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Pelintras a pedir emprestados dois milhões de euros por hora

Por José Manuel Fernandes

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/18-12-2009/pelintras-a-pedir-emprestados-dois-milhoes-de-euros-
por-hora-18436975.htm

Cantando e rindo, distraídos do essencial, caminhamos para o desastre entretidos a


debater minudências

Isto vai acabar mal. Talvez mesmo muito mal. Mas iremos a dançar, cantando e
rindo, para o abismo. Com foguetes e tudo. Ou um espectáculo de acrobacia aérea
"Red Bull".
E isto vai acabar mal porque, sem pessimismos, sem derrotismos, mas também
sem fantasias, cada dia que passa cavamos mais fundo a cova onde nos estamos a
enterrar. Ao ritmo de dois milhões de euros por hora. 48 milhões por dia. Quase
1,5 mil milhões por mês. Estamos a pedir à grande banca internacional o suficiente
para construirmos, todos os meses, uma Ponte de Vasco da Gama e metade de
outra. Mas não as vemos: o grosso das novas dívidas esvai-se como areia da praia
entre os nossos dedos. Raros são os grãos que sobram para o futuro.
Onde estamos a gastar o dinheiro? Parte em consumo, imediato e não reprodutivo.
Consumo das famílias empregadas que, com mais dinheiro nos bolsos (fruto do
efeito conjugado dos aumentos salariais, da inflação negativa e da descida das
taxas de juro), estão a gastar mais. Não muito mais, mas o suficiente para terem
ajudado à nossa "saída da recessão". Parte em investimentos disparatados,
antiquados, como estradas, rotundas, o famoso TGV, um mastro gigante em
Paredes ou uma corrida de aviões. Outra parte em subsídios avulso para tentar
salvar o que não tem salvação E o pouco que resta em investimentos que poderão
ter futuro, sobretudo os que estão a seu feitos por empresas privadas, algumas
suportando custos de crédito superiores aos que teriam de suportar se o Estado
não se endividasse tanto. Gastamos no continente, como gastamos na Madeira, já
que misteriosamente Alberto João Jardim conseguiu de José Sócrates, e da
Assembleia, autorização para se endividar ainda mais.
O peso desta dívida sobre o nosso futuro é brutal. Tão brutal que a agência
internacional de notação financeira Moody"s, num relatório desta semana, colocou
Portugal ao lado da Grécia como sendo os dois países da União Europeia que
estarão a entrar num ciclo de baixo crescimento económico que tornará as suas
dívidas insustentáveis.
Na Grécia, a situação piora de dia para dia, até porque quarta-feira sucedeu o que
muitos esperavam: a Standard & Poors baixou o rating da dívida grega. Porquê?
Porque aquela agência de notação financeira considerou insuficientes as medidas
anunciadas pela Grécia para reduzir o défice orçamental. Isto quando em Portugal
ainda nem sequer sabemos que política orçamental teremos em 2010, pois o
Governo nunca mais entrega um diploma que o ministro das Finanças, que
conservou a pasta, já devia ter preparado. Pior: enquanto Teixeira dos Santos dá
indicações de que terá de começar a combater o défice já no próximo ano, o
primeiro-ministro insiste num "combate à crise" que, em muitos casos, se tem
reduzido a atirar dinheiro para cima dos problemas.
Já na Irlanda as coisas são levadas mais a sério e o orçamento para 2010 prevê
reduções salariais na administração pública (e no que ganham os políticos) e cortes
nas regalias sociais. O país já teve de colocar as suas contas em ordem no passado
e parece determinado em fazê-lo de novo. Cerrando os dentes.
Por cá, o risco é fazermos exactamente o que Luís Campos e Cunha recomendou,
no PÚBLICO, que não se fizesse: ir pelo caminho dos gregos. Pior: fazê-lo a partir
de uma base menos sólida, pois, desde que entrámos no século XXI, o nosso
crescimento é anémico. Pior ainda: o próximo Orçamento será elaborado num clima
de guerrilha política em que só o curto prazo conta e ninguém estranha o
descaramento com que o PS tem vido a pedir que lhe criem uma situação "de
ingovernabilidade" - que não existe - na miragem de que beneficiaria de eleições
antecipadas.
Não estará com sorte: nem a oposição, nem o Presidente da República lhe quererão
dar essa oportunidade. Ora sem conseguir regressar a uma situação de maioria do
"quero, posso e mando" em que domina o calendário eleitoral, o Governo Sócrates
está preparado para tudo menos para arriscar medidas duras e impopulares.
É assim que, cantando e rindo, discutindo o regime dos casamentos gay (que teve
prioridade face à lei do Orçamento) ou especulando sobre a regionalização, não nos
apercebemos de como são negras as nuvens que temos pela frente. Antes de mais,
porque não há nada mais ilusório do que a nossa famosa "saída da recessão": o
grande problema do país é, como escreveu a Moody"s, não ter capacidade para
regressar a um crescimento vigoroso, capaz de nos dar alguma esperança de que
conseguiremos pagar, sem dor, a dívida galopante.
De resto, basta olhar para os números do Eurostat: a previsão de crescimento
acumulado para 2010 e 2011 é de apenas 1,3 por cento, péssimo, se pensarmos
que, na Zona Euro, só para a Grécia e para Espanha as previsões são piores. Sem
crescermos mais depressa não recuperamos o que perdemos, pelo que, quando
chegarmos ao fim de 2011, estaremos 1,6 por cento menos ricos do que no final de
2007. Um desastre.
Neste quadro, não há milagres. Sem criação de riqueza - o nosso principal
problema há mais de dez anos -, não há riqueza para distribuir. Sem riqueza para
distribuir, quem quiser ganhar eleições terá de continuar a ir buscar lá fora, cada
vez mais caro, o dinheiro para ratear entre uma população que começa a ficar
desesperada. Quem, em contrapartida, quiser seguir uma política capaz de evitar o
colapso grego corre o risco provocar a fúria geral. Sócrates, em minoria, não o fará,
e com Sócrates ninguém se juntará ao PS no Governo. Logo...
É elevadíssima a probabilidade de tudo acabar muito mal, pois nenhum político fala,
e muito menos actua, de acordo com estas verdades elementares. E se Sócrates é
cada vez mais parte do problema, o Presidente, que vai entrar não tarda em
campanha para a reeleição, não está a ser solução. Já a oposição parece deliciada
com a agonia. Vivemos, a par com a crise económica, em ambiente de fim de
regime.
Cantando e rindo, feitos palhaços.

Jornalista

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