto abaixo. para nos expandirmos. E depois. que alma tem esta arvore ? E que tivesse. notou Lentz a sorrir com ar de triumpho.. Emquanto os outros se batiam em ^ptAtevrad.. — Não ha nenhum.

á beira da estrada. — E vê-se bem o rio ? indagou Lentz. Na estrada </4<r/ " ? ^" falavam alto. alvoroçados com os vários sentimentos que os trabalhavam. *Z. que se escoava de ^rtodas as arvores. como /s u l t i m / s $ 0 f ô « . — Sem duvida : é só desbastar o matto.os troncos. — Será uma delicia uma casinha n'este bello logar. Puzeram-se a caminho. que decidem ? perguntou aos outros o *<*?' / / agrimensor... e com a mão meiga lhesjfestejava . além disto. estabelecendo terreno indicado. no seu amor ingênuo á natureza. levantando um V* murmúrio baixo. que jv*.. como as queixas surdas dos mo-1—«t^^i^j-A^ ribundos.CHANAAN 127 Felicíssimo. *<^* A^~ * t~ sy**w/y y . folhas passava brandamente.. commentou Milkau n'uma irradiação de intimo bem estar. dadas ás victimas no momento do sacrifício. são horas do almoço. ^ A aw— Então. E agora toquemos para o barracão. E hoje mesmo voltaremos com os homens para a medição. — Fazem muito bem. humilde. mirava as velhas arvores. é muita commoda aqui. tro da matta penetrava o vento da manhã e nas y \ . — Hão de ver. Vien-Z^AM. e. espantando os pássaros dormentes e c ^ J^ \ sacudindo do voluptuoso lethargo os calangos. porque esta situação é admirável para o café. ahi está á vista o estirão d'agua.1++& Os immigrantes concordaram de bom grado em j ^ .

As folhas dos requerimentos eram formulas impressas.se concentra nas mãos reduzidas de um humilde agrimensor. Este furtou instinctivamente o corpo como para não ser esmagado pelo gesto da intimidade. afinal. em frente ao grande mappa dos terre[ nos. toda a complicada engrenagem do Estado. graças á condescendência do chefe. á semelhança dos outros que já tinham sido concedidos.12S CHANAAN se escapuliam pelas folhas seccas. n'uma musica de chocalho.escolhido. os seus innumeros funccionarios. foram logo para o escriptorio. Chegados ao barracão. pagaram as custas da medição e da planta. pois ainda não puzeram nada no alforge. e em uma d'ellas Milkau teve de encher i com as indicações especiaesde identidade os pontos em claro. o agrimensor mostrou-lhes a posição do prazo *« A. com f l^t/iS™^'/ ás suas repartições publica/. marcou o lote com uma cruz. que de facto é o senhor absoluto d'esses bens públicos. molhando úma penna em tinta &JU*^ encarnada. e foi esta a única formalidade para a entrega do prazo. disse Felicissimo passando a mão espreguiçada no hombro de Lentz. e ahi. continuando nos mesmos elogios. Felicissimo punha e dispunha das terras a distribuir. — Vamos á boia. Os trabalhadores já rodeiavam a mesa prepa- ^ 1 ^ ^ ^ . que já vae ficando tarde e vocês devem estar dando horas. pensava Milkau. E eis como. pois. ao mesmo tempo. e. Isto feito. ^ V &i&&*y&€sr+y • fu*~ **' . os dois companheiros entregaram a petição assignada.

O boccal do barril era pequeno para tanta gente. Uma alegre algazarra se formou. uma súbita preoccupação_£8 apossoü^aelle. e que era o prenuncio das medições dos leites. gritou Felicissimo. Por vezes. E á voz de commando a alma obediente dos homens serenou e todos em ordem terminaram a ablução. bufando. Depois armaram-se com os instrumentos e ferramentas e puzeram-se em marcha na frente. Isto espalhava na mesa uma leve melancolia. e por mais queluctasse para disfarçar. que refreiava a expansão. rindo sem saber de que. esfregando depois as caras com estrepito. não poude resistir e cahiu n u m a scisma profunda. No terreiro cercaram um barril d'agua. Felicissimo com os novos colonos ia atraz.CHANAAN 129 rada pobremente para o almoço. mas alvar e gostosamente. — Vamos! aviem-se. e os homens rindo disputavam entre si a precedência. habituados a essa afflicção intima do agrimensor. os homens da turma. d'onde o semblante do chefe carregado de sombras os expellia mais depressa. Mal acabou o almoço. retiraram-se do barracão. Para o fim. arrastava-o no meio de amáveis insultos. Felicissimo passou a entristecer. cada qual esmurrava o companheiro. no caminho. A refeição a principio correu ruidosa : todos estavam expansivos pela fome e pelo começo da familiaridade. quando os outros entraram na sala. em que mergulharam as mãos. Milkau cortezmente procurou con- .

130 CHANAAN versar com o agrimensor.jb í **** / %2tl ' ÓZs-c frjb* y*^~ ^T^ JÇ^ o*». yfc-*» *** % »* f ^ * < 1 * 9 y%. e re aquelle passou o agrimensor a atarrachar o instrumento. Pediu J|KM cavalloto om fôrma de t r / que um homem lhe apresentou rápido. que recebeu em suas mãos com febril anciedade. toISÜS?" 1 0 " P o s i Ç a o c o m ° s e u fftffflífofri e ordenou a três trabalhadores que seguissem pela frente da G*) f—J estrada com ds marcoo. Então seguiam em silencio. / W "& 11 *V*-. . Havia uma calma grave em todos. ruminando os seus pensamentos. disse com solemnidade : — Não sei si os senhores conhecem. depois de andarem bastante. soturno.+ h* .' o t r V A ^ • ~~ *-***: .? brancas e encarnadas. Isto é v theodolito. quo sram^balisas pintadas / / / em zona. se mettia comsigo. O X agrimensor os acompanhava com uma compenetração religiosa. que. — E aqui que temos de abrir o rumo. ^ „ S í£. / Os trabalhadores começaram a desatrelar os instrumentos e os seus apetrechos accessorios. abrasados pelo calor do sol. E virando-se para Milkau e Lentz. Estupenda invenção! Dispensa grande trabalho para levantar as plantas. Hoje fazemos U >. em que Felicissimo deu voz de alta. Todos pararam mecanicamente. Houve um momento. Depois de algum tempo. que mesmo no matto coberto era abafadiço. e foi com certa sofreguidão que viu abrir-se uma caixa e d'ella ^ r e t i r a r um instrumento. mal respondendo ás perguntas. / medições emquanto o diabo esfrega r/olho por- / Q. e o moço cearense entregava-se á sua tarefa com extrema attenção.

. torcendo-as ora de mais. E a afflicção do agrimensor n'aquelle dia redobrava á vista de Milkau e Lentz. ^ para quem dkjí preparava a scena da sabedoria. Voltava ao instrumento.7 ainda mais solemne e entregou-se todo ao instrumento. sempre com insuccesso. a ponto de insultar e espancar os seus homens. com medo de algum desabafo. no chão os pés queimavam. voltava a rectificar as lentes. parecia interminável. ora de menos. Em roda faziam um timido silencio os trabalhadores. Grande invento! Sem elle não sei como me arranjaria! Os novos colonos conheceram pasmos um novo Felicissimoiy não sorriram.CHANAAN lál que. E só n'elle/ Felicissimo se transformava. abaixava-se. Elle tem hoje o ... espiava outra vez e sempre o mesmo resultado negativo. O agrimensor calou-se ^nrt*«*«. que conheciam esse momento terrível do theodolito. erguiase para espiar por cima. . sem resolver-se a medição. como sabem. — Ah! disse aos hospedes. mas ora teimava em seus movimentos. O tempo ia correndo. f//~r O sol esquentava. e para Felicissimo. Cada um o temia e instinctivamente se ia afastando do apparelho perturbador. um suor frio e extenuante alagava o agrimensor. tornava a ageital-o. Já o tomava a angustia de não acertar. atado em sua angustia. ora abandonava o apparelho e ia miral-o de longe. mirava na objectiva. é a combinação do nivel e da altura: toma-se um angulo horizontal e um angulo vertical ao mesmo tempo..

. evitando maiores conseqüências da cólera do chefe. é melhor. disse-lhe : — E melhor deixarmos isto para amanhã. Hoje está muito quente. . enfraqueciam-no.^ O homem «e desculpo u-f dizendo que arreiára o marco quando o chefe já não estava no apparelho. si . eu logo vi que era você que não me deixava pôr em ordem o theodolito. Mas para não perdermos tempo.. 'cww E c o a v a raivoso o grupo dos trabalhadores. Felicissimo ficou colérico. — Sim. quem sabe? O theodolito pôde estar quebrado. Felicissimo arremessou-se ao primeiro : — Oh! seu ordinário. mas a anciã e a vergonha do insuccesso não davam forças á sua ira. Uma grande tristeza se apoderou d'elle. e agora definhava no desespero de conseguir qualquer observação. Voltou ao instrumento. Com certeza ha alguma coisa ahi dentro. E. N'este tempo os homens das balisas estavam fatigados e começavam negligentes a oscillar os marcos. Almoçámos bem. tornavam-no gago. que agradeciam com os olhos a presença dos novos. Deixe para amanhã com a fresca. Com certeza foi quebrado por algum d'esses miseráveis..132 CHANAAN diabo no corpo: não consigo vêr nada. afastando o páo da linha. depois. Milkau com pena. murcho. tínhamos andado antes. o senhor está fatigado. Ao contrario.. e em casa mais á vontade o desarma para vêr.

um pouco sarcástico : — Vamos á fita! A medição fez-se como sempre. a alma de Felicissimo se ia libertando da angustia.tf1/ telligente. lhe alterava o caracter. o allemão parou. dizia em aparte Lentz a Milkau. e o seu jovial humor o retomava francamente.. porém.. Os trabalhadores ráj&taa^fcss todos com ar in. — Com certeza. o punha fora de si e era causa d'esse terror cujos prenuncios lhe sombreavam o espirito desde o fim do almoço. E um systema atrazado e de que não gosto.CHANAAN 133 fizéssemos a medição com a fita?. desinteressado do theodolito. que sobre elle exercia uma influencia satânica. s . apagando os traços da agonia scientifica.. não ha remédio. não conseguira trabalhar com o maldito instrumento. As medidas foram tomadas na fachada da frente do terreno e nos fundos dentro da matta: postes fincados nos quatro ângulos assignalavam o lote adquirido pelos dois immigrantes. — Guarde isto. mas emfim. alteando a voz. apontando desdenhoso para o instrumento. Elles sabiam bem que o agrimensor. E como o agrimensor se approximasse d'elles. disfarçou. em mais de duzentas medições. ordenou Felicissimo a um homem.. abrir o s . Faltava. o apparelho está quebrado. Cumpria-se a velha e costumada comedia do theodolito. A medida que o theodolito ia desapparecendo na caixa. — Estes mulatos.

— Não seja essa a duvida. e derrubadores em grupo combatiam ao mesmo tempo uma pobre arvore. os pequenos arbustos. O rumo ia sahindo acanhado e torto. dos outros. O cearense objectou que a planta não estava tirada. O machado cantava com energia no âmago dos troncos. e Milkau *» entendeu^com os homens. os homens como que despertaram da sua instinctiva preguiça e estimulados á vista dos extranhos se atiraram duramente á derrubada. O ferro não descançava nos braços sempre em movimento. Havia uma raiva.. n'um compasso vagaroso. O agrimensor bondoso e serviçal acquiesceu. Momentos depois.L1-Í "rrvotfáy CHANAAN rumo que separasse de lado a lado este quinhão de terra. uma fúria hysterica de destruição. os marcos estão collocados e o rumo irá sendo aberto com as balisas e medidas rigorosas. Ouvia-se cahir o machadodes- . disse Milkau. ainda receiosos de ^ yJMp^x/n^r ú^J trabalho. a principio « W iam escolhendo. para cortar. Milkau dirigiu-se a Felicissimo e perguntou-lhe si podia contractar com os homens esse serviço para aquella hora mesma. os trabalhadores estavam a derrubar o matto. e em pouco tempo estavam completamente alheios a tudo e entregues á sua vertigem malvada. si este não sahir de accordo com a planta. ladeando quando se encontravam com uma arvore mais robusta. Nós tomamos a responsabilidade de abrir novo rumo. Mas quando miraram o serviço feito.

e a alegria' se lhes espraiava nos rostos congestos. o golpe era tirado bem do chão. e das / / / ? boccas rudes deixavam sahir os velhos cantos amados. campo. matto. Iam para adeante. Era o grande acontecimento.distrahiam-se. Em outros momentos j . o suor lhes escorria. tudo o que mais amava com as intimas. Quando estes encontravam um páo mais duro. o drama da sua vida esse abandono da terra natal. O mulato maranhense dizia as saudades do seu coração.CHANAAN 135 locando o ar e arrancando um ronco forte dos robustos peitos dos devastadores. Algum dia te verei. E elle o cantava sem attender a ninguém. energias do seu ser humano. agora harmônicos e regulares. habituados ao exercício. cravando mecanicamente o machado nas arvores. Não mais roncavam com a anciã dos primeiros movimentos. serenavam. Adeus. casa onde morei! Já que é forçoso partir. E cantava n'um tom que era um longo soluço : ///óCLeal-i ^J r //J7 u 4k Adeus. Joca fora o primeiro a soltar a voz. e no impulso furibundo o ferro penetrava tanto que. paxá J(éffifá0$\° homem tinha de fazer um esforço desesperado. e adeus. Os allemães instinctivamente o imitaram e cada um em sua própria lingua cantava versos bebidos na fonte natal. agora. A pequena fadiga fazia bem aos seus membros hercúleos. redobravam de ardor.

e por um momento alli mesmo. mais um). Si o teu rasto faz chorar! Jb e***rüjj'*''N'esta imagem tão ijina-e-tã-e---mpEtior de um sentimento animal.. noch ein. Teu rasto faz chorar.<fQI/ e mais alegre.. » (os velhos allemães bebem mais um. e dos seus labi<*§ inconscientes sahiam versqp de outro caracter : Vi o teu rasto na areia E puz-me a considerar : Que encantos não tem teu corpo. e os versos que diziam eram echos das tabernas do paiz germânico.l-M CHANAAN abandonava esse queixume. dléMàMa' embebido na contemplaçãolcorrer y\. os immigrantes sonhava beber. Noch. $**~ os immigrantes sonhavam-W pela suggestão das t r^~. Joca se expandia ém gritos voluptuosos.y . noch ein. que se casavam no ar n'uma 'união extranha. /reunido^ aa beb L Jt'I « Die alten Deutsche t: fen noch ein.' qju /cantigas. A esta solitária voz brasileira se juntavam os accentos fortes e musicaes das vozes allemãs. Perpassava na cadência e no pensarríento da estrophe o frêmito da lux-uria meiga e jj-----^ .«(\ / -Miifetba-iJStavia uns diasjno alojamento dos immigrantes. Elias cantavam em coro. 'dl&g^ed. em plena selva tropical. e ruidosos : . fií .. Os echos recolhiam as rimas singulares das duas raças. i r i 1 ' doce de toda a sua raça. A derrubada do rumo proseguia mais activa V.. — .

n'uma subor/y^t^t^. y»**r«M£tTudo vive.„•£$»«-.-L-U. por toda a parte destruindo como um r^^. quando se chegou a Lentz.CHANAAN 137 o tempo-. Pouco depois. a A ^T '• queixa da floresta ardente.(gn 'OÃÕHse decidida começar essa vida. que lhes pareceu mais resequidi Antes que a labareda . N'um dos ângulos da matta lançaram fogo á primeira moita. ' '^T^y. i Uma piedade indefinida deante do sacrifício da matta o entorpecera. tudo tem uma voz. e disse ^*~ *£«*_ resolutamente: 'TL--»**' t u — Temos de queimar o matto. ^ -T^ A idéa do fogo chammejou no espirito do com. de quem vae cumprir os ritos de cultos infernaes. uma fumaça grossa se desprendia do . dinação indiscutível e indefinida. E em roda d'elle a vida em tudo : na terra gera. Sentia que um pouco da belleza O e do esplendor da terra ia morrer. á necessidade. architectada pelo seu coração em longo sonho. Mas. passando indiffcír^y ferente sem ouvir o gemido do mar rasgado. o estremecimento do ar tj» . fatal portador da morte a integridade da fôrma. Milkau perdoava ao homem. I rápidas. /^. ainda assim.**• cortado. Comprehendia a fata-^l^S?Z lidade do seu destino e resignava-se.Í^~«A'-*" panheiro. no pó que pisa. {/' dora./ / y n i d o s ^ * todos penetraram na floresta com um recolhimento sacerdotal. rubras. E Milkau vibrava_^__ !?<yZf com a recordação de todo o soffrimento que o AM^4^* I homem tem causado no mundo. l/-«/r~-#^ Amanhecia.. na mulher que elle ama.^^" p*^ monia eterna do universo. apontasse para o alto as línguas ardentes. os homens fftfflfy reu. uma alma na har..

*» * T * ^ . pairando sobre o fumo. Estas estremeciam n'um delicioso espasmovPá ' " ú L j . Os ni.f ^ ^ ° r " Toda a ramagem da base foi ardendo.?*.yf l/ v< ^ ei^ ^ perado. e a fumaça augmentando entupia 'ff+l "i l^yr— f*. e estendendo os braços umas <"jj£" */i A ás outras espalhavam p o r toda a parte a voragem ÁÜl-e-v /y--^° i n c e n d i o . fugindo á perseguição das columnas que mar.&*••' /*~y /^ lavam. e triste. Pelos cimos da matta m escapavam aves t£Z* Lry*^ espantadas. Pelas abertas do matto corriam os animaes destocados pelo furor das chammas. Muitas ^*$r " ^ 7*P arvores estavam contaminadas.-4. e um piar choroso ^"'j entrou no coro como nota sryyft.„„„ procuravam „„„ „<."e...££< f't*d> a m u s ' c a desesperada de uma immensa e aterra. g^' dora fuzilaria.13S CHANAAN fundo da toiça. Começara a queima. Alguns se ^^Jfjtsam fí*/y~0i Z\ tf qv*td>/)+*£+' v .íL vr*-.AJ nhos dependurados arderam. ^ .i „„ Recuavam. ^ a* ©»*>».t/A+f viperinas attingil-os. fogo r„n .„•„„„. . deante do clamor geral das victimas.chavam. ardiam como **». que lhe seguia no encalço. faziam *. O vento penetrava pelos claros abertos %*%% 4j^ < >. vagando na direccão dos caminhos como pastosas nuvens. Os homens olhavam-se a t t o n i t o s ^ . e as /. Çf fogo sé erguêra-e lambia n u m a caricia satanicjuos troncos das ar.t / r w _ de arvores q u e cahiam. Línguas de <#" * C V T V .t o c ^ a s monstruosas. resinas que se derretiam estrepitosas.quente do fogo.***^yy.<-. remontando ás alturas n'um vôo deses. atiçando as c h a m m a s . Pesados galhos <*? rfg.•afc parasitas como rastilho de pólvora levavam as' /é&^y*' chammas á copa.as veredas e arremessava para a frente o bafo syf^h y~y.yvores./ «tfie esfusiava.„„. troncos verdes q u e esta. Uma araponga feria X < ^ rr / ACOVO ar com um grito metaTlico e cruciante. D„ „ „ . suspendia-se no ar leve da floresta. ~ l**M l*l.**. tí/k-c*.

jg^ os troncos firmes. ennegrecidos. e. cavaram a trincheira pelo rumo..CHANAAN 139 do perigo. Surpresos. E afogüeados. com anciã. que eram a "* ossadura do monstro.. aquecida até ao seio. ^»arrojavairr"eontra os páos comodenodo de gigantes. os homens viam amarellecer a folhagem verde que era a carne. quasi pelas terras alheias. Do lado da praia o trabalho foi fácil. sob o aguilhão da defesa própria. Do outro lado. com raiva.elles. O aceiro foi sendo aberto. nos limites da área do lote./n . at. erectos. agora. Ouviram-se succesrvas e ^<> medonhas descargas de um tiroteio.avançava solemne. E feros e duros atiravam-se á enxada para cavar o aceiro. não podendo vencel-as. Os pygmeus que se não mediam com as arvores e que. Mas o fogo avançava sobre . centuplicou-lhes as forças. ^//>)rfp/ndo-lhes o prazer. o terreno estava desbastado e limpo. quando a . Ahi abriram rápido o sulco protector. N'um alvoroço de alegria. O fogo não tardou a penetrar n'um pequeno taquaral.///***£ tonitos. Sobre a terra queimada na superfície. repararam que a devastação tetrica lhes C*/r ** ameaçava a vida e era invencível pelo matto a dentro. até que o fogo se approximou. no meio da floresta.como um ser animado. a lucta foi tremenda. a columna. continuava a queda dos galhos. sôfrega por saciar o appetite. A nevrose do pavor. tinham recorrido ao fogo. outros cahiam inertes na fornalha. si encontravam o embaraço de algum tronco. com febre. e feno der. atacavam-no a machado.

logo que se reconheceram senhoresdo perigo. e lépido. Já os homens n'um esforço immenso se tinham adeantado. e os outros miravam n'uma diabólica.140 CHANAAN taboca estalava nas chammas. os colonos cavavam sempre.^ £ v / d e t i v e r a m e^^se/espalharaqojpara a direita e para a *u—/ esquerda. incendiado. Milkau chamava na sua imaginação a vinda dos tempos sem violência. satisfação a matta esbraseada se estorcer nas agonias do incêndio. A cem metros de separação. O fumo crescia e subia ao ar rubro. que se erguiam á margem. deante do^^spafd-aberto e intransitável. invencíveis sacrificadores da terra. A' noite. e célere. ^ t . IIJd(yr*y foi veredeando por um atalho. < Os colonos e trabalhadores semi-mortos voltavam á casa. continuando a sua obra. quando as estrellas em rythmo moroso parecia caminharem no céo. os estampidos redobravam x as labaredas esguichavam. da varanda do barracão. até chegar ao aceiro. . dè Ml . As chammas s a abeiraram""aa valia e. i^r/Jíendo os arbustos. Farto de devorar a carne dura do /// bambual. o fogo desafogou-se. emquanto a fogueira circumdava n'um abraço a moita de bambus.

Trabalhava mansamente no quinhão de terra que occupava. d^veneração e de saudade. o quarto de dormir de Milkau impressionava como uma capella ardente de amor. com grandes olhos de dôr e supplica perenne. creança que amara quando ella . como veladores Penates que o homem transporta nas suas migrações sobre a terra. Estava povoado de retratos. A sua pequena habitação. Ahi se viam pessoas da família. erguida no silencio damatta. essa mãe. era humilde como as outras dos colonos . e a mulher. do domínio e do orgulho. apagado do jfe« espirito as manchas da ambição. Apenas. quasi filha.A felicidade de Milkau era perfeita. nada existia alli que fosse a traição de um gosto refinado. e deixado que a simplicidade do coração o retorpasse e inspirasse. ou uma pequena consolação da volúpia. quebrando a uniforme monotonia rústica. o pae illuminado por um sorriso de martyr. Tinha limitado o inquieto desejo.

~ * t o perpetua £ o m m u n h ea oque ffâtifc dá a alegria enche oreligiosa. transfigurando-se para morrer.142 CHANAAN c ~f. Vendo-o assim attento. soffredores. d ^ # # # f p uma armadurajnvencivel. OsÁ(fi/ffl/ eram retratos das grandes /// w figuras humanas. não pelo que tinha feito. emanado do amor e das lem>#<áá»M&-!?ranÇas' ° envolvia. Éll^ jMl j I ^ fee]7entia^amparado por um fluT3o~~dTr"e"spérança. mais lhe queriam os cam<~ ponios. Milkau Jj estava destinado a ser pouco i pouco a figura cen- . E ávida. vazio do que isolamento. que. mas pelo que aspirava fazer. ^ ^ Fnuicn a pougy'. O trabalho pelas próprias mãos (|hej\davAa sensação positiva <*da sua dignidade humana!"ps<Jeus olhos procuravam em torno o mundo para onde elle -m queria l t dirigir/n'um forte desejo de affeição. " " I I derêsígnação.passara deante dos $ffi olhos. que o recebia sem desconfiança. /g/fa. /cntindo s/ ' feliz e engrandecido. amorosos. f/j Q) çfy / o m essas imagens sq& Milkau vivia na e ^ ^ . dentro d'esse quadro(jJjie/sonw/^ > ' como uma deslumbranter_e§urreição. Milkau èejéspraiavgpem relações et-J ^ com o grupo colonial do ria DoceT Achava um ' encanto em conviver com essa gente primitiva. con or £~ ffifáffltâffjem orgulho de intelligencia. e/em sua presença tinham instinctivamente j T uma artitude cheia de sympathia e respeito./se f 7JJfò6l y mava»com todas as lições que lhe davam os a n t i g o s ^ ^ cy e experientes colonos sobre aslcoisas da lavoura. q^tdfíÇ não atemorisava com a sua educa-p^mm ção. poetas. e que ia se deixando infiltrar da sua cordura e meiguice.

torturando-o essa pungente agonia de praticar a existência condemnada pela idéa.n um esforço tenaz e porfiado. Para se distrahir. Ficara alli ao lado de Milkau. e. extenuando-see acalmando-se. Sempre calado. jiójê!^ áo seducções do camarada. o apóstolo da energia. elle. se completava na contradicção. .. como a terra bebe imperceptivelmente as finas gottas do orvalho até ficar saciada. que eram o estimulo para a agitação do seu pensamento. Lentz se encarregava-das viagens. enérgico. incapaz de abandonal-o. paralysado. <r CHANAAN y ^ ^ ! 143 trai d'aquella região. Era então que lhe succedia encontrar no matto o vizinho taciturno que passara. cercado da sua >. O caracter fraco trahia a audácia do sonhador. A vida que tomara. e sentia uma expansão de alegria quando atravessava solitário as montanhas em silencio £/ sobre ellas dava grandeza aos seus sonhos devida. Jaw"0 . o velho allemão ágil. defronte do barracão. Ao contrario do seu companheiro. e a bondade do sentimento entorpecia-lhe as maldades grandiosas do seu idealismo. das compras da casa.Í^Lentz/vivia^ triste n'um intimo e reservado desespero. como -um verdadeiro homem. era para elle uma grande humilhação. sem reparo.. e dar um pouco de fadiga aos nervos.< ^w/*^*'/<*"**" . Outras ve?es caçava. caminhando na doce sombra de Milkau. desdenhando qualquer conversa. o creador da força. na tarde da sua chegada. E assim inactivo. os colonos iam absorvendo o seu inuriortaj/prestigio. seguia qual uma visão primitiva.

n'um soberbo movimento de força e desespero.144 CHANAAN ardega matilha. e querer s . todos se preparavam para essa diversão. alevantar-para o ceo. marchando sempre por um caminho de montanhas. formando caravanas. O novo pastor celebrava o seu primeiro serviço religioso com o<êoncurso dos pastores de Altona e Luxemburgo. Lentz voltava de Santa Theresa. E na madrugada seguinte. Raras vezes a paizagem transmittira a Milkau uma emoção maior do que n'aquelles terrenos altos. á hora 3o amanhecer. Sob a transparência crystallina do firmamento. E também as essências mysticas. Milkau. a terra intumescida parecia. cujos cães o festejavam aos saltos ou iam á sua frente. farejando o chão. levavam-no a desejar attingir a eternidade e dissolver-se no infinito. Uma tarde. iam pelo caminho encontrando colonos a pé ou montados. Em Santa Theresa e nas casas de colonos por onde Lentz passara. plácidas e vastas do infinito. os dois amigos partiram. Quando já se avizinhavam do Jequitibá. n'aquelle instante de exaltação e vertigem. trazendo a noticia deque no dia immediato haveria uma festa em Jequitibá. para o espaço. sahir de si mesma. Famílias e grupos ininter- . de orelhas cahidas. que se queria identificar com os hábitos da nova sociedade a que se consagrava. dia Estava elle todo possuído ddy^f espirito da ascensão e sua alma escalara também as regiões silenciosas. resolveu ir ao Jequitibá. que ainda viviam em Milkau.

Quanto mais perto da egreja. excitados pela fresca da manhã e pela esperança do prazer em sociedade. 9^ Estál ficava-lhes a frente. segui jfâfitykhubiam por uns degraus de madeira fir dos rra terra e que muito espaçados chegavam! ( CJ&iV / . via-se a subida dos pygmeus. como ondas regulares. mais a multidão se engrossava. era com uma alegria de recemchegados que se saudavam mutuamente^Alguns passavam a galope. ra. então era de vêr a carreira folgazã de toda a gente pelos caminhos. Qa dois amigoof^epois de algumas Jioras de viagem. e tomavam / j ó ^ r y t h m i c a marcha de <f/rij procissão. A multidão. e esse araou/communicando-s%aos outros. tr* ' ^ *ij> descortinaram a capella do Jequitibá. e os colonos não se reuniam desde essa epocha. pois havia muitos mezes que não se abria a> capella.JJ XÜff pelarem. Em certos pontos havia /*-/-necessidade de dexWjfffíh o passo para não se atro. Ao longe. rodeiada pela """ " multidão que fervilhava. Todos vjateuq. e. que ondeava. Pela encosta do morro que vae ter á «apella. ^ ?>/**/ «^/"/~ <n~ Acharam-sè]4ãpei«í base da coluna. ao saturem de um caminho? coberto. parecia borbulhar de dentro da ^g^_<-*-"" terra. feito de uma dourada luz e de pequenas elevações.'* os olhos dl<úhu abxan-Af\f^ giam todo o panorama claro. era como uma presa arrastada vagarosamente por um formigueiro.-—"r'1^" diantes. desemboccando (Jy*»»**^' alli de toda a parte. a capella branca.CHANAAN 145 ruptos enchiam as estradas. brandas e fixas de um oceano manso.

á casa do pastor. formava | uma esplanada. as rendas. O cimo. o chapéo de velludo. trajes aldeãos. amarrar os animaes nas estacas. as crinolinas. e entretiveram-se. e a sua ~ Sj pelle era amarella. onde fotexÁ. emqüanto a capella se não abria. acotovellando-se. como si fosse uma revista retrospectiva de modas. uma entrevista nas serras do EspiritoSanto. em mirar o povo. encolhida como pergaminho. A medida que galgavam. o casaco severo. os simples pannos brancos envolvendo a cabeça. uma^ b mistura de modas de muitas epochas. esguio. ou a combinação phantasista de um baile de mascaras. / Alguns estavam alli havia trinta annos. a capella. yf Era u m / grande jfcase/ de colonos da região. o corpinho fino. iam vendo viajantes que" chegavam em bestas. — Só isto paga a viagem. e n'ella a massa de gente se remexia.1 iü CHANAAN até ao alto. conservadas^ religiosamente em trajes que se não acabavam '„ mais. já tão descançados e entorpecidos na solidão bonançosa < Mas logo se habituaram. o que m//p jffàM/jjffl. ç ' outros ainda ^sag:louros e jovens. trajes de cidade. passando-lhes o L # * / V ^ ^ embornal. U m vozear confuso enchia os ares e turbava Milkau e Lentz. Cada uma das mulheres ainda tinha o seu *. davam-se. Trajavam as suas melhores roupas. O vestido largo. de cintura curta e babados. disse Lentz gra- .. vestido segundo o uso do momento em que deixá*Y ra o paiz. que era no fim da egrejinha. as toucas de seda. apear-se e .

/ . já vimos o Jnelhor.^**-^ desdentado. Milkau mirava para todos os lados. para 9 ^ Cr*~assistirmos á sahida d^Sôvo. — É verdade. *• « • « O povo continuava no seu borborinho tumultuoso p>rr^ *y*r e alegre. Misturado com o aroma da terra. e ao longe descobriu Felicissimo.* c^L .. depois de Jtrt'e£*'' algum tempo. um perito poderia fixar pelos vestuários a epocha de cada migração. í ^ . Cum•»**••-. em voz baixa.****-felicidade d'este povo. que desde algum tempo tinha deixado o rio Doce con^>». acompanhando as observações que o amigo fazia sobre d^ f/f ddxisüífk das vestes. guardadas longo tempo nos fao/AcÁ^^ bahús. amenisava o odor forte das multidões. tinuando as medições para outras bandas. o cheiro das /rr^v^**" flores que as raparigas traziam ao cabello e das e>li>my^ roupas domingueiras. Joca e o grupo C L ^ de trabalhadores da commissão de terras. Mas também admiremos a usÁs. — A alegria dos velhos é um mandamento para/ ^ / } .. /s$*' paletot pontas de lenço sahiam espalmadas. j0> ^~^*-^ — Ora. a vida.^ t*£ê~ mensor estava com um cravo ao peito e do bolso do f\£. com uma barretada e um riso Q^. disse Lentz. $(l0fl/jli$0fi.. O agri. /CJ*&H4 — Até os velhos. darlio um passeio -fai. .primentou de longe. por essas m o n t a n h ^ & u feitadtâi sombra de aif/y^r£ü=l guma arvore? /<§/' /JPã »*«*'""* 9 . Que^DâgJmportaalmissa fl/£*'/**' do pastor ? Vamos espaí^jjP-fiirVda festa.CHANAAN 147 cejando. concordou Milkau. E está ficando quente.

hesitando si devia responder. Para destruil-o é preciso que o homem explique o universo . — Ella é veneravel como toda e qualquer outra. — e a vida. elles podiam se divertir de outra fôrma. divina. é inseparável do homem. ha sempre o desconhecido e o cultoqueoidealisa. não eiLgoifà o mundo dos pheno/ menos. Tudo será esquecido. seja do que fôr. por mais que se alar' j /-^Lgue e avance. Esteve um instante calado. Quando . Elle é a expressão da nossa emoção immorredoura. Nós nos divertiremos vendo divertiros outros. do nosso eterno pasmo no universo ou a exaltação do nosso amor. e é sempre uma força salutar.148 CHANAAN — Não . como a que divinisa a sociedade humana. e o culto. Milkau fitou muito calmo o amigo. no começo da ladeira do morro. de um deus ou de uma abstracção. Afinal disse : — O espirito religioso é irreductivel. é inattingivel á medida que caminhamos. — Mas. — Haverá um tempo em que o homem ha de enterrar com os antepassados o culto que elles nos legaram.. A marcha da sciencia no nosso espirito é como a nossa na planície do deserto : o horizonte foge sempre. além. francamente. Essa religião. três homens chegavam. e o conhecimento.. Defronte d'elles. fiquemos aqui e acompanhemos esta boa gente. E o homem viverá sem terror. esporeando com força os animaes. Além. que subiam arquejantes.

Fitando-os. se acercaram d'elles/muito prazenteiros. outros.//r/ir>->Com effeito. o outro. silencioso. Darba castanha.CHANAAN 149 se apearam. O mais velho J+cy era um sujeito de cabeça grande. O sol já esquentava muito. os cumprimentos se propagavam e d'ahi só se viam as cabeças abaixando-se na direcção dos magistrados. praguejando contra o habito de os deixarem de fora. Todos olhavam as portas cerradas da capella. de monoculo escuro e costelletas. e sob os seus ardores a impaciência crescia. era o triumvirato judiciário da comarca. Por contagio e por instinctivo signal de respeito dos humildes colonos. e o velho de monoculo. muito reverentes e pressurosos de se recommendar. que correspondiam desdenhosos. limpavam o suor e muitos cobriam a cabeça 'y/)M^\ / /? 1 . Milkau reparou n'elles e rtóou que/Y//v/*'rí eram os mais bem vestidos de todos. empertigado. rompendo a agglomeração. i&eaquant»/o terceira^" jdffh no ^ s ^ r o s t o claro. muito fi joven. mais afastados. esperava solemne. um ar de fadiga e preguiça. percebia-se que sentiam a consciência de uma posição superior. Os homens tiravam o chapéo. os cumprimentos. com uma moldura de [fd/*****1. Um dos v i z i n h o ^ í i i ^ ^ é ^ s e r e m as auctoridades do Ca. Lentz 7^1'A' teve curiosidade de saber quem eram. meio barrigudo. lhes tiraram o chapéu. Dois ou três homens da cidade. Olhavam os colonos como uma massa amorpha e subordinada. moreno e imberbe.

e espalhando o calor de corpo a corpo.singeleza do interior. — Muito triste. o púlpito baixo. no centro. e foi uma invasão alvoroçada na capella sombria e íresca! Milkau e Lentz conseguiram logar n'um dos A bancos de madeira. que bem se casava com a simy plicidade externa. espanavam-se com os rabos. Mas estacava. A porta afinal se abriu. com a sua pompa. um grupo para se proteger do sol apertava-se debaixo de um misero arbusto. empurrando para traz. O tom protestante é plebeu. zumbindo. Milkau ^ j í y ^ d W . com um aceno de cabeça. Abafava-se^* murmurava-se. n'um movimento inconsciente de quem ia forçal-as. ao fundo uma cruz preta com um sudario branco pendente. Não havia a menor pretenção de enfeite. mil vezes uma egreja catholica. muito nú. de madeira não envernizada. para adeante. como sempre. A multidão se impellia lentamente para as portas. dizia em surdina Lentz ao camarada. inesthetico. . Alguns se esgueiravam para as escassas sombras das paredes. refrescando-se com estrepito. triturando surdamente o milho. as suas cerimonias de finas expressões symbolicas. os animaes bufavam. e ornado de listas alvas cheias de palavras santas em negro. As moças atavam também o seu ao pescoço.150 CHANAAN com o lenço. e ahi tò/dutáados observaram a iMôtih*. na brancura das paredes estavam inscriptos versículos da biblia. emquanto mulheres velhas agitavam as saias.

Musica!. A musicaenchialí^S** alma capaz de sentir os mais intangíveis e deliciosos segredos do som e de se transportar além de si mesma. respondia outra. . Ha muito tempo que não ando por estes lados. perdendo a própria essência na mais copiosa e allucinadora emoção.. ^ —Ainda o não viu ? perguntava uma velha. Não fomos nós que encommendámos um pastor a Roberto ? Seja como fôr. seguidos de um acompanhamento mysterioso de vozes múltiplas. nos movimentos de pernas e de braços. Que conjuncto de sensações não se accumularam desde as remotas almas pro- (Jf' / / y*J. não ha remédio sinão darmos..muito de bem. mas que se percebia nos bocejos. Não tardou. para que lhe darmos o nosso dinheiro ? — Ah! isso você sabe. infinitas.CHANAAN 151 Em volta d'elles outras conversas proseguiam em voz baixa. — Também si não fosse. outro dia. E onde você o viu? — No armazém de Jacob Müller. que se esforçavam por conter. que um accorde de harmonium soasse. alludindo ao novo pastor. Depois do descanço do primeiro momento á sombra. Milkau vi/brava. — Não. Parece uma pessoa. como murmúrios de piano e de flauta. A multidão st apaziguou^ o instrumento continuou a cantar os solos. temos de o agüentar. porém. recomeçava a impaciência. A musica» infiltrávamos nervos dos ouvintes e Gs i amansavOmollemente. chamando todos á respeitosa continência.

que parecia entretida em vêl-o dormitar.. no passado. Os olhos d'ella embebem-se na Biblia e sobre esta os seus cabellos caem n'uma chuva de ouro.. carregado nas harmonias. porque escrever é cantar com a penna. E Milkau. Continuava o sonho. Os seus olhos meio attonitos descançaram em uma joven. mystica e crente. emquanto ella. Musica também lá em Heidelberg : uma melodia phantastica. trabalhando... laia Milkau. 4. Tudo se/confundia extranhamente. na terra antiga. E emquanto o órgão no alto da capella cantava.152 CHANAAN genitoras. até emfim formar-se no homem a derradeira das suas almas. debaixo. a alma musical!. Um sonho dentro de um sonho . Milkau ficou indeciso um instante. das harmonias. enche a egreja. Musica! Canta a mulher ^. longamente. lf 0 J 0 fyp0f de um templo. tomado pela saudade. afinando o mundo dos nervos. Era n'uma egreja de Heidelberg. 1^1 recolhida. ou era aquella mulher a sua visão realisada ? Parecia-lhe .. elle.. não percebia mais as fronteiras do sonho e da realidade. á sua vida primeira. que entra na sombra silenciosa e brandamente vae sentar-se. que rios de sangue não correram de pães a filhos. lentas.. dolorosas. Milkau teve um ligeiro sobresalto e despertou. Musica! Cessou o órgão na capella do Jequitibá. Elle vê uma figura de mulher. escrevia poemas sagrados.. ^gEâ-de olhos cerrados. como uma benção e uma luz do céu illuminando o livro santo. angélica..que Milkau amou.. carregando as vibrações recolhidas em cada cellula. entoava hymnos. ^ y £ .

o pastor ia desenvolvendo o seu allemão religioso. independente. pela côr vermelha do áspero rbsto. pelas phrases. e. cercado pela curiosidade do povo. elegante e pomposo. pelo accento da voz. Milkau reconheceu n'elle um camponez. em vez de continuar desembaraçado o sermão. que lhe cahia sobre o casaco preto. com uma barba fulva. N'uma toada humilde e timida. uma religião rústica. e voltaram-lhe á memória as observações de Lentz sobre o protestantismo. E ella o olhava l/ vagamente distrahida^tí quando reparou que era / \ ' ^ examinada. ~se revoltára^naturalmente contra os civilisados. cujos melhores interpretes eram homens rudes. que sempre entendeu como uma religião secca e simples. Era um homem alto. Na scisão da Egreja cada uma parte ficara com a rfaasdi Jt#lCy'p? dos espíritos que lhe era própria e peculiar. violentos e radicaes. n u m gesto de recolhimento de ave mansa. em rico contraste. O seu primeiro contacto com os colonos era uma crise. com a mesma suave e meiga expressão. 9. Pelas mãos callejadas. pelo rigor excessivo de seu monotheismo. . a gente do norte inculta.CHANAAN 153 já ter visto em outra vida aquella mesma cabeça de macios e crespos cabellos de infante. astuto. moveu-se. Subia ao púlpito o novo pastor. nos quaes o catholicismo se desenrola como um successor natural do paganismo. aquella que mais se liga ao judaísmo pela austeridade. barbara. curvando o pescoço devagarinho sobre o peito.

se preoccupavarm)com o pregador *«• e sua família. Outro dia vim preparar a horta. que lhe fazem ? O colono não respondeu. a reflectir sobre si e os seus embaraços. Agora se pôde vêr... A cara não engana. mas me parece muito boa pessoa. E a mulher do novo pastor. Ao lado de Milkau um homem explicava a uma mulher que bisbilhotava a respeito de duas outras que se viam no coro da capella : — Aquella mais magra e morena. tentando .. creio que o pastor tem gosto pelas plantas. — Tem cara de judia. — Ah ! E a outra é que é a irmã d'elle ? — Quem vê um... Os ouvintes desinleressavain^Ê_da--atrapalhada e vagarosa predica e. — Pobre! Então. — E Frau Pastür? — Não sei... Na tribuna o pastor ia rolando o sermão... porque vendo que as suas palavras eram recolhidas por outros ouvidos da vizinhança. procurando com vão esforço esquentar-se. — E de onde as conhece? — D'aqui mesmo. outras ia tropeçando para adeante. volveu concentrado e hypocrita á sua Biblia.. pareceu-me uma alma penada em casa. e muitas vezes parava distrahido. — Sim. que estava toda abandonada. A irmã feej^nteressa)por tudo.154 os-/ CHANAAN elle se detinha a examinar o povo. vê outro.

aborrecido. O cearense arregalava os olhos para os n j / seus amigos do rio Doce. bios cerrados. estirando as pernas. Lentz não poude deixar de murmurar com um certo desdém a Milkau. suando muito. A sua voz logo esmorecia e cahia na morna toada. n'um grande abandono. o mais velho. e enfrentavam solemnes f a multidão . e de la.r -n. muito nervoso. a fazer signaes de impaciência. _ /? K ^ „ti. obrigando-o a repetir indefinidamente os movimentos. Sentaram-se os três juntos n'um banco. ora limpava o monoculo que.CHANAAN 155 vociferar e clamar a religião. cocando a barba por desfastio. fitando com desprezo e rancor o pastor e os colonos. ao lado do púlpito. que seguia complacente^ /ao agrimensor. ora tirava o lenço.^» > -^ ^ ¥Ê^y . estava Felicissimo. mal assestado ao olho direito. — Que macaco! — O grupo dos magistrados também não estava resignado ao enfado da cerimonia. sorria benevola e cavalheirosamente. pondo machinal o monoculo para melhor entender. não se cançava de gesticular. sacudia bdftf a cabeça ^jf" n um gesto de contrafeita resignação. Do outro lado. murmurava alguma coisa. ás vezes. cahia logo. ao juiz de direito. e este. agitava a perna. o juiz municipal. o terceiro.t < ^ £ ^ 1. enxugando a testa que se franzia em grandes rugas. em frente a Milkau. e em caretas successivas transformava a sua movei physionomia.-seespreguiçava^Tio banco. que era o juiz de direito. e bocejando. a<f> seu lado o /"rpromotor crispava as mãos.

