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Entrevista a Virgílio Castelo

por Elisabete Pato

DN 2010-01-24

http://dn.sapo.pt/revistas/nm/interior.aspx?content_id=1477291

Defende que um actor tem de viver em perigo, saber lidar com a rejeição e não se
acomodar a um emprego. Posto isto, vive tranquilo? «Não, de todo. A minha
mulher e as minhas filhas sentem isso.» Virgílio Castelo, 56 anos, é actor e
encenador. E consultor para a ficção nacional na SIC. «A legislação portuguesa
nacional é criminosa quando não obriga as televisões por cabo a produzirem em
português.» Se pudesse escolher o seu destino, «pagava as contas da minha
família fazendo, por ano, uma peça ou duas de teatro, um filme e só um projecto
de televisão que não fosse uma telenovela. É sonhar.»

Virgílio Manuel da Costa Castelo nasceu há 56 anos, em Lisboa, entre uma família
burguesa e outra aristocrata, mas pobres. Com 35 anos de carreira, já
protagonizou e participou em várias peças de teatro, telenovelas e filmes.
Representou em musicais, comédia e drama. Fundou o Teatro Adoque, com
Francisco Nicholson e Henrique Viana, e estudou teatro em Estrasburgo enquanto
bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Na década de noventa do século XX
dirigiu actores na NBP. Escreveu o seu primeiro romance, O Último Navegador, em
2008, e quer publicar outros dois. Um sobre Deus, o outro sobre o amor. Depois do
sucesso d’O Camareiro, prepara-se para subir, outra vez, ao palco do Teatro
Nacional D. Maria II, em Fevereiro, na peça Rei Édipo, protagonizada por Diogo
Infante e encenada por Jorge Silva Melo. Pelo menos até Março tem contrato com a
SIC, como consultor para a ficção nacional.

É consultor para a ficção nacional na SIC. A televisão portuguesa tem uma


boa programação?
É uma pergunta difícil de responder. Acho que fazemos jus à tradição portuguesa,
somos muito bons em função dos orçamentos que temos, isso é muito claro. Não
tenho dúvida alguma de que qualquer uma das pessoas que fazem televisão em
Portugal, os criativos, os gestores, os empresários, se tivessem os orçamentos que
existem lá fora, saberiam, claramente, fazer o mesmo. Somos tão dotados como
eles, o nosso problema está nos orçamentos. A dimensão do mercado português é
mínima, o retorno é ínfimo. Portanto, temos de ser muito mais criativos do que os
outros países. Há uma prova concreta disso, que é a evolução das novelas
portuguesas em dez anos. É absolutamente extraordinária por comparação com o
que os melhores do mundo nesta área, os brasileiros, fizeram em cinquenta anos.
Os portugueses vivem com um complexo de identidade completamente falso, em
todas as actividades. Temos a ilusão de que somos menos capazes do que os
outros e isso é completamente absurdo.

Está a gostar de ser consultor?


Tenho um objectivo desde sempre, umas coisas faço por gosto, outras por dever.
Esta, faço-a claramente por dever. Acho que devo isso, passo a expressão, ao meu
país. Ou seja, há determinadas coisas que têm que ver com a melhoria geral das
condições da ficção em Portugal, que me interessam enquanto actor, enquanto
artista, e se tenho alguma possibilidade de colaborar nesse movimento geral para
melhorar condições que não são as melhores…

O que lhe interessa como actor?


Interessa-me que o panorama da ficção portuguesa melhore, basicamente que haja
mais trabalho e que esse trabalho tenha cada vez mais qualidade e que se
aproxime de um paradigma europeu.

Como é que isso pode acontecer?


Com quantidade de trabalho, não há outro caminho. Não sou das pessoas que
acreditam em génios de geração espontânea. É da quantidade que nasce a
qualidade. Não acredito que seja possível fazer boa produção, seja de televisão,
teatro, cinema, seja do que for, sem muito trabalho por detrás. Tem de haver uma
generalização do hábito de se produzir ficção nos três canais. A legislação
portuguesa é criminosa quando não obriga as televisões por cabo a produzirem em
português.

Gosta mais de dirigir ou de ser dirigido?


Gosto mais de ser dirigido.

Por quem?
Por várias pessoas. Na minha geração, o trabalho fixo era uma coisa muito
almejada, do meu ponto de vista de um modo equívoco. Um actor não deve aspirar
a ter um trabalho fixo. Um actor tem de viver em perigo de vida.

Mas não é o que os actores pretendem?


