Você está na página 1de 4

A década em que as ilusões morreram

Público 2009-12-31

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/31-12-2009/a-decada-em-que--as-ilusoes-morreram-18497629.htm

Acreditámos durante anos que a prosperidade era ininterrupta e que um mundo


sem conflitos era possível. A última década obrigou-nos a olhar para a realidade
sem quaisquer ilusões. Dessa década emergiu uma sociedade à procura de
confiança e de uma ideia de futuro. E dezenas de palavras - muitas delas novas -
para a descrever

Aos olhos dos jornalistas, todas as décadas são superlativas. Todas mudaram o
mundo e todas mudaram as nossas vidas. Nada foi como dantes depois da Apolo
11, do 25 de Abril, da queda do Muro de Berlim ou da explosão da Internet - para
nomear apenas quatro momentos-chave, entre outros, das quatro últimas décadas.
Então, o que distinguiu realmente esta década que, como as anteriores, conhece o
seu fim jornalístico um ano antes do seu verdadeiro epílogo? Muito provavelmente,
o pessimismo. E também a globalização. Mais do que as catástrofes, contou o modo
como olhámos para elas, do Katrina ao tsunami do Índico. Mais do que conflitos,
enfrentámos atentados, guerras simbólicas que depois deram origem a guerras
reais. Do 11 de Setembro à crise económica de 2008, vimos o eixo do mundo
deslocar-se. Da "nova ordem mundial" anunciada depois do fim da URSS para uma
guerra religiosa global desencadeada pelo fundamentalismo islâmico; do domínio
do Ocidente ao declínio da potência americana e à emergência incontornável dos
novos actores asiáticos, China e Índia. Entre o ataque às Torres Gémeas e a
falência do Lehman Brothers, perdemos as nossas referências e não fomos
incapazes de inventar balizas novas. Enquanto ficámos sem saber como pensar,
nunca os seres humanos comunicaram tanto como agora. Dos protestos nas ruas
de Teerão inscritos no YouTube à banalização da blogosfera ou das redes sociais,
passámos a viver ainda mais em tempo real. Mais importante ainda, as pessoas
apropriaram-se da comunicação e do poder que esta representa e podem projectá-
lo à escala planetária. Mas no mundo desta década, uma capacidade maior para
fazer perguntas não foi capaz de encontrar ou de ouvir respostas sobre o futuro.
Foi também assim a década portuguesa. Inaugurada sob o signo de uma catástrofe,
a queda na ponte de Entre-os-Rios, e pela expressão que António Guterres usou
para se despedir do poder, no final desse sombrio ano de 2001: "o pântano".
Passámos todos estes anos a tentar fugir dele, sem encontrar a saída. Para o
défice, para a reforma do Estado, para o modelo de desenvolvimento económico,
até a crise internacional nos ter atirado ainda mais para o fundo. Ao mesmo tempo,
a sucessão infindável de escândalos judiciais, todos fortemente mediatizados e
quase nenhum resolvido nos tribunais, abalaram a confiança nas instituições e
aumentaram a distância entre governantes e governados.
No país, como no mundo, é uma sociedade à procura da confiança, de um sentido e
de uma ideia de futuro.
Esta década que acaba (sem acabar) foi sobretudo a do fim das ilusões. Do fim da
ilusão da prosperidade ininterrupta, do fim da ilusão de um mundo sem conflitos,
do fim da ilusão de um mundo cuja história podia acabar. Voltámos à realidade da
história que não se deixa aprisionar por um discurso e de um presente que passou
a ser escrito por culturas diferentes, todas com uma vida própria. Ainda não temos
as palavras certas para viver nesse mundo. Guardemos portanto as da década que
passou. As que designam os principais pontos de viragem da história, os novos
termos que entraram na linguagem de todos os dias e alguns dos nomes que
marcaram os últimos dez anos.
Miguel Gaspar

