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José Mourinho: "O meu modo de afirmação é só um: ganhar.

E
eu ganhei sempre"

O que faz com que equipas de futebol com muito dinheiro não vençam e outras,
com menos recursos, coleccionem títulos? Uma lição de gestão dos recursos pelo
melhor treinador português de sempre

Entrevista de Nicolau Santos, fotografias de José Ventura

http://aeiou.expresso.pt/jose-mourinho-o-meu-modo-de-afirmacao-e-so-um-ganhar-e-eu-ganhei-
sempre=f555786

Diz que se sente português sempre, mas que não pensa como português. E que
não é pelo sobretudo, nem pela barba de três dias, nem pela linguagem
provocatória que se distingue. José Mourinho, o treinador português que faz
questão de sublinhar que é bem mais difícil ganhar um campeonato em três países
diferentes do que cinco no mesmo país, garante que se é especial é porque ganha -
e não por qualquer outra razão. "Se não ganhasse, de especial não tinha nada."
Quanto à selecção portuguesa, é um sonho cada vez mais adiado, porque o
trabalho dos clubes é muito mais aliciante. E diz que não vê diminuir mas sim
aumentar, esse fogo de ganhar, ganhar sempre. Por isso, quando se pergunta qual
é o seu próximo grande objectivo - ser bicampeão em Itália pelo Inter, vencer a
Champions -, responde apenas: "O meu objectivo é ganhar no próximo sábado."
Quanto à escolha do melhor treinador da década, não tem qualquer dúvida: "Eu!"

Qual é o seu tipo de liderança?


A minha liderança tem duas vertentes. É uma liderança humana, no sentido em que
lidero um grupo de homens todos diferentes - idades diferentes, QI diferentes,
diferentes a todos os níveis... E, nesse sentido, tenho de me adaptar a todos eles.
Por outro lado, a minha liderança é intransigente nos seus objectivos. Lidero um
grupo que quer vencer, e sem liderar não se vence. Tento em todos os meus actos
de liderança ser humano, mas ao mesmo tempo intransigente.

E aplica as mesmas regras a todos?


Não há duas pessoas iguais, e a universalidade das regras é uma coisa de que
discordo desde o princípio. As regras não devem ser iguais para todos. Mas tenho
de ser intransigente nos objectivos. Há determinado tipo de princípios que são
imutáveis. Não há a mínima hipótese de ser permeável a não ser intransigente em
relação a eles. Eu sou o líder, mas somos todos profissionais da mesma indústria.
Temos todos os mesmos objectivos. Se não tivermos, alguma coisa está mal. E
nesse aspecto sou intransigente. Não há jogadores ricos nem pobres, nem com
mais nem com menos títulos, nem europeus, nem africanos, nem jogadores em
princípio de carreira ou em fim de carreira... Há simplesmente jogadores que são
profissionais e que devem ser honestos consigo próprios, com aqueles que
trabalham com eles, com o clube, com os adeptos, com o futebol... É nisso que sou
intransigente, e não perco os meus princípios e as minhas orientações.

Quando se chega a um determinado patamar de rendimento, os jogadores


continuam a importar-se quando perdem ou tanto lhes faz?
Não acredito muito nisso. Há é modos diferentes de reagir. Há quem chore muito
em momentos difíceis da vida e quem chore pouco ou não chore e, se calhar, viva
esses momentos com mais intensidade. É uma questão de personalidade. Recordo
um Jorge Costa ou um Vítor Baía, que quando os encontrei no FC Porto já estavam
no final das suas carreiras, e ninguém trabalhava mais do que eles, ninguém queria
ganhar mais do que eles. Não tem nada a ver com a idade, nem com o estatuto,
nem com o dinheiro, nem com os objectivos de carreira. E é exactamente assim
que me revejo. Hoje tenho mais dinheiro, mais títulos, mais experiência, mais idade
do que tinha no meu primeiro dia como treinador, que foi em 2000. Mas em 2009
não quero ganhar menos do que em 2000, nem sou menos ambicioso, nem me
dedico menos à minha profissão do que me dedicava. Acho que isto é inato.

