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ARBÍTRIO E CONTROLE

BOYD K. PACKER.
Do Quorum dos Doze Apóstolos

Discurso pronunciado na Conferência Geral em 3 de Abril de 1983.

Tenho uma mensagem para os pais a respeito da educação de vossos filhos. Há várias semanas atrás
visitou-me em meu escritório um general de quatro estrelas e sua esposa – pessoas bastante
impressionantes, que admiram a igreja por causa da conduta de nossa juventude.
A esposa do general mencionou seus filhos, dos quais ela se orgulha com razão, mas expressou uma
profunda preocupação.
Diga-me – disse ela, como vocês conseguem controlar sua juventude e edificar um caráter do tipo como
vemos em seus moços?
Fiquei interessado no uso que ela fez da palavra controle.
A resposta – eu lhes disse: está centralizada nas doutrinas do evangelho. Interessaram-se. Então falei
rapidamente acerca da doutrina do Livre-Arbítrio. Expliquei-lhes que desenvolvemos o controle através
do ensino da liberdade. Talvez em princípio tenham julgado que começamos do lado oposto do assunto.
Um general de quatro estrelas nada mais é do que um disciplinador. Mas quando alguém compreende o
evangelho torna-se muito claro de que o melhor controle é o autocontrole.
Pode parecer incomum a princípio conceber o autocontrole centralizando-o na liberdade de
escolha, mas esta é uma sólida abordagem doutrinária.
Embora se possa ensinar ambos os assuntos separadamente e muito embora a princípio pareçam ser
opostos são, de fato, partes do mesmo assunto.
Alguns que não compreendem a parte doutrinária não podem claramente, rapidamente, ver o
relacionamento que existe entre obediência e livre arbítrio, perdem uma ligação vital e vêem a obediência
apenas como uma restrição. A partir daí resistem àquilo que exatamente lhes dará a verdadeira liberdade.
Não existe liberdade verdadeira sem responsabilidade e não há liberdade que permaneça sem um
conhecimento da verdade.
Disse o Senhor: “Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos;
e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.(João 8:31-32)
O general entendeu de imediato uma verdade menosprezada até mesmo por alguns na igreja. Os Santos
dos Últimos Dias não são obedientes porque são compelidos a serem obedientes. São obedientes porque
conhecem certas verdades espirituais e decidiram como expressão de sua própria individualmente e livre
arbítrio obedecer aos mandamentos de Deus.
Nós somos os filhos e filhas de Deus, seguidores desejosos, discípulos do Senhor Jesus Cristo e “sob esta
chefia (somos) feitos livres...” (Mosias 5:8).
Aqueles que falam de obediência cega podem aparentar conhecimento de muitas coisas, mas, não
compreendem as doutrinas do evangelho. Existe uma obediência oriunda de um conhecimento da
verdade, além de qualquer forma exterior de controle. Não somos obedientes porque somos cegos, somos
obedientes porque podemos ver. O melhor controle, eu repito, é o autocontrole.
O general descobriu então o porquê de ensinarmos as doutrinas do evangelho de Jesus Cristo a nossos
filhos e de onde e de onde eles obtêm a firme determinação de proteger as liberdades individuais.
A responsabilidade pelo ensino das doutrinas repousa sobre os pais.
“A glória de Deus é inteligência, ou em outras palavras, luz e verdade; Luz e verdade renunciam ao ser
perverso...”.
“Mas vos mandei que criásseis os vossos filhos em luz e verdade”.(D&C 93:36-37,40).
Se tudo o que vossos filhos conhecem acerca do evangelho é o que vós lhes tendes ensinado no lar quão
seguros ou salvos estarão eles? Rejeitarão o mal porque escolheram rejeitá-lo?
Enquanto jovem, no serviço militar, visitei um antigo santuário em Nikko Kanko, no Japão. Ali,
esculpidos na fachada do edifício existem três macaquinhos.

