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Auschwitz

Irene Pimentel

http://jugular.blogs.sapo.pt/

Auschwitz II-Birkenau

© ana vidigal

Em 27 de Janeiro, decorrem sessenta e cinco anos da libertação, pelos


soviéticos, do campo de concentração e de extermínio nazi de Auschwitz, na
Polónia. Além de se ter tratado de um campo de extermínio, onde foram
massacrados, pelos nazis, mais de um milhão e meio de homens, mulheres e
crianças, na sua maioria judeus, e também, ciganos, prisioneiros de guerra russos,
polacos e presos políticos, o nome de Auschwitz é hoje um símbolo de uma dos
maiores crimes cometidos contra a humanidade. É um nome que acaba por
recobrir, não só, como se verá, Auschwitz-Birkenau, como todos os outros cinco
campos de extermínio, de Majdanek, Chelmno, Belzec, Sobibor e Treblinka, todos
situados na Polónia ocupada pela Alemanha nazi.

Só neste último campo, um imenso cemitério escondido no meio de


belíssimas árvores, depois de os nazis reflorestarem a zona para esconder o crime,
estes e os seus cúmplices assassinaram mais de 800.000 judeus, entre Junho de
1942 e Agosto de 1943. Este massacre incluiu-se no âmbito da «operação
Reinhard», nome de código do plano alemão para assassinar os judeus que
residiam na parte da Polónia ocupada mas não directamente anexada pela
Alemanha. No âmbito dessa «operação», os nazis mataram, entre Março de 1942 e
Novembro de 1943, mais de 1 milhão e meio de judeus só nos últimos quatro
campos de extermínio. No total, estima-se que foram assassinados na Polónia cerca
de 2.9 milhões de judeus; ou seja, cerca de metade do número do total judeus
mortos no Holocausto. O crime foi de tal envergadura que Auschwitz ficou como
paradigma e símbolo do horror, do que seres humanos são capazes de fazer a
outros seres humanos.

Para dar conta da crueldade e da violência inútil que vigorava em Auschwitz,


Primo Levi referiu a pergunta que Gitta Sereny fez ao ex-comandante SS de
Treblinka, Franz Stangl. Esta perguntara-lhe qual o sentido que tinham as
humilhações e crueldades infligidas aos prisioneiros dos campos de extermínio,
quando, à partida, o objectivo era exterminá-los. A resposta de Stangl foi: «Para
condicionar os que deviam executar materialmente as operações, para lhes tornar
possível fazer o que faziam». Ou seja, era necessário, primeiro, transformar o
prisioneiro num dejecto humano e degradar totalmente a vítima, afim de que o
carrasco sentisse menos o peso do seu crime; foi a isso que Primo Levi chamou a
«única utilidade da violência inútil».
Por seu turno, Primo Levi observou que, onde se faz violência ao homem,
faz-se também violência à língua e à cultura, mencionando o silêncio imposto pelo
próprio isolamento das vítimas, o desvio perverso da linguagem dos campos e os
seus efeitos de terror, bem como a perpétua mentira, pronunciada pelos nazis,
através de uma linguagem cifrada: por exemplo, Sonderbehandlung (tratamento
especial) significava, na realidade, a morte pelo gás. Hannah Arendt lembrou que
os nazis estavam completamente convencidos que uma das maiores possibilidades
de sucesso do seu empreendimento criminoso residia no facto de ninguém no
exterior poder acreditar no que realmente se passava em Auschwitz. Em 1942, um
SS expressou-se assim com um prisioneiro:
«haverá talvez suspeitas, discussões, pesquisas feitas pelos historiadores,
mas não haverá certezas, porque nós destruiremos as provas ao destruir-vos. Mas
mesmo que subsistam algumas provas e que alguém de entre vós pudesse
sobreviver, as pessoas dirão que os factos que vocês descreverão são demasiado
monstruosos para neles se acreditar».
E a verdade é que muitos sobreviventes contaram que, ao regressarem ao
mundo, depois de ultrapassarem o seu próprio silêncio acerca do que tinham
vivido, sentiram que os outros não queriam acreditar neles ou preferiam mesmo
não tomar conhecimento do horror dos campos. Na certeza de que nunca se poderá
explicar totalmente Auschwitz, veja-se o que foi esse campo de extermínio e o
caminho longo, desde a sua libertação, pelos soviéticos, até surgir à luz do dia.

O que foi o complexo concentracionário e de extermínio de


Auschwitz?

