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O achado que ressuscitou o mito da civilização perdida

Por Luís Miguel Queirós

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/22-01-2010/o-achado-que-ressuscitou-o-mito--
da-civilizacao-perdida-18590661.ht m

Numa zona inóspita da Amazónia brasileira,


desmatada há apenas 30 anos, descobriram-se
centenas de gigantescas estruturas de terra que só
se conseguem ver de avião. E pode haver milhares
escondidas pela floresta. Os investigadores receiam
tirar conclusões apressadas, mas a palavra
"Eldorado" já chegou às páginas dos jornais

Depois de o mito do Eldorado se ter popularizado a ponto de hoje designar, na linguagem


coloquial, qualquer lugar onde se possa enriquecer depressa, e quando a malograda expedição
que o coronel Percy Fawcett empreendeu nos anos 20 à mítica "cidade de Z", que acreditava
existir no coração da selva brasileira do Mato Grosso, está prestes a chegar às salas de
cinema com Brad Pitt no papel do explorador britânico, a última coisa que um investigador sério
desejaria encontrar seriam sinais de uma civilização perdida na floresta amazónica.

Talvez isto explique porque é que durante mais de 20 anos quase ninguém ouviu falar dos
geoglifos do estado brasileiro do Acre, acidentalmente descobertos pelo geógrafo Alceu Ranzi ,
em 1986, quando olhou pela janela do avião num voo comercial entre Porto Velho e Rio
Branco, a capital do Acre. O que Ranzi viu foi uma estranha estrutura circular dupla, marcada
na terra, na margem da rodovia BR-317, que atravessa uma região particularm ente inóspita
nos estados do Amazonas e do Acre. Intrigado, voltou a sobrevoar a zona, desta vez com uma
equipa que incluía o fotógrafo Agenor Mariano, e deu notícia da descoberta, num artigo
publicado a 15 de Agosto de 1986 no jornal regional O Rio Branco.
Desde então até hoje, Ranzi e os seus colaboradores já encontraram cerca de 300 geoglifos,
estruturas de terra feitas por mão humana, que chegam a ter 300 metros de diâmet ro, com
valas e muretes que desenham uma ampla gama de figuras geométricas perfeitas, incluindo
círculos, rectângulos, hexágonos e octógonos, muitas vezes unidos entre si por sulcos
paralelos. No dia 5 de Janeiro deste ano, o diário inglês The Guardian dedicava uma página à
descoberta destes geoglifos, termo que significa "escrita na terra" e que adopta a designação
dada aos famosos desenhos de Nazca, no Peru, que só se conseguem ver de avião e que, ao
contrário dos seus congéneres brasileiros, incluem diversas figuras zoomórficas.
O artigo do Guardian, sugestivamente intitulado Exploradores da Amazónia descobrem sinais
de um Eldorado real, depressa correu mundo e chegou mesmo aos principais jornais
brasileiros. "Com a notícia do Guardian, a coisa repercutiu de volta, da Europa para o Brasil,
onde os geoglifos só eram conhecidos a um nível muito regional", diz Alceu Ranzi,
reconhecendo que "essa loucura toda do Eldorado também aumentou o interesse". Mas se a
associação desta descoberta aos mitos das cidades perdidas da Amazónia ajuda a divulgar os
geoglifos, também tem os seus riscos: "Agora, como vai sair um filme sobre isso, já falam da
"cidade de Z" e misturam o Brad Pitt, que vai ser o Fawcett, com os geoglifos", ri -se o cientista.
"Se calhar, estão é interessados em promover o filme, é preciso ter muito cuidado e separar
bem as águas." E garante que nenhum dos membros da sua equipa alguma vez se referiu ao
Eldorado.