Quando chega a um clube, identifica um líder, escolhe um interlocutor


dentro da equipa, exclui alguém que se opõe à sua liderança?
Talvez uma das minhas características seja precisamente não identificar ninguém,
nem pela positiva, nem pela negativa. Penso que todos têm os mesmos direitos, os
mesmos deveres, todos me merecem igual atenção e respeito. E depois é o
comportamento de cada um, a contribuição de cada um para o êxito do grupo que
faz com que se criem determinado tipo de afinidades. Penso que isto é normal.
Passa-se o mesmo nas famílias numerosas. Numa família clube de futebol, com
cinco, seis ou sete adjuntos, com 10 ou 12 elementos do departamento médico,
com 20 ou 30 jogadores, é normal que depois de algum tempo de convivência um
treinador tenha maiores afinidades, maiores pontos em comum, de modo que, no
fim do processo, possa dizer que este será meu amigo para toda a vida e este foi só
um colega de trabalho. E com os jogadores é também isso que acontece.

Os conflitos surgem em que situações?


No início e no fim dos contratos normalmente criam-se alguns pontos de conflito.
No início porque há jogadores que não estão habituados a determinado tipo de
confrontos, determinado tipo de tratamento, uns porque pelo seu estatuto
pensavam estar imunes a certo estilo de liderança, outros porque pela sua
personalidade não estão muito adaptados a esse tipo de confronto e de
frontalidade. Depois, no fim do processo, nesse momento em que já não há um
vínculo profissional, é fácil demonstrar-se as frustrações que se acumularam ao
longo desse processo. O mais importante, para mim, é ser igual a mim próprio, não
perder o rumo que sempre me orientou como profissional de futebol. Um jogador
de futebol é tão profissional como um treinador. Não vejo que um jogador deva ter
menos deveres que um treinador.
O trabalho psicológico com os jogadores é
individual ou colectivo?
É um processo. É muito difícil falar numa
actividade direccionada, num trabalho dirigido
para a mente. Quando estamos a trabalhar
algum exercício, estamos a trabalhar todas as
vertentes. O mínimo detalhe entra no mínimo
exercício, mesmo que possa parecer um
exercício simples. O melhor modo de ser um
motivador é ninguém ter mais motivação que o
motivador. Depois há jogadores, há grupos, que
pela sua personalidade são mais fáceis de ser
motivados, outros menos. Mas o trabalho
psicológico faz parte de um processo, é muito difícil de descontextualizar.

Nos países onde chega, faz questão de aprender a língua. É importante?


Pode criar maior empatia. Ter a possibilidade de falar com um inglês em inglês,
com um italiano em italiano, acho que é melhor. O objectivo de falar a língua do
país onde trabalho é porque o contacto com a comunicação social é de tão grande
dimensão que me parece muito difícil um treinador poder comunicar e exprimir as
suas ideias sem o domínio do idioma. O inglês já o falava desde criança, o
espanhol, como todos os portugueses, antes de estudar conseguia dar uns toques e
dominar basicamente, e ao italiano dediquei-me durante alguns meses para poder
falar bem.

O seu discurso costuma ser diferente do dos seus pares, não é


politicamente correcto. Faz isso para marcar o seu próprio espaço?
Faço isso com naturalidade, sem nenhum tipo de objectivo. É a minha linguagem.
Se é uma linguagem a que os outros não estão habituados, já não é problema meu.
Se os outros depois a querem adoptar como sua linguagem e passados alguns anos
a linguagem é igual para todos, já não é problema meu. Quando chego, tenho
determinado tipo de ideias que quero passar, que faço passar, e sigo o meu
caminho.

Quando chegou a Inglaterra, ficou conhecido como "Special One"...


O "Special One" fica anexado ao facto de ter ganho um campeonato num clube que
não o ganhava há 50 anos. O "Special One" é adaptado à realidade profissional.
Porque se chegasse lá e ficasse em segundo, terceiro ou quarto, como os outros
ficavam, de especial não tinha nada.

