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MARIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA DA CRISE Laveasia & Eprrona Li Rua 15 de Novembro, ‘Teietones 85-6080 — SKO FAULO L* edigdo janeiro de 1956 2. edicdo maio de 1957 8° edigao novembro de 1959 TODOS OS DIREITOS RESERVADOS OBRAS DO AUTOR Filosofia © Cormovindo” — 4 ed, “Légiea € Dinlétiea” — 4" ed. "Peicslogia” — 48 ea — "Teoria do Coukecimento" — (Gnoseologia ¢ Crititilogia) — 38 ed. ‘Ontologin © Cosmologia” — (Ax Cifusias do Ser © do Cosmos) — Ae. 0 Homem que foi um Campa de Batalha” — (Prslogo de *Vontade do Poténeia”, de Nietusche") —- Esgotada. jarso de Oratirin e Retévica” — 7." of "0 Homem que Nuseeu Péstumo” — 2 vole. — 2.° e. — “Assim Palavn Zaratustra” — (Texto de Nietzsche, com anélise sime bliea) — 2° ea ~ *Téeniea do Diseurso Moderny" — 48 ed, = “So a Bsfinge Falasse..." — (Com 0 pseudénimo de Dan Andersen) — Bsrotada, — *Realidade do Homan” — (Com o psewddnimo de Dan Andessen) — Dialéeticn do Masxismo” — Rsgotada, “Curso de Intoxragio Pessoal” — 3.2 ei = ‘Tratado de Eeonomia” — (ed. mimeografada) —- Esgotada, ‘Avistétales ¢ as Mutagéea” — (Rooxposigéo analiticodidatiea do tex- to avistotéiee, scompannada da eritien doe mais famoses comentarle- as) 2 ed Filosofia da Crise” — 3 ed. “Tratado de Simbéliea” —- 2° ed, = +O Homem perante o Infinslo” — (Teclogia) “Noologin Geral” — 24 ed. — “Filosofia Conerota” — 2 vols, ~ 24 ed = “Sociologia. Fondamental e Etica Fundamental” — 2.* ed = “Pritieas de Oratéria” — 20 ed, — "Assim Deus Palon aos Homens” — 2 ed — "A Cuan das Paredes Geladas” — 2° ed, — £0 Um ¢ 0 Miltplo em Plato” = *Pitdgoous ¢ 0 Tema do Nimero “Filosofia Conereta dos Valéres”. Eseutat em siléncio”. "A Verdade © 0 Simbolo’ dds segunda ante a primeira. No limite, eom« uma coisa. Mus também ai, onde comeca 0 nlo-ser, & 0 ti do ser de outva, B, desta forma, o limite é do ser de uma eoiss © também € 0 coméeo do seu nfo-ser. Portanto, o conceito de limite é um eonceito dialéeticn, pois firma e nega, pois afi er © nega-o, afirmando 0 outro, que no é éle, Mas nao hé, propriamente, contradicgio forn porque o limite de uma eoisn 6 0 ponto que indiea onde ela te mina. E poderia ela terminar sengo ali onde ela, mais adian io seria ela? Neste easo, o limite separa a coisa do que & ela, sem que afirme que a coisa é 0 que nfo é ela, mas apenas apon- ta 0 que dela se separa. Portanto, o limite 6, ainda, erisis (1) Mas o limite realiza uma medingio, pols @le e2 intereals entre 0 que é alguma coisa, aqui e agora, e o que nfo & ésse alguma coisa. O limite estabelece, assim, uma diferonga ime- (1) Mais aiante exursinareses oo 2ito) 0 conceit de Hite 26 MARIO PEREIRA DOS SANTOS diate, Hsia coisa € alguma coisa dentro dos seus mites, mas extrinsecamente nfo é mais nada, porque 0 limite marearia 0 nip ser também de uma coisa (0 defieiente, o que Yhe falta) pois 0 que the é extrinseco é outro que ela. Mas, também, para te, ale tem o mesmo sismifieado, pois dle so intoreula entre ambas coisas para apontar a uma ¢ a outra o que nio 6 els, € afirmar 0 que elas sfc. Aqui, uma cossa de sex, e 2 outa comeca a ser. Coincidem, assim, as coisas separadas no limite, pois, néle, cada uma deixa do ser o que é, e cada uma comega a ser o que é& Ble esta onde comece o nfo-ser de cada uma, ° onde comega o ser de cada uma, 5 o ponto de fusiio de uma contradiegfio, que nfo nega principio fundamental ontolésico, mas que afirma também o que recusa, pois negar & sempre um recusar, afirmative por tanto. Se éste ser ndo tivesse limite seria naturaimente timt- tado. E, neste caso, nio diferiria do “outro”, Ho que o determina, que é éle e nio 0 outro, 6 o limite, que og separa. B 6 dle que og separa, mas entre o de um e 0 do que nfo 6 Cle, nilo hé diastema, como diziam os gregos, uma