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Wakulima ­ A voz do camponês africano

Newsletter da Via Campesina África I • No. 0 •  Dezembro 2009 

Editorial Assembleia das mulheres rurais da África


Austral:
Caros Amigas e Amigos da Vía 
Campesina em África,
Estamos imensamente 
Guardiãs da Terra, Vida e Amor
satisfeitos(as) ao vos enviar esta  (Província do Limpopo, África do Sul, de 28 a 30 de Outubro de 2009)
primeira edição de "Wakulima", 
uma publicação mensal da Via 
Campesina África (Região 1). 
Wakulima significa 
“camponese(a)s” ou 
“agricultores”, “aqueles(a) que 
trabalham a terra”, na língua 
Kiswahili, uma língua local 
comum em vários países da 
nossa região.
Esta publicação tem como fim ser 
a Voz de todos(as) os(as) 
camponeses(as) e pequenos 
agricultores em África,  Foto: Tineke D'haese
particularmente na África Austral, 
na África Oriental e na África  C om  o  tema  « Gardiãs  da  Terra,  da  Vida  e  tentar encontrar soluções através das suas 
do  Amor »,  a  Assembléia  das  mulheres  lutas  e  campanhas  conjuntas.  Na  sua 
Central. Nela encontramos o dia a  declaração  final,  vem  escrito :  “  Para  nós, 
rurais  reuniu  250  mulheres  vindo  de  9 
dia dos pequenos productores do  países  da  África  austral  (Botwana,  Lesotho,  Terra  é  Vida,  É  uma  expressão  da  nossa 
sector familiar africanos(as): as  Malawi,  Moçambique,  Namibia,  África  do  existência  e  parte  integrante  do  nosso 
suas dificuldades, as suas lutas  Sul,  Swazilandia  e  Zimbabwe),  ecossistema,  no  qual  nós  sobrevivemos 
mas também os seus sucessos.  representando  organizações  de  como espécies  –  a  água,  as  sementes,  as 
Isto é também um modo para  camponeses,  pequenos  agricultores,  de  plantas  e  animais  de  pequena  espécie. 
todos(as) nós ficarmos a  mulheres rurais, sindicatos agrícolas e ONG.  Nossa  cultura  e  humanidade  estão 
conhecer melhor esta parte do  Estas mulheres se reuniram na provincia de  profundamente  enraizadas  na  terra  e  na 
mundo e nos conhecermos  Limpopo na Africa do Sul entre os dia  28 e  forma como usámo­la. Para nós a terra é a 
melhor uns aos outros. 30  de  outubro  de  2009,  para    debater    os    base para o futuro dos nossos filhos e para 
Tentaremos sempre ter este  problemas  comuns  que  elas  enfrentam,  e  a restauração da  dignidade  e  esperança.” 
boletim traduzido nas 3                                             (Continua pág.2)
“principais” línguas do continente: 
inglês, francês e português. Por  Notícias de Madagascar International
favor sintam­se livres em traduzi­ Copenhaga: La Via 
lo nas vossas línguas locais se  Açambarcamento de terras Campesina junta­se às 
pensarem que isso será util e de 
interesse para os vossos povos. ainda é actualidade em  mobilizações
Tentaremos ser um espelho dos 
maiores desafios e da 
Madagascar (Pag. 2) Pequenos camponeses 
actualidade, para as  podem esfriar o planeta 
organizações que são membros 
(Pag. 3)
da Via Campesina, mas também 
reflectir no que está a acontecer  Notícias de Moçambique 
no nosso movimento a nível 
internacional, e em questões de  Jatropha! Uma armadilha 
interesse noutros países na  sócio­económica para o 
nossa região. 
Esperamos que nosso boletim 
país (Pag.4)
seja do vosso agrado.
