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A ingovernabilidade de Portugal na primeira década do século XX

Retrato da Europa

Por Maria José Oliveira, Público 2010-01-03

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/03-01-2010/a-ingovernabilidade-de-portugal-na-primeira-decada-do-
seculo-xxretrato-da-europa-18514739.htm

Na primeira década do século XX o regime monárquico estava moribundo. A crise


política e institucional agudizou-se com escândalos e com a bancarrota do Estado.
O fim da monarquia afigurou-se inevitável. Mas a republicanização já começara há
muitas décadas

Pouco mais de um mês após um dos episódios mais trágicos da história nacional do
século XX - os assassinatos de Dom Carlos e do príncipe Luís Filipe -, Ramalho
Ortigão publicou na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro um texto que retratava,
segundo o autor, a decadência política e social que se arrastava pelo país há muitos
anos.
O diagnóstico de Ortigão, que situava o regicídio no rol de consequências de um
Portugal moribundo, começava por caricaturizar o período do rotativismo liberal,
para, de seguida, traduzir aquilo que denominava como "decomposição da
sociedade". "Nenhum dos dois partidos [Progressista e Regenerador] a si mesmo se
distinguia do outro, a não ser pelo nome do respectivo chefe, politicamente
diferenciado, quando muito, pela ênfase de mandar para a mesa o orçamento ou de
pedir o copo de água aos contínuos", escreveu em Dom Carlos - o Martirizado
(Ática).
Sobre a sociedade portuguesa, "lentamente, surdamente, progressivamente
contaminada pela mansa e sinuosa corrupção política", o escritor foi impiedoso: "A
indisciplina geral, o progressivo rebaixamento dos caracteres, a desqualificação do
mérito, o descomedimento das ambições, o espírito de insubordinação, a
decadência mental da imprensa, a pusilanimidade da opinião, o rareamento dos
homens modelares, o abastardamento das letras, a anarquia da arte, o desgosto do
trabalho, a irreligião, e, finalmente, a pavorosa inconsciência do povo."
A ilustração, desgostosa e, ao mesmo tempo, indignada, é feita por alguém
insuspeito. Porque Ramalho Ortigão não prestou tributo à República, como
sublinhou numa carta dirigida a Teófilo Braga poucos dias depois da revolução
republicana (5 de Outubro de 1910). E, recusando engrossar "o abjecto número de
percevejos" que estavam a "cobrir o leito da governação", pediu demissão de
bibliotecário da Biblioteca Real (tinha sido nomeado por D. Carlos) e exilou-se em
Paris.
A leitura de Ortigão sobre o estado do país era, porém, consensual. Recolhia o
mesmo entendimento por parte do rei, dos políticos monárquicos e dos
republicanos. Os sintomas da crise que se abateu sobre a monarquia constitucional
agudizaram-se a partir de 1900 (e culminaram, como se sabe, com a revolta
armada de 5 de Outubro de 1910, que pôs fim a um regime multissecular) e foi
precisamente na primeira década do século XX que os republicanos, sobretudo
aqueles que estavam afectos ao Partido Republicano Português (PRP), desferiram
ataques constantes à monarquia - sobretudo através da imprensa, das intervenções
na Câmara dos Deputados e das tentativas de "incendiar" as ruas das grandes
cidades com fortes acções de contestação.
Debelar a crise política
À crise do constitucionalismo monárquico liberal somaram-se o descontentamento
social, a sucessão de escândalos (casos de corrupção, evasão fiscal e clientelismos
que não podiam ter sido mais propícios à propaganda republicana), as crises
económicas e financeiras que entorpeceram a acção governativa dos governos, a
bancarrota do Estado.
A palavra ingovernabilidade soou alto ao longo do decénio. Assim como se tornou
cada vez mais audível o questionamento sobre a importância da monarquia. Em
1906, D. Carlos tentou insuflar algum oxigénio no regime: deu por findo o
rotativismo liberal e convidou João Franco, dissidente do Partido Regenerador e
fundador do Partido Regenerador Liberal, a formar Governo. "Foi uma tentativa de