distancia, porque uma coisa cessa de ser ela, no limite em que ela o aleanga com o seu ser. Portanto, 0 que no é ela esta imediatamente ao lado dela, © nenhuma distancia pode haver, porque a prépria distancia, se houvesse, jd seria 0 outro que nao 6 Portanto, um! cess de ser a si mesma, no procipuo ponto que aleanga 0 Nao é 0 limite que nos permite dizer o que uma coisa 6? E sem og limites, como poderiamos distinguir os séres? E se cada coisa € 0 que é por seu limite, 6 também por éle que ela deixa de ser outra, Ble afirma-a e também Ihe barra um além, porque Ihe nega um e também afirma, E a forma também ndo limita as coisas? Néo é s6 0 limite da figura que as delimita, mas também a forma a limita pela sua raziio formal. FILOSOFTA DA GRISE, © homem ¢ delimitado pela forma humana, pela razio in- trinseca de ser homem. E niio s6 as coisas do mundo eorpéreo conhecem limite conceitos © as idéias, pois clas sem- pre tém um que as separa de outras, que as delimita, quo as afirma, ¢ afirma 0 que ndo é nenhuma delas, ‘Tambéra os eonhecem 08 Ele, assim, inslala-se em t0das as coisas finitas, pois todas elas tém limites Eseo nieo, die nfo os sofre, porque onde Ih ser, est o ser, ¢ néo hé outro além déle, Mas aqui surge um problema de filosofia: © limite ou 6 dado extrinseca ou intrineecamente pelas coisas? Seria a cireunstiineia ambier tal, que rodeia os corpos, o limitante de um eorpo? Nao ha. fo intrinseea nos corpos que © ubiquam em seus ‘A. presencialidade ontolgiea de um corpo esi yacio interna de si mesmo, ou na circunstfineia ambiental que Nho hd uma estne Iugar que éle occupa? Nao cometeriamos um grave éro se 03 confundissemos? universal Go ser em si mesmo, distinta do ‘Todo o ser tem uma consisténcia, € um ser corp6reo tem uma consisténcia e uma subsisténeia, que formal e material- mente 0 compoera. Mas todo ser corpéreo, por sun ver, acupa um lugar no espaco, ¢ diise no tempo. IH essa mancira de ser ¢ de oxistir marea-lhe um Fimite, Mas o estar aqui e ali nflo consiste na elreunstineia extr seca de estar precisamente agui e ali apenes. Hsta mesa néo 6 apenas eln porque esti rodeada por ésses corpos, mem porque ‘ocupa éste lusrar, pois poderia ccupar outro, sem que a sua es: tancia intrinveea fOsee mudada, ‘Essa intrinsecidade dos séres 6 importante e deve ser con- \or compreendamos os limites. siderada para que me Nao é 2 superficie tltimas dos corpos que marea a sua intrinsecidade, mas sim a raz4o que the di a proporcionalidade 28 MARIO FERREIRA DOS SANTOS interna. O espago, que occupa, Ihe é extrinseco, porque o que he é intrinseco é a sua forma, que é interna, enquanto a figura © a sua forma extrinsees, a que surge aos olkos, aos sentidos, enquanto a outra é captavel apenas pela inteligéneia, E quan. lo dizemos que éste corpo est aqui ou ali, sentimas claraments que lugar que ocupa the & extrinseco, e que tem uma presen clalidede que déle se distingue. Por isso pole oeupar oxtre Iugar, sem que sofra uma mudanga na sua forma, que é 4 sua presencinlidade intrinseea. Aquéle rochedo, aue emerge do Tune do do mar, ocupa sempre o mesmo espago, mas notemos que as guas que 0 ceream so sempre outras, levadas pelas cor- rentes maritimas, A estiineia, portanto, do rochedo, nfo depende das dguas que 0 cercam. O mesmo se dé com aquéle pedago de madelra que as aguas carregam. EY ffeil eompreender agora que ha \im fimite extrinseco da figura @ um limite intrinseco, que é 0 da forma. Ambos, porém, separam, B iso € evivis, Eneontramos no limite, um apontar da erisis, que sage em todos os existentes Finitos. A conseldneia dela, que em nds se avoluma, ¢ um tema importante que apela ainda para muitas Bivagags Das observaeses que fizemos aeima, verifieamos que li- ite pode ser considerado como 0 ponte em que cessa de se 0 ser de alguma coisa, E como as coisas