O futebol, sendo uma linguagem universal, não é igual em todos os


campeonatos. São características inatas aos próprios jogadores, ao
ambiente, ao público?
É tudo. Quando estamos no primeiro terço do campeonato italiano e já saíram dos
seus lugares nove treinadores da Série A, qual é o treinador que quer inovar?
O treinador da Série A italiana não quer inovar, quer sobreviver. Se chegar ao final
do campeonato e tiver sobrevivido, já é um vencedor. Já no campeonato inglês, um
Ferguson, que está há 20 anos no mesmo lugar, um Wenger, que está há dez, um
Benitez, que está há seis, têm condições para inovar? Têm. Têm todas as condições
para inovar. Depende muito da cultura do país. Depois depende do potencial
económico para se chegar a determinado tipo de alvos. Há países que contratam
jogadores a clubes grandes, mas que estes não querem. Há outros países que têm
condições económicas para contratar verdadeiramente os melhores jogadores de
clubes importantes, que não conseguem resistir a esse poderio económico. Depois
há os outros países que têm de ir procurar em mercados escondidos, de menor
expressão, jogadores com potencial para poderem atingir determinado nível. E
ainda há a questão arbitral - e não falo de árbitros bons ou maus. Um árbitro inglês
apita cinco vezes num jogo, um árbitro italiano apita dez, um árbitro português
apita 20. Tudo isto se traduz em diferenças culturais ao nível do jogo. O próprio
adepto tem uma importância fundamental. Se em Espanha um defesa atrasa a bola
para o guarda-redes e inicia a construção do jogo a partir de trás, isto é visto com
aplausos, como qualidade de jogo. Em Inglaterra não gostam. Em Inglaterra, a
objectividade do jogo vem das suas origens. Onde é que está a baliza? Então
jogamos lá. Na conquista de um pontapé de canto, em Inglaterra, a reacção do
público é parecida com a obtenção de um golo, porque a bola está perto da baliza.
Há toda uma série de factores, inclusive a forma como depois a imprensa analisa o
jogo, daí que haja estilos completamente diferentes. É por isso que digo que uma
coisa é ganhar cinco campeonatos no mesmo país e outra coisa é ganhar cinco
campeonatos em três países diferentes. É mais difícil.

Mas em qualquer desses países a pressão


dos adeptos é enorme.
É diferente. Vê-se que no futebol inglês é
diferente. Os treinadores iniciam e vão muito
para além do seu primeiro contrato, inclusive do
segundo e do terceiro, e continuam o
desenvolvimento do seu trabalho, com uma
pressão completamente diferente. Itália é muito
mais resultadista. Quem ganha continua, quem
não ganha vai fora. Em Espanha, nos grandes
clubes também tem sido assim. Em Barcelona
não, pois dá mais estabilidade, mas no Real
Madrid, no Atlético de Madrid, no Valência também tem sido assim. O próprio
futebol português agora está um bocadinho mais estável, sobretudo ao nível dos
clubes grandes, mas ao nível dos clubes mais pequenos é um país onde se muda
muito de treinador. É uma questão cultural. Mas o que o Sacchi disse em relação ao
futebol italiano pode-se aplicar a muitos outros países: quem está preocupado em
sobreviver não pode inovar.

Qual o futebol que mais o entusiasma dos países por onde já passou?
Entusiasmam-me todos. E por me entusiasmarem é que não tenho sido aquele que
opta pelas coisas fáceis, pela estabilidade, por ficar no mesmo clube, no mesmo
país, durante muito tempo, aquele que quer novos títulos em vez de repetir títulos.
Todos os campeonatos têm os seus aliciantes. Itália é o mais táctico. Itália é aquele
que exige ao treinador que seja mais bem preparado do ponto de vista táctico. O
campeonato inglês é muito mais emocional, pois os jogos, para o leigo, têm uma
emotividade e uma espectacularidade muito maior. Mas continuo a pensar que as
equipas inglesas a jogar no campeonato italiano iriam ter grandes dificuldades ao
nível da táctica, do mesmo modo que as equipas italianas a jogar no campeonato
inglês teriam dificuldades ao nível da intensidade e da velocidade do jogo. O
campeonato espanhol tem uma equipa que sai do contexto geral, que é o
Barcelona, porque tem um nível de qualidade muito superior. Mas todas as outras
jogam uma mescla de futebol. Têm uma influência sul-americana, porque há
muitos brasileiros e muitos argentinos que vão jogar para Espanha. Tem a ver com
a própria natureza do jogador espanhol, que é um jogador técnico, com a natureza
do futebol espanhol, que é leal mas com alguma agressividade. No fundo, todos os
campeonatos têm uma cultura própria. E agora, com tanta influência de jogadores
estrangeiros, é muito difícil definir um perfil muito estandardizado.

