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Vem aí uma geração de rapazes frustrados

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/27-01-2010/vem-ai--uma-geracao-de-rapazes-
frustrados-18656888.htm

Em quase todos os países ocidentais, os rapazes abandonam cada vez mais o


ensino no final da escolaridade obrigatória. Têm capacidades para ir mais
longe, mas as escolas poderão estar a avaliá-los mal, privilegiando as
raparigas. Podemos estar a criar (ou já criámos?) uma geração de excluídos e
uma nova classe baixa - a dos homens.
Por Clara Viana

Um calafrio: investigadores portugueses, ingleses e norte-americanos, entre outros, têm vindo


a constatar que as mudanças introduzidas nas últimas duas décadas no sistema de ensino e
de avaliação dos alunos estão a contribuir activamente para afastar da escola um número cada
vez maior de rapazes.
Produziu-se uma inversão. O fenómeno, que é comum à maioria dos países ocidentais,
Portugal incluído, está a alargar o fosso entre rapazes e raparigas no sistema educativo. As
raparigas têm hoje melhores notas e vão mais longe; os rapazes desistem, muitos deles logo
no fim da escolaridade obrigatória. Nos 27 países da União Europeia, só a Alemanha mantém,
no ensino superior, valores equilibrados de participação dos dois sexos.
Para o director do instituto britânico de políticas para o ensino superior (HEPI, na sigla em
inglês), Bahram Bekhradnia, estamos já numa corrida contra-relógio. "Penso que corremos o
perigo de estar a criar uma nova classe baixa", constituída só por rapazes, diz, depois de um
estudo recente daquele organismo ter confirmado a dimensão crescente do fosso entre
raparigas e rapazes, e lançado algumas pistas inquietantes sobre os motivos que explicam o
fenómeno.
O problema não são os bons resultados alcançados pelas raparigas, mas as fracas
classificações obtidas pelos rapazes e aquilo que isso implica: a responsabilidade da escola
nesta situação, o que isto está a provocar neles e nelas, e as consequências sociais do
insucesso escolar masculino. "Vamos ter uma geração de rapazes frustrados e excluídos dos
sistemas escolares e profissionais por incapacidade de rivalizar com o género oposto", prevê a
socióloga da educação Alice Mendonça nas respostas que enviou, por e-mail, às questões do
P2.
Em países como o Reino Unido e os EUA, mas não só, a questão já entrou na agenda política.
Em Portugal não. Existe investigação sobre o tema, há estatísticas à espera de serem
interpretadas e... muito silêncio. Alice Mendonça sublinha, porém, que "os pais têm de ser
alertados para as consequências" do que se está a passar.
Isto está a acontecer não por os rapazes se terem tornado, de repente, mais estúpidos, mas
em grande medida, avisam os investigadores, por eles estarem a ser ensinados e avaliados
num sistema que valoriza as características próprias das raparigas e penaliza as dos rapazes.
Zero em comportamento
Nos últimos anos, Alice Mendonça, também docente na Universidade da Madeira, centrou a
sua investigação, precisamente, no insucesso escolar na perspectiva do género. Percorreu
todos os ciclos escolares. Sustenta que, para os professores, na sua esmagadora maioria
mulheres, o modo como as raparigas se comportam e trabalham é "mais conforme com as
suas representações do bom aluno ou aluno ideal" - o que poderá conduzir a uma
"sobreavaliação" das alunas e a uma "discriminação" dos alunos.
Para a sua tese de doutoramento, a socióloga e investigadora do Instituto Superior de Ciências
do Trabalho e da Empresa, em Lisboa, Teresa Seabra analisou, por seu turno, os resultados
escolares de estudantes do 2.º ciclo do ensino básico (11-12 anos). Comprovou que "os
resultados dos rapazes e das raparigas se igualavam quando excluía da amostra os alunos
com problemas disciplinares", o que a leva a concluir, disse ao P2, que, "como o
comportamento afecta de modo significativo o aproveitamento, a pouca conformidade às regras
escolares estará na base dos piores resultados dos rapazes". A "atitude", o comportamento dos
rapazes, estará a comprometer irreversivelmente os resultados da sua avaliação.