do mundo corpires tém uma forma extrinseea, que ¢ a figura, esta apresenta © Limite estereométrieo, o da sua dltima superficie, E como tém uma forma intrinseca, que ¢ realmente « rai da coisa, a lei de proporcionalidade intrinseea, que The d& a unidade, apresenta um limite, que & 0 da forma, da atididade, do quid da coisa, que nos transparece na definigio, que é & Aelimitacdo formal de um conceito, FILOSOFIA DA CRISE 2 Ha, ainda, as fronteiras que 0 ndo-ser esta coisa estabe- eco, tangendo-a imediatamente; a fronteira do nao- simultineamente o limite da figura. Podemos esquematizar limite: — figurativo — formal — ambiente-circunstancial Quando nossos olhos se pousam sdbre as coisas que de nés se distanciam, algo do mistério do mundo parece querer reve- Tar-se. Aquéle quadro, cereado pela moldura, préso aquela pa- rede, imével ¢ imobilizado, sem um protesto, da a impressao da amargura de quem accita 0 seu destino. Antropomorfizamos as coisas, quer queiramos ou nio, Mas nese antropomorfismo no hé uma violencia feita as coisas, porque, no nosso sentir, ha uma profunda analogia entre a. nossa afectividade, 0 nosso perserutar as coisas, ¢ 0 que Aquéle retangulo de madeira ¢ pano, onde 2 milo do artis- ta tragou os sinais do fmpeto criador, algo que se isola, sepa racse, 86, eminentemente 86, € tnfeo, imerso na sua unieidade, ‘que 6 sempre solitéria, ‘Mas nds sofremos, quando nos sentimos 5 nossa unicidade, separados por um abismo de todos os outros, famintos de uma fusfo, de algo que nos una, mas sentindo, apé: 8 nossas embriaguezes, em que eoineidimos com os outros, a jnremedidvel desilustio, ¢ a certeza nfo desejada de que hé alga em nés, cuja sombra jamais se fundiré com as s outros.” Hé sempre um outro, ¢ nés. Temos cons limite. As coisas também sofrom dos seus limites, mas ealads: intrinsecamente caladas, silenciosas até ante sii mesmas, por. que, nelas, néio ha um eu que perscrute a si mesmo. Nelas ha © siléncio; tremendo ¢ inelutavel siléncio. Mas nds © ouvimos, 30 MARIO FERREIRA DOS SANTOS porque se elas calam intrinsecamente, falam, contude, uma lin- guagem que nos toca ao coragio, B a crisis se agvava so aceitarmos essa separagio como irremediivel, um abismo insuplantavel, tragado entre nés ¢ os ontros. E, nie podemos negar que sentimos que se pudé mos veneer essa separagio, algo em nds se iuminszia, Um quarto limite foi tracado aqui, além dos trés primeiros. ET o limite da individualidade. Cada coisa que se indi- vidualiza é de per si um limitar-se a si mesma ante os outros, A incomunicabilidade da sua unicidade, que apenas formalmen- te, e por analogias afectivas podemos captar, é um limite que traca a si mesma e aos outros. Mas as eoisas ignoram essa Em nés, porém, ela se torna conseiéneia, porque, em nds, agravamos as distdncias, e a crisis é mais profunda, EF que hé em nés um eu que perseruta o limite que Ihe Gli a individualidade, e que Timita 0 ex que busea ultrapassar we limite, ¢ que déle nio se satisfaz, que déle sofre, e por ale sofre, Portanto, um quinto limite surge stbbitamente em nés. 0 limite do eu ante o limite da individualidade. Sim, 0 ‘eu fem um, ¢ tanto © tem que gentimos que a individualidade © limita, Se ela o limita, o desta 6 também o do eu, porque, como j4 vimos, o limite é sempre um diplice apontar de um outro para outro. ‘Tomamos conseiéneia da nossa individualidade através do ei, Mas acaso o eu ndo toma conseiéneia de si mesmo quando toma consciéneia da individualidade? Nao 4 aqui uma eons- cidneia da conseiéneia? Um saber que sabe que sabe? E nio hé em nés algo que sempre se coloca além de todo 0 nosso conhecimento, algo que conhecemos, sempre distante, sempre cada vez mais distante, que marca uma presenca que sempre se separa de tudo quanto delimitamos, pois conhecer & sempre dclimitar? E ése saber