A Redacção Notícias de Região: Uganda e Tanzânia (pag. 3)
Wakulima ● Via Campesina África I. Dezembro de 2009 2
Mulheres rurais da África Austral: Guardiãs da Terra, Vida e Amor
“A  crise  económica  mundial,  a  crise  alimentar  e  crise  energética  e,  protejam  a  nossa  biodiversidade,  a  atmosfera,  o  meio  ambiente, 
especialmente  a  mudança  climática  são  todas  criações  dos  ricos  e  sementes  tradicionais,  e  os  nossos  recursos  aquáticos;  que  os 
poderosos,  contudo,  os  pobres,  especialmente  as  mulheres  rurais  nossos governos e a SADC protejam os nossos mercados locais 
que  são  as  produtoras  de  alimentos  e  guardiãs  da  vida,  sentam  do  dumping  das  comidas  baratas  que  compromete  o  alcance  da 
frente  a  pratos  vazios  e  vão  para  cama  com  fome.  Todos  nossos  soberania alimentar da região; que os nossos governos e a SADC 
governos  comprometeram­se  a  reduzir  e  a  erradicar  a  pobreza  e  a  criem medidas de prevenção do despejo dos resíduos sólidos que 
fome até 2015 para cumprir com os Objectivos do Desenvolvimento  destróem a vida nos nossos solos, rios e oceanos; que os nossos 
do  Millenium.  É  irónico  que,  em  pouco  tempo,  os  governos  dos  governos  e  a  SADC  aloquem  mais  recursos  para  a  luta  contra 
países  ricos  foram  capazes  de  encontrar  bilhões  de  dólares  para  doenças evitáveis ligadas a pobreza (tuberculose, malária) e que 
afiançar os bancos (os agentes do capital financeiro), mas depois de  implementem  um  plano  de  acção  urgente  para  controlar  e 
anos  e  anos,  eles  não  mostram  a  mesma  vontade  em  encontrar  erradicar a pandemia do HIV­SIDA; que os nossos governos e a 
recursos  para  resolver  o  problema  da  fome,  da  mudança  climática,  SADC reconheçam que a poligamia, como prática cultural, oprime 
etc.”, continuam. as  mulheres  e  desencorajem  esta  prática;  que  os  nossos 
“A  soberania  alimentar  da  região,  as  nossas  sementes  tradicionais,  governos  e  a  SADC  reconheçam  que  a  violência  doméstica  e  a 
as  nossas  formas  de  produção  local  e  tradicional  estão  a  ser  violência sexual estam a destruir as nossas sociedades e por isso 
desgastadas  também,  uma  vez  que  os  nossos  governos  fazem  é  necessário  um  programa  comum  que  possa  fazer  uma 
muito  pouco  para  proteger  a  agricultura  local,  beneficiando,  deste  reciclagem  da  nossa  polícia,  do  nosso  sistema  judiciário,  das 
modo, a agro­indústria de grande escala que privilegia os lucros em  nossas  instituições  culturais  e  sociais  e  do  nosso  sistema  de 
detrimento dos seres humanos.” ensino.
Para as participantes, a assembléia foi muito estimulante, já que 
A  declaração  final  também  faz  referência  ao  flagelo  do  HIV­SIDA,  foi  a  primeira  vez  que  um  evento  dessa  natureza  acontecia  na 
que  está  intimamente  ligado  a  práticas  culturais  tais  como  a  nossa  região  do mundo.  As  mulheres  subiram  nos  minibuses  de 
poligamia.    Em toda região há uma crescente preocupação com o  volta  para  seus  países,  cheias  de  uma  energia  renovada  e  de 
facto  de  que  as  relações  polígamas  são  a  base  da  opressão  e  esperança,  e  já  combinaram  para  2010,  talvez  em  Moçambique 
exploração de muitas mulheres rurais.  desta vez, para a sua segunda assembléia regional.
Após  três  dias  de  analise  aprofundada  dos  problemas  que  elas 
enfrentam  no  seu  dia  a  dia,  as  mulheres  formularam  as  seguintes  Nota: A assembleia foi coordenada por Women on Farms Project 
exigências:  que  os  governos  da  região  cumpram  com  os  seu  (Africa  do  Sul),    African  Institute  for  Agrarian  Studies  (AIAS, 
compromissos  feitos  na  declaração  de  Maputo,  onde  todos  ZImbabwe),  Eastern  and  Southern  Small  Scale  Farmers  Forum 
concordaram  em  alocar  10%  do  orçamento  geral  para  agricultura;  (ESAFF,  Zimbabwe),  Land  Access  Movement  South  Africa 
que  destes  10%,  pelo  menos  60%  deviam  ser  alocados  para  (LAMOSA),  União  Nacional  de  Camponeses  (UNAC, 
pequenos  agricultores;  a  eliminação  de  reformas    agrarias  e  Moçambique), Namibia National Farmers Union (NNFU), National 
reformas  de  posse  da  terra  baseadas  no  mercado,  e  em  seu  lugar  Small  Holders  Farmer’s  Association  of  Malawi  (NASFAM),  Trust 
leis  de  acesso  a  terra  que  beneficiem  os  povos  e  as  comunidades  for  Community  Outreach  &  Education  (TCOE,  Africa  do  Sul), 
locais; que os nossos governos e a SADC programem  medidas  que Escritorio da Via Campesina Africa 1 (Moçambique).

