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Também lhe chamam Faissal

Público 2010-01 -26

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/26-01-2010/tambem-lhe-chamam-faissal-18664175.htm

O islão começou por ser uma curiosidade. "A fonética das rezas preenchia-me
e dava-me bem-estar." Hoje é uma certeza. Abel Xavier cresceu como católico.
Agora assumiu-se como muçulmano. E tem programada uma peregrinação a
Meca.

Por Marco Vaza


No início da concentração da selecção portuguesa de futebol que iria dis putar o Euro 2000 n a
Bélgica e Holanda, Abel Xavier apareceu de cabelo e barba amarela. Foi um choque, mas era
uma brincadeira. "Se calhar, naquela altura devia ter tido cons elheiros de marketing", diz. Dez
anos depois, o penteado pode ter mudado, mas a cor não. O cabelo continua amarelo e é
como se fosse a cor natural. Quem esperava que a conversão ao islamismo lhe mudasse a
casca enganou-se. "Aceito que sou uma contradição entre aquilo que se vê e aquilo que sou.
Não irei mudar."

Há um mês, numa conferência de imprensa nos Emirados Árabes Unidos, Abel Xavier
anunciava a sua nova fé, e o seu novo nome, Faissal. No domingo, num hot el em Sintra, um
dos últimos "sobrevivent es" da chamada "geração de ouro do futebol português" (estava na
selecção que conquistou o título mundial d e juniores em Portugal) confirmou o abandono da
modalidade. Com os filhos atrás de si, e membros da família real dos Emirados a seu lado,
assumiu-se perante os jornalistas portugueses como muçulmano.

Nos Emirados, todos o tratam por Faissal (nome de um rei árabe, que significa a espada que
separa o bem e o mal), mas continua a responder por Abel Xavier. "Estavam a fazer os nomes
das camisolas para o jogo contra a pobreza [realiz ado ontem no Estádio da Luz] e
perguntaram-me: "Qual é o nome que queres?" Eu res pondi Abel Xavier. Não é que queira ter
duas identidades, mas quero também respeitar o meu passado como futebolista."
Há várias razões que podem motivar alguém a converter-se ao islão, quando este não faz part e
da sua tradição religiosa, diz ao P2 o xeque David Munir, imã da Mesquita de Lisboa. "Através
da convivência com muçulmanos, leram o Corão e identificaram-se com o que leram, ou pelo
casamento", explica. Para Abel Xavier, a explic ação passa por ter vividonuma sociedade
muçulmana, na Turquia, quando jogou no Galatasaray em 2003. "Abalou a minha identidade,
através da partilha, da comunicação. No futebol tive duas situações muito fortes, os meus
castigos, que foram muito violentos, e foi no mundo muçulmano que encont rei a reacção justa,
o equilíbrio justo."

Pais católicos
Abel Luís da Silva Costa Xavier nasceu em Nampula, Moçambique, a 30 de Novembro de 1972
e, com três anos, veio para Portugal. No que à religião dizia respeito, seguiu a fé dos pais,
católicos, apesar de não ter sido baptizado. "Até um determinado momento, fui um praticante
activo. Ia à igreja, frequent ava a catequese. Estava bem enraizada na minha família", recorda,
assumindo que part e da sua família, mais afastada, é muçulmana - são os que vivem em
Moçambique, um país, refere, com "20 milhões de habitantes, dos quais seis milhões são
muçulmanos".
O futebol deu entretanto out ra independência ao adolescente Abel, que, depois de começar
nos escalões de formação do Sporting, foi para o Estrela da Amadora. "Queria ser profissional
e lutava contra a minha família, porque aos 15 anos não se adivinhava que pudesse ter uma
carreira capaz de dar algum conforto às famílias africanas - que preferiam uma profissão tipo
arquitecto ou médico, nunca jogador de futebol." E a religião? "A partir daí, rezei sempre à
minha maneira, fui um crente à minha maneira."
Se há 20 anos encontrou resistência da família para ser futebolista, agora não teve qualquer
atrito por ter opt ado pelo islão. "Responderam da melhor forma, porque aceit aram,
simplesmente. Tive uma chamada que me comoveu bastante, da minha avó, católica, que
apoiou a minha decisão."

E os filhos Lucas (7 anos) e David (16)? "O que eu quero é que os meus filhos tenham
oportunidade - através da minha vivência e daquilo que eu lhes posso dizer - e capacidade
para entender determinadas coisas para que depois eles também possam decidir. Mas sou o
mesmo pai, com os mesmos gostos, com o mesmo carinho por eles e o mesmo amor."
Novos hábitos
Em 20 anos de carreira, Xavier representou 12 clubes em oito países di ferentes. Depois do
Estrela e do título de juniores, foi para o Benfica e, em 1995, iniciou o seu longo percurso por
clubes estrangeiros: Bari, Oviedo, PSV Eindhoven, E verton, Liverpool, Galatasaray, Hannover,
Roma, Middlesbrough e Los Angeles Galaxy, onde coabitou com David Beckham. Fala seis
línguas (port uguês, inglês, castelhano, italiano, francês e holandês) e tem um conhecimento
mais alargado do que a maioria sobre diferent es hábitos e culturas - e um contacto directo com
as estrelas do cinema em Hollywood, no período em que esteve em Los Angeles.

