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Inpresio no Bras dezembro ce 2010 Copyright © by Cames Nerd, 2008 Mare ae Pilani rida por Frédéne Gros (Os direitos dest oligto petencem a E Reaagses Eator, Lara Distbidor ids {Ca Post 45291 “01010970 So Palo SP Tee (11) 5572 5368 eteealzacoes comb -wwerctzicoescombr Bi Eihon Manoel de Ove iho Grr Be Aen Peo (Cha Fit Marna Castano apc cet gifs - ‘Mausico Nisl Gongaes Eso Pages ins sigs Layols Reservados oles os dion desta obra, Poi ta € quaker reproduc det edigto por qualquer mio ou forma sea, elena ou mec, frocépa,graasio ou qulquer autre Ineo de reprodago, em perso exprena do editor Frederic Gros CAMINHAR, uma filosofia “Tradugao de Lilia Ledon da Silva AGRADECIMENTO ‘Obvigado a Benoit Chante, que fez com que este vo se pusesse “1 eaminho" eo acampanhont até seu témino. Sumdrio, Caminhar no é um espore LUberdades " Por que so tia or caminhante (Niet) Do lado de fora Leni. a Frugasratvosas Reha) 45 Soldaes 59 Siléncios 65 (Os sonhos diuenos da caminhante Rosen). © Etemnidades 85 A conqusta da natureza selvagem (Thor) °1 eran Peregrinacio Regeneragio e presenga Ocaminho cinica Os estados do hem-estar Aeerincia melancélica (Nera) Saida cotidiana (Ken! Passeios Jardins pdblicos O fisur das cidades Gravidide, Elementar Misti e politica Gani) Repeticio Textos¢ referéncias Caminhar nao é um esporte mminhar nfo € um esport. Ocesporte € uma questio de téenicas e regras, de rimeras competicio, que exige toda uma aprendizagem. conhecer a= poses, inconporar os gestas adequados. E depois, bem de pois, vm aimprovisacio eo talento, Oeesporte é consituida de contagens: em que posicio voce ficou? Qual for seu tempo? Qual o resultado? Sempre a mesma tivisio entre 0 vencedor e o vencido, tal como na guerra — hi tum parentesco entre a guerra © 0 esporte do qual a guerra tra sus honra eo esporte, sua desona: da respeita pelo adversirio 20 6dio pelo inimiga. O esporte € também, obviamente, o senso da resisténcia, © sto pelo esforgo,adisiplina, Uma ética, um trabalho. Mas €além disso algo de material, revistas,espetéculas, um mercado. Sao performances. © esporte proporciona imensos cerimonials midisticos, apinhados de consumidores de marcas imagens. O dinheiro toma-o sob controle para despoja as alas, € 2 medicina, pra fabricar corpos atifciais, CCaminhar ndo € um esporte. Pér um pé na frente do ou: tro & uma brincadeira de criangs, Nada de resultado, nada de (Gediaetaad acter rdmeros quanda se di um encontro: 0 caminhante diré que caminho tomou, em que trilha se descortina a mais bela pasa gem, a vista que se vislumbra de tal ou qual terago, Muito embora se tenha tentado criar um nave mercado de acess6rios:calgados revalucionsrios, melas incrives, mochils| priticas, calgashuncionas.. Ese procure implementaroespirito do esporte:ndo se faz mals uma caminhada, se “faz um rein Vendem-se bast6esalongadios que deixam os caminhantes com 2 aparéncia de improvaveis esquindores. Mas nada disso vai ‘muito Tonge. Nem pode ir muito longe. {A caminhada ~ no se descobriu nada melhor para andar ‘mais devagar. Para caminhar,sio necessirias antes de tudo das eras. © resto € supérflwo, Querem andar mais depressa? Nese caso ndo caminhem,facam outra coisa: rodem, desizem, vyoern, No caminhem. E depois, quando se anda apé, s6 hd um desempenho que de fato conta: aintensidade do céu, 0 vigo das paisagens, Caminhar nio é um esporte. ‘Mas, ura vez em pé, o homem no consegue ficar para. Liberdades ee eo ag mesmo que se trate de um mero passeio: desvencitharse do fardo das preacupactes, exquecer por um tempo os cont promissos. Opta-te por nfo carregar 0 escritério consig: pas seia-se, vaguea-se, pensa-se em outra coisa. Coma excursio de viros dae de duracso, acentua-se 0 procesto de desligamento escapa-se das obrigagbes do trabalho, fica-se livre do grihio thos habitos, Mas de gue maneiracaminhar passaria melhor essa sensagia de iberdade do que uma Tonga viagem? Pelo fato de ‘ue, afinal de contas, outrasimposigdes,igualmente drduas, vio cexercer pressfo: 0 peso da mochils, a distincia esipulada para a tapas, a8 incertezs do tempo (ameacas de chuva e tem. orig, calor de rachat), as pousadas toscas,algumas dores. CContudo, s6.aeaminhads consegue nos lvrar das lusbes doin Llispensivel, Enquanto ta ela permanece o reino de poderoses necessidades. Para chegar a esta ou Aquela paragem, é preciso andar tantas horas, que constituem determinada quantidade de passos,aimprovisacaoé limitada, pois nose est seguindo por caminhos de jardim e devesse evitarenganos nos cruzamentos los caminhos, a menos que se queira pagar caro e de imediato ute ppor eles. Quanda a neblina invade a montanha ou una tromba- gua cai, tem-se de continuar, prosseguir. Comida e égua si0 objetos de uma contabilidade engenhoss, conforme os trajetos ce Fontes, Enem sequer menciono.o desconforta. Ora, 0 milagre io € que se esta feliz apesar de, mas sim gracas asso. Quero dizer que nio dispor de uma escolha ilimitada quando se tata dle comer ou beber, encontrar-se submetido a grande ftalidade «do tempo que estéfazendo, mo poder contar serio com a re agularidace de seu part tuda isso faz ver de repente aabunlén- cia da oferta (de mercadorias, transporte, redes integradas), a rultplicacio das facilidades (de comunicacio, compra, desl. ‘camento) como dependéncias. Todas esas microiberacées no passam de aceleagées do sistema, que me aprisiona com mais forga ainda. Tudo © que me liberta do tempo e do espaco me li pres Para quem nunca passou por essa experiéncia, a simples descrigio da estado do caminhante logo parece um absurdo, uma aberracio, uma servidio assumica por opcio, Porque, s- pontaneamente, 0 citadina interpreta como privacio aquilo que ao caminhante se revela como uma liberagio: nfo estar mals preso na tela dos intercimbios, nfo mals se limitar a ser tum n6 da rede que redistribui informacées, imagens, produ: os; notar que tudo isso tem por realidade e importincia tio somente as que eu Ihe atribuir. Mew mundo nfo apenas nfo ddesaba por nao estar conectado, mas além disso essas cone- Ges de repente se mostram como enteelagamentos pesados, sufocantes, apertados demats, A liberdade, entio, € um bocado de pao, um gole de dgua Fresca, uma paisagem'aberta Isso posto, gozando desse liberdade suspensiva, feliz em par tir fico também feliz em volar f uma Felicidade por parénteses, 1 Flos ‘uma Hberdade sob 2 forma de escapulida de um ou varios das, Nada mudou de verdadle quando retomo, E a¢ antiga inércias retomam seu lugar a pressa, 0 autoesquecimenta, a desatengo pelos outros, a exctagio eo cansago. O chamado da via simples ters tido a draco de uma caminhada: “O ar puro the fez bem! Liberagio pontual, depois torno a mergulhar A segunda liberdade éagressiva, mas rebelde. A suspensiva, permite apenas, em nossa exsténci, uma “desconessa” provi ‘6ria- escapo da rede por alguns das, vivencio em tlhas desertas| a experiéncia do forado-sistema, Mas pode-se também tomar a deciséo de roner. Nesse ponto seria ficil encontrar convites & transgressio e ao vaste mundo li fora nos escitas de Kerouac ‘ou de Snyder: acabar com as convenctes imbecis, com a nga nosa protegia das paredes, com o tédio do Mesmo, o desgaste dle repeticao, a precaucio dos rcos e o édio pela mudanca. & necessirio provocar partidas, transgress6es, alimentar finalmen- te afoucurae o sonho, A deci em algum outro lugar, afm de rentar algo navo) signifies des- sa vez0 chamado do mundo selvagem (The Wid). Descobre-se na caminhadlaa forca imensa das noites estrelada, das eneraias| tlementares, € nossos apetites seguem o mesmo mode: fica enormes, € nosso corpo plenamente saciado. Quando saimos «do mundo batendo a porta, nada mais nos segura: as calgadas no gradam mais nos passos (0 tajeto, pereorndo centenas de milhares de vezes, da volta ao curral). Os cruzamentos tremem tal qual estrefashesitantes, e reencontra-seo medo arrepiad de ter que escolher,aliberdale em forma de vertiger, ‘Hi nio se trata de se livrar do anificlo para experimentar alegriassingelas, mas sim de encontrar uma liberdade que sea o limite de si ¢ do humano, que seja o transbardamento em si de uma Natureza rebelde que me ultrapassa. A caminhada 30 de caminhar (ir para Tonge, tae eae pode fomentar estes excessos: excessos de cansago que levam a mente 20 deliio, excessos de beleza que abalam a alma, exces sos de embriaguez nos cumes, no alto dos desfiladitos (0 cor: po explode). Caminhar acaba despertando em nés esta parcela rebelde, arcaica: nossos apetitesficam grasseiros e iredutiveis, nossos impetos, inspirados. Porque o caminhar nos posiciona 1a vertical do eixo da vida: arrastados pela torrente que joa logo abaixo de nés ‘Com isso quero dizer que 20 andar nio se esté indo a0 encontro de si proprio, como se a questio fosse se reencon: trar, se desfazer das velhas alienacBes para reconquistar um cw auténtico, uma identidade perdida. Ao andar, escapa-se 3 propria ideia de identidade, & tentagio de ser alguém, ter um nome e uma histéria. Ser alguém pega bem em reunides so ais onde cada um se exibe, pega bem nos consultérios de psicélogos. Mas ser alguém no seria 56 mals uma obrigacio social que acorrenta (nos obrigamos a ser figis & nossa pr: pria imagem), uma ficcio boba que representa para nés um peso nas costas? A liberdade, caminhando, é nfo ser ningwém, porque © corpo que caminha nio €em ama histéria, tem #0 somente uma corrente de vida imemorial. Desse modo nko passamos de um bicho de duas pates que se locamove, uma forca pura em meio as alas érvores, um grito. E frequente mente, caminhando, grita-se para marcar su presenga animal recobradla. Sem duvids, nessa grande Mberdade exaltada pela keracio dilacerada de Ginsberg ou Burroughs, nesse esbanja mento de energia que devia dlacerar nossa existénciae estou rar 0s pontos de referéncia dos