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Joana Vasconcelos e Mariza à conversa

Na última década, Mariza colocou o fado no topo da tabela da world music e as peças de
Joana Vasconcelos encheram museus. Pusemo-las à conversa.

Alexandra Carita (www.expresso.pt)

Quinta-feira, 7 de Jan de 2010

http://aeiou.expresso.pt/joana-vasconcelos-e-mariza-a-conversa=f556061

Joana Vasconcelos traz um penteado novo. Arranjou umas


penas azuis que lhe delimitam a testa e ripou o cabelo para
sobressair por trás delas. Com a ponta de um pente, Mariza
põe mãos à obra e ajeita-lhe a popa. A boa disposição é
troca de galhardetes entre as duas artistas, que se
conheceram numa festa de outro amigo comum.

Mariza Estou-te a levantar o cabelo. Tens aqui duas


borboletas tão bonitas e estão escondidas, quase não se
vêem.

Joana Trouxe-as de França!

Mariza E as pessoas a pensarem que tu só usas coisas


portuguesas...

A conversa continua entre risos. Até que se faz ordem na


sala. Tentam lembrar-se onde se conheceram. Não sabem.
Joana não faz a mais pequena ideia. Mariza é a primeira a
ter uma luz. Diz que foi num jantar de Natal organizado por
João Pedro de Sousa (produtor/editor, entre outras coisas
mais).

Mariza Será?

Joana É capaz!

Mariza Foi, foi. Lembro-me até que já tinha visto uma obra tua, não me recordo muito bem o
quê. O "Coração Independente" talvez. Cheguei-me ao pé de ti e perguntei-te se não eras tu
que fazias assim umas coisas muito portuguesas e tal... Ficámos a conversar. Tu trazias uns
sapatos muito giros. Muito estranhos. Percebi logo que eras maluca por sapatos como eu. E digo
assim: gosto muito dos teus sapatos. E tu: Ah! Mas eu tenho não sei quantos pares de sapatos.
Então e eu? Passados dois dias fomos as duas comprar sapatos.

Joana Pois foi. Entrámos numa loja e estavam lá uns muito engraçados e eu a avisar-te: Não
pegues nos sapatos!, porque estava lá uma senhora a ver o que é que nós escolhíamos. Se tu
pegares neles ela vai querer comprá-los. Bem dito bem feito. Quando a Mariza chegou aos
sapatos, depois de a termos deixado para aí uns 40 minutos à espera, ela pega neles a dizer
que os queria comprar.

Mariza Mas se eu não pegasse neles não sabia se eram bons ou maus...

Joana Não os compraste, pois não?


Mariza Não, escolheste-me outros. Umas sandálias de verniz cheias de cor. Muito mais giras do
que os outros!

A galhofa dá lugar a um debate de ideias mais sério - o trabalho uma da outra. Não sem antes
lamentarem as agendas complicadas que lhes adiam sucessivamente os encontros, apesar da
casa de Mariza ser muito perto do ateliê de Joana Vasconcelos. Aviões e aeroportos, de resto,
foi onde passaram a ver-se com mais frequência. A fadista consegue ir, de vez em quando, a
uma inauguração de Joana e Joana já assistiu a quatro espectáculos de Mariza.

Joana Estivemos juntas em Belém.

Mariza Tu fizeste uma instalação na Torre de Belém e eu cantei no palco que a tinha como
cenário. Era um trabalho fabuloso, feito com defensas de barcos. Uma coisa muito portuguesa,
lá está!

Joana O que a mim particularmente me tocou foi poder intervir num monumento como a Torre
de Belém. São poucas as vezes em que um artista plástico pode intervir na fachada de um
monumento. Expomos nos museus, nas galerias (como a Mariza dá concertos em muitas salas),
mas, de repente há momentos únicos. Se essa instalação, "Jóia do Tejo", foi para mim um
grande esforço psíquico e de acção de artes plásticas - fazer o colar à Torre e tudo aquilo
inspirado no estilo manuelino -, houve uma coincidência fantástica que foi a discussão em torno
do acontecimento. Estavam convidados sete artistas plásticos e sete cantores.