E o tédio envolvia a capella. muito grande e de olhos meigos. levando cada um o echo longínquo dos cantos. com a cara toda raspada e de óculos. No meio dos dois o novo pastor de Jequitibá.156 li CHANAAN Os allemães. e a musica do órgão. com uma barba muito curta e dura. Os três pastores se reuniranvrio fundo da egreja e leram successivamente os psalmos. como uma represa de água escura que se tivesse aberto sobre . os pastores sentaramse. que elles miravam absortos e suspensos. espraiava o seu ar desabusado e insolente. ed'ahi a pouco homens e mulheres montavam. tangido pela musica. descendo toda a massa de gente pelo morro abaixo. sem um pensamento. Em breve acabou o serviço religioso. concentravam-se recolhidos ao livro de orações. vendo o povo retirar-se em ordem. todos ficaram deslumbrados com o sol e se apressaram-*em partir. lentamente. cheios de respeito. para recomeçar um coro a que o povo respondia. Fora. não se moviam . as vozes das cantoras vieram n u m a desabafada desforra levantar os ânimos. os embornaes vazios embrulhados e escondidos debaixo da sella. a musica foi suspensa um instante. O velho pastor de Luxemburgo. que se ia apagando J ermpiaafto o pastor de Altona. até que o novo pastor terminou a predica. Os burros foram desamarrados. tinha uma voz rouca. tinha uma attitude de gigante tímido. ou de olhos fechados voltavam-se para o abysmo vazio do seu espirito. sem a menor vibração intima.

procurando as suas casas. Ha quanto tempo não nos avistamos ! E para onde se botam agora ? — Para a casa. as grandes gargalhadas e gritos festivos rebentavam das mil boccas da multidão.. Em baixo. emquanto os homens se descalçavam. Jyf*-*' as mulheres arregaçavam as saias de cima por economia. matando a tranquillidade da região silenciosa. que lhe falava de cima de um burro. o povo começou a debandar. Milkau voltou-se. ninguém se apressava. galopando na estrada fl'*\ ' e envoltos na poeira. ou as tabernas próximas. A**A ' alguns tomavam a deanteira. e cobriam com ellas as cabeças. interrompendo. — Irem á casa de Jacob Müller. de galhofas. respondeu Milkau. onde costumava passar o domingo. — Pois eu lhes proporia — O que? perguntou Lentz.. — Bons olhos os vejam. « /**!L na cruz das estradas. Era Felicíssimo. sentindo um toque no hombro. Milkau e o companheiro vinham-se também arras. E a grande vozeria de commentarios. levando nas mãos as bolinas ou os chinellos. com receio de um perigoso atropelo. . E a gente ia-se escoando pelos caminhos. partilhando da alegria e esquecidos de si para \ r ^ 7 se misturarem na communhão alli formada pelo '^'"v acaso e pelo impulso communicativo. onde ha um grande baile á noite.CHANAAN 157 a verdura da paizagem. naturalmente. outros corriam mesmo a pé.^ ditando. e já agora de dia começa o pagode. Escorregando vagarosamente.

Bem. não engeita. Falou-se em patuscada. disse radiante o agrimensor. É verdade que estou montado. Não ha confusão: a casa está em festa e vocês a reconhecem logo. iremos.. fts Os dois amigos se consultaram^om o olhar. Então não sabe? 0 sujeito arranja a festa com olho de fornecer a comida. eu vou indo. vender muita cerveja e tudo mais.. — Que negocio ? interrogou Milkau.. e não podemos ir juntos.. Aqui na colônia não ha convites. depois torna a subir e... o caminho é este da esquerda. respondendo. mas Lentz não demorou em responder : — Pois sim. porque isso também faz parte do negocio. é ahi. Ora. Quando toparem um sobrado branco com um terreiro. . meio indecisos. que não tem historia nem ma/Jadas.. — Que negocio ? repetiu o agrimensor. a gente não tem mais que se apresentar. vou na frente.158 Ç-// CHANAAN — Mas não tivemos convite — Oh! isto é uma conversa.. vocês têm um pequeno pouso com uma venda. vae descendo.. tomem á direita. Depois. Temos muito que desenferrujar. E apontava com a mão livre a lingua. passem pela frente. mando guardar três logares na mesa para nós. vamos d'ahi.. Mas não ha difficuldade.. — Assim é que eu gosto da rapaziada.. Em se sabendo que ha uma festa.. quando chega no alto.. e vão seguindo sem se desviar.

e entre todos se trocavam saudações e offerecimentos amáveis de bebida. todos alegres. No alto estava realmente a venda. os allemães bebiam. Jjj/yfyjti($ almoçavam e eram attendidas pelo dono da casa. e alguns tomavam cachaça. A taberna era limpa. de um louro lavado em que uma rosa traduzia a eterna faceirice da mulher. Os outros executaram as indicações do cearense e foram andando apressados pela estrada. algumas mulheres de varias edades se agruparam aos homens. fatigado do sol. — Não. bem arrumada e com duas portas largas. A dona da casa e uma filha. . passou a fazer tregeitos inconsiderados com a cabeça. « Até logo ! » Picou o burro com vehemencia. Fora. encostados ao balcão. Si não estás morto. Dentro. serviam lestes os. a rir muito. formando grupos differentes. deu-lhe chicotadas. continuemos. — Como esta sombra convida a descançar! disse Lentz. e ^ for^rVum galope. freguezes. espantando os colonos com os berros e a correria. — Podemo-nos demorar aqui um pouco.. cerveja fabricada no Cachoeira. gritou para a frente. uma grande latada corria pelo oitão da casa e na sombra larga debaixo do caramanchão/sentadas ás mesas toscas. concordou Milkau. moça e loura.CHANAAN 159 tomado de uma repentina excitação. em geral.. onde já se agglomeravam muitas pessoas. e fazer a caminhada mais á vontade.

que não ygP* «*/-«* vale a pena mais nos pouparmos. e contente com este rejuvenes. mas d'ahi a pouco pa/»*'*'/" raram e sorriram vexados da incohsciencia que os ^ . ^J'*^' No caminho. as cores simples.de expansão jovial. onde o verde das folhas f' entrançadas nas grades formava quadro para ^y/„*se.iéM^. *„ 0 **$*'. * yr'**£i — Sim. —^-d'agua veloz. avistaram em baixo d fio * W /*xz+. disse Lentz. ^ tomara. E quando chegaram á i t v r^. estávamos a nos eigotiar^ponde/£-/» r*^ rou Milkau. viram muita gente que tomava Z. a natureza readr . não« tornar a sahir por este sol! E lá se foram. é só descer. mas é que. quando lá está o J+ y^vor*^nosso refugio. isto agora vae depressa. propoz Lentz.f+* perder na alegria do ar na vertigem da des*/**'%*' c ^ a .^ * w t ' ' 4 ' dffáhfaA do seu espirito. gritando de júbilo e levados peja_excitação de chegar sem demora. • ^ t^OL — Ora esta.. alacres dos vestidos das muy yji4. o movimento de uma reunião. lheres.E correram também. Afinal. rríj~ lombada de um morro. de se JíJuefi. ^y^-*^E ao lado d'elles passavam rapazes e raparigas ^"a correr pelo morro abaixo. C '. — Não foi isso o que me fez parar. deitando um olhar de cobiça ao caramanchão ruidoso. desconhecendo-se n'aquelle arranco 4/A*-/-1. vez de repousar. e á beira o sobrado onde se percebia.160 CHANAAN porque receio. estávamos a imitar. UHt f "' -y— I ^ _ /frt* . uma vez em casa. I t /rLf ±T' * ' mesmo de cima.:Z~. ^ rumo da casa da festa. Isto %(/-*?#> lhes tFansmittiu também o desejo de correr.Jy/ct»* ..?ét£-i — Apertemos o passo. em ' 4ríy.

. Nas cercanias da casa de Jacob Müller a paizagem tinha o realce e a vida communicada pelo movimento da gente. A casa tinha uma bella situação no centro de varias estradas. como esteve em mim até agora amordaçada ! Ergueu a cabeça n'um gesto de desafogo. e era um dos maiores pontos do commercio do^nterior da colônia. e havia um pequeno campo de relva tenra e fresca que brilhava ao sol. . da agitação . Era um sobrado branco. e outros do Cachoeiro. Também. Lxoda^Mio terreno estava limpo de plantação.. e até pelos caixeiros da cidade. e foi com o passo cheio de magestade e de graça simples que baixou da montanha. Muitos a pé ou montados vinham da capella do Jequitibá. sacudindo a barba de ouro. que se ia reunindo. . no fundo de um valle e á margem de um endiabrado ribeiro. por moradores d*e longe. que descia em tropel infindo do morro para o Santa Maria.CHANAAN 161 quiriu os «eus direitos. Ao chegareiritao terreiro da casa J á as vozes da \ pj pr*K festa vinham ao^encontro faff d ^ ^ r ^ ^ ^ ^ e > +££& elles foram entrando no meio do ruido. outros de Santa Theresa. O sobrado ficava destacado das grandes massas de arvores e di folhagem que vestiam as pedras dos morros. coitada. e aos domingos um dos mais procurados pelos habitantes do logar. pensava elle. Os seus olhos azues estavam radiantes de paz e calma.

arrasI tf* tando-os. mas o outro. — Vamos à um copo de cerveja. venham. O estrondo dos pés que dansavam no sobrado. debaixo de uma laranjeira. ^_^ O agrimensor ficou meio amuado : — Ora bolas! < ^ fffc-V E os_largou Jbruocamerrte. /« E Felicissimo. rapa-zes corriam pelo campo em mangas de camisa. meus amigos. porque precisamos de descançar. E nas janellas muitas . Qs <»utroc. quando a tarde começava a refrescar e a luz a esmorecer. — Venham. — Não. arranjemos antes um logar aqui á sombra. e o som langoroso de um realejo incessante desciam do alto. atordoando a gente. lá se foi. gritando. A gente movia-se muito.162 CHANAAN dos allemães á sombra da varanda. disse Milkau. com a voz rouca e a gesticulação de embriagados. cantarolando. Outros entravam e sahiam do armazém. como um bando desesperado de mairacas. uma pequenada vadia se espalhava guinchandò pelo terreiro. Bandos de moças de branco passavam de mãos dadas. yf'/'' para lhe dar uma explicação da recusa. em apostas brincalhonas./spantados da effusão do agri/ ^ mensor. corria para elles. Acharam-no emfim em um banco. echoando no vasto armazém. perguntavam para onde os levava. levado pelo rompante. obrigado. mettendo-se pelos grupos e entrando no armazeiTL Milkau desistiu ^ de seguil-o e Vjf#/ou a Lentz/^rocuraflfâ^ambos um logar para descançareaa. Milkau acompanhou-o. em frente á casa.

referiu Lentz. olhando a agitação em volta. mas sumiu-se de nós c se esqueceu de nos /Ldizer o que arranjou. — Seu chefe. plar satisfeito o prazer alheio... interrompeu Lentz. as mesas já estão apinhadas para a hora do jantar. Começo a ter fome também."••-/'£ '*•_. que do rio Doce aqui é um estirão! — Sahimos de madrugada e fizemos a viagem sem grande fadiga.. arrebatada pela. em mangas "'""^ de camisa.CHANAAN 103 pessoas com ar indifferente se debruçavam para o terreiro. E atraz. que se tinha conservado mudo.^ d'isso. concluiu confiante . Olhem só lá para dentro do armazém. abrindo-" a bocca em que se apertavam os dentes dortadesj i-tu*«*o$ epa-seiral * — En-tão vieram divertir-se um pouco? Sim..celeridade do regato. por cima das cabeças desta gente: vejam que povo está alli agarrado ao balcão. viu um rosto amigo ^. de lenço ao pescoço. Milkau. — Mas elle ha de voltar. Se e n c a r r e g o u . parece urubu cercando carniça.<*'(' que se approximava. <. Era Joca que. já é coragem. vinha saudal-o. nas salas. senhores. e um cinturão de couro segurando a calça. — Lá isso não. porque eu estou que não me posso mexer. O que é preciso é marcar os logares desde já. que parecia também mover-se toda.. — O que não falta é comida. e fitando pasmadamente a paizagem.. respondeu Milkau.. a contem.

e você. amigo. E o cafesal?. Um grande reboliço §ej|fe^)no povo e repentinamente todos se foram approximando da banda. agora lá para o Guandu. E como vão lá no prazo? Já sei que a casa está bonitinha. Isto é. estes dias nós descemos ao Cachoeira... . a grade era retirada. que era o logar destinado para seccar o café comprado por JacobMüller.„ j .164 CHANAAN Milkau. e estou certo de que temos tudo arranjado. ao lado da casa. — No roçado que fizemos? — Sim.. Por um instante uma ligeira sobrexcitação coloriu as faces de Lentz que tremia em pensar no vago da distancia ainda á sua frente. para folgar um pouco. e n*aquella vida extranha que levava.. que fim levou? — Rolando.. indicando o tempo remoto. caminhando lentamente e como por um velho habito. Nos dias de semana. pateo Jfc. que. De um lado para outro. invasão dos animaes e da creançada. olhando alvoroçado para o fundo. se dirigia para um pateo ladrilhado de cimento. Aos / domingos. — Ah! agora a coisa vae ser mais animada. — E quando beberemos d'esse café ? A resposta foi um gesto largo de mão. — Plantado. **^£3P* músicos da philarmonica do Cachoeira H«^^njiana chogandn iw i r n à l ) e todas as vistas se voltavam para elles.. a fazer medição. quando havia festa. Joca. lá vem a banda. disse em sobresalto o mulato. uma grade de arame protegia esse !-[.

perseguia um bando de ra- / ÍC^r** /*&* Q.«Todos se divertiam. vocês hoje estavam com preguiça de desunhar! A rapaziada aqui já andava impaciente. minha gente. acompanhando a banda. Os músicos installaram-se n'um dos ângulos do pateo largo.. agradecendo. d'esses que são amados da alegria e em quem «üa> não encontra fótf0ty'para reinar livrernerite^_^^ _ _ . o mulato começou a dar vivas á banda do Cachoeira. gesticulavam. '« á união da rapaziada.— Collocadas as estantes(os musicos(sentaram-sg)e começaram a tocar uma marcha de que^ãaXqual. rubros de vexame. ia repetindo os compassos. a força do sol. alguns dos quaes eram seus conhecidos e camaradas. Foi um delírio para o maranhense. cantando marcialmente. etòdos automaticamente tiraram o chapéo. contente.ar^affiirHifcfHi . a Jacob Müller». enthusiasmado.. — Então. que começou"' a dar outros vivas ao « povo do Cachoeiro ». com os olhos accesos e as narinas arregaçadas. &*fájfii /ffllff cJt**s ofc *M . Joca deixou Milkau e foi se postar ao lado dos músicos. que recebia em seu lagedo. Vamos á gaita ! E.na ¥iYjim Os homens da musica sorriam. para irradial-a. N'um momento ficou coalhado da gente simples e fácil de contentar. Wm alarido de gargalhadas e acclamações. para entreter o povo lá em cima. liso^lavado. Joca. dansavam descompassados. O velho Martinho já está com o braço morto de tocar realejo.CHANAAN 165 e todos tinham a liberdade de penetrar na área.

a^ípareceu no pateo. / um grande chapéo de palha na cabeça. a rodar. As creanças invadiam o terreiro.166 CHANAAN parigas louras. w com / . h. que riam destemperadamente. coradas./ outras jhejfpuxavanf) levemente a barba. meu velho. vae tomar um copo lá dentro. vindo em grupo.applicavam-lhe palmadas nas costas. Era o argumento irresistível e proveitoso.de cachimbo ao queixo. Limpa o terreiro! Arreda! Vocês têm baile á noite. de óculos azues e uma cara te genipapo murcho. fazendo mesuras ás mulheres. A musica acabou a marcha. O dono da casa. como si fosse movida por um pé de vento.de camisa. A creançada agora l-girava doidamente. porque a miragem d'esse copo afastava o homem d'áhi.. formando o quadro do pateo. persuasivamente. e. a rodar. que tenho de attender á freguezia. ^ lç . abrindo espaço aos empurrões. principiou a falar. Olha. elle respondia aos soccos. arrastavam as vozes. com uma longa sobrecasaca preta e surrada. que fugiam rindo. depois de se entender com o mestre da banda. dando ordens. entrou no terreiro para . ajuda-me. n u m fingido susto. e deu o signal de uma quadrilha. Alguns velhos jáébrios. Um velho alto. e dava algum lucro ao armazém. Tberrando: — A festa é das creanças. . todo de branco k em mangas. E depois. que se enfileirou aos lados. virava-se para os mais teimosos : — Anda. O logar ficou limpo da gente grande. Algumas velhas.

Afinal o professor conseguia arranjar as quadrilhas. Que é que tem? Cada um escolhe a que deseja. — Mas não é possível : você tão miúdo e ella tão crescida. inclinando o pescoço para o cavalleiro. » As vezes. Das pessoas grandes. Foi um instante de socego. sr. muitas ficavam entretidas. de modo que tudo corria em ordem. « Guilherme e Ida. de canellas compridas e olhos mansos de veada.g/ O mestre awesignavafe Augusta Feltz. fitando-a muito ancho. e a musica rompia a dansa. um dos pequenos recalcitrava contra o arranjo. p u n h a d a passeiar pelo arraíaíTindo á beira t^^-J do rio.„*_. sem confusão. — Como? Com quem? — Com Augusta Feltz. com os seus doze annos. Os pequenos estavam exercitados. outras.. chamando cada creança pelo seu nome. acompanhadas por outras vozes de mulheres.(se^tigayaní)da attenção.. — Deixe. / e s e . .. replicava o velho. e começou depois a distribuir os pares. deitando-se na relva para verem passar a . que a levava de braço. tremendo-lhe as mandibulas molles. « Alberto e Emma. » « Hermann e Sofia ». O homem mandou que os pequenos se ordenassem pelos sexos.. professor. porém. No circulo as mães intervinham. Professor. acompanhando a festa das creanças. — Mas eu estou compromettido.CHANAAN 167 dirigir o baile infantil. . lá ia para a fôrma.

alguns. dizia. / "*• — E não é o amor a acção por excellencia? E não é elle a força que aqui na colônia. Milkay a Lentz. e que emfim achei. quando passeiavam pelo terreiro ao rythrno da musica. solto sobre a face do mundo... e estrebuxandd. que ora célere. Agora havia uma grande roda dos dansantes. — Mas. no mais pequeno gesto. fy tíJjfdflisXo é a estagnação. matar o ódio. Em tudo. que proseguia vivo e animado. Aqui ao menos é a serenidade. onde cada um parece possuído do espirito do demônio. a reunião alli na estação do Cajá dava a sensação do esquecimento e da alegria.para morrer n'um espasmo de maldade. é a calma. Era isto que eu procurava. estridentes.. é a alegria. Viver no meio de gente simples. no menor movimento. e olhando a scena. que na illusão instantânea os transportavam á terra abandonada. e .. move os homens? Que queremos mais? Approximaram-se do baile das creanças. no canto do universo. ora vagarosa. e outros $& reuniam—A1 ao balcão a beber e a cantar as velhas estrophes do prazer e do convívio humano.168 *~J7J£ ^YÍ-f '**^ CHANAAN agua . partilhar com ella o seu doce esquecimento da dôr. — Era isto o que eu procurava. devastando-a nos seus impulsos de loucura. é uma existência vazia e inútil. iam ga peréefido pelo matto a dentro. observava Lentz traçando no rosto um gesto de desdém. Compara este povo com os homens de outras terras. de braço como noivos. ia se movendo aos cantos infantis.

um sujeito mascarado saltou no pateo. fio meio da algazarra geral. ia dizendo Lentz. . que parecia surgir pouco a pouco do seio secreto das coisas e » expandii"rnais livre á superfície luminosa. Uma immensa risada dos grandes o recebeu. A^paz da Jâlde avançando subtil reinava sobre as gentes.• . afastando-se do circulo.t lhes nos cabellos n u m leve arrepio que lhes descia da nuca. abrindo o circulo. a divertil-as. — E tempo.<>. disfarçado em palhaço maltrapilho. e beiços e faces pintados de vermelhão. accedeu Lentz.CHANAAN 169 desafinados.. 7 jxut*' \ — Mas onde se metteu o agrimensor?. de olhos tapados. A aragem refrescava o tempo.. passando de grupo em grupo.. Creio que desconfiou comnosco. passando volátil pelas cabeças louras das mulheres. — Vamos procural-o. e_d'ahi a pouco. propoz Milkau. graduando a côr. mesmo porque já podíamos ir jantando. Já aquella hora o sol esfriando transformava magicamente o panorama. a gritar. — E Felicissimo que não nos procurou mais? lembrou Milkau. E quando a meninada estava muito entretida.L#Á<yh*/r^ . besuntada de alvaide a cara. se mettiá na a .. — E verdade. e os meninos pararam a dansa meio espantados. fòfS0j{endo-as com a sua doce Jygsrv*gt*<perfídia. 10 IM.r. Onde ^ se metteu elle?. 0 palhaço começou a cabriolar. e marando por toda a parte. imitando animaes. com o amigo pelo braço. brincando./ roda das creanças.

cantava-se. desistiram de procurar Felicissimo no arraial e «e encaminharam-^* para a casa. desviando delicadamente alguns colonos pesados e oscillantes. o joven abaixou a cabeça enleiado. cochichando. n'uma tranquillidade altiva. enfadonha. Tudo em vão. porém.. Os dois amigos lançaram uma vista d'olhos pelo armazém e não viram o agrimensor. e ( ^ ^ ^ ^ Y ç y k m j W a ^ g ^ ande /* avistavam grupos de gente. indagando . Debaixo de uma carregada sombra. tão idiota. Não custava nada uma amabilidade.o que bebiam.. Com a presença dos extranhos. Milkau. A mulher de Jacob. bebia-se largamente. Também porque não lhe acceitámos o copo de cerveja?. — E não se perdia um camarada. chegou-se a ella..170 // / W*- CHANAAN — Hoje elle está mysterioso comnosco. dando volta por traz da casa. perguntando-üas. com seus olhos serenos e francos. descançava. Procuraram o agrimensor pelo terreiro.. ^ Quando tornaram á clareira. fezlhes um gesto.. e n'uma lingua arrastada. Éyéntraram no matto. há'esperança de achar o cearense. $mu£ou os perturbadores. um par amoroso. Uma caminhada inútil. — O h ! Também vaes logo aos extremos. disfarçando a remexer nos gravetos esparsos no chão.. percebendo-os indecisos.. Foram até á margem do regato. concluiu Lentz. O balcão continuava sempre cercado.. Áfywflfâflt até á beira das estradas. a rapariga.

. Imagino quantas amizades não tem por ahi.. uns com pratos na mão tomavam caldos. A mulher aconselhou-os a subir á sala do fundo onde se servia o jantar. n'um espasmo de satisfacção bestial. pois talvez ahi o encontrassem.. A mesa muita gente sentada comia avidamente. e meio amuado não se importou mais comnosco. Viram passarinho verde ? — Ora. e outros. agarrando lingüiças.. pois tão entretidos andavam. patife. com quanta ... — Aqui! Aqui! Os outros foram rompendo caminho e tomaram os seus logares.CHANAAN 171 de Felicissimo. não mude os papeis. fixos. emquanto a sala da frente se achava quasi deserta. Um cheiro de alho. — Até que afinal vocês resolveram vir. Felicissimo estava n u m a cabeceira da mesa com dois logares vazios de cada lado. fatias de pão. mastigavam com uma fome voraz e com os olhos injectados. e falou-lhe dos logares encommendados para três. a sala do fundo estava n'um grande borborinho. e quando avistou os companheiros chamou-os n'um sobresalto. Em pé. e apenas com algumas pessoas á janella vendo o baile das creanças. Pensei que não quizessem saber de mim hoje. respondeu Lentz. que sem nenhum conhecimento temos andado vagando ámatraca. de vinagre e pimenta excitava a multidão e entretinha a sua voracidade. De facto. — Não me conte historias. no sobrado. Foi você exactamente que nos deixou.

. Felicissimo olhou-o com os olhos miúdos.. Depois. meu amigo.A ^ é * ^ ^ * " -j . berrava chamando os creados. — Meu bem. gritou o agrimensor. enleiada.. que lá na sua lingua procura misturar-se á alegria d'esta gente. piscando os olhos para o companheiro. é que com esta discussão nós vamos ficando sem jantar. comecemos por um caldo de hervas. Milkau veiuemsoccorro. A creada desappareceu rapidamente. seu maganão. quizesse partir. e não sabia como replicar. erguendo-se apoiado nas mãos. com uma cara ffflfa de um riso complacente e velhaco. cortou Lentz.» dade. você. — O h ! é verdade. postando-se em frente ao cearense. á espera de uma ordem. cahidos e vagos.. y~. — O peior. meu amor. não me conte rodellas. e depois como a allemã. você traga jantar egual ao que me tem trazido. arrastando a voz : — Qual. elle resolveu-se a falar. O allemão enrubesceu. '^Tvunl — O nosso interesse é y^/t^^Â^o^^f alegna\ m 'c$ *' d'este povo.172 CHANAAN rapariga não tem falado!. que quer mais sinão. camarada. então você mesmo. nada de segredos. — Lentz não se preoccupa com isto.. — Vá pregar n'outra freguezia. uma rapariga attendeu.. Vamos lá. com um 0 ' y^XA***'/ C«*w mfo' yt£r. Felicissimo mirou-a com malícia. V. para estes dois amigos. Afinal. Em pé. comprehender a sua vida e felici.A.

e os cumprimentaram com gestos de cabeça. Alguns d'estes rapazes que eram da casa de Roberto. que a seguiram como servos amorosos. Felicissimo estalou a lingua. Dos seus logares offereciam-lhes vinho. de que se serviam bebendo o vinho do Rheno. Milkau e Lent^ começaram a jantar dos pratos rústicos. e pediam aves em conserva. melancolicamente. — Ah ! esta vida ! esta vida ! murmurava o agrimensor. e o grupo continuava a beber indifferente e desdenhoso do resto da gente. o agrimensor exhibia-se por 10. — Si vocês fizeram voto. Excitado por essa attenção.CHANAAN 173 movimento airoso como um passo de dansa. Olhou a garrafa queesvaziára. e sem saber o que dizia. que serviam no meio de algazarra e de >A_ desordem. atirando-lhe os olhos. objectou Milkau. reconheceram os antigos hospedes nos novos colonos. n'uma expressão amável. e tanto barulho fazia que não tardou muito sobre elle se voltasse a curiosidade geral. mais \}em<>dU*^r trajados que os camponios. Felicissimo bebia sempre com grande alarde. . acenando com a garrafa. eu não fiz: beberei todas seis. pedindo que lhe trouxessem outras seis. — Nós não tomamos tanto. recusavam a comida ordinária. Milkau agradecia com outro gesto. bateu na mesa. Alguny ^caixeiros da cidade. Puxou o copo de cerveja e bebeu.

. Muitos não o entendiam. O agrimensor o repelliu.174 CHANAAN todas as fôrmas. ditas no meio de risadas. Produzia-se um . continuando a gritarja. feito de vozes de velhos. na desordem. Este variava o seu repertório. . que mandava distribuir em torno. e na confusão. O agrimensor ordenou por sua conta mais cerveja. A * _ y com enthusiasmo. e outros o cercaram.-^noços e mulheres. mas que ao seu lado eram retomadas com brio. trepado na cadeira.// realejc/6ue .exà tangido n'um impulso frenético / . que foi expulso da sala aos empurrões. o liquido se espalhava pela mesa . O dono da casa. A estes o agrimensor respondia improvisando versos em portuguez. versos d'essa toada sertaneja que lhe falava tão intimamente. de copo em punho. cantando canções allemãs. levantando brindes. dansava. Os camponezes o admiravam n'uma alegria infantil. para acompanhar as canções^cujas notas graves eram abafadas no barulho. violentos e ferozes. cantava. tomou Felicissimo pelo braço. protegendo-o contra Jacob. berreiro descommunal. os rapazes da cidade o deprimiam com applausos irônicos. augmentado pelos repiques nos'copos e nos pratos/e/fi/som estridente de um ni £. que* / rendo conter a matinada. que estropeava. pelos colonos. para forçal-o a descer da cadeira. com phrases insultuosas. mas a cadência dos versos os enternecia e era com amor que pediam ao cearense que não parasse. destacando-se apenas os agudos. Disputava-se cada garrafa das mãos das creadas. na desattenção.

— Não arreda. perseguidos pela vaia dos que / ficavam. Milkau temendo pelo agrimensor. não arreda. que se fitavam com expressões varias de desdém e **^" j dj/divertimento.Y17*^}^ rense. cabeceando de somno. / S r ^ Milkau e Lentz julgaram-se no meio de doidos.moíjolvenéo^é na contemplação. a lua vinha rompendo e a claridade que d'ella descia.^ j m . a desfructar o resto da tarde no terreiro. de idyllios^ L^T**"^*? campesinos casados com aquelle estribilho do cea. l' hf C'lr /r ( ' . encostavam/ *. gritava elle./ saudade. com os olhos pregados no es/ ' paço. e as -mais pequenas. intermediário. Os que yfÃJ* ainda tinham consciência. o vento qf*TWCrilTjiMifc. E de então em deante estas palavras serviam dis. — D'aqui não arredo. E os dois foram-se esgueirando jy -&L da sala./ nio da várzea abandonada pelo sol. E os allemães embriagados o acompanhavam n'um berreiro. riam gostosamente da ira dos outros e mais que tudo do effeito dos pro prios cantos cheios de versos de amor. i .*. "-—' . sem cólera.«f**-*5./ paratadamente de kjjdbúkd a cada canção.. j{/•xy*™rf/t e todos se sentiam sob um encanto mysterioso de •"*-».^ . sem)odera-v/)furtivamente do domi. intimidadas pêlo silencio que ellas mesmas faziam. propoz-lhe sahirem um pouco.. E n*esse ins/ tante in4eciso. No terreiro as creanças-fafigadas estavam serenas. de repouso. ^ ' ' .* *"* ** '^ >VU0S*. Fora.CHANAAN 175 dos copos entornados na sofreguidão da conquista. Xy*-" ..

até pux. fora mais illuminada. A sala. Alli. i ili s. ' tes. descuidosos por algum tempo. a musica tocava uma valsa arrastada e langorosa. como esfriasse. o' ' / torpor/ dos rapazes. pois muitos ainda do mantinha-m/á mesa ou se postavam en^ Jj costados ás portas e^ janellas. E mais tarde. depois que L ^ " * ' a noite avançara. Os dois amigos caminharam até ao rio. volveram á casa da festa. • ella estava illuminada. abria um cir/v r "^" ** ~ culo de fogo em phosphorescencia.176 CHANAAN se ás mães sentadas no chão.. e o foram margeando. Agora é que se podia vêr a variedade de <^<*^«-- p^yHi^J^-u UCm- . e todos se divertiam alegremente. erü^çadas umas ás outras.. e a luz xfyÇjyíjfo/e quente que sahia das janellas e das portas. e pouca gente dansaya. onde na sala da frente se começava a dansar. os grandes. Detiveram-se e sentaram nas pedras. ^j I ou /recolhido ao salão do baile. que. e s t i m u l a n t e ^ ^ f f i V I i Não oc pass^-muifô^a^^-ciffiffvfue 0 baile [ v**** ' entxOáigf em plena animação. tímidosjjd negligen. os pares se compunham de rapari(/$*' gas. e ouvissem de novo a musica. dentro da claridade mansa e leitosa do luar. Em geral. doavam proL^i-Í*'^* vocadreâs sacudindo com os seus movimentos. No terreiro já não havia quasi ninguém : as creanças tinham debandado. haviam partido para as colônias. Os músicos recolhiam os instrumentos e vinham vagarosos jantar. Subiram ao / sobrado. Quando a descobriram. a musica não cessava de tocar.

. uma joven de flexível graça. a família está toda aqui. e o patrão d'ella é aquelle mesmo que é o seu par. é um dos negociantes mais ricos da cidade. O pae . arrastadas com estrepito pelos seus pares. passou. é creada no Cachoeira. tropeiros. Parece que não cança de levantar aquella cabecinha. não vê? E um colono e filho de colono no Jequitibá. sem separação de classes. de nariz grande.. acompanhava a festa. na serie de pares de uma marcha polaca. caixeiros da cidade. — A h ! E preciso conhecel-a para saber que não é só no baile.. — Não. é muito graciosa.. Alli estavam negociantes do Cachoeira. Não conhece? — Não. com as'mulheres. é em tudo assim.CHANAAN 177 gente agglomerada na casa de Jacob. Martin Fidel. — Pois admira. Deante de Milkau que. Um homem de tosca figura. rrfrriiiiir n~ rlin i r » ./ r i m r— Não ha nenhuma que seja capaz de chegar a Luiza Wolf.. Ah! lá vae ella ao braço d'aquelle mocinho alto. — Realmente. A mulher já -é velha como elle. que estava ao lado de Milkau. desengonçadas ou morosas. voluptuosos. distinguindo-se do resto das outras raparigas. Amanhã estará trabalhando com o mesmo ar — Naturalmente é uma colona.. lavradores. de movimentos ondulantes. sentado a uma janella aberta. creadas e todos reunidos n'uma grande promiscuidade.

barbado e de chapéo na cabeça. batendo fortemente os pés no assoalho. por causa do suor que .refrescaríy». Os movimentos eram tardos e pesados . como vê. uma desenxabida.. separados. ora fazendo evoluções de homens e mulheres.seu informante tinha-o ijli. í \jfr lhes escorria da fronte. procurando os bancos encostados ás paredes das salas ou aos cantos das janellas. faziam um barulho secco.à 1? abandonado. ora desenhando meias luas. executando variadas figuras. abraçados. dentro de sapatos grossos ferrados.) £/ Milkau estava só. enorme. farto de lhe relatar coisas da colo- í . é aquelle baixo.178 §KANAAN d'elle também está dansando. velhos fumavam o seu cachimbo. cõTfío por uma combinação mágica. o . para se reunirem depois de differentes voltas. o par é a creada. i ^i^^xamente^de eharuto^ú* cachimbo ao queixo jljl Yj chapéo na cabeça. e todos livres » movianrragarosamente. Muitos sahiam até ao terreiro para §&. gorducho'. (drAddjMfà as mulheres amar'TC i s raVám lenços ao pescoço.. ora separando-se em alas. > 'Y. que^iominava as vozes dos instrumentos. Os dansantes continuavam no compasso marcial da polaca. marchando frente a frente. resmungando conversas y o*.no es^g^ro. arrastando-se com esforço. namorados passeiavamalli.. Quando^ícon^adansãAparava)os pares se voltavam-Vèn'um mesmo instante.

I J^T^ era a expressão da bocca. Ày*i<y<f''\ 4A . o mirava nos ^ olhos. fatigado d'aquellas simples e monótonas dansas. talvez longas demais. plácida e innocente. volátil. ao menor ' silencio da musica. a descançar bem perto . o porteesa gracioso. Mas o queuuiaTÍffrfta de superiort^*"* ^ era a fronte aberta. z—^~ porém de um contorno fartoJe as mãos brancas. sahiam%os braços como ca-. e quasi todos foram dansar. Lentz desde muito tempo não apparecia na sala.'"* seriam a vida e o amor da "rapariga/Esta respirava f *. Estavam alli. De vez em quando.' mas humida e bondosa. uma distincção maior do que era commum J*t4*>' nos colonos .CHANAAN 179 nia. meigos e infinitos "~~^j sobre os -quaes via boiar imagens doloridas que —. tinha um ar fatigado e sentava-se n'um pesado abandono. Felicissimo não sahia da sala Q de jantar./ drolltb. era o cabello louroJfôfo. sentaram-se duas mulheres* ^ f u m a dr*il$>c»xeconheQ$bs!tto. 10$k£$0faí certa b e l . alegres. entravam n'um grande alvoroço. Também da sua parte ella não deixou de acompanhar a furto o vizinho e.com certa ousadia. MilkauJentãcVtáj^ á vizinha. estivesse no terreiro passeiando solitário. as vozes d'elles. Alguns minutos depois.# y W ^ ~ ' leza. tocou de novo a musica uma valsa. no mesmo banco. /^jg JffflYOyH^Ut» -é. becas de galgo. entoadas. da sua bocca descorada. dxlixfJb .& offegante. . onde com amigos allemães continuava / *~ a cantar e f beber.o busto erguido. e o amigo pensou que. a mesma que na capella o fitara durante o seu somno. aquelles mesmos olhos. Junto de Milkau. . ás y//<?&/ vezes.

Um rapaz ae approximouj e sem dizer uma p a lavra. aqui tem esta minha amiga.180 CHANAAN Não dansa ? (Ju-4j?'' Ella não se intimidou ouvindo-a vaq&^Mliii. <0L. que se deixou acariciar negligentemente.. Mr rntão^silifrrrorin r tmnf^iill? Respondeu promptamente: — Não: não posso. percebem-se as qualidades secretas de cada espirito. conhece-se a nobreza ou a grosseria da raça ou do grupo moral a que pertencemos. tomou pelo pulso a outra moça. que traduz a musica do cérebro. o accentp da sua era uma revelação da personalidade intima. quando não me sinto bem. ajs*</ e com gesto de carinho quasi maternal. Vejam só. á moda do logar. e como que rasgava um tênue véo para mostrar a deliciosa paizagem da sua alma.. E sorriu levemente. Milkau ficou meio confuso e desculpou-se. pegou na mão da outra rapariga.. mas. E a sua interlocutora : — É o que me acontece pretextar. pois não me sinto bem.. confessando que não sabia dansar. A voz d'ella era um canto intimo. que é uma das melhores na valsa.rapariga. como habituada aquellas maneiras da amiga. E como em toda a voz humana. arrastando-a para a dansa. Mas ninguém me acredita. voltando-se para a amiga. se érgueu-e. pela voz. si quer um par. sonoro. disse radiante e rápido : .

. — Eu ? Nunca.... Neste banco ou na janella. que ás vezes seria melhor passar a vida a dormh. — Deixe lá.. — Fazia um calor terrível. não é verdade ? — Não sei. — Por aqui mesmo.. onde me esperas?..' '' . ha muito /empo não nos viamos. e hoje tem sido um regalo — Oh! desde manhã andamos n'esta roda viva. E verdade.. " li t~.. sentia um bem esta-" immenso. Tenho tanto que te dizer. replicou meio confiada e intima. Maria enrubesceu. volveu com vivacidade a rapariga. i — Sim. Ao contrario. Não é por preguiça seria para esquecer tantos aborrecimentos que iJdesejaria um grande somno.. Maria disse a Milkau : — Não lhe parece tão boasinha ? E filha de um colono do Luxemburgo.. referiu Milkau.... — Já vejo que converso com uma grande preguiçosa. E o pastor não o divertia. Não quero me separar de ti. recordo-me bem de que não estávamos muito longe um do outro. e o somno me veiu como um arrebatamento feliz. mas immediatamente retomou o fio da conversa.. — Por signal que eu dormi... Lembro-me de tel-a visto na capella do Jequitibá. Quando a joven partiu arrebatada pelo par.CHANAAN 181 — Maria..

allucinadas no movimento aéreo da valsa.182 CHANAAN Acabou a phrase com uma voz sumida e vagarosa. E agora queres dar um passeio ou preferes ficar aqui ? perguntou a outra arquejando' de cançaço e sentando-se instinctivamente : — Oh ! meu Deus ! Passeiar. que também ao seu lado não sentia o menor constrangimento e se exprimia sem emba. observou Milkau. — Talvez.. disse Maria á amiga. quando logo depois os ergueu. como a um velho conhecido. amor. os pares se desfizeram e cada um dos dansantes tomou direcção diversa. não me mexi d'aqui á tua espera. descança um pouco. C_J — Aborrecimentos? Imagino a que «)isas ' simples dá este triste nome. observou Milkau. Vamos para lá : o ar fresco lhe dará forças. Milkau ia achando prazer em se entreter «om a rapariga.* raço. para sua companheira. — Como é bello dansar! Com a sua mão fina fazia um aceno affavel ás amigas que passavam. fosse preferível. Ella não respondeu e ligeiramente abaixou os olhos. e as moças correram sôfregas para . mudou de assumpto. Levantou-se. Quando a musica parou. — Tu vês. quando estás que não podes ? Não. — Eu sabia. as cadeiras alli estão desoccupadas. sentar-se á janella.

meio assustada por um grande barulho de vozes. ensaia alguns passos. receiosas de perdel-as. um vento manso balançava os ramos.? perguntou Maria. livre. — Não é nada. e d'estes as sombras ainda longas dansavam inquietas. Todos se precipitaram para indagar &fc que se passava. \ . — Que é isto ? interrogou Maria. 0 verde das arvores se adoçaVa á luz diamantina. e o grande f ampo dzsí. se desmanchavam no horizonte. T/fâúindo que uma grande ^A*//** rixa se travava alli. os rapazes protestam contra a innovação. puro. que vinha da sala de jantar para o logar do baile. Havia grande discussão. Maria e a companheira ' 'não estavam tranquillas. — E afinal. em vozes altas _ / e agudas. quer forçar os músicos a tocaram. a torrente rolava borbulhando. assobia. transparente.Jví> CHANAAN [\r*f- ' | v« 18g as cadeiras indicadas. descendo no céu. Milkau sahiu para vêr de que se tratava. 0 primeiro olhar d'elles foi para o quadro de fora. o agrimensor insiste.. O agrimensor Felicissimo entende que já basta d'estas dansas extrangeiras e que jgora se deve passar ás dansas brasileiras. Os músicos não sabem como executal-as. Todavia. sem estrellas e desmaiado ia se transformando em um pavimento de crystal.. Toda a terra estava inundada de umiluar branco. que elles ignoram. e pouco tempo depois voltou. rijo. as nuvens. mas tudo cortado por atroadoras e ^tf/]Mf///^ -7^w*2! dfy gargalhadas.

