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Herman van Rompuy

Filósofo, poeta e presidente do Conselho Europeu

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/24-01-2010/filosofo-poeta-e-presidente--do-conselho-europeu-
herman-van-rompuy-18597648.htm

Desconhecido e discreto, a sua escolha para presidente do Conselho Europeu foi


motivo de troça de muitos jornais. Três semanas depois de ter entrado em funções,
o ex-primeiro- ministro belga já desmentiu pelos actos muitas das críticas. Durão
Barroso começa a ficar preocupado com eventuais incursões na sua esfera de
competências, e Rodriguez Zapatero já esbarrou contra a sua "deter minação
serena" de usar plenamente os seus poderes.

Quem foi que disse que Herman van Rompuy seria um presidente do Conselho
Europeu inócuo, apagado, inofensivo?

Esta foi a leitura trocista de muitos observadores e analistas europeus ou


americanos, porventura pouco familiarizados com o funcionamento da União
Europeia (UE), desiludidos pelo facto de os líderes dos Vinte e Sete terem escolhido
para seu primeiro presidente permanente um político de aparência tão pouco
promissora e tão distante da figura carismática, mediática e de envergadura
internacional que defendiam para o cargo.

"Desenganem-se!", avisa quem o conhece, frisando que a aparência de professor


tímido, afável e cordato de Van Rompuy esconde uma vontade de ferro e uma
personalidade bem mais complexa - contraditória, dirão alguns.

Uma coisa é certa: as semanas passadas desde que assumiu funções, a 4 de


Janeiro, foram suficientes para desfazer a imagem de um presidente incapaz de
levantar ondas: Van Rompuy, flamengo de 62 anos, sabe o que quer, tem a
habilidade táctica para levar a água ao seu moinho e, mais importante ainda, tem a
paciência necessária para esperar pela sua oportunidade. "Pode precisar de tempo,
mas quando toma uma decisão, corta a direito, sem olhar para o lado", resume um
responsável belga que pediu o anonimato, como a generalidade das pessoas
ouvidas pela Pública.

Por alguma razão, o homem que foi primeiro- ministro da Bélgica durante apenas
onze meses impressionou fortemente os seus pares à mesa do Conselho Europeu, o
nome of icial das cimeiras de chefes de Estado ou de Governo da UE. E não apenas
pela habilidade discreta com que conseguiu pacificar a crise institucional entre
flamengos e francófonos, que esteve à beira de provocar a implosão do país.

Os cínicos dirão que os líderes escolheram Van Rompuy por considerarem que, com
os seus bons modos e discriç ão, não faria sombra aos seus egos particularmente
desenvolvidos. Ou, em alternativa, que benef iciou do facto de não ter tido tempo
para ser conhecido - e, consequentemente, de fazer inimigos entre os seus pares
da UE.

O que é certo é que o ex-primeiro- ministro belga assumiu a fundo a função que diz
que não procurou, deixando clara a determinação de aplicar plenamente "o espírito
e a letra" do Tratado de Lisboa, que criou o seu posto. O que significa que
concentrará esforços ao longo dos próximos dois anos e meio a animar, coordenar
e impulsionar os trabalhos do Conselho Europeu de forma a gerar os necessários
consensos entre os Vinte e Sete, assegurar a continuidade e coerência da sua acção
e falar em seu nome com o resto do mundo.
Ninguém tem dúvidas de que Van Rompuy não tem a menor intenção de se
assumir como o "presidente da Europa", à semelhança de Barack Obama, como
defendiam os desiludidos pela sua escolha. Não por timidez, falta de iniciativa ou de
coragem, mas antes de mais porque não é isso que est ipula o novo Tratado. E,
mais importante ainda, porque sabe que um presidente desse tipo apenas seria
possível se a UE fosse um super-Estado em vez de uma União de Vinte e Sete
países soberanos.

Sem "gaffes"

Van Rompuy, político ponderado de quem nunca se ouviu uma gaffe, clarif icou no
discurso que fez no dia em que foi nomeado, a 19 de Novembro, mais um pouco a
sua concepção da missão: no seu trabalho de procura de consensos, velará para
que "cada país saia vitorioso da negociação" e para que "todas as deliberações
produzam resultados para todos". O que pressupõe uma grande capacidade de
escuta e de respeito pelas posições em confronto, uma das qualidades que mais
frequentemente lhe atribuem.

