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A pedra que confirmou a luz de Hanukkah

Por António Marujo

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/18-12-2009/a-pedra-que-confirmou-a-luz-de-
hanukkah-18438944.htm

Por causa da importância do azeite na origem desta


festa, as tradições gastronómicas da celebração
judaica de Hanukkah (que amanhã termina) são à
base de fritos em azeite. Tudo começou quando um
rei selêucida profanou o templo de Jerusalém com
uma estátua de Zeus e porcos sacrificados. Uma
pedra que estava partida em três pedaços veio agora
confirmar um dos episódios na origem da história

Uma descoberta arqueológica em Israel confirma o que pode ser uma das causas históricas da
Festa das Luzes, ou Hanukkah, que amanhã termina em todo o mundo judaico. Três
fragmentos de pedra achados em alturas diferentes fazem, afinal, parte da mesma tábua.
Juntos, contêm um decreto real com a nomeação de um cobrador de impostos, um dos factos
que terão estado na origem da revolta dos Macabeus, século e meio antes de Cristo.
Foi após essa revolta que os judeus passaram a celebrar também a purificação do Templo de
Jerusalém.
O decreto do rei Seleuco IV, do Império Selêucida da Síria, traduzia uma alteração profunda
nas relações entre o ocupante e os judeus. De acordo com o Jerusalem Post, que divulgou a
descoberta na semana passada, o decreto era dirigido ao ministro-chefe, Heliodorus, e a dois
outros responsáveis da corte selêucida, Dorymenes e Diófanes.
A nomeação do cobrador de impostos para as províncias de Israel incluía uma ordem para
recolher dinheiro do Templo, de acordo com a notícia, citada pelo jornal electrónico Página Um,
da Rádio Renascença. Este episódio seria o primeiro de uma série a criar um grande mal-estar
entre a potência ocupante e os judeus.
Pouco mais tarde, o irmão e sucessor de Seleuco, Antíoco Epífanes, decide levar até ao fim a
helenização iniciada pelo seu antecessor. Em 168 a.E.C. (antes da Era Comum), Antíoco ataca
e pilha Jerusalém. Três anos depois, proíbe a celebração do Shabat, a leitura da Bíblia e a
circuncisão.
A destruição da cidade santa inclui também a profanação do Templo. O relato desses conflitos
está registado nos dois livros bíblicos de Macabeus. No primeiro, conta-se: "Entrando com
arrogância no Santuário, [o rei] apoderou-se do altar de ouro, do candelabro com todos os seus
acessórios, (...) da decoração de ouro sobre a fachada do Templo: tudo ele despojou. (...)
Carregando tudo isso, partiu para o seu país, depois de ter derramado muito sangue e
proferido palavras de extrema arrogância. Por isso levantou-se grande lamentação sobre Israel
em todas as localidades do país."
O rei decide ainda, posteriormente, mandar colocar uma estátua de Zeus sobre o altar dos
holocaustos do Templo. Ao mesmo tempo, ordena a realização de sacrifícios com porcos.
Ultrajes para os judeus. "Abominação da desolação", chama-lhe o autor do livro de Macabeus.
Estes episódios levam Matatias e os seus três filhos (Judas Macabeu, Jónatas e Simão) a
liderar uma guerra de guerrilha contra o ocupante selêucida. Num dos episódios da
perseguição, duas mulheres são apanhadas a fazer a circuncisão e, por causa disso, atiradas
pela muralha de Jerusalém.
Após seis anos de batalhas sucessivas, Judas Macabeu consegue, no ano 160, a liberdade
religiosa para os judeus, aos quais é permitido manter as suas tradições. É nessa altura que o
Templo é de novo purificado. Conta-se que alguém encontrou um pote com azeite suficiente
para acender a chama sagrada do Templo durante um dia. O azeite durou oito dias.
É este episódio que está na origem do mais importante gesto simbólico da festa. Que é
repetido ainda hoje pelos cerca de 16 milhões de judeus em todo o mundo: diariamente, desde
que se inicia a festa de Hanukkah (ou Chanuka) - este ano, foi ao final do dia 11 de Dezembro,
faz hoje uma semana -, cada família acende uma das oito velas do hanukkiah, o candelabro
próprio desta festa.
Tradições gastronómicas
O castiçal utilizado nesta festa tem nove braços - oito para cada um dos dias e o nono para a
vela utilizada para acender as restantes.
Por causa da importância do azeite nesta história, assim se criaram as tradições gastronómicas
da festa - que, tal como o Natal na tradição cristã, é vivida sobretudo em família. Os judeus
comem os sufganiot, espécie de bolas de Berlim com farinha, açúcar e canela, recheadas de
doce (morango ou cereja, por exemplo). Fritos com azeite, os sufganiot vêm sobretudo da
tradição sefardita. Também as latkes, rodelas de batata originárias sobretudo dos judeus
asquenazes da Europa Central, são fritas em azeite.
Talvez por causa do Natal, há famílias judaicas que começaram a oferecer presentes às
crianças. No calendário judaico, lunar, a festa de Hanukkah coincide quase sempre com o
tempo do Natal cristão.
O momento central de Hanukkah é o acender das velas. Logo depois, a família reza a bênção
de Hanukkah: "Ó Eterno, nosso Deus: acendemos estas velas por causa dos milagres,
redenções, grandes feitos, salvações, maravilhas e consolações que fizeste para com os
nossos antepassados."
Ainda em conjunto, a família judaica canta e recita o salmo 30. É um poema de acção de
graças, referido em várias traduções da Bíblia como um cântico para a dedicação da casa. "Ao
cair da noite, vem o pranto; e, ao amanhecer, volta a alegria. Senhor, foste bom para mim e
deste-me segurança; mas, se escondes a tua face, logo fico perturbado."