Açambarcamento de terras ainda é actualidade em Madagascar
No ano passado, ouvimos muito sobre o caso da empresa  Madagascar  (CPM,  membro  da  Via  Campesina),  sente  que 
sul­coreana Daewoo, e do contrato supostamente assinado  há  um  perigo  real  para  os  agricultores  do  país,  mais 
com o governo de Madagascar, sobre o aluguel de 99 anos  especificamente  em  13  distritos  das  províncias  de  Sofia,  e 
de  1,3  milhões  de  hectares  de  terras  aráveis  no  país,  ou  lançou um apelo para as autoridades locais e nacionais para 
seja,  metade  do  montante total  de  terras  cultiváveis. Após  não  assinarem  acordo algum  com  Varun,  e  estão  pedindo 
uma  série  de  protestos  a  nível  nacional  e  internacional,  e  solidariedade internacional em apoio à sua luta. Para maiores 
como um dos  pontos de  discórdia  na  complicada  situação  informações,  ou  para  enviar  uma  mensagem  de 
política  neste  país,  parece  que  a  questão  Daewoo  foi  solidariedade  aos  nossos  amigos  de  Madagascar,  por 
deixada  de  lado,  mesmo  se  a  sociedade  civil  e,  favor escreva  para  cpm@moov.mg  com  uma  cópia  para 
particularmente,  os  camponeses,  estão  ainda  à  espera  de  vcafrica@gmail.com
um  anúncio  oficial  por  parte  do  atual  governo.  Mas  há 
agora  outra  situação  de  preocupação  para  os  pequenos 
agricultores  e  comunidades  locais  da  ilha:  as  ações  da 
Varun, a  gigante  do  aço  indiano,  principalmente  nas 
regiões de Sofia e Atsinanana. Essa empresa, que chegou 
a  Madagascar  em  março  de  2008,  anunciou  que  iria 
exercer  atividades  de  exploração  mineira (urânio, petróleo, 
entre  outros recursos  naturais), mas  depois  de 
terem criado  várias  empresas  de  direito  Malgaxe,  têm 
também  projetos  em  agronegócio,  razão  pela  qual  eles 
precisam  de  enormes  quantidades  de  terras  férteis  já 
ocupadas  por  centenas  de  famílias  de  camponeses.  *Fontes: Comunicado de Imprensa do colectivo Défense des Terres 
Devido à essa situação,  a  Colaição  dos  Camponeses  de  Malgaches e La Coalition Paysanne Malgache, no. 20, Set­Out 2009
Wakulima ● Via Campesina África I. Dezembro de 2009 3
Notícias da região
UGANDA TANZÂNIA: Fúria pública trava a 
Depois  de  um  duro  debate  entre  os  membros  da  Assembleia,  investida do agrocombustível sobre 
uma  nova  lei  da  terra  foi  finalmente  aprovada  em  Uganda,  no 
último 26 de novembro. A seguir as grandes linhas do texto da  os pequenos camponeses
lei,  que  ainda  deve  ser  sancionada  pelo  Presidente  da 
República de Uganda: A Tanzânia suspendeu investimentos de milhões de dólares 
após uma tempestade de protestos por conta do despejo de 
Um proprietário pode despejar um ocupante apenas através de  pequenos  agricultores,  a  fim  de  abrir  caminho  para  o 
uma ordem judicial, e somente com base no argumento de que  biocombustível. O país não iniciará nenhum projeto de agro­
o ocupante não tem pago o aluguel. combustível  até  que  o  governo  reveja  os  critérios  de 
Um  proprietário  com  ocupantes  em  suas  terras  não  pode  seleção  para  cada  investimento.  O  governo  também 
colocar a terra à venda sem a notificação dos mesmos. suspendeu  a  atribuição  de  enormes  pedaços  de  terra  à 
Um  ocupante  pode  obter  um  certificado  de  ocupação,  emitido  investidores do biocombustível.