Especialista em assuntos de Educação, o sociólogo francês Christian Baudelot defende que,
antes de mais, aquilo que é pedido pela escola é a interiorização das suas regras, mas que
estereótipos sociais ainda dominantes valorizam nos rapazes o desafio, a violência e o uso da
força - um verdadeiro "arsenal antiescolar". As raparigas, pelo contrário, são socializadas na
família em moldes que facilitam a adaptação às exigências escolares: mais responsabilidade,
mais autonomia, mais trabalho. "Trata-se de um conjunto de competências que as torna menos
permeáveis à indisciplina", observa Teresa Seabra. No ano passado, em Espanha, 80 por
cento dos alunos com problemas disciplinares eram do sexo masculino.
Alice Mendonça confirma que as raparigas, "mais conformes às regras escolares", ganham
uma "vantagem decisiva" sobre os rapazes quando chega o momento da avaliação. Em
Portugal, como também noutros países, o comportamento passou a contar para a
contabilização da nota final atribuída aos alunos.
Teresa Seabra defende que se tornou indispensável lançar um debate sobre a actual forma de
avaliar. "No momento actual, a escola é chamada a avaliar também o "saber ser", mas nem
sempre foi assim e não tem que assim ser", argumenta.
Vida futura afectada
"É perverso que se avaliem instâncias cognitivas com base em comportamentos. Se um aluno
indisciplinado aprende, a sua aprendizagem tem de ser reconhecida", sustenta Nuno Leitão,
antropólogo, mestre em Ciências da Educação e director da cooperativa A Torre, um colégio de
Lisboa que tem a sua matriz inicial no Movimento Escola Moderna, que propõe uma pedagogia
alternativa àquela que é comum aos sistemas oficiais de ensino.
No Reino Unido, o estudo divulgado pelo HEPI, que esteve na base do alerta lançado por
Bekhradnia, dá conta de que os alunos do sexo masculino poderão estar a ser vítimas da
reforma do sistema de avaliação adoptada em 1982. Antes, para a conclusão da escolaridade
obrigatória, eram determinantes as classificações obtidas nos exames finais. Depois de 1982,
passou a vigorar um sistema misto, com os exames a contribuir apenas com uma parcela,
sendo as outras derivadas do trabalho ao longo do ano na sala de aula e fora dela.
Após comparar os resultados antes e depois, o HEPI constatou que os rapazes começaram a
ficar sistematicamente atrás das raparigas depois desta reforma. "É preciso reconhecer que o
problema existe", alerta. E chama a atenção para o seguinte: "Se o fosso entre os sexos no
final da escolaridade obrigatória (e as consequentes diferenças na participação no ensino
superior) se deve em grande parte à mudança do tipo de exames e de avaliação - e existem
provas de que esta mudança é, pelo menos, parte da razão -, então, nos últimos 20 anos, os
rapazes têm alcançado menos do que eram capazes, e isso afectou a sua vida futura."
O dobro dos chumbos
Em Portugal, como em vários países, a entrada maciça do sexo feminino nas escolas e
universidades é um fenómeno relativamente recente, tornado possível pela igualização das
oportunidades de acesso. Hoje as raparigas são mais numerosas, valorizam mais os estudos,
têm mais êxito. "A diferença de resultados entre rapazes e raparigas tem vindo a acentuar-se,
aumentando exponencialmente à medida que acrescem os ciclos de escolaridade, e atinge o
seu auge no ensino universitário", refere Alice Mendonça.
Logo aos 7 anos, no 2.º ano do ensino básico, há mais rapazes a ficar para trás. À entrada do
segundo ciclo, no 5.º ano, as taxas de retenção masculinas têm quase duplicado as femininas.
No 7.º, ano de estreia do 3.º ciclo do ensino básico, as percentagens de chumbos entre eles
permanecem acima dos 20 por cento. Entre as raparigas, este é também o ano mais
complicado, mas nos últimos tempos a taxa de insucesso não foi além dos 17 por cento.
No 9.º ano, o último da escolaridade obrigatória, as taxas de retenção das raparigas têm
oscilado entre os 11 e os 16 por cento; as dos rapazes nunca estão abaixo dos 16 por cento e
têm ultrapassado os 20 por cento.