Confessa que sempre teve um fasc ínio pelo mundo árabe. "Começou pela curiosidade. Havia
coisas que não compreendia e que agora compreendo melhor, tentava perceber a língua e não
entendia, mas a fonética das rezas preenchia-me e dava-me bem-estar, e eu não percebia
porquê."
Há alguns hábitos que terá de ganhar como muçulmano, a começar pelos cinco momentos
diários em que terá de rezar. "Se tenho tempo de jogar 90 minutos, tenho tempo para fazer 16
minutos de rezas por algo em que acredito", garante, revelando ainda que já tem planeada a
sua peregrinação a Mec a - que todos os muçulmanos devem fazer pelo menos uma vez na
vida.

Álcool? "Não posso dizer que nunca bebi, já o fiz, mas sempre fui muito moderado, também por
causa da minha carreira. Vou manter a minha linha de saber estar e de ter um comportamento
correcto nos respectivos lugares." Casamento entre pessoas do mesmo sexo? " Temos de
saber ac eitar, no mundo há um espaço para todos."
Para Abel Xavier, que irá dividir o seu tempo entre Portugal, Emirados e os EUA, abraçar a
religião islâmica é também a oport unidade de se envolver em causas humanitárias: "Se eu já
dei a minha imagem para diversas out ras causas, penso que posso usá-la para iniciativas que
causem impacto em milhões de pessoas. Estou aberto a cooperar com causas justas."
A mão de Henry

Pausa na religião para falar de futebol, um mundo a que não pensa regressar tão cedo. E a
mão de Thierry Henry que no ano passado deu a qualificação da França para o Mundial do
próximo Verão na Á frica do Sul, em prejuízo da República da Irlanda? "O tempo mete as coisas
no seu devido lugar. O que é que a Irlanda levaria ao Mundial, quantos adeptos? A decisão fala
por si..."
Há mais de nove anos, era Abel Xavier quem jogava a bola com mão na área da selecção
portuguesa, numa meia-final do Euro 2000 com a França em Bruxelas. O árbitro marcou
penálti, mas segundo o que Abel Xavier tem dito ao longo dos anos era um lanc e que nem ele
nem o seu auxiliar cons eguiriam ver. E acrescenta, rindo-se: "Eu sempre disse, se fosse
francês, não era penálti. E não foi!"
Desportistas que se converteram ao islão
Clay renegou o nome de escravo e passou a ser Ali

Quando mudou de nome, poucos se referiam a ele como Muhammad Ali. Havia sido Cassius
Clay que tinha ganho fama como pugilista, com um registo perfeito de vitórias e uma medalha
de ouro nos Jogos Olímpicos de 1960, em Roma. Depois de ter conquistado, em 1964, o seu
primeiro título de campeão, Clay revelou que se tinha convertido à religião islâmica e que era
membro da Nação do Islão, uma organização muçulmana norte-americana.

Primeiro abdicou do apelido, passando a ser chamado de Cassius X, depois adoptou o nome
Muhammad Ali, renegando o que entendia ser o seu nome de escravo e chegando, inclusive, a
desfazer-se da sua medalha olímpica. Aproveitava a ribalta proporcionada pelo boxe para se
envolver no activismo radical da Nação do Islão, tornando-se num membro destacado da
organização e chegando a defender a separação racial entre brancos e negros. Mais tarde,
abandonou a Nação do Islão, abraçando o islamismo sunita.

Poucos saberão identificar pelo nome Ferdinand Lewis Alcindor, mas este é o nome original de
Kareem-Abdul Jabbar, o melhor marcador de sempre da Liga Norte-Americana de Bas quetebol
profissional (NBA) e antigo poste dos Milwauk ee Bucks e Los Angeles Lakers. Tal como Ali,
Jabbar renunciou ao seu nome original por ser o apelido do dono da plantação que havia
trazido os seus antepassados como escravos de Trindade para os EUA.
No futebol, existem três casos mediáticos de convers ão ao islamismo, todos franceses: Nicolas
Anelka (Chelsea), Eric Abidal (Barcelona) e Franck Ribéry (Bay ern Munique). Ribéry, um dos
mais disputados futebolistas da actualidade, fala pouco sobre a sua fé, mas em 2006, quando
ainda estava no Marselha, afirmou numa entrevista que a sua conversão se devia ao facto de
ter convivido com muçulmanos quando era mais novo. Mas o mais provável é que, no caso do
internacional francês, se explique com o casamento - a sua mulher é francesa de ascendência
marroquina.

M.V.