restaurar os partidos. Além disso, Franco tinha a reputação de ser um homem
honesto, não recaíam sobre ele suspeitas de corrupção. E tinha boas relações com
os republicanos", nota o historiador Rui Ramos.
Esta iniciativa de recuperar a credibilidade das instituições constituiu uma das três
fases fundamentais dos anos 1900-1910. José Miguel Sardica, historiador e autor
de A Dupla Face do Franquismo na Crise da Monarquia Portuguesa (Cosmos),
caracteriza da seguinte forma os três períodos: de 1900 a 1906 imperou o
rotativismo, com os partidos Regenerador e Progressista a revesarem-se no poder;
o franquismo governou entre Maio de 1906 e Fevereiro de 1908 (marcado pela
intentona republicana de 28 de Janeiro de 1908 e pelo regicídio); e de Fevereiro de
1908 a Outubro de 1910 o reinado de D. Manuel II deu continuidade à instabilidade
política, com a subida ao poder de seis executivos.
O confronto entre a anunciada "República ordeira" e uma monarquia decadente e
submersa em escândalos foi beneficiado pelo ambiente de crise política que,
segundo Joaquim Romero Magalhães, não sofreu atenuantes com a nomeação de
João Franco. "Num regime de monarquia constitucional o rei deve ter um papel
moderador, não deve estar implicado em qualquer partido. Poder-se-á dizer que o
regime constitucional monárquico não foi bem interpretado em Portugal", afirma o
historiador e autor do recentíssimo Vem aí a República. 1906-1910 (Almedina).
A decomposição do sistema traduz também uma crise de cultura política,
acrescenta Maria Alice Samara, investigadora do Instituto de História
Contemporânea (IHC) da Universidade Nova de Lisboa e especialista na Primeira
República. "Tal como julgavam os republicanos, assistiu-se a um abastardamento
do regime liberal. Os homens que estavam no Governo não representavam o povo,
eram criaturas do rei. O ambiente de crise permite aos republicanos a apresentação
de uma resposta nova, de uma regeneração, que é também feita com outras
sensibilidades políticas", explica.
"Uma República com rei"
As características oligárquicas do rotativismo parlamentar, como aponta Fernando
Rosas em História da Primeira República (Tinta da China), e o "crescente impasse
das instituições" contribuem para empolamento, operado pelos republicanos, do
conjunto de escândalos que marcaram a década. "Estes casos são uma espécie de
bitola da degenerescência da situação", diz Luís Farinha, historiador e investigador
do IHC. "Há escândalos de finais do século XIX que são resgatados porque o
momento é propício. E outros, como o caso dos adiantamentos que era comum no
século anterior, são agora alvo da contestação dos deputados republicanos",
acrescenta.
Mas a oposição republicana também ganhou terreno na divisão que se acentuava
entre os monárquicos, traduzida nas cisões partidárias, nota Alice Samara.
O historiador Rui Ramos entende, porém, que o regime tinha características
republicanas - "dentro e fora o país era visto como uma República com rei" -,
justificando assim a ausência da questão da defesa da monarquia. "A classe política
não era monárquica, era liberal. E acreditava que, perante uma eventual mudança
de regime, continuaria a governar. Por isso, desprezavam os republicanos. E não os
consideravam suficientemente fortes e organizados", explica.
A incapacidade de formar um Governo estável (notória entre 1900 e 1906) sofreu
apenas um intervalo durante o Executivo de João Franco. Mas o regicídio, que,
segundo Ramos, "dessacralizou a própria monarquia", prolongou a instabilidade
governativa - D. Manuel II, muito influenciado pela mãe, a rainha D. Amélia,
"chamou para o poder os inimigos de D. Carlos" - e precipitou o fim inevitável do
regime.
Em Outubro de 1910 as monarquias dominavam ainda a Europa (a hecatombe
aconteceu apenas depois da Primeira Guerra Mundial). França, Suíça e o novo
Portugal republicano eram as excepções.

Em Outubro de 1910, as monarquias dominavam ainda a Europa (a


hecatombe aconteceu apenas depois da Primeira Guerra Mundial). França,
Suíça e o novo Portugal republicano eram as excepções.

