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"Vais ser o número um.

Este é o plano e
acabou a discussão"
http://desporto.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1418647

19.01.2010 - 18:02 Pedro Keul

Agassi no lançamento da sua


autobiografia, em Dezembro
do ano passado

Como é ser um dos melhores tenistas de todos os tempos? Um inferno, se se for Andre Agassi. Na sua
autobiografia de 400 páginas, “Open”, revela o seu ódio ao ténis, uma carreira que lhe foi imposta pelo
pai, o consumo de droga, os problemas com o cabelo. O mito do grande atleta caiu por terra.

Open é um termo que o ténis familiarizou no final dos anos 60, para designar os torneios que eram
igualmente abertos a jogadores profissionais e amadores. É também o título da autobiografia de Andre
Agassi, publicada nos Estados Unidos em Novembro de 2009, na qual o tenista norte-americano revela
os pensamentos, medos, conquistas, escapes e ambições que preencheram a sua vida. E, tal como na
carreira de tenista, foi muito longe.

A publicação de Open rapidamente causou polémica. Os primeiros excertos conhecidos foram os mais
surpreendentes: o ódio ao ténis, a peruca que usava e, principalmente, o consumo de droga. Esta
admissão levantou um coro de protestos de muitos tenistas actuais e antigos, visando uma sanção a
Agassi, de acordo com o regulamento anti-doping. Para outros, foi o mito do grande atleta que se desfez.

A carreira de Agassi foi uma autêntica viagem, iniciada no fi nal dos anos 80 e encerrada em Setembro de
2006, no Open dos EUA. Para se distrair das emoções que o último torneio lhe trouxera, leu The Tender
Bar, um livro de memórias de J. R. Moehringer, antigo jornalista e Prémio Pulitzer em 2000. Rapidamente
se apaixonou pelo livro e logo que arrumou as raquetas, quis conhecer o autor. Um telefonema, um
convite para jantar em Las Vegas e muitos encontros foram cimentando uma forte amizade.

Autobiografia para exorcizar as mentiras

Quando decidiu publicar as suas memórias, ninguém melhor do que J. R. Moehringer para o ajudar. As
muitas horas de conversas com Moehringer, que serviram de base para a autobiografia, foram como
sessões de terapia para Agassi, onde recordou a infância, as pessoas com quem conviveu e, acima de
tudo, as inúmeras mentiras com que foi lidando ao longo da carreira. “Já não podia viver mais com elas”,
justificou.

A ideia que quis deixar bem clara foi a de que sempre detestou o ténis. É que o seu destino foi traçado
ainda antes de nascer, quando o pai decidiu que ele ia ser tenista profissional. E, com um ano de idade,
veio a confirmação: ao assistir a um jogo de pingue-pongue, só seguiu a bola com os olhos, sem mexer a
cabeça. “Vês? É um dom natural”, exclamou o pai para a mãe. Mas aquilo que era uma brincadeira
depressa se tornou num ódio, quando, aos sete anos, o pai o obrigou a bater milhares de bolas por dia.
No court construído pelo próprio Mike Agassi nas traseiras da casa de Las Vegas, as bolas eram
disparadas com força do outro lado da rede por uma máquina lança-bolas, modificada pelo pai, a quem o
amedrontado Andre apelida de Dragão.

“O meu pai dizia que se batesse 2550 bolas por dia, bateria 17.500 por semana e, no final do ano, teria
batido um milhão. Os números não mentem, dizia ele. Uma criança que bata um milhão de bolas por
semana será imbatível.” Além do esforço de bater inúmeras bolas consecutivamente, o pai exigia que
Andre batesse o mais cedo e o mais forte possível na bola. “Vais ser número um do mundo. Vais fazer
imenso dinheiro. Este é o plano e acabou a discussão.”

Odeio o ténis
mais do que nunca,
mas odeio-me mais.
Digo a mim próprio:
‘E o que interessa se odeias ténis?
Quem é que quer saber?’