de um saber que se distancia, logo que tragamos um limite, nio ¢ um grande ilimitade que cons tantemonte evita prenderte dentro dos limites? FILOSOPIA DA CRISE at 1 dossa forma, entre os limites de todo 0 nosso eonhecer, iw hit sempre em nds, algo que conhece, que os vence, porque doles néo se deixa aprender? E que sempre ge separa, dis tante, sempre 0 mesmo? Ainda ¢ crisis, Mas {6ria que viveros em nés. também ja um apontar de uma vi 0 teitor, ao ler estas paginas, pode tomar eonseiéneia de que 18 estas paginas, Nio se desdobrou agora? E néo pode tomar conseiéneia de que se desdobrou nesse momento em que toma conseiéneia que 1é estas paginas? E quo sente em tudo isso? Que algo néle € rebelde a prender-se em limites, Algo que 08 estabelece, mas que nfo quer limitar-se, e que sempre escapa a tida a limitaedo, algo que em nés 6 ilimitado, algo que om nés afirma uma vietdria sdbre tudo quanto estabelece uma fronteira, porque vence ¢ ultrapassa as fronteiras. "Todos éssvs limites sf ultrapassados por algo que sempre se distancia déles, e que nfo os aceita como os seus limites. Ainda hé crisis aqui, mas surge ante os olhos uma promessa Portanto, hé uma razio para nio desesperar, Mas é pre- ciso encontrar o caminko prometido, INTERCALA-SE 0 NADA ENTRE AS COISAS? Como hi, na filosofia, os que afirmam e defendem que entre as coisas se intercala o nada, é mister que de antemio se esclarecam alguns pontos fundamentais, Os corpos que conheeemos, que nossos sentidos nos reve- lam, ¢ cuja forma intrinseea nossa inteligéncia eapta, ocupam uum Tugar, © se dflo no tempo, porque esto imersos no sueoder. ‘Os coneeitos de tempo e de espago siio esquemas funda mentais que presidem a tOda a nossa experiéneia com © mun- do exterior, pols tude quanto eonhecemos, eorhecemo-lo no tem po e no espaco, que, como expunha Kant, presidem A experién- Gla e dio o nexo de ordem, esquematizam-na em suma. Ao capt a unidade de um facto, nossos esquemas de tempo e de espago ao-Thes ama ordem, isto é uma relagdo das partes com © todo e das partes entre si, Se tempo e expaco sfio reais, ou apenas esqtiemas construides por nés, 6 um problema de ilo- sofia, que implien muitas © complicadas anélises, ‘Um estude da psicogénese (da génese do nossa espirito), como ja tem sido empreendido na época actual, mostra-nos que 8 esquemas de tempo e espago se formam através da coorde- nacio de esquemas do sensbrio-motriz, até que a razdo os ge- neraliza, para transformé-los em esquemas abstractos (1). (1) Toda nossn intsigan sensivel ovdenase siniultaneamente ou se coseivamente, Oa factor eensiveis sto exptidos na simoltancidads ov na smccessfo, E’ fondamental da intuigio zensivel esta ondenagie, Temas aqui a base positiva do ponsarento kantiano. As contribuisses da "Psi 12" no destroem a emurgéncie dos coneeiias de tempo © espago, ‘apenas salientam a predisponduoia, oubra yositividade que se inelol na maneiva conereta de ver o mundo, que € £20558 36 ‘MAQIO FERREIRA DOS SANTOS. Os escolastieos, come Toméis de Aquino, que seguem a nha aristotéliea, afirmavam que tempo e espaca sito entes de razio (enfia rationis), mas fundados nas eoisas, eum fun damento in re, pois hii entre as coisas distancias e suceder, que permite generalizar os esquemas da experitneia, at6 for- ‘mar 08 conceitos abstractos de tempo e de espago, que 0 racic- nalismo moderno separou totalmente dos factos, esvaziando-os distes, que néles $0 Go. Tornou-os dois grandes vazios, que slo verdadeizos nadas, em oposigio ao eonecito de tempo-espago da fisica, actual, que segue, neste sentido, a linha aristotélica Os espago e o tempo, esvaziados de todo contetdo ticticv, sig entes conceituais, cujo contetida implica o despojamento de ‘tudo quanto acontece, ficticamente, porque todo ser singular, pela sun extrema singularidade, é