submissos, a caminhada nas montanhas constitufa um meio entre outros, © estes outros incluiam as drogas ¢ o alcool, as bebedeiras, as orgias, pelos ‘quai se tentava alcancar a inocéncia, 44 © Caminhar ue Forse Mas ela deixa avista-se um sonho; caminhar como ex. pressao da recusa ce uma civilizagzo pode, poluida, alienante, dlesprezivel Eu li Whim, vots sem 0 que ee dn) De ens etn dtr tangs Eis 0 que par cle deve er attade to wovador, do trovadrloaco npitad pla Zen, nae eh is tas do deseo, Ee creda que se devs magna o mundo como ‘© pont de enonto dos andatthos que ve, com 8 machi cosas par a ent, dos vagabundos lumina que ecu © deve de consumir ido 0 que proddo,consequenemcnte © «le tabubar para poder consi 0 de comp oda ess sata inl: efigeradores,tleisores,astomsves, etd tp de no inl (.). Mihares, mihoes de ovens americanos,Fechando sua rmochlaepegando era, A derradera iberdade do caminhante & mals rara, E um terceito grau, depois do retomo aos prazeres simples e da re conquista da besta primitive, Ea lberdade do reuncante. Hein- rich Zimmer, um dos grandes indianistas, nos relata que se dlistinguem, na flosofia hindu, quatro etapas no caminho da vida. A primeira €a do aluno, aprendiz, discfpulo, Durante a manha de sua vida, trata-se, enti, basicamente de obedecer ’s ordens do mestre, ouvir seus ensinamentos, submeter-se = criticas conformar-se com os prineipios.E a hora de receber, [Numa segunda etapa, o homem, jé adulto, no meio-cia de sua ‘existéncia, via 0 dono da casa, casado,arimo de fai: adm nistra 0 melhor que pode seus haveres, ajuda no sustento dos padres, exerce um oficio, se submete de espontinea vontade as obrigacbes sociise as cobra dos outros. Ele accita vest as éscaras socials que determinam seu papel na sociedade © na "Tack Keren ain, familia. Mais tare, quando os filhos esto prontos para assumit fo controle, no entardecer de sua vida, © homem pode rejeitar repentinamente os deveres socais, ar obrigngSes familiares, a8 preacupagdes ecandmicas, e ele se faz eremita, Ea etapa da “partida para a flresta’, em que se haverd de aprender, pelo recolhimento e pela meditagio, a familiarizar-se com 0 qu desde sempre, petmaneceu intato em nds e espera ser, parands préprios, despertado. esse Si mesmo eterno, que transcend a6 siscaras, fungées, identidades, historias. Fo peregeino, enfin scede a0 eremita, no que deve ser a interminvel e gloiow sa noite de verio de nossa existénca: uma vida de agora em clante toda itinerante (2 etapa do mendigo errante) em que 2 caminhada infnita, aqui e ali, dé amostras dessa coincidén cia entre o Si mesmo sem nome € 0 onipresente coracio, Mundo, A essa altura © sibio renunciou a tudo, E a mais alta liberdade: a do desprendimento perfeto,Jé nfo estou envolvs do, nem comigo mesmo nem com o mundo. Alheio 20 passado «20 futuro, nfo sou nada alm do eterno presente da coin: sléncia. E, como se ve nas Callmet de Perarivacio, de Swart Ramdas, €no instante em que se abre mio de tudo que tudo ros € oferecido, no instante em que nio se pede mais nada que | tudo € entregue, em abundincia. Tudo signficando a propria intensidade da presence, Tnei-se com certa clareza, durante percursos longos, es liberdade de renéincia. Quando se esté caminhando hé muito tempo, chega um momento em que jé no se sabe muito bem ‘quaneas horas transcorreram, nem quantas mais serdo necessie rine para se chegar a0 destino, sente.se 0 peso do estritamente rnecessrio sobre as costa, pensa-se que isso & o que basta se: 6 que mais € de fato necessirio para seguir na vida ~e sente-se que daria para continuar desse jeito por dias, séulos. Entio, Gaia taeacte nal e mal se sabe para onde se esté indo e por qué, isso no ante mais do que meu passado ou ter nogio de que horas so, Hs gente se sente livre porque, assim que volta a lembranga \losantigossinais do nosso comprometimenta com o inferno — Nome, idade, profisso, careia ~ eudo, sem exces, fica i= Silo, mindsculo, fantasmagérico. Por que sou téo bom caminhante (Niewsche) seta ows ose ie seal teehee ied at o woo aan ant Tapco pon is ms Feta ee rio, Co analropaale cares pin Orsi rer Nich 5 pre Oita res, + amar qu sole, Mat em se ig, via desis designs rept slants 0 mundo 3 see oe eres era eee ae ee ee eee imine ia te eum geet presar conta, nenfura slug de eo-emo que <6 spa eee enema Nictsche trum caminhant novel, eine, Faz sempre mengio a esse fata. A caminhada 20 ar livre foi como que ochuerto de sua obra, o acompanhamento permanente de he; Ee Hane (Por que sou to preetid), Coie ieee ‘Si exsténcta se compde de quatro grandes 2tos. Primeiramente, os anos de formagio: do seu nascimento (1844) & sua nomeagio na Universidade de Basel como profes- sor de Filologia,O pai é pastor, am homem honrado ¢ bom, que more jover. Nietzsche gosta de se imaginar como o dlkimo’ rebento de una linhagem da nobreza polonesa (os Nictski) Quando morre seu pai (nos seus quatro anos de ida), ele se toma a promessa da mae, daa e da rm, azo da total de dicagio delas. O menino, dotado de grande inteligenca, val es ‘ada nolicew de Pforta, renomadde rigoraso, onde passa por uma Farmaco clissica, Al ficaré submetido a um regime infle vel cya geandeza ele reconhecers mais tarde, segundo a eae ‘glo grega:deve-se saber obedecer para saber comandar. An acredita nele ¢nio The poupa admiragio, na esperanca de que le colocard sua inteligenca bilhante 2 servico de Deus. Sonha ‘que seja tedlogo, E um rapagio gozando de excelente said, acometido apenas por uma forte miopi, sem dvida muito mal ccorigia. Faz brilhantes estados de Filologia na Universidade de Bonn, ea seguir em Leipzig. Aos 4 anos € nomeado profes sor de Filologia na Universidade da Baslea, por recomendaclo do especialista Ritschl. Algo excepcional para sua idade. Abres s€ 0 segundo ato. Lecionari por dez anos Flologia grega, dez anos difceis « fracassados. O trabalho € enorme: além das aulas na univer: idade, tem de ministrar outras no grande Liceu da cidade (0 Pelagogiva). Mas Nietasche contentava-se em ser apenas filo 4807 A misicao haviatentado muito tempo, depois fascinou-se pela filosofia. Mas €a clénclaflol6gica que o acolhe de bragos {caste ahertos, Fle a abraca, com 0 caragio um pouco apertado, pois io € sua auténtica vocagio, Pelo menos ela the dé 2 possibil dlade de ler os gregos: os trégicos (Esquilo, Séfocles); os poetas (Homero, Hesfodo), 0 sibios (Heréelto, Anaximandeo) © 05 hiscoriadores (tem paixio por Didgenes Laércio porque, diz ele, se ios omens. are al dessa). O primeira ano transcorre rnuito bem: ele se dedica com fervor & redagio de suas auas, ém éxito com oF anos, conhece novos eolegas, dente oF ‘ns um que se tomaréo amigo preferid,o amigo fc Franz Overbeck, profesor deteologa, © amigo de sempre, aqele x quem se pede socomo, aque qe vir sc lo em Trim, apd 2 eatsrofe ind em 1969 que Nietzsche eliza uma Viagem a ILucerna, para depois poder ir até Tribschen, nde fiz uma vista femocionada ao "Mestre (Wagner), em sua imensa e monumen: lal morada. Allele se encanta por Cosima, aquela que chamaré, fe suas cartas de loucura, de sua “princesa Ariane, minha bem- ‘nda um preconcelta quer que eu seja homens, mas éverdade jue por muita tempo os frequencei” (ianeiro de 1889). Entretanto o entusiasmo, © ardor pelo trabalho université- 1 boa satide duram pouco, Os acessos ea crises comecam 1 s© multiplicar. O corpo se-vinga de uma série de pesados equivocos. Equivoco profissional, Ele estoura em 1871 quando sai O. Nici da Tras, que deixar atdnitos, se nfo enfurecidos, ‘ fidlogos de profsszo, Mas também como alguém pode ter a inde escrever uma obra dessas? Um livro nao tanta de pes- visas sas esim de incuigdes nebulosas, metafsicae o etemo eonlto do caos e da forma. Equévoco nas amizades também, He vioa regularmente a Bayreuth para a consagracio anual do Mestre, volea a Tbschen, comna-se seu companheiro de viagens i Furopa, mas entende cada vez mais que Wagner, em sex inhonte Ntsc) logmatism faniticn, sua arroginci, representa aquilo que ele abomina © que a misica dele sobretudo nio the eai bem: ela 0 dleixa doente. A misica de Wagner, escrevers,n6s nos afogamos rela, € um marasmo, & preciso “nadar" ela sem para, ela tra- ‘2 como uma correnteza lancinante, caética, Perde-se 0 pé 20 eseuti-la,Jé Rossini, pelo conrévio, dé vontade de dancar. Sem falar da Carmav de Bizet. Equivoco sentimental enfrenta rect sas para seus pedidos de casamento,fetos de maneita abrupta Equivoco social por fim. Pois no consegue se adaptar nem 3 agitagio dos creulos socnis de Bayreuth, nem aos dos profes sores eeruditos Dificil de encarar. Todo semeste fica mais dar, mais im ppossvel. Com frequéncia cada vex maior, tem dores de cabeca terriveis que o deixam de cama, deitado no escuro, agonizando de dor. Seus olhos doom, cle mal consegue le, escrever. Para cada quinze minutos que pass Iendo ou escrevendo, tem de pagar o ato prego de horas de enxaqueca, Ped que leiam para cle, pois seus olhos hesitam em contato com a gina Nietzsche teata encontrar um meio-termo, pedindo para ser dispensada de um curso, logo de todo exercicio do ma- gistério no liceu, obtendo também wna licengs de um ano para retomar flego, restabelecer-se,recobra a frcas. Mas nada disso adianca ‘Ao mesmo tempo, aquilo pelo que ele opta como trata mento leva a marca de seu futuro destino: grandes caminha dase grandes solidaes. Contra as dores lancinantes, terrvei, cesses dois remédios. Fugir da excitagio, das solicitagbes e da agitagio do mundo, cujo custo tem sempre de ser quitado de imediato por meio de horas de sofrimento. E caminhar, cami nae bastante tempo para dispersar, distrai,esquter as marte Tadas nas témporas. Fle ainda ndo fo cativado pela mineraidade dura das alas smoneanhas ou a secura perfumada cas tailhas pedregosas do Sul Anda sobretudo 2 beia dos lagos (o lago Léman, com Gers- orf, seis horas de