Se pudesse escolher, Andre teria preferido futebol: “Se a minha equipa não ganhasse, ninguém iria gritar
ao meu ouvido.” Um pai violento “O passado triste e solitário ajuda a explicar o seu comportamento
estranho e raiva violenta”, adianta Andre sobre o pai. Emmanuel Agassian — depois americanizado para
Mike Agassi — nasceu e cresceu no Irão, onde conheceu o ténis quando se tornou apanha-bolas de
soldados britânicos e norte-americanos. No entanto, notabilizou-se no boxe e esteve nos Jogos Olímpicos
de 1948 e 1952. Depois, fugiu da pobreza em que vivia em Teerão e, com um passaporte adulterado,
viajou para os Estados Unidos e radicou-se em Chicago, trabalhando de dia e lutando de noite — chegou
a ter um combate marcado para a Meca do desporto de Nova Iorque, o Madison Square Garden, mas
fugiu pela janela de uma casa de banho com medo.

“Por vezes, olhava para o vazio e exclamava „I love you Margaret‟, nome da mulher que o salvou de
afogar-se num lago de gelo quando ainda era criança, e que nunca mais viu.” Mais constantes eram os
murros no ar, reavivando os tempos de pugilista. O pai nunca saía de casa sem um pouco de sal numa
algibeira e de pimenta noutra para uma eventual briga de rua, algumas delas presenciadas pelo pequeno
Andre: durante uma discussão de trânsito, apontou uma pistola a outro condutor, e, noutra ocasião, após
uns golpes de pugilato, deixou outro condutor estendido na rua… “Não digas à tua mãe”, era um pedido
frequente após estas cenas. A mãe nunca protestava nem ousava interferir nas decisões do pai, mas a
sua calma transmitia uma enorme paz ao pequeno Andre.

Início na Academina de Nick Bollettieri

Depois de ganhar os sete primeiros torneios que disputou para menores de 10 anos, o pai decidiu enviá-
lo para a Academia de Nick Bollettieri, que conheceu através do programa televisivo 60 Minutes, em que
o centro de treino era comparado a um campo militar. Ao fim de poucos dias, a constatação de Agassi foi
a de estar num campo de prisioneiros. Ao mesmo tempo, a alergia à escola, que era obrigado a
frequentar a alguns quilómetros dali, e a possibilidade que lhe era dada de estar fora da responsabilidade
do pai, depressa o tornaram num jovem rebelde, estatuto adoptado a partir do momento em que colocou
um brinco na orelha, algo intolerável pelo pai que ligava esse acessório à homossexualidade. “O brinco foi
um claro „vai-te f****‟ para o meu pai.”

Também começou a beber álcool, fumar erva e a ser mal-comportado. A atitude mais radical foi o corte de
cabelo “à moicano”. Pelo meio, começou a ter resultados em torneios profissionais e, três meses antes de
completar 15 anos, surgiu pela primeira vez no ranking ATP, em 636.º lugar. Mas depois de jogar uma
final de calças de ganga, maquilhado e de brincos, foi ameaçado de expulsão da academia, só que o seu
talento era demasiado alto para Bollettieri prescindir dele. Pouco depois começava a competir pelo
mundo, na companhia do irmão Philly, sete anos mais velho, mas o dinheiro não abundava. Por vários
dias, alimentaram-se de batatas cozidas e sopa de lentilhas.

Entrada no profissionalismo com 16 anos e primeiro contrato de roupa

29 de Abril de 1986, dia do seu 16.º aniversário, marca oficialmente a sua entrada no profissionalismo, ao
receber o primeiro grande cheque, de 1100 dólares. A Nike oferece-lhe o seu primeiro contrato de roupa,
no valor de 45 mil dólares para dois anos — que valeriam então mais de 61 mil euros — e, em breve, os
calções de denim, imitando ganga, passam a ser a sua imagem, a par do penteado, agora comprido e
espetado, loiro esbranquiçado com raízes pretas.
O slogan que o acompanha nos anúncios para a Canon, “Image is everything”, cola-se a ele. “Dizem que
quero sobressair mas, na realidade, quero esconder-me. Dizem que quero mudar o jogo, mas, na
realidade, estou a tentar que o jogo não me mude a mim. Chamam-me rebelde, mas não tenho interesse
em ser um rebelde, apenas estou a gerir uma rebelião diária de teenagers. Distinções subtis, mas
importantes.”

Entretanto, começa a defrontar as estrelas da modalidade e John McEnroe elogia-o fortemente. A partir
daí, a popularidade explode e Agassi é comparado a uma estrela rock, o que se torna irónico pois ouvia
música pop suave (Barry Manilow e Richard Marx) e a sua maior preocupação era a rápida queda do
cabelo. Mas os resultados não acompanham as expectativas, incluindo as do próprio, o dinheiro começa
a faltar e diz ao irmão que desiste. “Ele não discute, ele compreende. (…) „Que queres fazer em vez de
jogar ténis?‟ Não sei.”