sempre um desafio i com- preensiio racional, ‘Tais esquemas presidem, 6 verdade, ds experiéneias futu- ras, E se les ef aposterioristicamente construidos, como 0 mostra a psieoginese, terminam por actuar aprioristicamente, antes da experiénela, o que é inegivelmente uma positividade do pensamento kantiano. Se as coisas se dio no espago, e elas se separam, como 0 limite o revels, entre elas se interpée o espugo. Mas, que e3- pago? Um espago cheio, como 0 de Lorentz, ou um espago vazio como o de Deméerito? Se ha um vazio, e ésse vario é total, — neste caso um nada que se intercala entre us coisas, —terfamos de aceitar que se formariam verdadetras ilhas, nam mar vazio de tudo, um grande nada onde as coisas acontecem, incomuniedveis umas as outras. Leibnitz, nfo podendo vencor éste problema, que se Ihe tor- nava exigente, constrain sea visto monadolégies. As eoisus seriam composigées de ménadas, Cada uma delas é uma uni= dade solitérin mum grande vazio, impenetravel ¢ ineomuni- cavel com as outras. Mas actuariam, coordenadamente, com as otras, gragas a uma causa efieiente divina, € nos dariam aparéncia das coisas, figuras surgidas da caordenacao das FILOSOPIA DA CIISE 37 monadas, sem maior realidade que estas, No entanto, em nés, tomariam elas forma, sem que entre elas se desse reciprocida- de, sendo a de estarem umas em face das outras, segundo certa, ordem de Ingar e de figura, sem comunieagbes, estranhas, to- talmente estranhas umas 3s outras. Estamos, portanto, em face de duas afirmativas. A que propiie a presenca do nada, a presenga de um ausente absoluto, porgue é nada, e a que afirma sempre a presenga do ser, no qual nio hi intersticlos nem fronteiras, porque enche tudo, sendo 0 espao apenas um esquema da colocagia e do relacion rnamento das eoisas, sem que se the d@ uma presenca real, de per sf. A primeira posiedo, to cara & filosofia racionalista, 6 um ageavamento da crisis. Ela firma ama separabilidade abso- luta © procluma a inevitabilidaée do abismo que se intereals entre os séres, A sogunda, embora afirme certa separabilida- dv, aceita-a apenas como relativa, pois tudo se funde no ser, ue & sustenticlo de tudo, eo espago, que se intereala, 6 ape- nas uma modalidade de ser, que é outro que o ser desta ot daguela coisa. Afirma ainda « orisit, mas sem o abismo in- voneivel ¢ absoluto dos racionalistas, pois, se admite greus de diferenen intensivo-extensiva entre as coisas, proclama uma comunhia no fex, no qual t6as ge sustentam, e néle eoineidem, ‘Mas se examinarmos os séres déste muntlo, poderemos con siderd-los como figuras que se formam da coordenagao de seus elementos componentes. Mas podemos ueaso deixar de reco- nhecer que fermam fotalidades eompostas de partes? Nao for- mariam essas ménades um todo, que aqui esté, éste livro, esta mesa, que se distingue, separase, e Timita-se de tantas ma- neiras? Mast esse figara, que ora nos surpreende, eurgindo do eon toro, da cireunstaneia ambiental, essa figura tem uma estruc- tura dntica e ontoldgica, 6 algo que se modifica pela actuagio de outros séres que constituem o ambiente eircunstancial, Por- ‘tanto, ndrmite modificagdes; 6 passivel de modifieacbes que se 38 AMO FERREIRA DOS SANTOS actualizam. E passivel ainda de ser destrufda, transformada em outros sores pela nego de outras estruettiras, gue neste mundo se dao, E se as coisas actuam entre ai, se elas exercem umas sobre as outras uma determinagio, temos de reeonhecer que sia de- terminaveis e que, portanto, podem sofrer o actuar das out Mas como poderiam actuar umas sdbre as outras, se entre elas se dé o nada? Niio vemos que o nada as afastaria infinitamente? S\ © nada se interpusesse, como vaded-lo, como ultrapassiclo? As coisas estariam irremediavelmente separadas, ess opinigio nfo 36 de crisis mas também de desi Nio 6, porém, o