Acho que os actores que defendem um emprego, no fundo é disso que se trata,
estão apenas a resolver o problema do curto prazo. Todos os actores que
arranjaram um emprego ficaram pelo caminho. Quando se está numa estrutura
durante muito tempo e se trabalha sempre com as mesmas pessoas, artisticamente
não se evolui, ou evolui-se pouco. Desde que comecei, com 21 anos, mesmo na
altura em que era para mim desejável como jovem adulto ter uma situação
económica e financeira estável, arrisquei sempre. No momento em que os outros
queriam entrar nas companhias, trabalhei com várias pessoas, porque achei que
isso me enriquecia muito mais como actor.

Nem sempre há oportunidades.


Claro que não. Isto não é fácil, mas ser actor não pode ser encarado como um
emprego, tem de ser encarado como um trabalho. E sei que isto é muito doloroso
mas não há outra maneira. Há duas coisas com as quais um jovem actor tem de
aprender a lidar se quer vingar na profissão, aqui ou em qualquer parte do mundo.
A primeira é aprender a viver em insegurança. Tirando o caso das antigas
repúblicas socialistas, não há mais sítio nenhum no mundo onde haja emprego para
os actores. Estão três anos num teatro nacional, depois vão dois anos para uma
companhia privada, e isso é que faz a riqueza de um actor. É o que eu chamo
perigo de vida. O segundo conselho que dou aos mais novos é aprenderem a lidar
com a rejeição, não se pode querer ser actor e não aprender a lidar com a rejeição.
E querer um emprego é afastar a hipótese de ser rejeitado. Não ser rejeitado é
uma contradição para um actor. Um actor tem, permanentemente, de estar a
inventar, a ser criativo, para que nunca seja rejeitado, porque se tiver emprego,
garanto-lhe…
A criatividade é nula.
É. Bem sei que isto é politicamente incorrecto de dizer e que alguns colegas meus
não estão de acordo, mas é realmente o que penso. Não sei o que vou fazer daqui
a seis meses.

E vive tranquilo?
Não, não vivo tranquilo, de todo. A minha mulher e as minhas filhas sentem isso,
mas não há outra maneira.

Há uns tempos disse que gostaria de se aventurar pela política. Em que


sentido?
Houve uma altura em que encarei isso como possível, quando se falava na hipótese
de haver círculos uninominais. Achei que era uma pessoa capaz de começar um
novo capítulo na minha vida desde que não tivesse de responder a nenhum partido.
Nesse sentido, fazer política numa ligação directa entre eleito e eleitores era uma
coisa que me teria apaixonado na altura.

Mas a nível local?


Era indiferente. Lembro-me sempre da frase do Kennedy: «Não perguntes à
América o que é que a América pode fazer por ti, pergunta a ti próprio o que podes
fazer pela América.» No meu percurso de vida devo coisas ao país. O país foi
generoso para mim e devo contribuir de alguma maneira.

Essa contribuição pode ser o facto de não sair de cá.


Não me parece que tenha características que me levassem a ter saído de cá. Como
artista, essa questão pôs-se quando estava a estudar em Estrasburgo, tive um
convite para ficar na escola como professor, como assistente, o que eventualmente
me teria permitido fazer uma carreira em França, mas sou muito português nestas
coisas.

Se fosse convidado agora para exercer um cargo político, aceitava?


Não. Eu tenho uma relação com o poder que é sem qualquer espécie de pudor, em
todas as situações em que tive ou tenho poder, exerço-o. Não tenho qualquer
espécie de tibieza nesse sentido. Quando fui director-geral da NBP exerci esse
poder, quando dirijo uma peça exerço esse poder e não tenho qualquer complexo
em relação a isso. Portugal é um país que lida mal com esta atitude, portanto, se
me convidassem para algum cargo político, seria difícil aceitá-lo na medida em que
quereria exercer o poder de uma maneira absolutamente determinada. E o poder
em Portugal negoceia-se demasiado, sobretudo em função do efémero, do
imediato. Toda a gente tem um medo enorme daquilo que os outros possam
pensar. Portanto, não valeria a pena porque estaria condenado.

Ficou satisfeito com a escolha de Gabriela Canavilhas para o Ministério da


Cultura?
Muito, muito. Não a conheço, mas acho que é a primeira vez que não está nem um
político nem um intelectual. É alguém da profissão. Temos um operário no
ministério. É bom, como é bom ver um actor à frente de um teatro nacional, que é
o caso do Diogo Infante, o que também é uma novidade, ou são encenadores,
intelectuais ou políticos.
Foi para Estrasburgo com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian.
Porque é que escolheu Estrasburgo?
Em 1977, 1978, trabalhei como actor na Cornucópia e n’Os Cómicos. Ambas as
companhias estavam sediadas onde ainda hoje está a Cornucópia, no Teatro do
Bairro Alto. O Fernando Heitor, que era o director d’Os Cómicos, foi à Gulbenkian
pedir uma bolsa para ir estudar para Nova Iorque. Em conversa com ele comecei a
pôr a hipótese de ir. Depois, eu, o Luís Miguel Cintra e o Jorge Silva Melo, que me
apoiaram nessa aventura, conversámos sobre o que seria melhor para mim, e de
facto o Teatro de Estrasburgo era uma companhia que na altura tinha muito que
ver com a Cornucópia. O Teatro Nacional de Estrasburgo era uma das companhias
mais elitistas que havia na Europa nos anos setenta do século passado.