A fase espiritual

Agassi acompanha Philly à igreja que ele frequenta, de nenhuma religião específica, onde o padre John
Parenti se revela um guia espiritual, que o segue ao longo da vida. Os momentos de maior stress são
combatidos com uma rotina bizarra: pega em fósforos e queima tudo o que apanha, papel, roupas,
sapatos... Agassi irrompe no top-10, mas ainda não consegue vencer os melhores. A falta de resistência
física leva-o à Universidade do Nevada, em Las Vegas, onde o responsável por essa área era Gil Reyes,
1,80m de altura e metro e meio de diâmetro do peito. Sedento de apoio de uma pessoa mais velha e
experiente — e, igualmente, com o secreto gosto por junk food —, Agassi rende-se aos conhecimentos e
à força que emanava de Reyes.

No Outono de 1989 trabalham duramente para tornar o corpo e a personalidade de Agassi mais fortes. Ao
longo da autobiografia, são inúmeras as passagens onde Agassi revela os mil ensinamentos do seu guru.
“Algures lá em cima está uma estrela com o teu nome. Posso não poder encontrá-la, mas tenho ombros
fortes e podes pôr-te em cima deles enquanto a procuras. Ouviste? Durante o tempo que quiseres. Põe-te
em cima dos meus ombros e alcança. Alcança!”, disse-lhe Reyes.

Substituir o pai verdadeiro por Gil foi um passo natural. Agassi retribui oferecendo a Gil um colar com uma
pirâmide de ouro e três aros dentro dela que simbolizavam “o Pai, o Filho e o Espírito Santo”. Gil
transformou a sua garagem num ginásio, com máquinas construídas por si e insistiu com Agassi a
“procurar a dor, cortejar a dor, reconhecer que a dor é vida”.

1990: Primeira final de um Grand Slam

Em Maio de 1990, na desconfortável terra batida de uma Paris onde nunca se sentiu à vontade, Agassi
atinge a final de Roland Garros, a sua primeira no Grand Slam — os quatro grandes torneios que todos
procuram conquistar — e sente-se capaz de imitar Michael Chang, um compatriota da sua geração,
campeão um ano antes. Mas a sua grande preocupação é o cabelo. Ou melhor, a peruca que já adoptara
e que, na véspera, começou a desfazer-se. Vinte ganchos do cabelo ajudam-no a manter o segredo, mas
não o impedem de pensar no pior. E Agassi perde.

A história repete-se no Open dos EUA desse ano e em Roland Garros no ano seguinte: a sua mente é
invadida por pensamentos negativos e perde essas finais para, respectivamente, Pete Sampras e Jim
Courier, igualmente da mesma geração. Volta a pensar em abandonar o ténis. “Sou um traste, um
palhaço, uma fraude, um acaso (…) Não mereço a atenção que me dão porque não ganhei um Slam.”

Bollettieri e Wendi, amiga de infância que se tornou inseparável, convencem-no a ir a Wimbledon, onde
só tinha tido uma breve experiência, em 1987, em que lidou mal com as exigências e tradições do torneio.
O mais importante agora era recuperar o desejo de ganhar. Quando volta a Wimbledon um ano depois, as
boas sensações regressam e desta vez chega mesmo à final onde defronta Goran Ivanisevic, o alto
croata com um potente serviço. Mas Ivanisevic também nunca tinha ganho qualquer Grand Slam e
fraqueja no momento decisivo.

“Não sei como, ele falha o vólei fácil. A bola bate na rede e assim, depois de 22 anos e 22 milhões de
movimentos com a raqueta, sou o campeão de Wimbledon de 1992. Caio de joelhos (…) Quando me
levanto, Ivanisevic está ao meu lado. Abraça-me e diz de forma calorosa: „Parabéns.‟ (…) Sorri, dirige-se
para a sua cadeira e tapa a cabeça com uma toalha. Percebo as suas emoções melhor do que as
minhas.”

Já em casa, pega no telefone e liga sucessivamente para Gil, que não pôde acompanhá-lo, Perry Rogers
— o seu melhor amigo desde os 11 anos —, Parenti e, finalmente, para o pai, cujas únicas palavras
foram: “Não tinhas nada que perder o quarto set.” Mas Agassi apercebe-se de mais. “Vagamente, ouço o
meu pai a fungar e a limpar as lágrimas e sei que está orgulhoso, apenas incapaz de o exprimir. Não
posso culpar o homem por não saber descrever o que lhe vai no coração. É a maldição da família.”