"A mudança do regime em 1910 aconteceu, na verdade, em 1834", defende Rui


Ramos

A maior parte da historiografia identifica o Ultimato britânico, em 1890, como o


princípio do fim do constitucionalismo monárquico. O país sentiu a humilhação na
pele e insurgiu-se contra a submissão da Coroa portuguesa aos interesses
britânicos em África, manifestando-se nas ruas, alterando a toponímia, boicotando
os produtos importados do Reino Unido.
Um ano depois, a 31 de Janeiro, no Porto, os republicanos vêem gorada a sua
tentativa de mudar o regime. Mas a revolta indica que o movimento republicano
está preparado para encetar um caminho sem regresso.
Segundo Fernando Rosas, são os efeitos da instabilidade política provocada pelo
Ultimato que colocam "explicitamente" em causa a legitimidade do regime:
"Abalam, pode dizer-se que definitivamente, a plácida rotina do rotativismo
oligárquico e criam no Partido Republicano Português, após o ensaio insurreccional
de 31 de Janeiro de 1891, no Porto, uma corrente crescentemente seduzida pela
imprescindibilidade da tomada do poder pela via revolucionária."
Para Rui Ramos a origem da crise política e institucional remonta, porém, a um
momento anterior: a Revolução Liberal de 1834. "Foi nessa altura que se deu o
maior corte na vida institucional portuguesa e deu-se início à republicanização do
país. A mudança do regime em 1910 aconteceu, na verdade, em 1834", afirma.
É nesse momento que os cargos do Estado deixam de ser monopólio das grandes
famílias da nobreza e dá-se por terminada a governação monárquica vigente desde
a Restauração. "Os liberais viraram o país do avesso", sublinha Rui Ramos,
"arruinaram a nobreza e criaram as condições para a republicanização total do
Estado." Basta atentar no programa do Partido Republicano, que, diz Ramos, "é
igual ao dos partidos liberais". Quando se deu a revolução de 5 de Outubro de
1910, em que é "eliminada" a figura do rei, o regime republicano há muito que
criara raízes.
Os adiantamentos

Republicanos acusaram a família real de roubar a Fazenda Pública

O caso dos adiantamentos à Casa Real foi um dos escândalos que marcou a
primeira década do século. E foi devidamente aproveitado pela propaganda
republicana. A prática de a família real pedir adiantamentos à Fazenda Pública -
quando os montantes fixados e os rendimentos da Casa de Bragança se revelavam
insuficientes para as despesas dos monarcas - era um hábito, diz o historiador Luís
Farinha.
Mas o assunto ganhou novos contornos em 1906, quando João Franco abordou o
tema na Câmara dos Deputados para esclarecer que o Governo prestaria contas ao
Parlamento sobre todos os adiantamentos. Os quatro parlamentares eleitos por
Lisboa (Afonso Costa, Alexandre Braga, António José de Almeida e João de
Menezes) regozijaram-se. Provocaram debates incendiários na Câmara, acusaram a
família real de roubar o erário público e, coadjuvados pela imprensa republicana,
caíram nas graças do país.
As discussões parlamentares ascenderam a níveis pouco elevados, escreve Joaquim
Romero Magalhães em Vem aí a República. E as palavras de Afonso Costa e
Alexandre Braga valeram-lhes mesmo a suspensão por um mês das funções
parlamentares.
Costa foi o primeiro a ser expulso da Sala das Sessões. Exigindo a prisão do rei,
disse: "Por muito menos crimes do que os cometidos por D. Carlos I, rolou no
cadafalso, em França, a cabeça de Luís XVI!" Braga prosseguiu no mesmo tom e foi
também obrigado a abandonar a Câmara. António José de Almeida tentou outra
estratégia: subiu para a sua mesa e bradou aos soldados para que fossem prender
o rei ao Palácio das Necessidades. Só não foi expulso porque já havia "estardalhaço
suficiente", conta Romero Magalhães.
Concluído o ruído, o alvoroço popular em torno dos adiantamentos estava
instalado. E delapidou o prestígio da monarquia.

Maria José Oliveira