caminhada por dis) ou segue pela sombra das florestas (0s pinheitas em Seeinabad, a0 sul da Floresta Negra; "Caminho muito, através das loretas, ¢ tenho comiga ‘mesmo conversas étimas") No més de agosto de 1877, esti em Rosenlau eleva uma vida de eremita: "Se pelo menos eu pudesse ter, em algum lt far, uma casa como aqu, eu caminhara de seis a oito horas por dia, compondo pensamentos que depois eu fanaria de uma tirada sobre o papel ‘Mas nada di resultado, As dores sia fortes demas, As en- saquecas o deixam de cama por dias, ele se contorce de dor a noite intera por causa dos vmitos. Seus olhos estdo sempre ddoendo e sua visio piora. Ele apresenta em maio de 1879 seu pedido de demissio da universdade. ‘Abre-se aqui a terceira grande épaca de sua vida. Dez anos, do verao de 1879 20s primeiros das de 1889. Viveré dessa vez juntando ers escasss pens6es que the permitem levar uma vida ‘extremamente modesta, morar em albergues simples, pagar © trem que o leva da montanha 20 mar, do mar i montanha, 35 vyezes a Veneza, para vsitar Peter Gast: E entio que se torna ‘eaminhante inigualivel que se tornou lenda. Nietzsche cami nha, caminha como se trabalha, Tabalha caminhando. Jno primeiro verio cle descobre sua montana: 2 Alta Engadine, ¢ no ano seguinte sua aldeia:Sils-Maria Lé, oar € fee eo eal erheeeret sarees transparente, 0 vento, forte, a luz, cortante, Por detestar 0 ca lor pesado, passaré todos os verdes ali, até a queda (excetona ano de Lou). Aos amigos (Overbeck, Karelitz), escreve que encontrou sua natureza, sc elemento A mie, que li ele depara com “0s methores caminhos que deseja © quase cego que et ime tornet, e oar mais revigorance”(julho de 1879). E sun pal sagem, sente-se igado a ela coma que por lagos de sangue "e até mais que isso"? ‘Hino primeico verso, ele caminha, caminha sozinho a oto horas por di, e escreve O Vinint sua Sams “ido, ato ser thes por slums ny, a pens durante os tacos eabisado ips em sei caeriahoe”? E passard 6 inverno nas cidades do Sul, principalmente Cénova, 2 baia de Rapallo, ¢ mais tarde Nice (*Passeio em ‘méclia uma hora de mana, trés horas de tarde, a passo acele- rado ~ sempre © mesmo caminho: ele é belo o bastante para aguentar a repeticio", margo de 1888), Menton uma s6 vez (‘Descobri ito passeios”, novembro de 1884). As colinas se ro seu cavalete de escritura, ¢ © mar sua abdbada mestra (*O) mat e 0 cu puro! Como pude me tortura tanto no passadol”, janeiro de 1881) E caminhendo, dominando o mundo e o¢ homens, ele com: poe 20 ar live, imagina, descobre, exalta-se, asusta-se com 0 ‘que enconira, abalado perplexo diante do que Ihe cu corante 3s caminhadas, 2 Fedhich Nietasche, O Visine sua Sb, § 338. dem carta de steno de 1979, 2s Cis ames ‘inensdade de meus semmentor me iz ie me rea 20 sin tempo ~ vir vezes nope sido quar pla moto elo de que esta com os alos vemnelhos~ de qu E que véspera eu vs, dante inks lng eaminads, chord leis, no eam ess gras sete, mis co gma eels, eartnd ambaleanda, cm un lar novo ave € marca de mew prio sabe os homens de ole Em dz anos, escreverd seus maioreslnros, de Aurora a Ge wali d Mor, de A Gaia Cita a Alén do Bem ¢ do Mal, smn ‘squecer Assn Flow Zaatasta, Ele e torna 0 eremita Cvoltar a er eremita,¢ fazer caminhadas de eremita dez horas por dia’, Julho de 1880), 0 sotrio,oviaante ‘A caminhada nesse caso no é, como para Kant, 0 que dis \in/clo trabalho, ess higiene minima possibilitando que o corpo se recupere depois de ter permanecidlo sentado, cansado, par tid 20 meto. Para Nietzsche, ela € a condigio bisica da obra Mais queseu relaxamento, ouaté sew acompanhamento, a cami 2 & seu deweto propriamente dit, No somos daguces qu ent em mio os ose cut Men agora os eto ds pigias pra mace, aso a € olive, andando, plan, sabindo, dangando, de pe a ms monanhas soles ov beta da a, nd mes 0 camithos eae mediation? Muitos escreveram seus livros a partir t30 somente da leiura de outros livros, tantos livros tém o cheiro de lugar “Veich Nietzsche, aa de agosto de 1881 Wem Ga Ce, 8366, or que sou to bom camiahante (Nitsche) = a fechado caracterstico das bibliotecas. Com base em qué se avalia um livro? Por seu cher (e, mals ainda, como se ver por sew ritmo). Por seu cheira: demasiados livros recendem ‘a0 ambiente pesado dos gabinetes de letura ou escrit6rios Cémodos sem luz, pouco arejados. © ar no tem uma boa circulagso entre as estantese se encarrega do mofo, da lenta decomposigio do papel, da alteragio quimica da tinta, O ar Fica carregado de miasmas. ‘Outros livros respiram um ar revigorante: 0 ar revigorante dlos espagos abertos, o vento as altas montana, seja 0 sopro gelado da auras batendo no corpo ou, entio, a amanhecer, & ar fresco das trilhas do Sul ladeadas de pinhos,transpassadas de perfumes. Esss livros restiram, Nio esto sobrecarregados, nfo cestia satarados de erudicio morta, va ©, compreendemos bem depress st autor cheyou 3 se ‘ia permnecersentad dante de seu tno, com a barge ‘ied a abecsenflads nos paps. Como se 8 pido seu Tir! A comprst doe inteting fa ante to rapidamence quanto oaraeeto, ofr bac, pega acanhada* Mas hi também 9 busca de outra luz. As bibliotecas so sempre muito sombrias. O armontoado, o empilhamento, a js tapsigio preciria dos volumes, a altura das prateleias, «uo ‘contribu para imped a entrada de claridade ‘Outros livros refletem a laminosidade cortante das mont thas, ou 0 rebritho do mar sob sol E sobretudo: as cores. As bibliotecas sio cinza,e cinza of livros que nelas se escrever tudo estésobrecarregado de citaeées, referéncias, notas de ro dapé, de prudéncia explicativa, de refuacoes imprecias “dem Comphor ame Flos E preciso falar, por fim, do corpo dos eserevinhadores: suas Inios, pés, ombros e pernas. O livro, como expressio de uma (siologia. Em livros demaissente-se 0 corpo dobrado, sentado, ‘aurvado, encolhido sobre si préprio. O corpo que caminha fica lstirado tenso como um arco: aberto 20s vastos espacos como 1 Mlor a0 sol. Com 0 torso exposto, as pernas tensionadas, os bagos slongados: Para feral de uli, ar omer, x uma mses, reso primo rele pergumarmo-nos. abe elecaninar” (livros dos autores, 05 que estio prisioneitos entre suas predes, enxertados em cima de suas caderas, sto indigestos ¢ pesados, Nascem da compilagio dos outros livos sobre a mesa. Sto livros parecidos com gansos de engorda: abarrotados de tages, entupidas de referencias, engrossados de anotagbes. Sto pesados, obesos e leem-se com lentidio,tédio, difculds Ale Fazem um livro com outros livros, comparando linhas com dura, epetindo 0 que os otros disseram do que outros ainda lerlam até chegado 2 falar. Verifica-e,especifca-se,retifica-se lu Trae torma-se-um pardgrafo, um capitulo, Um livro torn: 1 0 comentario de cem livros sobre uma frase de algum outro. Aquele que compae caminhando est, pelo contriro,lvre Le amarras, seu pensamento néo é escravo dos outros volumes, » peso das verficacies, da carga do pensamento alheto, Nio hi contas a prestar, a ninguém. Sé pensar, julgar, decidir. E lun pensamenta que brota de um movimento, de um impulso. Sente-se afaelasticidade do corpo, 0 movimento da danca. Ele rem, ele expressa a energia, 0 arrojo do corpo. Pensar a coisa fon sem oembaralhamento, a névoa,abareira,aalfindega da eat eee ‘cultura e da tradigio, Nao havers extensasdemonstragbes bem concatenadas, mas pensamentos leves ¢ profundos. A aposta é cexatamente esta; quanto mais leve um pensamento, mais ele se leva, € vira profundo porque fica na vertical, vertiginosamen: te, dos brejos espessos das convicgbes, da opin, dos saberes insttaidos, Enquanto os livros cancebidos nas bibiotecas $80, pelo contri superficiais e pesados. Nio passam de uma at vidade de cia Pensar caminhando, caminhar pensando, ¢ que a escritura Jimite-se a ser a pausa ligeir, como quando o corpo descansa durante a caminhada pela contemplacio dos vastos espagos. (© awe, para terminar, significa para Nietzsche um elogio 0 pé, Nio se escreve apenas com a mio, Sé se escreve bem “com 05 pés”* O pé é uma excelente testemunha,talvez a mais confdvel. preciso saber se, ao lero pé "fica de oretha em pe” — visto que 0 péescuta em Nietzsche, como selé no segundo “canto da dana’ de Zaratusuia. "Meus dedos dos pés Ficaram dle orelha em pé para escutar, pois seus ouvidos, o danarino 1s tem nos dedos do pé” ~ se ele estremece de prazer com a Teitura por ter sido convidado & dang, partida, 20 li fo. Para avaliar a qualidade de uma misca, € necessério confiar no pé Se, 0 escutar, 0 né& tomado da voatade de marcar 0 compasso, , Disonto,enquanto seu seo da trea inti mew ‘corgi, erande deum objeto aoato, nes ethic que les que Ihe agradam, cease deimagen encansdors, eben se de sentiments deliiosoe Rousseau agora passou dos quarenta anos. Sua vivéncis & if bastante grande secretirio de embaixada em Veneza, pro fessor de musica, enciclopedista... Fez amigos, inimigos, cons truiu uma reputagdo, até seu nome circla... Armou intrigas, Team Jaeques Russean, Lio IV ds f= athe eae ‘esereveu, inventou, buscou. gléra ereconhecimentos, Mas es ‘que resolve parar de frequentara sociedad, de conviver com Wide vox = Cominhat, ume Flosoia provagio: € saber que hi mais na forma da esperanga do que em seu contetdo, Pos fundamentalmentea esperanca no quer saber nada: ela er, Crer, espera, sonhar para além de todo co- nhecimento adquiido, de toda igi aprendida, de tudo quanto passou, A Natureza nia tem hist: sua memoria no va alérm ‘le um ano. © aque Thoreau chama de experiéncia da prima vera € encontrarse arrastado na correnteza de uma afimacio pura, um embalo selvagem onde s6 0 que conta deseiar vive. FExperigneia ainda, como ele diz, da inocéneia: tudo recomeca, reativa-se,¢,juntamente com o fardo da noite, o que a luz leva cembora é 0 do passado. ts un man de rivers: tos os pecados do homer so perdoados ™ (Quando se caminha na primavera, ou