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Edward Schillebeeckx (1914-2009) 17 Jan.

2010

http://www.jornalw.org/index.php?cont_=ver2&id=844&tem=56&lang=pt

Morreu em Nimega, na Holanda, na vigília de Natal, o teólogo belga Edward Schillebeeckx.


Nascido em Anvers em 1914 tornou-se pregador dominicano em 1934.

Estudou Filosofia e Teologia em Lovaina, no “Studium Generale” dominicano de


Saulchoir e na Sorbonne (Paris), onde foi aluno do Padre Dominique Chenu. Em 1951,
doutorou-se em teologia, com a tese «A Economia Sacramental da Salvação», publicada
em 1952. Ensinou Teologia no convento dos dominicanos em Lovaina e na
Universidade de Nimega (Holanda, de 1957 a 1983). Foi conselheiro teológico do
episcopado holandês, participou no Concílio Vaticano II, de forma muito activa,
podendo dizer-se que foi um dos elementos mais duravelmente influente. Foi membro
fundador da revista internacional “Concilium” criada em 1964. Graças à amizade com
António Alçada Baptista e Helena Vaz da Silva, acompanhou pessoalmente o
lançamento da revista em Portugal, exercendo assinalável influência entre nós,
designadamente através de Frei Mateus Cardoso Peres, O.P. e Frei Bento Domingues,
O.P..

Entre os oito colóquios promovidos pela revista portuguesa, teve lugar em Abril de
1966 a conferência de Schillebeeckx intitulada “A Dolorosa Experiência do Deus
Oculto”.

O estudo e a actividade de Edward Schillebeeckx inseriram-se na “nova teologia”


iniciada em Le Saulchoir, que contribuiu decisivamente para o “aggiornamento”
conciliar da Igreja Católica. Neste sentido renovador, afirmou: "O mundo e a história
dos homens, em que Deus quer realizar a salvação, são a base de toda realidade
salvífica: é aí que primordialmente se realiza a salvação... ou se recusa e se realiza a
não-salvação. Neste sentido, vale 'extra mundum nulla salus', fora do mundo dos
homens não há salvação”. Ciente da importância de um Ecumenismo aprofundado e
sério, afirmou corajosamente: “há mais verdade (religiosa) em todas as religiões no seu
conjunto do que numa única religião, o que também vale para o cristianismo". Para
Schillebeeckx tornava-se essencial “repensar a fé tradicional em função da situação
presente no mundo”. Dotado de uma inteligência e de uma sabedoria fascinantes, o
teólogo foi assessor do episcopado holandês no Concílio Vaticano II e consultor do
episcopado holandês nos anos que seguiram ao Concílio, altura em que a Igreja da
Holanda submeteu-se a um profundo repensamento. Foi assim um dos principais
inspiradores do “Novo Catecismo holandês” (1966) e a sua numerosa obra escrita pode
ser encontrada na revista “Concilium” e em revistas especializadas. Como nos casos de
Hans Küng, Karl Rahner, De Lubac, Häring e outros, a sua influência transcendeu,
porém, largamente os círculos especializados. Citamos algumas de suas obras: “Cristo,
Sacramento do Encontro com Deus” (1958); “Deus, Futuro do Homem” (1965);
“Mundo e Igreja” (1966); “Compreensão da Fé: interpretação e crítica” (1972); “Jesus.
Uma Tentativa de Cristologia” (1974). “Sou um teólogo feliz” (1994) e “Os Homens,
relato de Deus” (1995). Dois tomos sobre “A Igreja de Cristo e o homem de hoje
segundo o Vaticano II” reúnem sua contribuição para as revistas especializadas.
Segundo Schillebeeckx, a historicidade leva a reinterpretar os dogmas, considerando as
condições concretas da existência das pessoas. Por isso, a ortodoxia só é plenamente
possível a partir do que designa por “ortopráxis”: na prática efectiva da Igreja é que se
realiza a compreensão da mensagem da fé. A unidade de uma mesma fé e de uma
mesma confissão só é reconhecível, deste modo, na “pluralidade de opiniões
teológicas”. Num mundo secularizado, “Deus manifesta-se normalmente sob a forma de
ausência”. E isso mesmo tem de ser compreendido pelos cristãos no seu testemunho. Ao
abordar os problemas do ponto de vista histórico, devemos aplicá-los à figura de Jesus.
"O Reino de Deus está essencialmente ligado à pessoa de Jesus de Nazaré. O Novo
Testamento mantém este facto numa de suas mais antigas lembranças, dizendo que, com
Jesus, o Reino de Deus, Deus mesmo, vem para bem perto de nós. O Reino de Deus
deve consequentemente ser compreendido e qualificado a partir da vida de Jesus”.

Nesta linha, António Alçada Baptista gostava de citar Dostoievsky, quando dizia:
“Amar um ser é vê-lo como Deus quis que ele fosse”. E, na linha da “Peregrinação
Interior”, que é um dos grandes livros do século XX português, dizia: “Nós somos seres
inacabados e talvez esteja no plano de Deus que a gente se complete através da nossa
liberdade. (Em certo sentido, a liberdade é uma dádiva e um dever). E como Deus é para
nós uma imagem feita pelo homem. Deus é um Deus inacabado. Ele, como o homem,
vai sendo feito ao longo da história. Em rigor, talvez haja uma aliança subtil entre Deus
e os homens para acabarmos o mundo como deve ser” (in “A Cor dos Dias”, 2003). De
facto, assim, poderemos compreender que fazemos parte do plano da criação e que a
liberdade é um bem precioso que nos chama, permanentemente, à responsabilidade e à
autoria. A palavra latina “libertas” liga-se à libra, a balança livre e equilibrada,
articulando autonomia, igualdade e respeito mútuo, uma vez que os dois pratos da
balança têm de representar a relação de equilíbrio entre nós e os outros. Essa a grande
lição do cristianismo, a de pôr a dignidade humana, a partir de Jesus Cristo, no centro da
vida.

Guilherme d’Oliveira Martins