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'Potestas' e 'auctoritas'

por ANSELMO BORGES

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o%20Borges&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco

As sociedades humanas não podem subsistir sem o exercício do poder.

Mesmo não entrando em tecnicismos, esta distinção que os romanos faziam entre potestas e
auctoritas pode ser fundamental, concretamente para os tempos que atravessamos.

Claro: há muitas formas de poder, desde os órgãos de soberania ao poder da moda, e Max Weber,
por exemplo, distinguiu vários tipos de poder: legal, carismático, tradicional. Mas, aqui, poderíamos
dizer, ainda que simplificando muito, que a potestas - vem de potis, com o significado de senhor de,
que exerce o poder sobre - tem a ver com o poder no sentido institucional. Assim, os magistrados
têm poder, os presidentes de câmara têm poder, os deputados, os bispos, os ministros, os
presidentes de junta de freguesia, os polícias, os pais, os padres, os generais, os professores... têm
poder. As sociedades humanas não podem subsistir sem o exercício do poder. Há sempre o poder
enquanto domínio para que os grupos possam viver organizadamente e sem violência.

Auctoritas - vem do verbo augere, que significa fazer crescer, aumentar, donde vem também auctor,
com o sentido de aquele que faz crescer, aquele que produz e, consequentemente, autor (de uma
obra artística ou literária) - significa cumprimento, realização, aquilo que tem autoridade ou constitui
prova, o que serve de modelo, e pode ter sentido jurídico, mas, no nosso contexto, tem a ver com
excelência pessoal e força intelectual e moral de atracção, de congregação e orientação.

Há, neste quadro, um passo muito significativo do Evangelho segundo São Mateus. Jesus disse- -
lhes: "Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores e que os grandes
exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser
fazer-se grande seja o vosso servo; e quem no meio de vós quiser ser o primeiro seja vosso servo.
Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir." Jesus não põe em causa
concretamente o poder político, mas quer que os discípulos não adoptem o seu modelo de
exercício. Note-se, aliás, que ainda hoje, mesmo no contexto político, os governantes são
designados pelo termo "ministro", sendo seu chefe o "primeiro-ministro", que vem do latim minister,

que significa servo, aquele que serve.

Neste contexto, percebe-se que potestas e auctoritas deveriam caminhar juntas e entrecruzadas.
Quando isso não acontece, surgem inevitavelmente problemas. Vejamos exemplos.

Os pais, pelo facto de o serem, têm o poder paternal. Mas o que acontece, quando não há força
moral, capacidade pessoal de inteligência, de afecto, de competência emocional para exercê-lo no
sentido da tal auctoritas, no sentido de fazer crescer e aumentar os filhos em humanidade digna?
Qual é o critério de escolha dos bispos? E se a sua potestas - ou a dos padres - não é
acompanhada de competência humana e cristã, de inteligência lúcida e corajosa na defesa dos
direitos humanos, da força adulta do amor que serve?

E quando aos políticos em geral e às chamadas "autoridades civis e militares " - tradicionalmente, os
jornais referiam a presença das "autoridades religiosas, civis e militares" - lhes falta competência
intelectual, técnica, moral? Quando à função de deputados ou "ministros" só restasse o nome?

Quando os estudantes descobrem que um professor é incompetente, é melhor pôr-se a salvo.

Julgo que praticamente ninguém porá em dúvida que Jesus é a figura mais influente da História. No
entanto, é impressionante verificar que ele não tinha qualquer poder institucional. Não era
sacerdote, por exemplo, nem pertencia a nenhuma estrutura de poder oficial, civil, política ou militar.
No entanto, seguiam-no multidões, e o Evangelho diz a razão: "Ensinava com autoridade." Cá está
aquela autoridade, que, como diz o étimo, faz crescer e aumentar. Os homens e as mulheres que
entraram em contacto com ele sentiram-se aumentados em humanidade, em liberdade e dignidade.
Ficaram fascinados pela sua relação íntima com Deus e com a força libertadora do encontro. A sua
identidade tinha-se transformado e agora eram outros, numa existência digna e com futuro.