Felicissimo. *%*y*c*-o^ livre para a dansa. poftyj/í/rffôfyjf oxchestxa. ensaiava ' estalar os dedos como castanholas. com ty*-^ ^ os olhos tortos e compridos.184 CHANAAN — Afinal parece que Felicissimo vencerá. ftffâffl /uccedeu um silení^. Depois d'este accordo. e o dansarino só. Alguém perguntou ao agrimensor o yyy. e « j ^ cio de espera.t^^1 que ia elle dansar. C W De facto. agoxWitf ^ ^ t ^ ^ ^ a f i n a d a . para con . r^. meu povo! /JZhltÀt*-. ^ f ^ f M W ^ ^ J* / » ^ ^ ^ e > € ^ ^ í ^ # I ^ M j 3 g ^ expe*+*" ^ ^ compJLssísMxx^tnJlndÀ/o^me^nòs gís d^da^síf q«ae '"'* r *' +. começj/tjfyfL a tocar uma peça arrastada eM^ . sahiu para o meio ^"^jtjtft-^da sa^a> gritando com voz difficil : Í ^ J * — E o chorado. A musica suspirava gemidos languidos. w ^ * ^ " e muitos amontoados ás portas e janellas. no meio da casa. fazia tregeitos desconnexos. rencissimo Felicissimo cantarolava cantarolava oo anaamen-/^. Mas nenhum som produziam as suas mãos dormentes. ninguém se movia mais na sala. os músicos vie•. e jamais um gesto se casava com o compasso da musica. e a gente anciosa correu ^ . J_ ram para os seus logares.^ para a sala. cambaleando. medonhos. desengraçados.. $if fáfLyju. n'um borborinho de risadas. arrastava a perna. Junto r*?"^"*"^ aos aos músicos. andámen„ < * * * ***** ^ 2 to. Rodava sobre si mesmo. erguendo e abaixando os braços. tíremeduára. quasi todos estavam sentados. acocorava-se. Riam em torno.voluptuosa. / C . «^vT seguir um bom logar.E. achando aquillo estúpido e gro- . e veremos alguma dansa da terra. músicos.

Arrebatado pela musica que lhe falava ás mais remotas e immorredouras essências da vida. . entre gente de outros mundos.. e o inutilisava inteiramente. e cahiu J^r/á/á^ e pesado n'uma -w-J^Z cadeira vazia. Todo o seu corpo se agitava n'um só rythmo .fz0 A rosos compassos. com medo de alguma queda desastrada. mas os lè^i vizinhos o sustiveram na f/f* cadeira. /-éy^***'" Durante algum tempo ninguém se moveu e a 9<^ri. O agrimensor apoiou-se com a mão á parede. e afinal. agradecendo-lhes com o / enternecido/olhar de bêbado manso. a bocca entreaberta. Joca pulou na sala e principiou a dansar.CHANAAN 185 tesco. uns fugiam abandonando os logares. os cabellos i» agitavam livriuricnlij ou / U . de repente. por prazer. com os dentes em serra. Felicissimo ainda tentou erA guer-se. Por enthusiasmo. ~ livrando a cabeça. a musica continuava. A sua alma nativa esquecia por um momento essa dolorosa expatriação na própria terra. todos gritavam de susto.í*' musica didi^dM^. solitária nos seus largos e cho. o seu corpo se arrojou rápido. a cabeça erguida • tomava uma expressão de prazer illimitado.. Foi uma barafunda. outros riam do espectaculo. violento contra a parede. o mulato se transportaya)para a longe de si mesmo e se transrlgTrnrvjíf n'uma 4. como um fauno f/ll antigo. A embriaguez do agrimensor era completa. como n'uma gui.-/. sorria.'*' nada de navio. Elle -deixou-se prender. • altiva e extraordinária alegria. Felicissimo deu KJ mais algumas voltas. Mas.

que dava a illusão de um instantâneo repouso em pleno espaço. sahindo dos braços retesados. ora espalmadas no ar. de cabeça inclinada e olhos compridos. Joca não perceberia a falta dos instrumentos. vivendo. com os braços abertos. vinha languido. ou molles cahindo sobre a fronte. paravam. Depois. as mãos. obedecendo ao compasso da musica. N'esse momento a orchestra podia parar. como n*um grande ataque satânico. tremulo. retomava a sua doidice. era musica. espraiando-se na velha dansa da raça. fazer um silencio que desequilibrasse tudo. ás vezes. outras. na sua alegria rara. vertiginosa. agitava-se todoy . n'uma ^rbjfação '^/e*** de todos os nervos. com os pés juntos n'um passo miúdo e repinicado. ébrio de musica. e nesse gesto. no impulso da sua alma. requebrado. elle parecia. quasi pairando no ar. suspenso. e achegava-se a alguma mulher. no seu corpo triumphal. rápido. quasi de rastos. os pés voavam no assoalho e. Umas vezes. ora baixas. sacudindo os membros n'uma dansa desenfreiada. era vibração. erguia-se n'um salto de tigre. todo elle era movimento. ora unidas.Hy ^P^y . mas que se adivinhava febril. corria pela sala saracoteando o corpo. pois todo elle. A scena continuou algum tempo com esse único *-. perfilado nas pontas dos pés. querer voar. como a dansa de um beija-flor. estalando castanholas. imperceptível. querendo arrebatal-a n'uma volúpia contida.1S6 CHANAAN empinados e eriçados.

E como o derradeiro sobrevivente de.CHANAAN 187 personagem. fluente como um rio. infindável e sus^ surrante palestra. larga. que correspondesse aos seus movimentos. e. uma mulher que acudisse aos seus appellos.jJKff^0ff *y^fJM^I0^lfl a amiga de Maria. ninguém sentiu o Ímpeto de sacudir-se. «^ 'f^ o terreno aos vencedores. vae derreiando o corpo combalido. das mulheres negras.. Um momento a rapariga alteou a voz.. emquanto outra musica.ff/lJ+tf**" cido de dansar.. Joca procurou um par. Ninguém veiu. uma raça toda extincta ^jtí^f/j^f n fi^W&fyfflr^ Jmlfy. clara. toda entregue á paixão. as pernas morenas não se retesavam com a mesma energia de pouco antes.. declamou como na velha bailada : — Ob ich dich liebe ? Frage den Stern. N'uma das janellas um pax IfáYJfftflLava. Havia jaaki luar Í W W 4 * « / fora. de uma saudade das suas companheiras de mocidade. as sombras minguando se resumiam mais fixas. esque. e sem saber o que fazia. assim o • yUJLS ultimo interprete das dansas nacionaes foi cedendo J. invadia o scenario. O peito offegava. Era uma longa. de remexerse ao rythmo d'aquella dansa. pouco a pouco foi cançando. Desolado. Era a valsa aiJi t i lema. tomado de uma repentina tristeza.. Todos tinham curiosidade e nada mais.. ////'*' f" '' tà*\ Na sala<^^pares/roavarrí n um frenesi. /Z^tèr^/ei outra dansa. que sentiam como elle. Maria estremeceu ouvindo o canto de amor. com a flexibilidade vigorosa do páo d'arco. fitando com os .

E para quantos não jpomeçára o isolamento. subiu ao astro morto. apontou a lua. no terreiro. ** viçosa e feliz. foi procurar Lentz. no seu destino. Sua vida triste. Por sua vez. ao ar livre. A moça despediu-se de Milkau. Um velho7chegcmi#á janella onde estava Maria^ chamou-a. encontrando-o. dizendo com uma voz sumida e tremula : — Que tristeza.. como obedecendo 1 a um chamado extranho. como de um antigo conhecido.. marchando como um cadáver phantastico na estrada do infinito. recebendo jovial o com- .. envolto como n'um véo intangível que o não deixava sahir para o mundo nem permittia que o mundo viesse a elle. toda a vida se acabaria.. entre vários colonos. que no dia seguinte se tornaria a vêr. Milkau. Hfefcjmaginou a solidão de um mundo sem vida. já recomposto d'aquelle instantâneo desfallecimento. aqui nesta Terra radiante. sem uma companheira.188 CHANAAN olhos ardentes o céo.. lá ! j O pensamento de Milkau. principio da morte. p f e f l ^ f o u (f[&u< que algum dia também. — Oh ! pensei que fosses o ultimo a deixar esta casa. peior que o eterno frio. Pensou na sua própria vida. e uma immensa tristeza. n'esta solidão enaque ia passando a existência. sua vida casta e mysfica.. essa terra deserta. Acabara a dansa e era a hora da separação. um grande silencio reinaria nestes mesmos cantos cheios de movimento e de alegria. gritou Lentz.

disse Milkau. não apagam nem dão sombra sobre a Vida. Não sabia que eras tão grande apaixonado de festas. s t T a m " m e. E accrescentou : — Vê tu. Não ha em Chanaan logar para a morte. começaram a ver cruzes pretas e pedras brancas por entre os pés de café. £j I . por um grande cafesal bello em sua 0 íf}utviçosa negrura.. E falámos também de outra Allemanha que ha de vir. — A caminho ! Adeus. Até um dia ! . na encosta de uma montanha ma.CHANAAN 189 panheiro. \ffôjfncfyfâfap£$$£/$ f/jf* jèfâfffifa. — Aqui estive a conversar sobre a Allemanha com estes amigos. gestosa.«Z***»*'. — Bem. < v iA Bateram durante horas e horasA mesma estrada / j* * '^ de manhã perdorrida. amigos. A terra dá o menos possível aos túmulos: elles. vendo os outros alegres e te quiz )>' dar~a liberdade de também te divertires ao teu modo. camaradas ? / / / ^ K^ ty"$tflftf /ppl au dirarr>la prophecia. escassos e raros na fralda da montanha.. — Um cemitério ! respondeu Milkau. — Que é isto? perguntou Lentz. no futuro. Não é verdade. —' / f P . mas agora cuidemos de ir para casa. que os enlaça e domina na força do seu triumpho.

Vivia-se tranquillamente. morto ao chegar ao Brasil. jfóytâ/yjflfk da sua /»*•»*•-vida. e um neto que nascera um anno antes de Maria. de cC" um pequeno clarão dentroyíi. Nascera na colônia. a mãe viuva e quasi mendiga ^ empregárar"como criada na casa do velho Augusto Kraus. longe do Porto do Cachoeira. as creanças crês/ IP- . A « colônia » 0JL prospersí i os outros habitantes eram o filho ca^ ^ j s a d o . antigo colono estabelecido no Jequitibá. e ella guardava recordação d'esse dia do baile como de uma festa tranquilla para a sua alma. na mesma casa onde ainda vivia. não conhecera o pae. Muito das palavras do desconhecido se impregnara no seu espirito. Filha de immigrantes. no barracão da Victoria.VI Maria não podia esquecer os fugitivos momentos do seu encontro com Milkau. ^* vC/ A historia de Maria Perutz era simples como a miséria.

A sua família. á alma cançada e saudosa do colono. scismando. Com elle conversava longo tempo.onde dormira quando pequeno. amores fabulosos. ^^fjò se separavam á /<J noite. como o sol. Sentir a vida é soffrer. O ///' ' sonho era sempre o mesmo. para elle cantava coisas cujo sentido não entendia bem. quando o ancião vinha para / o meio do terreiro ^Iff^f sentado n u m tronco / / ^ ^ secco de arvore. viver por viver.CHANAAN 191 ciam como irmãos. tendo quasi chegado ao extremo da curva desse circulo em que as edades se tocam. se punha a fumar. crescida. por muitos annos viveu como inconsciente. não lhe deixando traço na memória. de que se não distinguia. na completa felicidade é adaptar-se definitivamente ao Universo. O grande amigo de Maria era o velho. Viver puramente. Ignorando a própria historia. de rever essas montanhas da Silesia. vigiando o gado. Esquecera Maria a morte da mãe. passando a existência sem perceber o mundo. paizagens extranhas. e já moça. e o velho Augusto. lendários. um anceio de tornar á > sua terra. de quem ella. mas que falavam. de coisas longínquas da pátria gerrnanica. Nesse . o facto devia ter acontecido na sua remota infância. s^entretinha^em encher as almas dos meninos de recordações da sua vida. cuidava como de uma creança. o seu lar era aquelle em que fora recolhida. a consciência só é despertada pela Dôr. e com o qual mesmo se confundia n'uma grande innocencia. como vive a arvore. depois da ceia.

arrastava-o brandamente até ao quarto e o deitava na cama fofa." i quando a tarefa se concluía e as duas voltavam ao silencio. Depois da morte do velho a situação de Maria na família foi se modificando. para vêr rfVBCrfV* a s velhas estrellas. Augusto Kraus 9 sentava"ao ar > livre.7w <<•^ 192 CHANAAN O tempo conhecia pelos nomes as solitárias estrellas. até que adormecia tranquillo como um pássaro. n'este outro mundo. E assim. rapariga resultasse alguma ligação de amor. Maria foi amante ' do joven Moritz Kraus. Elle as viu sempre an» &ud marcha de força^•Áà. lá vinham algumas das antigas conhecidas. Uma noite. Mas./jS d ° s n-° c a m p o azul. ao balanço do mar. já a ambição dos colonos. Emma. Maria sahia a buscar o velho. lhe 11 1 traçava a separação entre mfo. como perdidas das companheiras. As mulheres. Mas ainda. de bruços no chão e gelado.. que assim se chamava a nora. donos da temerosos que da convivência do filho jfylíféfl Jláo casa. como . apezar de to•. desceram do céu. Já a tristeza entrando no seu espirito lhe revelava o desencanto da existência. a rapariga achou-o derrubado. e Maria scroccupavam"em arranjar os leitos. despertando-o de mansinho/Énfiava-lhe o braço. farta como um paiol de algodão. _„ ^^ n'umi?ejit¥eftescime«í© infantil. Estes amores eram. baixaram ás águas para desapparecerem uma noite e serem trocadas por outras.ez em quando. até que na epocha da sua' migração. e foi a ultima.j/amJlrA das as preoccupações tomadas. e elle as saudava pelos nomes. de v..

os planos da família ? Para o rapaz aquella ligação fora uma simples conse- . a avidez de incorporar o filho á fa*§ milia Schenker. uma pobre creada. que a convivência tornara inevitável e levara ao maior compromisso. uma das mais ricas moças do logar. com os seus desejos e ambições. de Moritz. os amores da colônia e deviam acabar por um casamento. Não era a distincção de classes. Mas a cupida ambição dos já então velhos Kraus não permittijp que as coisas seguissem o curso habi. não tevê meio de communicar com Moritz nem animo de exigir o casamento. onde o alugaram como trabalhador. que lhe parecia entrar gostoso nos planos yrnAkt*r dos pães.iy esperando esquecesse o amovf/ffl^ffl/ftffl^-# ^#££ ijjpyJL o espirito dos Schenker para annuir ao dese. longe do Jequitibá. que os levava a afastar Maria. quasi todos da mesma origem. Que era ella sinão uma miserável./( tual. e no d//dft de cortar uma ///*****£• simples inclinação. os pães. . O seu abandono foi completo . deliberaram mandar o filho para outra colônia. que não existe entre os colonos. sem suspeitarem do ponto a que tinham chegado as relações entre ^_* Moritz e a creada.v L Z ^ 3 jado casamento. Queriam que o filho se casasse com Emilia Schenker. era apenas o interesse. Assim esperava Maria.CHANAAN 193 em geral. JC^od** Maria viu com grande pasmo a docilidade do *«ÁC«*/-amante. que poderia ser lançada de um momento para outro na estrada ? Como •'" poderia embaraçar com a sua pessoa. Assim.

194 CHANAAN quencia da vida em companhia de uma rapariga . um grande suor fria. parecia balouçar como em alto mar. os cabellos amarellos se £*?»*• f misturavam K relva vecdej-es-^seios arfavam in^t—. fl <2oul ' Pouco a pouco. ouvia phrases e juramentos de amores alheios. alvoroçou-se. e Maria. esquecia-se da tarefa..E P o r i s s o n ã o esque- . terra. e de vez em quando. !IJ°^^*tyyL)0íftfÍL só do desalento moral mas também da mysteriosa perturbação do organismo.. deitava-se ao sol n'um / completo abajádono. Quando no cafesal lhe vi/ nham subitamente esses momentos de cançaço. fora apenas uma conclusão animal. a bocca se humèdeeía./ tomava. cada hora mais abandonada. não foi á capella nem ao baile de Jacob Müller. teve a dolorosa proy[/<x vação de se confundir f.subiam náuseas.^ t I tavi/fddtífo e satisfeito a esposal-a. —tinha tonteiras e tudo se lhe turvava nos olhos. e ella(osjüesapertav*)n'um gesto de / desafogo. retendo uma immensa vontade de chorar.. alegria dos-ou-tres-. e desde que lhe acenavam com outra mulher rica./ tumescidos. —fraqueza yfyyfffip . os olhos semicerrados se perdiam no azul do infinito e tudo. reprimindo os sobresaltos. céos. mais inquieta com a fatalidade da sua sorte. Maria já não era a mesma galharda e resistente serva. Indo ás festas da colônia. inundava-lhe a fronte e á garganta I<VK—/ lhe . pensando encontrar-se com Moritz. y/tí _ Íf0t^/fHtfft a a S o n i a . Este. elle sVprest ' ( . Um grande desanimo a . que lhe enchiam os ouvidos. porém. e.

outra sensação. aba. vivendo em si mesma como hypnotisada.•/-rosamente. Kraus olhou o escripto.^ / ( 1 — Você se chama Franz Kraus ? pergunto*! o tS^i^lA' v-mulato de cima. eram ainda assim repassadas de uma infinita brandura. E sabia que tudo tinha passado como o rasto do pássaro no ar . tudo ' pervertendo. f*\j „ O colono disse que sim. que era a sua nova existência. Quem era elle ? Quando o veria mais?. mais forte. mais l expressiva. ?>o outra. sem significação.. a que pouco A pouco / ^"" a turvada imaginação e a frágil lembrança. E desdenhoso entregou-o papel.CHANAAN 195 cia a sua conversa com Milkau. tome conhecimento d'isto. que cahia sobre ella como um refrigerio para sua anciã.. cflÇ^^-n^* n™~JwwH I^^^J^ . quando um mulato. mas teimava em reproduzir de / memória aquelles momentos. no ièrj. em funda agonia. não sabia ler o portuguez. o dono da casa ia partir para o cafesal próximo da habitação. montado n'uma besta. As palavras d'elle. iam doando / L ^ ^ / outro relevo.da montaria.. desdobrando uma Q° ^ ^ -folha de papel. sem alcance. •~fc&/"9 — Pois. n'uma doce conspiração.tj-f W timento. E no led desespero.. vazias mesmo. desolador. e como. então. ficou embaraçado. . que t-jfáfa-skcbaiag-.. ella se apegava a essa lembrança/como a um trecho de verdura no deserto immenso. . se approximou d'elle vaga. apezar de estar no Brasil havia trinta annos. Uma manhã.

/ CHANAAN . que sou o official do juizo.. Era só o que faltava. voltouse para a casa. O colono.... adeus . E os quartos. que também se conta. "* . Que é? — Também vocês vivem aqui na terra a vida inteira e estão sempre na mesma. e ficou como fulminado. e de casa em casa sempre a mesma coisa : ninguém sabe a nossa lingua. Venho por aqui furando este mundo. sinão cadeia. Não esconda nada. Não era assim o nome d'elle? A audiência é amanhã. Ouviu ? Bom. quando o mulato continuou : — Pois fique sabendo que isto é um mandado da justiça. — Ah ! Prepare tudo para se arrolar.196 — Não posso ler.. o escrivão e eu. ouvindo falar em Justiça. Prepare do que comer.. Que raça ! O colono ficou aturdido com aquelle tom insolente. Antes de passar a cancella. não tenho mais conversa. A Justiça pernoita em sua casa.y //Lr <*•» / ... Não lhe deixo contra-fé. São três juizes. j $ $ ^ o mulato. tirou o chapéu submisso. e solemne lá se foi n'um chouto pelo caminho. f. Picou o burro.e do melhor. com o chapéo a rolar nas duas mãos. Ia replicar meio encolerisado. O meirinho gritou: m*^" i ft " . ao meiodia. Augusto Kraus.... aqui. mais essa massada.. Kraus estava pregado no mesmo logar. E um mandado do senhor juiz municipal para que vosmecê dê a inventario os bens de seu pae.. porque de nada lhe serve..

Kraus. todos conchegando-se n'uma desfallecida cobardia. ambos ficaram mudos o dia inteiro. também vestidas . Na manhã seguinte. cada qual. Na colônia. mas o terror dos outros. A lei e o direito tinham alli um prestigio inquietador.o pão negro dos . <y) nome mágico da / „ Justiça . vestido como nos domingos. Veja lá ! Desappareceu. arrancou-lhe palavra por palavra a narrativa da intimação. xemexédifé velhos ba. Franz animou-se. quando se falava '*"*' em tribunaes e processos. . Apenas. Tudo se fazia debaixo * de conselho. fazia ainda augmentar a própria tristeza d'ella. colonos. Maria tentou confortal-os. como succede nos dias de desgraça. Entrou em casa./i'<í***/-J'*r hús esquecidos nos quartos. tirando-lhe as energias para distrahir os patrões. poz-se inquieto a andar no terreiro. As mulheres / ' •>íwatavam-^allinhas. _ seguinte e o interesse que/deviam empregar para yj A recebel-os do melhor modo. que o viu em tão extranho abatimento. querendo apoiar-se no outro.«/£*/ começou a arranjar a hospedagem. a « colônia » estava ordenada. todos se confrangiam. preparava'*». arrumavajfTa casa. quando foi a tarde.CHANAAN 197 — Comida e dormida para cinco. e o colono ficou por algum f//^^fiu tempo na mesma postura. espreitando a chegada dos magistrados.QarfrteTnrya. As mulheres. Depois. e auxiliado por Emma e d creada /£. Franz Kraus não teve mais animo de ir para o trabalho. um terror como si tivesse havido alli uma visitada morte. A mulher. Comprehendendo isso. Maria lembrou os hospedes do dia .

segundo o costume. — Perdão. solicito em ajudal-os a apeapagi n ijis âWnaes. Ainda o sr. os outros da comitiva amarraram os seus nas arvores e todos espararam com o chicote a poeira das botas. batendo no chão ruidosamente com os pés. Os magistrados montavam excellentes bestas que. mas nós dois.. não se arredavam do trabalho na cozinha. sempre a gente se diverte. veiu por obrigação.. e só pelo passeio ! Emfim. são maiores. eram empreitadas pelos negociantes ricos do Cachoeiro/O colonoXçon^eu) a recebel-os. côr de azeitona. a cara de gato . — Mas aqui não ha disto. de chapéo na mão. — Ah ! é verdade.. curador de orphãos. — Uma estafa I Quatro horas de viagem. eu e o collega.. Era mais de meio-dia quando a Justiça entrou senhorilmente na colônia. — Estou morto! disse o juiz municipal. procurando fitar com o monoculo o promotor.198 yT CHANAAN com os seus melhores fatos.. disse o juiz de direito. Um dos juises largou-lhe o animal .. adaptando a luneta azul aos olhos. que nada temos com isto. espreguiçando-se. Todos. meu doutor. recordando nas linhas e na expressão inquieta. sr.. atalhou com um riso de escarneo um mulato velho. então não terei occasião de funccionar ? perguntou vivamente o promotor..

batendo com o chicote nos moveis. ou praguejando. senhores. entremos. — O sandeu fica todo este tempo a arranjar os animaes e nos deixa aqui ao Deus dará. e poz-se como um creado á espera das ordens. — Mas onde está esse inventariante imbecil ? perguntou com arrogância o promotor. Mas que seja do bom. ou rindo das pobres estampas nas paredes. E todos passeiavam pela sala com estrepito. A casa é nossa em nome da lei. — Moça bonita que saia ! gritou rindo o promotor.CHANAAN 199 maracajá.. O colono sumiu-se. — Delicioso esse tempero! Promette! exclamou o juiz de direito. — Traga paraty ! ordenou o escrivão. de onde vinha um capitoso cheiro de comida. Kraus correu á sala atarantado.. — Não haverá alguma por ahi ? Ouvindo tanto rumor. encaminhando-se para dentro. como era a sua alcunha. Era o escrivão. — Não ha mais copos n'esta casa ? perguntou com desprezo o escrivão. ou farejando para dentro. disse o juiz de direito. para logo voltar com uma garrafa e um cálice. — Mas. explicou o escrivão. como si já tivesse commettido o primeiro delicto. .

— Sr. — Sr.. seu fracalhão. E. serviu no cálice ao juiz de direito. uma consulta de direito. o sr. balbuciando desculpas. — Dr. estalando os beiços : — E bom. o mulato chegou-se á mesa com o braço estendido. o meirinho esperava a sua vez. E foi distribuindo a cachaça nos copos.. — Você quer ? — Muito pouco. o « maracajá » começou a beber. — Meus senhores. Esses diabos de colonos a primeira coisa que aprendem aqui na terra é a conhecer paraty. -— Tome lá. como mais graduado. e poz em cima da mesa quatro copos. dr. — Mas. contente. Segurou a garrafa. Os outros riram sem responder á pergunta.. — Vamos a isto.200 CHANAAN O colono tornou ao inferior e depois reappareceu.. meio desconfiado. disse Brederodes.. meus senhores ! propoz o promotor. Rindo. para clarear as idéas. doutor. um nada. continuou o promotor na distribuição. me affronta com esse copo quasi cheio. O official de justiça pôde beber antes da audiência ? Na porta. escrivão. em pé. uma consulta.. . Itapecurú. Brederodes.

um dos //<)&&*leitos : ~£*<d*nt*^ Ah! que somno divino aqui! à& Mas.. o quarto é este.CHANAAN jl/ 201 — Vá lá ! depois py esqueça^e tocar a campai-/*) nha. Indicou os aposentos. e temos processo nullo.44. Uma onda de sangue íhe yj'} ennegrecep o rosto. disse : — Vamos almoçar. é o nosso mordomo. O melhor é deixarmos essas nossas cerimonias. . os olhos cheios d'agua tingi. disse o dr. com medo que esta lhe escapasse. o homem tinha tudo preparado. tomarmos conta da casa. si querem lavar as mãos. como é isto ? Só duas camas e somos quatro ! observou inquieto o promotor. E empur- . porque si formos esperar que esta gente se mova. Quando voltou. /<*" O escrivão entrou pela habitação a dentro. / olhando pelo monoculo ^ subalterno. O sr. procurando o colono. Faça favor de vêr isto.. Itapecurú. todos o seguiram e ii viram-^em um quarto com duas camas altas.HS-J ram-se-lhé de vermelho. Aqui ao lado ha outro quarto. estamos convidados. sr. ' — Não ha risco ! De um trago engoliu a aguardente. ae grandes colchões de palha farfalhantes e commodos. Olhem. — Este sujeito não nos dá almoço ? Olhe que já é tarde. Não sahiremos d'aqui. y* O juiz municipal apalpou éfdi'Ifflf0. escrivão.

dando-lhe de manso uma palmada nas costas. meio nervoso. vou me pôr á vontade.202 CHANAAN rando a porta de communicação. disse afoitamente o promotor. dirigindo-se ao juiz de direito.. Maria. Os collegas do juiz de direito o imitaram. sentindo por instincto a crueza e J^iíVj^dytó^ dos olhares excitados e cobiçosos. foi depondo as chicaras de café defronte de cada hospede. o escrivão mostrou-o. Elles agradeciam. — Socega. Pois bem. Comeram com appetite as comidas da colônia... e. beberam cerveja em quantidade. y-.. não é exacto ? inquiriu o juiz de direito. e logo depois todos três. meijl perturbada. entrou com. Caça extranha. Brederodes. Maria.* como si estivessem em suas fazendas.. mudados de roupa. li/. Não é nenhuma asneira. que estivera todo o tempo na cozinha. Manoel. entraram radiantes na sala. enfiando" os olhos nos olhos da rapariga. dr. só no fim do almoço. veja as chinellas. notou o escrivão. Única mulher no meio d'esses homens. Souza Itapecurú.ella ficou vexadissimae rubra. onde o almoço os esperava. lavados e refrescados. — Até o sr. o café.*J — Oh ! lá !. observou sorrindo o juiz municipal. a sorrir intencionalmente. — Nós hoje não sahiremos d'aqui.. O dono da casa e o official de justiça serviam a refeição. O official de justiça obedeceu. que de •//U (W Ar^y^ y*«~ "— T / • «• ^'~y i^^1£^t^ A .

çmquanto arranjava a mesa para o seryiço. seu Pantoja. E. que abriu em pagina marcada. Brederodes ficou pensativo.•* —r Bem. sentou-se e principiou. finda a tarefa. a lançar os termos do processo/ Paulo Maciel tomou um logar á cabeceira da mesa. — O h ! é só para vêr. dizendo ao juiz municipal : — Sr. divertindo-se com a scena. Vamos lá.. . de onde elle tirou utensílios para escrever e um formulário. Nos seus olhos turvos passavam miragens de ^/AdÜtd.... não manda abrir a audiência? O dr^-Paulo Maciel espreguiçou-se bocejando.CHANAAN 203 ?! monoculo na mão ficou atrapalhado. O « maracajá » poz os óculos e armou-os na testa. debruçado sobre. e quando um grande torpor ia dominando a companhia. com um sorriso parvo enchendo-lhe a cara. V S. o papel de margem dobrada. dr. emquanto os outros commentavam. O official de justiça apresentou-lhe um bahúsinho. '' £2*"*// Depois do almoço. E a pobre moça. e com ar fatigado e distante começou â acompanhar o serviço do escrivão.. e elle sentiu impe//i^1**'tos de se apossar da mulher. • — Pois sim. puzeram-se a fumar descançados. Procurou a melhor luz. entendeu o escrivão espertal-a. como si o convidassem á mais enfadonha das % tarefas. desappareceu n'um andar incerto e balanceado. está prompto o termo.

O seu olhar não retinha da scena sinão uma vaga impressão. avolumando-se no silencio total. desinteressado. ordenou o juiz municipal ao meirinho. Quando declarou que o pae era morto havia quatro annos.. Este. foi até á porta e começou a badalar.. que entrou na sala.. aterravam os moradores da « colônia. » Depois foi apregoado o dono da casa. e fizeram-lhe perguntas a que éüi respondia com voz apagada e tremula. desfructando-os como si já fossem d'elle. E passou para o quarto. Audiência do sr. na grande calmaria do mundo. então abra a audiência.. e onde élle parecia extranho e prisioneiro. Ordenaram que se approximasse. começara por desconhecer sua própria casa transformada em tribunal. sem dar contas á justiça. governada por aquelles homens que se tinham apoderado d'ella. juiz municipal.. confuso e medroso. dr.. esses gritos estridentes. juiz municipal. vá tomando as declarações.204 CHANAAN — Sim senhor. levantou-se e disse ao escrivão : — Seu Pantoja. de campainha em punho. clamando com voz fanhosa : — Audiência do sr. onde os collegas fuma- .. Este heróe aqui na posse dos bens. Sob a força do sol ardente. Paulo Maciel. dr.. passeiando na frente da casa. nem á fazenda nacional. o escrivão resmungou : — Vejam só.

com que ainda mais amedrontava o allemão..CHANAAN 205 vam tranquillos e preguiçosos. ou do cafesal. Vocês são finos. Na sala. sem receber a menor explicação/áenmyPantoja tirou os óculos. * %&r<>y . . que se fechavam logo. proseguindo á sua discreção. estirados na cama... do quarto não vinha " *****'*** mais o som da conversa : apenas um roncar monótono e regular de alguém a dormir enchia a casa. deixando apenas em claro as assignaturas do juiz e dos avaliadores que elle dava como presentes. mas eu sou ma/ caco velho.. n'uma costumada fraude que lhe rendia mais custas. que assignou tudo quanto elle mandou.j ^ Duas horas levou o escrivão a trabalhar no inventario.. Acabado o serviço. ím de se haver áéy com a justiça. Tirou o paletot e deitou-se como elles. O processo foi-se fazendo com estes dois únicos personagens .jdespediy o dono da casa. Pantoja atormentava o colono com perguntas e de vez em quando & interrompia-para ameaçal-o : — Se você me occultar qualquer coisa aqui da casa ou das terras. abrindo de tempos a tempos os olhos fftpéfff de f/i/C^fjjj.. e que eram seus homens de palha. junto á janella. onde tudo 0 êfáffifáfáffa' n'um grande y^/»****'socego. somno. sentado n'uma cadeira.yy . cochilava o meirinho.. São as penas da sonegação. Penas terríveis! Assim envolvia as suas ameaças nas dobras de termos technicos.

sem nos da^ satisfacção. .. meu doutor.206 CHANAAN e manso. doutor! • e ^ " ^ ^ 6 * * " i Maciel asespantou^com a voz)ao subalterno...ponha*se em campo. — Não. disse o juiz municipal. e quando se sabe expremer a mandioca. Venha v. s. .jfpf Svdyr 0ftáo sobre elle IfltftfjffltyÁjfô com os olhos endiabrados e sinistros.é um gosto. Havendo milho. é melhor deixar essa pobre gente em paz. — Neves. meu doutor. assignar os mandados para se fazerem amanhã esses inventários aqui mesmo. E lendo os papeis.. — Ora. ? Já acabou? e <fiy r — T a l o . E aqui ha bastante. não nos adeanta. sorrateiro. que não fazem inventario ha muito tempo. mas. E cousa pouca... comendo os espólios á rftnv* tripa forra. póde-se vêr o que rende no fim da festa.. e em mangas de camisa e chinellos veiu á mesa da audiência assignar os mandados.ordenou o escrivão ao official. Tenho pramptos alguns mandados para intimar uns colonos d'esta vizinhança. seu Pantoja.. — Seu P?ntoja. vae deL* pressa quj. — Prompto. veiu ao quarto em que estava o juiz municipal. Afinal. tudo o que cáe na rede é peixe. como si quizesse suster aquelles appetites do escrivão. repetia alto os nomes das pessoas a intimar : — Viuva Schultz. *"^ — Ah ! o sr. levantou-se. condescendente e resignado. seuPantoja. . sr. Não sendo coisa grande..

meu* senhores.. Maciel que se consegue isto.. * — Muito bem. — Tenho pena. sr. Maciel. bem sabe o trabalho que tivemos para arranjar esta pequena excursão. devemos sempre fazer as nossas desobrigas. Otto Bergweg.CHANAAN 207 Viuva Koelner. — De que. O meirihho metteu os mandados no bolso e foi sellar o burro. E voltando-se para o promotor : —Você tem-se fartado de dormir ! — Para que serve o colono sinão para isso ? Para sustentar e regalar a Justiça. — Que boasomneca. : . Com este bello dia... . dr.. doutor ? interrogou vivamente o escrivão. Mas não é com o dr. deitados! Ora. si fosse eu o juiz dos inventários. Com poucas estou de volta. seu capitão. O sr. tudo é perto. como os vigários. doutor! disse Maciel ao juiz de direito. aqui. — D'esta pobre gente. Hff Os dois outros abriram os olhos.. Olhe. não sahiria das « colônias.. vamos passeiar! E abrij^ as \v*Xte. Esta é a nossa religião. amortecida no verde da Tfftftfifá*^ folhagem das arvores que envolviam a casa.f0frfâjfffâf#U y> r ^ aposento uma luz branda. ia dizendo o juiz municipal.. — As qrdens. no seu caso. Para amanhã ás nove horas. voltando ao quarto onde descançavam ostollegas. Brederodes. d'estes miseráveis. — JJrçá^ que malandrice! disse o juiz municipal.

Não deixei um só por fazer. é por essa falta de espirito pratico que o paiz vae mal. Itapecurú. protestou Brederodes com interesse. dr. Ah! todos prosperámos no foro.. dr. tomava nota. Capitão Pantoja. Paulo Maciel m~ viu^assim excluído d'aquella *Nk communhão e ficou meio desdenhoso. assestando o monoculo. os velhos.. — A quem pergunta! Fui juiz municipal doze annos na Bahia. — Perdão. voltou-se gravemente. Não é. e trinta dias depois o mandado fazia mexer os recalcitrantes. Fui o terror dos inventários. com- . \\ Todos triumphantes escarneciam do juiz municipal. Estes moços de hoje se dão outros ares. ia de porta em porta em nome da lei. e nos seus risos entravam suas almas. deve ter pena é de si. Vão lá saber a minha fama.. juiz de direito? Itapecurú. metteu-se entre os discutidores. Nós somos de outra escola. . quando me constava que havia um fallecimento. $"" 'que era o chefe político do logar. eu movia a machina. O sr. da sua família e dos seus patrícios. dividindo o cabello ralo. sr. colono £ anda fino. acudindo á interpellação e. Commigo. que de pé se penteava. nós. não me envolva na V" classe dos românticos. Qy Havia n'essas palavras um prazer refinado de«r ^ misturar-. aqui o capitão sabe.tuirny camaradagem com o subalterno. mirando \ os collegas dominados pelo olhar felino do escrivão..2UN CHANAAN — Na miséria anda a Justiça.

o do $$jft> // -T ^ era o riso silencioso.. contra a immigração! — Então. ia com um paletot de palha de seda. sem energia para o ruído.. puzeram^a *JW^' passeiar vagarosos. um era o riso tumultuoso. appareciam. ^» "/^**/ Vieram todos para o terreiro.y&i *»'•**• regado de fructos. muito penteado. de Itapecurú. e «•«. De chinellos. com um gorro de velludo na cabeça. so desleixo.I bria a cabeça com uma espécie de solidéo de lã.. examinando do sitio. engravatado. tudo nos encanta. pela sua theoria. e em mangas de camisa os jovens magistrados fartavam-se do bello ar da tarde. O sol já ia fraco. encurralados na cozinha.*^/^amena. amarellos e vermelhos. já muito russa/jfo. o juiz de direito que não os acompanhava em tamanho desalinho. A Justiça reinava livremente na casa £V*^ e no pomar.CHANAAN 209 pondo um conjuncto extravagante. não*' «J^ ' . fructos ^Í^C***^ novos ou sazonados. cortante de Brederodes.. oti^'^jperdendo a força em se estampar demorado na i^f^^-. physionomia. Os colonos. e com a relaxação a tristeza e a miséria. E ainda se fala. outro era o riso f/Arlvf canino. alvar. abandono. interrompeu o pro12 . que lhe tapava a calva. Que di&exenç^È. O escrivão conservava yi a sobrecasaca de alpaca preta. tudo prospera. e quando estavam debaixo do laranjal car. notou Paulo Maciel: — È admirável a ordem e o asseio desta colônia. Nada falta aqui. ^df^mdterras cultivadas por brasileiros. rápido. e a tarde era tZ^. Deram algumas voltas.

confirmou este. refiro-me a todos nós. — Terra de analyse. e eu concluo sem medo de çrrar quaes os f?«**0. Maciel.. Itapecurú ? O juiz de direito tomou um ar solemne : — Sim e não. disse Maciel trocando um olhar com o promotor. E que se pôde fazer sem analyse? E o destino da Hespanha : cahiu em nome da philosophia. E' meu. não .urrencia com um povo analytico. uxjtí ^f0fffi/f> P o r exemplo. devemos entregar tudo aos allemães ? — Apoiado.. dr. — Sim. Quando vejo um indivíduo. meu amigo. basta Ig. — Como. Não pensa assim.Então os Estados-Unidos. como se diz na velha escolastica. doutor ? gritou o juiz municipal.. Ah! Porque uma-vez apanhado. — O doutore terrível. Não podia entrar em conc.210 CHANAAN motor. classifico-o. commentou o escrivão. não preciso saber das suas idéas... E' a conseqüência do que diz o dr. eu sou um fanático da analyse.//'sentimentos psychologicos do meu examinado.E quando digo brasileiro. Quando estive em França. Terra invencível.. para mim era indiferente que o paiz fosse entregue aos extrangeiros que soubessem aprecial-o mais do que nós. o que esse homem j ^ v í ^ ^ c o m e . — Ah! Tenho confiança nos novos povos formados n'esta escola. estudo-lhe todos os hábitos. Não ha duvida que falta ao brasileiro o espirito de anaiyse. Olhe.

Ahi é que está tudo. que devemos ceder o passo ao mais forte. E a sua loucura era tão grande que pagavam pela lingua. Só rhetorica.. rica. olhemos jfd^d.. mas sim o que elles ' J/^t^>«*/dizem.CHANAAN 211 deixei de ir ao parlamento e admirei os jovens espíritos.. rapazes quasi imberbes. E a d'estes de agora nem na praça da Concórdia. respondi eu. questão). (voltando á nossa HQ^^JO. como vê. Quando falavam aqui dentro (estávamos no Palais Bourbon) a voz d'elles era ouvida no mundo inteiro.. / f{ como diz o poeta. — E depois ? — Matei-o. Fala-se em Lamartine. — E que respondeu ? — Pepsa que embatuquei ? disse com o seu riso volumoso o magistrado. cheios do espirito de analyse. e até patrício nosso. Maciel. É uma fatalidade. não ha inferioridade.. Anões! Lembre-se de Berryer. morre poxjyLsse mesmo espirito de xheto-/yT . antigamente esses homens falavam por falar. me disse uma vez em Pariz : veja os seus oradores de hoje.o~ ***** *$• " •ytj . Vae vêr. Até certo ponto convenho. nada de serio. Não reparemos na yj. educados na sciencia positiva. fôrma.. dr. Não.. Um sujeito. Não íjj^ Cdolhe você como eíles dizem.. ' E Itapecurú arrependeu-se profundamente de ter 'dito isto. analysando os impostos. O Brasil. que alli estão dissecando o orçamento. com o sr. Idiotas! Veja hoje essa gente nova... Ao mais ditoso cedo o ingresso. de Lamartine. porque leu nos olhos de Pantoja a sua \ .

com a nossa marinha insignificante. escute. Brederodes. — E não ha de tardar muito o momento. disse. Os senhores podem querer entregar a pátria ao extrangeiro. — E quando é esse famoso momento ? perguntou calmo e desdenhoso Maciel. remendar o pensamento. Patriotismo vae-se vêr em breve. Quem applaudiu mais do que eu a resposta do Marechal ? A bala. — Sim. podemos $ $ / $ $ • a a l S u e m ? . obtemperou o juiz de direito com uma voz de melliflua cobardia. — Quando esse imperador da Allemanha que você admira tanto. não ha mais nada. podem vendel-a. soturno. que com o nosso exercito diminuto. é preciso desmascarar os patriotas de barriga. não duvide dos meus sentimentos patrióticos. Não ha mais patriotismo. disse o promotor. Mas o escrivão não lhe deu logar e acudiu rancoroso : — Admira-me ouvir de dois magistrados uma tal linguagem. sim. — Mas/ capitão. meus doutores. Teve um frio de medo equiz. Pantoja. as coisas não vão tão simples. á bala quando elles vierem. — E que fazemâvocês para se oppôrem? Pensa você. meu capitão.gaguejando. mas emquanto houver um mulato que ame este Brasil.212 CHANAAN condemnação. replicou Brederodes. rangeu os dentes. E o pardo cerrou os punhos. estampando-se-lhe na cara um sorriso tenebroso. mandar a sua esquadra bloquear os nossos portos. que é seu.

meu caro ? — E' verdade. — . Um grande incêndio que ha de espantar o mundo! — Sei d'isto. concluiu gracejando Maciel. Itapepurú.. observou irônico o juiz municipal. Meu doutor... interveiu o escrivão.. com uma caixa de phosphoros se liquida um exercito e toda essa canalha européa. E a grande America cruzaria os braços? — Não sei até que ponto se metteriam n'isto os Esfádos-Unidos. cortez e lisonjeiro.. r — Ninguém pôde dom.. dõ Norte. esperando com ar admirativo a resposta.nar um paiz quando o povo não quer. A Polônia e o Transvaal também promettiam tanto.CHANAAN 213 Brederodes deu urna gargalhada e disse victorioso : — E os Estados-Unldos. rindo. no matto. 7 . O nosso combate será com os europeus. nas cidades. — De toda a parte. — Como. Como elles mesmos dizem. — E a doutrina de Monroe? A^America para os americanos... Depois. Nada mais. ajuntou também. Tocando fogo nas casas. capitão/ perguntou.. o juiz de direito. que lucro teríamos n'essa intervenção ÍPassariamos de um senhor para outro. — Como ? respondeu o escrivão com uma satisfacção sinistra..