Esteve lá algum tempo.


Estive lá três anos. Para mim foi muito importante passar de um actor que se tinha
estreado no teatro popular português, na revista. Estreei-me em 1974 e estive três
anos no teatro de revista. Até 1977 fiz revistas e peças infantis, depois fiz uma
peça n’Os Cómicos, outra na Cornucópia e a seguir fui para Estrasburgo.
Estrasburgo era o contrário do teatro popular e de grande público.

E isso, obviamente, enriqueceu-o como actor.


Tornou-me um pouco no que sou hoje. Continuo a ser um actor para quem o
público é essencial. Não há actores que sejam compreendidos a posteriori,
enquanto há escritores ou pintores que podem ser compreendidos cem anos depois.
Não há nenhum actor que possa ser compreendido cem anos depois, ou sou
compreendido agora, pelo público que existe, ou não sou actor, sou outra coisa
qualquer, e nesse sentido a primeira matriz é a do público. Por outro lado, a ideia
de que um actor tem de estar sempre à procura de coisas novas, que nunca se
pode repetir, ou tentar não se repetir, foi aquilo que Estrasburgo me deu. A
necessidade de tentar sempre testar os meus limites.

Escolheu um percurso ou foram as oportunidades?


Naveguei sempre um pouco à bolina e isso tem que ver com uma herança familiar.
Sou um feliz resultado da personalidade do meu pai e da minha mãe. A minha mãe
é uma pessoa muito inconstante. Ao longo da vida terá tido vinte, trinta empregos.
O meu pai teve dois. Enquanto o meu pai é uma pessoa que se propõe um
objectivo, a minha mãe ao fim de um tempo está farta do objectivo a que se propôs
inicialmente. Eu sou um pouco assim. Mudo muito mas levo todos os projectos até
ao fim, é a diferença entre mim e a minha mãe. Tenho essa pulsão de mudar
muito. Acabei por ter a sorte de ser actor e encontrar uma profissão e uma maneira
de viver que tem muito que ver com a minha essência mais profunda, com a minha
inconstância.

Como é que foi para actor?


Por acaso. Era modelo e conhecia a Helena Isabel. Vinha de umas férias no Algarve,
logo a seguir ao 25 de Abril, e encontrei-a num café onde íamos muito na altura, o
Vavá, em Lisboa. Ela perguntou-me se queria ir trabalhar como secretário num
grupo de teatro que estava a formar. Disse que sim, estava a três meses de ir para
a tropa. Entrei lá como secretário e nunca mais saí. Aconteceu-me aquilo que
acontece a toda a gente neste meio, todas as pessoas que um dia experimentam
ser actores nunca mais querem deixar de o ser, mesmo que sejam rejeitadas,
mesmo que seja muito difícil, acabam sempre por querer ficar. É o melhor
brinquedo do mundo.

Essa sua decisão de ir para o teatro como secretário, logo a seguir ao 25 de


Abril, como é que foi encarada pelos seus pais?
Foi complicado, sobretudo para o meu pai, por uma questão política. O meu pai era
um funcionário menor do antigo regime e a companhia para onde fui trabalhar era
claramente alinhada com o Partido Comunista.

Qual era a companhia?


O Teatro Adoque.

Que fundou com Francisco Nicholson e Henrique Viana.


Fui co-fundador. Era uma companhia claramente conotada com o Partido
Comunista e isso para o meu pai foi muito complicado, porque era um homem da
Mocidade Portuguesa, um homem do regime. Houve ali alguns confrontos entre
nós, mas que com o tempo ficaram naturalmente resolvidos. Com a minha mãe não
houve nenhum atrito. Por outro lado, havia aqui uma questão que é importante
frisar, a minha família é uma família muito pobre…

Lisboeta?
Lisboeta, sim, dos dois lados. Do lado da minha mãe há uma ascendência algo
aristocrática, ou vagamente aristocrática, e do lado do meu pai muito burguesa,
que há três ou quatro gerações vive sem dinheiro. Pode haver lá um ou outro
cromossoma que ficou de algum bem-estar na vida. Nas gerações que conheci dos
meus avós já não havia rigorosamente nada.