Mais ainda: as suas convicções pessoais - incluindo a oposição à adesão da Turquia


à UE, que reiterou enquanto primeiro- ministro - ficarão em surdina durante dois
anos e meio: as suas opiniões deixaram de contar e os seus pontos de vista serão
os que forem assumidos pelos Vinte e Sete, garantiu. "Qualquer presidente do
Conselho Europeu, por muito talentoso que fosse, que agisse de forma individual e
falasse em nome da Europa (...) sem ter o consentimento dos chefes dos governos
[da UE] passaria rapidamente a falar não em nome da Europa, mas simplesmente
em seu próprio no me", afirmou recentemente numa conferência na Alemanha. O
que, prosseguiu, "prejudicaria a instituição e a Europa no seu todo".

"Van Rompuy começa um pouco como Jacques Delors quando diz que são os chefes
de Estado ou de Governo que vão decidir e que ele só lá está para fazer
compromissos. Na aparência, põe-se numa posição de recuo mediático, mas a
verdade é que já tomou várias decisões marcantes", analisa Sylvie Goulard,
eurodeputada e presidente do Movimento Europeu francês.

A "determinação serena" (o seu lema) do novo presidente ficou clara quando, antes
mesmo de tomar posse, enfrentou calmamente a revolta de várias capitais por ter
corrido com os ministros dos Negócios estrangeiros das cimeiras de líderes. Os
protestos de muitos ministros não serviram de nada: a decisão limita-se a respeitar
o "espírito e a letra" do Tratado de Lisboa, que limita o Conselho Europeu aos
chefes de Estado ou de Governo.

O efeito foi imediato: a mesa gigantesca de 54 cadeiras (duas para cada país) foi
drasticamente reduzida e os ecrãs de televisão instalados em frente de cada líder
para lhes permit ir ver a cara dos intervenientes desapareceram, proporcionando
um ambiente de intimidade e cumplicidade. Tudo indica que o objectivo de Van
Rompuy de levar o Conselho Europeu a regressar às suas origens enquanto local de
discussão aberta, e à porta fechada, entre os líderes foi plenamente conseguido.

Mais importante ainda, sem o apoio e os conselhos dos chefes da diplomacia, os


líderes serão a partir de agora obrigados a conhecer a fundo os temas em debate -
o que muitos não se dão ao trabalho de fazer - sob pena de não conseguirem ir a
jogo. Espear-se que esta inovação facilite a emergência de consensos, muitas vezes
travados pelo tradicional atavismo dos diplomatas, mas o que é desde já certo é
que reforçará o papel de Van Rompuy entre os Vinte e Sete.

No próprio dia em que tomou posse, o novo presidente permanente convocou uma
cimeira extraordinária, e informal, de líderes para 11 de Fevereiro e fixou a agenda:
o arranque da discussão sobre a estratégia económica que vai suceder à chamada
"agenda de Lisboa" e que deverá desembocar em decisões concretas na cimeira
regular de Junho. A nova estratégia, defendeu, deverá permit ir duplicar o
crescimento económico potencial da UE para dois por cento anuais, condição
essencial para "preservar o modo de vida e o modelo social europeu".

"O maior bem"

Beneficiando do factor tempo - "o maior bem" de que dispõe -, Van Rompuy, iniciou
antes mesmo de entrar em funções um périplo por todos os países da UE para
sensibilizar cada um dos líderes para os seus objectivos e sondar as diferentes
aspirações e sensibilidades.

Ao convocar a cimeira, fixar a agenda e definir o objectivo de longo prazo, Van


Rompuy mostrou claramente, mas sem alarido nem conflito, que quer marcar o seu
terreno. Não hesitando, aliás, em entrar ligeiramente nas prerrogativas da
Comissão Europeia, a instituição que tem a responsabilidade de fazer as propostas
sobre as quais o presidente do Conselho terá de gerar os consensos entre os
governos.

