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Isso é que é pior

Por Miguel Esteves Cardoso

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/13-01-2010/isso-e-que-e-pior-18564408.htm

Tenho tido a experiência de apanhar táxis à porta do IPO de Lisboa. Também o IPO
do Porto é um portento. Mas tudo e todos os que o rodeiam também são. O P é de
português e o O é de cancro. Quando digo aos motoristas que a minha mulher tem
um cancro, deixam-se de piadas, tédios e rancores e descendem até perto de onde
sofremos, dizendo, como quem não tem mais nada a dizer: "Isso é que é pior..."
Nessa frase há uma desistência de ter graça e de ser indiferente: é um
reconhecimento de que as coisas estão más e de que já cá não está quem falou. É
uma empatia de gravidade, como quem acorda "Disto não vamos brincar".
Já "não estar cá quem falou" é, já por si, uma anulação de quem somos e do que,
por sermos, dissemos. No parque do estacionamento e, sobretudo, dentro do IPO,
há uma tolerância e uma filosofia de vida em que ninguém buzina e ninguém anda
a controlar os outros, como se a consciência da morte realçasse a alegre
aleatoriedade da vida.
Os portugueses e as portuguesas com cancro nem parecem portugueses. Basta
uma constipação para nos deitar abaixo. Mas um cancro é como Castela. Desperta
em nós a padaria de Aljubarrota. O cancro, por ser tão injusto e poderoso, desperta
em nós as maiores raivas imunitárias e ideológicas.
Disse-me há pouco tempo um meu herói, Jorge Salavisa, que o cancro civilizava os
portugueses, mostrando que só éramos macambúzios quando as maleitas eram de
somenos. Tem razão. É quase sempre. Mas, quando importa, não. E em uníssono.