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Os "heróis" de 2009

Por Esther Mucznik

Público, 2009-12-31

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/31-12-2009/os-herois-de-2009-18492955.htm

Olhando à volta não se vislumbram motivos de regozijo. Terminamos o ano como


começou: sob a ameaça do terrorismo

Escrevo nestes últimos dias do ano 2009 com a mistura de sentimentos que nos
anima sempre que alguma coisa termina e outra começa. Apenas um segundo
separa 2009 e 2010, mas na nossa mente nele está contido o fim de um ciclo e o
início de outro. Precisamos dessa ruptura no tempo - mesmo sabendo que não
passa de pura construção - para lhe dar um sentido, porque é da consciência do
passado que emerge a do presente.
Se tivesse que resumir numa só palavra o tempo em que vivemos, eu utilizaria o
termo "radicalização". Radicalização da violência social, em primeiro lugar,
exacerbada pela crise económica: violência da pobreza, do fosso crescente entre
ricos e pobres, do desemprego e da degradação da dignidade humana; violência de
costumes e da "brutalização" das relações humanas; radicalização da própria
natureza em revolta contra a mão humana; radicalização religiosa e nacionalista
crescente; radicalização da violência militar terrorista - se é verdade que mata
muito menos gente, ela é infinitamente mais cruel porque anónima, sem regras,
imprevisível e dirigida maioritariamente contra alvos humanos desarmados…
Olhando à nossa volta não se vislumbra grandes motivos de regozijo. Terminamos
o ano (e a década) como começou: sob a ameaça do terrorismo. A Al-Qaeda
continua viva porque, mesmo fragilizada do ponto de vista militar, a sua ideologia
antiocidental e integrista mantém a sua capacidade de atracção; no Paquistão, no
Afeganistão ou no próprio Iraque o terror mantém-se e a mudança do discurso
oficial americano dificilmente se reflecte no terreno...
As liberdades e nomeadamente a "mãe" de todas elas, a liberdade religiosa,
recuam. Enquanto que o Ocidente cada vez mais multicultural discute minaretes, a
introdução da sharia ou da burqa, reforça-se em contrapartida a unicidade religiosa
e étnica em praticamente em todo o arco oriental, do Iraque à China onde, após a
expulsão de judeus na última metade do século XX, mais de cem milhões de
cristãos vivem hoje sob ameaça e onde a apostasia é punida com pena de morte -
o que, estranhamente, não parece comover os multiculturalistas do Ocidente...
Quer seja em nome da religião, da "ameaça estrangeira", do combate à crise, ou
em nome da segurança, a liberdade vai cedendo o passo. Algo parecido com a
precipitação no abismo.
No meio deste quadro sombrio, há algumas, bem poucas e trémulas luzes: a
principal é o apodrecimento visível do regime teocrático no Irão. Nos últimos 30
anos, desde 1979, a revolução iraniana mudou o Médio Oriente, forjou uma
ideologia e um regime radical, violentamente antiocidental e anti-Israel, instabilizou
o Líbano e a Síria, exportou e apoiou movimentos extremistas e violentos como o
Hezbollah e o Hamas, trabalhou activamente para construir a bomba atómica capaz
de tornar o Irão hegemónico na região, reprimiu, perseguiu e amordaçou a sua
própria sociedade. Hoje, face a uma contestação interna cada vez mais forte e
global, o regime mostra a sua verdadeira face e ao mesmo tempo a sua fraqueza.
Não sabemos ainda qual será o desfecho, e provavelmente mais sangue correrá,
mas, se o regime dos ayatollahs cair, algo mudará profundamente no Médio
Oriente, e possivelmente na relação de forças Ocidente-Oriente. Nesse sentido, os
verdadeiros "heróis" de 2009 são os iranianos que combatem o regime.
Outra luz ainda mais trémula, mas à qual se devia dar maior atenção é o que se
passa na Cisjordânia. Sessenta anos de vitimização palestiniana por parte do
mundo ocidental habituado a carpir a "tragédia palestiniana" às mãos de Israel não
tem deixado ver a mudança a que hoje se assiste neste território: segundo as
próprias palavras do primeiro-ministro palestiniano Salam Fayad, assiste-se a um
crescimento económico que em 2009 ultrapassa os 8% e os investimentos
estrangeiros multiplicaram-se por seis, incluindo zonas industriais. Em cidades
como Nablus ou Ramallah sente-se uma energia nova, com cafés, restaurantes e
comércios cheios a crescerem de dia para dia, assim como a construção de cinemas
e centros comerciais. Outro sinal positivo é o grande aumento de turismo,
nomeadamente em Belém e Jericó. Este desenvolvimento deve-se, em primeiro
lugar, a uma política de recusa da violência por parte do presidente da Autoridade
Palestiniana, Mahmud Abbas, ao dinamismo dos próprios palestinianos e à
colaboração da "comunidade internacional" e de Israel. Contrariamente a outra
ideia feita, Israel tem contribuído para este boom económico, nomeadamente
suprimindo numerosos postos de controlo e barragens de estradas e incentivando o
comércio dos dois lados, que tem aumentado regularmente. É evidente que não
basta uma situação económica e social melhor para fazer a paz, mas poderá ser
certamente uma base indispensável.
Gostaria neste limiar de um novo ano de sentir alguma confiança no país em que
vivemos. Infelizmente, o sentimento que tenho é que neste momento Portugal é
um país bloqueado. Não se trata apenas da situação económica grave, do
desemprego e das suas consequências sociais. Trata-se de um bloqueio a nível
político por parte de um governo e de uma oposição que, salvo raras excepções,
parecem debater-se numa bolha autista bem longe dos cidadãos. Gostaria que
olhassem mais para o país. Gostaria também que empresários e banqueiros se
sentissem mais responsáveis perante a sociedade que os ajudou a enriquecer. Que
académicos e intelectuais se preocupassem em elevar o nível cultural da população,
em vez de lhe virar as costas. Gostaria que tivéssemos todos a força de trabalhar
para que o ano 2010 seja um ano melhor.
Investigadora em assuntos judaicos
(esther.mucznik@netcabo.pt)