"A natureza tem horror do vazio e se Durão Barroso não ocupar o espaço que lhe
compete em termos de propostas, e se o Conselho Europeu tiver um presidente
com ideias mais precisas, vai marcar pontos", avisa Sylvie Goulard.

O presidente da Comissão, que começou por suspirar de alívio com a escolha do


belga por acreditar que o seu estilo educado e respeitador afastaria o risco
anunciado de uma guerra de competências entre as duas instituições, percebeu
rapidamente que terá de vigiar atentamente o seu espaço. Barroso deu mesmo
instruções aos seus colaboradores para lerem e relerem o novo Tratado, de modo a
terem sempre presente a delimitação exacta das competências do novo presidente
e evitar novas incursões na esfera de acção da Comissão.

O verdadeiro choque - de novo sem estardalhaço - aconteceu com a Espanha, que


iniciou a 1 de Janeiro a presidência semestral rotativa da UE. Van Rompuy
convocou uma cimeira que não estava nos planos de Madrid? Pois José Luis
Rodriguez Zapatero, primeiro- ministro espanhol, reagiu com uma contraproposta
defendendo que a nova estratégia sucessora da Agenda de Lisboa deverá incluir
sanções para os países que não cumpram os objectivos económicos definidos em
comum. A ideia não é nova e parte do diagnóstico - correcto - de que a agenda de
Lisboa se limita a um rol de boas intenções a aplicar ao sabor da vontade de cada
Estado, em áreas em que a UE não tem competências nem meios de impor o seu
cumprimento.

Van Rompuy constatou o óbvio ao considerar a ideia de Zapatero "ambicio sa" - o


que signif ica, de facto, "irrealista"-, sabendo que não tem quaisquer possibilidades
de alguma vez ser aceite. Mas foi a Alemanha que se encarregou de demolir a
proposta, obrigando Madrid a recuar.

Esta sobreposição de iniciativas resulta daquela q ue é considerada a maior


contradição do Tratado de Lisboa, que mantém as presidências semestrais
assumidas de forma rotativa entre todos os países previstas desde as origens da
integração europeia, embora decapitadas: o papel tradicionalmente atribuído ao
chefe do Governo que assegura a presidência passa a ser assumido pelo presidente
permanente, eleito por um ou dois mandatos de dois anos e meio cada.

Zapatero não se conforma

Como era esperado, Zapatero, o primeiro presidente sem poderes, não se conforma
com o anonimato total a que ficou relegado, nem com a perda da possibilidade de
brilhar durante seis meses ao lado dos grandes líderes mundiais - de Barack Obama
a Hu Jintao - que gostaria de poder capitalizar no plano interno. Tanto mais que os
restantes membros do seu Governo permanecerão na ribalta europeia durante seis
meses, pelo facto de presidirem às reuniões do Conselho de Ministros da UE
(Finanças, Agricultura, Transportes e por aí fora). A excepção será o seu ministro
dos Negócios Estrangeiros, que, por via do novo Tratado, terá um papel fortemente
diminuído.

"Há um combate político para ocupar o primeiro plano" entre um presidente


permanente "que não dispõe de um secretariado próprio nem de poder executivo" e
o chefe de um governo de um país "que não quer ceder o seu poder", analisa Hugo
Brady, do Centre for European Reform (CER) de Londres.

Para Van Rompuy, o conflito não é inevitável. "A situação é complexa", reconhece,
mas "a condição essencial para o sucesso, não pessoal mas o sucesso da União", é
o desenvolvimento de "boas relações pessoais" entre os líderes das principais
instituições europeias. "Não é o momento para rivalidades entre instituições e os
seus líderes", defende, porque "os europeus querem resultados, não uma guerra de
instituições".

Filósofo por convicção - e formação, complementada de forma pragmática com um


doutoramento em Economia - poeta nas horas livres especializado na concepção de
haikus (um tipo de poesia japonesa de 17 sílabas), Van Rompuy deu sempre a ideia
de não ser movido pela busca do seu prestígio pessoal.

Apesar de ter feito toda a sua carreira nos diferente escalões do partido democrata -
cristão flamengo, o belga cultiva uma certa distância da política, detesta o lado
mundano do pode r, foge do jet set, da imprensa e dos eventos mediáticos. Traços
que mantém no novo cargo.

