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l m agi nâri o- us p, 2007, vol.

13, n" 14,

l " '
'maglnarlo
do lmaginârioe Memôria- NtME
Revistado NÛcleolnterdisciplinar
e do Laboratôriode Estudosdo lmaginârio- LABI O deslocamentodas cidades,umatradiçâohispano-
lnstitutode Psicologiada Universidadede Sâo Paulo - IP-USP
americana?O caso de Parangaricutiro
(México,1944)

Alain Mussef* - N asci do em 1959 em M ar -


seil l e, na Fr ança G eôgr afo,
especialista em América La-
t i na, pl anejam ent o ur bano e
r epr esent açôes do espaço.
Introduçâo Foi al uno da Ecol e N or m al e
Supér i eur e - EN S ( Par i s) .
M em br o do G r oupe de géo-
gr aphi e soci al e et d'ét udes
O deslocamentode uma cidadeinteirapode aparecercomo um urbaines e membro honorârio
do / nst i t ut U ni ver sit ai r e de
acontecimento excepcionalligadoa circunstâncias muitoparticu- France.
lares e dificilmentereprodutiveis.No entanto,contrariamenteaos 1 N e. . e
cont ext o, a hi st ôr i a
portugueses, que poucoutilizaramessemétodoparaadaptarsua extr aor di nâr i a de M azâgâo,
deslocada da costa marroqui-
redeurbanaàs realidadesgeogrâficas, econômicasou geopoliticas
na at é a f l or est a am azôni ca
do mundo brasileir ol,os esp anh ôisinst alad o sn a Am ér ica nâ o no sécul o XVl l l , apar ece
hesitaramem mudarconstantementede lugarsuas cidadesquan- com o um a exceçâo e um
caso ext r em o ( ARAU JO ,
do as circunstâncias o exigiam.Apôs seteanosde estudossobre 1998; VI D AL,2005) .
esse tema, conteipelo menos 160 cidadesdeslocadasdesde o 2 Ai nd" qr "
o nûm er o de ca-
inicioda Conquistaespanholae o fim da épocacolonial(nos anos sos sej a i m pr essi onant e, o
con- j unt o nâo pr et ende ser
1820),sem contaraquelasque tiverama mesmasorte nos séculos exaus-tivo. Nenhum catâlogo
XIX e XX, como San Juan Parangaricutiro no México,Baeza e Pe- j am ai s poder â r ecensear as
cidades que, nos ûlt i m os cin-
lileono Equador,ou Chillanno Chile(MUSSET,2002).2 co séculos, foram deslocadâs
par a um t er r i t ôr i o t âo vast o
A relativafacilidadedos deslocamentos(principalmenteduranteo quanto o do ant igo i m pér o
séculoXVI) explica-seem grande parte porquea aglomeraçâo, espanhol da Am ér i ca. Al ém
di sso, cer t as ci dades f or am
Deslocamenfos recentemente fundada,muitasvezesera apenasum simplesbur- desl ocadas vâr i as vezes,
go construidocom materiaispereciveis.Com efeito,as leis de fun- com o Tr uxi l l o ( Venezuel a) ,
ano Xlil . nûmero 14 qual i f i cada em sua época
janeiro a iunho de 2007 daçâo promulgadaspela Coroa e sintetizadasnas Nouyellesordon- como "ciudad portatil" por An-

|SSN 1413-666x nances de découverteet de peuplemenf[Novas Ordens de desco- t oni o de Al cedo ( 1967) .

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M u ss e t , A . O deslocamento da s c i d ad es , u m a t r a di çâ o hi s pan o- a me ri ca n a ? l m agi nâr i o - usp, 2007, vol . 13, n' 14, 139- 166

bertae de povoamenfolde 1573exigiamum mlnimode pelo menos um terremotode grandeamplitude,seguidode numerosasréplicas,


trintavecinospara se fundar uma cidade,o que representavauma provocaum iniciode pânicona populaçâo. Algunsdiasmaistarde,
populaçâoespanholainferiora centoe cinqûentahabitantes.Essas quandotrabalhavaem seu campode milho,Don DionisioPulidovê-
cidades,pouco populosas,construidasàs pressas,podiamfacil- se presonum turbilhâode cinzase fumaça,acompanhadode ex-
mentemudarde lugarantesde encontrarseu sltio definitivo.Em plosôesensurdecedoras: ele assiste,apesarde si, ao nascimento
contrapartida,quando a transferênciaera efetuadaapôs vârios de um novovulcâo,o Paricutin,cujo cone acabarâelevando-sea
decêniosde-presençano mesmo local,o problemaatingiaoutra maisde 2.600metrosnumazona montanhosaque ultrapassa2.000
amplitude:a cidadehaviase enraizado,e uma sociedadeurbana, metrosde altitudemédia.Muitorapidamente, os riosde lavaengo-
com sua hierarquia,seuscôdigos,seus conflitosinternos,haviatido lem a cidadezinhade Paricutin,cujos habitantesdevemencontrar
tempode implantar-see as relaçôescom o mundoruralestavam refûgiopertoda cidadeprincipal,Uruapan.O vulcâocospeentâo
solidamente estabelecidas. umacolunade fumaçanegraque se elevaa maisde seisquilôme-
Estudaro deslocamentodas cidadesna Américahispânicapossi- trose cujasparticulasmaisfinasrecaemsobrea cidadedo Méxi-
bilitauma reflexâosobre as formas e as funçôesda cidadee tam- co, situadaa mais de 350 quilômetros.
bém possibilitacompreendermelhoras relaçôesconstantemente Em 15 de janeirode 1944,apôsum longoano de atividadevulcânica
mantidashojepelosestabelecimentos
conflituais humanoscom seu ininterrupta,foienviadoum relatôrioao presidenteda Repûblica,Ma-
meioambiente.Além disso,talabordagemvalorizaascontradiçôes nuelAvilaCamacho,com o objetivode descrevera extensâodo desas-
internasda sociedadeurbana,pois nem sempreé fâcil tomar a tre.3Numraiode trêsquilômetrosà voltado vulcâo,nadarestavada rica 3 Ar chi vo G ener al de l a N aci -

decisâoda transferência:ela é a manifestaçâodos determinantes florestaque antescobriaas montanhas.Num raiode seisquilômetros, ôn ( AG N - M éxi co) , Avi la C a-
m acho, 561 . 4/ 15- 13. C om i si -
de podere de dinherroque fragilizamuma comunidadecujosmem- umaespessacamadade cinzasrecobriaas ârvores,impedindo-asde ôn i m pul sor a y coor dinador a
bros nâo manifestamos mesmosinteressesnem as mesmaspre- respirar.Num perimetroaindamaisamplo(setequilômetros), todaa de l a i nvesti gaci ôn ci ent i fi ca,

ocupaçôesquando devemenfrentaruma crise maior. 15 de ener o de '1944-


vegetaçâoherbâceahaviadesaparecido. O gado,privadode sua ali-
N esse co n texto,o deslocamentode San Juan Parangaricuti ro mentaçâonatural,teve de ser deslocadoparazonasmenosexpostas.
(Michoacan,México)é particularmenteinteressante,poisfoi reali- Até '10quilômetrosdo pontode emissâo,todasas terrasarâveisha-
zado na metadedo séculoXX, seguindoà riscaregrasherdadasda viamse tornadoestéreis,e o ar,carregadode particulasem suspen-
época colonial.Ora, é somentetransportando-se sâo,provocavanos habitantesnumerosasafecçôesrespiratôrias. Ora,
esse episôdio
r ece n tep ar a um a tr adiç âomuito mais antigaque s e pod e com- segundoo engenheiroEzquielOrdofrez,encarregado desseestudo,
preendernâo apenaso comportamento nessemomentoaindahaviaduasmil pessoasem SanJuanParanga-
dos habitantes,mas tam- 4 Entr" 1926 e 1929, a "Chris-
béma reaçâodas autoridadesregionaisou nacionaisduranteas di- ricutiroe quasecincomil na zona afetada.
ti ade" ensangûent ou t odo o
ferentesetapasdo processode decisâo. A questâosobrea origemdivinado desastrefoi rapidamenteabor- M éxico oci dental. Foi pr eci so
esper ar o ano de'1 934 e a
dada pelos habitantesda regiâo,desejososde dar um sentido chegada ao poder do gener al
escatolôgicoao mal que os atingia.Num Méxicoque acabavade Lâzar o C âr denas ( or i gi nâr i o

O desastre"natural"
e suainterpretaçâo sairde uma longaguerracivilque haviaopostoum Estadoanti-cle- de M i choacân, um dos pr i n-
cipais centros da insurreiçâo)
poderiaser tentadorinterpretar
ricala camponesesmuitoreligiosos4, par a que as per segui çôes

essa erupçâovulcânicacomo uma manifestaçâodo todo-poderdo cont r a os padr es e os cr i s-


ter os ( sol dados do C r i st o)
Os primeirossinaisda atividadetelûricaque vai provocara ruinade Senhor.Tal era a opiniâode VicenteAguilar,cujotestemunhofoi fossem f inal m ent e abando-
SanJuan Parangaricutirointervêmem 8 de fevereirode 1943,quando colhidopor RafaelMendozaValentin: nadas.

t4l
M u s set, A. O d es loc am e nt o da s c i d ad es , um a t r a di ç âo hi sp an o -a meri c an a? l m agi nâri o- us p,2007, v ol - 13, n'14, 139- 166

A lo mejorlo del volcanfue un castigo,porqueel 20 de febrero Nessesentido,a sociedademexicanados anos 1940 apenasse-
anteriorha biamosi do muchisimasp ersonasa la piedradel guia a linhatraçadadesdea épocacolonialpelasordensreligiosas
hor nodondepusim osun a cruz granded e madera[. .. ] P ero que haviamevangelizadoas populaçôesamerindias.Assim,no dia
sucediôque unaspersonas de Paricutinla tumbarona hacha- seguinteà destruiçâoda Ciudadde Santiagode Guatemala,em
zos porquepensaronque nosotroslos de SanJuan,nos habi- 1541,a grâficade JuanCromberger, instaladana Cidadedo Méxi-
amosvalidodel "credo", paraponerel linderode la comunidad,
co, publicouum texto que ressaltavaos aspectosfantâsticosdo
perono fue asi (VALENTIN, 1995,p. 54).
acontecimento. Segundoo autordo relato,enquantoum habitante
Outratestemunhada erupçâovulcânica,SilvianoToral,lembrouque tentavasocorrera viûva do adelantadoPedro de Alvarado,refugia-
hâ muitosanos Deus enviavasinais(luzesmisteriosasem plena da em sua capela,um animalfabuloso(uma vaca com um meio-
noite)para anunciara catâstrofeaos habitantesda regiâo,mas que chifre)veiobarrar-lhea passagèm,provairrefutâvelda intervençâo
elesnâo haviamsabidointerpretara mensagemdivina(idem,p.62). das forças sobrenaturaisna destruiçâoda Ciudad de Santiago
(MEDINA,1989,p.7). No fim do séculoXVl, raroseram os espa-
Essa explicaçâomlstico-religiosa se expressahoje de modo ingê-
nhôiseducadosque acreditavam aindaem vulcôesalimentadospelo
nuo por meiode uma grandemaqueteinstaladanum dos ladosda
basilicado NuevoSan Juan:vê-seai um diabocom chifresvestido fogo do inferno,mas o padre Joseph de Acosta, em sua Historia
de vermelhomontarguardadiantedo vulcâo,como se a lavaexpe- naturaly moralde /as Indias,sentia-seobrigadoa refutaressa te-
oria.Segundoele, o infernosituava-seexcessivamente longeda
lida pelo Paricutinsaisse diretamentedas profundezasdo inferno
(fotografiano.1). superficieterrestrepara que corrêssemoso riscode sermosengo-
lidos,mas o fogo ondequeimavamos condenadosera aindamais
ardentedo que o dos vulcôes(ACOSTA,1985, p.136).

Sem negligenciarinterpretaçôes religiosassolidamenteenraizadas


na mentalidadecoletiva,tambémera precisoencontrarexplicaçÔes
cientificasdestinadasa assegurara populaçâo.Ao ladodos geÔ-
logosautorizadospelo governopara estudara evoluçâodas corren-
tes de lava e das emanaçôesde gâs e cinzas,numerososhabitan-
tes arquitetavam suas prôpriashipôteses.lnterrogado40 anosapÔs
o desastre,TiburcioRincônreconheciaque ele nâo haviase impres-
sionadopeloque se passavaentâo,pois haviamlhe explicadoas
causasnaturaisda erupçâo:"nosdecianque era un resuellode la
tierra,porqueya estabamuy sofocaday necesitabaun respirade-
ro" (VALENTIN, 1995,p 48).A idéiade uma terraque estavasufo-
candoe buscandoum meiode respirarfoi reutilizadaem agostode
1943por um habitantede Guadalajara,GabrielRamirez,que dese-
java ajudaros habitantesda regiâo.Em 10 de agosto,ele escreveu
uma cartaao presidenteda Repûblicapara dar sua interpretaçâo
Fotografiâno. 1: O Diabovigiao Paricutin.lvlaqueterealizadapara comemorara destruiçàode
sobrea erupçâovulcânicae preconizaruma soluçâoradical:
San Juan Parangaricutiro.
Muss e t, A. O d es lo ca m en to da s ci da de s, um a tr ad i ç âo h i s pa no -a meri c ân a? l m agi nâr i o - usp,2007, vol . 13, n'14,139- 166

De i- m e co n ta d e q u e a b o ca d o v ul câo nâo é bast ant egr ande mantinha fechado, elebatenasparedes sobreas quaisele havia
p a ra q u e e le p o s sa r e sp ir a r co nveni ent ement e,e é por i sso se jogadocom a maiorforça,e entâo,ou ele se perdenas pas-
mesmo que ele nâo pâra de entrar em erupçâo,porque no inte- sagenssecretas criadaspeladesagregaçâo geradapeloterre-
rior o sufocamento é terrivel, e enquanto nâo fizermos outras moto, ou ele se lançaatravés da nova abertura que ele infligiu
a b e rt u r asp a r a a u m en ta r s u a boca par a que el e assi m possa a o so lo .N enh umag r e g ad opod er e t ê- lo,ele r om pet o do so s
respirar melhor, parar um pouco de entrar em erupçâo e parar entraves,levacomele qualquercargae, deslizando por estrei-
de cuspirlava, pois tenho certezade que ele vai continuara cres- tasfissuras, abreespaçoe se libertagraçasà potência indomâ-
cer e a destruirtudo o que se encontraem sua passagem.Pen- vel de sua natureza,sobretudoquando,violentamente agitado,
so e n tâ o e m jo g a r bo mb a s d e gr ande al can cee de gr ande po- elefaz valerseudireito(SÊNECA,1961,p. 272).
tência em torno da boca do vulcâo; nâo importa que a abertura
jâ se ja g ra n d e ; a b o ca d a c ra ter aser â ai nda mai o r e perm i t i râ Essasteoriasforam trazidasao gosto da época por sâbios,como
uma maior respiraçâo,de tal modo que ele cessarâ de sufocar o padrejesuita Joseph de Acosta (Historianaturaly moralde /as
no interior.Esta idéia me veio porquefiz a experiênciacom uma lndias,1590)ou o doutorJuan de Cârdenas(Problemasy secretos
panelade âgua fervendo,cuja tampa tinha pequenosfuros, ora, maravillososde /as Indias,1591),que tentavamexplicaras particu-
at ra vé sd e ss es fu ro s sa i a o va por ,e eu me di sse que el es nâo laridadesda naturezaamericana.Este, num texto ornado por nu-
eram suficientes,pois apesar deles a âgua fervendosubia e se merosasexpressôesmetafôricas(a superficiedo solo é compara-
difu n d ia ;b a sta vae n tâ o re tir a ra ta mpa e a âgua desci a r api da-
da à pelede uma castanhaou à cascade um ovo mergulhadoem
mente e parava de ferver; e disso tudo me veio a idéia de que o
âguafervente),situaa ciênciade sua épocae explicaporque a terra
v u lcâ o tin h a o m e s m o p r o bl e m a: sua boca nâo er a bast ant e
Av ila Ca ma ch o, gra n d e .5
das indiasocidentaisé particularmentepropiciaaos terremotos:
- 13 . C ar t a d e d e l Sr
l am ire z a l S r P re si- Eudigoque,jâ queo abismoindicoé cavernoso e a partesuper-
l a R e p û b lica . A proposta de Gabriel Ramirez permaneceu como letra morta, mas
ficialda terra é muitodensae muitofechada,ocorreque os
es s e t ipo d e d is cu rso , fu n d a d o so b r e a obser vaçâo da nat ureza, vapores,dissolvidos pelosol a partirda umidadedo centro,em
inscreve-se numa tradiçâo cientifica de mais de dois mil anos, da muitoscasos nâo podem escapar,pois os porosda terra,por
qual pode-se seguir a pista desde a época romana até meados do ondedeveriamsair,fecham-se e se apertamcommuitafacilida-
século XX (para nâo dizer mais), o que prova que as idéias morrem de ; é por issoqu e,b uscan doum asaidae um aa ber t u r a,
ele s
lentamente. É assim que, por ocasiâo do terremoto de 1651 , os ofi- fazem tremere sacudira terracom frequência; e assirno pro-
c iai s mu n ici p a i s d a G u a te m a la p e di r am aos habi t ant es da capi t al blemaé resolvido (CARDENAS, 1988,p. 96).
p ar a c a va r b u ra c o s e m se u s j a r d i ns para l ut ar cont ra os s i smos
( L UJA N, 1 9 8 7 , p . 1 6 ). Es sa o r d e m parece i nc ompreens i vel q uando Assim,tendopedidoaos habitantesda Guatemalaparacavarbu-
nâo se sabe que, para Aristôteles (Metereolôgica) e para Sêneca racosem seusjardins,as autoridadesmunicipaispensavarnofere-
( Ques tô e s n a tu r ai s) , o s te rr e m o to s sâo pr ovocados pel o ar sob cer uma passagemaos ventosviolentosque, parafurara crostaque
pressâo que circula sob a crosta terrestre e que busca um caminho os aprisiona,sacodem a superficiedo solo. Essas escavaçôes,
na superficie para chegar a seu lugar natural, segundo a teoria dos concebidascomo os porosda pele,deveriamter o papeldg verda-
elementos: deirasvâlvulasde segurança.Essa interpretaçâofoi amplamente
difundidana literaturacientificado mundoantigo.Ela é encontrada
A grande causa dos terremotos é, portanto,o ar, um elemento no grandepoemaintituladoEfna,geralmenteatribuidoa Virgilio,
mô ve lp o r n a tu r e z ae qu e ci rcu l ade um l ugara out r o.[. . . ] D epoi s, apesarde todasas dÛvidassobresua redaçâo:"Sâoos ventosque
qu a n d o e le p e rco r re u ,se m p oder escapar ,t od o o l ugar que o provocamessesdistûrbiosviolentos;atravésde seusfuriosostur-
ua s c r oa des , u m a t ra di ç âo hi s p a no -ame ri c a n a ? l m agi nâr io - usp, 2007, vol. 13, n' 14, 139- 166

bilhôes,lançamessasmatériascontrasi mesmas,massaespes_ Entretanto,apesarda vontadepollticaapregoadade nâo ceder às


sa que eles fazem girar e rolar para fora das profundezas.Eis a forçasda natureza,os habitantesda cidadezinha de Paricutinforam
causa que permiteprevero iminenteincêndioda mon-tanha"(VlR_ obrigadosa abandonar o lugar a partirdo mês de abrilde 1943.
Gl Ll O , 1961,p. 17) . S em o saber,Gabrie lRamirezinscrevi a_se Instalaram-sea alguns quilômetros dali,em Caltzontzin, em terras
assim numa tradiçâocientlficamuito antiga que teve um papel compradaspelo Estadode proprietârios privados ou cedidas por
centralem numerososdeslocamentosde cidadesna Américahis- ejidosvindosda Revoluçâo.A tarefade planejar a novaaldeia de
e
pânicadurantea épocacolonial(MUSSET,2002,p.61). distribuirde modo equivalenteas terrasagrlcolasnecessâriasà
sobrevivênciadas familiasfoi confiadaàs autoridadeslocais(Dele-
gaciônAgrariado Michoacâne Oficinade PromociônEiidal).Alguns
A realizaçâo
da transferência meses mais tarde, a correntede lava começoua aproximar-se
perigosamente de San Juan Parangaricutiro. O municipioinundou
com cartase telegramas os serviços da Presidência e os escritÔ-
Em 2 de marçode 1943,os geôrogosenviadosperogovernocentral riosdo governadordo Estado para expor às autoridades competen-
consideravamainda que as cidadesem torno do paricutinnâo tes o terrorde sua cidadeagonizante.A partirde setembro de 1943'
corriamperigoimediato:"é por isso que fizemosum grandetraba- a agriculturalocalnâo podiamaisalimentara populaçâo. Em de-
lho de persuasâopara convenceros habitantesa irem para casa. zembro,as reservasde milho,de feijâoe de arrozestavamesgota-
como conseqùênciados acontecimentosanteriores,o turismo das, e o espectroda fome haviafeito sua apariçâo.Como na épo-
lovernador do aumentoude modo considerâvel"6, enquantonumerosasfamilias ca colonial,quandoo cabildopediaao Rei,sem muitaesperança,
)acan ao Pre-
sem recursosjâ haviamcomeçadoa deixaras zonasmaisameaca- que ele viessevisitaras populaçôesatingidaspor um terremoto,os
bl ic a , em 2 d e
membrosdo conselhomunicipalsugeriam ao presidente que vies-
das. Essaatitudese explicaem partepelodesejodo Estadooe nâo
se ao local para dar-se contada situaçâo: "o caso é tâo grave que
abandonaruma polegadado territôrionacional.Nessesentido.o
governo mexicanose posicionavade modo diferentedas estraté- mereceriasua visitaàs zonasafetadas,e entâo encontrariamos um
I ncn, a
gias desenvolvidaspela coroa duranteo periodocolonialpara ga- remédiodefinitivo"s.
561 4/ 15- 1i
rantir a continuidadeda presençaespanholaem espaçosmuito A questâodo abandonoda cidadee do deslocamento da populaçâo Manuel Avilê
ener o de 19
vastose mal controlados. como os conquistadores
haviamfeitodos para um lugar menosexpostotornou-seum assuntode debates
centrosurbanosos pivôse os guardiôesde seu sistemapolitico- intensosno seio da comunidade,poistal decisâonuncaé fâcil de
econômico,a administraçâorealfreqùentemente hesitouantesde ser tomada.Jâ na épocacolonial,ela era freqÙentementepercebi-
permitira dispersâodos cidadâosdos quaisela tantoprecisavapara da como um fracassopeloshabitantes, obrigadosnâo somentea
imporsua presençano Novo Mundo.Esseé o sentidoda cartade abandonarsuas residênciase perderseu patrimônioem terrasmas
21 de fevereirode 1607endereçadapeloRei às autoridadesperua- tambéma questionaro statussocialque eles puderamadquirirao
nas para felicitâ-lospor ter impedidoos habitantesde Arequipa, longodo tempo.Apenasa mençâodessetema jâ separavaa cida-
fortementeatingidapor um violentoterremoto,de desertar suas de em dois campos(partidâriose adversâriosda transferência),
casas:"istofoi muitobom, comovocêsnos disseramter feito,de comoo demonstramos grandesdebatesorganizados em 1717 na
animare reconfortaros habitantesde Arequipa,de Arica e da villa por
Guatemala, ocasiâodas reuniôesdo Conselhomunicipalam-
de Anama,pararepararos estragosprovocadospeloterremotoque de
pliadoà populaçâo,ou os da controvérsia 1773,quando a Coroa
r na l ( Mad r id ), os atingiue paraque eles nâo abandonem,mas,ao contrârio.re- finalmenteimpôsa evacuaçâoda Ciudadde Santiago.Podernser
construam"T. encontradosesquemasidênticos,complicadospor rivalidadespes-
Mu sset, A. O des locam ent o d as c i d ad es , u m a t ra di ç âo h i s pa no -ame ri ca n a ?
l magi nâr i o- us p, 2007, v ol . 13, n" 14. 139^166

soaise disputaspoliticasou religiosas,em quasetodosos proje- inevitâvele uma moçâoquasedesesperadafoivotadapelamaioria:


to s d e desl ocamento.A hora da escolhaé assim um mo ment o "tan luegocomo la lava abansehastael panteônmunicipaldellu-
chaveda histôriada cidadehispano-americana, quandoas solida- gar,se prosederâaltrasladodel pueblo".e 9 eor u, Avi r a ci
riedadesde fachadaapagam-sediantedas profundasclivagensda 561 . 4115- 1 3. Act a

vida colohiale que a sociedadehumanase revelaem toda a sua Em 1997,pude encontrarum dos protagonistasda transferência, asemblea efectuada

diversidade(MUSSET,2002, p. 203). don CeledonioGutierrezAcosta,à épocacom 32 anos.Conversando di ci em br e de 1943.

com ele, eu tinha a impressâode folhearas pâginasvivasde um


as mesmashesitaçôes
Na transferênciade San Juan Parangaricutiro, dossiêque nuncahaviasido colocadona poeirados arquivos.No
paralisaramos membrosda comunidade,divididosentreo medode iniciodos anos 1940,don Celedonioera um pequenocamponês,
perdertodos os seus bens,seu desejode nâo abandonaruma ci- que,comoquasetodosos seusvizinhos,cultivavamilhoe feijâoe
dade amada e a necessidadede escaparda ameaçavulcânica. coletavaa resinado pinheiro.ldealizadore proprietâriode um mi-
Assim,PaulaGalvânrecusou-seaté o fim a abandonarsua casinha nûsculomuseu,dedicadoà erupçâodo paricutine ao deslocamento
de Paricutin:? mi, me trajerona fuerzas,yo no queriasalirmede de San Juan Parangaricutiro,ele me confirmouque muitoshabitan-
mi pueblito,hasta nos enojâbamoscon mi esposoporqueyo no tes nâo estavamde acordoem abandonarsuas casas.Interminâ-
queriasali/'(VALENTIN, 1995,p 40) Em contrapartida,apôsuma veis reuniôes(Juntasy masjuntas",para retomara expressâode
visitarealizadaà regiâo,em maio de 1943,o bispoauxiliarde Za- don Celedonio)precederama decisâofinal,tomadaa contragosto
mora,SalvadorMartinezSilva,declarou-seabertamentea favordo quandoa lavajâ atingiaas primeirasconstruçôese corrialentamen-
abandonoda aldeiae até mesmode San Juan. no entantomais te pelasruas da cidade.
afastadada crateraem fogo, apesar da oposiçâode uma grande
partedos habitantes: No entanto,em pequenosgrupos,os sinistradosjâ haviamcome-
çado a abandonarolugarduranteo ano de 1943levandoconsigo
todo s tienenopini onesdistintasso brelo que debe ha cerel suas magraseconomias.Um telegramalacônicoenviadopelopre-
y to dosse empefr anen que se h agalo que piensan,
pr .r e blo sidenteda Repûblicaresumea situaçâodessesinfelizes:"partiram 1o ne ru, Avirac.
especial me nte un gruponumerod e hi j o sde S an Juaninsis- hojeos primeiroshabitantesdessemunicipio,paraArio de Rosa- 561 .4/15- 13, t el egr al
487, de 3 de agost o ,
ten en no sali r y en que no salgael se fiorde los Mi l agros les, em buscade terras a colonizar.Sâo 31 chefesde familia.num
11 A vi agem
( i dem ,p. 45 ). total de 125 pessoas.A esses elementosfalta absolutamente r eal i za
chegar ao local do NL
tudo"l0.Somenteno iniciode maiode 1g44os ûltimosocupantes Juân dur ou t r ês di é
Em 27 de dezembrode 1943, um debatepûblicofoi organizado fecharambagagens,em buscade um lugarfavorâvelà instalaçâo pnm er r a et apa con(
de
pelasautoridadesmunicipaisna prefeitura,paraouviras propostas suasfamilias.Comolembrao museuoficialda novacidadeem oue
si ni str ados at é Ang€
km ) , onde um a gr an(
de cada uma das 250 pessoas("todosvecinosy Jefesde casa")que um afrescocoloridorepresentaa tragédiade 9 de maiode 1944: r euni u t oda a com L
participaramdessa reuniâo,cornonos cabildosabiertosda época "Com légrimasnos olhos,os habitantesdeixamSan Juan.A ima- Em 11 de m ai o, che
U r uapan, apôs um
colonial.Recusandoa idéiade abandonarsua casa,J. JesûsOr- gem abençoadado Senhordos Milagrespresidee guia sua peregri- m ar cha de 33 qui l ô
tiz tentou convencera assembléiade que nâo era necessâriopre- naçâo" (fotografiano.2). Até mesmo o padre EzequielMontafro, Esgot ados, passam

pararum deslocamento, pois a lavaaindanâo haviaatingidoa al- vigârioda parôquia,reconheceuque essa decisâofoi mal recebida
diante da igreja de S
ci sco. N a m anhâ se
deia.Outros ressaltaramque as propostasde re-alojamentofeitas por uma partedos habitantes,que esperavamainda uma interven_ um ûltimo esforço os I
pelascomunidades vizinhasnâo eramviâveis,poisos agricultores a "terra prometida", o
çâo divina.A saidada aldeiafoi dificil,pois muitoshabitantes
ten- Los C onej os, si t ua
nâo poderiamdisporde terrascultivâveisem quantidadesuficiente. taramimpedira partidado Cristoque protegiaa comunidade(VA- qui l ôm et r os a oest e
Entretanto,a situaçâoera muitocriticapara retardaraindamaiso LE NTIN ,1 99 5,p. 6 0) 11. tal r egi onal .
M uss et, A. O de s loca m ent o da s c i d ad es , um a tr a di çâ o hi sp a no -am eri c an a ? l m agi nâr i o- us p, 2007, v ot . 13, n" 14, 139- '166

lucrosque certos habitantesde Villa Escalantecontavamrealizar,


o prefeitopensavanas possibilidades de desenvolvimento
que po-
deriamser oferecidasa uma comunidadecujopeso demogrâfico iria
quasedobrar:"Nossohonorâvelconselhomunicipalconsiderouuma
infinidadede razôesde carâtereconômico,consultandopessoas
autorizadasdestelocal,que auguramuma era de progressopara
nossasduas populaçôesreunidas,tanto no plano politicoquanto
econômico,graçasa um crescimentonotâveldas atividades"l2. 12
AG N, Aui r "
561. 4/ 15- 13. C a
Algumasboasalmasofereceram,porsua vez,terrenosmagnificosque sident e M uni ci p
nâo pediammaisque sua valorizaçâo peloscamponesesexperimen- Escalante al Pres
cipal de San Juar
tados.Assim,a Sra. ElpidiaPihonRomerosugeriuao presidenteda cut ir o,2 de agos
Repûblicaa trocade 103 hectaresde terrasituadosem Tlalpujahua
(Michoacân)contraapenasmeio hectarede terrasarâveisno Distrito
Federal,com o objetivode ajudaros sinistradosa garantirsua subs-
A proprietâria
tância.13 esperavasem dûvidafazer um bom negôcio, 13 A GN ,
A ui r "
)tografia
no.2: Os habitantesde San Juan Parangaricutiro
abandonamsua cidade.Pinturamuraldo museude NuevoSan Juan
contandocom a mais-valiaoperadapela revendade um vastoterreno 561.4115-13, c al
abr i lde 1943.
para construçâona capitalmexicana.Ainda mais ambiciosos,os ir-
mâos Del Valleaproveitarama ocasiâopara ofereceràs vitimasdo
Paracutina liberdadede instalar-seem terrenosem oue deveriam
A escolhado novoluoar garantira colonizaçâoagricola,no lado do pacifico do Estadode
Oaxaca,segundoum acordoanteriorassinadocom o governo.la 14 A GN , A ui r"
56'1. 4/15- 13,c al
Como i.u"t"* os arquivosda Presidênciado generalAvilaCama- No entanto,nessedominio,o prêmiodo maquiavelismocabe sern abr i lde '1943.

cho,a es_colha de um novositio paraos habitantesde San Juan nâo dûvidaao governadordo Estadode Chiapas,RafaelpascacioGam-
foi fâcil. Desdejunhode 1943,o governomexicanoestudoudiferen- boa,que ofereceua instalaçâogratuitade milfamiliasde campone-
tes possibilidades com o objetivode partilharseus prôpriosinteres- ses expulsosde suas casas pelaerupçâovulcânicaem 15 mil hec-
ses, os projetosdo municlpio,os das comunidades vizinhasou as tares de terrasarâveissituadasno municipiode Mapastepec.Essa
propostasde particulares, cujasintençôesnem sempreeramcla- doaçâogenerosaocultavapensamentosmaisgeopoliticos, poistra-
ras.Assim,desdeagostode 1943,os decisoresde VillaEscalan- tava-se,antesde maisnada,parao governador,de acelerara valo-
te (a antiga SantaClaradel Cobre),comovidoscom a situaçâotrâ- rizaçâode espaçosruraispouco povoadose pouco exploradospara
gica dos habitantesde San Juan, propuseramaos sinistradosvir impediros imigrantesguatemaltecos de penetrarno territôriomexi-
instalar-senas terrasde sua comunidade.EIadispunha,com efei- cano:"pararesolverintegralmente o problemaque existena frontei-
to, de bons terrenospara construir,que o governopoderiacomprar ra de nossopais com a repûblicavizinhada Guatemala,consideran-
e redistribuiraos novoscidadâos.Além disso,os agricultores pri- do-se a grande porcentagemde populaçâoguatemaltecaque reside
vadosde seuscamposteriama possibilidadede trabalharnas ter- hoje nessaentidade,torna-seimperativaa adoçâode medidasurgen-
15 A G N , A ui r "
ras agricolasque certosproprietâriosjâ estavamdispostosa devol- tes destinadasa desenvolver um verdadeirotrabalhode mexicaniza-
561.4/ 15- 13, c ar
ver ao Estado,comouma honestaretribuiçâo. Alémdos pequenos çâo da ditazona fronteira".15 di c i em br ede 192
l m agi nâr i o - usp, 2007, vol . 13, n" 14' 139- 166
rvrub5cr , A - u oê sl o ca me nt o da s ci d ade s . u ma i r adi ç â o h i s p an o-a me ri c an a?

Abandonadosessesprojetos,a escolhado governadorfixou-senum Para escaparàs correntesde lava do Paricutin,os habitantesde


terrenoprôximoà capitalregional,Uruapan,num lugarchamadoLos San Juan Parangaricutironâo se contentaramcom um pulinho
Conejos- o que representaumadistânciade maisde 30 quilômetros (mapa):seu êxodo para Uruapanos inscrevena categoriaparticu-
em vôo de pâssaroem relaçâoàs torresda antigaigreja,que,depois lar dos deslocamentos de grandeenvergadura, comoGuatemala
da catâstrofe,emergemda ganguede basaltoexpelidapelo vulcâo Ciudad,Riobamba(Equador) ou San Miguelde Tucuman(Argentina)'
(fotografiano.3). Na maioriados casosque estudeiem todo o con- A grandequantidadede cinzajogada na atmosferae a progressâo
tinenteamericanoe num periodode quatroséculos,os deslocamen- da correntede lava parao nortelevaramas autoridadesmexicanas
tos foramde baixaamplitude.A cidadeera maisconstantemente re- a instalaros sinistradosa sudesteda crateraem erupçâo,num lugar
construidanas proximidadesdo localprimitivopara evitara mudan- que deveriagarantirsua segurança.Entretanto,segundodon Cele-
ça dos equilibriosregionaisinstaladospelosconquistadoresespa- donioGutierrez,a principalpreocupaçâo dos deslocadosera a de
nhôis.Além disso,era precisorespeitaros limitesadministrativose encontrarum terrenoplano,prôximoàs suasantigashabitaçôese de
politicosdascidadesvizinhas,bemcomoos direitossobrea terradas seuscamposdevastadospelalava,e principalmente bem alimenta-
comunidades indigenas.Finalmente, os habitantesraramenteque- do por âgua.Os arquivosda presidênciaconfirmam o relatode velho
riamafastar-sede suas propriedadesagricolas,de suas minasou dos agricultor,porque,num memorandoendereçado ao general Avila
indios,que,de diversasmaneiras,trabalhavamgratuitamentepara Camachoem 12 de janeirode 1944,os representantes da municipa-
eles.Foiassimque,em 1614,a pequenacidadede Nexapa(Oaxa-
ca, México)propôsa operaçâode um deslocamento, que, segundo
o relatode testemunhasconvocadasdiantedas autoridadesreaisoara
estabelecimento do dossiê,nâo ultrapassava
160ou 170- istoé, um
erraS , 7 9 e xp 4 tirode bacamarte.l6Tratava-seentâode um simplesdeslizamento da
cidadeparao pé da colinaem que ela se situava.

Fotografia n'. 3: Somente as tores da igreja da antiga San Juan Parangaricutiro emergem hoje da gangue basâltica ao NuevoSan Juan (Michoacan,México)
Mapa de San Juan Parangaricutiro
oue acabou oor recobrir a aldeia.
u au rç ao n ts p a n o -a m eri c a na ?
l m agi néri o- us p, 2007, v ol . 13, n" 14, 139- 166

lidadebaseavamsua argumentaçâoem critériossolidamenteanco-


Essasrecomendaçôes inspiram-seem grandepartenas instruçôes
radosem sua mentalidadehâ vâriascentenasde anos:
reaisde 1573,pois os pontos 1 e 3 do texto citadocorrespondem
(...)umasoluçâopossivelserialocalizar ao artigo39 ("o lugare o sitiodas localidadesdevemser escolhidos
nestemesmoEstado
de Michoacân umazonanâoinsalubre e comterraslaborâveis, em lugaresonde haja âgua nas proximidadese que se possades-
paraondepoderiamos transferir
a localidadede Parangaricuti- viar para melhoraproveitar(...)e onde se encontrarâmateriaisne-
ro comounidadesociolôgica, evitandoassima dispersâodas cessâriospara construiredificaçÔes"); o ponto2 faz referênciaao
fami li asque se sentemestrangeiras em ou trosmeiossociais artigo35 ("domesmomodo,que elessejamférteise abundemde
ondesâo agredidas, o que aumentaseusofrimento (...).Seria todas as frutas e de todos os alimentos");o 4, ao 34 ("que se es-
precisoque estazonafossesituadao maispertopossivelde colhaa provinciavizinhae a terra que deve ser povoadaconsideran-
nossacidade,porquepoderiamos assimcontinuar
a explorara do-seque ela seja salubre");o 6, ao 41 ("nâose deveescolherlu-
, Av ila Ca ma ch o , riquezaflorestalda comunidade, queaindaé considerâvel.17 garespara cidadesem locaismaritimospor causado perigodos
- 1 3 , Me mo r a n d u m
)fror Presidente de la corsârios").
a , 12 de e n e ro d e No séculoXX, a escolhade um novo lugaraindase colocavaem
ter mos idênticosaos da épo ca co lonial,po is a s nece ssidades Levandoem contatodos essescritérios(excluindo-se a èferência
aos ataquesde piratas),
as autoridades federaisfinalmente esco-
materiaisdas populaçôesdeslocadas,muitodependentesdo mun-
lheramo sitio de Los Conejos para instalaros habitantesda velha
do rural,haviammudado pouco.Os critériosevocadosem 1944
San Juan.Em 5 de janeirode 1944,o conselhomunicipal endere-
pelosespecialistasdo governomexicanoinspiravam-seainda nas
çava um novo relatôrioao ComitêCentralpro-damnificados del
recomendaçôesde santoTomâsde Aquino,contidasno De Regi-
Paricutincom o objetivode justificaressa decisâo,que inscrevia-
mine principum(Do Governodos Principes)e nas Nouye//esOrdon-
se involuntariamente numatradiçâode vâriosséculos:
nances de découverte et de peuplement[Novas Ordens de desco-
bertae de povoamenfolpromulgadaspor Philippell em 1573(BER- En la asembleaefectuada el 27 de diciembre del afio pasado
TH E, 19BO ).A s m esm as preocupa çôeseram expressaspelos llevadaa cabopor250jefesde familia,segÛnactaque paratal
habitantesde Concepciônde Chile,pequenacidadeportuâriades- efectonos permitimos acompafrar, llegamosa un acuerdode
truidaem 1751por um terremotoe um tsunami.Paraescolherum t r an slad a r noas los r a n chos de nom o m ejo rdich oa l
in a do s,
novolugar,seus representantes enumeravam as regrasmaissim- rancho "los Conejos" de la cercania de la Ciudad de Uruapan,
ples,que deveriamser sistematicamenteaplicadasparafundaruma por llenaresterancholos requisitos de nuestras necesidades,
novacidade:"Setesâo as coisasque se deveter como prioridade aguasuficiente, tierraslaborables y pastosparacriaderos de
paratentarfundarcidadesnas indias.A primeiraé que haja âgua sanado.le ll, î;
nas proximidades,de modo a podertrazê-lasem que isto custe
muitocaro aos habitantes.Em segundolugar,que hajafâcil provi-
3JÏ
ro de
mentode viveres.Em terceiro,que os materiaisde construçâonâo Organizaçâo da nova cidade
estejammuitoafastados.Em quarto,que o clima seja saudâvel.
Em quinto,que nâo se estejaexpostoaos ataquesdos indios.Em
sexto,que possamosnos defenderdos piratase dos inimigosdo Mesmono casode uma pequenaaldeia,comoSanJuanParanga-
vo G en e r a l d e I n dias
mar. Em sétimo, que, se nos encontrarmosperto de um rio, nâo da po-
ricutiroe as cidadezinhasque a cercavam,a transferência
, Ch ile , 1 4 7 , 6 a , f . 7 v. hajariscode inundaçâoem caso de cheia".18 pulaçâo,a reconstruçâodos imôveispûblicose privadose a relor-
ganizaçâodas atividadesprodutivasrequeriamum custoque as co-
Mu sset, A. O de s l o c am e nt o da s c id ad es , u ma i ra di Ç âo hi s p a n o - ame ri ca na ? l m agi nâri o- us p, 2007, v ol . 13, n' 14, 139- 166

m unidadeslocais eram incapaz esde assumirsozi nhas,o que renda para a economialocal,os representantes da comunidade
obrigouseus representantes a pedirajudaàs autoridadesfederais. sugeriramqueo governofavorecesse o desenvolvimentodo artesanato
A partirde junho de 1943,o ministériodas finançasconcedeuao e da pequena na
indristria regiâo,
oferecendo ferramentas e mâqui-
governadorde Michoacânuma ajudafinanceirade cem mil pesos nas aos camponesessinistrados: "compreendemos bem que tudo
paraa comprae a organizaçâode uma grandefazendaprÔximaà issoé muitocustoso,mas é a esse preçoque se salvauma cidade".22 22rbi
estaçâode Caltzontzin.Tratava-sede criar um centroagricola
Poroutrolado,os chefesde familiase declararamprontosa emigrar
destinadoa alojarhabitantesda cidadezinhade Paricutin,engoli-
temporariamente para os EstadosUnidosparatrabalharcomodia-
da pelalava,e de dar-lhesterracultivâveis:
ao todo,1.314hectares,
ristas(braceros)nas grandesexploraçôesagricolasinstaladasao
dos quais três quartos provinhamde e7ïdosjâ constituidos,os de
nortedo Rio Bravo.Alguns,comoo maridode PaulaGalvan,traba-
San FranciscoUruapan,de Toreoel Alto e de Toreoel Bajo.Essa
lharamvâriosmesesnas plantaçôesde laranjada Califôrniaparater
decisâo,adaptadasem dificuldadepelosagricultoresde San Fran-
com que supriras necessidades de suafamilia(MENDOZA,1995,p.
cisco,foiviolentamentecriticadapelo conselhoejidaldeToreoel
40). De qualquermodo, as autoridadesfederaise federalivasencar-
Bajo, que se sentia destituidode uma parte de seu territôrioe de
regaram-sede boa partedos custospelo deslocamentodos habitan-
seus recursoseconômicos.
tes para o Vallede /os Conejos.Num telegramade 31 de julho de
ar a e v ita r d e svio s de
)s, o go ve r n a do r d e Mi-
Os serviçosadministrativosdo ministérioda agriculturaprestaram 1944,três mesesdepoisda partidados Ûltimosirredutivèisde San
: ân s u ge r iu d a r a p enas auxilioaos sinistradospara planejara reconstruçâode sua cidade. Juan,o generalFelixlreta,governador de Michoacân,assinalaque
) e sos p a r a ca d a c hefe
r mi l ia , s e n d o o resto
Os especialistasdecidiramque seriapossfvelconstruirdoistiposde eletevede garantiro transportede grandequantidade de madeirade
;itado à medida do avan- casas:as de adobe eram incontestavelmente maiseconômicas(650 construçâodestinadaaos habitantesinstaladosno novo local.Ora,
rs tr ab a lh o s. A a ju da fi- pesos)e mais robustas,mas nâo se podiaconstruirem plenaesta- estamosnessaépocaem plenaestaçâode chuvas,o que nâo resolve
g o ve r n o f ederal
-.ir a do
s ti m a d a e m 5 5 . 8 00 pe- çâo de chuvas.Foi precisoentâovoltar-sesobreedificiosde madei- a situaçâodos sinistrados.O prefeitoda cidadeabandonadapedeàs
aos qu a is se d eviam ra, nâoapenasmaiscustosos(1.200pesosporunidade),comomais autoridadespregose pranchasparaconsertaros tetosde ripas(fe-
; cen tar 2 '1. 5 0 0 pesos
frâgeis.AIémdisso,tratava-sesomentede alojamentospequenose jamanil)estragadospelascinzase sob a ameaçade deixarpassar
r compra de 50 parelhas
)i s e 1 . 50 0 p e so s d esti- rudimentares, de 6x4 metros,com 3,5 metrosde altura.2o a âgua portodolado.Vâriascartasenviadasao presidenteda Repû-
; à a q u isiçâ o d o m esmo blicaou às autoridadeslocaismostramo estadode desamparodas
)r o d e c a rr o - ça s, sem Quando,apôs muitashesitaçôese delongas,o deslocamento de
pareceuinevitâvel,os notâveisde SanJuan pessoasdeslocadas,como a de AntonioVergara,de 24 de junhode
rr o m at er ia l n e ce ssârio San Juan Parangaricutiro
e va r âg u a d e u m a fonte
enviarampor sua vez um memorandoao presidenteAvilaCamacho 1945,que pedeao presidenteum auxiliofinanceiroparaconstruirsua
d a a 1 . 50 0 m e t ro s aos
a n te s da n o va cidade paradeixâ-loa par do grandedesamparodos habitantes.Eleslhes casa,pois,depoisde ter perdidotodafonte de renda,ele se encon-
, A vila Ca ma ch o , 561.4/ pediampara garantirseu sustentopermitindo-lhesinstalar-seem tra cobertode dividas.
i. Me -mo r a n d u m p ar a el
r Ge n e ra l d e E iv isiôn novasterras:"paracada chefede familiadar-se-iauma parcelasu- A solidariedadenacionalexpressou-sepor meio de numerosas
el Avila Camacho, Presi- ficienteconformea qualidadedo terreno,instrumentosde trabalho, iniciativas:organizaçâode rifas em beneficiodos sinistrados,em
de la R e p ù b l ica , ' ll de
de 194 3 ) . sementese uma casa parasua familia,aindaque muitomodestae dinheiroou espécie...Em outubrode 1943,a companhiaTecho
G N , Avila Ca macho,
o menoscustosapossivel".21 Os habitantesse declaramprontosa Eterno Eureka e o Banco NacionalHipotecarioUrbano'y de Obras
/1 5 -1 3 . M e m o ra n dum reembolsarao Estadouma partedas somasavançadas,se o traba- Pûblicasofereceramàs familiasmais desfavorecidas4.000 m2de
rl Seior Presidente de la lho dos campospermitisse,dentrode um prazomaisou menoslon- placasde fibrocimentopara a reconstruçâode suas casas. Entre-
b li ca. 1 2 d e e n e r o de
go, retirarlucros.No casoem que nâo maisfossepossivelexplorar tanto, esse afluxo de dinheiroe de materialprovocouàs vezes a
as florestasde pinheiros,que representavamuma grandefonte de invejadas comunidadesvizinhas,ou melhor,de seusdirigentes.Foi

;6
Mu s set , A . O d es lo c am en to d as c id ad es , u m a t ra d i çâ o hi s p an o - ame ri ca n a ? l m agi nâri o- us p, 2007, v ot. 13, n" 14, j 39- 166

assimque, em novembrode 1945,o prefeitode Uruapantentou lhe don celedonioGutierrez,observandoque o projetopreviaartérias


desviarem seu proveito(ou em proveitode seus administrativos), de vintemetrosde largura(fotografia
no5).
tubosdestinadosà alimentaçâo de âguapotâveldos habitantes de
NuevoSan Juan,o que provocoua ira legitimadas vitimasdo rou-
bo, "com a circunstânciaagravantede que o materiale os tubos sâo
de propriedadesda dita localidadee foram compradosgraçasao
N , Av ila Ca m a cho, aportepessoalde seus habitantes".23 Em i2 de fevereirode 1945,
15 -13 . Ca r la d e 6 de
um novomemorandofoi enviadoao presidenteda Repûblicapara
)ro d e 1 9 4 5 , Co n f e de-
d e O b re ro s y Ca m pe- dar partedos problemaseconômicosenfrentadospelapequenaco-
e M éx ic o . munidade(380 familias)reunidapelasautoridadesno Vattede /os
Conejos.Segundoo autordo relatôrio,haviaurgênciaem se ofere-
cer terras a esses refugiadose portantoem investir90.000 pesos
na comprade duas propriedadesagricolassituadasa algunsquilô-
metrosdo NuevoSan Juan.Apesardo preçoatraente,inferioraoreal
valor,tratava-sede um investimentoconsiderâvel,podendoser
assumidoapenaspelo Estadofederal.Aindaera precisoacrescen-
tar a essasomao custodos animaisde tiroou de carga,indispen-
t a ép o câ, a p a r id a de sâveisao bom andamentode uma exploraçâotradicional.2a
lo peso mexicano com
nort e -a m e ri ca n o era Entretanto,pouco a pouco a nova cidadetomava forma. O primeiro
. O salârio cotidiano da
robra nâo ultrapassa-
imôvelconstruidofoi a basilicadedicadaao Cristodos Milagres,inau-
pes o s no Mich o a c ân, guradaem 1955 (fotograflano.4). Nessaocasiâo,o Estadoanti-cleri-
n a fa milia p re cisa va
calvindoda Revoluçâonâoqueriaavivaro fogocom sua oposiçâoao
7 p e s os p o r d ia para
iv er. grandeprojetode uma lgrejacatôlica,amplamentesustentadopela
populaçâo. De um modototalmenteclâssico,os engenheiros e arqui-
tetosdesignados pelogovernoelaboraram um projetode urbanismoque
nâo se diferenciavados cânonesem vigorna épocacolonial:em tor-
no de uma grandepraçacentralarticulava-seuma redede vias orien-
tadasno sentidonorte-sule leste-oeste,que se cruzavamem ângulo
reto,formandovastasmanzanasperfeitamentegeométricas.Maisuma
vez, o confrontoentre os arquivoscoloniais(ou republicanos)e a
memôriade um habitantede San JuanParangaricutiro mostraque a
reconstruçâo de umacidadenuncadeixoude serfontede conflitoenrre
gruposcom interessesdivergentes,mastambémentreas autoridades
locaise nacionaisou entreos arquitetose a populaçâo.euando o en-
genheiroenviadopelo presidenteda Repûblicaapresentouseu proje-
to urbanoaos habitantesde NuevoSan Juan,em 1944,ele provocou
incompreensâo. "Porque o senhorfazruastâo grandes?", perguntou- Fotografia no 4
M usse t , A . O deslocamen l o da s c i dad es . u ma l r adi c âo hi s oa no -a me ri c an a?
lm agi nâr i o - usp, 2007, vol . 13, n" 14, i 39- 166

De modo indireto,a implantaçâodesse modelo serviatambém(e


talvezprincipalmente) para a reproduçâodas divisôesespaciaise
sociaisque prevaleciam na cidadedestruida.Atravésdos séculos,o
mesmosistemafoi utilizadopara que cada um permanecesseem
seulugartantona sociedade quantono espaçourbano.Foiassimque,
apôso grandeterremotode 1751e o deslocamentoda cidadepara
Horca,os oficiaismunicipaisde chillânforamencarregadosde ven-
der e atribuirà maiorofertaos lotesrecortadosem quarteirôesprô-
ximos à praçacentral,a fim de preservaro equilibrioeconômicoe
socialda comunidade. Essesistemade atribuiçâopermitiaaos ci-
dadâosmais ricosde instalarem-seperto dos locaisdo podere
asseguravaa perenidadeda organizaçâopoliticada cidade.para
garantira legitimidade dessa partilha,todos aquelesque haviam
obtidoum cargomunicipaleramconsiderados comoprioritârios para
adquirirum terrenodos ladossul e oesteda praçacentral,ou nosoito
quarteirôes que formavamo primeiroquadradoda cidade.os outros
vecinos,menosafortunadosou menosimplicadosna vida pûblica(o
Fotografiano5: Uma rua de NuevoSan Juan Parangaricutiro
(México) que constantemente vinha junto) deviam passarpelo sorteiopara
receberum loteedificâvel.25 Nessesentido,o abandonode san Juan 25 Ar chi vo
G ener al de Ch
Os lotesde maior prestigio,situadosem torno da praçacentral,da
Parangaricutiro e a construçâodo Nuevosan Juan inscrevem-se C api t ani a G ener al , vol . 9r
igrejae da prefeitura,foram atribuldosàs pessoasque poderiam n" 17514, t . 272- 272v.
numalongatradiçâohispano-americana em que, paraas eliteseco-
construirimediatamentesua residência.Oficialmente,tratava-se
nômicase parao poderpolitico,a reproduçâoda forma urbanaain_
assimde evjtar a formaçâode "dentesesburacados"e de terrenos
da é o melhormeiode garantire de perpetuara ordemsocial.
vagosdurantea fase inicialda construçâo.Os outros,aquelesque
nâo podiamfinanciarsuas casas,foraminstaladosnas zonaspe-
riféricasda nova cidade.Foi o casode don Celedonio,cujamodesta
casa se encontrahoje num terrenoque na épocaestavasituadoàs Conclusâo
margensdo espaçourbanizado.Essa politicarestritivapermitiadar
à cidade em construçâo,o mais râprdopossivel,um rosto quase
definitivo,favorecendoa emergênciade uma paisagemurbanaho- Segundoos dadosdo ûltimorecenseamento (2000),a Novaparan-
mogênea.No planofuncional,a estratégiautilizadapermitiarenta- garicutirocontacom mais de 15.000habitantese sua economra
bilizaras operaçôesde organizaçâourbana e reduziro custo da permanecevoltadapara o mundo rurale para a exploraçâodos
implantaçâodas redes,pois podia-seconcentraro esforçotécnico recursosflorestais.Paradoxalmente, a nova cidadedeve uma par_
e financeiroem espaçosdensamenteocupadosem vez de disper- te de sua prosperidade
atualao desastreque conduziuà destruiçâo
sar as intervençôesno conjuntodo territôrioa urbanizar. Ao mes- da primeirasan Juan.com efeito,numerososturistasnacionais ou
mo tempo,tal escolhareforçavaas estruturastradicionaisda cida- estrangeiros continuama visitaros vestigiosda igrejaengolidapela
de hispano-americana, pois todos os edificiossimbôlicosdo poder correntede lavaem 1944,aindaque os fluxostenhamse estagna-
e do urbanismoencontravam-se reunidosnum luqarcentral. do desdeque o Paricutinnâo estâ maisem atividade.euestiona-

1 61
Mu sse t , A. O deslo ca mento d as c i d ad es , u m a t r ad iç âo hi sp ano _ a meri c a n a?
l m agi nâr i o - usp, 2002,
vol. 13, no 14, 139_.166

do porRafaelMendozaValentin,
RamônGuerrerose lembracom
dosbonstemposem queele levavaos visitantes
melancolia às
proximidades
do vulcâo:

Parânosotrosy paralos que vendiancosasen el campamen-


to, era de muchaalegrialo del volcân.Estabamosgustosos,
porqueiban muchosturistas.Es que asl nos llegabanuestro
dinerito(VALENTIN,1995,p. 65).

Maisdo que as torresda velhaigrejaemergindodo mar de basal-


to, é a basilicado Senhordos Milagresque a cada ano atraimilha-
res de peregrinos:graçasà imagemdo Cristoque soube proteger
seusfiéis contraa côlerado vulcâo,a NovaSan Juantornou-seum
centroreligiosode primeiraimportância. As paredesda basilicasâo
cobertasde ex-votose de pinturasprimitivasevocandoas curas
miraculosase as intervençôesdivinasatribuidasao protetorda
comunidadeindigena.O Senhordos Milagresatingiutal renomeque
côpiassâo enviadasàs parôquiasmexicanasque as pedeme para
as quais uma comissâoavaliao mérito- pois trata-sede nâo des-
valorizaruma imagemsantatâo carregadade simboloe de poder
(fotografiano.6)" Essebrilhoé a provade que o deslocamento de
San Jua5 Parangaricutiropara o Vallede /os Coneybsfoi um suces-
so , ai nda que o ab andonodo pri meiroloca lt enhasido um despe-
daçamentopara seus habitantes.Esse caso exemplarnâo foi um
acidente:ele se inscrevenumatradiçâosolidamenteancoradanas
prâticassociaise culturaisimportadaspelosespanhoispara o Novo
Mundoe cujo impactosobre os sistemasurbanose a organizaçâo
-t '
qit
dos territôriosaindanâo foi bem avaliado.

1,
Musset, A O des l oc am en to d a s c i da d es , lm agi nâr i o - usp, 2007, vol . 13, n" 14, 139- 166
u m a t rad i çâ o hi s p an o -a me ri c a n a?

Resumo: Em 1943,a erupçâodo vulcâoparicutinconduziu Resumen:En 1943,la erupciôndelvolcânParicutincondu-


ao abandonode San Juan Parangaricutiro (Michoacân, Mé- jo al abandonode San Juan Parangaricutiro (Michoacân,Mé-
xico)e à fundaçâode uma nova cidade,que obedeciaa nor- xico)y a la fundaciônde una nuevaciudad,que obedeciaa
mas urbanisticasherdadasda épocacolonial.O objetivodeste normasurbanisticas heredadasde la épocacolonial.El ob-
artigoé de re-situaresseestudode casono contextomaisgeral jetivo de este articuloes re-situareste estudiode caso en el
das dezenasde deslocamentosque caracterizarama instabi- contextomâs generaldedecenasde desplazamientos que
lidadedo sistemaurbanohispano-americano desdeo inicio caracterizaron la inestabilidaddel sistema urbano hispano-
da conquistaaté meadosdo séculoXX. A comparaçâoentre americanodesdeel iniciode la conquistahastamediadosdel
os arquivoscoloniaise os da Presidênciade ManuelAvila siglo XX. La comparaciônentre los archivoscolonialesy los
Camachopermitemostrara continuidadedos meca-nismos de la Presidenciade ManuelAvilaCamachopermitemostrar
institucionaise dos processosinstaladospara garantiro la continuidadde los mecanismosinstitucionales y de los
deslocamentode uma cidadee de seus habitantesnuma procesosinstaladosparagarantizarel desplazamiento de una
situaçâode crise. y
ciudad de sus habitantes en una situaciÔnde crisis.

Palavras-chave:San Juan Parangaricutiro,1944,desloca- Palabras clave: San Juan Parangaricutiro-1944, despla-


mento,histôriaurbana,organizaçâodo territôrio. del territorio-
zamiento,historiaurbana,organizaciÔn

Abstract: In 1943,the eruptionof the Paricutinvolcanoled to


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e-mail: musset@ehess-fr
Recebido em 11/07/2006.
Aceito em 27/09/2006.

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