Vida de estrela

Com o triunfo em Wimbledon, Agassi conseguiu finalmente calar os críticos, mas sofre um choque com o
aumento de fama. É convidado para jantar na Casa Branca e para centenas de festas, priva com
celebridades como Kenny G., Kevin Costner e Barbra Streisand. Confidencia a quem lhe está próximo
que pensa em casar-se com ela.

O regresso a Wimbledon para defender o título não foi o melhor devido a uma recente lesão no pulso.
Mas a presença nas bancadas da amiga Streisand, que o apelidou de “mestre Zen”, torna-se no centro
das atenções. “Não percebo a reacção, talvez porque não sei o que é um mestre Zen. Apenas presumo
que seja uma coisa boa, já que Barbra é uma amiga.” Depois da derrota nos quartos-de-fi nal com
Sampras, regressa aos EUA onde sabe pelos jornais que Bollettieri termina a ligação. “A minha equipa
está a sofrer um desbaste mais rápido que o meu cabelo.”

Durante a operação ao pulso direito, que ameaçou o fim da carreira, Agassi aceita a sugestão da mulher
de Kenny G., que diz ter encontrado a mulher perfeita para ele, e começa a trocar faxes com Brooke
Shields. Mas só se encontram pela primeira vez semanas depois, num jantar a dois em Los Angeles,
durante o qual Agassi sente enorme empatia por alguém que também desde criança é empurrada para a
fama.

Pouco depois, Agassi integra mais dois elementos na sua equipa: o amigo Perry passa a gerir a carreira e
Brad Gilbert aceita ser seu treinador e convence-o de que o importante é ganhar. “Perfeccionismo é algo
que escolhi e está a arruinar-me e eu posso escolher outra coisa.” Sete meses depois, conquista o Open
dos EUA, o seu segundo título do Grand Slam. “A minha nova namorada, o meu novo treinador, o meu
novo gestor, o meu pai emprestado. Finalmente, a minha equipa está firmemente, irrevogavelmente, no
lugar.”

O primeiro Slam careca

Em Janeiro de 1995, na sua primeira visita à Austrália, derrota o rival Sampras na final e conquista o
terceiro título do Grand Slam e segundo consecutivo. “Penso que, daqui a 20 anos, vou recordá-lo como o
primeiro Slam careca.” De facto, algum tempo antes, Brooke tinha-o convencido a rapar o cabelo e deixar
de usar perucas. A nova imagem, “de corsário”, com um lenço na cabeça e um grande brinco, chocou
muitos fãs.

A perspectiva de destronar Sampras do primeiro lugar do ranking mundial leva-o a aplicar-se como nunca
na preparação física. Em Março, vence Sampras na final de Key Biscayne. No dia seguinte, já em Itália,
recebe um telefonema de Perry a dar-lhe a notícia: finalmente, ele é o número um do ranking. “A próxima
pessoa que me liga é um jornalista. Digo-lhe que estou contente com o ranking e que é uma boa
sensação ser o melhor que posso ser. É uma mentira (…) De facto, não sinto nada.”

Agassi estabelece novos objectivos, escolhendo agora Roland Garros, para alcançar o “Santo Graal” dos
tenistas: vencer os quatro grandes torneios. Mas volta a duvidar de si próprio. Em Los Angeles, assiste à
gravação de um episódio de Friends, onde Brooke tem uma participação especial: quando ela lambe a
mão de outro actor, Agassi sai porta fora e só pára em… Las Vegas. Em casa, parte todos os troféus: os
de Wimbledon, do Open dos EUA… A depressão prolonga-se por 1996 e Agassi dedica mais tempo à
vida pessoal e à sua relação com Brooke, decidindo-se, relutantemente, a pedi-la em casamento. “„Sim‟,
diz ela, „sim, sim, sim.‟ „Espera‟, penso eu, „espera, espera, espera.‟” Ao mesmo tempo, a perspectiva dos
Jogos Olímpicos, em Atlanta, no Verão, reanima-o.

Ouro olímpico

“Vou jogar pelo meu país, por uma equipa que tem 300 milhões de membros. Vou fechar um círculo; o
meu pai foi olímpico, agora eu.” Conquista o ouro mas, na cerimónia de entrega das medalhas, não
vislumbra o pai. “Ele não percebe que este momento é especial precisamente porque não é meu.”