Mariza Eu não sabia que tinha calhado contigo!

Joana Não, porque foi uma história muito engraçada. Na reunião da atribuição dos espaços,
perguntei se íamos trabalhar em conjunto com os cantores se não. Responderam-me que não,
os cantores dariam os concertos e nós faríamos as esculturas. Mas fiquei a saber que quem
actuava no monumento que me calhasse ou era a Mariza ou os Madredeus. Lá disse que achava
que era melhor Mariza, que podia ser mais giro porque nos conhecíamos... e tal. No entanto,
decidiram-se pelos Madredeus. Ok. Também os conheço. Depois perguntaram-me que
monumento queria. Respondi logo que queria a Torre de Belém. Um monumento com o qual me
relaciono, e por onde passei a vida toda, desde miúda quando ia para a escola de eléctrico.
Ficou assim, e eu a pensar: com a Torre de Belém e a Mariza isto tinha tudo um sentido, as
coisas completavam-se na perfeição. Mas pronto, era a Torre de Belém e os Madredeus. Só que,
entretanto, os Madredeus desintegraram-se. E a Mariza que estava noutro sítio qualquer foi
parar à Torre de Belém. Bom, lá perguntei se não podíamos organizar qualquer coisa e eles que
não, que não. Foram então montar o palco da Mariza e eu a controlar. Começo a ver umas
torres à frente da minha instalação. Fui lá falar com o Luís Montez. A Mariza vem aí cantar mas
não precisa de ter umas torres, dizia eu. Precisa, precisa, é para o som e tal. E eu que não. Lá
olharam para mim sem perceber muito bem o que fazer e baixaram as torres.

Mariza Ficou muito bonito. A tua instalação ficava mesmo por trás. Só que...

Joana Chovia!

Mariza Não, a chuva não me incomodou. O que me incomodou é que eu achava que a tua
instalação devia estar iluminada e não deixavam iluminar nada. Então aquilo ficou uma coisa
estranhíssima. Muito bonita durante o dia e à noite não se percebia nada. E a ideia era genial:
mar, o escudo português, tudo a ver com a Torre de Belém, fazia todo o sentido.

A história da "Jóia do Tejo" foi só o mote para o debate sobre a obra uma da outra. Cada vez
mais à-vontade, Mariza e Joana foram trocando galhardetes e muitas opiniões em torno dos
possíveis cruzamentos das suas artes.

Mariza Eu tenho que ser sincera. Acho que representas o Portugal moderno. Transmites uma
imagem do Portugal de hoje, daquilo que podemos achar que sejam as artes plásticas de hoje.
Vejo a tua obra no contexto do mundo. Levas a raiz de Portugal, que tens como base do teu
trabalho - o crochet e tantas outras coisas - e transforma-la em universal. Gosto muito também
da capacidade que tens de chamar a atenção para problemas sociais através da arte. É o caso
do sapato de mulher feito de panelas. Aquilo chama muito a atenção. Tens um sentido social
muito grande e cada peça tua mostra isso. Não fazes só por fazer. E lá está, expostas em
qualquer parte do mundo continuam a fazer sentido. Apesar de terem a tal raiz. Apesar de
terem uma nacionalidade.

Joana O fado, aos olhos dos portugueses, identifica-se imediatamente com Portugal...

Mariza Ah, ah. Não é tanto assim lá fora.

Joana Eu tenho uma experiência muito diferente da tua.