Assistiu à final da CAN. O futebol africano pode vir a ganhar uma grande
competição no futuro?
Sempre houve muitos jogadores africanos a jogar nos principais campeonatos
europeus. Mas não sei se erro se disser que fui um dos primeiros a decidir que os
jogadores africanos têm qualidade para jogar nos grandes clubes. Quantos
jogadores africanos é que jogavam nos grandes clubes? Poucos. E de repente o
Chelsea avança para duas contratações milionárias na altura, Essien e Drogba, que
provaram a todos que os jogadores africanos tinham competência para jogar ao
mais alto nível. E depois o Barcelona contratou o Touré, o Real Madrid o Diarra, o
Arsenal o Adebayor, de tal modo que em poucos anos se chegou à CAN, e os
jogadores que a jogam, em vez de serem desconhecidos ou pouco conhecidos,
passaram a ser jogadores de grandes clubes, do Chelsea, do Manchester, do
Liverpool, do Real Madrid... E estes jogadores, depois de terem aberto as portas
para o êxodo massivo dos africanos para jogar na Europa, é que trazem para África
este capital de conhecimento ao mais alto nível. Por isso, as potencialidades do
futebol africano vão ser cada vez maiores. São jogadores do primeiro nível nas suas
selecções, que importam para as suas selecções coisas que aprendem e
experiências vividas. Os jogadores africanos são, do ponto de vista físico e técnico,
superdotados. Sobretudo do ponto de vista físico são mais dotados que o
tradicional jogador europeu ou mesmo o sul-americano. Com o conhecimento e a
cultura táctica que vão adquirindo nos grandes clubes onde jogam, têm tudo, e,
desde que os seus países se consigam estruturar em termos de condições de
trabalho e de sucesso, os africanos vão estar preparados dentro de pouco tempo.

O que pensa da actual situação do futebol


português?
Estamos numa fase adaptada à nossa realidade.
Os melhores estão fora. Os que estão dentro
ficam para sobreviver ou continuar o seu
processo de desenvolvimento. Mas ano após
ano aparecem jogadores com potencial, na
selecção de sub-18, de sub-21... Depois, fruto
da capacidade de scouting, surgem sempre
jogadores desconhecidos e que se conseguem
contratar por quantidades ainda bastante
razoáveis. Apareceu no Porto um Hulk que
ninguém conhecia, um David Luiz no Benfica...
Vão aparecendo jogadores muito interessantes,
para não dizer bons. O Benfica este ano, por
exemplo, encheu-se de jogadores de qualidade,
jogadores que o Barcelona e o Real Madrid não
quiseram, mas jogadores do Barcelona e do
Real Madrid que chegam a Portugal e fazem a
diferença. O futebol português tem um
campeonato que é resultado do potencial que
tem. E depois, a nível europeu, consegue jogar
com as suas armas. Um Porto quando se qualifica mais uma vez para a fase
seguinte da Champions é porque fez bem. O Benfica e o Sporting qualificaram-se
para a fase seguinte da Liga Europa porque estão a fazer bem. A selecção, com
dificuldades inesperadas - aí sim, com dificuldades inesperadas, porque a selecção
tem à sua disposição todos os grandes jogadores portugueses que estão no
estrangeiro e, com a nova forma de pensar as coisas, ainda pode contar com
jogadores não portugueses que queira escolher e trazer para a selecção -, voltou a
qualificar-se para o Mundial. Por isso, penso que falar em crise é injusto. Acho que
o futebol português não está mal.

Ainda mantém a ideia de ser treinador da selecção portuguesa?


Mantenho, mas cada vez mais tarde. Cada vez quero adiar mais. Não vejo que seja
uma grande motivação para um treinador jovem. As pessoas já me vêem há muitos
anos nisto, porque já estou num nível alto desde 2000, mas sou muito jovem.
Tenho muita coisa pela frente para fazer. O trabalho dos clubes é muito mais
aliciante. Estar em campo, treinar todos os dias, jogar duas ou três vezes por
semana, ter desafios verdadeiros todas as semanas... Eu não me estou a ver numa
selecção a jogar contra o Lichenstein, contra a Albânia, contra Malta... Isso é o
mesmo que num clube estar a jogar na terceira ou na quarta divisão. Enquanto
tiver este fogo, que nunca mais vejo diminuir, só vejo aumentar, quero continuar a
ter desafios ao mais alto nível. E a selecção será uma questão de coração, de fazer
como treinador aquilo que nunca tive oportunidade de fazer como jogador, que não
fui, de poder representar o meu país. Mas não mais do que isso. Não é uma
tentação.