A motivação cai tão depressa quanto reaparecera e, três semanas depois, em Indianápolis, perde a
cabeça, insulta o árbitro e, pela primeira vez na sua carreira, é expulso do court. “Aqui estamos de novo.
(…) Bater no fundo pode ser muito aconchegante, porque, pelo menos, estamos descansados.”

A aproximação da data do casamento e o grave acidente sofrido pela fi lha de Gil deixam-no novamente
em baixo. Em casa, o seu assistente pessoal, Slim, igualmente deprimido, convida-o a experimentar
metanfetamina. A sensação de euforia afasta os pensamentos mais sombrios. A 19 de Abril de 1997,
casa com Brooke numa cerimónia pensada ao pormenor, onde não faltou uma falsa noiva para afastar os
paparazzi. “Ao ver a sósia de Brooke partir, tive um pensamento que nenhum homem deveria ter no dia
do seu casamento: quem me dera partir também. Quem me dera ter também um falso noivo para tomar o
meu lugar.”

O tempo das drogas

A falta de vontade em competir mantém-se e, com Brooke longe, a filmar, muito do tempo que passa em
casa, é a cheirar metanfetamina com Slim. “É uma mudança bem-vinda, a de ter energia, sentir-me feliz.
(…) Passo toda a noite acordado, várias noites seguidas, saboreando o silêncio. Ninguém a telefonar, a
enviar faxes, a incomodar-me. Não faço mais nada senão dançar pela casa, dobrar roupa lavada e
pensar.”

Após mais uma derrota precoce e quando já tinha deixado de aparecer entre os cem melhores do ranking,
Brad Gilbert obriga-o a tomar uma decisão: ou desiste de vez ou volta a trabalhar no duro. “Odeio o ténis
mais do que nunca, mas odeio-me mais. Digo a mim próprio: „E o que interessa se odeias ténis? Quem é
que quer saber? (…) Odeia o que quiseres, mas precisas de o respeitar. E a ti próprio‟.”

Decidido a mudar radicalmente de atitude, Agassi é, entretanto, apanhado num teste anti-doping. Sob a
perspectiva de ser suspenso por três meses, escreve uma carta à ATP onde mente deliberadamente,
afirmando que ingeriu a droga de forma inconsciente, ao beber um refrigerante de Slim onde este tinha
misturado metanfetamina. “Pedi compreensão, clemência e, rapidamente, assinei: „Sinceramente‟.”

O Santo Graal

Aos 27 anos e no 141.º lugar do ranking, Agassi não se importa em regressar à divisão mais baixa e
disputa dois torneios menores onde nem há apanha-bolas. “Dizem que é como o Bruce Springsteen ir
tocar ao bar da esquina.” O único momento em que interrompeu a preparação foi para estudar,
juntamente com Perry, uma forma de alargar o trabalho da sua fundação, criada em 1994, para crianças
em risco, optando por erguer uma escola charter.

Nessa altura, recebe um convite irrecusável para ir à África do Sul, numa angariação de fundos para a
Nelson Mandela Foundation. “Há anos que admiro Mandela (…) Só a ideia de estar e falar com ele, deixa-
me tonto.” O encontro marca-o decisivamente. “Após o jantar, Mandela levanta-se e faz um discurso
entusiasmante. O tema: todos nós temos de cuidar uns dos outros (…) Pela primeira vez em muitos anos,
estou inteiramente ciente da minha falta de educação.”

Perfeccionismo é algo
que escolhi e está
a arruinar-me

A época de 1998 começa com bons resultados e com Agassi a expressar publicamente a vontade de
voltar ao primeiro lugar do ranking. “Estou a jogar para angariar dinheiro e visibilidade para a minha
escola. Após estes anos todos, tenho o que sempre quis, algo pelo qual jogar, que é maior que eu e,
ainda assim, ligado a mim.” O nascimento de uma sobrinha, filha de Philly, e a notícia do arquivamento do
caso de droga pela ATP, dão-lhe novo ânimo. “Nova vida!”

O ano de 1998 termina com o tenista de 28 anos de novo no top 10 e com a abertura da Andre Agassi
College Preparatory Academy no pior bairro de Las Vegas. “Estou tão extasiado a pensar no que se irá
passar aqui, dentro de alguns anos e várias décadas depois de morrer, que não ouço os discursos (…)
Perguntam-me onde está Brooke, porque não está aqui na inauguração. Digo-lhes a verdade. Não sei.”

