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Cientistas reconstroem desenvolvimento genético do cancro

do pulmão e do melanoma

Por Ana Gerschenfeld

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/18-12-2009/cientistas-reconstroem-desenvolvimento-genetico--do-
cancro-do-pulmao-e-do-melanoma-18440030.htm

Num trabalho de arqueologia genética, equipa vislumbra duas "paisagens


genéticas" devastadas pelo cancro

As mortes devidas ao cancro do pulmão representam cerca de 16 por cento das


mortes por cancro no mundo. E, dos dois tipos de cancro do pulmão, o cancro de
pequenas células (15 por cento dos casos) é o mais letal: apenas um em cada 20
doentes consegue sobreviver-lhe cinco anos. É provocado, esmagadoramente, pelo
tabagismo.
O melanoma maligno, quanto a ele, é um cancro raro - representa apenas três por
cento dos cancros da pele - mas é de longe o mais mortal: provoca três em cada
quatro mortes por cancro da pele. Um dos principais agentes causadores de
melanoma é a exposição aos raios do Sol.
Sabe-se que estes e os outros cancros surgem quando o ADN das células do
organismo humano sofre mutações - no caso do cancro do pulmão, trata-se de
mutações induzidas pelas substâncias tóxicas do fumo de cigarro; no do melanoma,
pelas radiações ultravioletas. Mas o que é que se passa exactamente ao nível do
genoma? Qual é a história de cada cancro, como é que se desenvolve em cada
pessoa?
Na edição on-line de ontem da revista Nature, uma grande equipa anglo-americana
de cientistas revela, em dois artigos separados, dois trabalhos pioneiros de
autêntica arqueologia genética que permitem começar a responder a estas
perguntas e que, no futuro, poderão conduzir a uma forma radicalmente diferente -
e personalizada - de tratar estes cancros e o cancro em geral.
Peter Campbell e Mark Stratton, do Wellcome Trust Sanger Institute no Reino
Unido, e os seus colegas, sequenciaram na íntegra, com uma precisão sem
precedentes, o ADN de células cancerosas desses dois tipos de cancros (diga-se de
passagem que, para além de utilizarem as mais potentes e modernas técnicas de
sequenciação genética, no caso do melanoma, em particular, tiveram de repetir a
leitura mais de 70 vezes para ter a certeza de estar a ler correctamente cada
"letra" de ADN).
A seguir compararam cada uma dessas sequências genéticas com o respectivo ADN
de células normais, não cancerosas, vindo do mesmo doente, à procura das
mutações associadas a cada um dos cancros.
"Estes são os dois principais cancros do mundo desenvolvido cujas causas primárias
são conhecidas", explica Stratton num comunicado da sua instituição. "Para o do
pulmão é o fumo de cigarro e para o melanoma maligno é a exposição solar. Com
estas sequências genéticas, fomos capazes de explorar em profundidade o passado
de cada tumor, revelando com notável clareza as marcas deixadas no ADN por
esses agentes mutagénicos ambientais anos antes de o tumor se tornar aparente."
O genoma do cancro do pulmão continha mais de 23 mil mutações e o do
melanoma mais de 33 mil. "Com base em estimativas médias, podemos dizer que
surge uma mutação ao fim de cada 15 cigarros", diz Campbell no mesmo
documento. Ou seja, uma mutação por dia para um fumador típico!
Também vislumbraram a batalha travada pelo genoma contra essas alterações
nefastas, batalha que o cancro acabou obviamente por vencer nestes dois casos.
"Foi possível ver as tentativas desesperadas do nosso genoma para se defender dos
estragos provocados pelos químicos do fumo de cigarro e da radiação ultravioleta",
acrescenta Stratton. No caso do cancro do pulmão, a equipa identificou ainda um
misterioso sistema natural de reparação do ADN, até agora desconhecido, que
sugere que o genoma tende a defender mais intensamente as suas regiões que
contêm genes muito activos - e a descurar outras, menos importantes. Agora, vai
ser preciso identificar as mutações causadoras destes cancros - o que, pela
primeira vez, parece ser possível. "Mas ainda temos muito a fazer para perceber
estas devastadas paisagens genéticas do cancro", frisa Campbell.