pelo  proprietário,  mas  não  pode  confiá­lo  ou  passá­lo  a  outra 
Sob  o  fogo  de  ambientalistas  locais  e  internacionais,  o 
pessoa  sem  antes  notificar  o  proprietário,  e  dar­lhe  prioridade 
governo disse que vai por fim a futuras aquisições de terra 
na compra da terra.
por  investidores  do  biocombustível,  estando  estes 
Qualquer  que  tente  despejar,  despeje  ou  participe  do  ato  de 
pendentes  de  procedimentos  e  políticas  claras  sobre  tais 
despejo  de  ocupantes  legais,  está  sujeito  a  até  sete  anos  de 
investimentos.
reclusão.
Até  agora,  40  companhias  possuem  projetos  de 
O  texto  parece  proteger  um  pouco  melhor  os  ocupantes  de  biocombustível no país.
terra,  que  algumas  vezes  são  comunidades  que  vivem  lá  há  Os  400.000  hectares  para  agrocombustíveis  na  bacia  de 
centenas  de  anos.  Mas  a  terra  ainda  é  propriedade  privada,  Wami  forcariam  milhares  de  produdores  de  arroz  a  deixar 
que pode ser vendida e comprada. suas terras. Isto foi reportado por GRAIN em 2007.
Fonte e artigo completo (inglês):
Fonte: the New Vision on line, www.newvision.co.ug
http://www.theeastafrican.co.ke/news/2558/667648/item/0/

International
Copenhaga: La Via Campesina junta-se as mobilizações 
Pequenos camponeses  carbono, bioenginharia,e outras soluções  sermos respeitados e de sair da pobreza. 
podem esfriar o tecnológicas e mecanismos de comércio  La Via Campesina apoia e toma parte em 
que estão em debate na UNFCC. acções não violentas de desobediência 
planeta! Acreditamos que  estes pontos devem ser  civil quando se justifica politicamente por 
Pequenos camponeses e camponesas de  considerados importantes em Copenhaga.  forma a criar uma sociedade mais justa e 
todo o mundo irão reunir­se em Copenhaga  Acreditamos que as vozes dos povos de  mais digna. Rejeitamos claramente a 
em Dezembro para defenderem a sua  todo o mundo devem ser ouvidas. O  violência como forma de acção bem como 
proposta para resolver a crise climática. A  crescimento de  movimentos democráticos  a violência das políticas discutidas a 
agricultura sustentável e a produção local  globais preparando­se para a Cop 15  portas fechadas. Políticas que permitem 
de facto estam a esfriar o planeta. A  mostra a importância destes assuntos. que as companhias adquiram créditos de 
agricultura familiar e camponesa permite  As vozes dos povos têm muita sintonia,  carbono para desenvolverem plantações 
que o carbono seja retido no solo e usa  podem sussurar ou gritar, cantar ou  de monocultura, são políticas violentas. 
menos máquinas que funcionam com  brincar, elas falam ou debatem. A história  Em povoações reconditas, elas levam a 
combustíveis fósseis e produtos químicos.  dos movimentos sociais mostra que há  despejos, à resisestência dos 
Além do mais se consumimos produtos  também muitas formas de protesto. Na Via  camponeses, à repressões e devastações 
locais, menos energia será usada para  Campesina, a desobediência civil tem sido  ambientais. Condenamos veementemente 
transportar os alimentos por todo o planeta.  parte das estratégias levadas a cabo para  as leis repressivas que estão sendo 
Dado o grande impacto da agricultura  defender a soberania alimentar,  aprovadas em Dinamarca para amordaçar 
industrial na emissão de gases com efeito  combinados com debates, trabalhos  as críticas. A poucos dias da UNFCCC, 
de estufa, uma conversão massiva das  políticos, e a promoção de alternativas  apelamos à mobilização e unidade entre 
monoculturas industrializadas para uma  reais nas nossas àreas. Quando centenas  todos os movimentos sociais na nossa 
agricultura de pequena escala e  de camponeses ocupam uma parcela de  ampla e rica diversidade. Acreditamos 
sustentável e o desenvolvimento de  terra usurpada pelas companhias  que uma democracia confiável só pode 
mercados locais podiam permitir uma  transnacionais, quando centenas deles  ser fortalecida permitindo que pessoas de 
redução massiva de todos os gases de  juntam se em frente a OMC para pedir o  todo o mundo defendam e implemetem a 
efeito de estufa. (1) Combinados com  fim da liberalização do mercado agrícola,  justiça climática, alimentar e social. 