Divórcio com Brooke e fraquinho por Steffi

Os diferentes compromissos profissionais afastam cada vez mais Andre e Brooke e o divórcio é inevitável.
Gilbert vem em seu auxílio e promete-lhe um grande ano. E, apontando para um jogo que passava na
televisão, entre Steffi Graf (por quem Agassi sempre teve um fraquinho) e Serena Williams, diz-lhe com
quem deveria estar. “Steffi Graf é como Roland Garros; não consigo passar a linha de meta”, argumenta
Agassi. Gilbert insiste e, em Miami, reserva o court onde Graf está a treinar. Ambos chegam 40 minutos
antes. “Já disputei sete finais do Grand Slam e nunca me senti assim.”
Após o treino, Agassi não pára de pensar nela e envia-lhe uma enorme quantidade de rosas como
agradecimento. Entretanto, é convencido a ir a Roland Garros apesar da desconfiança e das más
memórias que o torneio lhe traz. Ao longo do torneio vai sentido o carinho dos franceses, mas os
pensamentos negativos acabam por surgir na final e só a paragem causada pela chuva permite a
intervenção de Gilbert. O sol aparece e também o ajuda a ganhar a Andrei Medvedev.

“Fico aterrorizado pelo bem que isto me faz sentir. Não era suposto que vencer fosse tão bom (…) Estou
muitíssimo feliz, agradecido ao Brad, ao Gil, a Paris, até a Brooke e a Nick. Sem o Nick não estaria aqui.
Sem os altos e baixos com Brooke, incluindo o sofrimento dos nossos últimos dias, isto não seria
possível. Até reservo alguma gratidão para mim, pelas boas e más decisões que me trouxeram aqui.”

Aos 29 anos, Agassi juntou-se ao restrito clube de cinco tenistas a vencer os quatro maiores torneios do
mundo e até Björn Borg lhe telefona a dar os parabéns. Já no Concorde a caminho de Nova Iorque,
Gilbert aponta a coincidência: “Apenas duas pessoas na história mundial venceram os quatro Grand
Slams e a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos: tu e Steffi Graf. O Golden Slam. Está destinado que
vocês devem casar-se.”

Steffi

No regresso à Europa, para jogar em Wimbledon, Agassi aproveita o aniversário de Graf para se
aproximar dela e, desde aí, os telefonemas são mais frequentes. “Uma noite, pergunta-me pelas minhas
preferências: canção, livro, comida, filme. „Provavelmente, nunca ouviste falar no meu filme favorito.‟ „Diz-
me‟, disse ela. „Saiu há poucos anos, chama-se Shadowlands, é sobre o C. S. Lewis, o escritor.‟ Ouço um
som como o telefone a cair. „É impossível‟, diz ela, „simplesmente não é possível! É o meu filme favorito.”
Em Setembro de 1999, Agassi conquista o Open dos EUA, sob o olhar de Steffi Graf, retirada da
competição um mês antes.

Poucas semanas depois, em Las Vegas, num combate de boxe, o casal aparece pela primeira vez em
público. Agassi volta ao trabalho e até na véspera de Natal treina o físico com Reyes. A recompensa
aparece logo em Janeiro, com o triunfo no Open da Austrália. “Na conferência de imprensa, agradeço a
Brad e Gil por me ensinarem que o meu melhor é suficiente. Um fã grita o nome de Stefanie, pergunta-me
o que se passa. „Mete-te na tua vida‟, digo a brincar. Na verdade, gostaria de contar isso ao mundo. O
que farei. Em breve.”

O Verão de 2000 traz más notícias: a irmã Tami e a mãe são diagnosticadas com cancro da mama. Com
as melhorias de ambas, a moral sobe e Agassi começa 2001 com mais um título na Austrália. Em Março,
Graf desconfi a que está grávida e param em várias lojas para comprar testes de gravidez, que o
confirmam. A comemoração é no mesmo restaurante japonês onde Agassi e Brooke decidiram acabar.

“Tal como no ténis. O mesmo court onde se sofre a mais sangrenta derrota pode-se tornar no palco do
mais doce triunfo.” No ginásio de Reyes, Agassi e Graf anunciam-lhe que o filho irá chamar-se Jaden Gil.
“Steffi chora, os meus olhos estão cheios de lágrimas (…) Gil abraça-me e sinto o colar. Pai, Filho e
Espírito Santo.”