que a experiéneia nos mostra, A expe: riéneia, tanto a filoséfiea eomo a eientstica, revela-nos que o ala néio pode interealar-se entre as coisas, e até Deméerito sentiu o periga em que se abismava, tendo, afinal, reconhecido que ésse nada no poderia ser um nada, pois exa alguma coisa, dando-the uma certa eficacidade, E como o nada, sendo nada, potleria ter efiencidade? Sea tem ja 6 alguma coisa, e se 9 é, no & apenas nada, mas algo; portanto um ser que se afl ma, positivo, e nfo © negative e ausentado de ser, como € 0 conceito paradoxal de nada. Se entre duas coisas éle se interpusesse, a distincia entre elas seria infinita, Sim, porque a finitude s6 se pode dar onde ha alguma coisa, pois permite medir. O nada € imedivel, o nada seria um abismo sem fiz (1). © que se intercala entre os séres 6 ser. Modalidade de ser, diferente ou diversa, mas ser, em téda a escalaridade de ser, mas sempre ser. As coisas nfo se distanciam infinitae mente, mas finitamente, Aqui, nesta noite, mens olhos pousam ne luz daquela es tréla que britha tio longinqua, Ela vem até mit sem me (2) A smmpossiitidade de um nada absolute, entre has de sos, & por és demonstrada, apoditieamente, em “Filosotia, Conereta" FILOSOFIA. DA CRISE 29 vuoeer. Sinto-a t8nue, fragil, nos meus olkos. Como 0 nada poeria interealar-se entre mim ¢ ela? Nao recebem meus ‘thos algo da sua presenga? Néo tenho agora em mim, pal- hitante © viva, a corteza de que entre cla ¢ mim nfo hé um ‘ism insuperivel? Como poderia ela ser infinitamente se- parada de mim se neste momento nos eneontramos, mei olhos © meu espirito, ¢ uma réstia frégil de sua luz? Neste momento, hé entre nés uma comunieagho, No 6 tudo quanto poderiamos dizer um ao outro, E’ pouco, mas & alguma coisa, e nfo é nada, B se nfo é nada, é ser. E entre mime cla haa eterna presenca do ser, no qual estamos imersos que mos sustenta, 0 qual nos permite uma comunieagio, que vence todas as teorias, e atirma, irretorquivelmente, a sua pre- senga, Portanto, a erise nfo 6 tao profunda. Ela tem graus, 0 INFINITO E 0 FINITO © que Aristételes considerava infinite era 0 dpeiros, to Apeiron, do alfa privative ¢ de péras, limite; portanto, © sem -limites, 0 privada de limites, e indeterminado, o que nfo rece- beu nitidas determinagées. LY fécil desde logo reconhecer que ndo € @sse 0 contetido do conesito de infinite, quando um oci- dental © pronuncia, coisas, que tém contornos nitidos, que xe distinguem claramente umas das outras, so tinitas, so peperasménon, Timitadas. Ora, o disforme, o ilimitado, o indeterminado, 0 que ainda nfo tem uma morphé, uma forma, um pelo qual, é esta coisa e nfo outra (rodus quo dos escolastiens), 6 indistinto, porque iudeterminade e em swna, nde € plensnente, porque niio € isto ou aquifo, mas apenas tm poder ser isto ou aquilo, uma possibilidade apenss. Conseatientemente, 0 valor do infinito era o menor numa hierarquia de valores, pois poneo poderia vaier ¢ que ainda nflo é coisa alguma definida. Na cultura alexandrina, como se pode ver em Plotino, a idéia de infinito j4 india uma pujanea sem lirmites, um po- der que nfo encontra um terme fora de si, que nfo tem, em suma, earéneia de espécie alguma, ¢ que é a absoluta profi- cieneia, Com o Cristianismo, 0 conceito de infinito enriqueceu-se cada vez mais, 42 MARIO FERREIRA DOS SANTOS Se para Aristételes, como 0 era para os gregos em geral, io eva o per factwm, 0 bem acabado, o bem delimita- do — eo acto ora a perfeigko da poténeia, porque, no acto, ‘aguela encontrava o eeu aeabamento, 0 pleno exereieio de exis- tir — para os eristios, o acto puro divino & a perfeicao das perfeigoes. Todos os séres finitos, limitades, nfo aetualizam tOias as perfeicdes possiveis, nfo so, em acto, tudo quanto podem ser. acto puro divino é, em acto, tude quanto pode ser, pois, ndle, nfio