no alvorecer,fca-se \ espreta, com 0 espirto voltado para o dia que desponta, € vaca mais importa anf ser essa lenta afirmacio, O caminhante tampouco tem historia: peso demais para ser levado na Viagem. ‘Quando se carina ce manhi, nose possui nenhuma embran- «. Somente a alegra da confianca: 0 da irrompers através da folhagem noturna (Oso to dea de ser spensrums ests damn Nasnascentesdamanhi, encontramoso Oeste. Em Thoreau «sol levanta-se sempre a Oeste. E nossa meméria que esti a Lose: o Leste € cultura e 0 livros, eas antgas derrotas. Nao Jina a aprender com 0 passado, porte senio aprender seria coerce settee eee oie er Tepetiros antigos errs. Eisa razio pela qual no se deve confor nas pessoas idosas, nem se ater & pretensa “experiéneia” que téme que ndo & senso a pesada massa de seus errs recorrentes, [Nao se deve confiarsendo na prépriaconfianca: a juventude, As Fontes do futuro ficam a Oeste, Vamos pro Lest quando se tata de campreender isi, estuderaanee2 leat, nsreando vestige do pasado de nossa rag vanoe pra. Ost como ae pao faturo, em at ‘spi venureioeempreeniedoe © Oeste & uma jaz, & a preparagio do futuro, am re- curso para ser, 0 no encetado, 0 sempre novo, Mas 0 Oeste € igualmtente 0 mundo selvagern: The Wil, O mundo selvagem € a Natureza nlo explorada vingem, a forca primeira, desums: na (0 nio académico: poueos s40 os poetas, diz Thorea, que sabem retratar“o lado Oeste das montanhas"), mas também 2 parte indOmita, rebelde em nds, aquilo que, em nds, alo desis tu de viver, a afirmagio pura. Quando Emerson escrevis que ‘Thoreau era o mals americano dos americanos, alve2 estivesse aludindo a isto: a esse fascinio por uma selvageria primitiva que transformamas em uma mina de futuro. © futuro fica para 0 lado do Oeste, diz Thoreau: ele s6 poderi ser desblaqueado, abrirse, voltara ser viel a partir ce um mergulho no mundo selvagem, de um confronto, A diferenga entre utopia americana « devaneio europeu acerea do selvagem talvez resi al, Para 16s, o selvagem tem valor por constituir a origem: € uma filha memorial que continua aberta, um ponto de desencadeamento, obscuro. E 0 ancestral para o qual se gostaria de regressar, que as vezesressurge, mas faz parte dle um passado defintivo, Para 8 Fleey David Thoreau Canin ted - Ginna laste ‘americano Thoreau, 0 selvagem esti situado a Oeste: 8 sta vente. E 2 possibilidade do porvir.O selvagem nia é a noite de huossa meméris, masa manhi do mundo e da humanidade (© Oeste aque me rite nfo én sl de um nino da pol “Sehagem’, eeu queeo zee qu & da Vida Selvagem ue Aepende a preseragn do mindo" ‘Assim endo, caminhar € Finalmente acabar de vez com as lolormagoes, aquila a que irzoriamente se dé'o nome de “no: vilides", A paticuaridade dessas “novidades” é tomnarem-se vel tao logo tenham sido enunciadas. Enquanto estivermos Josos nesse ritmo, diz Thoreau, estamos dentro da corrente: ‘queremos saber da proxima. O verdadeiro desafio, entretanto, ‘iio € saber © que mudou, mas ter acesso a0 que drnamente tow, Por conseguinte 0 certo € trocar 2 leitura dos jorais da ‘manha por um passeio. As noticias substituemse, embaralham- 6, repetem-se, esquecem-se. Assim que se comega a caminhar, verdade, todo esse barulho, esses rumores, tudo se apaga (Quais as novas? Nada de novo, a calma etemidade das coisas, sempre retomads, Fssa existincia que Thoreau levou ~ existéncia de recusa (Emerson conta que sua primeira reacio diante de qualquer so Jcitagio era a de dizer nfo, ue Ihe era sempre mais cl recusar slo que aceitar), mas também de escolhas radicas:trabalhar s6 pasa o estritamente necessitio, nto se debar envalver no jogo ial — logo foi encarada pelos outros (os seguidores da ideo. login dominante, 0s batalhadores, as pessoas de posses) como clo. propriamente extravagante, No entanto, ela coincidia ‘om uma busca da verdade e da autenticdade. Mas procurar 0 ica da natutea sagem (Thoeae) = wos verdadeiro € superar as aparéncias. E denunciar os hébitos, as tradigdes, 0 cotidiano, como as convengbes, hipacrisias, men tiras que si. De prefréncinaamer deo, ele, deem-me vida Uma vida verdadeira € sempre uma outra vida, uma vida cliferente. A verdade teaz uma rupeura, ela fica no Oeste: para reinventar-nos,é necessvioresgatarem nds, sob o gel das cer- tezas que herdamos edas opinies iméveis, a correnteza do se vagem: 0 que brota,escapa,transborda. Somos prisioneiras de és préprios. Fale-se da tirania da opinito pablica, mas ela no nada, diz Thoreau, se comparada opinigo pessoal. Estamos aferrados aos nossos préprios juizos. Para Thoreau, caminhar (rumo a0 Oeste, mas sempre se vai para 0 Oeste desde que se caminhe diteito) no € reencontrarse, mas dar asi mesmo a possibilidade de reinventar-se sempre “Toma initia de ver ura vida veda €empeeender sum gande van,” ‘Conta-se que tm padre viera& cabeceira de Thoreau ago nizante, em seus dlimos dias, para trazerThe os confortos da ‘eligo pela mengio ao outro mundo, ao além. A isso Thoreau, com um somiso debiltado, teria respondide: “Por obséqulo, um 6 mundo de cada vez". “Henry David Thoreaa, Walder on «Val wo Baus Henry Dis Thoreau, Crone Casha enal Energia ny sua obra sco ne Inene, Thoreau retratava caminhan ~ te das épocas de frio. Quando se sai, escrevia ele, pela ‘anh’, numa atmosferagélida — com os caminhos recobertos ide neve, as érvoresesticando para todos as lados seus longos Iyagos alvos e delgados -, movenda-se nessa imensa geleira slgodoada, a consequéncia & que se caminha de modo répido «iil, para manter-se aquecido e, mais especificamente, para sentir 0 calor do corpo. A Felicidade que se experimenta 20 ‘aminhar no fro anseia também pela sensagio desse foguinho ‘qucimando no peito, i um foo subternen que pemanece endert mmr: 2. qu nunca se etingu edo ial ri slgum poe abo (. se fogosubtendnc tem Seu kar em eas eto humana, Com fet, no dma ro sobre coli mas xpos, ocainhante vamas dobras de seu ples um fo sda nis quent que nucle que se acende nos es. A verdad € que um homer a In side eur cada esagio, de a mane que, no aver, yer est em Seu cra. ea a Sel ry Das Thora, Pecan Energia - 107 ‘A primeira energia que se sente 20 caminhar € a sua prs pra, a de seu corpo em movimento, Nao se trata de uma ex plosio de forca, mas, mais propriamente, de uma iradiacio ‘continua e sensvel (3s indios da América do Norte, cuja sabedoria Thoreau admirava, consideravam que a propria Terra era uma fonte sa sada de eneagia. Recostar-se sobre ela era 0 que possibilitava © repouso, sentar-se diretamente no chio era 0 que propor cionava mais sabedoria durante os conselhos, caminhar sen- tindo um cantato direto cam ela era 0 que tornava mais forte, mais resistente, A Tera, inesgotivel manancial de forca: por que cla €a Mae origindra, a provedora, mas também porque ela encerra em seu Smago todos os antepassados mortos. Ela 0 elemento da transmissio. Assim, de preferéncia a erguer 35 mios 20 céu para implorar a graca das divindades celeste, 1 indigena norte-americano prefere andar sobre 2 Terra de: és descalgos (0 indo Lakots) amen 3 ter e todas as coisas da tere, seu apegocresca com a dade Os ios0seram— literal: fe —emmorador do solo « noe centavam nem descanenamn sobre tera nom vm tro tenimento de extrem soma comtato com a Forgas matesmis. Ate era mach sob pele, © ee et een lee xtra sngrads, Sant tend eis sabre com tera de que era feos seus akares. © plesaro que von no ret Sa Tee eee ee eee viva ceca. O solo apazigu,freticaa avavae curva E poritso que of velhos indore porta sobre ocho ma de referencia carom eparador da Forgas de vide. Senarseou recostarse hes possileava pensar mas profundamente, sen tir ais Ineenssment, contemplavam eno com uma cltesa receeans hem maior os miséros da vide sentian- mat primes de ods as Forgas vias? De tanto apoiae-se sobre a terra, sentir sua gravidade, ‘contar com seu amparo a cada passo,caminhar vem a ser, sem vida, uma espécie de inspiracéo continua de energia. Mas 1 no transmite sua forca apenas A maneira de uma irradingio que ina subindo pelas pernas. Faz isso também pela coinct \éncia das circulagées. Caminhar é um movimento: o coracio hate mais forte, assume um movimento amplo, 0 sangue tem luna cieculagio mais rida, mais Forte que tm repouso. E os luxos da terra agem em unfssono, Puxam uns pelos outros e Uma dltima foate de energia, depois do coragio e da Tera, so as paisagens. Elas abordam o caminhante com wna intima 0, decretam que fique ow piso domiilir:a casa é dele, e a5 coins, cores, drvores o sustentam. O charme de um eaminho iguczagueante no meio das colias, 2 beleza dos terrenos co” byertos de vinhas no outono, como se fossem echarpes de pi pur e de ouro, 0 britho prateado das folhas de oliveiras contra lun céu rasgado em plena verio, a imensidio de geletas com 1 incisive recorte. Tudo iso dé apoio, enlevo,alimento. Peregrinagao ‘caminhada nio se limita 2 ser um passe incerto, um aas ‘tamento solitrio. Ao longo da historia ea foi adquirindo formas codificadas que estipulavam seu decurso, seu termo € 1 Finalidade. A peregrinagio faz parte dessas grandes formas ( primeir significado de pergrims 6: 0 estrangeiro, 0 exila- slo. O peregrine, originariamence, no é aquele que vai aalgum lugar Roma, Jerusalém etc), mas ances de tudo aquele que wio tow casa al onde 8 cmdnbanda, Ou entzo €alguém passeando pra tomar ar © que resolve dar uma voltiha por perto, para iar a digestdo, ou o propretirio que aproveita 0 domingo ta dar uma volta a pé em suas temas. 