%. Alli ha mais amor ao dinheiro. » — Por quem ? interrompeu Brederodes. — Os senhores falam em independência.. Você »ão me acredita. O Brasil é e tem sido sempre colônia. o juiz municipal». mas. — Bravo.. observou. e isto decide o povo. ** O escrivão encolheu os hombros c«m de^pre^fe. disse fora de ei Brederodes. homem. não duvide dos meus sentimentos. os Boers são uns mArayeís tjue têm. intellectual. a nossa lingua enffim.. hypothecado. cáustico. Escute. — Espere. *'* • • — Os Polacos «rarh aristocratas e por isso indignos. *v .pouco que temos..eu não a vejo. não. Não temos nada a perder. Os brasileiros. Diga-me você : onde está a nossa independência financeira? Qual é a verdadeira moeda que nos domina? Onde o nosso ouro ? Para que serve o nosso miserável papel sinão para comprar a libra ingleza ? Onde está a nossa fortuna publica? O. dó que á honra. É ou não o regimen colonial com o nome disfarçado de nação livre?. tudo do extrangeiró. gesticulando com a luneta.. O nosso regimem não é Hvre : somos um povo protegido. mas a continuar esta . felizmente. o que perder. As rendas das alfândegas nas mãos dos inglezes . estradas de ferro também não. vapores não temos. ás minas. . disse interessado o juiz de direito'. doutor.21 í CHANAAN ' . Ouça. então. eu desejaria poder salvar o nosso patrimônio moral. O senhor è dos nossos."* • — Capitão.

— Dii^m quea Allemanha tem planos. — Você é um cynico. proseguiu atrevido : — Colônia. o que você não'pôde negar/i a evidencia dos factos. como fizeram a Cuba... E a sua cobardia . Colônia somos nós e/seremos. disse seccamente Maciel. insultou-o Brederodes. — Menino. O escrivão saboreou a disputa.. fatigados de l impedir que outros se apossem de nós. menino. Isto reconheço. é porque aproveitamos da 1 disputa entre as nações fortes. deixe de ser malcreado. O oujra enrubesceu. Qcollega sabe que em questões d'esta ordem não 1 convém falar sem toda a segurança. repetiu frio e insistente. Itapecurú.CHANAAN 215 miséria. mas um dia. Itapecurú temeu um conflicto. com os lábios a tremer. . Dizem. esta torpeza a que chegámos.. Temos sobre o continente projectada a sombra dos Estados I Unidos. emquanto houver miseráveis como você. elles nos *-^ccrrrerão. retomando o seu geito. é melhor que viesse de uma vez para cá um caixeiro de Rothschild para governar as fortunas. e um corais nel allemão para endireitar isto.. pallido. E. continuou : — Si na verdade não entrámos ainda na orbita de um grande povo. Houve um pequeno silencio.. nias 'Paulo Maciel sorriu logo com superioridade : — Descomponha-me como quizer. e obedecendo a uma excita£ão4ula. commentou fofundamente o dr.

Isto é coisa á parte. replicou Brederodes.216 CHANAAN solemne punha uma certa brandura na discussão. Porque não faiem os senhores um manifesto ? propoz o juiz municipal. — E o governo. accrescentou Paulo Maciel. de politicagem. — Mas esses allemães não fazem nada. — Eaté se aproveitam dos votos do extrangeiro. cuida de eleições. O próprio Imperador paga do seu bolsinho missionários e professores no Rio Grande e em Santa Catharina. — Pôde affirmar sem medo.. é essa mania eleitoral : por causa de partidos deixa-se naufragar o paiz. respondeu o escrivão. nem para eleições. esquecendo-se de que o povo soffre e o extrangeiro só tem a ganhar com a nossa miséria. tomando a serio o que dizia Maciel. — As eleições vêm ahi. — Eis o que nos prejudica. -> ••r O escrivão ficou embaraçado no seu dfi^plo sentimento de chefe de partido na localidade e de nativista. que estamos sendo cercados pela cobiça dos Allemães. Nós precisamos. capitão. esta corja que se apossa do poder p a r a $ enriquectr. e são os melhores eleitores aqui do capitão Pantoja. que faz a tudo isto ? perguntou Brederodes. varrer. — O negocio não é para manifesto.. disse o escrivão. coisa do interesse dos partidos. Porque esses allemães não serão nunca brasileiros. dos amigos. São . E elle mesmo respondeu : — Cruza os braços.

Os companheiros o seguiam. deite de conversa. uns velhacos.. nervoso. a nativa fraqueza. tirando de passagem folhas das laranjeiras que ia aspifando.. T^do vae acabar e se transformar.. Ridículo. escarnecendo : — Está ahi o perigo.. descuidado. Que podemos fazer para resistir aos lobos ? Com a bondade ingenita da raça.... Abala! Paulo Maciel parecia desinteressar-se da discussão e... Brederodes deu uma risada. Os Allemães são. Ser ou não ser umâ nação. Maciel pensava : — E o debate diário da vida brasileira.. por esses respondo eu. foi-se afastando na direcção da casa.. nativista sempre. Pobre Brasil!. Capitão. Mas não haverá uma salvação. Foi uma tentativa falha de nacionalidade. E que nos adeantam os Estados-Unidos? Será sempre um senhor. nós nos aproveitamos d'elles...... do seu dinheiro. obedientes. empenhados no assumpto... Sul America. Todo este continente está destinado ao pasto das feras. do seu numero. Um rebanho de carneiros.CHANAAN 217 muito respeitadores e mansos. e elles vão na sombra engrossando... fogo no extrangeiro. Ai dos fracos!.... a descuidada inércia.. não haverá um deus ou uma força que 13 . até um dia se despejarem sobre nós e avassallarem o paiz. Paciencki. como nos opporemos a que elles venham?. mettem-se em nossa casa muito quietinhos. Momento doloroso em que se joga o destino de um povo.

. esta associação. emquanto as estrellas vinham se abrindo numerosas e infinitas.... Emfim. parecia fria e indifferente ás phrases atrevidas.. immoraes.. Vale a pena? E o mundo é só isso? Vale a pena viver para ter mais policia? E a lingua? £ raça. capitão. é antigo.quasi a esphacelar T se.. e^tó p u z e r a m / a s / ^ ^ ! cadeiras do lado de fora da casa eyi entretiveram-A' a conversar pela noite a dentro... nossa.. boa.. e voltava ao assumpto. porém. mesquinha. e amada.. e o meirinho. . O juiz de direito não desanimava em desmanchar qualquer impressão sobre a sua falta de patriotismo que porventura ficasse' no espirito de Pantoja. — O meu nacionalismo.. pôde ser que seja melhor.. vá lá...... Mea culpa.ajudava o serviço.já devolta das intimações.. Caminhando.. Temos o que merecemos. sempre perseguida pelos homens. com que a cobriam os sujeitos ... assim chegaram á casa.. A Terra prosperará. Maria rodava pela sala. Desde a Academia fui um exaltado em questões de patriotismo.. porque é nossa. onde eram esperados para jantar. Sahindo do seu esconderijo. degradada si quizerem.fraca. Acabado o jantar.. D'ahi... e está acabado.218 Y //fP /( CHANAAN paralyse o raio armado contra nós ?. tj da Justiça. e é só. temido pela sua influencia política. Puzeram-se á mesa. Melhor administração.. sim. Ah ! nunca transigi.. mas amável. A pobre.. apezar de tudo. Oh ! muito nossa. mais policia..

como o sr.. e aom certeza. tive orgulho d'este Brasil e voltei ao meu furor. objectou Maciel. Quawdfci mais tarde a palestra esmoreceüyoj uiz de direito disse aos companheiros : — Meus senhores. — Quando Gonçalves Dias e Alencar deram o grito de alarma pelo Brasil. Manoel Antônio de Souza Itapecurú. creio que hoje. Aquelles que. Eu me chamava Manoel Antônio de Souza.. Não dou tréguas ao extrangeiro. Cada um tomou um nome indígena.. creia.. Não é debalde que me chamo Itapecurú. — Hoje. sentem desgosto de ser brasileiros. pelo caboclo. E salutar. — Como assim ? inquiriu Brederodes. não sahiria de lá. vendo a deê&dencia da Europa.. Foi um movimento geral. redobrou o meu nativismo. Aqui para nós. Os meus sentimentos nacionaes. com a edade. nós.. E só. sou até jacobino. e d'ahi os Tupinambás. os Itabaianas.. Souza cheirava a galego. que propõem para matar o jy jjJJ/ . respondeu empenhado Itapecurú pondo o monoculo. Accrescentei Itapecurú. mas. si pudesse. — Nunca abandonaria minha pátria. E a marca nativista que trago da Academia. respondemos ao nosso modo. — Mas divertiu-se bem na Europa. estavam enfraquecendo. os Gurupis.CHANAAN 219 — Mas isso foi n'outro tempo. confesso... ia interrompendo Maciel por brincadeira. Não nego que a Europa tenha alguma coisa de bom. estudantes. devem dar uma vista d'olhos ao velho mundo.

que não larga a grammatica allemã ? . eu os espero no quarto. que ajuntou por sua vez : — Mas o dinheirinho no fim "do mez não se engeita. disse o promotor. receba o dobro dos seus patrões. disse Itapecurú. esse. para os jornaes. Boa noite . — E'verdade. mas. — Também pouco se perde. doutor. Uma coisa affirmo : nada sabe do officio. desembuche para vermos o que tem tão escondido. Será bonito e asseiado. era mais feliz quando o deixavam só com os seus pensamentos.22U Í^^/l/1 '"/ CHANAAN tempo ? Vamos a uma partida de manilha ? Paulo Maciel não temia o tempo e. — O que elle sabe é descompôr o Brasil. — E uma pena.insinuou Itapecurú. disse o dr. Eu podia contar impagáveis. Itapecurú. fede. ao contrario dos companheiros. — Pôde ser que quando isto fôr da Allemanha. nem por ser brasileiro. que tem feito ? — Sim. Os outros. maldizer de tudo o que é nosso.. — Não conte commigo. accentuando a phrase com vistas ao escrivão Pantoja. escarneceu o escrivão. no fim de dftij}. Presumpção não lhe falta. havemos de rir muito. entraram a detrahil-o. Estou cançado e vou deitar-me. logo que Maciel partiu. accrescentou Brederodes. Si um dia escrever para a Capital.. não dá para nada.

quando o viu ainda de longe. visse . — N'este caso. e que acompanhava por divertimento. aguente-se para uma sova.tÍÇ£r t*WÁAff-*TU> f — Então ? perguntou o promotor. Neves! — Prompto. Os três jogaram algum tempo. — Como assim ? — A bicha é arisca como quê. pretextando cançaço.CHANAAN 221 — Sim. — Qual! seu doutor. doutor. agitado de desejos lubricos. que tanto o perseguia. seu doutor. O official de justiça estava a cochilar. e ergueu-se meio atordoado. acquiesceu Pantoja por entre baforadas da fumaça de cigarro. disse pressuroso o juiz de direito. Brederodes.abandonou o seu logar. Só si V S. — Pois sim. O juiz de direito trazia sempre um baralho de cartas na mala para essas excursões judiciarias em que nada tinha a fazer. não querendo desistir de jogar. Brederodes no terreiro chamava em voz baixa o meirinho : — Neves. com aquelle vago receio do tédio. desaíío-o para uma bisca. O promotor deu-lhe uma ordem que elle partiu a cumprir. Não vejo geito. Não tardou o <ffly$tyà*-fà*. está se preparando para nos governar. capitão. ficando só. passeiava nervoso. até que o promotor. Riram e ergueram-se para jogar. respondeu Brederodes. deitado na relva.

ruminando vinganças. Ao dar com alguma porta. mortos de somno. Levantóu-sê sorrateiro e. rangeu os dentes... e n a * nente nevrotica pasfâlvam perturbadoras miragens . para vêr si.. (b teu sanguf voltava ae*/ímpetos dd deseW. um signal qualquer. Deixe estar. E desappareceu na direcção da casa.\ apenas alumiado pela frouxa luz de um candieiro de azeite que estava na sala. resonava. ás apalpadellas foi tacteando as paredes. Corja de allemães ! — V S. Os dois parceiros. — Ella me paga. Ahi o seu companheiro. não reparou como já vae bem adeantada ? Brederodes ficou colérico. ^ m i e era o escrivão. fugindo ao desabafo do promotor. Este ficou só. Ainda que tudo isto aqui arrebente.222 CHANAAN o nojo com que me olhou. Vou vèr si ainda dou uma volta no caso.reconhecia Ustn-o Jèu^i*'"'^* <**y*~ frf . n'uma meia allucinação. não se zangue. e um pouco acalmado no seu furor. e quando na volta do corredor o clarão se acabou. e os olhos na noite escura brilharam felinos e máos.. os colonos não davam signal de vida. Elle deitou-se de manso e poz-se á espera de que a noite avançasse. FyJié» de esperar.. Nem me respondeu. o ^ridii meirinho não voltara. Brederodes resolveu vir para o quarto. tinham-se resignado a deixar o baralho e estavam deitados nos quartos. como si ainda tivesse o que perder. Uma fluxão de sangue subiu-lhe á cabeça. punha-se á escuta. Na casa tudo se aquietara.sensuaés. V S... por um movimento.. seguiu pela casa a dentro.

— Sr. o promotor e o juiz de direito á janella conversavam.. Um impulso de arrombar a porta tomou-o.. E com esta esperança passouadeante nas trevas. á mesa. a tramela levantou-se e com a pressão^ajDortaJabriuíe^rangendo. rodeiados de creanças. Escutou . dr. No dia seguinte. esperando ser chamados.. Mas'esta estava ' / fechada á chave.. ás neve da manhã. Poz a mão no trinco. encostados á parede. duas mulheres e um homem.CHANAAN *~ ~ * \ 223 o quarto de MaúayfÁJ um momento deum^des. Tentou abrir a porta. nada. Isto naturalmente é o quarto dos velhos. De dentro ouviu um rumor de alguém que acordara. n'um instincto salvador que lhe fazia adivinhar no escuro o caminho do quarto. Brederodes palpitou alvoroçado.. « Miserável » pensou. V. voltados para dentro. Brederodes. S. e uma voz assustada de velha perguntar : — Quem é ? Es tu. Maria? Brederodes recuou para o corredor e deixando a porta aberta deslisou nas pontas dos pés. seguiam atemorisados a scena. mas um vago vislumbre da consciência da sua falsa posição tolheu-lhe o movimento.. tem de funeciona &/ . com raiva o promotor..• / ê i-0 /cobrif. Na sala o juiz municipal e o escrivão estavam no seu posto. Outra porta estava em frente. — Pôde ser que não seja aqui. em pé. o meirinho annunciáVa ao toque de campainha a audiência dos inventários dos vizinhos de Kraus.

. Depois de alguma hesitação. — Não é possível arranjar alguma fatia para mim n'esta festa ? perguntou o dr.. ainda moça. sabe que é depois. '>— V S. emquanto os senhores preparam o prato. — Bem. — Ha quanto tempo seu marido é morto? perguntou o escrivão. se approximou..S. Itapecurú. passou a tomar as primeiras declarações da viuva.. Ha uns desvalidos que precisam da protecção legal de V. iniciando o interrogatório deante da apathia do juiz municipal. ia respondendo documente a . Pondo o chapéo. aqui todos herdam sem a menor cerimonia.. Ninguém cumpre a lei. — Sempre o mesmo. — Viuva Schultz! chamou Pantoja. assestou o monoculo nos intimados e sahiu magestoso. Isto vae acabar. O promotor teve um risosinho de satisfacção e veiu sentar-se á mesa. motejando. que triste e subjugada por aquelle apparato judiciário. — Ha dois annos. no fim do negocio.. n'este caso. vou dar um giro ahi fora. Todos comerão do bolo.2->'i V CHANAAN como curador de orphãos nos três inventários. uma camponeza alta. como nada tenho a fazer. seguido pelo riso zombador dos que ficavam. n'um sorriso idiota. que se precisa da sua benção.. disse o escrivão. Juro. Em seguida.

/// Depois de algum tempo. no meu cartório. O juiz municipal e o promotor.. Que desembaraço! Ainda não lhe disse o principal.CHANAAN 225 tudo.i o valor dos bens pára accrescer os seus lucros. . A mulher a cada passo soffria descomposturas insolentes de Pantoja. não sabia ler o portuguez. despreoccupados da audiência.sem nadadizer áinteressada.que. — Só? Não minta. e um immenso pejo a assaltava.além de tudo. A mulher ia se retirando. disse á colona : — Agora pôde ir.. pôde ser que tenha mais ou menos. não contei um por um.. E calado. — Quantos pés de café tem a sua colônia ? — Quinhentos. radiante de allivio. senhor.. Continuava Pantoja a lançar os termos do inventario. meu defunto marido avaliava em quatrocentos.. sommou13. — Espere lá !. escreveu : — Mil e quinhentos pés de café.. sinão temos conversa no Cachoeiro. D'aqui a duas semanas appareça no Cachoeira.. para receber os seus papeis. N'üm papel escreveu varias parcellas. segundo o seu velho processo de tudo //• fazer elle mesmo e/augmentarijiy descaradamente y . eu plantei uns cem n'estes dois annos. — Bem. eu arredondo a cifra... levantaram-se e foram entretidos para a janella. observou com accento escarninho o « maracajá ». — Mas.

aqui não se faz esmola. Pantoja chamou o colono. vestida de luto. esmagada.. Nada de conversa e bico calado. E depois de repetir com elle a mesma cousa. Trezentos mil reis !. s? approximou*TJma filha de cinco annos lhe (seguravayb vestido e ella carregava ao collo outra. veiu sentar-se no seu logar e se interessou um pouco por esse grupo. Sem um apoio. — Está direito.. tem de se haver commigo. que continuavam indifferentes a sua palestra. sahiu cabisbaixa da sala da audiência. o ar da miséria.. muito baixa e ainda joven.22G *7 CHANAAN as resmungando e disse comsigo afinal : — Cento e oitenta mil reis. Ouviu? — Trezentos mil reis !. olhe leve comsigo o dinheiro das custas. A mulher. Trezentos mil reis. . passou a se occupar da ultima intimada. Trezentos mil reis. e dê-se por muito feliz.. é que havia de ser bonito. Meu senhor! — Não tem meu senhor nem nada. — E viuva ha pouco tempo ? perguntou elle. cançado de estar em pé.. porque não houve demanda. Paulo Maciel.. cuja cabeça dourada se realçava radiante por entre a pretidão das roupas da mãe. A colona lançou olhos de supplica para os dois magistrados. que esperava a sua vez de ser apregoado.. Si tivesse de metter um advogado.. Si eu souber que vosmecê andou batendo a bocca pelo mundo. com um ar apatetado e longínquo.

V S. considerava como uma invasão dos seus privilégios. respondeu a moça. Paulo Maciel.. habituado a fazer tudo.. tem competência para dispensar na lei ? Ora. que já vinha doente do peito. no fundo de todos elles temido... seu Pantoja.. para se vingar do interesse do juiz. disse Pantoja. E melhor mandal-a embora. fingiu não ouvir...CHANAAN 227 — Dois mezes. Não se plantou nada. Não é verdade ? — Apenas houve tempo de levantar a casa. A mulher ficou pensativa sem responder.. não durou muito. — Estavam principiando a vida. o que elle. A colona. — No fim de contas. Brederodçs . — Como é isto ? disse tremulo o escrivão. Que diz a isto. não ha inventario a fazer.. — E triste! E como vive você ? inquiriu compassivo. esta é muito boa. dr. Meu marido. — Naturalmente tem algum amigo que substitue o defunto. — E desde quando está no Brasil? — Ha um anno apenas.... para evitar uma discussão com o subalterno. afinal. disse : — Estou em trato para vender a minha casa e vou me empregar como creada em outra colônia.. opinou Maciel. fazer o roçado para a plantação.

com esse escrivão chefe político. e a intelligencia fina. E si o senhor não quer fazer ex-officio. mandão da localidade..o desenrolar de uma lucta cornos seus collegas. de fluido nervoso. seu subordinado legal. propoz com uma voz fatigada. não me mostra esses arrolamentos. era ainda por cima dar dinheiro do seu bolso á desgraçada e mandal-a embora. distincta descortinou-lhe. não precisava de consumir !. lucta inglória em que elle não se queria estragar. sr.. em vez de um inventario formal. O seu sentimento era suspender. apossando-se da situação que o superior lhe abandonava. Valeria a pena ? As suas poucas forças o trahiram. que somma de energia... Trata-se de orphãos. era dispensar o inventario-. Paulo Maciel ficou sem saber o que dizer deante de taes attitudes. Pantoja mediu-o triumphante.. Os juizes passam e os escrivães ficam.. acudiu vivamente o promotor.. dr. respondeu o escrivão..-228 •ÍA l-J CHANAAN V S. — Isto é uma novidade para illudir a lei. Mas para isso. cheguemos a um accordo.. aqui está o formulário official e / . Juiz municipal. pérfida. — Não concordo na dispensa do inventario. i. .. eu requeiro. dr. envolvendo-a n'um clarão de bondade. — Está bom. é o principal interessado. Façase apenas um arrolamento summario dos bens. Inventario é inventario. prender este escrivão insolente..

obrigar esta pobre mulher a pagar mais custas.. seu Maciel. No fim. Que mal ha em fazer-se o inventario ? — Que mal?. — Deixe o caso commigo. á mulher moça não falta dinheiro. Atordoada como uma . é rapaz. esta começou a chorar. colérico e intratável. — Deixemos de scenas.. meu senhor. disse o promotor. vou vender o que tenho para pagar as dividas de meu marido.... — Sim.. Querem obrigar a Justiça a trabalhar de graça. com as mesmas extorsões e violências.. dividas da moléstia e depois trabalhar para outras novas.. Era só o que faltava. objectou alegremente Pantoja. Deu uma risada secca. — Capitão Pantoja. deixe de luxos..CHANAAN 229 — Homem. veiu hontem ao mundo. ia dizendo o juiz municipal. — Venda a casa. mas a mim ninguém me embaça... Todas ellas choram. não entende d'isto.. É pouco? — As custas são o azeite da machina do foro.. — Primeiro a Justiça. não venderá a casa nem o roçado.. V S.. E voltando-se para a colona : — Vá.... e agora vamos vêr. E o inventario foi feito como os outros. Si não quizer nos pagar. eu prendo os papeis. quando o escrivão intimou a colona a que lhe desse duzentos mil reis. atalhou o escrivão. — Mas não posso arranjar tanto dinheiro... Lagrimas!.

mas ainda falta alguma coisa. que mantinha sempre com a luz poderosa um grande silencio.. O escrivão empurrou-o de manso.. vá buscar.. — Bravo.230 CHANAAN somnambula. o senhor é de força. dizendo-lhe zombeteiro : — Vá. Está me cheirando mal o fiado. o colono foi caminhando automaticamente para a casa. os animaes estavam sellados para a partida. ajudados pelo meirinho e pelo dono da casa. penhoras. observou lisonjeiro o juiz de direito. Uma vertigem o ia tomando. Advogados. Sob aquella pressão.. a colona sahiu. O homem vacillou. como para cahir. na garganta a voz morreulhe n'um espasmo. que o fitou espantado da intimidade. E batendo rio hombro de Franz Kraus. — Que é ? interrogou inquieto o colono.. amigo. E por isso dê-nos logo.. Os juizes vieram para montar. O dia era abafadiço e dominado pelo sol. accrescentou n'um gesto de irônica cortezia : — Muito obrigado pela hospedagem. apontando o colono : — Ainda não' tive a minha conversa aqui com o amigo. demandas. meu amigo.. camarada... Olhe que o negocio podia ser peior. arrastando os filhos. Quatrocentos mil réis.. Depois do almoço. . capitão. — As nossas custas... Você pôde. não se espante. Pantoja chegou-se ao grupo e disse ao promotor.

disse Itapecurú a Paulo Maciel. mudo e abatido. no meio do terreiro.. o colono via com os olhos desvairados a Justiça sumir-se na estrada. n u m a raiva immensa e cobarde. Depois de alguma demora. appareçeu o velho Kraus. O juiz municipal. — Muito bem. E montou. E quando Ella desappareceu e tudo voltou ao socego profundo. Pantoja recebeu o dinheiro e contou. sem dar-lhe resposta. — Parabéns. de chapéo na mão. olhou-o com um grande nojo. F i quemos bons amigos.. Tinha os olhos vermelhos. que os ia impacientando. murmurou olhando ^ e d r o s o para os lados : — Ladrões! //&r*/~ i^*'*' ..• CHANAAN 231 — Ainda não viram nada. Agora" tudo está em ordem. estimulado. A cavalgada partiu. a cabeça ao sol. está chovendo na sua roça. ficou elle longo tempo com a vista jpjffààfy na mesma direcção. Subitamente. respondeu o escrivão. Em pé. O colono olhava-o. Procure os papeis no cartório.. no fim do mez. . Chorara. as faces inchadas e rubras.

fraca. vigiada pelos olhos cúpidos e inquisidores dos velhos. definhava languidamente. Desesperada da volta de Moritz. . nos serviços domésticos.VII y/y // A'l^-'de Continuava Maria na colônia de Franz Kraus no seu mesquinho penar. que o tempo indifferente e implacável trazia cada vez mais á flor. preza de um grande temor. e queria morrer. Assaltavaa muitas vezes um desespero de fugir. volteando apatetada pela casa. Outras vezes. e sem poder dormir noites e noites na afflictiva anciã de querer salvar-se da deshonra. sem preoccupações alheias... cobarde. vivia como uma louca.. esperar que das próprias entranhas lhe viesse a salvação e o consolo do futuro. as forças não lhe acudiam para qualquer resolução. de ir para longe. no mesmo ruminar desespero e de agonia. e ella $é deixavá ficar na colônia e na vida.. Mas. desconhecida e forte. de uma immensa e mofina vergonha.

eram exigen- quasi comida. como uma manhã. com as mãos tremulas. a vida n'aquella colônia era uma tortura para todos.fl/Qtante gesto de somnambula. a velha Emma enfureceu-se e começou a insultal-a .CHANAAN 233 Os velhos não tinham mais illusão sobre o estado da rapariga. sem um movimento de revolta. que é o único encanto d'esta. e é&T ~ com desespero nevrotico dúé^viam a misera inaba. Viam desfeito o casamento do filho com a herdeira dos Schenker. tomada de um suor frio. deixasse cahir um prato. com medo de . Mas as suas cabeças não eram inventivas. sentiam um ódio surdo contra ella. processos. já fatigada de trabalhar. E agora passavam os dias muito unidos. diziam inconsolaveis. que se quebrou. Maria. Não se conversava mais. n'um passo tropego. subjugados pelo /píffiító e crescente jljcc*^ "-> terror que lhes deixara a visita da Justiça. aoDravam-ine os rraDainos. erguida alli como um estorvo ao desafogo da ambição d'elles. Assim viveram algum tempo esses desgraçados. e vendo-a mover-se pela casa. em cochichos de vingança ou em planos para "se verem livres de Maria. nem mesmo para a maldade . ficavam irresolutos. E. mais a indifferença pela existência. com o ar transfigurado que lhe punha a } amargurada maternidade. não havia mais o esquecimento do tempo. A todo o momento eram ralhos e insultos. n'um cons. E d'este w** modo.(( lavei. tudo fora tarde.

canalha. Cf Maria correu ao quarto.. Vae-te d'aqui.. berrava Emma. levada pelo impulso das ordens violentas. Sáe. possessa. peste. Fora. não deixava de prolongar-se. avançou colérico para Maria que. A excitação dos velhos.. O marido... A rapariga obedeceu automaticamente.2. querendo se refugiar. ordinária.. caminhava firme. rangendo os dentes.14 /í*- CHANAAN n um berreiro. collou-se á parede. e foi debaixo de maldições. suja.. Por entre a folhagem verde. que a misera entrouxou algumas roupas. — Fora e já.. Maria sahiu para o terreiro e.. para o desconhecido. de pragas rancorosas. e transbordando-se-lhe o ódio. Sáe. protegendo o ventre com as mãos. uma baba viscosa a escorrer-lhe da bocca contorcida. os diúi cabellos descobertos iam espa- . n u m a ameaça de morte : — Fora. Vae-te embora. agarrou uma acha de lenha e brandiu-a. o velho alcançou-a e com violento empurrão impediu-a de fechar a porta.. fugindo atordoada do alarido. E foi então que Emma gritou : — Miserável. sem hesitação.mui i h l h . que apertou com violência.. Franz correu á cozinha. e ordenou-lhe : — Parte. offegante. a rapariga.. Carrega teus trapos. communicado do mesmo furor.... Franz estacotLili.. Emma segurou a moça pelo braço.. ia recuando. intimidada. de súbita que fora.. livida.

quando se dispunha a retroceder. o mundo !. a voz de Emma : — Vae.. um animal que se movia no fundo negro da matta. voltar. voltar! Mas. um fio d'agua.. um cafesal verde.Tudo acabado.... o jardim. reconheceu. não mumurava uma queixa. Quiz tornar á casa. E foi caminhando. desmanchar com o sorriso o pesadelo monstruoso...CHANAAN 2..Uma arvore cortada. seguia-lhe no encalço.. que des- j/p /.. trazendo-lhe uma sensação de desanimo... E na memória os quadros da sua vida desde a infância.. tudo era apanhado pela sua aguçada retina. Era uma estatua marchando.. que lhe entorpecia os passos e flra despertava a consciência. até que lhe chegou a fadiga da energia em que se mantinham os nervos. sem dar fé da sua direcção.. Maldita! Maria andou algum tempo. cuja razão não percebia bem.. Atraz. como um latido de cão. Sob a grande e funda emoção as idéas tinham-se congelado JtíÁ^y^l a sua visão dilatada ia notando e retendo os pequenos incidentes da paizagem. Sim.n'um impefo de cólera... Não dizia $A palavra. Tudo cortado. miserável. perdição de minha casa. inconsciente e desvairada. Vae. entrar sem rancor. //fofam .15 lhando o fogo do sol. um reflexo-de sol. sem explicação. n u m a insondavel^sj^áção... e os olhos grandes e limpos tinham o lustre crystallino e secco dos frios espelhos.. Via-se expulsa da Velha casa que lhe fora o lar.

. Parada.. o abandono. Na pequena alma de mulher rústica e simples de Maria.. . um sobresalto de terror^he^acudiiAo corpo. Desde aquella manhã da missa. Mas foi instantânea a hesitação. ^ agital-a. uma extranha / ^ZZrv^-mtrepidez.Começou a subir. povoando de gente. um abrigo n'aquelle deserto. c*v Uma vaga inquietação de não pyiiídnjxax um ( 'i pouso. pois um grande pejo a afastava das /. lembravam o isolamento. Lembravam habitações humanas perdidas no deserto. A paizagem era limpa. e os dois pequenos edifícios de atalaia davam maior tristeza á solidão. QdamÂ/pt depois de duas horas de marcha. ^*?^~w. mas da sua d _ ' tímida e doce figura de camponio lhe ficará uma / agradável impressão. 1 fl/tí^<~tffá}/fâdy(/yffl/0i appello de salvaçãoj^è* ** "/**' yfyyyy o pastor de Jequitibá. a rapariga avistou a egreja e a morada do pastor. o sacrifício. porque a falta absoluta de outro apoio no mundo lhe ídcJéphUft. não o tornara a vêr.236 CHANAAN vairava. . os olhos embebidos no / próprio corpo. dando-lhe animo para prag^guir no silen/ ' ^. começou a /f~. &icaminhou-se^ara os logares mais invios. recordava-se da ultima festa da colônia. e com a saudade ia enchendo. cio da estrada. que ella seguiu confiadamente. chorava. imaginando poder tão simplesmente restabelecer o que estava extincto.• casas conhecidas. com a cabeça pendida sobre o seio. E á proporção que Maria subia. houve um rebate de esperança.

~De dentro nenhum outro rumor ffffa P a r a aDafar a v o z da c r e _ anca na escola. e n'um impulso nervoso tocou a campai/ ' nha. que xeúniu di^filtí^ n'aquelle repouso uni. mais forte e estridente. atí/ou ao chão a trouxa de roupa e se * jy apoioji á parede. c . sinis. mas o medo *>da solidão. Maria quiz fugir. uma mulher de preto no fundo.CHANAAN 237 de vozes e gestos. na parede uma cruz negra envolta no sudario..///l*"r' 1 ças. Depois. monótonas -— f£»0 e cantantes. da montanha deserta. desfallecida um y/Jsr*W*^\ instante... cabeças alvas de creanças movendo-se ibelhuda/ pa£a ella. levada por essa corrente de evocações. j . infatigavel. jlJL (£dduâ6 chegouao alto viu a terra em roda dajifí1 casa. emquanto elle dormia. veiu-lhe um novo esforço /( . ' / A mulher do pastor acudiu á porta. de movimento.. ia scismando com a musica do harmonium que soava na capeljinha. o terror do recolhimento d'aquella casa aHi£<fou-h\e as for. assustada w****™ Mí rt/t*~** —i yr~* ' zS£sâj&&*>A**^ .. deu-lhe um tremor. de vida. talhada e preparada para jardim. Era ahi a escola regida pela irmã do padre. que proseguia desarticulada. Olhou de soslaio. o vazio descampado das montanhas e dos valles calados.<y tra. e a voz infantil.. Alagada em suor frio. Ella recompunha também os instantes em que vira Milkau e. Maria passou cabisbaixa. o que era a ' paixão do novo pastor. De uma porta aberta vinham vozes de creanças soletrando./yfy versai. Passou adeante e em face da porta fechada da casa tremeu mais. A de valor. e viu uma sala escura.

.. Afinal. r-. Nós não precisamos de mais creadas.. cás^jlecantido d/arrancanwy alguma coifsa sobre *y í /*" a:suásituação"e^lhe r dar&ir*maisconfiança. achando extranho o pedido. Depois. eu. interveiu com meiguice Frau Pastor. minha filha ? Maria não respondeu. — Eu. um agasalho. tinha uma voz de uma doçura inesperada c que se não casava com o seu porte rústico. — Vamos. que lhe sahia do ^ÍP^ ^ * ^ ^ e Í í o d e touro como um balido deovelha..238 CHANAAN pelo barulho.respondeu soluçando a miserável.. depois de confusas explicações. — Que deseja.. jtfl erecto como u m T ^ l a d o e vestido como um jardineiro. K A6 o r a i a este mofino contacto d/piedade. com uma expressão de espanto que ainda mais atemorisou Maria.. • « Que lhe aconteceu ? Perdeu seu emprego ? * (bjjjü. muito vermelha e tremula.. que veiu logo á sala. ^7w/£»*^ O pastor fftydA confuso. abundantemente. (jfdfáfá MariaJÍBBHficou petrificada. Jh véi-e. queria. Poz os olhos no chão. entrou esta para falar ao pastor. "{y^y ^ sempre com a sua voz macia. rava. uma colônia. que lhe aconteceu?. Maria f ^ fjT ch/rava sem pejo.. __ « -/ ' mSna^0ff0f. O homem. Frau Pastor se approximoú^ / bateu-lhe no hombro : ** — . onde a rapariga o espe/. jjj^Velle. As pessoas da . / — Você não tem uma casa.../fríraT y" H-/ / 7 ... grandes lagrimas rolaram-lhe pelas faces.? ..

dizia o sacerdote com o geito astuto do camponio. e pelo instíricto da obediência respondia. fui expulsa... ainda não me disse porque deixou a casa de Kraus.. filha.. esperou que tudo se explicasse. trocando um olhar com a irmã. amedrontando-o com as regras religiosas. clamou zombeteira a professora. fiel aos seus hábitos de nunca perguntar. e essa mulher. A irmã do pastor. — Vamos. — Ora.. uma grande /J. rústica e marcial como elle. ergueu-se por instincto. O irmão explicou-lhe o assumpto.. Na casa. O pastor a temia. Mas a curiosidade reteve a sua alma de creança. por entre lagrimas. entrou na sala. algazarra ijti^^ e gritos festivos de creanças soltas [f se foram perdendo pela encosta da montanha«abaixo. a auctoridade da cunhada era decisiva. e ella o tinha submisso. para tamanha punição ? A professora. para deixar a sala. Como posso tomal-a sem saber de tudo? — Não me quizeram mais. temendo a explosão da cunhada. severa e silenciosa. que mirava com olhos devassadores a rapariga. interrompeu o inquérito com uma risada secca. Fora. onde Frau Pastor era uma sombra do marido. Eu sei bem porque os seus . Frau Pastor. Era o alegre rumor da liberdade. deixemos de comedia.CHANAAN /am a lha jéropôr variao queotoag'^ Pouco a pouco 'ella se foi acalmando. — O h ! Oh! Então o negocio é grave! Que falta commetteu você. — Vamos.

. Desencadeiou-se a ira do Sei nhor.. medrosa. a m o rada de Deus.210 CHANAAN patrões. mulher. JâuLkpx -Maria cessou de chorar e jtíMl^/ espantada que alli também todos estivessem loucos. Ergueu-se da cadeira o pastor e muito solemne. que devem ser gente honrada. Um olhar de piedade infantil escapava de Frau Pastor. Esta é uma casa de respeito. emquanto a outra. que tudo faz comprehender. Maria lho retribuiu... Vá.. Vá. e talvez o coração. disse : /YrvoTw — Em nossa casa nãol^yyfyytjji^f^o prazer. o maior de todos. regenere-se. com aquella maldita e doce voz. a inabalada. a puzeram na estrada.. a mesquinha Maria. O pastor empurrou-a de leve para a porta. não era para aqui que se devia dirigir. já que entrou n esse caminho. a torre fechada. E ao passo que a rapariga ia deixando a casa. Fora.. Lembre-se de que todo o peccado tem uma punição. Divertiu-se? Porque chora? Temos nós culpa dos seus prazeres? Olhe.. Vá para a sua vida. inane. a incendiar a irmã do pastor. era a perturbadora. que mal lhe fiz?.. o que vem do sentimento sexual.. a amiga do homem? — Oh! minha senhora. O seu é horrível.. a ft 7/ . lhe inspirasse maior piedade por aquella esvaída sombra de gente.. aqui é o logar do amor de Deus. acariciando-a paternalmente. Não era ella a mulher incompleta. Mas era uma compaixão sem agasalho. Era o grande ódio. a consoladora.

suffocada pelos morros e enterrando-se n'elles. o desespero do desamparo na matta.. á cruz das estradas.. . começou a descer. Depois.CHANAAN 241 voz do padre se revestia de um accento cada vez mais delicioso de ternura : . a^porta se fechou? e tudo o que era humano alli desappareceu n'um immenso silencio. Era o soffrimento animal n'uma alma rudimentar. emfim. No seu coração innocente.Si este logar não fosse sagrado. • cendio do dia. na sua intelligencia confusa. —Vá. e as encostas dos morros. os valles apaziguados e. as pri. todas as scenas violentas d'esse dia se misturavam extranhas como n'um pesadelo. livres do. que pena! Como soffrocttnãopoder guardal-aém minha casa. Jy^Jr^'Transformava-se a expressão das coüsas. Transmontava o sol. cuidado na descida. preguiçosas.. a voz do pastor ainda lhe cantava ao ouvido: — Vá. Isto aqui é muito solitário. allucinada. 14 . vá! E quando Maria se viu no alto da montanha e olhou deslumbrada. arrastada pelo medo e por um assomo de vergonha.. filha. pobrefilha. e o que a impellia para a frente era um vago terror da noite. filha. filha. grande in...etótófe<ám-se da luz serena da tarde. cuidado com os caminhos. a montanha.. deitando-se longas. Maria. Ao chegar abaixo. Ficando só./Yrt/>' meiras sombras. e na sua febre sentia-se como que apertada. Si não fosse terrível a morada de Deus! Vá. correndo. minha. poz-se a caminhar pela que levava a Santa Thereza.

e em torno da mesa esperavam a ceia.242 CHANAAN como tomadas de somno sobre a relva avelludada e voluptuosamente verde: os pequenos ventos acalmando a febre da terra inflammada ... as famílias dos emigrados se reuniam n u m olvido feliz.. sentindo-se attrahida pelo feixe de forças humanas. e aquella hora. Maria teve o Ímpeto de «erprecipitap-clo alto sobre as casas que estavam a seus pés.. a sympathia dos semelhantes. mas ÍM3 ella proseguiu pelo terreiro a dentro. então.. // Os cães R e c e b e r a m ' n'um atroador alarido. ergueu-se e desceu rápida para o grupo de casas.. ^---^*2^"ando. como uma musica sussurrante. Da t . tornando. impellida pelo imperioso desejo d & j M j ^ o e * * ^ conchego. a fadiga physiologica da maternidade. sem o menor pejo. reunidas n'aquellas vivendas. No fundo do valle Maria viu um núcleo de colônias engastadas na vegetação. A miserável sentou-se desalentada sobre a borda do morro com a vista perdida nas habitações. com IP j ^ l sua calma de louca. não havia ninguém fora. inoffensivos os animaes. em cada uma das casinhas da matta brasileira. na opulenta terra de Chanaan. que não era só o cançaço da corrida. Outra fraqueza a pungia. deliciosa. arrebatada pela fome. o calor.. mas o vácuo da fome. Aos seus ouvidos subiam vozes humanas. esquecida da sua triste situação. alli. dilatados pela claridade crystallina do ar.ahi chegou. Das chaminés sahia fumaça.. que ella escutava. a viagem dos pássaros na limpidez do' céo. E. ***** Maria.

que se communicou/yj!$//amente. Na sua carreira chegou até uma pequena matta que o caminho cortava. n'um grande berreiro. amedrontando-a. E como no seu enleio a miserável respondesse por disparates. « gosa doida vagabunda. maluca. A claridade da tarde ahi dentro esmo- .. Ui/rJi****^". Homens e mulheres chegaram á porta. sem saber o que dizer. fcffdtos homens pegaram em páos e ' yjr avançaram psópgüa. — Fora.//tS^«^/' e todos se julgaram em presença de alguma peri. e das outras casas a gente sahia para o pateo.1 primeira morada sahiram para vêr a razão do alarma. a fugitiva como que despertou e ficou intimidada. Correram as mulheres para 1//"^ o interioii M. alguém disse : . fora... Já Maria voltara á estrada. — É com certeza uma maluca.. Assaltaram-na de perguntas.CHANAAN 24. fazendo coro com os vizinhos. ainda mastigando e aborrecidos de ser interrompidos/Ao enJMÍi/ar a gente. Homens e cães^rperseguiram^lguns naomentoe. fugindo espavorida para longe d'aquelle ponto. raivosos e ululantes : — Maluca. Os c#es excitados ladravam furiosamente. maluca. Foi um pânico. / " — Fora. maluca! maluca! A moça fugiu n'uma desabalada corrida. e ainda continuava mesmo offegante a correr. Maria recuou d^èttddddídfjsem perceber bem o cuo6~ que se passava.

