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A conversão de Abel

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Por Re-ligare | Sexta-feira, 29 Janeiro , 2010, 00:28

A mediatização de conversões ao Islão tornou-se, em certa medida, uma moda. Abel


Xavier termina a carreira com uma decisão que, não sendo estranha, é surpreendente.
Tendo em conta os argumentos apresentados – razões do “interior” – o gesto é
inquestionável. A adesão a uma religião, em contexto ocidental, é um gesto de liberdade.
As circunstâncias ditam a opção, mas é em liberdade que um qualquer cidadão decide a fé
que entende professar.
Abel Xavier confessa que foi no Islão que encontrou forças e conforto quando jogou na
Turquia. Para quem se deu a conhecer ao mundo do futebol pela excentricidade, com
engenho para a imagem e arte para estranhos hábitos, é uma opção radical. Podendo ser,
como afirma o jogador, uma religião que “professa a paz, a igualdade, a liberdade e a
esperança”, o Islão implica também a submissão a um exigente código de conduta social e
religiosa, praticado em liberdade e consciência, o que nem sempre acontece.
A conferência de imprensa onde Abel Xavier anunciou a conversão, apadrinhado por um
membro da família real dos Emirados Árabes Unidos, teve destaque mediático no “mundo”
islâmico. É inevitável a ligação religiosa ao ambiente cultural e convém sublinhar que não
há reciprocidade na liberdade religiosa que permitiu a Abel Xavier encontrar o conforto da
fé islâmica. Em países de hegemonia cultural islâmica, onde não faltará quem registe este
momento como uma vitória contra o Ocidente, crentes de outras religiões são perseguidos
até à morte.
A liberdade religiosa não é universal, nem imutável onde já existe. A conversão de uma
figura mediática ao Islão devia ser uma oportunidade para valorizar a liberdade religiosa,
uma difícil conquista que, não sendo intocável, pode também esvair-se num
multiculturalismo mal formado, disfarçado de laicidade. O respeito pelo diferente, pela
diferença, arrisca-se a sucumbir na permissividade.
No que à(s) religião(ões) diz respeito, espera-se que a intrínseca dinâmica de proselitismo,
a liberdade para cultuar, propor e aderir a várias propostas de fé e consequentes
implicações nos hábitos sociais, não viole os Direitos do Homem, regulados em leis
fundamentais. Se a religião tem o dever de questionar a sociedade, a sociedade tem o
direito de questionar a religião. A intolerância religiosa, tal como o fanatismo agressivo e o
recurso à violência sob pretexto religioso, têm origem em cenários de ausência de
liberdade religiosa ou… de vazio religioso.
Vale a pena lembrar que, na sequência da polémica das caricaturas de Maomé,
protagonistas políticos europeus apressaram-se a deitar água na fervura para acalmar o
“mundo” islâmico, mas não se atreveram a exigir a reciprocidade na tolerância e no
tratamento das minorias religiosas nos países islâmicos. Esta atitude não ajuda os muitos
pensadores e intelectuais do Islão que, com coragem, introduzem a religião na
secularidade, questionando práticas, repensando caminhos, redefinindo estruturas,
canalizando a “razão” para o difícil domínio do religioso, auxiliando a convivência. A
necessária crítica a uma certa modernidade ocidental não pode ser feita à custa do
humanismo e a passividade ocidental é inquietante.
Na Europa, os muçulmanos estão entre a espada e a parede, ou seja, entre um
indisfarçado preconceito nas ruas e o radicalismo contagioso que persiste em
comunidades perigosamente impenetráveis. Por um lado são pressionados a revelar
lealdade para com a cultura ocidental, provando que a religião islâmica é pacífica. Por
outro, são vítimas da incompreensão e dos estereótipos que alimentam os radicais de uma
tradição bélica e hegemónica.
A conversão de Abel Xavier é um feliz sinal da liberdade religiosa. Na fugacidade do tempo
mediático, o episódio passa como mais uma excentricidade da figura. Podia ser uma
oportunidade para o debate, mas não há Caim para este Abel...

Joaquim Franco
Publicado na SIC on line