11 de Setembro

Einstein disse um dia que as guerras do futuro seriam primitivas e travadas com
arco e flecha. A barbárie chegou transformando em arma de arremesso um símbolo
da tecnologia do século XX, o avião a jacto, com o objectivo de destruir os símbolos
icónicos do poder americano, como as Torres Gémeas e o Pentágono. O século XXI
começou aqui, nessa manhã de sol a partir da qual nada voltou a ser como dantes.
Nascia um novo tipo de conflito. Chamaram-lhe assimétrico, religioso, civilizacional.
Mas foi sobretudo simbólico.
Filmados e transmitidos em directo, a destruição dos símbolos do poder americano
e o dia em que o pânico se apoderou da América foram tão ou mais poderosos do
que um ataque nuclear.
O 11 de Setembro foi o princípio de um Inverno global, anunciado pelas cinzas das
Torres Gémeas. Arrefeceu a economia, generalizou o medo do ataque aleatório, fez
nascer uma paranóia securitária e separou culturas que passaram desde então a
olhar-se com desconfiança.
Mais do que isso, envolveu a América em duas guerras, no Afeganistão e no Iraque,
que não conseguiu ganhar.
Depois do 11 de Setembro, não houve outro atentado que lhe fosse comparável.
Mas os seus efeitos políticos vão prolongar-se além da década que definiu.
Miguel Gaspar

Aquecimento global

As percepções da sociedade mudaram muito entre 2001 e 2007, os anos em que


foram divulgados os mais recentes relatórios de avaliação do que sabe a ciência
sobre o aquecimento global, feitos pelos peritos que trabalham para o Painel
Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas, sob a alçada das Nações
Unidas.
Em 2001, as alterações climáticas ainda eram apenas mais uma história da
temática ambiental, juntamente com a crise da biodiversidade e outras. Em 2007, o
mundo estava pronto para se alarmar.
O relatório do economista Nicholas Stern para o Governo britânico tinha expresso
em números o quanto nos custaria ignorar o problema (20 por cento do PIB
mundial) e quanto seria preciso investir para evitar os piores efeitos das alterações
climáticas (um por cento do PIB por ano).
O filme e o livro de Al Gore Uma Verdade Inconveniente tornaram-se um
fenómeno de popularidade, 2005 teve uma extraordinariamente longa e violenta
época de furacões no Atlântico, o Verão de 2003 foi marcado por uma onda de
calor na Europa que provocou um excesso de mortes em vários países - políticos e
cidadãos começaram, de facto, a preocupar-se. Mas ainda não o suficiente para
haver um consenso na tão esperada conferência de Copenhaga deste mês, em que
se procurava um acordo que sucedesse ao Tratado de Quioto para limitar as
emissões de gases com efeito de estufa, que caduca em 2012.
Clara Barata
Desemprego

Não é uma palavra nova, mas, aos poucos, como um lento cerco, cada português
passou a conhecer alguém que caíra nessa armadilha. No final de 2009, a taxa de
desemprego ultrapassa os 10 por cento, algo nunca visto em Portugal. E fala-se já
que, em 2010, se atingirá os 15 por cento. Como se bateu tão fundo?
Sim, houve a crise internacional. Mas antes Portugal teve 20 anos de reconversão
económica com fracos resultados. Nos anos dourados do cavaquismo, optou-se por
uma política de choque cambial que obrigasse os exportadores a mudar de modelo.
Depois, nos anos 90, a fixação de uma cotação elevada do escudo no euro terá
prejudicado a competitividade das exportações. Desde então, Portugal viveu dez
anos de divergência face à Europa (crescimento económico inferior à média da
União Europeia). Mesmo em conjunturas favoráveis, o nível médio do desemprego
tem subido face ao passado. E depois, sim, foi a crise dos empréstimos
bancários subprime, que se expandiu nos Estados Unidos até redundar na falência
da firma Lehman Brothers no Verão de 2008 que, por sua vez, se contagiou ao
sistema financeiro europeu. A banca em apuros fechou os canais de crédito. Tudo
parou sob a ameaça da maior crise internacional desde os anos 20.
Em Portugal, o Governo preferiu divulgar a ideia de que se viveria num oásis. No
Verão de 2008, ainda se dizia acreditar que o pior já tivesse passado. Mas foi uma
questão de tempo. O fecho de empresas ou a sua paragem de actividade encheu os
noticiários. Desde Janeiro de 2009, cada mês trouxe aos centros de emprego entre
60 a 70 mil novos desempregados.
João Ramos de Almeida