Os pti* .. e. batida. As montanhas. s^^Tn^fg^ f grqi 1 f' pg s^rpmrrsrfflfiajtas.. E o poder de visão redobrava á medida que a sombra surgia mysteriosa nos meandros dçf 4 J wasqui. j f^ ( CHANAAN recia ainda mais. EjfgotTada de forças.. n u m vôo captivo e arquejante.. tomada de um calafrio.. Na várzea. os seres tomavam ares de monstros. e de olhos dilatados. Augmentavam as sombras. sem animo para íugir.. . a mesquinha derreou-se aos pés seculares de uma arvore... perfilavam-se tenebrosas. com medo de penetrar na sombra. Na sua imaginação perturbada sentia a natureza toda agitando-se para suffocal-a.. azues e pardas.. Maria parou. ouvidos apurados. -etí* espreitava o rumor e o curso das coisas./„ J"^. desamparada. espiou para dentro. (.da floresta/ sem animo para entrar. nuvens colossaes e tumidas rolavam para o abysmo do horizonte. como o bafo vaporoso. impalpavel da ' Terra. Maria ficou pregada á beira . Pela estrada interior iam e vinham borboletas enormes. até perder os olhos na outra longínqua porta de luz. aterrada. espreguiçando-se sobre os campos. postada na abertura da floresta.e urna inexplicável e funda attracção por aquelle sombrioe tenebroso mundo a retinhaextatica.IA / . subindo ameaçadoras da terra. ao clarão indeciso do crepúsculo. Das mãos tremulas e despercebidas cahiu-lhe a trouxa de roupa. No céo.. Os caminhos....2í'i /Pu &tic^ ~J2 ! /-*.' As arvores soltas choravam ao vento.. cojjoo^carpideiras phantasticas da natureza merfaT. vendo-se colhida em/pleno deserto pela noite.

. .. 1/ I as estrellas miúdas e successivas principiavam tam. ^sr acalmavaiTKna immobilidade perpetua. mas os membros ..s iam-se xnulti-J(^VX^Y ** plicando dentro da floresta.^ Njoem a illuminar. pouco a pouco foi vencida pelo somno.(ji4F $t*r* CHANAAN 245 / _meiros pássaros nocturnos gemiam agouros com pios fúnebres. deitada ás plantas da arvore.( M . no desenho das coasas 0 -^ / <crer r< transformava"em límpida nitidez.."^f""". começou a dormir. de indistincto. No alto. V / Os prirneiros vagalumes começavam no bojo d a / ^ / w /matta a correr as suas lâmpadas divinas./.. alaran- /y & w * ~ **• "•* .. Maria quiz fugir. O que havia de hi\ ?T '~*" vago.. e o« fogos 0j> JyfâyfjfíJJjfa/ espalhavam ahi uma claridade verde.. Qs-pyíHftairrpo. No ar luminoso tudo i^uejU^ retomava a physionomia impassível.. /Al rr~~"W arvores. e myriades e myriades d'elles cobriam os troncos das arvores. as ar^/>«>vores esparsas na várzea perdiam o aspecto de p ^ phantasmas desvairados.^ ^> \ ? Cvf. tí*T" .. .'. sobre a qual passavam camadas de ondas amarellas. /^'r^^rtfA Serenavam aquellas primeiras ancias da Natureza. e insensivelmente bro.^^. tavam silenciosos e mnumeraveis nos troncos das / . cançados não ac/ídiam aos Ímpetos do medo e t c y deixavam-na prostrada em uma angustia desesperada. A desgraçada. abatida por um grande JYt^^M^ torpor. ao penetrar no mysterio da noite. As montanhas ' /«'-/*. Os pyrilampos já não voavam.. como si as raízes se abrissem em pontos *i~ttc4*u>>-u luminosos. e v <Uo jy . que faiscavam cravados de diamantes e tqpazios^Era uma illuminação deslumbrante e ^ g n o g y ^ e n t r o da matta tropical.

cojno si a flo.. Ull'kArt^''^x'dÂ. Sobre a cabeça dourada brilhavam reflexos azulados. a carne da mulher desmaiada.o poder d'essa luz o mundo ira da um silencio / ' i(M> religioso. para um noivado com Deus./ . saphiras.Por toda a parte a bemfazeja itanquillidade da luz. .ar*aÜg*r. não se^ouvia mais o agouro dos pássaros da morte^yTvento que agita e perturba/. e assim ella recebeu n u m halo dourado a cercadura triumphal. fyn :^. mãos. amethystas e as mais pedras jfó4/ J/a^q^h parcellas das cores 4 i y i n a s e eternas. parecia partir para uma festa phantastica no céo. como tocada fde uma morte divina. e interrompendo a combinação luminosa da matta. dormindo imperturbável.. E\os pyrilampos «s* incrustavam-V» nas folhas e aqui. As figuras das arvores ae-desenhavan^envoltas n'uma phosphorescencia zodiacal. A sua immqbilidade era absoluta. aili e além. E os pyrilampos desciam em maior quantidade sobre ella. cabellos se sumiam no montão de fogo innocente E yd&Ç&inj&is vinham mais e mais. e a desgraçada.. jopf'£. vestida defflídfktíwjt^. transparente.'/-^^briram-na. Maria foi cercada pelos pyrilampos que vinham cobrir o pé da arvore em'que adormecera. como lagrimas dasestrellas.•" *i&di rubins.UCt 246 \ sMM****** // CHANAAN jadas e brandamente azues. collo. Âzzsa esmeraldas. violaceose d'ahi a pouco braços. era • J como uma opala encravada no seio verde de uma ÉL esmeralda... mesclados com os fc I pontos escuros. t \ f. ' . Depois os y&gamntóâ' incontavei^co. os andrajos desappareçeram n'uma profusão infinita de pedrarias.

Jl&rZÁ** lampos. e o ruido começava. os Vctó^itóí vão se apa-''''^ gando medrosos e(se\occuftand/)no segredo das b-j selvas. Um momento. despida das jóias mysteriosas.. infatigavel memória lembrou-lhe a agonia. Maria pensou que p sonho a levara ao abysmo dou.. emquanto os seúTdèrradeiros lampejos na — «-->!•* matta ^ m f s t ó ^ ^ á ^ p clarão do dia nascente. e um perfume concentrado durante a noite se dfyffflfâffi. Maria foi emergindo—dosonhorA a s u a innocencia detodo o pec^a^^dWlípexfeita confusão com o Universo / f &/£ acahff ao rebate violento da consciência)^ a / / / „*.. sem tardar. Ias abandonam o céo.*M t£o>y~ mando uma luz turva. As estrelf^^/^pu. começa o canto dos pássaros.. e tudo se esclarecia de outra luz.ff/oUjt— pelo mundo despertado.-. Na ax-'""i vore que agasalha Maria.CHANAAN 247 resta se desmanchasse toda n'uma pulverisação de luz. abriu os olhos. de todos os galhos da floresta sáe uma nota musical. indecisa. Pyrilampos espantados faiscavam relâmpagos de cores. a rapariga inquieta ergueu docemente a cabeça. Arrancada pelo pavor UA r ^y^Y^^^JZZ^ . que se deslumbraram.. _yt rado de umjl 44frf$í e recahiu adormecida na face /// dbévf illuminada da Terra.. cahindo sobre o corpo de Maria até o sepultarem n uma tumba mágica. incolor. ' O silencio da noite foi perturbado pelas primeiras brisas. que enche os ouvidos da mulher com o accento de uma felicidade inextinguivel. Maria IJ^jWJt conheceu-se a si mesma. e. Abandonada pelos pyri. E aves surgiam. for. mensageiras da madrugada. capitoso.

que lhe recordavam a sua vida de hontem. ergueu-se de um salto e partiu correndo. já por valles repletos de colônias. n'umapostura . E emquanto atravessava a matta. Maria continuou a subir as montanhas até ao alto de Santa Thereza. na sua lembrança persistia um clarão. gerado da acabrunhadora humilhação. a fartura do homem. viajantes tomavam a primeira refeição da manhã. homens rachavam toros de lenha. que se dirigiu. A miserável marchou seguidamente duas horas. que annuncia. Em todas as casas começava com o dia o trabalho. ficou mais tímida. na densa evaporação dos curraes. a cuja temível potência morreu toda a illusão do sonho. Na taberna que era o único pouso d'aquellas alturas. vultos de mulheres Sfc. Quando alyattingiu. E foi n'um grande rubor. e de todas as chaminés aquelle suave e ineffavel fumo da manhã. passando já por desertos. # # ' CIIVXAAN dos perigos porventura passados naquelle deserto. receiosa de perturbar com o seu ar de vagabunda a serenidade da população activa e silenciosa do logarejo.movianrnem roda das vaccas. que lhe engrandeciam a dV^T/ção. Maria ficou parada á porta. vacillando. que lhe descia d'essa miragem entrevista no espectaculo da noite maravilhosa.-248 . apezar do medo que a tomara. para a estalagem. E quando chegou aos caminhos descobertos. creanças corriam nos terreiros limpos. sem pejo da fome alheia. já encontrou o sol.

CHANAAN 249 de mendiga. ^*e quando esta lhe efLjfyíffou que buscava abrigo e / L < ^ t ^ trabalho. quando de dentro os passageiros gritaram pela dona da casa. A outra insistiu. Era a creada do albergue. E Maria teve um confrangido asco. que jálraráttendo. mas a filha. esperando de pé. ficou embaraçada em responder. dizendo : . a comida que lhe iam dar. menos atarefadá. Na cozinha onde entrou. veiu á porta inquirir de que necessitava. uma massa repulsiva se movia como uma lesma. — Bem. occupada em servir. não reparou n'ella. com os olhos seccos e vidrados. mas depois. Afinal. Maria disse que tinha fome. A joven a convidou a entrar. insultando-a. como que arrependida. deixou-a j^M/da/mente e foi falar /<*> étM z a mãe. a velha perguntou : / — E que dinheiro traz você ? Maria. A estalajadeira tornou : — Mas que traz você ahi n'esse embrulho ? A mendiga / ia abrmpara lhe mostrar as roupas. A velha virou como um corropio. . a rapariga confessou que nada trazia. Com a voz sumida. — E então como quer você que lhe dê de comer ? Maria fitou-a aterrada. A estalajadeira veiu examinar a foragida. n'um embrutecimento de faminta. l/y^ A moça atravessou o corredor sem olhar para o refeitório. entre para a cozinha. que não tinha pensado n'isso. vendo-a. A dona da casa. não ousando sentar-se. ao lado do grosseiro fogão de barro.

Maria passou o dia inteiro a vagar pela povoação. ia despertando a curiosidade e dando a impressão de tristeza que apavorava a descuidada gente do logar. e a estalajadeira foi á cozinha. rolava vagarosa.^V. . escorraçavam-na. era quasi sem pudor que pedia trabalho de casa em casa. . depois do jantar. comeu n'uma fyfâtòtâ desprezível^ //' ^í^jy. e ella. Per- . na conchegada e bo' nançosa vida aldèã. a quem deu um peyy^a 1 daço de P a o e UIf tigela de café. fiyf- t Por esta roupa. sentiu Maria crescer a sua solidão. -• Mergulhada na desgraça. Depois de examinar o que Maria trazia. repousada e esquecida. Não era ella alli na ._ lhe falava.e por toda a parte aonde chegava. dou-lhe comida e dormida dois dias. arrastando-se como um animal empestado. alheia. que recalcava todos os ^. mais primitiva. No meio da felicidade dos outros. Ninguém a " queria. Ninguém v—.lquando o sol baixava. / v^ cheia de fome.250 CHAANAN Os viajantes partiram. I A.tranquillidade do povoado. A tarde. deante da com- / rfaric placente apathia da rapariga. E foi se apoderando da trouxa. n u m insç-v tincto de apertada defesa. o extranho phantasma da i miséria ? / £. Mnrin nlnnrn n pniifjef */7 fZ H sendo governada por uma~veihã áíma^TmrisTu^J? dimentar. absorta. ligeiros vislumbres de uma sensibilidade menos $ r grosseira. / a população -s^ apresentava^a porta das casas. A'desgraçada. repelliam-na. E para o meio-dia.

Os cabellos despenteados cahiam-lhe sobre o pescoço.a a dentro. e n'uma vertigem ella cahiu. n'outro monturo de palhas. que começou a devorar. e foi com um revoltado nojo que viu na tíbia claridade a sua companheira metter a mão esquelética na palha nauseabunda e retirar [d'alli um pedaço de carne. As duas miseráveis não se falaram.CHANAAN 251 correu a estrada que corta Santa Thereza e foi até ao fim. a dona d'este mostrou-lhe um colchão estendido n'um quarto infecto. Tirou o casaco e ficou em camisa e saia. Voltou. na mesma postura. mostrando uma magreza de bruxa. Mas os olhos da megera se a^í^úiív^ím de ódio contra a rapariga. O bafio do quarto tonteou-a. Naquella primeira noite. a moça permaneceu petrificada. " {^cc^r^. a infeliz ficou um instante só. mas não teve animo de se afastar d'aquella atmosphera de desespero. a invasora cl>^y do seu circulo de independência n'aquelle immun- . de se evadir do raio do calor humano. Era a velha creada. NãO"tardou tl^^ 4 » è um vulto entx0tjlfno quarto e ff0f sente-se //. * Alumiada pôr uma candeia de luz mortiça. — Está ahi a sua cama. quando foi a hora de se recolher ao albergue. desalen^ tada sobre o colchão de palha podre. onde acabava a povoação. Sobresaltada deante da megera. á luz turva os olhos brilhavam n'um fulgor de loucura. que lhe apparecia como uma inimiga. pela matt. quiz ir além. que ficava em frente aquelle em que se achava Maria.

Correram os dois dias marcados pela estalajadeira. que continuava a dormir. sempre alerta. o medonho quarto. . corriam doidamente. via n'um instantâneo pesadelo a velha erguer-se. incessantes.. que ainda assim era o refugio da ind^ clinavel liberdade. até cahir tudo n'uma profunda escuridão. indo e vindo a todos os cantos. e semi-morta sentiu passar sobre a cabeça o vôo tenebroso de um morcego.^e-4ião podia dormir com inquieto^feceioJTTudo a prendia á vigília. Os ratos largaram a comida e continuaram á sua infatigavel investigação no aposente. ora se escurecia. ora se illuminava em suecessivos relâmpagos. satânica. o máo cheiro e o terror da bruxa. farejando. acompanhava o ruido aterrador dos ratos. A lamparina principiou a se-extinguirferepitando. Despertava convulsa e.. alongando as mãos de esqueleto. Guinchando. irrequietos. e no seu colchão comeram os restos de carne que ella deixán». derrubada por alguma rajada de somno. Maria sentiu-se endoidecer de pavor. gelada.. livida. para a estrangular. passeiavam pelo corpo da velha como sobre um cadáver. e o quarto. Pela noite a dentro. Maria. espichava a cabeça até junto da outra. não tardou muito a tombar dormindo sobre a palha. Maria acompanhava o aríar d'aquelle corcovado corpo e o latejar das grossas arterias. ratos começaram a surgir no quarto. sem que Maria pudesse encontrar trabalh í .252 CHANAAN do aposento. no maior silencio da casa. E quando ia cabeceando. Vencida pela prostração.

apathica. mas nesse maldito apego á vida. Milkau reconheceu a sua joven companheira do baile de Jacob Müller. appareceu aqui sem um vintém e tanto chorou que a fui deixando . Depois de alguma hesitação.i/yU cohtrar um emprego. tC^Vé^quem era i mulhecqao alia acabny/i dia^. que é o alimento da desgraça. Não sei d'onde veiu. 15 i j '• .CHANAAN 253 suas implorações e suas supplicas eram desdenhadas. tanta lfáy/L miséria. esmagada. atirando-se aos pés da velha para que a deixasse permanecer alli até en.. teve animo para intervir e Maria ficou na ' hospedaria como creada. • quando viu Maria passar no corredor. sem pão e sem guarida. n u m delicioso momento. e Maria teve um pânico terrível em se vêr de novo obrigada a bater as estradas.ficar. Milkau em viagem para o Porto do Cachoeiro. Desatou a chorar. e que entrevira primeiro na capella de Jequitibá. y Af*^^ > ' —• Ah! ri ir r ri "Hfr é uma vagabunda que recolhi. E assim viveu alguns dias.. Apezar da miserável situação em que ella estava. Ficou um instante pensat<Vn prCítaando explicar por vãs conjectura? ttivo encontro. onde ia comprar mantimentos. entrando da rüa. A-filha. em companhia da outra. almoçava socegadamente no albergue de Santa Thereza. e n'um instante a sua miséria tornou-se o ludibrio da gente amparada e farta d'aquelle retiro do mundo. dpííada-^dl. Uma manhã.. chamou a dona da casa e pergun. A dona do albergue intimou-a a deixar a casa.

e ella acudiu. coitadinha. aqui ninguém a quer.. Essa linguagem atordoou o espirito de Milkau. C melhor é que se vá para outras bandas.. que. o que logo a velha fez. motejava : — Olhem. Também era só o que faltava! Aquillc . deixando Milkau e Maria a sós. vinha ' arrastada. Maria. Promptamente pediu que chamasse a rapariga.no estado em que está. /^ tendo por sua vez reconhecido/Milkau. E então breve. com immensa vergonha.. E quando n aquella sala da hospedaria . Não continuou. Vendo-o agora.. y a estalajadeira entrava empurrando Maria. O que ella me fa? não é nada em relação ao que eu lhe faço. embaraçava-se vergonhosa.. A dona do albergue. espantada da scena. abria-lhe todos os cantos da sua humilde existência. porque da cozinha a chamaram. sem eira nem beira. Milkau levarjtou-se commovido e procurou acalmal-a. desmoralisa uma casa. Milkau n'uma grande afflicção interrompeu o almoço. vejam só.. * J/kau f^decidfiiraKronlar-lhe a suü Hes/raçV Por ve~ 'zes. porém. A confiante #meiguice das palavras de Mil. poz-se ella a chorar. Está-se a se lhe arranjar emprego e ainda fica amuada. Alguns momentos depois.. que tem de ir para a cama... e delicadamente Milkau a desviava dos ponjres íntimos e mais dolo-' rosos.. /<«". retomada de um inesperado ardor.25 í CHANAAN — É sua creada hoje ? — Quall Um trambolho. fwe^M. Esta não quer me largar a sopa!.

. E longe. reflectindo : — Mas o senhor não ia para o Cachoeira ? Por- . > deixasse no caminho a miséria alheia e continuasse no seu embevecimento de felicidade?... Maria sorriu encantada. Passouse longo tempo n'esse silencio triste.T^íj^ràred$ porém. com o semblante illuminado. — Abatida? Oh! não. E uma casa de conhecidos meus no Rio Doce..CHANAAN 255 Milkau acabou de ouvir a narrativa. de que não agüente afyÍJfrft'^ viagem. — Bem. si passasse adeante. e está tão abatida.. Não tinha elle fugido á maldade humana. devastadora. disse afinal Milkau.... A dôr sa-nrqstuafei com r-^. esperando que elle falasse. abandonado a velha sociedade odiosa e recomeçado a existência na virgindade de um mundo immaculado. todos os longos mezes ' de felicidade.. Era a primeira vez em que na sua vida nova se esbarrava com a Desgraça. Estou prompta para caminhar. onde a paz devia ser inalterável ? Porque então o espectro do soffrimento o perseguia ainda alli ? Milkau divagava n'um fundo desespero. d'onde pensara ter-se táffyúado para sempre.(*&**<{ a sua força solemne. de resurreição. / ee*»—*n^Era a salvação. E n u m instante esse encontro lhe $ffâ0Â. Jy/^/^T Si elle não desse ouvidos. e os sentimentos *y<**fl&:y de Milkau galopavam para o passado. Depois. tenho uma colônia onde posso empregal-a.. poz-se a scismar.. mergulhan-'" do-se outra vez nos cyclos sombrios do soffrimen/ to. Maria fl fitáva-^erena. Vae vêr como não me canço..

como si fosse roubada: — Esta é boa.. Que bem me importa a mim. Depois de vêl-a amparada... A dona do albergue tornou-se fula. — Mas. Uma vagabunda. accrescentou Milkau. — Agora.. negocio é negocio. A roupa foi coisa á parte.. Milkau explicou mansamente que ella tinha de . 'Oil*' f-ffk foz-seja contar nos dedos e depois pediu um preço exaggerado. Amanhã mesmo. A mulher fez uma careta zombeteira : — Oh!. a quem Milkau communicou que a rapariga seguia com elle. Milkau não replicou. e dando o dinheiro : . meu senhor. tornarei ao Cachoeira.. sem se importar com o que estava tagarelando a velha. pôde tomal-a como quizer. sem allectaçâo. isto não vale nada. peço que restitua a roupa que foi o penhor do pagamento. ' /Ç^ contentissima.. — Eis a c l u ' A a i m P o r t a n c i a 'j^4^4^^^f^ / //yji (oJ*' mulher jpdfò p a s m ^ V recolheu as cédulas. Chamaram a estalajadeira. Ella não é minha filha. disse elle com meiga decisão. — Diga-me uma coisa : quanto devia pagar esta pobre moça aqui na sua estalagem ? inquiriu Milkau... respondeu Milkau.256 CHANAAN que então abandona a sua viagem e volta ao Rio Doce? Por amor de mim? — Ora. — Vamos.

o seu espirito tomava outro caminho e confiava qme aquelle doloroso incidente... A estalajadeira. E quando voltou á sala. e a velha.. Mas. e foi buscal-os. emquanto elles atravessavam o povoado. esquecendo a tristeza. Maria seguiua. assim compellida. interrompendo a descuidada bemaventurança. fincada na porta. com uma fita azul no cabello. preferiu ficar com a quantia e restituir os objectos. de que não necessitava.. A'^áí viagem de hoje era ainda um combate contra o soffrimento. passaria rápido. risonha.Q ///*' . E aquelle sujeito com uma cara de santo ! Pouca vergonha. vinha de roupa mudada. -V //f.... Quando deixaram Santa Thereza e tomaram o caminho do Timbuhy. faceira. Não é que a desavergonhada teve sorte. resmungando. e tudo voltaria á doce calma. pensava elle. Isto(^i-4he)novas forças e. Maria tornará a ser feliz. atravessando n'um êxtase a pomposa região. o fóú amante arrependido virá buscal-a. a miséria da sorte da companheira. Milkau festejou n u m sorriso o despertardamulher. malcreada.. Milkau recordou-se da sua primeira viagem com Lentz. afastando as apprehensões de uma irremediável desillusão. foi alegre conversando com ella. contra o ódio entre os homens.. Partiram. clamava aos vizinhos : — Vejam só. para se libertar do Mal. e todas as ligeiras feridas da dôr serão curadas por um sopro de bondade. Amanhã.CHANAAN -257 optar entre os vestidos e o dinheiro..

áridas. perfumando /fi* á . Com o avançar da t^irde.xnbaixo / _ e^tendia-sè^ilma serie de vafles recortados em / / mil aspectos diversos. e. plantações. r / A colônia para onde se dirigiam. e urria colônia se lhes deparou no alto da montanha. oyl passava gente a pé. Á medida que se ^j approximavam. percebendo que lhes erVimpossivel alcançar o Rio Doce n'aquelle dia.. escoteiros. Descendo das regiões férteis. ora mattas /r W ^"~_folhudas. lírv"*1 como n'uma paizagem extravagante. passavam tropas de burros carregados para o Porto do Cachoeira. onde talvez conseguissem agasalho. seccas. £r / Maria fez um esforço e foi subindo vagarosamente. que ç(já. e só elles. negras. era um peque5 no jardim europeu. "Mais tarde começou a fraquear e era com difficuld\de que yj/fâyfjgfâdy1. \pf&t/i**t. '0^^Mh[d^^ddtíJU¥. tudo n'uma abundância crea •S "*\JZ-^ Ção. apezar de tudo.JíWdfy a uniformidade Í^Vv / das habitações dos immigrantes. de desenho.QiJU*** 25si I CHANAAN Debaixo do sol ardente desciam e subiam morros. a beira dos caminhos.riachos. Sen/?>**>**" taram-se ás sombras das arvores. ora. ti dei^ v » t ü / xavarrí ficar alli. n'um capricho de linhas. ora. Milkau propoz subirem pela vereda que £ levava até lá. descuidados. Os viajantes foram-se deliciando com o scenario. passavam viajantes montados.yfcfrppoy a Maria continuassem a caminhar até descobrirem uma colônia onde r/irrflrrfm n n^it/ Andaram mais um pouco. e durante as primeiras horas Maria marchava lépida. Milkau ficou inquieto. montanhas baixas formando massas enormes. . despenhadeiros. casas. planícies.

A vista se lhes extendia farta e satisfeita sobre uma tela mágica. uma irradiação espectral. morava alli só. Entretanto. as filhas eram casadas e os filhos viviam na vizinhança. foi de um só conjuneto de cores desdobradas ao infinito. Findo o jantar. Os cães u ^ * ladraram atirando-se sobre a cerca. radiante. seguido de Maria. checom os os aromas aromas que que yyiinám ene./ do a longa barba branca. Os olhos não se podiam fixar em nenhum porrnenor. O homem da colônia deixou os hospedes e foi regar as plantas.jiy . ate ate que. o que o entretinha era cultivar flores. Levou-os o velho para dentro da casa e offereceulhes jantar. o cafesal também o distrahia. Penetraram no jardim. gaddy á cancella. e o velho. e da janella apontou as plantações no morro próximo. Milkau bateu palmas. A impressão que tiveram. divina e rara. jardim. havia muitos annos. alisai^ /H. uma zona cambjante. falou aos viajantes. ia-lhes contando que era viuvo. servindo-os á mesa e obsequiando-os como podia. n u m gesto de agasalho fácil e espontâneo. começou a pas- . tratadas com o carinho de uma horta. mostrando no riso uma fila de dentes sãos. socegando-os com alegre auetoridade : — Olá. Milkau explicou-lhe o que os levara ahi.CHANAAN 259 y/f&fUM*< com ytjipáxh do do jardim. que estava em triumphal floração. patifes ! assim é que se recebem visitas ? Os cães a-afastaram"rosnando. Milkau ficou um momento admirando os movimentos expertos e juvenis do ancião. vieram os três para o jardim.. e depois. E o velho. escancarou a porta. e logo um velho acudiu. que.

mudos e gr* sonhadores. e elle daf y ^ transportou éM jfmqf da saudade para a velha **"" / Germania. da gente n u m regosijo de novidade ao calor bemfazejo do sol. Agora. Recordou-se dos bosques. ' . e com os olhos postos n'elle ficava embebida'n'um humilde enlevo. entristecido. E no animo de Milkau amollentado pelo violento encontro da dôr.f / ^ w ^ torpecendo-os . borboletas voavam sahindo das plantas.'y ' seiar pelo jardim. dos jardins.. via interrompida a eterna verdura.260 CHANAAN . Ella parecia nunca ter soffrido/ uma resignação de nômada apagara rapidamente os vestígios da miséria. toda era encanto por Milkau. as plantas cheiravam ainda mais. absortos. como flores aladas. E um instantâneo olvido encerrou a sua agonia.(•*$» **"•**"'-ffflrranrejeáéícíÉr. Andaram até onde A. Com a queda do dia. susbtituida a tragédia da natureza brasileira pela doçura européa trazida nas flores que^peregrinaram até ahi. Milkau julgava-se fora da natureza tropical.//" mão no homb/o de Milkau. Tudo resuscitava. J" como espectros: olhos perdidos no vago. Este sentiu^uírxâtlttí. Maria estava meic/fatigada e inconscientemente apoiou a . abatido apontou no momento do crepúsculo uma ligeira sombra de nostalgia.. das U"^' casas.. sahindo da morte .ITõ'calor emanado das entranhas' £ * geradoras da mulher infiltrou-se^^aSs^nervos. JL U gelada. E foram caminhando XlL?. en.bmscamante.. a terra que abandonara. E o jardim lembrou"2-Makau. Encerrado alli... Naquella mesma hora era alli a hora da \Jyy primavera. Quando elles passavam esquecidos.

O colono acabara o serviço e veiu ter com os hospedes. onde lhes tinha preparado as camas.. cahindo de somno.. Seguia deliciosamente todo aquelle brando respirar. como uma musica extranha. O grande actor foi descendo no espaço sem nuvens. convidando-os a dé xecolhexdyfi. Sem raios. como si dentro d'elle um mágico se divertisse em illuminal-o. até que o dono da ' casa. depois de mergulharem no tremedal que ficava em baixo. onde. Sentaram-se em uma pedra.. como uma mulher bella e damninha.. E já a casa estava em socego e Milkau. sem poder dormir. 0 mundo inteiro tinha parado para assistir ao espectaculo. sem reverberação. aquecendo-o. que se lhe infiltrava. descampado.... Era uma representação phantastica. até que afinal eUe-mergulhou no horizonte e a terra tingii>se de sangue e em seus mil nervos agitou-se toda. no despenhadeiro da montanha. acompanhava o somno de Maria. esterilisando aterra. . o immenso globo ostentava uma succes• siva gradação de cores.v ' três conversaram sem interesse.. uma palmeira se alteava.. sobre a sua superfície as cores ainda continuavam n u m a infinita mutação. Os olhos.CHANAAN 261 o jardim ia acabar n u m logar secco. Era noite. no seu leito. os . e acompanharam a morte do sol. á mesa. Dentro. propoz irem dormir. e pouco a pouco uma/yíyídd perturbação h\e f/f^ f/^ '< .. O resonar leve e regular da mulher lhe vinha aos ouvidos. Mostrou a Milkau dois quartos contíguos. sfeerguerarrKpara o céo.

. Tudo seifiuminava ao poder for- a* ?"/ +< ****&* • * cd*>" .. debaixo de cujas camadas sonoras se sente 0 / mysterio do instrumento. e. 1 E um torpor.. aj \ bocca secca..fU.... a garganta estrangulada. Z^ZT^^* 262 t.•.. onde jaziam sepultadas. eralím"suspifo de amante. Amaldiçôou-se e teve nojo de si. o seu respirar chegava sempre aos ouvidos de Milkau. *Só elle era mudo.... o* »i coração galopando. abrindo a janella. Mulher!. um espreguiçamento dos músculos o desequilibrou de uma vez e o atirou a uma vertigem de volupra. dando-lhe um instante de consciência e um profundo. Chegou-se á porta entreaberta do quarto de Maria..o y-<n<«v A •*»*.. Cresceu-lhe o tremor e uma languida molleza o deteve.*"+ +«*y< ?t+yy^*r*. J/lJtAftrt^enchendo-os de um goso .. Mulher! E lá vinham do esquecimento.. e todos se amavam.Mulher!. sacudido pela volúpia. Ej^JSÜ* esta palavra evocadora lhe dilatava.. pensava elle. % # f r | ^ ^ N ã o era u m V //' /Tfêsonar Hormeclda.. as visões lubricaselascivas. viu-se o ludibrio do desejo e descreu da redempção. que vos c a n t a i O chéTro o jardim tr^nstornavTãTc^Iiã^rrrMilkau estremeceu outra vez... poz-se a scismar debruçado sobre a Noite divina.. O homem forte ficou envergonhado d'esse momento de loucura.<*.:vexame.. Aquella/hora lhey• chegavaP do universo inteiro o echo dó Amor. " *&** °~<- ou*'«0 alvoroçava o sangue./wrJ*44.. Milkau levantou-se tremulo. -Maria continuava a dormir tranquillamente.. Era noite..1 os horizontes da fejtringida e quasi apagada sensualidade. . E o seu olhar prescrutava as sombras da immensidade.

os braços se apertavam enlaçados. sem poder ir além. O sangue dentro d'elle... aquelles transportes de luxuria. Ficou assim séculos pregado aquelle corpo. que amornava o aposento. Voltou á janella. como em frocos macios e louros... que não era mais o mesmo. Não é nada... Socega.. i&fêturados. que accordou a rapariga. gemiam n u m frenesi de doidos. E ficou tremulo.CHANAAN 263 midavel da sua allucinação. a Noite era outra.. Deslumbrado pela vertigem. correntios. E para elle.. luminosos como um rio de ouro. os corpos. Dorme. fugiu.* tario também amou.Milkau deixou a noite tentadora e entrou no quarto de Maria.. Os cabellos d'ella estavam soltos e cahiam sobre ocollo nú... quente e sôfrego.. murmurando : — Não. n'uma arquejante respiração. n u m frêmito convulso. Era serena e bemfazeja como a face de uma . Retirou a mão e. se degelou n'um momento e. mudo e refreiado.Miíkaurecolheu a quentura do corpo feminino.. voltando rapidamente a si. E tudo era uma visão > de amor : as boccas se beijavam com febre. o joven sangue parado pela illusão. Ella. O soli. não tinha mais aquelles accentos de volúpia. mergulhou a mão até ao fundo.. e nos cabellos de Maria. não. perguntou : . via-lhe os cabellos descer pelo corpo abaixo.. clamou o corpo da mulher. . — Já são horas de partir? A voz innocente cahiu sobre Milkau como uma rajada de frio. com os olhos meio cerrados..

204 CHANAAN irmã. sorrindoIhes com carinhosa malícia. Ficou longo tempo alli. confundiu as suas lagrimas de solitário. como se costuma sorrir aos noivos. Maria retribuiu a saudação sem jfytír o que esta dizia. Milkau sentiu uma pungente tortura com aquelle sorriso. o velho os acompanhou até á porta do jardim encantado. confuso. e com o orvalho. erguendo a cabeça. que a madrugada para o sarar lhe derramou sobre a cabeça. humilhado. ao deixarem a casa. . De manhã. partiu altivo. mas logo. como o vencedor de si mesmo. e com a brisa misturou os queixumes da sua agonia sexual. arrependido.

E para afugentar a persistente Tristeza. e agora o pensamento rolava vertiginoso para o desanimo. Todo o «prazo» estava cultivado. Não ha desgraça pequena. piedade e reparação com o alarido de cem mil boceas. o terreno . que brotavam n'um indomável viço. Desapparecêra a coivara. Já por esses ^ ..No espirito d'elle íe/fl*^*' uma melancolia teimosa se espraiava infinita. Não ha soffrimento. vaga.VIII A passagem da miséria na nova yjdd de Milkau / ' * £ * ' deixara o seu vestígio perturbador.. seismava elle. Milkau se\gonsagravf)ainda mais ao trabalho. Toda a dôr é immensa. Não podia esquecer a desgraça de Maria. tão insignificante que não clame aos que passam. e os pés de café.tempos a colônia tinha um bello e florescente aspecto. que o cercava e lhe extendia os braços amorosos. cobriam como um manto a antiga hediondez do roçado. entorpecedora.

que ennobrecia o seu destino humano. os nervos cança- . uma solda inquebrantavel e que ainda significava a imagem d'essa impulsiva liga entre todos no mundo. que se abriam em flôresJ dando aquelle jardim alli nos trópicos um perpetuo ar festivo á vivenda. devastava as mattas. as empregava com desvelo e ardor no trabalho com as próprias mãos. luctava com os animaes. e o outro. formára-se umaattracção. alliado a outros colonos de egual inclinação. Caçava. Lentz era o caçador. a fronte suada.. que cada dia será crescente. sacrifícios de sangue. e. matanças. longe do ódio. até se tornar universal e indestructivel. flores do seu jardim. em poucos mezes para elle já não havia segredos na floresta brasileira. o seu espirito. E quando.. simples lavrador. de imaginação. Milkau era agricultor por instincto. Milkau trabalhava sempre. e todas as suas faculdades de attenção.266 CHANAAN semelhava um verdejante parque cercado das arvores immensas da floresta. fructos da terra. da lucta fratricida. Restringido a um circulo de limitada actividade. e a humilde casinha dos dois emigrados estava coberta de trepadeiras. sempre retrogrado. entre esses dois interpretes successivos da vida. No mesmo tecto esses dois homens exprimiam duas culturas differentes. curvado sobre a enxada. buscava expandir-se n'essa fôrma inicial e selvagem da civilisação. apenas interrompida. Mas. Um offerecia ao mundo façanhas.

e sem insistir em desnudar-lhe o coração. emfim ? Também ella não mourejava dia e noite no trabalho. que cubramos o mundo de flores sahidas das nossas mãos infatigaveis.. mais poderosa.. cavava a terra. mais doce. mais subtil. lá vinha ainda nesses instantes o tormento da piedade. pedindo que . si alli adeante. •Võariao vcgea. Ella se retrahia cada dia mais e nem mesmo a elle confiava os passos do seu martyrio. « Não é no trabalho que está a salvação da miséria nem o estimulo para o desalento. essas flores. ao nosso lado. a decepção. Que bem fariam a côr. recommendava á gente da casa a maior caridade para a desgraçada. emquanto a enxada. Outra coisa mais santa. mais bemfazeja. si todo esse sangue. sarar a morte do sonho. um repouso suave. onde Maria se empregara. » Assim pensava Milkau.CHANAAN 267 dos./para levar-lhe algum conforto. esses fructos não são balsamos para aquella ferida extranha!. mais d/)^W.. como um forçado ? E a consolação lhe vinha-? Oh! não.. é preciso haver outra coisa no mundo. Milkau respeitava esse pejo.O Amor!.fôxavw « colônia ». como uma mancha na sua visão radiante. Que importa que nos fatiguemos. o perfume e o sabor das coisas ao padecer de Maria ? Como remediar. vive a Dôr. que ensopemos a terra com o nosso suor. um esquecimento devia adormecer-lhe os pensamentos. o continuo testemunhar da desgraça alheia.. mais vasta emais mysteriosa.. manejada pelos braços inconscientes.

mra a caça. que ainda não tinham visto. Maria não se queixava. mudos e abysmados nas suas scismas. E também para o com-^panheiro.* rancor. ^fiyL$J(^iJfdJt0/a vida de Milkau continuava a ser minada pela tristeza. Falaram da Allemanha. nada havia na colônia capaz de encher-lhe a imaginação. e o velho falava satisfeito .interessava^pelos pormenores d'essas historias. Durante o dia trabalhavam. Os colonos promettiam-lhe tudo. emquanto a família se entretinha nos arranjos domésticos e no trato dos animaes. N'um d'esses passeios foram até uma colônia. como uma intrusa que lhes ia roubar a tranquillidade.208 CHANAAN velassem por ella e a não desamparassem na próxima crise. que os convidou a repousar um pouco. Lentz aç. Aos antigos tormentos juntavajo desprezo e o ódio dos novos patrões.' e.^s y o ancião narrou-lhes sem demora traços da sua vida. mas na verdade o sentimento d'elles era outro : tratavam a miserável com desdém. atormentada pelo medo do doloroso momento. os dois amigos ficaram a conversar corn o velho. que se approximava. e era com um passo moroso e incerto que vagavam ás tardes pelas habitações vizinhas. r/£é^# com J// . E ainda assim se agarrava a essas raras migalhas de uma desdenhosa condescendência humana. Era um veterano do exercito prussiano cuja / memória estava cheia de lembranças da ultima grande guerra. dar-lhes trabalho e augmentar-lhes o custeio da casa. êü porta estava um ancião.

quadros d*?-*"***^ da cultura extrangeira apenas entrevista e que recolhera á retina com essa sensação de deslumbramento maravilhoso. a chuva oblíqua da metralha mudava em lama sanguinolenta a miserável e inquieta poeira humana... A ess0 jdmpfddddi €& ^^ misturava outros episódios da invasão. a vomitar sangue. cahira do cavallo e por cima do nr*J**^ peito lhe passara n'um galope o animal de um camarada. em França. fora por um acaso colhido na estrada. onde o clima quente lhe mantinha a vida.. estrondeava o tumulto das batalhas. Escapara de ser fuzilado. Desde então dera baixa e emigrara para o Brazil. porque uma noite de dezembro. O velho soldado terminou tjfflllédHt que uma vez. Ainda o apavorava o terror da disciplina. além do que era permittido reclamar.CHANAAN 269 e vaidoso de entreter os jovens.. levou / os vizinhos para dentro da casa mostrar-lhes v e . E sorria como havia muito tempo não lhe era dado. n'um //r^lrx reconhecimento. abandonado./ Jb***'\ . Na sua narrativa imaginosa passavam cidades extranhas. / o veterano ergueu-se e. que commandava e era temida.. exigira uns cobertores dos moradores da casa onde se acampara. desabavam cargas de cavallaria. varrida em turbilhões heróicos pelo tufão da Conquista. Lentz applaudiu então a Força immortal. caminhando tropego. como a que ficava do minuto de um Bárbaro no seio da civilisação.. Enthusiasmado. e como. desfilavam exércitos.y-yyj\\ . E essa extorsão. fazendo parte de uma guarnição. elle ia pagando com a vida.

E eu tenho que o estudo das coisas antigas.. a arte. Em caminho para a colônia. Mas aquelle amor inconsiderado por tudo o que é passado. Tudo alli era uma volta ao Passado. respondeu Milkau. a servidão. quadros e lembranças. vistas da Prússia. Tudo era antigo. com um tom emphatico de superioridade. tudo o que separa e destróe. o sangue. é um dos sopros mais poderosos para a desordem universal.. estampas da guerra. mobílias. o demônio que o agitava. aquelles cujas almas se fazem artificialmente antigas. — E porque não me retemperarei nas fontes da minha raça ? perguntou Lentz. esses são os verdadeiros . Amemos o sacrifício feito pelo amor humano. — Mas é preciso não amaresdemais essepassado. a sciencia. / - CHANAAN lhos retratos de reis. — Porque? Porque. o que estimas n'esse passado é exactamente o que elle tem de humilhante e vergonhoso. a guerra. disse Lentz : — Que consolo senti indo á casa d'esse velho! Parecia ter penetrado um instante no passado intacto da Prússia. Os que se collocam no passado.. Dia a dia será reduzido o campo da veneração pelas instituições da Antigüidade. tudo o que foi. a alma senhoril. observou Milkau.. Amas p ^ f ó ^ espirito de destruição...27H ' £. o prestigio das próprias lettras mortas são outros tantos venenos que acobardam a alma do homem de hoje e dão um encanto crescente ao mysterio da Auctoridade.

O gênio humano é universal.. a somma de nós mesmos multiplicados ao infinito. não é tudo do passado que eu amo.... interrompeu Lentz. sendo patriótico. mesquinha. Milkau. a tenacidade. nem sciencia. — Mas que é a Pátria ? A/ / — A Pátria. nem religião. Não ha ninguém que fuja da sua atmosphera. são os pregadores da desordem.. Nem arte. a guerra. absolutamente.. a expansão universal. uma expressão da política. Nada. o gênio militar. quando testemunho numa ostentação das fortes IIf'^*' qualidades humanas da nossa Pátria. mas regosijo-me / / / / .. uma limitação para o amor dos homens.. os prophetas do tédio e da morte. — Tu sabes bem. nada tem uma fôrma elevada. A Pátria é pequenina. ora... o nosso eu. A Pátria é o aspecto secundário das coisas. Sobre ella nada se fundou. — E que beneficio resulta d'essa força. a nossa própria projecção no mundo. Entraram em casa e durante a noite largo tempo . d'essa grandeza da Pátria ? — Oh! Exactamente o que n'ella venero é a tendência imperial.CHANAAN 271 inimigos do gênero humano. uma civilisação particular que nos fala no sangue. meu querido Lentz. a Pátria é uma abstracção transitória e que vae morrer. a desordem. tu não sabes? E a © / raça. a fibra bellicosa. a disciplina. uma restricção que é preciso quebrar. Immortal! — Não.