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Um deles tem suas mãos sobre os ouvidos, outro sobre os olhos e o terceiro sobre sua boca: - Escutar
nenhum mal, ver nenhum mal, falar nenhum mal. Isso é mais fácil de se dizer do que fazer. Não é fácil
promover o autocontrole quando o mundo ensina a indulgência.
Felizmente existe um auxilio substancial para os pais.
Infelizmente algumas famílias o desprezam.
Alguns anos atrás compareci a uma formatura do Seminário no Havaí. Um jovem atleta havaiano estava
sendo homenageado. Fora abençoado com um corpo bem desenvolvido e era excelente em vários
esportes. Como sempre ocorre com os atletas, era bem conhecido dentro e fora da Igreja. Seus técnicos o
haviam treinado para a maior coordenação de seus poderes físicos, acrescentando, também, um pouco
das virtudes tais como determinação e coragem. O jovem explicou que não lhe fora difícil sair-se bem no
atletismo. Se praticasse e observasse as regras do treinamento os músculos de seu corpo reagiriam do
modo desejado e ele teria a coordenação e o controle. Então falou a respeito de um controle que se não
obtém assim tão facilmente e disse:
Achei mais fácil controlar os músculos de meus braços e pernas que dominar os músculos de minha
língua. Descobrir que é mais fácil controlar meus olhos no campo ou na pista do que na rua. Não é fácil
controlar aquilo que irei ouvir e mais que tudo não é fácil controlar meus pensamentos. A seguir
expressou gratidão pelo programa do Seminário e prestou uma homenagem aos seus professores.
Eles foram os técnicos que o ensinaram a controlar a parte mais permanente e duradoura de sua natureza.
Não se passa muito tempo antes que a habilidade de lançar uma bola ou saltar um obstáculo, ou mesmo
levantar um peso tornam-se supérfluos na vida. O vigor físico decresce, mas a forca moral e espiritual
pode tornar-se cada vez mais forte, a respeito do enfraquecimento de nossa parte física, devido à
idade. Se desejais que vossos filhos cresçam espiritualmente ensinai-lhes as doutrinas do evangelho.
Se desejais que vosso filho toque piano é bom que ele seja exposto à música. Isto o fará desenvolver
sentimentos por ela e ajudará grandemente em seu aprendizado. Mas não é o bastante. Existe a prática,
repetição e ainda mais prática, antes que ele possa tocá-lo bem.
Se desejais que vossa filha aprenda uma língua exponde-a àqueles que são capazes de fala-la; ela pode
apreciar a linguagem e mesmo aprender muitas palavras. Mas isso não é o suficiente. Ela deverá
memorizar a gramática e o vocabulário. Deverá exercitar a pronúncia. Existe a repetição do processo de
aprendizado sem o que ela jamais falará ou escreverá fluentemente o idioma.
Assim é com o evangelho. Podemos ter sentimentos para com ele, mas, de algum modo é preciso
aprender a doutrina e aqui, novamente a repetição do ensino, a prática, a memorização, a leitura,
o escutar, o debater, tudo se torna essencial. Não existe um caminho fácil para aprender.
A Igreja pode ajudar os pais porque este tipo de aprendizado é eficazmente dado numa sala de aula.
Assim, temos os Seminários, os Institutos, as aulas de religião.
Existe o sacerdócio, a escola dominical e aulas das auxiliares. O currículo para todos eles centraliza-
se nas escrituras e na história da Igreja. O desenvolvimento espiritual é estreitamente ligado com o
conhecimento das escrituras onde se encontram as doutrinas.
A biblioteca de uma escola pode conter um mundo de conhecimento, mas a menos que o aluno conheça
o sistema de catalogação, a busca desse conhecimento será frustrante, será realmente um fardo.
Estes sistemas não são muito difíceis de se aprender e a partir daí todo o manancial dos livros poderá
ser-lhe aberto. A busca torna-se muito simples; mas é preciso encontrar e ler; é preciso obter.
Assim é com as escrituras. Elas contêm a plenitude do evangelho eterno, - uma eternidade de
conhecimento, - mas é preciso aprender a usá-las ou a busca será frustrante e desencorajadora.
Novamente, existe um sistema. Aprendam a respeito da concordância, das notas de rodapé, do guia de
tópicos.
Memorizem os livros da Bíblia e do Livro de Mórmon e daí as escrituras desabrocharão os seus
tesouros. Tudo isso é ensinado nas classes do Seminário e Instituto. Os professores são tanto dignos
como bem treinados, mas não poderão ajudar se os alunos não forem matriculados.
Há uma revolução em progresso. Os computados mudaram nosso futuro. Movemo-nos da era industrial
para a era da informática e as escolas estão se equipando para enfrentar esse desafio. Os requisitos de
formatura para as escolas secundárias e as exigências dos vestibulares para as faculdades tornam-se mais
difíceis. As matérias optativas, os cursos optativos, são reduzidos agora em número e precisam ser
cuidadosamente escolhidos. Sem orientação, vosso aluno poderá escolher outra coisa em vez do
Seminário, um outro curso em vez de uma classe do Instituto, e isto certamente será um erro – será

