Você está na página 1de 2

Urge refundar a escola da República

Santana Castilho *

Vários responsáveis políticos, a propósito do centenário da República, exortaram-nos a abraçar


e desenvolver os valores maiores do seu ideário: a democracia, a cidadania e a justiça social.
Porém, para que o apelo tenha eco, as palavras já não chegam. É preciso que algo aconteça.
Não porque os exortados se recordem do desastre dos primeiros anos da República. Mas
porque se lhes pegaram à pele e às entranhas as marcas da degradação dos últimos em que
têm vivido.

Num século fez-se muito. Mas não se fez o possível, muito menos o desejável. A República tem
cuidado pouco de todos os cidadãos e permitido que alguns cuidem escandalosamente de si
próprios e dos seus, em detrimento dos outros. Este não é o ideário dos republicanos
genuínos, que viram no regime o baluarte do humanismo e da democracia. Ao arrepio desses
valores, muitos representantes da República, impreparados e incultos, sem réstia de sentido
de Estado, tomaram a escola e os professores, os tribunais e os juízes, os hospitais e os
médicos como cobaias sociais, para aí experimentarem tecnocracias neoliberais e fomentarem
hediondas invejas sociais. A subida ao poder desta casta de atrevidos colocou o Estado em
licença sabática primeiro, para o entregar depois á gula do negócio, da corrupção e do
esbanjamento. É tempo da República dizer basta.

No que toca á escola, as intervenções inadiáveis são muitas e avassaladoras. O Ministério da


Educação carece de uma desinfestação que varra a ortodoxia pedagógica e o centralismo
burocrático que o dominam. A sua estrutura orgânica, no que importa intacta há 30 anos, deve
orientar-se para uma verdadeira autonomia das escolas e ser posta ao serviço do controlo da
qualidade, da supervisão do sistema e da concepção das políticas educacionais da República.
As direcções regionais são um bom exemplo de excrescências administrativas a extinguir.

Os planos de estudo e os programas disciplinares clamam por coerência científica e por


harmonia com realidades que lhes são externas mas que têm, obrigatoriamente, que os
condicionar. Os jovens não podem continuar a ser sequestrados nas salas de aula de manhã à
noite. A escola não pode tratar tudo. É preciso fazer escolhas, definir prioridades para cada
ciclo de estudos e ser exigente em todos. A “escola inclusiva” e a “escola a tempo inteiro”, tal
como têm vindo a ser postas em prática, a “área de projecto”, o “estudo acompanhado” e
outras epígrafes pedagógicas diletantes são, também, bons exemplos de tumores a extirpar.

É evidente que há uma crise de autoridade na escola. Quando a estudamos, são esmagadoras
duas evidências responsáveis: do ponto de vista interno, as políticas impostas, que desprezam
a solução dos problemas e se orientam para a manipulação fraudulenta dos resultados; do
ponto de vista externo, a crescente demissão dos pais para imporem disciplina aos seus filhos.

Por razões económicas (naturalmente lamentáveis) ou em nome de direitos individuais


(certamente compreensíveis), designadamente de carreira profissional e de fruição da
independência pessoal, os portugueses têm poucos filhos. Mas quando decidem gerá-los,
exigem da escola e dos professores, desta feita em nome de direitos sociais, que sejam,
cumulativamente, pais e mães por delegação, educadores sexuais, psicólogos e tudo o mais
que o relativismo laxista em que caímos despeja na escola. Obviamente que isto está errado e
carece de correcção. A República tem que recuperar o consenso secular entre a família e a
escola e entre esta e a sociedade quanto à orientação das gerações mais novas. Porque está
errado pensar-se que a escola se realiza sem disciplina, sacrifício e trabalho. Porque está
profundamente errado que os pais tenham deixado de ser os primeiros aliados dos
professores na modelação dos filhos. A autoridade é uma referência indispensável ao
crescimento saudável das crianças. A sua presença deve começar em casa e prosseguir na
escola. A escola e os professores não podem pactuar com pais que querem que o pouco tempo
que passam com os filhos seja um tempo de doces afectos, livre de conflitos e do trabalho que
dá disciplinar. E aqui chegados, tropeçamos numa das maiores inutilidades do sistema: o
estatuto do aluno, onde os regimes de faltas e disciplinar e as provas de recuperação são hinos
á imbecilidade desprovida de sentido. É dever da República devolver aos professores a
soberania suficiente para disciplinarem de forma célere e expedita. É dever da República
conferir às faltas injustificadas á escola consequências sérias, pelas quais devem responder, de
modo efectivo, pais e filhos. Roma não pagava aos traidores. A República não deve pagar a
irresponsabilidade e os formalismos inúteis.

É igualmente evidente que a desconfiança marca hoje a relação entre o Estado e os


professores. O tempo perdido a congeminar perversas classificações do desempenho e
estatutos de carreira blindados contra a independência intelectual e pedagógica dos
professores foram vias para a decadência da dignidade da República. A prestação de contas e a
evidência social da responsabilidade profissional dos professores e institucional da escola
conseguem-se por caminhos bem mais sólidos, que a República deve perseguir. A recuperação
de exames nacionais sérios a todas as disciplinas no fim de todos os ciclos de estudos, segundo
metodologias que garantam a comparabilidade dos resultados ao longo dos anos, pode ser um
bom começo.

* Professor do ensino superior. s.castilho@netcabo.pt