Deus

Uma palavra apareceu sob as cinzas dos atentados de 11 de Setembro: Deus. A


motivação religiosa invocada pelos terroristas foi condenada por todas as religiões.
"Patologias e doenças mortais da religião", diria o Papa Bento XVI, cinco anos
depois, em Ratisbona, numa viagem que levaria milhares de muçulmanos a
manifestar-se contra a frase, citada pelo Papa, em que se falava de Maomé como
portador de "coisas más e desumanas".
A década foi marcada por outros factos em que a dimensão pública da religião,
depois da "morte de Deus", (re)apareceu em força. Os cartoons de Maomé
motivaram reacções de muçulmanos. O carisma, as viagens e o funeral, em 2005,
do Papa João Paulo II atraíram milhões. O debate sobre a herança cristã da Europa,
a propósito do tratado constitucional, teve momentos polémicos.
Mas também houve líderes e crentes de diferentes religiões unidos pela paz
(encontros de Assis) ou no apoio a vítimas da pobreza, perseguições e catástrofes.
Em Portugal, Fátima viu crescer a atracção do lugar simbólico para cinco milhões
por ano, cem mil mobilizaram-se para escrever a Bíblia Manuscrita e a comunidade
monástica de Taizé trouxe a Lisboa, há cinco anos, 40 mil jovens de toda a Europa
- onde 67 por cento se afirmam "pessoas religiosas" e 51 por cento frequentam um
serviço religioso. O sociólogo da religião Thomas Luckmann, que há 40 anos falou
da "religião invisível", diz que a religião passou a ser individual. E que essa é uma
"componente estrutural nas sociedades americana e europeia". "O religioso nunca
se foi embora, só mudou a sua face." Deus continua a estar em toda a parte.
António Marujo
Download

Há os legais, claro - os pagos -, mas há, sobretudo, os ilegais - aqueles a que


chamamos "pirataria", que saltam por cima dos direitos de autor e das normas da
indústria tal como a conhecemos.
E são estes últimos - o que representam - que mais estão a mudar o mundo.
Música, filmes, documentários, séries, jogos e bibliotecas inteiras de poesia,
romance e ensaio - os conteúdos que em tempos comprávamos na forma de LP,
CD, DVD e até livros em papel estão cada vez mais ali. Estão suspensos na
Internet, prontos a serem descarregados para o disco rígido do nosso computador
pessoal, para uma pen ou para qualquer outro suporte digital. Prontos a serem
consumidos a custo zero e sem sair de casa, frequentemente, antes mesmo de
terem chegado ao circuito de distribuição a que estavam destinados, quer sejam as
salas de cinema, a televisão ou os mercados discográficos e livreiros tradicionais.
Não vale a pena tentar inverter esta tendência: a democracia no acesso à cultura,
hoje, também é isto.
Vanessa Rato

Genoma

A palavra entrou de tal maneira na linguagem quotidiana que a tratamos tu cá, tu


lá. Para tal muito contribuiu a conclusão do grande projecto de leitura dos seis mil
milhões de letras (metade vinda da mãe e a outra do pai) do ADN humano. A
leitura de todos os A, T, C e G da molécula de ADN andava a ser feita desde 1990,
por um consórcio público internacional. Em 1998, entrou na corrida o americano
Craig Venter, e a competição acelerou as coisas.
A década arrancou com o tão aguardado anúncio: a 27 de Junho de 2000, na Casa
Branca, Venter e Francis Collins, o chefe do consórcio internacional, declaravam, ao
lado do Presidente dos EUA Bill Clinton, que estava pronto o primeiro rascunho do
genoma, com uma precisão superior a 90 por cento. A 14 de Abril de 2003 a leitura
é dada por terminada. Um ser humano tem 30 mil genes (havia estimativas de 140
mil), cuja sequência de A, T, C e G comanda o fabrico das proteínas, os tijolos das
células. Afinal, a nossa complexidade não está no número, mas na ligação
intrincada entre genes.
Nesta década entrou-se também na era da genómica pessoal: cada um de nós pode
ler, por umas centenas de euros, uma pequena parte das suas letras, em busca da
predisposição para doenças ou dos antepassados genéticos. E por menos de um
milhão de euros pessoas como James Watson, co-descobridor da estrutura do ADN,
já tiveram o seu genoma todo sequenciado.
Teresa Firmino