sérios programas de redução do consumo,  estamos a defender o nosso direito à vida. 
tal plano poderia tornar irrelevante  O nosso direito de alimentar o mundo e de  (1 ) Dados explicativos a serem publicados em
Copenhaga – Dec 2009.
qualquer discussão sobre o comércio de nos alimentarmos. O nosso direito de
Fonte: http://www.viacampesina.org/main_en/index.php?option=com_content&task=view&id=811&Itemid=75
Wakulima ● Via Campesina África I. Dezembro de 2009 4
Notícias de  Moçambique
Jatropha! uma armadilha sócio­económica para Moçambique
A UNAC e a ONG Justiça Ambiental se juntaram para realizar  Mito no 4:
um  estudo  sobre  a  produção  de  Jatropha  em  Moçambique.  A  A  jatropha  não  apresenta  nenhum  risco  para  a  segurança 
seguir  apresentamos    o  resumo  do  conteúdo  do  documento,  alimentar  mas  constitui  antes  uma  oportunidade  de 
que  pode  ser  lido  na  íntegra  aqui  (em  inglês):  desenvolvimento para os agricultores de subsistência
http://www.viacampesina.net/downloads/PDF/ReportJatro Em  Moçambique  a  jatropha  é  plantada  em  substituição  directa  das 
plantações alimentares por parte dos agricultores de subsistência e 
Em  Moçambique,  o  debate  sobre  agrocombustíveis  avançou  dado  que  cerca  de  87%  dos  moçambicanos  são  agricultores  de 
firmemente  nos  últimos  cinco  anos,  incentivado  pela  subsistência e produzem 75% do que consomem, surge então uma 
especulação  e  demanda  industrial,  grandes  promessas  e  grande preocupação quando se considera um plano que encoraja os 
interesses estrangeiros. agricultores  de  subsistência  a  cultivar  grandes  quantidades  de 
Só  em  2007,  os  investidores  solicitaram  o  direito  de  uso  de  jatropha. Esta preocupação torna­se ainda mais exacerbada devido 
cerca  de  5  milhões  de  hectares,  em  Moçambique,  quase  um  ao  facto  de  os  agricultores  de  subsistência  possuírem  vínculos 
sétimo da terra definida como “arável” no País, e estão fazendo  bastante  fracos  com  os  mercados  e  a  sua  falta  de  espaço  de 
pressão  para  que  se  criem  condições  favoráveis  aos  armazenamento, a fraca comunicação e nível de informação tornam 
investidores  em  detrimento  dos  direitos  civis  dos  o benefício de plantações lucrativas bastante difícil. (...)
moçambicanos.  Um  bom  exemplo  que  torna  isto  claro  foi  o 
facto de o Banco Mundial ter financiado a Política Nacional e a  Conclusões e Recomendações
Estratégia  dos  Bio­combustíveis  que,  propositadamente,  Este relatório conclui que os argumentos dominantes que defendem 
bloqueia  a  participação  da  sociedade  civil,  traz  menos  a  jatropha  como  uma  plantação  de  biocombustível  segura  que 
transparência  e  que  apenas  foram  disponibilizadas  ao  público  promove a segurança alimentar, uma fonte de receita adicional para 
depois de finalizadas e aprovadas no Parlamento.  agricultores  rurais,  e  uma  potencial  propulsora  do  desenvolvimento 
rural  foram,  no  mínimo,  mal  informados,  e  no  máximo  perigosos. 