Quando levei os meus "Corações" a Inglaterra. Expus numa
cidadezinha perto de Birmingham. Na montagem, chegou o
momento de fazer as luzes. E veio um senhor, inglês,
técnico do museu, com um carrinho todo artilhado e
perguntou-me o que é que íamos iluminar. Lá lhe expliquei
que a peça andava à roda e que tinha música. E decidi pôr
a música a tocar. Fado. Ele pergunta-me logo que música
era aquela. Disse-lhe que era fado. E ele: é lá de Portugal.
Sim, respondo-lhe, e ele conclui: Não percebo nada mas o
sentimento é bom, é forte. Isto resume muito, de certeza,
o que acontece contigo. Não é preciso entender-se a língua
e a mensagem, claro que é muito mais enriquecedor se se
entender, mas o sentimento ou é transmitido ou não. Isso tanto acontece na obra de arte como
no canto. Ou tu comunicas ou não comunicas. Ou tens essa capacidade de levar coisas de
Portugal para o estrangeiro e fazeres passar um sentimento, uma sensação ou não tens. Daí
que podes pegar na raiz seja de onde seja mas se não a consegues transformar, seja em que
palco for, de forma a comunicares com as outras culturas, não funciona. Isso é muito claro. E
serve tanto para as artes plásticas como para outra arte qualquer.

Mariza Sim. Há de facto um cruzamento com o mundo. Mas ambas, tanto eu como tu, Joana,
temos uma raiz que não podemos evitar. Mas também não queremos evitar. A base do meu
trabalho, que já é muito próprio, tem uma essência que é o fado, e a base do teu trabalho, que
já é uma base muito própria, também tem uma essência de matriz portuguesa. Levamo-las lá
para fora.

Em áreas distintas, tanto Mariza como Joana Vasconcelos procuram afirmar-se


internacionalmente. A primeira terá tido resultados mais cedo, a segunda está hoje numa
espécie de auge profissional. As duas analisam as suas carreiras à luz do passado e do
presente. Ambas se olham lá fora a partir cá de dentro.

Joana A mim, por exemplo, toda a gente me dizia que podia ir trabalhar para Paris. Nascida lá,
conseguiria a nacionalidade facilmente e facilmente me tornaria uma artista francesa como
tanta gente fez em muitas gerações. Mas isso, na verdade, mudaria tudo. O facto de partires
daqui para o mundo torna-me muito mais especial do que se partisse de Paris para o mundo. O
grau de conseguires daqui significa muito mais coisas, significa que outras gerações antes de
nós, como a dos meus pais, tiveram que sair daqui para poderem existir. Aqui não tinham
sequer direito à liberdade de expressão. Mas quem diz Paris diz não sei quantos outros sítios e
diz todas as ex-colónias. Nós somos uma geração que é educada em democracia. Temos o
privilégio de não ter que partir para existirmos.

Mariza Porque esse trabalho já foi feito.


Joana Exactamente. Mas se formos embora agora, esse trabalho de que falas não valeu a
pena.

Mariza É verdade. Mas eu já pensei muitas vezes em trocar de país. Cada vez mais a essência
da música que faço avança. Quando as pessoas me perguntam se canto fado, se sou fadista, se
sou tradicionalista, tenho que dizer que sim. Eu sou tudo isso, mas entendo o fado como
música, tal como tu entendes as tuas obras como artes plásticas. A música é uma arte e ponto.
Dentro dessa arte há muitos mundos que podem ser explorados. E como tu dizias há pouco e
muito bem, ou se consegue transmitir ou não se consegue. E eu, por acaso, não sei porquê,
tenho tido um público que tem entendido aquilo que eu tenho tentado transmitir. Para mim
seria, talvez, muito fácil, e já tinha conquistado se calhar muito mais sítios e gente por exemplo
nos Estados Unidos, onde passo agora muito tempo (este ano passei lá metade do ano). Mas ao
mesmo tempo as vitórias não teriam o mesmo sabor. Se vivesse lá as vitórias não seriam tão
saborosas como as pessoas sabendo que eu sou portuguesa, que venho de um país pequenino,
que tem uma História riquíssima e fantástica para ser contada, que tem uma raiz cultural
gigante, à qual eu tenho um orgulho enorme de pertencer. E, depois, como tu dizes, não faria
sentido. O meu pai vivia numa colónia portuguesa e teve que regressar a Portugal. Fez um
esforço enorme para voltar a construir uma vida e voltar a ser pessoa aqui. E de repente eu
pegar nas coisas e dizer: agora vou tentar fazer isto noutro lado. Deixava de ter lógica e perdia
todo o sabor.

