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Ciência e espiritualidade: um novo diálogo?

Por Frei Bento Domingues


http://jornal.publico.clix.pt/noticia/24-01-2010/ciencia-e-espiritualidade-um-novo-dialogo-18637247.htm

Não fará grande sentido procurar, nas ciências, argumentos a favor ou contra a
existência de Deus

Já passaram quatro séculos depois da condenação de Galileu. O debate público


sobre o tema das relações entre ciência e religião continua, embora polarizado por
dois extremos. De um lado, o delírio criacionista, apostado em negar determinadas
aquisições científicas em nome de uma leitura fundamentalista da Bíblia. Do outro,
a repercussão mediática de certos cientistas como, por exemplo, Richard Dawkins,
que julgam poder provar a não-existência de Deus com a ajuda de argumentos
científicos. Note-se que se trata de posições bastante marginais nos dois campos.
Parece-me sem grande sentido procurar, nas ciências, argumentos a favor ou
contra a existência de Deus. As ciências não são religiosas nem ateias.

Entre nós, o padre João Resina, que foi professor do Instituto Superior Técnico de
Lisboa e investigador do Centro de Física da Matéria Condensada, soube marcar
sempre, com muita clareza, a distinção entre o campo da ciência e o da religião.
Para este grande espiritual e pouco amante de liturgias farfalhudas, os conflitos
entre a ciência e a Igreja católica não se colocaram entre duas verdades em conflito
- como às vezes se diz -, mas entre duas maluqueiras (1). Apetece-me sugerir a
edição, em livro, dos seus textos referidos em nota, para leitura dos estudantes de
teologia, dos pregadores e dos catequistas. Sem ter em conta que o clima cultural
se modificou a partir da prática das ciências, corre-se o risco de criar dificuldades
escusadas, no campo religioso, às crianças e aos adultos, que podem ver conflitos
onde não existem. Quando dirigia a catequese na paróquia do Campo Grande
(Lisboa), o padre Resina manifestou a sua preocupação antecipadora: que se fale
dessas coisas às crianças antes de se falar no liceu; e que se diga que uma coisa é
tudo o que vem de Deus, que é a criação, e outra a maneira como o Universo
evoluiu e que não tem nada a ver com religião.

Referindo-se às acusações que lhe faziam em nome da Bíblia, o próprio Galileu


observava com ironia: "A intenção do Espírito Santo é ensinar-nos como se deve ir
para o céu e não como vai o céu." Sabia que estava a usar a palavra "céu" em
sentidos completamente diferentes.

O cientismo positivista nasceu na segunda metade do século XIX. Era seu axioma
que só é real aquilo que aparece e só aquilo que aparece. Este cientismo tornou-se
uma verdadeira "religião da razão". De sentidos ocultos - sem o culto do ocultismo
- vivem os símbolos, a poesia, a música ou a religião. O criacionismo nasceu,
igualmente, na segunda metade do século XIX, em reacção contra a teoria
darwinista da evolução. À versão bíblica fundamentalista sucedeu outra mais doce
que, admitindo a teoria da evolução, tenta provar, pela ciência, a existência de
Deus. Esta versão tem o nome de teoria do desígnio inteligente (intelligent design).
Embora mais simpática, não consegue, no entanto, escapar às acusações de
confusão entre percurso científico e caminho religioso.
Os debates que percorreram o século XX não foram inúteis. A ciência clássica, com
o seu sonho da previsibilidade perfeita, afirmava a sua vontade de construir um
sistema exaustivo de representação do mundo. Certas religiões também faziam de
conta que tinham Deus preso aos seus rituais, aos seus dogmas, às suas teologias
e devoções. Também em teologia tudo era previsível, esquecendo o carácter
histórico das suas construções e, sobretudo, a falta de vigilância que a teologia
negativa - aquela que coloca sempre à perna de qualquer afirmação uma negação -
impunha. A bondade de Deus não cabe no que sabemos da bondade humana.
A situação actual, tanto no mundo da ciência como no das religiões, está a tornar-
se mais humilde. Os seus respectivos praticantes vão-se dando conta, à medida
que avançam, que falta sempre mais do que aquilo que já foi encontrado.
Pressentem que o real é infinitamente mais vasto do que o já conhecido.
A revista Le Monde des Religions(Jan-Fev. 2010) apresenta um longo e interessante
dossier sobre os cientistas que propõem um novo diálogo entre ciência e
espiritualidade. Charles Townes, para evocar a sua própria experiência, recorda
uma das observações de Einstein, escrita em alemão no hall da Universidade de
Princeton: "Deus é subtil, mas não é malicioso." O mundo que Deus criou é
complexo e, para nós, difícil de compreender, mas não é arbitrário e ilógico. Sem
acreditar que há uma ordem no universo e que o espírito humano - o do próprio
investigador - é capaz de compreender essa ordem, o cientista não investigaria.
Este género de cientistas recusa a esquizofrenia e a confusão. William Phillips
sublinha que o facto do seu conhecimento científico apoia a sua fé. Se esta é não-
científica (não significa anticientífica), nada tem, todavia, de irracional.

Poder-se-á dizer que os debates deste dossier não trazem nada que não se possa
encontrar em obras especializadas. Sem dúvida. A sua importância é outra: fazer
com que um público mais vasto tenha acesso a uma problemática essencial para
viver, em convergência, o espírito da investigação científica e o espírito da
investigação da fé. É esse o clima em que se deve desenvolver a Pastoral da Igreja.

(1) J. Resina Rodrigues, Sobre a ciência e a fé, Communio I(1984/6), 573-


582; Ciência, filosofia e religião, Communio XVII(2000/6), 560-568; Entrevista
(Pública, 2007/4/12).