0 peregrina, por sua ver, munca esté em casa onde quer que eseja andando: um es- \wanho. Assim, dizem os padres, encontramo-nos sobre a terra ‘como num focal de trnsito e teriamos que consierar nossa ‘80 apenas como 0 abrigo para uma noite, nossos bens como wo mochila cujo peso se pode aliviar, € os amigos como pes 9s com quem crtzamos & beira dos caminhos, Um punhada Ale palavras acerea do tempo que esté fazendo, alguns apertos tle rio, e passar bem: “Boa viagem". Todo homem cé embaixo um peregrino, dizem os pades: sua vida inveia é um exiio, pois sua verdadeira morada nio fol aleancada e jamals poderd st-lo cd embaixo, Ea Terra por intiro & um abriga improvisado. (© exist passa pela vida como o caminhante por um pais qual: ‘quer: sem se deter, Encontram-se, por exemplo, estes vers0s no ‘eanto do peregrino de Compostela Compan, é oss arias caminhar / sem nos demo. “Tver 05 monges que chamamos de "gir6vagos" exalas sem especialmente nossa condicio de eternos estranhos: ca- minhando sem parar de um mosteiro a outro, sem pertencer a rnenhum — nem todos desapareceram, existem ainda alguns, 20 ‘que parece, no monte Athos: caminhany 2 ids toda nas trilhas| cstreitas das montanhas, andando em circulos, adormecendo 20 cair do sol no local exato até aonde seus pés os levaram, passa a vida sussurrando preces enguanto caminham, 0 dia todo, sem destino nem propésito, aqui ou ali ao acaso das en- cruzilhadas nas trilhas onde do voltas e mais voltas;caminham sem ita parce alguma, strand com essa eterna andanca sua condi de estrangeitos definitivos no mundo daqui de baixo. Mas os girdvagos nfo si aprecials. Esses ndmades perpétuos so bem depress tratados de aproveitadores, de vagabundos e ‘ese modo de vida ervante softers uma condenagio. S20 Ben- 10, sobretudo, impde a “estabiidade mondstica®e afirma que a condigio de eterna peresrinagio (rerinaio prea) do crente uma simples metifors, metifora que nio se deve esgotar nas estradas, mas aprofundar no desprendimento da precee da con- templagio monssticas. Varios séculos antes, os Padres do De- serto (principalmente os do Eyito) ji haviam cuidadosamente (Gentteitma clstinguido 0 peregrino do eremita, Obvlamente devie-se exal- ‘ara xowtia (a condicio de estranhamento para com 0 mundo), ‘pore sem manifesti-Ia por uma vagabundagem suspeita: basta ‘simples rtio contemplative A perepiatiopertus enfatiza 0 movimento de parts tran ‘arse, renunciar: Assim, 0 Cristo convidava seus discipulos a pporemt-se a caminho: deixarem as mulheres eas eriangas, aban clonarem suas cera, seu comércio, sua posieao, para caminhar, acompanhar, ir anunciar a Boa Nova ("Vende tudo 0 que tens clé-o 208 pabrese segue:me,."), Ehem antes dele, havia 0 ges to de Abra: largar tudo ("Vai para a tera'que eu te mostra rei..”). Caminhar € uma conversio, um chamado. Caminhe-se ‘também para dar um basta eeliminar-s:acabar com a agitagao do mundo, a actimula de tarefas, o desgaste, E para esquecer, pra no estar mais aad, nada como a grande chatice das estra- das, a. monotonia sem limites dos eaminhos Hlorestais. Cami nha, desprender-s, pari largar Tao logo se esteja deveras caminhando, di-se uma série de slespedidas 20 longo dos dias. Nunca se tem certeza absoluta dle volar aqui, aqui mesmo. Essa situagio de estar de partida slimenta a intensidade do olhar. Esse ohar para tris a0 cruzar ‘um colo, antes que a palsagem dé uma guinada. Ou, entao, no instante de partis, pela mana, a gente concentra 0 olhar no al rue pela tltima vez (uma massa cinza com Srvores por tris). A. gente se vira uma tim vez. Mas esse olharinquleto, nfo & ‘que le queira segurar,reter,conservar-na verdad ele quer dar, loi um powco de sua luz para a presenca teimosa das rochas ‘as lores. O caminhante, por exemplo, no alto das geleiras nome, das eéus sem aman das pradarias sem histori, es yirana as lascas cortantes de seu olhar para que sefinquem nas ‘ois, Se ele caminha, é para entalhara opacidade do mundo peregrina no € somente uma metéfora da condicio hu mana. E preciso levar em conta também sua existéncia conc: ta, estatutiria, histdrica, No decorrer de toda a Idade Média, cle constitu, coma se sabe, um persanagem concreto dstinto, diferenciado. Ser peregrino & um estatutojurdico. Entra-se oft cial, ritual e publicamente na condicSo de peregrina, por aca: sito de usa missa muito solene,apés a qual obispo abencoa os atributos tradicional do caminhante: o boro (ealado compe do cua extremidade metiica Ihe servis tanto para caminhar ‘como para st defender dos cies ¢ demais animais), bem como tum alforje para carregaro pio daquele dia os paps indispen- saves, Ese sao tinha que ser estreito (pois cla Fé em seu Deus E que se tirao essencial de seus recurso, Feito de pele de ani smal (para lembrara mortificacio) ¢tinha de fcar sempre aberto Porque o peregrina esté sempre disposto a dar, partifhar, trocar. O peregrino pode ser também identifcado por seu chapeéu de bas largas ~ dobradas para cima na parce da frente para pre der uma concha se ele esté voltando de Santiago — sua tnica curt, 0 capote bem envolvente. O bispo ou 0 paraco, por aca slo da missa de sua posse, entega a0 peregrina uma carta de protecio que lhe servré de salvo-conduto na viagem tod, pos sibilitando-The hospedar-se em diversos monastérios ou hospe- arias pelos quis ele passard A beira das estradas, e devendo iqualmente protege-lo dos sslteadores de beira de estrada que ficam expostos a um castigo superior caso ousem criar un caso ‘com um caminhante consagrado. A ceriménia é muito solene e frave, pois essa partida € uma espécie de pequena morte. Até Roma ou Santiago, para nio falar de Jerusalém, se passario vi rios meses sem tera certeza de regressar Podia-se sucumbit a0 ceansaco, ser golpeado até 2 morte por ladeSes,afogar-se ow cair em precipcios. Dessa forma o peregrino, antes de partir tinha iy» Canina, wna Flsofia ‘que ter Feito as pazes com seus velhos inimigos, acertado todos ws desavengas e até redigido um testamento, ‘Mas entio por que patti, se @ condicio € tao penosa? Hé lnximeros motivos, Primeiramente, é para ampliar sua devoga slar provas de sua fidelidade, Devotions cus, Pois para além da wimeira peregrinagéo (a condigio humana de errancia nesse vale de ligrimas) atrbui-se 8 peregrinagéo um fim preciso, uma, dlestinagSo final, iradtance: a vista a um santurio. Os grandes locais de peregrinagio sio, & claro, aqueles onde repousam os apdstolos, onde santos estio enterrados: Sio Tiago em Com postela, Séo Paulo € Sio Pedro em Roma, @ timulo vazio do Cristo em Jerusalém (¢, mais modestamente, Sdo Martinho em Touts, a5 reliquias do arcanjo Miguel no Mont-Saint-Michel). A peregrinagio testemunha af. Ais, constitu uma ascese con tinua através da humldade da caminhada, que ¢ inclusive acon: panhada de ejunsfrequentese de preces constantes. Partir em peregrinagio, porém, podia representar também uma expiagao por falkas muito graves, Se um fiel ou um clérigo ccnfessasse.um pecadoterrivel que ele estivesse carregando na ceonscigncia, uma blasfémia enorme ou até um homicidio que tivesse escapado @ justia dos homens, peniténcia podia con sist numa peregrinagao, mais ou menos dstante conforme a sravidade do crime. Durante a Kdade Média, certs jursdigoes civis também chegaram a impor, vez por outra, para crimes pesados (parricidios, estupros etc), uma peregrinagio a um local remoto, que apresentava a vantagem de manterafastada « individuo falkoxo, Finalmente os tribunais da Inquisigée nio se privaran, em seu periodo dureo, de impor aos hereges esse cexilio provisério. Se a peregrinacio, a essa altura, chegou consttuir uma punigfo, foi por eomportar uma parcela inegi- vel de sofrimentos, sobretudo tendo em vista que se Ihe podiz sgregar disposttivos especificos: andar de pés descaleos, ou ainda entravado, evar argolas de metal nos bracos, no pesco 0, eujo ferro (is vezes forjado com a arma do crime), aps meses de cansago e suor, acabava algumas vezes rompendo: sc, Mesmo sem estas terrveis condigées, guentar por longos meses a chuva, 0 fio 0 as queimaduras do sol (pois 0 peregr no fica absolutamente exoss) podia tornar-se um verdadero calvirio, Ontem tanto quanto hoje, os pés acabavam se trans formando num poco de sofrimentos sem fund: ferimentos su purados, achaduras dolorosts... O ritual da lavagem dos pés do peregrino a0 ser acolhido num mosteiro,além da dimensio de humildade erstca, faz lembrar que eram por exceléncia um avo constante de cuidados, ‘Ao testemunho de sua fée 8 expiacio de seus eros, acres ccenta-se, quando st caminhs, 0 objetivo de pedir: Quer se tena ‘um parente, um filho, um amigo doente, quer se sfra pessoa: mente de uma doenca grave, parte-se para ir pedira intervencio cle-um santo juntoa seu timulo, como sea simples oragio Fosse insuficente © a prece devesse ser feta mais diretamente, com voz resscando sobre 0 timalo. S6 que isso implica caminhar bastante antes, para aproximar-se do local sagrado apenas quan- do se estiver purficado pelo padecimento e pelo esforgo. Pois ‘6 cansago purifica, dest o orgulho, E com isso a oragio fica mais transparente. Tendo assim atingido o ponto mais préximo possivel 20 local santifcado, expressa-se seu pedido com a hu: mikdade de que 05 pés gastos e as vestes corrodas pela pocira so testemunhas. Ou entio, quando se € 0 proprio enfermo, chega-se 0 mais perto possivel do timulo, fica-se agarrado a leo méximo de tempo possvel, auma posi¢io em que a maior superficie possvel do corpo esteja em contato com o relic. A seguir, deita-se nio muito longe dali, na esperanca de que a 6 ~ Cortes Vue Piet potinca iradiante do lugar insufle no corpo doente, durante a oie, uma forca que o regenere. Por meio da peregrinagéo,trata-e, por fim, de agradccer a Deus por ama graca especial que se teria recebido, uma salva io ofertada, um dom concedido, uma saide devolvida, Des: se modo, Descartes, por ter tido a iluminagio de seu método, realiza uma peregrinacio até Notre-Dame-de-Lorette. Sem tanta pretensio, milhares de fis que um dia pediram a Deus 1 socorr, aa i priprios ou para os seus, e que viram suas pica ser atendida,langaram-se depois estradas amo ao local ‘agrado mais pr6ximo, para manifestar sua gratidlao, Eniretanto faze necessiria deixar