Joana Construir uma vida melhor e que não conseguiram construir aqui foi o que levou os
portugueses a emigrar. No fundo, nós agora somos a prova, ou passamos a imagem ou
acalentamos a ideia de que é possível construir um Portugal mais contemporâneo.

Mariza Está bem, mas nesse sentido somos uma minoria.

Joana Contigo não sei, mas comigo acontece com muita frequência e bastante maldade
chamarem-me a artista portuguesa, ou dizerem que faço de artista portuguesa, que sou
tradicionalista, nacionalista, que estou armada em artista do aparelho. Não é assim!

Mariza Eu é que tenho aparelho! (Mostra o aparelho nos dentes)

Joana Mas não é mesmo. O crochet, por exemplo, que tu referias há pouco, existe no México,
existe no Brasil, na Alemanha, na...

Mariza Mas nós temos uma forma muito própria de o trabalhar.

Joana Temos. Mas na verdade é uma técnica mundial. Os tachos do arroz que eu usei, outro
exemplo, na Alemanha são do kebab e na França de outra coisa qualquer...

Mariza Mas eu só falei no sapato feito de tachos porque a peça nos remete para uma situação
social relevante.
Joana Sim, comecei a trabalhar na condição feminina e
acabei por fazer ali a análise do que é a mulher
contemporânea, dos saltos altos para a cozinha e vice-
versa. Mas também quis explorar o que é tradição, o que é
família... Agora, o que é que acontece. Eu sou portuguesa,
portanto vou comprar o tacho da Silampos. Não vou atrás
das marcas portuguesas, compro aquilo que há no meu
país. É como as lãs da Brancal. Não vou comprar lãs a
Espanha, certo? Isso não é andar atrás do selo da
nacionalidade. É andar aqui e usar as coisas que estão
aqui. Se as minhas peças fossem muito nacionalistas não
conseguiriam atravessar a fronteira. Aí é que está a grande
diferença. É o que acontece contigo. Se fosse um fado
muito fechado, muito parado e muito apático não enchias
salas de espectáculos nos Estados Unidos! O facto de ser
aberto, de ser comunicativo, virado para o mundo, faz com
que os públicos no estrangeiro, mesmo que não entendam
lá muito bem, sintam, aplaudam e queiram passar a
entender. Essa curiosidade de uns mundos para com outros
mundos é uma coisa muito contemporânea.

O olhar sobre esses novos mundos é também fruto de


reflexão de Mariza e Joana Vasconcelos, uma vez que as
longas digressões da primeira e as muitas participações em
mostras internacionais da segunda as levam a contactos
mais estreitos com as mais variadas realidades. Os países emergentes começaram a ser alvo de
todas as atenções. Os Estados Unidos têm um novo rosto com Barack Obama, a União Europeia
alarga-se cada vez mais e esbatem-se fronteiras, a emigração continua a ser uma necessidade
mas é assumida como um problema cada vez mais sério... O comportamento de homens e
mulheres mudou, os seus hábitos também. Ficam saudades, recordam-se histórias pessoais,
fala-se de pequenos gestos. A observação é constante.

Joana Posso contar uma história?

Mariza Claro!

