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Cem por cento racional, cem por cento crente

Por Frei Bento

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/17-01-2010/cem-por-cento-racional-cem-por-cento-crente-
18598066.htm

Ser crente não significa ser irracional. A fé é a confissão de um homem racional

1. Aludi, no domingo passado, a "um teólogo feliz", mesmo na tormenta, chamado


E. Schillebeeckx, que passou, nas vésperas do Natal, definitivamente para as mãos
de Deus. Sob certo aspecto, é verdade o que diz Fernando Pessoa: "Morrer é só
não ser visto" (1).

Quando isso acontece, o essencial fica sempre por dizer. Apetece-me, no entanto,
recolher e partilhar a confissão desse teólogo cem por cento racional, não
racionalista, e, simultaneamente, cem por cento crente. É uma confissão, não é
uma argumentação. Essa percorre toda a sua obra. Aqui e agora, é a primeira que
me interessa, respeitando o seu carácter oral, embora transcrita para a obra citada
no domingo passado.

Enquanto crente, sou racional, procuro argumentos racionais e sinto-me, assim, um


crente cem por cento. Não há contradição. Ser crente não significa ser irracional. A
fé é a confissão de um homem racional. A racionalidade da fé deve ser sempre
desenvolvida e clarificada. Toda a minha teologia é teologia de um crente: Fides
quaerens intellectum. A razão humana deve viver à vontade no domínio da fé.
Apelar para a obediência e fechar os olhos não é cristão, não é católico. Precisamos
de ser crentes racionais. S. Tomás é santo na sua racionalidade. Usa a razão para
abordar a fé. A racionalidade é cada vez mais necessária, sobretudo, para reagir
contra o fundamentalismo que também mina, cada vez mais, as Igrejas. O
fundamentalismo, presente em certas comunidades cristãs, leva ao obscurantismo.
É um grande perigo porque nega a razão humana.

É verdade que a razão humana não pode ser abandonada a ela própria. Corre o
perigo de se fechar num puro positivismo. A fé cumpre a função crítica e conectiva
para não se cair no racionalismo e para que não se feche ao mistério. Sem a razão
humana, a fé torna-se fundamentalismo. Ambas, a fé e a razão, cumprem a função
de crítica recíproca.

2. Outrora, falava-se de escolas teológicas. Havia mestres e discípulos. Hoje, já não


é assim. A ideia de fazer escola está ultrapassada. As grandes sínteses, que
duravam séculos, são coisa que já não existe. Eu não escrevo para a eternidade,
mas para o ser humano de hoje que se encontra numa situação histórica
determinada. Tento responder a questões. A minha teologia é datada, é contextual.
Deseja, no entanto, ir para além da situação enquanto tal. Nas minhas obras,
existe uma intenção universal, pois esforço-me por ter em consideração o porquê
dos seres humanos de toda a humanidade. De outra forma, aliás, não seria boa
teologia. A actualidade de uma teologia não se confunde com uma actualidade
efémera. Para outros tempos, outras teologias virão.

Estou contente de ter dito alguma coisa para o ser humano de hoje e, talvez,
também alguma coisa que interessará, ainda, a geração futura. Quando uma
teologia pode alimentar a geração seguinte, é uma grande teologia e assim
continua a grande tradição teológica.
3. É difícil traçar uma linha de divisão nítida entre a minha aventura pessoal e a
minha vida de teólogo. Há dois textos da Escritura que sempre me apoiaram e que,
ainda hoje, continuam a apoiar-me: "Estai sempre prontos a responder a quem vos
pede a razão da esperança que vos habita" (1 Pedro 3, 15) e "Não apagueis o
Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo, guardai o que é bom" (1 Ts 5,
19-21).

É o Espírito que me fala através destes textos sagrados. Por um lado, no esforço
contínuo para me reorientar nas reacções inesperadas, para as quais sopra o
Espírito de Deus; este mesmo Espírito deu, ao meu trabalho teológico, um carácter
de esperança, libertador e construtivo que abre para a existência concreta, como
muitos dos meus leitores, para minha grande alegria, me fizeram saber,
verbalmente ou por escrito.

Por outro lado, o Espírito foi também a fonte do inesgotável carácter crítico dos
meus escritos, da atitude crítica que, até hoje, me acarretou um certo número de
cartas nas quais os meus irmãos cristãos me definiram como um "diabo em carne e
osso", "um lobo sob a pele do cordeiro", "um herético da pior espécie" e "um
imigrado na Holanda que para o bem da sociedade e da Igreja seria melhor
regressar ao seu país de origem".

O meu trabalho científico significa ainda, para mim, de modo muito consciente,
uma forma de apostolado e, em particular, uma forma de pregação dominicana da
Boa Nova: o Evangelho de Jesus, o Messias do Deus libertador, eleito do Espírito.

Aprendi, no entanto, por experiência que, se a religião é o maior bem do ser


humano e para o ser humano, é também, muitas vezes, inteiramente manipulada
para humilhar e até para torturar o ser humano no corpo e no espírito.

É por isso que, sobretudo nos últimos anos, o meu pensamento teológico preferiu
defender o ser humano, homem e mulher, contra as exigências desumanas da
religião, em vez de a defender contra as nossas ilusões de seres pecadores que
todos somos.

Nos dois aspectos, crítico e construtivo, do meu pensamento teológico, procurei


testemunhar aos outros a esperança e a alegria que vivem em mim. Sou
verdadeiramente um homem feliz.

Em suma, só um ser inteligente pode acolher a fé; só um homem de fé pode deixar


a inteligência, em todos os seus registos, viver em liberdade a multifacetada
experiência cristã.

(1) Inês de Barros Baptista, Morrer é só não ser visto, Planeta, Lisboa, 2009