essas imagens mais des botada, relatvizar as lendas. Tem-se tendéncia a adotar para 0 peregrino a representagio de um andarilh solitério,segurando Seu basto, cm sua tosca vestimenta de burel, A trovoadasolta seus estrondos, a chuva estende seus vastos © grossos cortina- dos. J se fez noite, ele bate & porta dos mosteiros, imensa, na fachada iuminada pelo fulgor repentino los ros, com pedras monumentas, Na verdade, por razbes de seguranca as peregr- nagDes cram feitas em grupos pequenos e, de mais a mats, nfo raro a cavalo, sobretudo para distincias enormes. O que nao dlispensava da obsigagio de desmontar assim que 0 ponto de chegada se tornasse visivel, assim que se avstasse a ponta afl dda da lereja ou a silhueta de ume torre de catedal. A parte final tinha de ser percarida a pé. A exigéncia de terminar andando com as préprias pemas comporta viriasligdes.E primeiramente tum lembrete da pobreza crstica. Humildade: aquele que cami- ‘nha é 0 mais pobre dentre os pobres, O pobre tem exclusiva mente © corpo por tnica riqueza. O caminhante € filo da terra (Cada passo & uma confissio de gravidade, cada passo prova que | uma ligacio e martela a terra como uma sepultura definitiva, Peeginogte prometida, Mas & também que a caminhada € srdua, ela requer um esforgo repetide. Ngo se aborda corretamente um lugar s3- sralo sem ter sido purificado peo sofrimento, ecaminhar exige um esforgo indefinidamenterelterado. (Oscaminhos importantes para os cristios so antes de tudo ‘os de Roma ou Jerusalém. Jerusalém, no século II, representa para os crstios a peregrinagio absoluta enquanto realizacio da presenca:pisar © mesmo chio que ele pisara (it oy ab stead puis git, como diz © Salma), percorrer o préprio caminho do ‘alvirio, encontrarse na mesma paisagem, aproximar-se do ma deo da Cruz, parar junto 3 gruta onde ele flava seus dscipu los, Mas as grandes desordens politicas e soca difcultam cada ‘vez mais o camino. Em pouco tempo Roma se torna uma des tinaggo mais segura. Doisapéstolos maiores Is repousam (Pedro « Paulo). Roma é, de pronto, sacramental: amigo coragio da Iron catlica instieuida, Efewuar a pensitto romans signlicava um ato de submissio perfeta, uma homenagem plena de adesto a Tere na plenitude de sua missio histérica.E depois, desde 1300, grandes anos de jubilew sio decretados, drante os quais ira Rom, li efetuar um dado percurso de um santo a outro (Sto Pedro de Roma, Sio Joo de Latrio, Sto Paulo Fora dos Muros..) acarretava para 0 peregrino a remissio completa de seus pecados, Por conseguinte, lugar de testemunho mas tam- bém de salvacio ‘Compostela € 0 lkimo dos destinos maiores. Conta-se de Sto Tiago — um dos tes preletos do Cristo, 0 primeiro dos apéstolos mértires, decapitado & mando do rei Herodes ~ que cle teria sido transportado por seus discipulos numa embarcacéo fa earns ‘que acabou encalhando nas pralas da Galicia. Ali, teriam cui cladosamente levado 8 tera firme 0 pesado timulo de mérmo- re; que foi prontamente esquecido... Até aquele famoso dia em ‘que um eremita de nome Pelgio vislumbra em sonho anjs que the revelam a exatalocalizagio do tala, enquanto no mesmo instante, todas as noites, o céu aponta uma diregio por um ras tro de estrelas. Seré construdo um santuério sobre a sepultura redescoberta, em seguida uma igre, por fim uma catedral. E a visita aa santo se transformaré numa das mais Famosas peregt rnagoes, vindo a ocupar rapidamente sua posicio ao lado das de Roma ¢ Jerusalém. Para explicar 0 inacreditével erescimento dessa destina lo eujo desenvolvimento ocorreu tardiamente, alega-se haver motivos de comodidade. Obviamente tratava-se de um santo maior, mas antes de qualquer coisa seu timulo era de mals cil acesso (colos mals cémodos,regides sossegadas) do que os dle Pedro ou Paulo (mesmo que a distincia permanecesse apro- ximadamente a mesma partindo-se do Norte), e de qualquer forma ficava certamente mais perto do que Jerusalém. Outeas razbes, mais misteriosas © contundentes, explicam o éxito da peregrinacio a Santiago: 0 proprio esplendor do caminho ¢ da narrativa, No que diz respeito a Roma e a Jerusalém, cada uma das duas cidades contém dentro desi uma tal intensidade mis tiea que o caminho que leva até elas nfo pode ser nada além de tuna série comprida, quase indiferente, de balizas, de media bes. O esplendor do lugar queima a singulavidade das etapas «que conduzem a ele. Tanto mais que, quando ji se esté I, uma nova trajetriainstala-se. Assim sendo, em Roma, vai-s da ba ica de Séo Pedro a So Joo de Lato, de Sio Paulo Fora dos Muros até Santa Maria Maior, de Santa Cruz de Jerusalém a Sto Lourengo Fora dos Muros, Vsitam-se as catacumbas, longos Pevasinegdo— ‘corredores onde se alinham as tumbas dos primelros mértres. Depois do mais longo caminho retilineo completa-se, na Cia de everna, 0 verdadero pereurso sagrado, Em Jerusalém, algo diferente, uma vez mais: para os crs ‘tos, sdo as etapas da Paixio que se deve cumprit: Depois de recolher-se no santuirio do Santo Sepulero, deve-se refazer 0 caminho da Cruz (Viadloest), subir, este da Cidade, o monte das Olveiras que presenciou a Agonia; passear nos jardins do Getsémani, os da dima noite aleangar © Cenéculo, aris das muralhas, sobre a colina de Sif, 20 pda qual una Igreja ainda assinala © local onde Sio Pedro renegou trés vezes 0 Cristo Pode-se até prosseguir bem mais adiante em directo a Belém, uma caminhad de dass horas, e pode-se, mais paraa frente ain- dla, em mais a0 norte, ating as margens do lago de Tiberades, a6 do Cristo quando crianca; ir conhecer, em Nazaré, a gruta dda Anunciagio, Assim, tanto em Roma quanto em Jerusalém, & depois que se chegou que comeca a auténticaromari, Em Santiago, hi uma s6 catedeal,bilhanclo com seu Fulgor litri, dnica como 0 sole 0 termo. E avistada desde o monte do Gozo ¢ faz gitar de felicidade o peregrino exausto, que des ‘montaimediatamente se esté a cavalo ou tra os calgados se ests andando a pé porque se deve chegar ainda mais hurilde, Che gar a Santiago € verdadeiramente cheyar o exten Als, seré ‘que sta situagio geogrifica nfo tera também contribuido para magia de Compostela: localizada no extremo ocidente da Ei ropa (caminhar,escreve Thoreau, ie para o Oeste), no fim do mundo (ins er: para além, estendlia-se um mar que por longo tempo pareceu definitivo)? Para irem diregio a Santiago, tinh se de acompanhar impertubavelmente o movimento do so [Nao se fla do caminho de Roma ou de Jerusalém como se fala dos caminhos de Sanciago. A intensidade mistica do emule etre iar eae nko € to forte, tio arrebatadora, que possa relegar para den: tro da escuridio da noite a longa estrada que leva a ele. Mais certo seria dizer que em compensacio ela oilumina, Compos- tela encerra a viagem, mas nio a anula E justamente © que leu ensejo 20 sucesso de Santiago, foi tanto o caminho quanto © destino Final. A grandeza mistca da peregrinacio da Cali- cia resulta da sacalizacdo que ela soube dar 20 caminho bem como ao santusrio. O caminho, ou melhor, os caminhos, Qual ‘caminho tomar, qual aventura? © grande achado de Compos ‘cla foi te insttuido caminhos tracados, com etapas definidas, visitas obrigatGrias: quatro estradasprincipsis,inumerveis ou tras secundrias. Quando se partia de Vézelay, depois de fcar recolhido diante do timulo de Maria Madatena — depois cle ter vert lagrimas por aquela que havia banhado com as suas os és do Cristo ~ inse até Noblat, no sepulero de Leonardo, libertador dos que estio assentados mas trevas"; partindo-se de Tours onde se encontra 6 corpo de Martinho, para-se em Angely onde descansa a cabega venerivel (onrandan caput) de Sio Joao Baptista, em seguida em Saintes onde se pode fcar «em recolhimento junto a0 corpo de Santo Eutrdpio, morto por 150 agougueinos, de Santa Maria do Puy-en-Velay(oia Pods), in-se venerar o corpo de Sainte Foy, virgem e mriy,em Con- ‘ques; partindo-se da tumba de Saint Gilles, se visitara 6 corpo de Saint Semin em Toulouse... Dessa forma, Guido Perino de Santa, coletanea do século XII inserida no Cade caitins, nos ‘expe tantositnersrios quantos possam exisir onduzindo de lum a outro corpo de santo, todos milagretos, todos levando & cura; de tmulos a outros timolos mais, todos autores de mila ses insignes. E essa repeticio da presenga santa se desdobrava ‘em paralels arquitesonicos as grandes lgrejas da peregrinacio se parecem., Sio irmis no eaminho de Compostela. Estradas Pe assim salpicadas de santasrios em consondncia uns com 05 ot tros, mas também de monastérios para dar abrigo © alimento aos peregrinos de uma noite de hospedagem para dar acolhi- dla aos exaustos is vezesThestrazer as derradeiras consolacoes, smas estrada também que existiram tlvez na mesma proporcio ‘que os capitulas de um grande lio, Joseph Bédker, historiador da literatura medieval, chegou a escrever: “No principio era a estrada", No principio, queria dizer, do relato, do romance, clo poema épico, No principio de nossa literatura, encontrar rmosasestradas da peregrinacio. Sua tese era de que as cangBes de gesta nasceram dai, da poeira das estradas de Compostela, [A peregrinaco era compric, Parava-se paraa noite © contav se entre si durante os serdes 2 versio épica que se tinha ouvido ‘uma outra noite. Difundiam-se novos episédios, justapunham se sequencias, até que, a0 fim e 20 cabo, se formasse um tinico ppoema de bom tamanho, aquele que a escrita teria registra, (O milagre de Compostela ¢ exatamente este: ter completado fo milagre do santo maior (rims ex apes, diz 0 cintico de caminhads) pelo da estrada, Ganinhor re losis Regencrago e presenca ) isis cee print enconsan-se una wari tum mito: 0 mito da regeneracio e a utopia da presen, Gosto de pensar que Sio Tiago representa tio plenamente as virtues da romaria também por ser tio como a primeira tes ‘emunha da Transfiguragio do Cristo. A transformacio