Joana Então, um dia destes estava eu com a minha galerista francesa e diz-me ela: Olha tenho
cá uma artista indiana muito interessante. Disse-me um nome dela, eu conhecia e até gostava
do trabalho dela. Vou trazê-la para a galeria, continuou. E eu: óptimo. E a galerista: Ela
também tem um marido engenheiro (o meu é arquitecto). Até que se vira para mim e diz: o
único problema é que ela não trabalha com tudo. É indiana, portanto temos os milionários
indianos todos para vender. Os indianos estão na moda. Vocês portugueses não estão na moda.
E eu a pensar: o raio da mulher hã, a dizer que os indianos é que estão na moda. Deixa estar
que eu já te digo. Estava eu a preparar a inauguração da toalha na Ponte D. Luís, no ano
passado. Então digo-lhe: Olha amiguinha, se queres ver o que é que é uma coisa bem feita
anda cá que eu já te mostro. Ela com os seus saltinhos altos, vestida de Armani, lá vem de
Paris. Chegou ali à Ribeira e teve que entrar no barco, ao lado das senhoras todas do crochet de
Stª Maria da Feira e eu mesma com o meu chapéu amarelo de chinesa comprado no Bolhão. A
mulher estava para a vida dela com as senhoras a cantar e a bater palmas. No fim vira-se para
mim: Ó Joana, eu estive a pensar e depois desta viagem tenho que te dizer que tu és mais
exótica do que a indiana. Ou seja, o que nos falta é um mercado como o indiano, o chinês ou o
americano. Tu não deves vender milhares de milhões de discos como se vende nos Estados
Unidos, não é?

Mariza Não vendo isso tudo, mas não me confronto com o problema dos downloads, por
exemplo. As pessoas que gostam da música que faço não fazem downloads, gostam de ter o
disco, gostam de o sentir. Essa é a parte boa da minha música. Não é pop, não é uma música
passageira como a que os miúdos fazem agora, da qual se faz o download, se ouve durante
uma semana e depois se deita fora porque já não presta. Isso não me acontece, ainda mais
agora que o vinil voltou a estar na moda. Já tenho muitos discos em vinil (estou toda contente e
orgulhosa) e as pessoas compram-nos, querem o objecto, tiram partido dele.

Joana Não sentes muita competição no meio artístico?

Mariza Não.

Joana É porque vocês não se encontram. Eu estou sempre a lidar com ela.

Mariza Encontramo-nos sim. Nos festivais estamos todos juntos. Há pouco tempo fui fazer um
dos maiores festivais de jazz do mundo. Cheguei e pensei: aqui estou eu, uma portuguesa no
meio do Wynton Marsalis, do Bonnard, do Herbie Hancock, de todos, de todos os que são os
meus grandes da música do mundo, que eu adoro. Estava no meu camarim e achava que
ninguém me conhecia. Mas eles passavam e diziam "olá, Mariza". Andávamos todos ali a assistir
aos concertos uns dos outros, a ouvir-nos uns aos outros... E era pela música. Portanto, neste
momento, o que eu percebo é que em Portugal, como o meio é muito, muito pequeno, no geral
há grandes rivalidades. Eu compito comigo própria e só.

A constatação não é nova. Vivemos num mundo global. Estamos todos mais perto uns dos
outros e mais distantes ao mesmo tempo. O mundo virou-se do avesso com o estalar de uma
crise económica que ninguém esperava. As artes tiveram também que se adaptar às novas
prioridades económicas. A música de uma maneira, as artes plásticas de outra.

Mariza A globalização tem um lado bom e um lado mau, como tudo. É um pau de dois bicos. A
própria vida também é assim. Mas para nós artistas, neste momento, atravessando o mundo
uma crise financeira desta dimensão e vivendo nós nessa escala global, tornou-se mais difícil
implantarmo-nos e expormos a nossa arte. É mais difícil atingir determinados patamares que
queremos atingir. Todos nós temos as nossas metas e actualmente o estado da economia global
obriga-nos a abrandar o ritmo. Não sei se contigo é assim, Joana, mas eu acho que os artistas
portugueses têm que investir neles próprios para poderem mostrar as suas obras lá fora.
Comigo foi assim. Fui eu que investi em mim, paguei os instrumentos, tudo. Sou uma artista
muito independente, nunca pedi dinheiros a ninguém, nem ajudas nem nada. Fui sozinha. Já o
lado bom da globalização prende-se com a curiosidade cada vez maior em descobrir as culturas
uns dos outros.