CHANAAN

debateram essas idéas. No dia seguinte, quando
Jj
Milkau trabalhava solitariOj/^ava-lhe na cabeça a
f/,yf^
discussão da véspera; e sentia um mal estar lembrando-se da viva contrariedade que oppuzera aos
sentimentos do amigo.
— Não ha duvida, pensava elle, penitenciando-se,
é assim por natureza. Quando dois homens se collocam frente a frente, uma instinctiva animalidade
' - - j ^ - surge ddjJdffflyèfó perturbando a sympathia. É o
Qifj''4''querer
innato de subjugar, ou pela força, ou pela
0,
superioridade da intelligencia, ou pela consciência
da própria perfeição. Assim também sou eu; procuro reduzir Lentz a mim,dominal-o até ao fundo
das suas idéas, do seu próprio ser. Oh! orgulho damninho! Quando a própria humildade deixará de
ter no seu mais intimo recesso a desfiguração, o
amargor da vaidade, da soberba, do domínio?
Milkau reconheceu-se inferior ás suas idéas, humilhado por uma força inconsciente. Depois tornava aos mesmos pensamentos. Comprehendia que
no seu companheiro essaexaggeração do amor da
pátria era talvez um symptoma de nostalgia, uma
anciã pela terra das origens. E não é isto uma conseqüência doentia da educação patriótica? Mas,
n'aquelle instante de angustia, quando por sua
vez se examinava mais de perto, |ê\revelayj^a si
mesmo... Fitou o céo immenso, desvelado",de uma
serenidade, de um brilho e de uma firmeza de crystal, e sentiu-se extranho a elle... Admirou ao longe
o corte das montanhas, a negrura da matta, atfronde/

CHANAAN

273

das arvores... Debaixo dos seus pés a terra vermelha, como embebida de sangue, e das plantas tenebrosas o cheiro que tonteia e excita... O morno
socego do universo... E tudo lhe era extranho. Elle
ê o Mundo, elle e tudo mais, a dualidade, a distincção irremediável. « Eu não estou em ti, tu não
estás em mim... Ainda assim eu te amo, mas tu não
és eu.»
.,, -A^ i
N'uma dôr0^/jljl Milkau, devorado de magua, m/v*^"***
combalido, sentiu-se também expatriado... Não
havia entre elle e todas as coisas em volta de si a
subtil intimidade que nos prende eternamente a
ellas, o imperceptível e mysterioso fluido de commuriicação que faz de tudo o mesmo ser... E percebia,
n'um grande desalento, que o conjuncto tropical
do paiz do sol o deixava extatico, errante e incomprehensivel, e que í sua alma emigrava d'alli, incapaz de uma communhão perfeita, de uma infiltração definitiva com a terra...
— Que sou eu então? Que verme, que átomo
miserável, que se não governa, que não pôde amar
o que quer, que se não pôde identificar com todas
as moléculas do mundo ? Que sou eu, onde leis
imperiosas, perversas, me dominam, me vencem
o novo sangue ?
Outros vizinhos vieram algum tempo depois SÊT
estabelecep^ó^Rio Doce, na campina que sahindo
da matta morre sobre as águas. Era uma pequena
família magyar, composta do pae viuvo, duas

274

CHANAAN

filhas e um filho, a que se juntaram outro rapaz
da mesma raça, que era noivo de uma das raparigas, e um cigano. Viviam unidos em uma só communhão de desanimo e de espanto, na casinha feita
de madeira tosca, .com tecto de telhas de páo, incendiada pelo sol nos dias quentes, varada pelo
vento, invadida pela chuva nos dias de tormenta.
Ahi cumpriam o ritual dos costumes pátrios. Sob
a pressão cobarde do isolamento, apegavam-se,
como a um refugio, ás intactas tradições, transportadas dê sangue a sangue e mantidas pelo
temor religioso desde os antepassados. O cigano
partira também, arrastado pelo instincto vagabundo. Na longa travessia, o eterno caminhante da
planicie imaginava-se prisioneiro no vapor, que
lhe parecia uma jaula movediça e endemoninhada. O oceano contemplado da terra attrahia-o
pela irresistível seducção da immensidade. Sobre o
mar elle não sentia mais liberdade moral. O infinito é uma miragem atormentadora, em que se
perde a essência humana... No meio das águas
illimitadas, sitiado pelo perigo, assaltado pelo terror, o espirito, dissolvendo as suas forças vitaes
n'uma desaggregação continua, transforma aquella
attracção impulsiva e illusoria em uma persistente
impressão de assombro e de terror, e a orla de
terra que se lhe escapou ao longe, e/para onde se
volta incessante, recebe os queixumes da saudade.
O homem só é senhor da sua individualidade na
porção de espaçp cujo horizonte^póde medir com

ju.

** W/i*

CHANAAN

bs

275

olhos, naquillo que é finito e limitado...
yjjfc/Passaram ^xft^^tídjatídUtí
os primeiros
tem-yyOtyfa^,
pos, esmagados pela perspectiva do desconhecido, ryyd**™
com a alma em suspensão. Até então não se trabalhara; os homens corriam as vizinhanças, caçavam, vagavam pelos montes e iam aos povoados ; as mulheres viviam no lar. Quando cahia
a sombra, o cigano s&. deitava* sobre a relva, á
beira do rio, e pregava os olhos preguiçosos no
poente, vendo morrer o sol. Aos domingos, a família «s- reunia^na varanda; o velho a um canto,
bonné enterrado até os olhos, cachimbo na bocca, /ir
quilotava repousadamente as longas barbas amaZ^&T
rellas e as rugas da cara; as raparigas e os dois */ ^ - , "
rapazes,como legítimos magyares,ornavam-se com Agfa&t as bellas roupas do seu paiz e vinham faustosos e , ^ * , ^ ^ ^
garridos entregar-se ao grande prazer da sua raça, d^r jwr_
á dansa.
^-* <s
As vezes, Milkau e Lentz nos seus passeios pela ^ S ^ T ^ ^
margem do rio ficavam-se debaixo de alguma y<^ ) •***>*
arvore, assistindo aquellas festas no silencio da ^y>w+* <£*<•
grande solidão. O musico era o cigano com o inse- *jf*~ ""•
paravel violino, sentado ao lado do velho. Dado o &+***• ^
signal, os pares punham-se em ordem,e iniciavam '?*~V*~**
as marchas polacas. A musica tangia á festa.
vr<^ / "
Os seus compassos a principio langorosos iam ga- -Q+VHJ*
nhando movimento e a largos impulsos do som t*.'/^**"
arrastavam os figurantes. Faziam rápidas voltas, « i ^ meias luas harmônicas, enrascavam os braços /*r**~•-**
uns nos outros e balouçavam-se cadenciados, ^*^*^"

276

CHANAAN

como suspensos sobre as notas, formando em sua
graça artística grupos de estatuaria clássica. Ao
findar a contradansa, respiravam satisfacção, espalhando-se-lhes no semblante o orgulho da sua
mestria. Mas o cigano os não deixava socegar,
vibrava o violino, e logo todos sentiam o despertar nervoso da paixão.
e^v**</***,,***,^ .
Com
V íwfcr^
ffâiffr
preso sob o queixo e)fcmpuxügàjl /t,
/ • /yyu-ydCt p n r n m i níiin coni'ii1Wi emquanto a outràyfhanejava o axco^rf^ys/c^Jytyffiiyfâajdfí
TTWfnu.iirnlu.
Os homens, trazendo chapéo dé 'feltro'comlindas plumas, paletot
' *«****" * % calça de velludo e á cinta uma larga faixa de seda
,- carmesim, enlaçavam as raparigas, cujo corpinho

^" £, meio aberto ao collo vestia o busto esbelto, e cuCm~po
j a s saias ornadas de velludo e seda lhes envolviam
9/¥ e>
^ ^^ 'as
fôrmas poderosas. Naquelle espaço estreito, na
varanda quasi debruçada sobre o grande rio selvagem, e extranho aquellas melodias, reuniam-se,
na fraternidade do destino e da arte, as duas raças, a que tem o sentimento innato da musica, e
'/r
a que tem a espontaneidade da dansa. Çdex^^í^/jt
t/
f/rrv^ a
valsa. Os artistas da dansa acompanhavam a
V loucura da rabeca n'um vôo quasi imperceptível e
para deante, para deante, por sua vez no sublime
surto dos" sentidos, improvisavam novas figuras.
Quando estavam no auge do prazer, a mais moça
das raparigas, amparada nos braços do irmão,
deslisava alegre, feliz, com o rosto illuminado,
embevecida, a fitar o musico amado, com avel-

CHANAAN

^

277^VV\^T

ludados e longos olhos, que sorriam primeiro que i V ^
a bocca... E quando a musica ia morrendo, a > \ >, "ç •
outra rapariga, transportada, em êxtase, a cabeça
Ç ^ \ ®*
loura reclinada sobre o hombro do noivo, n'uma
^&'^
vertigem aérea, respirava a pequenos haustos com
a bocca entreaberta, sua bocca vermelha como o
sangue, humida como o orvalho.
A turma de Felicissimo voltara para novas medições. O agrimensor depois do trabalho ia todas
as tardes conversar na colônia de Milkau, e com a
sua vivacidade e alegria entretinha os dois emi- ,
grados, contando episódios dá sua vida aventu- / ^
reira, scenas do Norte, d'esse Ceará trágico em
cuja{areias sedentas e implacáveis se vasam, de
fundeai? na resignação, na dôr, na energia e na es- / •*perança, a alma dos homens... Quando não havia
f
serviço urgente, Joca juntava-se a Lentz e o%-dois
"j
^». embrenhavam'no matto, a caçar. Na conviven'*|
cia com esses sertanejos Milkau apaziguava as an^
cias em que se vinha debatendo o seu espirito. A
\|"
espontaneidade de raça, a coragem e a bondade
ri
d'elles eram novos arrimos para a illusão...
j.
Nenhum incidente perturbava o calmo viver de
Í
immigrantes e trabalhadores, até que uma manhã
%.
o agrimensor e os seus ajudantes, sentados á porta
^
do barracão, viram uma mancha preta passar ve>
lejando magestosa, serena, no céo claro.
^
— Urubu !.. disse Felicissimo.
— Ah! temos carniça por aqui... opinou Joca. /^<*<í^*r,'v
indagando com os olhos atilados o vôo dfíamfyí.
y^^/J^A
16
ÁjlAyi

€y**yr*+y

<**> tysr^r

S7 y~

^

Olyf

y/oi

A - to***?

}

278

CHANAAN

A grande ave solitária descia vagarosa, boiando
negligente n'um vasto circulo do espaço, como um
barco de velas negras... Logo depois outra subia
.j
no horizonte e não tardou muito que outras mais
^ r H '***
viessem $/ax a limpidez do azul. E d'ahi a pouco
se ia baixando e restringindo a um ponto da matta
aJ *Artl° v o ° dfó idyffidffá infecteis, que os trabalhadores
/
acompanhavam curiosos e divertidos em suas almas infantis.
— Mas... alli, n'aquelle ponto, é a casa do
«bruxo», observou um dos homens, designando
assim a morada do intratável e velho caçador que
habitava aquellas margens do rio.
— Vae vêr que é algum dos cachorros que morreu... Também, que o diabo os leve a todos... praguejou o mulato.
— Que a peste os acabe... Malvados !.. ajuntou
outro.
— E mais o dono.,.
— Qual, para mim não morreu bicho nenhum.
Si fosse, o velho o teria enterrado, como a um filho,
concluiu Felicissimo.
— Sim... e não haveria carniça.
— Quem sabe si não é o velho que está morto ?
conjecturou um trabalhador.
— Homem, é verdade... acudiu um camarada.
Ha dias que o não vejo...
— Quem sabe! também eu... âlyldddtátamoutxos

£'r*/«zr

io sruv

°-

CHANAAN

279

— Vamos vêr, seu cadete? propoz Joca ao agrimensor.
E todos se levantaram e seguiram na direcção / o
da morada do caçador. Ao approximar|ÍA-se, ou- '
viram latidos e uivos de cães. Mais perto, quando
descortinaram a casa, viram os cães ladrando, correndo como demônios doidos para os urubus que
teimavam em baixar á terra. As aves negras rasteavam quasi o chão, e quando os cães se arremessavam sobre ellas, erguiam o vôo e iam pousar logo
adeante.
— Vocês não vêm ?.. A carniça é o velho...
gritou n'uma gargalhada alvar um dos homens.
— Que fedor !... Este diabo está podre ha muitos dias, berrou outro.
Instinctivamente, y&fff pararam, como n'um
conselho.
' /'
— Então., seu cadete, que se faz ? perguntou
Joca ao agrimensor.
— Ora !.. vamos a enterrar o velho... Deus lhe
perdoe a alma... Nós lhe cuidaremos do corpo,
disse decisivo o cearense.
Os homens não hesitaram mais, agora inspirados pelo impulso de piedade de Felicissimo, e tó^
dos caminharam para dentro do cercado. Vendoos approximar-se a matilha de cães abandonou os j ,
uwibúe e avançou como uma só massa,atroadora, —-y^^d<*n
furibunda, terrível, contra os homens. Aproveitando a diversão, os m/dm caminhavam no terreiro,e n'uma dansa macapra iam invadindo a ca-Jym • * .

s****-

e^ *%*•*"» °«-r,

280

CHANAAN

sa, n'um riso infernal, espichando voluptuosos as
cabeças petulantes de harpias descabelladas.
Deante do arranco dos cães, os homens fugiram, e
na porteira da cerca os defensores da casa pararam
arreganhando os dentes, uivando, ladrando, as
sangüíneas boccas escancaradas.
— Como podemos afrontar essa canalha?., perguntou um dos trabalhadores, quando já estavam
fora do perigo.
— Joca, vá com outros buscar os ferros para
darmos uma licção aquella cachorrada... ordenou
Felicissimo, saboreando uma vingança.
— Vamos d'ahi, disse Joca, e partiu acompanhado de mais dois.
Os outros ficaram atirando pedras aos cães, que,
estacados na cancella, não se arredavam, furiosos e tremendos. Os urubus, descendòyeTTT^rnaior
numero daflTBfln,.continuavam em cortejo a penetrar na casa. Um horrível e crescente fétido mesmo
á distancia tonteava os homens, dando-lhes ancias
de vomitar.
— Oh ! que demora, resmungava impaciente
Felicissimo, esperando na estrada a volta de Joca.
E ia gritando aos j/Lamea^l:
— Pedra, rapaziada! mão certeira!
Os cães latiam, mostrando os dentes brancos e
afiados... E os urubus continuavam a baixar do
céo... Afinal, pela estrada vieram correndo esbaforidos Joca e os companheiros, carregados de

CHANAAN

281

enxadas, foices e páos. Cada um se armou, e Felicissimo ordenou com enthusiasmo:
— Agora, avança, meu povo!
Os homens resolutos e raivosos precipitaram-se
sobre a cancella, que ao choque dos seus corpos
unidô^espatifou^c., dando-lhes passagem; os cães
não retrocederam e »lançaramrsobre elles, mordendo-os desesperadamente. Os invasores berravam na dôr :
— Mata! mata!
E a páo e foice arremetteramy^i? contra os ani- / / *
maes. N'um momento estavam os Iptmpné todos ^ Çr
rotos, e o sangue lhes corria das feridas. E da peleja,
umas vezes sahia um cão gritando, ganindo, quando
J
uma paulada certeira e furibunda lhe quebrava as > t
pernas, outras eram homens que, debandados, iso- \ £
lados, fugiam pelo terreiro, perseguidos... Estes J J
trataram logo de ss unir^ traçando com os instru. }"mentos um circulo de defesa:
-— Não afrouxem! ordenava Felicissimo.
— Avança! avança!
— Para dentro!... para dentro!...
Recuaram os cães ante a energia do ataque; e,correndo sumiram-se como por encanto. Os homens,
indo-lhes no encalço, penetraram na casa, brandindo as armas... Mas, entontecidos pelo cheiro suffocante, estacaram indecisos e apavorados deante de
um quadro medonho. Dentro, os urubus comiam
um cadáver humano que jazia por terra, o corpo do
solitário e abandonado immigrante. Os olhos ti16.

282

CHANAAN

nham sido devorados e as cavidades immensas e
rubras escancaravam-lhe a testa. Allucinados em
CK-y
seu goso satânico, osfflddMjd, sem dar fé dfáUaessaJ,
/^/^<^**^continuavam a picar, a comer, avidamente, embebidos. Os cães, esquecidos d'elles, faziam frente
aos invasores.
— Chô! Chô, canalha, atrôou um grito de Joca,
desesperado de nojo.
E n'um impeto de compaixão avançou para o
cadáver para livral-o dos urubus. Agarrando-o
pelas canellas e pelas roupas, os cães o detiveram... Os camaradas acudiram promptos em sua
defesa. Deante do alarido da lucta, os urubus esbordoados largaram a preza e, abrindo as azas,
espalhando com o vôo ainda mais o fedor, incapazes de se afastarem d'aquella nauseabunda
atmosphera, pousaram morosos, pesados, nas traves
lífdvi
^ a c a s a > n "hi ac p o s t a / á ^ fúnebres, medo//
nhos, como testemunhas do combate dos homens e
dos cães... Quando Joca conseguiu tocar o cadáver, recrudesceu o furor das feras. Não temiam
mais os ferros e os cacetes e atacavam os inimigos, que se apossavam do amo... Foi um desvario:
homens e animaes ty batíam""corpo a corpo, se
f e r i a r r v ^ - despedaçavam,-»como n'um combate
de doidos... Os homens estavam estraçalhados e
sobre as pernas nuas e brancas de muitos d'elles
corria um sahgúé^0tihif... Guinchando, os cães
IJf^mB
morriam,estorcendo-se como possessos e atirandose sobre o cadáver do velho. Depois de muito tempo

. Era só o que faltava. de membros esparsos. Pega enxada! E o cearense agarrou . obedeceram. extenuados já lhes queriam abandonar.. O terreiro fic#íf Uo^ alastrado de corpos decepados. É\ enxotando' as aves.. j^Teram assanhados para o terreiro.. alguns ftomcnf puderam apossar-se do corpo e o foram carregando para fora. avançando JoÚliC/ impávidos rfffd o cadáver. Um d'elles cravou as prezas na coxa de ui homem com tal fúria que este.. deitaram no chão o velho. mutilados.m n'uma d'ellas e. O resto dos cães ainda arremettiam contra elles. " — Não! gritou zangado Felicissimo. picando-o com o ferro e tentando arrancal-o com as mãos. mas eram logo mortos. doloridos.. Correu outro homem em seu soccorro e com um certeiro e violento golpe de foice cortou o pescoço do animal. — Mais funda! f< •*ty v+vfa>y£"*y . Os que ainda restavam. começou a cavar a co mnlmrurando..CHANAAN^'' 283 de lucta. O cão cada vez mais se enterrava pelas suas carnes a dentro. a cabeça ficou segura na carne da victima e das artérias „ rotas jorrava o sangue^/ J^a^i/uu>^ Não havia mais cães a matar. emquanto os companheiros os defendiam n'um esforçado arrojo. Os homens maltratados. os urubus .. Em revoada. não esmoreceram / mais allucinados investiam. Não! Havemos de enterrar o pobre velho. seus miseráveis !. que os trabalhadores Jy/^^rt. não/conseguiu.

284 l//uJ« CHANAAN Assim. melancólicos. todos se recolhem medrosos. Felicissimo ajoelhou-se e rezou:— Padre nosso. que só agora se lhes revelava. tristes. Formava-se assim um novo mytho no Rio Doce. A' medida que o cadáver ia sendo coberto.. a paizagem perdera o seu contorno exacto e regular. quando os trabalhadores da turma de Felicissimo se reuniram aporta do barracão... E Joca explicou: — Lá vão as almas dos cachorros. Depois. acabrunhados em face da morte. mudos.. Em breve a cova ficou prompta e «-abafa enterraram o immigrante caçador. quando o catitú matraca no matto. Nas noites de tempestade ainda hoje. As linhas definitivas dos objectosae-infundíamos monta- . Era uma vara de queixadas que passava. Dominados por uma compaixão súbita e extranha os homens rudes ajoelha/am-se e de chapéo na mão.. ouviram na matta um clamor.. Faz dó vêr uma pobre creatura de Deus desamparada. quebrando o silencio bemfazejo. sem ninguém n'este mundo. remontavam os idtídyf um aum ás alturas secretas... N'aquella noite. uma roncaria aterradora. Ao amanhecer de um^dia'de nevoeiro. encheram a cova de terra. rezaram. os urubus o desenterrariam.. feitas catilús para desenterrar e resuscitar o velho demônio. pensando nos cães encantados. que estaes no Céo. comido por estes sujos....

o miravam ^•«f^**-*. levada pela brisa.—f e se dilatou "em maravilhosa limpidez. Um raio . ligeiramente azulada. para a cabana. abaixava-se. tristes e longos. com interesse. aa. erguia-se e ^ / / l e n t a //'/. sensual e grato. os novos colonos magyares. py^f (li& *" èMÁid a sua attenção de cavallo experimentado í^*****'* iffily fifMMjyâ. triturando-a com fastio e desanimo. A neblina leve. sem limite. Estremecia n u m goso manso. como uma grande pasta cinzenta. Por toda a parte manchas esplendidas se ostentavam. movia-se. O desenho «S^pagára^a bruma mascarava os perfis das coisas e o colorido surgia com a sombra n u m a sublime desforra. ligava ^ ' ao céo baixo e denso. uma d'essas manchas. vaporosa. A mancha gp-sk? movei sobre a planicie{sej^efiniu)no perfil de um pobre cavallo que passeiava na verdura os seus olhos de velhice e fadiga. Não mais encontrava a nevoa. que fugira para os montes. e extendendo o focinho. / / / O .-I u. E sobre a campina esverdeada. a cabelleira das arvores fumegava. tureza se^sacudift/a nevoa fugiUjOcéoTeespannou «./ mente/dissipanarf/O sol não tardou a vir. como si fosse o imperceptível véo que envolvesse alguma deusa errante e retardada. e acariciava n'um frio electrico o fád pello ralo e //r^ falhado. e a na-™*'//''/etAsito. De passada. o rio sem horizonte. com os tumidos e negros beiços.CHANAAN 285 nhas enterravam as cabeças nas nuvens. arregaçando os beiços. affagava a herva. veloz. arqueava-se. beijava o ar. a cuja porta os seus tt^^° donos. vinha distrahil-o d'aquella postura de curiosidade humilde.

' . seguiramZènt 2eíá4 ffl) <t™ com eítê para o roçado. circumdando a queimada. era um sulco de alguns metros de largura. que.280 CHANAAN de sol. ruBiaeí/ — Mas para que trazem elles quasi arrastado aquelle cavallo ? perguntou Lentz. passeiando aquella hoi i. onde o amarrou.filhos armaram-se das ferramentas de lavourá^Tcigano. n iijripimbwu os outros..n . Um dos jovens magyares. desamarrando o cavallo. elles vão trabalhar. As xapaxigaS/â/fâfiffij/lffli (J tf-ij em casa cheias de instinctivo pavor. ennegrecidos. E os dois st. e o velho deu ordem de partir $ para a queimada. disse Milkau. descera a brincar-lhe nos olhos e incendiava-lhe a pupilla. afastaram^um pouco e ficaram a . O animal entregou-lhe a cabeça n'uma mistura de abandono e tédio. Chegaram ao aceiro $ $ / / aberto como uma 11'/ ) larga ferida sobre. fazia-me dó vêr esta gente apathica. O rapaz passou-lhe o cabresto e ^r levou"'ao poste fronteiro á casa. xÈUtâdffâfr rte do iiQoadw. C-JUrfc ei* i+t**&> — Ainda bem. Os colonos tinham resolvido principiar n'aquelle dia a plantação do i W prazo.y viram chegaxléfti o grupo dos vizinhos. Os . levando uma corda. sahindo de sua modorra e apenas armado de um chicote.o dorso da terra. Meiguices da natureza. Milkau < e Lentz. irresoluta. HtítL. Da matta carbonisada ainda resistiam de pé alguns troncos despojados. porém. yfdfi o grupo » «w^ afastar-se vagarosamente. caminhou para o cavallo.

O pae puxou o cavallo para a frente. Quando os antepassados tartaros desceram do planalto asiático. Os filhos puzeram-se de lado. como arrancando-se de si mes. Os saas-—• J\" membros se^extorciam. N'aquelle sacrifício cumpria-se uma missão sagrada: ligavase á nova terra o nervo da tradição da terra antiga. Continuava o grupo a caminhar.sacrificaram aos deuses o velho companheiro de peregrinação nos brancos steppes. cahiu em cheio sobre o animal. alongou-se. e a primeira vergastada. pinoteou assustado. e no solo europeu renunciaram á vida errante dos pastores. assim. O velho. De chicote em punho. como um sacerdote. a immolação ficou sempre no espirito dos descendentes como um dever. E desapiedadamente. E. n'um recolhimento religioso. para lavrar o campo e buscar na cultura a satisfacção da vida. Estirou o cavallo o pescoço para a frente. acompanhando os movimentos do grupo.//»~ mo.n u m sibillo. puxavam-no para deante. Novas lambadas W0$y 1/'' arremessadas por mão vigorosa. Este. confrangidos sob a dôr /1**immensa. O velho colono segurou o animal pelo cabresto e / collocou-^io meio da valia. conduzia a victima. cortando o ar. abaixou-se.CHANAAN 287 distancia. como para se libertar do flagello que lhe vinha do alto. seguida do cigano. cujas raizes se entendem até ao fundo da alma das raças. encostando quasi o ventre á terra. em cujo rosto se recompunha a antiga expres- . o cigano seguia atraz. levando-o ao furor do açoite.

Gottas vermelhas respingavam sobre a descoberta cabeça do velho m a •=*-• ^ §y a r ' d e u m a brancura de açucena. Veiu-lhe uma hysterica insensibilidade. o sangue escorria / frouxo. que. como torneiras de sangue. produzido pelo singular efteito da paixão sanguinária. e a vista e o cheiro do sangue excitavam ainda mais a energia do flagellador. transfigurava-se. aguda. emquanto o martyr ia lento. pernas tropegas. regando a terra. o cavallo proseguia arrastado. Os sulcos na 4n\~l carne se. O cigano mais terrível. uma rudimentaranesthesia. seXdilatavam em languido goso. As ss»s narinas y ^ u . as suas pontas dè ferro cortavam o lombo do animal.vabriagí mais fundos. O ar leve e frio. de pescoço estirado. E no seu olhar jMÊtàffl ' jade moribundo se traduziam os humildes protestos e os tímidos appellos de misericórdia. fO chicote cruel e rápido marcava o compasso d'esse rythmo extranho. immobilisados. mas o açoite não parou. causava uma dôr fina. o canto de guerra dos velhos tartaros. Os outros assistiam mudos á cerimonia. uma assassina obsessão. Mofino de dôr. acerba.288 CHANAAN são infernal e terrível dos antepassados. E o relho soava. h 4L* " \ O ^ ^ * . n'um retrocesso harmônico e rápido. assistiam/ao sacrifício. mais feroz. Estonteou-o uma vertigem. Cavos gemidos resoavam no peito da besta. e dajÀk garganta afinada irrompeu jdtídtâfdsonoxo. O chicote vibrava incessante. O contagio do furor & anoderou">alos outros. penetrando nos fios dé carne viva. esvaindo-se pelas veias abertas.

impressa em sangue. ficou estampada a imagem do seu corpo. legando n'um espaçado estertor. e no solo.. e afinal'se prostroi/f sobre a terra. lisa. Poças e fios vermelhos manchavam o sulco.. o canto que feria asperamente o ar. tornava o seio da terra impenetrável ao sangue. presidindo á dolorosa decomposição da sua carne de martyr. — .c*. como n'uma verônica. como um peso inerte. o repudio da ' immolação. que sorvido pelo sol se evaporava e dissol. embriagados pouco a pouco pelas phrases da musica./ em torno do cadáver. O cavallo deu mais alguns passos. Cessaram as vozes. Os homens seVagruparam **< . Arquejante. resfo. / via no ar. acompanhavam o canto. pelo odor de carne sangrenta. era a infinita tortura que o acompanharia além da própria morte.*} /. cahira de lado. lugubre. exhausto. fogoso. Era a rejeição do sacrifício. e era o echo da melodia satânica da morte. n'um coro infernal.loucos. cambaleando como umallucinado. Nas suas pupillas de moribundo s^Tphotographararrfrf um derradeiro clarão as physionomias dos algozes. rompendo a cruenta tradição do passado. morria vagarosamente. A nova Terra juntava a sua contribuição aos límpidos ideaes dos novos homens. A camada de argilla.Proseguia sem interrupção. rezando como phantasmas . 17 . O animal.CHANAAN 289 E. pela suggestão do rito. O açoite inexorável ainda o levantou uma vez. escorregadia como uma couraça. que se lhe guardara no interior dos olhos. E esta imagem medonha..

. como uma rapariga bella e fresca. e para que a tortura.290 CHANAAN — E para que? dizia Milkau comrriovido até ás lagrimas. risonhae alegre. lhes daria os seus fructos. cedendo tão somente ás brandas violências do amor?. a fecundação pelo sangue.. si Ella.

no silencio do dia. e as pernas trope. Maria.. Cahiu pesada no chão. sósinha.. No meio do cafesal que estava a limpar. porém. assaltada por um grande terror. Resistiu e continuou a labutar debaixo dos pés de café. no abrigo doméstico. sentiu repentinamente uma dôr aguda nas entranhas. acontecia. o corpo se lhe retorceu todo e o rosto desmaiado se desfiguro^ n'uma contorsão medonha. para se furtarem ao incommodo do tratamento.y l meiro movimento foi dV /se\recolhei^ á li o seu pni n n nhritrn H n m p c t i r n pencrar n rlpçpnlncasa e ahi. <*-—/ A dôr fora viva e passageira: e logo que a rapariga voltou u a si. que dia e noite ameaçavam despedil-a. como de uma violenta punhalada..IX E o que tinha de acontecer./" ATt*^ ' .' ce da crise. que já desde a véspera vinha soffrendo. O traba. lho não flillldífl ffMt das mãos entorpecidas ylffffULcCras deixava cahir frouxa a enxada. Teve. /. es'perar ô~dèsenla. medo de affrontar a ira dos patrões.

de aviltamento e seguramente em uma expulsão immediata d'aquelle lar desagasalhado. as únicas arvores que havia eram esparsos cajueiros muito derreiados. espantava-se dos seus inconscientes desabafos e tremia de pavor. mas logo era derrubada exhausta.desbastando o matto tecido ao cafesal. volumosas. onde era mais deserto. abandonou o serviço e. No vão das dores. viu chegada a hora da maternidade. Quando serenava. De espaço a espaço a mesma dôr voltava. Tomada de medo. deixou o cafesal e gfe aventurou-para o lado do rio. O aroma forte invadiu-lhe a cabeça. os olhos indifferentes se entendiam sobre o campo e recolhiam a pom- . esforçando/fe por trabalhar. sem mais esperança. no terreno inculto e bravio. não se sustinham firmes. como si lhe dilacerasse o ventre. mas ainda assim um lar. e contra toda a vontade gemia alto. afastando-se o mais possível da casa. Ahi. clamando soccorro. E ella combalida deixou-se pender sobre a terra. Maria -$• amparava^ apertando-se com as mãos para suffocar o soffrimento extranho e vergonhoso que sentia.292 CHANAAN gas. tinha ímpetos de gritar. As dores inexoráveis proseguiam amiudadas. alagada em suor frio. Sabia bem que qualquer auxilio dos amos importaria em um augmento de tortura. e a desgraçada. pensando que a viriam acudir. As vezes. Maria sentouse debaixo d'uma d'essas arvores que n'aquella epocha estavam em flor. Nos intervallos erguia-se. esgalhando-se pelo chão.

<)lovas dores vieram. desprendendo-se. os cabellos. dando-lhe andas de apertar alguma coisa contra si. Tudo n'ella era desordem. A morte devia ser assim. sacudindo-a violentamente.. que jazia desfallecido e inerte. &/ /eus gritos eram finos e estridentes e ás vezes resoavam asperamente. o vestido arrebentando deixava vêr o colo nú e arquejante.. E de repente sentiu-se mais desfallecida. as mãos roseas cerravam-se como molas de ferro. os dentes batiam de frio nervoso. mais cortantes. Maria gemia livremente. cahiam ennovellados sobre o rosto. dilatando-se á força. repugnante. Rasgavam-se-lhe as entranhas. a não ser uma manada de porcos. O h ! peior que a morte. quasi surdas.. alheia a si mesma. Maria . e a miserável.. como estrangulada gargalhada hysterica. e^torcendo-se na agonia. que vinha ao longe focinhando e escavando aterra. Os porcos pouco a* pouco se iam approximando. Depois. ii entretinha^em acompanhar-lhes a morosa viagem. agora mais miúdas. até que arrancos lancinantes o agitaram outra vez.. a dôr Q fi» interrompeu de novo e o suor frio banhou-lhe o corpo.. acabando n'um grito soluçidiái IJoàOf que se perdia n u m longo espasmo.CHANAAN 293 posa phosphorescencia do rio faiscante. abafadas. o /' corpo lhe tremia convulso. Nada se movia alli na solidão.. parecendo que se ia desmanchando n'uma humidade viscosa.. Soffria muito.. Sempre as mesmas dores. as faces tumidas estalavam de sangue....

yyyj que a cercavam. Subitamente. Os porcos/se\afastarar^i.. ameaçadores. a lamber afoitamente o chão. imperiosas./ J/f # . mas as dores a retomavam.. E os animaes sedentos se enchafurdavam.^ez u m cançado gesto para apanhar o filho. o braço morreu-lhe sobre o corpo. queria afugental-os.294 CHANAAN abraçou-se ao tronco deitado do cajueiro. i exangue. enfraqueceu-lhe OS o u v !-eyJT rá° s > e n 'uma / ^ r j ^ f de bem estar parecia deliciosamente suspensa nos ares. E ella (sè\agarrav/já arvore.. horrorisada. mistura de/soffrimento e de^oso. débil. ouvindo no arfar dos porcos o resfolegar longínquo e adormecedor do mar.. chegando mesmo alguns *mais atrevidos. Maria. nem mesmo tinha forças para um / . Um vagido de creança Çjy^t^yjf yditifyflyyfd ffo roncos dos animaes.. mais vorazes. cravando-lhe os dentes^desespexadayaá^w/ £/ Zs convulsivamenje. atropelando-se no sangue que corria.. guinchando. .. yjpyyd olhos desvairados não viam mais nada.. remexendo as folhas seccas do cajueiro... Nos ouvividos entrava-lhe o resfolegar roufenho dos porcos. 4-*\. Uma vertigem turbou-lhe a visão. attrahidos pelo cheiro que d'ahi ffv #/^yltídiíava. Um novo gemido sahiu do peito de Maria.. A mulher e^m. E os porcos persistiam sinistros. e só podia gemer estrebuchando n'uma Icvvrh. estrei/ ^i/i / tando-a com os níveos báços nús e mordia o ' tronco. longe da Terra.. que a estimulava 'fíáv^o extranhamente.. mas.espantados. largando a arvore.... ella cahiu extenuada. despertando-a em sobresalto. Em torno fungavam os porcos. longe do soffrimento. grito agudo. /ngvl.

antes da audiência. filha dos patrões. y/^^j^f* !„*****. f -£~ Á. sentindo-a socegada. a dôr cessou. A população germânica m^d/pj^/^^f m a noticia do crime. uns jornaes políticos da capital. viu o filho aos trambolhões. em busca de Maria. hirta. <átí//$$(. ojkz. fknjAlfado pelos ///éíòàfi*"porcos. despertando a mãe.. mirou attonita f*. 'Í0- Dois dias depois.. Uma manhã. sôfregos. Devoravam tudo. Maria estava na cadeia do Cachoeira.. alluci.jfc/~~ pio. sm*^^*" os ricos negociantes. Itapecurú/$0^despachava7âutos com o /& /0<T'. se precipitarairrsobre os resíduos sangrentos.. e yyndo a espantosa scena. que vagia estrangulada'. Os porcos. se contorceu.** / t r *^ rios unidos tá agitaram^para a vingança e o exem. escrivão Pantoja . livida.jf nada. quando Roberto e^*»«* /< . / o dr.. os proprieta...0/-** do dr. deu um lü fa* salto ^fditfè e pondo-se de pé. quando um grande vácuo se lhe fez de todo nas entranhas.. ^yfyfflÊàfy tándo n'uma espontânea e communicátiva mal que a creada tinha matado o filho. Brederodes percorria ' j~Lj. que fugiam pelo campo afora./ | a creança. que ás primeiras dentadas soltou um grito forte. sorveram o sangue e na excitação da voracidade arremessaram-se á creança. Depois.CHANAAN 295 Jjf i e ella. chegava nesse instante. * com . mei/consciente. tremendos . e Maria mergulhou afundada em outra vertigem. Quando esta abriu os olhos.jfsèm dddyy indagar retrocedeu á casa. espalhados no chão. os pastores. e os sustentaculos da colônia.

Que será? pensava o juiz de 4Z. pensava o juiz. m .%^-ft-' direito. entrou solemne. — Seja bemvindo a esta casa.. longe ^m/T^y do assumpto. Não se atrevia a chamar o allemão em particular e demorava com geito o escrivão. Não é. não era cobrança. Não. o senhor manda. ficou nervoso. — Não... vestido como nos domingos. Não. sorrindo estúpido e sem L*ty%5 propósito aos outros.. senão apressava..costume? Ou. não é para uma questão de autos.. que vem pedir. sinão não estaria tão grave. quem sabe. que também. n'uma conversa. cheio de curiosidade. doutor Brederodes ? O promotor resmungou. anniquilado. Com esse ar de importância. saudou-o com servilismo o juiz de direito. Assim. / Itapecurú respirou. sacudindo os hombros. Itapecurú. — Depende. Algum despacho. como de £» *****... Itapecurú presentia que Roberto tinha o que lhe communicar em reserva. que proseguia-^fa^rancos.j muito macio e delicado. O allemão cumprimentou a todos corn uma palavra amável para cada um. Si fôr de direito. disse por fim Roberto já maéI -í I fado. £</ .. vem exigir o paga^jll/jLt-^ mento da minha conta? — Aqui. Aqui estamos todos para servil-o. Ha de ser a conta.. E o magistrado ficou abatido.. — Senhor doutor.. o que me traz aqui... deante de gente. — Oh! meu bom amigo. não era a conta. não pede. Entretiveram-se algum tempo sem pretexto.290 CHANAAN Schultz.

que o desarmou do monoculo.y res jilwi uma fraqueza de coração pela sorte da L/ú ré. espraiando as bochechas n'um riso grotesco. — Está claro. — Nem a mim.. A Justiça tem os olhos vendados. acudiu Pantoja. — A colônia sabe./ sérias ? perguntou o* allemão. sorrindo. accrescentou Itapecurú. Já expedi os mandados para a formação da culpa. — Ah! Então.. Brederodes deu hontem a denuncia.. não ha du/ . senhor doutor? Julga V S. — Meus senhores. capitão? — O dr... interrogou abelhudo o « maracajá ». E em que termos está o processo. doutor e caro collega./ 17. considerou o Juiz de direito. e. que eu seria capaz de faljar á Justiça sinão de coisas (.. Nós somos amigos velhos e nunca o senhor me pediu nada desarrazoado. capitão. e a dignidade dos allemães exige uma licção severa. ' — Oh! impossível. em nome da colônia. Havemos de examinar tudo com o cuidado que sempre empregamos em nossa missão. acariciando / o hombro do promotor. disse gravemente Itapecurú. pedir a punição d'essa miserável que matou o filho.CHANAAN 297 — Como. que aqui não falta Justiça. ' ' . eu venho aqui. — Mas de que se trata?. que enrubesceu com a ' impertinente familiaridade. — O que nós receiamos é que algum dos senho... O crime é horrível. fitando o escrivão.

. Eu não digo. si ficasse impune o delicto... — Doutor Brederodes... O filho lhe seria um trambolho. empenhando-nos para não haver andamento no processo.. — Ah! — Sim. — Senhor doutor.298 ta '/ CHANAAN vida sobre a criminalidade da accusada ? pergunton' Itapecurú ao promotor. — E' muita petulância. V S.... S... que o senhor Roberto e os seus patrícios nos têm aqui como seus creados? E Brederodes deu um violento murro na mesa. que viu os autos? Brederodes não respondeu e continuou de lado a folhear os jornaes. depois.. Os outros queriam evitar o desabafo do joven promotor. Uma perdida.. comprehende. — Não pôde haver duvida.. Ha testemunhas de vista.. os precedentes... que seria da moralidade das famílias dos colonos para o futuro?.. arriscou o allemão. O senhor. si nós passássemos a mão por cima. observou Roberto. que affirmam ter ella lançado a creança aos porcos.. não prendendo. E... Imagine V.. Este continuava a vociferar.. capitão. — Não denunciando. Mas não ha de ser aqui que pegarão esses máos exemplos. quasi esbor- .. — Mas como podiam os senhores abafar o crime? perguntou Brederodes seccamente.

.. Exigir que se cumpra a lei. hypocrisia. á& alvoroçam^todos para reclamar justiça. e como não ha remédio algum.. e ahi está o que ella era. Muito boa! — A nossa moralidade. Aproveitarei a occasião para .. Como viram uma das filhas apanhada com a bocca na botija. collega... que se apossam de nossas terras e enriquecem! — Então V.. Ladrões. replicou Brederodes. mas agora liquidaremos contas. porque enriqueceu furtando o nosso dinheiro. — Moralidade? Fingimento.CHANAAN 299 doando o negociante. Vem aqui á casa do juiz de direito um bolas qualquer. fez-se de fina. Extrangeiros. creados. Qual povo!.. exigir em nome da colônia.. — Sim. de pudica commigo. E' boa! — Mas não ha inconveniente... conheço-a bem. m o t e j a m ! ^ ^ * ^ ^ — E' aquella ? perguntou)6maracajá}i Sá// ' d— Sim. para desviar a questão. — Qual povo.. S..... A moralidade de salteadores. mandões de aldeia... miseráveis.... pensa que não ha crime no caso ? interrogou Pantoja. que o povo. — Si ha? Oh! esta miserável. a mesma. creio.. Que colônia?. que procurava com um riso cobarde amparar a fúria do brasileiro. qual nada.. — O que elles querem é exactamente justiça! — Tartufos.... teve forcas de dizer o > allemão.

rapaziadas. São simples revolucionários... Não sou o promotor? Exigências commigo? Não. que ia acompanhando da janella a marcha de Brederodes na rua. Suum cuique tribuere. mas como magistrado sei dar a cada um o que é s^u. que ainda o quiz demorar. Nós gostamos muito de bolir com elle para vêl-o se.300 levar esse processo até ao* fim. fdfffderou o dr. balançando o monoculo. Pensam que o progresso é a revolução. $H*#" o- CHANAAN . querendo illudir a impressão deixada pelos desmandos da ira do promotor. Este facto não é o único. quando ficararhN i sós..queimarr^ajuntou por disfarce Itapecurú. sahiu olhando com raiva a figura ffijfa edesmoralisada de Roberto. — O defeito principal dos moços de hoje.. — É verdade. Pegou no chapéo e. sou liberal. Eu também admiro os direitos do homem. Não poude mais vociferar. desmascarar toda esta corja d aqui. isso não. Para mim todas estas allemãs matam os filhos.. O allemão não dizia nada. é a falta de attenção com os elementos conservadores do paiz.. Não era alli que havia de confessar os seus rancores.. falando sósinho. Havemos de vêr. — Lá se vae batendo com as mãos. quando. commentava o escrivão. — Tem graça! disse Pantoja. Que damnado!. Itapecurú. j/afybflf/fâjado pela cólera. mal apertando a mão de Itapecurú.