Antes de entrar na Torre, em 1996, Nuno Leitão deu aulas no ensino oficial. Começou pelo 12.º
ano, acabou no 2.º ciclo. Lembra-se de os ter à frente, alunos com 15 anos a marcar passo no
7.º ano. De como estavam magoados, encurralados: "Já não são repetentes, são resistentes à
escola."
Mão-de-obra barata
Continuam a nascer mais rapazes do que raparigas (em cada 100 nascimentos, 105 são do
sexo masculino). Por causa disso o seu número é superior nos primeiros anos de escolaridade.
Mas, devido a taxas de retenção muito superiores às do género oposto, e também porque são
largamente maioritários entre os jovens que abandonam precocemente a escola, em grande
parte por causa da experiência de insucesso quando lá estão, em Portugal os rapazes
começam logo a estar em minoria no 9.º ano.
Para além de ser uma resposta ao fracasso experimentado na escola, este abandono precoce,
maioritário nos rapazes, é também fomentado, em Portugal, por um "mercado de trabalho que
procura mão-de-obra barata (desqualificada), especialmente masculina", observa Teresa
Seabra.
Pelo contrário, as raparigas vêem nos estudos "um modo de assegurar a sua independência
enquanto adultas". É uma forma de emancipação. No conjunto do ensino superior, já
representam mais de 50 por cento dos inscritos e ultrapassam os 70 por cento em cursos como
os de Direito ou os que estão ligados à saúde. Entre os que conseguem chegar ao fim de um
curso e obter uma licenciatura, 60 por cento são mulheres.
Estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE)
confirmam que uma pessoa licenciada tem muito mais hipóteses de vir a auferir um rendimento
superior ao de uma que o não seja. Em Portugal, no caso dos homens, aquela organização
situou a diferença nos oito por cento.
Num artigo publicado no jornal britânico Observer, Bahram Bekhradnia lembra outras
vantagens de ter um diploma: sabe-se que "a educação superior acarreta benefícios sociais e
académicos", que "uma pessoa que esteve na universidade tende a apresentar uma melhor
saúde física e mental", que esta formação e experiência têm "um enorme efeito socializante".
No passado, estes benefícios foram negados à maioria das mulheres. Agora, são os homens
que, "ao não irem para a universidade em tão larga escala", estão a ser privados disto tudo.
"Penso que é uma verdadeira desgraça", diz Bekhradnia.
No Reino Unido, para igualar a taxa de participação feminina, teria sido preciso que, s?? no
ano passado, entrassem, nas universidades britânicas, mais 130 mil estudantes do sexo
masculino.
Diferentes apetências
"Se os professores não aprendem a lidar com as diferenças, os alunos acabam por chumbar. E
isto verifica-se sobretudo com os rapazes", avisou, numa entrevista àVisão, o filósofo norte-
americano Michael Gurian.
Para além das diferenças entre os géneros que são culturalmente induzidas, vários estudos
neurológicos têm demonstrado que as raparigas têm mais apetência para a comunicação
verbal e para movimentos finos, "tarefas" a cargo do hemisfério esquerdo do cérebro, que se
desenvolve nelas bem mais cedo do que nos rapazes. E os rapazes têm mais apetência para
tarefas visuo-espaciais, uma vez que o hemisfério direito, "construtor e geómetra", é mais
activo no sexo masculino. "Têm vias e tácticas diferentes para aprender o mesmo", disse ao
diário espanhol El País o neurologista Hugo Liano.
O projecto PISA, lançado pela OCDE para medir a capacidade dos jovens, de 15 anos, na
literacia em Leitura, Matemática e Ciências, demonstrou, com a série de três provas já
realizadas nos 32 países-membros, que os melhores resultados a Matemática tendem a ser
alcançados por alunos provenientes de famílias em que os níveis de educação e
o status profissional são mais elevados. Mas, em média, foram os rapazes que apresentaram
melhores resultados em Matemática e Ciências e as raparigas em Leitura.