Auschwitz foi o maior campo de concentração e de extermínio erguido pelos


alemães. Era um complexo de vários campos que incluía um campo de
concentração, um campo de extermínio e um campo de trabalhos forçados, situado
na Alta Silésia, a cerca de 40 quilómetros de Cracóvia, perto da fronteira germano-
polaca anterior à guerra, numa área anexada, em 1939,m pela Alemanha nazi à
Polónia, em 1939. Os três campos, Auschwitz I, Auschwitz II (Birkenau) e
Auschwitz III (Monowitz), foram construídos perto da cidade polaca de Oswiecim
(Auschwitz, em alemão).
Após uma ordem do Reichsführer SS, Heinrich Himmler, Auschwitz I, ou campo
principal (Stammlager), em cujo portão de entrada está escrito «O trabalho
liberta», começou a ser construído, em Maio de 1940, em casernas militares usadas
pelo Exército polaco. Os primeiros prisioneiros a lá chegarem eram detidos de delito
comum alemães, deportados do campo de concentração de Sachsenhausen, aos
quais se juntou um primeiro transporte de 728 prisioneiros políticos alemães e
polacos, vindos da prisão de Tarnów, chegado em 14 de Junho de 1940. Apesar de
ter sido inicialmente concebido como um campo de concentração, que servia para
punir prisioneiros políticos, Auschwitz I já tinha uma câmara de gás improvisada,
na cave da prisão do Bloco 11, sendo depois construída uma maior e um
crematório.
No Bloco 10, a caserna-hospital, “médicos” das SS faziam experiências “clínicas”
em crianças, gémeos e anões, bem como testes de hipotermia em adultos. Entre o
crematório e a caserna de experiências médicas, estava localizado o "muro negro”,
onde os SS executaram milhares de prisioneiros. Inicialmente, os SS gazeavam os
prisioneiros em duas quintas próximas, mas, em Setembro de 1941, testaram, em
Auschwitz I, o gás Zyklon B, como instrumento de massacre em massa. O
“sucesso” dessa experiência levou depois à adopção de câmaras de gás, a primeira
das quais começou a operar em Janeiro de 1942, sendo depois desmantelada,
operando a segunda câmara, entre Junho de 1942 e o Outono de 1944.
Auschwitz III- Buna ou Monowitz, foi erguido perto de Monowice, para
providenciar força de trabalho escravo, para as fábricas de borracha sintética de
Buna, da firma alemã I.G. Farben. Agregados a Auschwitz III, estavam inúmeros
sub-campos, entre os quais se contaram os de Althammer, Blechhammer, Budy,
Fuerstengrube, Gleiwitz, Rajsko e Tschechowit, num perímetro à volta de
Oswiecim,de onde os alemães tinham expulsado os habitantes polacos.
Periodicamente, os prisioneiros eram seleccionados e os que eram considerados,
pelos SS, como demasiado fracos para contionuarem a trabalhar, eram
transportados para Auschwitz-Birkenau e assassinados nas câmaras de gás

O campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau

Em Outubro de 1941, iniciara-se, junto a Auschwitz I, a construção de um


complexo muito maior, feito de barracas de madeira, que viria a ser conhecido por
Auschwitz II- Birkenau. Este campo de extermínio alojou inicialmente os
prisioneiros de guerra russos, que morreram quase todos pouco tempo depois de
chegarem, devido às terríveis condições de vida. Auschwitz-Birkenau teve um papel
central no plano nazi de extermínio dos judeus da Europa. O aparelho de
extermínio desse campo incluía Badeanstalten – instalações de banho, cujos
chuveiros eram na realidade usados para gazear os deportados, através do Zyklon
B -, Leichenkeller – caves utilizadas para arrumar os corpos das vítimas -,
eEinäscherungsöfen – quatro grandes crematórios usados para queimar os corpos,
construídos entre Março e Junho de 1943. Em 10 de Outubro de 1944,
o sonderkommando e algumas centenas de prisioneiros que estavam a ser
encaminhados para o crematório IV revoltaram-se, incendiando-o, bem como as
câmaras de gás adjacentes.

Mesmo assim as operações de gazeamento, em particular de milhares de


judeus húngaros, continuaram até Novembro de 1944, quando, com a aproximação
das forças soviéticas, Heinrich Himmler deu a ordem para desactivar o sistema de
extermínio e destruir as câmaras de gás. Em Birkenau, foram assassinados, até
esse mês de Novembro, em quatro câmaras de gás, quase um milhão e meio de
judeus dos países ocupados pela Alemanha. Estes representaram 90% das vítimas
de Auschwitz, incluindo-se, entre as restantes, cerca de 75.000 polacos não-judeus,
20.000 ciganos Sinti e Roma, bem como 15.000 prisioneiros de guerra soviéticos,
além de diversos grupos de outras categorias, entre as quais homossexuais.

Em 17 de Janeiro de 1945, devido à aproximação das forças soviéticas,


iniciou-se a evacuação de Auschwitz e de todos os sub-campos, sendo todos os
cerca de 60.000 prisioneiros que podiam deslocar-se enviados em direcção a Oeste,
em «marchas da morte». Mais de 15.000 prisioneiros morreram, até chegarem à
cidade de Wodzislaw, onde os sobreviventes foram colocados em comboios de
carga e transportados para campos de concentração na Alemanha. Na viagem
muitos outros milhares de prisioneiros morreram. Entretanto, no dia 27 de Janeiro
de 1945, as tropas soviéticas que chegaram e libertaram Auschwitz encontraram
5.000 prisioneiros, doentes ou agonizantes.

Bibliografia
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