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A teia teológica

from De Rerum Natura by De Rerum Natura

Novo texto de João Boavida na sequência de outros aqui publicados:

A partir do momento em que os homens inventaram deus, criaram um problema de que não
mais se libertaram. Muitos se devem ter indignar com esta afirmação. Os ateus, por se
julgarem libertos do problema; os crentes, por sentirem que isso não é problema. Para os
primeiros, deus não existe, foram os homens que o inventaram, logo, estão fora do assunto, já
saltaram dele. Os crentes, por seu lado, nem sequer entram no problema assim formulado. Se
não foram os homens que inventaram Deus, mas Deus que criou os homens e tudo o resto,
Deus não é problema mas aquilo que, no fundo, resolve todos os problemas.

Mas, embora por razões diferentes, é uma situação em aberto para todos nós. Porque se Deus
me é transcendente, a sua compreensão ultrapassa-me. Só a fé me pode convencer dessa
realidade que, justamente porque me transcende e ultrapassa, não posso alcançar por outro
processo. Quando a fé falha, o problema surge ou agudiza-se. Se estou dependente de Deus
pela fé, estou dependente de forças imanentes, que eu próprio crio e alimento ou enfraqueço.
E que são valiosas para mim, mas que não consigo transmitir aos outros. Sendo vivências
pessoais, só eu as posso sentir e reconhecer como verdade, só eu posso captá-las na sua
essência. Há certamente comunidades de crentes, mas resultam de processos inter-
subjectivos, que não vão ao essencial. Estando portanto assente na fé de cada um, Deus é
sempre um problema pessoal em aberto. Como todos sabem, a fé não liberta ninguém dos
problemas que a existência de Deus coloca, de vez em quando, mas dá-lhe uma saída na
esperança. Veja-se Santo Agostinho, para não irmos mais longe.

Mas os ateus também não têm o problema resolvido. Desde o momento que a humanidade
chegou à ideia de Deus (ou criou Deus na sua cabeça) nunca mais se libertou disso, porque,
para lá dos factores psico-afectivas e morais, ou seja, pessoais e sociais, mais fortes do que se
julga, fica a necessidade de destruir uma ideia que nós próprios criamos. (Nós no sentido de
humanidade, claro). E como é da experiência corrente, não há tarefa mais difícil que querer
varrer do espírito uma convicção criada por nós. Quanto mais nos esforçamos para apagar
uma ideia, mais ela nos persegue.

A negação de Deus está prisioneira da ideia de Deus, e a ideia é o resultado de uma evolução
de que já não podemos regressar. A ideia, pela sua natureza, ultrapassa-nos sempre. É claro
que há os dados da ciência e as suas explicações cada vez mais credíveis sobre a origem da
matéria e as teorias evolucionistas e o racionalismo, reduzindo as religiões a formulações
míticas. Foi a evolução da ciência e do racionalismo modernos que foram reduzindo e
enfraquecendo o campo da religião.

Mas se, por um lado, a evolução da ciência clarifica mistérios e destrói mitos, por outro, na
medida em que aprofunda, reproblematiza, isto é, abre novas fronteiras para a ideia de tudo o
que nos ultrapassa. O problema não está, pois, na coerência e nas explicações dos livros
sagrados (Bíblia, Corão, etc.) nem na bondade ou maldade dos deuses, mas na
própria problemática da infinidade, que num dia já remoto a Humanidade conseguiu intuir,
por incompreensível que seja. A vitalidade da luta entre o espírito religioso e o que se lhe opõe,
isto é, o eterno problema para crentes e para ateus está na incompreensão simultânea do finito
e do infinito, na dificuldade psico-afectiva de aceitar a finitude e na impossibilidade racional da
ideia de infinitude.

João Boavida
Imagem: Thor, um dos deus da mitologia nórdica.