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D.

Carlos Azevedo: "O diálogo pode tornar-se uma máscara do


imobilismo das igrejas"

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tornar.ht ml

Ontem, no Correio da Manhã, D. Carlos Azevedo escreveu sobre o diálogo


ecuménico. O bispo auxiliar de Lisboa enumera os principais frutos do
movimento ecuménico e diz o que muitos pensam mas não dizem: "O diálogo
pode tornar-se uma máscara do imobilismo das igrejas".

O texto na íntegra.

A semana da oração pela unidade dos cristãos, que termina a 25, é momento
para reconhecer os passos dados no ecumenismo, ou seja, no esforço para
encontrar meios e modos, atitudes e gestos que encaminhem para refazer os
desencontros e as separações mais duras e importantes como a que originou
os ortodoxos, no século XI, e a do protestantismo, ao longo do século XVI, com
sucessivas cisões. Passo a passo, como todos os caminhos, requer paciência.
As etapas intermédias são fundamentais: já se passou do anátema ao diálogo;
do diálogo está a passar-se ao acolhimento e do acolhimento passaremos ao
reconhecimento recíproco.

Podemos enumerar os principais frutos. Em primeiro lugar dissiparam-se


inúmeros preconceitos e favoreceu-se a compreensão verdadeira, não
facciosa, ou astuciosa ou polémica. O segundo fruto é ter mantido a possível
compatibilidade de doutrinas que no passado eram apresentadas e vividas
unicamente como antagonistas e alternativas. O terceiro é ter clarificado o
núcleo irredutível de diversidades reais ou também divergências que não
podem ser harmonizadas nem podem ser simplesmente consideradas
complementares. A estação do diálogo deu o que podia dar e importa continuá-
la sem a prolongar até ao infinito, iludindo os empenhos ulteriores. O diálogo
pode tornar-se uma máscara do imobilismo das igrejas.

Perante a persistência das divisões entre as igrejas, admite-se não ter soluções
simples a propor. Não há euforia ecuménica. A visão cristã da reconciliação
deve empenhar todos os cristãos a procurar entre eles "incansavelmente" a
unidade visível. Para isso será necessário "reexaminar as decisões",
perguntando se elas não são produto de diferenças que noutros tempos foram
consideradas fonte de divisão, mas hoje podem aparecer como um
enriquecimento.

Além disso, os cristãos são chamados a dar passos: 1) Para avançar na


unidade e chegar à comunhão é fundamental curar as feridas da memória,
sobretudo com factos. 2) Favorecer a colaboração em todos os campos,
evitando a rivalidade que destrói já que a construção de justiça social para com
os pobres, os doentes, os marginalizados, os mais débeis e pequenos é a
verdade da caridade. 3) Afirmar a igualdade de estatuto e de direitos das
igrejas e dos povos minoritários. 4) Empenhamento comum pelo conhecimento
sempre mais aprofundado da Bíblia. É esta palavra de Deus e o Seu Espírito
que guiarão as igrejas para a comunhão.

O ecumenismo pede um novo arranque com a coragem da fé, uma vez que o
olhar da esperança já abraça novo tempo.

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa