A GAROTA DA CAPA

“Dangerous Ground”

Alison Kelly
Sabrina Nº 940

Ela era um dos rostos mais lindos do mundo... Era anúncio de todas as
revistas...
Conhecida como "o rosto dos cosméticos Risque", Sally Raynor estava em
dificuldades para encontrar um emprego como modelo. Por isso, quando Patric
Flanagan lhe ofereceu um contrato lucrativo, aceitou-o imediatamente. Mas de
repente ela se descobriu em um terreno perigoso: Patric, sensual e devastador,
estava interessado mais em conquistá-la do que em promovê-la como
profissional. E o pior é que ela estava gostando muito de ser conquistada!

Digitalização: Simoninha
Revisão: Allegra

Allison Kelly

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Sabrina Nº 940

Querida leitora,
O mundo das modelos é realmente de dar inveja. Quem não ouviu falar de
modelos que correm o mundo, viajam para mil lugares, fazem fotos
maravilhosas e aparecem em todas as revistas? Sinceramente, quem de nós
um dia não sonhou aparecer em pelo menos uma discretíssima página de
revista? Pois este romance nos mostra que, apesar de levar uma vida de
glamour, uma vida fora do convencional, as modelos são iguaizinhas a nós:
sofrem, choram, amam, lutam, têm sonhos difíceis de ser realizados. Com
uma única diferença: elas são famosas, conhecidas pelo país — senão pelo
mundo inteiro, nós, não!
Janice Florido Editora Executiva

ROMANCES NOVA CULTURAL
Copyright © 1996 by Alison Kelly
Originalmente publicado em 1996
pela Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra
Título original: “DANGEROUS GROUND”
Tradução: Marina Americano
EDITORA NOVA CULTURAL
uma divisão do Círculo do Livro Ltda.
Copyright para a língua portuguesa: 1996
CÍRCULO DO LIVRO LTDA.
Fotocomposição: Círculo do Livro Impressão e acabamento:
Gráfica Círculo

PRÓLOGO

Projeto Revisoras

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Sally desligou o telefone e abriu a agenda; olhando para a semana
seguinte, viu que já havia cinco compromissos cancelados.
— Ah, sim, estou livre para jantar — murmurou. — E do jeito que as
coisas vão, provavelmente estarei livre todas as noites até o fim de minha
vida!
Estranho como se sentia desanimada agora que seu desejo de ter pelo
menos dois dias consecutivos livres se materializara em três semanas sem
trabalho, assim como um futuro igualmente vazio, sem perspectivas.
O mais importante era que sua carreira estava praticamente terminada e,
apesar de que suas economias ainda lhe permitirem manter-se por alguns
meses, a meta que pretendera alcançar lhe estava sendo arrancada
exatamente quando parecia estar chegando lá. Mais uns quinze meses, talvez
doze, e poderia ter se aposentado como uma vencedora. Em vez disso...
Descrente, escreveu a lápis na agenda:
Jantar: Patric Flanagan — 19:30 horas, no Dome.

CAPÍTULO I

Patric Flanagan reconheceu-a no momento em que ela entrou no
restaurante. Imediatamente várias cabeças se voltaram para ela.
Sally era um dos maiores sucessos no ramo de publicidade da Austrália e,
mesmo sem a fama de celebridade, teria atraído olhares apreciativos. Não era
alta demais, mas seus cabelos loiros e ares de princesa a tornaram o sonho
dos fotógrafos e um dos maiores trunfos das companhias de cosméticos.
Nessa noite, usando um vestido preto justo e de gola alta, fez com que
quase todos os homens do restaurante se virassem para seguir-lhe os passos
enquanto se dirigia para a mesa de Patric.
A reação confirmou sua opinião de que se conseguisse fazê-la concordar
com sua idéia, colocaria seu nome em destaque no país em que seu pai tinha
sido um ás da fotografia.
Levantou-se quando sua convidada se aproximou.
— Olá, Patric! Desculpe pelo atraso mas, sexta-feira à noite, fica-se à
mercê dos táxis.
— Não há problema. Não costumo executar belas mulheres por estarem
alguns minutos atrasadas.
Ela não lembrava qual a impressão que Patric Flanagan lhe deixara no
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encontro anterior, mas lembrou-se de que fora no funeral do pai dele. Por isso,
o chamado dele na semana passada, convidando-a para jantar, fora um tanto
surpreendente.
Ela teria aceito o convite pelo simples fato de ele ser filho de Wade, mas a
alusão de Patric de que o encontro poderia ser benéfico financeiramente para
ambos lhe despertara um interesse ainda maior. O fato de ele ser o homem
mais sexy que conhecia, não tinha nada a ver com isso!
— Imagino que você não tenha alguma objeção a champanhe? A pergunta
dele foi acompanhada por um sorriso devastador.
— Não, gosto de champanhe. — Ela sorriu, desejando ter tido coragem
para pedir uma cerveja. Por estar desempregada, seria uma estupidez se
prender ainda à imagem que a agência de publicidade da Risque Cosméticos
criara para ela.
— Então, Sally, como foi que tive a sorte de conseguir marcar um jantar
em sua agenda?
O sorriso era puro charme, mas a pergunta era uma abertura. Decidiu
manter as cartas fechadas.
— Não tenho tido muita vontade de sair desde a morte de Wade, mas
jantar com seu filho me pareceu um modo apropriado de terminar meu
isolamento.
Fez uma pausa quando o garçom chegou com a bebida e esperou pela
aprovação de Patric para o champanhe.
— Melhor deixar isso para a Srta. Raynor — disse Patric, para o garçom.
— Eu mesmo sou um bebedor de cerveja e de uísque.
Sally registrou um toque de nostalgia na afirmação. Automaticamente
tomou um gole do champanhe importado e sorriu satisfeita para o garçom.
Quando ele saiu, dirigiu o olhar para Patric.
— Deve ter herdado de seu pai o gosto pelo álcool. — Ela sorriu.
— Depois que tive idade para beber, meu pai não estava por perto o
suficiente para me influenciar de um jeito ou de outro.
Havia um toque de acusação na resposta, mas os olhos dele diziam que
não ia prosseguir nesse assunto.
Baixando os olhos, Sally consultou o cardápio enquanto tentava descobrir
as mensagens que esse homem enviava.
O olhar apreciativo nos olhos dele quando chegara não fora imaginação
sua: já vira esse olhar em muitos dos homens que encontrava. Mas Patric
Flanagan também parecia enviar uma desaprovação ativa, e ela não tinha idéia
do motivo. Seus sentidos captaram uma corrente sutil de hostilidade.
Patric observou sua companheira de jantar, lutar para trazer à mente a
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pergunta que lhe fizera e percebeu que Sally Raynor estava muito longe de ser
o clichê da loira burra.
Acalme-se, disse para si mesmo. Pois, ainda que precisasse tornar-se
eunuco para não sentir o despertar de um interesse sexual por uma mulher tão
bonita quanto Sally, estava seguro porque sabia qual era a profissão dela.
— Quer fazer o pedido? — repetiu com paciência.
— Ah... sim. Quero.
Sally, ele percebeu, era firme quando se tratava de sua dieta, optando por
duas entradas em vez de um prato principal.
— O trabalho a tem mantido muito ocupada?
— Bem... eu...
Patric observou divertido sua convidada tentar driblar a pergunta direta.
— Sim... mais ou menos — disse ela, pouco convincente, os dedos
passeando sobre a borda da taça de champanhe. — Ultimamente não tenho
feito muitas fotos. Fiquei muito abalada com a morte de Wade.
— Você e meu pai eram muito próximos?
— Éramos, sim.
— Pelo que entendi, meu pai foi bastante influente em sua carreira. — Ele
reparou como o olhar dela estremeceu a suas palavras.
— Wade foi a mão orientadora do meu sucesso — contou ela.
— E você sente falta dessa... mão orientadora, não é?
— Wade foi mais do que um mentor para mim. — Patric notou o tom de
desafio na voz dela. — Era um amigo. E de sua amizade que sinto mais falta.
— Estou certo disso.
Sally lançou-lhe um olhar especulativo, mas ao perceber a expressão
impassível dele mais uma vez se perguntou se imaginara alguma implicação no
tom dele.
— Quando vai voltar para o Canadá? — perguntou.
— Não vou. Decidi ficar na Austrália.
— Por quanto tempo? — Ela esperava que a pergunta o dirigisse
diretamente para a razão pela qual a convidara para jantar. Não queria mostrar
de modo nenhum sua ansiedade.
— Para sempre.
— Verdade? Wade disse que você era fotógrafo de um jornal de muito
sucesso no Canadá. O que o fez decidir-se a se mudar para cá?
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Ele sacudiu os ombros.
— Sou australiano, e resolvi que era tempo de voltar para casa.
Ela sorriu, e por um instante Patric distraiu-se. Tentou concentrar-se no
que ela dizia.
— Você tem um... um sotaque diferente, não consigo defini-lo. Há quanto
tempo mora fora?
— Dezesseis anos. O sotaque é um pouco de tudo, imagino. Minha mãe
era canadense-francesa. Quando meus pais se divorciaram, fui para Montreal
com ela. Fiz a faculdade nos Estados Unidos e, como muitos, passei dois anos
viajando pela Europa.
— Eu não fiz isso.
— Nunca esteve na Europa?
— Nunca viajei. Só vi a Europa através de fotografias. Não estou me
queixando — disse ela rapidamente. — É só que uma excursão a pé me parece
muito mais excitante.
— Talvez, mas não posso imaginá-la fazendo isso.
— Por que não?
Um olhar que dizia que ela não deveria ter perguntado foi rapidamente
escondido sob um sorriso.
— Apenas não combina com a imagem da Garota Risque.
— As aparências enganam, Patric. Como fotógrafo, pensei que percebesse
isso.
Ele piscou.
— Talvez. Mas uma mochila não tem lugar para levar um guarda-roupa
ilimitado e cosméticos.
Sally sentiu vontade de atirar o porta-gelo sobre a cabeça dele. Resistiu à
tentação; sua carreira já estava com problemas suficientes sem a má
publicidade que tal ato acarretaria. Desejava poder apagar a imagem fabricada
que o público tinha dela nos últimos sete anos. Um dia conseguiria isso.
— Que idade você tinha quando foi ser modelo? — ele perguntou.
— Catorze. Minha mãe e minha irmã me inscreveram em um concurso de
"garota da capa", sem me dizerem nada.
— E você ganhou.
— Ganhei.
— Foi então que conheceu meu pai?

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— Não.
— Uma das condições para se inscrever no concurso era concordar em
trabalhar com uma determinada agência de modelos por doze meses; mas
nada deu certo. O gerente foi indiciado por pornografia com crianças. — Ela
estremeceu ao lembrar-se de como algumas das crianças que então viera a
conhecer haviam sido exploradas.
— E você foi envolvida?
— Não, eu fui uma das que teve sorte. Se não fosse por Wade, minha
carreira poderia ter terminado tão rápido quanto começou. Seu pai me
preparou um portfolio e o circulou por todas as agências de modelo do mundo.
Recebi convites de Nova York e de Paris, mas acabei assinando um contrato
com uma firma de Sydney.
Ele franziu o cenho.
— Não foi exatamente a escolha que a maioria das pessoas teria
aconselhado. E, meu pai, ainda menos.
— Quando eu tinha quinze anos, era o meu pai que me influenciava mais.
Wade lhe disse que ele iria arruinar minha carreira, mas papai não quis deixar
sua filhinha ir, segundo ele, exibir-se diante de um monte de homens!
Patric observava enquanto as lembranças iluminavam o rosto dela com
prazer genuíno.
— E a opinião de seu pai ainda pesa em suas decisões sobre sua carreira?
A pergunta sugeria que ele duvidava que ela fosse capaz de lidar com
seus próprios negócios, e isso irritou-a incrivelmente.
— Isso pode surpreendê-lo — disse ela, — mas tenho tomado minhas
próprias decisões já há um longo tempo. Até agora, ainda não tomei nenhuma
errada.
— Pelo menos, não até recentemente.
— Do que está falando? — perguntou ela. — Que espécie de decisão
errada imagina que eu tenha tomado?
— A que fez com que a Risque Cosméticos rompesse com seu contrato.
Ele não podia saber! Ou saberia? Dickson Wagner, o guru da publicidade
da Risque e um completo bastardo, lhe dissera que ainda não tornaria pública
sua decisão. Seguro de sua posição de filho do proprietário da companhia, ele
generosamente lhe oferecera mais uma semana para mudar de idéia — e de
moral!
Os olhos castanhos de Patric a observavam, e Sally viu-se engolindo a
saliva. Decidiu tentar descobrir se ele blefava.
— Não posso saber de onde tirou essas idéias, Patric, mas é de
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conhecimento geral que meu contrato expirou logo depois que Wade faleceu. A
companhia, vendo que eu estava abalada, simplesmente retardou as
negociações para um novo contrato.
— Conversa fiada — disse ele direto. — Estou sabendo que, a não ser que
concorde com os novos termos deles; não será mais a Garota Risque.
— E quais seriam esses "novos termos" que você parece conhecer tão
bem?
— Bem, Sally... — ele recostou-se em sua cadeira e passou os dedos por
trás da cabeça. — Não estou exatamente certo...
O suspiro de alívio que ela quase soltou ficou preso ao ouvir as palavras
seguintes.
— Mas sei que não está interessada neles uma vez que seu agente está
tentando lhe arranjar um novo cliente.
— Como sabe de tudo isso?
— Segredos do negócio.
— Você não está nesse negócio — acusou ela. — Pelo menos, não nesse
país.
— Verdade, mas ser o filho de Wade Flanagan me proporciona, digamos, a
vantagem de ter amizades com pessoas do ramo.
— Que pena que não lhe proporcione também uma personalidade
agradável!
Ele riu com um prazer genuíno.
— Você tem uma resposta rápida — ele a cumprimentou. Ela dirigiu-lhe
um olhar seco.
— De alguma maneira, isso não me parece uma gentileza.
Rindo, ele tentou encher de novo o copo dela de champanhe. Ela cobriu-o
com a mão.
— Pensei que você tivesse dito que gostava de champanhe...
— E gosto, mas o único modo de conseguir que eu tome mais será por
meio intravenoso.
Patric colocou de lado a garrafa e afastou-se na cadeira.
— Ok. — disse ele, determinado a parar por aí. — Vamos falar sobre
negócios.
Sally acenou, concordando.
— Minha informação é de que, por alguma razão, você e a Risque não
estão chegando a um acordo sobre o novo contrato.
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— Continue — disse ela.
— Seu agente, Garth Lockston, tem tentado arranjar alguma coisa para
você, mas sem sorte...
— Continue, vamos, Patric — disse ela, não entregando nada. — Se
acertar no alvo, eu lhe digo.
— Minhas informações são de que os clientes novos temem que, por mais
que você mude sua imagem, o público irá sempre associá-la com os
Cosméticos Risque, não com seus produtos. Como estou indo até agora?
Ele acertara na mosca, mas Sally fora muito próxima de Wade para ser
enganada pelo seu filho.
— Ainda estou esperando que chegue aonde quer— disse ela diretamente.
— Para finalizar, sua carreira pode se tornar uma distante lembrança. —
Ela sabia que seu rosto a entregara quando ele ergueu uma sobrancelha e
acrescentou — Acho que você me deve essa, acertei no alvo.
Ela sentiu a raiva crescer.
— Bem, pelo menos um de nós está encantado com tudo isso. O que eu
lhe fiz?...
— Oh, Sally. Pense em sua reputação. Sua carreira.
— Como você me informou, minha carreira não tem muito tempo de vida.
— Verdade, mas tenho uma idéia que pode mudar tudo isso. Uma idéia
que vai colocá-la em um patamar que nem mesmo seu contador jamais
sonhou. É claro...
— É claro, o quê?
— Se não estiver interessada...
Sally olhou para ele desejando matá-lo.
— Sabe, Patric, o mundo seria um lugar muito melhor se seu pai tivesse
sido estéril.
— Ainda espirituosa! — Ele riu. — Afinal, você não é a loira burra que eu
supunha que fosse.
— Sim, sou. — Ela suspirou e empurrou o prato para o lado. — Ou não
estaria ainda sentada aqui. Ok, vamos ouvir como pensa que pode ressuscitar
minha carreira. E o por que — continuou com firmeza. — Você não me parece
ser o tipo altruísta, então o que ganha com isso?
— Uma chance de me estabelecer como fotógrafo de ponta nesse país.
— E isso, então? E o dinheiro não entra nisso, não?
Ele levantou os ombros.
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— Apesar de minha idéia ser lucrativa, é o reconhecimento que me
interessa mais. E é por isso que quero você. Sally Raynor automaticamente
cria um interesse que nenhuma outra modelo conseguiria.
— Mas acabou de dizer que minha imagem de Garota Risque seria um
empecilho para qualquer produto que eu ofereça.
— Ah, mas este é o ponto, Sally. Não quero que você ofereça um produto.
Quero que você mude completamente sua imagem atual. Quero — disse ele —
aquilo que os grandões não conseguiram. Eu a quero nua.

CAPÍTULO II

— Então, o que acha? Você faria isso? — Sally perguntou, enquanto sua
irmã Carolyn colocava à sua frente uma xícara de café.
— Não, Sally, mas também estou grávida de oito meses!
Sally olhou sorrindo para a irmã. Carol era incrivelmente atraente, e seu
QI andava pelo patamar dos gênios.
— Sabe o que quero dizer.
— Sim, sei. O que não sei é se você está aqui por que não se resolveu
ainda ou por que já resolveu e quer minha aprovação.
Sally não conseguiu deixar de rir. Não seria Carol se não fosse direto ao
centro das coisas.
— Meio a meio — disse ela, mordendo um biscoito. — Quanto mais penso
nisso, mais fico tentada. Só não desejo causar a você, a Phil ou aos garotos
nenhum embaraço.
— Ora, vamos! Meus filhos não sabem o significado disso, e eu e Phil
criamos uma imunidade contra isso.
— Simone começa o pré-primário no próximo ano — lembrou Sally. —
Pode ter que lidar com muitos aborrecimentos.
— As chances de que alguém ligue o nome de Sally Raynor com Simone
Michelini é bem remota — disse a irmã. — E se pensar bem, o único problema
que Phil poderá ter será todos do escritório insistirem para conseguir um
autógrafo seu.
— Pensei que administradores fossem sujeitos rígidos, membros sem
mácula da sociedade.
— E são...
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Ambas se voltaram à chegada do marido de Carol.
— Razão exata pela qual você vai ser tia pela terceira vez — disse ele,
rindo.
— Você vai adorar quando eu lhe disser que tenho a chance de ganhar
dinheiro suficiente para pagar as dívidas de papai antes do fim do ano —
contou Sally ao cunhado.
A expressão de espanto dele a fez rir.
— Como? — perguntou ele. — Pelas minhas contas, o máximo que se
poderia esperar seriam doze meses. E isso, presumindo que você renegociasse
o contrato com a Risque com um aumento de dez por cento. — De repente,
seu rosto fechou-se. — Ei... não concordou com os termos pervertidos do
contrato de Wagner, não foi?
— Pelo amor de Deus, Phil! É claro que ela não concordou! Como pôde
fazer uma pergunta tão sem nexo?
— Tem razão. Desculpe. Foi só porque eu queria dar um soco na cara
daquele bastardo.
O pensamento de ver seu cunhado de um metro e noventa e cinco de
altura, acertando o belo rosto de Dickson era muito agradável, mas Sally
também tratou de acalmá-lo.
— Relaxe — disse. — Por mais que eu queira pagar as dívidas de papai,
não vou me prostituir para fazer isso.
Houve um momento de silêncio enquanto cada um tomava seu café. Então
Phil falou.
— Sally, ninguém espera que você pague pelos erros de seu pai.
Legalmente você não tem nenhuma obrigação de fazer isso.
— Eu sinto uma obrigação moral com as pessoas que papai enganou.
— Bobagem! — disse Carol. — Só porque papai tinha um problema de ego
que não o deixava aceitar a idéia de que sua filha ganhava mais dinheiro do
que ele não significa que você seja responsável por isso.
— Quero que pelo menos recebam de volta o dinheiro que papai lhes
devia. E, vocês dois, nunca mais me venham com a idéia de vender essa casa.
— Como se fôssemos gastar nosso fôlego... — resmungou Carol.
Essa oferta era parte da conversa sempre que o assunto surgia. Não tinha
intenção de vender a segurança financeira de Carol enquanto houvesse outra
alternativa.
A casa fora construída pelo pai para a mãe delas. Maria Raynomovski a
deixara em testamento igualmente para as duas filhas.
Carol, Phil e as duas crianças, Simone e Nicholas, viviam na casa. Por
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conveniência, Sally morava em um flat separado da casa por um enorme
jardim, uma piscina e uma quadra de tênis.
— Ofereceram-me um contrato para fazer uma série de fotos nua. Estou
considerando a oferta porque, do jeito que as coisas vão, não há empregos por
aí.
Phil franziu o cenho.
— Tem certeza de que ninguém mais está interessado? Lembre-se de que
você é a melhor modelo do país.
— Claro! E tenho o nome "Risque" definitivamente estampado...
— E esse novo contrato vale a pena? — perguntou Phil. Sally declarou a
quantia que Patric Flanagan havia mencionado. Tanto Carol quanto Phil ficaram
de boca aberta.
— Está brincando? — finalmente conseguiu dizer Phil.
— Meu Deus, Sally! — exclamou
fantasticamente melhor despida!

Carol.

Você

deve

parecer

Sally riu.
— Quem está fazendo essa oferta? — perguntou Phil, citando as duas
maiores revistas masculinas do mundo.
— Nenhuma delas. É um freelancer chamado... — ela fez uma pausa para
dar mais impacto — Patric Flanagan.
— O filho de Wade?
— Ele mesmo.
— Pensei que morasse no Canadá.
— Ele decidiu ficar na Austrália e tentar fazer nome por aqui.
— Bem, algumas fotos da famosa Garota Risque certamente vão chamar a
atenção de todos!
Sally concordou.
— Bem, se for como eu suspeito, ele fizer você assinar que não vai repetir
esse tipo de fotos por dez anos, ou algo assim, então a quantia é justa. —
Sally não conseguiu evitar um sorriso diante da rapidez com que Phil se
colocou no papel de seu contador. — Imagino que ele pretenda vender as fotos
a quem pagar mais.
— Não estou certa — disse ela.
A conversa deles não tinha chegado até esse ponto na outra noite.
Mostrara apenas um leve interesse enquanto Patric dava uma idéia do que
pretendia, tentando não parecer espantada quando ele soltou o que
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considerava ser um retorno financeiro razoável pela façanha.
Dissera a Patric que iria pensar sobre o assunto e recebera uma resposta
fria.
— Faça isso. Mas a oferta está de pé só por uma semana. — Phil a olhava
com preocupação.
— Tem certeza de que ele é direito? Quer dizer, só o fato de ser filho do
Wade não faz dele um rapaz bom. Poderia facilmente ser um tipo esquisito ou
algo assim.
— Oh, Patric Flanagan pode ser um cara diferente de várias maneiras,
mas não é de jeito algum um rapaz simpático — disse ela com rispidez. — É
arrogante, rude, superior e... superficial. — Ela riu. — Mas esquisito? Não, não
acho que seja.
Carol sorriu.
— Pelo que posso me lembrar, ele também é terrivelmente sexy... — Deu
um rápido tapa na mão do marido e acrescentou — Mas, é claro, ele não chega
a seus pés, querido.
— Ah, por favor! Me poupem! Só parei aqui para ter a certeza de que, se
eu decidir fazer isso, vocês não vão se aborrecer.
— Não vamos. Mas lembre-se de que o coro das feministas vai crucificá-la
— disse Phil, enquanto Sally se dirigia para a porta dos fundos.
— Claro — resmungou Sally. — Céus, eu odeio mulheres que dizem a
outras mulheres o que elas devem ou não devem fazer!
— Guarde suas idéias para a imprensa quando eles começarem a bater
em sua porta no meio da noite — disse Carol.
Sally sabia que nenhum deles estava minimizando o impacto do que
aconteceria se aceitasse a oferta de Patric, mas imaginou que, depois de viver
à luz dos holofotes por tanto tempo, poderia suportar isso.
— Sally — a voz de Phil era suave —, Carol e eu estamos do seu lado,
você sabe.
Ela olhou para os rostos queridos da irmã e do cunhado e sorriu, a decisão
tomada.
— Então acho melhor começar a pensar em como vou querer o meu
contrato. Devo me encontrar com Patric em uma hora e lhe dar minha decisão.
Sally olhou para o cartaz vermelho e dourado onde estava escrito "Vendese" que estragava a sóbria elegância do jardim e da bela casa de estilo
restaurada. Era uma dolorosa lembrança de que Wade Flanagan se fora.
Desceu do carro e ligou o alarme. O belo Honda Prelude azul metálico era
seu orgulho. Iria trocar a chapa dele que pertencia à Risque.
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Na verdade, as fotos de nudez seriam a maneira ideal para mudar a
imagem que tinham criado para ela. Como Garota Risque, tinha sido
comercializada como uma moça imaculada, sempre vestida na última moda,
apolitizada. Longe dos olhos do público, Sally odiava se maquiar, vivia de jeans
e adorava passar um calmo fim-de-semana aninhada em um sofá com um livro
de suspense nas mãos.
Chegando à porta da frente, desejou poder ver o futuro e saber com
certeza se estava fazendo a coisa certa... Assim mesmo, tocou a campainha.
Patric Flanagan olhou para o relógio na parede: seis e quarenta e cinco.
Ela estava quinze minutos adiantada. Na outra noite, se atrasara porque era o
esperado; hoje, estava adiantada porque precisava de um emprego. Ele sorriu.
Sally Raynor não ia dizer não.
De propósito, demorou caminhando pelo longo corredor, e seus dedos se
fecharam sobre a tranca da porta quando o som agudo da campainha quebrou
o silêncio mais uma vez. Abriu a porta com um sorriso.
— Você está... — As palavras ficaram presas em sua garganta, e ele olhou
atentamente para o rosto sem maquiagem à sua frente para certificar-se de
que não era uma garotinha de escola. Não, era Sally Raynor, sim. Uma Sally
Raynor que ele mal reconheceu.
Os cabelos loiros, que eram sua marca registrada, pendiam soltos, bem
além da cintura de seu desbotado jeans, e seus pés estavam enfiados em
tênis. Deus! Mulheres de carne e osso não tinham pernas lindas assim!
Subindo os olhos, viu a blusa preta transparente que ela usava, e subitamente
engoliu em seco.
— Sei que estou adiantada — disse ela. — Mas vai me deixar entrar, não
vai?
O som da voz dela fez com que ele voltasse a si. Ok, homem, controle-se!
Você sabia que ela tinha um lindo corpo, ou não teria pensado nela.
— Claro, claro. Entre. O estúdio fica...
— Eu sei onde fica — disse ela, sorrindo para Patric, caminhando pelos
azulejos branco e preto do hall com a tranqüilidade de um visitante freqüente.
Patric ficou sem reação por alguns segundos antes de segui-la,
determinado a ignorar o modo como seus quadris e seus cabelos balançavam a
cada passo. Na outra noite, ela tinha sido elegante e sofisticada; hoje, sabendo
que ele desejava uma imagem diferente, viera com um jeito despretensioso,
uma aparência casualmente sexy. A mudança fora de tirar o fôlego, concedeu.
Sally imaginara que iria sentir a presença de Wade no momento em que
entrasse em sua casa, mas não foi assim. Na verdade, a única sensação
diferente que experimentou foi uma alarmante percepção de uma presença
máscula bem viva! Patric Flanagan tinha um efeito terrivelmente enervante
sobre ela. Na outra noite, vestido com um terno escuro, ele parecia levemente
sofisticado. Mas agora, naquele jeans azul e camiseta branca, o charme foi
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substituído pelo desafio.
Desafios podem muitas vezes
perigosos.

ser divertidos; também podem ser

— Estou tomando chá — disse ele, indo para a cozinha — Quer uma
xícara?
— Não, obrigada — respondeu ela.
— É o melhor que posso oferecer — informou ele. — Não costumo ter um
estoque de champanhe.
Ela não fez nenhum comentário porque estava difícil de falar e morder a
língua ao mesmo tempo. Honestamente, esse homem não herdara sequer um
fiapo do bom humor irlandês e da simpatia do pai.
Pensar em Wade trouxe-lhe um sorriso aos lábios e gratas lembranças,
impelindo-a a observar à sua volta.
Quantas horas não havia passado nessa sala nos últimos dez anos? O
lugar lhe era tão familiar quanto sua própria casa e, no entanto, pela primeira
vez, sentiu-se pouco à-vontade. Olhou para a cozinha e encontrou o olhar
penetrante de Patric. Imediatamente, descobriu a razão.
Evitou-lhe o olhar, determinada a ignorar o calor em seu estômago, e
dirigiu-se às prateleiras que cobriam toda a parede do fundo da sala. Estavam
repletas de álbuns de fotos que Wade acumulara durante anos.
— O que vai fazer com todos esses álbuns? — perguntou, passando o
dedo sobre eles.
— Os troféus de meu pai? Colocá-los num depósito, por enquanto. Não
tenho tempo para vê-los agora.
— Por que você os chama de "troféus" nesse tom? — perguntou ela.
— Porque é o que eles são. Algumas pessoas podem controlar suas
conquistas sexuais colocando marcas na cabeceira da cama. Meu velho
colecionava álbuns.
— Wade não era assim!
Ele sorriu.
— Não era?
— Não! — insistiu ela. — Ele era bom, divertido e... se interessava pelas
pessoas. Sei disso, eu o via praticamente todos os dias nos últimos dez anos!
— Talvez, mas eu cresci com ele.
— Uma pena que não tenha crescido como ele!
— Fiz muita força para ter a certeza de que não faria isso.
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— Não posso acreditar que você o odiasse — disse ela. — Wade foi como
um pai para mim, ele...
— Sim? Bem, com toda a certeza ele não era o pai que eu gostaria de ter.
Sally abriu a boca para defender Wade de novo, mas as palavras
morreram quando Patric diminuiu o espaço entre eles e segurou-lhe o queixo.
Soube que devia fugir mas alguma coisa nos profundos olhos castanhos dele
impediu-a.
Ele observou-a engolir nervosamente enquanto sua mão livre escorregou
sob os cabelos dela e acariciou-lhe o pescoço. A maciez que ele encontrou ali
fê-lo desejar sentir seu gosto tanto assim como o daqueles lábios
entreabertos. A intensidade do desejo que o percorreu foi muito forte, e
quando a língua dela apareceu para umedecer aqueles lábios, quase gemeu
alto.
O conhecimento de que ela sabia exatamente o que lhe estava
provocando foi a única coisa que lhe deu a força para soltá-la e dar um passo
para trás.
— Ouça, você pode ter conquistado o recorde de ser sua amante mais
duradoura, coração, mas não se iluda pensando ter sido a única. Como já
disse, eu não sou Wade. Não durmo com minhas modelos, por mais tentadoras
que sejam. — Ele virou-se em resposta ao assobio da chaleira e saiu tão
rapidamente que ela pensou que suas pernas não a suportariam.
Estava chocada porque Patric acreditava que ela e o pai tinham sido
amantes. Começou a tremer da cabeça aos pés. Era raiva, disse para si
mesma, mas o motivo pelo qual sentia vontade de chorar estava além de sua
compreensão. Claro, provavelmente as lágrimas eram o efeito da humilhação.
Nunca se sentira humilhada antes, mas já que ficara ali desejando ser beijada
por um homem que tinha dela uma opinião tão depreciativa, certamente
sentia-se humilhada.
Viu-o levar uma xícara de chá até a mesinha de vidro, depois sentar-se na
grande poltrona de couro que o pai dele sempre usava. Os gestos eram iguais
aos de Wade, mas sua fria apreciação de tudo, estava anos-luz dos sorrisos
amigos que Wade lhe dirigia.
— Vamos aos negócios — disse ele, rudemente — já que você, pelo jeito,
concorda com minha proposta.
Sally desejou estar em posição de lhe dizer que não trabalharia para ele
nem por três vezes o que ele lhe oferecera. Mas não era o caso e, por mais
desagradável que pudesse ser trabalhar com alguém que a considerava uma
oportunista, Patric Flanagan; ao contrário de Dickson Wagner, da Risque;
deixara bem claro que dormir com ele não era uma condição do emprego. E,
quanto mais rápido concluísse esse trabalho, tanto mais rápido poderia pagar
as dívidas do pai e voltar a ser Sally Raynomovski.
— Vamos, Sally — disse ele. — Sente-se e pare de fingir que está
pensando em não aceitar o trabalho.
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A GAROTA DA CAPA
Sabrina Nº 940

— O que o deixa tão certo de que eu não vim recusar? — perguntou ela,
segurando-se para não agredi-lo.
— Um, não podia ser dito por telefone. Além do mais, se você fosse
recusar, não teria feito aquela pequena cena de sedução de há pouco e — ele
fez uma pausa, de novo passando os olhos sobre o corpo dela — não teria
deixado suas qualidades tão expostas.
— Você é detestável!

CAPÍTULO III

Droga! A xícara de porcelana que estava nas mãos de Sally voou para o
colo de Patric, espatifando-se contra o tampo de vidro da mesa de centro,
enquanto ele se erguia da cadeira, a fumaça saindo da calça molhada.
Cerrando os dentes, rapidamente ele começou a tirar o jeans.
— Você mereceu! — gritou Sally. — Não tinha o direito de... — Engasgou
ao ver uma mancha vermelha nas coxas dele.
Patric empurrou-a para o lado enquanto, apenas de camiseta e cueca
preta, ia rapidamente para a pia da cozinha. Sally, muda, observou-o molhar
uma toalha com água fria e segurá-la contra a pele queimada. O rosto dele
mostrou alívio imediato, e Sally respirou fundo.
— Você não tem escrúpulos! — disse ele, ultrajado. Ela estremeceu.
— Sinto muito. De verdade. Mas o que você disse...
— Moça, se pensa que a verdade dói, deveria estar no meu lugar agora
mesmo. Você ficou aí se insinuando, só podia mesmo esperar...
Sally apertou os punhos, a fúria renascendo ante os novos insultos.
— Não pode sair por aí tentando deixar cicatrizes permanentes nas
pessoas — rosnou ele, molhando a toalha de novo. — O que há de errado com
o tradicional tapa na cara se você quer mesmo se fingir de ultrajada? —
perguntou ele.
Sally estourou.
— Um tapa na cara? — Apanhou a bolsa e as chaves do carro de sobre a
mesa. — Eu não sujaria minhas mãos tocando em você!
Patric colocou uma boa camada de pomada sobre as coxas. Poderia ter
sido pior, e agradeceu por estar usando jeans. Vai levar algum tempo antes de
poder usá-lo outra vez, pensou.
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A GAROTA DA CAPA
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Recolocou a perna na cama e encostou-se no travesseiro. Que fiasco!
Realmente conseguira estragar tudo!
Alguém deveria tê-lo advertido que o temperamento da modelo era
inversamente proporcional ao seu sucesso. Como sua mãe.
Madelene Cheval Flanagan tinha sido uma mina de emoções, e Patric
aprendera, bem pequeno, a detectar os primeiros sinais de seu temperamento.
Quando sua carreira começou a declinar, o ciúme e o alcoolismo tornaram seu
comportamento intolerável, mesmo para aqueles que lhe eram mais próximos;
inclusive Wade.
Patric suspirou. Enfiando os dedos nos cabelos, contemplou o teto. Onde
iria encontrar outra modelo com a popularidade de Sally Raynor? Resposta: em
lugar algum. Soubera disso o tempo todo, e encontrar a Garota Risque bem no
meio de uma negociação de contrato que não a favorecia podia ser descrito
como muita sorte para ele. Então, justo quando imaginara que o negócio já
estava fechado, ele conseguira enfurecê-la.
A coisa mais sábia a fazer seria lhe dar alguns dias para se acalmar, então
voltar a procurá-la. Patric sorriu. Uns poucos dias sem emprego e ela estaria
pronta para renegociar. Ele reconhecia os sinais do dólar nos olhos de uma
mulher quando os via, e eles haviam faiscado como néon nos olhos azuis da
senhorita Risque no momento que mencionara o que estava pronto a pagarlhe.
A campainha de alarme cessou de soar em sua mente e ele sentou-se,
fazendo uma careta.
Era bem possível que ela estivesse pensando em procurar ela mesma uma
dessas revistas de publicidade. E nenhuma delas perderia a chance de publicar
fotos da sensual senhorita Raynor sem roupa! Inferno, eles lhe diriam: "Diga
seu preço!"
O pensamento mandou-o rápido para a cômoda à procura de roupas. Teria
mesmo que rastejar bastante nas próximas horas: uma coisa que nunca fizera
antes...
Patric tentou diversas vezes, sem sucesso, abrir o portão de ferro da casa
de Sally antes de reparar no botão do interfone. No momento em que ela
soubesse quem estava ali, certamente preferiria soltar um bando de
dobermanns sobre ele do que recebê-lo; mas não teve muita escolha. Apertou
o botão e esperou.
— Quem é? — Uma voz masculina ouviu-se no interfone. Patric decidiu ser
cauteloso.
— Ah... Vim para ver Sally. Estive falando com ela mais cedo...
O portão se abriu e a voz disse:
— Entre.

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A GAROTA DA CAPA
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Até agora, tudo bem, pensou ele, seguindo o caminho que levava para
uma enorme casa contemporânea de vidro e ângulos retos. Um rapaz com
cabelos curtos e um corpo de atleta apareceu no limiar da porta.
— Posso ajudá-lo? — perguntou ele, cruzando os musculosos braços, um
deles tatuado com uma adaga e uma borboleta no outro.
— Espero que sim — disse Patric sorrindo. — Vim ver Sally.
— Foi o que disse no interfone, mas não ouvi seu nome.
Patric decidiu que havia só uma coisa a fazer.
— Flanagan — disse, estendendo a mão direita. — Patric Flanagan.
— Oh, certo! — O homem sorriu, adiantando-se para segurar-lhe a mão.
— Phil Michelini.
— Prazer em conhecê-lo, Phil.
— Sally esta na piscina, no fundo — disse Phil. — Use aquele portão ao
lado.
— Obrigado. — Respirando melhor, seguiu o caminho

MO

lado da casa.

Até agora não pensara que Sally tivesse uma vida particular, mas começou
a especular: namorado? Guarda-costas? Ambos? O cara devia ter uns quarenta
e poucos anos, então eliminou a possibilidade de ser o pai dela.
Um holofote iluminava um grande retângulo de água, artisticamente
imitando ser um lago. Ouviu o som de alguém nadando. Chegando mais perto,
parou para observar em apreciativo silêncio as formas suaves da mulher sob a
água.
Não sabia quanto tempo estava ali observando-a mas, quando percebeu,
contava as braçadas que ela dava. Achou que era tempo de dizer alguma coisa.
Como ela se aproximava do fim da piscina, antes que tivesse a chance de
dar a volta para o outro lado, chamou-a pelo nome. A braçada dela ficou mais
vagarosa, e ela escorregou graciosamente para a parede. Então olhou para
cima e perguntou, surpresa:
— Como entrou aqui?
Com o cabelo louro completamente escondido sob uma touca, o impacto
de seu rosto era esmagador; gotas de água brilhavam como cristal na
obscuridade, emprestando uma qualidade quase etérea à pele sem defeitos e à
perfeita estrutura óssea. Patric sentiu o corpo enrijecer.
— Perguntei-lhe como entrou.
— Seu namorado me deixou entrar.
Por um segundo, Sally ficou confusa, mas finalmente entendeu. Decidiu
não corrigir o erro sobre Phil.
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A GAROTA DA CAPA
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— Por quê?
— Acho que ele pensou que eu sou inofensivo — disse ele secamente. —
Talvez porque ele saiba que você é mais do que capaz de defender-se sozinha.
Um súbito sentimento de culpa fez com que Sally dirigisse o olhar para as
pernas dele. Na pouca luz era impossível ver como elas estavam depois do
incidente do chá, mas os músculos firmes estavam bem delineados, assim
como os do braço dele. A aura de sexualidade que emanava dele fez com que
o estômago de Sally se apertasse.
— Quero saber por que você está aqui? — cortou ela, furiosa com a
reação de seu corpo diante dele.
— Vim para me desculpar.
Ele estava em um local em que a luz do holofote mal chegava.
— Oh, claro. Você pede desculpas por ter me deixado atirar chá em você.
— Estou me desculpando por tê-la provocado. E você quem tem que se
desculpar pelo chá.
— Já fiz isso.
— Não percebi — disse ele, erguendo a perna do short para revelar a
marca vermelha. — Mas a dor pode provocar um curto-circuito nos ouvidos de
uma pessoa.
— Oh, Deus! Sinto muito!
A preocupação dos olhos azuis fizeram com que ele exclamasse.
— Ei, não foi assim tão ruim. O chá não estava assim tão quente.
— Isso não desculpa o que fiz. Mostrou isso a um médico?
— Fui até o centro médico. Eles não acham que eu vá ficar com alguma
marca.
— Graças a Deus! — De novo a mágoa nos olhos azuis. O desejo de
consolá-la atingiu-o com tanta força que ele esticou o braço para alcançá-la
antes que seu cérebro o fizesse parar.
Ela foi para os degraus da piscina e começou a emergir devagar da água.
Patric não pôde olhar para outro lugar.
A visão do corpo lindamente moldado pelo maiô fez as batidas de se
coração dispararem e dificultou sua respiração. O maiô de peça única tinha as
laterais altas até a cintura, expondo uma extensa porção dos quadris e um
pouco das firmes nádegas. A visão ainda melhorou quando ela se voltou e foi
para onde deixara a toalha. Rapidamente se enrolou nela no estilo sarongue.
Patric forçou-se mais uma vez a se congratular por sua habilidade em
perceber qualidade a quilômetros de distância. Bem ; pelo menos qualidades
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físicas, e somente no que se referia a negócios.
Usando a ponta da toalha para enxugar a umidade do rosto, ela virou-se
para ele. Estava tão próxima que ele podia ver uma gota que tremia nos cílios
dela.
— Realmente sinto muito pelo que aconteceu hoje — disse ela.
— Sim, bem... Acho que você entendeu mal o que eu quis dizer...
— Entendi mal! — O olhos dela faiscaram de fúria, e Patric perguntou-se
como seu remorso podia ter se evaporado tão rápido. — Dizer a uma mulher
que ela ficou exibindo suas qualidades, para mim só quer dizer uma coisa.
Insultos!
Outra vez ele testemunhou a energia emotiva que não tinha sido
apanhada em nenhuma foto que já vira dela. Nem mesmo seu pai conseguira
segurar isso em algum filme, e fosse lá o que pensasse do pai, reconhecia que
ele era um brilhante fotógrafo.
— O que quis dizer foi...
— Foi o quê?
— Foi que... bem, você foi vestida de maneira a mostrar que podia apagar
a imagem sofisticada da Risque. — Ele sorriu, silenciosamente se
congratulando por sair com uma desculpa tão plausível.
Sally ergueu a sobrancelha.
— É verdade isso?
— Olhe, posso até entender como, estando ansiosa por um trabalho, você
não quisesse arriscar que eu mudasse de idéia...
— Ora, tenha dó! — interrompeu ela. — Se sou eu quem está tão
desesperada para tirar essas fotos, Patric, então por que é que você está aqui?
Ele dirigiu-lhe um sorriso lisonjeiro.
— Acreditaria se lhe dissesse que sou um rapaz com um grande coração
que quer lhe dar uma trégua?
— Nem em um milhão de anos! Você precisa de mim, Patric — disse ela
confiante. — Tanto quanto eu preciso do dinheiro.
— Por quê? — perguntou ele.
— Porque como a Garota Risque; desculpe, a ex-garota Risque; valho
mais para você do que qualquer outra modelo que possa conseguir.
— Não, quero saber por que você precisa de dinheiro? Está claro que se
saiu muito bem nesses anos todos. — Ele estendeu uma mão para indicar a
casa e o terreno todo. — Um lugar como esse dificilmente é barato.

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A pose dela endureceu visivelmente.
— Tem razão. Na verdade, esse lugar me custa mais do que você jamais
saberá — disse ela. — Mas o que eu faço com minha renda é problema meu.
Patric perguntou-se que espécie de extravagâncias a faziam ficar tão na
defensiva.
— Relaxe — disse ele, dando um passo para a frente e colocando a mão
no braço dela com medo que ela pudesse explodir.
O toque da mão dele contra sua pele nua fez correr uma onda de calor por
todo o corpo de Sally. Ergueu a cabeça para encontrar os olhos dele e
subitamente sentiu como se tivesse sido apanhada por uma febre
avassaladora.
Espantou-se com isso. Havia anos que não experimentava sequer uma
leve sensação sensual à presença de algum homem, e jamais a sentira naquela
escala. Que desperdício sentir isso pelo homem para o qual tinha que
trabalhar, e também por alguém de quem não gostava!
— Então, o que pensa de minha idéia? Temos um trato ou não? — a voz
dele finalmente chegou até a mente dela.
— Não tenho certeza de que podemos trabalhar juntos, Patric — informou
ela.
— E por que não? — Os olhos dele brilharam divertidos.— Por que
estamos fisicamente atraídos um pelo outro?
"Oh, Senhor!", pensou Sally. "Ele também sentia o mesmo! Isso tanto a
amedrontava quanto a tranqüilizava."
— Isso é parte do motivo.
— Então, qual é a outra parte?
— Não tenho certeza de que eu particularmente goste de você.
— E daí? Não será a primeira vez que tenho que trabalhar com uma
mulher que não gosta de mim.
— Por que será que isso não me surpreende?
— Diabos se eu sei — disse ele, com um olhar inocente.— Mas não deixe
que isso a atrapalhe. Eu não gosto de aventuras de uma noite e, além disso,
faço questão de nunca dormir com alguém que tenha dormido com meu pai.
Sally ficou vermelha.
— Nunca dormi com seu pai! Wade e eu não tínhamos esse tipo de
relacionamento. O que preciso fazer para convencê-lo disso?
Ele sacudiu os ombros.

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— Nada. Vou acreditar na sua palavra. Agora, há algum lugar onde
possamos conversar sobre os detalhes?
Sally sabia exatamente qual o lugar para onde gostaria de mandá-lo.
Apenas disse:
— Siga-me.

CAPÍTULO IV

Patric esperara que ela o levasse na direção da casa mas, em vez disso,
Sally se dirigiu para a quadra de tênis.
Certamente não se preocupara com a renda quando soltara dinheiro para
essa casa. Não que fosse de sua conta, como ela lhe já lhe informara, mas
especular sobre o estilo de vida dela era bem interessante.
— Quer me dizer para onde estamos indo? — perguntou ele, quando
chegaram a uma cerca de uns dois metros de altura no final do caminho.
Sua única resposta foi empurrar um portão disfarçado na cerca e indicar
que ele devia precedê-la. Foi o que fez, e encontrou-se em um pequeno jardim
gramado diante do que parecia ser uma casa de barcos, ainda que sofisticada;
tinha um pátio pavimentado e portas de vidro de correr.
— O que é isso? — perguntou ele. — Seu escritório?
— Meu escritório — confirmou ela. — E meu santuário.
Sally entrou no apartamento mobiliado com conforto e imediatamente
desejou ter sugerido deixar para o dia seguinte essa discussão. Dezenas de
revistas de moda estavam espalhadas sobre a mesa de centro e à sua volta.
— Sente-se, enquanto me visto — disse ela.
Correu para o quarto. Teria dado tudo para entrar no chuveiro e tirar o
cloro da pele e a tensão de seus ombros, mas estava muito consciente do
homem em seu living para fazer isso.
Abrindo o guarda-roupa, procurou uma calcinha limpa e uma camiseta,
depois um short com pregas para evitar qualquer comentário sobre seu corpo.
Pensando melhor, apanhou também um sutiã. Já era ruim o bastante ela saber
da resposta traiçoeira de seu corpo à presença daquele homem, sem ser
preciso que ele também o soubesse.
Lamentando o fato de que seu cérebro e seus hormônios tivessem tão
diferentes gostos sobre homens, dirigiu-se ao banheiro da suíte e lavou o
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rosto. Foi tirando a touca de banho e, ao fazer isso, fez uma careta de dor.
Contava os dias até que pudesse cortar as tranças loiras que eram sua marca e
deixar os cabelos em um tamanho mais prático.
Atendo-se somente nos aspectos positivos do novo emprego, deixou o
quarto para enfrentar o maior aspecto negativo, que a esperava no living...
Encontrou-o olhando para o quadro de cortiça adornado com dúzias de
fotos branco-e-preto.
— Quem as tirou? — perguntou ele.
— Eu.
— Você?! — O espanto registrava-se na voz e no rosto de Patric. — Não
sabia que trabalhava dos dois lados da câmara.
— É só um hobby. Conheço minhas limitações.
Talvez, pensou Patric, mas era óbvio que ela não tinha conhecimento de
sua capacidade; sua habilidade com a câmara ultrapassava de longe a de um
amador.
— Wade encorajou seu hobby? — perguntou.
— Ele ficou entusiasmado com meu interesse pela fotografia, mas se quer
saber se ele me deu aulas, não, não deu. — Ela sorriu. — Bem, não
conscientemente, mas eu prestava atenção em tudo o que ele fazia ou dizia
sobre fotografia.
— E valeu a pena. Você é boa. Ela lhe enviou um olhar enviesado.
— Pode parar com isso, Patric. Já concordei em posar para você.
— Ei, é sério. Algumas delas são mesmo muito boas. Eu sou fotógrafo,
devo saber.
— E Wade também era e, na opinião dele, eu era competente. Por isso,
não tente me enganar — disse ela.
Patric quis dizer que não era ele, o Flanagan que a enganara, mas para
que gastar o fôlego?
Ele olhou à volta do pequeno flat e mais uma vez percebeu que sua
curiosidade sobre Sally ia além do necessário para trabalharem juntos. Mas
queria satisfazê-la, de qualquer modo.
— Qual é a história disso tudo? — Deixou seu olhar vagar pela sala. —
Quem é o cara lá na casa? É seu...
— Não estou certa de que você precise saber os detalhes de minha vida
privada, Patric — interrompeu ela. — Agora, antes de começarmos, posso lhe
oferecer um drinque?
— Pode me chamar de cauteloso — disse ele. — Mas só aceito se vier da
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geladeira.
Ela dirigiu-se para a pequena e funcional cozinha recusando-se a aceitar o
sorriso que acompanhou as palavras dele.
— Cerveja, suco ou leite? — gritou.
— Cerveja está ótimo. Posso ajudar?
— Ah... não, obrigada. — Rapidamente se virou. Ele estava tão perto que
ambos se encontravam no pequeno espaço formado pela abertura da porta da
geladeira.
— Você tem cabelos lindos — disse ele, erguendo um lado para colocá-lo
atrás da orelha dela, no processo, roçou o dedo contra sua face. O efeito
contra a pele de Sally a deixou quente.
— O... obrigada — gaguejou. — Estou pensando em cortá-lo. Sabe, me
livrar da imagem Risque de uma vez.
— Não antes do meu projeto. Você pode ser abençoada com uma beleza
incrível e um corpo que derrubaria a maioria dos homens, mas seu cabelo é
seu maior trunfo.
— Verdade? Acontece que eu acho que é minha personalidade... mas você
não pode saber nada sobre isso, já que não tem nenhuma. Sua cerveja.
— Obrigado — disse ele, um traço de diversão na voz.
— Copo? — perguntou ela. Ele abanou a cabeça.
— Ah, voltando ao seu cabelo, eu... deixe ver, como poderia dizer isso
com tato...
— Pelo que pude ver de você, Patric, duvido que possa dizer ou fazer
qualquer coisa com tato.
— Neste caso, não vou me preocupar — disse ele. — Você é loira natural?
Porque se não for, podemos ter problema para coordenar a cor durante as
fotos.
Não foi a pergunta que a deixou zangada, já lhe haviam feito inúmeras
vezes durante sua carreira. Não, o que a deixou louca da vida foi o fato de que
ele a estava provocando deliberadamente. Viu-se entre a raiva instintiva e o
bom senso econômico.
— Eu sou realmente loira. Pode checar isso com Phil.
— Esqueça. Vou acreditar na sua palavra. Vamos deixar uma coisa
acertada — disse ele, quando novamente se encontraram sentados no living e
separados pela mesa de centro. — Não quero ninguém falando dessas fotos
com a imprensa. A hora certa para isso vai ser vital para um impacto máximo.
— Tudo bem para mim — disse ela. — Mas conte exatamente como
pretende fazer as fotos. Quero que elas sejam...
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— Não diga nada! Deixe-me adivinhar... você quer que elas sejam de bom
gosto?
— O que eu queria dizer é que quero que tenham sucesso. Acredite, se eu
pensasse por um segundo que você pretendesse alguma coisa pornográfica, já
estaria no telefone e o poria na lista negra com cada agência de modelos do
país.
Ela não estava brincando. Se havia uma coisa que não tolerava era
fotógrafos bem falantes que exploravam os modelos para ganhos pessoais e
alegria dos pervertidos.
— Eu nunca tive tempo para pornografia, Sally — contou ele. — Mas tomei
nota.
— Ótimo — disse ela. — Mas, esteja avisado, vou querer a coisa toda por
escrito e liberada pelo meu advogado antes de tirar uma foto que seja.
— Já esperava por isso. E você também vai concordar em não posar nua
por pelo menos mais cinco anos, até quando meu livro for publicado.
— Seu livro?
Patric sorriu vendo o espanto dissipar a zanga das feições de Sally.
— Isso mesmo. Sabe, Sally, não estou planejando fazer com você um
calendário ou fotos de revistas. Estou pensando em um belo livro, de capa
dura, desses que se deixa sobre a mesa de centro. Penso que, se isso deu
certo para Madonna...
— Você quer publicar um livro todo com fotos minhas, nua?
— Não. Quero publicar um livro inteiro sobre paisagens da Austrália. Mas
preciso de uma isca para gerar o interesse dos editores. Você vai ser essa isca.
Sally recostou-se no sofá e meditou no que acabara de ouvir: iria tornarse uma isca para prender os editores.
— Em outras palavras, vou ser apenas o pano de fundo.
— Oh, não! — disse ele depressa. — Você vai ter uma presença muito
marcante no primeiro plano de cada foto em que aparecer.
— Mas eu não vou estar em todas as fotos, vou? E aquelas em que eu não
estiver serão as que você pretende que sejam as mais espetaculares.
— Ah, Sally. — Patric riu. — Está se subestimando. Onde está seu amorpróprio?
Flanagan não estava interessado em tirar fotos suas, apenas na habilidade
dele como fotógrafo. Sally olhou para ele e não pôde deixar de sorrir. Era claro
que ele se tinha em alta conta.
— O que é que está achando divertido? — perguntou ele, erguendo as
sobrancelhas.
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— Sua arrogância.
— Você não acha que a idéia vai se vender? Duvida de minha habilidade
como fotógrafo?
— Oh, eu acho que a idéia se vende — disse ela, falando a verdade. Na
verdade, achava-a um toque de gênio, mas não lhe diria isso. — Quanto à sua
habilidade... — Ergueu os ombros. — Você é filho de Wade, e isso deve contar
alguma coisa.
— Julgue-me pelos meus méritos, não pelo meu sangue! O fato de eu ser
filho de Wade não entra nisso.
— Ótimo. Mas eu espero uma consideração igual. Só porque você achou
que eu fosse uma loira burra, isso não faz de mim uma.
— Estou aprendendo isso.
Ele sorriu, e a combinação dos belos dentes e dos olhos castanhos e
divertidos tiveram um efeito devastador sobre ela. Forçou-se a voltar a mente
aos negócios.
— E que história é essa sobre paisagens que você mencionou? —
perguntou ela. — Estamos falando de lugares como a Garganta Katherine, a
Grande Barreira de Recifes?
Ele a interrompeu.
— Não, lugares como esses e a rocha Ayers já foram feitos.
Bem, dessa vez eu quero tentar alguma coisa diferente.
— Assim como me expondo. Ele deu uma risada.
— Verdade. Mas também quero focalizar alguns dos lugares menos
conhecidos, áreas de beleza menos arrebatadoras da Austrália.
— Você não pode estar pensando seriamente em sair por aí como um
andarilho pelo país, está?
— Estou. É exatamente o que pretendo fazer.
— Mas isso vai levar anos! — protestou ela.
— Não a sua parte. Já selecionei os lugares em que quero tirar suas fotos.
O seu tempo no projeto não vai levar mais do que três ou quatro semanas.
— Mas como é que vou chegar em todos esses lugares distantes? Não é
como se pudesse tomar um avião. — Ela olhou para ele, cada vez mais em
dúvida. — E onde vou me hospedar? Se não são áreas para turistas não me
parece que vá existir grande coisa como acomodações.
— Verdade — concordou ele. Poderia ter diminuído a preocupação dela
informando que pretendia reservar apartamento no melhor hotel mais próximo
dos locais escolhidos, e fazê-la voar diariamente de helicóptero, ida e volta do
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hotel para o trabalho, mas não fez isso.
Olhou para Sally que, mesmo vestida como estava, parecia a elegância
pura, suas feições perfeitamente clássicas, seus claros olhos azuis e a pele
cremosa e decidiu que estava definitivamente louco. Queria a chance de
romper essa camada que a recobria para ver se ainda havia ficado qualquer
coisa da garota adolescente que se transformara na sofisticada Garota Risque.
Desconfiava que sim, devido aos rasgos de temperamento que ela já mostrara.
Podia apostar que a única maneira de isso chegar à superfície era quando a
mimada senhorita Raynor descobria que as coisas estavam um tanto difíceis
para ela.
— Sally, ainda gostaria de fazer excursões com mochila nas costas?
— Excursões? — Ela franziu a testa. — Quer dizer, pela Europa?
— Não, estou pensando em alguma coisa um pouco mais perto de casa.
Sally sacudiu a cabeça confusa.
— Não sei do que você está falando.
— É simples. Eu estava pensando em ir de jipe aos diversos lugares onde
faremos as fotos. — Fez uma pausa sentindo que estava cometendo o maior
erro de sua vida. — Como é você de co-piloto?

CAPÍTULO V

Sally esperava por Patric. Sentia-se uma pilha de nervos. Nada de
espantar, pensou, considerando tudo pelo que passara nos últimos dez dias.
Foram infindáveis confrontações com o arrogante senhor Flanagan, discutindo
detalhes das fotos, e ricocheteara de uma entrevista para outra.
Tivera encontros com seus advogados e com uma dúzia de representantes
legais da Risque Cosméticos. Depois de tudo terminado, Sally sentiu-se como
se tivesse passado em um concurso.
Olhou para seu relógio de pulso. Patric deveria chegar em dez minutos.
Ele dissera seis horas da manhã, e já sabia da quase obsessão dele pela
pontualidade. Bem, aprendera também que, ao concordar em acompanhá-lo
nesse tipo de safari de fotos, estava provavelmente dando a suas emoções um
tratamento cruel e desumano. Bastava estar com ele no mesmo ambiente para
que sua pulsação se acelerasse. O que era terrivelmente irritante pois nem
sequer gostava dele.
Seu suspiro tornou-se um bocejo. Estava morta de cansaço. Terminara
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suas malas depois da meia-noite, mas ficara acordada até às duas horas da
manhã. O despertador a acordara poucas horas mais tarde.
Ouvindo um carro diminuir a marcha, Sally olhou o relógio, apenas um
minuto para as seis...
Quando Patric lhe contara que comprara um jipe especificamente para
viajarem de um lugar remoto para o outro, visualizara um dos muitos modelos
japoneses que haviam se tornado comuns nos subúrbios de Sydney como
táxis. Certamente não imaginara o básico tipo de jipe que parou à sua frente.
Ela conhecia muito sobre carros, o suficiente para saber que esse era
velho.
— Bom dia — disse ela intencionalmente quando, após descer do jipe, ele
se dirigiu para sua bagagem sem sequer lhe dirigir um olhar.
— Se você diz que é — grunhiu ele.
— Estava apenas sendo polida...
— Não se preocupe. É preciso mais do que maneiras polidas para me
impressionar.
— Verdade? Estou surpresa, já que você obviamente não tem nenhuma.
— Olhe — disse ele, suspirando pesadamente. — Posso muito bem passar
sem seus comentários insolentes a essa hora da manhã. Ok?
Sally não tinha forças para continuar a discussão, mas o olhar que ele lhe
dirigiu quando ela continuou calada foi uma vitória em si. Engraçado, ela nunca
pensara que aquela barba fosse tão sexy... Idiota, recriminou-se mentalmente,
continue sem pensar nada!
— Cuidado com essa — disse ela, tendo visto a maneira como ele largara
as três outras malas no veículo. — Minhas câmaras estão aí.
— Oh? Está planejando um pouco de trabalho por trás das lentes
também?
— Se tiver oportunidade. Algum problema?
— Não, desde que não interfira com meu trabalho.
― Não vai interferir — disse ela. — Posso lhe assegurar que sou
totalmente profissional.
— Ótimo, porque eu não toleraria nada menos que isso. — Ele endireitouse e indicou-lhe a porta do veículo.
— O mesmo comigo, Patric — afirmou ela, subindo no Land Rover.
Ele fechou a porta assim que ela se sentou e deu a volta ao veículo,
sentando-se atrás da direção.

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A GAROTA DA CAPA
Sabrina Nº 940

Patric olhou para o toca-fitas recém-instalado. Uma de suas paixões era o
rock, mas depois de três horas som bem poderia mudar de tom. Até uma
conversa serviria, mas Sally havia desligado quinze minutos depois que
deixaram a casa dela, e os olhos dela continuavam fechados desde então. Sem
dúvida, a noite passada tendo sido sábado, ela ficara até tarde se despedindo
em uma das dispendiosas casas noturnas de Sydney.
Desejou poder culpar sua própria falta de sono a uma vida social, mas a
verdade era que sua mente tinha estado ativa demais para reconhecer que seu
corpo precisava descansar.
Na última noite, após checar tudo mais uma vez, desde o carro até a
bagagem, deitara na cama às dez e meia, como preparação para sua partida
matinal.
Mas cada vez que fechava os olhos via imagens de Sally. Sim, Sally. Era
sua imagem intrometida, e isso já lhe acontecera mais de uma vez durante a
semana, mas na noite passada fora pior.
O barulho de um caminhão ultrapassando-o fez com que olhasse para o
velocímetro; estava andando apenas a cinqüenta quando a velocidade máxima
era de cem quilômetros por hora.
Aborrecido, sacudiu-se sem tirar os olhos da estrada e esticou o braço
para apanhar o porta-cassetes que estava no pequeno assento entre o
motorista e o passageiro. Um choque o fez retirar a mão e olhar rápido para
sua esquerda.
— Desculpe — murmurou Sally.
Ela estava aconchegada contra a porta, com as pernas enfiadas sob o
corpo e seus longos cabelos se espalhavam sobre ela como um xale.
— Pensei que ainda estivesse dormindo — disse ele. Forçou a atenção de
volta para a estrada, determinado a ignorá-la.
— Alguma coisa particular que queira ouvir?
As palavras dela estavam enrouquecidas pelo sexo: não pelo sexo! Bateu
na direção com o punho. "Sono, seu idiota. Sono!"
— Não me chame de idiota — voltou ela, cutucando seu braço.
— Não, não você! — disse ele rápido, mortificado por ter falado alto. —
Estou falando comigo! Ah... pensando alto.
Ela lhe dirigiu um olhar curto, perscrutador, então tirou os pés do assento,
virando as costas para ele. Pela próxima meia hora nenhum falou, e o tocafitas continuou silencioso. Avistando um posto de gasolina à frente, Patric
diminuiu a marcha, fez sinal para a esquerda e entrou no estacionamento.
Desligou o motor e virou-se para ela.
— Sally. Me desculpe. Não sou boa companhia de manhã.

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— Pelo que vi até agora, a hora do dia tem pouco a ver com isso!
Sally desceu do carro, tomada pela necessidade de colocar alguma
distância entre ela e o companheiro de viagem. Patric Flanagan era o sujeito
de humor mais complicado que já encontrara.
Soltou um gemido alto no momento em que alguém lhe agarrou o
antebraço e a puxou para trás. O motorista do carro, passando milímetros a
sua frente, berrou alguma coisa sobre seu intelecto e sua visão.
— O mesmo para você! — retorquiu ela, segundos antes de perceber o
que quase acontecera. Bastante perturbada, não ofereceu nenhuma resistência
quando seu salvador virou seu corpo trêmulo e abraçou-o.
Seu cérebro, como seu coração, disparou. Mais um passo distraído e teria
acabado sob as rodas do carro! Limpou os olhos e forçou-se a respirar
profundamente uma, duas vezes.
Como era bom sentir-se segura assim contra um firme peito masculino,
roçando seu queixo contra ele. Mesmo sem olhar, Sally soube exatamente no
peito de quem estava roçando o queixo.
— Sally, você está bem?
Ela ergueu a cabeça para olhar para ele. A preocupação que viu em seus
olhos a surpreendeu. Ela sorriu, sentindo-se ridiculamente feliz.
— Sim, estou bem.
— Bem, trate de ser mais cuidadosa para o futuro! — disse ele, erguendo
os braços que estavam à volta de seus quadris.
Bem feito por pensar que a preocupação dele era por ela, pensou Sally,
sentindo-se embaraçada ao perceber como se agarrara a ele.
— Como é, Sally! Pare de sonhar! — escutou. — Eu planejei essa viagem
direitinho e não pretendo perder tempo.
Ela ficou tentada a mostrar-lhe que essa parada fora idéia dele, mas não
disse nada. Em vez disso, enviou-lhe um aceno e, desta vez verificando se
vinha algum carro, atravessou correndo a estrada em direção à porta marcada
"Senhoras".
Cinco minutos mais tarde, usando boné de beisebol e com o cabelo preso
em duas longas trancas, entrou no restaurante. Depois de pedir café e duas
torradas, deu uma olhada pela sala tentando avistar Patric. Ele não estava em
nenhuma das mesas ocupadas, então ela se dirigiu para uma das vazias e
sentou-se.
A torrada estava cheia de manteiga, do jeito que ela gostava, e o café era
instantâneo e fraco. Um, em dois, não estava mal. Mordiscando a torrada,
olhou pela parede de vidro ao seu lado para a atividade que se desenrolava no
posto.

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A GAROTA DA CAPA
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Olhou para onde o Land Rover estava estacionado e mais uma vez
espantou-se com o carro. Esperara que Patric tendesse mais para o luxo do
que para algo mais durável e prático. E quanto à bicicleta para trilhas presa na
parte traseira do jipe...
O ônibus de um time júnior de críquete abriu a porta para deixar sair um
grupo de adolescentes e dois adultos exaustos e, atrás deles, um ônibus de
turistas estacionou também. Na mesma hora, o nível de barulho no
restaurante aumentou.
Apesar de parecer difícil alguém a reconhecer em jeans amassados e
camiseta branca sem mangas, o cabelo trançado e enfiado sob um boné, isso
já acontecera antes; Sally podia imaginar a bronca que receberia de Patric se
seu programa de viagem fosse atrasado por que ela fora gentil com quem lhe
pedisse autógrafos.
— Onde está o meu?
Virou-se, assustada com a pergunta.
— Como?
— Meu café — disse Patric. — Onde está?
Ela apontou para o balcão, agora escondido por um monte de pessoas
mais idosas do ônibus de turistas.
—Ah, muito obrigado! Não podia ter pedido o meu quando pediu o seu?
— Não pensei nisso — respondeu com honestidade.
— Alguma vez você pensa em alguém além de você mesma? Ele estava
sendo injusto, mas ela não podia perder seu fôlego para dizer-lhe isso.
— Eu pararia de me queixar e iria para a fila, se fosse você, Patric. Senão
vai atrasar seu precioso cronograma.
Ele saiu, resmungando. Dez minutos mais tarde, retornou carregando uma
bandeja onde havia duas xícaras de café e um prato com uma dúzia de roscas.
— Para você — explicou ele, sentando-se em frente a ela e empurrando
um dos cafés fumegantes para ela.
Sally olhou-o.
— Oferta de paz — disse ele. — Imaginei que seria melhor fazermos um
esforço para nos entendermos já que vamos ficar juntos pelas próximas três
semanas.
Ela lançou-lhe um olhar cético.
— Isso é esperar demais por uma xícara de café.
— Ok, pode pegar uma rosca também. — O sorriso que acompanhou suas
palavras logo conquistou outro em resposta.
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A GAROTA DA CAPA
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Pegando um dos anéis cobertos de açúcar, ela perguntou:
— Tem certeza de que isso não vai acabar com seu cronograma?
Ele riu.
— Ele não está gravado em pedra. -— O de seu pai sempre estava.
— E parece que nós estamos muito próximos de uma outra discussão. —
Ele ergueu uma sobrancelha. — Quer ver quanto tempo podemos girar à volta
disso?
Ela deu uma risada.
— Vamos enfrentar isso, Patric. Pelo que temos visto, parece que não há
muito terreno comum entre nós.
Ele sacudiu a cabeça.
— Não é verdade. O problema não é terreno comum, e sim o terreno
perigoso.
O olhar dele a desafiava a negar suas palavras. Sally respirou fundo,
planejando fazer exatamente isso, mas a mentira pretendida ficou presa em
sua garganta.
— Tenho uma regra rígida de manter meu envolvimento com os fotógrafos
estritamente no campo profissional — disse ela. — Por isso, se está
preocupado achando que eu possa subitamente deixar meus hormônios
tomarem conta de meu cérebro, não se preocupe.
— Não estou preocupado.
"Bem, pelo menos um de nós não está", pensou ela.
— Tudo o que estou dizendo — continuou ele — é que a pressão dessa...
coisa sensual entre nós está fazendo com que comecemos a discutir, não o fato
de que não temos nada em comum.
Patric serviu-se de uma rosca.
— Olhe, nós somos adultos — disse ele com firmeza. — E já que você tão
prontamente admite que é profissional demais para deixar que um caso
complique seu trabalho... e como, por princípio, uma modelo é a última mulher
com quem eu me envolveria, não penso que haja necessidade de estarmos tão
na defensiva um com o outro. Por que então não...
— O que você tem contra as modelos? — inquiriu ela.
Ele abriu a boca para responder, mas então a fechou sem dizer nada.
— Então?
Ele franziu a testa.
— Por que está perguntando? Não está querendo se atirar em defesa da
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profissão agora, não é?
Ele parecia tão aborrecido com a idéia que ela não conseguiu reprimir uma
risada.
— Não. Estou só curiosa, é tudo — respondeu. — O que foi que lhe causou
essa atitude anti-modelo, um mau relacionamento com uma delas?
— Vamos dizer que não quero que a mãe de meus filhos seja uma modelo.
— Mas a sua mãe foi uma modelo.
— Exatamente. E eu não iria querer meu tipo de infância para nenhuma
criança, muito menos para as minhas.
— Por quê? Ei, vamos lá, Patric — disse ela alegre. — Não pare agora; isso
tem sido a coisa mais próxima a uma conversa que já tivemos até agora.
Ele deu uma gargalhada. O som era quente e genuíno, sem o menor toque
de cinismo.
— Tem razão — concordou ele. — Mas vamos continuar na estrada. —
Embrulhou as quatro últimas roscas em um guardanapo de papel.
Sally levantou-se e apanhou a bolsa.
— Ok, mas vamos pegar alguns biscoitos na máquina automática antes de
sairmos — disse ela, dirigindo-se para a saída mais longe, onde se
encontravam quatro daquelas máquinas.
Depois de pescar quase três dólares em moedas em sua bolsa e colocá-las
na máquina, virou-se para Patric e sorriu-lhe de modo sedutor.
— Tem algum trocado?
— Gosta de doces, hein? Não é bom para uma modelo.
— Eu sou sortuda, não tenho problema com peso.
Ele enfiou dois dedos no bolso do jeans enquanto corria o olhar
vagarosamente sobre ela. A ação conjunta parecia incrivelmente sexy e
ameaçadora. Sally deu um passo para mais perto da máquina, tentando
desesperadamente concentrar-se nos vários doces e sabores oferecidos,
enquanto tentava diluir a atmosfera tagarelando.
—Claro, nunca vou ser do tipo de um duende que os europeus e os
britânicos adoram e que está na moda nesse momento — foi dizendo,
apertando o número que selecionara no painel.
Estava consciente de que Patric colocava moedas na máquina. Ele estava
tão próximo que seus jeans roçaram um no outro e ela percebeu que esse
tecido era condutor de eletricidade.
— Ah... obrigada... o que você prefere? — perguntou ela.

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— Oh, eu diria que o tipo de pernas longas, cabelos loiros com muitas
curvas — disse ele, virando-a para ele. — Para o inferno com os duendes
europeus.
— Eu... eu quis dizer... — gaguejou ela, o coração martelando no peito —
o que gostaria de comer?
— O mesmo, acho — respondeu ele, chegando mais perto. A cabeça dele
começou a abaixar e Sally ficou hipnotizada pela boca que se aproximava. Oh,
sim! Oh, não! Por um momento o desejo lutou com o pânico dentro dela, então
a boca de Patric fechou-se sobre a dela e o chão fugiu sob seus pés...

CAPÍTULO VI

O gosto do café e das roscas açucaradas que permaneciam na boca e
língua de Patric era mil vezes melhor do que quando comera a mesma coisa
minutos antes, e a resposta de Sally à estranha e nova fome que tomou conta
de seu corpo foi abrir os lábios e saciá-los.
As sensações que lhe corriam pelo corpo eram excitantes e apavorantes.
Seu corpo parecia perder o equilíbrio. Suas mãos se agarraram febris no
homem responsável por aquilo, mas à medida que o tempo foi passando, seus
dedos se relaxaram e vagarosamente seguiram seu caminho sobre os firmes
músculos do peito dele cobertos pelo tecido da camisa.
Deixando-se guiar apenas pelo desejo de seu corpo, ela tomou a iniciativa
da ação, e quando sua língua passou mais para dentro dos lábios de Patric,
não conseguiu perceber se o gemido de aprovação veio da garganta dele ou da
sua.
— Puxa! Pensei que havia leis contra fazer isso em público!
Sally afastou a cabeça tão rápido que bateu-a contra a máquina, mas sob
o olhar interessado de um bando de garotos seu embaraço deixou-a imune à
dor.
Ligeiramente atordoada e com medo de que o beijo, mais do que a
pancada, fosse a razão, deixou-se ser levada para fora, por Patric. Na verdade,
a força com que ele lhe segurava o braço fez com que o seguisse pensando
que haviam cruzado o estacionamento sem que seus pés sequer tocassem no
chão.
Quando ele a soltou e abriu o carro, Sally entrou sem falar. Ele não
precisava dizer nada, a maneira como bateu a porta do carro já dizia muita
coisa.

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Sally prendeu o cinto de segurança com grande concentração apesar de
suas mãos tremerem violentamente. Oh, maravilha, Patric! Você me deixou
louca! Até minha cabeça está explodindo!
Respirou. Ok, não tinha sido culpa dele totalmente. Ela podia ter parado o
beijo. Podia tê-lo empurrado para longe. E teria feito isso, a não ser que... Por
Deus, fora só um beijo! Um beijo não era o fim do mundo. Então por que
estava reagindo assim?
Olhou para as mãos ainda trêmulas e admitiu, infeliz, que pela primeira
vez na vida se confrontara com um desejo selvagem.
Patric ligou o motor e dirigiu para a estrada, sem confiança em si mesmo
para falar. Estava muito zangado. Como fizera aquilo? Como pudera ser tão
estúpido para sucumbir a seus mais básicos instintos? O que lhe acontecera
para subitamente deixar seu cérebro colocar-se abaixo de seu cinto?
Comportara-se como um garoto de dezesseis anos. Pior ainda!
Dirigiu um olhar para sua companheira de viagem. Ela estava enroscada
em si mesma, perto da porta, com as costas viradas para ele tanto quanto lhe
permitia o cinto de segurança. Mas lá no posto de gasolina, ela parecia mais
interessada em reduzir a distância entre eles do que o contrário.
Correu a língua sobre os dentes e sentiu seu corpo endurecer ao sentir o
gosto dela. Conteve um gemido. Onde ela aprendera a beijar daquela forma?
Na mesma hora a imagem de Phil Michelini surgiu-lhe na mente; o ciúme
aferroou-o de uma forma que julgaria impossível.
Praguejando baixo, agarrou uma cassete, enfiou-o no toca-fitas e
aumentou o volume, silenciosamente desafiando a companheira a se queixar.
Ela não o fez.
Pelas três horas seguintes, assim que terminava uma fita, Sally a
substituía por outra. Até então Patric não se opusera às escolhas dela.
O estômago de Sally reclamou e ela decidiu quebrar o silêncio.
— Podemos parar para comer um lanche? — perguntou, sem olhar para
ele.
— Por quê?
Ela enviou-lhe o olhar que ele merecia.
— Porque estou morta de fome. Ele suspirou.
— Olhe, vamos chegar dentro de uma hora ou duas. Não pode esperar até
lá?
— Não, não posso.
— Bem, então coma alguns desses biscoitos e coisas que você comprou.
— Não posso.
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Ele olhou para ela.
— Por quê?
— Porque eu os deixei na máquina.
— Como pôde fazer uma coisa tão estúpida?... — Não terminou a
pergunta quando a resposta subitamente lhe veio à mente. — Ok. Vamos parar
no primeiro lugar que tiver comida.
— Obrigada — disse ela docemente.
— Mas comeremos no carro — disse ele. — Quero chegar ao hotel ainda
cedo para descarregar tudo e ir verificar o lugar que tenho em mente para as
fotos.
Considerando a chuva que variava de constante para torrencial a cada
vinte minutos mais ou menos, Sally não acreditou que ele tivesse tempo para
isso, mas não disse nada.
Fingiu prestar atenção na paisagem ensopada, mas não conseguiu. A
atmosfera no carro estava terrível.
— Não acha que já chega de ficar emburrada?
Sally assustou-se com o som da voz dele. Trabalhar com Patric
provavelmente acabaria com seu sistema nervoso.
— Não estou emburrada, Patric. Eu nunca fico emburrada...
— Todas as modelos ficam. É uma segunda natureza delas.
— Sabe qual é seu grande problema?
— Devo saber. Estou sentado ao lado dele — disse ele secamente. — Mas
sem dúvida você vai achar que é alguma outra coisa.
Ela continuou como se ele não tivesse dito nada.
— Seu problema é que você pensa saber tudo o que existe sobre modelos
porque sua mãe era uma e seu pai passou a vida fotografando-as. Você...
— E dormindo com elas — interrompeu ele. — O velho era muito eficiente
nisso.
— E daí? Não há motivo para continuar a falar sobre isso, não acha? Ou
será que isso o aborrece por não ser capaz de competir com seu pai nesse
nível?
Ele lançou um olhar furioso na direção dela.
— Já lhe disse que meu interesse em modelos é estritamente profissional.
— Não conseguiu provar isso comigo! — soltou ela, imediatamente
desejando não ter dito nada.

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— Errado, senhorita! Isso é exatamente o que vou provar! — Ele pisou nos
freios e desligou o motor. — Pode apostar como o que aconteceu essa manhã
não voltará a acontecer.
— E não vai mesmo! — concordou ela.
Ele murmurou baixo, enquanto passava uma mão nervosa pelos cabelos.
— Ok, o que você quer? Ela piscou.
— O que eu quero? — A voz não passava de um sussurro. Ele apontou
para o lado da estrada. Só então ela percebeu que haviam parado ao lado de
uma pequena lanchonete. Ela lutou com a bolsa e com o cinto de segurança.
— Não. Diga apenas o que você quer e vou buscar. Está chovendo demais,
não há necessidade de nós dois nos molharmos.
— Ah... obrigada — murmurou, evitando olhar para ele. Acho que gostaria
de um hambúrguer com queijo e bacon, e um milkshake de chocolate.
Ainda evitando o olhar dele, estendeu-lhe uma nota de cinco dólares.
— Vou buscar — disse ele, abrindo a porta.
— O que é isso? — perguntou ela, erguendo a cabeça.
— Outra oferta de paz? Ele ergueu os ombros.
— Qualquer coisa assim. Ela tentou sorrir.
— Patric, se você me comprar comida cada vez que discutirmos, vou
acabar do tamanho de um prédio.
— Hmm... é mais provável que eu termine quebrado.
O fim da viagem foi rápido e pacífico somente porque Sally estava muito
ocupada comendo para poder falar. Mas tudo o que é bom dura pouco, e
quando chegaram a seu destino, as palavras voltaram aos lábios de Sally.
— É aqui que vamos ficar?
— É — replicou ele. — Foi restaurado desde que estive aqui de férias há
alguns anos.
Ela parou de examinar o hotel e virou-se para ele.
— Bem, certamente é longe de tudo. — Sally dirigiu um olhar apreensivo
para o hotel.
Patric não soube por que a reação dela o deixou zangado.
— Agradeça por não ter que ficar em uma tenda! — disse ele. — Podia ser
muito pior, acredite.
— Só se você me disser que tem um irmão gêmeo que vai nos encontrar
aqui.
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— Sally — murmurou Patric, através de dentes cerrados —, saia e comece
a nos registrar enquanto tiro a bagagem.

— Fique tranqüila, vão receber quartos limpos e bons, e refeições sem
grandes complicações no restaurante, mas não é como os hotéis da cidade,
Srta. Raynor — avisou a rosada senhora de meia-idade que finalmente
respondeu à campainha da recepção.
Sob o olhar penetrante da senhora, Sally sentiu-se obrigada a responder.
— Ah, tudo bem.
— Boa tarde, sou Patric Flanagan.
— O senhor não pediu dois apartamentos quando telefonou, Sr. Flanagan
— acusou ela no tom de uma professora.
— Isso foi porque não pensava que fosse precisar de dois — explicou ele.
— Desculpe, não me lembrei de avisar sobre o segundo quarto. Há algum
problema?
— Por sorte, Sr. Flanagan, não estamos lotados no momento, mas, como
disse à Srta. Raynor, poderíamos estar. O Senhor vai pagar os dois quartos, Sr.
Flanagan? Ou serão duas contas separadas?
— Eu pago por tudo.
— Posso ver alguma identificação, por favor?
Ele apresentou a carteira de motorista e um cartão de crédito.
— O restaurante fica aberto das seis e meia até as oito e meia. E se
tiverem alguma queixa...
— Falo com Jack Reagan, o proprietário — interrompeu Patric docemente,
em um tom de aviso.
— Oh, estou certa de que não vai haver necessidade disso! — ela forçou
um sorriso que realmente não lhe chegou aos olhos. — Aqui estão suas
chaves, Sr. Flanagan. — A mulher empurrou-as através do balcão. —Vou
procurar meu marido para ajudá-los com a bagagem.
Com isso, ela desapareceu no bar adjacente.
— Há quanto tempo você conhece o proprietário? — perguntou Sally.
— Não o conheço. Li seu nome naquele quadro ali — apontou para a
parede. — Não estou com paciência para aturar os modos dela.
— Nem eu — murmurou ela, apanhando sua chave. — Com certeza, não
se recebe esse tipo de tratamento no Hilton.
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A expressão dele era condescendente.
— Deve ser um choque para você descobrir que nem todos ficam
impressionados ao encontrarem a famosa Garota Risque.
— Na verdade, Patric — respondeu ela — é até um alívio.
O quarto de Sally era limpo e decorado com simplicidade. Havia uma
poltrona pouco confortável perto da porta de vidro que se abria para a varanda
de cima.
Sally deu uma olhada para a bagagem, e suspirou. Não, isso podia
esperar. Um chuveiro e uma bela soneca vinham mil anos à frente. Talvez,
quando se livrasse do cansaço da viagem poderia começar a lidar com os
arrepios de frio que começavam toda a vez que pensava nas sessões de foto
que se aproximavam e na realidade do que ia fazer: tirar fotos nua!
Terminado o banho, fechou a água quente e abriu a fria. Com sorte,
apanharia uma pneumonia e teria de ser hospitalizada. Dois segundos depois,
decidindo que não era forte o suficiente para agüentar o jato gelado por mais
tempo, Sally saiu do chuveiro rezando que chovesse pelo resto de sua vida.

CAPÍTULO VII

Patric bebeu um gole da cerveja e esperou enquanto seu oponente
observava a mesa de sinuca. Após quatro dias de chuva, os moradores locais
lhe asseguraram que finalmente isso acabara. Com sorte, poderiam começar
no dia seguinte a procurar os melhores locais, e no outro dia iniciariam as
fotos.
Seu olhar dirigiu-se para onde Sally se encontrava, acompanhada por três
encantados garotos locais, jogando alguma coisa em uma máquina.
Mal se haviam falado desde a chegada, e Patric suspeitava que estava
fazendo tanto esforço para evitá-lo quanto ele a ela. Pela manhã, estava
terminando o café quando ele chegava para tomar o seu, e a situação se
invertia no jantar. Não tinha idéia do que ela fazia durante o dia, já que
passara os últimos três dias queimando seu excesso de energia e tédio
pedalando na bicicleta pelo lodo por alguns quilômetros além da cidade.
Seu oponente de meia-idade falou.
— Ela é tão encantadora. Nem um pouco superior ou arrogante, como se
imaginaria.
— Já jogou? — perguntou Patric.
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— Já. Consegui a última vermelha, mas falhei com a amarela.
Patric acenou com a cabeça e inclinou-se sobre o feltro verde, tirando uma
linha com a amarela. Afundou-a e começou a fazer o mesmo com as bolas
verde e marrom. Infelizmente, não atingiu a bola marrom exatamente como
pretendia e, como resultado, seu tiro na bola azul ficou mais complicado do
que pensava. Começou a estudar a mesa toda procurando o melhor ângulo;
estava finalmente traçando seu plano quando ouviu:
— Devia ter posto mais força na bola branca, Patric.
— Eu sei disso. Agora, se ficar quieta...
— Acho mesmo que você se sairia melhor se jogasse a azul de...
— Não tem nada melhor para fazer? Onde estão seus amigos?
— Foram para o bar. Eu lhes disse que você e eu iríamos jogar uma dupla
contra eles quando você terminasse aqui.
— Ah, disse, é?
— Disse. — Sally colocou seu dinheiro na beira da mesa para reservá-la.
— Mas, vendo sua última jogada, estou começando a pensar em arranjar outro
parceiro.
Patric se voltou, afundou as duas últimas bolas com mais floreios do que o
necessário, e então enviou a negra por fora dos quatro cantos antes de
encaçapá-la.
Deixou o taco sobre a mesa e olhou para ela. Os cabelos estavam puxados
para trás e presos em um coque abaixo do pescoço. Usava jeans, botas e uma
enorme camisa masculina amarrada na cintura. Nela, a simplicidade do traje o
tornava elegante e rústico.
Olhou para o rosto dela, e viu um sorriso curvar-lhe os lábios sensuais.
— Nada mal, Patric — disse ela. — Onde aprendeu a jogar sinuca?
— Meu pai me comprou uma mesa quando fiz onze anos. Passei horas na
sala de jogos praticando truques de jogadas. — Ele cruzou os braços. — Pelo
que disse antes, parece que você também fez isso.
— Nós não tínhamos sala de jogos, muito menos uma mesa de sinuca. —
Apanhou um taco que ele deixara e checou o peso contra um que já segurava.
— Então, onde aprendeu a jogar? — perguntou ele quando a viu passar
giz na ponta do taco que ele usara.
— No Salão Ashfield Pool.
— Num salão de sinuca?! — Ele não podia sequer imaginá-la num lugar
assim. — Sally Raynor foi mesmo a um salão de sinuca?
— Não. — Seu sorriso era cheio de alegria genuína. — Mas Sally
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Raynomovski costumava passar por ali quando tinha seus dez anos.
Mesmo se ele não estivesse atordoado com o choque não teria tido
oportunidade de responder a essa inesperada informação porque dois dos
garotos com os quais ela estivera se aproximaram.
— O que diz de vinte dólares, Sally? — perguntou um deles.
— Digo que prefiro cinqüenta.
— Topamos!
Após suas primeiras três tacadas Patric decidiu que teriam mais chances
de ganhar o jogo se Sally arrebentasse seu taco naquela hora. A visão de seu
corpo inclinado sobre a mesa cada vez que ela estudava a tacada estava
provocando um terremoto em sua concentração.
Ele mudou para o outro lado da mesa apenas para descobrir que daquele
lado, cada vez que ela se inclinava, a frente solta de sua camisa se entreabria
para deixar ver a interessante sombra de um vale.
Patric fechou os olhos frustrado, mas um segundo mais tarde os abriu
quando uma onda de ciúme lhe correu pelo corpo. Raios, com certeza não era
o único homem ali consciente daquele cenário.
— Ei, Patric! E sua vez! — disse a voz impaciente de Sally.
— Ah? Ah, claro. Nós estamos no verde...
— Não, Patric, Pete acabou de encaçapar todas as verdes — Ela lhe dirigiu
um olhar cuidadoso. — Preste atenção, ok?
Furioso consigo mesmo por ficar tão distraído, passou giz no taco
enquanto estudava a mesa.
Determinado a não permitir que os encantos femininos de sua parceira o
sabotassem, escolheu a mais arriscada das duas possibilidades de jogo à sua
frente.
Os parabéns e apertos de mão dos observadores assim que terminou uma
bela jogada nem tiveram importância em face de seu alívio. Ergueu os olhos
para Sally, pretendendo dar-lhe um sorriso, mas a idéia morreu no momento
em que percebeu o belo e encantado sorriso dirigido a ele. Ainda via seu largo
sorriso e o brilho de admiração em sua mente quando deu a tacada seguinte
acabando com o jogo, e entregou ao parceiro de Pete a oportunidade de limpar
a mesa. Por algum milagre, o rapaz se atrapalhou, e Sally tinha simplesmente
que dar três tacadas simples para conseguir a vitória. Ela deu as duas
primeiras e então, para incompreensão geral dos que a observavam, bateu na
bola branca com muita força, fazendo-a ricochetear na preta e não entrar na
caçapa.
— Oh, céus! Não acredito que tenha feito isso! — gemeu ela. Dirigiu um
sorriso encantador aos dois adolescentes com quem jogavam. — Acho que lhes
devo cinqüenta, não é?
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A GAROTA DA CAPA
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— Ei, quer jogar outra, o dobro ou nada? — desafiou um deles, as
palavras trazendo um olhar aterrorizado ao rosto do companheiro.
Patric não deu a Sally a chance de responder.
— Hoje não, amigos — disse, puxando uma nota de cinqüenta da carteira
e entregando-a ao rapaz que parecia tão relutante quanto ele para outro jogo.
— Amanhã nosso dia começa bem cedo.
O olhar interrogativo de Sally encontrou o seu.
— A chuva passou — disse ele simplesmente. Os rapazes despediram-se e
os deixaram.
— Então... então começamos as fotos amanhã? — Sally olhou apreensiva.
— Não vai estar... muito úmido?
— Provavelmente, mas isso não é motivo para não escolhermos os lugares
para o próximo dia. Já perdemos muito tempo.
Ela concordou e olhou para os pés.
— O que exatamente tem em mente para mim? Quero dizer, você na
verdade não me disse...
— Nunca planejo minhas fotos com antecedência. Prefiro ver na hora.
Seguir minha inspiração do momento, entende?
— Entendo, mas... — Ela parecia incapaz de ficar parada em pé, mudando
o peso de um pé para o outro, enfiando as mãos nos bolsos traseiros do jeans.
O gesto esticou a camisa e ergueu-lhe os seios.
— Olhe, Sally, estou exausto — disse ele, ainda que o cansaço não fosse a
razão de sua preocupação. — Será que essa conversa pode esperar até
amanhã?
Ela concordou.
— Claro. A que horas?...
Na pressa de escapar, ele antecipara a pergunta.
— Vamos sair depois do café.
Com isso, foi em direção à escada com a intenção de tomar um banho frio
de chuveiro.
Por três vezes Sally ergueu a mão para bater na porta de Patric, e três
vezes a deixou cair ao lado do corpo. Estava tão ansiosa que na quarta
tentativa sua determinação de não se acovardar resultou em quase martelar a
porta.
Esta abriu-se violentamente.
— Que raio?...
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A GAROTA DA CAPA
Sabrina Nº 940

Subitamente ela deu de frente com um Patric de peito nu.
— Santo Deus, Sally! Não há razão para derrubar a porta! Pensei que
fosse o pelotão da cavalaria.
Vendo o peito musculoso coberto por uma camada de cabelo escuro
encaracolado, ainda cheio de gotas d'água, ela engoliu em seco, forçando os
olhos de volta para o rosto dele.
— O que há?
— Preciso saber que horas você queria dizer com "depois do café"... Eu,
bem, não quero perder a hora.
Ele ergueu uma sobrancelha, cético.
— Se me lembro bem, você é sempre a primeira a se levantar todas as
manhãs.
— Ah... é mesmo. Só pensei que você pudesse querer começar bem cedo
mesmo, como às seis ou às sete... — O modo como ele a olhava estava
atrapalhando sua mente. — Ou mais cedo.
— Oito! — disse ele, rouco.
— Oito? — gaguejou ela, firmando-se no batente da porta quando ele
subitamente deu um passo para trás.
— Isso, encontre-se comigo no refeitório às oito horas em ponto!
Confusa com a súbita mudança de humor dele, ela piscou e, quando abriu
os olhos, viu-se olhando para a porta fechada.

— Quer me contar por que errou de propósito a última tacada no jogo
ontem à noite?
A pergunta foi feita enquanto Patric tirava várias fotos de uma rápida
corredeira, mas Sally não deixou-se enganar.
— O que o faz pensar que errei de propósito?
— Suas tacadas anteriores mostraram que você é uma jogadora boa
demais para ter errado uma tacada tão fácil.
— Ele baixou a câmera e olhou para ela.
— Olhe, um dos garotos estava precisando de dinheiro para comprar um
presente de aniversário para a namorada. Ok? — perguntou ela tensa. — Se
está aborrecido por perder alguns dólares, deduza de meu salário.

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— É o que pretendo fazer.
Ela horrorizou-se ao ouvir o clique da câmera.
— Seu rato! Eu lhe disse que eram só fotos de poses, e pretendo que seja
assim!
A revolta dela só o fez rir e afastar-se um passo, tirando outras duas fotos
no processo.
— Seu rosto é tão expressivo! Adoro isso.
Com medo de que ele ouvisse o rápido bater de seu coração naquele
silêncio, Sally disparou a falar.
— Tente isso de novo, Patric, e vai descobrir que meu vocabulário também
é muito expressivo!
Ele riu.
— Imagino que você tenha passado seus anos inocentes à volta de salões
de sinuca. Qual é a história? Eu a tinha como uma garota educada em uma
escola particular para meninas, vinda de uma família abastada, de sangue
azul.
Ela disparou a rir. A realidade de sua infância era tão distante da
mencionada por ele que não sabia se as lágrimas em seus olhos eram de dor
ou de diversão. Imediatamente abaixou a aba de seu boné de beisebol sobre o
rosto.
— Uma piada tão divertida assim deveria ser partilhada — disse ele.
Ela piscou até a visão clarear de novo, então sacudiu a cabeça.
— Acho que perderia muito se fosse contada.
— Por que não me conta e deixa que eu decida?
O tom da voz dele e o modo como a olhava mostrou-lhe que o interesse,
mais do que a curiosidade, o fizeram pedir isso. Dez minutos mais tarde, ela
sentou-se sobre uma manta com as pernas cruzadas, e dividiu com ele não
apenas um frango frio e salada, mas também muito de sua história.
— Eu cresci em Dulwich Hill, Sydney. Meus pais vieram da Polônia, para a
Austrália, nos anos cinqüenta. Ambos tinham apenas dezessete anos, pouco
dinheiro e pouco estudo também. Papai trabalhou por alguns anos na estrada
de ferro, então foi atraído para as Montanhas Nevadas para trabalhar na
hidroelétrica na esperança de fazer muito dinheiro.
— Um monte de imigrantes trabalhou lá, meu padrinho irlandês também
— disse Patric sorrindo. — E somos a primeira geração de australianos; parece
que encontramos algum terreno comum de que falamos no outro dia.
Sally ficou calada, sabendo que retaliar seria abrir a caixa de Pandora.

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— Nossos antecedentes estão anos-luz de distância, Patric — disse ela.
— Você não conhece assim tão bem o meu para dizer isso.
— Seu pai me contou o suficiente sobre a vida dele para que eu saiba que
você não cresceu com pais que precisavam economizar miseravelmente para
sobreviver. E nenhum filho de Wade teria se matriculado em uma escola
estadual superlotada ou usado uniformes doados. — Ela riu. — E tenho certeza
de que você não faltou aulas para...
— Sem chances — interrompeu ele. — Eu fui para um internato.
— Wade o enviou para o internato cedo assim?
— Estou falando sobre o segundo grau. E você, não? — Ela sacudiu a
cabeça. — Está me dizendo que cabulava aulas quando estava no primário?
— Isso mesmo. No segundo grau eu já fazia uma média de dois dias em
cada cinco! — Ela riu diante da cara de horror dele. — De que modo eu iria
aprender a jogar sinuca?
— Santo Deus, Sally! O que havia de errado com seus pais?
— Nada! — respondeu ela. — Eles me mandavam para a escola; só que eu
não ia. Não é como se eles pudessem me algemar a uma carteira. Por que as
pessoas sempre acusam os pais quando alguma criança engana o sistema? A
escola me aborrecia. Eu a detestava e a deixei assim que tive idade bastante
para isso.
— Mas... você é tão brilhante, tão...
— Sei, é verdade. Isso é o que todos os meus professores diziam, e Deus
sabe quantos assistentes sociais também. Mas naquele tempo não havia
programas como os que existem hoje para crianças super-dotadas ou
talentosas. Ninguém sabia o que fazer comigo. Estava bem para minha irmã
mais velha, Carol; ela era uma perfeita aluna com notas A, mas eu não.
Quando ela e mamãe ouviram falar do concurso da revista, pensaram que
seria a melhor maneira de me tirarem tanto da escola como da turma com que
eu estava andando.
Patric reclinou-se para trás, apoiando-se nos cotovelos.
— E isso funcionou?
— Eventualmente. — Ela riu. Patric sacudiu a cabeça.
― Você não combina com o perfil de uma modelo.
— Isso é porque não existe um perfil. Ao contrário do que você acredita,
as modelos não são simplesmente uma grande mercadoria. Ser modelo é uma
coisa que nós fazemos, não é a mesma coisa que nós somos.
Os olhos dele faiscaram céticos. Abriu a boca, então a fechou, como se
pensasse melhor o que pretendia dizer. Mas Sally queria saber.
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— O quê?
— Esqueça. Vamos...
— Não — disse ela com firmeza. — Me diga.
— Ok — concordou ele. Estreitou os intensos olhos castanhos sobre ela. —
Por que você decidiu aceitar esse trabalho?
— Tive meus motivos...
Ele olhou-a desapontado.
— Não é o suficiente, Sally. Você insistiu que eu perguntasse, eu insisto
em uma resposta honesta.
— Eu não estava contente com as condições do contrato da Risque. Posso
ter crescido no lado errado da estrada, mas sei o que valho.
— Não lhe pagariam o bastante, não é?
Ela estremeceu ao pensar na repugnante proposta de Dickson Wagner.
— Nem de longe!
Ele a estudou em silêncio por vários minutos, então ergueu-se e começou
a guardar as coisas do almoço.
— Do lado errado da estrada ou não, Sally, você certamente aprendeu a
negociar bem. Parabéns — disse ele. — Você é uma modelo mesmo. Inteirinha.
― O tom dele mudava as palavras de elogio em insulto. — Vamos — disse ele,
quando ela continuou sentada. — Acabou a hora do almoço.

CAPÍTULO VIII

No fim da tarde, Patric havia selecionado os dois locais onde pretendia
tirar fotos de Sally no dia seguinte. Um era uma pequena aglomeração de
rochas no meio da ravina, e o outro era uma larga expansão de terra apenas
recoberta de grama.
Ela olhou para o homem ao lado dela. Talvez se vomitasse sobre ele
pudesse convencê-lo de que estava com uma terrível doença e que, se não
aparecesse no dia seguinte, seria porque morrera durante a noite. Ah! Se sua
sorte fosse tão boa, já teria ganho na loteria pelo menos duas vezes.
— Você vem ou pretende ficar aí sentada a noite toda? — perguntou ele.
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Desde o almoço sua limitada conversa tinha sido estritamente profissional.
Patric fora meticuloso ao extremo e, diferente de alguns fotógrafos com quem
Sally trabalhara, nem um pouco condescendente quanto aos ângulos e
condições de luz que desejava usar.
Quando ela aparecera com sua própria câmara e tirara algumas fotos não
fizera nenhum comentário depreciativo como Wade muitas vezes fizera sobre
"amadores brincando de artistas".
Suspirando, Sally subiu para o Land Rover.
Patric observou sua silenciosa partida. O dia todo ele batalhara para
manter os olhos longe de suas pernas nuas e da curva de suas nádegas sob o
short caqui. Mas agora, ao vê-la andando para longe dele em direção ao hotel,
curvou-se sobre o carro e permitiu-se o prazer de olhá-la, sabendo que ali a
vizinhança lhe proporcionaria o freio em seu autocontrole que a pradaria vazia
não oferecia.
Patric franziu a testa. As botas de caminhada nos pés de Sally não
mostravam passos com a mesma vivacidade dessa manhã. Claro, haviam
caminhado um bocado, mas nem tanto assim. E pela maneira que seus ombros
estavam caídos, poder-se-ia pensar que ela passara o dia carregando sacos de
tijolos.
Ele endireitou-se. Será que alguma coisa a estava preocupando?
— Ok, Sally. O que há?
Ele batera uma vez e se anunciara. Ela demorara para abrir a porta e ele
pensara que ela pudesse estar dormindo, mas apesar de a cama atrás dela
estar amarrotada, estava ainda arrumada e a luz do quarto acesa.
— O quê? — perguntou ela.
Seus olhos azuis estavam entorpecidos e seu rosto parecia esgotado. O
cabelo solto chegava até a barra da camisola curta que ela usava. O pulso de
Patric começou a bater feito louco diante da visão das pernas nuas e macias.
Rapidamente desviou o olhar.
— Importa-se se eu entrar? — perguntou ele, desejando saber como ela
conseguia demonstrar, ao mesmo tempo, surpresa e hesitação.
O quarto era idêntico ao seu, desde o aquecedor de água até as xícaras
baratas de louça colocadas sobre a pequena mesa de canto.
— Alguma chance de tomar um café?
— Foi expulso do restaurante? — perguntou ela, levando a cafeteira para
encher na pia do banheiro.
— O restaurante fechou há meia hora. Aí está por que vim aqui — disse
ele. — Você não foi jantar hoje.
Um olhar para a única cadeira do quarto lhe disse que era tão
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desconfortável quanto a de seu próprio quarto, por isso escolheu sentar na
cama.
Ela voltou para o quarto, colocou a cafeteira sobre a mesa e ligou a
tomada.
— Não estava com fome.
— Uma explicação razoável — concedeu ele. — Exceto que eu já a vi
comer. Se você não comeu agora é porque alguma coisa está errada.
— Não necessariamente.
— Você não saiu do quarto desde que voltamos essa tarde. Está doente?
— Não.
— Então, o que há de errado?
— Por que alguma coisa tem que estar errada?
— Porque você está com uma aparência terrível.
— Preocupado que eu estrague sua sessão de fotos amanhã? Bem, não
fique, sou uma feiticeira com maquiagem. Lembre-se de que aprendi meu
comércio muito bem. — Ela despejou água fervendo em duas xícaras e mexeu
o conteúdo.
— Açúcar?
— Não, obrigado.
Ela estendeu-lhe uma xícara.
— Então isso é a causa de tudo: está de mau humor?
— Já lhe disse, Patric. Não fico de mau humor.
— Não, você me disse que não emburrava.
A televisão estava ligada, mas sem som, o que fez o silêncio entre eles
mais pronunciado. Ele ergueu-se e a desligou.
— Toma conta de tudo, Patric?
— Ok, talvez você não estivesse de mau humor antes de eu entrar aqui,
mas a não ser que seja uma leitora de lábios, certamente você não estava
vendo a televisão. — Ele voltou à ponta da cama e inclinou-se para ela, os
braços sobre os joelhos.
— Alguma coisa a está aborrecendo, Sally — disse com suavidade. — O
que é?
Ela lhe dirigiu um olhar direto.
— Além de mim — ele sorriu. — Se fosse eu seu grande problema, você já
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me teria chutado para fora.
— Talvez eu ainda esteja pesando a vantagem em chutar seu traseiro pela
janela, pela porta, ou pela escada abaixo — sugeriu ela.
— Neste caso — ele levantou-se — vou resolver seu problema e...
— Não! — A mão dela segurou-lhe o braço.
—Preciso perguntar-lhe algumas coisas sobre as fotos de amanhã.
A voz dela não estava completamente firme, e sua face normalmente
brilhante, estava ensombreada.
— Nervosa, hein? — perguntou ele com um meio sorriso. Ela suspirou,
então concordou.
— Estou dizendo a mim mesma que é apenas mais uma foto. Como já tirei
milhares... — Sua voz fraquejou e o sorriso que ela deu não funcionou. — Sou
estúpida, mas não me sinto mentalmente pronta para isso. Não estou certa de
que possa ter o distanciamento necessário.
A expressão dela pedia que ele entendesse o que estava dizendo.
— É isso o que você faz geralmente? — perguntou ele.
— Fecha as suas emoções genuínas e liga o que acha que as câmaras
querem?
Ela lhe dirigiu um olhar divertido.
— É claro. Por isso é que se chama "posar". — Ela riu, então agarrou o
cabelo e o enrolou no topo da cabeça e o segurou ali. — Vê? — perguntou ela,
assumindo uma expressão superior. — A pose real. — Deixou cair o cabelo,
enrolou-o nos dedos, então abriu os olhos e arreganhou o nariz. — A pose
"garota da casa ao lado".
Divertindo-se, ela ergueu-se, atirou os cabelos para a frente uma vez para
dar ao cabelo um efeito de espalhado pelo vento, então, levantando um braço,
enrolou-o sonhadoramente à volta de sua cabeça e contorceu-se lentamente
até que o decote de sua camisola escorregou pelo outro ombro. Finalmente,
umedeceu os lábios e mordiscou o lábio inferior.
— Esta é a pose "ataque sedutor da sereia". Ela riu e deixou cair a pose.
— Você pensa que sou uma idiota, não é?
— Não — disse ele, rouco. — Penso que você é absolutamente linda. —
Antes que pudesse raciocinar, ele estendeu os braços para ela e a puxou de tal
forma que ambos caíram por sobre a cama.
Aconteceu em um instante, e no entanto Sally viu e sentiu tudo em
câmara lenta...
Como num redemoinho, ela sentiu-se cair em queda livre para os braços
de Patric, para aterrissar em seu peito firme. Estava enroscada, não pela força
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do contato com ele, mas pelo impacto retumbante de seu coração contra seus
pulmões e costelas.
Totalmente consciente de cada mudança das funções normais de seu
corpo: desde o aumento da velocidade de seu sangue nas artérias até a
maneira como o impacto dentro dela atingia seus nervos esfrangalhados.
Mas estava igualmente alerta ao homem que a abraçava, alerta ao calor
fervente que subia das mãos dele quando, mergulhadas nos seus cabelos,
moveram-se com delirante intensidade por seus ombros, suas costas, suas
nádegas, e então voltaram pelo mesmo caminho.
Por todo esse tempo seu foco permaneceu no rosto másculo se
aproximando do seu, mais perto, mais perto, o queixo ligeiramente
sombreado, os lábios úmidos e entreabertos, mostrando uma nesga dos dentes
iguais e brancos e prometendo prazeres... Esse era Patric: arrogante,
convencido, superior, profissional, Patric Flanagan. E ela queria o beijo dele.
Seus olhos se fecharam ao som de um gemido resignado, mas não sabia
vindo de quem; porque ficou instantaneamente perdida no gosto da paixão.
A língua de Patric tocou febrilmente seus lábios antes de mergulhar entre
eles para atrair a sua própria em um duelo sensual. As mãos de Sally
imediatamente agarraram a cabeça de Patric para garantir que ele não lhe
seria arrebatado. Ela queria esse homem, ansiava dolorosamente por ele, mais
do que jamais quisera qualquer coisa; precisava dele, corpo e alma.
A boca de Patric percorreu uma trilha por seu pescoço e ela arqueou o
corpo sobre ele, tremendo em antecipação ao sentir o desejo dele crescer
contra sua coxa. Gemeu, totalmente trêmula de desejo, e quando ele ergueu a
cabeça para olhar para ela, soube que o que ele sentia não era único. Quando
ele escorregou uma mão para a barra da camisola, os olhos fixaram-se em seu
rosto, a silenciosa pergunta neles mais do que audível e tão eroticamente
excitante que um espasmo de desejo apertou-lhe os músculos pélvicos.
Sally soube que somente ele seria capaz de satisfazer a fome sensual que
tomara conta de seu corpo, pois ele a havia iniciado.
Estendendo o braço, desligou a luz e procurou o cinto dele. E, enquanto
sua visão se ajustava à escuridão, nada mais do que gemidos e sons mal
articulados quebravam a atmosfera plena de paixão do quarto enquanto eles
se abandonavam totalmente um ao outro.
As mãos de Patric roçavam todo o comprimento do corpo de Sally,
brincando, amaciando e preparando o caminho que ele por fim tomou com sua
boca e língua. A carne dela queimava sob o fogo de seu toque, inflamando seu
sangue.
O grande medo de Patric era de que se queimasse até as cinzas com a
paixão de Sally antes de poder libertá-la também. Nenhuma mulher antes
ameaçara seu controle tão rapidamente quanto ela o fez. Ele a desejava de
imediato, e ao mesmo tempo suas mãos e boca desejavam saborear cada
centímetro vagarosamente.
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Suas mãos fecharam-se sobre a firmeza de seus seios e seus endurecidos
mamilos. Seus lábios, sem precisar de outro ensejo, obedientemente ali
chegaram. E, enquanto ele se deliciava com o sabor, ouviu seus gemidos de
prazer enquanto seus dedos passeavam contra os sedosos músculos do
estômago de Sally. Mais uma vez seus lábios ansiosos seguiram os dedos.
Ela agarrou o cabelo dele quando ele finalmente atingiu seu íntimo, e a
sinfonia de seus gemidos quando ela dobrou as pernas para envolvê-lo fizeram
falhar as batidas do coração de Patric. Ele tremia enquanto beijava o caminho
de volta ao ardor dos lábios dela, mas isso não foi nada comparado às ondas
de emoção que o percorreram quando ela procurou o mesmo acesso íntimo ao
seu corpo como ele fizera com ela.
Com medo de que o desejo desesperado fosse esgotado antes que
experimentasse o que mais desejava; a posse total dela; ele procurou colocar
um pouco de espaço entre eles.
Ela sorriu e ele ergueu-se dos travesseiros para provar seu sorriso.
Quando a boca ansiosa encontrou a dele, sentiu a intensidade de seus próprios
desejos retornando no beijo dela. Um beijo que durou, durou, durou...
Ambos estavam molhados de suor quando finalmente ele se moveu sobre
ela. Tentou, com o que lhe restava de controle, retardar o momento, mas ela
não lhe deu chance, ergueu os quadris e foi ao encontro dele sem reservas.

Patric fechou os olhos, não contra o brilho do sol da manhã, mas contra o
reconhecimento de sua própria estupidez.
Durante o sono, a mulher a seu lado se achegara mais e seus olhos foram
atraídos para o quadril dela. E mais uma vez a lembrança do homem que se
apresentara a Patric no terraço da frente da casa de Sally veio-lhe à mente. Só
que desta vez a imagem de Phil Michelini estava inteiramente desfocada exceto
pela tatuagem de uma borboleta em seu antebraço. Uma réplica em miniatura
dessa borboleta estava tatuada sobre o quadril de Sally.
A mulher com quem fizera um amor desesperado na noite passada tinha a
marca de outro homem!

CAPÍTULO IX

Ele se fora. Era de manhã e Patric se fora. Nos poucos segundos que levou
para Sally abrir os olhos e registrar esse fato, um milhão de emoções confusas
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a dominaram. No entanto, ela não precisava ver as marcas no travesseiro a
seu lado para saber que a noite passada não fora um sonho, o ligeiro
desconforto na parte inferior de seu corpo era infinitamente conclusivo.
Sorriu, perguntando-se se Patric teria acordado com a mesma sensação
eufórica.
Estremeceu, imaginando que o mínimo que ele podia ter feito teria sido
ficar por ali para partilhar o momento com ela.
Suspirou, incerta sobre se a ausência dele a fazia sentir-se zangada,
desapontada ou aliviada.
— Ora, bolas! — gemeu. — E o que devo fazer agora?
O que, pensou ela, iria Patric fazer agora? Será que ele considerava a
noite passada um erro? Seria por isso que ele sumira antes que ela acordasse?
Ou estaria simplesmente sendo discreto, dando-lhe tempo para reavaliar a
situação? Deu uma risada. Tato não era exatamente um dos pontos fortes de
Patric. Ele era simpático, confiante, incrivelmente talentoso e um amante
fabuloso, mas definitivamente não tinha tato!
Um olhar para o relógio lhe disse que ele provavelmente estaria tomando
café, esperando que ela se juntasse a ele.
Aos vinte e cinco anos a maioria das mulheres haviam presumivelmente
lidado com pelo menos uma cena da "manhã seguinte", mas uma primeira vez
pouco memorável não encorajara Sally para uma vida sexual ativa. Mas,
enquanto sua experiência prática fora mínima, para Sally acordar nua perto da
pessoa com quem passara a noite parecia bem mais natural, sem mencionar
romântica, do que confrontá-lo de novo completamente vestido à mesa do café
da manhã.
— Você tinha razão, mamãe. Chegou o dia em que eu sinto não ter
passado mais tempo na escola — eles provavelmente comentariam essa
situação nas aulas de educação sexual!
Ele estava sentado, tomando seu café, quando ela chegou à porta do
restaurante, e a visão dele fez seu coração sobressaltar.
Tentou parecer composta ao dirigir-se para a mesa dele, mas seus nervos
estavam em tal estado que nem estava certa de que suas pernas a levariam
até lá.
— Ótimo, você se levantou. Tem apenas quinze minutos para tomar seu
café. Não quero perder um minuto hoje.
Apesar de espantada por sua rigidez, foi o modo impessoal com que ele
segurou seu queixo e ergueu o rosto dela para inspecioná-lo que fez com que a
alegria de seu coração arrefecesse.
— Ótimo, sem maquiagem. Quero um tom natural. — ele soltou-a e
aproximou a cabeça da dela. — Mas, pelo amor de Deus, ponha uma

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camuflagem nessa tatuagem que você tem. Parece coisa vulgar.
Ele não precisou acrescentar "como você", mas Sally ouviu-as em seu
tom.
Mas foi Sally quem sentiu náuseas.
Por quanto tempo ela ficou ali no meio da sala não saberia dizer, mas a
voz da garçonete finalmente tirou-a de sua humilhação.
— O que vai querer para o café hoje, Srta. Raynor? — perguntou ela.
Sally riu no meio de uma onda de lágrimas ferventes.
— Uma dose letal de arsênico melhoraria meu dia, sem dúvida.
O céu de Outubro estava sem nuvens, com um sol ainda fraco quando eles
chegaram ao local das fotos na corredeira.
Diferente da última vez que tinham estado ali, Sally estava indiferente à
beleza do lugar. As altas seringueiras em ambos os lados da corrente de água
poderiam escondê-los de olhos indiscretos, mas mesmo antes de sair do Land
Rover e se despir, Sally sentiu-se cruelmente exposta.
Agora, sentada nua sobre um robe comprido atoalhado enquanto vários
metros adiante, Patric montava seu tripé, lutava para manter o controle. Seu
interior estava sendo dilacerado por tão violentas emoções que ela não sabia
se gritava de raiva ou soluçava de humilhação.
— Está pronta? — chamou Patric.
Ela engoliu uma negação. Ele estava tão calmo, tão remotamente
profissional que nesse instante ela o odiou.
Será que a última noite não o havia tocado em nada? Ele nem sequer
fizera uma referência a ela.
— Ei! — gritou ele. — Perguntei se você está pronta para começar! Tem
alguma coisa a aborrecendo, ou o quê? — Raios, Sally — queixou-se ele,
correndo uma mão pelo cabelo. — Você vai somente ficar aí sentada?...
— Cale-se, Patric. Estou indo — gritou ela de volta. Levantou-se e forçou
seus passos a irem na direção dele. Orgulho era sua única motivação.
Não iria pensar sobre a última noite. Iria passar por essas fotos uma
depois da outra sem nem mesmo pensar em como as mãos dele pareciam
mágicas sobre seu corpo, ainda que isso a matasse! A única coisa que ia se
lembrar sobre as mãos de Patric era que elas seguravam uma câmera. E, com
um pouco de sorte, ela seria tão friamente profissional que Patric Flanagan
acabaria congelado.
Novamente Patric colocou o olho no visor e focalizou Sally. Ela estava
sentada com as costas para a câmera numa posição de ioga, com as pernas
cruzadas, as mãos descansando sobre os joelhos. Seu longo cabelo loiro
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estava puxado sobre um ombro e refletia a luz do sol de maneira tão
espetacular quanto a água cristalina da corredeira, a qual se espalhava em
incontáveis gotas ao ir de encontro à rocha antes de continuar sua dança
riacho abaixo.
A combinação de cores da foto seria fabulosa: o azul intenso do céu sobre
um horizonte de montanhas cobertas por árvores verdes, os troncos das
seringueiras se estendendo até o prateado frio e polido do riacho, e ali, no
centro, a cabeça dourada de Sally e sua pele branca e sedosa. E... Ah, inferno!
Parte do robe dela estava aparecendo!
— Sally! — gritou ele, afastando-se da câmara. — Deixe cair o robe, está
aparecendo na foto. — Curvou-se mais uma vez para a câmera, ainda falando.
— Estou tentando capturar a natureza pura.
Ele atirou a cabeça para trás. Desta vez Sally estava vestindo de novo o
bendito robe!
— Dai-me forças! — murmurou ele, implorando por paciência. Afastou-se
de novo da câmera e concentrou-se com força em cerrar os dentes para frear
suas emoções. Será que essa sessão de fotos não iria terminar nunca? Será
que ao menos se iniciaria? Observou Sally caminhar de volta do centro da
corredeira, agarrando o robe como se escondesse alguma deformidade
horrível.
Patric puxou os óculos escuros de sobre a cabeça. Sua memória
relembrava cada detalhe do que havia sob aquele robe branco: a macia pele de
cetim, os seios empinados com mamilos rosados, o estômago liso que se
contraíra de excitação sob suas mãos, as firmes nádegas sobre longas e
esguias pernas...
Um arrepio de desejo percorreu-lhe o corpo, trazendo-lhe um gemido aos
lábios, e subitamente a tensão em seus músculos do pescoço ameaçaram não
ser mais o maior de seus problemas físicos.
Rapidamente lembrou-se de que essa mulher, que se entregara a ele tão
facilmente, vivia com outro homem. Ele podia ter esquecido isso a noite
passada no calor da paixão, mas certamente não deixaria isso acontecer de
novo.
— Mas que diabos, Sally! — soltou ele, despejando sua frustração na
raiva. — Qual é o problema agora? Até então ela se queixara de que o sol
estava em seus olhos, que a pedra onde ele queria que ela posasse era muito
dura, e que a água estava muito fria. Bem, já agüentara tudo o que podia, e
não iria cair vítima daquele olhar ferido dos olhos dela. — Vamos, diga logo!
Sally engoliu o desejo de chorar, dizendo-se a si mesma que nenhum
fotógrafo a havia levado às lágrimas, e que o inferno congelaria antes que ela
dissesse isso a Patric.
— Meu problema — disse tensa — é que você não quer me deixar sentar
sobre meu robe, e quando eu o seguro, ele aparece na foto. Preciso de uma
sacola de plástico.
Projeto Revisoras

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Sabrina Nº 940

— Sacola de plástico?
— É. Para colocar isso dentro.
— Olhe, Sally — disse ele através dos dentes cerrados.
— Ponha o raio dessa coisa onde quiser! Mas volte já para aquela pedra!
Ela concordou.
— Você tem uma?
— Uma o quê?
— Sacola plástica. Uma grande. E algum cordão.
— Cordão?
— Para que eu possa amarrar a sacola em uma ponta e amarrar a outra
no meu dedo do pé...
— Por que, em nome dos céus, você quer amarrar essa coisa em seu pé?
— Porque, de outra forma a sacola vai flutuar para longe — explicou ela,
olhando ele passar os dedos pelos cabelos.
— Esqueça o cordão, a sacola e qualquer outra coisa estúpida que passe
por sua cabeça, e volte já para aquela pedra! — Ele esticou o braço para ela. —
Vou tomar conta desse robe.
— Se pensa que vou me despir e andar nua até lá, está muito...
— Não acha que é tarde demais para um ataque de falso pudor? — A voz
dele estava fria e cruel. — Já vi tudo o que merece ser visto. E, acredite, não
estou interessado em outra sessão de luxúria.
Luxúria. O modo como ele disse isso lhe contou o que ele pensava do que
se passara entre eles na noite anterior.
O gosto de bílis começou a subir à boca de Sally e a queimar-lhe o corpo
todo. Ela nunca se sentira tão mal em toda a vida, enjoada. Nem tão estúpida.
Desejou uma morte instantânea para si, mas isso não lhe foi concedido.
— Sally?
A voz dele, impaciente e impessoal, forçou-a a mover-se; era isso ou cair
em frente a ele. Piscando para evitar as lágrimas, levou as mãos para desatar
o nó do robe, única peça de roupa que usava, mas antes de seus dedos
desmancharem o nó, seu pulso foi seguro por uma forte mão masculina. Sua
respiração ficou suspensa.
— Vá com isso até a rocha. Quando estiver pronta, eu vou pegá-lo.
Ela não olhou para cima nem respondeu até ele soltar sua mão. Então se
virou e começou a andar pela água até a rocha.

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As quentes lágrimas correndo por suas faces contrastavam com a água
fria do riacho e o gelo de seu coração.
Oh, Deus, o que acontecera com seu orgulho? Esqueça o orgulho, o que
sucedera com seu bom senso? Tinha que trabalhar com esse homem!
A necessidade de assoar-se fez com que percebesse que suas lágrimas já
eram abundantes. Estava ligada a esse homem por um contrato. Não tinha
opção. Bem, podia quebrar o contrato, mas como não tinha dinheiro...
Suspirou. Nunca as dívidas do pai lhe pesaram tanto. Mas iria usá-las
como uma motivação para atravessar o período que ainda faltava com Patric.
Lembrou de ter lido em algum lugar que uma modelo internacional dissera que
a única maneira de passar por algumas fotos era pensar nas belas notas que
receberia ao final.
Era isso que faria. Iria se concentrar no fato de que ao fim do contrato, ou
logo depois, teria dinheiro para pagar as pessoas que seu pai fraudara. Assim
que fizesse isso, nunca mais teria que sorrir a não ser que o quisesse.
Mesmo se não conseguisse esquecer o que acontecera a noite passada,
iria se recompor o bastante para que as sessões de fotos corressem suaves e
terminassem bem rápido. Uma vez isso feito, o rosto e o toque de Patric
seriam apenas lembranças.
Sentindo renascerem suas forças, Sally enxugou o rosto com a ponta do
cinto, hesitando apenas um segundo antes de deixar o robe escorregar por
seus ombros. Então, com cuidado para não revelar mais do que o necessário
para o homem de pé na praia, livrou-se do robe.
Abraçou-se sentindo o desconforto da rocha rude sob suas nádegas.
Ao som da água espirrando com os passos de Patric, o traiçoeiro coração
de Sally bateu mais rápido e nenhum comando silencioso para que se
comportasse fez diferença. Irritada, enrolou o robe em uma bola apertada e o
estava amarrando com o cinto à sua volta quando a voz dele cortou o silêncio.
— Ok, dê-me isso.
Ele devia estar à distância de um metro, mas sua pele arrepiou-se como
se ele a tivesse tocado. A lembrança de como podia ser gentil o seu toque fez
com que uma onda quente de desejo a percorresse toda e seus mamilos
imediatamente se endureceram. Esses pensamentos a fizeram balançar com
uma fraqueza sensual.
— Sally, me passe esse robe, sim?
Sentindo-se mais boba do que nunca, e grata que o comprimento de seu
cabelo escondesse sua nudez, esticou o braço atrás de si.
— Aqui.
Ele levou tanto tempo para apanhá-lo que ela pensou que tivesse ido
embora, mas não se arriscou a virar-se para ver. Esconder o rosto que, após
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seu choro estava inchado e vermelho, de repente era tão imperativo quanto
esconder dele o seu corpo. Mais ainda. Porque revelaria que ele tinha o poder
de magoá-la.
— Patric, pegue antes que eu fique com cãibra!
Ela o ouviu praguejar no mesmo instante em que ela puxou o braço ao
sentir os dedos dele sobre os seus. Então, tudo o que pôde pensar foi em
evitar cair no rio enquanto tentava preservar seu pudor ao mesmo tempo.
— Brilhante! — exclamou Patric. — Veja o que você fez! — disse ele,
mostrando-lhe um bolo de tecido molhado.
— O que eu fiz?! — explodiu ela, mal se equilibrando na rocha mal
recortada enquanto seu cérebro imediatamente checava seu instinto de virarse para ele.
— Podia ter esperado até eu pegá-lo antes de soltar — insistiu ele.
— Você devia ter dado a sacola de plástico quando eu lhe pedi! Agora, o
que vou fazer?
— Aquilo pelo que está sendo paga: posar! - retrucou ele. — Você se dizia
uma modelo, lembra-se?
— Eu sou uma modelo!
— Ótimo. Então talvez possamos finalmente acabar o que começamos há
duas horas! — foi a resposta. — Temos ainda outra foto para hoje.
— Não me lembre disso. Só consigo viver um pesadelo de cada vez.
Focalizando uma árvore distante, Sally cobriu o ombro esquerdo com o
cabelo e, respirando profundamente, colocou-se na pose que ele queria.

CAPÍTULO X

Patric afastou-se da câmera e enxugou o suor que lhe cobria o rosto. O
que não daria por uma súbita onda de Inverno. Praguejou quando sua
consciência lhe disse que estava se enganando se pensava que o clima era a
causa da raiva e da frustração que lhe apertavam a garganta.
Sabia que mesmo que ficassem ali o dia todo, o que já conseguira seria
tão bom quanto o que poderia obter ainda.
— Ok, Sally, já chega! — gritou ele. Ela não deu indicação de que o
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ouvira, o que não o surpreendeu. Ela tinha estado uma estátua pelos últimos
trinta minutos, mesmo quando ele quase ficara roxo de tanto pedir que ela
relaxasse. Corpos numa morgue pareceriam mais vivos do que ela.
— Ei, Sally! — repetiu ele. — Já disse que terminou! Pode vir agora!
Lá da rocha a cabeça loira virou-se ligeiramente.
— Traga alguma coisa para eu me cobrir, primeiro.
O primeiro instinto dele foi de recusar: mas, que inferno, ele não poderia
agüentar. Se já fora uma tortura focalizá-la nua pelos últimos quarenta e cinco
minutos, então vê-la andando para ele seria suicídio puro. Praguejando baixo,
enfiou os óculos escuros como se eles pudessem diminuir a imagem mental
dela, agarrou sua camisa que estava no chão e caminhou pela água.
Sally franziu a testa ao ver a camisa que ele lhe estendia.
— Minhas roupas estão em uma mochila na frente do carro.
Patric suspirou pesadamente.
— Coloque isso por agora. Não estamos em um desfile de modas,
ninguém vai ver você nesses poucos segundos que vai levar para... — Ele
parou, mas não foi o que disse que fez Sally recuar, foi o toque de sua mão no
ombro dela.
— Você está queimada! — acusou ele. — Não lhe disse para colocar o
protetor solar?
— Eu coloquei.
— Sally! Suas costas estão vermelhas.
As palavras dele a fizeram se lembrar de cobrir o ombro com o cabelo.
Quando a mão dele se estendeu para seu queixo, ela afastou-se.
— Só quero ver seu rosto — começou ele.
— Meu rosto está ótimo. Coloquei protetor solar em toda a parte que pude
alcançar — contou ela, rapidamente colocando os braços na camisa.
— O que estaria bem se você fosse uma contorcionista. A última coisa que
eu preciso agora é uma modelo com a pele cheia de bolhas e descascando.
— Eu me bronzeio fácil — disse ela, abotoando a camisa e tentando
adivinhar quanto ela a cobriria quando se erguesse.
— Sei. ― o tom dele não estava convencido. — Você tem sorte de que as
fotos dessa tarde são todas frontais.
Oh, sim, pensou ela, colocando o pé na água, muita sorte!
Enquanto Patric guardava sua câmera, Sally subiu no Land Rover para
trocar a camisa masculina por um biquíni e uma camiseta gigante que lhe
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chegava no meio da coxa. Não adiantava desejar que o dia tivesse acabado,
porque ainda teria amanhã, e o dia seguinte, e o outro dia e todos os outros
para enfrentar. Enfiou os óculos escuros e olhou no espelhinho do carro, não
para seu reflexo, mas para calcular quanto tempo tinha ainda para respirar
antes que Patric se sentasse ao lado dela.
Ele estava de costas e dobrava o tripé. Estava descalço e seu jeans estava
enrolado quase até os joelhos. Seu torso nu brilhava ao sol do meio-dia. Seus
dedos ansiaram por locar aquela pele e sentir os músculos sob ela.
Patric subiu para o lado dela, e ligou o motor, soltando o freio. Sally foi
atirada contra a porta quando ele fez uma curva fechada e acelerou em direção
à trilha pela qual tinham vindo. Apesar de não ser estúpida para pensar que
dirigir em um caminho daqueles não seria nada suave, mesmo para um jipe
como aquele, pareceu-lhe que Patric não fazia nenhum esforço para evitar os
buracos do chão.
Em um deles ela foi atirada fora do assento e bateu com a cabeça contra o
teto. Agarrando o painel com uma mão e a porta com a outra, virou-se para o
motorista.
— Ei, vá devagar, ouviu? Esse carro vai se desmanchar!
— Pare de se queixar, está bem? Já estou farto disso por hoje.
Se ela não estivesse se agarrando para se firmar, teria socado Patric. Ele
estava farto? Pois se não fizera nada a não ser rugir para ela o tempo todo em
que posara para ele!
Se tivesse dinheiro, teria rasgado o contrato agora mesmo.
Patric a observou tentando desembrulhar o sanduíche que o hotel
arrumara, atormentando-se com o pensamento de que na noite anterior
aquelas unhas sem esmalte, mas perfeitamente manicuradas, haviam
arranhado sua pele. Sofreu mais ainda quando aqueles dedos longos levaram o
sanduíche de presunto aos lábios perfeitos que se abriram para isso.
Uma excitação percorreu-lhe o sangue. Ela sentava-se à sombra de uma
seringueira apenas a alguns passos dele. Os cabelos loiros caíam sobre os
ombros dela e suas longas pernas estavam esticadas elegantemente em sua
frente.
Se não fosse pelo modo que a camiseta se agarrava às curvas daquele
corpo ela teria passado por catorze anos.
Ele perguntou-se se ela poderia sentir o calor que irradiava dele, se a
virilha dela também estaria se derretendo com esse calor. Gemeu. Pelo jeito,
foi alto.
— O que foi? — perguntou ela, com voz neutra.
Ele quase deu uma risada pela ironia da pergunta. Se lhe contasse, qual
seria a reação dela? Ela olhava direto para ele, mas apesar de ter tirado os

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óculos escuros, seus olhos estavam sombreados pela aba do boné de beisebol,
impossíveis de serem lidos.
— Nada. — Ele pegou uma lata de bebida de um isopor e a abriu. Após
um longo gole, que esvaziou metade da lata, colocou a lata no colo e apanhou
um sanduíche para alimentar um apetite que não tinha.
Vinte minutos mais tarde, já tudo arrumado, chegou a hora de explicar a
Saily o que queria que ela fizesse. A idéia era fazê-la caminhar vagarosamente
descendo o morro ali ao lado com a mão estendida, roçando o alto mato que
lhe chegava pela cintura. O ideal seria que uma brisa levantasse os cabelos
dela para que na foto parecessem como mechas de ouro espalhadas contra o
céu sem nuvens, mas jamais havia brisa quando se precisava de uma.
— Então, entendeu o que eu quero? — perguntou ele.
— Acho que sim — respondeu ela, esticando os braços atrás do pescoço
para erguer o cabelo.
Esse gesto fez Patric engolir seco: a maneira como a camiseta esticou-se
contra os seios dela, que obviamente estavam sem sutiã, fez com que ele se
enrijecesse. Tentou concentrar-se na tarefa de colocar um filme novo na
câmera.
Sally sentiu-se nervosa novamente ao ver Patric carregar a câmera e
então apontá-la para a direção onde ela deveria posar. Isso iria ser muito pior
do que da última vez porque agora ela teria que ficar de frente para ele em sua
nudez. Não importava que estivessem separados por trezentos metros porque
a poderosa máquina permitiria que ele visse o rosto dela tão claramente como
se estivesse bem a sua frente.
— A que distância devo ficar? — perguntou ela. Quando a cabeça curvada
ignorou sua pergunta, ela repetiu a pergunta.
—Ah... o quê? A expressão totalmente distraída dele a deixou furiosa.
— Perguntei até onde eu devo ir no morro.
— Até um terço dele. O ângulo desta lente vai permitir que eu pegue tudo.
— Ei, faça um pouco melhor do que da última vez, ok? As palavras fizeram
com que ela parasse e se virasse para olhar para ele.
— E o que quer dizer? — desafiou-o.
— Que eu a quero relaxada. Quero um olhar sonhador em seu rosto. Um
olhar de criança, entende? Não quero você olhando como um manequim de
loja.
O sangue de Sally ferveu e ela levantou o queixo.
— Ouça — disse ela, agressiva — eu tenho uma reputação no mundo dos
modelos como sendo capaz de passar exatamente o que o fotógrafo deseja.

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— É mesmo?
— É! — Ela desafiadoramente atirou o cabelo sobre o ombro. — Eu lhe
dou exatamente o que você pedir — continuou ela. — Se não ficar satisfeito
com o resultado, será porque não foi bastante específico em suas explicações.
— Então está me dizendo que não fui bastante explícito?
— Bingo! — disse ela. — Tenho muita dificuldade em ler mentes,
especialmente quando não existe uma!
Ele agarrou-lhe um braço e puxou-a para perto dele.
— Se minha mente tornou-se inexistente foi inteiramente por culpa sua!
— Me deixe!
— Claro — murmurou ele, descendo uma mão até as nádegas e atraindo a
parte inferior do corpo dela até o seu próprio. — Não até eu lhe mostrar o quão
explícito eu posso ser. Oh, e esqueça a leitura de mentes, meu bem — avisou
ele abaixando a cabeça. — Concentre-se na linguagem do corpo.
A sensação da boca dele contra a sua atordoou-a, não porque não
soubesse que o beijo estava vindo, mas porque ele foi frio e rude comparado
com os que ele lhe dera na noite anterior. Insulto era a única palavra que
descrevia o beijo mas, para sua surpresa, ele soltou-a antes que tivesse tempo
de lutar.
— Ah, inferno! — disse ele, correndo os dedos pelo cabelo.
— Nunca mais ouse fazer isso! — gritou ela, saltando para longe quando
ele estendeu uma mão em sua direção.
A reação de Sally fez com que Patric se sentisse o mais abjeto dos
vermes. Que diabos estaria ele tentando provar? E a quem?
— Sally, sinto muito.
— Pois eu também — disse ela, dirigindo-lhe um olhar letal. Ele enfiou as
mãos nos bolsos e respirou profundamente.
— Precisamos falar sobre a noite passada — disse ele, olhando direto para
ela. — Esclarecer as coisas entre nós.
— A única coisa que eu quero bem clara, Patric, é que não vai acontecer
de novo. Eu não sou uma qualquer! Ao contrário do que você possa pensar
depois da noite passada, não tenho o hábito de dormir com qualquer um. —
Curvando-se, apanhou a sacola contendo o protetor solar, uma escova de
cabelo e que logo também conteria as roupas que usava agora, e começou a
caminhar. — Vamos terminar logo com isso.
Ele hesitou um momento, então a chamou.
— E agora, o que mais? — perguntou, virando-se para ele.

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— Só para seu conhecimento, não penso que você é uma qualquer —
disse ele, com suavidade.
Ela deu uma grande gargalhada.
— Bem, pois eu me sinto como uma!

CAPÍTULO XI

O calor maltratava tanto, que Sally pensou que o sol estava brilhando
diretamente do inferno. Passou mais uma camada de protetor solar sobre a
pele quente e esperou o sinal de Patric dizendo que começasse a descer a
colina.
Estava parada no meio do mato que quase lhe alcançava o busto e que,
apesar de incomodar sua pele, ela desejaria que fosse alguns centímetros mais
alto. Assim, cobriria algumas de suas partes vitais femininas. Pelo menos ali
podia usar tênis. Mas nas fotos futuras... bem, temia que o pior ainda
estivesse por vir.
Em um esforço para conseguir algum alívio do sol, ergueu o cabelo. Sabia
que, nua, seu gesto era provocativo ao extremo, mas também sabia que a
distância a mantinha a salvo dos olhos do homem lá em baixo.
Até agora Patric não se aproximara da câmera, e isso significava que para
seus olhos nus ela aparecia da mesma forma que ele aparecia para ela: pouco
mais do que uma figura indistinta. Claro, tudo mudaria no momento em que
ele olhasse pela câmera e lhe fizesse sinal com a camisa.
— Comece a pensar no dinheiro — murmurou ela para si mesma.
O grito fez o sangue de Patric gelar. Instintivamente olhou para o lugar
onde Sally estivera de pé. Agora ela estava a alguma distância dali, correndo
morro abaixo como se o próprio diabo estivesse atrás dela.
Desvencilhando-se do tripé, saltou para trás e disparou em direção a Sally
enquanto tentava avistar quem ou o que a havia assustado. Quando estava a
alguns passos dela, ela voou para os braços dele, quase lhe tirando o fôlego.
— Santo Deus, Sally! O que aconteceu?
— Ele estava olhando... para mim! Como se... fosse... — As palavras
rápidas se tornavam mais incoerentes pela falta de ar e do modo que seu
corpo tremia.
— Psiu. Meu bem, está tudo bem. Eu estou aqui. — Segurou-a firmemente
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contra si, uma mão à volta do corpo um tanto oleoso e a outra afagando-lhe o
cabelo.
— Oh, Senhor... ele... estava olhando para mim! — Os dedos dela se
agarraram parte em sua camisa aberta e parte no cabelo de seu peito,
enquanto ela continuava a tremer e gaguejar. — O tempo todo... olhando.
— Você está segura agora, meu bem. Está tudo bem. — Falando, Patric
continuava a olhar para o morro, tentando descobrir o que a reduzira a um
trapo aterrorizado. Quebraria o pescoço do bastardo pervertido, e faria isso
sorrindo!
Um outro arrepio veio da mulher que segurava nos braços e ele apertou-a
ainda mais.
— Calma, amor. Eu estou aqui.
— A cara... — Outra vez ela estremeceu. — Ugh! Era tão... tão feia! E...
— Calma, calma — sussurrou ele, afagando-lhe as costas com a mão. —
Tudo está bem. Não aconteceu nada. — Sentiu quando ela concordou com a
cabeça contra seu peito.
Mais uma vez, vasculhou com os olhos a área onde ela estivera. Continuou
segurando-a até sentir a tensão abandonar seu corpo.
— Sente-se melhor? — perguntou ele, e recebeu uma resposta afirmativa.
— Quer me dizer como era?...
Patric continuou a observar o morro tanto para ver o crápula que a
assustara como também para distrair-se das quentes curvas femininas que se
aninhavam suavemente contra ele.
— Horrível! Aqueles olhos pareciam... de vidro.
evitar o tremor que passou por seu corpo ao
Instintivamente apertou-se mais contra seu salvador.
gostar de Patric — confiava nele. Confiava que ele
protegeria.

— Sally não conseguiu
lembrar-se da cena.
Não lhe importava não
a manteria a salvo, a

Quando relaxou um pouco, conseguiu olhar além do horror no morro.
Percebeu que Patric, apesar de segurá-la ainda, tentava encolher os ombros e
livrar-se da camisa. Uma nova onda de pânico dominou-a ao pensamento de
sua nudez juntando-se à dele.
— Relaxe — disse ele. — Vou passar minha camisa sobre seus ombros e
vou me virar enquanto você a veste. Está bem?
O suspiro de alívio e o movimento dos braços dela para cobrir os seios
fizeram com que ele risse.
— Pensou que tinha saltado da frigideira para o fogo, hein?
— Não — disse ela, enquanto ele dava um passo para trás e se voltava de
costas para ela. — Não exatamente. — Rapidamente, enfiou a camisa e
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começou a abotoá-la. Mesmo agora seus dedos não estavam firmes.
— Decente? Ela concordou.
— Pode... virar-se agora — gaguejou ela.
— Vamos, Sally — disse ele, colocando um braço sobre os ombros dela. —
Vamos falar com a polícia assim que chegarmos na cidade.
As palavras dele a fizeram gelar.
— A polícia?
— Precisamos relatar isso.
— Precisamos mesmo?
O sorriso dele foi compreensivo.
— Você sabe que sim. Não se pode ignorar uma coisa dessas.
— Por que não?
— Porque esse tipo de coisa tem que ser investigada. Olhe, não vai ser
assim tão ruim — assegurou ele. — Vou estar com você.
Talvez ele tivesse razão, pensou ela. O que sabia ela das coisas que
ocorriam ali no campo? Esperava apenas que a polícia não quisesse saber o
que ela estava usando naquela hora.
Enquanto Patric guardava suas coisas, ela colocou o short o a camisa que
usava quando deixara o hotel naquela manhã.
Ele lançou-lhe um rápido olhar.
— A que distância você estava?...
Mais uma vez um arrepio desceu-lhe pela espinha.
— Um... um metro, acho.
O pensamento do bastardo tão perto dela fez com que o sangue de Patric
se congelasse.
— Tem certeza de que isso é necessário? — perguntou Sally ao se
aproximarem da pequena delegacia de polícia.
— Tenho.
— Bom dia. — Um oficial uniformizado com os galões de sargento dirigiuse à mesa. — Sargento Taylor. Em que posso ajudá-los?
— Queremos fazer queixa de um pervertido.
— O quê? — perguntaram o sargento e Sally ao mesmo tempo.
— Um pervertido — repetiu Patric.
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— Céus! Isso vai deixar o pessoal aqui bem alerta. Não me lembro de um
caso assim por aqui antes.
Patric, vendo os confusos olhos de Sally, percebeu que ela não estava a
fim de lidar com um insensível tira do interior.
— Sabe, sargento, ele causou a essa moça muito aborrecimento há
apenas uma hora, e detesto pensar que isso possa acontecer de novo se ela
estiver sozinha.
— Tem razão. Bem, quero que os dois me dêem uma descrição...
— Eu, na verdade, não vi nada — explicou Patric. — Estava a alguma
distância e fui correndo quando ouvi Sally... Srta. Raynor gritar. Eu...
Parou a descrição ao ver que Sally escondera o rosto nos braços sobre o
balcão e parecia soluçar.
— Ei, meu bem — disse ele, colocando a mão sobre o ombro dela. — Tudo
já acab...
O sargento Taylor pediu que alguém trouxesse uma xícara de chá com
bastante açúcar.
— Foi o choque, claro — disse ele a Patric. — Olhe, deixe-me falar com
ela. Senhorita?
Sally levantou o rosto. Limpou as lágrimas dos olhos, mas não adiantou.
No momento em que ele abriu a boca, elas recomeçaram.
— Vamos, vamos. Eu sei que esses doentes podem parecer bem
ameaçadores, mas as estatísticas mostram que eles raramente vão adiante em
suas ameaças. Você provavelmente vai estar segura... Então, como era o tal
bruto?
— Era... — Tentar falar era mais do que ela conseguia. — Era... uma
cobra!
— Sim, bem, eu usaria palavras fortes. Mas o que eu preciso de verdade é
uma descrição mais apurada. Que idade teria ele?
Sem poder falar, Sally afastou-se do balcão com os ombros sacudidos pela
gargalhada.
— Oh, céus. Ela está histérica — murmurou o sargento. Neste momento
ela viu uma luz de compreensão surgir no rosto de Patric, mas o sargento
ainda parecia preocupado.
— Você não entende — disse ela entre as risadas. — Era uma... cobra!
Uma cobra viva... que silvava!
— Isso é alguma piada? — perguntou o sargento. Um grande sorriso
apareceu no rosto de Patric.
— Eu não pensei nisso no começo — disse ele, tentando conter seu
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divertimento para acalmar o furioso policial. — Mas, tem que admitir, isso é
muito engraçado!

Ele ainda ria quando Sally levou dois copos de cerveja e um saco de
amendoins do seu bar e os colocou sobre a mesa. Ela insistira em comprar os
drinques, dizendo que era sua maneira de agradecer por ter-lhe salvo a vida.
Sentando-se na frente dele, Sally levantou o copo em um brinde.
— A mim, por nos salvar de sermos indiciados por termos feito queixa
injustificada. Aliás, o que vamos fazer agora que aquele réptil arruinou seus
planos de ter uma foto naquela vertente do morro?
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Arruinou?
— Não tem perigo, Patric, jamais me fará voltar àquele lugar!
— Amanhã a cobra já terá saído de lá — disse ele.
— Não me importa a mínima se aquele estúpido animal emigrou hoje para
a Irlanda. Eu não volto lá de jeito nenhum!
Os olhos castanhos sombreados por grossas pestanas do homem à sua
frente a fascinavam, e o calor sensual criado dentro dela fez com que
demorasse para perceber as duas mensagens que eles enviavam. Uma era a
promessa sussurrada de um rápido prazer físico além de qualquer coisa que
ela já conhecera; e a outra era um alerta contra expectativas emocionais mais
duradouras.
Enquanto ele tomava um gole da cerveja, ela reparou nos lábios e nas
mãos bronzeadas de Patric. Suas próprias mãos se relaxaram a ponto de
deixar cair sobre a mesa os amendoins que segurava.
Patric apressou-se a ajudá-la a recuperar os amendoins.
— Você ainda está bastante assustada com o que aconteceu, não está?
— Considerando que esse foi meu primeiro encontro com a espécie, isso
era de esperar, não acha?
— Claro — disse Patric, suspeitando que alguma coisa tinha de ser
responsável pela maneira como ela passou de sorridente e relaxada para
agressivamente tensa.
— Então, Patric, ou você desiste das fotos no morro ou as faz com outra
modelo.
Vendo o estado de espírito em que ela se achava no momento, Patric
achou que não era uma boa hora para lhe dizer que conseguira um rolo todo
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de fotos dela. Era melhor ser discreto.
Seus pensamentos foram interrompidos pela chegada da gerente à sua
mesa.
— Srta. Raynor — disse ela — há um homem chamado Phil Mich...
qualquer coisa ao telefone. Diz que...
Sally ergueu-se da cadeira e agarrou o braço da mulher.
— Que telefone? Onde? No bar?
— Na recepção... a resposta da mulher foi rápida, mas Sally já deixara a
sala.
— Deve ser alguém muito importante — a gerente pensou alto.
— É — concordou Patric, tomando o resto da cerveja. — Certamente
parece isso.
Ele estava no meio da segunda cerveja quando uma Sally ultra-excitada
correu para sua mesa.
— Estou voltando para Sydney.
— O quê?
— Só por uma semana ou duas — continuou ela, como se ele não tivesse
dito nada. — Dez dias no máximo.
— Absolutamente não! — disse ele. — Já estamos atrasados no nosso
cronograma.
— Eu sei, mas tenho de ir...
— Não! — Ele bateu na mesa, fazendo os copos dançarem. A ação
claramente a surpreendeu, mas ele estava com raiva demais para se importar
com a cerveja derramada. — Você concordou com essa viagem sabendo que
levaria três semanas quando saímos de Sydney. Se isso vai contra outros
compromissos, devia ter dito na hora.
— Mas... Eu não estava esperando esse...
— Ouça, Michelini pode estar acostumado a dizer "Salta" e ver você
respondendo: "Que altura?", mas que um raio me parta se vou me acomodar
aos desejos dele ou aos seus!
— Ouça, Patric, ninguém está pedindo para fazer isso. E eu lhe digo
apenas que já tenho reserva em um vôo que sai de Port Macquarie em pouco
mais de uma hora.
— Essa pode ser a sua idéia de profissionalismo, mas não é a minha!
Temos um contrato...
— Então me processe! — desafiou ela. — Porque o dia em que minha
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carreira for mais importante do que a minha irmã, esse dia...
— Que diabos tem sua irmã a ver com isso?
— Tudo! Ela está grávida!
— E daí?
— Daí que ela entrou em trabalho de parto prematuro!
— Então por que não disse antes?
— Porque, Patric, você não me deu nenhuma chance! Ele a viu sair da sala
e sentiu-se como um absoluto idiota, como se ela já não tivesse tido um dia
suficientemente duro sem ele saltando à sua garganta. Suspirou, sabendo que
o nó de ciúme que se formara em sua garganta no minuto que ela voara para
atender o telefone não diminuíra. Fosse qual fosse a razão de ela ir a Sydney.
Com esse pensamento animador, saiu do bar. O mínimo que podia fazer
era oferecer-se para levá-la ao aeroporto.
A viagem para o aeroporto de Port Macquarie fora tensa e silenciosa. Sally
sentia se absolutamente esvaziada da emoção que sentira desde que saíra da
cama na manhã da véspera.
Concluiu que o início de seus problemas fora a noite fatídica em que
jantara com Patric. Desde então, estivera o tempo todo consciente da presença
dele. Mas, isso era culpa dele! Nenhum homem tinha o direito de ser tão
charmoso quanto ele. Até a moça da companhia aérea, onde apanhara seu
bilhete havia dez minutos, se desmanchara em sorrisos para ele, ignorando
seus esforços para atrair-lhe a atenção e receber seu bilhete.
Sussurrara então à moça que Patric era gay, e ela, olhando para ele de
soslaio, dissera:
— Que desperdício... — Só assim conseguiu obter o bilhete. Sorrindo
intimamente, Sally imaginou qual seria a reação de Patric se soubesse de sua
mentira.
Não conseguiu imaginar por que Patric achou necessário esperar até a
hora dela entrar no avião. Os braços cruzados lhe disseram que ele ainda não
aceitara a interrupção de seu precioso cronograma, mas Sally apreciara sua
oferta de levá-la ao aeroporto e queria lhe dizer isso.
— Não foi nada. ― grunhiu ele.
— Devo estar de volta em uma semana. — Ela lhe deu o telefone da casa
da irmã. — Pode entrar em contato comigo nesse número. Se for necessário —
acrescentou ela.
— Ok. Ligue para mim para contar como vão as coisas. ― O pedido
surpreendeu-a.
— Ah, está bem.
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— E me avise quando estiver voltando — pediu ele.
— Não precisa vir me buscar, posso pegar um táxi.
— Eu sei. Preciso tentar refazer os planos das fotos.
— Ah, certo. Bem, acho que já vou.
— Certo. Alguém vai buscá-la no aeroporto?
— Desde que não haja novidades, espero que Phil vá.
— Certo. Bem, melhor ir andando, não é?

CAPÍTULO XII

Sally olhou para as nuvens que envolviam o avião. Perguntou-se se Patric
teria recebido o recado que deixara com a gerente do hotel, avisando que
chegaria naquele dia; três dias mais cedo. A satisfação de vê-lo de novo era
tão excitante quanto amedrontadora.
Encostando a cabeça no assento, tentou pela centésima vez convencer-se
de que não estava apaixonada por ele.
"Desista, Sally, você caiu com mais força e mais rápido por esse cara do
que um tijolo cairia deste avião!"
Suspirou com tristeza, sabendo que mentir para si mesma não resolvia
nada. Milhões de rapazes no mundo, e ela tinha que se apaixonar justo por
Patric; que não somente considerava as modelos em geral como moralmente
corruptas como também considerava Sally Raynor um exemplo perfeito dessa
corrupção!
Seu primeiro impulso fora ficar em Sydney pelo maior tempo possível na
esperança de que seus sentimentos mudassem. Mas, mesmo com todas as
distrações que duas crianças barulhentas, um bebê recém-nascido e seus
encantados pais pudessem criar, Patric continuara teimosamente no fundo de
sua mente.
Então, no dia anterior decidira mudar, confrontar a causa desse surto de
amor e provar que ele não era mais uma ameaça para ela.
Patric foi o primeiro a quem viu quando entrou no saguão do pequeno
aeroporto. No mesmo instante esqueceu tudo e todos à sua volta exceto o
homem de cabelos escuros sentado negligentemente em um banco de espera.

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Suas longas pernas estavam cruzadas e os braços também. A imagem era
totalmente máscula.
O peso da mala de outro passageiro batendo em seu tornozelo fez com
que fosse projetada para a frente. Com medo de que seus olhos a traíssem,
ergueu os óculos escuros que trazia pendurados no pescoço e os colocou,
enquanto encurtava a distância que a separava de Patric.
— Olá, Patric. O que está fazendo aqui?
— Nada de especial: Eu sempre passo as segundas-feiras flanando em
pequenos aeroportos do interior.
Sally sabia que fora sua pergunta que provocara essa resposta. Mas
resolveu continuar sua linha de perguntas.
— Verdade? Bem, desde que está aqui, há alguma chance de eu pegar
uma carona com você?
Ele ergueu as sobrancelhas, como se considerasse a pergunta.
― Claro. Já estou aqui há uns quarenta minutos mesmo... — disse ele,
erguendo-se ao lado dela.
Com o coração disparado pela súbita aproximação dele, Sally tentou
refazer suas defesas.
— Não pedi para vir me buscar, Patric.
― Eu sei. Me dê sua mala.
O toque da mão dele na sua enviou uma corrente elétrica por seu braço e
ela soltou a mala.
— Isso é tudo o que trouxe?
Acenou que sim.
— Ok, então. — Ele deu um sorriso preguiçoso. — Vamos sair daqui.
Com o efeito daquele sorriso correndo-lhe pelo corpo, Sally seguiu-o em
um estado de pânico.
Os pensamentos ricocheteavam em sua cabeça enquanto andavam em
silêncio até o Land Rover.
Estranhamente, foi a visão do veículo que fê-la perceber que a única razão
de estar ali era que eles tinham um contrato de trabalho. Nada mais, nada
menos. Claro, eles tinham dormido juntos, mas isso simplesmente acontecera.
Subitamente, sem nenhum aviso, sem planejamento, sem... nada.
Ok, então houvera uma forte atração física entre eles desde o começo,
mas Sally conhecia pelo menos uma dúzia de pessoas que haviam sobrevivido
a um relacionamento puramente físico sem se apaixonarem ou tornarem-se
candidatos para um hospício. Ela, no entanto, caíra vítima de Cupido.
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— Você está muito quieta. O que há?
Foi o tom de preocupação na voz de Patric que prendeu sua atenção.
— O quê? — perguntou ela.
— Você não disse uma palavra desde que deixamos o aeroporto. No que
está pensando?
Em vez de responder, subiu no carro e prendeu o cinto de segurança, na
esperança de que ele esquecesse a pergunta. Não teve sorte. Ele permaneceu
de pé a seu lado, impossibilitando-a de fechar a porta.
— O que está havendo?
— O que o faz pensar que há alguma coisa? Ele sacudiu os ombros.
— Você está muito quieta. Está na defensiva.
— Muitas vezes eu fico quieta, Patric.
— E você está na defensiva mesmo — disse ele rápido, então sorriu. —
Mas isso normalmente é por causa de alguma coisa que eu fiz ou disse, mas
como eu tenho me comportado muito bem desde que você chegou, achei que
deve haver uma outra razão.
— Não há.
— Nenhum problema em Sydney?
— Quer dizer, além de um caso grave de ciúme da parte de meus
sobrinhos em relação ao novo bebê de quatro dias e que não quer dormir à
noite, e de seus pais mortos de sono?
O riso dele era contagiante.
— Sim, quero dizer além disso.
— Então, não. Tudo está ótimo lá em casa.
— Então, a única razão pela qual você voltou mais cedo é porque sentiu
minha falta, não é?
Sally quase engasgou, mas conseguiu negar.
— Nos seus sonhos, Patric.
Rindo, ele bateu a porta e deu a volta ao carro. Seu bom humor tanto a
irritava como a confundia. Droga, não queria sentir-se alterada com a
companhia dele. Começou a conversar logo que ele deu a partida no carro.
— Então, tirou muitas fotos desde que fui embora?
— Não.
Ela fez outra pergunta.
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— Pensei que havia vários outros lugares bonitos que você desejava
fotografar sem mim?
— Mudei de idéia.
— Por quê?
Ele sacudiu os ombros.
Estava difícil. Ele não estava ajudando nada. Teimosa, tentou de novo.
— Algum problema com o sargento Taylor sobre a história da cobra?
— Não. — O sorriso que acompanhou sua resposta fê-la suspeitar que ele
percebia o que estava tentando fazer, mas o orgulho fez com que continuasse.
— Oh, bem, isso é ótimo. Eu estava preocupada — mentiu ela. Furiosa,
apanhou a primeira fita cassete que encontrou e enfiou-a no toca-fitas.
Estavam parados havia mais de um minuto quando ela se deu conta de
que estavam em frente de um dos melhores hotéis de Port Macquarie.
— O que estamos fazendo aqui?
— É aqui que estamos hospedados agora. Nossos próximos locais de
trabalho ficam perto daqui — explicou ele.
— Mas... e as minhas malas? Deixei duas no outro hotel.
— Mandei o pessoal de lá checar seu quarto.
— Ah, bem... obrigada. Estou surpresa de que tenha se lembrado delas.
Ele riu.
— Difícil esquecê-las quando se carregou todo aquele peso.
Ele olhou-a com um meio sorriso.
— Ei, Sally. Alguma razão pela qual ainda está sentada ai quando podia
estar dentro do hotel com ar-condicionado, tomando alguma coisa?
Ela piscou, percebendo então que ainda estava com o cinto de segurança.
Ah, isso era ridículo! Mal podia acreditar que ele a estava afetando a esse
ponto. Rapidamente saiu do carro.
— Não sei sobre você — disse Patric, erguendo a última mala do porta
malas — mas agora uma cerveja ultra gelada me parece melhor do que sexo.
Que tal?
Sally vacilou, a temperatura de seu corpo subindo mais uns quarenta
graus.
— Boa idéia! Bem que gostaria de uma cerveja. — O braço dele roçou o
dela e enviou milhões de volts de eletricidade sexual.

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— E... uma chuveirada! Acho que vou entrar agora mesmo. E... vou tomar
uma ducha. Vou pedir para alguém ajudá-lo com a bagagem — prometeu ela.
Ela ignorou o espanto dele. Ignorá-lo era a única coisa que poderia ajudar
a fazer funcionar de novo seu corpo e sua mente.
O quarto de Sally dessa vez era bem longe do de Patric. Nele havia um
telefone na mesa de cabeceira, como também uma saleta, e um grande
banheiro com uma banheira de hidromassagem.
Decidindo que um banho de banheira era o que precisava, deixou cair a
bolsa na cama e abriu a torneira da banheira.
Um ruído fora do quarto anunciou a chegada de sua bagagem. Estava indo
abri-la quando esta se abriu e Patric entrou com um garoto usando o uniforme
dos funcionários; ambos estavam carregados com malas e equipamentos de
fotografia.
— Pode colocar tudo por aí — disse Patric para o garoto. — Depois
arrumamos tudo.
Confusa por ele não ter levado o equipamento diretamente para seu
quarto, Sally observou enquanto ele dava uma gorjeta generosa ao menino e
fechava a porta atrás dele.
— Que barulho é esse? — perguntou ele, afastando com a mão o cabelo
da testa.
— Estou enchendo a banheira de hidromassagem.
— Melhor fechar a torneira — disse ele, com um olhar para o corpo dela
que a deixou fervendo. — Temos de conversar.
— Agora, Patric? Não pode esperar? Eu estou...
— Não, não podemos esperar — cortou ele, dando um passo na direção
dela — Eu não posso esperar.
— Que pena, porque eu quero...
— Quer o quê, Sally? — tentou ele, ainda aproximando-se dela.
Ela piscou, tentando lembrar o que queria. Nervosos, seus olhos dirigiramse para o elegante banheiro e para a banheira que rapidamente se enchia.
— Um banho! — disse ela, correndo para fechar a torneira.
— Parece bom.
— Então, por que você não toma um também?
— Parece ainda melhor. — Imediatamente a camiseta dele foi arrancada e
atirada no chão.
Sally engasgou, apavorada tanto pela visão do másculo torso nu quanto
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pela maneira como ele entendera suas palavras.
— Quis dizer em seu quarto!
Ele sacudiu a cabeça e chegou mais perto. Sally achou que a única razão
pela qual não se mexeu foi porque o boxe do chuveiro estava às suas costas,
impedindo-a de fugir. Na verdade, era a única coisa que a mantinha de pé.
— Patric. Isso não tem graça.
— Não — concordou ele solenemente, suas mãos se enfiando nos cabelos
dela e enviando um arrepio vagaroso pelo corpo de Sally. — É mortalmente
sério.
— É loucura.
— Definitivamente uma loucura.
Um suspiro escapou dos lábios dela ao prazer dos dedos dele contra seu
pescoço.
— Você é tão macia — murmurou ele. — Tão deliciosamente macia.
Gentilmente, suas mãos se moveram à volta do pescoço, como se fosse
estrangulá-la, mas ela sentia medo somente das sensações que detonavam
dentro dela. Sabia que a qualquer momento o desejo ousado que borbulhava
por todo seu corpo iria explodir em uma paixão avassaladora.
As mãos dele se encaminharam eroticamente para as curvas do corpo
dela, dos seios para os quadris. Ela tremeu.
— Isso... não é uma boa idéia, Patric. Temos que trabalhar juntos.
— Nós trabalhamos perfeitamente juntos. — Ele sorriu preguiçoso,
esfregando seus quadris contra os dela. — Nossos corpos se encaixam um no
outro como luvas.
A excitação que queimava em todo seu corpo fez com que ela soltasse um
suspiro, uma mistura de resignação e frustração. Sua cabeça caiu para a frente
enquanto os dedos dele roçavam um de seus mamilos, depois o outro... Ele
estava bastante perto dela para absorver o tremor de reação ao seu toque.
— Você me quer, Sally — declarou ele, a voz confiante apesar de rouca
enquanto ele erguia o queixo dela até que sua boca ficasse próxima à dele. —
Tanto quanto eu a desejo. Tudo o que você tem que fazer é me dizer se quer
mais rápido ou mais lento...
A cabeça dele se aproximou da dela, então sua língua foi traçando um
caminho pelo lábio inferior num ritmo lento e lânguido, continuando assim por
muito tempo depois que Sally abriu a boca para convidá-la a entrar.
— Você manda, amor — sussurrou ele asperamente; quase enlouquecida
com o desejo de prová-lo, ela instantaneamente agarrou com as mãos ambos
os lados de sua cabeça e tomou posse da boca dele. A resposta de Patric foi
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um gemido de satisfação, e seus braços se enroscaram à volta da cintura dela,
erguendo-a do chão.
A sensação e o sabor dele depois de tanto tempo fizeram com que o
sangue dela disparasse e seu coração dançasse, e a respiração parou diante do
ardor agressivo da paixão deles.
— Acho que a escolha voou pela janela — disse ele rouco, abaixando-a até
o chão de maneira que nenhum dos dois pôde ignorar seu estado de excitação.
— Por mim, vai ter que ser forte e rápido. E você? — A mão dele entrou por
baixo da saia dela, dentro da calcinha de renda.
— Tudo bem para mim, Patric — murmurou ela, a cabeça se movendo em
resposta à erótica massagem do polegar dele.
— Ah, Sally — sussurrou ele, ao pescoço dela — você é tão danadamente
excitante!
Nos momentos seguintes a boca e as mãos de Patric conseguiram reduzila a um fragmento sensual enquanto ele arrancava sua blusa e sutiã. Ela
jamais desejara alguma coisa tão urgentemente quanto desejava esse homem,
e as chamas de seu desejo queimavam com tanto ardor que ela quase
esperava ouvir o boxe do chuveiro quebrar quando sua pele nua fervente se
encostou contra a frieza do vidro.
Ele soltou a cintura da saia com igual rapidez e, antes que o macio tecido
tivesse chance de chegar à volta de seus tornozelos, os dedos dela já
trabalhavam febris para livrá-lo de seu jeans.
O tremor que tomou conta do corpo dele quando a mão de Sally se fechou
à volta dele fê-lo murmurar.
— Ah, amor, está brincando com fogo!
— Eu sei... — disse ela, erguendo os olhos para ele. — Quero me queimar
com você, Patric.
A voz sensual dela atingiu cada músculo do corpo dele, e seu membro
roçou contra a macia rigidez do estômago de Sally. Patric quase esqueceu a
camisinha que tirara do bolso do jeans. Respirou com força e a mostrou a
Sally.
— Desta vez estou preparado — disse. — Mas se você está preocupada
sobre a última vez, não fique. Você é a única mulher com quem já fiz amor
sem usar proteção.
Um rubor tomou conta das faces de Sally. Devagar, ela estendeu a mão
para apanhar a camisinha, mas ele sacudiu a cabeça.
— De jeito nenhum. Se você colocar isso, provavelmente vou explodir em
sua mão.
Ela riu, deliciada por saber a extensão de seu poder sobre ele.

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— Eu não ia colocá-la, amor. Eu só fiz amor sem isso com você. Mas se
você está preocupado sobre sexo seguro...
Ele ergueu-a contra si até que o portal de sua feminilidade se encontrasse
junto à sua masculinidade.
— Amor, não penso que mesmo um sexo protegido entre nós possa ser
considerado seguro. No que nos concerne, estamos sempre em terreno
perigoso.
Sally riu em seu ombro enquanto ele a prendia, seu gemido de satisfação
harmonizando-se com o dele. Instintivamente as pernas dela se colocaram à
volta dos quadris dele e os braços à volta do pescoço de Patric. O sorriso dele
era arrogante e sensual, mas as palavras o tornaram inofensivo.
— Senhorita, certifique-se de que seu coração continue batendo porque
dentro de você é tão bom que o meu parou.
Naquele instante, Sally acreditou que o dela também parará, mas ao
levantar a cabeça para encontrar o beijo dele, viu que o coração começara a
bater de novo. Agitada pelas emoções e sensações, seu último pensamento
claro foi de que o que sentia por Patric era uma doença terminal.
Com as pernas curvadas, Patric recostou-se dentro da banheira
providenciando uma espécie de encosto para Sally que estava posicionada
entre suas coxas. Não importava que ela estivesse de costas para ele, pois o
espelho no fundo da banheira refletia o rosto e outras partes dela.
— Não vai dormir encostada em mim, vai? — perguntou ele, acariciandolhe a face.
— Não — disse ela sonhadora, então deixou os olhos azuis encontrarem os
dele pelo espelho. — A última vez que dormi depois de fazer amor com você,
quando acordei, vi que você tinha ido embora.
Havia um ligeiro tom de acusação que a consciência dele percebeu.
— Pensei que a borboleta que adorna sua nádega deliciosa significasse
que você era propriedade privada de alguém. Ele descansou o queixo no ombro
dela, deixando seus rostos lado a lado, mas seu olhar estava fixado no dela na
imagem do espelho. — Não gosto de partilhar — disse ele com firmeza.
Ela sorriu.
— Nem eu.
— Por que me disse que Phil era seu amante? Ela sacudiu a cabeça.
— Nunca disse isso. Você é que presumiu isso.
— Mas você não me corrigiu. Por que não?
— É que me pareceu uma boa idéia na hora. Isso me fez sentir... — ela fez
uma pausa pensativa, passeando os dedos desde o tornozelo até o joelho de
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Patric — mais segura, acho. O ar à sua volta sempre parecia estar carregado
com tensão sexual. — Ela riu. — Senti que estava constantemente beirando
aquele "terreno perigoso" que você mencionou.
O sorriso sedutor de Sally, combinado com sua nudez úmida se
pressionando contra ele instantaneamente instigaram a metade inferior de seu
corpo voltar à vida. Ela se aninhou ainda mais e sorriu.
— Prontos para a segunda sessão?
Ele envolveu com as mãos os seios expostos e gentilmente brincou com as
auréolas até que os mamilos se endurecessem. Um sussurro de aprovação saiu
dos lábios dela.
— Sim, beleza — disse ele para o espelho. — Acho que estamos.
Erguendo a mão com força, ela atirou água em Patric enquanto se virava e
enroscava um braço à volta do pescoço dele. Patric levantou o corpo dela até
que se ajeitasse em seu colo.
O beijo que trocaram parecia fogos de artifício, mas o brilho flamejante foi
rapidamente dosado quando afundaram dentro da água. Voltaram à tona
espirrando água, meio afogados, meio rindo e foi Patric quem se recobrou
primeiro.
— Ouça, amor, eu posso querer me afogar em você, mas com toda a
certeza não gosto da idéia de me afogar com você! ― disse ― Que me diz da
idéia de usarmos aquela confortável cama larguíssima no outro quarto?
— Digo que o último a chegar fica por baixo! ela, saltando da banheira.
Ela se enrolava no lençol com as longas trancas sedutoramente à volta do
pescoço e sobre um seio quando ele chegou à porta do quarto.
— Por que demorou tanto Patric? — desafiou-o ela.
— Sua ameaça.
A voz dele estava rouca com promessas fazendo o corpo de Sally pulsar
como se ele a tivesse tocado. Então, no que pareceu ser um movimento suave,
ele já estava no colchão, erguendo-a sobre si, cuidadosamente lambendo as
gotas d'água da pele dela.
Ela arqueou as costas quando a língua dele chegou a um seio, depois ao
outro, lamuriando-se com desejo à medida que ele progredia e chegou aos
mamilos.
— Agora — suplicou ela. — Eu quero agora! Por favor!
— Diga de novo.
— Não! — gritou ela. — Não, Patric, eu quero você comigo! A penetração
dele foi rápida e gratificante.
— Estou com você, amor! Ah, meu bem — disse ele beijando-lhe o rosto.
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— Estou com você... por todo o caminho!
Sally sabia que nunca se cansaria dele, pois agora sabia do fundo do
coração que morreria amando esse homem.

CAPÍTULO XIII

Sentindo a mão de Patric acariciar suas costas, Sally soube que ele estava
acordado. Descansando a cabeça sobre o peito dele, beijando-lhe o braço.
— Está muito bom assim — murmurou ele, desenhando com o dedo sobre
o quadril que tinha a tatuagem.
— Isso é uma lembrança da minha juventude mal usada. Ganhei-a em
uma aposta e a odiei desde então — disse ela.
— Pois não odeie. Acho que é tremendamente sexy.
— Bem, você quase me convenceu que não se importa com ela. Mas vou
precisar de uma prova mais tarde.
Ele ergueu-se sobre um cotovelo para olhar para ela.
— Mais tarde, quanto? Nós, homens, atingimos nosso clímax sexual aos
dezoito anos, você sabe.
Ela riu.
— Então você deve ter um desenvolvimento bem retardado, Patric.
— Acho que o incentivo tem muito a dizer sobre isso. Você é uma mulher
incrível.
— Uma incrível mulher faminta! Quer tentar o serviço de quarto?
— Acho que devemos conversar antes.
— É aqui que você vai me lembrar sobre sua aversão às modelos e me
dizer que não devo ter idéias sobre isso ser um relacionamento duradouro?
— Qualquer coisa assim. — Ele suspirou. — Sally, se você não fosse uma
modelo, já seríamos amantes há muito tempo. O que quero dizer é que fui
atraído por você desde o momento em que a vi, mas o fato de você ser uma
modelo me fez imediatamente abandonar a idéia de que pudesse haver entre
nós qualquer coisa além de um relacionamento comercial.
— Isso, e o fato de acreditar que eu tinha dormido com seu pai.

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— Sim, bem, esse tipo de coisa ia de encontro com o que eu sentia sobre
as modelos em geral.
— Tem algo a ver com sua mãe?
— Também. Mas ela não foi a única mulher que me prejudicou.
Ela não queria ouvir sobre a outra mulher da vida dele. Ok, talvez uma
parte dela quisesse; mas não agora! Não quando seu corpo ainda sentia as
emoções de seu ato de amor.
— Patric — disse ela, tentando dar um tom de leveza — tem certeza de
que não podemos pedir alguma coisa para comer agora? Parece que isso vai
ser uma longa história.
— E é. Mas eu quero que você saiba de onde eu venho. É importante que
você saiba.
Sally não pôde recusar-se a ouvi-lo da mesma forma que não podia deixar
de amá-lo. Acenou com a cabeça para mostrar que estava ouvindo.
— Minha mãe nasceu em um lugar muito pobre, mas lindíssimo, e esses
fatos sempre dirigiram sua vida. Ela cresceu ouvindo que sua beleza seria o
bilhete para sair da pobreza, e colocou a fama como destino de sua vida.
— Vi alguns dos álbuns sobre ela que Wade fez. Com certeza, ela foi um
sucesso.
Em vez de sorrir, ela viu a tristeza invadir o rosto de Patric.
— Exceto que ela nunca soube quando parar. Não considerou que suas
ações pudessem afetar as pessoas próximas a ela.
— Como você e seu pai? Ele nunca disse isso, mas fiquei com a impressão
de que ele a amava muito.
— Ele a amava e a odiava. Ainda não sei ao certo qual emoção era a mais
forte, mas isso foi porque passei mais tempo em internatos do que com eles.
— E nas férias? Ao menos nessa época deve ter ido para casa.
— Claro. Mas isso não significava que eles estivessem em casa. Um ou
outro normalmente estava fora em alguma sessão de fotos, e nas raras
ocasiões em que estávamos juntos eu me sentia como se estivesse no meio da
terceira guerra mundial.
— Continue.
— Meus pais se casaram depois do que acredito ter sido um rápido e
tórrido caso na Europa, durante o qual meu pai detonou a carreira de Madelene
e consolidou sua própria ascensão no mundo fotográfico. Por poucos anos eles
viveram felizes com suas vidas atribuladas, mas papai vinha de uma família
irlandesa, conservadora e abastada, e desejava muito ter uma família.
Crianças não estavam nos planos dela em circunstância alguma; fama era sua
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grande paixão, dinheiro seu ídolo e uma gravidez seria o pior pesadelo.
— Então você foi adotado?
Ele pareceu espantado de que ela tivesse chegado a essa conclusão, mas
então um sorriso irônico surgiu em seus lábios.
— Não, sou o clássico exemplo de como não se pode confiar em métodos
anticoncepcionais.
— Acho que deve ter sido difícil crescer sabendo que você era... um
acidente.
— Pelo menos estou aqui — disse ele. — Madelene me contou mais de
uma vez que se ela não fosse católica, teria abortado. Anos mais tarde,
quando estavam tendo uma briga porque ele queria que ela deixasse de ser
modelo e pensasse em ter outro filho, ela lhe contou que havia ligado as
trompas. Foi quando Wade começou a ter outros casos e, daí por diante, o
casamento ficou praticamente reduzido a grandes gritarias.
— Foi assim que ela foi para o Canadá? Mas por que você...
— Por que eu fui com ela?
— Sim. Quero dizer, do jeito que ela o tratava...
— Madelene me amava do seu jeito. Bem, ela pode não ter me amado
desde o nascimento, com esse amor maternal que se imagina que todas as
mulheres devem ter, mas ela aprendeu a me amar. E era muito boa para mim
quando Wade não estava por perto.
— Ele ficava entre os dois deliberadamente?
— Não era deliberado. E não era só Wade. Sabe, se houvesse um homem
adulto presente, qualquer um, era a sua atenção, sua aprovação e sua afeição
que Madelene precisava. Não era intencional, era apenas Madelene. Ela
precisava se assegurar que seu rosto e seu corpo eram ainda tão fabulosos
como sempre foram. Quando deixaram de ser isso, e seu trabalho começou a
diminuir, ela começou a beber demais. Champanhe era sua bebida preferida,
do nascer ao pôr-do-sol. Só tentava ficar sóbria quando eu estava por perto,
cuidadosamente dizendo-lhe todas as coisas que ela desejava ouvir e fazendoa rir.
— Que idade você tinha?
— Quinze anos — disse ele. — Mas eu me sentia com cinqüenta. Apesar
de todos os defeitos, ela era minha mãe, e como minha presença parecia ter
um efeito positivo nela, quando ela me pediu para me mudar para o Canadá,
eu concordei.
— Como foi que Wade reagiu a isso?
— Ele achou que era a melhor coisa a ser feita. Ele ainda gostava dela,
talvez ainda a amasse, mas desistira de tentar lidar com ela anos antes.
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— Não é uma história muito feliz, hein? Eu cresci pensando que garotos
com antecedentes como o seu eram tão sortudos — que a pobreza era a única
coisa que podia ferir qualquer pessoa.
O riso dele gelou-a até os ossos.
— Meu bem, você tem razão! Acredite, a pobreza, não o dinheiro, é a raiz
de todo o mal. — Ao olhar espantado dela, ele acariciou-lhe a mão. — Relaxe,
estou sendo deliberadamente cínico, mas você tem que ouvir a segunda
metade da história para entender por que. E, acredite, não é melhor do que a
primeira.
Um tremor correu pela espinha de Sally.
— Não tenho a certeza de que queira ouvir isso.
— Vai ajudar a explicar por que eu tenho lutado com meus sentimentos
por você por tanto tempo... E porque ainda luto um pouco.
Alguma coisa no seu olhar fez o coração dela gelar.
— Se isso é para você livrar-se de mim, melhor acabar com tudo logo.
— Não pense assim — disse ele solene. — Porque, se eu não pensasse,
que nosso relacionamento fosse durar mais do que algumas sessões de sexo
tórrido, não lhe estaria contando isso.
Ele levantou o queixo dela.
— Preciso contar a você.
Sally suspirou. Jamais conseguiria negar a esse homem qualquer coisa
que ele precisasse.
— Ok, Patric.
Ele beijou-a rapidamente e rolou para o lado para olhar para o teto.
— Encontrei Angélica quando estudava fotografia na faculdade. Um colega
nos apresentou, dizendo que ela estava procurando um emprego de modelo
freelancer a fim de poder pagar um curso de fotografia. Angel, como era
chamada, era absolutamente linda, e qualquer tolo podia ter visto que ela
estaria melhor do outro lado das lentes; então eu perguntei se ela já pensara
nisso. Ela disse sim, mas que não tinha condições de fazer um portfolio. Aí eu
lhe disse que faria um de graça. Foi então que os olhos dela se acenderam
como luzes de néon e eu imediatamente me apaixonei.
O ciúme que Sally sentiu dessa desconhecida parecia um ácido em sua
boca, e ela precisou forçar-se a ouvir o que Patric dizia.
— Começamos a sair, mas eu não tinha idéia de como nossos passados
eram diferentes até que algumas semanas mais tarde fui convidado para jantar
com a família dela. Quando vi a triste vizinhança em que ela morava,
perguntei-lhe se ela queria morar comigo. Em princípio, ela relutou dizendo
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A GAROTA DA CAPA
Sabrina Nº 940

que não se sentiria bem vivendo em pecado, não importando o quanto me
amasse. Então, eu a pedi em casamento.
— E subitamente a moral dela voou pela janela?
— Céus, eu era tão ingênuo! Praticamente atirei meu dinheiro para ela,
sem mencionar o resto de sua família.
— Mas você com certeza não podia estar ganhando tanto assim?
Ele olhou-a como se ela fosse estúpida, então piscou e disse:
— Ah, acho que esqueci de contar sobre meus avós. Quando meus pais se
divorciaram, meus avós irlandeses deserdaram Wade, e assim eu herdei seu
império de publicações científicas quando eles morreram.
Wade nunca contara a Sally sobre seus antecedentes, por isso ela ficou
surpresa.
— Então está dizendo que era podre de rico naquele tempo?
— Ainda sou — disse ele simplesmente.
— Eu... não tinha idéia.
— Não? Bem, eu sou um pouco mais inteligente agora do que quando
encontrei Angel. Não fico exibindo minha riqueza e não me iludo pensando que
dinheiro compra a felicidade ou qualquer outra emoção. Infelizmente, eu não
era tão sábio aos vinte anos, quando Angel protestou sobre como sentia-se
culpada por viver no luxo enquanto seus pais estavam desempregados e mal
conseguiam pagar o aluguel. Então, fiz o que qualquer apaixonado faria,
comprei uma casa nova para os pais dela e arrumei para o pai um negócio com
caminhões.
Sally estava sem palavras, mas sabia que seus sentimentos apareciam em
seu rosto.
— Você não pode me achar mais tolo do que eu me acho — disse ele. —
De qualquer forma, preparei um portfolio que Angel mandou para cada agência
de Nova York, e as ofertas começaram a chegar. Ela aceitou a que pagava
mais, apesar de eu sugerir que aceitasse a agência de melhor reputação, ainda
que pagasse menos. Mas Angel fazia questão de tomar suas decisões, e não
ligava para qualquer observação ou opinião sobre sua carreira.
— Mas você deu a ela um grande começo! — protestou Sally. — E a sua
experiência lhe dava mais visão nesse meio do que ela jamais poderia ter.
Céus, tanto seu pai como sua mãe eram marcos nesse negócio!
— E foi exatamente por isso, como descobri muito depois, que ela
manobrou nosso primeiro encontro. Eu fui manobrado como um tonto, e não
apenas sorria enquanto tudo acontecia, como também paguei para ter tudo
isso!
Ela quis dizer que fora Angel a maior tola. Como podia uma mulher, que já
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A GAROTA DA CAPA
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tinha o amor de Patric, querer mais que isso?
— Nunca mais repetirei o mesmo erro. Eu não seria estúpido duas vezes.
Quando ele falou de novo, não havia traço de raiva na sua voz.
— Três dias antes de nos casarmos eu escutei Angel contar a sua mãe que
ela cancelara um hora que tinha marcada com um conhecido clínico de
abortos.
O sangue de Sally gelou.
— Ela... ela estava grávida? Ele sacudiu a cabeça.
— Ela pensou que estava. Mas acabou sendo o que ela chamou de alarme
falso. Sua menstruação estivera atrasada apenas quatro dias, mas o
pensamento de uma gravidez atrapalhando sua preciosa carreira fez com que
ligasse para o médico de abortos antes mesmo de ter a certeza de seu estado.
— A bandida não ia nem mesmo me contar! Íamos nos casar em alguns
dias, e no entanto ela ia abortar nosso filho porque ele iria interromper sua
carreira! Como já contei, Madelene não era realmente maternal, mas pelo
menos ela me deu a chance de respirar.
Não admira que ele detestasse modelos! As duas mulheres mais
importantes em sua vida fizeram-no sentir como se sua vida e a de seu futuro
filho valiam menos do que um emprego.
— Eu fico louco sabendo que meu julgamento era tão idiota, que eu
pudesse me imaginar apaixonado por uma vagabundazinha da espécie dela.
Para ela eu era um bilhete de refeição e um degrau na escada do sucesso.
Desde então, tenho muito cuidado com relação a carreiras das mulheres em
geral, e a de modelos em particular.
Sally sentiu o coração apertado e atirou os braços à volta dele.
— Ah, Patric... — A intenção dela foi de consolá-lo, mas foi ele quem
tornou-se o consolador quando ondas de lágrimas silenciosas desceram-lhe
pelo rosto até o peito dele.
Enquanto Patric a segurava nos braços, percebeu que a tristeza dela era
ainda mais impossível para ele de agüentar do que suas lembranças. Lembrouse de que Phil lhe contara que ela tinha estado presente no nascimento do
sobrinho. Como pudera dizer tudo aquilo para ela? Não admira que tivesse
ficado tão perturbada.
Enterrando o rosto em seus cabelos sedosos, segurou-a bem firme até
que parasse de soluçar.
— Sente-se melhor? — perguntou ele, quando um rosto marcado de
lágrimas tentou sorrir para ele.
Sentiu-se aliviado quando ela acenou com a cabeça que sim, e ergueu
uma silenciosa prece de agradecimento. Deu um beijo no nariz de Sally e
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sugeriu a primeira coisa que lhe veio à cabeça.
— Que tal irmos à praia por algumas horas?

CAPÍTULO XIV

Minutos mais tarde, Sally surpreendeu-se ao descobrir que não havia nada
que os distinguisse das demais famílias e casais que passeavam sob o sol da
tarde na praia de Port Macquarie. Divertiu-se com a tranqüilidade de estar com
Patric por algum motivo outro que não o de tirar fotos.
Sentados com as pernas cruzadas sobre suas toalhas, tomaram
refrigerantes e comeram cachorro-quente, o que Patric informou que não fazia
havia uns cem anos.
Conversaram e brincaram sobre seus signos e quais os times de futebol
que preferiam.
Sally deitou-se sobre a toalha com o rosto para baixo, deliciada com as
mãos masculinas que lhe massageavam as costas. Mas, apesar de os
movimentos vagarosos dos dedos de Patric sobre seus músculos dos ombros e
das costas serem terapêuticos e sedutores, não ajudavam sua tensão mental.
Uma parte de sua mente ainda lembrava da angústia que ouvira na voz dele no
quarto do hotel.
— Relaxe — disse a voz masculina. — Não perca sua linda vitalidade
lutando com os problemas de meu passado. Porque, acredite, as feridas já
cicatrizaram.
"Isso é o que você pensa", Patric Flanagan, pensou ela.
— Eu não lhe falei sobre Angélica para aborrecê-la ou pedir simpatia.
— Eu sei disso! — Ela tentou virar o corpo, mas ele a impediu.
— Shh — mandou ele. — Deixe-me falar.
Suspirando, Sally escondeu o queixo no braço e Patric recomeçou a
massagem.
— Meu bem, mesmo que você me tenha feito entender que nem todas as
modelos são como minha mãe e Angélica, estaria mentindo se dissesse que
ainda não tenho apreensão com respeito ao nosso relacionamento.
Ela tentou não demonstrar nenhuma reação àquelas palavras.
— No entanto — continuou ele, — gostaria que continuássemos com nosso
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relacionamento assim como com nosso trabalho. Não estou certo de que isso
vá funcionar, mas gostaria de tentar. Mas só se você estiver preparada para
aceitar que isso é um acordo de dia-a-dia, sem promessas ou expectativas.
Como é, está preparada?
O orgulho dela gritava não. Seu coração berrava sim. Mesmo sua mente
reconhecendo a luta interna, seu corpo, feliz com o toque de Patric, decidiu
que o queria de qualquer maneira.
Ele interrompeu-lhe os pensamentos.
— Claro, seja qual for sua decisão, nosso contrato continua. Tenho de
estar certo de que você entende que isso não vai durar para sempre.
— Entendo. Vai durar até que você termine tudo.
— Ou você.
Ele não perdera a sutil maneira de ela colocar as coisas.
— Como queira — murmurou ela.
— Amor — sussurrou ele em sua orelha — há duas coisas que gosto em
você mais do que em qualquer outra modelo que já conheci.
A língua dele passeava por sua orelha e ela suspirou, girando a cabeça
para deixá-lo atingir seu pescoço.
— Quais são elas?
— Primeiro — disse ele — você é pura dinamite.
Ela riu.
— E a segunda?
— Você está estabelecida em sua carreira e é financeiramente
independente. Gosto de saber que minha mulher não tem dívidas. Então, quer
voltar para o quarto para discutirmos o primeiro dos pontos que mencionei?
Sally concordou vigorosamente. Mas não queria discutir o segundo em
tempo algum!
Duas semanas mais tarde, Sally apontou sua câmera para Patric que
inspecionava cuidadosamente um amassado em sua bicicleta.
Satisfeita com o foco, tirou três rápidas fotos dele agachado ao lado da
bicicleta.
— Sally, preferiria que você deixasse eu tirar as fotos.
Ela mostrou a língua para ele, depois colocou a câmera no carro.
— Tenho uma sugestão — disse ele.
Lembrando de como tinham feito amor após o piquenique daquela tarde, e
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vendo a manta no chão a poucos metros deles, Sally suspirou.
— Humm...
— Vamos guardar tudo isso aí e voltar para o hotel.
Ela tentou disfarçar o desapontamento.
— Não fique assim.
— Desculpe. Acho que foi um dia muito longo.
Ele apertou-lhe o rosto.
— Para mim, foi um dia ótimo. Ah, amor — ele suspirou e puxou-a para
mais perto. — Eu a quero tanto que dói! Mas está ficando tarde.
— E daí?
— Daí que eu quero você demoradamente e com carinho, e não quero a
escuridão escondendo seu corpo enquanto fazemos amor.
O gemido excitado dela foi preso pela boca dele, mas o beijo foi meigo,
despertando o amor dela mais do que a paixão.
Patric anunciara durante o jantar, que pensava em partirem para Sydney
em dois dias. Apesar de ele não ter dito nada sobre terminarem seu caso,
tinha medo de que, uma vez longe do idílico estado de lua-de-mel das últimas
semanas, sua relação pudesse morrer.
Um arrepio passou-lhe pela espinha, e afundou-se desesperada no calor
de Patric, cujo braço, mesmo durante o sono, a abraçava possessivamente.
Quando recebesse o dinheiro por seu trabalho, estaria livre da dívida!
Total e absolutamente. Então ela explicaria tudo a Patric. Diria até que o
amava.
Sally estava tensa quando Patric colocou no chão as malas dela, dois dias
depois.
— Isso é tudo — anunciou ele, olhando para todos os cantos, exceto para
Sally.
— Obrigada — disse ela, sentindo-se esquisita e abandonada quando ele
não olhava para ela.
— O que vai fazer amanhã?
— Nada. O que você gostaria de fazer?
— O quê? Nada. Quero dizer — continuou rápido — vou ficar no quarto
escuro a maior parte do dia.
— Ah, claro
desapontamento.

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disse

ela,

tão

normal

quanto

lhe

permitiu

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o

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— Que tal se eu lhe trouxesse as fotos reveladas amanhã à noite?
Poderemos ver como elas ficaram. Imagino que você deva estar tão ansiosa
para vê-las quanto eu.
Não eram as fotos que ela queria ver; queria vê-lo. Sorrindo, começou a
visualizar a cena... Para começar, vestiria a roupa mais sexy que tinha;
acenderia velas, música suave no fundo, um jantar romântico...
— Sally? Ouviu o que eu disse?
— Ah, ouvi. — Sorriu provocativa. — Se me der uma idéia de que hora vai
chegar, poderei lhe oferecer um jantar.
Ele suspirou.
— Querida, da maneira como me sinto nesse momento, horário é a última
coisa em que quero pensar agora. Seria melhor que me esperasse quando eu
pudesse vir, e não se desse ao trabalho de preparar nada para mim. — Sorriu.
— Desculpe.
Lágrimas começaram a surgir em seus olhos, mas ela lutou para segurálas.
— Não, tudo bem! Verdade! Eu só... vou esperá-lo na hora em que puder
vir — disse ela.
— Ah, venho de qualquer forma. Há muita coisa para discutirmos, como...
— Vou tomar um café. — A interrupção dela foi rápida e desesperada. Não
queria ouvi-lo dizer "como nossa relação". — Aceita uma xícara?
— Obrigado, não. Como disse, estou exausto depois da viagem, e agora
preciso mais de uma boa noite de sono do que de cafeína.
Ela foi para a cozinha para ligar a máquina de fazer café. Estava
determinada a não dizer mais nada até que ele falasse.
Sentindo os olhos dele sobre ela mas recusando-se a encontrar-lhe o
olhar, começou a arrumar tudo o que precisava para o tomar o café. Mas só
quando abriu a geladeira e percebeu que não havia leite fresco que sua
frustração atingiu o máximo. Praguejou baixo.
— O que aconteceu?
— Não tem leite!
— Quer que eu vá pedir emprestado a sua irmã?
— Não! Sou mais do que capaz de fazer isso eu mesma. Você já está de
saída?
— Sim. Só queria saber se você vai ficar bem.
— E por que não ficaria, pelo amor de Deus?

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— Por nada. — Ele esticou-se. — Bem, melhor eu ir indo. Amanhã ligo
para você, Ok?
Ela concordou, odiando-se parecer tão chata. Mesmo o beijo que ele lhe
deu foi sem o costumeiro entusiasmo.
— Boa noite, meu bem — murmurou ele. — Nos veremos amanhã.
Sally ficou observando-o partir até que ele desapareceu atrás do fim da
quadra de tênis, então fechou a porta de vidro e as cortinas. Lágrimas quentes
e silenciosas correram-lhe pelas faces.
O que mais temia estava se realizando. Estava chegando o fim.

CAPÍTULO XV

Como Sally esperara, as fotos ficaram ótimas. O que não esperara, depois
do modo como haviam se separado na noite anterior, foi a maneira pela qual
Patric a puxara em seus braços no momento em que abriu a porta; ou o
maravilhoso e erótico amor que fizeram até altas horas.
Agora, com o sol macio da manhã penetrando em seu quarto, ela correu a
mão sobre o corpo adormecido do homem que estava ao seu lado. Não tinha
certeza de quanto tempo isso iria durar, mas não ia mais se torturar analisando
cada palavra e cada ação dele.
Quase engasgou quando sua mão ficou presa no mesmo instante em que
um olhar sonolento a mirava.
— Não pretendia ficar a noite toda — disse ele, passando a mão livre pelos
cabelos dela.
Ela sorriu e baixou a cabeça para o peito dele.
O beijo começou vagaroso enquanto o sol entrava pela janela do quarto,
mas o calor deles aumentou muito mais rápido, enchendo o ar com gemidos e
sussurros de amor que só faziam sentido para eles. Mãos e lábios ansiosos
alimentaram seu desejo até que este se completou.
Excetuando-se a primeira vez, seu ato de amor nunca fora silencioso, mas
quando Patric levantou-se rápido da cama e dirigiu-se para o banheiro, Sally
temeu ter ido longe demais. Não sabia se deveria ou não contar-lhe que o
amava!
Ele estava pensativo e distraído quando juntou-se a ela na cozinha, e ela
forçou um sorriso alegre.
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— Olá, pronto para comer?
— Há uma coisa que quero conversar antes — disse ele, sério.
— Está me parecendo terrível. Quantas chances tenho de adivinhar?
— Decidi não usar suas fotos no livro.
— Mas... você concordou que elas estavam boas. Exatamente o que você
queria.
— Mudei de idéia.
— Oh... Bem. — Ela sorriu. — Acho que posso agüentar uma nova sessão
de fotos.
— Você não entendeu, Sally — disse ele. — Não quero você no livro. Seu
trabalho de modelo terminou. Estou liberando-a de suas obrigações comigo, e
vice-versa.
A dor foi até sua alma, e ela precisou agarrar-se à pia. Oh, Senhor, por
que não tinha sido capaz de manter sua grande e estúpida boca fechada? Se
ela tivesse mantido seus mais profundos sentimentos escondidos dele poderia
ao menos ter ficado com a amizade dele, se não com sua paixão, até o fim do
trabalho.
O pensamento de uma retirada total de Patric a aterrorizou. Não
agüentaria isso. Não ia deixá-lo fazer isso.
— Não pode fazer isso, Patric. Nós temos um contrato!
— Vou rasgá-lo.
— Vai coisa nenhuma! — gritou ela com raiva. — Eu vou... vou processá-lo
por cada centavo que você tem, se tentar fazer isso. — Ela ignorou a
expressão surpresa dele, levada apenas por suas emoções. Nossa relação física
pode ter tido um ponto final, mas nosso contrato não! Você tem obrigações
comerciais e legais comigo, Patric — gritou ela.
Patric interrompeu-a com um olhar de repugnância.
— É sempre uma questão de dinheiro com você, não é? Vocês são todas
iguais! Quando será que vou aprender isso de uma vez por todas?
— Patric...
— Chega, Sally. Não há mais nada que você possa dizer em toda sua vida
que me interesse ouvir! — Abriu a porta de vidro. — Eu a vejo no julgamento!
Suas palavras pareceram ficar no ar quando a porta foi puxada e fechada
atrás dele.
"Não, você não vai me ver, Patric", pensou ela, sem fazer nenhum esforço
para continuar de pé, muito menos para impedir a onda de lágrimas que lhe
descia pelas faces. "Era tudo um blefe, Patric. Mesmo que tivesse condições
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para processá-lo, eu não o faria."
Dois dias mais tarde, quando enchia a máquina de lavar roupa, viu uma
camiseta de Patric; Sally outra vez viu-se lutando contra as lágrimas.
Agarrando a camiseta de encontro ao seio, sentiu o cheiro dele perguntando-se
quanto tempo ainda levaria para que as lembranças doídas se transformassem
em felicidade, conforme Carol lhe dissera que aconteceria.
Enxugando os olhos na camisa, Sally disse que não estava chorando
porque quisesse Patric de volta. Não. Chorava porque estava doente por sentirse tão infeliz e não queria amá-lo mais.
O pior de tudo dessa dor de coração partido era que isso tocava cada
aspecto de sua vida, contaminando coisas que não tinham sequer sido parte de
seu tempo com Patric.
Não conseguia mais rir das piadas de Phil nem se divertir observando seus
sobrinhos na piscina. Não podia sentir alívio, quanto mais felicidade, com o
anúncio de Carol de que a casa tinha que ser vendida porque Phil havia
recebido uma promoção para outro estado e iriam precisar de metade do
dinheiro para se estabelecerem. Mesmo ficar sabendo que sua própria parcela
cobriria quase todas as dívidas do pai não foi suficiente para erguer o
entusiasmo
— Raios, Patric! — berrou ela. — Eu poderia matá-lo pelo que me fez! —
Olhou para a camisa molhada que segurava, então atirou-a através da sala. —
E raios me partam se vou lavar suas roupas!
Pelo manos agora conseguia ficar brava, pensou. Era um bom sinal.
Atirando o resto das roupas na máquina, colocou-a para funcionar. Se raiva
fosse a única alternativa para a doída solidão que experimentava nesses
últimos dias, então ia começar a ficar zangada! Realmente zangada!

Enrolado numa toalha, Patric apanhou todos os jornais espalhados sob a
caixa de cartas em frente à porta e voltou para a cozinha. Cerrando os dentes,
abriu a persiana e, depois de piscar em protesto contra o brilho do sol da
manhã, dirigiu a vista para as garrafas vazias de Jack Daniels alinhadas no bar.
Gemeu. Oito.
Deus, esperava que tivesse tido uma média de apenas uma por dia. Claro,
considerando a ressaca que sofria, uma por hora era uma possibilidade
distinta. Enchendo uma xícara com café preto, contou os jornais para ajudar a
resolver sua dúvida. Cinco jornais; uma bebedeira de cinco dias. Cinco dias
sem Sally.
O café estava amargo, mas não mais do que a conscientização de que
estava perdidamente apaixonado enquanto se acreditava imune a tais
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emoções. Agora, no entanto, reconhecia que isso fora seu problema o tempo
todo: pensar que sua experiência anterior com Angel o tornara imune a Sally.
Sally, linda, sensual, divertida e apaixonante Sally...
Raios, ainda tinha problemas em reconciliar a imagem que fizera dela com
as palavras que ela dissera naquela manhã, e por mais que tentasse, mais isso
doía. Sentia como se ela tivesse tomado conta dele. Suspirando, colocou mais
café na xícara ao ver as inúmeras fotos esparramadas pelo chão do estúdio.
Eram poses e instantâneos dela. Acreditava que, a certa altura de sua
bebedeira dos últimos dias, devia tê-las atirado para o fundo da sala. Sentia
não tê-las queimado então, porque, sóbrio, cometer tal sacrilégio estava além
dele. Não havia dúvida de que elas representavam o melhor trabalho que já
produzira, mas era seu conteúdo, não sua qualidade, que tornava impossível
destruí-las.
Desistindo, foi para a sala e, colocando o café na mesinha de centro,
começou a pegar as fotos uma a uma.
A raiva que sentira quando revelara os filmes o confundira no começo, e
não fora senão quando acordara na cama de Sally, na manhã seguinte, que
reconhecera o que era aquilo: ciúme; uma irracional onda de ciúme ao
pensamento de que outros homens poderiam ter alguma parte dela mesmo
que apenas visualmente.
Dissera para si mesmo que estava sendo estúpido, mas, sob o quente jato
do chuveiro dela, fora forçado a admitir a verdade. Amava Sally. Total e
irrevogavelmente.
Deveria ter se sentido grato por não ter tido a chance de se fazer de idiota
completo e contado a ela. Exceto que, agora, olhando para o belo rosto
sorrindo para ele, não se sentiu bem. Sentiu-se... sentiu-se amado! O que
somente veio mostrar-lhe o quanto estava distante da realidade se imaginava
que uma fotografia poderia refletir seus próprios sentimentos! Era um bom
fotógrafo, e nem mesmo seu velho pai fora bom assim.
De repente, apanhou outra foto de Sally, depois outra e outra. Num
frenesi de esperança, saltou e agarrou um dos portfolios de seu pai da estante
e começou a folheá-los nervosamente até que encontrou um close dela feito
por Wade para a Risque.
Ainda com medo de acreditar no que seus olhos e suas entranhas lhe
diziam, e suspeitando do efeito das lentes que seu pai usara, agarrou um
álbum mais recente, folheando-o rapidamente até que encontrou o que
buscava: um claro close do rosto todo de Sally. Segurando a respiração,
comparou com as fotos que ele tirara.
Um som alegre partiu de sua garganta enquanto ele chegava à única
conclusão que o satisfaria. Sabia que sorria de orelha a orelha quando correu
para se vestir. Só rezava para que nessa ocasião sua câmara não tivesse
mentido.
Sally dirigiu direto para a garagem e desligou o motor. Graças a Deus
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estava em casa! Apanhou a bolsa e o saco de papel que continha seu jantar
pensando que não iria aproveitar sua refeição nem ter uma boa noite, porque
naqueles dias, tudo o que comia tinha gosto de sabão.
— Sally!
O grito excitado coincidiu com a porta do seu carro sendo aberta e ela
sendo arrancada de trás da direção e agarrada contra um corpo másculo. O
medo fez com que seu coração disparasse; medo de estar tendo alucinações e
imaginando ver, sentir e ouvir Patric, como fizera centenas de vezes nas
últimas quatro noites.
Fechou as pálpebras contra as lágrimas quentes, dizendo-se que estava
imaginando a presença dele na garagem e que, quando abrisse os olhos,
estaria sozinha.
Mas, quando os abriu, viu que não era alucinação! Patric estava na sua
garagem!

CAPÍTULO XVI

― Patric! — gritou ela. — Saia de minha garagem! Saia da minha frente!
Saia da minha vida!
— Não.
— Não!
― O que quer dizer com não? — perguntou ela, tentando empurrá-lo para
longe. — É minha garagem e minha vida!
— E seu rosto. — O coração de Sally falhou quando duas mãos se
ergueram para seu rosto e seguraram-no de um modo familiar e doído. — Seu
lindo, honesto, aberto e adorável rosto. — Ele sorriu. — E isso, minha bela e
furiosa senhora, é sobre o que quero falar agora. Eu estava errado. Cometi um
erro.
— Eu também! — disse ela. — E não vou cometer outro. Deixe-me ir!
— Não posso — murmurou ele, os olhos fechando como se uma dor
terrível o acometesse. — Oh, Sally, não posso. Preciso de você. — Adiantou um
passo, forçando-a entre o calor de seu próprio corpo e o frio metal do carro.
Algo dizia a Sally para resistir, mas seu coração estava à mercê daquele
cansado, esgotado mas adorado rosto que se inclinava para ela.
— Oh, Deus — murmurou ele com desespero. — Como senti sua falta...

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"Por favor, Senhor, rezou ela, deixe que seja real. Porque se não for, pode
bem me deixar morrer agora."
Quando os lábios úmidos dele encontraram os dela, seu pulso reagiu tão
violentamente que, por um instante, Sally pensou estar tendo um ataque
cardíaco. Mas, depois que o desespero inicial do beijo se transformou em um
vagaroso e gentil encontro de línguas e roçar de lábios, ela se convenceu de
que escapara da morte mas que alcançara o céu.
Com as mãos de Patric ansiosamente tomando posse de seu corpo, o
êxtase físico libertou-a da angústia mental dos últimos dias. Enroscando os
dedos no grosso cabelo de Patric, Sally rendeu-se às suas emoções.
Patric recebeu os beijos dela como somente um homem morto de fome
poderia ter entendido. Vira-se privado de seu sustento por cinco longos dias,
acreditando que um líquido feito pelo homem pudesse curar sua fome. Agora
sabia que somente a quente pressão da pele feminina contra a sua podia
preencher seu vazio. Seus sentimentos por essa mulher eram tais que
duvidava poder jamais se cansar dela.
Quando a necessidade de oxigênio finalmente os separou, ambos tremiam
de desejo, mas Patric decidiu jogar com seu coração.
— Querida — disse rouco — temos que conversar.
Sally não imaginava o que representava a presença dele ali. Olhando para
o chão, concordou com a cabeça.
A mão dele escorregou para baixo de seu queixo e em seguida recuou
como se tivesse sido queimada.
— Você cortou o cabelo!
O tom dele fez com que erguesse a cabeça, desejando nunca ter ouvido
falar na palavra tesoura. Cortar o cabelo tinha sido um erro! Uma patética
tentativa de cortar todas as amarras com sua carreira de modelo e seguir com
sua vida. Agora, enquanto Patric passava os dedos de ambas as mãos pelas
mechas que lhe chegavam até os ombros, recriminou-se por não ter esperado
um dia mais.
— Gosto dele — disse ele, com suavidade.
— G... gosta?
— Como não gostaria? — Ele tocou-lhe as faces. — É o seu cabelo. — Ele
mal lhe deu tempo para digerir o que dissera antes de acrescentar — Mas, que
raios, amor, não se demora o dia todo para cortar um cabelo, mesmo ele sendo
tão comprido quanto o seu era! Estou aqui há quase nove horas esperando por
você! Eu já estava doente de preocupação!
— Dá para ver, Patric — disse ela, olhando para o rosto querido. — Você
está com uma aparência horrível.
Ele gemeu.
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— Bem... para ser honesto, a culpa de tudo é do Jack Daniels, não de
Sally Raynor. Eu...
— Sally Raynomovski — corrigiu ela. Diante do rosto confuso, ela
explicou: — Foi o que fiz a maior parte do dia — estava tentando fazer com
que meu nome fosse legalmente trocado para Raynomovski.
Ele perguntou curioso.
— E por quê?
Distraída pelo brilho do olhar dele e pela maneira como o corpo dele
roçava no seu, ela levou um tempo para responder.
— Ah... é que resolvi parar de vez de ser modelo. Cortar o cabelo e voltar
a ser a antiga Sally Raynomovski me pareceu ser uma boa maneira de
começar.
— Será que haveria algum problema em ser Sally Flanagan?
Ela olhou para ele absolutamente sem acreditar.
— Flanagan?...
— Concordo que não é tão fácil de se dizer quanto Raynomovski, mas...
— Patric — ela o interrompeu. — Você não está...
— Não estou o quê?
— Pare com isso, Patric! Não consigo pensar.
Ele soltou-a e deu um passo para trás.
— Esperava que não fosse tão difícil responder a essa pergunta, Sally —
disse ele com suavidade.
― E não é! ― assegurou-lhe ela. — É só que... preciso saber exatamente
o que você quer dizer. Está falando... em um compromisso de longo termo
ou... Raios, Patric, você está me pedindo para viver com você ou para me
casar com você?
Com medo, Sally desejou poder ter mordido a língua. Baixou a cabeça.
Oh, Senhor, conseguira estragar tudo outra vez!
— Estou falando de um compromisso de longo termo com um C
maiúsculo. — A cabeça dela ergueu-se ao som da voz forte e clara, cheia de
convicção. — Eu te amo, Sally; mais do que você jamais saberá. Mas case
comigo e ao menos terei o resto de sua vida para tentar provar-lhe isso.
— Oh, Patric! Sim! Sim! Sim!
Suas palavras foram interrompidas pelo beijo dele e foi muito tempo
depois que algum deles conseguiu falar.
— Então — disse ele, um sorriso brilhando nos profundos olhos castanhos.
Projeto Revisoras

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Allison Kelly

A GAROTA DA CAPA
Sabrina Nº 940

— Está planejando admitir logo que me ama?
— Você sabe que eu te amo!
— Diga de novo, amor — pediu ele. — Preciso ouvir isso ao menos uma
vez.
— Mas eu lhe disse isso essa manhã quando nós estávamos fazendo... —
As palavras dela morreram diante dos acenos negativos da cabeça dele. —
Estava certa de que tinha dito. Pelo menos, pensei que tivesse dito. Quero
dizer... pensei que essa fora a razão que o fez querer acabar com as fotos.
— Amor, eu não queria publicar as fotos porque não queria dividir você
com ninguém mais. Mas quando você começou a falar em dinheiro, bem, eu...
— Patric, eu não vou processar
liguei. Bem, liguei, mas não mais do
só concordei em posar nua porque eu
mais. Bem, quero dizer, eu tenho,
vendida, e...

você! Nem ligo para o dinheiro! Nunca
que você. Claro que ligo para você. Mas
tinha uma dívida enorme. Mas não tenho
porém vai acabar quando a casa for

— Phil e Carol me contaram tudo. — Ele desenhou o lábio inferior dela
com o polegar.
— Contaram?
— Bem, tudo exceto o que você sente por mim.
— Oh, Patric, seu idiota! — sussurrou ela. — É claro que eu te amo!
Ela estava aninhada fortemente em seus braços quando deixaram a
garagem.
— Oh, céus — murmurou ele em seu ouvido. — Parece que esperei uma
vida inteira para ouvi-la dizer isso. Claro, na minha versão você deixava de
fora o "idiota".
Ela riu.
— Você merece isso pelo que me fez passar nos últimos cinco dias!
— Se você acha que isso foi duro, espere até ver o que eu preparei para
os próximos dias!
— Parece interessante — ronronou ela. — Me dê uma pista.
Ele riu, abrindo a porta de vidro com o pé e carregando-a para dentro.
— Bem, primeiro, depois de passar as próximas doze horas mais ou
menos, fazendo um amor louco e apaixonado com você, vamos arranjar uma
licença de casamento e uma mesa de piscina. Então nós...
Ela piscou quando ele a colocou na cama.
— Não quer dizer uma licença de casamento e um anel?
Projeto Revisoras

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Allison Kelly

A GAROTA DA CAPA
Sabrina Nº 940

— Não — disse ele, enfiando um dedo no bolso. — Já tenho um.
Agachou-se ao lado da cama e, pegando a mão esquerda de Sally,
gentilmente beijou cada dedo até chegar ao terceiro. Nesse ponto, ele beijou o
anel que enfiou no dedo dela. Sally viu o desenho de duas mãos segurando um
coração.
— Oh, Patric — disse emocionada. — É lindo!
— É o anel de Claddagh; o tradicional anel de casamento irlandês. — Ele
descansou o rosto contra o dela. — Foi de minha avó, e juro que ninguém além
dela o usou.
Sally soube que as palavras eram uma tentativa sutil de assegurá-la de
que ele nunca pertencera a Angel, de que seu coração nunca fora realmente de
Angel, e sorriu.
— Eu te amo, amor — disse ele baixinho, e seu beijo enviou-a de volta
para o colchão.

EPÍLOGO
Três anos mais tarde, Sally abriu a porta da frente de sua casa à beiramar e foi imediatamente abraçada por sua irmã grávida, e toda sua família.
— Entrem — conseguiu dizer quando os abraços e beijos terminaram. —
Patric está no estúdio fazendo outro esquema de um tapete de urso.
— E? Pensei que ele estivesse ocupado com a exposição das Fotos
Flanagan, suas, dele e de Wade.
— E está. — Sally sorriu, abrindo as portas de correr e revelando o marido
agachado com a câmara perto de onde suas loiras gêmeas de dezoito meses
estavam esparramadas sobre macias peles de carneiro.
— Detesto dizer-lhe isso, companheiro — disse Phil em tom de sussurro —
mas elas estão dormindo, não posando.
Abaixando a câmara, Patric sorriu e cruzou o quarto.
— E eu que pensei que você fosse amador — brincou ele, sacudindo a
mão do cunhado. — Como foi a viagem desde Melbourne?
— Mãe, você disse que podíamos tomar
chegássemos na tia Sally — queixou-se Simone.

alguma

coisa

quando

— É, sim! Você disse! — ecoaram os irmãos mais novos. Carol sorriu.
— Já temos três filhos e mais um a caminho, e você tem que perguntar
isso, Patric?

Projeto Revisoras

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Allison Kelly

A GAROTA DA CAPA
Sabrina Nº 940

— Não consigo entender como vocês ainda não descobriram o que é que
causa a vinda deles — disse ele, segurando o menino menor em seus braços.
— Venha, vamos ver o que tem de bom na geladeira, Ok?
Enquanto se dirigiam para a cozinha, Sally foi devagarinho colocar uma
coberta leve sobre as meninas, seu coração feliz à vista dos rostinhos corados
e serenos. Acordadas, eram tão barulhentas e levadas que Patric as apelidara
de Busca e Destruição, mas Sally não poderia amá-las mais nem que tentasse,
nem o pai.
Sons de risos vindos da cozinha fizeram-na mandar um beijo para cada
filha, e ir em seguida, contente, juntar-se aos outros.

ALISON KELLY, uma esportista, joga vários jogos, entre os quais vôlei e
futebol. Mora na Austrália, no Vale Hunter. Tem três filhos e o tipo de marido que as
mulheres dizem a suas filhas que não existe na vida real! Não só ele cozinha melhor
do que ela como também não tem medo de aspirador, máquina de lavar roupa ou
supermercados. O que é muito bom, pois de outra forma este livro teria sido escrito
por uma mulher faminta vivendo em um chiqueiro!

Projeto Revisoras

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