Vê-se como treinador até aos 65 anos, como Alex Ferguson?


Se a saúde me permitir vejo.

É possível chegar ao topo mesmo sem os recursos financeiros das grandes


equipas europeias, como fez no FC Porto?
É possível. O FC Porto foi um exemplo perfeito de como construir uma equipa. O
Porto construiu um centro de estágios, que o Benfica e o Sporting não tinham e que
mesmo muitas equipas que se consideravam de topo a nível europeu não tinham.
Nós, por exemplo, chegámos ao Chelsea em 2004 e treinávamos no campo de uma
escola e deixávamos a nossa roupa, quando nos íamos equipar, num gancho feito
com um prego no balneário. Hoje, o Chelsea tem o melhor centro de estágios do
mundo. O Porto construiu um centro de estágios. Depois, pensou num treinador,
em mim. Deu-me confiança, tempo, condições para exercer a minha liderança a
todos os níveis. Em seguida, pensou, ou pensámos, numa cultura - e a cultura que
pensámos foi uma maioria de jogadores portugueses. E o clube teve condições para
contratar os melhores portugueses que jogavam em Portugal. Claro que não
tínhamos condições para contratar um Figo, que estava no Real Madrid, ou um Rui
Costa, que estava no Milão. Mas chegámos ao Nuno Valente e ao Derlei, do Leiria,
ao Paulo Ferreira, do Setúbal, ao Pedro Emanuel, do Boavista. Depois jogámos uma
Taça UEFA, que foi utilizada por nós para fazer crescer a equipa. O facto de a
termos ganho foi consequência do trabalho fantástico que fizemos. Depois
entrámos na Champions com a filosofia para o exterior de "vamos ver até onde
chegamos" e para o interior de "podemos ganhar a qualquer um". E foi assim que,
com dois anos e meio de trabalho, com princípios muito claros da relação de
trabalho entre a equipa técnica, o departamento médico e o departamento de
imprensa, com tudo perfeitamente definido, aquela vitória foi possível. É mais
possível uma vitória seguindo estes moldes do que uma vitória gastando dinheiro.
O Chelsea de hoje, com muito mais dinheiro que o Porto tinha na altura, é no fundo
uma consequência daquilo que foi acontecendo. A evolução entre treinar num
campo de uma escola e vestir-se num balneário onde os cabides eram pregos para
o melhor centro de estágios do mundo. De jogadores mal escolhidos para jogadores
bem escolhidos. De jogadores que entravam e saíam todas as épocas para uma
equipa que é a mesma desde 2005. E isto é construção. O Chelsea vai ser campeão
europeu? De certeza. Quando? Está quase. Se não for este ano, é para o ano. Está
quase. Isto é uma maneira fantástica de trabalhar. Depende das culturas. O Porto
teve em mão a oportunidade de fazer fortunas, e fê-las. Se, em vez de ser o Porto
de Portugal, fosse o Porto de Espanha, ou de Inglaterra, ou de Itália, com um poder
económico sobredimensionado, se calhar tinha mantido aquela equipa e aquele
treinador por mais três, quatro ou cinco anos e tinha feito uma geração de vitórias.
Em Portugal, é muito difícil manter os mesmos jogadores depois de se atingir o
êxito.

Mas o José Mourinho é que quis sair do Porto.


Obviamente.

Quando foi para o Chelsea, levou três jogadores portugueses. Porquê?


Foram o Ricardo Carvalho, o Paulo Ferreira e o Tiago, que estava no Benfica. Levei-
os porque precisava deles para posições específicas, conhecia os jogadores...
Quando se chega a um clube, se se puder trazer algum que possa já ter absorvido
aquilo que os outros vão ter de absorver também, é claro que a adaptação é muito
mais fácil.

E como é que se chega ao insucesso quando se tem todos os recursos do


mundo, como por exemplo a equipa de galácticos do Real Madrid?
Isso é uma pergunta para o Carlos Queirós, que era o treinador.