Joana Mas voltando um bocadinho atrás, Mariza. Eu também saí muito sozinha. A minha
primeira ida a Espanha, depois a minha primeira ida a França implicaram grande esforço. Fui
literalmente bater à porta das galerias. E quanto à globalização, acho que a partir do momento
em que passámos a fazer parte da zona euro e que os nossos preços ficaram praticamente
iguais aos dos outros demos um grande passo. É importante para os artistas estarem cotados
ao nível do mercado internacional, saberem quanto é que valem as suas peças em qualquer
parte do mundo. Isto nos discos não é tão assim. Mas para nós é. Ou pertencemos ao mercado
nacional e ponto ou temos que estar nivelados pela tabela internacional.

Mariza Mas nós também temos uma tabela. Um artista do nível x é pago de uma maneira, o do
nível y é de outra. O que eu digo é que no momento em que países como a Índia, a China, o
Brasil, o Brasil então, disparam, a Europa e os Estados Unidos ressentem-se e isso reflecte-se
no esforço que as pessoas fazem para comprar o bilhete para irem a determinado espectáculo.
É por isso que agradeço em cada concerto, em Portugal também, o carinho do público por ter
guardado aquele dinheiro para gastar comigo. Quando a economia baixa, o sector que mais o
sente é a cultura. É aí que as pessoas vão gastar menos.

Joana Claro.
Mariza É aí que existem menos ajudas e quando as pessoas têm menos dinheiro vão a menos
concertos.

Joana No meu caso acontece uma coisa muita estranha no sentido contrário. No momento em
que a bolsa cai, o único investimento que fica são as obras de arte.

Mariza Sem dúvida.

Joana Portanto, quando tu passas a ter uma obra cotada internacionalmente, que era o que eu
estava a querer explicar, deixas de estar fechado ao mercado nacional e as portas abrem-se até
nos momentos de crise. É um mundo onde há verdadeiramente rankings, escalões. Mas ainda
há relativamente muito poucos portugueses inscritos nos escalões internacionais. Mas a
globalização tem ainda outro lado bom que é a consciencialização de que o mundo existe. Tive
essa experiência em Budapeste, onde participei numa exposição com artistas da Tunísia, de
Marrocos, do Irão, da Grécia, de Inglaterra... É muito bom sentir isto e perceber o que os outros
sentem. Que a tunisina também tem problemas, por exemplo, e que os podemos discutir ao
almoço ou ao jantar. As pessoas falam das suas experiências de vida e tu pensas assim: não, o
mundo é muito mais complexo e diverso do que imaginava. De repente mudas a perspectiva
por completo. Portugal deixa de ser aquele país periférico e passa a estar a duas horas do
centro da Europa...

A conversa espraia-se pelos quatro cantos do mundo, passeia-se pelos cinco continentes, chega
a todos os países, mas detém-se num só. Portugal. Joana e Mariza têm quase o mesmo país.

Mariza O que eu acho é que ver Portugal lá de fora é maravilhoso. Não há melhor país para
viver do que Portugal. Eu já pensei ir viver para os Estados Unidos, para Nova Iorque mais
concretamente. Desisti. Para mim não há nada como viver em Portugal, principalmente na
minha cidade, Lisboa. Aqui sinto-me segura, posso andar na rua, ir ao supermercado, tenho as
minhas tasquinhas, onde quando posso ainda canto. Se vivesse noutro país talvez não fizesse
isto. Perderia muito a minha identidade. Normalmente achamos sempre que Portugal é muito
cinzento. Mas quando começamos a viajar e começamos a perceber o que é que é o mundo,
Portugal é fantástico!

Joana Pela luz e por muito mais.

Mariza Eu vou apontar-te pequenas coisinhas que para mim são extremamente importantes. A
luz é o ponto 1. Ponto 2: ter o mar perto e o rio em frente. Ponto 3: o clima. 4: as pessoas, os
portugueses são muito simpáticos.