Itapecurú sorriu da incapacidade do mudo auditório e continuou : — Onde está o elemento ? Nos senhores negociantes. E não é maltratando-as. O juiz de direito suspendeu o discurso. — Sim. Posso responder á colônia que não ha meio da criminosa escapar ? — A colônia sabe que pelas minhas theorias. a justiça para todos. aqui na . onde Mifijdfo este salutar elemento? //<fr é"*"" Ninguém respondeu. retrucou o escri- .CHANAAN 301 — E' o habito da justiça. seu doutor. Que pôde fazer uma sociedade sem ordem ? E a base. que têm o / /^. impaciente. — Oh! seu escrivão! E os nossos autos ? interrogou afflicto o juiz de direito. ia dizendo Itapecurú. E' preciso termos sempre em vista o elemento conservador do paiz.. Pois é pena. Para elles a política é só destruir e botar abaixo..y ^ colônia.. Por exemplo. sem ouvinte. nos colonos estabelecidos.. cortou o escrivão. levantou-se. nas classes respeitáveis. já principiando a enfadar-se.. Os senhores jacobinos não comprehendem este principio admirável. ainda mais que tudo aborrecido por ficar só. Pantoja acompanhou-o com passo sorrateiro. já venho. emfim. que se /em /V*r*'' uma perfeita organisação social. — Bem. Mas Roberto não esperou o resto. Roberto. velhos e jovens. — Espere um pouco. fez-lhe uma grande cortezia e foi sahindo..! que perder. nos proprietários.

Posso contar? — Oh! commigo o senhor sempre conta.. embaraçado. — Tem razão.. em segredo. ha muito pedido do . eu mesmo vou escrever ao governador... Que não faço pelo partido? Mas. mudando de assumpto. quinhentos votos só aqui nesta colônia. os jacobinos.. foi esgueirando ao lado do allemão.. Veja.. — Maluco. tem razão..102 CHANAAN vão sem se voltar. repetiu o outro machinal e pensativo... Olhe. Uma irmandade. E logo proseguiu na lingua do paiz : — E boa! Os senhores querem o nosso auxilio nas eleições. Todos se protegem.. que vive a g^insultar<Togemcom o corpo!. E não vá o governador não attender. pedindo. para o inferno.. — E o tal processo ? interrompeu Roberto.... segredo. gaguejou o escrivão. Não é ? — Que vá para o inferno! — Sim.. O diabo é que esses jacobinos são muito fortes. — Maluco ? Canalha! vou já escrever para o Cachoeira armando-lhe a cama. — Então escreva. E... — E que tal o promotorzinho! disse na rua Roberto ao «maracajá»... pelo menos.. sabe. Muito entre nós.. E «e.. — E. — Donnerwetter ! praguejou o allemão...... Basta a remoção...... a remoção do Brederodes. e quando se trata de^castigar um insolente. Porque..

perseguirá a tal sujeita até ás ultimas. E' meu.. é um caso monstruoso.CHANAAN 303 centro... e tudo vae direito.. esse seu .. Que se diria? Que as allemãs do Cachoeira são umas perdidas e atiram os filhos aos porcos.. que respondo pelo resultado d'esse negocio.. para que se calem — Pôde ficar tranquillo. Brederodes. — Sim. batendo com alarde no bolso da calça. é um senhor cheio de maisadas. por toda a partejQs nossos patrícios haviam de dfj desmoralisar/Nada. esse.. e mesmo por tolices pessoaes.. E eu. — Não faça caso. A colônia não pôde abafar. como fez o sr. é preciso um exemplo. E' cabeçudo. proclamou o negociante. posso dizer. Um imbecil.. O juiz de direito.. acompanhando o gesto. — E o promotor? — Não viu ? Com a idéa de se vingar dos colonos. em Itapemirim. Benevides. Realmente. temos o Itapecurú e as testemunhas. ' É muito sério. Dá-se um berro com elle. Além d'isso. gritarão.. comprehendo. c / / esse doutor Maciel. — Ah! a política! — . coitado! já se sabe. continuou o escrivão. Os )s jacobinos de quem o senhor fala tanto.. — Quanto ao juiz municipal.... — E' verdade. Pantoja sorriu. E depois... é nosso. nas outras colônias.

Bom. E' para a caixa do partido. era tal.. baixou a voz : — Tenho precisão urgente. Entre presos e solda/«/*^t~ dos havia a mais relaxada camaradagem. perfeito. hoje. depois de condemtyfc llk ^"Z/ . — Appareça. Depois.. adeus. que móe a mandioca. O carcereiro ahi raramente yF I apparecia* tinham-lhe dado. o emprego para remunerar serviços eleitoraes. resto do antigo povoado. Pantoja e o allemão se separaram... As c j ' l-— paredes eram negras e as grades enferrujadas da janella quasi soltas dentro dos buracos da cravação. Os accu**** sados passavam n'essa casa apenas como por uma estação durante o processo. — Sim. approximando-se. A cadeia do Porto do Cachoeira. ninguém discrepa.304 CHANAAN creado. — Muito obrigado. . ajuntou pressuroso. que eram / ^ guardas '<? * effectivos dos detidos. Um corredor dividia a casa ao meio : de LÍj um lado fal a prisão e do outro o alojamento hdos dois únicos soldados. concluiu com jactancia o cabra. J vez a mais velha e a peior habitação da cidade. já existente antes da colonisação. de cem mil reis. seguindo direcções diversas. como é o habito no C^j paiz... não esqueça a carta. em que ^ t ó # H # M ^ . Não é para mim. Mas logo o « maracajá » voltou sobre os passos e gritou para o outro: — Ia-me passando...

E teve pejo de ser homem. Trazia-lhe a / memória o quadro medonho.. mais calma. por instincto de bondade. que os seus olhos uma vez tiveram a suprema agonia de vêr. de! jtífy. Com.. em choros. ^/debatia em gemidos de horror. dormindo sobre estrados de madeira. de vingança.^/^TOL' . entrevisto tão bello no nevoeiro da vertigem. e de tudo o que .. E foi um rugido no seu coração... Mas o que soffriam esses miseráveis quasi sem alimento.. que atraz d'essa accusação havia um drama. se exaltava...*. até que de novo o torpor ' bemfazejo lhe arrebatava a consciência. ^ de Maria. ao frio. vergonha. um tecido de cobardia. sem roupas. Em « outros intervallos. que o divino sonho se desmancha ao sopro da mal. n'uma promiscuidade animal. /l/fz%t!L Tfítf JM0WI01 Milkau fy#0L da sorte . quasi a morrer. E ella . era vida. eram remettidos para as prisões da capital. e apenas de longe em longe lhe vinham/vislumbres da exa.ÁfcáL^ prehendeu logo. desprezo de si mesmo.. á humidade e n'uma incrível immundicie ! Maria não comprehendia bem porque a prendiam.-lhe o momento doloroso zm/flC/Oín*. e pela " '' crystallina claridade da sua alma desannuviada. de estupidez.*H./ / soffrenjjfesmagada pelo temeroso peso do mundo./ cta noção do que tinha acontecido.CHANAAN 305 nados. A inrelligencia n'ella adormecera. e AMÊ^ ainda assim fraca. tíld^fjf. tão fértil nos humanos. quando. em /"*^ supplicas. acobardada.. o lll'(/tiyu seu maior tormento era a desesperada anciã por seu filho.

quando ha um soffrimento no Universo. a cidadesinha não tinha mais para elle o encanto d'aquella primeira manhã. — Quem sabe da verdade ? — E quando não fosse innocente. esse soccorro. Abandonas os nossos interesses. parece-me. E partiu j^r. o seu crime não seria antes a culpa dos que a repelliram e a levaram ao desespero ? — Mas tu não estás em causa.. a nossa colônia? — E meu dever. — Todo o homem está em causa. Então não vês que essa desgraçada é uma victima? E desde que eu a tenho por tal... esperando uma resposta. — E por isso me deixas ?. chegando ao Cachoeiro.... A tristeza que . Milkau disse a Lentz: — Vou ao Cachoeiro por algum tempo. escarneceu Lentz. devo correr para o seu lado. Na tarde desse mesmo dia..... — E que te leva lá? perguntou o amigo. em que a saudara como filha do sol e das águas. — Não comprehendes ? respondeu Milkau com calma. — A sympathia pelo destino d'essa infeliz rapariga.Tudo o que julgara como o doce convívio da bondade. replicou seccamente Lentz.. como é o teu.. do esquecimento e da paz não era sinão o baixo connubio de todas as vilezas sociaes...306 r CHANAAN dade.. — Não comprehendo. No dia seguinte.

descalçadas. A porta. dolorosamente nús. viam-se estampadas a esterilidade e a aridez. Eram pequenos sobrados. impellido por im. agitado. informes. O sol infernal castigava sem piedade as habitaçS^s e sobre as rochas abrasadas. o povoado parecia-lhe abafado e condemnado a uma irremediável angt^ja. trágico. Apertado entre duas linhas de morros. vestido de soldado. fervilhava o seu cachão ^ monótono.. casas deseguaes.CHANAAN 307 trazia. dirigia-se. Tudo o que era natureza tinha o aspecto sinistro. a gente grosseira e rude mostrava o ar embrutecido. Milkau pediu permissão'para falar á p r i . O rio. desolador. e de ouvir a lugubre confissão do crime.Todavia hesitava. E ahi. er• guiam-se. tremulo. torturado pela ávida cobiça. verdadeiros aleijões.. petos confusos e irresistíveis. desarmado/era o guarda da / j prisão. olhando para o rio. um mulato moço. Sobre as ruas barrentas. quasi sem água. quebrando-se nas pedras negras. q[ E. na embryonaria e abor' f" tada cidade. /**" seres monstruosos. colossaes. O único desejo de Milkau era estar immediatamente com Maria. de farda desabotoada. como para um povo apenas acampado sobre a terra. e o que era humano. m communicava / a paizagem e toda a antiga maravilha d'esta se desfazia mysteriosamente. feitas ás pressas. á cadeia. sem arte. com receio de se vêr n'um instante desilludido sobre a innocencia d'ella. mesquinho e ridículo. fffjfiff/fí w**" 0t' n a s n n n a s inconscientes figuras deformadas de .' .

que ella. Milkau entrou. .v 308 CHANAAN . ' e nenhum dos dois por algum tempo disse uma palavra. o corredor da casa e apontou-lhe o quarto onde ella estava. O que fora n'esta de gracioso. quéjJ&Bíp' jr\J/* prolongado indefinidamente. qu cama. d'onde espiavam scintillantes olhos em que dansava a loucura.^ ^ Ella curvava humilhada a cabeça. curvada _ como para lhe recolher toda a caricia. A compaixão foi crescendo em Milkau ao aspecto miserável da mulher. uma face livida. O homem. com a mão preguiçosa.(õ^tou implorando misericórdia. Foi um goso subtil. muito branca. sem mesmo a*levantar da soleira da porta. ^ sioneira. tremia . sorriso u/)^ infantil e humilde. mostrou-lhe d'alli. e só restava uma triste carcassa. Maria recebeu d'aquellas mãos e d'aquella voz um fluido de ternura extranha e de bondade nunca s^n^?da. tinha-se apagado. sem olhar o "\\ n -/ homem.8llo3 oo orguilrii o pnwir>ci . Milkau não espercKl^que ella falasse.• • não é? disse Milkau. E nos lábios da desIfrtJf^ graçada chegou a abotoar um sorriso. 011a. de docemente feminino. Enixe». apprehensivo. depois. tacte# ando-lhe levemente a cabeça. l/flW*"%— Soffres jfòj<f>. Ia por 4- " ^ <• ^ \ \. de seductor. muito assustada com a apparição.

que levantar alli o espectro do crime ? E éÕffi se rea. Mas isto vae acabar. Era a loucura em ti. — Soffres.CHANAAN 309 deante arrebatado pela sympathia. Para .. p sobre os joelhos d'elle descançou muda./JJn to. bem sei. Abandonada.. /Asubmissa. que o não deixava premeditar nas palavras e nos gestos. Porque. /^^ÊL Terás ainda tanta felicidade n'este mundo.< e direi aos outros que a culpa não é tua.../ > " * ' nimava. ao poder mysterioso da bondade.. Tu sahirás d'aqui.... Não te abandono. Não é? são os mais culpados... fe/r Maria estremeceu.. isto vae acabar. continuava Milkau........ Não eras tu.. E ainda a felicidade.. Milkau proseguia. Tanta! H/fJ^f E sentou-se na uVjya' cadeira que havia no quar. Sim. Não. forão elles os responsáveis.Jf<*. J/aÊ.. -arrastado pela deliciosa anciã de confortar : — Foi n'um momento de allucinação. As lagrimas seçcaramMhe instantaneamente. e pouco a pouco. Elles te perdoarão. mas. dddil l/(y^~ inerte... Instinctivamente hesitava em accusal-a.. . Haverá piedade da tua sorte... á medida que falava.. confessando a sua terrível falta. e doente. Eu sei.iJ%a«i para o chão. a fronte. yym não lhe via a face voltada Ht^. wk deixou affagar os cabellos tecidos. Estás tão fraquinha. puxando para si a cabeça de Maria. Erguer o espirito.. -fcai*.... sentia sobre o corpo a morna humidade das lagrimas/^ //l^ ym****-1 — E preciso cuidarès de ti. como um ninho dou* rado.edfA/ emmaranhados e seccos. ia surgindo a sua consciência ^^mf^^Âj^f'//Ê'gyyny*'~ j — Olha.

. vae. comprimiam como tenazes a cabeça. que. — Desgraçada! Que te resta. disse Milkau.310 '-/ ç . ... ' — Sim... como tu... A miserável ergueu a cabeça ef^qlhandá/firme.. não quizeste (desgraçada que foste!) vêr o teu filho soffrer... Não tenhas medo... aterrada... N'um impulso frenético de arrancara confissão de tudo saber. si me repelles. espantado.. Meu Deus! E as mãos..... não. — Meu filho..... ora. E com o gesto incerto o expellia da sua vista. Elles te pedirão conta de teu próprio filho.. querendo attrahil-a.... — Não. — Eu me compadeço de ti. // CHANAAN perdida... meu filho. — Que tu mataste. Assassina... pesadas.. Eu fico para «-salvar<affirmou Milkau obstinado. murmurou arquejante.. Milkau H^ÀMp se perdia desvai radamente.. emmudecéjdjl Agora era ella que falava.. Elles não te perdoam.. tu. é horrível! E os seus olhos pungentes e frios atravessavam os de Milkau. Arrancaram-no de mim para o devorar. Oh! meu Deus.. — Eu? — Tu... Não me lembro bem. sim. confuso.. vae.... — Vae. vae. ora crispadas se torciam juntas n u m aperto. Não. — Não.. — Não. Meu filho. recuou para o fundo do estrado. — Não..

. disse com uma voz imperceptível. — Porque não me chamaste em teu soccorro.. .. É para o teu bem. — Não.. — Maria. perseguida ? Porque ? Não confiavas em mim ? — Tinha medo..CHANAAN 311 — Assassina ! Meu filho ! Oh! Porque me vem perseguir na minha miséria? O h ! Deixe-me..... sentindo a enexgiiy ddd HJ ^ cisão com que foram ditas essas palavras... Fico. anniquilado... — Vergonha! E por isso.% Maria ficou acobardada. quando te viste desamparada. A rapariga esperava submissa.. Has de me dizer tudo. que não eras tu quando mataste teu filho.. eu te peço por tudo que amas : dize-me que' estavas louca. mas apenas pairou um momento livre e logo cahiu vencido.. Devo ficar. E . recomeçou elle com uma voz f]$/Ju Í0í.. 0 seu ^ C& espirito frágil debateu-se ainda para luctar. e humilhado m arrependia^do seu transporte inconsciente.. murmurava suffocada a pobre. — Quero saber. quero. insistia Milkau. Dize-me... deixe-me.. aós pés do dominador. Vergonha.. — Deixe-me... Deixe-me. — Natureza humana! Vergonha.. tomado de uma tristeza infinita. A cólera de Milkau abrandara em presença d'esse desespero.. Calou-se pensativo. disseste.

— Vem ! Escuta ! A essa voz... E então. dócil e abandonada. p bre os joelhos d'ellef i fsf^í na infecta e tenebrosa ^í?"'prisão.. -ti— E os porcos. gritou n'um feliz... cheia de meiguice... e foram. illuminado de todüj /oV^.. Anda. comendo.. miserável. Uma vertigem te derrubou.£ e mou. — E depois? — Ouvi ao meu lado a vozinha d'elle. Pensei estar morrendo. — E quem matou ?. — Quando foi.... e a espantosa scena se lhe representou exacta na imaginação 1 aguçada pela sympathia. comendo. — Mas..... um roncar de porcos em roda de nós.. j^. egues.. elles o carregaram.. (íurvóu-se outra vez so•. m fjfc*0fc 0... ella se approxi... responde. .. supplicou angustiado Milkau.... Chorava ! Meu Deus! Depois.... eeu não matei ninguém... Pensei estar tão longe. teu filhinho?. os dois desgraçados foram recompondo tudo lugubremente : — T u te sentiste desfallecer. chamou-a a si...312 CHANAAN por isso mataste teu filhinho. Ella obedeceu. fy/ ' — Nao nt Elles são máos.. carinhoso e terno.. Depois. Elles te accusam.. Estes fragmentos de phrases eram bastante para aclarar o espirito de Milkau.

.. elle..CHANAAN 313 — Vieram. a creança. * • * * . Todas as forças do seu cc ração votou-as á defesa e salvação de Maria. Que me resta ? — A innocencia.. — E os porcos. IS irdi qeixflvajn 18" _^_... aos pedaços. ficava17***»-^?#k deliciosamente esquecida do próprio infoFfunio| / ^ u T'r> Por sua vez... Não te escutaram... Fala. — Meu filho! — Tu despertaste e viste ao longe teu filho ensangüentado. nos dentes dos porcos. r ao desamt imju<flad is-v isit... .. lia a/m lei.. — Arrebataram-na.. prenderam-te. 7>*4Y-cSY?e* .. [desgraçada.... Accusaram-te. rica d | 4 * emoção e de bemaventurada ingenuidade... Nàfl^-^^jSb. amaldiçoada. vendo-a diariamente. — A creança... $yóÚL L/ fala. -j^encaim^Y -*£5~' tava-*em sondar essa alma primitiva.... Fazia-1.. "• — E agora.de ndvo.. pxfsioneixaf.. px sioiiei daãd de entr IU1Í [aria / chegou a se *1? sentir feliz na sua misérjr Longos momentos ha ")^f via em que.. — Chorava aos teus pés. O sangue corria. — Meu filho! — Perguntaram-te por elle. presa á voz. á doçura do amigo.. Desde aquelle momento á vida de Milkau Jfs\ transformoii...

fydt 6n_ m a s a c u j a mysteriosa musica ^ f e t ó ^ c h o r a n d o ~fom&c*y» perdidamente. I .. seu correspondente para os fornecimentos da colônia. *~—N Na cidade. 1 f bifa 4"*rgV .. e brancos navios avolumados na phos\ phorescencia da noite. lia-lhe ijy poemas. Ora. Forma/' ram-se alli.. e I um ódio collectivo não poupava d homem. nas grandes cidades tumultuosas sem piedade. as mais indignas conjecturas. Tudo ella ouvia com sofreguidão. sempre atraz..J çados pelos ventos.. depois com rancor. que se fíl dd' * J r a v a a m < ^ a ' talvez como cúmplice. sumir. de que ella não percebia bem o sentido. Ora.. sem saber porque. Ora.\ pela lua. no mar. como sombra.. sempre o seguindo..314 CHANAAN conversas. IJ^Kíiu ^acompanhavam d/M extranha conducta. Acreditou-se que era elle o amante de Maria. Todos o evitavam. onde ha fome. não contava. esclarecido vagamente . erravam nas pequenas cidades do Rheno e resuscitavam lendas. em casa de Roberto Schultz. a passarem sinistros para se \ mergulhar. era tratado com desdém. e a sua vida de peregrino no mundo. á mulher que! y/f ' lhe matara o filho. Ora... como se formariam em qualquer parte do mundo. narrava-lhe sempre as suas viagens. subiam aos Alpes gelados e guardavam nas pupüjas as cores maravilhosas do sol a morrer./a principio com curiosidade. Outras vezes.. vj. E ella... Milkau começou a ser notado.. acompanhando fielmente os casos por elle praticados ou conhecidos. engulidos pela treva insondavel. balan. ^ E ainda no mar glacial. arrastados pelas tempestades.

com a sua Índole franca e bondosa. e na boccauhe\morri/Jüm nenu. entraram uma manhã na cidade e viram um movimento desacostumado na rua principal. deixou passar aquella visão que lhe parecia o phantasma da Innocencia levada para o martyrio. Dias depois Felicissimo chegou ao Cachoeira e . repellido pelos jtuiyMy quando não ia á cadeia. humido. ladeada dos dois .** precipitouTno encalço. gelado. Era Maria. apagando-se. que ia responder ao processo. e á claridade do dia a sua lividez era cadaverica. na sua superioridade axno-df/f**^ rasa. mudo. não procurou detel-o.p>*h CHANAAN 315 fMíylMtí. As portas das lojas e nas calçadas a gente do logar e os tropeiros e colonos do centro seguiam pasmados um grupo.. ... era o companheiro de Milkau nos )asseios e com inquietação amiga observava-lhe os silêncios profundos. irticipava do preconceito da cidade.. na sua força.a ser o inimigo commum. passeiava solitário pelos arredores do po-' voado.<a-~ phar branco. para o Juizo.resignou.. • soldados. Milkau abandonou Felicissimo e . Milkau commovido.. Ao longe ella se foi perdendo. E assim. Depois da primeira audiência seguiram-se outras.. ^ W ^ ///Wb*re\ transfigurada. e. compadecido. De volta de uma d'essas caladas excursões. os olhos postos no chão tinham grinaldas roxas. O agrimensor. a isso. /y/fl/t/id**/ O cearense. que passava.» alojou-^ho mesmo hotel em que ffdwf Milkau. jfê.

esse homem lhe inspirava tal sentimento.. com uma inútil cordura. Milkau 9*. — Uma desgraça. uma tarde.. As testemunhas depunham contestes contra Maria. de fortuna. Pedro Maciel era o juiz da instrucção. '. pela superioridade moral. muitas vezes. quando.Cachoeira $7/fôí ffcdzfijtfftjfàt sem alteração para ú****''4' Milkau.316 CHANAAN a que Milkau não faltava. de raça. pelo soffrimento augusto. Os dias d'essa acabrunhadora vida no Porto do m . A trama estava bem tecida e fatalmente a accusada não poderia rompel-a. Quando estava deante de outro homem. — Que desgraça! que desgraça! foi lhe dizendo abrupto o cearense. <Myi$ftf voltando da cadeia. A persistência de Milkau tornava-o um familiar das audiências e. Apenas via um ser egual. dirigindo desprevenido e intelligente o processo. Não era seguramente a posição do magistrado que o attrahia. o seu espirito eliminava todas as separações que vêm da sociedade e instinctivamente não conhecia as vãs distincções de posição. — Que foi? perguntou Milkau interessado.. pela sadia intelligencia. de família. Milkau achava o juiz municipal uma esplendida natureza e o ia estimando. depois de acabado o trabalho. Maciel s* entretinha^muito á vontade com elle.imaginava"no deserto. Por seu lado. ffJe/J^J encontrou Felicissimo muito sobresaltado. que tratava sempre com sympathia e ás vezes com respeito. o filhi- . O pequenino Fritz.

apontou Felicissimo.vinha á cidade. E atraz d'elle uma voz lhe pediu : — Veja se dá um remédio para a salvação. — Vamos. e volto para lá. confusa.CHANAAN 317 nho de Otto Bauer acaba de ser esmagado por um barril de vinho no armazém do pae. o esmagamento tinha sido no thorax. estrebuxando. Este tinha o ar trágico de um satyro em dôr. Milkau voltou-se e fitou Joca. A noticia se tinha espalhado e muita gente apiedada viera agglomerar-se ahi. invadindo com a familiaridade da compaixão o aposento onde. de animal. entregavam-na aos seus desvelos quasi maternaes. de tão dilatadas. Pelos cantos da boquinha escarlate sahiam espumas de sangue. Em casa d'elles. — Que horror! Pobresinho! E onde está? — Alli. Ouviam-se lamentos e choros em roda. Quando chegaram. O pae vagava a tremer pela sala. Fui chamar o medico. deitada em uma mesa. parecia não lhes caberem mais. A creança era o carinho do tropeiro quando eààe. Os pães lh'a confiavam a passeio. . e o cabra sentia-se 18. Os olhos azues « r arregalavam" desmedidos e as pupillas immensas. O pequeno Fritz agitava de vez em quando os bracinhos. A cabeça estava intacta. não duvidando da morte. atordoado com o desastre. — Pobre creança! gemeu Milkau. a creança morria. n'uma dôr sombria. mais abaixo.. A mãe ainda joven debruçava-se sobre ella.. devorando-a com os olhos. a casa estava em alvoroço.

. jtAíy frouxa claridade das velas mortuarias éa. IJ^yr 7. desenhava'fugitivamente o vulto de uma velhinha. incorporea. Milkau ficou sensibilisado. morreu o pequeno Fritz. de uma cabelleira farta . com o cuidado de uma ama. Pouco a pouco o silencio em que estavam e a fadiga do coração foi ddvfwdifHfid e adormecendo a quasi todos. tomando uma expressão socegada e feliz.. feliz. quasi extincta. De fora $$fjd pelas janel-tu. Era uma bella mulher. a mão na rua para ir ensaiando os passinhos vacillantes.. a bisavó do pequenino. nas tenebrosas torturas da meningite. sacudindo a cabeça. A mãe de Fritz também fechou os yy oLl/ja. Depois. E. O medico não tardou..divagando em scismas. murmurou : — Era o que se podia fazer. baro molhada de lagrimas. olhos e o somno lhe foi vitelo ao tempo que a respiração offegante moderava e as cores ruIIjiji b r a s das faces inchadas se iam dddddndo até uma </&s"r*JU' pallidez absoluta. a vida só nos olhinhos limpos e de uma scintillação . Não ha mais nada.. muito silenciosos. fez com auxilio do tropeiro alguns curaf^ tivos. quando o trazia nos braços de loja em loja ou quando lhe dava. de uma transparência vitrea. » vendo aquella face de homem primitivo e barf I /. a physionomia serenou.318 CHANAAN desvanecido.. sinistra.. Na vigília da noite eram todos os que guardavam o cadaverzinho.-u> Ias abertas o doloroso mugido da cachoeira. e/sem a menor espef ^ I rança. Viu o que estava praticado e.

mesmo os'do Christo. família catholica «agdapanlava. No canto da sala uma imagem de Nossa Senhora. voltada para o filho morto.y. E porque ? Talvez pela maior con. ficavam ffll **/Tj quasi desertos. Não viver.. do que nos ia completar. scismava : — E' dolorosa ainda mais do que as outras a morte de uma creança. Tudo n'ella //*&«*-„ exprimia saúde e força. presidia a morte. E' a dôr deante do inacabado.. não estava agora em plena culminância no culto de Maria..A... e a dôr IM \jdfcfflmyy $$fd como como y y y. fUvédmr^ii. Os que ainda l*df* /&w alerta a contemplavam. E os que morrem sem ter vivido..CHANAAN 319 e negra... que ia insensivelmentetí/J f//^ íÁdddyabsorvendo todos os outros?.. ¥~- /tW^" . exaltar as deusas. yztTl formidade entre o gênero humano e a mulher.. E CL^T essa tendência universal para divinisar. quando olhava o mortosinho.// dj/jjídhfdMfo os outros. com um perfil delicado e fino. as santas. uma hospeda extranha e importuna. E. do apenas ensaiado. dos templos onde passara e onde sempre os altares d'Ella attrahiam mais os corações das gentes. ™ u oda a noite passou Milkau a confortar a família. não vinha acaso de longe.íembrava-se das cathedraes. . de muito longe. Elle estava também esmagado e abatido. os que foram apenas esboços da existência. illuminada por uma lâmpada. fffjfyijp uma pungente dd^J/Ke^ tortura vendo essa mãe bonita e moça dormindo a sorrir... E Milkau reflectia deante do admirável symbolojXiínhaa impressão de que todo o culto se ia restringindo em torno da Virgem Maria..

nós também morremos um pouco n'ella. 1 u e t r a z i a m flôres^jtó^ídy^íd^ coj / Jf. em que o povo vinha sorumbatico e lugubre. ~^ A manhã era límpida. mesmo os inimigos e competidores do l//' ~fé/T.. participava de um mesmo pezar. excepto Bre. lavada e azul.s auctondades brasileiras ssaasaj». o enterro . que carregavam o esquife. desenroi lando-se pela rua principal do povoado.. que não perdoava^ao extrangeiro nem// ira/t* /mesmo nad^s^raça/Eji maTcha iã^n^ssaTnistura de amargura.P a e ^ e Fritz. Entre os \ /«. ruidosa. tornando a tristeza collectiva. No outro dia foi o enterro. Toda a gente da cidade. alongando o cortejo. a m i r a r a / Z i£ j —/ Wyddjdo o seu amado menino vestido de m a r i / ZT^ nheiro e embarcado como n u m brinco infantil n'aquella gondolasinha dourada e vermelha. porque ahi morre uma illusão nossa.I /(z^r^fj derodes.320 CHANAAN deixam-nos uma piedade torturante. os armazéns também-cessaram o trabalho e de todas as casas e lojas vinha gente encorporar-se ao enterro. Quando morre uma creança. n'uma espontânea unidade de sentimentos. puxava o prestito. como nos enterros de anjos. Foi um luto geral na povoação espantada com a catastrophe : às escolas «ç fecharam-^e grupos de meninos vestidos de branco se enfileiraram. ruido e musica alegre. em viagem para o céo. Uma banda ' de musica alegre. Quando deixou a rua á margem do rio. estava Joca.

CHANAAN 321 tomou a direcção da cadeia. ia ouvindo. . que tudo ignorava... ia vendo o enterro do próprio filho. Ainda alli na morte passava o triumpho.. unida *&*" na piedade como no ódio. Maria If-jy^" t espreitava. tão terríveis que dominavam os cantos dos instrumentos... tomado de uma compaixão infinita. na sua sensibilidade desvairada.. A colônia passava. y/J / noe/ sentiu uma íifyf-í claridade n'alma com aquellas 11/ **** caricias do som ímmortal. levado pela musica macabra do resfolegar dos porcos. Da multidão. ficara hirta.. Com • o rosto descomposto.. e Maria. E Maria.. apavorados e rancorosos. attraJ/IH^if^ hida !>(/>/JJjifóf. desviavam-se da figura n infernal da desgraçada. E despercebida. què ficava perto do cemitério.... Os mais.. só Milkau olhava para ella. Ella ouvia agora. agarrada ás grades. títiM marcial e solemne. cavernosas. veiu á grade e il poz-^a mirar. Lá.. confundidas na harmonia dos sons. outras vozes abafadas.. do desconhecido. os cabellos pendentes. o seu olhar de allucinada sahia violento "%•' pelas grades da prisão e repousava ardente no morto. O yjfjn enterro dmlU.. á prisão chegou primeiro matinal e alviçareira a musica. n u m a contorsão. a bocca •' cerrada.. mas tão persistentes.. Vinham de longe. a victoria da força e da felicidade.

e jamais. — Como ? Está convencido da culpa de Maria Perutz ? perguntou Milkau inquieto. Apenas lhe explicdjque. sjgdaaatast». tinham o perfume da liberdade. pelos depoi0_/ . — Meu amigo. depois que o doce veneno da duvida lhe corrompera a alma. esses momentos eram sagrados. depois das audiências do processo. que se sentia separado /de todos d'aquella terra. dignas de homens. a amizade se ia formando entre elles. Ad^ttt^cúj ifcara Maciel. — Não vejo meio de evitar um máo desenlace ao processo. disse o magistrado. respondendo a uma pergunta de Milkau.X Paulo Maciel. fora elle tão feliz e fecundo. arrastava Milkau diariamente á sua casa e em longas e nobres palestras. logo que se encerraram no escriptorio. agora. não estou convencido de coisa alguma.

— Mas as testemunhas. interrompeu Milkau. cortou Milkau. si aqui um homem entender m apossaria propriedade de outro. encontra no nosso systema de justiça. Olhe. Mas é inútil. Não pense que não desejaria reagir. não é ? — E' horrível!. no modo por que se faz o processo. f — A quem o diz ? E' sempre assim entre nós : não ha um processo em que se possa fazer justiça. Que exprimem as minhas sentenças sobre a verdade dos factos ? Nada. Nem eu mesmo..CHANAAN 323 mentos. e ninguém está garantido... ha n'elles tal tecido de mentiras que tenho de capitular E' de desesperar. — No mundo inteiro a justiça é uma illusão. não ha lei. — Um paiz sem justiça não é um paiz habitavel.. vêm insinuadas. pela prova dada. apoio para a sua intenção. — No Brasil. ninguém o pôde embaraçar.. porque não se trata de raros eclypses de justiça. continuava. que sou juiz. affirmou Maciel no seu pendor para generalisar. E si esse homem é um potentado.. a pronuncia é fatal. O processo é feito de tal maneira que tudo vae em perigo. concluiu.... . quando recebo uns autos. Digo-lhe isto eu.. è a condemnação. é uma agglomeração de bárbaros. — Mas no Brasil a situação é ainda peior. foram industriadas para essa desgraçada -conclusão.

— Isso. dos Estados Unidos. mudando de ponto de vista. Os urubus ahi vêm. de desabafo.324 CHANAAN Milkau. mas hoje está tudo acabado.. ficou pensativo. — Um caracter de raça. ouvindo o joven magistrado que proseguia n u m impulso de confissão. Como poderemos nós subsistir desta fôrma em que vamos ? Onde a base moral para mantermos a nossa independência no exterior. a nossa virtude social ? Nem mesmo a bravura. E' um cadáver que se decompõe este pobre Brasil. aqui já houve. A valentia aqui é um .. nós a temos com equilíbrio e constância.. Não ha uma virtude fundamental. assegurou Milkau. não é" nada. sem dizer nada. Posso accrescentar mesmo : não ha dois brasileiras eguaes. Onde está. explicou Milkau.. que é a mais rudimentar e instinctiva.. — SiVn.talvez uma apparencia de liberdade e de justiça... repito. Aqui. si aqui dentro estamos na desordem e no desespero? O que se dá no paiz é uma verdadeira crise do caracter.. e de um modo superior. E' a conquista. — De onde ? — De toda a parte. meu amigo. — Virão. — Não creio. a raça não se distingue pela persistência de uma virtude conservadora. sobre cada um de nós seria futil erguer o quadro de virtudes e defeitos da communhão. que chamamos nação. não ha um fundo moral commum. da Europa.

— Repare o que se passa com o patriotismo. mas simples symptoma de inércia moral. / Calou-se. de sangue. não que seja a ^./que ha profunda disparidade entre as varias camadas da população. 'í. a nossa bondade. replicou a este n'um tom mais decisivo e Vibrante : — Tem razão. ponderou Milkau. aqui. fitava-o com immensa sympathia. voltado para Milkau. interessado n'esta analyse franca de Maciel. desta instabilidade. como familP' somos tão máos. tão hystericamente. ha\um cosmopolismo dissolvente.expressão d'uma larga e generosa philosophia. desbruçando-se um pouco sobre a mesa./ CHANAAN 325 nes pulso nervoso. /Milkau. inutild o s y t e máos!.. — Não ha duvida. ve tempo em que se proclamava r a nossa ade. No Brasil a grande massa da população não tem esse sentimento.. E a falta de homogeneidade será talvez a maior causa deste desequilíbrio. de ita cobardia nos enchem a lembrança!. Collectivamente. são ainda homens de ódios. Veja as nossas guerras. proseguiu depois Maciel. O aspecto da sociedade brasileira é uma singular physionomia de E 19 .. como levado a tristes recordações. Note que os poucos patriotas que temos.. indicio da perda precoce de um sentimento que se devia casar com o estado atrazado de nossa cultura.. O juiz reflectiu e.. emfim logicamente selvagens. compadecido das torturas d'aquella alma ' de brasileiro.

gentes. A correntes da immoralidade vagueam sobvda. invadia o aposento. r é um mixto doloroso de selvageria dospovos q$ç •d H. e poz-se a mirar absorto e vago a cachoeira. os militares. sociedade e não encontram resistência \ de nenhuma instituição. mansa e suave. ás coisas superiores. que se pôde esperar dos sentimentos. A decadência a. Uma tal nação está pxcÇ \ rada para receber o peior dos males que pôde cahir sobre o mundo: a geração dos governos arbitrários e despoticos. são os funccionarios.326 CHANAAN decrepitude e de infantilidade. Si a sociedade é urna obra de suggestão. Levantou-se muito nervoso. e seu apego ás posições e ao ganho? E não é só o governo. e do eáfgommento â/> I I raças acabadas. emquanto a claridade da tarde. tudo n u m declive em que se vão resvalando. Milkau. abriu a janella que dava para o rio. o clero. E'a magistratura subserviente e apparelhada para explorar os restos da fortuna priva-la. E Maciel voltou-se: f . quando a imaginação d'ellas é deslumbrada pejlo espectaculo da mais desbragada perversão <ljgs governantes ? Que reacções sobre cérebros obscuros não provocará o desamor d'esses conductores das... horrivelmente deformados. ao ideal.despontam para o mundo. da idealisação das massas incultas. encheu-lhe os ouvidos de louvores á natureza. sem se mover do seu logar. Ha uma confusão geral.

A Europa! Sim. procurando perpétuas e incessantes combinações de ser.. disse elle. tudo está sempre em crise. murmurou n'um desalento : — O meu desejo é largar tudo isto.. terrível e formidável. E por quanto tempo.. tudo . ficou repentinamente mudo. Por outro lado. abandonar o paiz. que não ha nada fixo e eterno : tudo vae de passagem. Milkau falou-lhe com brandura. Mas lembre-se de que não ha sociedade sem abalos.. Parou. e com os meus ir viver tranquillo n'um canto da Europa. expatriar-me. Ao menos. é também um pouco uma questão de perspectiva. esse terror que nos vem dos acontecimentos presentes.. não sei. ao menos até passar a crise. a exactidão dos seus conceitos.. tando com os olhos vermelhos e humidos o extrangeiro. A Europa.CHANAAN 327 — Ainda é uma vantagem viver-se na roça nesta hora tenebrosa. tudo se mostra grandioso ou ridículo.. campos desertos d'aquelle coração. A família vae sendo demolida pela força imperiosa dos vícios. O clima. e as palavras cahiam frescas e consoladoras sobre os.. Quando estamos dentro d'elles. e como resumindo todas as suas decepções e anhelos.. temos a benignidadedacalmaeatranquillidade da família... — Não quero diminuir. E quando ia seijdo arrebatado pela expansão dos seus mais Íntimos anceios. Maciel (seNcontevj com esforço.. Ou melhor. A peste se apodera do corpo miserável da nação.

de dominados contra dominadores. w ^ . — Muito bem. no meio das ondas e dos ventos : o espectaculo do oceano enche-nos a alma de terror. replicou.. Deixa que lhe /aça uma imagem ? E' assim como si estivéssemos no mar. E isso se manteria assim por muitos séculos. yid^r 328 JAAN CHANAAN í parece ir acabarn'umadesâggregaçãoirremediável.. mas aqui se passa uma verdadeira tormenta. é "ella conseqüência da primitiva formação do paiz. O povo brasileiro foi por longos annos apenas uma expressão nominal de um conjuncto de raças e castas separadas. as ondulações das vagas são como um leve sorriso. como uma engenhosa e \ admirável expressão dos melhores tempos\ que são sempre os passados. mas no futuro elles minguam á força de distancia. tornando-se subitamente jovial. Todas as revoluções da historia brasileira têm a significação de uma lucta de classe. Do que tenho observado e adivinhado um pouco.. porém depois que o atravessamos e o olhamos de longe. \e nós começamos a louval-os. Desde o principio houve vencedores e vencidos. festejando a metaphora. parecem normaes e suaves. e não podia ser de outro modo. si a forte e imperiosa sensualidade dos conquistadores não se encarregasse de demolir os muros da separaç ã o ^ não formasse essa raça intermediária de mes- .. sob a fôrma de senhores e escravos. E Maciel também sorriu. desde dois séculos estes luctavam por vencer aquelles.. — E' natural.

foi ganhando os pontos de defesa dos seus oppressores..CHANAAN 329 ticos e mulatos. e que nos governam com melhor acceitação e êxito. Reparemos que Pantoja não é um caso isolado. afflrmou Milkau... Era preciso esse choque do inconsciente para se fazer o que se buscava desde séculos por outros meios : a nacionalidade. fosse o vencedor e eliminasse os extremos geradores. ^/ Paulo Maciel 0 deteveriam momento. commentou o juiz.. emfim. também gracejando. com o ambiente physico. d'elles. que é o laço. Equando o exercito deixou de ser uma casta de brancos e passou a ser dominado pelos mestiços. Era preciso formar-se do conflicto de nossas espécies humanas um typo de mestiço. a liga nacional. O Brasil é. e que. Perfeito. e depois.. Está ahi a explicação do triumpho e do prestigio do nosso " Maracajá *' — É o representativo. a revolta não foi mais do que a desforra dos opprimidos. pela sua própria força de gravidade. são desse mesmo typo de mulatos. — Vejo bem que é isso mesmo. que se conformando melhor com a natureza.... que fundaram desde logo instituições destinadas a permanecer algum tempo.. Os que tendem a nos governar. augmentando cada dia. •— Bravo! applaudiu Maciel. .. n'uma harmonia momentânea com os instinctos psychologicos que as crearam. e sendo a expressão das qualidades médias de todos.

estes não marcham firmes e seguros?. continuou com um sorriso irônico : — Não ha duvida. tangido pelo escrivão. Brederodes... meu amigo. Não são os donos da terra?. — Oh! não. não ha salvação possível para o nosso caso. emquanto aquelle joven de uma intelligencia mais fina. E' fatal.. E preciso um pouco mais de identificação. Pantoja. era anniquilado. representou-se no espirito de Milkau como um resumo bem claro de todo o paiz. de uma sensibilidade maior e mais distincta. Não ha raças capazes ou incapazes de civilisação.. Todos os nacionaes que alli dominavam. Isto não se pôde concluir dos meus pensamentos. disse Maciel negligentemente ... vencido pelos outros.. toda a trama da historia é um processo de fusão : só as raças estacionadas.... Si eu tivesse algumas gottas de sangue africano. com certeza não estaria aqui a lamentar:?: O equilíbrio com o paiz seria então definitivo. Porque não nasci mulato?. Tinha razão ? Faltava-lhe a gotta de sangue negro para que tudo n'elle se equilibrasse ? — Vê.. O pequeno mundo da colônia. A crise da cultura aqui é motivada pela divergência dos estados de civilisação das varias classes do povo. isto .... é uma incapacidade de raça para a civilisação.330 CHANAAN emquanto olhava para as mãos brancas e longas. sahiam fatalmente do núcleo da fusão das raças. como dolorosamente já se está fazendo.

E no futuro remoto. E Milkau disse ao brasileiro : — Essa Europa.CHANAAN 331 é. Não a temaes nem a invejeis.. quando fôr conquistado pelas armas da Europa. Como vós. acceitando com reconhecimento o patrimônio dos seus predecessores mestiços. que terão edificado alguma coisa. pelo lustre perigoso do seu gênio. — O paiz será branco em breve. para voltar a edade dos novos brancos vindos da recente invasão. a cultura se fará regularmente sobre esse mesmo fundo de população mestiça. as vossas cançadas almas. de arte. a civilisação não teria caminhado no mundo. pela força inútil dos seus exércitos. porque nada passa inutilmente na terra. para onde d'aqui se voltam os vossos longos olhos de sonhadores e moribundos. fique certo. Não vos deixeis deslumbrar pela e^haustapompa da sua civilisação. sejam brancas ou negras. nem a aspereza dos cabellos. de cultura. se mantém no estado selvagem. essa Europa também soffre do mal que desaggrega e mata. Si não tivesse havido a fatal mistura de povos mais adeantados com populações atrazadas. ella está no/ . porque já houve o toque divino da fusão creadora. nem a côr da pelle. cobiçosas de felicidade. a epocha dos mulatos passará. Nada mais pôde embaraçar o seu vôo. suspirou Maciel.. E no Brasil. as que se não fundem com outras. de vida.