Qual a importância do presidente de um clube? E qual o que mais o


marcou?
Do italiano não falo, porque é a situação actual. O presidente do Porto é o melhor
presidente com que se pode trabalhar. Porquê? Porque sabe onde deve estar,
quando deve estar, o que deve dizer, quando dizer. Sabe tudo. Se calhar fui eu que
tive a sorte de o apanhar numa fase da sua carreira de grande maturidade, de
grande experiência, se calhar foi sempre assim, mas para mim era o presidente
perfeito. Porquê? Porque me deu todas as condições que eu solicitei, porque me
deu todo o apoio durante o processo e porque é o tipo de presidente que facilita
muito a função do treinador líder. Não digo o treinador técnico ou táctico, porque
isso cada um será à sua maneira e de acordo com o seu potencial. Mas, para o
treinador líder, ter um presidente adaptado à sua própria mentalidade e ao seu
estilo de actuação é muito mais fácil. E eu devo dizer que com o senhor Pinto da
Costa foi muito fácil trabalhar.

E com o senhor Abramovich?


Com o senhor Abramovich foi diferente. Era uma pessoa que estava há pouco
tempo no futebol, não tinha grande conhecimento do fenómeno, de tal maneira
que, quando comprou o clube em 2000, a primeira coisa que fez, antes de nós
chegarmos, foi comprar jogadores. E só depois é que construiu o melhor centro de
estágios do mundo, em 2004. Se ele soubesse muito de futebol, no momento em
que comprou o clube tinha iniciado a construção de um centro de estágios daquela
dimensão. Mas é uma pessoa com quem sempre tive uma relação boa, que ainda
hoje é boa e sem qualquer tipo de problema.

Já encontrou presidentes que lhe pedissem satisfações sobre a equipa que


joga?
Já. É normal quem não sabe perguntar a quem sabe. Se o presidente não sabe, não
percebe, e se o treinador percebe muito mais de futebol que o presidente, é normal
que ele peça explicações. Mais do que aceitável, é lógico. Aquilo que não se sabe
pergunta-se.

E sobre a contratação de jogadores, também já lhe pediram explicações?


Obviamente. O dinheiro ou é seu ou do clube que é seu.

A sua relação com outros treinadores tem passado por conflitos. Isso
também é um modo de afirmação?
No futebol só há uma forma de as pessoas se afirmarem: é ganharem. No futebol,
ninguém se afirma nem pelo sobretudo que tem, nem pela barba grande, nem pelo
cabelo grande, nem por falar bem, nem por falar línguas... No futebol, uma pessoa
só se afirma pelos resultados. O meu modo de afirmação é só um: ganhar. E eu
ganhei sempre.

Mas tem de concordar que, por vezes, as suas palavras...


Não tenho de concordar nada. Não é um modo de afirmação. Pode ter impacto. Mas
não é um modo de afirmação. O único modo de as pessoas se afirmarem no futebol
é ganhando. Não há outro modo de afirmação.
Concorda com a utilização de meios tecnológicos no futebol?
Não é concordar. É exigir. Não compreendo porque há-de ser o futebol um dos
poucos desportos e uma das poucas áreas da sociedade que é vedada à tecnologia.
Nós vamos para um jogo de futebol: os treinadores podem ter acesso à informação
em tempo real ou quase. Eu posso receber no banco, cinco segundos depois de
uma jogada, a imagem porque a quero rever. Posso receber estatísticas a cada 15
minutos dos parâmetros que defino. Os polícias e seguranças que estão no estádio
têm acesso à tecnologia que não tinham há 15 anos. A comunicação social está a
ver o jogo e tem uma câmara que mostra as jogadas. Por que razão é que o jogo,
que é a essência de tudo aquilo, não tem apoio ao nível tecnológico? Sinceramente,
não consigo compreender.

O Chelsea foi eliminado numa meia-final...


Pois foi. Foi eliminado por um golo que não foi golo. O râguebi tem acesso aos
meios tecnológicos, o atletismo tem igualmente acesso, a natação também, tudo
tem acesso às novas tecnologias, o futebol não... Faz-me um bocadinho de
confusão.

Já alguma vez teve o pressentimento de que o resultado de um jogo


estivesse combinado?
Não. Mas já tive sensações para onde é que o vento soprava, de que o vento
soprava mais para um lado do que para outro. Estou a falar ao nível de um
sentimento quase global, quase generalizado, quase institucional... Jogar uma
determinada competição e pressentir que uma equipa seria mais bem-vinda como
vencedora. Mas muito longe de entrar num jogo e pensar sequer que alguma coisa
pudesse estar feita. Longe, muito longe disso...