De secretário a actor, quanto tempo?


Três meses, acho que nem tanto. O que acontecia é que também a possibilidade de
ser actor era uma oportunidade de futuro económico, que me estava vedado,
literalmente, numa família pobre. Eu seria hoje em dia funcionário público ou, com
um bocado de sorte, teria tirado um curso qualquer. Ser actor era uma perspectiva
simpática para as posses da minha família.

Lida bem com a fama e com o mediatismo?


A fama não tem problema algum em Portugal. Quando ouço pessoas a queixarem-
se da fama dá-me sempre vontade de rir, o que existe são pequenos contratempos
e pequenas vantagens. É tudo muito pequenino. O ser-se conhecido por uma
actividade pública facilita arranjar táxi ou um lugar no restaurante, mas vai pouco
além disso. O que acho que me incomoda, se quiser, nesse conceito de fama não é
aquilo que se passa comigo ou com os meus colegas, o que me incomoda um
bocadinho é que essa notoriedade, porque se tem uma actividade pública, hoje em
dia exista porque se vai a uma festa, isso é que acho um bocadinho frívolo. Tenho a
ideia de que há algo que me liga ao público e que liga o público a mim. Se quiser,
eu intuo que de alguma maneira o público me reconhece enquanto alguém que lhe
faz companhia.

Publicou um livro, O Último Navegador. Foi o seu primeiro romance.


Escrever é uma actividade que pretende continuar?
Estou a escrever um segundo romance, mas mais uma vez escrever romances tem
muito que ver com aquilo de que estávamos a falar há pouco. Está numa zona
intermédia entre o prazer e o dever. Enquanto ser actor é um prazer puro,
enquanto ser produtor ou director ou consultor é um dever absoluto, escrever é
uma coisa entre o prazer e o dever. Não sei explicar-lhe melhor do que isto. Tenho
vontade de falar de dois ou três assuntos. O primeiro assunto que me preocupava e
de que queria falar era Portugal. O Último Navegador é claramente um romance
sobre Portugal. Agora estou a escrever, tanto quanto se pode dizer, sobre o amor
como uma grande interrogação. E depois, se as coisas continuarem, se eu tiver a
mesma força anímica, há um outro tema sobre o qual eu quero escrever, que é
sobre a ideia de Deus.

É católico?
Não, tenho formação católica mas não sou de maneira alguma católico praticante,
de há uns 25 anos para cá. Passei por uma fase, dos 17 até aos 30, em que fui, ou
tentei, ser ateu ou, pelo menos, agnóstico, digamos que a minha formação
marxista me levou a essa dimensão. E dos 30 anos para cá tive como que uma
espécie de revelação, curiosamente ao ver um espectáculo de Brecht, que é o autor
menos religioso que possa existir. A certa altura achei que a religiosidade no ser
humano é absolutamente essencial, pelo menos para mim, e como a religião
católica me parecia insuficiente do ponto de vista do raciocínio para me poder
encher em termos religiosos, acabei por criar umas pontes entre o budismo, o
catolicismo e pouco mais.

É nesse sentido que vai escrever sobre Deus?


Não, a ideia de escrever sobre Deus é sobre uma coisa que tenha mais
reminiscências com o agnosticismo ou até mesmo com o ateísmo, que é, no fundo,
seja Deus o que ele for, para que é que precisamos de Deus? É um pouco mais
nesse sentido.

O que lhe apetecia fazer agora, profissionalmente?


Vou fazer uma peça com o Diogo Infante no Teatro Nacional, ele vai fazer Édipo
Rei. É uma peça em co-produção com os Artistas Unidos, encenada por Jorge Silva
Melo, em Fevereiro. Estou muito contente com esse projecto. Vou trabalhar com
pessoas que admiro imenso, há anos que tinha vontade de voltar a trabalhar com o
Jorge, com quem trabalhei no início da minha carreira e a quem devo muito, a ele e
ao Luís Miguel [Cintra]. Tinha muita vontade de voltar a trabalhar com ele também.
Depois, apetecia-me muito fazer uma coisa como actor em televisão, que julgo
poder concretizar este ano, na SIC. É uma série diária com contornos que novos em
termos da oferta televisiva portuguesa. Não lhe posso dizer muito mais do que isto
porque estou a ultrapassar o meu lado de consultor. Mas se me pergunta o que é
que me apetecia fazer, gostaria de poder organizar a minha vida, pagar as contas
da minha família fazendo apenas teatro, uma peça ou duas por ano, a fazer um
filme por ano, e só um projecto de televisão que não fosse uma telenovela. É
sonhar. O nosso mercado não o permite.