interior Permanece sendo 0 ideal mistico do peregrino: deve-se dela re- ressar absolutamente alerado, Essa transformacio transparece ‘também no vocabuliro da regeneracio, daa presencafrequen- te mas proximidades dos lugares sagrados, de uma fonte, um bed, um rio: elemento lustral onde e mergulha a fim de sae purificado, como que lavado de sl mesmo — cabe lembraraqui a petegrinagio dos hindus as fontes do Ganges. Como exempto dessa utopia do renascimento pela cami nihada, podemos citar a peregrinagzo a Kailash no Tibete, uma montanha esplendidamente s6, cUpula de gelo pousada sobre um planalto imenso e constituindo, para muitaereligibes orien "ais, um lugar sagrado: o centro do universa" A partida se dé Lina Anagarka Govind, Le Chen Nags les Pring fon Ma nea Tt Pais, Abin Mick 1968, Regenerade «presence — sy nas grandes planicies da india, iata-se entio de vencer véras ceentenas de quildmetros através das cadeias montanhosas do “Himalaia, akernando os desfitdeiros gelados com os vales bai xosesufocantes, A estrada éextenuantee inclu todas as etapas €riscos dae montanhas:trilhasingremes, rochedos a pico. Vai se perdendo aos poucos, 30 longo do caminho todo, sa ident lade suas lembraneas, para nio se tornar nada mais do que wm ‘corpo que no para de andar Depois de passar por um colo, chega-se finalmente a0 vale ddo Porang. E completamente outra paisagem: uma mineralida> de brrlhante, transparente. Acabaram-s as rochas sombrias que ‘encimam picas nevados, acabaram-se as florestas de pinheiros nnegros com suns echarpes de brumas brancas. Sé resta0 puro € simples contraste entre a terrae 0 céu. Uma paisagem de inicio do mundo, um deserto cinza, verde e bege. O peregrina, es- vatiado de sua histra,atravessa essa transparéncia dra, mas jf entrevé, a0 longe, uma nova cadeia de montanhas, regular, cintilante. Ee j4 no 6 mais nada, e 0 serpenteamento entte es ses lagos negros, essa colinas douradas, essa terra de chum: bo, € sua Ligéo das trevas, Um dltimo colo deve ser cnazado para aleancarenfim a Tera dos Deuses. A coragem para tanto the € dada pelo incrivel esperéculo de uma capula branca que se entrega 8 sua vist, pousada tal qual um sol de gelo que se pa, imével: € 0 cume do Kailash que sobressu, guia, cham Por fim wltrapassa-se 0 passo do Gurla, a mais de 5 mil metros de altitude, ¢ aia impressia transtorna, como um clario du radouto, aprofundando-se na alma: subitamente, a imensiio, definitiva. Abaixo, estende-se um lago, de um azul profundo (Manasirovar). Eo Kailash finalmente revela-se em sun massa enorme, repousante, cabal. Oar € de tamanha pureza que toda forma faisca, A montanha sagracla est af, diante do caminhante, 14 = Ganishar, ama Hosta umbigo da tera, eixo do mundo, centro absoluto, E 0 peregr 1, confrontado a vertigem dessa visio, se vé a um s6 tempo vencedor € vencido, Toda paisagem absolutamente grandiosa fulmina e a0 mesmo tempo transpassa ce uma energiavitoriosa aquele que a conquistou caminhando, Dois movimentos 0 per- ‘orem simultaneamente:soltar um grito de vit6ria e chorar. E ‘que ele sobrepuja a montanha com seu olhar, mas a visio tam bbém o esmage, A vibracio inacreditével de que © caminhante fica sacudido provém desse duplo movimento contraditério, ‘Mas também, para.o peregrina da Kailash, a despersonalizacio perseguida havia meses deu lugar a um vazio que de repente se preenche: af est, bem af, aqui, bem na minha frente! E esse sentimento acha-se exacerbado pela presenca de mares de [pequenos monticulos bem ao redor (erés, quatro, cinco pedras ormando uma piramidezinha),testemunhos cle milhares de pe- regrinos que, como ele, conheceram 0 exgotamento e o éxtase. A impressio de presenca que se depreende dessas inumerivels ‘oferendas minerais, come flores eternas sobre o solo, é enorme: isso produz uma espécie de vibracio porque cada qual parece avenar, como se estivéssemos cercados de fantasmas, Falta ainda dara vole da montanha sagrada, « isso leva vé rios dias oto oriental imps, de fato, que sed, caminhando e rezando, a volta de um lugar santo (circumbulagio),¢ 0 Kailash 6 ppor assim dizer, um templo natural, um monumento sagra slo que os deuses teriam esculpido no gelo. Mas, sobretudo, uma derradeira provacio aguarda 0 peregrina: o passo Dla, 5.800 metro, que permite descer de volta aos vals. Uma vez ‘que tena atingido essa alturas inamanas, glacai, 0 peregrine ddetém-se, deita-se sobre as pecras feito um moribundo e vol 1a 0 pensamento para todos aqueles que ele io soube amar, rezando por ees, reconcliandorse com seu passado antes de Regeneragio «presence abandond-lo definitvamente. Em seguida, ele desce até 0 lago dda Compaixéo (Gauri Kund, cor de esmeralda) para lvar-se de sua identidade, de sua historia. E 0 fim do ciclo, Contudo 0 peregrino no renasce para si, mas para 0 desapego de s,paraa indiferenca pelo tempo, paraa benevoléncia universal ‘A peregrinagio também tz consigo uma utopia de renas- cimento césmico, Iso & particularmente verdadeiro no caso dla grande caminhada do feel realizada pelo povo dos huicho: les, no México, Essa comunidade, que vive em regides mon- tanhosas completamente isoladas da Sierra Madre, percorre em pequenos grupos, a pé, todos os anos (a partir do més de ‘outubro, depois da colheita do milo), mais de quatrocentos aquilémetros de caminhos de pedea e pistas poeirentas até 0 deserto de San Ls Potosi, onde cresce o peiote, um pequeno cacto sein espinhos que conjuga virtues medicinaise poderes alucin6genos. Colhem-no em grandes cestos de vime e voltam, para casa cantando, Esse longo trajeta é cuidadosamente preparado, na adela, com sacifcis e rituais, a exemplo da caca ao cervo em cujo sangue deverto ser mergulhadas as principals oferendas dest nada aos grandes deuses que se acharao ao longo do percurso. (Cada participant levaré urn nome ritual durante a viagem, teri tuma colocagio rigorosamente determinada na sequéncia de cominhads, personificaré um deus ou uma fungo, se obrigaré a jejuns consderdveis, bebendo apenas em momentos certos, impondo-se uma abstinéncia sexual rigorosa, ¢ se submete- no quinto dia da viagem a uma confiss3o pblica completa ‘Com essa peregrinagio, trata-se de chegar a Wirkla, a terra dos Antepassados, onde cresce o peiote. As etapas so sempre as mess, estipuladas pela tradicio desde os primérdios dos tempos, Durante o trajeto, 0 xama que os guia~ ele sabe todas at una Filosofia as histéras © conhece todas a formulas de protecia e de sa dagdo ~I€ a paisagem percorrida coma as piginas de um gran de livro. Ante uma inflexio do caminho, ele se detém, formula hhumildemente um pedido, a seguirabre o espago vazio, varre-0 ccrimoniosamente com as plumas de seu bast3o sagrado: ele pode transpor a “Porta das Nuvens”. Cada porta consttui um acesso a um novo espago sagrado, Ao longo de todo o camino, 0s relevos, a posicio das drvores, a disposi¢éo dos rochedos ‘ém uma historia: agu as pedras espalhade sobre 0 solo sto tum feixe de flechas esquecidas por um Antepassado distaido, ali um conjunto de brejos representa o umbigo das nascentes ‘do mundo (aquela poca Jamacenta& pura ¢ simplesmente uma ppezada deisada por algum deus, de onde jorra uma fonte). E preciso fazer uma fonge parada, procederaablugbesrituais, dar oferendas, plantara beira d'éguaflechas ornamentadas com pe- nas. E depois se retoma ajornada, para alcangar enfim 3 mont ‘nha do sol numa paisygem de aridez absoluta, Nas imediagdes da montanha est situada a tera dos Ante passados, Os semblantes dos peregrinos fecham-se: 0 sitio esti saturado de mitos, de presencas sagradas, De repente 0 chee dla expedigao anuncia ver um grande cervo. O recolhimento é total. Seguem o chefe, No local da apargio, ele dirize a ponta de uma flecka em diregSo a0 sola: os chifes do cervo invsivel ‘caem para o chio, em seu ugar aparece um grande cacto, Com Isso repete-se a propria histéria do deus, pois o peyllnasceu «quando a divindade do Sol enviou wma flecha de luz sobre 0 dleus-Cervo, cujos cifres; 20 ealrem por tera, se transform ram no preciosa cacto, Ao redor do pete, iniciam-seas inva- cagoes,faz-se uma profusio de oferendas e conjura-se 0 cacto 8 dacaos peregrinos sua poténciae sua magia Sé entio 0 xami aranca-o pel raiz€ dé um pedaco a cada um dos peregrinos, Regenerag « wesenee = 17 que-0 comem, enquanto recita a farmula: “Ta que vieste buscar a vida, eisa vida". Os peregrinos passario tres dias em Wiriku ‘a, apanhando & planta sagrada, enchendo com cla seus cestos de vime, ingerindo um pouco dela cada noite até bem tarde (os sonhos de cada um sio entio cuidadosamente aalisidos ¢ dleterminam a vida € a organizagio sociais do ano vindouro). E depois eles retamam a estrada para vencer a péos quatracentos ‘uilémetros da volta Se os huicholes relizam essa vingem, € sem divida para ecolher um cacto que serve para os indigenas de remédio uni versal, de estimulante, mas € também para zero mundo surarse (O peiote representa uma divindade do Fogo, ele forma, com 0 milho ¢ 0 cervo, uma trndade sagrada. A mitologia registra que primeira expedicio fol onganizada por um deus primordial faquele que triunfo das trevas e da morte) a fim de impor alternincia da estagio seca e da estagio das chivas, o equlbrio das poténcias do Fogo eda Agua. E dessa parila que depende vida: o mitho exige gua e sol, Repetr essa expedicao origin ria € garantie o equitrio cosmico, & garantira estabilidade do universo, E preciso caminhar para fazer © mund srars, Mito, pois, do renascimento, pessoal ¢ césmico, ‘A peregrinacio envolve também uma utopia da presenta i se mencionou a importincia dos relicirios enquanto destnacio privilegada das romaras. Com efeito, penetrando no santero, trata-se de estar ditetamente frst: presente para o corpo da santo que esté de fto ai mesmo, sob seu manto de mirmore «faz com que sua forga se iradie de tal mancira que a