Sente-se português ou um cidadão do mundo?


Sentir-me português, sim, sempre. Pensar como português, não. Não sou
saudosista, não tenho saudades, não passo mal com a distância, com a comida dos
outros países, não tenho qualquer tipo de problema... As minhas alegrias
profissionais são as minhas vitórias, não são as derrotas dos outros. Não me revejo
muito na mentalidade portuguesa tradicional, muito menos na personalidade do
futebol português. Agora sentir-me português, claro que sim.

Os seus objectivos actuais são ganhar de novo a liga italiana e a


Champions?
O meu objectivo é ganhar no sábado. É sempre assim. Sempre foi assim.

Qual foi o melhor capitão que teve nas equipas que liderou?
Todos. Ganhei sempre. Ganhei no Leiria com o Bilro como capitão, porque estar no
Leiria em terceiro ou quarto lugar em Dezembro foi ganhar. Ganhei no Porto com o
Jorge Costa como capitão. Ganhei no Chelsea com o John Terry como capitão.
Ganhei no Inter com o Zanetti como capitão. Não tenho um único capitão perdedor,
um único capitão duma equipa que não ganhou.

E a nível de dirigentes?
É a mesma coisa. Ganhámos sempre. E, quando se ganha sempre, quando há
sempre sucesso, guarda-se as melhores recordações das pessoas com quem se
trabalhou e com quem se ganhou. Aqui somos os campeões de Itália, no Chelsea
ganhámos o que ganhámos, no Porto a mesma coisa, no Leiria não houve títulos,
mas cada vitória era um título. O que acaba por ser mais marcante, até porque
estava numa fase inicial da minha carreira, foram os meus dois anos e meio no
Porto.
Nesta década, qual foi o melhor guarda-redes que conheceu?
O melhor guarda-redes que conheci foi o Vítor Baía. Na última década talvez não,
porque já não joga há dois ou três anos, já era suplente do Helton na última época.
Mas não vejo nenhum melhor que ele. Aqui, temos tido sempre guarda-redes de
qualidade, aliada à qualidade do treinador deles, o Silvino: o Vítor foi eleito
connosco o melhor guarda-redes da Europa, o Peter Cech também, o Júlio César foi
eleito no ano passado o melhor guarda-redes de Itália num campeonato onde joga
o Buffon... Melhores que estes não recordo muitos…

O melhor defesa?
O melhor defesa, por potencial e considerando qualidades físicas, tácticas e
técnicas, é o John Terry. Acho que é o melhor de todos. Mas o Jorge Costa foi meu
capitão. Deu-me muito. E ganhámos muito. Sendo um jogador menos dotado -
Deus deu-lhe menos do que deu a John Terry -, era daqueles defesas insuperáveis.

No meio-campo?
No meio-campo, também com um potencial inferior a tantos daqueles de que fui
treinador, há um que não me esqueço, porque era o meu ponto de equilíbrio, a
minha referência, o meu pêndulo: o Costinha, que ainda por cima marcou um golo
histórico para todos, que nos deixou às portas de conseguir coisas importantes.
Mas Frank Lampard é um jogador do outro mundo. O número de golos que marca
como jogador do meio-campo, o número de jogos que efectua sem lesões, sem
castigos, a regularidade, mas a regularidade para cima, faz dele um jogador
impressionante.

E melhor avançado?
Melhor avançado, melhor avançado... Tive sempre avançados importantes. Escolho
um que não é o melhor pelo potencial, mas escolho um: Derlei. Fez coisas no Leiria
que nos projectaram para o Porto. E fez coisas no Porto absolutamente incríveis,
desde o golo que nos deu a vitória na Taça UEFA, que eu continuo a dizer que é a
vitória mais importante da minha carreira, até à maneira como conseguiu recuperar
de uma lesão gravíssima ainda a tempo de jogar as meias-finais e a final da
Champions, à maneira como motivava e arrastava companheiros em campo... Claro
que Deus lhe deu menos do que deu ao Drogba, inclusive ao Benny McCarthy...
Mas, para mim, Derlei é o avançado mais marcante da minha carreira. E não estou
a meter o Inter em nada disto, para não ferir susceptibilidades.

E qual foi o melhor jogador português da década?


Figo.

E o melhor treinador?
Eu!

(Texto publicado na Revista Única da edição do Expresso de 31 de Dezembro de


2009)