hé potOneias a actualizar, ja que é 0 sumo existente, que, em si, actualiza, no plone exercicio de seu exis tir, tudo quanto 6 e tudo quanto pode ser. Déste modo o coneeito de infinite, predominante no Oci- dente, distineue-se do conceito aristotélico, pois se as coisas fio perfeigdes ao actualizawem ag suns possibilidades, ¢ nelas se dclimitam, o infinito 6 também perfeigéo, mas de outra ordem, pois aciualiza, no pleno exer‘ lo ser, que no é isto nem aquilo, mas apenas éle mesmo, em toila a maynificéneia de sou poder, em sux oranipoténcia, pois pole tudo, e & tudo quanto pode ser (1). cio de existir, a esséncia Intinita Considerando, assim, og limites das eoisas stio da sua per feigiio (em sentido aristotélico). Se as coisas tém limites, © tantos quantns Jf vimas, thdos Ales estia a indiear a perfeigie dolas, pois éles estabelecem o até onde clas so, dando nitidex & sus figura © forma, tornando-as ineonfundiveis, Neste caso, ainda a perfeicio do finito 6 erisis, pois aquela separa, distingue, nfo permaitindo que seja confundide, No ser infinito, nfio hi erisis, porque néle no hd Timites, pois éstos silo fronteiras que separam oa séres, € aquéle, fonte sustentéiculo de todos os outros, no tem fronteiras, mas ape nas perfil, na linguagem tao poética ¢ t2o elara de Parmonides, porque nao hé outro que a éle se oponha. (1) _Dizenies que apenas se distingum, pois a pevfeigto infinite & o ser absolsto, plenamente em seta, portento, néle, 18 wlonngou ata plenita: Ae tuto quanto pode ser FILOSOFIA DA CRISE 43 © conesito de finito e © de infinito exigem, no entanto, ‘que aprofundemos as nossas eriticas, e que, pela andlise, ai Ungamos, tanto quanto nos seja possivel, os seus contedidos, Todos os séres da nossa experiénefa sensfvel fio transeun- ive, pois transitam no pleno exereicio das suas processes acti- vas ¢ passivas, e sto éles gerados e corrompidos, nascem e pe- recem, 0 que se nos afigura sem fim, Néo eompreendemos uns sem 03 outros, de onde sio gerados, e todos éles dao testemu- mho do ser, que a tudo antecede, pois nfo € possivel que tenham vingo do nada, ao nada prediear-se-ia uma efieacidade de po- dor eficientizar os entes finitos, o que seria considerd-lo alguma coisa, portanto, um ser. Seja como for, por maiores dissen- que se déem entre os filGsofos para saber qual a essoncia esse ser, que tude antecede, quase todos estio de acdrdo em nm ponto: que hi de qualqner forma um ser primevo, que a tudo antecede, e que no pode ter tido um principio, ser que absolutamente é simplemente. E se é 0 primeiro, nao teria de outro & sua easéncia, nfo seria © que 6 @ nfo outra coisa, por outro, pois ése outro o antecederia ©, portanto, éste seria, © Ser E como nessa marcha niio poderemos ir ao infinito, mos de admitir, quer queiramos quer néo, que a sua es € Gle mesmo, ¢ que, portanto, néle, identificam, E sce ser primeiro nfo poderia ter limites estabelecidos por outro. Por isso € infinito ¢ infinitamente poderozo, por- que @ a origem de todos 03 outros séres que transitam néle, © por éle, E se a eua esséneia 6a sua existéneia, se esta 6 infinita, também aquela o é Conseqientemente, nao sofre ne- mhuma espécie de limitagio, sendo infinitamente perfeito, por que nada Ihe falta, nem de nada carece, pois é, em seu poder, ‘tudo. Como decorréneia ontologica, exeluimos déle a erisis. En- contramos, portanto, uma nova colocagéo desta, que pertence “4 MARIO FERREIRA DOS SANTOS © 6 da esséncia dos séres finitos, enquanto tais, pois ates 0 sho por sorem limitados (1). Mostra-nos a experiéncia que todo ser finito & Jimitado, € além disso determinado, E essa determinagio se apresenta num antes (« parte ate) e num depois (a parte post) ‘Todo o ser finito, que transita no exerefefo da sua actua- lidade, nfo existiu sempre, nem sempre existird, Veio de