Devido  à  falta  de  acesso  à  água  em  África  e  à  grande  Enquanto  que  uma  outra  pesquisa  independente  irá  fornecer  mais 
extensão  da  sua  suposta  terra  “marginal”,  tem  sido  dada uma  detalhes,  esta  pesquisa  questiona  seriamente  a  capacidade  da 
grande  atenção  à  jatropha  como  uma  potencial  cultura  de  produção  de  jatropha  providenciar  um  combustível  e  um 
agrocombustível. desenvolvimento  sustentáveis  em  Moçambique.  Dada  a  tendência 
Porém, muitos questionam os alegados benefícios da jatropha  do  surgimento  de  várias  provas  internacionais  que  demonstram  a 
e  acreditam  que  a  pressa  para  desenvolver  a  produção  de  falha  da  jatropha  em  cumprir  com  os  resultados  esperados,  e  de 
jatropha  em  grande  escala  está  condicionada  pela  má  facto  colocando  em  risco  a  segurança  alimentar  e  a  subsistência 
concepção e sub­estudo do processo, o que poderá contribuir  rural,  este  relatório  recomenda  que  o  apoio  ao  desenvolvimento  da 
para  um  negócio  insustentável  que  não  irá  resolver  os  jatropha  em  Moçambique  seja  interrompido  até  que  as  principais 
problemas  climáticos,  de  segurança  energética  ou  a  pobreza.  questões  relacionadas  com  a  agricultura  de  subsistência  sejam 
Neste sentido, o presente estudo avalia a produção de jatropha  resolvidas e as comunidades rurais obtenham soberania alimentar. A 
em  Moçambique  e  as  afirmações  mais  comuns  feitas  a  favor  sociedade  civil  moçambicana  e  os  agricultores  de  subsistência 
da  sua  produção,  com  o  objectivo  de  delinear  as  diferenças  chegaram  a  uma  conclusão  semelhante  em  2008,  resultando  na 
entre a retórica e a realidade. elaboração de uma declaração com recomendações específicas que 
devem  ser  respeitadas,  incluindo  a  priorização  da  produção 
Mito no 1: alimentar,  maior  apoio  aos  agricultores  de  subsistência  e  maior 
A jatropha cresce bem em terra marginal e pode ter grande  apoio  às  cooperativas,  garantindo  os  direitos  dos  agricultores, 
rendimento em solos pobres respeitando  os  direitos  de  terra  da  comunidade  e  promovendo  a 
Infelizmente,  não  existem  casos  na  literatura  ou  em  qualquer  soberania alimentar.
das  comunidades,  peritos  industriais  ou  indivíduos  Quem é a Via Campesina
entrevistados  que  mencione  um  único  exemplo  que  prove  a 
veracidade disto em Moçambique. Pelo contrário, quase toda a  Somos  o  movimento  internacional  de  camponeses,  pequenos 
jatropha  plantada  em  Moçambique  foi  em  terras  aráveis,  com  e  medios  productores,  sem  terra,  mulheres  rurais,  indígenas, 
fertilizantes  e  pesticidas,  e  mesmo  assim  ficou  aquém  das  jovens  rurais  e  trabalhadores  agrícolas.  Defendemos  os 
alegadas taxas de crescimento e de produção. (...) valores e os interesses básicos dos nossos membros. 

Mito no 2: Somos  um  movimento  autónomo,  pluralista  e  multicultural, 


A jatropha necessita de pouca água e manutenção mínima sem afiliação política, económica ou de outro tipo. Nossos 148 
Em  Moçambique  chegou­se  à  conclusão  de  que  a  irrigação  membros  provêm  de  69  países  de  Ásia,  África,  Europa e  das 
durante  a  fase  inicial  de  desenvolvimento  é  efectivamente  Américas. Para mais informação: www.viacampesina.org
necessária,  mesmo  em  áreas  onde  a  precipitação  varia  entre 
800mm e 1400mm. (...)  
Na  região  “Africa  1”,  os  membros  actuais  são:  UNAC 
(Moçambique),  CPM  (Madagascar),  MVIWATA  (Tanzania), 
Mito no 3:
Landless  Peoples'  Movement  (Africa  do  Sul),  COPACOPRP 
A jatropha é resistente a doenças e pestes
Este estudo revela haver grandes indícios que apontam para a  (RDC),  UNACA  (Angola).  O  escritório  de  coordenação 
vulnerabilidade da jatropha em relação a doenças e problemas  regional, hospedado pela UNAC, está baseado em Maputo. 
de  fungos,  vírus  e  pragas  de  insectos.  (...)  Ainda  de  maior 
preocupação  em  Moçambique  é  o  número  crescente  de  Para mais informação, podem nos 
evidências trazidas tanto por agricultores de subsistência como  contactar pelo email: vcafrica@gmail.com, 
por peritos na área, de que as pestes da jatropha contaminam  telefone fixo em Maputo:
as outras produções agrícolas alimentares em redor. (...). +258 21 32 78 95, 
http://viacampesinaafrica.blogspot.com/