Quatro filhos, dois netos

A leitura, a ref lexão e a escrita são os únicos hobbies que lhe são atribuídos, a par
do seu retiro anual de vários dias na abadia beneditina de Affligem para carregar
baterias. Apesar desta imagem de asceta, há quem garanta que é um bon v ivant.
Os seus gostos e modo de vida são modestos, como provam as imagens das suas
últimas férias de Verão passadas a percorrer a Austrália com a família - quatro
filhos e dois netos - em camping car.

A atitude pública e privada de Van Rompuy é certamente o resultado da sua


profunda fé católica, que assume sem rodeios e integra nas suas reflexões,
frequentemente expressas em debates promovidos pela Igreja, sobre o papel da
política e da economia ao serviço da felicidade humana em sentido lato.

Apesar disso, há quem negue o seu lado místico e invoque o seu célebre humor
suave, mas cáustico, para o descrever como um político cínico e implacável com os
adversários. Os seus defensores alegam que é sobretudo um homem que só leva
realmente a sério as questões de vida ou de morte, e que encara tudo o resto como
problemas de valor secundário que acabarão, mais tarde ou mais cedo, mal ou
bem, por se resolver.

Ministro várias vezes, Van Rompuy resistiu enquanto pôde ao convite do rei dos
belgas, Albert II, em Dezembro de 2008, para suceder a Yves Leterme -
companheiro do mesmo partido caído em desgraça no auge da maior crise
institucional do país - por recusar o estilo de vida inerente ao cargo. A imprensa
belga sublinha no entanto o seu papel decisivo na demissão forçada de Leterme,
por ter revelado, enquanto presidente do Parlamento, a existência de uma carta da
magistratura belga acusando o Governo de pressões no proces so judicial sobre o
desmantelamento do grupo financeiro Fortis.

Van Rompuy garante igualmente que não procurou o cargo de primeiro presidente
permanente do Conselho Europeu, e quem o conhece acredita.

No Justus Lipsius, o edif ício do Conselho da UE, os dias de trabalho do presidente


continuam a começar cedo e a acabar tarde. O seu rit mo de trabalho é intenso e a
obsessão pela absorção dos dossiers e compreensão dos detalhes, a par da
preocupação de analisar cada assunto sob os mais diferentes ângulos e d e ouvir os
diferentes argumentos em confronto, mantém-se viva. Para o ajudar, conta com 22
colaboradores de várias nacionalidades, blindados pelos dois únicos belgas -
flamengos - que levou consigo.

O primeiro, Dirk de Backer, gere há mais de 20 anos as suas relações com a


imprensa. Curiosamente, alguns jornalistas belgas comparam- no com Alistair
Campbell, o ex-conselheiro de Tony Blair que é considerado o "rei do spin", um
termo que traduz a tentação de influenciar a imprensa.

O segundo, que assumiu a chefia do seu gabinete, é Frans van Daele, o mais
prestigiado dos embaixadores belgas, cujo vasto leque de qualidades é invocado de
forma quase reverente por todos os que o cruzaram, tanto na Europa como nos
Estados Unidos.

A acreditar em Tobias van Assche, professor da Universidade de Antuérpia e


especialista do método americano de análise dos diferentes estilos de liderança
(Leadership Trait Analysis), Van Rompuy tem o perfil certo para o lugar. A sua
principal missão será conseguir acordos entre 27 países com necessidades e
reivindicações diferentes, o que fará "de forma inclusiva e sem deixar ninguém com
o sentimento de ficar de fora ou de ser forçado a assinar compromissos com que
não concorda", considera.

Além disso, Van Rompuy "tem uma necessidade muito reduzida de poder", não é
motivado por uma busca de "prestígio pessoal", nem precisa de "assumir os louros"
dos resultados que obtiver. Desta forma, "não forçará um acordo quando não
houver consenso", prossegue o mesmo académico. Acima de tudo, "ficará satisfeito
se o Conselho Europeu chegar a acordos", e é por isso que "criará o sentimento de
que os países trabalham com ele, não para ele".

isabel.arriaga@skynet.be