Ranzi mostra-se até es pecialmente prudente e admite que ele e os seus colaboradores têm
"muito mais pergunt as do que respostas" e estão a "tactear no escuro". Para j á, diz, o que
existe é a descoberta dos geoglifos, a sua descrição e localização, e as suas imagens, quer em
fotografias tiradas em voos a baixa altitude, quer com o recurso a satélites. Mas isso, sublinha,
"já dá para encher os olhos de qualquer um".
Uma sociedade complexa

Embora o estudo sistemático dos geoglifos esteja ainda numa fase embrionária, já foram feitas
escavações arqueológic as em alguns, e os achados parecem demonstrar que estes locais
podiam ter diversas funções. Em alguns descobriu-se uma grande quantidade de cerâmica,
noutros nem um único fragmento, em alguns o solo mostra sinais de ter sido artificialmente
modificado, noutros isso não acont ece.
A datação da cerâmica encont rada sugere ainda que os geoglifos mais antigos poderão ter
sido feitos há dois mil anos e que os mais rec entes serão do final do século XIII, ainda assim
bastante anteriores à chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. Os vestígios parecem
também demonstrar que esta área foi continuamente habitada por populações sedentárias ao
longo de muit os séculos, o que contradiz a convicção, há muito estabelecida na comunidade
científica, de que as condições do terreno não teriam permitido a agricultura. Ranzi coloca
mesmo a hipótese de que os construtores dos geoglifos possam ter estado activos após a
chegada dos colonizadores europeus, já que a região só começou a ser ocupada há 100 anos,
quando ali chegaram as primeiras indústrias da borracha. Isto se exceptuarmos as tribos de
índios apurinã, que ainda hoje vivem nesta zona.

Denis e Schaan, arqueóloga com formação em antropologia e uma das principais colaboradoras
de Ranzi, interrogou os apurinã e concluiu que estes não conservam memória alguma dos
construtores dos geoglifos. Mas ninguém faz ideia do que levou ao desaparecimento desse
povo, que deve ter sido razoavelmente numeroso. Schaan calcula que algumas destas
estruturas de terra tenham requerido pelo menos uma centena de homens a trabalhar meses a
fio. E há que ter em conta que os cerca de 300 geoglifos encontrados até ao momento, e que
se estendem numa faixa de 250 quilómetros, são apenas aqueles que a desmatagem deixou à
vista. Ranzi calcula que sejam cerca de dez por cento do total e que sob as árvores possam
estar mais alguns milhares. E está já a pensar em formas de os detecta r no solo, sem destruir a
floresta.
Até ao final do século XIX, nota o cientista, nem sequer havia, em toda esta região, uma
fronteira definida com a Bolívia, que só foi estabelecida em 1903. "Era uma zona totalmente
coberta pela floresta." Uma situação qu e só começou a mudar há 30 anos, com grandes
operações de desmatagem, para abertura de estradas e de passagens para o gado. Hoje
existem várias fazendas na região, algumas gigantescas, e foi justamente no seu interior que
se descobriram os geoglifos.
Não fora esta ainda recente des florestação, e Ranzi, no seu voo de 1986, teria apenas podido
ver copas de árvores da janela do avião. Só no solo era então possível deparar com um
geoglifo. E, curiosament e, o investigador até já encont rara alguns em 1977, quando participou,
na qualidade de jovem geólogo e paleontólogo, numa expediç ão arqueológica pioneira dirigida
por Ondemar Dias. No entanto, embora os elementos da equipa tenham localizado meia
centena de sítios arqueológicos, e hoje se saiba que trabalharam em geoglifos, a verdade é
que não os " viram" enquanto tal, já que a sua dimensão e o seu traçado são virtualmente
invisíveis ao nível do chão.