Os exames nacionais do 9.º e 12.º ano têm, em Portugal, confirmado esta tendência. Mas no
ano passado a média das raparigas nos exames de Matemática do secundário foi superior à
dos rapazes. E esta inversão poderá não ser esporádica, avisa Alice Mendonça: "O aumento
da discrepância na capacidade de leitura entre os sexos faz com que as raparigas comecem a
ultrapassar os rapazes nestas matérias." Por enquanto, e apesar de maioritárias no ensino
superior, elas continuam a ser franca minoria nos cursos de Informática, Arquitectura e nos de
Engenharia Técnica.
Separá-los resulta?
Para conter a maioria feminina, em Portugal, há alguns anos, houve quem chegasse a propor a
introdução de quotas para homens nas faculdades de Medicina. Em países onde o debate está
lançado, há quem defenda o regresso às escolas separadas. Mas são mais os que propõem
estratégias de ensino diferenciado que coabitem no mesmo espaço. Seja através de aulas
separadas para as disciplinas onde as diferenças são maiores, seja através de reforços
específicos de certos conteúdos pedagógicos.
Nos Estados Unidos, onde os rapazes estão a abandonar o equivalente ao ensino secundário a
um ritmo superior ao das raparigas (em cerca de 30 por cento), as escolas oficiais foram
autorizadas a abrir turmas diferenciadas.
No Reino Unido, as escolas do pré-escolar receberam instruções do Governo para, a partir
deste mês, reforçarem os exercícios de escrita com "materiais engraçados", junto dos rapazes
de 3/4 anos, de modo a reduzir as fortes diferenças entre os sexos na escrita e leitura, que se
fazem sentir pouco depois, à entrada na primária.
Esta iniciativa está a ser contestada por especialistas de desenvolvimento infantil que chamam
a atenção, entre outros factores, para o facto de muitas crianças, e especialmente as do sexo
masculino, não terem ainda adquirido, nestas idades, as capacidades de motricidade fina
necessárias ao desenvolvimento da escrita.
Alice Mendonça vê a adopção de estratégias diferenciadas nas escolas como "um novo desafio
social" a que urge deitar a mão. Em Portugal, não fazem parte do programa do Governo.
Resposta ministerial ao P2: "Não existe qualquer orientação expressa pelo Ministério da
Educação sobre a abordagem diferenciada por género, como estratégia de aprendizagem."
O ministério lembra que a Lei de Bases do Sistema Educativo, aprovada em 1986, atribui ao
Estado a responsabilidade de "assegurar a igualdade de oportunidade para ambos os sexos", e
que, no ensino pré-escolar, "cada educador tem autonomia e responsabilidade para gerir o
currículo", devendo "estimular o desenvolvimento da criança tendo em conta as suas
características individuais".
Nuno Leitão concorda que, no geral, e não só no pré-escolar, os programas oficiais deixam um
bom espaço de manobra: "É o professor quem decide, na sala de aula, a organização das
aprendizagens. Pode fazê-lo optando pela que lhe dá mais jeito, mas também pode escolher,
em vez disso, a que é melhor para os alunos."
Defende que os professores devem estar sensibilizados para as diferenças entre os dois
géneros, mas não apoia a adopção de estratégias diferenciadas. Na sua escola, que funciona
do pré-escolar ao 2.º ciclo, incentivam-se as perguntas dos alunos (uma "pedagogia preciosa"),
o debate colectivo, as experiências feitas pelas próprias crianças (em vez de estarem a ver o
professor a fazê-las), a curiosidade, a memorização. "Dá-se a oportunidade aos alunos de
conseguirem, de forma autónoma, construir um sentido para as coisas, que é o que eles
procuram antes de mais, criando assim uma motivação intrínseca que os leva a querer saber
mais."
É quase uma ilha. E não só pelo facto de não se registar ali o hiato de resultados entre
raparigas e rapazes que anda a sobressaltar meio mundo. Esse hiato, frisa Teresa Seabra, é
também fomentado pelos modelos veiculados pelos media: "Ser bom aluno, sendo rapaz,
funciona, em alguns grupos de pares, como um handicap."
Se os rapazes passarem a interiorizar, maioritariamente, a ideia de que desafiar a escola e ser
mau aluno é "normal", estarão criadas as condições para que os homens sejam, amanhã, uma
nova classe baixa das sociedades desenvolvidas ocidentais.