Joana Os brasileiros ainda são mais.

Mariza É diferente. Vivem noutro clima, o que faz com que tenham outra aproximação à vida.
Gostam muito de tocar. Nós não, mantemos uma distância. E depois há uma coisa de que eu
sinto mesmo muita falta. Faço à volta de 130 concertos por ano, todos os dias durmo num hotel
diferente, acordo num país ou numa cidade diferente e sou obrigada a comer o que existe. Mas
eu faço uma dieta mediterrânica. Ou seja, a minha alimentação é maioritariamente azeite,
peixe, saladas, frutas, e sopas. Não há país no mundo, talvez o Brasil, onde haja uma
gastronomia com uma qualidade como a nossa.

Joana Em França também consegues.

Mariza Hum! Não é igual. É mais fácil nos países africanos de expressão portuguesa. Estive três
meses nos Estados Unidos, este ano, e fiquei com 49 quilos! Chegou a uma altura em que eu já
não conseguia comer. Evito comer carne vermelha, mas até isso já pedia.

Joana Pronto, dá cá o bifinho!


Mariza Já tudo me sabia ao mesmo, a molho barbecue. Vou para França. Gosto muito da
comida na primeira semana. É genial! Mas depois vêm as saudades do peixe bem grelhado, do
bacalhau, do meu feijão-frade...

Joana Olha as ovas!

Mariza O atum, os ovos escalfados, o arroz-doce, o pudim. São essas coisas todas. E eu não
como muito, sou mais de picar. Gosto de boa comida. Aliás, a minha mãe é cozinheira! Isto não
quer dizer que não gosto de ir a bons restaurantes por esse mundo fora. Claro que gosto! Mas
depois chega um momento em que pergunto sempre onde é que está a minha comida. E são a
estas pequeninas coisas que quem vive aqui todos os dias não dá valor.

Joana As pessoas não percebem que isso as faz diferentes. Ou seja, por muito internacional
que sejas, por muito que viajes, só tens uma identidade. O que é muito estranho para mim é
quando se renega essa identidade. Quando as pessoas vão para fora e depois a certa altura já
não são portuguesas nem outra coisa qualquer.

Mariza Ficam ali num limbo.

Joana Isso é uma situação que eu não gostaria de viver.

Mariza Eu consigo perceber. Há filhos de emigrantes portugueses que em casa tiveram uma
educação muito tradicional, mas fora de casa foram educados de acordo com os hábitos do país
onde vivem. Ficam numa situação complicada e têm que optar. A maior parte opta pelo novo
país, o que faz sentido.

Joana É verdade. Mas regra geral o olhar dos estrangeiros sobre Portugal também já mudou. Já
não é a mulher do bigode vestida de preto.

Mariza Ainda agora estive no Brasil e tive que explicar que Portugal já não era isso.

Joana Mas isso acontece sobretudo com as pessoas que nunca vieram a Portugal e que têm
uma ideia do país associada à ditadura e não à contemporaneidade. Quem veio cá
recentemente já mudou de opinião.

Mariza Talvez tenhas alguma razão. Eu de início também tinha a sensação de que os franceses
olhavam para nós como os coitadinhos e hoje já não sinto o mesmo.

Joana Nós também temos algumas culpas no cartório. Repara lá, os franceses podem ter
imensos defeitos mas nunca dizem mal deles próprios, os espanhóis podem dar as maiores
calinadas do universo mas quando é para defenderem as coisas deles e a cultura deles são
impressionantes. Só nós é que temos uma enorme dificuldade em dar valor àquilo que temos e
em defendermo-nos a nós próprios.

Mariza Mas somos uma cultura tão exportável como as outras.

Joana Então não somos? Olha para nós. Somos a prova de que Portugal é exportável!

(Texto publicado na Revista Única/Expresso, edição 31 Dezembro 2009)