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Os Milagres

James E.Talmage

Comumente se considera milagre um acontecimento que se opõe às leis da natureza.


Semelhante conceito é obviamente errôneo, porque as leis da natureza são invioláveis.
Mas, considerando que o conhecimento humano dessas leis está muito longe de ser
perfeito, certos acontecimentos parecem opor-se à lei natural quando, ao contrário,
concordam estritamente com ela. Toda a constituição da natureza se funda em sistema e
ordem; entretanto, as leis da natureza estão graduadas como o estão as leis do homem. A
atuação de uma lei superior em qualquer caso particular não destrói a realidade de uma lei
inferior. Por exemplo, a sociedade promulgou uma lei que proíbe a qualquer homem
apropriar-se da propriedade de outro; entretanto, os representantes da lei freqüentemente
se apoderam pela força das posses de seus semelhantes, contra os quais tenha sido feito
algum julgamento; e faz-se isso para satisfazer a justiça e não para violá-la. Jeová
ordenou: "Não matarás;" e o gênero humano reiterou a lei, prescrevendo castigos pela sua
violação. Contudo, a história sagrada testifica que em determinados casos o próprio Autor
da Lei ordenou diretamente que se fizesse justiça, tomando a vida humana. Nem o juiz
que dita a sentença capital contra um assassino culpado de homicídio, nem o verdugo que
executa a disposição, agem contra a lei – "não matarás" mas, ao contrário apóiam esse
decreto.
Até certo ponto estamos familiarizados com alguns dos princípios conforme os quais agem
algumas das forças da natureza; nenhuma surpresa nos causa vê-los, apesar de uma
reflexão mais detida mostrar que até mesmo os fenômenos mais comuns são pouco
entendidos. Entretanto, qualquer acontecimento fora do comum é considerado pelos
menos entendidos como milagroso, sobrenatural e até contra o natural. Quando profeta
Eliseu fez com que o machado flutuasse sobre o rio (Reis 6:5-7), valeu-se de uma força
superior à da gravidade. Sem dúvida, o ferro pesava mais que a água; mediante a
operação desta força superior, foi apoiado, suspenso, ou de outra maneira qualquer se
manteve à flor da água, como se estivesse ali sustido por mão humana, boiando com
bóias invisíveis.
O vinho ordinariamente se compõe de quatro quintas partes de água e o resto de uma
variedade de compostos químicos, cujos elementos existem abundantemente no ar e na
terra. O método comum – o que chamamos de método natural – de combinar
adequadamente esses elementos consiste em plantar a uva e cultivar a videira até que o
fruto esteja pronto para entregar seu suco à prensa. Mas, por um poder que ultrapassa
toda capacidade puramente humana, Jesus Cristo uniu esses elementos na festa de
bodas de Canã (João.2:1-11) e efetuou uma transmutação química dentro das bilhas de
água, que resultou na produção do vinho. De igual maneira, quando deu de comer às
multidões, por Seu contacto sacerdotal e benção autorizada, a substância dos pães e
peixes aumentou, efetuando-se um crescimento que teria demorado meses, seguindo o
que consideramos a ordem natural. Na cura dos leprosos, dos paralíticos e dos inválidos,
as partes enfermas do corpo foram restauradas de novo ao seu estado normal e são; as
impurezas que envenenam os órgãos foram removidas mais rápidas e eficazmente que
através de efeito de remédios.
Nenhum observador sincero, nenhuma alma que pensa, pode duvidar da existência de
inteligências e organismos que os sentidos do homem não podem perceber sem auxílio.
Este mundo é a incorporação material de coisas espirituais. O Criador nos disse que
formou todas as coisas em espírito antes de se tornarem temporais. As flores que
florescem e morrem na terra são representadas além por flores imperecíveis, belas e
perfumadas. O homem foi feito à imagem de Seu Deus; sua mente, apesar de ofuscada
por costumes e debilitada por hábitos prejudiciais, ainda é um tipo decaído de pensamento
imortal; e apesar de o espaço que separa o humano do divino, quanto a pensamentos,
desejos e atos, ser tão imenso como o que há entre o mar e o céu, pois, como as estrelas
se elevam sobre a terra, assim os caminhos de Deus superam os do homem, ainda
podemos afirmar que o espiritual tem analogia com o temporal. Quando se abriram os
seus olhos, o servo de Eliseu viu as hostes de guerreiros celestiais que cobriam as
montanhas ao redor de Dotan; homens a pé, carros e homens a cavalo, armados para
lutar contra os sírios. Acaso não poderemos crer que o capitão da hoste do Senhor e sua
companhia celestial (Jos.6) estavam presentes quando Israel circundou Jericó (Jos.5:13-
14) e que ante sua atuação sobre-humana, apoiada pela fé e pela obediência do exército
mortal, se derrubaram os muros ?
Algumas das realizações mais recentes e mais notáveis do homem, quanto à utilização de
forças naturais, vão chegando à categoria de manifestações espirituais. O poder ouvir o
tic-tac de um relógio a milhares de quilômetros de distancia; o falar em tom moderado e
ser ouvido em todo o continente; enviar sinais desde um hemisfério e ser entendido em
outros, apesar de entre eles haver oceanos que se agitam e rugem; trazer os relâmpagos
a nossas casas para usá-los como fogo e iluminação; navegar pelo ar e viajar sob a
superfície do oceano; fazer com que as energias químicas e atômicas obedeçam a nossa
vontade, acaso não são milagres? Sua possibilidade não teria sido aceite com crédito
antes que se realizassem. Entretanto, por meio da atuação das leis da natureza, que são
as leis de Deus, se efetuam estes e outros milagres.