Mesmo a descobert a de 1986 não teve consequências imediatas, salvo a já referida publicação
de um artigo na imprensa local. "A notícia passou despercebida, ninguém ligou muito, e eu
também fui cuidar da minha vida", conta Ranzi. Foi só em 1999, quando, sobrevoando de novo
a região, tornou a ver vários geoglifos, que decidiu que "era preciso fazer alguma coisa".
Arranjou uma equipa, conseguiu financiamentos da Academia de Ciências da Finlândia - e a
colaboração do arqueólogo finlandês Martti Pärssinen - e pôs de pé um projecto de
investigação, hoje subsidiado pela fundação estatal Elias Mansour.
Em 2008, Ranzi, Schaan e Pärssinen publicaram um primeiro balanço exaustivo das suas
descobertas no livro Arqueologia da Amazônia Ocidental: Os Geoglifos do Acre, que reúne
ainda artigos de vários outros cientistas. O volume provocou algumas reservas. A antropóloga
Juliana Salles Machado, sem negar a importância dos achados, sugere que os dados
empíricos reunidos pelos autores são insuficientes para sustentar as interpretações avanç adas,
e muito particularmente a conclusão de que estes monument os implicam necessariamente um
grau elevado de "complexidade social".
Parecendo certo que a sua construção implicou uma força de trabalho significativa, algum tipo
de planeamento e conheciment os de geometria, sugerir que foram feitos por uma sociedade
razoavelmente organizada, e não por caçad ores nómadas de pequenas tribos, não parece ser
uma especulação delirante, embora implique que, nesta zona, a floresta possa ser mais
recente do que se pensava. Mais enigmático é que não tenham ainda sido encontrados
quaisquer vestígios de cemitérios ou, por exemplo, de locais que tivessem servido como
cozinhas, nem dentro nem fora dos geoglifos. "Se eles não habitavam os geoglifos, tinham de
viver nas proximidades, e ainda não encontrámos as casas deles", reconhece Ranzi.
Do Eldorado à "cidade de Z"
Acresce que, nesta zona do globo, falar de sociedades complexas comport a o risco imediato
de despertar o mito de uma glorios a civilização perdida, equiparável à dos incas - ou, noutra
tese, uma extensão do próprio reino inca -, que nunca foi encont rada, mas que sucessivas
gerações de exploradores procuraram com afinco, desde Francisco Orellana e Gonzalo
Pizarro, que, no século XV I, demandaram, sem êxito, um reino de cujo monarca se dizia que se
aspergia com ouro em pó antes de se banhar ritualmente em águas sagra das. A sua expedição
inspirou o filme Aguirre, o Flagelo de Deus, de Werner Herzog, com Klaus Kinski.

Bem mais recent ement e, em 1925, o enigmático coronel Percy Fawcett embrenhou-se na selva
do Mato Grosso com o seu filho Jack e com um amigo deste, Raleigh Rimmel, determinado a
encontrar uma cidade perdida referida num manuscrito do século XV III, escrito por um
explorador português anónimo e conservado na Biblioteca do Rio de Janeiro. Não se sabe se
Fawcett encontrou a "cidade perdida de Z", como lhe chamava, porque nenhum dos elementos
da expedição alguma vez regressou.

A tese maioritária é a de que foi assassinado por índios, mas também há quem defenda que se
transformou num régulo local, como o Kurz de O Coração das Trevas, de Joseph Conrad,
interpretado por Marlon Brando em Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola. Uma tese que
ganhou inesperadamente laivos de verosimilhança com a recent e divulgação de documentação
privada do es pólio de Fawcett, que sugerem que este tinha a intenção de se radicar entre os
índios brasileiros e convertê-los a um estranho culto esotérico. Amigo de Conan Doyle, o
explorador inspirou o criador de Sherlock Holmes a escrever O Mundo Perdido e serviu de
base a Steven Spielberg para compor a figura de Indiana Jones. Cont rariando o p róprio
Fawcett, que deixou indicações para que não tentassem encontrá -lo, caso não regressasse,
cerca de uma centena de pessoas, somadas as sucessivas expedições, já morreu a tentar
achar-lhe o rasto.
A tarefa da equipa que está a investigar os geoglifos do Acre é delicada. O fascínio destas
lendas atrai o público - Ranzi já sonha com a criação de uma indústria de voos turísticos a
baixa altitude -, mas pode tornar-se difícil aproveit á-lo sem o aliment ar.