Um jornalista liga-me.
Digo-lhe que é uma boa sensação ser o melhor.
É uma mentira.
Não sinto nada

Em Outubro de 2001, numa cerimónia realizada no pátio de casa e apenas com as respectivas mães
como testemunhas, Andre e Steffi casam-se. Poucos dias depois, nasce Jaden Gil. “Quero aposentar-me
imediatamente, passar todo o tempo com ele. Mas agora, mais do que nunca, preciso de jogar. Por ele,
pelo futuro dele e das outras crianças da minha escola.” Brad Gilbert entende que é o fim de um ciclo e o
novo treinador passa a ser o australiano Darren Cahill que, juntamente com umas cordas novas para a
raqueta e um novo regime físico desenhado por Reyes, mantém a motivação de Agassi bem no alto.

Em Janeiro de 2003, conquista na Austrália o oitavo Grand Slam. Com a retirada de Chang e Courier, a
ausência de Sampras e Stefanie grávida, todos esperam pelo anúncio de Agassi, com 32 anos. “Sou o
último de uma geração, dizem (…) Mesmo assim, sinto-me eterno.” Poucos dias antes do 33.º aniversário,
torna-se o mais velho número um do ranking e em Junho disputa o seu milésimo encontro no circuito
profissional. E as costas começam a acusar todo esse esforço.

A 3 de Outubro de 2003, nasce a filha. “Pusemos-lhe o nome de Jaz Elle — e, tal como com o nosso filho,
secretamente fizemos votos de que ela não venha a jogar ténis (nós nem temos court no quintal).” No ano
seguinte, os problemas físicos agravam-se e após quatro derrotas consecutivas, entre Março e Junho,
Agassi concorda com Reyes sobre a possibilidade de se retirar. Mas antes tem de pensar no discurso que
irá fazer na entronização de Steffi Graf no Tennis Hall of Fame. Um emocionante elogio de cinco minutos,
que termina com: “Senhoras e senhores, apresento-vos a melhor pessoa que alguma vez conheci.”

O fim

Nem um torneio ganho e cinco sets com Roger Federer nos quartos-de-final do Open dos EUA evitam
que só se fale na retirada. Em Janeiro de 2005, é questionado sobre Jaden Gil. “A minha maior esperança
é que ele escolha o ténis, que eu adoro imenso”, responde. “A velha, velha mentira. Mas agora é mais
vergonhosa porque liguei-a ao meu filho.”

Graças a injecções de cortisona, Agassi consegue disputar o seu 20.º Open dos EUA consecutivo. E,
para admiração de todos, vence três encontros em cinco sets e vai à final, com 35 anos. Mas sente-se
impotente diante de um dos melhores de sempre. “É muito simples: a maioria das pessoas tem pontos
fracos; Federer não tem nenhum.”

Agassi apercebe-se de que não pode continuar no circuito. Em Wimbledon anuncia que se retirará dois
meses mais tarde, no Open dos EUA de 2006. “Os jornalistas perguntam: „Porquê agora?‟ Digo-lhes que
não decidi. Simplesmente, não posso jogar mais. (…) Involuntariamente, tinha estado à procura deste
momento, em que não teria escolha.”

A despedida, em Nova Iorque, perante toda a família, incluindo os pais, é dolorosa. Logo após o primeiro
encontro, as dores nas costas começam. E depois de ganhar o épico duelo de quase quatro horas com
Marcos Baghdatis, é com dificuldade que se mantém de pé. O pai pede-lhe para desistir. “Conheço
aquele olhar. Ele odeia o ténis. (…) Desculpa, paizinho. Não posso desistir. Isto não pode acabar comigo
a desistir.” Mas nem uma injecção anti-inflamatória impede a derrota na terceira eliminatória. Os
organizadores deixam-no dirigir algumas palavras à multidão.

“„Vocês deram-me os vossos ombros para eu me apoiar, para alcançar os meus sonhos, sonhos que
nunca alcançaria sem vocês‟. (…) É o maior elogio que conheço para lhes pagar. Comparei- os a Gil.”

O Open termina com a descrição da escola de Agassi, em que investiu 28 milhões de euros, vários
agradecimentos e a dedicatória aos dois filhos. “Só descobri a magia dos livros muito tarde. De todos os
muitos erros que quero que os meus filhos evitem, coloco esse no topo da lista.”

pkeul@publico.pt