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como acrescentar um tijolo a mais à construção de conhecimento sem que haja massa suficiente para
uni-los.
Pais incentivai e mesmo insisti para que vossos filhos matriculem-se no Seminário ou Instituto.
Presidentes, bispos, lideres de jovens, sois responsáveis por incentivar cada jovem sem exceção a se
matricular. Poucas coisas farão que os beneficiarão tanto como isto.
Estudantes, se vossos valores estiverem no lugar certo não hesitareis em escolher uma classe que
possa enriquecer vossa vida, em buscar uma instrução que reforce vossos alicerces. Então, uma
vez matriculados, freqüentai, estudai e aprendei. Persuadi vossos amigos a fazerem o mesmo.
Jamais o lamentareis, prometo-vos.
Pais deveis muito aos professores. De algum modo deveis demonstrar isto apoiando-os. Há
pouquíssimos professores que são indignos de apoio. Quando surge um problema, mui
freqüentemente e mui rapidamente alguns pais emparelham-se com os seus filhos contra o professor. Via
de regra os jovens que desrespeitam professores nas escolas públicas ou na Igreja também criam
problemas no lar.
Este ano 200.000 alunos estão matriculados no Seminário e mais de 120.000 nos institutos de
Religião em 18 línguas e 68 países. Seja o Seminário de tempo livre nas escolas (“released time”), o
Seminário diário matinal ou os programas de estudo no lar, os cursos são os mesmos: centralizam-
se nas escrituras ensinam a doutrina e a história da Igreja.
Algumas classes são verdadeiramente humildes o Presidente Kimball e eu visitamos uma classe de
Seminário no Estado de Dakota do Norte. Não se reuniam numa agradável sala de aula com quadro-
negro, projetor e cadeiras especiais; reunia-se num pequeno quarto de dormir duma casinha minúscula. A
professora sentava-se à beira da cama, os alunos se agrupavam em redor no chão, mas não era uma classe
menos importante do que a realizada num belo edifício. O mais importante ingrediente, o Espírito do
Senhor, ali estava.
Compareci a uma formatura de Seminário em Omaha, no estado de Nebraska. O orador, outra vez um
jovem descreveu sua experiência: “Cada manha eu acordava com a doce voz de minha mãe gritando:
‘João, João, está na hora de ir ao Seminário!’ O ano se passou e as manhãs se foram tornando mais frias,
úmidas e escuras, e ainda assim a voz feliz de mamãe me chamava: João, João, está na hora de ir ao
Seminário!’” E acrescentou: “Aprendi a odiar aquele som!” Mas, controlando suas lágrimas, ele
agradecia naquele momento à sua mãe pelo que ela havia lhe dado. Penso que foi somente depois que ele
pôde compreender que ela se levantava primeiro a cada manhã.
A tentação que vossos filhos enfrentam não virá em casa, nem dentro da classe do Seminário; ela
virá depois, quando eles estiverem longe tanto do pai como do professor. Um dia eles terão que ser
livres. Quando este dia vier quão livre eles serão? Quão seguros? Dependerá de quanta verdade
houverem aprendido.
Sei de um jovem missionário o qual, milhares de quilômetros distantes de seus pais e professores,
enfrentaram o teste que sobrevém a todo jovem. Ali, longe do controle de qualquer um deles, tomou uma
decisão. Mas tarde ele escreveu: “Estou tão feliz porque fiquei, porque durante este último mês eu
descobri alguma coisa – descobri a mim mesmo. Agradeço a Deus pelos professores na Igreja, aqueles
que escolheram, e que também foram escolhidos, para a melhor parte”. Nestes dias desencorajadores
diante de alunos imaturos, desinteressados e, às vezes impudentes, que possais ter uma voz também –
sussurrando: “Ensinai diligentemente e minha graça vos atenderá”.(D&C 88:78)
O Senhor foi um professor, um mestre.
Presto testemunho dele e oro para que abençoe todos os que seguirem em seus passos para ensinar
o evangelho de Jesus Cristo. Em nome de Jesus Cristo. Amém. (grifos nossos).