ou- tro, e tornar-se-# outro. De contrério em contrério, transita, ésse ser vindo do que nfo foi le, para o que nao ¢ éle, E nese transitar, nio é éle senhor absoluto do si mesmo, porque ‘6s outros, que 0 cercam, com éle se eoordenam para darhe lie mites, Désse modo, surge determinado por suas causas, e em sett existir sofre a determinagio das causas que, com éle, se coordenam, e pela accio de outras causas perecerd afinal. Determinado antes, determinado durante, e determinado rmo do seu existir, 0 ser finito carueteriza-se por essa triplice determinagio que nfo o abandona nunca, que Ihe esta- Delece limites. E tudo isso é erisis (2) Mas o Ser Supremo, que nfo teve um prévio determinan- te, niio pode ter um determinante depois, porque nfo hé outro para sébre éle exereer uma delimitagao. (1) A posted que tomamos aqui & a da aceitagto de um snico ser, principio de thas as coisas. HA outras posigies, na filosofia, como Aualsts, « pluralist, que admitem maie de wis primeipio, eubstanetatmnen- te divertos e separados une dos outros, de cuia combinaeio sungiriam ‘tag as enisas. dualism e 9 pluraliemo, como posigdas fils6tiens, no ‘tecante ao principio de Vidas 38 eieas, na adtmisiio, portunto, le sees elie cientes, substaneialmente divers, ineriados, diner, ei site, #80 Po Gas frigels, com representantes da menor categoria na fiosotia. Como qui se alntda um tema ds Ontologia ce Teolopia, & nas clas que ver fam s3bre (ais matériae, que examinacenioe as raaiee @ fever dossta posi gies e a critien que elas provocam em face das aporias (dificnlda {edvieas), que fatalmente geram. Em “Filosofia Coneceta” demonstramos 8 improcedéneia dossns pasigies (2) TP resto sentido que Piléoras afirmava quo t6dus as coisas {initas podem ser vistas triAdicsmente, 0 8 preside-at coma eomégo, meio fim (téemino) FULOSOFIA DA CRISE 45 Portanto, caracterizam-se claramente os dois conceitos de finitude ¢ de infinitude. © primeiro implica determinago antes, durante ¢ depois de sua existéneia: e © segundo, a indeterminagio antes, du- rante @ sun existéncia, a qual nfo conhece, propriamente, nem antes nem depois, porque 86 os conhecom os séres que transi- ‘tam na actuslizagdo das suas possibilidades, como 03 séres fi- nitos, Ble, plenamente em acto, néo tem sucessiio, nem tran- Sitividade, e, portante, nfo 6 tempo. E o contrério do tempo, cou, melhor, 0 que nio € tempo, é eternidade. EY éle, assim, eterno, Ao examinarmos os séres finitos, e o seu transitar pela ‘vemos que todos les tendem para algo. E ésse ten- er revela uma order, pois cada ger tende para realizar aguilo ‘que j4 est contido em sua forma. A pereira tende a dar peras, e nfo magis ou cufhaus. E assim todas as coisas tendem a realizar 9 que J4 est contido em sua forma, ou a perecer, ge- sando-se nods formas, como os rochedos, batides pelas aguas, vo corromper-se, decampor-se, transformarse em areia, ‘To das as coisas tém um fim, um tender para, que se revela no transitar, finalidade, que esté contida na sua forma, intri 0 ente, Mas, verificam ainds os fil6sofos, que hé outras finalida- des, E entre escas, a que & uma verdadeiza lei, a qual cha- mamos “lei do bem”, ‘Tédas as coisas procuram 0 seu bem, © nesse afanae, revelam tOdas uma norma: empregam 0 minimo de esforgo para aleancar o maior bem. E que maior bem existe que 0 Ser Supremo que actualiza a ommipoténcia? Todas as coisas tendem a imité-lo, pois tddas desejam alcancar a maior soma de perfeigdes. HA assim um fim, um fim ditimo, ponte e fundamento de tantas reli aleancar 0 bem supremo, no qual todo o bem possivel j4 ¢ acto. Déste modo, todas as coisas revelam um fim ditimo, que Ihes é extrinseco. E 6 extrinseen porque ainda nao o alean garam, e ndo € constitutive da sua esséncia, mas revela-se no afanar por vencer os obstiiculos que as outras opdem,