peda Fica plenamente carregada, presente paraa colina sobre a qual se esparramou a somibra do Salvador e que dela conserva por assim dizer um eco eterno, Nao é mais uma questio de sims bolo, nem de imagem, nem de representagoes: esti a. Mas & ab Seine sea lo preciso chegar ls caminhando: por si s6 a caminhada, que leva algum tempo, assenta a presenga, Quando nos encontra- mos no sopé de uma montanha, se fomos nos acereando dela -vindos de longe, no € apenas o lho que capts uma imagem: © corpo, com sua came e seus miisculs, foi alimentando-se dela or um bom tempo. A imagem nao passa de uma simples apr: sentagao. Salo de um veiculo ¢ estou postado na frente de um ‘monumento, uma Igrea ou um Templo: vejo-os, examino seus detalhes, mas so imagens. Delas tomo rapidamente canheci- ‘mento, tro uma nitida fotografia: uma imagem de uma imager A presenca & 0 que toma tempo: é preciso verde longe, a partie da aeima colina de Avallon, surgir 2 Madalena de Vézely, € depois ir aproximando-se devagas,observar como a bixando transforma-a lentamente, é preciso perdé-la e depois reencontré-la, entrevé-la ~ mas a0 caminhar sabemos que ela csté parada ae nos atrai. Quando finalmente o peregrina larga 1 mochila © pode parar porque ele conseguix, chat, ele quase nem precisa concretizar por meio dos olhos da came essa visio ‘conquistada: seu corpo jd esté preenchido com ela até a panta dos dees dos pés. Enido todaajornada fica transfigurada, Cheggar caminbanda ‘squee lugar cujo nome fez sonhar o dia inteiro, cujo aspecta se imaginou longamente, lumina, de modo retroativo e compen: satério, o eaminho. E 0 que fo efetuado com fadiga e por vezes {édio, perante essa presenga absolutamente sélida que justifca tudo, passa a consttuir uma série de momentos necessirios & slegres. Caminkartorna o tempo reversivel, Regeneracdo eprsenca — ag O caminho cinico (sheers dam bom canine sine eda OD ss que ea oretrataesvencialmente em pé, patteando en tre 0s disciples, andando de ponta a ponta 80 longo de una ceolunata ou de ua alameda, detendo-re em pouco, em seg dladando meia-vlta eetomando acaminhada em sentido con- teri, sempre seguido de alunos sliitos. E assim que Rafael cer seu famosa quad (A Escola de tows) pinto 0 filsofos chs Antiguidade: de pé,andando a psso firme, com um firme deo em iste Séertes, como se sabe, nlo conseguia fear quet, viva sndando de I par cé na Sg0%, sobretudo noe dss ems que 0 mercado funconava e havia grande aflaénca de pessoas. Ede Jonge er possve owir suas indagacdes incessantes. Mas no cade caminhar que ele gostava, rade iter com a pessoas nas gas publics ov nas imediagdes dos estos, Xenofonte rela (em sun obra Memo’ que *Sécrates sempre vveu s clara. Vi pela manha ele frequentava os paseadouros os inisios; nos tas de mereado, li estava lee passa 0 tempo no local onde Lia.a melhor chance de encontrar o maior amero de pessoas, falondo e indagando incessantemente” (1,10). Mas nem por Orcamisho eins — oy isso Séerates foi um grande caminhante, Em Fairs, ns 0 vemos Iniferente aos passeios,avesso a0 campo: « Natureza no The diz grande coisa (2308) Uma mencio muito eliptica, em Didgenes Laérci, leva 8 pensar que Platio talvez pudesse ter ensinado enquanto cami hava (Vides « Daivinas ds Flr Tastes, I, 27), Aristétees, por sua vez teria recebida desea mesma prtica su alcunha de Passeador” (feito, id, ibid, V2), A menos que seia uni ‘camente em razio de seu local de ensino que o tenham apeli dado assim: pois ele estabeleceu sua escola ( Liceu) ocupando tum antigo gindsio, as margens do Ilisso, que dispanha de um peristilo (um peritts). Pein significa "passear” e em grexo significa também “conversar’, “dialogar caminhando”. Diége nes Laércio releta, acerea de Avistteles, que ele tinha pernas rmagras e que decidiu sentar-se assim que se vu com um némero considerivel de dscipulos Entre 0s estoicos ja no se ensina caminhando, pelo con trévio, € como na escola de Epiteto, o mestre se dirige a um piiblico que deve ser imaginado imével e que ele inerpela Quanto aos epicurista, que ndo tinham lé grande apreco nem pela agitacio nem pelo movimento, é preciso pensar neles ca mafledos pelos jarins, dialogando tranguilamente & sombra dlas grandes irvores. Os dinicos sibios gregos autenticamente caminhantes fo sam os cinicos.' Sempre a vaguest, a vadia, a zanzar pela ras, O termo “cinco” dea do gregh, 0 co. Desiges um personage tujo modo de vids era mato vide, que ocipso tempo needa ri te goto e ue decir x Npocriss clo mando Fine muito lange do Sieicade aa de “cinismo', que et rae para 0 at deta 9 madi Ae proto de um sistema, stm diva menor importa so valores ma tlementae. hat, une Flrcia ‘Como eles. Sempre na estrada, indo de uma cidade a outr, de uma praca péblica a outra Alig, € pelo seu porte, pela sua aparéncia fisica que eram reconhecidos. Tém nas mos um bom bastio, sobre os ombros tum pono esnesso que thes serve ao mesma tempo de cobertor, cde manta € de teto, € tiracolo carcegam um saco contendo uma que outraninharia? Ji eaminharam tanto que mal precisam calgar-se-a planta dos pés virou uma sola de couro, Ou entao se contentam com sandilas. O peregrino da Idade Média se ase rmelharéa eles, porém os predicadores das ordens mendicantes mais ainda, Mas nfo € para evangelizar qué cles caminham, © ‘im pata provoear, inquietar. Exercem a arte da diatribe, ndo a cla pregagdo, Insultam, chacam, agridem verbalmente, Depois da aparéncia,é sua linguagem que permite identi fici-Jos. Apesar de pouco falarem: na verdade, eles ladram. Sua fala € aspera, agressiva. Uma vez que chegaram & praca pablica, tendo aleangado sua destinagio apés dias de caminhada, vale a pena escutélos a voeiferar,discursar para o povo amontoado, ‘spremido, empilhado, totalmente empolgado com essas rect sminacdes furiosas, se bem que ligeiramente apreensivo também. Pais cada qual €diretamente acusado e se vé questionado quan: to a seus hibitos, seu comportamento, suas convicgbes. Nao se trata nem de longe de grandes demonstracdes elaboradas ou de dissertagdes moras. O efnico lade: latidos euros, mas in sistentes. Mais parecem uma série de intimagdes, ce zombaras rmordazes que rodopiam, dle maldigbes em disparada, Veetn-se desacreditados, ridicularizados, arrastados na lama ‘oulos os comprometimentos e todas as canvengées casamen: to, 0 respeito as hierarquias, a cupidez, 0 egofsmo, a busca de pees Lar, da Fl Bats, VL 2. (Oeiteeeeat sts reconhecimento, as covardas, os habitos, 0s vicos, a rapacida de, Nada fica de fora, eu 6 denunciado, acusado, tratado com, zombaria, a comecar pela condicio de némade. ‘A filosoiacinica et ligada situa de carninhante muito além das aparéncias da errincla, na verdade segundo dimensies de experigncia inerentes is grandes peregrinacbes ¢ que, quan: 4 importadas para as cidades,vtam dinamie. (O cinico por sua vida grossir,eistica, faz valer uma pri mira experignca: o elementar E bem verdade que ele se en contra confrontado aos elementos em sua propria forca, sa plena brutalidade: vento glacial, o aguaceiro,o sol escaldante Fice-se i mereé deles pela caminhada, tanto quanto peas piva {es sem domiclio nem possessio alguma, Mas € pora que ele reencontra uma verde dessa condo primitiva.O elementar € averdade daquilo que ¢ firme, resiste, no fica na dependéncis de circunsténcia alguma. © clementar enquanto verdadeiro € selvagem e participa da energia das elementos. O filésofo que se podera cassifcar como “de escritério” s€ compraz em opor a aparénca i esséncia. Por tris da cortina do espeticulo sensivel, por tris da capa das visbilkdades, ele ‘quer discerniro essenciale puro, esforcando-se em fazer rs plandeces, para muito além das cores do mundo, a eternidade ‘ransparente de seu pensamento, O sensivel € mentita, disper: ‘do cambiante das aparéncias, 0 corpo, um véu, ea verdade ver dladeira estéunida dentro da alma, da mente, do espitito. © cinico rompe o jogo dessa oposicio classica, E que ele ‘io val buscar, no vai reconstruir uma verdadle para além das aparéncias. Ele a desemboscaré de dentro da radicalidade da Imanéncia: logo absixo das imagens do mundo, ele encurraa fo que as sustenta, © elementar: nao hi nada de verdadeiro a no ser 0 50,6 vento, a terra, 0 céu. O que eles tém de ver adeiro é seu insuperével vigor. Poi 0 sensivel que o filésofo sméivel atravessava para ir refugiarse no intligivel eterno ainda «ra excessivamente complexo e variado. Tudo se achava i em. baralhado: casas, florestas, monumentos, precipicios. Nao era ‘para vitrapassar as aparéncias com tanta pressa, pelo contrério, 8 auténtica ascese € aprofundar-se nas coisas, eavar no sensivel até encontrar o absolutamente elementar enquanto energi, até quele ponto que resist. Mas se essa descoberta pde 0 cinico para andar (ele no & tum ermitio vivenda sazinho da respiragio do Ser), € que ela € politica: deve servir pata que estoure 0 carter inrisério das trandes posturas do filésofo, ombros recurvados, encolhido sobre suas riquezas interiores, para que estoure a pobreza de suas verdades de essencia, a superficialidade de suas ligdes € Ue seus livros. A verdade so os elementos tomados em seu vigor selvagem: 0 vento batenda na pele, 0 sol faiseante, a5 tempestades que sio de estarrecer. Passar por tals experién ‘is é 20 mesma tempo, captar uma energla arcaica que faz rir los rictos solenes do sibio. A segunda experiénca, suscitada pelo estado de némade, 6 ado er. Muitos escritores da época apresentam o escinda lo dos cinicos acusando-os de se alimentarem de care crua Diogenes nia teria morro tentando comer um polvo vivo? idem VI, 74 (Onraneaes Mas nao € 56 2 crueze dos alimentos: seu linguaar € cru, © também seus modos. Porém esse crueza, ess rustcidade de sua condutae de sua condicio, énovamente aqui uma méquina de guerra conta uma ‘outra grande oposigio cléssica. O filgsofo sentado apraz-se em