. P o r í ^ f leis os povos chegaram a / W ^ esse excesso de grandeza que é o primeiro toque da decadência. diz servidão e fjj***'. E ainda para manter taes ruinas.. O espirito que morreu. devorada de separações. que amedrontava no passado os espíritos. sem cuidar dos que vêm surgindo após. As leis. sempre joven. não exprimem o novo direito.332 CHANAAN desespero. os governantes armam homens contra homens e entretêm-lhes os ances/ traes appetites de lobos com a pilhagem de outras Io nações. quando ao vosso lado sempre alguém morre de fome. Não ha calma para a consciência. são o escudo perturbador do governo e da riqueza. E' uma sociedade que acaba. não ha tranquillidade no goso. « Nada corresponde ao Tempo. não é o sonhado mundo que se renova todos os dias. Está vacillante. Por ellas tudo se baralha. nascidas de fontes impuras para matar a liberdade fecunda.. como si estivesse para morrer..destruição.. consumida de ódio.. toda a humanidade parece sem raizes na terra. As . ainda anima debilmente o mundo. passando. sempre bello. n'esse momento indeciso em que não teme mais a justiça vingadora e posthuma. Tudo/que se apresenta á flor da vida não ' corresponde mais aos fundamentos da Vida. e quem diz auctoridade diz posse. Ainda alli se combate a velha e tremenda batalha entre senhores e escravos.. inquieta. e nem pratica a maravilhosa justiça que vae chegar amanhã para dar a todos o que é de todos..

tudo vence. pois como a essas figuras carbonisadas desentranhadas da terra do passado. Não a temaes. a universidade e tudo mais que deva finar. fina e mesquinha. que vos não pôde escravisar.. os seus exércitos não se poderão mover. do ódio e do amor e de mil outras potências ainda incógnitas. não é a lamina poderosa e refulgente onde se reflecte a imagem dos novos homens. A arte não exprime a vida. . Os povos abandonaram a religião e conservam os templos e o sacerdócio. crea19.. ella se despedaçará. da arte.. e que são as forças redemptoras da sciencia.CHANAAN 333 raças deixaram de ser guerreiras e ainda se armam. E já as posições vão sendo tomadas insensivelmente pelos que as desprezam. um sopro de vento os reduzirá a pó. tirando a força ao homem e a bondade ao leite da mulher. n'uma voz imperceptível. o sopro bemfazejo que tudo invade. sem seiva nem vigor.. a magistratura. Que o exercito. mórbido e pérfido.. como o bafo sagrado das divindades do futuro.. da intelligencia. mysteriosas e santas. Não longe. a poesia volta-se para o passado e a sua lingua subtil. — E' um grande mal. E por tudo isto que eiilanguesce e definha. da industria. caia nas mãos dos que julgam taes instituições como instrumentos do mal.. o parlamento. — É o primeiro passo e um grande bem. o governo. disse involuntariamente Maciel. passa o veneno sensual. antes que se erga contra vós.. a diplomacia. nem a alma do momento.

mais funda que apparente. scismava em tudo o que acabava de entrever deliciosamente. apesar do deslumbramento da visão. entrou o Brasil para soffrer comnosco os mesmos sacrifícios... e esta . E.. grosseiras ou ridículas.. n'essa esperança luminosa e feiticeira. — Si taes conseqüências resultarem.. o juiz.iSA CHANAAN ções. Já ninguém aqui se entende. sonhar os mesmos sonhos. n'esse mundo a transfigurar-se. onde.. ficando só. porque aquellas forças da resurreicão se communicam invisíveis entre os > homens do nosso grupo de cultura. O que me resta é ainda este socego da família. e não tarda que eu mesmo seja extranho a tudo e nada mais sinta de commum com aquelles que são os homens de minha terra. as atribulações do momento venciam-no — Tudo desmorona em torno de mim. e conduzem ao mesmo resultado n'este systema planetário.. O domínio do vencedor d'essas luctas inferiores será instantâneo. Quando Milkau partiu. onde isto primeiro se dér ? arriscou o joven brasileiro.. serão tão fugazes e passageiras que não devemos d'ellas cogitar.. n'uma semelhança de destino. as mesmas transformações e. Então os exércitos não marcharão. n'essas ancias para novas e mais bellas expressões da vida. este amor de mulher que me conforta. — Não será a conquista fatal do paiz. destacando-se da nebulosa inicial.

^^x**^'fi***i . arrancando o marido das scismas em que estava. éter. recolheu-lhe anciosa o corpinho. . magra e ainda muito joven. Tyldlziy. as faces vivas e accesas.pÀe d Àpapmnd a figura em desordem de ffl/ffl ujpa/^rearíça. Vibrando. tre. Maciel. /'/Jt/nÂ* wh.olhando-a sem vêr. . a mulher de Paulo Maciel entrou ahi discretamente. A pallidez brasileira. Não ouvindo mais rumor de conversa no escriptorio do marido. os cabellos vinham deban. Sentou-se no seu logar de retiro e d'ahi. como em fios de brando e macio cabello de mulher. A noite vinha vindo. dilatava-lhe os olhos negros e faiscantes.^c*"-*''* dados. como tinha por habito todos os dias antes do jantar. Era esbelta.. afflicta e estupefacta. avançando e estendendo-lhes em silencio os braços cheios de ternura mysteriosa. abafada : %*yd& — Mamãe! <*/*&Esta. e pela testa corria um suor gelado. e sem de. /rf^oeé/ E tudofoiumatfétídfAl casta e subtil. mia-lhe o narizinho. / * * T £ . foi-se reclinando suavemente ddM elle. foi em sussurro entretecendo com a companheira.ímÍM^í 4nf4iM4d^^A%AWs^> V^ r e g #í/TW/#/W W *** ° rndüâ inyap.CHANAAN 335 creança que nos rejuvenesce. uma doce e infinda conversação.fff d** "finamente fascinado por ella.lffry*s. oc**<+*l* — Gloria! Gloria! murmurou. emquanto lá fora tudo vae desabando. doentia e diaphana. Cahiu J^y^u^ nos braços da senhora.^AT mora esquecido de suas devastadoras angustias e^y^ débeis revoltas. acalmou-se.

/ pedindo esmola. o filho arrancou-lhe o laço de fita.£*. beijou a creança. quando 1L uns immigrantes mendigos-ac acercararrrj]J«lki. reconstituindo com largos gestos e grandes vozes. mas á sua energia tonta correspondera uma vozeria desbragada. a creança. Si não fosse a intervenção de dois homens que passavam. um episódio da rua. Durante a narração. sorrindo d'aquelles sustos. como uma reacção de alento. tentou disfarçar o acontecimento. enterrou mais a cabeça no collo onde se agasalhára. repellindo o grupo com o chapéo de sol. no meio de imprecações de fúria. N'este momento entrou no 'ft ccrn> aposento a criada. Mal puderam escapar.*_ . partiram desvairadas para a casa.336 CHANAAN O marido achegou-se a ella. quasi n'uma algazarra. para diminuir nesta o natural e invencível horror aos pobres. e uma mais ousada beijou-lhe o rostoi "Femquanto forçava por tirar-lhe a pulseira. a moça segurava a menina pela cabeça. e tomando-lhe umas das mãos. e Gloria. Paulo Maciel. dm/ÂdJ^dví coxneçou a expli'itfiu*/ car a angustia da menina. Algumas mulheres do bando ///$YJ//A****r /avam com mãos descarnadas apossar-se das jóia* da menina. — Soceguem. A creança encarou-o indecisa. *"'/! r*~¥> %-'~r~£r«é r± 1 •*^*fr í V'-? ^ . correndo n'uma gargalhada de triumpho. Esta palavra foi dita varonilmente e trouxe lagrimas á mulher. a lucta não se terminaria logo. A criada defendera Gloria. Passeavam ambas. beijando-lhe freqüentemente os amortecidos olhos de somnambula.

. ás idéas lhes fugiam. pois já aos cinco annos uma precoce e mórbida phantasia era-lhe doença d'alma. um soluço hysterico. A invenção djdf éMM0f( não foi feliz e fértil naquelle momento. — Tenho medo. que foram então arquejantes.. beijos. perdidamente. segurando-se á senhora. e abrigal-a mais e envolvel-a com os braços. outro. maternalmente. em súbita transformação de allivio. e apenas como recurso lançavam-se ao argumento que nunca tráe. primitivas ou infantis. M-^~ IjJ Cj m dT ' . e só a menina de vez em quando tremia. mamãe! Depois. inconsciente. £U. a sua voz. A grande calma do crepúsculo aquietava-lhes. Os éidd sentidos sahiam do pesadelo n'uma dolorida expressão de susto e de fadiga.CHANAAN 337 O medo lhe. como num remanso. que tentava inutilmente adormecel-a. melancólico. Vxojldfifji^i distrahil-a e desviar para coisas alegres e diversas a sua attenção. rudimentar. Moveu os lábios como quem ia falar. que traduzia uma mansa agonia. mais outro. davj^lo justo sentimento do real. a quem não sobrava regaço para occultal-a. Êr^Zfei ^ J. elles paravam. a indizivel tristeza das almas rudes. e tornava vãs as palavras. as perturbações. Levantou a cabeça. fitou os outros com um sorriso leve. e os dois esperaram. succedendo uma modorra interrompida de instante e instante pelo crispar de suas garrasinhas aferradas aos pulsos da senhora. scismavam.

e. disse Maciel.. como que irresistivelmente: — Ah! que frio fazia lá. A mulher de Maciel a principio não percebeu toda a extensão d'aquelle pensamento. que tolices são essas? Não fales n'isso. n'outra terra. papae me dava tanto. e enfiou olhos agudos na menina. Maciel que estava a ler. ' . dormíamos na rua.Você se lembra quando a gente não tinha que comer e ia pedindo dinheiro ? Você me beliscava para eu chorar e me empurrava dentro das lojas para pedir comida. mamãe. hein.. brandamente.. voltada para a janella. longe. A menina moveu para elle o rosto.. ha muito tempo. T— Sim. mamãe ? Mas nós nos escondemos n'aquella casa 0rr** . você me carregava. A sua physionomia transfigurava-se com essa jyy recordação. yyl^f 0t^ypaxecia yf/ojlj dias passados. obedecendo á intimação. Os ^MdM scisma/ vam. não cáe neve.. quando eu não podia mais. — Gloria.. em êxtase.338 CHANAAN — Ah! nós também fomos como elles. não foi. d'ahi a pouco. deixou cahir o livro. Ouviu-se um grande suspiro. Porque. Quedou-se um momento calada. mamãe! murmurou Gloria.. Nós andávamos na rua toda a hora. ficou aterrada. mas do pouco que comprehendeu. Mas. mamãe?. Você se lembra d'aquelle chapéo que você tirou do menino na rua e me deu? Ih! correram atraz de nós. Aqui' não se treme..

papae ? Fazia-se escuro.CHANAAN 339 escura... Eu não tinha boneca. como agora. Maciel gosava um absurdo e requintado prazer intellectual n'aquellas tenebrosas visões da creança.. A criada tardava em trazer a lâmpada. a figura e as palavras de Gloria.. e eu fiquei com o chapéo bonito... Me dá. si não disseres mais tolices. E ainda assim. não chore. tinham ares de monstros. nem cama! Andava suja. — Gloria. como a imagem e a voz de um passado horrível. não tinha anel!. Não era? Você não/ tinha vestido bonito. — Que bonito! Não se conteve a creança. não tinha dinheiro. E posou Gloria no 0"*/™"' cnao com a gravura. porém^pouco se /*/**r demorou em admiral-a. ^pff!^ Paulo Maciel levantou-se convulso. Tinha uma pulseira que aquelle moço 11 .. voltou á senhora que es^ tava a chorar : —JVlamãe. papae ? — Dou.. Ella pagou-lhe com um beijo. Você tem tanto dinheiro. não tintia criada.. — Você não era assim. Gloria! teve a moça forças de exclamar. que resurgia em meio da felicidade. tomou/aVao collo e mostrou-lhe uma estampa. mamãe. boa para mim. Você não apanha.. Não é. á sombra que abafava os últimos clarões da luz. No completo repouso da casa. Voltaria á realidade o seu espirito desannuviado das nevoas que ° 1/ / edjjfham} pensou Maciel. que tirou precipitadamente do armário. A creança.

olhavam correr a creança... A pobre moça desalentada parecia vêr lagrimas no rosto do marido.. gritou Gloria. amanhã. hein mamãe!.. — Mamãe também mordeu na rua a mão da menina para tirar o anel. Papae ficou zangado. Agarrados um ao outro. quando papae foi preso pelos soldados. dizia que eu era filha d'elle. a Dulce. Eu vi.. P a pae. Paulo avançou esbotf-J çando no espaço gestos inúteis para tapar aquella bocca maldita e innocente.. Havia dois annos. partindo no seu encalço... aquella mulher contou tudo. A mulher de Paulo Maciel abraçou-se / elle como a um rochedo. sim ? Murmurando umas desculpas. cadê o homem que você quiz matar com aquella faca?. Me dava dinheiro. A sua caridade amorosa colhia os fructos amargos de Chanaan.340 CHANAAN deu. Emilia. De repente. você disse que elle era tonto.. — Emilia. voltou-se para a senhora : — Amanhã vou passear com o vestido côr de rosa ? Levo a boneca maior. Papae voltou.. fulminados pela sensação. — O moço dormiu lá.. n'um grande .. Pensa que eu não vi? Agora a gente não tira mais de ninguém... Levantando os braços n'um immenso esforço de Y I n ( quem suspende algemas. você apanhou muito. a criada penetrou no gabinete trazendo um candieiro acceso. mas eu queria era meu papae.

agora. das cellulas obscuras e implacáveis d'ella.CHANAAN 3'il desespero de infecundidade. tinham aberto o coração aquella filha de uns immigrantes hespanhóes. E... uma existência de outros. surgia-lhes. . como um castigo. um passado alheio.

XI

A

•>/

I

Lentz vagava nas desertas margens do Rio Doce;
seu espirito, atormentado pela solidão, retrase comprimido deante da serenidade desesperadora da terra. Sobre elle o céo cavado e longínquo/
desdobrava-se sereno e luminoso, o sol abrasava
um mundo parado e morte;. Ia errante e perdido,
embebidos os olhos no que alli era a única vida,
nas águas vagarosas, desusando como alma expirante. A implacável belleza do silencio o exaltava,
e elle passava amaldiçoando a ímpassibilidade do
universo, que não.yestremecia nem se agitava fecundo aos seus pés sobrehumanos. Na conspiração da calma, da solidão, da luz, do esplendor, do
infinito, o espirito do homem delirava. E nesse delírio a memória apagava-lhe as origens da existência,
o passado não tinha sido ; e tudo, fôrmas deliciosas das coisas, água, que ainda se movia, arvores
silentes e concentradas, céos, sol, montes, nuvens,
l

CHANAAN

343

tudo era a expressão de vidas que se extinguiram, de seres que se agitaram cheios de alma, e
,
preparavam extaticos o leito admiravej para o l'-p~* \
pertar do primeiro homem. E a nova existen- '
cia das novas fôrmas ia começar...
ÍIM
.
se abriam seus olhos sem passado, virgens e pri— ^ ^ T * " ^
mitivos; mas o tédio de se vêr único, errante, desa- •2e^*y*
lentava-o, e immortal, e infinito, mergulhava o espirito no tempo immemorial, e tremia de tristeza.
E assim na região do silencio as ancias da creação
agitaram o homem forte. O principio da vida, o
impeto de repetir-se eternamente erguia-se n'elle,
supplice e imperioso. Lentz quiz que as suas forças
intimas e essenciaes, desaggregando-sej se fracciol
nassem em parcellas imponderáveis e invisíveis,
como partículas de luz, n u m a mysteriosa fecundação do Nada. Anceado, inquieto, doloroso, delirava... e uma illusão perversa descortinava a sua
imagem multiplicada em myriades de corpos formosos e serenos, como a geração de um deus.
Deliciou-se extasiado nos olhos da sua raça> nos
cabellos, nos membros e traços de gloria, em que
cada um resumia a belleza e a força do universo...
E tudo era bello, e tudo era bom, porque tudo era
elle.
Depois, não tardou a chegar-lhe a invencível monotonia de se vêr a si, a si indefinidamente. No desespero, quiz voltar ao increado, extinguir tudo, e
gerar novos seres, que não fossem a sua imagem,

yfr
344

•y
CHANAAN

que não fossem divinos, que gemessem, que morressem e fossem humanos. O creador luctou com o
sett espirito e o espirito, como uma força diabólica,
indestructivel, venceu-o, creando sempre a mesma
expressão, sempre elle só. Elle... E as fôrmas que
sahiam da força solitária e desdenhosa, acompanhavam-no eternas e fataes. Lentz horrorisava-se
de se vêr a si mesmo, n'uma multiplicação infernal. Do alto da montanha, aonde chegara, precipitou-se, fugindo da multidão de phantasmas que o
perseguiam amorosos e escravos e que eram elle,
sempre elle... Approximou-se do rio, voou sobre
este n'um impulso de salvação, n u m desejo extranho de anniquilamento, de allivio... e parou.
Sobre o crystal das águas a sua imagem o espreitava para^seguiráin<ia na morte.
E o delírio se repetia<-sob mil terríveis combinações, nos dias serenos que abrasavam a alma frágil
e desvairada do solitário. E quando, nas noites
socegadas, os tormentos da nova vida sobrehumana não o mortificavam, elle penetrava na solidão infecunda do espirito e errava pelo deserto
ululando, amesquinhado e cobarde. Implorava a
companhia tenebrosa do vento, e o vento se calava
aquella invocação satânica; com os olhos ardentes
e devoradores, buscava, em vão, reanimar as coisas que adormeciam. A lua voltava .para elle a
sua livida face de cadáver
Um movimento de piedade trouxe Milkau á

CHANAAN

colônia. Durante todo aquelle tempo, não esque-,
cera o seu companheiro de destino. E, <djM^tí
n/l)üfoè/uma parada no processo, /wjí ao Rio Doce.
Era ainda madrugada quando entrou no prazo, e
logo no jardim abandonado, invadido pelo matto,
que não perdoa e está sempre attento ao descuido
do homem, Milkau adivinhou tudo. A casa estava
aberta, e derrubado no chão adormecia pesado o
corpo de Lentz.
Permaneceram juntos na colônia até o dia seguinte. O contacto de Milkau alevantava e restabelecia o espirito do infeliz. E agora, n'um incommensuravel pavor da solidão, este se ia deixando governar pelo instincto da ligação universal, e prendia-se
n'úma affeição entranhada e decidida a Milkau,
que o chamava ao Cachoeira, á defesa e ao consolo do soffrimento. Um raio da luz que irrompia
do martyrio de Maria, chegou a Lentz que, obfiecendo ao poder do inconsciente, contra que tanto
luctára, curvou a cabeça e seguiu o amigo.
Na estrada, quando tudo se animava á passagem
d'elles, e ventos, e pássaros, e arvores cantavam
em volta, Lentz, recapitulando a curta historia da
sua desillusão, dizia comsigo :
— Ah! como tenho saudades dos meus sonhos t t
/
de audácia, dos meus desejos e ambições... E tudo
isto que eu e elle ambicionávamos fazer, é nada.
Encontrámos no nosso caminho a Dôr mesquinha
e poderosa, e ella nos guia e nos transforma...
— Toda a maldade n'elle era obra da imagina-

isuf

346

CHANAAN

ção, reflectia Milkau, acompanhando-o com o carinho dos olhos. Mas não é a idéa que governa o
homem, é o sentimento. A nossa força individual
não é nada em comparação á força accumulada na
vida. Que pôde um só contra a corrente imperiosa
e dominadora, formada pelas primeiras lagrimas,
descendo das origens do mundo, avolumando-se,
tudo arrastando, tudo vencendo, até que um dia
seja um perenne preamar de bondade e de doçura ?
Que pôde o homem, insignificante e inútil, erguer
para desviar o curso, o Ímpeto da piedade e da
sympathia ?
Chegando ao Cachoeira, foram logo á cadeia.
Durante a ausência de Milkau, tinha conhecido
Maria uma nova tortura, a que sáe das perseguições da sensualidade. Com a sua brancura, com a
v <>yk^extranheza da sua raça, ella yffi$fflj)w de algum
« j ^ í ^ ^ í e m p o 00$$&
os soldados negras. A princi' //ff/'' pio, o aspecto severo da desgraça os aiastaxa,dá\ fffach* /djV/ndo-a n'um circulo de respeito e de protecção;
[//
imperceptivelmente, porém, a convivência e a fami|
liaridade foram permittindo que n'elles se erguesse
o desenfreiado desejo. Procuraram seduzil-a, communicando-lhe por instincto a lubricidade; mas
l
quando a viram insensível e obstinada nas suas
.
recusas, fugindo ao velho costume da prisão, onde
as mulheres encarceradas eram amantes dos guardas, se enfurecerar/ije empregaram para vencel-a
o medo, a força e a crueldade. Md/uas noites eram
agitadas, escapando ella sempre de ser violada

Ã

CHANAAN

347

pelos soldados assanhados e bêbados. Debatia-se
nas mãos d'elles, e salvava-se, ou pela disputa sensual da posse, que entre os dois pretos se formava,
ou pelo alarido levantado, deante do qual se recolhiam cobardes e espavoridos. E os dias, que lhe
concediam, eram para vingar as luctas da noite,
obrigando-a a trabalhar para elles como uma escrava, dando-lhe pancadas, negando-lhe alimento.
E Milkau, agora,na frouxa luz da prisão, notava,
surprehendido, quão terrível fora a devastação da
miséria no corpo da rapariga. Não se enganava
elle sobre a exacta situação da pobre victima, por
mais que esta lhe sorrisse, mostrando-lhe vislumbres de esperança e traços de resignação, que- ,>ê
rendo com esforço dfjji-tí a historia do seu mar- y/yfj&fa*'"
tyrio escripta indelevelmente nos olhos famintos, " ***
no rosto murcho, nas mãos de esqueleto e no peito
mirrado.
Milkau teve a impetuosa anciã de
arrebatal-a d'alli e carregai-a afoitamente para
longe, muito longe, e pôl-a onde as feras não fossem homens...
Durante o tempo que ahi passaram, Lentz ficou
silencioso. Pela primeira vez se via n u m cárcere,
misturando-se com criminosos e reprobos. A sua
velha alma aristocrática estremecia de repugrtancia, e o espirito de sonhador soberano e forte, que
não se lhe tinha extinguido de vez, extranhava o
iy,
contacto da miséria, revoltava-se por se fffiffftx
jyjtdt/^r^i
da molleza, da piedade, ardendo em remontar ás
alturas do silencio e do império. Mas era tarde : a

348

CHANAAN

garra da compaixão o prendia ao mundo, que elle
também assim fecundava com o seu quinhão de
soffrimento.
Na rua, quando sahiram da cadeia, Milkau
ouviu, como um echo do seu próprio coração, estes
murmúrios:'
— Pobre mulher! Como é triste a vida!
Era o novo Lentz que falava.
Commovidos e angustiados, os dois amigos separaram-se. Emquanto o outro voltava a se recolher ao repugnante albergue do Cachoeira, Milkau
seguia sem propósito, vagando, para as bandas
do Queimado, a região abandonada onde fora a
antiga cultura do logar, e que atravessara no dia
de esperança em que chegou á colônia.
Entrou na velha terra exhausta e morta. Ainda
no chão, que pisava, estavam os marcos deixados
pela geração extincta e vencida... U m dia, tudo o
que fora vida já por alli transitara... E agora, restos
disformes de habitações humanas m sustinham-*^petrificados, dolorosos e nús, e trepadeiras mesquinhas e bravas se- esforçavam^por cobrir-lhes o
pejo de ruinas mutiladas. Nas colunas baixas e
humildes da redondeza, destroços de pedras mirava!^ com suas caladas mascaras de monstros a
grande Terra em frente, as altas e viçosas montanhas, onde se fartava a força dos invasores...
Perdido no largo e desdobrado espaço, o Santa Maria, desembaraçado das pedras que antes o faziam
vibrar alegre e vivaz, passava vagindo mofino e

n'uma trans... a razão da minha energia. Aquella hora. como si foras um insondavel e voluptuoso abysmo. Elias vinham de outr'ora e ainda eram a derradeira vida que alli restava. no theatro da Agonia./ figuração gloriosa. e elle afastava de mim os 20 . Cadáveres de arvores derrubadas se desmanchavamrEm pó. Pas' . e estendo-te os braços n'esse doloroso e invencível amor. N'esse momento eu ainda te não buscava. N'um canto da planície. cabras aconchegadas aos filhos ae roçavam nos oitões das ruinas. doce Tristeza! Tu és a reveladora do meu ser./ u . ruminando preguiçosas. a força do meu pensamento. e outras de pé. e a minha frivola existência foi a lúgubre ' marcha do inconsciente risonho por um caminho de dores.. e deserto... e descampado. Sobre ti me reclino.. Tudo era languido.. se vestiam de purpura e ouro. tu me attráes. No silencio dos ventos. Antes de •*£ conhecer-^-perfida illusão (me\entorpecif) os <x -7 sentidos. uma moita de arvores extinguia-se mansamente. sol moribundo \yj%o meu rosto se estampava-o riso continuo e fatigante.. a morte ama a vida. fria e morta.' tocadas pela morte..[ saros no céo desmaiado buscavam o pouso da noite.CHANAAN 349 lento. O sol impaciente ^j^J^fí/^jL-Âãtí ' fc rf fc r a mergulhar nos braços verdejantes e opulentos •íU«f<*-*c' da Terra futura e mostrava ao Passado a outra u face roxa. e vazio. Milkau scismava: < Não.. eu não te fujo. com que o sonho ama o passado.

n'uma postura de resignação e silencio. faço da dôr universal . Tu te sentaste á minha porta. Por ti comprehendo a agonia da vida. porque une os homens. Entraste.350 fa . a dôr é bella. por ti. a força da arte./ / CHANAAN homens. A dôr é religiosa. e nos explica a nossa fraqueza nativa. E' a liga intensa da solidariedade universal. A aragem «fccalárar/?''Õ débil vagido da cachoeira ia-se perdendo para sempre. E Milkau scismava : « A dôr é boa. porque é a fonte do nosso desenvolvimento. de cançada. E como esperaste ! Um dia a alegria. por ti.. porque nos*aperfeiçôa. çe extinguiu} e então soou para mim a a hora da paz e da calma. Milkau caminhou ainda illuminado pelos últimos c] arões da luz. que és o guia do soffrimento humano. Mas tu. para quem a eterna alegria é morte. não estavas longe. A dôr é fecunda. a perenne creadora da poesia. « Tristeza! tu me fazes ir até ao fundo das remotas raizes do meu espirito. Tristeza. E como desde logo amei a nobreza do teu gesto! O h ! Melancolia! minha alma é a morada tranquilla onde reinas docemente.. N o céo não passavam mais os bandos das aves. porque faz despertar em nós uma consciência perdida. O sol resvalara de todo do fundo do horizonte.

Não deixes que o meu espirito seja a preza da vã alegria. Conduze-me.. dá-me a tua serenidade.Tristeza salutar! Melancolia..... oh! bemfazeja! aos outros homens. Tristeza.... Curva-te sobre mim.. Que o meu rosto não mais se desfigure pelas visagens do riso cançado e matador. ... envolve-me com o teu véo protector. a tua séria e nobre figura.. não me desampares.. .CHANAAN 351 a minha própria dôr.

XII *4dix0t V»/ i — Maria! A desgraçada estremeceu. parecia-lhe que beiços^rôxos.. Obedecendo. a claridade da noite. disse-lhe elle. afastou de si o rosto que se inclinara sobre ella. baixo e com firmeza.. No corredor. como uma figura tosca e archaica. — Maria.. Nas torturas do pesadelo. aberta como de costume. A -prisioneira j ^ ^ f a d a quiz recuar. Maria ergueu-se . deixava vêr o corpo de um Ldf soldado/ negro/ dormindo n'uma postura pesada / b r u t i . repetiu Milkau... sou eu.. A sua mão agora branda e languidatacteava incerta para se certificar da súbita e extranha apparição do amigo. sacudindo o morno carinho. recolhendo e enfeixando com energia as suas forças mais intensas.. Ella abriu os olhos e ficou deslumbrada.. — Vamos! Levanta-te. Milkau tomou-lhe as mãos com império e passou com ella sereno/ forte ao lado da sentinella. conduzindo-a para a noite e para a liberdade: . que entrava 'pela porta da rua. sedentos eviscosos lhe buscavam os lábios. e pela mão de Milkau foi seguindo pela casa meio escura. e com as mãos hirtas. estiradas. E gestos infantis e leves roçavam pela barba de Milkau n u m a inconsciente caricia.

. e ladrando scarremessavantem vão contra elles. a scintillação das estreitas. £-// vacillantes. que Milkau ia fallando: / — Fujamos para sempre de tudo o que te persegue.CHANAAN 353 Fora. Subamos aquellas montanhas de esperança. tados pela treva.. Era no ouvido d'eíla.. o ar subtil e frio que lhe penetrava nas carnes somnolentas e tepidas. Dobraram de cautela. Vamos. por tanto t e m p o ^ r ^ í / / i d o s .. Enlaçados. Iam morosos. n'um desfallecido collapso. vamos além. O silencio inquietador enchia-lhe o espirito do antigo pavor que se não extingue nunca. Lr' . o céo crystallino. E depois tudo voltava ao socego ameaçador. como a água sobre a terra. que parecia ser a cada instante tMfe^amente in. . e. Vem. caminhavam pela cidade calada e adormecida. onde a bondade corra espontânea e abundsrhte.. que a foi arrastando vagarosamente... espiando com os olhos immensos e dila. em outra parte. aos outros homens.. os passos d'ella eram . ella vacillou e veiu s« apoiar^nos braços de Milkau. assustadiça e . a largueza.m'"?r^ terrompido pelas vozes da perseguição surgindo das casas accordadas... as fôrmas f i a d a s e sinistras do Ijaet&v mundo.. a immensidade do espaço davam á fugitiva uma deliciosa vertigem.. Uma ou outra vez. Repousemos depais na perpetua alegria. Mas só lhes chegava o chiar monótono e eterno da cachoeira. / ^ / ^ ^ ' tropeçavam nas pedras soltas da rua. corre. / niodrrW.. cães somnolentos despertavam com o passar dos vultos. e os pés.

nada mais viram . so fôra^f 0 dos braços de Maria. parado e morto. tepidos e brandos. receio de despertal-a. lépidos e ra-^ diantes. sobre que passava a luz exhausta da noite humida. cortava.. sem fôrma ainda imaginada. e docemente illuminada pelos reflexos <ftv/ / . colossaes. em baixo aos seus pés.. Depois. como um gladio fumegante.. galgavam a montanha.. Os braços de Maria se retesaram de novo e apertaram os de Milkau. subiram ainda e entraram no bojo da matta. levantando alli uma phosphorescencia vaga de nebulosa. Havia um rumor continuo eafflictivode vento máo nas folhas da grande massa. e do jorro de luz^/l _^___f—----se^brmã\'a dentro dáfloresta uma columna ale< *"* / vantada do chão para o céo. d'onde vinha o clamor do mysterio e do soffrimento das arvores castigadas. onde as collinas baixas semelhavam corpos deitados de heróes antigos e mutilados. E o vento implacável ia passando. a várzea do Queimado. corcundas ealeijões. Um trecho do Santa Maria. que agora sé prendiam aos de Milkau. gigantescos. IJ -UXJ&SIJ-J ftmjf frest^ <^r claridade/descjir. L Are/' Iam inquietos. atravessando o tecto ondeante. afundando os olhos na infindai^l negrura.. perdiam elles de instante a instante a vista do Cachoeira... coberto pelo manto cinzento e vaporoso da bruma. creada pelo terror. A rigidez fria. e agora sen1.354 CHANAAN Deixaram a cidade. E debaixo d'esse manto se desenhavam seres phantasticos. fazendo-as gemer rumot rosamente. Subindo. No vão das trevasiXde espaço a espaço..

escasso.. e aos fugitivos.. Ella é da Terra.. Vem.. aquecendo-lhe o rosto com o seu hálito offegante.seus olhos mergulhavam no abysmo e 3» perdiam^fascinados na toalha branca e espumosa do rio. acorrentado no fundo do cavado e fragoso valle. — E' a felicidade que te prometto. voando.. O passo da fuga moderou. e havemos de achal-a. aspirando o aroma capitoso e perturbador que se desprendia das flores nõcturnas. Milkau não mais falava. margeando o despenhadeiro. A estrada tomava sempre pela beira de precipícios cada vez mais difficeis de vencer. arrastando-se unidos. Cautelosos e arquejantes. O caminho deixou a matta sombria e sahiu pelas alturas descobertas. escalavam a subida.. fatigada e de pés maltratados. encontraremos outros homens. Subiam lentos. Estreitados um ao outro.CHANAAN 355 das arvores espectraes. Maria quasi não caminhava. e Maria já se animava. E este se ia estreitando. voando. Subiram.. caminhavam velozes... mais inclinada sobre elle. vem. E' a felicidade. vinham os urros do Santa Maria. como uma zoada infernal.. outro mundo. e ahi.. Era pedregoso. e es. Assim espantava o terror. Milkau repetia no ouvido da companheira o seu appello de seducção.. Quando vier a luz. recolhendo nessa voz acariciadora o canto mágico dos seus esponsaes com a ventura. e as ribas mais angustas pareciam se terminar-f confundidas . puxava com esforço o braço de Milkau...

mais nada. e arrebatando a mulher do chão. fjH^^fljl n u m assommo de pavor. doidos.^ *W*. e logo estacou. Milkau desanimou.. gaguejou estrangulado: l I Jpy — Não ha mais nada.. Só. . os dois desgraçados luctaram longamente. beijando-a febril^se* e ferozmente: Também ella i » apertavaTcom fúria <& j&b) n-lim accordar violento das suas entranhas. Milkau ergueu-se./ corpo frio. feroz e resoluto... para a morte. / . 4 t t L . a -\^f/ . Maria. avançou alegre . alquebrado. (jè^tbajjaj$è7$£ca£avj$ di rr/ U ' . diddjéntíúik para o abysmo.. arrastando-o para a encosta da montanha.-/ 0 i . vendo-se perdido n'aquelle recôncavo tenebroso. só. Qp calor da mulher/já/utiWolvidado jftorooHDncrvw incendiava-o/ e no combate alie 4L estreitava cor vehemenci^(I com ardor. Elle olhou-a cornos olhos desvairados. enlaçando-se como cornentes a uma arvore. A tentação satânica da morte era mais poderosa. o retinham.356 CHANAAN no horizonte.e infernal para o abysmo. ^^J^y%* \\r^j^**rAaxia resistia com fúria.luctando..... e com um sorriso diabólico.. De um salto. n aquella solidão de pedra. ^ ( ^ ^ j £ . rolaram por terra confundicfòs>batendo-se. recobrou urna extranha tW energia e tentou retel-o. Os braços d'ella. Percorria-lhe os membros um suor gelado. mas a força d'elle que a queria levar para a' morte.. teve de ceder á d'ella.... allucinados. agarrou-a pela cintura. sobre rochedos escarpados e negros.. O Santa Maria urrava soturno e medonho. Pregados assim n'efisa postura.. e o « A. debatendo-se nas mãos ^A^ fortes do homem. y y morte....

supplicava elle em <yr~~ t~*r*>. corriam.^ Mas o horizonte na planice sa estendia^pelo seio da noite e n&.. sentindo-se em liber.. '"•'* — Adeante.. deitoúN(a correr veloz pela vereda de pedra. Atraz . Milkau não sabia para onde o impulso os levava : era o desconhecido que os attrahia com a poderosa e magnética força da Illusão. E as duas sombras. seguiu-a.. ouvia fflyf a voz^ée Milkau. iam desfilando sinistras e rápidas pela aresta da barranca. confundia"com os céos. vibrando como / ^ / ^ i w a modulação de um hymno. na obscuridade da treva.. N'um momento. o abysmo negro e assombroso passava como o tormento de uma vertigem... cahiu n um "rápido marasmo.L -J ^J^^ã^lfr/Mf^/j. Milkau... anniquilado.L ^ n^r^> L*^ . reanimando-se... e agora elles se precipitavam •% numa campina suavemente esclarecida pela noite maravilhosa e límpida. e dos seus braços esvaídos dklyyjdfâffl/dr^ü-^ Maria. Adeante.. „ coniuso. enormes. Começava a sentir a angustiada sensação de uma corrida no Infinito. E Milkau fraqueou por fim.. a vista da planície /vftw**dilatada e bemfazeja. J^t^fivida. de si.. espavorida. — Chanaan! Chanaan!.CHANAAN 357 que os prendia á vida..///</? dade. Chanaan! Chanaan! .. Eu vejo.. / que aos seus pés medrosos e vivos se tornava ^ macia e segura. os ruidos desesperados e attrahentes do rio morriam atraz. e pasmaram a vista nos livres descampados por onde descia a estrada.. Corriam. galgaram o alto da montanha. Não pares. duivc. A agonia .

E Milkau... e nada lhe apparecia.. sumida na nevoa incommensuravel. horas e horas.... transmudada pelo mysterioso poder do Sonho... ia vendo que tudo era o mesmo.. Corriam.. A figura phantastica sempre. e Milkau en no hbfmfld jflf° f ° c o d'essa gloriosa luz.. corriam. E tudo era immutavel na noite. acompanhava em amargurado êxtase a sombra que o arrebatava. corriam.. E o mundo parecia sem fim.[ mais. corriam..... elle atraz anceado. e nada variava... E tudo era silencio. sem \0 poder j / / ^ i . .. os cabellos cresciam-lhe milagrosos como florestas douradas deitando ramagens. inflammando-as.. corriam. adeante.. Corriam. Cb/anaan! Chanaan! pedia elle no coração. veloz e intangível. alcança/. Corriam. que cobriam e beneficiavam o mundo.. e temendo dissolver com a sua voz / mortal a dourada fôrma da Illusão.. para/fim do seu martyrio. e mysterio.. E nunca. / é .358 CHANAAN pensamento. pedindo á noite que lhe revelasse a estrada da Promissão. // n'aquella busca vã e fatigante. novo sangue batia-lhe victorioso nas artérias.. Animada. que seguia amando. Apenas na sua frente uma visão deliciosa: era a transfiguração de Maria. fatigadps de voar. Corriam.. os olhos iam illuminando o caminho... e a terra do Amor mergulhada. Nunca! yd. jamais lhe a^parecia a terra desejada.. n'um soffrimento devôrador. a Mulher enchia de novas carnes o seu esqueleto de prisioneira e martyr.

Ainda não despontou á Vida. que é a Violência. O que seduz na vida.. Paremos aqui e esperemos que ella venha vindo no sangue das gerações redimidas. A terra da Promissão.. Emfim.. Ao contacto humano ella parou. que eu te ia mos/ trar e que também anceoso buscava. — Não te cances em vão. o mundo cançava de ser egual./emní mesmos. como n'um. a mesma bocca murcha. Aquelle que vive o Ideal contráe um empréstimo com a Eterni• dade. Milkau festejou n'um frêmito de esperança a deliciosa transição. Milkau viu que tudo era vazio.. é o sentimento da perpetuidade. Chanaan ia revelar-se!.. Nós nos prolongaremos. / q u e ' s e fará a passagem dolorosa do soffrimento. A nova luzsemmysterio chegou.. que tudo era deserto.. que os novos homens ainda alli não tinham surgido..indefini/o ponto de transição. Cada um de nós.CHANAAN 359 A noite enganadora recolhia-se. desdobraremos infinitamente a ¥*k<V v w v c _V .. Com as suas mãos desesperançadas. a somma de todos nós. e esclareceu a várzea. Sejamos fieis á doce illusão da Miragem.. e Maria volveu outra xez para Milkau a primitiva face moribunda. Vendo-a assim.... ^ é-qu& somos a força creadora da utopia. Não desesperes.. tocou a Visão que o arrastara. na miseranda realidade. Elle disse : .. não a vejo mais. a mesma figura de martyr. H &y inútil. Não corras. os mesmos olhos pisados. Purifiquemos os nossos corpos. nós que viemos do mal originário..

eu te digo. — Typ. todos os sacrifícios. a minha visão se confina em volta de ti. Mas. « Tudo o que vês. e divino. ou si tivermos de aee despedaçar^ com ella no Universo. li. Todo o mal está na Força e só o Amor pôde conduzir os homens. na alma dos descendentes. passam no curso dos tempos. não nos separemos para sempre um do outro nesta attitude de rancor. Eu te supplico..1901. todos os martyrios são fôrmas ^errantes da Liberdade. Paris. I).. ou si é informe e transitório. todas as agonias. angustiosas.. rue cies Saint-Pères.. onde depositaremos tudo o que é puro.AKNIER. si isto tem de acabar . dissolver-nos na estrada dos céos.360 • CHANAAN nossa personalidade. e santo. esperando a hora da resurreição. Os meus olhos não attingem os limites inabordaveis do Infinito.. todas as revoltas. Façamos d'ella o vaso sagrado da nossa ternura. 322.. morrem passageiramente. a ti e á tua ainda innumeravel geração. ..para se repetir em outra parte o cyclo da existência.. ou si um dia nos extinguirmos com a ultima onda de calor. desaggregar-nbs. Apr proximemo-nos uns dos outros. reconciliemo-nos antes de chegar ao instante da Morte.. muito longe. que venha do seio< maternal da T e r r a . (. Eu não sei si tudo o que é vida tem um rythmo eterno. iremos viver longe.. E essas expressões desesperadas.. suavemente. abandonemos os nossos ódios destruidores. indestructivel.12..

.

• I i I .


 
 
 
 
 BRASILIANA DIGITAL ORIENTAÇÕES PARA O USO Esta é uma cópia digital de um documento (ou parte dele) que pertence a um dos acervos que participam do projeto BRASILIANA USP. Trata‐se de uma referência. textos e imagens que publicamos na Brasiliana Digital são todos de domínio público. no entanto. Os direitos do autor estão também respaldados na Convenção de Berna.br). não realizando alterações no ambiente digital – com exceção de ajustes de cor. a mais fiel possível. à Brasiliana Digital e ao acervo original. 3. 2. Você apenas deve utilizar esta obra para fins não comerciais. Pedimos que você não republique este conteúdo na rede mundial de computadores (internet) sem a nossa expressa autorização. reprodução ou quaisquer outros. procuramos manter a integridade e a autenticidade da fonte. se você acreditar que algum documento publicado na Brasiliana Digital esteja violando direitos autorais de tradução. Atribuição. 
 . 1. Quando utilizar este documento em outro contexto.610. a um documento original. No Brasil. Neste sentido. Direitos do autor. você deve dar crédito ao autor (ou autores). versão. Sabemos das dificuldades existentes para a verificação se um obra realmente encontra‐se em domínio público. solicitamos que nos informe imediatamente (brasiliana@usp. exibição. da forma como aparece na ficha catalográfica (metadados) do repositório digital. é proibido o uso comercial das nossas imagens. de 1971.º 9. Neste sentido. contraste e definição. de 19 de Fevereiro de 1998. Os livros. os direitos do autor são regulados pela Lei n.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful