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Obama: e, de repente, o copo ficou meio vazio

Por José Manuel Fernandes

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/22-01-2010/obama-e-de-repente-o-copo-ficou-
meio-vazio-18636825.ht m

Os eleitores norte-americanos esperavam mesmo uma "nova política", não


apenas uma nova retórica e algum carisma

Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010. Boston, Massachusetts. Acontece o que ninguém


esperava: um jovem republicano, quas e desconhecido ainda há pouc as semanas, é eleito para
o lugar de senador deixado vago por Ted Kennedy. Desde 1952 que o Massachusetts não
elegia um senador republicano e ninguém esperava que tal sucedesse no estado com o
eleitorado mais fiel ao Partido Democrata, o único que, em 1972, deu a vitória ao esquerdista
McGovern na corrida presidencial ganha por Richard Nixon.
Massachusetts, o estado de Boston, a cidade em que Obama se tornou conhecido do país ao
discursar na convenção democrat a de 2004, também a cidade dos Kennedy. E logo a 19 de
Janeiro de 2010, véspera do primeiro aniversário da tomada de posse do President e Obama.
Depois de um primeiro "aviso" nas eleições de Novembro passado, quando os democratas
perderam para os republicanos as eleições para governador na Virgínia e em New Jersey, a
surpresa do Massachusetts obriga a Casa Branca e o partido do President e a repensarem toda
a estratégia política. A começar pela forma como vão aprovar, ou não, a legislação sobre o
sistema de saúde, um proc esso que se arrasta no Congresso e enfurece os mais fiéis eleit ores.

Até 19 de Janeiro a generalidade dos balanços do primeiro ano da Presidência de Obama tinha
preferido olhar para o copo e vê-lo meio cheio. Depois muitos passaram a vê -lo meio vazio.
Teremos de esperar para perceber qual a visão correcta, mas algo mudou de vez com a
eleição de Scott Brown e a perda de maioria absolutíssima dos democratas. Até porque todos
falam na necessidade de escutar a mensagem de um eleitorado zangado.
Os balanços mitigados do primeiro ano da Presidência Obama eram justificados, e só numa
Europa que continua cegamente apaixonada pelo carisma do "grande orador" não se percebia
que as coisas não estavam a correr como se esperava.
É certo que uma parte da esquerda já começara a torcer o nariz: a promessa de fechar
Guantánamo ainda não se conc retizou, não há também soluç ão para boa parte dos presos que
lá continuam (sobretudo os iemenitas), os Estados Unidos não retiraram do Iraque e, depois de
meses de hesitação, até decidiram reforçar a sua presença no A feganistão. Isto sem esquecer
a desfeita à Europa protagonizada pelo próprio Obama durant e a Cimeira de Copenhaga,
quando decidiu tudo com os chines es, os indianos e os brasileiros e deixou os hóspedes fora
da sala onde decorreram as conversações finais.

Por outro lado, os conservadores, mesmo tendo recebido com agrado certas decisões
pragmáticas em matéria de defesa e política externa, assim como as orient ações domésticas
em áreas como a educação, desconfiavam de um plano de saúde que se estava a tornar cada
vez mais caro, do aumento exponencial da despesa e do défice, das relações ziguezagueantes
com Wall Street e, sobretudo, de cert as iniciativas na frente externa que faziam recordar o
estilo odiado dos appeasers que, antes da II Guerra, não conseguiram barrar o poder crescent e
da Alemanha nazi.

No lado positivo da balança quase todos colocavam a rec onciliação dos E stados Unidos com
as opiniões públicas e o aumento do prestígio da América e a reabertura de muitos canais
diplomáticos, mesmo reconhecendo que os resultados são poucos até ao moment o. Os
adeptos do multilateralismo foram confront ados com a rápida passagem de um idealizado G20
para um mais prosaico e realista G2, formado apenas pelos EUA e pela China, tendo ainda de
engolir uma viagem à China com muitas omissões sobre direitos humanos. Já aqueles que
sempre defenderam uma relação privilegiada com a Europa assistiram a um preocupante
distanciamento face ao melhor aliado, o Reino Unido, enquanto no continente os tiques
antiamericanos se mantiveram, como acaba de provar a reacção francesa à energia posta, e
muito bem, na intervenção humanitária no Haiti.
E se no Médio Oriente quase nada aconteceu - nem haveria condições para acontecer -, o
muito celebrado discurso do Cairo tarda a produzir efeitos. A situação no Irão continua a ser
muito perigosa, tendo levado o comandant e militar na área, o general Petraeus, a colocar a
hipótese de uma intervenção militar, declaração que teria provocado uma crise internacional
ainda há alguns meses. No Iraque, mas sobretudo no A feganistão, a novidade da "guerra com
data para ac abar" - e para retirar - pode revelar-se o pior dos compromissos, uma vez que
envia aos inimigos a mensagem de que os Estados Unidos não estão disponíveis para lutar até
ao fim, isto é, até à vitória.
A entrada no segundo ano do mandato, para mais tendo pela frente a necessidade de controlar
o habitual desgaste das eleições para o Congresso marcadas para Novembro, coloca enormes
dilemas à Administração Obama. Deve esta tent ar reconciliar-se com uma base mais à
esquerda e, ao mesmo tempo, adoptar um discurso e uma prática mais populistas, como
muitos já ontem advogavam na imprensa norte-americana? Ou deve antes dar ouvidos aos
que, recordando a experiência de Bill Clinton, recomendam uma inflexão centrista?
Uma coisa é cert a: os eleitores norte -americanos estão zangados e, se Obama não tem
nenhum rival a nível nacional, o seu partido está em dificuldades e uma part e da sua agenda
está em causa. Culpe-s e quem se culpar, as grandiosas promessas de uma "nova política"
capaz de superar as barreiras entre democ ratas e republicanos não foram cumpridas e nunca
um Congresso tinha, como o actual, votado de forma tão sectária. Culpe-se quem se culpar, ao
centrarem-s e na reforma do sistema de saúde numa altura em que a principal preocupação dos
cidadãos é a economia, o President e e os democratas perderam o contacto com os eleitores.
Pior: culpe-s e quem se quiser culpar, mas nenhum eleitorado poderia apoiar uma reforma que,
para passar, levou os líderes democratas do Congresso, Nancy Pelosi e Harry Reid, a fazerem
"negócios" tão injustos e impopulares como o de isentarem os eleitores do Nebraska ou os
filiados nalguns sindicatos do pagamento do imposto que financiará o novo sistema de saúde.

Lenny Davis, um antigo conselheiro político de Bill Clinton, escrevia anteontem que, se Obama
quiser cumprir o sonho de uma "nova política", tem de perceber a mensagem do
Massachusetts e convencer os democratas que estes necessitam de fazer compromissos,
negociar e procurar plataformas bipartidárias, o que não tem sucedido, bem pelo contrário. Ora,
isso que significa governar mais ao centro na política interna e, para utilizar uma ex pressão da
revista The Economist, "calçar as luvas de box e" em vários domínios da política externa.

Foi o que Clinton fez e o copo, que já estava quase vazio, voltou a encher. Falta saber se
Obama o fará no seu segundo ano como Presidente.

Jornalista